Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 08/04/2026
era uma mulher imaginativa. Com seus vinte e cinco anos pensava que já deveria ter passado da fase de sonhar acordada e imaginar cenários fictícios e fantasiosos em sua cabeça. Mas ela simplesmente não conseguia evitar.
Não quando todas as noites o mesmo sonho a acometia: uma floresta à noite, seus pés cansados correndo longe de algo que a perseguia. Respiração rápida e cabelos esvoaçantes enquanto tentava compreender o que acontecia. Após muito correr, encontrava uma cabana pequena e aconchegante no meio de uma clareira. Uma luz no fim do túnel.
E lá ela encontrava abrigo, uma cama e sopa quente. Mãos caridosas que a ofereciam um banho e roupas um pouco menos gastas. E sempre havia alguém lhe esperando, um homem, alto, cabelos longos e um sorriso acolhedor.
não sabia dizer ao certo quando aquilo havia começado, pois parecia não se lembrar de nenhum outro sonho a não ser esse. Por vezes, o sonho ia mais à frente, um novo recomeço ao lado de quem a encontrava. Outras, tudo recomeçava do início e, por mais que ela tentasse ir por rotas diferentes, o caminho era sempre o mesmo: o homem com o sorriso mais lindo que ela já havia visto.
não se apaixonava fácil. Sua melhor amiga, Joana, costumava chamá-la de coração de pedra por nunca ceder aos encantos de tantos que já haviam tentado lhe conquistar. Mas para ela era diferente... Era como se as conexões não pudessem ser tão fortes no mundo real como aquela que ela vivia em seus sonhos.
“Estou doente”, foi o que pensou um pouco antes de completar os vinte e três. “Preciso dar um jeito na minha vida”, falou para si mesma logo após decidir que procuraria terapia para tratar a dor da falta de alguém que sequer existia.
Dois anos de tratamento intensivo e com sessões semanais já deveriam ter surtido algum efeito. Sua psicóloga, Maria, já havia lhe dito que tudo estava em sua mente e ela só precisava deixar ir. Mas não conseguia soltar o lado da corda que lhe puxava contra toda a sensatez que a realidade pedia dela.
— Já pensou em pedir ajuda a mamãe? – questionou um dia seu irmão mais novo, Lucas, a quem era o seu mais fiel confidente.
— Eu não quero que ela veja sobre minha vida amorosa imaginária nas cartas, Lucas — ela respondeu no meio de uma careta desengonçada. — Não quero passar essa vergonha.
— Eu acho que abriria muita coisa para você — ele disse, dando de ombros. — Mas você quem sabe.
A mãe de era cartomante. Ela se lembrava de quando era pequena, a quantidade de coisas místicas que abarrotavam a sala e o quarto de atendimentos da mãe, das pessoas entrando e saindo da sua casa e a lembrança mais forte de todas, o dia em que sentiu as mãos formigarem ao pegar um baralho.
— Você quer aprender a jogar, ? — sua mãe perguntou, tentando esconder a felicidade.
Mas foi categórica em soltar o baralho e dizer um simples não.
Ela não estava preparada para aquilo e, com quinze anos, não queria se envolver com as coisas que suas amigas e colegas de aula achavam esquisito. Então foi se afastando aos poucos daquilo.
Embora o seu irmão fizesse questão de incomodá-la semanalmente sobre isso, aguardando o dia em que sua irmã abriria um jogo para ele.
— Nos seus sonhos — era geralmente o que ela respondia.
Mas Lucas era paciente e sabia que um dia a irmã iria para o caminho que era chamada, ela só precisava de um empurrãozinho.
Por isso sempre estava tentando arranjar encontros para a irmã para ver se ela esquecia um pouco dos seus sonhos.
— Outro encontro, Lucas? — resmungara assim que ouvira a proposta do irmão.
— É com Bernardo, aquele que estava no meu aniversário, lembra? — o irmão rebatera e ela procurou em sua mente.
— Ele tem dezenove anos!
— Idade é só um número. — Ele sorrira maroto e quase jogara a louça que secava em sua cabeça. — Vai ser legal. Não precisa se casar com ele, mas aproveita o momento, dá uns beijinhos, coloca o corpo pra jogo e depois segue a vida.
E não conseguiu negar, pois nunca conseguia dizer não aos olhos claros e convincentes do irmão que aproveitava sempre que podiam a fraqueza de sua irmã mais velha.
E era isso o que fazia agora. Terminando de arrumar os cabelos e fechando o zíper do vestido, o encontro com Bernardo estava marcado para as 21 horas em um pub que havia aberto a pouco tempo na parte mais badalada da cidade.
— Ele vem te buscar? — perguntou a mãe de ao vê-la passar jogando os cabelos para trás e borrifando um pouco de perfume no pescoço.
— Lucas vai me levar, mas não é muito longe — respondeu com rapidez, andando para lá e para cá, sem dar muito espaço para que a mãe arriscasse perguntar a idade dele.
A mãe riu e balançou a cabeça.
— Até um tempo atrás quem levava ele aos encontros era você — comentou como se a lembrança lhe trouxesse uma boa recordação. — Que bom que agora você pode usá-lo como seu chofer.
— Ei! — Lucas resmungou e abriu um sorriso, concordando com a mãe.
— Agora é a minha vez de me cobrar de todas as festas insalubres que você já me obrigou a te levar — rebateu.
— Festas insalubres? — A mãe esticou um pouco mais o pescoço. – Que festas insalubres?
— Tchau, mãe! — Lucas exclamou empurrando a irmã mais velha para fora e se esquivando das perguntas da mãe.
riu com gosto enquanto entrava no carro. Lucas era cinco anos mais novo do que ela. Mas, às vezes, sentia como se fossem gêmeos, pois eram mais sincronizados do que ela gostaria. Um sempre sabia o que o outro estava sentindo, pensando ou prestes a fazer.
— Entregue ao destino final, princesa — disse Lucas, assim que parou em frente ao pub.
— Obrigada, maninho. — Trocaram olhares amorosos antes de pular para fora.
-— E lembra de usar camisinha, não quero ser dindo ainda — ele gritou antes de arrancar e sair rápido.
— Idiota — ela resmungou baixinho para si mesma.
Um suspiro involuntário escapou de suas narinas quando ela virou e passou pelas portas de vidro do local mal iluminado e com mais gente do que ela gostaria de ver.
Bernardo disse que estaria a esperando em uma mesa próxima das janelas do canto e ela não demorou muito para encontrá-lo sentado, concentrado demais em seu próprio celular.
Outro suspiro saiu de sua garganta pelo pensamento que a acometeu naquele momento. Bernardo era de fato muito bonito e não aparentava ser tão mais jovem quanto ela imaginava, mas algo dentro dela gritava em seus ouvidos dizendo que aquele encontro não iria para lugar nenhum, como todos os outros.
— Oi — ela falou assim que se aproximou e Bernardo ergueu os olhos para ela.
prendeu a respiração por um milésimo de segundo, observando os olhos dele. De todos os homens que ela saía, a primeira coisa que ela procurava eram os olhos, à procura de alguma semelhança com aqueles que ela via todas as noites em seus sonhos, mas ainda não havia tido sucesso.
Bernardo tinha olhos claros. Tão azuis quanto o céu de um dia ensolarado.
E o homem dos seus sonhos tinha olhos castanhos escuros, intensos como uma noite fria de inverno.
Bernardo sorriu com um certo alívio quando ela se sentou.
— Eu quase achei que você ia me dar um bolo mesmo — confessou, coçando a nuca de leve. — Fiquei ensaiando o que eu ia fazer se você não aparecesse.
arqueou a sobrancelha e sem conseguir esconder o sorriso que acometeu o canto da sua boca.
— E o que você ia fazer?
— Ia pedir uma cerveja e fingir que eu só vim assistir ao jogo que tá passando — ele respondeu com um meio sorriso envergonhado. — Mas provavelmente ia ficar olhando para a porta igual um idiota.
Ela riu. Uma risada verdadeira, leve, que escapou antes que pudesse controlar.
Bernardo relaxou visivelmente.
— Eu sei que você deve sair com caras muito mais interessantes — continuou ele, mexendo distraidamente no rótulo da garrafa. — Mas eu prometo que sou, no mínimo, uma companhia educada.
A vulnerabilidade dele a pegou desprevenida. não estava acostumada com isso. Seus últimos encontros haviam sido, no mínimo, um desastre. Homens exibindo músculos, maxilares travados e sorrisos forçados, tentando convencê-la a algo que nem ela mesma sabia o que era.
No fim, quando se despedia com educação e ia na direção contrária da qual eles sugeriam, eles achavam ruim e a bloqueavam nas redes sociais.
Mas Bernardo parecia diferente. Mais focado. Mais vulnerável. Sem toda a pompa de alguém que se achava ser o centro do mundo.
sorriu para algo que ele disse e quase desejou ser alguns anos mais nova, pois sabia que teria sentido borboletas no estômago e teria corado furiosamente, como ele fazia agora.
— Lucas falou bem de você — disse Bernardo enquanto olhava o cardápio de bebidas.
— Espero que coisas boas. — Ela riu, sem graça.
— Só as melhores. — Ele ergueu os olhos cristalinos para ela e seu olhar a pegou desprevenida, fazendo com que ela baixasse o olhar no mesmo instante. — Disse que você trabalha com livros.
— Sou restauradora dos livros da biblioteca central — ela disse, tentando não estufar o peito e se sentir orgulhosa de si mesma.
Os olhos de Bernardo brilharam.
— Isso é absurdamente interessante.
Ela riu, colocando uma mecha de cabelo atrás da orelha, enquanto sentia as bochechas esquentarem consideravelmente.
— Ninguém nunca reage assim quando eu digo isso — admitiu, olhando nos olhos dele.
— Porque ninguém entende o que significa. — Ele inclinou o corpo levemente sobre a mesa. — Você salva histórias. Isso é meio… heroico.
O comentário a pegou desprevenida. Não pela grandiosidade, mas pela forma sincera como ele disse.
— Eu só conserto páginas rasgadas e capas soltas — ela respondeu, embora um calor discreto tivesse subido pelo seu pescoço.
— Você conserta o tempo — ele retrucou, dando de ombros, como se não percebesse o peso do que dizia.
ficou em silêncio por um segundo.
Ele não estava tentando impressioná-la.
Ele realmente pensava aquilo.
A conversa fluiu com mais facilidade depois disso. Bernardo falava das próprias inseguranças com uma honestidade quase constrangedora.
— Eu sempre acho que estou um passo atrás de todo mundo — confessou, mexendo no copo. — Tipo… todo mundo já sabe quem é, menos eu.
Ela o observou com mais cuidado. A franja loira caiu desajeitadamente em sua testa enquanto ele falava e ela sentiu uma sensação esquisita na boca do estômago ao olhá-lo daquele jeito.
— Com dezenove, eu também não sabia muito bem o que fazer, se isso te conforta.
Assim que as palavras saíram, quis puxá-las de volta.
Bernardo ergueu o olhar para ela, um sorriso torto surgindo nos lábios.
— Nossa, obrigado pela parte do “com dezenove” — ele brincou, mas havia um leve rubor em suas bochechas. — Eu prometo que não sou tão adolescente assim.
Ela riu, levando a mão ao rosto.
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Eu sei — ele respondeu rapidamente. — Só… às vezes eu fico com medo de parecer imaturo perto de você.
A sinceridade dele era quase desarmante.
inclinou levemente a cabeça, estudando-o com mais cuidado. A franja loira caía nos olhos claros, e ele a afastava com um gesto distraído, como se não tivesse paciência para lidar com o próprio cabelo.
Mas havia algo ali.
Não arrebatador.
Não destino escrito nas estrelas.
Havia calor.
— Você não parece imaturo — ela disse, mais suave do que pretendia. — Só parece… verdadeiro.
Bernardo sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que antes.
— Eu não sei ser outra coisa — ele respondeu, quase envergonhado. — Já tentei parecer mais seguro, mais… interessante. Não deu muito certo.
— E o que deu errado? — ela perguntou, genuinamente curiosa.
Ele deu de ombros.
— Acho que eu ficava forçando uma versão de mim que não existia. — Ele girou o copo entre os dedos. — No fim, é exaustivo fingir que você sabe exatamente para onde está indo.
A frase ficou pairando entre eles.
sentiu algo se alinhar dentro do peito.
— Talvez ninguém saiba — ela murmurou. — Algumas pessoas só fingem melhor.
Ele sorriu.
— Você finge bem? — Ele piscou de um jeito que a fez precisar disfarçar uma careta envergonhada.
— Eu finjo que não estou esperando nada. — O comentário escapou antes que pudesse filtrar e baixou o olhar para as próprias mãos.
Bernardo inclinou a cabeça, genuinamente curioso.
— Esperando o quê?
Ela poderia ter rido. Mudado de assunto. Feito uma piada. Como sempre fazia quando a conversa parecia estar indo para os seus sonhos.
Mas, estranhamente, não sentiu vontade.
— Algo que faça sentido — respondeu, honesta demais para um primeiro encontro.
Ele não riu. Não diminuiu a frase. Só assentiu lentamente.
— Eu também.
Silêncio. Não constrangedor. Não pesado.
Um silêncio confortável, como se estivessem dividindo algo que não precisava ser explicado.
Bernardo apoiou os cotovelos na mesa antes de coçar a parte de trás da cabeça, constrangido.
— Posso perguntar uma coisa meio pessoal?
arqueou a sobrancelha.
— Já estamos falando de sentido da vida. Acho que não tem mais volta.
Ele riu baixo.
— Você já se sentiu deslocada? Tipo… como se tivesse perdido alguma coisa importante, mas não soubesse o quê?
O coração dela tropeçou.
Ela não esperava isso.
— Às vezes — respondeu com cuidado e sem ter certeza se já era tempo de começar a se arrepender de não ter cortado a conversa antes.
— Eu sinto isso desde criança — ele continuou, alheio as reações físicas de que tentava disfarçar seu desconforto. — Como se eu estivesse sempre esperando alguém aparecer.
A respiração de falhou por um segundo e ela sentiu a cabeça revirar.
Aquilo era perigoso. Muito perigoso.
Mas ele não estava falando com intensidade mística da qual ela estava acostumada a ouvir a vida inteira pelas leitura de catas da mãe ou da esperança espiritual que seu irmão sempre trazia em conversas profundas.
Não havia destino na voz dele.
Era apenas confissão.
— Talvez você só esteja esperando a pessoa certa aparecer — ela disse, quase para si mesma.
Ele sorriu, tímido.
— Talvez.
Os dedos dele tocaram os dela novamente, desta vez de propósito.
Não foi invasivo. Foi um pedido silencioso de permissão. E ela não afastou.
E então percebeu o que fez seu coração parecer errar uma das batidas. A fagulha. Pequena. Delicada. Possível. Não era o incêndio da floresta.
Era a chama tranquila de uma lareira acesa numa noite fria.
E talvez fosse isso que ela precisava.
— Acho que vou precisar agradecer ao Lucas pelo encontro de hoje — admitiu mais para si mesma do que para Bernardo, que soltou uma risada alta e contagiante.
— E eu por ele ter conseguido te convencer a sair comigo — falou sorrindo e sentiu os dedos sendo apertados pelos dele.
O resto da noite passou rápido demais.
Em algum momento eles pediram mais uma bebida. Depois dividiram uma porção de batatas fritas que Bernardo insistiu em pagar, mesmo depois de ter argumentado que conseguia muito bem pagar a própria comida.
— Eu sei — ele disse, levantando as mãos em rendição. — Mas deixa eu fingir que estou sendo cavalheiro por cinco minutos.
— Só cinco?
— No máximo sete.
Ela riu.
E foi estranho perceber o quanto aquilo era fácil.
Não havia esforço em parecer interessante. Não havia tensão nas palavras, nem aquela sensação constante de que algo invisível observava seus pensamentos.
Era apenas uma conversa.
Eles falaram sobre músicas que marcaram a adolescência, sobre professores estranhos da escola, sobre o cachorro enorme que Bernardo teve quando era criança e que tinha medo de escadas.
— Um cachorro com medo de escada? — repetiu, rindo.
— Eu juro. O nome dele era Thor e ele pesava quarenta quilos, mas se recusava a subir três degraus.
— Isso arruína completamente a imagem de deus do trovão.
— Eu sei. Foi uma grande decepção para mim.
O relógio passou da meia noite sem que nenhum dos dois percebesse.
Quando finalmente olharam a hora, o pub já estava mais cheio e o barulho das conversas ao redor parecia mais alto.
— Acho que a gente monopolizou essa mesa por tempo demais — Bernardo comentou, meio sem jeito.
— Acho que sim — concordou.
Eles pagaram a conta e saíram juntos.
A noite estava fresca, e o ar da rua tinha aquele cheiro de cidade viva que aparece depois que o movimento da noite começa a crescer. As luzes dos bares próximos se misturavam com o som distante de música e risadas.
Eles caminharam lado a lado por alguns metros em silêncio confortável.
percebeu que não estava ansiosa para ir embora.
Aquilo era novo.
— Então… — Bernardo começou, enfiando as mãos nos bolsos do casaco. — Eu me diverti muito hoje.
— Eu também — confessou no meio de um sorriso.
Ele olhou para ela com um sorriso meio tímido.
— Confesso que achei que você fosse cancelar.
— Eu quase cancelei — falou, tentando ficar séria.
— Sério?
— Lucas não teria sobrevivido para contar a história se eu tivesse feito isso — brincou e pôde ver Bernardo soltar o ar que segurava para rir.
Eles pararam na esquina onde as ruas se separavam.
— Eu moro para aquele lado. — Ele apontou.
— Eu para o outro.
Por um segundo, nenhum dos dois se moveu.
Havia algo ali.
Aquela mesma fagulha pequena e cuidadosa que tinha sentido antes.
Bernardo parecia considerar alguma coisa. Talvez um beijo. Talvez um convite para outro encontro.
Mas no fim ele apenas sorriu.
— Posso te mandar mensagem? — perguntou com receio visível.
inclinou a cabeça, fingindo pensar.
— Pode.
Ele pareceu genuinamente aliviado com a resposta.
— Então… boa noite, .
— Boa noite, Bernardo.
Ele hesitou por um instante antes de se aproximar e dar um abraço rápido, gentil. Nada invasivo. Apenas quente o suficiente para fazer sorrir quando ele se afastou.
— Até logo — ele disse.
— Até.
ainda ficou parada por alguns segundos depois que Bernardo virou a esquina.
O sorriso ainda estava ali, preso no canto da boca, como se não tivesse recebido o aviso de que já era hora de desaparecer.
Ela começou a caminhar devagar pela calçada, sentindo o ar fresco da noite tocar seu rosto. A cidade ainda estava acordada. Um carro passou devagar pela rua, alguém riu alto em algum bar próximo e uma música distante escapava por uma porta entreaberta.
E, pela primeira vez em muito tempo, ela percebeu algo curioso.
Sua cabeça estava incrivelmente silenciosa.
Sem aquela sensação constante de estar esperando alguma coisa acontecer. Sem a lembrança insistente de sonhos que pareciam mais reais do que deveriam.
Apenas… silêncio.
colocou as mãos nos bolsos do casaco enquanto caminhava.
— Acho que vou mesmo ter que agradecer ao Lucas — murmurou para si mesma, balançando a cabeça com um pequeno sorriso.
Ela imaginou o irmão fazendo aquela expressão convencida de quem sabia exatamente o que estava fazendo.
Provavelmente ele ia dizer alguma coisa absurda sobre “seu talento inato para unir almas”.
soltou uma risada baixa.
Quando chegou em casa, a luz da cozinha ainda estava acesa. Provavelmente Lucas tinha esquecido novamente de apagar antes de sair ou estava dormindo no sofá com a televisão ligada, como fazia às vezes.
Ela abriu a porta com cuidado, entrando devagar.
A casa estava quieta.
tirou os sapatos na entrada e passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso agradável de uma noite bem vivida.
Era estranho admitir aquilo, mas fazia tempo que não se sentia assim.
Leve.
Normal.
Como se, por algumas horas, tivesse sido apenas uma mulher em um encontro.
Sem expectativas estranhas.
Sem presságios.
Sem sonhos.
E sem homem de sorriso encantador e gestos que faziam suas pernas fraquejarem só de lembrar.
Ela foi para o próprio quarto, ainda com o sorriso suave nos lábios.
Talvez Bernardo mandasse uma mensagem.
Talvez eles saíssem de novo.
Talvez aquela pequena fagulha crescesse com o tempo.
E, surpreendentemente, a ideia não a assustava.
No quarto, tirou os brincos e os deixou sobre a cômoda. O vestido seguiu o mesmo caminho logo depois, substituído por uma camiseta confortável.
Ela se deitou na cama suspirando, encarando o teto por alguns segundos.
A lembrança do riso de Bernardo ainda ecoava em sua mente.
Os olhos azuis.
A forma desajeitada como ele falava quando ficava nervoso.
fechou os olhos com um pequeno sorriso.
E então adormeceu tranquila.
Continua...
Nota da autora: Sem nota!
0%
