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Codificada por: Lightyear 💫

Finalizada em: 23/06/2026

O barulho era ensurdecedor.
Lucas Escarassatti entrou em campo, aproximou-se do gramado, ajoelhou-se, fez o sinal da cruz e se juntou ao time. O capitão estava presente entre eles.
Os gritos se dividiram, Lucas manteve o olhar fixo no capitão da seleção adversária.
Durante os cumprimentos, o apertão de mão veio mais forte do que deveria. Escarassatti tinha sua reputação, e todos naquele campo sabiam disso.
— Fica calmo, cara. — Douglas, o artilheiro, se aproximou do capitão.
Douglas o puxou para um abraço rápido, tampando a boca e evitando qualquer leitura labial.
— Eu tô calmo. — ele riu. — Vocês que se desesperam. Vamos levar essa taça para casa. — disse se afastando.
O juiz apitou, a bola rolou e o cronômetro começou a correr junto ao sonho do hexa.
Lucas tocava, gritava instruções e organizava o time. Cada chute do camisa 10 era calculado. Seus olhos seguiam a bola enquanto corria de costas pelo campo.
— Porra Michael! Perder um gol desse.
Sua reação foi a mesma que a da torcida. Os brasileiros falaram juntos, a decepção foi mais do que perceptível.
— Foi mal, capitão. Ansiedade.
— Mantenha a calma. — tocava no ombro do camisa 22. — Estamos em um treino, o som da torcida é apenas o rádio que eu coloco para vocês.
— Certo. — Michael respirou fundo três vezes. — A próxima passa pra mim.
Podia ter a pior fama dentro e fora do campo, mas Lucas não desamparava seus amigos de campo por nenhum segundo.
A bola continuava rolando quando a seleção brasileira marcou mais um gol. 2 a 0. Um placar confortável para o primeiro tempo, e eles precisavam mantê-lo.
Escarassatti recebeu a bola de Douglas. Os dribles pelos jogadores da França aumentavam a gritaria nas arquibancadas, enquanto seu nome ecoava pelos cantos do estádio. Próximo ao gol, chutou com força. A bola passou pelas mãos do goleiro sem conseguir tocar nenhum milímetro, o gol veio, o terceiro!
Seu nome, o hino nacional e os gritos pelo hexa estavam na boca de todos.
Saiu comemorando com Douglas e todos que gritavam em êxtase, mas não teve como disfarçar o jogador adversário passar por eles proferindo as palavras mais racistas que Lucas escutou.
No mesmo instante, Lucas o encarou. O homem caminhava pelo campo, puxando a camisa para enxugar o rosto, enquanto ele ia atrás.
— Ignora. — Douglas o segurou. — Ele quer desestabilizar a gente.
— Ignorar essas palavras?
— Gente assim eu nem considero gente.
— Douglas!
— Lucas, ele sabe da sua fama, sabe como tirar você do eixo.
Lucas sempre teve um problema, ele não discutia civilizadamente, ele conversava… com soco. Não teve um momento em que ele não desse prejuízo ao Dortmund — clube pelo qual jogava por amor à história.
Quando Ancelotti o escalou como camisa 10 e capitão da Seleção, ele já imaginava os riscos que iria correr. Porém, as quartas de final estavam sendo mais tranquilas. Até aquele momento.
— Dubois! — Lucas gritou o nome dele já no meio do campo.
Dubois se virou já sorrindo, sabendo exatamente o que havia provocado. O capitão da França já tinha sido advertido pelos colegas do time, mas esse era o objetivo. A seleção brasileira estava disparada, ganhando de todas as outras, o desempenho do técnico, jogadores e principalmente do capitão estava sendo o melhor conjunto que toda a torcida já tinha visto… e isso só havia acontecido há tempos atrás.
E até então, ninguém tinha conseguido tirar Escarassatti do controle.
— Que foi? — ele mantinha o sorriso.
— Pede desculpas.
— A mamãe do time apareceu. Sabia que ele não sabe se defender, e quem consegue quando é… — olhou para Douglas. — Desse jeito.
— Você é um escroto!
Não teve nem reflexo que pudesse desviar da direita de Lucas. Ele cambaleou, caiu no chão após levar outro soco. Douglas já o segurava com todas as forças, mas era impossível conter o amigo naquele estado.
— Você vai ser expulso cara, fica calmo porra.
Foi nesse momento que ele respirou fundo e puxou todo o ar para os pulmões. A besteira já tinha sido feita. Dubois tinha sido socorrido, não em estado grave, mas para ele o camisa 10, a situação estava grave.
O cartão vermelho veio na sua frente, sem desculpas, sem explicação, e não havia o que explicar tudo estava explícito.
A torcida vaiava. Parecia uma disputa para descobrir quem conseguia gritar mais alto, alguns compreendia o motivo da discussão e concordavam com Lucas, já a outra parte, conhecia o temperamento de Lucas e nunca aceitava que qualquer coisa ele já partia para uma discussão mais calorosa.

Dentro do vestiário, os gritos da torcida entravam abafados. Lucas estava sentado, a camisa da seleção jogada ao seu lado, o peito subindo e descendo rapidamente enquanto sentia o corpo esfriar da adrenalina. Em suas mãos, uma garrafa d'água pela metade era apertada entre os dedos.
Soltou o ar pesadamente ao escutar os passos da equipe entrando no vestiário. Ancelotti não falou com Lucas naquele primeiro momento, concentrando-se apenas na estratégia e nos homens que ainda precisavam terminar a partida. Alguns minutos depois, Douglas se sentou ao lado do amigo e dividiu o isotônico com ele. Nenhum dos dois disse nada de imediato, apenas observavam a movimentação do vestiário.
— Não precisava.
— Ele é um babaca escroto.
— Lucas, você é o capitão.
— Era. E isso não muda nada. Você é o capitão, o jogo tá indo muito bem e você tá sabendo fazer isso.
— Não sou o último a dizer isso, mas você com esse temperamento vai acabar com sua carreira mais cedo, até na BVB. E não digo só o futebol.
— Vocês exageram. Já falaram isso um monte de vezes e, até hoje, ninguém acabou com a minha carreira.
— Talvez. Mas depois de hoje, numa Copa do Mundo, eu não tenho tanta certeza.
— É um jogo, e uma boa parte de quem estava assistindo concorda que eu estava certo hoje.
— Tá certo. — Douglas respirou fundo e tocou o ombro do amigo. — Eu agradeço pela preocupação com o que aconteceu hoje, mas pensa um pouco em você, na tua carreira e nas pessoas que ainda estão do teu lado.
Douglas deixou o vestiário junto dos outros jogadores. Suas palavras fizeram Lucas refletir, não sobre as pessoas ao seu redor, mas sobre a própria carreira. A verdade é que, naquele momento, ele não estava se incomodando tanto quanto deveria. Se tudo acabasse ali, ele sabia para onde correr, porém a última frase de seu amigo ficou ecoando em seus devaneios.
Ele não se arrependia de nada que fez naquele jogo. Principalmente pelas palavras ditas por Dubois. A sua carreira sempre foi marcada por expulsões, manchetes negativas e brigas dentro e fora de campo. Ainda assim, todas as vezes ele voltou maior.

O jogo continuou, e o Brasil confirmou sua vitória sobre a França. A gritaria, o hino sendo cantado e os gritos pelo hexa ecoavam pelos corredores. Lucas ouvia tudo do vestiário, esperando os companheiros voltarem para comemorar com eles. Douglas tinha sido exatamente o capitão que o Brasil precisava naquele momento.
— Vocês são fodas! — Lucas gritou ao vê-los. — São o melhor time do mundo!
Abraçou um por um, até mesmo o treinador, naquele momento ninguém estava se importando com o cartão vermelho dele. Aos poucos o som daquele bom samba tomava conta do corredor, a delegação da França conseguia ouvir do outro lado todo aquele calor.
— Dubois não foi páreo para o grandioso Douglas! — Lucas se aproximou. — Você deu uma caneta bonita nele.
— Bom, às vezes eu gosto de humilhar.
Eles riram.
— Parabéns, você fez um ótimo trabalho.
— Obrigado, cara. Mas você sempre foi essencial para tudo isso, Lucas.
— Lucas. — Ancelotti o chamou. — Podemos conversar?
Concordou com um movimento e caminhou para o lado de fora do vestiário.
Com as mãos nos bolsos e o casaco fechado até o pescoço, Lucas manteve a postura tranquila. Não tinha medo daquela conversa. Afinal, advertências e punições já faziam parte da sua rotina.
— Precisamos falar sobre sua expulsão. — o treinador começou.
— Douglas está ótimo como capitão, ele vai conquistar o hexa.
— Não é bem assim que funciona.
O diretor da seleção respirou fundo, ao lado, um dos representantes da FIFA trazia um papel dentro da pasta; entregou ao diretor deixando que o mesmo se pronunciasse.
— Temos três escolhas. — mexeu na pasta. Ele já sabia, só precisava passar tudo para Lucas. — — A FIFA implementou uma mudança de regras para esta Copa. Um teste para ver se é funcional e se for de tal modo, será aplicado para todas as outras copas. — engoliu a seco. — Primeira opção: você fica fora dos próximos jogos e assiste tudo do vestiário. Segunda: paga uma multa elevada e retorna para as fases finais.
— E a última? — Lucas perguntou já escolhendo.
— Serviço comunitário, até a final. Depois disso, você retornaria como capitão para trazer o hexa.
— Só dizer o valor. — encostou-se na parede.
— Não é bem assim. — o diretor falou. — Entramos em um consenso, não queremos gastar dinheiro com isso.
— Então vão me deixar de fora? Qual a lógica de vocês falarem sobre as escolhas?
— Porque a decisão já foi tomada. Estamos apenas informando você. Você vai para o México fazer o serviço comunitário.
— México? Tá de sacanagem. — ele abriu a jaqueta. Não era sobre o México. Era sobre terem decidido por ele. — Eu quero pagar, tenho dinheiro para isso.
— A questão não é dinheiro, a delegação brasileira também, mas essa escolha. — Ancelotti se aproximou. — É a que traz a solução mais eficaz.
Realmente, as escolhas agora estavam o afetando de uma forma que não tinha como negar. Douglas havia avisado, que uma hora suas atitudes iriam cobrar de uma forma que Escarassatti não poderia imaginar.
— Não tem o que você escolher. — o diretor voltou a falar. — Você vai, passa uma semana lá, o tempo exato do próximo jogo, vai ter treino e o serviço depois volta.
— Vocês estão escolhendo por mim.
— Se não tivesse sido irresponsável e partido para briga.
— Como se o motivo não fosse óbvio.
— Nós damos um jeito, o árbitro já tinha parado o jogo ao perceber o insulto.
Lucas apoiou as mãos na cintura e andou de um lado para outro.
— Não tenho escolha?
— Escolha? — Ancelotti soltou uma risada breve. — Você tinha uma até algumas horas atrás.
— Que seja essa merda então. Quando eu embarco?
— Ainda hoje, faça as malas, siga os treinos como sempre fazemos, puxe bem para seu chute esquerdo.
Lucas ouviu sentindo a maior repulsa do arrependimento dentro de si. A voz de Douglas ecoando, seu coração acelerando, ele estava percebendo que nem toda aquela fama de valentão poderia ajudá-lo mesmo fora de campo. Um dia a conta chegaria, e chegou de uma forma que nem seu dinheiro o ajudou.

México. O clima quente, o perfume das comidas estavam pela praça. Lucas andava com os óculos escuros e o boné pelas ruas, seus olhos estavam apenas conhecendo o lugar que passaria até o tempo da sua punição acabar.
Parou na frente do endereço entregue a ele, seus olhos passaram pelo prédio, bonito bem cuidado mas com a arquitetura antiga. Tocou na campainha e esperou abrir, uma demora o suficiente para tirar ele do sério, já estava perdendo a paciência olhando de segundos a segundos para o relógio. Quando a freira abriu a porta com um sorriso acolhedor, a mulher aparentava ter seus sesenta anos, carinhosa e com uma voz suave.
— Bem vindo ao canto comunitário Nossa Senhora de Guadalupe.
— Obrigado. A FIA disse que a senhora Hernández iria me dizer onde eu posso…
— Fazer seu serviço comunitário, sim eu irei instruir você. Entre meu querido.
A freira o guiou até o lugar onde ele teria a relação do serviço dele, Lucas ficou olhando pelo pátio, o lugar calmo as crianças estavam dentro das salas de aula, mais ao fundo um grupo estava participando da missa. Aquele momento lembrou de quando era uma criança, calma e que não suportava entrar em uma briga. O oposto do camisa 10.
— Vou deixar você aqui, logo a senhorita Morales.
Lucas só concordou com a cabeça e deixou a freira se afastar dele. A impaciência havia voltado, andava de um lado para o outro mexendo no celular, apenas deslizando a tela para dar atenção às pessoas que saíram da sala ao lado.
Um minuto.
— Cadê essa mulher?
Lucas falou levantando a cabeça e olhando a direção do corredor, a mulher estava parada na frente dele, terminando de ajeitar a bolsa em seu ombro.
— Lucas?
— Sou eu.
— Tabata Morales, você está pronto? Precisa passar ou de algo antes de irmos?
O jogador piscou duas vezes, se certificando que estava vendo Tabata. Ela saia completamente do que havia imaginado, não era uma freira, muito menos uma mulher da terceira idade. Teria praticamente a mesma idade de sua irmã — sendo assim, dois anos mais nova que Escarassatti —, e isso o deixou mais em alerta ainda.
— Lucas?
— Não, podemos ir. — disparado colocando o óculos novamente.
Caminharam lado a lado.
— Vou levar você ao centro de crianças. Temos de todas as idades, principalmente as mais velhas. — prendeu o cabelo. — Não fica muito longe daqui, quase um quarteirão, é uma extensão daqui já que bom, não é muito grande.
— E o que eu vou fazer?
— Ah, claro. — ela não o olhava diretamente. — Não é cuidar das crianças e sim pintar as paredes e as estruturas, não vai precisar subir em algo, apenas pintar.
— Só isso?
Soltou um riso nasal, estava sendo mais fácil do que pensava, não tinha como que preocupar; treino e pintar até que combinava.
— Sim. — Tabata parou do lado do portão e destrancou. — Você vai ver como vai ser fácil.
Parecia que ela havia lido os pensamentos do jogador.
Deu o primeiro passo entrando do lugar, olhou em volta vendo que tudo estava pintado, com o cuidado explícito em cada detalhe, não entendia o que estava fazendo ali.
— Me siga por favor. Não se deixe enganar. — seguiram para o lado esquerdo. — As tintas estão numeradas de acordo com esse documento. — entregou. — Eu espero que dê para entender, fiz na correria.
— Doze tintas?!
— Sim. — respondeu com naturalidade. — Aqui, esse é nosso lugar que precisamos do último ajuste, pagar mão de obra está fora do nosso orçamento.
Era um novo espaço, uma área de lazer criada para trazer conforto às crianças que passavam os dias ali.
— Bom, é aqui. — Tabata parou.
Lucas observou o local.
— Como você viu, é a pintura da quadra.
— Certo.
— Da arquibancada.
— Aham.
— Do refeitório.
— Tá.
— Dos banheiros.
— Certo.
— Do muro externo.
— Uhum.
— Da fachada principal.
— Tá.
— Do corredor lateral.
— Certo.
— Das grades.
— Tá.
— Do depósito.
— Aham.
— Da sala de recreação.
Lucas virou a cabeça.
— Da sala de recreação também?
— Também.
— Só isso?
— E dos brinquedos de madeira.
O jogador ficou em silêncio.
— Tem mais?
— Algumas mesas de piquenique.
— Algumas?
— Dezesseis.
Lucas tirou os óculos escuros devagar.
— Você tá brincando. Quantas pessoas estão pintando isso?
— Você.
— E mais quem?
— Só você. — comprimiu os lábios escondendo o riso.
— Ah vai se fuder.
— O que?
Ele andou parando do lado das tintas.
— Eu vou ignorar essas palavras. Esse é o mapa de cores. Azul é o setor infantil. Verde é o esportivo. Amarelo é a recreação. Branco é a área administrativa.
— Quantas cores são?
— Doze.
— Doze?
— Sim.
— E a Fifa acha que assim será a melhor forma de anular os cartões vermelhos por pouco tempo.
— Você termina isso logo, se precisar de algo pode me procurar, estarei na sala com as crianças. Até mais.
— Claro, claro. — esperou ela se afastar. — O trabalho mais leve fica com você.

Em três dias, Lucas descobriu que pintar uma quadra inteira sob o sol mexicano era mais cansativo do que noventa minutos em campo. Pela manhã, se dedicava aos treinos como Ancelotti havia instruído, de tarde até o começar da noite Lucas se dedicava à pintura, tentava o máximo terminar o quanto antes. Para Lucas, terminar aquilo o mais rápido possível significava voltar aos Estados Unidos e retomar seu lugar como capitão da Seleção.
No quarto dia, entre uma pausa e outra, ele pegou sua garrafa e foi encher. Precisava atravessar quase todo o pátio para buscar água gelada no único bebedouro que ainda funcionava.
— Como pode ninguém arrumar um bebedouro desses? — reclamava abrindo a garrafa.
— Oi.
Um garoto parou ao lado dele. Os olhos brilhavam só por estar tão perto do jogador.
— Oi. — ao menos sabia tratar bem as crianças.
— Precisa de alguma coisa?
— Não. — o menino ficou olhando para ele.
— Certeza?
— Sim, é que você tá no bebedouro, eu também quero água.
— Ah, claro. Pode usar.
Lucas se distanciava do bebedouro quando o garoto o chamou.
— Lucas, você aprendeu a jogar como?
— Como?
— É.
— Talento ajuda, mas sozinho não resolve nada. Tudo precisa de treino.
— Até mesmo uma pintura? — ele olhou por cima do ombro do jogador. — Está boa. Não estou dizendo o contrário.
— Sim. — um riso escapou. — Você quer ser jogador?
— Um dia, sair daqui e tentar ser.
— E porque não tenta agora? — aproximou-se.
— Não dá, não agora. — colocou a garrafa do lado do bebedouro. — Eu preciso do campo para treinar, conseguir um trabalho, e achar alguém que acredite que sou bom para jogar em um time.
Lucas entendeu as palavras e por um segundo. Parecia que tudo o que havia acontecido nos últimos dias servira para trazê-lo de volta ao chão. O garoto desviou a atenção do jogador e voltou à sala de aula, onde Tabata estava, de longe ele a observou. Cuidava das crianças que aparentavam ter em torno de treze a quatorze anos. Estavam sentados se preparando para algo que aparentava ser importante, Tabata não deixava de ser firme com eles e também gentil. Era estranho pensar que ela ainda encontrava tempo para ajudá-lo quando já parecia responsável por metade daquele lugar.
O tempo passava, os lugares iam tomando cores. Lucas passava a ver Tabata com mais frequência; ela ainda não o olhava como conhecia por ser o jogador mas apenas com um homem que estava ali para concluir o serviço comunitário. Aos poucos sua percepção sobre Tabata passou a ser diferente.
Ela não só cuidava dos adolescentes e crianças, todos os trabalhos mais complicados acabavam nas mãos dela, separava doação, dividia o alimento para o mês todo, administrava o pouco de dinheiro que ali recebia e quando alguém agia de má fé era ela que intervia. Até mesmo o bebedouro quebrado, foi ela que arrumou.
— Hei. — Lucas se aproximou dela.
Aquela tarde, ele iria terminar tudo mais cedo e voltar para o hotel, estava mais cansado que nos outros dias.
— Você não precisa de ajuda? — estava com sua mochila ao seu lado.
— Não precisa. — não desviou os olhos do bebedouro. — Eu consigo.
— Tudo bem, mas eu posso apertar mais forte.
— Está dizendo que eu não tenho força? — se virou para ele. — Veja você mesmo, está simplesmente perfeito, ficou bem fixado.
Não demorou dois segundos para a mangueira se soltar e molhar os dois. De imediato Lucas pegou a ferramenta e da forma que podia ele conseguiu fixar o cano e a mangueira com mais força.
— Realmente.
Tabata gargalhava, ela não estava se incomodando com o que tinha acontecido, apenas se divertia com o fato.
— Obrigada, mas isso foi um teste.
— Teste. — ele repetiu. — Vou colocar isso na lista de afazeres fora da pintura.
— Aí você é tão exibido. — saiu andando com suas coisas, iria devolver para a salinha de manutenção. — Já está acabando seu tempo aqui.
— Eu sei, não vejo a hora.
Lucas percebeu que aquelas palavras saíram totalmente fora do que estava querendo dizer. Ele não via a hora, na verdade, aquele tempo que passou ali foi o suficiente para olhar para aquela mulher com outros olhos, talvez estivesse começando a criar sentimentos por ela bem ali.
— Obrigada pela ajuda. Amanhã vamos fazer uma noite de pizza para arrecadar dinheiro, não vai ser grande coisa mas se quiser vir, não quero que quebre sua dieta rigorosa mas é mais como um agradecimento.
— Claro, eu venho. — aceitou sem nem pensar duas vezes.
— Então, até amanhã.
— Até.
Lucas retornou com um sorriso largo no rosto. Entrou no hotel praticamente contando o tempo para retornar lá.
No dia seguinte não treinou resolveu por conta própria que terminaria a pintura ainda aquele dia e depois passaria a tarde no hotel até o horário da festa.
— Achei que tinha treino. Trouxe um suco para você.
— Obrigado. — limpou a mão. — Eu resolvi finalizar aqui o quanto antes.
— Ah, certo. Você vem? — ela sentou no banquinho.
— Venho, não ficarei por muito tempo, mas eu volto.
— As crianças vão adorar.
— Você sabia que eu era jogador?
— Eu sei, desde que a copa foi anunciada que seria sediada aqui, quando ficamos responsável por penalidades assim eu tive que tomar a frente disso. — ela respirou fundo. — Mais uma tarefa. Porque?
— Você parece…
— Que eu não te conheço? — ela riu. — Futebol não é meu forte, nunca foi, me cansa fácil, diferente de vôlei ou hoque.
— Mas me conhece.
— Sim. Impossível não saber quem é você.
— A minha fama de bom jogador. — se gabou.
— Na verdade, é a fama de sair batendo em todo mundo. E isso é frustrante. — deu um gole. — Eu vou voltar para o pátio, preciso terminar as coisas.
Lucas nem conseguiu pensar em alguma resposta. Tabata foi tão direta com as palavras que ele não pensou que era assim que a mulher o conhecia. Novamente as palavras de Douglas voltaram, e agora ele compreendeu mais ainda o que tudo aquilo queria dizer.

A noite caiu com aquele típico calor que Lucas já estava se acostumando. Com uma das roupas mais leves que ele havia levado, Lucas entrou no pátio. Estava vazio. Poucas pessoas as mesas cheias, as crianças e adolescentes todos esperando para dar as boas vindas, Tabata estava sentada em uma mesa ao fundo, com o celular nas mãos e o olhar perdido na tela. Dava para sentir de longe a preocupação dela.
A passos longos ele se aproximou da mulher com a tentativa de ao menos animá-la.
— Oi.
— Oi, eu achei que você não ia vir.
— Eu disse que viria. — sentou ao lado dela. — O que faz aqui?
— Ah, só esperando. — olhou para frente. — E você?
— Vim comer pizza.
Ela riu, era o óbvio.
— Pode comer, fica a vontade.
— Não esta animada, o que foi?
— Nada de mais.
— Pode contar, daqui a pouco não vou estar aqui mais.
Ela compreendeu, ele serviria com um momento para ouvi-la pois amanhã ele nem estaria por lá para espalhar as palavras dela.
— Um idiota conseguiu fazer com que as pessoas que viriam aqui hoje fosse para o restaurante dele, então todos que eram para está aqui e conseguimos trazer foram para lá.
— Filho da puta.
— Também… Só queria que hoje fosse bom, todos eles estavam animados.
— Eu sei que não compensa, mas podemos sair daqui depois, dar uma volta e pensamos em algo para cobrir toda a despesa.
— Não precisamos do seu dinheiro. — falou disparado. — Preciso que você divulgue a gente bem modestamente do que deixar o dinheiro cair.
— Não vou fazer isso, vocês não são assim. Querem o que vem do coração, não é?
Tabata concordou.
— Então me deixa ajudar do meu jeito.
Ela sorriu de canto.
— E qual seria?
— Me deixando te levar para sair.
— Podemos sim dar uma volta, sem compromisso. — a mulher olhou na direção da porta — Em falar nele.
— Tabata. — o homem entrou no pátio do orfanato. — Como estão as coisas aqui?
— Bem, tivemos altas vendas, todo mundo levou seu pedaço de pizza.
— E mente tão bem. Achei que tinha aprendido a lição.
— Ai por favor, hoje não. — Tabata tentava manter a calma. — Poderia por gentileza se retirar daqui, Rubens?
— Só por que você não conseguiu uma família enquanto estava aqui, não quer dizer que você vai conseguir suprir isso para esses adolescentes.
O olhar do Lucas passou por Rubens e depois para Tabata, podia sentir toda a frustração de cada palavra ao tocar nela. Lucas levantou tão rápido que a cadeira arrastou pelo chão, pronto para acertá-lo mas sentiu a mão de Tabata espalmando em seu peito e a outra segurando a mão.
— Não faz isso. — murmurou perto dele. — Deixa ele, ele gosta. Eu só não tô com clima de acabar com ele hoje.
Rubens saiu rindo depois de se despedir e deixar um comentário mais provocador indo para Escarassatti.
— Tabata ele…
— Eu sei, mas não preciso que me defenda com socos. Ele faz isso a tempos desde que eu dei um fora nele.
— Ele falou de algo que não se deve.
— E concordo, mas se você toda vez for tratar tudo no soco você não vai só receber um cartão vermelho. Lucas, vai embora, por favor. Eu me viro daqui em diante.
— Tabata.
— Por favor.
Escarassatti pegou o celular que tinha deixado cair e voltou para o hotel naquele mesmo instante. Lucas sabia exatamente por que ela tinha impedido aquilo, mas ainda assim não conseguia aceitar. A única coisa que ele entendeu foi que no dia seguinte seu último dia lá ela não apareceu, nem mesmo aos arredores do orfanato Lucas a encontrou.
Tabata desapareceu durante todo o dia. Nem mesmo para o encontro deles ela havia aparecido.
— Esperando a Tabata? — o mesmo garoto apareceu do lado dele.
— Também.
— Ela não vem, isso é estranho pois até doente ela vem.
— Sabe se ela deixou algum aviso?
— Eu ouvi ela dizendo que não tem como ficar aqui enquanto algumas coisas estão acontecendo.
— Não, seu bobo. — uma garota apareceu. — A Tata quis dizer que enquanto a pessoa que ela sente algo estiver aqui ela não vai voltar, então faz o favor de voltar para o Estados Unidos logo pois ela odeia gente que fica brigando até perto dela.
— Brigando à toa?
— Aí por favor. — a garota colocou a mão na cintura. — Não se faz de um besta desentendido. Se você mudar, ao menos nesse último jogo. — estendeu o papel. — Liga pra ela, ela atende. E sobre o hóquei e o vôlei... ela também gosta de futebol. Torce para o Dortmund mais do que muito alemão por aí.
Para um bom entendedor meia palavra basta, e isso bastou para Lucas. Ele finalizou tudo e guardou o papel na capinha do celular, como um bom brasiliero faz.
Seu objetivo agora não era apenas conquistar o hexa. Pela primeira vez, Lucas queria provar que podia ser melhor do que a fama que carregava. Queria mostrar para Tabata que existia mais nele do que cartões vermelhos, expulsões e manchetes. E talvez aquela fosse a partida mais difícil da sua vida.

Hexa. Essa era a palavra na boca de todo mundo pelas ruas dos Estados Unidos. Junto dela vinha outra lembrança que ainda causava desconforto aos brasileiros: o sete a um. Novamente o Brasil enfrentaria a Alemanha, e aquele antigo placar parecia estar no caminho do Hexa como uma conta ainda não encerrada.
— Olha se não é o nosso capitão de volta, porra você fez falta viu. — Douglas o abraçou.
— Não é assim que pede, você tem que me levar para jantar primeiro. — eles riram. — É bom estar de volta.
— Pronto para a Alemanha? — Michael perguntou.
— Eu acho que a pergunta que tem que ser feita é: eles estão prontos para ver o canarinho raivoso? Foquem na bola, não mudem nada do que vocês estavam fazendo, seguem o jogo de vocês, o restante pode deixar comigo.
— O que você tem em mente?
— Eu conheço o jogo alemão, nós nos conhecemos. — deu um leve tapa em Douglas. — Sabemos bem como prosseguir.
Não foi preciso muito para que o jogo seguisse exatamente como Lucas havia previsto. Ele conhecia os jogadores, conhecia a Alemanha, eles conheciam o Brasil, mas não aquele Brasil.
O primeiro tempo foi equilibrado. A Alemanha pressionava, o Brasil respondia. Nenhum dos lados estava disposto a ceder espaço. Foi no segundo tempo que o jogo começou a mudar. Douglas abriu o placar após uma assistência de Michael. O estádio explodiu. O grito da torcida parecia fazer o chão vibrar sob os pés dos jogadores. A Alemanha não demorou para responder.
Um a um. Tudo igual novamente.
Os minutos passavam rápidos demais.
Lucas corria sem parar. A respiração pesada, o uniforme colado ao corpo pelo suor. Aquela era a partida mais importante da sua carreira. Recebeu a bola próximo da lateral quando um dos alemães se aproximou.
— Cuidado para não perder a cabeça de novo, capitão.
Lucas o reconheceu. Jogavam juntos no Dortmund. O sorriso provocador foi imediato.
— Ou vai precisar de outro serviço comunitário?
Por um instante, sentiu o sangue ferver. Sentiu exatamente a mesma sensação que teve contra Dubois.
Respirou fundo, lembrou de Tabata, lembrou do que ele queria mostrar naquele gramado, respirou fundo, segurou a bola contra o peito por alguns segundos e simplesmente virou as costas para o alemão. Douglas correu na direção de Lucas.
— Cara, eu achei que você ia perder a cabeça.
— É, eu também. — ele riu enquanto abria o isotônico. — Temos um hexa pra buscar, não temos?
— Temos, o gol do hexa é seu viu.
Eles voltaram ao campo, agora com mais sangue nos olhos, sua raiva seria descontada no placar, assim teria como mostrar que continuava sendo o mesmo líder, apenas diferente. Lucas marcou um gol, era o gol que deixou toda a arquibancada alemã estremecer. Seguindo assim de mais gols, o Brasil se colocou em uma posição que nem mesmo Ancelotti acreditava no que estava diante de seus olhos, o sete a um estava invertido.
— O juiz deu mais cinco minutos.
— Vai se fuder, a gente ganhou esse cara quer o que? — Michael estava reclamando.
— Vamos seguir! — Lucas passou correndo. — Se a gente fez sete, a gente faz oito só de pirraça.
— Não esquece que tem que sambar. — Douglas gritou.
Lucas estava certo. O oitavo gol veio de pirraça, com o samba dos três diante a câmera que focava neles.
O juiz apitou Lucas não conseguia completar o pensamento, Eles eram hexacampeões, a taça estava sendo levantada por eles, pelo capitão. Mais da metade da seleção abraçava o treinador, a arquibancada mandava a Alemanha de volta pra casa… com aquele jeitinho brasileiro.
— Eu achei que você fosse socar ele. — Douglas apareceu ao seu lado.
Lucas olhou para o amigo.
— Eu também.
Douglas riu.
— Então o México serviu para alguma coisa.
— Vai se foder.
— Eu também senti saudade.
Lucas empurrou o ombro dele antes de se afastar.

Estava no hotel, sentado na cama com o celular na mão, Lucas discou o número rápido como se não conhecesse aquela estratégia.
— Alô.
— Oi, Tabata?
— Ah, eu… Lucas?
— Sim.
— O capitão precisa de alguma coisa? Além da taça do hexa.
— E-eu queria saber, como vamos fazer aquele nosso encontro já que você está longe.
— O que? Não entendi tá uma gritaria aqui fora.
— Eu disse que… o que? Aí fora?

Talvez foi tarde demais que ele tinha percebido que os gritos da ligação era o mesmo do lado de fora do hotel. Ele segurou a ligação ainda e ligou para o hall dando o nome de Tabata para subir. Lucas mantinha a ligação, conversava com ela sem muito assunto.
Estava parado no meio do corredor olhando para a porta do elevador, precisava saber como desligaria o celular sem parecer estranho, mas foi ela que teve a atitude assim como…
— Então quer dizer que o Brasil é hexa? — se aproximava.
— Bom, temos seis estrelas agora.
— Isso é mérito de um bom capitão.
— Na verdade, isso é mérito de uma outra pessoa. — tocou no cabelo dela. — Como posso compensar o encontro?
— Assim.
Tabata passou seus braços envolta do pescoço de Lucas o puxando para um beijo quente e decidido. Lucas demorou apenas um segundo para corresponder, segurando sua cintura e a trazendo para mais perto, como se precisasse ter certeza de que aquilo era real.
Tabata permaneceu parada por alguns segundos, observando Lucas como se procurasse alguma coisa nele. Talvez um vestígio do homem impulsivo que havia chegado ao México carregando a própria fama nos ombros. Talvez apenas uma confirmação de que tudo aquilo não tinha sido em vão.
O hexa finalmente era realidade. Os jogadores corriam de um lado para o outro, a torcida cantava sem parar e as luzes transformavam a noite em algo quase mágico.
Mas Lucas não prestava atenção em nada disso. Seu olhar estava preso nela. Preso na mulher que o havia irritado, confrontado e ensinado mais em uma semana do que muitos haviam conseguido em anos.


Fim


Nota da autora: Eu peço desculpas se não ficou tão boa assim como eu pensei... mas eu tentei, eu quis muito pois eu nunca fiz nada de futebol e eu quis me ariscar, e quem não arisca não petisca kkk. Obrigada por ler.

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