Codificada por: Sol ☀️
Finalizada: 11/05/2026.________________________________________________________________________________________________________________________________________
DAY OFF - 7 AM.
QUANDO O RELÓGIO DISPAROU AS 7 EM PONTO, já estava acordado fazia pelo menos duas horas. Não fizera porque desejava, apenas tivera o impulso instintivo de uma coceira intensa em sua perna, apenas para deparar-se com sua ausência quando esticou a mão para coçar-la. O cérebro, é claro, entrou em um breve colapso; não registrava a ausência do membro, convencido de que ainda estava ali, e que ele ainda precisava coçá-lo, mas a percepção visual expunha a verdade. Então, não teve outra opção, resignar-se a deitar outra vez, e, ao fechar os olhos, tentou distrair sua mente. Recordou-se das ligações de Walker, não convidando-o, mas intimando-o para encontrá-lo em um pequeno pub questionável ao centro da cidade, a fim de tomar o café da manhã junto com o restante do antigo time. A divisão especial de operações especializadas em guerrilha urbana não era conhecida por seu afeto e constantes check-ins, mas por valorizar datas importantes. Eles sabiam que dia era hoje, e talvez, fosse isso, essa certeza de que as pessoas sabiam, que tornava tudo pior.
Se não soubessem, se não fosse um fato, então poderia fechar os olhos e escolher simplesmente não reconhecê-lo. Poderia fingir que era apenas mais um dia qualquer em sua vida, e ignorar como os lençois finalmente passaram a ter apenas o cheiro de sua colônia; como a textura tornou-se mais fria onde não estava emaranhada em seu corpo, como agora ele sempre conseguia cobrir suas costas ou não precisava simplesmente puxar um pouco mais o cobertor para cobrir-se. Como a quantidade de travesseiros havia diminuído drasticamente, como a sensação do colchão abaixo de si parecia finalmente estar se nivelando outra vez, mantendo apenas o formato de seu corpo marcado contra o objeto. Suspirou pesado, então, percebendo que seria uma vã tentativa voltar a dormir; ele não conseguiria mesmo se quisesse.
Encarou o teto com uma expressão contemplativa, considerando o que deveria fazer. Já tinha consciência de como o procedimento deveria ocorrer, ele havia trabalhado isso com Callahan meses o suficiente para ter gravado em sua mente todo o processo, todas as minimas coisas que deveria obrigar-se a lembrar para conseguir sobreviver ao dia; centrar-se no que ele poderia controlar, nunca no que não era incontrolável. Aceitar a dor e senti-la. Encontrar com seu sistema de apoio. Celebrar a mulher que ela havia sido, lembrar dos bons momentos, compreender que a vida era assim, e que pouco ele poderia fazer. E sinceramente, havia se tornado bom em fazer isso. Ainda tinha recaídas, ainda havia pontos dentro de que permaneceram abertos por quanto tempo ainda lhe restavam; traumas de anos em combate, traumas que o tornavam sensível à menção de margaridas e a café preto amargo. Traumas que o corroía de dentro para fora, não por sua existência, mas pela compreensão que a sensação de possuir um porto-seguro, ainda estava ali, aquele apartamento sempre seria se porto-seguro, foi a onde eles haviam construído a vida que tiveram juntos, mas já não era mais quente. Sempre haveria uma ponta gélida ao fundo de sua alma, não o suficiente para sufocá-lo, mas o suficiente para o fazer perceber.
Não seria mais o mesmo. Nunca mais.
E embora ele estivesse consciente de tudo isso, não desejou fazer nada disso. Não porque estava fugindo, mas simplesmente porque era uma merda. Era uma merda ter que obrigar-se a aceitar, uma merda que ele precisava se convencer de que fizera de tudo para que ela tivesse os melhores tratamentos, e que mesmo assim, não foi o suficiente. Ele não havia sido o suficiente; não para ela, mas para o universo que lhe oferecera o gatilho apenas para, desta vez, explodir em seu rosto. Uma merda que havia agora esse espaço aberto em seu peito que teria sempre o formato de Katherine e ele não sabia como tampar, como consertar, e porventura, se estivesse sendo genuinamente sincero, ele não queria concertar. Porque implica que para sobreviver agora ele precisava concertar algo, era implicar igualmente que a memória de Kate, de sua Kate, havia se tornado um peso, um fardo a ser carregado — era sussurrar doces mentiras para si mesmo dizendo que ele poderia esquecer-se de alguém que ele não queria. Talvez não por apego, mas pela memória, pelo significado de quem ela havia sido.
E Kate estava em tudo; estava nas manhãs frias do inverno a se aproximar. Estava no silêncio do quarto que parecia se estender mais do que deveria, estava nos dias que esquecia-se de que não havia conversado com ninguém o dia inteiro, caminhando de um lado para o outro do apartamento, organizando, limpando e tentando levar uma vida normal; estava no momento que ele escolhia murmurar consigo mesmo apenas para preencher o vazio que o espaço havia deixado. Estava nos grunhidos baixos do Bob, toda vez que espreguiçava-se perto da janela da varanda, chacoalhando os pelos pesados e cinzentos e franzindo ainda mais o rosto achatado. Estava no pote de açúcar, que agora durava por mais de um mês, estava na lavadora sempre cheia, e nos pratos que haviam saído dos armários superiores para serem apenas empilhados ao lado do balcão devido a correria. Estava na torradeira nova que ele havia obrigado-se a comprar, mesmo que seu corpo inteiro tivesse rejeitado a ideia. Porque substituir algo naquela casa, era substituir a ideia de que ela não teria tocado no objeto, ele não teria compartilhado com ela de uma pequena fração cotidiana, e que agora, o mundo estava seguindo em frente.
Não era apenas apego, era culpa também. E céus, não havia veneno mais potente do que a culpa.
Um exalo pesado escapou do fundo de sua garganta, como um pequeno grunhido, ao passar as palmas calejadas de suas mãos por seu rosto. Esfregou-o mais pela frustração montante ao fundo de sua mente, do que necessidade de fato. Contínuo buzinar enfadonho do despertador não havia o feito considerar arremessar o objeto no outro lado da sala, apenas obrigado-o a sentar-se com um grunhido e encarar o aparelho. Tateou um pouco cego pelo botão para desligá-lo, esfregando o sono de seus olhos com um bocejo baixo. Então, o silêncio repercutiu retumbante pelas paredes limpas do quarto, a janela parcialmente aberta, oferecia um pequeno alívio do vento gélido e invernal que adentrava a avenida movimentada. O ruído do vento um consolo distante, um ruído branco, enquanto ele pressionava a sola de seu pé descalço contra o tapete felpudo. Apertou a mandíbula com força, encarando o próprio pé, sentindo o peso em seus ombros divergir: havia o peso familiar de tudo o que havia vivido ali, o peso de uma infância inconstante e rígida, os sonhos e desejos que haviam ficado para trás, a sensação de que havia perdido muito tempo com coisas triviais e noções de deveres que agora lhe serviam apenas como vago consolo para o que ele realmente queria ter vivido com Kate; os “e se” que transbordavam durante a noite, em sonhos desconexos, e que o fazia acordar incomodado por ter que lidar com sua própria aceitação. Mas havia uma sensação de alívio igualmente, uma sensação de nostalgia, agora longínqua, como a de um marinheiro observando do porto, um navio partir em distância.
Ficou ali, por cinco minutos, contemplando não seu futuro ou seu presente, mas seu passado. Sentiu algo dentro de seu peito, se contrair, não mais despedaçando-se, mas remendado o suficiente para expandir-se de maneiras diferentes. A memória de um sorriso, de um grunhido, de um grito irritado e um tapa estalado, de um dedo apontando em direção ao seu rosto aplacado por um abraço apertado, uma dança descoordenada no meio da cozinha, um beijo roubado, deliberado, um toque lânguido por baixo da coberta antes de permitir-se ser consumido por ela. Um teste negativo, um riso de alívio e um choro desconsolado. Uma nota cortante de uma risada que ele, agora, com tristeza, não conseguia mais lembrar-se de como era. tencionou a mandíbula, engolindo em seco, sua garganta sensível, parecia, mais uma vez, estar envolta por arames farpados, fincando-se contra o músculo e rasgando-lhe gradativamente a cada vez que inspirava, a cada vez que engolia. O peso das palavras que ele nunca conseguiria dizer, destoavam-se pela impossibilidade de escuta, e não coragem. Ele poderia proferi-las ao ar, poderia repetir quantas vezes desejasse, mas aos ouvidos que deveriam inundar, permaneceram ocultas. Não houve lágrimas; estas não se acumularam ao redor de seus olhos, não pressionaram suas têmporas com a força que implicara em sua mandíbula ao trincá-la, não havia o ressentimento a uma entidade onipresente invisível e cruel que tomava o que bem queria e convinha uma bondade programada e planejada. Havia apenas o buraco, e a nostálgica sensação de indiferença. Piscou algumas vezes, finalmente permitindo-se afastar dos pensamentos.
Da mesa ao lado de sua cama, pegou sua aliança outra vez, empurrando-a de volta ao dedo anelar com costume, antes de bufar consigo mesmo, revirando os olhos.
— Muito maduro, Kate, me ignorar bem no seu aniversário, você é uma pessoa terrível — resmungou com uma nota de sarcasmo para si mesmo, um quase sorriso surgindo por seus lábios, fraco demais para permanecer ali, real demais para não oferecer-lhe o vazio. Bufou outra vez, um risinho baixo consigo mesmo, com a certeza de que ela teria arremessado-lhe o travesseiro, como todas as vezes que ele usava aquele tom com ela. Ela igualmente teria suprido um sorriso e ignorado-o ainda mais com vigor até que ele se aproximasse por trás dela, a abraçasse, e sussurrasse comentários ridículos até que ela risse. E então eles se beijariam, e ele sentiria como se estivesse no topo do mundo, como se fosse um rei sentado em um trono e a tudo lhe pertencesse. Como se fosse um homem jovem outra vez, e a tudo vivesse de possibilidades e a excitação do amanhã. Um shot de expresso, um resfôlego após anos sem conseguir respirar direito, esta era Kate.
Balançando a cabeça a fim de afastar os pensamentos mais uma vez, concentrou-se na praticidade de sua rotina matinal. Alçou a prótese mais uma vez, verificando o coto com cuidado, a breve distração com a coceira fantasma já havia diminuído a essa altura, massageou-o por um momento, a fim de tentar evitar um desconforto, e então a revestiu com o tecido como fazia todos os dias. Encaixou a prótese outra vez, e então levantou-se com um grunhido baixo. Espreguiçou-se como uma batata crocante e fez uma careta, já não era mais jovem, e embora estivesse em ótimas condições, atlético até mesmo, sua coluna e juntas ainda revelavam sua idade mesmo a contra gosto. Tentou não rir, autodepreciativo, com o pensamento; ele era velho demais para isso. No banheiro fez exatamente a mesma rotina que fazia de manhã: encarou-se no espelho, questionou o sentido da vida de uma maneira depreciativa e bem humorada, considerou se na padaria teria os pães na chapa horríveis que tanto gostava, escovou os dentes, limpou o rosto, e então se barbeou mais uma vez, tentando ter certeza de que não estaria parecendo como um homem que havia perdido tudo — mesmo que fosse um.
Antes de deixar seu apartamento, preparou uma vitamina, trocou a água de Bob e recebeu um miado exasperado quando colocou menos ração do que deveria. Tentou não rir, mas fez questão de lembrar o felino de sua dieta e de como o veterinário havia avisado que Bob precisava começar a perder peso caso quisesse evitar problemas no coração. Certificou-se de que o celular havia carregado durante toda a noite, e que os earpods ainda estavam ali. Enquanto fazia sua corrida matinal pela vizinhança, finalmente se permitiu a ouvir as mensagens de vozes que lhe foram deixadas. A voz de Walker foi a primeira coisa que ouviu, simples, direta e pragmática, um horário, um comando para que ele não se esquecesse. Então havia uma de Shen, avisando que ele havia, mais uma vez, se esquecido de fazer o relatório geral da equipe que Underwood estava demandando fazia semanas — não havia se esquecido, só estava deliberadamente procrastinando pelo simples despeito e consciência de que, no segundo que ele o fizesse, aqueles de sua equipe que não tivessem tanta afinidade com os outros, seriam demitidos. Se Underwood queria demitir alguém de sua equipe, então que fizesse sozinha, e que soubesse que teria resistência — já estavam se afogando com a quantidade que possuíam, a diminuição do time em prol de lucro era o suficiente para fazer considerar causar um pouco de dor de cabeça igualmente. Uma mensagem de atualização de Robinavitch curta e estúpida que o fez quase rir, mas confirmando que ele ainda estava vivo, e que estava direcionando-se para Tulsa. E então, uma vez que quase o fez perder o ritmo de sua corrida.
Por um momento desacelerou, optando por apenas caminhar e acenar com a cabeça para os outros corredores matinais que lhe faziam companhia à distância. Alisson.
— Ei, ? Como estão as coisas? Já faz um tempo que você não tem dado notícias — a irmã de Kate murmurou do outro lado da linha, com uma nota de pesar que teria o incomodado outrora, que o teria feito excluir a mensagem por frustração, mas que agora apenas o fez suspirar pesado, enfiando suas mãos nos bolsos de sua calça e apertando os lábios. Parou na beirada da rua, olhando de um lado para o outro esperando os carros pararem para atravessar o cruzamento, em direção a padaria. — As crianças estão doidas para verem você, e Markus finalmente conseguiu um tempo livre — uma pausa longa seguida por suspiro. quase sorriu, típico de Alisson trazer as crianças para o meio como uma forma de convencê-lo a ir visitá-los; e tipico dele considerar imediatamente ir apenas para conseguir ocupar sua cabeça. — Por favor , só dessa vez, não passe sozinho. Nós vamos fazer uma pequena celebração, e minha mãe quer que você venha, todo mundo quer, você ainda é parte dessa família, não vá achando que pode se livrar da gente assim tão fácil. Será às 7 da noite, e eu sei que você pegou folga, então, venha, isso não é um pedido. — Isso não é um pedido — murmurou consigo mesmo, negando com a cabeça, antes de adentrar na padaria e se escorar contra o balcão preparando para fazer seus pedidos. Pausou por um segundo observando, perdido em pensamentos, os cupcakes de chocolate com tanta cobertura que provavelmente era apenas chantilly e uma vaga lembrança de chocolate. Apertou os lábios voltando sua atenção para a atendente. Pediu todos da bancada para viagem, já conseguindo ouvir os gritos de animação de Jace e Tyler em seu ouvido.
— E como isso faz você se sentir? — a calmaria na voz de Callahan não era incômoda, apenas, desconfortável. cruzou os braços sobre o peito, considerando a pergunta, mas por um longo momento permitiu-se ficar em silêncio. Deixou-se recostar contra o divã verde escuro e macio, vagando em seus pensamentos. Os olhos desviaram-se do rosto gentil porém envelhecido do outro homem, a barba longa lhe dava uma aparência estranhamente filosófica, como um professor de uma era não tão distante, acostumado a analisar tópicos humanos com mais profundidade do que outros o fariam. Olhos escuros como a noite observavam-no como os de um gavião, estudando-o não como um tópico, mas ofertando silenciosamente a vaga percepção de compreensão, mesmo que não estivesse se sentindo lá tão confortável com a ideia de ser visto no momento.
O silêncio estendeu-se, como sempre, pelo consultório como uma manta. Não era pesado, nem quente, mas não era invisível igualmente. Umedeceu os lábios, respirando fundo, encarando as prateleiras como livros grossos, as capas duras revestidas de couro, letras impressas em dourado elegantes e serifadas. Uma planta de plástico erguia-se à esquerda, próximo da janela para dar uma vã impressão de conforto. Um tapete marrom escuro estendia-se pelo assoalho de madeira encerado e cuidadosamente cultivado. O cheiro estéril de limpeza familiar às suas narinas, misturava-se com o aroma de baunilha que deveria servir como conforto. Uma mesa de centro disposta com papeis, canetas, e revistas, não para distração, mas para ter uma maneira de firmar-se; um pacote aberto de lenços de papel repousava no canto da mesa, e encarou aquilo por um longo momento. Não porque ele estivesse considerando usá-los, apenas observando-os distante.
Callahan anotou algo em seu caderno pequeno, e sentiu uma vontade pequena de rir, considerando que aquilo era comum; imaginou o que poderia estar escrito ali antes de descartar o pensamento, focando na pergunta que ele fez. Por um momento, não soube como descrever. Como você diz a outra pessoa que dentro de si há um buraco irremediável, como você coloca em palavras que não há nada que você possa fazer sem ter a sensação estúpida que tudo tornou-se de repente areia e está se esvaindo por suas mãos? Como você diz a alguém que a pessoa mais importante de sua vida, por tanto tempo, agora era um borrão de imagens, uma folha de papel com tinta fresca submergida abaixo d’água; o papel estava derretendo, a tinta estava borrada e a imagem outrora clara, agora era um mero formato abstrato de cores e formas? Como você diz a alguém que a risada que você amava, agora, estava se desfazendo em algum canto de sua mente? inspirou fundo uma vez, então mais uma, antes de exalar lentamente. Voltou a olhar para a janela, permitindo-se ancorar ali.
— Uma merda — confessou ele, com mais sinceridade do que esperava conseguir encontrar dentro de si. A verdade era que ele não estava querendo fingir que estava bem, não mais. Ele havia tentado fingir que estava bem, e apenas tivera a certeza de que estava se afogando ainda mais. Percebia-se preso à beira-mar, deitado sob a areia molhada que grudava em todos os lugares insuportáveis e impossíveis de serem retirados, lentamente coberto pelas ondas; às vezes, eram vagarosas, como um cobertor gelado que tocavam-lhe a pele. Às vezes, o afogavam. E a inevitabilidade de seu toque era tão insuportável, quanto a imprevisibilidade de sua presença. Ele nunca sabia quando chegaria, quando lhe tomaria a mente e ele se veria encarando novamente uma parede, considerando o que ainda lhe restava naquele mundo. assentiu, mais para si mesmo do que para outra pessoa, tentando encontrar uma maneira de proferir o que acumulava-se em seu peito, mas não sabia. Não porque não estava tentando, mas simplesmente porque faltava-lhe vocabulário, faltava compreensão de definições. Kate saberia, ela gostava de ler; o fazia às vezes questionar se estava competindo com a atenção dela e os livros. — Não sei como explicar. — Callahan não disse nada, e fez uma careta, ajeitando-se no divã, desconfortável. — Certo, tudo bem… — suspirou pesado, erguendo as duas mãos para cima, antes de inclinar-se para frente, repousando os cotovelos sobre os joelhos e encarando Callahan com uma expressão perdida. — É como se o mundo tivesse continuado se movendo. Não, não é como, o mundo está se movendo. Está girando, e está girando rápido demais. To sentado aqui e tô me sentindo como se estivesse dentro de uma ampulheta. O tempo está passando, mas eu — pausou por um momento encarando as próprias mãos, o polegar traçando distraidamente o contorno de sua aliança com saudade. — Sei lá, estou parado, entende? Estou preso no lugar, e não consigo sair dele, não importa o que eu faça, e o mundo continua passando ao meu redor.
Callahan absorveu as palavras por um momento, batendo a caneta de leve contra a contracapa de seu caderno de anotações, franzindo o cenho contemplativo. Os olhos, desprovidos de julgamento, ofereceram por uma fração de segundos, entendimento. Não foi algo ruim, mas também, não era exatamente algo bom. Era apenas real; ao proferir as palavras para Callahan, ou vê-lo absorver e considerar o que ele havia acabado de dizer, percebeu-se tornando real o conflito que ele estava ignorando por meses para não ter que lidar ainda. Não ter que lidar com a realidade de que a memória de Kate, a qual ele estava se esforçando tanto para preservar, estava desaparecendo, e não havia nada que ele pudesse fazer para impedir.
— E por que você acha que está parado? — Callahan questionou calmamente, o tom de voz barítono, baixo e arrastado revelando um pequeno sotaque escocês. Não era agressivo, mas tornavam suas palavras mais pesadas, como chumbo sob a água que sua mente tornara-se. Impossíveis de serem ignoradas, pairando pelo ar como um perfume distante, familiar demais para fingir que não sentiu, desconhecido demais para entender de onde viera. Quando não respondeu a pergunta de Callahan, o terapeuta pausou, observando-o por um momento, antes de descartar o caderno sobre a mesa de centro, e espelhar a postura de . Cotovelos dobrados repousando sobre os joelhos, as mãos unidas à frente do corpo, a cabeça inclinada, observando-o com atenção, olhos atentos, silenciosos. — Farei uma pergunta diferente, e espero que considere primeiro antes que possa respondê-la — assentiu devagar, tencionando a mandíbula. — O que está impedindo você de se mover, ?
O golpe foi certeiro. Bem ao centro da ferida infeccionada, um pouco estancada. Ele não sabia que ainda poderia sangrar, a essa altura havia acostumado-se com a certeza de que o amortecimento lhe fora uma dádiva e condenação pessoal, mas mesmo assim, lá estava. O coração remendado se contraiu, os pontos que ele estava tentando dar por dois anos, de repente pareceu constritivo de mais, doloridos, a carne, inflamada e sensível, e a familiar pressão das lágrimas projetou-se na parte de trás de seus olhos, queimando. Sentiu a visão embaçar-se, e por uma fração de segundos foi difícil encarar o rosto de Callahan; se mantivesse os olhos sem piscar, conseguia encontrar um pequeno resfolego de controle, mas não era o suficiente para impedi-las de cair. Não sentiu a primeira, mas viu quando a lágrima caiu no canto de sua mão, uma gota redonda que não tardou a deslizar por nós de seus dedos, esbranquiçados com a força que impunha no movimento.
— Não sei se consigo fazer isso — confessou, dolorido. A voz mais baixa escapara de sua garganta, rouca e irregular, falhando ao final como se ele não tivesse a usado por muito tempo. Trêmula com a respiração superficial que ele tentava controlar. Abaixou o olhar outra vez para suas mãos, mas não a enxergou. Engolir em seco, tornou-se uma tarefa hermética, a saliva pareceu queimar a traqueia, mesmo que não houvesse nada ali. O silêncio mais uma vez repousou sobre os dois, enquanto Callahan esperava que elaborasse sua confissão. Por um longo momento, apenas o barulho do relógio fazia companhia, o tic tac ritmado oferecendo um conforto distante derivado de previsibilidade. Concentrou-se nisso, nesse pequeno ritmo contínuo ao tentar buscar as palavras corretas ao fundo de sua mente. — Kate… — ele tentou dizer, mas pausou, a voz falhando, as palavras faltando. Pigarreou, tentando clarear a garganta, e então esfregou o próprio rosto para limpar as lágrimas que haviam transbordado dos cantos. Por um momento sua mão apenas cobriu os lábios, e ele encarou Callahan, destroçado, cansado e de luto. Não foi preciso dizer nada, apenas encará-lo, e ali estava, o ferimento que não tornava-se cicatriz, mas meramente parava de sangrar ao ser ignorado. — Não consigo lembrar mais como era a risada dela, como sua voz soava. Às vezes eu tento, mas não tem barulho, tem a sensação, mas não tem o som. E ela está sumindo, de novo… — engasgou-se com um ruído rouco. Chacoalhou a cabeça, tentando concentrar-se nas palavras e não nos sentimentos, mas estes estavam, mais uma vez, transbordados. Então fez a única coisa que conseguia, fechou os olhos com força. — Estive ao lado dela até o último momento. Eu tentei de tudo, e mesmo assim… ainda a perdi. — Callahan balançou a cabeça deliberadamente, um silencioso aceno em atenção, mas não disse nada. desviou os olhos do rosto do terapeuta, para a janela, tentando focar-se na claridade matinal, nos ruídos do trânsito agitado, nos murmúrios de estranhos vivendo suas vidas com a simplicidade mais um dia rotineiro e insuportável. — E ela levou algo meu junto. Não sei o que é, só sei que não está mais aqui, e achei por tanto tempo que essa seria a pior parte de tudo isso. A perda, a falta, mas… — fez uma careta, engolindo em seco, e inspirando fundo umas duas vezes, antes de voltar a encarar o terapeuta. — Não é. É essa, estou perdendo ela de novo, e desta vez, é minha culpa.
Callahan não respondeu, apenas encarou por um longo momento, esperando que o médico continuasse a elaborar seus sentimentos. Quando não fez movimento algum para voltar a falar, o terapeuta apenas assentiu outra vez. Ajustou sua postura na poltrona, endireitando os ombros, parecendo digerir as palavras do paciente por um longo momento de deliberação antes de encarar, mais compreensivo e gentil o semblante contorcido de .
— E que tamanho poder você possuí para lutar contra o tempo e vencer, huh?
deixou um riso nasalado, meio fungado escapar de sua garganta, mas estranhamente a pergunta afiada lhe serviu como consolo. A dor ainda estava ali, mas pela primeira vez, naquela manhã, ele se sentiu menos perdido e um pouco mais são. Encarou o rosto envelhecido do terapeuta por um momento, mas não disse nada.
— Kate está morta, . Ela morreu há dois anos, e não há nada que você possa fazer para alterar isso. A história dela acabou. — tencionou a mandíbula, sentindo os músculos de seu corpo se tencionarem, ainda assim, pelo impacto que as palavras causavam. Não era o que ele já não tinha ouvido anteriormente, era apenas uma afirmação que tornava tudo real, que o trazia para o presente onde não havia nada se não os retalhos que ele estava tentando remendar de volta no lugar. Os cantos de seus lábios se curvaram para baixo, mas ele assentiu, vagarosamente, em concordância com Callahan. — Ela não pode mais ouvir, ou sentir você. Ela não está mais aqui, e não estará mais esperando você em casa. Ela se foi — Callahan inspirou fundo por um momento, fazendo uma pausa, permitindo o peso de suas palavras afundarem em meio ao consultório, fazendo-se percebidas, obrigando-as a serem digeridas, e então, com um tom mais suave, completou: — Mas as pessoas a quem ela tocou, os sentimentos que despertou, ainda estão vivos. Em você, em seus amigos em comum, em sua família. Você vê, o luto não é linear, não espere superá-lo, não há cura para o luto. Ele sempre estará dentro de você, ele sempre irá voltar, em momentos inesperados, ou inconvenientes, e dos quais você não possuí controle algum. Você agora tem uma companhia eterna que apenas se torna mais fácil de lidar com o tempo. Mas isso significa — Callahan inclinou-se para frente, sustentando o olhar de —, que Kate também estará sempre com você. O luto não é para os mortos, , é para os vivos. Mesmo com as memórias desaparecendo, mesmo com a passagem do tempo, você irá carregar as mudanças, as ações e os momentos compartilhados com ela. Mas o que existia naquela época, também, não existe mais — Callahan pausou mais uma vez, unindo as mãos a frente do corpo e observando o semblante de com cuidado. — A questão é o quanto você pretende punir esta nova versão de si mesmo, por algo que ele não possuí controle algum.
encarou-o mas não disse nada. Uma sensação esquisita de conforto e incômodo espalhou-se por seu peito, o coração apertado parecia afrouxar, mas a cabeça doeu. Não uma dor afiada que costumava proceder uma enxaqueca ou a exaustão crescente após uma noite inteira de trabalho e estresse; era um peso impossível de desfazer-se. Como uma mochila pesada o suficiente para arrastá-la para onde bem desejasse, mas que fazia-se perceber com a exaustão do dia. Exalou lentamente, sentindo a descompressão de seu peito, ao recostar-se contra o divã, considerando as palavras do terapeuta. Estava ele mesmo se punindo por não conseguir controlar o tempo? Estava mesmo se torturando com a percepção de que Kate estava desaparecendo porque era mais fácil culpar algo, era mais fácil acreditar que tinha um problema, do que simplesmente aceitar que aquele era o ponto final? Que já não havia mais nada a fazer e tentar descobrir quem era ele mesmo sem a presença do fantasma de sua esposa? E se ele o fizesse, se finalmente aceitasse a inevitabilidade da vida e permitisse seguir em frente, seria justo para com o amor compartilhado com Kate? Para o relacionamento e as juras que ele havia feito? Uniu as sobrancelhas, e até mesmo considerou questionar o terapeuta, até mesmo considerou dizer que talvez não quisesse ter mais ninguém em sua vida, não quisesse seguir em frente simplesmente porque não parecia justo; Kate estava morta, mas , mesmo vivo, deveria guardar a memória dela, ele havia prometido que o faria para a família dela, ele havia prometido para si mesmo. Seguir em frente não seria simplesmente apagar o que outrora foi um presente indiferente? Mas a consulta já havia chegado ao fim com o disparo do celular do terapeuta.
Callahan levantou-se da cadeira com um grunhido baixo pela idade, e ofereceu uma mão gentil para . Um aperto de mãos profissional mas que significava um pequeno conforto, mais uma sessão de terapia cumprida, mais um passo para consertar o que havia sobrado dele. Isso era bom. Isso era tudo o que ele poderia fazer. Callahan murmurou um comentário para ficar longe de telhados, e fungou, abrindo um sorriso torto, e estendendo os braços.
— Sou como um outdoor, nasci para ser admirado — apesar da piada, o aviso foi notado e arquivado. Mesmo que uma parte mais sombria ainda sentisse o impulso, realmente estava tentando superá-lo e não precisava ter mais uma longa conversa sobre o que ele realmente estava sentindo para buscar uma solução rápida e permanente para um problema temporário outra vez. Ao em vez disso, apenas deixou um muxoxo escapar de seus lábios, e deu uma piscadela para o terapeuta, atravessando a porta com um suspiro pesado.
Instintivamente ajustou a prótese quando pisou em falso e o peso moveu-se muito para a esquerda, antes de escorar-se no balcão da recepção para marcar o retorno com Doutor Callahan. Sorriu para Amélia, a recepcionista com quem ele costumava flertar apenas pelo divertimento de flertar, sentindo-se estranhamente leve ao final da terapia, mas ainda preso aos questionamentos que surgiram ao final. Ainda preso a possibilidade de tornar-se exatamente quem não desejava ser ao permitir-se seguir em frente; ele sequer tinha idade para seguir em frente? Talvez fosse simplesmente mais fácil apenas concentrar-se em sua aposentadoria agora, comprar alguma fazenda ou renovar sua motocicleta outra vez, talvez viajar o país inteiro como Robanovitch estava fazendo, exceto pelo desejo de morte, é claro. Ou talvez ele poderia simplesmente aceitar uma das vagas para modelo nu nas aulas de desenho que Walker vivia comentando sobre. Já estava fazendo os cálculos das piadas sobre traumatizar jovens estudantes quando seu celular disparou. Pelo toque soube imediatamente que era do hospital. Gesticulou rapidamente para Amélia, pedindo por um momento, antes de pescar o aparelho e atender sem ler o nome, unindo as sobrancelhas, tenso.
Uma parte de si, deveria ter apenas desligado a ligação ou ignorado. Era seu dia de folga, é claro, ele deveria esforçar-se para ter uma folga, e desligar-se do hospital. Outra, um pouco mais resistente e aterrorizada, estava desesperada pelo alívio de um escape.
— ! Você precisa vir para cá, agora — o lamento na voz de Shen não foi o que fez pausar, foi a urgência com que o homem havia chamado por seu sobrenome. Merda. Ele havia concordado em se encontrar com seus antigo colegas de time, ele estava considerando visitar Alisson e finalmente aceitar o conforto de Cordélia e Edgar, mesmo sentindo que não merecia, atender uma ligação do hospital era a última coisa que ele deveria estar fazendo agora. Se não começasse a fazer o trabalho duro logo, então ele iria recair outra vez no mesmo caminho que estava tão arduamente lutando para sair, e todavia… lá estava, a janela, o respiro ao qual, mesmo sem ser capaz de impedir-se, ele estava direcionando-se tal como um esfomeado diante de um banquete. A chance de distrair-se, de esquecer do buraco permanente em seu peito, do formato de Kate em sua mente, da memória do que ele não poderia mais ter, e do que estava se esquecendo. Mas então, Shen completou a frase, e o sangue de , congelou perdendo algumas palavras ao longo do processo —... do time, pulou do telhado. É sério cara, está tudo uma bagunça aqui, é melhor você vir logo!
— O que?! — Foi a única coisa que conseguiu responder, em choque.
