Tamanho da fonte: |


Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 01/06/2026


era uma mulher imaginativa. Com seus vinte e cinco anos pensava que já deveria ter passado da fase de sonhar acordada e imaginar cenários fictícios e fantasiosos em sua cabeça. Mas ela simplesmente não conseguia evitar.
Não quando todas as noites o mesmo sonho a acometia: uma floresta à noite, seus pés cansados correndo longe de algo que a perseguia. Respiração rápida e cabelos esvoaçantes enquanto tentava compreender o que acontecia. Após muito correr, encontrava uma cabana pequena e aconchegante no meio de uma clareira. Uma luz no fim do túnel.
E lá ela encontrava abrigo, uma cama e sopa quente. Mãos caridosas que a ofereciam um banho e roupas um pouco menos gastas. E sempre havia alguém lhe esperando, um homem, alto, cabelos longos e um sorriso acolhedor.
não sabia dizer ao certo quando aquilo havia começado, pois parecia não se lembrar de nenhum outro sonho a não ser esse. Por vezes, o sonho ia mais à frente, um novo recomeço ao lado de quem a encontrava. Outras, tudo recomeçava do início e, por mais que ela tentasse ir por rotas diferentes, o caminho era sempre o mesmo: o homem com o sorriso mais lindo que ela já havia visto.
não se apaixonava fácil. Sua melhor amiga, Joana, costumava chamá-la de coração de pedra por nunca ceder aos encantos de tantos que já haviam tentado lhe conquistar. Mas para ela era diferente... Era como se as conexões não pudessem ser tão fortes no mundo real como aquela que ela vivia em seus sonhos.
“Estou doente”, foi o que pensou um pouco antes de completar os vinte e três. “Preciso dar um jeito na minha vida”, falou para si mesma logo após decidir que procuraria terapia para tratar a dor da falta de alguém que sequer existia.
Dois anos de tratamento intensivo e com sessões semanais já deveriam ter surtido algum efeito. Sua psicóloga, Maria, já havia lhe dito que tudo estava em sua mente e ela só precisava deixar ir. Mas não conseguia soltar o lado da corda que lhe puxava contra toda a sensatez que a realidade pedia dela.
— Já pensou em pedir ajuda a mamãe? – questionou um dia seu irmão mais novo, Lucas, a quem era o seu mais fiel confidente.
— Eu não quero que ela veja sobre minha vida amorosa imaginária nas cartas, Lucas — ela respondeu no meio de uma careta desengonçada. — Não quero passar essa vergonha.
— Eu acho que abriria muita coisa para você — ele disse, dando de ombros. — Mas você quem sabe.
A mãe de era cartomante. Ela se lembrava de quando era pequena, a quantidade de coisas místicas que abarrotavam a sala e o quarto de atendimentos da mãe, das pessoas entrando e saindo da sua casa e a lembrança mais forte de todas, o dia em que sentiu as mãos formigarem ao pegar um baralho.
— Você quer aprender a jogar, ? — sua mãe perguntou, tentando esconder a felicidade.
Mas foi categórica em soltar o baralho e dizer um simples não.
Ela não estava preparada para aquilo e, com quinze anos, não queria se envolver com as coisas que suas amigas e colegas de aula achavam esquisito. Então foi se afastando aos poucos daquilo.
Embora o seu irmão fizesse questão de incomodá-la semanalmente sobre isso, aguardando o dia em que sua irmã abriria um jogo para ele.
— Nos seus sonhos — era geralmente o que ela respondia.
Mas Lucas era paciente e sabia que um dia a irmã iria para o caminho que era chamada, ela só precisava de um empurrãozinho.
Por isso sempre estava tentando arranjar encontros para a irmã para ver se ela esquecia um pouco dos seus sonhos.
— Outro encontro, Lucas? — resmungara assim que ouvira a proposta do irmão.
— É com Bernardo, aquele que estava no meu aniversário, lembra? — o irmão rebatera e ela procurou em sua mente.
— Ele tem dezenove anos!
— Idade é só um número. — Ele sorrira maroto e quase jogara a louça que secava em sua cabeça. — Vai ser legal. Não precisa se casar com ele, mas aproveita o momento, dá uns beijinhos, coloca o corpo pra jogo e depois segue a vida.
E não conseguiu negar, pois nunca conseguia dizer não aos olhos claros e convincentes do irmão que aproveitava sempre que podiam a fraqueza de sua irmã mais velha.
E era isso o que fazia agora. Terminando de arrumar os cabelos e fechando o zíper do vestido, o encontro com Bernardo estava marcado para as 21 horas em um pub que havia aberto a pouco tempo na parte mais badalada da cidade.
— Ele vem te buscar? — perguntou a mãe de ao vê-la passar jogando os cabelos para trás e borrifando um pouco de perfume no pescoço.
— Lucas vai me levar, mas não é muito longe — respondeu com rapidez, andando para lá e para cá, sem dar muito espaço para que a mãe arriscasse perguntar a idade dele.
A mãe riu e balançou a cabeça.
— Até um tempo atrás quem levava ele aos encontros era você — comentou como se a lembrança lhe trouxesse uma boa recordação. — Que bom que agora você pode usá-lo como seu chofer.
— Ei! — Lucas resmungou e abriu um sorriso, concordando com a mãe.
— Agora é a minha vez de me cobrar de todas as festas insalubres que você já me obrigou a te levar — rebateu.
— Festas insalubres? — A mãe esticou um pouco mais o pescoço. – Que festas insalubres?
— Tchau, mãe! — Lucas exclamou empurrando a irmã mais velha para fora e se esquivando das perguntas da mãe.
riu com gosto enquanto entrava no carro. Lucas era cinco anos mais novo do que ela. Mas, às vezes, sentia como se fossem gêmeos, pois eram mais sincronizados do que ela gostaria. Um sempre sabia o que o outro estava sentindo, pensando ou prestes a fazer.
— Entregue ao destino final, princesa — disse Lucas, assim que parou em frente ao pub.
— Obrigada, maninho. — Trocaram olhares amorosos antes de pular para fora.
-— E lembra de usar camisinha, não quero ser dindo ainda — ele gritou antes de arrancar e sair rápido.
— Idiota — ela resmungou baixinho para si mesma.
Um suspiro involuntário escapou de suas narinas quando ela virou e passou pelas portas de vidro do local mal iluminado e com mais gente do que ela gostaria de ver.
Bernardo disse que estaria a esperando em uma mesa próxima das janelas do canto e ela não demorou muito para encontrá-lo sentado, concentrado demais em seu próprio celular.
Outro suspiro saiu de sua garganta pelo pensamento que a acometeu naquele momento. Bernardo era de fato muito bonito e não aparentava ser tão mais jovem quanto ela imaginava, mas algo dentro dela gritava em seus ouvidos dizendo que aquele encontro não iria para lugar nenhum, como todos os outros.
— Oi — ela falou assim que se aproximou e Bernardo ergueu os olhos para ela.
prendeu a respiração por um milésimo de segundo, observando os olhos dele. De todos os homens que ela saía, a primeira coisa que ela procurava eram os olhos, à procura de alguma semelhança com aqueles que ela via todas as noites em seus sonhos, mas ainda não havia tido sucesso.
Bernardo tinha olhos claros. Tão azuis quanto o céu de um dia ensolarado.
E o homem dos seus sonhos tinha olhos castanhos escuros, intensos como uma noite fria de inverno.
Bernardo sorriu com um certo alívio quando ela se sentou.
— Eu quase achei que você ia me dar um bolo mesmo — confessou, coçando a nuca de leve. — Fiquei ensaiando o que eu ia fazer se você não aparecesse.
arqueou a sobrancelha e sem conseguir esconder o sorriso que acometeu o canto da sua boca.
— E o que você ia fazer?
— Ia pedir uma cerveja e fingir que eu só vim assistir ao jogo que tá passando — ele respondeu com um meio sorriso envergonhado. — Mas provavelmente ia ficar olhando para a porta igual um idiota.
Ela riu. Uma risada verdadeira, leve, que escapou antes que pudesse controlar.
Bernardo relaxou visivelmente.
— Eu sei que você deve sair com caras muito mais interessantes — continuou ele, mexendo distraidamente no rótulo da garrafa. — Mas eu prometo que sou, no mínimo, uma companhia educada.
A vulnerabilidade dele a pegou desprevenida. não estava acostumada com isso. Seus últimos encontros haviam sido, no mínimo, um desastre. Homens exibindo músculos, maxilares travados e sorrisos forçados, tentando convencê-la a algo que nem ela mesma sabia o que era.
No fim, quando se despedia com educação e ia na direção contrária da qual eles sugeriam, eles achavam ruim e a bloqueavam nas redes sociais.
Mas Bernardo parecia diferente. Mais focado. Mais vulnerável. Sem toda a pompa de alguém que se achava ser o centro do mundo.
sorriu para algo que ele disse e quase desejou ser alguns anos mais nova, pois sabia que teria sentido borboletas no estômago e teria corado furiosamente, como ele fazia agora.
— Lucas falou bem de você — disse Bernardo enquanto olhava o cardápio de bebidas.
— Espero que coisas boas. — Ela riu, sem graça.
— Só as melhores. — Ele ergueu os olhos cristalinos para ela e seu olhar a pegou desprevenida, fazendo com que ela baixasse o olhar no mesmo instante. — Disse que você trabalha com livros.
— Sou restauradora dos livros da biblioteca central — ela disse, tentando não estufar o peito e se sentir orgulhosa de si mesma.
Os olhos de Bernardo brilharam.
— Isso é absurdamente interessante.
Ela riu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, enquanto sentia as bochechas esquentarem consideravelmente.
— Ninguém nunca reage assim quando eu digo isso — admitiu, olhando nos olhos dele.
— Porque ninguém entende o que significa. — Ele inclinou o corpo levemente sobre a mesa. — Você salva histórias. Isso é meio… heroico.
O comentário a pegou desprevenida. Não pela grandiosidade, mas pela forma sincera como ele disse.
— Eu só conserto páginas rasgadas e capas soltas — ela respondeu, embora um calor discreto tivesse subido pelo seu pescoço.
— Você conserta o tempo — ele retrucou, dando de ombros, como se não percebesse o peso do que dizia.
ficou em silêncio por um segundo.
Ele não estava tentando impressioná-la.
Ele realmente pensava aquilo.
A conversa fluiu com mais facilidade depois disso. Bernardo falava das próprias inseguranças com uma honestidade quase constrangedora.
— Eu sempre acho que estou um passo atrás de todo mundo — confessou, mexendo no copo. — Tipo… todo mundo já sabe quem é, menos eu.
Ela o observou com mais cuidado. A franja loira caiu desajeitadamente em sua testa enquanto ele falava e ela sentiu uma sensação esquisita na boca do estômago ao olhá-lo daquele jeito.
— Com dezenove, eu também não sabia muito bem o que fazer, se isso te conforta.
Assim que as palavras saíram, quis puxá-las de volta.
Bernardo ergueu o olhar para ela, um sorriso torto surgindo nos lábios.
— Nossa, obrigado pela parte do “com dezenove” — ele brincou, mas havia um leve rubor em suas bochechas. — Eu prometo que não sou tão adolescente assim.
Ela riu, levando a mão ao rosto.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei — ele respondeu rapidamente. — Só… às vezes eu fico com medo de parecer imaturo perto de você.
A sinceridade dele era quase desarmante.
inclinou levemente a cabeça, estudando-o com mais cuidado. A franja loira caía nos olhos claros, e ele a afastava com um gesto distraído, como se não tivesse paciência para lidar com o próprio cabelo.
Mas havia algo ali.
Não arrebatador.
Não destino escrito nas estrelas.
Havia calor.
— Você não parece imaturo — ela disse, mais suave do que pretendia. — Só parece… verdadeiro.
Bernardo sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que antes.
— Eu não sei ser outra coisa — ele respondeu, quase envergonhado. — Já tentei parecer mais seguro, mais… interessante. Não deu muito certo.
— E o que deu errado? — ela perguntou, genuinamente curiosa.
Ele deu de ombros.
— Acho que eu ficava forçando uma versão de mim que não existia. — Ele girou o copo entre os dedos. — No fim, é exaustivo fingir que você sabe exatamente para onde está indo.
A frase ficou pairando entre eles.
sentiu algo se alinhar dentro do peito.
— Talvez ninguém saiba — ela murmurou. — Algumas pessoas só fingem melhor.
Ele sorriu.
— Você finge bem? — Ele piscou de um jeito que a fez precisar disfarçar uma careta envergonhada.
— Eu finjo que não estou esperando nada. — O comentário escapou antes que pudesse filtrar e baixou o olhar para as próprias mãos.
Bernardo inclinou a cabeça, genuinamente curioso.
— Esperando o quê?
Ela poderia ter rido. Mudado de assunto. Feito uma piada. Como sempre fazia quando a conversa parecia estar indo para os seus sonhos.
Mas, estranhamente, não sentiu vontade.
— Algo que faça sentido — respondeu, honesta demais para um primeiro encontro.
Ele não riu. Não diminuiu a frase. Só assentiu lentamente.
— Eu também.
Silêncio. Não constrangedor. Não pesado.
Um silêncio confortável, como se estivessem dividindo algo que não precisava ser explicado.
Bernardo apoiou os cotovelos na mesa antes de coçar a parte de trás da cabeça, constrangido.
— Posso perguntar uma coisa meio pessoal?
arqueou a sobrancelha.
— Já estamos falando de sentido da vida. Acho que não tem mais volta.
Ele riu baixo.
— Você já se sentiu deslocada? Tipo… como se tivesse perdido alguma coisa importante, mas não soubesse o quê?
O coração dela tropeçou.
Ela não esperava isso.
— Às vezes — respondeu com cuidado e sem ter certeza se já era tempo de começar a se arrepender de não ter cortado a conversa antes.
— Eu sinto isso desde criança — ele continuou, alheio as reações físicas de que tentava disfarçar seu desconforto. — Como se eu estivesse sempre esperando alguém aparecer.
A respiração de falhou por um segundo e ela sentiu a cabeça revirar.
Aquilo era perigoso. Muito perigoso.
Mas ele não estava falando com intensidade mística da qual ela estava acostumada a ouvir a vida inteira pelas leitura de catas da mãe ou da esperança espiritual que seu irmão sempre trazia em conversas profundas.
Não havia destino na voz dele.
Era apenas confissão.
— Talvez você só esteja esperando a pessoa certa aparecer — ela disse, quase para si mesma.
Ele sorriu, tímido.
— Talvez.
Os dedos dele tocaram os dela novamente, desta vez de propósito.
Não foi invasivo. Foi um pedido silencioso de permissão. E ela não afastou.
E então percebeu o que fez seu coração parecer errar uma das batidas. A fagulha. Pequena. Delicada. Possível. Não era o incêndio da floresta.
Era a chama tranquila de uma lareira acesa numa noite fria.
E talvez fosse isso que ela precisava.
— Acho que vou precisar agradecer ao Lucas pelo encontro de hoje — admitiu mais para si mesma do que para Bernardo, que soltou uma risada alta e contagiante.
— E eu por ele ter conseguido te convencer a sair comigo — falou sorrindo e sentiu os dedos sendo apertados pelos dele.
O resto da noite passou rápido demais.
Em algum momento eles pediram mais uma bebida. Depois dividiram uma porção de batatas fritas que Bernardo insistiu em pagar, mesmo depois de ter argumentado que conseguia muito bem pagar a própria comida.
— Eu sei — ele disse, levantando as mãos em rendição. — Mas deixa eu fingir que estou sendo cavalheiro por cinco minutos.
— Só cinco?
— No máximo sete.
Ela riu.
E foi estranho perceber o quanto aquilo era fácil.
Não havia esforço em parecer interessante. Não havia tensão nas palavras, nem aquela sensação constante de que algo invisível observava seus pensamentos.
Era apenas uma conversa.
Eles falaram sobre músicas que marcaram a adolescência, sobre professores estranhos da escola, sobre o cachorro enorme que Bernardo teve quando era criança e que tinha medo de escadas.
— Um cachorro com medo de escada? — repetiu, rindo.
— Eu juro. O nome dele era Thor e ele pesava quarenta quilos, mas se recusava a subir três degraus.
— Isso arruína completamente a imagem de deus do trovão.
— Eu sei. Foi uma grande decepção para mim.
O relógio passou da meia noite sem que nenhum dos dois percebesse.
Quando finalmente olharam a hora, o pub já estava mais cheio e o barulho das conversas ao redor parecia mais alto.
— Acho que a gente monopolizou essa mesa por tempo demais — Bernardo comentou, meio sem jeito.
— Acho que sim — concordou.
Eles pagaram a conta e saíram juntos.
A noite estava fresca, e o ar da rua tinha aquele cheiro de cidade viva que aparece depois que o movimento da noite começa a crescer. As luzes dos bares próximos se misturavam com o som distante de música e risadas.
Eles caminharam lado a lado por alguns metros em silêncio confortável.
percebeu que não estava ansiosa para ir embora.
Aquilo era novo.
— Então… — Bernardo começou, enfiando as mãos nos bolsos do casaco. — Eu me diverti muito hoje.
— Eu também — confessou no meio de um sorriso.
Ele olhou para ela com um sorriso meio tímido.
— Confesso que achei que você fosse cancelar.
— Eu quase cancelei — falou, tentando ficar séria.
— Sério?
— Lucas não teria sobrevivido para contar a história se eu tivesse feito isso — brincou e pôde ver Bernardo soltar o ar que segurava para rir.
Eles pararam na esquina onde as ruas se separavam.
— Eu moro para aquele lado. — Ele apontou.
— Eu para o outro.
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Havia algo ali.
Aquela mesma fagulha pequena e cuidadosa que tinha sentido antes.
Bernardo parecia considerar alguma coisa. Talvez um beijo. Talvez um convite para outro encontro.
Mas no fim ele apenas sorriu.
— Posso te mandar mensagem? — perguntou com receio visível.
inclinou a cabeça, fingindo pensar.
— Pode.
Ele pareceu genuinamente aliviado com a resposta.
— Então… boa noite, .
— Boa noite, Bernardo.
Ele hesitou por um instante antes de se aproximar e dar um abraço rápido, gentil. Nada invasivo. Apenas quente o suficiente para fazer sorrir quando ele se afastou.
— Até logo — ele disse.
— Até.
ainda ficou parada por alguns segundos depois que Bernardo virou a esquina.
O sorriso ainda estava ali, preso no canto da boca, como se não tivesse recebido o aviso de que já era hora de desaparecer.
Ela começou a caminhar devagar pela calçada, sentindo o ar fresco da noite tocar seu rosto. A cidade ainda estava acordada. Um carro passou devagar pela rua, alguém riu alto em algum bar próximo e uma música distante escapava por uma porta entreaberta.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela percebeu algo curioso.
Sua cabeça estava incrivelmente silenciosa.
Sem aquela sensação constante de estar esperando alguma coisa acontecer. Sem a lembrança insistente de sonhos que pareciam mais reais do que deveriam.
Apenas… silêncio.
colocou as mãos nos bolsos do casaco enquanto caminhava.
— Acho que vou mesmo ter que agradecer ao Lucas — murmurou para si mesma, balançando a cabeça com um pequeno sorriso.
Ela imaginou o irmão fazendo aquela expressão convencida de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Provavelmente ele ia dizer alguma coisa absurda sobre “seu talento inato para unir almas”.
soltou uma risada baixa.
Quando chegou em casa, a luz da cozinha ainda estava acesa. Provavelmente Lucas tinha esquecido novamente de apagar antes de sair ou estava dormindo no sofá com a televisão ligada, como fazia às vezes.
Ela abriu a porta com cuidado, entrando devagar.
A casa estava quieta.
tirou os sapatos na entrada e passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso agradável de uma noite bem vivida.
Era estranho admitir aquilo, mas fazia tempo que não se sentia assim.
Leve.
Normal.
Como se, por algumas horas, tivesse sido apenas uma mulher em um encontro.
Sem expectativas estranhas.
Sem presságios.
Sem sonhos.
E sem homem de sorriso encantador e gestos que faziam suas pernas fraquejarem só de lembrar.
Ela foi para o próprio quarto, ainda com o sorriso suave nos lábios.
Talvez Bernardo mandasse uma mensagem.
Talvez eles saíssem de novo.
Talvez aquela pequena fagulha crescesse com o tempo.
E, surpreendentemente, a ideia não a assustava.
No quarto, tirou os brincos e os deixou sobre a cômoda. O vestido seguiu o mesmo caminho logo depois, substituído por uma camiseta confortável.
Ela se deitou na cama suspirando, encarando o teto por alguns segundos.
A lembrança do riso de Bernardo ainda ecoava em sua mente.
Os olhos azuis.
A forma desajeitada como ele falava quando ficava nervoso.
fechou os olhos com um pequeno sorriso.
E então adormeceu tranquila.



acordou sentindo como se o coração estivesse despedaçado. A cabeça doía e sentia os olhos inchados, como se tivesse chorado a noite toda.
Assim que abriu os olhos, demorou alguns segundos para entender o que estava acontecendo. Mas então a ficha caiu em sua cabeça como uma avalanche: ela não havia sonhado. Não houve fuga, floresta e nem o homem que a salvava. Uma noite inteira de apenas descanso.
Mas por que é que ela havia acordado como se isso fosse a coisa mais dolorosa do mundo?
se levantou, sentindo um nó na garganta, e precisou se apoiar na parede quando sentiu a cabeça revirar numa tontura repentina.
? — Sua mãe apareceu na porta com a expressão preocupada. — Tá tudo bem?
— Como é que você faz isso? — perguntou, calçando os chinelos e tentando lutar contra as lágrimas que pareciam querer cair. — Você sempre fareja quando alguma coisa não tá certa.
Sua mãe riu pelo nariz, mas não suavizou a ruga no meio da testa.
— Quando você for mãe, vai entender — respondeu, e se não estivesse tão compenetrada em sua batalha interna para não chorar, teria rido. — O que aconteceu? O encontro foi tão ruim assim?
— O quê? — ainda se sentia zonza. — Não, o encontro foi ótimo.
— Então, por que você tá com essa cara de quem parece que chorou a noite inteira?
parou o que estava fazendo por um milésimo de segundo, assimilando o que a mãe lhe dizia. E então seguiu para o espelho no canto do quarto para olhar melhor para si mesma.
E então levou um susto.
Seus olhos estavam vermelhos.
Não apenas inchados de sono, mas vermelhos de choro. As pálpebras pesadas, o canto dos olhos marcado como se lágrimas tivessem passado por ali durante horas.
aproximou o rosto do espelho.
— Mas que…?
Passou os dedos pela própria bochecha, como se esperasse encontrar algum vestígio de lágrimas secas.
Nada.
— Eu… eu não chorei, pelo menos não ainda — murmurou.
— O quê? — perguntou a mãe, ainda parada na porta.
se virou devagar, com o nó instalado na garganta e a sensação de vazio no restante do corpo.
— Eu não chorei — repetiu, agora mais confusa do que assustada. — Eu dormi a noite inteira depois que cheguei em casa.
A mãe inclinou levemente a cabeça, observando-a com atenção. Não com um olhar de mãe apenas preocupada. Mas sim, o olhar de alguém que estava tentando juntar peças invisíveis.
desviou o olhar do espelho.
— É ridículo — disse, tentando soar casual. — Eu deveria estar feliz. Finalmente tive uma noite normal.
A mãe não respondeu imediatamente.
Ela cruzou os braços devagar, apoiando o ombro no batente da porta, observando a filha com a mesma atenção silenciosa que costumava dedicar às cartas abertas sobre a mesa.
— Normal? — repetiu.
deu de ombros.
— Sem sonhos estranhos.
— Você sempre teve sonhos estranhos.
— Mas não assim.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado.
A mãe franziu levemente a testa.
— Você continua sonhando com as mesmas coisas de novo? — O tom da mãe não era acusatório, mas o sentiu do mesmo jeito.
Ela odiava quando a mãe acertava o centro da questão com tanta facilidade.
— Às vezes — respondeu, tentando parecer despreocupada. — Nada demais.
A mãe não pareceu convencida.
… sonhos que se repetem nunca são “nada demais”.
suspirou, passando a mão pelo rosto. Ela odiava ter essas conversas com a mãe, pois ela sempre ficava sabendo demais, mesmo que nem sequer falasse. Era como se a mãe pudesse lê-la com apenas o seu olhar atento.
— Era só um sonho recorrente. — Tentou fingir costume. — Uma floresta… uma cab… essas coisas. Nada muito criativo.
A mãe ergueu uma sobrancelha.
— E?
— E o quê?
— Quem estava lá?
congelou por um instante. Como é que ela sabia que tinha mais alguém no sonho? Às vezes pensava que sua mãe poderia ser uma bruxa.
O ar pareceu ficar pesado dentro do quarto.
Por sorte, a mãe interpretou o silêncio como simples hesitação.
— Sempre tem alguém — comentou ela com naturalidade. — Sonhos assim raramente são vazios.
engoliu em seco.
— Talvez.
A mãe ficou quieta por alguns segundos, avaliando algo dentro da própria cabeça.
Então suspirou de leve.
— Você quer que eu abra as cartas?
soltou uma risada curta, nervosa.
— Mãe…
— Estou falando sério.
Ela entrou no quarto agora, caminhando devagar até a cama e sentando na beirada, como fazia quando era criança.
— Sonhos recorrentes podem ser muitas coisas — continuou. — Ansiedade. Memória. Símbolos. Mas quando eles mudam de repente…
Ela inclinou a cabeça.
— Eu fico curiosa.
passou a mão pela nuca, tentando ignorar o aperto crescente no peito.
— Você é sempre curiosa — resmungou, e a mãe a encarou com a sobrancelha arqueada, esperando uma resposta que a convencesse. — Eu só... não sonhei.
Dizer aquilo em voz alta fez algo dentro dela se quebrar.
O quarto pareceu silencioso demais. Grande demais. Vazio demais.
A imagem da floresta atravessou sua mente como um eco distante. As árvores. A corrida. A luz da cab. E aquele sorriso.
sentiu a garganta apertar de repente.
— Eu dormi — disse, a voz mais baixa agora. — Só… dormi.
A mãe observou a mudança no rosto da filha com atenção redobrada.
— Isso te incomoda.
Não foi uma pergunta.
soltou uma risada fraca.
— Não deveria incomodar.
Mas incomodava.
Muito mais do que isso.
A ausência daquele sonho parecia um buraco aberto dentro do peito dela. Um espaço estranho, frio, como se algo tivesse sido arrancado durante a noite e deixado apenas o vazio no lugar.
E aquilo era absurdo.
Era só um sonho.
Só um sonho.
Então, por que a ideia de nunca mais vê-lo fazia o pânico começar a se instalar devagar em seu estômago?
desviou o olhar.
— Eu acho que só estou cansada.
A mãe continuou observando. Em silêncio.
Depois de alguns segundos, tentou mais uma vez:
— Se você quiser… podemos abrir as cartas.
soltou o ar devagar.
— Pra quê?
— Pra entender o que esse sonho quer.
balançou a cabeça.
— Eu não quero que você veja minha vida inteira espalhada numa mesa de cartas — resmungou, tentando se esquivar do assunto.
— As cartas não fazem isso — a mãe guardava um sorriso no canto dos lábios.
— Fazem sim — fez o mesmo bico que fazia quando era criança e a mãe riu pelo nariz.
— Elas mostram caminhos. Não fofocas.
ficou em silêncio.
Porque agora havia um pensamento ainda pior surgindo em sua mente.
E se as cartas mostrassem um caminho em que nunca mais sonharia com aquilo? E se ela nunca mais o visse outra vez?
O peito apertou com força e os olhos arderam instantaneamente.
Ela cruzou os braços, tentando conter aquela sensação estranha de perda.
— Eu só quero esquecer isso – mentiu.
A mãe não respondeu imediatamente.
Apenas se levantou da cama, caminhando até a porta.
— As cartas não vão fugir — disse com tranquilidade.
Então parou antes de sair.
— Mas sonhos que voltam tantas vezes… raramente desaparecem sem motivo.
E saiu do quarto.
ficou parada diante do espelho.
Sozinha novamente. Com olhos vermelhos e o peito apertado.
E pela primeira vez em anos, a noite anterior parecia incompleta.
Sem floresta. Sem fuga. Sem cab. E, o pior, sem ele.
fechou os olhos por um instante.
O pânico se apertou em seu peito de forma silenciosa.
— Foi só um sonho — murmurou para o próprio reflexo.
Mas algo dentro dela parecia gritar o contrário.

(...)

Bernardo mandou mensagem às quinze horas do dia seguinte. Começou com um “oi, tudo bem?” e terminou convidando para um novo encontro, no próximo sábado, em um restaurante novo que havia aberto.
, porém, demorou para responder, pois estava ocupada demais, deitada no sofá, sofrendo por algo que nem ela mesma sabia nomear.
— Você tá horrível — disse Lucas quando a tarde já começava a cair e se sentou na ponta do sofá.
— E você tá fedendo — retrucou, virando o rosto para o outro lado numa tentativa de fazer com que o irmão não visse seus olhos vermelhos.
— Eu estava jogando futebol — falou o que já sabia. — Mas vim pra casa porque a sua mãe me mandou mensagem.
— O que? — disfarçou uma fungada e virou para o irmão que a encarava com certa preocupação.
— O que aconteceu ontem no encontro? — Lucas cruzou os braços e a olhou de maneira séria.
— Não aconteceu nada. Inclusive foi um ótimo encontro, acho que vamos sair de novo no próximo sábado.
Lucas não conseguiu evitar uma expressão de surpresa.
— Mas então por que é que você está aí nesse sofá deitada como se o mundo tivesse quebrado o seu coração? — Ele estava preocupado e se odiou por isso.
— É besteira — não tentou argumentar, mas sabia que Lucas continuaria insistindo no assunto.
— A mãe disse que tentou conversar, mas que você não se abriu muito. Quer me contar o que está acontecendo?
soltou um suspiro pesado e se sentou mais próxima do irmão. Passou as mãos pelos cabelos e apoiou a cabeça no sofá, fechando os olhos em seguida.
— Eu tive um encontro ótimo — repetiu, mais devagar dessa vez, como se precisasse convencer a si mesma.
Lucas inclinou a cabeça, parecendo não saber se acreditava ou não.
— Mas?
Ela abriu um dos olhos.
— Não tem “mas” — tentou encerrar a conversa.
— Quando você vai parar de mentir pra si mesma? — As palavras de Lucas a cortaram ao meio.
— Ai — ela colocou a mão no peito e ele revirou os olhos.
— Desembucha logo, — ele a empurrou de maneira brusca pelo ombro.
— Foi um ótimo encontro, o Bernardo é um fofo e eu vim pra casa super feliz — voltou a narrar o que Lucas já imaginava. — E daí eu cheguei em casa e dormi.
Lucas piscou duas vezes, repassando as palavras recém ditas em sua cabeça.
— E por que dormir se tornou o problema número um da sua lista?
suspirou e sentiu o peito apertar e se expandir, como se fosse explodir.
— Eu não sonhei nada — falou por fim e foi como se um grande peso tivesse saído de seus ombros. — E isso nunca aconteceu antes.
Lucas a encarou em silêncio, esperando a continuação de seu monólogo interior.
— Lembra dos sonhos que eu tinha quando era adolescente?
— Os da cab? — assentiu. — Espera... Depois de todo esse tempo, você continuou sonhando com isso?
— Todas as noites — ela admitiu, e Lucas arregalou os olhos.
— O mesmo sonho sempre? — assentiu outra vez. — Puta merda!
Os dois se olharam por algum tempo em completo silêncio. Lucas tentando encontrar o que faria com essa informação e tentando não sentir o que sentia.
, isso é… tipo… muito tempo — disse Lucas com a voz baixa e pensativo.
— Eu sei.
— Você nunca contou isso pra ninguém?
— Pra minha psicóloga.
— E?
deu de ombros.
— Ela disse que sonhos recorrentes são comuns quando a gente está lidando com emoções que não resolveu.
Lucas franziu o nariz, perguntando-se que emoções a irmã poderia não ter lidado e não ter contado a ele, mas soube que aquela não era uma boa hora para perguntar sobre isso.
— E você resolveu? — Lucas tentou ir por outro caminho.
— Não faço ideia — ela riu sem humor e fechou os olhos outra vez.
Ele ficou olhando para ela por alguns segundos, como se estivesse montando um quebra-cabeça invisível.
— Então deixa eu ver se entendi — disse por fim. — Você passou anos tendo o mesmo sonho todas as noites…
— Uhum.
— E agora ele simplesmente… sumiu.
— Sim.
— E isso te deixou… assim.
Ele gesticulou para o estado deplorável dela no sofá: cabelo preso de qualquer jeito, coberta enrolada nas pernas e um pacote de biscoitos aberto ao lado.
fez uma careta.
— Não precisa jogar na minha cara.
Lucas ignorou.
— Mas o sonho era ruim, não era?
Ela demorou um segundo para responder.
— Era… estranho.
— Estranho como?
olhou para o teto.
As imagens vieram com uma nitidez quase cruel.
A floresta.
O cheiro de terra molhada.
O som da própria respiração desesperada.
A cab iluminada.
E aquele maldito sorriso.
Ela desviou os olhos.
E Lucas percebeu.
— Eu estava sempre fugindo de alguma coisa — olhou para o lado, tentando desviar dos olhos rápidos do irmão que a encaravam como um livro aberto.
— Mas chegava na cab.
— Sim.
— E lá era seguro.
assentiu.
Lucas cruzou os braços.
— Então você não sente falta do sonho — falou sério.
Ela abriu a boca para concordar. Mas as palavras não saíram. O silêncio que se formou respondeu por ela.
Lucas observou aquilo com atenção.
— Você sente falta de alguém — disse por fim.
soltou uma risada curta, nervosa.
— Não começa.
— Eu estou falando sério.
Ela balançou a cabeça.
— É só um sonho, Lucas.
— Era um sonho que você teve todas as noites por… quanto tempo?
— Eu não sei.
— Anos.
Ela apertou os lábios, sentindo as lágrimas voltarem para o canto de seus olhos.
— Talvez — e não conseguiu mais segurá-las.
Lucas suspirou.
— E quem estava na cab te esperando?
não respondeu imediatamente, pois sentiu vergonha em precisar admitir para o próprio irmão que seus sonhos eram com alguém que ela nem sabia quem era.
— Um homem.
Lucas ergueu as sobrancelhas, mas já sabia qual era a resposta antes mesmo de perguntar.
— Claro que era um homem — abriu um sorriso de lado e quis enfiar a cara em uma das almofadas e ficar ali até sufocar.
— Não faz essa cara — falou com a voz abafada, e Lucas riu.
— Que cara?
— Essa cara de quem já sabia.
Ele riu de novo e a puxou para cima, a obrigando a olhá-lo outra vez.
, você é a pessoa mais romântica que eu conheço e passa a vida inteira fingindo que não é — o sorriso insolente continuou nos lábios e quis soca-lo.
— Eu não sou romântica.
— Você se apaixonou por um cara que existe no seu subconsciente.
Ela jogou a almofada nele e Lucas riu ainda mais alto.
— Estou mentindo por acaso?
não respondeu.
Porque aquela frase tinha acertado perto demais do alvo.
Lucas apoiou as costas no sofá novamente.
— E agora você acha que ele… foi embora.
sentiu o peito apertar.
— Eu não acho nada.
.
Ela esfregou os olhos com força.
— Eu acordei hoje com a sensação de que perdi alguma coisa — disse com a voz mais baixa dessa vez.
Lucas ficou quieto por um momento.
— Mesmo depois de um encontro perfeito?
engoliu em seco.
— Mesmo assim.
O celular dela vibrou sobre a mesa de centro naquele instante.
Lucas esticou o pescoço para ver.
— É ele?
pegou o aparelho.
Na tela, o nome apareceu acompanhado de uma mensagem simples.
Bernardo.
Lucas abriu um sorriso lento, como quem ganha uma batalha.
— O universo é engraçado — falou em um tom que não gostou nem um pouco.
— Não começa com suas teorias.
— Eu só estou dizendo… — ele apontou para o celular. — Talvez a vida esteja tentando te empurrar para frente.
olhou para a mensagem sem abrir.
Seu coração estava estranho. Confuso. Dividido entre dois mundos.
Um homem que ela conheceu ontem à noite.
E outro que talvez nunca tivesse existido.
Lucas cutucou o braço dela.
— Então?
respirou fundo.
E finalmente abriu a mensagem.
“Se você não puder ir no sábado, a gente podia ir ao cinema na quarta, o que acha?”, leu a mensagem em voz alta e ouviu a risada mais histérica que já havia ouvido na vida de seu irmão.
— Que fofinhos — ele esticou os dedos para apertar as suas bochechas e ela o impediu no mesmo instante.
— Não encosta em mim — resmungou.
Lucas riu outra vez enquanto respondia que podia ir nos dois dias se ele quisesse. Sentiu o coração errar uma batida antes de clicar no ícone de enviar.
— Pronto, já contei o que estava acontecendo, agora dá o fora daqui e vai tomar banho — tentou empurrar Lucas, que fez força para ficar.
— A gente ainda não terminou essa conversa.
— Como é?
— A mãe me mandou aqui pra ver como você estava... — ele voltou ao assunto inicial e o encarou sem entender. — E tentar te convencer a abrirmos as cartas para tentar ver o que está acontecendo na sua vida.
soltou uma gargalhada sem humor.
— Claro. Porque toda a minha vida vai sair em algumas cartas espalhadas pela mesa — ela sentiu a língua ficar amarga a cada nova palavra que saía d sua boca.
Lucas não riu.
— Você sabe que não é assim.
— Sei sim — ela respondeu rápido demais, querendo encerrar o assunto.
Ele inclinou a cabeça, estudando o rosto dela como se procurasse rachaduras ou algo que lhe desse alguma brecha para tentar convencê-la do contrário.
— Você sempre foge quando o assunto é esse — ele disse sério, e bufou.
— Porque eu não quero viver cercada disso, Lucas — ela gesticulou mais do que gostaria, mas esse assunto costumava deixá-la nervosa.
— Cercada de quê?
gesticulou no ar, como se as palavras estivessem ali flutuando.
— Destino. Presságios. Espíritos. Qualquer coisa que a mãe inventa quando alguém senta naquela mesa.
Lucas suspirou.
— Você sabe que não é invenção — tentou outra vez.
— Eu sei que eu cresci numa casa em que as pessoas vinham perguntar para a mamãe se deviam casar, mudar de cidade ou largar o emprego.
— E muitas vezes ela estava certa.
revirou os olhos, se irritando cada vez mais.
— Isso não significa que eu quero saber.
Lucas ficou em silêncio por alguns segundos.
Então falou mais baixo.
— Você sempre teve isso também.
travou e demorou longos segundos para responder.
— Não começa — pediu no mesmo tom de voz do irmão, mas sabia que ele não estava ali para dar trégua sobre esse assunto.
— Eu estou falando sério.
— Eu nunca tive nada.
— Você sempre teve — deu ênfase à palavra “sempre” e foi se afundando cada vez mais no sofá.
Ela então cruzou os braços como uma criança fazendo birra.
— Ah, é?
— Você lembra do baralho quando era mais nova?
O estômago dela deu um pequeno nó.
Claro que ela se lembrava. Muito mais do que gostaria. O peso das cartas nas mãos. O formigamento estranho nos dedos. O calor que pareceu subir do centro do seu peito.
E a expressão da mãe naquele dia.
— Você deixou cair como se tivesse queimado — Lucas continuou, para a infelicidade de sua irmã. — Eu nunca esqueci.
— Eu tinha quinze anos.
— E?
— E adolescentes acham tudo esquisito.
Lucas inclinou o corpo para frente, como se a desafiasse.
— Você não achou esquisito.
sustentou o olhar dele, desafiando-o de volta.
— Achei sim.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Não. Você ficou com medo.
O silêncio que caiu entre eles foi pesado.
desviou o olhar primeiro.
— Mesmo que você esteja certo — disse ela, por fim — isso não tem nada a ver com o que está acontecendo agora.
— Tem tudo a ver.
— Não tem.
Lucas apontou para ela.
— Você passou anos tendo o mesmo sonho.
— Lucas…
— Sonhos que parecem mais memórias do que sonhos.
Ela apertou as mãos no colo.
— Para.
— E agora eles sumiram de uma hora para outra.
— Eu sei! — praticamente gritou e Lucas demonstrou que não recuaria.
— E você acordou com a sensação de que perdeu alguém — ele sabia que falava como se tivesse uma faca sendo enfiada nas feridas da irmã, mas ele não queria parar.
O peito dela apertou outra vez.
— Isso não significa nada.
— Significa pra você.
respirou fundo, tentando conter o nó na garganta.
— Mesmo que significasse… — murmurou, tentando segurar a lágrima que insistiu em escorrer de um dos olhos — eu não quero saber.
— Por quê?
Ela demorou para responder.
Quando falou, a voz saiu mais fraca.
— Porque se as cartas disserem que era só um sonho… eu vou ter que aceitar.
Lucas ficou quieto, sentindo-se culpado pela maneira como havia falado com e em como ela se encontrava naquele momento: desesperada.
continuou, quase num sussurro.
— E se disserem que não era… eu vou ter que lidar com isso também.
Ele observou a irmã por um longo momento.
Então descruzou os braços e encostou-se no sofá.
— Então você prefere ficar no meio do caminho.
deu de ombros.
— Parece mais seguro.
Lucas soltou um pequeno riso pelo nariz.
— Engraçado.
— O quê? — franziu o cenho.
— Você passou a vida inteira restaurando livros antigos — falou como se fosse óbvio.
— E?
— Histórias que alguém escreveu há cem, duzentos anos.
— Sim.
— Mas tem medo de descobrir a sua.
abriu a boca para retrucar.
Mas não encontrou nenhuma resposta.
Lucas se levantou do sofá.
— Eu não vou te obrigar a nada — disse ele, caminhando até a porta.
soltou um suspiro silencioso de alívio e voltou a apoiar a cabeça no sofá, sentindo-se um pouco menos pesada.
Mas então ele virou a cabeça antes de sair.
— Só vou te avisar uma coisa.
— O quê? — voltou a se inclinar para frente e não gostou nenhum pouco da sensação esquisita que se acumulou na boca do estômago.
Lucas abriu um meio sorriso.
— A mãe já tirou as cartas.
arregalou os olhos e sentiu o corpo inteiro paralisar de vez.
— Como assim? — Ela se levantou de maneira brusca.
— Como assim o quê?
— Para mim?!
Ele deu de ombros, como se não fosse nada, enquanto começava a sentir a respiração falhar.
— Você sabe como ela é.
O coração de acelerou.
— Lucas…
— Relaxa — ele disse, abrindo a porta. — Ela não me falou nada.
E saiu antes que pudesse perguntar mais alguma coisa.
O silêncio que ficou na sala parecia mais pesado do que antes.
olhou para o celular outra vez. Viu que sua conversa com Bernardo ainda aberta.
Um encontro marcado. Uma possibilidade real.
Ela voltou a sentar no sofá e apoiou a cabeça no encosto do sofá, fechando os olhos.
Mas, pela primeira vez em muitos anos, quando pensou na cab na floresta…
Ela não conseguiu lembrar do rosto do homem com tanta clareza.
E isso a assustou mais do que qualquer carta poderia prever.


Continua...


Nota da autora: Sem nota!

Barra de Progresso de Leitura
0%


Se você encontrou algum erro de revisão/codificação, entre em contato por aqui.