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Codificada por: Ayleen Baümler

Última Atualização: 09/12/2025


O alarme disparou com um apito irritante às cinco e meia da manhã. tateou o celular no escuro, resmungando um “saco…” antes de silenciá-lo. O pequeno quarto alugado mal cabia a cama, a pilha de roupas emboladas na cadeira e o espelho de moldura lascada encostado na parede.
Ela se sentou na beira da cama, encarando seu reflexo. O cabelo cacheado estava um caos de nós e espirais desalinhadas. O rosto, ainda marcado de sono, trazia nos olhos escuros a teimosia de quem não desiste fácil.
Do outro lado da porta, sons familiares: passos apressados, uma chaleira apitando, gatos miando em coro.
— Dona Maria, que confusão é essa logo cedo? — perguntou ao sair do quarto, tropeçando em um dos gatos gorduchos.
— É a correria da vida, mi hija! — respondeu a mulher do outro lado da minúscula cozinha. Maria, mexicana, sessenta e poucos anos, cabelo preso em um coque desarrumado e um avental com estampa de abacates, mexia distraída em uma panela. — Você não sabe? A minha sobrinha, Dolores, vai fazer teste pra ser dublê. Imagina só!
pegou uma caneca rachada do armário e serviu café preto forte.
— Que bom pra ela. — Maria virou-se, apontando uma colher de pau para .
— E você? Quando vai ser a estrela, hein? Fico vendo você sair todo dia pra ser figurante… você merece mais. — sorriu com amargura.
— Hoje é só mais um dia de andar no fundo da cena, Dona Maria. Igual sempre.
Ela se recostou na pia por um instante, encarando pela janela o céu ainda cinzento de Los Angeles. A cidade parecia feita de cartazes gigantes e promessas inalcançáveis.
“Figurante. Apenas mais uma figurante.”
Era o pensamento recorrente. Não era a primeira vez que trabalhava em figuração. Tinha rodado cafés, praças, festas de casamento falsas, até funeral em filme de suspense. Já tinha visto de perto atores que antes só existiam em revistas.
Teve bons encontros. Zoe Saldaña, super simpática, a única que a abraçou no final da cena. John Cho, que lhe desejou sorte ao esbarrar nela nos bastidores. Teve também decepções. Um galã famosíssimo, que ignorou completamente a presença de e a tratou como se fosse invisível. Ela nem gostava mais de ouvir o nome dele.
pegou a caneca cheia de café e a levou para o quarto para terminar de se arrumar. Prendeu o cabelo num puff volumoso e fofo, ajeitou os cachos com cuidado e soltou um suspiro pesado.
O único momento que fazia tudo valer a pena era quando seu pai, Carlos, ligava do Brasil. Sempre que aparecia meio pixelada e desfocada em alguma cena aleatória, ele gritava:
— Olha lá minha menina! Primeira atriz brasileira a brilhar em Hollywood!
Ela riu baixo, negando com a cabeça frente a lembrança.
— Só mais uma figurante brasileira, pai… — murmurava sozinha, com um sorriso triste.
Deu uma última olhada no relógio e engoliu o café ainda quente. Deixou a caneca no quarto mesmo, não dava tempo de lavar.
— Tô atrasada. — Dona Maria ergueu a voz da cozinha.
— Boa sorte, ! E cuidado com esses gringos doidos! — já saía pela porta, apressada.
Lá fora, Los Angeles despertava com a habitual indiferença. O céu cinza contrastava com os luminosos dourados dos letreiros de cinema. Carros de luxo passavam por ela sem olhar. Outdoors gigantes anunciavam estreias de filmes e astros sorrindo para um público que nunca conheceu de verdade.
Ela caminhava pelas ruas da cidade, abraçada ao casaco fino para se proteger da brisa fria da manhã. A escala de figurante naquele dia era cedo, com gravação prevista das oito às duas da tarde. Depois, como sempre, ela teria poucas horas para respirar antes de encarar o segundo turno da vida real: Luna’s Coffee & Bakery, uma cafeteria, das três até o fechamento.
Era cansativo, repetitivo, e muitas vezes solitário. Mas era também a única maneira de manter vivo o sonho que a fizera atravessar um oceano com nada além de uma mala, um sotaque carregado e uma fé absurda de que, de alguma forma, um dia tudo valeria a pena.
Naquela manhã, porém, decidiu que precisava de um reforço extra para encarar o dia. O café ralo não seria suficiente para o que estava por vir. A passos rápidos, dobrou a esquina em direção ao seu lugar habitual: Luna’s Coffee & Bakery, onde também encontraria sua melhor amiga para a dose diária de incentivo.
O aroma de café fresco e pão doce preenchia o ar do pequeno refúgio. Ao empurrar a porta de vidro, foi recebida pelo tilintar familiar da campainha e pela figura inconfundível de Mrs. Jenkins, a proprietária. Uma mulher americana de sessenta e poucos anos, cabelos grisalhos presos em um coque bagunçado, óculos pendurados na ponta do nariz, e um sorriso que escondia um gênio pragmático.
! — exclamou Mrs. Jenkins, colocando uma fornada de cookies em cima do balcão. — Espero que tenha vindo só pelo café. Se esqueceu que tem turno hoje à tarde?
riu ao se aproximar.
— Como eu poderia esquecer? A melhor chefe de Los Angeles me lembrou ontem três vezes. — Mrs. Jenkins bufou teatralmente.
— Melhor chefe? Vá enganar outro, garota. Só não gosto de perder boas funcionárias. — piscou para ela.
— Eu volto às três, prometo. Hoje sou só cliente. — Mrs. Jenkins apontou para com a espátula de cookies.
— E trate de não perder a hora.
levantou as mãos em rendição e seguiu para a janela, onde Jae já a esperava, tomando café em uma caneca enorme.
Jae, ou Park Jae-min, tinha o cabelo tingido de azul vibrante, cortado em um chanel moderno que combinava com a blusa oversized e a saia plissada. Quando viu , ergueu a mão animada.
! Senta logo, garota. Consegui um croissant extra pra você. — largou a mochila na cadeira e aceitou o presente com um sorriso agradecido.
— Salvadora oficial da minha fome e da minha dignidade — murmurou, mordendo o pão amanteigado.
As duas se conheceram por acaso, mais de um ano antes, em um parque. , desesperada, tentava domar uma faixa de cabelo rebelde que insistia em escorregar, quando Jae apareceu oferecendo ajuda. Descobriram ali, no meio das risadas, uma amizade improvável, mas imediata.
Jae era filha de imigrantes coreanos tradicionais, donos de uma lavanderia. Os pais dela, inicialmente desconfiados, acabaram se encantando pela doçura e respeito de . Agora, sempre que visitava a casa dos Park, era recebida com tteokbokki, chá quente e um bombardeio carinhoso de perguntas sobre “como andava o trabalho no cinema”.
terminou mais uma mordida do croissant e suspirou.
— Hoje vai ser mais uma daquelas diárias infinitas pra figurante.
Jae deu de ombros, apoiando o queixo nas mãos.
— Mas vai que, do nada, o galã do filme se apaixona perdidamente por você? — soltou uma risada curta.
— Sonhadora.
— Realista demais, — Jae rebateu com um sorrisinho. — Um dia você vai me agradecer por prever seu futuro casamento com algum astro milionário. Aposto que vai ser alto, moreno, lindo…
— Chega — interrompeu, rindo. — Deixa eu sobreviver ao turno de figurante primeiro.
— Só não esquece que quando a cerimônia acontecer, serei madrinha, tá? — levantou da cadeira e ajeitou o lenço no pulso.
— Pode deixar. — Do lado de fora, o relógio da praça marcava quase sete horas.
— Preciso ir. O ônibus pro estúdio passa às sete e dez. — Jae levantou-se também e puxou para um abraço apertado.
— Vai lá, brilha. E se topar com algum galã, manda mensagem.
saiu às pressas, ainda rindo, o coração um pouco mais leve graças àquela amizade improvável que sempre conseguia fazer tudo parecer possível.
O ônibus já estava quase cheio quando ela subiu os degraus, validou o bilhete e procurou um assento na janela. A cidade passava rápido do lado de fora: murais coloridos, carros de luxo dividindo espaço com gente apressada, palmeiras altas balançando contra o céu azul de Los Angeles.
Enquanto apertava a mochila contra o colo, tentava se concentrar. Respirava fundo, repetindo mentalmente: “É só mais um dia. É só mais uma figuração. Você sabe fazer isso.” Mas, mesmo com a experiência, aquela pontinha de ansiedade sempre vinha. A incerteza do dia, a possibilidade de algo dar errado... ou de, quem sabe, dar muito certo.
A entrada dos estúdios era sempre uma visão surreal. Portões imensos, seguranças uniformizados e carros de luxo desfilando com naturalidade pela rua privada que levava aos trailers e sets.
ajustou a alça da mochila e respirou fundo. Mesmo não sendo sua primeira vez, aquele lugar ainda tinha o poder de fazê-la se sentir pequena. Invisível.
A diferença era que agora, com algumas figurinhas carimbadas de experiências passadas, ela sabia que bastava fazer seu trabalho, manter-se na dela, e ir embora sem chamar atenção.
Seguiu pelo estacionamento até a área de figurantes. Carros de catering, assistentes com pranchetas, figurinistas correndo de um lado para o outro.
parou ao lado de um trailer e observou os outros figurantes. A maioria, como sempre, vestia roupas propositalmente descoladas ou montadas demais, tentando ser notados por algum olheiro ou assistente de produção. Roupas estilosas, maquiagem impecável, até acessórios chamativos.
Ela, de jeans simples, camiseta branca e tênis velhos, sentiu o velho incômodo voltar. Não fazia questão de impressionar ninguém. Aliás, detestava lidar com aquele tipo de figuração, onde as pessoas pareciam competir silenciosamente para ver quem se destacava mais no fundo da tela.
— Isa?
Ela se virou ao ouvir a voz familiar. Nick Jordan caminhava em sua direção, sorriso fácil, cabelo loiro bagunçado, jaqueta de couro pendurada despreocupadamente nos ombros.
Nick era co-estrela do filme e eles tinham se conhecido em um projeto anterior, quando fizera figuração em uma comédia romântica de médio orçamento. Ele havia sido, de longe, a pessoa mais legal do elenco.
— Nick! — sorriu genuinamente. — Achei que você não fosse lembrar de mim. — Ele fingiu ofensa.
— Como esquecer da garota que me salvou do maior mico da carreira? — riu, balançando a cabeça.
— Você que tropeçou no próprio cachorro-cenográfico, eu só estava lá. — Nick deu uma risada.
— Detalhes. Mas que bom te ver de novo. Vem, vou te mostrar onde está o resto da galera.
o acompanhou até o ponto de encontro. No caminho, vários figurantes olharam para ela de cima a baixo. Julgamentos silenciosos. Ela já estava acostumada: roupa “simples demais”, cabelo natural demais, postura “nada desesperada” para chamar atenção.
Ela apenas endireitou os ombros.
Foi quando uma silhueta conhecida passou por eles: Sienna Blake.
Alto, corpo esguio, rosto maquiado impecavelmente, longos cabelos ondulados brilhando sob o sol da manhã. Sienna era uma estrela jovem, dona de uma base de fãs obcecada. a seguia no Instagram há anos. Sempre achou as legendas dela doces, os posts carinhosos com fãs…
Mas a decepção veio rápido. Sienna passou, lançou um olhar breve e indiferente para — um olhar que dizia: “quem é você mesmo?” — e simplesmente continuou andando, sem sequer acenar ou sorrir.
congelou por um segundo. Nick notou e murmurou:
— Sienna não é exatamente o que ela mostra nas redes…
engoliu a decepção, sem dizer nada. Pensou imediatamente em desbloquear o celular mais tarde e apertar “deixar de seguir”. No fundo, ela já sabia. Estava acostumada com os contrastes brutais daquele mundo.
— Nada que me surpreenda — respondeu seca.
se afastou de Nick, ainda com o gosto amargo da decepção. Enquanto caminhava distraída, de cabeça baixa, sentiu o impacto suave de um corpo firme ao seu lado.
— Desculpa! — disse rapidamente, levantando o olhar.
O homem que a encarava era a própria definição de autocontrole elegante. Terno sob medida, cabelo escuro impecavelmente penteado, expressão sóbria e olhos afiados que analisavam tudo em volta sem perder um detalhe. Oliver Grant, mesmo sem saber ainda o nome, exalava poder contido.
Ele arqueou uma sobrancelha ao observar desajeitada.
— Vejo que a pontualidade não inclui a atenção ao caminhar — disse, com ironia calculada.
Isa, sem pensar, soltou:
— E vejo que o ego chegou antes do dono.
Por um instante, Oliver pareceu surpreso. Depois, esboçou um sorriso breve, quase imperceptível, antes de virar-se para continuar o seu caminho. continuou andando, sem saber que acabava de cruzar caminho com o homem que logo teria mais influência na sua vida do que ela poderia imaginar.
De repente, a voz imponente de uma mulher ecoou pela área:
— Atenção, todos! Vocês sabem que detesto desperdício de tempo!
Todos congelaram. Apenas uma pessoa era capaz de fazer aquela multidão obedecer com um único comando: Regina Holmes, diretora lendária, conhecida tanto pelo talento visionário quanto pela língua afiada.
De cabelos grisalhos curtos e óculos de aro grosso, Regina segurava uma prancheta e caminhava com passos decididos.
— Figurantes na marca. Elenco principal pronto em quinze minutos. Equipe de maquiagem, por favor, tentem não transformar nossos atores em bonecos de cera desta vez — disparou, arrancando risadinhas nervosas da equipe.
Isa, já posicionada com os outros figurantes, ajeitou o lenço colorido no braço, pronta para mais um dia de caminhada anônima em segundo plano. Mas antes que pudesse se mover, uma assistente ofegante surgiu ao lado de Regina, cochichando algo em seu ouvido.
Regina soltou um suspiro exasperado e olhou em volta.
— A substituta da cena 32, onde está? A figurante escalada para a interação sumiu. — Ela percorreu os olhos rapidamente até parar em Isa.
— Você aí. Cabelo incrível. Vem. — arregalou os olhos e apontou para si mesma, confusa.
— Eu?
— Sim, você. Vai substituir. Vai ter uma fala. Pouca coisa, só um “desculpe, senhor”, mas precisamos da interação. Está pronta?
sentiu o coração disparar. Uma fala. Por menor que fosse, era mais do que tinha tido em dois anos de figuração.
Engoliu seco, ergueu o queixo e respondeu:
— Pronta.
nem percebeu direito como foi parar ali. Uma assistente de produção a puxou pelo braço e a empurrou suavemente para a posição marcada no chão com uma fita azul discreta.
O cenário era uma rua cenográfica montada para simular Manhattan: postes antigos, vitrines falsas, carros de época estacionados em posições estratégicas.
respirou fundo, ajeitando o puff de cachos com uma mão trêmula. Era só uma fala. Ela tinha feito isso tantas vezes antes. Mas por alguma razão, sentia que aquele dia era diferente.
O burburinho de vozes e passos foi silenciado pela chegada dele.
.
Aos 27 anos, era o galã absoluto das comédias românticas modernas. Alto, de terno cinza impecavelmente ajustado, cabelos castanhos levemente desalinhados — uma marca registrada — e olhos castanhos-dourados que contrastavam absurdamente com a pele clara.
Havia algo hipnotizante na maneira como caminhava, como se pertencesse a outro mundo, e todos ao redor estivessem ali apenas para completar o cenário de sua vida.
Protagonista de sucessos como "Love, Actually… Not", "Unexpectedly Yours", "The Plus One Dilemma" e "Holiday Crush", era o tipo de ator que virava meme só por existir.
Seu rosto estampava cartazes, revistas e outdoors. Era o "homem dos sonhos" de meio mundo. Mas também o "mistério" de Hollywood: avesso a entrevistas longas, quase sem vida social pública, com zero escândalos — um feito praticamente impossível para alguém da sua fama.
o reconheceu de imediato e ficou paralisada: "O galã das comédias românticas."
Na tela, ele parecia inalcançável. Pessoalmente… era ainda pior.
não olhou para ela. Nem um segundo. Ajustou a lapela do paletó, agradeceu secamente ao assistente de som e posicionou-se na marca. Para ele, era só mais uma figurante. Um elemento do fundo, como a placa da rua ou o poste cenográfico.
engoliu em seco e desviou o olhar. Claro. Ela sabia exatamente como funcionava aquele mundo. E sabia o seu lugar nele.
Regina Holmes se aproximou, concentrada.
— Câmera! Som! Cena 32… ação!
A fita azul marcava onde ela deveria parar, olhar para o chão, cruzar o caminho de Ethan, balbuciar um rápido "desculpe, senhor" e sair da cena. Simples.
Foi quando ouviu a voz apressada do assistente:
— Se move agora! Agora!
O inglês atropelado, misturado ao barulho do set, soou confuso. Mas não hesitou. O assistente tinha dado a coordenada errada. Ela confiou na ordem e avançou dois passos... direto na trajetória de Ethan.
E foi ali que tudo saiu do roteiro.
Quando deu os primeiros passos, virou-se apressada demais, diretamente para a trajetória dele. O impacto foi inevitável. bateu contra o peito dele e teria caído para trás se não fossem as mãos firmes que, num reflexo rápido, seguraram sua cintura. Ela prendeu a respiração. Ele também.
Por um segundo, o mundo inteiro pareceu parar.
Olhos nos olhos. Respirações descompassadas. E, como se alguma força invisível os conduzisse, os rostos se aproximaram. Primeiro uma hesitação… e então, de forma inesperada, os lábios se tocaram.
Um beijo. Suave, breve, porém intenso. Natural. Quase ensaiado. Como se o universo inteiro tivesse conspirado para que acontecesse naquele exato instante.
Silêncio absoluto no set.
Regina Holmes arregalou os olhos atrás da câmera. Oliver Grant congelou a alguns metros, boquiaberto. A equipe inteira segurou a respiração, incapaz de decidir se devia intervir ou continuar gravando.
afastou-se primeiro, ainda segurando pelos braços como se tentasse entender o que acabara de acontecer. ficou imóvel, o coração batendo tão alto que tinha certeza de que o som ecoava pelo set inteiro.
Regina se inclinou levemente para o assistente de direção e sussurrou:
— Corta… mas mantém essa tomada.
puxou o ar bruscamente e se afastou das mãos de Ethan, sem coragem de encará-lo. O rosto fervendo, as pernas tremendo, ela virou-se e saiu quase tropeçando para fora da rua cenográfica.
ficou parado, observando-a sumir entre os figurantes, a testa levemente franzida e os lábios ainda formigando, como se tentasse descobrir se aquilo realmente tinha acontecido… ou se fora mais um truque perfeito de direção.
O set, por longos segundos, permaneceu em absoluto silêncio.
atravessou as portas do estúdio sem olhar para trás, o coração descompassado martelando dentro do peito. Do lado de fora, o sol da manhã parecia indiferente ao caos silencioso que acabara de acontecer. Ela respirou fundo, tentando se convencer de que nada havia mudado, que tudo não passara de um acidente. Mas no fundo, algo dentro dela sussurrava o contrário. Nada naquele set, naquela cidade, ou naquela vida, jamais voltaria a ser como antes.




saiu do estúdio quase tropeçando nos próprios pés, os braços cruzados como se pudesse, de alguma forma, esconder o calor que ainda sentia no rosto. O coração martelava tão alto que parecia ecoar pela calçada.
Não olhou para trás. Não queria ver ninguém. Não queria que ninguém a visse. Desceu apressada pela rua até a parada de ônibus. O vento da manhã já começava a perder suavidade, e o tráfego pesado de Los Angeles parecia zombar da urgência silenciosa que queimava dentro dela.
No ônibus lotado, se encolheu num canto, o olhar perdido pela janela, mas os olhos insistiam em escanear as pessoas ao redor. Uma mulher mexendo no celular, um adolescente mastigando chiclete, um senhor lendo jornal. Ninguém parecia reparar nela. Ainda assim, a paranoia a consumia.
"Eles sabem. Todo mundo sabe."
Tentou afastar o pensamento com um suspiro longo. “Foi só um acidente. Só isso. Nada vai acontecer. Logo eles vão cortar a cena. Ou ninguém vai perceber. É só mais uma filmagem normal...” Mas uma parte mais realista e cruel dentro dela sussurrava o contrário. Algo tinha acontecido. Algo que não se desfazia.
A brasileira apertou ainda mais os braços contra o próprio corpo, como se pudesse conter o redemoinho que girava dentro do peito. O ônibus sacolejava pelas avenidas, ignorando completamente o fato de que a vida dela, ou pelo menos a estabilidade mental, estava despencando ladeira abaixo.
"Por que eu fiz aquilo?", pensou pela décima vez.
Fechou os olhos. De novo, como num replay involuntário, sentiu o toque das mãos dele na sua cintura. Os olhos castanhos, tão perto. O silêncio pesado entre os dois, tão denso que parecia uma parede prestes a desmoronar. E o beijo.
Ela tinha beijado .
Ou… será que ele tinha beijado ela? Foi simultâneo? Uma reação em cadeia? Uma confusão de impulso, instinto e loucura coletiva?
— Meu Deus — sussurrou, baixinho, cobrindo o rosto com as mãos.
Não era só sobre o beijo. Era o que tinha se passado antes dele. A forma como ele a segurou. Como os olhos dele encontraram os dela. Como, por um segundo que parecia fora do tempo e do espaço, ela se sentiu escolhida.
E talvez... talvez tenha sido isso.
O olhar.
O silêncio.
A pressão da mão dele na sua cintura.
O fato de ele não ter se afastado.
O fato de ele ter se inclinado também.
Foi o clima. Foi aquele maldito instante de suspensão onde tudo parecia possível — até mesmo ser a protagonista de uma cena que jamais seria dela. se viu presa no vácuo entre a realidade e a ficção. E caiu. De boca. Literalmente.
— Eu sou louca… — murmurou.
Mas era mentira. Ela não era louca. Só estava cansada de ser invisível. E por um segundo, nos braços dele, nos olhos dele, ela tinha sido vista.
E agora?
Agora o peito dela parecia pequeno demais para tanta pergunta.
Quando desceu do ônibus na esquina conhecida, o toldo vermelho do Luna’s Coffee & Bakery apareceu como um porto seguro no meio do caos que ainda martelava dentro dela.
Entrou quase em transe, mal registrando o tilintar da campainha sobre a porta. O cheiro acolhedor de café moído e pão recém-saído do forno preencheu o ar — mas não sentiu nada. Só caminhou.
Atrás do balcão, Mrs. Jenkins finalizava uma fornada de donuts, polvilhando açúcar com precisão quase militar. Ao levantar o olhar, franziu o cenho de imediato.
? Você tá quase uma hora adiantada.
piscou, confusa, como se só então se desse conta de onde estava. Virou devagar e olhou para o relógio na parede. Eram pouco mais de uma hora. Ela tinha vindo direto do set. Nem percebeu.
— Eu… achei melhor chegar antes — respondeu, a voz mais baixa do que o habitual.
Mrs. Jenkins a observou por cima dos óculos, olhos apertados em uma análise silenciosa.
— Você tá branca feito farinha. Aconteceu alguma coisa? — forçou um sorriso.
— Só um dia estranho. Nada demais.
A dona do café continuou olhando por mais um segundo, mas não insistiu. Apenas apontou com a cabeça na direção da cozinha.
— Se quiser adiantar o turno, a máquina de expresso tá com birra. Pode ser um bom jeito de ocupar a cabeça.
assentiu, aliviada pela sugestão. Qualquer coisa era melhor do que continuar parada, remoendo. Caminhou até a cozinha e pegou o avental pendurado atrás da porta. As mãos ainda estavam levemente trêmulas quando amarrou o nó atrás das costas.
"Se eu ficar aqui. Se eu fingir que nada aconteceu. Se eu agir como se fosse só mais um dia..."
Mas era uma mentira. Uma daquelas confortáveis, fáceis de repetir pra si mesma. Porque nada parecia normal. Nem dentro dela. Nem fora. Precisava de ar. De voz conhecida. De algum sinal de que ainda existia chão sob os pés.
Tirou o celular do bolso da jaqueta, destravou com o polegar, e sem pensar muito, discou o número que sabia de cor. O peito ainda arfava, e as mãos não paravam de tremer.
Ela precisava da Jae. Agora.
Alôoo? — a voz cantada de Park Jae surgiu do outro lado da linha, com aquele entusiasmo típico de quem vive num musical da Broadway. — , se for pra pedir pizza à noite, saiba que hoje eu tô me dando o luxo da borda recheada.
— Jae… — sussurrou, olhando ao redor como se conspirasse contra o próprio destino. — Eu fiz uma besteira. Uma besteira gigante.
O barulho de fundo do lado de Jae cessou como um disco riscado.
— Que tipo de besteira? Tá tudo bem? Você tá machucada? Tá presa? Quer que eu leve um advogado ou um cupcake?
respirou fundo, o nó na garganta mal permitindo que a voz saísse.
— Eu tava no set hoje… era só uma figuração. Uma fala. Um dia normal. Mas… o assistente gritou uma marca errada e eu… eu esbarrei no .
Tá. — Jae pareceu processar. — Ok. Você… esbarrou nele. Tipo, deu uma topada, caiu em cima, tropeçou no ego dele? Ou…?
— E a gente se beijou. — soltou de uma vez, apertando os olhos como se quisesse apagar sua existência. — Eu beijei o , Jae. Sem querer. Na frente da câmera.
Silêncio.
Literalmente. Silêncio.
...você O QUÊ?! — Jae gritou tão alto que se encolheu na parede da cozinha, desesperada.
— Shhh! — sussurrou, tapando o celular com a mão. — Quer que a Mrs. Jenkins me demita por escândalo?
, pelo amor dos meus deuses coreanos e ocidentais, você BEIJOU o ??? Assim? No meio da gravação??? Isso é real ou você bateu a cabeça na cena? apoiou a testa na parede fria.
— Eu tropecei, Jae. Ele me segurou pra eu não cair. E… não sei. A gente se olhou por um segundo, e… ACONTECEU. A boca foi, eu não sei explicar. Não teve script, não teve intenção. Só… teve beijo.
E FOI BEIJO MESMO ou tipo esbarrão de k-drama?
— Foi beijo, tá?! Com lábios e tudo mais! — sussurrou de volta, em pânico. — E agora eu acho que minha carreira acabou antes de começar!
Jae prendeu a respiração por um segundo.
Ok. Respira comigo. — E começou a fazer um barulho exagerado de respiração no telefone. — Isso. Inspira. Expira. Beijou uma celebridade mundial sem querer. Normal. Segunda-feira comum. Acontece com todo mundo.
soltou um som que era metade riso, metade choro.
— Jae, não brinca. Eu tô nervosa de verdade. Eu não consigo parar de pensar nisso. Se alguém viu… se alguém filmou…
Calma, calma. Se ninguém filmou, é só guardar esse momento como uma lenda urbana. Um dia, você conta que beijou o e ninguém acredita. Vai parecer fanfic.
— Parece fanfic! — murmurou, rindo sem graça. — Daquelas bem ruins, ainda por cima. A figurante desastrada e o astro de cinema.
Ah, por favor. Você sempre foi personagem principal pra mim. — Jae falou, a voz mais suave agora. — E olha, eu sei que você tá surtando, mas... posso fazer uma pergunta que importa DE VERDADE? fechou os olhos. Já sabia o que vinha. — Foi bom?
gemeu, cobrindo o rosto com a mão.
— Jae!!!
Só tô perguntando porque, assim, se a boca dele tiver o mesmo talento da atuação, amiga… você precisa me passar o contato do treinador vocal.
riu de novo, as lágrimas ameaçando cair, mas agora por outro motivo.
— Eu te odeio.
Você me ama. E eu te amo também. Agora vai lavar o rosto, ajeita o coque e vai servir café como se nada tivesse acontecido. É isso que figurantes profissionais fazem.
suspirou, enxugando os olhos com a manga da blusa.
— E se alguém descobrir?
A gente dá o nome pro fandom. Que tal “”? Soa tão bem…
— JAE!
Tá, parei. Mas ó: você não tá sozinha, tá? Eu tô com você. Mesmo que você tenha dado um beijo cinematográfico no sem me consultar antes.
mordeu o lábio, respirando fundo.
— Nada aconteceu — murmurou, mais pra si do que pra amiga.
Esse é o espírito. Te amo! — Jae respondeu com aquele jeitinho doce e firme, que sempre fazia se sentir menos sozinha.
— Também te amo — ela sussurrou de volta, deixando um pequeno sorriso escapar.
A ligação caiu. E, por um momento, o silêncio pareceu pesar mais do que ajudar. guardou o celular no bolso, endireitou os ombros e tentou seguir com o dia como se tudo estivesse no lugar.
Mas não estava. Aquilo era tudo… menos normalidade. E ela sabia — bem no fundo — que nada, absolutamente nada, seria como antes.

🎬⭐🎥


O dia seguinte nasceu como qualquer outro em Los Angeles. O céu levemente acinzentado, a cidade despertando em meio ao ruído de carros, sirenes ao longe, pessoas apressadas pelas calçadas rachadas.
Na pequena kitnet de , um feixe de luz atravessava as cortinas finas, desenhando listras douradas no lençol amassado. O despertador tocava de forma insistente na mesa de cabeceira, até que uma mão surgiu debaixo do cobertor, tateando até encontrar o botão para silenciá-lo.
virou de lado, ainda com os olhos semicerrados, e soltou um suspiro preguiçoso. A cabeça latejava levemente — não de dor, mas de confusão. Aquele tipo de cansaço mental que não se curava com sono.
Ela se obrigou a levantar, os pés descalços tocando o chão frio. Puxou o celular do carregador, destravou com o polegar por hábito. A primeira notificação era do WhatsApp — mensagem do pai, como sempre, com um bom dia e uma figurinha animada que ele adorava mandar.
Ela sorriu de canto, mas logo deslizou a tela. Abriu o X. Só por costume. Sempre fazia isso antes de escovar os dentes, mas algo travou seu dedo no meio do movimento.
O nome dele.
.
No topo dos assuntos mais comentados. A hashtag #MisteryKiss logo abaixo.
franziu o cenho, o coração começando a bater mais rápido sem motivo aparente. Clicou. A tela carregou.
E congelou.
Ali estava.
A cena. O exato momento em que ela e se esbarravam no meio da rua cenográfica. O toque. O desequilíbrio. O beijo. O vídeo pausava milésimos depois do contato, mas a imagem era clara demais. A mão dele em sua cintura. O rosto inclinado. Os olhos fechados. A forma como pareciam perfeitamente sincronizados, como se tudo tivesse sido milimetricamente coreografado.
Mas não era.
Ela sabia que não era.
A legenda era simples, cruel na sua objetividade:

"EXCLUSIVO: vazou o momento em que beija misteriosa figurante no set. Quem é ela?"


sentiu o estômago despencar.
O celular escorregou da mão, mas ela conseguiu segurar antes que caísse. A respiração ficou curta. Os dedos gelaram. O mundo pareceu mais estreito.
Não era mais uma suposição. Não era mais um pensamento paranoico. Tinha viralizado.
E ela... era agora o centro de tudo.
soltou o celular como se tivesse queimado sua pele. Pegou o aparelho nas mãos novamente, desacreditada.
Cenas de timelines rolando frenéticas, perfis anônimos de fofoca, threads no X, cortes do vídeo sendo compartilhados em todas as plataformas possíveis.

Fãs em choque:
"Ele não estava filmando com a Sienna? Por que beijou outra garota?"
"É namoro secreto? Ensaio? Quem é essa mulher?!"

Fãs obcecadas:
"Ela é linda! Ela parece tão nervosa, deve ser fofa demais!"
"Shippo já!"


Hashtags explodindo:
#MisteryKiss
#QuemÉEla
#Affair

Memes pipocavam:
Fotos comparando o beijo com posters de comédias românticas. Capturas de tela do exato segundo em que segurava pela cintura. “Figurante do ano”, “Beijo mais icônico de 2025” e outras legendas bombavam.
Mas, como sempre, nem tudo era amor:

Haters apareceram:
"Ela só quis aparecer."
“Querendo se promover às custas do ."
“Totalmente antiética. Profissionalismo zero."


O caos só estava começando.
respirou fundo antes de empurrar a porta do Luna’s Coffee & Bakery. A campainha soou como sempre, os aromas familiares de café moído e massa assando envolveram o ambiente… mas, por dentro, tudo nela estava fora do lugar. Seu mundo parecia virado de cabeça pra baixo, mesmo que o balcão continuasse ali, brilhando com a mesma camada fina de açúcar de sempre.
Ela ajeitou o avental na cintura, prendeu os cachos no puff e caminhou para trás do balcão tentando parecer casual, embora cada passo pesasse mais do que deveria.
! — chamou Mrs. Jenkins, sem tirar os olhos do celular. — Vem cá, menina.
congelou. Engoliu seco. E caminhou lentamente, como se soubesse exatamente o que vinha pela frente.
Mrs. Jenkins virou a tela do celular sem nenhuma dramaticidade, como se estivesse apenas mostrando um meme ou a cotação do dólar.
— Já viu isso? Está em todo lugar.
parou. O coração martelava alto demais. E lá estava: o vídeo. Ela. . O beijo. Congelado em looping infinito, com direito a zoom, hashtag e comentários em capslock. Um pesadelo editado em 4K.
Forçando um sorriso tenso, soltou uma risadinha nervosa.
— Ah, nossa… já vi esse vídeo. Que loucura, né?
Mrs. Jenkins estreitou os olhos, levantando a sobrancelha com calma.
— Parece muito com você. — arregalou os olhos e balançou a cabeça depressa, tentando soar casual.
— Não tem nada a ver, Mrs. Jenkins. Milhares de garotas têm cabelo assim em LA… coincidência total.
A senhora ficou em silêncio por tempo demais, o que fez o suor escorrer pelas costas de .
— Hm. Se você diz...
Ela se virou rápido demais, fingindo que precisava limpar algo no balcão, mas o pano tremia na sua mão. O estômago parecia encolher, o peito estava apertado, e cada segundo parecia durar horas.
E foi aí que a porta se escancarou.
! — gritou Jae, entrando como um furacão, cabelo azul em desalinho e celular em punho.
Mrs. Jenkins quase deixou a jarra de café cair.
— Shhh! — correu, agarrou a amiga e a puxou pro canto do balcão. — Fala baixo, mulher!
— Eu vi o vídeo — sussurrou Jae, com os olhos brilhando. — Eu. Vi. O. Vídeo.
cobriu o rosto com as mãos, gemendo:
— Eu quero morrer.
— Você beijou o e agora o mundo inteiro sabe! — Jae sacudiu os ombros dela, empolgadíssima. — O . . Cê tem noção do que isso significa? Isso é mais bombástico do que o divórcio da Shakira!
arfou, dramática:
— Eu só queria um turno normal. Uma fornada de muffins. E agora virei meme.
, você viralizou! É a figurante mais famosa de Los Angeles! — Jae arregalou os olhos, rindo. — Daqui a pouco vão criar uma tag tipo #Dora ou sei lá!
— Não fala isso. — murmurou, pálida. — E se eu nunca mais conseguir um trabalho depois disso?
Jae se acalmou por um segundo, e segurou as mãos da amiga com carinho.
— Ou… — ela disse, com aquele jeitinho esperançoso que só ela tinha — e se isso for só o começo?
engoliu em seco. E, no fundo, soube que não tinha mais como voltar atrás. O mundo tinha visto.

🎬💕


O escritório de Oliver Grant refletia exatamente quem ele era: elegante até o osso. Minimalista, luxuoso, estratégico. Nenhum objeto fora do lugar, nenhuma cor sem função. As paredes de vidro deixavam a vista panorâmica de Los Angeles roubar a cena, com o sol filtrado pelas cortinas pesadas criando um brilho dourado quase cenográfico. Era um ambiente feito para vender poder.
Mas nem todo aquele equilíbrio impecável foi capaz de conter a tempestade que andava de um lado para o outro no carpete de lã italiana.
.
Camisa cinza amassada, jeans escuros, o cabelo ainda úmido de um banho apressado que não conseguiu fazer o que ele mais precisava: esfriar a cabeça. Seu maxilar estava travado. As mãos inquietas. E o olhar, puro incêndio.
Num gesto brusco, ele jogou o celular sobre a mesa de madeira escura. A tela, como uma provocação cínica, exibia o vídeo do beijo em looping.
— Isso tem que parar, Oliver. — a voz saiu baixa, tensa, carregada de veneno contido. — Tem que sumir. Agora.
Oliver Grant sequer piscou. Sentado com a coluna ereta, perfeitamente alinhado ao centro da poltrona de couro, limitou-se a ajeitar os punhos da camisa com calma calculada. Nem olhou para o celular.
— Impossível. — respondeu, num tom quase clínico. — O vídeo foi replicado mais de duas mil vezes em menos de uma hora. Agora já são milhões. Apagar isso seria o mesmo que tentar impedir a chuva com um guarda-chuva furado.
soltou uma risada seca e passou a mão nos cabelos, mais irritado consigo mesmo do que com o mundo.
— Eu construí uma carreira inteira sem um único escândalo, Oliver. Uma. Carreira. Inteira. Você tem ideia do que é isso? Sem paparazzi. Sem boatos de namoro. Sem nada fora do script.
— Eu sei. — Oliver respondeu, com um aceno contido. — E por isso você é quem é. E por isso também… que esse vídeo virou o que virou.
se virou abruptamente, os olhos faiscando.
— Eu não quero fama assim. Não preciso disso.
— O mundo não funciona mais com o que você quer, . Funciona com o que explode.
O ator começou a andar de novo, os passos pesados no carpete macio. Seu corpo todo era tensão — como se estivesse prestes a lançar um soco em alguém ou em si mesmo.
— Ninguém nunca me pegou com ninguém. Nunca fui esse tipo de matéria. E agora? Agora eu sou o maldito "homem do beijo misterioso"?
— A internet prefere chamar de "o beijo que parou Los Angeles", mas tudo bem — disse Oliver, sem alterar o tom, deslizando as notificações no tablet como se estivesse analisando ações na bolsa.
bufou alto.
— Eu nem sei o nome dela.
— E precisa? — Oliver rebateu, levantando uma sobrancelha. — O mistério é o charme.
— Isso é um pesadelo — murmurou, esfregando o rosto com as mãos. — Eu não entendo… como deixei isso acontecer. Aquilo foi um erro. Um impulso. Eu não sou assim.
Oliver fechou o tablet com um leve estalo e se recostou na cadeira, observando o cliente com a paciência de quem assiste a um jogo de xadrez.
— Foi um erro técnico. Um mal-entendido de set. Simples assim.
virou de costas, encarando a cidade que se estendia do outro lado do vidro. Mas não havia paz naquela vista. Nenhuma explicação plausível o convencia por completo.
Porque, no fundo, o que mais incomodava… era o fato de ele ainda estar pensando naquilo.
Naquela garota.
Na sensação.
Na pergunta que não saía da cabeça: por que diabos eu beijei ela daquele jeito?
Oliver cruzou os braços com leveza. Estava deixando queimar um pouco antes de jogar a próxima carta.
— Confia em mim — disse, enfim, com o tom de quem já estava cinco passos à frente. — Eu vou resolver.
se virou devagar, desconfiado.
— E isso quer dizer o quê, exatamente?
Oliver apenas sorriu.
— Ainda não é hora de te contar.
Mas nos olhos dele… já havia uma ideia em construção. E, como sempre, isso só significava uma coisa: problemas à vista.

O sino da porta do Luna’s Coffee & Bakery tilintou mais uma vez naquela manhã, mas mal ouviu. De costas, empoleirada no banquinho atrás do balcão, ela repunha xícaras nas prateleiras, tentando focar em qualquer coisa que não fosse o X.
"Se eu ficar quieta, tudo passa. Ninguém vai me reconhecer."
Respirou fundo. Ajustou o coque alto no puff. Virou-se para o balcão com um sorriso treinado.
Mas algo… estava errado.
Os cochichos. Os olhares furtivos. O casal na fila trocando risadas cúmplices enquanto espiavam a tela do celular e depois… ela.
engoliu seco e forçou o foco. Avançou para atender o próximo cliente. Um homem de boné e óculos escuros se aproximou com o celular na mão, o corpo ligeiramente curvado como quem não quer parecer óbvio.
Antes que pudesse dizer “bom dia”, ouviu o clique.
O som seco da câmera.
O sangue escoou das extremidades do corpo. A garganta secou.
O homem sorriu, agradeceu como se nada tivesse acontecido e saiu quase trotando pela porta. ficou parada por um segundo, sentindo o coração bater no lugar errado. Depois, largou a caneca na pia e se forçou a seguir. Um pedido, dois. Açúcar. Guardanapos. Limpeza das mesas. Tudo feito no automático, como uma atriz que esqueceu o texto, mas ainda precisa sorrir no palco.
As horas se arrastaram, pesadas, sufocantes. O café enchia e esvaziava como ondas. Mas não via mais nada. Não ouvia. Era só o som da própria respiração curta e o coração pulsando feito alarme disparado.
Por volta das seis da tarde, a porta se escancarou com força, abrindo espaço para um redemoinho azul.
Park Jae-min.
... — sussurrou, já atravessando o salão e puxando a amiga para trás do balcão. Os olhos arregalados, o celular tremendo nas mãos. — Te acharam.
A brasileira pegou o aparelho.
Ali, na tela iluminada, uma foto nítida: ela de avental, atrás do balcão do Luna’s. Servindo café. Olhar distraído. E abaixo, a legenda que acabou de implodir o pouco de anonimato que restava:
A garota do vídeo foi localizada. Luna’s Coffee, LA. #MisteryGirl

— Não, não, não, não… — sussurrava, os olhos fixos na tela, a pele empalidecendo como se o sangue tivesse desistido.
Mrs. Jenkins surgiu da cozinha, secando as mãos num pano já gasto.
— O que está acontecendo? Por que tem gente parada do lado de fora?
correu para a vitrine. Do outro lado do vidro, quatro fotógrafos já se posicionavam com câmeras gigantes. Um deles ajustava a lente. Outro apontava direto para a entrada.
— Paparazzi… — a voz de saiu quase sem som. Ela recuou, tropeçando nas cadeiras, puxando o avental como se quisesse desaparecer dentro dele.
— Eles me acharam. Eu... eu não posso ficar aqui.
Mrs. Jenkins se aproximou e segurou os ombros dela com firmeza, os olhos pequenos mas determinados.
— Respira, . Você está segura. Aqui, ninguém toca em você.
Jae apertou a mão da amiga.
— Calma, . A gente vai pensar em alguma coisa. Vai sair dessa.
olhou para as duas, desesperada, os olhos começando a marejar.
— Eu só queria sumir…
Do outro lado da cidade, Oliver Grant estava sentado calmamente em seu escritório com vista para LA. O gráfico de engajamento no tablet subia como foguete.
— Localizem a garota — disse ao telefone, o tom sereno de quem já previa o caos. — Discretamente. Agora.
De volta ao café, tirou o avental com os dedos trêmulos. Cada movimento era mais difícil que o anterior. Jogou a jaqueta sobre os ombros, a bolsa atravessada no peito.
Respirou fundo. Uma vez. Duas.
Empurrou a porta.
A rua era um teatro de horrores. Flashes estouraram de imediato — clique-clique-clique — como se o som fosse parte de uma guerra invisível. se encolheu, abaixando a cabeça. Tentou puxar o capuz, se proteger.
! — Jae apareceu como um escudo humano, puxando a amiga pela mão. — Rápido, vem comigo!
Mrs. Jenkins, sem perder a compostura, posicionou-se na entrada como uma muralha.
— Deixem ela em paz! — gritou, voz firme. — Vão arrumar outra vida pra arruinar!
tropeçou no meio-fio, os flashes piscando sem dó.
Foi quando notou.
Um carro preto. Estacionado do outro lado da rua. Discreto. Luxuoso. E com as janelas escuras.
O vidro traseiro abaixou devagar.
Lá estava ele.
. Óculos escuros mesmo de noite. Maxilar tenso. Ombros rígidos. O olhar, impossível de decifrar. Nem raiva, nem empatia. Apenas… algo.
A porta do carro se abriu. A voz do motorista ecoou:
— Senhorita, por favor. Entre logo.
congelou. Os paparazzi aumentaram o ritmo. Gritavam perguntas. Alguns já começavam a atravessar a rua. Ela olhou para Jae, que estava vermelha de exaustão. Olhou para Mrs. Jenkins, ainda protegendo a porta do café como uma guardiã de armadura invisível.
Depois… olhou para . Que não dizia nada. Só esperava, como se soubesse que ela não tinha mais escolha.
A garganta de fechou. Os olhos ardiam. As mãos tremiam.
Mas ela deu o passo.
Entrou no carro.
E o mundo, do lado de fora, explodiu em cliques.

💋📸





— Vai, ! Anda! — Jae praticamente empurrou a amiga pelo braço, enquanto as câmeras disparavam flashes incessantes. — Antes que eles te engulam viva!
olhou uma última vez pra Jae e pra Mrs. Jenkins, que tentavam, em vão, bloquear os fotógrafos com os corpos, e respirou fundo. As mãos tremiam, as pernas também, mas ela foi.
Subiu no carro preto, quase tropeçando nos próprios sapatos, e entrou apressada, batendo a porta atrás de si como se o som abafado pudesse, de alguma forma, calar o caos lá fora.
O silêncio dentro do veículo era tão sólido que poderia ser cortado com uma faca.
No banco traseiro, estava lá. Sentado. Perfeito demais. Impecável demais. Com aquele maldito par de óculos escuros, mesmo à noite, e a expressão travada, como se cada músculo do rosto estivesse em modo de contenção.
se encolheu no canto oposto, o mais longe possível dele. Encostou no vidro, puxou a bolsa contra o colo como se aquilo fosse algum tipo de escudo e evitou, a todo custo, olhar na direção dele.
O motorista deu partida. Do lado de fora, o som abafado dos cliques e dos gritos dos paparazzi foi ficando para trás, mas a tensão dentro do carro parecia se agarrar às paredes, apertando o peito dela.
apertou os olhos, respirou fundo e tentou se convencer de que aquilo era apenas mais uma situação surreal da qual, em breve, acordaria, mas não estava dormindo.
O cheiro dentro do carro era uma mistura de couro novo, perfume caro e… . Maldito fosse aquele cheiro bom.
não disse uma palavra. Apenas cruzou os braços, apoiou uma das pernas sobre o joelho e manteve o olhar reto, encarando o nada. Pelo menos parecia. Porque, vez ou outra, sentia aquele olhar escorregar, como se ele a observasse de canto, mesmo sem virar o rosto.
Ela apertou mais a bolsa em seu colo.
Ótimo, — pensou, mordendo o lábio inferior. — Só faltava isso. Ficar trancada num carro com o homem que, até ontem, era só um pôster na parede do cinema do bairro. E hoje… hoje é o protagonista do meu colapso existencial.
O silêncio não era confortável.
Não era educado.
Não era nada.
Era só... sufocante.
— Isso... isso é inacreditável. — A voz de quebrou o silêncio, seca, fria, cortante.
nem precisou olhar pra ele pra sentir o peso da reprovação naquelas palavras.
— Um único take. Um. — Ele balançou a cabeça, rindo sem humor. — E você conseguiu estragar tudo.
piscou, lentamente, como se o cérebro precsse de alguns segundos para processar se ela tinha ouvido certo.
— Desculpa? — virou-se na direção dele, incrédula.
Ele tirou os óculos escuros, revelando os olhos castanhos-dourados que agora pareciam ainda mais intensos de perto — e, no momento, carregados de desprezo.
— Era uma cena simples. Uma fala. Uma movimentação básica. Você segue a marcação, diz “desculpe, senhor”, e sai. Mas não... — Ele jogou a mão no ar, irritado. — Você simplesmente... você beija alguém no meio da cena! Quem faz isso?
O choque virou indignação na mesma velocidade de um clique. apertou a bolsa contra o colo, sentindo o rosto queimar, mas não era mais vergonha. Era raiva.
— Você tá falando sério? — Ela arqueou as sobrancelhas, o tom já afiado, com aquele sotaque mineiro surgindo mais forte, carregado pela indignação. — “Eu beijei alguém”? Jura? Porque, na minha lembrança, foram DOIS lábios se encostando, não um. Então, se eu “beijei”, você também beijou, querido.
arregalou os olhos, claramente não esperando a resposta.
— Isso aconteceu porque você não seguiu o roteiro!
— Mentira. — Ela rebateu na hora. — A culpa foi do assistente. Ele gritou a coordenada errada. Eu só fiz exatamente o que ele mandou. Move now, lembra? — Ela cruzou os braços, inclinando o corpo pra frente, como quem estava pronta pra luta. — Se alguém aqui não seguiu o roteiro, foi o seu próprio time. Então parabéns pela logística maravilhosa da sua produção.
Por um segundo, ficou em silêncio. Não porque não tivesse o que dizer, mas porque, aparentemente, não estava acostumado a ser enfrentado. Não naquele tom. Não naquele olhar. Não... por alguém como ela.
Ele respirou fundo, apertando o maxilar.
— Você não faz ideia do que fez.
— Ah, e você faz? — rebateu. — Porque, até onde eu sei, eu não pedi pra viralizar. Não pedi pra estar no trending topic. Não pedi pra ser perseguida por gente que nem sabe meu nome, mas acha que tem direito sobre minha vida.
Ela piscou, respirando com dificuldade, sentindo a mão tremer de raiva, mas não recuou.
passou a mão pelos cabelos, visivelmente perdendo a paciência, mas, no meio da frustração, algo nele travou. Por um segundo, os olhos dele deslizaram pelo rosto dela, demorando mais do que deveriam na curva da boca, no arco da sobrancelha, na maneira como ela segurava a bolsa, como quem segurava a própria dignidade ali.
Coragem demais pra alguém que devia estar intimidada. E isso… isso o incomodava mais do que ele gostaria de admitir. Ele voltou a colocar os óculos, como se aquilo fosse uma barreira física.
— Ótimo. — A voz saiu mais baixa, mas ainda tensa. — Perfeito. Então estamos de acordo: eu não gosto de você, você não gosta de mim. Ótimo ponto de partida.
deu uma rda curta, amarga.
— Finalmente, alguma co em que a gente concorda.
O silêncio que se seguiu parecia mais denso do que o ar. olhava pela janela, fingindo que observava a cidade, quando na verdade estava ocupada demais tentando entender como tinha ido parar na própria versão caótica de uma fanfic ruim.
Até que, de repente, a ficha caiu. O corpo enrijeceu. A testa franziu. Ela se virou na direção dele, com o tom levemente alarmado:
— Onde a gente tá indo, afinal?
, sem tirar os olhos da frente, respondeu no mesmo tom que se responderia a uma pergunta idiota.
— Resolver isso. — Ela arqueou uma sobrancelha.
— “Resolver isso” não é uma resposta. Resolver como? Me jogando no mar? Porque, se for, pode parar o carro agora e me deixar na esquina que é menos humilhante. — Ele bufou, impaciente, apertando o maxilar.
— Se você tivesse dois neurônios funcionando, saberia que fugir não resolve. A gente vai pro escritório do meu agente.
— Seu agente? — soltou uma rda incrédula. — Ah, não. Não. Eu não vou. Não tô te devendo nada. Não sou sua funcionária, nem sua... sei lá o quê. Me leva de volta agora.
, então, virou-se ligeiramente na direção dela, abaixou os óculos até a ponta do nariz, revelando os olhos castanhos-dourados que, no momento, ardiam de irritação misturada com algo que nem ele sabia nomear.
— Ótimo. Você quer que eu te deixe onde? No meio da rua, pros paparazzi te engolirem viva? Ou prefere que eu mande o estúdio acabar com qualquer chance sua de trabalhar em LA de novo? Escolhe, .
Ela arregalou os olhos.
— Você não seria tão baixo.
— Quer apostar? — respondeu, curto e frio, empurrando os óculos de volta pro lugar. — cruzou os braços, respirando fundo, tentando não surtar.
— Você é insuportável.
— E você é um problema ambulante.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, se encarando, como se estivessem decidindo se brigavam mais ou se pulavam um no pescoço do outro. O que, até aquele momento, era metafórico. Talvez.
Por fim, resmungou, recostando no banco, cruzando os braços de novo.
— Só pra deixar claro... eu tô aqui contra a minha vontade.
— Ótimo. — respondeu seco. — Mais uma co que temos em comum.
O carro seguiu em frente, cortando as ruas iluminadas de Los Angeles, carregando dois completos desconhecidos que, naquele momento, tinham uma co muito clara entre eles: eles não se gostavam. Ou… era o que achavam.
O carro desacelerou em frente a um prédio espelhado, com linhas modernas e elegantes que refletiam as luzes da cidade como se fossem parte de uma produção cinematográfica.
olhou pela janela e mordeu o lábio, apertando mais forte a alça da bolsa.
— Claro. — murmurou pra si. — Porque se for pra ser sequestrada emocionalmente, que seja num prédio de luxo.
O motorista abriu a porta e saiu primeiro, absolutamente indiferente à presença dela, como se fosse só... uma entrega, um pacote, uma notificação do celular que ele precva resolver.
hesitou, mas acabou saindo também. Olhou em volta, notando a fachada impecável, as plantas perfeitamente podadas, o hall de entrada todo em mármore branco e dourado, com detalhes em preto.
Quando ela colocou os pés no saguão, uma recepcionista imediatamente ergueu o olhar, e assim que viu , abriu um sorriso profissional, daquele tipo que era treinado para parecer genuíno.
— Senhor , boa noite. O senhor Grant já está esperando no andar de sempre.
— Ótimo. — respondeu, seco, sem retribuir o sorriso.
seguiu atrás, meio pndo com força só pra ter certeza que ele notava sua presença, mas também meio querendo desaparecer no ar.
O elevador se abriu.
E lá estavam eles.
entrou primeiro, encostando-se na lateral, cruzando os braços, olhando fixamente para os números do painel, como se os botões tivessem ofendido alguém.
entrou depois, posicionando-se no canto oposto, segurando a bolsa como se ela fosse seu escudo contra a vida, ou contra ele.
O elevador começou a subir. O silêncio? Ensurdecedor. Só o som mecânico do elevador subindo preenchia o espaço entre eles. fingia olhar pro chão. fingia olhar pro teto. Os dois claramente preferiam estar em qualquer outro lugar do planeta.
O visor marcava: 16º andar. O elevador parou, as portas se abriram e os dois saíram juntos, ainda sem dizer uma palavra.
O corredor era amplo, silencioso, com paredes de vidro, quadros modernos e aquele cheiro clássico de escritório caro, uma mistura de café, couro e dinheiro bem investido.
Uma porta dupla de vidro se abriu automaticamente, revelando o escritório de Oliver Grant.
Minimalista. Sofisticado. Frio. Móveis em tons neutros, paredes brancas, plantas estrategicamente posicionadas e uma estante impecável com livros de negócios, prêmios e mini estatuetas de filmes.
Atrás de uma mesa de mármore preto, Oliver levantou o olhar, ajeitou os óculos e abriu um sorriso perfeitamente calculado.
— Ótimo. Que bom que vocês chegaram. Temos muito o que conversar.
Oliver entrelaçou as mãos sobre a mesa, ajeitou o relógio no pulso e lançou um olhar breve para os dois, um de cada lado da sala, parecendo dois pólos opostos prontos para se repelir a qualquer segundo.
— Bem... — começou, com a calma irritante de quem estava absolutamente no controle. — Eu acho que vocês sabem por que estão aqui.
bufou, cruzando os braços.
— Não vejo como isso é problema meu.
arqueou uma sobrancelha.
— Nem meu. Eu nem deveria estar aqui, pra ser honesta.
Oliver sorriu, profissional, absolutamente imune ao caos prestes a se instaurar. Deslizou o tablet pela mesa, girando a tela para que ambos vissem. Ali estavam os números. Gráficos, notificações, prints de redes sociais, manchetes de sites, stories, tweets, tudo.
— Desde ontem, o vídeo de vocês dois explodiu na internet. — Ele abriu outra aba. — O vídeo já ultrapassou quarenta e três milhões de visualizações somadas em todas as plataformas.
arregalou os olhos, sentindo o corpo gelar.
— Quarenta e três... o quê?
— Milhões, querida. — Oliver confirmou, como se estivesse falando do clima. — E isso em menos de vinte e quatro horas. — Deslizou mais uma aba. — O nome do filme disparou nas buscas. Os algoritmos explodiram. E, adivinhem? — Ele virou o tablet, exibindo uma tela cheia de hashtags — As principais são...
#.
#QuemÉEla.
#Affair.
#OBeijoDoAno.

— O ship tá formado. — Oliver cruzou os braços, satisfeito. — E se eu fosse vocês... começariam a aceitar isso. — passou a mão no rosto, claramente à beira de um colapso.
— Isso é uma piada.
— Sinto dizer que não é. — Oliver respondeu, ainda calmo. — E quanto antes aceitarmos isso, melhor.
apertou o braço da cadeira, sentindo o estômago embrulhar.
— Tá... mas e o que exatamente você quer com isso? — Oliver ajeitou o blazer, como quem se prepara para dar um xeque-mate.
— A solução é simples. E eficaz. — Olhou diretamente para . — Você vai assumir um namoro com ela.
O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que parecia que o mundo parou de girar por alguns segundos. arregalou os olhos. quase engasgou.
— O QUÊ?! — eles gritaram juntos.
— Vocês dois. — Oliver gesticulou com elegância. — Juntos. Publicamente. Um casal.
— Você tá maluco. — levantou, rindo sem humor. — Isso não vai acontecer.
— Nem morta. — rebateu, levantando quase ao mesmo tempo. — Isso é loucura. Eu nem conheço esse cara!
— E nem eu quero conhecer você! — disparou, virando pra ela.
— Ótimo, o sentimento é recíproco, Sr. Eu-sou-perfeito-demais!
— E você é um desastre ambulante!
— Pelo menos eu não fico andando com um palito enfiado no...
— Chega! — Oliver levantou a mão, firme, interrompendo os dois. — Vocês podem se odiar o quanto quiserem. Na verdade, é até melhor que se odeiem. Faz parte do charme.
piscou, incrédula.
— Parte do... quê?!
— Vocês não estão entendendo. — Oliver se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na mesa. — Isso não é só sobre vocês. É sobre imagem. É sobre controle de narrativa. O vídeo saiu do nosso controle, ou vocês assumem esse relacionamento publicamente... ou isso vai virar uma guerra.
Ele virou para .
— Você nunca teve um escândalo, nunca teve um affair público. E agora, pela primeira vez, o mundo inteiro tá te olhando de uma maneira diferente. E você sabe o quanto sua imagem vale.
Depois, olhou pra .
— E você... bem, você é a garota misteriosa que virou o assunto mais comentado do planeta. Isso pode destruir sua vida, . Ou... abrir portas.
O silêncio pesou de novo. massageava a testa, claramente lutando contra cada fibra do próprio ser. cruzou os braços, apertando os lábios, o peito subindo e descendo rápido, como se faltasse ar.
— Isso é um absurdo. — rosnou.
— É surreal. — completou.
— Perfeito. — Oliver sorriu. — Então estamos todos de acordo.
Os dois viraram ao mesmo tempo pra ele, em uníssono:
— De acordo em quê?!
— Que vocês não se gostam. — Oliver ajeitou o tablet, satisfeito. — E é exatamente por isso que vai funcionar.
— Esquece. — jogou as mãos pro alto, dando alguns passos pela sala. — Eu não vou fazer isso. Nunca precisei desse tipo de farsa na minha carreira e não vai ser agora que vou começar.
Oliver cruzou os braços, impassível.
— Sério? Vai me dizer isso com aquela tela ali mostrando o seu nome no trending mundial por causa de um escândalo?
— Isso não é um escândalo! — retrucou, visivelmente irritado. — Foi um erro! Um maldito erro de marcação!
— O mundo não se importa com erros, . — Oliver rebateu, seco, apontando pro tablet. — Eles só enxergam narrativa. E, neste momento, a narrativa é essa: você e ela. O galã intocável e a garota misteriosa. O público tá obcecado. E se você não assumir o controle disso agora, eles vão assumir por você.
cruzou os braços, respirando fundo, tentando não surtar.
— Olha... eu não sei vocês, mas isso tudo é completamente insano. Eu sou atriz, mas eu não sou famosa. Eu nem queria estar aqui! — gesticulou, perdida entre indignação e pânico. — E, sinceramente, eu não tenho nada a ganhar com isso.
Oliver deslizou uma pasta preta elegante sobre a mesa.
— Tem, sim. — piscou, desconfiada.
— O que é isso?
— Um contrato. — Ele respondeu, calmo, puxando a tampa e revelando as folhas cuidadosamente alinhadas. — Acordo temporário. Você entra nesse namoro de fachada, cumprimos algumas aparições públicas, postagens nas redes, eventos... e, em troca… — Ele deslizou uma página específica na direção dela, apontando com a caneta. — Você recebe um suporte financeiro confortável durante o tempo do contrato, além de uma co que, imagino, te interesse muito mais.
franziu a testa.
— O quê?
Oliver sorriu, persuasivo.
— Representação. Eu te coloco nos melhores workshops de atuação em LA. Cursos, testes, audições. Você passa a ter acesso a portas que, sozinha, levaria anos pra abrir. Se quiser mesmo ser atriz... este é o seu passe de entrada. E, claro, uma participação especial no filme que estamos gravando, não uma figuração, mas um papel de relevância.
ficou em silêncio. As mãos apertaram o tecido da bolsa no colo. A garganta parecia fechar. Porque, sim... uma parte dela queria. Queria muito. Só não sabia se queria desse jeito.
apertou o maxilar, observando tudo. A princípio, achou que ela fosse se jogar na proposta. Era o que qualquer um faria, certo? Mas, olhando melhor... percebeu que não era bem isso.
O desconforto dela não era encenado. Ela não estava ali por dinheiro. Ela só queria... paz. Queria que sua vida voltasse a ser dela.
O olhar dele suavizou, mesmo que por um segundo. Uma pontinha minúscula de respeito acendeu, escondida entre camadas de irritação.
— E se eu não quiser? — perguntou, a voz mais baixa, quase engolida pelo próprio receio. — E se eu só quiser... sumir?
Oliver respirou fundo, firme, direto.
— Você viu o que tem lá fora. A sua cara já tá em todo lugar, dora. Você não tem mais como desaparecer. Você só tem como decidir: ou é você quem controla essa história... ou deixa eles controlarem por você.
O silêncio que se seguiu parecia esmagador. olhou pra . olhou pra ela. Duas pessoas que não se conheciam. Que não queriam se conhecer, mas que, agora, estavam no meio de um furacão que não pediram pra entrar.
E, de algum jeito, iam ter que decidir se encaravam isso juntos... ou deixavam o mundo engoli-los vivos.
esfregava as têmporas, claramente processando se deveria aceitar o que, até cinco minutos atrás, parecia impensável. apertava a bolsa no colo como se ela fosse capaz de segurar não só seus pertences, mas também sua sanidade.
Nenhum dos dois queria isso. Nenhum dos dois pediu por isso.
Mas o mundo não se importava.
Oliver, do outro lado da mesa, esperava. Paciente. Calmo. Imperturbável. Como quem já sabia, desde o começo, que o resultado seria exatamente esse. E foi quem quebrou o silêncio. A voz saiu seca, dura, cortante.
— Que fique claro... — Ele olhou diretamente pra , os olhos semicerrados. — Eu tô fazendo isso pra proteger minha carreira. Só isso.
segurou o olhar dele, cruzando os braços.
— E que fique igualmente claro que eu tô fazendo isso pra proteger minha vida. Minha paz. Minha sanidade. E, se por acaso, isso abrir alguma porta... ótimo. Mas não se iluda, . Eu não tô nem um pouco feliz de estar aqui.
Os dois se encararam. Um duelo silencioso. Nenhum dos dois piscava. Oliver, satisfeito, puxou o contrato, girou para que eles vissem, e estendeu a mão entre os dois.
— Então… temos um acordo?
apertou a mandíbula, respirou fundo, e lentamente estendeu a mão. olhou pra mão dele, respirou fundo também, hesitou por um segundo, talvez esperando se ainda havia uma chance de acordar e descobrir que tudo isso era só um delírio coletivo.
Mas não era.
Com um suspiro resignado, também estendeu a mão, encontrando a dele no meio do caminho. O toque foi rápido, firme, quase ríspido, mas era um aperto de mãos. E, com ele... um acordo estava selado.
— Ótimo. — Oliver sorriu, triunfante. — Então… senhores... parabéns. Vocês estão oficialmente namorando.
soltou a mão no mesmo segundo, limpando a palma na perna da calça como se aquilo fosse capaz de apagar o contato. respirou fundo, cruzou os braços de novo, e desviou o olhar, visivelmente irritado — ou desconfortável... ou os dois.
— Isso é surreal. — resmungou.
— Você não faz ideia. — respondeu, sem olhar pra ela.
O jogo estava oficialmente em andamento. O roteiro mais caótico que suas vidas já haviam visto… e nenhum dos dois estava preparado pro que vinha a seguir.





Naquela noite, o quarto parecia ainda menor que o normal. As paredes finas deixavam passar o som do rádio da vizinha, alguma canção romântica fora de hora, e um dos gatos da Dona Maria miava alto por alguma injustiça felina desconhecida. Mas dora mal registrava os sons.
Estava sentada na cama, de moletom velho, cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão que oscilava entre o riso nervoso e o desespero puro. As folhas do contrato estavam espalhadas sobre o colchão como cartas de tarô jogadas por um destino debochado. E, do canto do quarto, veio a voz da única pessoa no mundo que podia rir com ela daquilo tudo sem parecer cruel.
— Então você entrou no carro do . Foi parar num escritório de gente rica. Assinou um contrato. E agora vocês estão... namorando?
Park Jae-min, enrolada num cobertor florido emprestado da Dona Maria, segurava uma caneca de chá e os olhos arregalados como se estivesse assistindo ao final de uma temporada de dorama. Tinha chegado poucas horas antes, assim que ligou em pânico, disparando um: “eu assinei um contrato de namoro fake com um ator famoso e vou surtar”. Jae largou tudo, pegou uma muda de roupa e correu pra lá. Dona Maria, cúmplice e serena, a deixou entrar com um sorriso e um pote de biscoitos. Agora, ali sentadas no caos, seria uma daquelas noites em que elas dividiriam não só o colchão inflável, mas também o peso do absurdo.
— Tecnicamente — respondeu, jogando o corpo pra trás —, estamos só em uma “parceria midiática de cunho afetivo performativo”. O que quer que isso signifique.
— Significa que você tá vivendo o enredo da fanfic que eu leio escondida às duas da manhã. — Jae deu um gole no chá, com os olhos brilhando. — Isso aqui é irreal. Surreal. Inacreditável. Eu te odeio e te amo ao mesmo tempo.
girava a caneta entre os dedos como quem girava uma granada sem o pino.
— Quer me ajudar a rir da minha própria desgraça? — perguntou.
— Sempre. — Jae se levantou, sentou-se ao lado da amiga e apoiou a caneca na mesinha improvisada com a solenidade de quem ia testemunhar um crime.
respirou fundo e começou. A primeira linha já vinha com pompa:
“Contrato de Parceria Midiática entre e .”
— Parceria midiática… — murmurou, arqueando uma sobrancelha. — Nome bonito pra “namoro fake com cláusulas de humilhação pública.”
— Dá até pra virar título de série da Netflix — Jae comentou. — Uma mistura de romance e desespero jurídico. Produzido por Shonda Rhimes.
Viraram a página.
Cláusula 2: O casal deverá realizar ao menos duas postagens mensais conjuntas nas redes sociais, com linguagem afetuosa.
suspirou sem forças.
— Linguagem afetuosa... tá.
— Espero que emojis de café e silêncio passivo-agressivo contem. — Jae leu por cima do ombro dela.
Cláusula 4: Comparecimento a no mínimo três eventos sociais por mês, com possibilidade de aparições espontâneas monitoradas pela equipe de imagem.
piscou devagar.
— Espontâneas… monitoradas. Faz todo o sentido.
— É o novo nome da vigilância emocional. — Jae sussurrou. — Big Brother: Versão Casal Falso.
Cláusula 5: Fotos espontâneas devem incluir contato físico leve, como mãos entrelaçadas, toques no ombro, olhares carinhosos. Evitar rigidez corporal.
se encostou na parede e soltou o ar devagar.
— Certo. Nada de cara de pânico nas fotos. Anotado.
— Você vai ter que praticar esse olhar de “estou apaixonada, mas sou discreta”. Treina comigo amanhã?
— Te dou um Oscar se eu não surtar no segundo clique.
Cláusula 7: Evitar manifestações públicas de desentendimento. Discussões devem ser resolvidas em ambientes controlados ou simular reconciliações públicas.
soltou um riso discreto, sem humor.
— Então brigar só em bastidor. Estilo reality show com filtro.
— Se vocês quebrarem o pau e depois postarem uma selfie com a legenda “aprendendo com nossas diferenças”, eu te bloqueio.
Cláusula 10: Evitar críticas públicas ao parceiro. Isso inclui entrevistas, redes sociais e conversas com desconhecidos em locais públicos.
largou a folha no colo, massageando as têmporas.
— Nem no elevador, então. Perfeito. — Jae balançou a cabeça, como quem ainda tentava acreditar.
— Isso não é um contrato. É um manual de contenção emocional.
No rodapé da página, em letras pequenas e muito sérias:
“O não cumprimento das cláusulas pode acarretar multa, quebra de contrato e penalidades judiciais.”
fechou os olhos por um instante, tentando absorver tudo. Depois, se deitou devagar, deixando as folhas espalhadas ao lado como se fossem os destroços de um plano que ela nunca quis traçar.
Ficou encarando o teto por longos segundos, imóvel.
— Você se meteu bonito dessa vez, .
— Você quer dizer... “foi escalada sem querer pro maior papel da sua vida e o roteiro é um surto coletivo”?
— Exatamente.
virou de lado, puxando a coberta até o queixo. O tom agora era quase um sussurro:
— Esse contrato podia ao menos incluir terapia. — Jae se ajeitou no colchão inflável, cruzando os braços sob o cobertor.
— Eu tô aqui. Isso vale? — não respondeu de imediato. Só fechou os olhos.
— Vale muito.
E mesmo sabendo que aquela noite — como todas as que viriam depois — ia ser difícil de dormir, pelo menos ela não estava mais sozinha.
💋📸

O celular vibrou em cima da mesinha improvisada ao lado da cama, interrompendo o silêncio pesado do quarto. Eram pouco mais de oito da manhã e a luz fraca que entrava pelas frestas da cortina não ajudava em nada o senso de realidade. esticou o braço, ainda enrolada no cobertor até o queixo, e destravou a tela com o rosto grudado no travesseiro, os olhos semicerrados, a mente turva e o coração ainda preso em alguma cena mal resolvida do dia anterior.
10:45
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Casal
Oliver Grant, e você

Oliver Grant

Bom dia, casal. ☀️
Que tal um passeio casual hoje? Nada demais, só algo público o suficiente pra manter o burburinho vivo. Um café. Uma caminhada. Um olhar significativo, quem sabe. A imprensa adora esses momentos “espontâneos”. 10:31


leu a mensagem por tempo demais, como se a tela fosse começar a chorar junto com ela. Depois, com a alma de alguém que perdeu uma aposta pro destino, digitou:
10:47
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Casal
Oliver Grant, e você

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Bom dia, casal. ☀️
Que tal um passeio casual hoje? Nada demais, só algo público o suficiente pra manter o burburinho vivo. Um café. Uma caminhada. Um olhar significativo, quem sabe. A imprensa adora esses momentos “espontâneos”. 10:31

Bom dia. Sugestão: uma passagem pra outro planeta.

10:33 Visualizado

A resposta veio em segundos, rápida demais pro nível de sarcasmo que ela estava processando.
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Oliver Grant, e você

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Bom dia, casal. ☀️
Que tal um passeio casual hoje? Nada demais, só algo público o suficiente pra manter o burburinho vivo. Um café. Uma caminhada. Um olhar significativo, quem sabe. A imprensa adora esses momentos “espontâneos”. 10:31

Bom dia. Sugestão: uma passagem pra outro planeta.

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Oliver Grant

Hahaha. Infelizmente os contratos não cobrem Marte, mas cobrem cafeterias em Westwood. Pense nisso. 😉10:41


Outra notificação surgiu logo abaixo.
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Bom dia, casal. ☀️
Que tal um passeio casual hoje? Nada demais, só algo público o suficiente pra manter o burburinho vivo. Um café. Uma caminhada. Um olhar significativo, quem sabe. A imprensa adora esses momentos “espontâneos”. 10:31

Bom dia. Sugestão: uma passagem pra outro planeta.

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Oliver Grant

Hahaha. Infelizmente os contratos não cobrem Marte, mas cobrem cafeterias em Westwood. Pense nisso. 😉10:41

Diz a hora e o lugar.10:43



franziu o cenho. Aquela resposta estava seca, curta, sem reclamações ou ironia. Só… aceitação resignada. Era como ler uma previsão de chuva no meio de uma tempestade e pensar: “tarde demais, já tô ensopada.”
Talvez ele já tivesse entendido o que ela começava a aceitar também: que não adiantava mais espernear. Agora era jogar o jogo, ou ser devorada por ele.
Ela soltou o celular de volta no colchão e encarou o teto por alguns segundos. Ainda era cedo demais pra tanto absurdo. Mas, ao mesmo tempo, tarde demais para fingir que aquilo não estava acontecendo.
Puxou o cobertor até o queixo numa tentativa falha de se esconder do universo. Dois segundos depois, o jogou longe com um suspiro dramático. Sentou-se na cama, mexeu na toca em seu cabelo com as duas mãos e soltou um grunhido abafado.
— Ok, tá tudo bem... — murmurou para o teto, como quem recita um mantra fajuto. — É só um café. Só um passeio. Só uma encenação diante de câmeras escondidas que podem destruir sua vida caso você erre o ângulo do sorriso. Tranquilo.
— Você tá surtando em voz alta de novo ou isso foi só o aquecimento? — veio a voz sonolenta da Jae, vinda do colchão inflável no chão.
Ela se sentou devagar, com os cabelos todos bagunçados e o travesseiro amassado marcando a bochecha. Nos braços, um dos gatos da Dona Maria, largado como se tivesse encontrado o novo lar definitivo.
— Porque, se for o surto completo, me av que eu pego o chá e a câmera. Vai que rende conteúdo.
olhou pra amiga, com o humor de alguém que não tinha mais condições emocionais para ironia, mas aceitou o deboche como sinal vital.
— Bom dia pra você também, Park Jae-min.
— Bom dia nada — ela bocejou. — Aqui é guerra, minha filha. E você vai precr de reforços para encarar esse date fake. Começa abrindo o guarda-roupa. Eu já tô imaginando as legendas dos paparazzi.
— Não vou me arrumar pra ele. — cruzou os braços, encarando o armário aberto como quem encara uma emboscada. — É só um café.
— É um café com câmera escondida e possíveis zooms no seu decote, então vamos respeitar o poder da lente e escolher o figurino com sabedoria — Jae rebateu, já em pé, com o cobertor ainda preso nos ombros e a expressão de uma stylist sob pressão.
caiu sentada na beirada da cama, soltando um suspiro que vinha da alma.
— Se eu aparecer bonita demais, vão achar que eu tô apaixonada.
— E se aparecer feia demais, vão achar que ele tá te pagando com barras de ouro. — Jae puxou uma blusa e franziu a testa. — Isso aqui não. Parece roupa de quem vai implorar emprego.
— Isso é roupa de quem vai implorar emprego — resmungou, cobrindo o rosto com as mãos. — Meu guarda-roupa é um grito de socorro silencioso.
Jae ignorou o drama e seguiu implacável na curadoria.
— Essa aqui é fofa — ela puxou um vestido floral. — Clássico "olha como eu sou leve, gentil e nada sarcástica com homens ricos".
— Credibilidade zero.
— Ótimo. Então vamos subir de nível. — Pegou uma cam branca com corte moderno e uma calça jeans escura. — Simples, estilosa, e com potencial de causar sofrimento emocional em ex-namoradas que verem as fotos.
pegou a roupa como quem recebia o uniforme de uma missão suicida.
— E o rosto? Tem como esconder?
— Não, mas dá pra maquiar o trauma. — Jae já estava ligando o ring light portátil, espalhando os produtos como quem preparava um ritual.
— Isso não é maquiagem, é feitiçaria — murmurou.
— Não se mexe. Hoje você vai parecer que acordou plena, saudável e apaixonada.
— Três mentiras numa frase. Impressionante.
Enquanto a base cobria as olheiras da noite anterior, Jae foi ajeitando com cuidado os cachos da amiga, separando-os com os dedos e modelando com creme até formar um coque alto volumoso, daqueles que gritavam personalidade mesmo no caos. Um toque de gel nas laterais, um grampo aqui e ali, e pronto, estava um desastre emocional... mas com o cabelo impecável. Jae pegou o celular logo depois, o brilho do caos refletido nos olhos.
— Agora vamos ensaiar. Preciso de três sorrisos: o natural, o “tô rindo porque sou educada” e o “tô prestes a matar alguém mas com carinho”.
— Park Jae-min, você é um gênio do mal. — soltou um som entre um riso engasgado e um choro controlado.
— Obrigada. Agora ensaia esse sorriso carinhoso aí ou eu vou botar glitter na sua sobrancelha.
respirou fundo. E sorriu.
Forçado, torto e meio desesperado, mas, pela primeira vez naquela manhã, genuinamente acompanhada.

A cafeteria em Westwood tinha aquela estética calculadamente despretensiosa: madeira clara, luz natural filtrada por janelas amplas e plantas penduradas no teto como se o lugar tivesse saído direto de um feed do Pinterest. O som ambiente era um jazz baixinho, quase tímido, e o aroma de café fresco preenchia o ar com uma promessa de normalidade.
chegou primeiro.
Estava sentado à mesa do canto, de frente para porta, com um capuccino intacto à sua frente e as mãos entrelaçadas sobre o colo. Usava uma cam azul-marinho com as mangas dobradas até os cotovelos e óculos escuros que ele retirou assim que a porta se abriu e entrou.
Ela o viu antes de tudo.
Viu o olhar preciso que a percorreu da cabeça aos pés, a inclinação sutil do queixo e aquele instante em que ele apertou os lábios — quase imperceptível, mas suficiente para fazer seu estômago girar. E ela não soube dizer se era aprovação, rendição… ou só curiosidade. Da mais perigosa.
caminhou até a mesa com passos firmes, mas o coração um pouco mais acelerado do que gostaria de admitir. Jae tinha dado um gritinho de incentivo antes de ela sair de casa, algo entre "arrasaaaa" e "não soca ele em público", o que definitivamente não ajudou.
Ela parou diante da cadeira.
— Chegou cedo — disse.
— Gosto de calcular saídas de emergência com antecedência — ele respondeu, indicando o assento à frente.
Ela sentou. Tirou os óculos de sol devagar, ajeitou os cachos com uma naturalidade estudada, e por um instante, os dois apenas… se olharam. Como se tentassem decifrar o outro sem dizer nada. Como se a qualquer momento alguém fosse gritar “ação”. Mas o roteiro já tinha começado e o contrato não previa pausas dramáticas.
— Então — começou, pegando o cardápio só pra não ficar olhando diretamente pra ele. — A gente vai fazer o quê? Fotos? Um teatrinho? Ou só fingir que a gente se tolera?
apoiou o cotovelo na mesa, o rosto meio virado, observando-a como quem analisava um mapa sem legenda.
— Acho que fingir que a gente se tolera é um bom começo. E depois a gente sobe pra “carinho discreto em público”. Com direito a linguagem afetuosa e toques estratégicos.
— Maravilhoso — ela disse, enfim o encarando. — Parece até que a gente se ama.
O silêncio que veio não era constrangido. Era… carregado. Como se houvesse eletricidade suficiente entre os dois para acender a cidade inteira. O garçom apareceu com um bloco de anotações e um sorriso automático.
— Já sabem o que vão querer? — apontou para o cappuccino de .
— Esse aí tá aprovado?
— Não vou reclamar — ele respondeu, sem tirar os olhos dela.
— Então quero o mesmo.
Quando o garçom se afastou, a conversa se dissolveu de novo. O silêncio era denso. Palavras pareceriam invasivas demais. deslizou o dedo pela borda do copo com água, pensativa.
— Acha que já tem alguém tirando foto? — murmurou, sem olhar pra ele. soltou um suspiro leve, quase um riso sem som.
— Com certeza. Dois, no mínimo. Um no balcão. Outro perto da janela. — Ela ergueu os olhos. Encontrou os dele.
— Você já decorou os pontos de emboscada da cidade?
— Instinto de sobrevivência — respondeu, dando um gole no café. — E porque paparazzi se repetem. Eles acham que são invisíveis, mas sempre usam o mesmo moletom bege.
sorriu, apesar de tudo. E notou.
Por reflexo — ou impulso — ele se inclinou um pouco pra frente, como se fosse dizer algo confidencial. E foi nesse instante que sua mão roçou na dela sobre a mesa. Um toque sutil, de costas, quase sem querer. Quase.
Ambos congelaram.
O mundo pareceu prender o fôlego por um segundo.
não afastou a mão.
também não.
Os dedos ficaram ali, próximos, o calor da pele dizendo mais do que qualquer fala ensaiada. Ela ergueu os olhos lentamente, e ele já estava a olhando. O olhar de era firme, mas vacilou. Só um pouco. O suficiente para entender que ele também sentia, mesmo que lutasse contra.
A tensão entre eles era espessa como névoa. Um fio invisível se esticando entre os dois, prestes a romper… ou puxar. Então, ele afastou a mão com uma tosse forçada. Curta. Eficiente. Como quem se recusa a ceder a algo que não entende, ou que teme demais.
— Vai mesmo ignorar? — perguntou, a voz baixa, quase num sussurro. Ele respirou fundo, recuperando o controle.
— Ignorar o quê? — cruzou os braços e recostou na cadeira com um meio sorriso que não alcançou os olhos.
— Nada. Já passou.
Mas não passou, a tensão agora era parte da mesa, do vapor do café, do espaço entre as cadeiras.
E quando o capuccino dela chegou, os dois estenderam as mãos ao mesmo tempo pra pegar as xícaras, os dedos se tocaram de novo. Dessa vez, direto nas alças.
Outro toque.
Outro segundo longo demais.
— Estamos péssimos em evitar contato físico leve — ela comentou, sem sorrir, mas com os olhos perigosamente vivos.
— Ou talvez a gente esteja ensaiando pra próxima cláusula — ele rebateu, levando a xícara à boca com a expressão tranquila demais para ser real.
O café acabou, mas o silêncio ficou.
pagou a conta antes que pudesse dizer qualquer coisa, o que ela não disse mesmo, porque, no fundo, não fazia diferença. O acordo estava em vigor. E aquele teatrinho romântico? Era só o aquecimento.
Eles saíram juntos pela porta de vidro, e o sol da manhã os envolveu com um calor tímido, daqueles que não queimam, mas avisam que estão ali. A luz dourada caía sobre a calçada como um filtro suave, deixando o mundo quase bonito demais pra ser real.
Algumas pessoas passavam apressadas. Outras só vagavam. Mas, entre elas, disfarçados entre cafés na mão e mochilas nas costas, estavam os olhos que Oliver havia prometido.
olhou de soslaio. Reconheceu dois. Um fingia ler um jornal. O outro bebia um latte com o celular estrategicamente erguido.
— Dois quarteirões — ele murmurou, como quem dá um tempo limite. — Depois disso, pode fugir pra Marte.
— Que pena — respondeu, ajeitando os óculos escuros com a ponta dos dedos. — Eu estava adorando o date supervisionado.
Ele não respondeu ao sarcasmo. Começou a andar ao lado dela com passos calmos, deliberados. O caminhar dos dois era sincronizado, não por hábito, mas por instinto. Como se o corpo de um já soubesse como acompanhar o do outro.
Silêncio.
Mas não era um silêncio vazio.
Era carregado de todas as perguntas não feitas, de todos os olhares que haviam demorado meio segundo a mais na mesa do café. As palavras não ditas caminhavam junto com eles. ajeitou a alça da bolsa no ombro, tentando parecer distraída.
— Acho que um olhar significativo seria bem-vindo agora.
— Vai querer com ou sem toque no ombro?
Ela bufou, rolando os olhos. Ele esboçou um sorriso de canto. E então, sem aviso, estendeu a mão.
Tocou levemente as costas dela. Não como quem precisa, mas como quem quer. O gesto era sutil, quase imperceptível para quem passasse por perto. Mas firme o bastante pra ser sentido, de verdade.
Foi um toque que dizia mais do que qualquer frase de contrato. Ele não precva guiá-la, a calçada era larga, mas fez mesmo assim.
enrijeceu no ato.
Só por um instante.
Depois se permitiu continuar andando, como se nada tivesse acontecido. Como se o toque não tivesse acendido um alerta interno, o tipo que começa na pele e termina no estômago. Ela respondeu com um gesto mínimo: virou o rosto, fingiu um comentário qualquer, e sustentou o olhar dele por tempo demais pra ser só atuação.
— Ótimo. Isso vai render foto de capa. — murmurou.
— Você devia agradecer. Tô usando meu melhor lado.
— Isso é o seu melhor lado? — ela riu, breve. — Tô preocupada com o resto.
Mais alguns passos. A rua adiante se abria em uma esquina que marcava o fim do percurso combinado. Ali terminava o show. Ou, pelo menos, a parte pública dele.
parou.
também.
A respiração dela ficou presa no meio do peito, e ela nem percebeu. Só notou quando ele se virou devagar, inclinando o rosto, o corpo levemente voltado em direção ao dela.
Ela correspondeu no mesmo compasso. Como se uma força invisível desenhasse o movimento. Quem passasse por ali, veria um quase-beijo. A encenação perfeita. O clímax ideal.
Mas havia um detalhe que nem as lentes captariam.
A hesitação.
Aquela fratura imperceptível no tempo. Aquela parte do gesto que era real demais.
— Até a próxima, — ele disse, com a voz baixa, quase grave demais pro horário.
— Vai ser um prazer, — ela respondeu, com um meio sorriso carregado de subtexto. Não era provocação. Era… aceitação.
Eles se afastaram.
Sem olhar pra trás.
Mas o toque na cintura, o calor na nuca, o quase-beijo ainda pulsavam sob a pele de ambos, como se o contrato tivesse uma cláusula invisível escrita à mão, no rodapé de tudo, dizendo: isso vai sair do controle.
entrou no carro com os ombros tensos, como se o ar lá fora tivesse deixado resíduos demais.
O motorista não disse nada — como sempre — e ele agradecia por isso. Só se encostou no banco de trás, puxou os óculos escuros de volta pro rosto e deixou a cabeça pender pro lado, observando as ruas passarem como se precsse que o mundo andasse rápido por ele.
Duas quadras. Quatro fotógrafos. Três toques casuais. Um quase-beijo.
Ele soltou o ar devagar, como quem reconhecia uma verdade que ainda não sabe nomear. Era só um passeio. Uma encenação. O básico de qualquer acordo forjado. E ainda assim… ainda assim tinha algo errado.
.
A forma como ela sustentava o olhar, como não recuava nem quando ele provocava, ou como ela rebatia com ironia o que, em qualquer outra boca, viraria constrangimento.
fechou os olhos por um instante.
Mas o rosto dela continuava ali. Vivo no escuro. Impressionantemente nítido.
Você sabia o que tava fazendo, .
Essa era a parte que ele não dizia nem pra si mesmo. A que ficava atrás da costela, cutucando. Aquela manhã só tinha reacendido algo que ele fingia não ter aceso antes. Mas acendeu. No set. Naquele momento improvável. Quando ela surgiu fora de marcação, e o mundo inteiro perdeu o som por meio segundo.
Ele podia jurar que foi impulso.
Mas não foi.
Beijar naquela cena tinha sido uma escolha irracional, completamente imprudente, mas inescapável. E agora, os juros dessa decisão chegavam em prestações silenciosas: no toque da mão, no arrepio atrasado, no jeito como o nome dela ecoava no fundo da mente mesmo quando ele queria silêncio.
Porque não era só sobre segurar a mão pra câmera, ou sorrir no ângulo certo.
Era sobre o ar ficar mais denso, as respostas mais afiadas e o sangue mais rápido. apoiou o cotovelo na porta e passou a mão pelo rosto, cansado.
Não era nada. Ele sabia, mas o nada dela era mais vivo que o tudo de muita gente.
O carro parou no sinal, e ele se pegou encarando o próprio reflexo no vidro. Estava cansado, confuso, e, acima de tudo, irritantemente… interessado.
Ele bufou, tirando os óculos, e murmurou só para si:
— Você tá ferrado, .
Mas sabia, lá no fundo, que já estava desde o primeiro "ação".

💋📸


As luzes do set já estavam quase todas acesas quando entrou, ainda vestindo a camisa do passeio, como se nem tivesse passado em casa — ou como se o corpo tivesse voltado, mas a cabeça ainda estivesse andando pelas ruas de Westwood.
O estúdio fervilhava. Cabos no chão, vozes sobrepostas, produtores com pranchetas na mão e fones no ouvido, a diretora repassando as marcações com a assistente enquanto uma câmera era posicionada no trilho. O cheiro de maquiagem misturado ao de café velho era tão familiar quanto a inquietação que começava a se instalar sob a pele dele.
No canto, Sienna estava sentada em frente ao espelho iluminado, retocando o batom com a precisão de quem já sabia que seria fotografada, mesmo sem aviso. Os olhos dela encontraram os dele pelo reflexo — rápidos, avaliativos. Mas ela não disse nada. Ainda não.
No camarim, Nick estava largado no sofá como se fosse uma extensão natural do móvel. Camiseta amassada, celular numa mão, energético na outra. O olhar fixo no feed, mas o cérebro claramente já processando tudo que precisava saber.
— Olha só quem voltou da lua de mel... — disse, sem nem desviar o olhar da tela. — Ou seria ensaio de capa da GQ? Você enlouqueceu geral.
jogou a mochila num canto, com um suspiro arrastado. Se sentou na poltrona ao lado como quem carregava peso demais nos ombros. Não físico. Psicológico.
— A internet ainda não superou — Nick continuou, rolando o feed com o polegar. — E agora vem esse passeio matinal com café, troca de olhares e sorrisos em câmera lenta? Cê vai me contar o que tá rolando ou quer que eu mande um e-mail pra assessoria perguntando?
não respondeu de imediato. Pegou a garrafa de água sobre a mesa, girou a tampa, mas não bebeu. Só ficou olhando pro rótulo como se ali houvesse alguma resposta. Algo que organizasse o caos.
— Tá rolando muita coisa — ele disse, por fim. — Mas nada que precise de e-mail.

— Foi só um café, Nick.
— Você quase beijou ela em público, velho. Tipo… em público. Com paparazzi a dois metros de distância. — ergueu os olhos, cansado. Não com raiva. Só… exausto.
— Eu só tô tentando resolver.
— Resolver o quê?
abriu a boca, mas nenhuma resposta veio. Passou a mão pelo rosto, depois pelo cabelo, como se quisesse arrancar os pensamentos pela raiz.
— Tudo.
Nick o encarou por mais alguns segundos. O jeito como o amigo mexia no zíper da blusa de frio que ele tinha trazido, como se precisasse ocupar as mãos pra não explodir por dentro, dizia mais do que qualquer explicação poderia dar conta.
— Cara… você sabe que pode confiar em mim, né?
assentiu, num movimento quase invisível. Mas ficou claro que o “sim” ainda não vinha por inteiro. Porque contar tudo pra Nick significava transformar aquele caos do contrato em realidade. Dizer em voz alta o que ele mal conseguia encarar em silêncio. E parte dele ainda queria acreditar que aquilo era só um desvio de rota. Uma tempestade que ia passar.
Um assistente bateu na porta com a cabeça já enfiada para dentro.
, estamos prontos pro ensaio da cena com a Sienna.
Ele se levantou sem dizer nada. Puxou o casaco como quem vestia um escudo, passou os olhos pelo camarim como se procurasse alguma âncora e caminhou até a porta com passos decididos, ou fingindo que eram.
Mas antes de sair, Nick soltou, com aquela voz que misturava conselhos e cuidado:
— Só tenta não confundir mais ainda a cabeça de quem tá lá fora… ou a sua própria.
parou. Foi só um segundo. Mas o silêncio dele naquele instante carregava um peso que ninguém ali conseguiria traduzir.
Logo depois, continuou andando e a porta se fechou atrás dele, abafando tudo que ainda não estava pronto pra ser dito.
Enquanto isso, no Twitter…
I
Ily
@cinemadaily

e foram vistos tomando café em Westwood e o clima foi… íntimo. 👀

Detalhe: fontes afirmam que os dois se aproximaram nas filmagens após o famoso beijo fora do script. #

10:30 AM · 22 Jul 2025
🔁 2040
❤️ 1028

U
Updates para você
@updates

se isso for encenação, eu quero ser enganada pro resto da minha vida.

10:32 AM · 22 Jul 2025
🔁 1589
❤️ 1280

B
Black Fanpage
@fanpage

cada foto deles hoje tem uma fanfic pronta. o toque. o olhar. AAAAA

10:30 AM · 22 Jul 2025
🔁 5890
❤️ 13600

S
Siena Fanpage
@siennacore

a Sienna acabou de curtir um tweet sobre “quem não valoriza, vê outro valorizando”. Tirem suas próprias conclusões.

10:30 AM · 22 Jul 2025
🔁 9874
❤️ 6489


A cidade ainda nem tinha acordado por completo. Mas o nome deles já estava nos trending topics. As imagens, nos stories dos tabloides, os vídeos, em slow motion editado com música melosa… ninguém sabia mais se aquilo era atuação… ou só o começo de algo que nunca deveria ter sido escrito.





O celular de vibrava sem parar desde antes das nove da manhã. E ela já sabia quem era — só tinha ignorado até o quarto ou quinto aviso. Quando finalmente atendeu, a voz de Oliver veio como um furacão educado:
— Finalmente, . Já tava achando que tinha sido abduzida por alienígenas.
— Eu tava trabalhando — ela respondeu, apoiando o telefone entre o ombro e a bochecha enquanto limpava uma das mesinhas do café. — Lembra? Aquela coisa que gente pobre faz pra sobreviver?
— Exatamente sobre isso que eu queria falar. — O tom dele mudou sutilmente. Agora era mais firme. — Tá na hora de parar.
congelou por um segundo. Depois continuou a limpar, mais devagar.
— Como assim parar?
— O café, . A , barista do Luna’s Coffee & Bakery, tá virando uma distração narrativa. O público quer a que conquistou o coração do no meio de um take improvisado. Aquela que vai em cafés caros com ele. Não a que limpa mesa manchada de caramelo extra.
Ela bufou.
— Ah, claro. Porque autenticidade é tóxica agora.
— Não é isso. — Oliver suspirou. — É sobre consistência de imagem. Você não pode aparecer em manchete com ele de manhã e servir muffin à tarde. O público vai desconfiar. A imprensa já tá farejando contradição.
— Então o que você sugere? Que eu vire uma boneca de cera em tempo integral?
— Não. Sugiro que você aceite o plano original. Nós vamos bancar um apartamento temporário, como previsto no contrato. Um lugar discreto, fora do radar. Você se muda essa semana, avisa sua chefe que tá tirando uma licença e... vive o personagem.
passou a mão na testa, como se quisesse apagar aquela conversa com os dedos.
— Você fala como se não fosse minha vida de verdade.
— E eu falo como alguém tentando garantir que você continue com uma. Com estabilidade, com segurança, com portas abertas. Essa chance é uma em um milhão, . Só precisa confiar no processo.
Ela não respondeu de imediato. Olhou ao redor do café que cheirava a canela e rotina. Ouviu a máquina de espresso chiar ao fundo, o som dos sinos na porta, os risos de clientes habituais. Aquele lugar não era um palco — era o chão onde ela havia aprendido a ficar de pé.
— E se eu não quiser viver um papel?
Oliver foi direto:
— Então vai ter que lidar com o público querendo cortar o filme antes do final. Seu contrato diz que você vai interpretar a namorada do . Isso inclui o figurino, o cenário... e o backstage também.
fechou os olhos por um momento, os dedos apertando o pano da mesa como se fosse a única âncora restante.
— E quando o contrato acabar?
— Você decide o próximo roteiro.
A ligação caiu logo depois, deixando um zumbido de incerteza no ouvido dela. ficou ali, imóvel por alguns segundos, até ouvir a voz da Mrs. Jenkins chamando do balcão:
, querida, pode pegar a bandeja de entrega?
Ela ergueu os olhos devagar, sentindo o chão mais instável do que nunca. Ela estava prestes a tirar um pé da vida que conhecia. E não fazia ideia de onde ia pisar em seguida.
piscou devagar, o pano ainda preso na mão, o corpo meio travado como se cada palavra de Oliver tivesse virado peso nos ombros. A voz da Mrs. Jenkins veio de novo, um pouco mais próxima agora:
? Tá tudo bem, querida?
Ela forçou um sorriso e assentiu, indo até o balcão com passos mais curtos do que o habitual. Pegou a bandeja com um café gelado e uma fatia de bolo de limão para entrega. A etiqueta dizia “Dylan – mesa 7”.
— Eu só… preciso de cinco minutinhos antes de levar isso. Posso?
A senhora de cabelos brancos e olhar gentil franziu a testa por um instante, mas logo sorriu com o mesmo calor de sempre.
— Claro que pode, meu bem. Respira fundo e vai no seu tempo. O Dylan pode esperar um pouco mais pra comer açúcar.
agradeceu com um aceno e se afastou até o corredor dos fundos, entre a porta do estoque e a salinha da geladeira. Ali, o barulho da cafeteria parecia mais distante.
Mais fácil de ignorar.
Mais fácil de desmoronar só um pouquinho.
Ela encostou as costas na parede fria e puxou o celular do bolso do avental. O nome de Jae já estava entre os favoritos. Bastou um toque.
Chamou três vezes.
— Atende, por favor — ela murmurou, os olhos já ardendo sem permissão.
Na quarta, a voz inconfundível da amiga surgiu do outro lado:
— Se for pra contar que você foi presa por socar o , eu tô pronta pra te ajudar a fugir do país.
soltou uma risada trêmula, já com a garganta fechada.
— Eu não soquei ele. Ainda. Mas talvez tenha que fugir do país mesmo assim.
?
— Oliver quer que eu saia do café, Jae. Que eu me mude pra um apartamento que a agência vai bancar. Pra ficar “mais convincente”. Pra viver o script inteiro.
A pausa do outro lado foi curta, mas suficiente pra dizer muito.
— E você… vai?
— Eu não sei. É isso que me mata, sabe? Que uma parte de mim acha que eu tenho que ir. Que é a única saída. Mas a outra parte — ela passou a mão no rosto, limpando umedecido que ainda nem era choro — a outra parte quer ficar aqui. Onde ninguém me trata como personagem.
Jae suspirou fundo, e a voz dela veio mais macia agora:
— Então vamos fazer o seguinte. Termina seu turno. Pega sua mochila. E vem pra minha casa. A gente come hotteok quentinho, vê reality ruim e decide juntas se você vai virar figurante do mês ou estrela em fuga.
fechou os olhos por um segundo, pressionando a cabeça contra a parede.
— Você é minha âncora, sabia?
— Eu sou sua Park Jae-min, amor. Tá tudo incluso no pacote: colo, conselhos e panqueca doce com calda de açúcar e noz.
Ela sorriu, finalmente, sentindo o mundo girar só um pouco mais devagar.
— Tá bom. Te ligo quando sair daqui.
— Estarei com o hotteok pronto. E com opiniões fortes.

🎬⭐🎥


A noite já tinha caído por completo quando bateu à porta do apartamento dos pais da amiga. O cheiro doce de canela e açúcar mascavo invadiu suas narinas antes mesmo que a porta se abrisse por completo.
— Você realmente fez hotteok — ela murmurou, com os olhos brilhando de cansaço e desejo.
Jae abriu a porta com um avental florido e um coque bagunçado no topo da cabeça.
— Eu prometo e eu cumpro. Entra logo antes que a calda endureça.
entrou, largando a mochila no chão com um suspiro profundo. Tirou os sapatos, sentou-se no sofá com o corpo pesado, e aceitou o pratinho de panqueca recheada como se fosse um troféu.
— Isso devia ser considerado antidepressivo natural.
— A ciência ainda não me reconheceu, mas um dia chega — Jae respondeu, acomodando-se ao lado dela com a própria porção.
Ficaram em silêncio por alguns segundos, mastigando devagar, deixando o açúcar colar na alma.
A caneca de chá estava quase vazia, e ainda segurava o celular como se as mensagens do Oliver pudessem morder.
— Eles estão certos — Jae disse, largando o travesseiro que usava como encosto. — Você tem que sair da casa da Dona Maria. E tem que sair do café também.
virou o rosto devagar, como quem esperava qualquer coisa, menos apoio naquele surto.
— Jae…
— Eu sei que você ama a Dona Maria, e eu também amo aquele café com cheiro de infância e grãos queimados. Mas você não pode viver a vida de uma figurante com talento de protagonista.
bufou, jogando a cabeça pra trás.
— E fazer o quê? Virar celebridade de mentira?
— Não é de mentira se a porta for real. E você tá com a porta escancarada na sua cara. Aliás, você tá com um outdoor piscando escrito “Oportunidade Única, Entra Logo, Mulher”.
— Eu só não quero parecer…
— Interesseira? Golpista? Subir pelas beiradas?
fez que sim, os olhos fixos no teto.
— Amiga, você já passou do ponto de pegar carona. Agora é você quem dirige. — Jae estalou os dedos, encostando de lado na parede. — E olha só, meus pais estão em Busan visitando a vovó, então você pode dormir aqui quantas noites quiser até decidir o que vai fazer. Paz, silêncio e zero julgamento.
— E se tudo isso der errado?
— E se não der? — Jae rebateu, sem hesitar. — Você tá literalmente namorando, mesmo que com cláusulas contratuais, um dos homens mais famosos do planeta. Você acha mesmo que vai conseguir manter o pé no chão vendendo muffin de banana pra influencer deprimida?
— Eu sou boa com muffins…
— E melhor ainda com cena dramática. Pelo amor dos deuses do cinema independente, sai dessa vida de assalariada, . Você foi feita pra mais.
ficou em silêncio por um tempo. O olhar distante. Os lábios trincando um sorrisinho tímido.
— E se eu cair?
— Eu te seguro — Jae respondeu, sem pestanejar. — Ou te empurro de vez, dependendo da cena. Mas você não vai estar sozinha.
O celular vibrou mais uma vez. não olhou. Pela primeira vez naquela noite, ela apenas respirou fundo. E pensou que talvez, só talvez, estivesse na hora de abrir a tal porta.

🎬⭐🎥


As luzes do set ardiam como holofotes de julgamento. piscou algumas vezes, tentando encontrar foco no script mental que conhecia tão bem — mas as falas pareciam flutuar, distantes, embaçadas. A câmera já estava posicionada. Sienna na marca. A claquete já tinha batido. E ainda assim… algo não encaixava.
— Vamos de novo — disse o diretor, com um sorriso treinado, mas o tom já carregava um quê de irritação. — , tenta jogar mais no olhar, ok? A química aqui é essencial.
Química.
A palavra bateu fundo, quase como um tapa.
Sienna cruzou os braços, ainda no personagem, mas com aquele brilho nos olhos que nunca era só atuação.
— Acho que meu charme parou de funcionar? — provocou, arqueando uma sobrancelha. — Ou você deixou ele lá no café da manhã com a sua “namoradinha” ontem?
manteve o rosto impassível, mas algo se contraiu dentro dele. Raiva. Culpa. Confusão.
— De novo — ele murmurou, voltando à posição de marcação.
A próxima tomada foi um pouco melhor. Ele disse as falas. Tocou o braço dela no momento certo. Manteve o olhar. Fez tudo que deveria fazer. Mas estava atuando demais. E não do jeito certo.
Porque enquanto Sienna falava de amor impossível, tudo o que vinha à cabeça de era o riso da no café. O toque breve dos dedos. A forma como ela olhou pra ele como se o estivesse lendo por dentro.
Merda.
Era só um contrato. Uma jogada. Um plano. Então por que ele não conseguia… desativar?
— Corta. — O diretor suspirou. — , precisamos de presença, não só marcação. Essa cena é o clímax emocional do filme. Vocês dois têm uma história aqui. Um passado. Conflito e desejo misturados. Me dá alguma coisa.
Sienna jogou o cabelo pro lado, fingindo paciência.
— Eu tô dando tudo que posso, boss. Talvez só esteja batendo em parede.
apertou a mandíbula, olhando pro chão por um instante. Inspirou fundo. Tentou se resetar. Mas o problema era que ele sabia exatamente qual era o rosto que estava projetando em cena. E não era o da Sienna.
Era .
A forma como ela franzia a testa antes de responder. O sarcasmo sutil. O olhar que não desviava. E, principalmente, o toque. Aquele toque leve na mão, na cintura. Nos lugares exatos onde a memória dele insistia em repetir em loop.
Droga.
Ele não podia deixar aquilo atrapalhar.
Não agora.
— Vamos de novo — disse, mais firme, erguendo o olhar para a câmera. — Eu acerto dessa vez.
Mas por dentro, o caos já estava armado. Porque pela primeira vez em muito tempo, estava se perguntando se ainda sabia separar o roteiro da realidade.
E se a linha estivesse ficando… tênue demais?

🎬⭐🎥


O laço do avental apertava mais que o normal. Ou talvez fosse só a sensação de estar vivendo uma vida que já não servia nela. ajeitou a tira no pescoço, mas o desconforto seguia grudado na pele como um papel mal colado.
A conversa com a Jae ainda ecoava entre os pedidos de capuccino e os cliques disfarçados de celulares alheios. “Não faz sentido você viver como figurante da própria história quando pode ser protagonista, .” A amiga tinha razão — como sempre — mas colocar isso em prática era outra coisa. Pedir o desligamento, mudar de casa, sair da órbita da Dona Maria… Parecia simples na teoria. Mas na prática, era como puxar um tapete que ainda segurava os cacos da segurança.
O sino da porta tilintou. nem precisou olhar pra saber que alguém a reconheceu. O silêncio que veio logo depois foi mais barulhento que o sino. Olhares. Cochichos. O tipo de atenção que não pedia autógrafo, só julgamento.
Ela respirou fundo, tentando lembrar por que ainda estava ali. Talvez por apego. Talvez por teimosia. Ou talvez porque abandonar tudo de uma vez só ainda parecia assustador demais — mesmo quando tudo gritava que era hora.
Mas o problema de segurar demais alguma coisa é que, uma hora, começa a doer.
— É ela, a do vídeo.
A bandeja tremia um pouco entre os dedos. Ela se obrigou a manter o sorriso.
Os cochichos eram mais altos agora. Olhares menos disfarçados. Algumas pessoas pediam café. Outras pediam foto. Uma chegou a pedir "só um story dizendo oi".
Ela negou com delicadeza.
E pagou caro por isso.
Porque, no minuto seguinte, o vídeo já rodava no X, com a legenda:
“Achei que ela fosse legal, mas nem um ‘oi’ deu. Namorar famoso mexe mesmo com a cabeça, né?”
#Ithan #Decepção
O celular vibrava no bolso de trás. Insistente. Quase como se avisasse: Você não vai conseguir fugir disso.
Ela se enfiou atrás do balcão, respirou fundo, e só depois atendeu.
— Fala, Oliver.
… a gente precisa conversar.
Ela já reconhecia aquele tom. Era o mesmo de ontem. E de anteontem. Mas hoje vinha com um toque extra de impaciência.
— Se for sobre o vídeo, eu recusei educadamente. Eu tava atendendo mesa, Oliver. Não dá pra virar personagem de parque temático toda hora.
— Não é sobre educação, . É sobre imagem. Percepção. Você tá viralizando como “estrelinha que subiu a cabeça” e isso não combina com a narrativa de garota comum que caiu no colo da fama.
Ela fechou os olhos, os dentes cerrados.
— Eu tô tentando segurar as pontas aqui. Só mais dois dias e eu saio do café.
— Devia ter saído ontem. Sinceramente? Você ainda trabalhando aí só reforça a ideia de que você não entendeu o tamanho disso tudo. , você tá namorando, entre muitas aspas, um dos atores mais conhecidos do mundo. Não faz sentido.
mordeu o lábio. Queria retrucar. Queria dizer que ela era uma figurante. Que esse era o único lugar em que se sentia no controle. Mas já não era mais verdade.
— Tá. O que a gente faz agora?
Oliver respirou fundo do outro lado da linha, como quem ia jogar a bomba com cuidado.
— Primeiro: um tweet. Algo simples, direto. “Ainda me acostumando com tudo isso. Obrigada por tanto carinho”. Tem que parecer espontâneo, mas precisa ser calculado.
— Claro — ela respondeu, a voz já cansada antes mesmo de digitar qualquer letra.
— Depois… vamos precisar de uma imagem com o . Algo sutil. Fofo. O tipo de coisa que viraliza pelos motivos certos.
fechou os olhos por um segundo.
— Isso agora?
— Em até 24 horas. Não podemos perder o timing. O público precisa de consistência. Emoção. E roteiro.
Ela não respondeu de imediato.
?
— Eu ouvi.
— Ótimo. Peça essa demissão logo e muda de casa pra ontem. Vou te encaminhar o endereço certinho por mensagem, com chave na portaria e geladeira cheia. Você me entendeu, ? Não é mais uma escolha.
A ligação caiu.
E tudo ficou quieto demais.
ficou ali, no corredor dos fundos, com o avental suado pendurado no pescoço como um lembrete de uma versão de si mesma que já não cabia mais. Encostou a cabeça na parede fria, os olhos ardiam — mas não de choro.
Era o tipo de ardência que vinha do cansaço. Cansaço de estar sempre no limite. De precisar calcular cada resposta, cada gesto, cada silêncio. Cansaço de ter virado personagem antes mesmo de saber como atuar.
A verdade era essa: ela não queria ser perfeita. Nem influente. Nem fofa. Só queria poder respirar sem que isso virasse manchete. Mas o nome dela agora era uma notificação constante. E a liberdade… parecia um script que ainda não tinha decorado.
O celular vibrou de novo. nem precisava olhar pra saber de quem era.
Oliver: Segue endereço da sua nova casa. Prioridade máxima. Você se muda até sexta. Sem desculpas.
Puxou o celular do bolso e, com um suspiro pesado, abriu o X.
@
Ainda me acostumando com tudo isso. Obrigada por tanto carinho. 🌻
Não era o tweet perfeito. Mas era o suficiente para tentar remendar o que nem deveria ter rasgado.
Às 20h12, com o turno encerrado, se aproximou do balcão onde Mrs. Jenkins terminava de organizar os sachês de açúcar.
— Mrs. Jenkins…
A mulher levantou os olhos com o mesmo cuidado com que media café: exato, silencioso, atencioso.
— …vou pedir meu desligamento.
A frase saiu como um espinho que ela guardava desde a conversa com Jae. E agora, sangrava só de tocar. Mrs. Jenkins não respondeu de imediato. Só cruzou os braços devagar, como quem já tinha sentido aquilo chegando.
— Tem certeza? — assentiu. Não muito firme, mas verdadeira.
— Tá tudo mudando. E eu preciso mudar junto. Eu só… não queria sair sem agradecer.
A dona do café se aproximou, puxando-a num abraço inesperado, com cheiro de baunilha e tardes inteiras de acolhimento.
— Vai voar, . Mas não esquece quem te ensinou a dobrar guardanapo direito, hein?
riu contra o ombro da mulher, com o coração misturado entre gratidão e culpa.
Quando saiu do café naquela noite, com o avental dobrado debaixo do braço, sentiu o peso do mundo nos ombros. Mas também sentiu — pela primeira vez em dias — que talvez existisse algum espaço, mesmo que pequeno, pra respirar.
Pra recomeçar.

🎬⭐🎥


estava dobrando as roupas com uma paciência quase teatral. As malas abertas no pé da cama denunciavam o que ainda não tinha tido coragem de dizer em voz alta — muito menos pra Dona Maria. Não era fuga. Era transição. Pelo menos era o que ela repetia pra si mesma, como um mantra.
Pegou uma camiseta amassada, passou as mãos por cima com carinho, e suspirou fundo. Ia sentir falta daquele lugar. Da panela de pressão assobiando no fogão. Do cheiro de amaciante invadindo o corredor. Dos passos arrastados da Dona Maria durante a novela.
Mas naquele momento… ela precisava ir. Precisava dar o próximo passo, mesmo que com o coração apertado no calcanhar.
Foi aí que o celular vibrou em cima da cômoda.
olhou o visor.
.
Ótimo.
Atendeu sem pressa.
— Já viu as mensagens? — a voz de veio direto, sem nem um “oi”.
— Olá pra você também.
— Tava esperando educação de quem trata influencer como se tivesse jogado um balde de água na cabeça dela?
deixou a camiseta cair na mala e sorriu com acidez.
— Olha só quem virou defensor de digital influencer.
— Não é defesa, é gestão de crise.
— Então anota aí: crise contornada. Já pedi desculpas.
— E o mundo inteiro viu você quase arremessando o celular depois.
Ela revirou os olhos e andou até a janela, celular colado na orelha, o sol da manhã iluminando o rosto cansado.
— Se você tá ligando só pra me lembrar que eu sou um desastre midiático, pode desligar.
— Tô ligando pra resolver a bendita foto.
— Já tenho uma ideia.
— Medo de perguntar.
— Uma imagem minha beijando você.
— O quê?
Um silêncio seco, quase cênico.
— A mão, . Fica tranquilo, seu rosto continua seguro… por enquanto.
Do outro lado, ele riu. Baixo. Como quem não queria dar o braço a torcer.
— Você é impossível.
— E você adora isso.
pigarreou do outro lado da linha.
— Oliver sugeriu uma pracinha em Westwood. Fundo neutro, nada muito chamativo. Tem um fotógrafo de confiança dele disfarçado de mochileiro com câmera vintage.
— Que romântico.
— Horário?
— Você que tá com a agenda de astro.
— Eu encaixo você. Literalmente entre uma perseguição de carro e um jantar com alienígenas.
— Ótimo. Então seis da tarde. Luz bonita, clima de golden hour, carinha de “olha como somos espontâneos”.
Ele riu de novo, mais contido.
— Algum pedido específico pra pose, diretora?
— Só esteja de banho tomado e com a mão macia. Não quero beijar um cacto.
A risada dele escapou por inteiro agora, e quase — quase — sorriu com sinceridade.
— Combinado, .
— Traga seu melhor ângulo, .
— O meu melhor ângulo? Ele fica de frente… quando tô com você.
— ECA. Tchau.
Ela desligou antes que ele pudesse dizer mais qualquer coisa.
No quarto apertado que ela ainda chamava de lar, se olhou no espelho pela quinta vez. Estava cansada, sim. Mas bonita. De um jeito que não tinha nada a ver com filtro ou maquiagem. Era o olhar — firme, mesmo com tudo desmoronando.
Passou um rímel só pra não dizer que foi de cara lavada, ajeitou o cabelo com cuidado, valorizando o volume natural, e pegou um colarzinho simples. Nada que dissesse “celebridade”. Mas tudo que dissesse “essa sou eu”.
Abriu a mala ainda pela metade, remexeu e achou um vestido midi preto com estampa discreta de margaridas. Leve, sem esforço. O tipo de roupa que diz “tô confortável, mas posso te esmagar com um comentário se precisar”.
Vestiu-se com calma. Amarrando o cadarço da sandália, pensou em tudo que tinha mudado em tão pouco tempo. Um contrato. Um beijo fora do roteiro. E agora, uma foto que tinha que parecer real demais para ser mentira.
Respirou fundo.
— Pracinha, fingir que gosta dele, foto viral. Tranquilo — sussurrou pra si mesma. — É só atuação, lembra? Atuação.
Mas, lá no fundo, alguma coisa vibrava mais forte que qualquer script. E não tinha câmera no mundo capaz de esconder aquilo.
A pracinha de Westwood tinha aquele ar de cenário de filme independente: bancos de madeira gastos pelo tempo, um bebedouro enferrujado que ainda funcionava, e árvores que filtravam a luz do entardecer como se soubessem a importância da golden hour.
já estava lá, recostado no encosto do banco, camisa dobrada até os antebraços, celular na mão e óculos escuros como escudo. Fingindo casualidade. Mas o olhar escaneava tudo — até que prendeu no vulto que se aproximava.
vinha na direção dele com a mesma expressão de quem encarava uma entrevista de emprego e um ex no mesmo ambiente. Vestido leve, sandália baixa, cabelo impecável. E uma carranca delicada o suficiente pra não estragar a foto.
— Que pontualidade é essa? — ela provocou. — Tá tentando impressionar?
— Impressionar você seria mais difícil. Mas o Oliver disse que se eu me atrasasse de novo, ia postar minhas fotos de infância com aparelho nos dentes.
— Agora isso eu queria ver.
Eles não se abraçaram. Não se cumprimentaram. Mas ficaram ali, de pé, próximos o bastante pra parecer íntimos. E longe o suficiente pra deixar claro que estavam forçando.
— Onde tá o espião do Oliver? — perguntou, ajeitando discretamente a alça da bolsa no ombro.
— Ali — apontou com o queixo para um sujeito de boné e câmera retrô, sentado fingindo admirar um pombo. — Sorria. Você tá sendo clicada.
— Maravilha. Já posso beijar sua mão ou precisa de autorização?
— Primeiro sorri, depois encosta. E cuidado pra não parecer muito feliz. A internet estranha quando você parece satisfeita demais comigo.
soltou uma risada curta, sarcástica.
— Pode deixar. Tenho anos de prática em parecer entediada ao seu lado.
— E eu em parecer irresistível mesmo assim.
Ela revirou os olhos, mas deu dois passos à frente, até ficar a poucos centímetros dele. A tensão estava ali — aquela energia suspensa que se pendura no ar quando duas pessoas tentam parecer apaixonadas, mas na verdade… não sabem mais se estão fingindo.
— Vamos acabar logo com isso. — murmurou.
— Posso segurar seu rosto? — perguntou, já erguendo a mão.
— Se a sua mão estiver hidratada.
Ele ignorou a provocação e pousou a palma quente na lateral do rosto dela, o polegar roçando de leve a maçã do rosto. O toque foi firme, mas delicado. Cuidado demais pra ser só encenação. Proximidade demais pra ser só obrigação.
ergueu os olhos pra ele e, num gesto ensaiado e ainda assim íntimo demais, levou os lábios até a mão dele — um beijo encenado, quase cínico. Mas a forma como seus olhos se mantiveram presos nos dele enquanto fazia isso… não era encenação.
A lente da câmera clicou várias vezes.
inclinou o rosto devagar, tocando a testa na dela. Era o fechamento da cena. O toque suave entre duas pessoas que supostamente se amam em silêncio. Mas nenhuma palavra foi dita.
O tempo pareceu segurar o ar entre eles.
— Foto tirada — murmurou ele, sem afastar a mão.
— Parabéns. Agora você tem material pra iludir o planeta inteiro — ela respondeu, mas a voz saiu mais baixa que o normal.
A testa ainda tocava a dele. A respiração estava próxima demais. O perfume de ambos misturado no espaço ínfimo entre um e outro.
E então, com precisão cirúrgica, se afastou.
— Até a próxima cena, .
— Vai ensaiar o beijo pra próxima? — ele rebateu, olhos ainda grudados nela.
— Já tô pronta pra ganhar um Oscar por fingir que gosto de você.
Ela virou as costas sem esperar resposta.
O clique final veio quando olhou pra ela indo embora, como se estivesse vendo mais do que deveria. Como se o papel que estava interpretando estivesse, pouco a pouco, se confundindo com o ator.
O fotógrafo disfarçado fechou o zíper da mochila, satisfeito.
A primeira foto oficial do casal viralizaria em menos de três minutos.
E nenhum filtro do mundo ia conseguir disfarçar o que aquele toque carregava de verdade.





Continua...


Nota da autora: Tomei um susto com o tempo que fiquei sem atualizar essa nenenzinha aaaaaa. Mil desculpas, amores, vou atualizar com mais frequência, a vida de CLT estava me atrapalhando demais, mas agora estou começando a colocar a vida no eixo.
A Isadora já caminhando para vida de superstar uhuuul! Eu amo a dinâmica dos dois demais, esse sarcasmo que é só dela, desmonta ele demais hhaaha

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