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Revisada por: Nyx 🌙

Última Atualização: 01/03/2026

balançava incessantemente uma das pernas, em uma tentativa falha de reduzir a tensão que aumentava em seu corpo. Ela se sentia assim, desde o momento em que despertou, durante todo o caminho rumo àquela clínica até o momento que ela se encontrava agora, preenchendo os formulários finais para a permanência de sua mãe.
De alguma forma a jovem tentava acalmar seu coração, repetindo que desde o início ela apenas estava cumprindo um combinado a muito tempo feito com sua mãe. A mãe de , Danika, sempre a alertou que quando chegasse a uma certa idade era o seu desejo que sua filha a encaminhasse para determinada instituição de longa permanência.
Porém , nunca se agradou com essa ideia, mas nunca iria contra um desejo de sua doce mãe. Ela encarava as inúmeras linhas, com pequenas perguntas, que pareciam apenas aumentar. A cada momento que passava sentada, encarando os papéis a sua frente, ela imaginava um cenário catastrófico, onde paparazzis encontrassem sua mãe, ou os enfermeiros a tratassem mal, ou até mesmo que em algum momento Danika mudasse de ideia e quisesse retornar a sua casa, porém não conseguisse comunicar isso a filha.
Então a jovem de cabelos escuros fechou por um breve momento os olhos, respirou fundo, tentando acalmar todos aqueles pensamentos insistentes. Ao abrir vagarosamente os olhos, teve a sensação de que alguém a encarava…e isso se confirmou. Alguém tocou seu ombro suavemente, na tentativa de chamar sua atenção.
— Hey… está tudo bem? — ela ficou por alguns segundos encarando o jovem ao seu lado, que tinha um cabelo perfeitamente penteado para trás com uma quantidade significativa de gel, e pequenos olhos, escuros e densos.
— Ah… acho que só são muitos papéis para assinar de uma vez. — desviou sua atenção para os papéis, os embaralhando em suas mãos.
— Sei como é. Quando vim aqui pela primeira vez com o meu pai, me senti meio desconfortável e confuso com tudo também. — Confessou de forma simples para ela, isso a fez relaxar. Deixando os ombros agora menos tensos, porque, afinal, ela não era única então com aquele sentimento estranho. — Prazer, me chamo … — estendeu sua mão para , que apertou e viu nos lábios dele um sorriso pequeno crescer.
… pode me chamar de . — preferiu não falar seu sobrenome, porque temia ser descoberta ou reconhecida.
, ficou encantado com o nome da moça a sua frente, mas o que realmente chamou sua atenção foram os olhos castanhos e marcantes. Ele poderia escrever um poema só sobre como eles brilhavam naquela manhã nublada e aqueciam suas mãos geladas.
Ele não queria confessar, mas os 10 minutos que passou tentando tomar coragem para falar com , valeram a pena, só por renderem a visão de olhos tão bonitos.
— Pode parecer estranho, mas tenho a sensação de que te conheço de algum lugar. — tentava puxar em sua mente de onde aquele sorriso pequeno era familiar. Será de uma foto? Será que já foram colegas de sala? Será que era apenas sua ansiedade?
soltou um riso pelo nariz. Não imaginou que seria reconhecido, não que era famoso, mas era difícil depois de tanto tempo frequentando ali alguém ainda se surpreender com sua presença. Isso não o incomodou, mas fez o seu coração dar um pequeno salto, talvez, ela realmente o reconhecesse ou até acompanhasse seus campeonatos.
— Bom, você pode reconhecer a mim ou ao meu p… — foi cortado por uma voz que se fez mais alta naquele ambiente, chamando a atenção da jovem a sua frente.
Espinosa — o homem trajado todo de branco a chamou. Nicolai viu a moça se levantar, porém nesse movimento rápido, ela acabou derrubando a papelada e ele logo se prontificou a ajudá-la.
— Merda... — disse se agachando para pegar os papéis que haviam caído e assim batendo sua cabeça com o seu novo conhecido. — Ai, meu Deus! Me desculpa. — levou a mão até a cabeça do jovem em sua frente, na tentativa de amenizar aquela situação.
— Relaxa, não foi nada. Aqui está, olha vai dar tudo certo. — ele disse essa última parte em um tom mais baixo para que só ela escutasse, e em forma de retribuição ela abriu um sorriso confiante.
— Ao se levantar e se recompor, o médico que a esperava, pegou os papéis de sua mão. — Pode me acompanhar, por favor.
Quando a figura da jovem de cabelos escuros sumiu de sua visão, rapidamente sacou seu celular em mãos e confirmou a hipótese, que de alguma forma ele tinha certeza, sobre .
Ao ouvir o médico chamar seu nome completo, ele teve certeza que também a conhecia… e dando uma pequena pesquisada, isso apenas se confirmou.
Ela era filha de Danika Espinosa, que por acaso, era uma ex-integrante da banda em que seu pai Alexandre Casillas fez parte durante toda sua adolescência e parte da vida adulta.
Ainda pesquisando sobre Danika, ele se lembrou dos rumores de romance entre seu pai e ela, e o fim abrupto do sexteto que era sucesso mundial.
Com essas informações em mãos, algumas recordações se fizeram nítidas em sua memória. Como por exemplo, quando era menor, e seu pai o levou em um jantar de “reencontro” do grupo, se lembrou também de interagir com os filhos dos outros integrantes, porém pouquíssimo com , já que seu pai preferia manter certa distância de Danika.
Agora ele se sentia mais confiante de certa forma, porque a mulher que tinha despertado o interesse dele, pelos olhos cativantes, não era uma completa estranha e, com isso, eles teriam muito o que conversar.
Ele não queria ser invasivo, mas resolveu esperar ela retornar e talvez a chamar para um café.
Quando retornou a recepção e percorreu rapidamente o seu olhar sobre ela, notou que ainda estava ali, lendo um pequeno livro. Então ela resolveu que não seria nada demais ir até ele se despedir e agradecer o apoio mais cedo.
— ela o chamou. Ao olhar para ela, ele novamente abriu aquele pequeno sorriso. — Vim te agradecer pelo apoio hoje mais cedo, muito obrigada.
— Ah, que isso, não precisa agradecer. Para falar a verdade, eu fiquei te esperando — ele pareceu ficar envergonhado de repente, mas respirou fundo e continuou — Quem sabe a gente poderia tomar um café, aqui tem uma cafeteria ótima.
, de alguma forma, se sentiu feliz pelo convite, porque percebeu que o interesse que sentia pelo rapaz era recíproco.
— Claro, vamos. — então ele se levantou e ela apenas o seguiu.
Após os pedidos de ambos chegarem, o silêncio reinou entre eles, apenas se escutava o barulho da mastigação. E a jovem notou um leve tique que demonstrava, parecia estar ansioso? Ele estava piscando mais frequentemente do que quando conversavam mais cedo, e isso a intrigava.
— Tenho uma coisa para te contar — colocou sua xícara sobre a mesa.
— Esse é o momento que você diz que é um repórter e quer escrever a biografia da minha mãe, certo? — após ela dizer isso, ele acabou rindo e ela gostou muito de como a risada dele era de certa forma rouca.
— Ohh… você me descobriu — disse, levantando os braços para o alto em tom de “rendição”. — Lembra que hoje mais cedo você comentou que me reconhecia de algum lugar? — concordou com a cabeça enquanto dava mais uma golada de seu chocolate quente — No começo eu pensei que fosse por conta, de eu ser skatista profissional… — ele viu a testa dela se enrugar e percebeu que definitivamente ela não o acompanhava no esporte. — Aí o médico foi lá e te chamou e quando eu escutei o Espinosa, tudo fez sentido. — agora ele tinha total a atenção dela. — Não falei mais cedo, mas o meu pai é Alexandre Casillas Von. — sorriu ao final.
Ela demorou um pouco para conectar essa informação, mas quando percebeu de quem se tratava, tudo fez sentido. Era claro que ela o reconhecia, ainda mais aquele sorriso, havia fotos em todos os lugares da internet de seu pai com a sua mãe, e definitivamente tinha o mesmo sorriso de seu pai, era idêntico, as fotos e a forma como Danika descrevia.
, não acredito que você é filho do Ale. —sem pensar, ela esticou seu corpo sobre a pequena mesa, e o abraçou.
O sentimento que tinha agora em seu peito era de ternura, porque neste momento ela recordou das inúmeras conversas que teve com a sua mãe e de como sempre Dan, elogiou cada integrante, principalmente o Ale. Sendo assim, de alguma forma, sentia esse apreço por ele e agora por seu filho também.
Fazia muito mais sentido ainda, ela talvez não estar atraída por ele, mas apenas estar o reconhecendo e vendo nele os inúmeros sentimentos que sua mãe relatava durante as histórias.
Após o pequeno abraço, se sentou novamente e agora havia um brilho em seu olhar ainda mais cintilante que antes.
— Sei que de todos os filhos dos integrantes, eu sou o que menos interage com o restante, mas é estranho como Madri realmente é pequena. Quem diria que eu iria te encontrar aqui…depois de sei lá 15 anos?
— É, acho que é… o último reencontro, eu ainda tinha minha naninha debaixo do braço — e novamente ambos riram — e agora eu estou me sentindo a pior filha do mundo por estar autorizando minha mãe a ficar em um asilo.
— No começo eu também me senti assim, mas como você retira uma promessa que fez para um Casillas?
— Sério? Também estou fazendo isso para cumprir uma promessa que fiz à minha mãe. Bom, vai entender esses dois. — retornou a petiscar um pão de queijo.
— Cara, é muito estranho eu estar aqui na sua frente. Porque foram anos, vendo montagens nossas bebês para edits dos nossos pais e isso era louco demais na minha cabeça. — ele confessou, porque, de alguma forma, sabia que ela entenderia o que ele sentia.
— Sim, eu ficava “gente, o meu pai é o Paco…deixem disso”, mas no fundo eu meio que entendia que nossos pais tinham certa química. — ela deu de ombros, depois de tanto conviver com os fãs de sua mãe, ela de alguma forma compreendeu a fissura deles. — E outra, minha mãe de fato nunca se importou com isso, ela dava todo o seu amor e carinho para meu pai e ponto.
— É, meu pai também, mas a minha mãe não soube lidar muito bem com isso. Eles sempre discutiam, não só pelos fãs, mas pela forma como a imprensa sempre distorcia os fatos e caía matando em cima dela. Isso a deixava mal, até que enfim…acabou — ao olhar de relance para , ela percebeu seus olhos um pouco vermelhos, mas rapidamente ele fez questão de passar a mão para disfarçar qualquer lágrima que fosse se formar ali. — E o seu pai? Como está?
— Meu pai…faleceu já faz 3 anos.
O coração dela ficou um pouco apertado, por mais que a dor da perda tenha cicatrizado, a da falta de seu pai no seu cotidiano ainda estava aberta e agora com essa mudança da sua mãe, ela temia se sentir ainda mais sozinha.
— Então, eu resolvi morar com a minha mãe quando isso aconteceu, e agora…agora estamos aqui. — ela sorriu fraco, e quando percebeu isso, tratou de confortá-la. Tocou sua mão, a fazendo o encarar.
, você não está sozinha, agora eu estou aqui — ela concordou com a cabeça e deixou que uma lágrima solitária escorresse por sua bochecha. — A gente sabe que não é fácil passar por tudo isso e ainda ter um monte de urubu babaca fotografando a gente, mas agora eu estou aqui para o que você precisar. — Com isso ela apertou ainda mais a mão dele e esboçou um sorriso.
— Acho que a pior parte são os paparazzis, não quero ter que encontrar nenhum, mesmo sabendo que esse é um local distante e discreto, tenho medo de me deparar com eles e ter uma enxurrada de perguntas.
— Eu sei, eu sei, mas fica tranquila. Meu pai está aqui há mais de um ano e nunca descobriram nada. Confesso que no começo eu também tinha receio, mas aqui todo mundo é muito profissional. Nunca saiu nada na mídia sobre a doença do meu pai.
Essa última parte chamou a atenção de , nem ela e muito menos sua mãe sabiam que Alexandre estava passando por uma doença.
— Seu pai está doente? — uma pontada de preocupação se estabeleceu nela.
— Sim, há seis meses, acabamos descobrindo o início do Alzheimer — ele se recostou na sua cadeira e respirou fundo.
Eram poucos assuntos que não gostava de tocar e com certeza a doença e a forma avassaladora que ela estava tomando seu pai era um deles.
— No começo, não era muito evidente, mas agora tá cada dia pior, as crises de localização, o esquecimento…e hoje ele — seu olhar se abaixou para encarar seus pés, era difícil para ele lidar com o que ocorreu mais cedo. — Ele não se lembrou de mim.
Ela notou a mudança abrupta no semblante do seu novo amigo, a tristeza que estava nele logo também chegou a ela.
— Eu sinto muito... de verdade. Se eu puder ajudar em alguma coisa.
Ela gostaria de ter uma forma de reverter isso, mas sabia que não era possível. O que ela poderia oferecer a ele agora era apenas o conforto de sua amizade.
A conversa entre ambos continuou a fluir, porém optou por mudar o assunto principal, e focar mais em suas vidas particulares, por exemplo, contou a ele sobre as composições que ela estava trabalhando para o seu novo álbum, e como ela estava usando de referência a era pop/rock da sua mãe.
Ele detalhou um pouco mais sobre os treinos intensos que estava tendo e o quanto ele esperava chegar nas etapas finais do concurso. Contou também que quem o incentivou mais no esporte foi seu pai, e que ainda tinha esperança de ele poder assistir pelo menos uma última competição sua.
estava abalado após o pai não reconhecê-lo e por mais que médicos e especialistas o tivessem avisado sobre esse estágio, nada o preparou para isso. Alexander e ele sempre foram grudados, melhores amigos e confidentes. A prova disso foi que quando sua mãe resolveu se separar, sem pensar muito ele escolheu continuar morando com o pai.
Casillas foi um bom pai e, acima de tudo, um ótimo amigo. Sempre o apoiando em seus projetos e escolhas de vida. E agora com as competições finais se aproximando o jovem se sentia solitário, pois não havia com quem compartilhar seus medos.
Por mais que sua mãe quisesse preencher de alguma forma o papel que antes era desempenhado pelo seu pai, ainda assim, não era o suficiente.
— Se você quiser posso te levar para casa. — ele disse ao ver a jovem à sua frente colocar a bolsa sobre o ombro e se levantar.
— Ah, muito obrigada, mas eu vim de carro. — ela se aproximou de sua cadeira, se levantou e ambos se abraçaram por poucos segundos. — Obrigada pelas palavras de apoio, foi muito bom não ter que passar por tudo isso sozinha…
— Bom… enquanto eu estiver aqui, você não vai estar sozinha. — abaixou seu olhar rapidamente depois de se dar conta do quanto aquela fala parecia desesperada ou até mesmo emocionada demais. — Quan-quando você quiser conversar claro! — após gaguejar um pouco, o maldito tique dos olhos havia voltado.
— Tá bom, até! — se foi.





O quarto de Danika estava um completo breu, mas seus olhos estavam abertos pela falta de sono. Embaixo de seu travesseiro ela apertava com força uma pequena paleta de violão pela metade. Segurava o objeto tentando acalmar de alguma forma seu coração que se via confuso e temeroso naquele momento.
Toda sua trajetória de vida tinha sido completa e realizada, ela se sentia feliz com seu antigo marido e o amava. Porém, a mulher não poderia negar que em seu coração a promessa que ela havia feito ao seu colega de banda no auge dos seus 21 anos sempre cercou seus pensamentos.
Ela lembrava de como tudo tinha ocorrido…se lembrava que em meio às lágrimas ao saber da decisão do fim da banda e assim do afastamento forçado de ambos, ele propôs a Danika seu maior valor: a fidelidade do seu amor.
Então os dois jovens após comporem a música mais profundo e sincera, prometeram sobre uma paleta de violão, o que fez Danika sorrir um pouco com a inocência de ambos na época, que quando estivessem bem velhinhos e caso estivessem sozinhos, iriam deixar suas almas se reencontrarem e viverem aquilo que foi negado.
Ali estava ela no local combinado e em suas mãos a prova de uma promessa na adolescência. Ela amou outro, assim como ele também amou, mas ela não podia negar que o amor platônico existente entre ambos era algo maior do que ela podia explicar.
O amor de Danika e Alexander sempre foi uma brasa que nunca se apagou, se mantendo ali forte o suficiente para cortar o tempo e se fazer presente até esse momento. Mesmo sabendo disso, e tendo certeza desse sentimento, para ela Alexander ainda era uma incógnita, porque havia anos que não se falavam, se viam ou que ela tinha notícia sobre o homem e isso a deixava assustada.
Os pensamentos tomaram conta de sua cabeça o suficiente para que o sono chegasse, então ela apenas cedeu e seus olhos começaram a pesar e quando estava prestes a iniciar um bom sono… um barulho a retirou do estado de tranquilidade.
Ao se virar na cama pode constatar que vinha do corredor que agora tinha luzes acesas e havia sombras passando de forma rápida. De súbito a mulher se levantou, calçou seus chinelos macios e abriu a porta.
Observou que no final do corredor havia três enfermeiros parados em frente a uma porta aberta, ela caminhou de forma vagarosa até eles, não queria parecer enxerida, mas queria saber o que estava acontecendo ali e naquele horário.
Quando estava a poucos passos da porta, o seu coração veio a boca, ela acabara de ouvir a voz que por tantos anos apenas havia estado presente em seus íntimos sonhos. Era a voz dele, de Alexander Casillas, e agora sua voz estava mais rouca e mais clara do que nunca em seus ouvidos.
A mulher não viu o momento em que fez isso, mas só se deu conta que havia passado pelos enfermeiros na porta e se colocado na cena que chamou sua atenção. Ela pode observar dois enfermeiros perto dele, tentando o acalmar, enquanto o homem pedia a eles algo que eles não compreendiam.
Compreendeu que Alexander estava sem paciência, pela forma que ele passou a mão sobre os cabelos, da mesma forma que ele fazia a anos atrás.
— Eu já disse que quero a paleta do meu violão agora. — o homem disse de forma irritada.
— Senhor Casillas, esta é a única paleta que nós temos do senhor. — o enfermeiro disse, entregando nas mãos do homem mais velho o pequeno objeto preto. Porém, Casillas fez questão de arremessar o objeto longe. — Por favor, senhor, se controle, estamos tentando te ajudar.
— Ale… — Danika disse de forma suave e calma, a atenção de todos no local se voltaram a ela, inclusive de Alexander que agora tinha se virado para o local de onde vinha a voz.
Seus olhares se encontraram e a mulher teve certeza de que o seu coração se aqueceu depois de anos de um longo inverno. Ela resolveu não dizer nada, apenas estendeu a mão e mostrou para ele o que ele tanto procurava.
— Aqui está.
— Dan, eu disse a eles, disse que você viria para nosso ensaio. — ele pegou a paleta da mão dela e a abraçou.
Alexandre, ao olhar o rosto de Danika sentia que há muito tempo esteve longe de casa e agora junto dela, em um abraço, retornava ao seu verdadeiro “eu”. Ele se sentia cansado, mas perto dela estava disposto o suficiente para ensaiar a noite toda e iniciar uma turnê.
Amá-la permitia a ele fazer o extraordinário, sem perceber o feito. Danika era o combustível para seu coração e alma. Agora se sentia seguro, confiante. Desfez o abraço e foi até o canto de sua cama, retirou seu violão da capa e se sentou.
Olhar para a mulher que ele amava o fazia sentir que a vida valia a pena e que a música era a única forma de expressar seus sentimentos, e era isso que ele faria agora que Danika estava de volta a banda.





gostaria de ter pegado o número de sua nova amiga, para que assim pudesse arranjar uma desculpa e poder mandar uma mensagem corriqueira a ela.
Depois daquele encontro, ele passou ainda alguns dias stalkeando cada publicação atentamente dela, escutou as músicas lançadas e depois que terminou todo o álbum, o colocou em um loop infinito.
Talvez os vizinhos reclamassem, mas ele não se importaria com isso, porque depois de muito tempo o coração dele batia de forma compassada junto a voz suave de . As visitas que fazia ao seu pai se tornaram mais longas e repetidas, toda vez que adentrava a clínica havia uma ponta de esperança de encontrá-la.
Mas em toda essa felicidade, havia um fato infeliz, ele gostaria de poder contar isso para o pai, sabia que se houvesse lucidez ele daria um belo conselho, indicaria uma forma de conquistá-la.
Nas suas últimas visitas as conversas não eram longas, porque além de não o reconhecer, Alexander havia voltado abruptamente ao tempo em que ainda fazia parte do sexteto. buscou se informar se o pai havia recebido ou entrado em contato com Danika. Talvez isso fosse um dos disparadores dessa regressão.
Mas, de certa forma, os profissionais da clínica ainda zelavam pela autonomia de Alexander e não deram muitas informações. então pediu de forma gentil para que eles não deixassem que isso acontecesse, permitir que o pai desenvolvesse uma relação com Danika a essa altura, era tudo o que ele menos queria.
Primeiro, que isso poderia vazar para a mídia e seria uma grande confusão. Segundo, que isso poderia respingar em sua amizade com e terceiro e mais importante, era que isso o afetava sentimentalmente, uma vez que se lembrava das inúmeras brigas entre seu pai e sua mãe por conta de rumores de traição. As manchetes eram nojentas: “O bom filho à casa torna: Alexander Casillas e Danika Espinosa estariam tendo um caso novamente”, “Há também rumores de que Danika e Alexander se envolveram nos bastidores da novela e também durante a banda.”, “Um relacionamento a três, seria o perfeito para Alexander Casillas agora que se casou, mas ainda troca mensagens com sua ex-parceira de banda via internet”

, tinha que confessar que a imagem de Danika Espinosa era um fantasma em sua vida, lembrar o nome dela fazia com que ele retornasse a um lugar de dor, sofrimento e ansiedade. E nesse momento ele não estava disposto a isso, já estava passando uma barra com seu pai, não queria mais “problemas”.
Não era nada contra a pessoa de Danika, mas o que ela representava para ele e sua mãe. Ele tentaria evitar a qualquer custo o contato dela com seu pai, mas não impediria de se envolver com ela ou com , não havia nada de errado em pensar assim, certo?
Porque o problema era apenas a interação entre seu pai, Danika, e o público. Fora isto, não havia nada naquela mulher que o incomodava. Seu pai nunca falava muito sobre ela, em específico, ele sabia disso, porque em relação aos outros companheiros de banda ele sempre comentava, contava histórias e até mantinha contato com alguns.
Mas sobre ela, nunca foi dito nada. E isso também não importava, não importava para se Casillas tinha tido ou não uma relação com Espinosa, porque tudo isso foi em um passado muito antes dele e de sua mãe. Um passado que não voltaria, que não tinha dado certo. E como seu pai dizia aos fãs “superem!” e era isso que ele queria para si também, superar tudo sobre essa história ou coisa relacionada.
Afinal, nessa altura de suas vidas, nada pior que tentar retornar a assuntos fracassados do passado.

***

Naquele dia, como em todos os outros, estava com saudades de sua mãe. Porém, hoje ela havia conseguido uma pausa em seus ensaios em estúdio para uma visita a Danika, e era isso que ela estava fazendo agora, dirigindo rumo ao colo aconchegante de sua mãe.
Ela não via a hora de encontrá-la e contar sobre suas novas composições, ela queria saber sobre a opinião da mãe. Também gostaria de saber sua opinião sobre o encontro inusitado que teve no dia da internação de Danika.
não tinha comentado com ninguém, mas desejava poder falar mais uma vez com , porque, de alguma forma, se sentia à vontade com ele, era alguém que tinha uma história parecida com a dela, alguém em que ela pensava que poderia confiar, e em um futuro ser um amigo…ou algo a mais. Essa última parte ela não podia negar, ele era muito atraente, seus traços, seus olhos, a pinta abaixo do seu olho, tudo tinha chamado atenção dela.
Esse feito do rapaz sobre ela, “atrapalhou”, de certa forma, a produção de seu álbum, que tomou um rumo diferente, porque agora ela não gostaria mais de falar sobre assuntos tristes, gostaria de falar sobre paixão…havia até uma música que ela tinha começado a compor.
Ela escutava de forma atenta o que a mãe contava sobre seus dias na clínica, como tudo parecia harmonioso, Dan também fez questão de contar sobre as atividades extras, em que fez muitos amigos.
— Tudo parece muito bom, até melhor que em casa, mãe.
— Ah, lunita, não se sinta assim — deu um abraço de lado na filha. — Casa é onde nosso coração está, e o meu está meio aqui e meio com você. Falando nisso, filha, eu gostaria de conversar sobre algo com você — Danika nesse momento assumiu um tom de voz mais cauteloso, tinha receio de como a filha poderia reagir àquele assunto.
Gostaria de ter contado antes de vir para a clínica, mas não houve um momento que ela achou “adequado” para isso, ainda mais depois da morte de seu marido, momento no qual a filha ficou mais apegada a ela.
— Você sempre soube que eu tive um grande desejo de vir para cá. Fiz até você prometer que me traria…isso não foi planejado por agora, querida. — Houve uma pausa, como se ela quisesse decifrar qual seria a próxima reação da filha, com isso, decidiu prosseguir o assunto. — Filha, quando eu era jovem, na mesma idade que você agora, prometi a um amig…prometi ao Alexander, meu parceiro de banda e namorado da época, que se um dia estivéssemos bem velhinhos e sós, iríamos nos encontrar e tentar viver o que não pudemos naquela época.
Danika optou por não falar, a filha a encarava de forma firme, como se fosse um erro perder cada palavra da mãe. A idosa não sabia como prosseguir, tinha medo de magoar a filha e de certa forma a imagem do velho falecido marido.
Queria deixar claro que por toda vida amou o pai de ,o amou desde a primeira vez que o viu, se apaixonou ao primeiro beijo e teve certeza que era ele, quando as borboletas que viveram presas em seu estômago por tanto tempo, voaram e pousaram sobre os olhos de Paco e seu coração.
A filha tocou sua mãe de forma suave e esboçou um pequeno sorriso, como se desse permissão para continuar a história.
— Você sabe o quanto a mídia é podre, e quando se tem vinte anos isso se torna pior, porque, de alguma forma, você sente que o que as pessoas dizem sobre seu coração é a verdade, não aquilo que você é. Durante toda a banda, todos ouviram coisas horríveis, mas para mim a forma que ditavam sobre meu relacionamento com Alexander era o pior, era duro, frio…e com o tempo entendemos que a gente não iria conseguir suportar aquilo, que o amor que era bonito se transformaria em algo podre. Então decidimos colocar ele no casulo, o proteger, se firmar e aí sim…deixar ele voar. — Danika se ajeitou sobre a poltrona. — Quando seu pai morreu, foi como se eu entendesse que o casulo havia se aberto, eu poderia escolher para onde voar e eu escolhi estar aqui.
— Mãe, eu entendo o que quer dizer, é muito lindo e puro o que falou e independente de qualquer coisa, eu apoio você. Porque eu te amo, e sei que o meu pai também falaria para você seguir seu coração e se o seu coração está aqui com o Von, é onde eu quero estar com você então. — A jovem não se segurou e abraçou sua mãe.
Danika derramou lágrimas, porque se sentiu leve, agora que havia compartilhado o segredo com a filha. Também agradecia mentalmente pela forma que Paco e ela haviam criado , uma jovem doce e compreensiva.
— Sendo assim, filha, o que tenho para te dizer é que Alexander…
— Ele está aqui, não é? — Viu a mãe concordar com a cabeça com os olhos um pouco arregalados. — E eu sei que ele está com Alzheimer também.
Então sentiu que agora era o momento dela contar o que tanto ansiava, e assim o fez. No final sua mãe estava espantada. Como podia o mundo ter unido o filho dos dois em uma mesma recepção?
— Tem mais alguma coisa que queira me falar, lunita?
— Eu senti algo, senti algo por ele, mãe. Tive até vontade de compor por ele.
— Filha, isso é lindo, eu desejo muito ouvir o que você for compor.
também sabe sobre essa história, mãe?
— Não sei ao certo, Alexander, está confuso e não comentou nada sobre nossa promessa. Então realmente não sei se ele falou disso para alguém. Agora é esperar… — disse isso e deu uma longa expirada.
— Fica tranquila, ele parece ser ótimo e compreensivo. Aposto que a gente vai se reunir ainda para almoçar. — Sorriu esperançosa.





Rod o produtor de levantou a mão e fez um sinal de joia para ela. Com isso, a garota retirou seus headphones e deu suspiro de alívio, ambos estavam ali há mais de dez horas gravando um mesmo trecho, e agora finalmente tinham chegado ao resultado esperado.
Ela confessava que hoje estava mais complicado de se concentrar, do que costumava, havia algo em sua mente, uma melodia, da qual ela não conseguia esquecer. Longe dela querer esquecer aquela melodia, mas o que a incomodava é que não tinha nenhuma letra “digna” dela.
O namorado de Rod adentrou a cabine que ela estava e confirmou o que ela queria de almoço. Após isso, ela caminhou até uma sala de descanso que havia no estúdio, e lá ela encontrou seu produtor e também amigo.
Não era a primeira parceria musical de ela e Rod, ambos gostavam de criar juntos e isso acalentava o coração de , porque era incrível trabalhar com alguém tão apaixonado pelo seu trabalho como seu amigo, ele se jogava de cabeça junto dela em cada trabalho e estrofe.
tinha que confessar que hoje havia sido cansativo, mas o resultado final iria agradá-la com certeza, ela se sentou em um puff e fechou seus olhos, havia uma dor de cabeça querendo se iniciar.
— E aí, vai me contar o que tá rolando na sua cabeça?
A jovem abriu os olhos e encarou o rapaz a sua frente, era tão perceptível assim? Ela se endireitou e iniciou.
— Hoje de manhã, quando eu acordei, tinha uma melodia na minha cabeça, e eu não consigo parar de pensar nela…
— Me diz ai como é, podemos criar alguma coisa em cima.
— O problema é que ela vai totalmente contra a proposta deste álbum. O sin compromisso fala sobre desamor, se encontrar sozinha, despedidas…e ela me parece mais uma melodia romântica, sabe?
— Ué, isso é perfeito, . Se você criou todo esse álbum e essa estética para entregar para o seu público algo sin compromiso com eles, mas que seja fiel a você, faz total sentido se a gente tiver uma música de quebra dentro dele. — A jovem pode ver um brilho de paixão crescer nos olhos de Rod, a ideia tinha despertado a criatividade — Ele deve acompanhar seu coração.
— Uau, agora estou empolgada para criar. — Ela sorriu de forma confidente para o amigo.
— Tá, me conta o que tá rolando, quem é essa pessoa?
— Como você sabe que tem alguém?
, você me ofende desse jeito. Eu te conheço há tempo suficiente para saber o quanto você é leal ao que sente, e se você está querendo falar sobre amor, eu sei que você deve estar apaixonada. — Havia certa satisfação na fala de Rod por saber que estava certo.
— Tá bom, você tem razão. Eu conheci ele quando fui levar a minha mãe, você sabe… — Houve uma troca de olhares de cumplicidade nesse momento. — E ele estava lá na recepção, a gente começou a conversar. — Soltou um longo suspiro. — Ele me entende, é gentil, e tenho que confessar que achei ele gostoso. — Ela corou após confessar isso ao amigo.
— E aí, vocês estão conversando? Como está sendo?
— Acabou que eu nem peguei o telefone dele, nem nada do tipo. Vai fazer umas duas semanas que eu não o encontro. Agora você nem desconfia de quem ele é filho…
Assim, a jovem explicou sua breve ligação com e pode observar a cara de espanto de Rod
— Como assim ele é filho de Alexander Casillas Von? Como vocês foram parar lá? Sério, se isso não é destino, eu não sei o que é.
— Mas eu nem sei se ele gostou de mim. Então não dá nem para saber no que isso vai dar, pode só ficar assim mesmo. — Deu de ombros.
— Me dá o seu celular, preciso pelo menos saber como é o rosto dele. — Um pouco relutante entregou o celular a ele.
Houve um momento de silêncio, enquanto encarava o amigo mexer no seu celular. Ele não dizia nada e isso a deixava um pouco ansiosa, por saber o que ele estava achando de , caso tivesse achado alguma rede social do rapaz.
— Pronto, agora vamos descobrir qual é a dele. — Esticou o braço devolvendo o celular para a amiga, e observou o semblante de dúvida dela. — Que foi? Eu apenas fui prático e comecei a seguir ele, .
— Meu Deus, Rod! — Se levantou e começou a caminhar de um lado para o outro. — Se alguma página de fofoca ver que eu comecei a seguir ele, podem criar teoria, manchetes…você não pensou nisso? — Falava em um tom raivoso.
— Claro que eu pensei nisso, , por isso comecei a seguir ele pelo seu perfil privado, o Lunita. Agora quando ele te seguir de volta, você posta um story e vamos ver no que dá — disse de forma simples.
Ela apenas encarava o amigo, pasma em como ele tinha feito de forma tão simples o que ela procrastinou por duas semanas: falar com . Quando o som de notificação do instagram invadiu o local, Rod correu para o lado da amiga e os dois encararam “ deseja te seguir.
— Por nada — disse Rod dando um largo sorriso. — Vai, aceita logo. — Viu a amiga tocar a tela do celular. — Agora posta um story para ele saber que é você, né? Porque o nome Lunita e a foto de perfil de um quadro não ajuda, né.
, não sabia o que postar, queria interagir com ele, mas de forma simples, sem parecer proposital. Ela levantou o olhar para encarar Rod, e como em um passe de mágica, pareceu que ele havia entendido o que a amiga pensava.
— Tive uma ideia, vem cá. — Puxou ela pela mão até a cabine de gravação, colocou os headphones nela novamente. — Apenas não olhe para mim…pronto! Sei que você não quer ser óbvia, . Então posta essa foto falando que eu a tirei, com algo engraçadinho e assim ele pode interagir com você.
— Será? — Mordeu os lábios com certo nervosismo.
Estava feito, ela havia postado a foto que Rod tinha tirado, acompanhada de “trabalha y trabalha” era o melhor que ela conseguia, agora era esperar. O namorado de Rod havia chegado com as sacolas do almoço e os três estavam sentados no chão com suas pequenas embalagens de comida.
conferia de minuto em minuto as notificações do celular, mas nada de uma interação de , talvez ele poderia pensar que aquilo era um perfil qualquer, ou uma página de frases motivacionais, afinal não tinha nada que identificava que aquele perfil era dela. Apenas os mais próximos identificariam algo, por conta do nome “Lunita”, o apelido que Danika havia dado para ela desde pequena.
, é você?” ela engoliu de uma vez só toda a garfada que tinha colocado na boca, ele respondeu seu story como esperado. Ela prontamente o respondeu com um áudio “para provar” que era ela.
Após concluir a mensagem de voz, percebeu o sorriso que estava nos lábios e os dois homens a encarando e os três apenas riram de forma cúmplice, por concluírem que estava tendo uma quedinha por Casillas.
Depois daquela mensagem, os dois jovens continuaram a conversar, sem demora para resposta de ambos os lados. Compartilharam durante a conversa, sobre seus trabalhos, contou como estava indo o seu próximo projeto, mas sem muito detalhe.
Enquanto contava como tinha sido seu último treino, e o que precisaria melhorar para as finais. Eles também compartilharam o quanto gostaram de se conhecer, e de certa forma ambos ficaram felizes com isso.
Quando a conversa estava prestes a terminar, se encheu de coragem e convidou para sua casa, pensou algum tempo antes de enviar a seguinte mensagem “sei que deve estar corrido para você, mas eu saio umas 21h do estúdio, Rod e o namorado dele vão lá para casa comer uma pizza, caso você queira ir, está convidado.
Quando ela enviou aquilo, no mesmo instante se arrependeu, porque talvez ela poderia estar interpretando mal, talvez ele só estivesse sendo educado em respondê-la, talvez não gostasse desse tipo de interação. Sua ansiedade foi tão grande, que ela rapidamente entrou no chat da conversa enviou seu endereço e desligou o celular.
Não queria criar expectativa, e para isso, a ideia era esperar ele não ir. Caso ele fosse, seria uma surpresa para ela, uma vez que, ela não veria sua resposta.

Os três estavam abrindo uma taça de vinho para acompanhar a pizza que deveria estar a caminho. desprendeu o pensamento de , uma vez que, já passava das dez da noite e ele não tinha vindo ainda.
Bom, era isso, ele não vinha, não estava tão afim…
— Você quer que eu abra? — voltou a prestar atenção quando Miguel tocou seu braço. — O interfone tá tocando, você quer que eu abra?
— Não, pode deixar eu abro. — Sorriu e foi em direção a porta. — Nossa, essa pizza demorou, hein — comentou com os amigos, enquanto destrancou a fechadura.
Ele estava lá, com um casaco e um cachecol enrolado no pescoço, seu nariz estava um pouco vermelho, e em suas mãos tinham três caixas de pizza. Quando encarou seus olhos, ela pode perceber seu tique voltar, então ele começou a piscar copiosamente.
— Chegaram junto comigo, então seu porteiro já pediu para trazer. — falou de forma rápida.
Agora ele estava ali e a garota não conseguia disfarçar sua satisfação por isso.





não conseguia disfarçar o sorriso que brotava em seus lábios todas as vezes que seus olhos se encontravam com os de . Porém, mal sabia ela que tinha aumentado seu tique para conter os sorrisos que queriam ficar surgindo apenas por estar ali com ela.
A noite tinha sido agradável para todos, Miguel e Rod se deram bem com o novo rapaz a roda, e eles rapidamente se enturmaram e isso foi uma das coisas que mais gostou nele, esse jeito meigo que conquista as pessoas ao seu redor. Inclusive ela.
Os quatro devoraram as três pizzas e acabaram com duas garrafas de vinho, tudo estava mais leve, engraçado e fácil para todos. Era mais de 1h da manhã quando o casal de amigos de resolveu que era a hora de ir.
— Bom, vamos, Miguel, estou cansado e vou acabar dormindo aqui se a gente demorar mais 10 min. — Rod disse, recolhendo sua bolsa no sofá.
— Sim, amor, vamos. Já consegui achar um uber para gente. — disse enquanto conferia alguma coisa no celular e ambos se encaminharam para porta.
Foi nesse momento que de forma cúmplice e se entreolharam, o jovem coçou a cabeça um pouco sem graça, ele não queria deixar a companhia dela. Mas, ficar ali seria sem noção da sua parte. , iniciou uma caminhada para acompanhar os amigos até a porta, foi quando Rod disse em um tom de voz para que só ela ouvisse.
— Nós já conhecemos a saída, , agora acho que ele ali — Indicou com a cabeça. — Está meio perdido nesta casa, será que você não quer mostrar para ele? — Deu um pequeno riso para ela.
— Tá bom, tchau para vocês. — A jovem sorriu para o amigo e se virou para enquanto escutava à porta da frente se fechar.
— Bom, acho que já está na minha hora também, . —Começou a caminhar em direção a ela — Hoje foi muito bom, faz tempo que eu não me sentia bem como aqui. — confessou, agora a poucos centímetros da jovem.
— Que bom que gostou, eles são incríveis, eu os amo. — Sorriu ao lembrar da presença dos amigos mais cedo.
— Você também é, você me fez muito feliz hoje com o convite. — Ele se aproximou mais um pouco de .
— Eu te fiz?
Ela havia se aproximado mais, não havia distância entre eles, ela notou que olhava fixamente para sua boca e percebeu que os lábios dele estavam um pouco abertos, ao subir o seu olhar pode observar que agora ele piscava rapidamente.
Ela deu um longo suspiro, o que fez com que o ar quente de sua boca batesse contra a do jovem, ela se perguntava por que ele não a beijava? Será que ele não queria? Era cedo demais? Ela não queria pensar sobre essas coisas agora, não agora. Um formigamento surgiu no pé do seu estômago e uma corrente quente percorreu seu corpo.
Eles precisavam disso! Então vagarosamente ela se aproximou e colou seus lábios, foi o necessário para que chocassem seus corpos de forma abrupta, enroscou uma de suas mãos em seus cabelos, e ela abriu mais a boca para que a língua quente dele adentrasse.
O beijo de início foi lento e progressivamente aumentou a velocidade, as mãos dele pousaram sobre a bunda dela e as delas percorriam o abdômen dele. O momento em que desgrudaram seus lábios para respirar, foi o necessário para tomar coragem e fazer aquilo que tinha vontade.
Ele pegou com força a bunda de e a impulsionou para que ela subisse as pernas para sua cintura, as entrelaçando, então a garota retomou o beijo com ele. caminhou sem desgrudar seus lábios com os de , com ela ainda em seu colo apoiou a jovem no sofá.
Tudo estava indo rápido, percorreu seu abdômen e se encontrava com a mão no zíper da calça do jovem…então os seus pensamentos foram invadidos por uma vibração no cômodo. Quase sem fôlego, o jovem desgrudou seus lábios.
— Tá ouvindo? — Com os olhos fechados, acenou afirmando com a cabeça.
Então ambos se levantaram e procuraram pela vibração, até que encontraram o celular de tocando sobre a bancada, foi quando o jovem pegou o aparelho na mão que percebeu que sua ideia não seria executada.
quando soube que era seu celular que tocava, pensou em apenas desligá-lo e voltar para , mas essa decisão foi deixada para trás quando viu que havia três ligações da clínica de seu pai perdida, e essa era a quarta.
Quando retornou as ligações, o enfermeiro não deu nenhum detalhe apenas disse para ele ir para lá. Todo seu tesão evaporou, e agora seu coração estava apertado, o medo percorria seu corpo de forma incontrolável, o que poderia ter acontecido com seu pai?
— É o meu pai, . Eu tenho que ir.
— Claro.
A jovem percebeu que algo o tinha pegado repentinamente, ela gostaria de ir com ela, fazer companhia, mas como ele não detalhou nada, achou melhor dar o espaço dele. Ele recolheu seus pertences e eles caminharam até a porta em silêncio. Uma sensação estranha adentrou o coração da garota, ela se sentia desapontada, quase como traída?
Ela engoliu seco, gostaria muito que ele a levasse junto, e ela pudesse fazer companhia a ele. Era como se ela estivesse apaixonada? Não, era apenas tesão frustrado, só isso.
— Bom, espero que esteja tudo bem lá. Tchau. — falou de forma trêmula a última palavra.
, tcha…ah, foda-se.
beijou a jovem de forma voraz, ele queria deixar claro que a estava deixando, mas que voltaria e terminaria da melhor forma o que começaram. Já para , aquilo apenas piorou, porque agora ela gostaria mais e mais que ele ficasse ali. Então de súbito ele apenas saiu e se despediu apenas quando estava a uma certa distância dela, tudo para garantir que ele conseguiria deixar sua morena.





adentrou a clínica e nada foi explicado a ele, os enfermeiros do seu pai apenas pediram para que ele os seguisse. O corredor que dava acesso para o quarto do seu pai parecia mais extenso que o comum, a luz se tornou incomodativa a ponto do jovem piscar algumas vezes na tentativa de diminuir a intensidade do brilho em seus olhos.
O jovem respirava fundo, na tentativa de se acalmar, mas, o medo já havia pousado sobre as suas costas, era quase como se ele tivesse que se arrastar para conseguir dar um mísero passo que fosse. Mas, afinal, qual era o medo que ele sentia? Porque, afinal, ele já havia perdido seu pai.
Era cruel de se admitir em voz alta, mas sentiu uma parte sua indo embora quando a doença do seu pai começou a progredir, isso porque, por mais que Alexander estivesse lá, não era ele que estava lá. No seu olhar não havia mais aquele conforto que recorria, as palavras dele já não acalmavam o jovem e a presença era apenas a sombra de quem um dia estava de corpo, alma e mente.
Foi apenas quando ficaram frente a porta do quarto do seu pai, que os profissionais se pronunciaram.
, sei que isso é incomum de acontecer, mas achamos necessário chamar você o quanto antes. Ultimamente, seu pai vem mostrando uma regressão no quadro demencial — Deu um pequeno sorriso e apenas acenou com a cabeça em surpresa — E isso realmente tem nos impressionado…até hoje. Ele se deitou como todos os dias, e agora de madrugada nos chamou, pedindo para que ligasse para o filho dele. Ele lembrou de você, , do seu número de telefone e nos implorou para falar com você.
— A boca do jovem ficou aberta em forma de “O” por alguns instantes. — Isso é sério? — Viu o enfermeiro a sua frente concordar com a cabeça. — Eu posso entrar? — disse colocando a mão sobre a fechadura da porta.
— Claro. — E observou o jovem adentrar o cômodo e fechar a porta.
Quando entrou no quarto a imagem que viu foi de seu pai, com seus cabelos quase todos brancos, sentado na cama de costas para a porta. O jovem apenas contemplou por um momento aquela cena serena do pai, até que foi interrompido.
Colocou o violão sobre a cama, ao perceber uma presença atrás de si. Com isso, se virou.
— Filho, — Se levantou de forma abrupta e foi até o filho dando um abraço apertado e demorado. — Quanta saudade eu senti de você.
— Pai. — O jovem sentiu certa dificuldade em pronunciar essa palavra, pois sua garganta estava seca e seus olhos encharcados demais. — Eu também estava com saudade de você, pai.
Se afastou um pouco do filho para observá-lo, colocou uma mão sobre seu rosto e outra em seu ombro.
— Está diferente, e isso que estou apenas há três dias nesse lugar. — Foi nesse momento que foi trazido para realidade novamente — mas, senti uma falta repentina e acabei pedindo para ligarem para você, filho. Me desculpe. Bom… mas me conte, como estão os treinos? Tem algum campeonato em vista? — Então sua atenção foi tomada por uma vermelhidão no pescoço de seu filho. — Pelo visto os treinos estão intensos, está até com hematomas.
riu pelo nariz, com a inocência do pai.
— É pai, os treinos estão. Vamos sentar e eu te conto tudo.
O coração do jovem estava transbordando de felicidade por poder vislumbrar um pouco da presença e alma de seu pai, por mais que ele achasse que estava ali por apenas três dias, ou que estava só treinando, anulando que o filho já tinha entrado para semifinais de um dos campeonatos mais prestigiados. Nada disso importava, porque tudo valia a pena por escutar a palavra “filho” sair dos lábios do pai. Novamente ele assumia seu papel, de apenas ser filho de alguém que ele amava e admirava tanto.
Um pensamento o levou rapidamente para , ela tinha feito um pequeno estrago em seu pescoço com suas unhas, mas ele não se importava de ser marcado por ela. Se ela quisesse poderia fazer isso em seu corpo todo, porque muito antes do pescoço ela marcou seu coração.
tentou sintetizar todos os acontecimentos dos últimos meses, era muita coisa para o pai assimilar e ele sabia que deveria ser realista e pé no chão em relação a isso. Uma vez que, ele poderia voltar amanhã a clínica e encontrar um completo desconhecido novamente.
Percebeu que Alexander, mais do que nunca, estava atento a cada palavra do filho. Quando resolveu mostrar uma manobra em seu celular, viu que os olhos do pai ficaram um pouco marejados.
— Eu te ensinei isso quando tinha 8 anos. — Encarou o filho. — Minha cabeça às vezes fica confusa, quando pensei em você hoje, só conseguia lembrar de quando era pequeno, de quando pedia para que eu tocasse violão para você dormir. De quando caia e se ralava e pedia para que eu fizesse curativos sem a sua mãe saber. — colocou a cabeça sobre o ombro do pai e Alexander passou seu braço no pescoço do filho. — Sabe, , a minha cabeça tem horas que me confunde, mas, meu coração não. Eu te amo, meu filho, e estou feliz que esteja fazendo algo que goste…eu me sinto em paz com isso, uma sensação de dever cumprido com você.
— Pode ter certeza, pai, estou fazendo o que amo e isso eu devo a você. E quanto a sua cabeça, não esquenta com isso, tá bom? Às vezes a gente se confunde mesmo. — O jovem sentiu a necessidade de dar algum consolo ao pai.
— Eu preciso te contar uma coisa, filho…
engoliu seco, por não fazer ideia do que viria.
— Pode me dizer, pai.
— A banda da qual eu fazia parte…ela vai retornar, um encontro de 20 anos. — Viu certa emoção dominar os olhos do pai novamente. — E eu quero voltar com eles, e queria que você fosse o primeiro a saber disso.
A realidade novamente exalava na sua frente, por mais que tentasse Alexander estava se movimentando em uma areia movediça para , quanto mais ele se movimentava para fora, mais ele estava sendo engolido pelas suas lembranças, emoções, sentimentos.
— Pai — O moreno respirou fundo buscando forças para isso — eu acho que isso não vai acontecer.
— Claro que vai, filho, comecei a ensaiar algumas músicas antigas, e…uau… isso me levou a tantos lugares. Me lembrei de tantas coisas…e Danika também está aqui... O estômago de se revirou e ele jurou que iria vomitar todo o vinho que tinha tomado.
— Danika? Você falou com ela, pai?
Foi apenas nesse momento que Alexander viu a feição do filho mudar. Aquele jovem a sua frente calmo e compreensivo, foi tomado por uma expressão de desconforto e ameaça. Com isso, o homem percebeu que talvez o filho não estivesse preparado para ouvir que sim, ele havia conversado com Danika, que ele havia reatado com ela, e que agora ele estava feliz e se sentia de certa forma mais vivo.
Sentia como se estivesse andando nas nuvens nesses últimos dias, a presença dela era o sol em um amanhecer, sereno, que aquece o corpo de forma igualitária, sem deixar nenhuma parte esfriar. Ele amava isso em Danika, ela era um grande sol que trazia luz, calor e esperança a todos a sua volta, amava seus olhos penetrantes e a sua risada, ele a amava, cada coisa que ela fazia e tudo aquilo que a rodeava.
A reação de lhe pareceu estranha, por que o filho não parecia confortável com essa notícia? Por que uma coisa que lhe fazia feliz poderia fazer seu filho triste? Como pai, ele sentia o dever de proporcionar certa felicidade ao filho, mas neste caso o que poderia ser feito?
— Pai? Pai...
— Ah, me desculpe, é…o que você falou mesmo.
— Você não acha melhor se deitar? Esta tarde e acho que conversamos o suficiente, amanhã eu posso voltar.
— Certo, isso é uma boa ideia. — Deu um sorriso de ternura para o filho.
se levantou da cama.
— Deita, eu fico aqui até você dormir, tudo bem? — Viu o pai concordar e depois se aconchegar na cama.
se sentou em uma cadeira que havia ao lado, apagou as luzes, deixando apenas um abajur aceso. E viu o pai o encarar por um tempo, até seus olhos pesarem e ele ceder ao cansaço.
Quando já estava ao lado de fora da clínica, ele soltou um grito rouco. Foi a forma de demonstrar que estava realizado demais, que seu peito estava cheio, quase transbordando de felicidade. Estar com seu pai era único, e ele lutaria sempre por isso.
Mas, agora havia algo que ele queria mais do que tudo, pegou seu celular e fez aquilo que desejou:

“Eu sei que tá tarde, mas preciso que saiba. A noite foi incrível”
“Você é incrível, não posso negar. Queria te ligar, mas não me sentiria bem te acordando, só queria te dizer que meu pai se lembrou de mim. E isso é a segunda melhor coisa que me aconteceu hoje, porque a primeira foi te beijar. Descanse bem, minha

O que não sabia, é que depois de tudo que havia acontecido naquela madrugada, não tinha conseguido dormir mais, e resolveu que seria um ótimo momento para compor. Estava parada mais de meia hora em frente ao seu caderninho pensando em um título para aquela música até que recebeu uma notificação no seu celular.
— Minha . — Tocou os próprios lábios após ler a mensagem. — Puta merda, Casillas Von.
Então ela havia decidido, que aquela melodia que surgiu desde a primeira vez que o tinha visto, que a letra que surgiu após o primeiro beijo deles, seria dedicada aos dois. E que o título seria um segredo que apenas eles entenderiam, e assim nascia “Let me be”, se ele deixasse ela seria sua, seria de .





O apartamento ainda guardava os ecos dos últimos acordes quando desligou os equipamentos e checou o celular. Uma mensagem de brilhava na tela: "Se ainda estiver de pé aquele convite… eu passo aí às 20h. Pode ser?" Ela sorriu, mordendo o lábio inferior. A noite seria deles.
Quando ele chegou, o céu já estava tingido de azul escuro, e a cidade parecia menos barulhenta do que de costume. carregava duas sacolas com garrafas de vinho e alguns doces artesanais, desculpas que encontrou para não chegar de mãos vazias e evidenciar sua tremedeira perto de .
abriu a porta vestida com um blazer largo por cima de um short que julgou ser de pijama. Um look despretensioso que, para ele, era a coisa mais bonita que já tinha visto.
— Eu não sabia se isso era um encontro ou só um vinho de terça — disse ela, meio rindo, meio tímida.
— É um pouco dos dois — respondeu, com um sorriso torto.
Sentaram-se no sofá, dividindo uma taça. A conversa deslizou com facilidade, falaram sobre música, sobre infância, sobre os sonhos que abandonaram pelo caminho. O mundo parecia mais fácil quando estavam na presença um do outro.
contou sobre quando quase virou guitarrista, mas largou tudo pelo skate. revelou que, quando era pequena, queria ser astrônoma, até entender que o palco era seu universo preferido.
— É engraçado como a gente sempre tenta fugir daquilo que nos puxa pra quem somos de verdade — ela comentou. Não conseguia se ver agora, longe de seu caderninho e violão.
Ele olhou pra ela com atenção. O tique nos olhos apareceu. Ela notou.
— Você faz isso quando está nervoso? — perguntou de modo despretensioso.
— Só quando estou tentando não te beijar — confessou, encarando os lábios dela. ruborizou quando se deu conta do que tinha acabado de falar.
O silêncio que seguiu foi longo e leve ao mesmo tempo. deixou a taça de vinho de lado e se aproximou. Seus joelhos encostaram nos dele.
— Então para de tentar — sussurrou contra os lábios dele.
E ele parou. Mas, logo tratou de grudar seus lábios nos dela.
O beijo foi lento, cheio de intenção. Os lábios se encontraram com doçura e urgência, como se quisessem recuperar o tempo que ainda nem tinham perdido. As mãos dele tocaram o rosto dela, e ela o puxou pela gola da camiseta, colando seus corpos.
Os minutos que se seguiram foram preenchidos por toques curiosos e olhares demorados. Nenhum dos dois tinha pressa. Era como se o mundo inteiro estivesse suspenso dentro daquele apartamento.
a deitou devagar no sofá, os dedos deslizando pela pele exposta entre a barra do short e o blazer. Mas antes que tudo se tornasse rápido demais, o interrompeu com um beijo na testa.
— Ainda não — disse ela, com um sorriso tímido. — Eu gosto de ir devagar… quando é de verdade — confessou.
encostou a testa na dela, sorrindo.
— Então vamos do seu jeito, . O meu tempo é todo seu. — deu um selinho rápido.
Eles se aconchegaram no sofá, como se aquilo já fosse rotina. As luzes baixas, o som de um disco instrumental tocando baixinho, o calor do corpo do outro… e nenhum medo ali.
Ao sentir o ressonar de em seu pescoço, a jovem esticou seu braço delicadamente e pegou seu caderninho de composições na mesa a frente e escreveu só uma frase:
“Se você me deixar, eu posso ser. E quero ser.”
Sorriu para si mesma. A música nascia ali. E talvez, um amor também.
A semana passou de forma rápida para ambos, os encontros que antes eram casuais se tornaram recorrentes, o apartamento de também se tornou um pouco de , era o refúgio de duas almas apaixonadas.
— Quer sair hoje à noite? Rod me chamou para conhecer essa balada nova. É meio alternativa, ninguém fica com o celular na mão. Acho que a gente precisa disso… um pouco de normalidade — disse, colocando seus braços em volta do pescoço do jovem, enquanto ele fazia uma pequena massagem em suas costas.
— Eu toparia qualquer coisa com você. Até a balada — disse e viu sair de seu colo.
— Isso foi fofo — ela respondeu, mordendo o lábio. — Mas só porque não sabe dançar.
— Tenho outras habilidades. Mas, herdar o gingado do meu pai não é uma delas. — balançou os ombros em referência às famosas dancinhas de seu pai. E com isso, arrancou uma gargalhada da jovem a sua frente que ficou um pouco vermelha.
estava com um vestido preto simples, enquanto estava casual, jeans escuro, camisa preta e um casaco com capuz. Nada chamativo, porque bastava estarem juntos, para chamarem atenção de qualquer forma. A luz, os sorrisos, os olhos cintilantes do jovem casal, já os entregava.
Rod e Miguel os receberam com gritos e taças de gin. Eles riram, brindaram, dançaram. E então veio uma música lenta, e puxou pela mão.
— Eu sei que você não dança, mas só me segue — disse, colando o corpo ao dele.
— Para qualquer lugar, querida.
E ele seguiu.
Ali, no meio da pista, os dois dançaram como se o mundo tivesse ficado do lado de fora. Não havia pressa, nem cobrança, nem medo. Só dois corpos se entendendo num ritmo próprio. Os batimentos sincronizaram, enquanto as respirações se tornaram embaraçosas, vidrados um no outro, e se beijaram. Foi nesse instante que um flash estalou, rápido, quase imperceptível. sentiu. também. Abruptamente, foram puxados para a realidade, um zumbido surgiu no ouvido de , ela observou Rod vir até ela, enquanto a abraçou e escondeu seu rosto na curva do pescoço.
— Vão se foder, seus merdas. — após isso, deu o dedo do meio para o paparazzi a sua frente.
Rod colocou sua jaqueta sobre o rosto de , enquanto Miguel ia para cima do cara com a câmera, tentando uma negociação. Antes de sair com , deu uma última encarada ao paparazzi a sua frente, que lhe deu um sorriso. O tipo de sorriso que cheirava a manchete.
A volta para casa foi silenciosa, nenhum dos quatro amigos se arriscaram a pronunciar uma palavra. optou por ficar em seu apartamento e se despediu de , apenas com um beijo na testa, que ele deu.
Horas depois, encarava o celular com as mãos geladas. Rod foi quem mandou o link: "Filhos de ex-integrantes da banda sensação são vistos aos beijos em balada underground de Madri", “Romance entre Espinosa e Casillas Von pode reacender a chama do sexteto original?”
Ela sentiu o estômago afundar. O coração acelerou, não por amor, mas por pânico. Do outro lado da cidade, o celular de vibrava sobre o criado-mudo. Ele dormia. Pela primeira vez em semanas, dormia profundamente.
sentia a pele úmida, como se tivesse tomado os primeiros pingos de uma chuva…ou tempestade. A tempestade ainda não havia chegado. Mas a primeira gota tinha caído em seu coração.
O celular de vibrava tanto que ela precisou desliga-lo. A primeira notificação tinha sido o link da matéria. Depois vieram os stories de fãs marcando seu nome, o aumento repentino de seguidores no perfil “Lunita”, e dezenas de directs com emojis de fogo, coração e… facas. Ela se encolheu no sofá com os olhos vermelhos de lágrimas e uma noite mal dormida.
Rod, logo que os primeiros raios de sol iluminaram o céu de Madri, correu para casa da amiga. Pois, sabia que ela precisava dele mais do que tudo agora.
, o assessor da gravadora ligou. Eles querem se reunir ainda hoje. O pessoal tá tentando abafar, mas o estrago já foi feito. Você precisa decidir se vai negar ou assumir.
passou a mão no rosto. Por mais que tivesse crescido cercada pela fama da mãe, nunca se sentira uma pessoa pública até agora. A sensação de não ter controle da própria história era devastadora.
— E se eu não quiser dar nenhuma resposta?
Rod expressou quase que uma careta de dor, mas optou por ser sincero com a amiga.
— Vão inventar uma por você.
A jovem não disse nada, apenas abraçou o amigo e deixou as lágrimas escorrerem. Só havia uma pessoa a contatar agora.

Quando abriu a porta do estúdio naquela noite, já não sabia o que esperar. Tinha mandado a mensagem para há algumas horas. “Se quiser conversar, vou estar lá. Sozinha.”
Escolheu o estúdio porque alguns repórteres já haviam acampado no saguão de seu prédio, não havia lugar seguro para os dois. Havia sobrado apenas o seu estúdio de música, e isso tirou um riso da jovem, era irônico até para eles…
Ele chegou pouco depois. Cansado. Confuso. Mas com os olhos ainda doces quando a viu.
…— ele correu e a abraçou.
— Eles fizeram da gente uma manchete, .
Ele suspirou. Sentou-se ao lado dela, em silêncio, por alguns segundos.
— Eu gostaria que a gente pudesse escolher, quando contar sobre isso.
engoliu seco.
— Eu também.
a olhou. Seus olhos estavam cansados, mas cheios.
— Eu acho que você é a primeira coisa real que aconteceu comigo em muito tempo. E eu tô com medo, mas…
Ele pegou a mão dela.
— Se você quiser, eu fico.
Ela sorriu. E pela primeira vez naquele dia, respirou aliviada.
— Então fica. Mas fica por nós. Não por eles.
Eles se abraçaram. Longe das câmeras. Longe do mundo. Como deveria ter sido desde o começo. Naquele momento, e não eram lendas, nem herança, nem símbolo. Eram só dois jovens tentando amar





— Ale, se quiser, a gente pode parar — Danika tentou esboçar seu sorriso mais sereno para companheiro. — Ale… — o chamou, mas não conseguiu sua atenção.
Já fazia duas horas que os dois estavam sentados no jardim da clínica. Ale tentava, em vão, tocar no violão uma música antiga do grupo, uma das primeiras que compuseram juntos.
Desde que haviam acordado, Alexandre, mostrou certa inquietação para que ambos fizessem o “ensaio” da música juntos, já que era a “primeira apresentação” para o público. A mulher em nenhum momento se opôs a esse desejo, gostava desses momentos que desfrutavam juntos da música.
Mas agora, aquilo era tortura. Os dedos de Alexander começaram a sangrar de tanto repetir o mesmo trecho. Ele não conseguia lembrar o resto da música. E Danika não conseguia mais fingir que aquilo era só saudade.
— Ale…Alexander!
— O que foi?— só então que seus olhos se elevaram a mulher a sua frente.
— Podemos passar essa música…
— A gente não tem tempo. Precisamos passar agora. — fez menção de tocar novamente os acordes, mas Danika colocou sua mão sobre a dele.
— Depois a gente continua. — disse, em um tom de dor, mais firme que as outras vezes.
Foi nesse momento que Danika entendeu: Alexander não estava ali, naquele jardim. Ele estava há cinquenta anos atrás.
Alexander a fitou por alguns instantes, então arremessou seu violão sobre o gramado. Ele se levantou e Danika o acompanhou, a mulher estava confusa com essa mudança repentina.
— Ale, tá tudo bem?
— Quando você ia me contar?
— Contar? Contar sobre o quê, Ale? — Os olhos dele começaram a marejar.
— Tínhamos um combinado, Danika. E você o quebrou. — Tentou se aproximar dele. — Do que você está falando?
— Como do que eu estou falando? Todo mundo tá comentando nos corredores…— Nesse momento deixou que as lágrimas rolassem. — você aceitou o papel, aceitou fazer aquela novela.
Então toda essa reação de Alexander fez sentido de repente. Quando jovens, logo no final da banda, o produtor ao descobrir o romance dos dois propôs a eles um papel em uma novela, mas, Ale foi contra, enquanto ela… bom… Danika aceitou e isso foi um dos motivos que fizeram os dois se afastarem.
— Ale, vamos deixar isso pra lá — tentou tocar o ombro do homem, porém ele se esquivou.
— Não, não! Nós tínhamos um combinado, íamos sair da bagunça que é a mídia. A gente ia viajar. Conhecer o mundo. E depois, nós iríamos nos assumir. — disse, se aproximando dela e agora colocando as mãos nas laterais do rosto da mulher. — Então, você foi lá, me rejeitou, rejeitou esse sonho. Você me traiu, traiu um sonho que construímos juntos. — agora Alexander não controlava mais as lágrimas.
O homem sentia seu peito arder. A ideia de perder a mulher que tanto amava, era quase inconcebível. Mas, mais inconcebível ainda, era a ideia de que ele fosse a pessoa a impedir de viver seu desejo da arte. Era justo, talvez isso, a arte que os uniu, agora os separaria.
Ele só gostaria de saber em que momento, ele se tornou alguém em que Danika, não confiava mais. Por que ela não tinha contado sobre a mudança de ideia? Ela ouvia toda noite seus batimentos, sobre seu peito ele lhe confidenciou seu amor, mas ela não confidenciou a ele seus medos, por quê?
— Me desculpa, Ale. — disse, o abraçando.
Ela nunca soube o que ele sentiu, quando isso aconteceu há 50 anos. E agora, vendo sua vulnerabilidade, a dor, por que ele não fez isso? Talvez, só talvez, se ele tivesse implorado, se aberto, ela teria ficado.
Ela sempre amou a arte, sempre amou Alexander. Mas para amá-lo, ela teria que deixar uma parte de si, nunca poderiam ir à mídia, porque tudo iria se desgastar e eles sabiam disso. Danika jurou secretamente, com todo seu coração, que gostaria de ter contado a ele sobre sua escolha, gostaria de ter o convencido de esperá-la, mas novamente isso foi tirado.
Alexander nunca contou como ficou sabendo. Porém, Danika se lembrava bem de estar sentada com os amigos de grupo, durante uma sessão de fotos. Se lembrou de encontrar os olhos dele cruzando o estúdio…se lembrou da frieza, a mágoa no olhar.
A mágoa, ela criou um abismo entre o amor e o amado, e ela se lembrava de naquele dia ter se jogado no abismo que Alexander criou.
Depois daquele dia, ele nunca mais falou com ela, mesmo ela tentando inúmeras vezes. Ela passou os seis últimos meses da banda sem saber o que fazer, trancada em quartos de hotéis ao redor do mundo, se remoendo, se deixando partir a cada lágrima.
Depois de tudo isso eles nunca mais se falaram…
Se afastou do abraço do homem. — Mesmo com tudo, Ale, isso, ainda não é justo.
— Está tudo bem por aqui?— disse um enfermeiro, se aproximando.
— Está. — disse Danika de modo firme. — Vou apenas descansar um pouco.
— Danika, espera… — Ale disse, começando a seguir a mulher.
— Alexander, agora não!
Danika caminhou em passos largos até seu quarto. Queria tomar um analgésico para a dor de cabeça que ameaçava e dormir pelo resto do dia. Mas seus planos foram interrompidos pelos olhos cintilantes, cor de mel, que encontrou na porta.
correu para abraçá-la assim que a porta se abriu. Por muitos anos, Danika acreditou que ser forte era não chorar na frente da filha. Agora, descobria outra força, a de permitir-se chorar nos braços dela.
— Mãe. — a chamou, desfazendo o abraço para encará-la. — Tá tudo bem?
— Não. Mas agora, com você aqui, vai ficar.
— Não sabia que minha presença era tão ilustre assim — disse e ambas riram.
seguiu a mãe até a cama, e as duas se sentaram.
— Mãe — a chamou.
— Querida… — balançou a cabeça, tentando conter o choro. — Está muito… muito difícil com o Ale. Ele se esquece, ele se lembra. E de repente, eu o perco, mesmo estando ao seu lado.
sentiu a impotência formigar pelo corpo, até a ponta dos dedos. Não conseguia imaginar a dor da mãe. Nem a de . Nem a de Ale. Perdido nesse mar de lembranças e cotidiano, era triste pensar que alguém pudesse se afogar em si mesmo, como Alexander, engolido pela própria mente.
— Eu estou aqui — entrelaçou os dedos com a mãe. — Eu sempre vou estar, eu sou sua luz, sua lunita, lembra?
— Eu sei, e sei que eu vou passar por isso. Mas, é tão triste encarar os cabelos brancos dele, que ainda sofrem pelos feitos da Danika ruiva de 50 anos atrás. Nós assombramos nossa própria história, filha.
— Você é uma linda ghost, mãe — ambas riram.
— E me conte como está indo tudo? As composições? e você.
A jovem achou que conseguiria se segurar. Mas as perguntas da mãe a cortaram, arrancaram a casquinha daquele ralado recente.
— Mãe — disse, sorrindo enquanto lágrimas escorriam.
, meu amor. — A abraçou. — O que aconteceu?
— Estava indo tão bem… eu compondo, ele do meu lado, a gente se conhecendo. Aí resolvi sair com ele, me sentia à vontade. Fomos pra uma balada, e então vieram fotógrafos, jornalistas… sei lá. Tiraram umas fotos nossas e agora faz dois dias que a gente não se vê.

, olha para mim. — fez a jovem a encará-la. — Você não está errada em amar, em experienciar ou qualquer coisa do tipo. Eles que são uns podres de te exporem. Entendeu minha querida?
— Eu o encontrei depois de tudo isso, e estamos bem. Claro, estamos nos encontrando menos para abafar a suspeita. Mas isso é horrível, eu me sinto culpada por fazer isso comigo e com ele ao mesmo tempo. — disse, limpando as lágrimas. — Ahh…me esqueci — esboçou um riso amargo. — uma das estratégias para despistar o romance, seria “vazar” que você está internada. Que merda!
— Você acha que isso resolveria as coisas, querida? Podemos ver a melhor forma de…
— Não, mãe. Isso não é uma possibilidade. O que eles vão fazer? Toda vez que eu viver, eu vou ter que sacrificar uma intimidade minha? Se eu me despir para eles…nos deixamos em carne viva, mãe.

— Eu sei, meu amor. Vem aqui. — disse, abrindo os braços para filha — Você sempre terá a mim, e eu terei você.
Então ambas deitaram abraçadas na cama, e ficaram assim em silêncio, enquanto o mundo gritava seus nomes.




A pista de skate no centro de Madri fervia com os sons das rodas, da música alta, dos gritos de incentivo e das quedas inevitáveis. estava ali no meio, como um corpo em sintonia com o concreto, voando, deslizando, errando e tentando de novo.
observava tudo do alto da arquibancada lateral, sentada sozinha, um boné cobrindo parte do rosto, os cabelos presos sob o capuz de um moletom velho dele que ela havia "roubado" dias antes. Discreta. Invisível. Quase.
Era estranho assistir alguém em silêncio e ainda assim sentir que se conhecia cada parte dele. Cada vez que caía e ria sozinho, ela sorria por reflexo. Quando ele acertava uma manobra e os amigos o aplaudiam, se pegava anotando no seu caderninho, como se os giros no ar tivessem virado versos no papel: “Você pisa no medo como quem pisa no chão e voa sem saber se vai cair.”
Ela suspirou. O mundo ali parecia mais simples. Como se não houvesse capas de revistas, repórteres, passado para arrastar. Só ele. E ela, escondida, mas presente.
— Se eu te visse de longe assim, me observando e anotando... certeza que era uma stalker — disse Rod, sentando ao lado da amiga.
— Que susto. — colocou a mão sobre o peito. — Peraí, como você me achou?
— Bom, , você pode se achar a “misteriosa”. Mas, quando disse que sairia do estúdio para buscar inspiração e eu soube que o garoto — apontou com a cabeça para a rampa abaixo deles — estava tendo treino ao ar livre. Eu saquei.
— O que eu posso fazer, é mais forte que eu. Faz dias que não nos vemos e quando ele me mandou mensagem... — inclinou a cabeça em direção ao amigo e fez um bico.
— Pensa que eu já não percebi a de vocês? Você dormiu todos esses dias no estúdio, ele “sumido” — fez aspas com a mão — dos treinos. Vocês tão curtindo mesmo esse negócio de Romeu e Julieta.
— Sabe o que é, Rod? — ela respirou fundo e o encarou com seriedade exagerada. — “Meu único amor, nascido do meu único ódio! Conhecê-lo tarde demais, e amá-lo mais ainda.”— ambos gargalharam.
— Tá bom, Julieta. Agora parece que o seu Romeu já te descobriu. — Apontou para o jovem que de longe acenava.
, sorrateiramente, balançou os dedos da mão, um após o outro. Enquanto estampava um sorriso de orelha a orelha. Seu celular vibrou no bolso, acabou de enviar uma mensagem: “A próxima é para você”.
não ousou retirar seus olhos da pista, pegou impulso e saltou sobre uma barra. E fez a prancha de seu skate dar uma volta em seu pé traseiro, ao tocar o chão novamente, parecia tudo bem…mas ele desequilibrou e caiu.
Isso fez e Rod fazerem uma careta, mas logo ela sorriu com a mensagem que recebeu: “Espero ter te impressionado, já que você me impressionou vindo até aqui, mesmo com esse final.”. A jovem sorriu e respondeu: “Você me impressionou muito antes disso. Ainda bem, kkkk”
— Ok, pombinhos. Agora podem parar. — disse o amigo chamando a atenção de . — Eu tive uma ideia: eu e Miguel cansamos do nosso estúdio cheirando a sexo…
– Hey. — disse, se fazendo de ofendida — A gente não transou, ok?
— Pois com todo esse hormônio aqui deveriam.
— Me conta a ideia, Rod.
— Se o topar. Ele pode entrar no meu carro escondido aqui e eu vou para sua casa. Já na garagem ele desce, e vocês se encontram.
— Isso é uma ótima ideia.
— Eu sei — disse em um tom convencido.
— Muito obrigada, Rod — o abraçou e depositou um beijo em sua bochecha. — Por tudo, sempre!

A música havia parado. O violão repousava entre eles. deitou-se de barriga para baixo, observando . Ele parecia calmo, mas havia algo no olhar, aquele brilho inquieto que ela já começava a reconhecer.
— Ei… ei… não! — disse, se levantando rápido. — Não pode ler meu caderninho! — Ela arrancou das mãos de .
— Nem um pouquinho — fez um gesto com o dedo e um bico implorando.
— Humm… só uma página — cedeu, revirando os olhos com um meio sorriso.
Os olhos de brilharam como os de uma criança em sua primeira vez no cinema. Ele se sentou mais ereto e abriu o caderninho dela bem no meio. Leu em silêncio, enquanto o peito de subia e descia, inquieto..
— E aí? — perguntou com certa impaciência. — O que você leu?
– “Se você me deixar, eu posso ser. E quero ser. Nesse dia ele tocou mais que a minha pele… bem mais”. O que eu toquei, ? — a encarou com certo fascínio.
— Você sempre foi assim curioso?
— Eu não sou curioso! Eu sou apaixonado por você, é diferente. — após essa fala, o encarou com certa surpresa.
— Você disse... — ela sorriu. — Você disse que está apaixonado por mim. — Após isso se sentou no colo do rapaz.
beijou com certa profundidade. Quando o ar faltou para ambos ele se pronunciou.
— Pensei que soubesse que eu estou completamente apaixonado por você, desde o maldito dia que te vi naquela recepção — confessou.
— Bendita recepção. — levantou as mãos para o alto e o beijou rapidamente. — É que você é sempre tão fechado… — disse, enroscando seus dedos nos cachos de . — Você sempre foi assim… fechado? — ela perguntou, a voz baixa, mas firme.
— Não sei — disse depois de um tempo. — Talvez não. Ou talvez sim, e só que ninguém tenha notado. — respirou fundo. — Quando a separação dos meus pais saiu na mídia, eu tinha treze anos. Foi do nada. Tipo… numa terça-feira qualquer, eu acordei e meu rosto estava no rodapé de uma matéria que dizia: “o filho da tragédia Casillas”.
soltou uma risada amarga. Esse era o gosto do seu passado, não tão distante. Aquele menino sozinho, no quarto, rolando os blogs que faziam dele um coitado. Não uma criança, só… a consequência de um romance falido.
— A partir dali tudo virou piada. Me zoavam na escola. Diziam que minha mãe era a "coitada traída" e meu pai o “cantor canalha”. Comecei a me esconder. Parei de falar sobre eles. Me afastei de tudo que lembrava aquele universo. Da música. Dos palcos. Até do meu próprio sobrenome6 — respirou fundo e olhou brevemente para teto para lágrimas não caírem. — Eu entrei no skate porque era o único lugar onde ninguém me perguntava nada. Só queriam saber se eu caía e levantava. E isso… isso eu sei fazer.
— Hey... — puxou o queixo dele para que a encarasse. — Você tem a mim, e eu espero ter você. — deu um selinho nele. — E... bom, para você não esquecer isso — disse, pegando uma caneta no sofá atrás deles.
retirou a camisa do jovem e fez em sua clavícula um pequeno sol e lua. O jovem apenas a encarava encantado com cada traço, ou como ela mordia os lábios para se concentrar no desenho. encarou o desenho com curiosidade e com satisfação.
— Eu — disse, colando o dedo na lua. — Você — apontou o sol. — Nós precisamos um do outro. Você me ilumina pra que eu ilumine a noite. E mesmo com todas as estrelas… eu ainda quero te encontrar. A gente vai fazer um eclipse, crepúsculo… seja o que for, mas nem que seja por um instante — a gente vai estar junto— Ela o beijou.
— Gostei disso. Minha vez. — pegou a caneta de sua mão.
levemente deslizou a ponta de seus dedos para parte interior da coxa de , isso fez a jovem arfar sem querer ao mesmo tempo que se arrepiou. Sem conseguir segurar, o jovem soltou um sorriso com a cena e escreveu “mine” na parte interna da coxa.
curiosa correu os olhos para ver a arte. E ficou surpresa com a referência, porque esse era um trecho de uma música do seu último álbum.
— Como…como você sabe? — disse, sorrindo boba.
— Eu disse, aquele encontro na recepção me deixou alucinado por você, Espinosa. Meus vizinhos devem ter feito abaixo assinado.
— Merda! Eu estou muito na sua. — o beijou.
Ela o puxou pela nuca, selando seus lábios nos dele. O beijo era profundo, mas calmo. As mãos dela passeavam pelas costas dele, sentindo a tensão dos músculos, os contornos do corpo que ela só conhecia por fora. Agora, queria aprender cada linha com a ponta dos dedos.
tirou o moletom dela devagar, os olhos acompanhando cada pedaço de pele revelado, como se desvendasse uma letra de música que sempre quis entender. sorriu, os olhos ainda fixos nos dele. O contato da pele com a pele arrepiou os dois. Ele a beijou no ombro, depois no pescoço, com uma lentidão quase reverente, como se cada parte dela fosse um território sagrado.
Seus corpos se encontraram com uma mistura de descoberta e urgência contida. Os movimentos ainda eram cuidadosos, quase ensaiados, mas repletos de desejo. As mãos se procuravam, os olhos se encontravam entre os beijos, os sorrisos, os arrepios.
Ele parou por um instante, olhando-a como quem pedia permissão mais uma vez, mesmo sem palavras. segurou o rosto dele entre as mãos e assentiu, com um toque de doçura nos olhos:
— Eu sou seu. — sussurrou.
Não era a primeira vez de nenhum dos dois. Mas, era a primeira vez de sendo tocada além da pele. E de sendo visto além das fronteiras que sempre construiu.





A luz branca da clínica sempre parecia mais dura nos dias em que Alexander acordava esquecido de si. Danika entrou devagar, quase como quem tenta não acordar uma saudade, mas o quarto já estava desperto no tom monótono do monitor cardíaco e no murmúrio distante do corredor.
Ela parou na porta por alguns segundos, observando o homem que amou a vida inteira, tão grande e tão frágil, tão presente e tão longe. Havia algo profundamente injusto em ver a memória de alguém se desfazer aos poucos, como se cada dia levasse um fio, um rosto, um pedaço de mundo.
Alexander virou o rosto quando sentiu o perfume dela. O corpo reconhecia antes da mente e Danika segurava esse detalhe como quem segurava uma corda fina sobre um penhasco. Os olhos dele demoraram um instante longo demais para focar o rosto dela, mas quando focaram, houve um clarão silencioso, uma luzinha temporária que dizia que ele sabia. Ela sorriu, e naquele sorriso havia um pedido: fica comigo hoje, mesmo que você não saiba quem eu sou o tempo todo.
Ela caminhou até a cama e se sentou ao lado dele, acariciando os cabelos que já não seguravam forma. Ele fechou os olhos, e Danika quase acreditou que aquele instante tão pequeno, era suficiente para trazer Alexander de volta por alguns minutos.
— Você veio cedo hoje — ele murmurou, num tom suave que não combinava com os anos de voz forte que ela lembrava.
Danika não sabia se era cedo, tarde, ontem ou amanhã. Mas assentiu.
— Vim. — foi tudo o que conseguiu dizer.
A conversa deles era feita de fragmentos. Alexander perguntava por pessoas que já não estavam na vida dele, confundia datas, misturava lembranças como quem virava as páginas de um livro sem saber qual é o capítulo. Danika ouvia tudo com atenção quase religiosa, escolhendo cada resposta com cuidado para não o ferir, mas também sem criar ilusões que pudessem confundi-lo ainda mais. Essa era a dança invisível que ela já sabia dançar: um passo para proteger, outro para não mentir demais.
Do nada, como uma onda vindo de lugar nenhum, Alexander apertou a mão dela com força — aquela força antiga, a força do homem que ele foi.
— Sinto que vou perder alguma coisa importante. — disse, a voz embargada, olhando para as próprias mãos como se esperasse encontrá-las vazias.
A dor atravessou Danika com precisão cirúrgica. Porque ele estava dizendo a verdade, ele estava perdendo. A si mesmo. Aos outros. À vida que construiu. E ela estava ali, tentando segurar suas bordas antes que o resto escorresse.
Ela aproximou o rosto dele, respirando fundo para não tremer.
— Você não está perdendo nada que eu não possa segurar com você. — sussurrou, sabendo que aquilo era uma meia-verdade amorosa, daquelas necessárias. Alexander acreditou. Sorriu pequeno, um sorriso que lembrava o menino que ele nunca deixou de ser.
As horas passavam devagar, como se o tempo tivesse pena deles. Danika ficou ali, ouvindo cada frase desconexa, cada história que voltava misturada com outras. Ele falava de quando era pequena, mas colocava acontecimentos fora de ordem; falava de com uma ternura que parecia antiga, e ao mesmo tempo, esquecia que o filho o havia visitado na semana anterior. Danika notava tudo, guardava tudo, como quem arquivava memórias por dois.
Havia momentos de lucidez, raros e preciosos.
— A … ela tá bem? — ele perguntou, franzindo o cenho como quem buscava uma recordação presa atrás de um muro.
— Está. Ela sempre tenta estar. — Alexander assentiu, mas o olhar denunciava o cansaço de quem lutava para lembrar do próprio amor.
Quando a tarde começou a mudar de cor atrás das janelas, Alexander adormeceu segurando a mão dela, dedos entrelaçados como nos anos mais fáceis. Danika o observou por longos minutos, sentindo o coração pesado e cheio ao mesmo tempo. Amor, ela pensou, era permanecer mesmo quando o outro começava a desaparecer. Era segurar a memória quando ela não cabia mais na cabeça de quem viveu. Era ficar. Apenas isso: ficar.
E naquele quarto silencioso, onde a vida parecia encolher um pouco a cada dia, Danika prometeu a si mesma que ficaria até o último pedaço. Mesmo que ninguém mais soubesse, mesmo que o filho dele não entendessem ainda. Mesmo que o mundo gritasse lá fora.
Ela seguraria o que restava.
Por ele.
Por ela.
Pelo amor que ainda cabia ali, mesmo tão velho, tão delicado, tão quase.





A manhã parecia maior do que o mundo quando acordou com o toque leve dos dedos de percorrendo sua cintura, como se ele estivesse desenhando um mapa que só ele conhecia.
O quarto estava mergulhado naquela luz dourada que deixa tudo mais bonito, mais possível e se permitiu ficar de olhos fechados por um instante, sentindo o calor do corpo dele contra o seu, antes de se virar para encará-lo. O sorriso que encontrou era daquele tipo que se guarda em caixas secretas, porque nem sempre a vida dá algo assim duas vezes.
parecia tranquilo ali, com os cabelos bagunçados, a camisa velha levantada na altura do peito e as mãos ainda pousadas sobre ela, como se tivesse medo de soltá-la e perdê-la.
— Bom dia, solzinho. — murmurou, a voz rouca pela metade do sono.
riu baixinho.
— Você sabe que eu sou a lua, né? Você é o sol.
— Então estamos exatamente onde deveríamos estar. — respondeu ele, aproximando o rosto para beijá-la na ponta do nariz.
Ficaram ali por longos minutos, sem pressa, como se o tempo tivesse sido feito para eles naquele dia. acariciava os cabelos dela, e passava as unhas delicadamente pelo ombro dele, traçando o desenho improvisado que fizera na noite anterior, o sol e a lua ainda marcados na pele como uma promessa silenciosa. Ela notava cada reação dele, cada arrepio, cada suspiro; ele observava como ela franzia o nariz quando pensava em algo bonito demais.
Decidiram sair um pouco. Madri estava fresca, com um vento que lembrava o início da primavera, e seguia com a câmera pendurada no pescoço, enquanto segurava seu skate em uma mão e a mão dela na outra. Caminhavam sem destino certo, trocando piadas baixas, histórias que nunca tinham contado, descobrindo o tipo de intimidade boba e profunda que só existe quando duas pessoas realmente se escolhem.
No parque, ele subiu no skate e tentou algumas manobras simples enquanto ela fotografava, rindo sempre que ele exagerava só para aparecer.
— Você só faz isso porque sabe que eu estou olhando. — ela provocou.
— Eu só faço tudo porque você está olhando. — ele devolveu, com aquele sorriso torto que sempre desmontava por dentro.
Pararam para tomar sorvete. pediu pistache; , morango. Ele provou o dela e fez uma careta exagerada.
— Isso tem gosto de batom barato.
— E o seu tem gosto de planta triste.
Riram alto demais, chamando a atenção de um casal de idosos que sorriu para eles, como quem reconhece o brilho de algo raro. No meio da tarde, sentaram-se sob uma árvore. encostou a cabeça no ombro dele, e deslizou os dedos pelo joelho dela, devagar, como quem pensava sem dizer nada.
— Você já percebeu — ele começou, a voz baixa — que eu sempre fico com medo quando estou feliz?
Ela ergueu o rosto para encará-lo.
— Por quê?
hesitou por alguns segundos, procurando um jeito de não quebrar aquele instante.
— Porque parece mentira. Parece que alguém vai vir e dizer que acabou… ou que eu não posso ter isso. Ter você.
sentiu o peito apertar, uma pontada fina de dor e ternura misturadas.
— Eu estou aqui. — sussurrou, aproximando o rosto dele. — Agora. Hoje. O resto a gente descobre depois.
Ele assentiu, mas havia uma sombra por trás do olhar. Uma sombra que não tinha vindo dela e sim de um passado que ainda o puxava para baixo. Mesmo assim, naquele dia, tentou sorrir como quem acreditava. Beijou-a com delicadeza, depois com fome, depois com aquele carinho exagerado que só existe quando alguém realmente quer guardar o outro dentro da memória.
Ela o beijou de volta com a mesma intensidade, sabendo que algo dentro deles estava caminhando para um ponto que não tinha mapa.
À noite, voltaram para o estúdio dela. tocou violão enquanto escrevia versos, e de vez em quando ela levantava a cabeça só para observá-lo, o jeito que franzia o cenho ao procurar um acorde, o brilho que surgia quando acertava a melodia. Ele notou o olhar dela e sorriu.
— Para de me olhar assim. — disse, tímido.
— Assim como?
— Como se eu fosse alguma coisa bonita.
— Talvez você seja. — respondeu ela, e ele mordeu o lábio, vencido.
Foram dormir tarde, enrolados um no outro, com o cansaço bom de quem riu demais, amou demais, sentiu demais. adormeceu com o coração quente, acreditando que talvez fosse possível, mesmo com o peso do mundo. dormiu com o rosto escondido no pescoço dela, segurando-a com um cuidado que parecia até medo.
E, talvez sem perceber, os dois adormeceram embalados pela ilusão mais cruel e mais doce que o amor oferecia: a de que aquilo, de alguma forma, poderia durar.





Parecia que o tempo tinha escorrido rápido demais nas últimas semanas. O namoro escondido já tinha seus códigos silenciosos: mensagens apagadas, horários combinados, encontros à meia-noite no estúdio, cafés tomados às pressas antes de o mundo acordar.
E, ainda assim, sentia que aquela intimidade fugidia tinha se tornado parte dela, um espaço onde respirava sem medo, onde era só uma garota apaixonada, e não o nome estampado em capas de revista. Agora, prestes a anunciar a turnê, algo dentro dela pedia resolução. Queria a verdade à luz do dia. Queria que o amor sobrevivesse ao sol.
Por isso, naquela manhã, acordou com uma calma estranha, daquelas que antecedem decisões importantes. Passou meia hora escolhendo flores, preparando café, ajeitando cadeiras no jardim da clínica onde a mãe estava internada.
Danika observava tudo com um sorriso cansado, mas orgulhoso; aceitou prontamente a ideia da filha, embora uma sombra de preocupação tivesse passado por seus olhos quando contou que iria apresentar o pai a ela no mesmo dia.
— Se for para dar certo, que seja com todo mundo sabendo. — dissera, colocando um bule no centro da mesa.
— Minha menina cresceu. — Danika murmurou, ajeitando a echarpe nos ombros.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, caminhava até a clínica onde o pai estava hospedado temporariamente. Não dormira bem, a lembrança vaga de brigas antigas entre o pai e a mãe rondava seus sonhos, mas havia algo em que o fazia tentar. Talvez, pela primeira vez, estivesse pronto para reconstruir alguma coisa. Ou, ao menos, entender.
Ao entrar no jardim da clínica onde o pai tomava café, fisgou os dois vultos sentados na mesa: seu pai, de cabeça baixa, mexendo distraído no relógio, e uma mulher de costas, ruiva, com uma postura elegante demais para não chamar atenção. Ele franziu o cenho, mas tentou respirar fundo. Até que a mulher virou o rosto.
Danika.
O choque atravessou seu corpo como um estilhaço.
— Não… — ele murmurou, como quem vê um fantasma. — Não pode ser você.
Danika arregalou os olhos, levantando-se devagar, como se tivesse pisado em memória viva.
, eu…
— Pai? — Alexander perguntou, confuso, olhando de Danika para o filho. — Por que você está chorando?
não estava chorando, mas seus olhos ardiam como se estivessem.
— O que você está fazendo com meu pai? — disse, a voz firme, mas trincada. — O que é isso? Agora?
Danika respirou fundo, tentando se aproximar, mas ele recuou como se o toque dela fosse uma lâmina. E então a porta de vidro se abriu. surgiu com um bolo nas mãos, o rosto iluminado, o sorriso mais doce que ela guardava só para ele.
— Bom dia! — disse, sem perceber o caos prestes a explodir. — Olha o que eu trouxe…
Quando viu , congelou. Quando viu o olhar dele, o bolo quase lhe escorregou dos dedos. Em um segundo tudo se encaixou na mente de e se partiu. sabia. Sua mãe não sabia. O mundo inteiro parecia saber, menos ele.
— Você… — ele sussurrou, encarando a garota como se não a reconhecesse. — Você a trouxe aqui? Você sabia que meu pai e ela estavam juntos?
, calma — tentou se aproximar, colocando o bolo na mesa, as mãos tremendo. — Eu só queria que você soubesse. Queria que fosse franco. Queria que não doesse mais…
Ele deu uma risada curta, incrédula, amarga.
— Não doer mais? Você armou isso? Você e ela? — apontou para Danika, o rosto ficando rubro de raiva. — Vocês dois me enganaram igual fizeram com a minha mãe! Igual! Igualzinho!
Alexander levou as mãos à cabeça, ansioso.
— Eu… eu não lembro… quem é você mesmo? — murmurou, olhando para Nicolai como se tentasse encontrá-lo num álbum de fotos perdido.
Danika correu até Alexander, tentando segurar suas mãos.
— Ale, olha para mim. Respira. É o . Seu filho, .
Mas ele não a reconhecia. E isso só piorava tudo. encarou com um ódio que ela nunca tinha visto, um que não era sobre ela, mas sangrava por ela mesmo assim.
— Eu confiei em você. Eu te dei tudo que eu consegui salvar de mim. E você me entrega isso? Aqui? Como se fosse um encontro de domingo?
— Eu queria ajudar. — ela sussurrou, já com lágrimas nos olhos. — Eu juro por tudo em mim… eu só queria que você fosse livre dessa dor.
— Livre? — Ele deu um passo para trás. — Você não faz ideia do que está mexendo. Você não sabe nada do que é a minha família.
— Então me explica! — disse, a voz quebrando. — Me deixa fazer parte!
— Eu não quero você na minha família. — ele disse, seco. E aquele era o golpe mais cruel.
Danika tentou intervir.
, não fale assim com a minha filha…
— Cala a boca! — ele explodiu. — Você destruiu meu pai! Destruiu minha mãe! E agora quer destruir a gente também?
Alexander começou a chorar, repetindo frases desconexas, chamando Danika pelo nome de outra mulher, confundindo presente com passado. Danika segurava seu rosto, tentando trazê-lo de volta, mas suas próprias mãos tremiam demais.
observava tudo com o coração esfarelando no peito, a família dela e a dele colidindo como dois mundos condenados. E no centro disso, olhava para ela como se não fosse mais o rapaz que a amou na noite da lua e do sol.
Quando ele falou novamente, sua voz saiu baixa, mas letal:
— Você nunca deveria ter se metido nisso, . Nunca.
O silêncio que caiu sobre o jardim parecia feito de vidro, frágil demais para durar, cortante demais para não ferir. respirou fundo, tentando afastar as lágrimas antes que elas caíssem, mas o ar entrou rasgado, como se seus pulmões estivessem contra ela. não desviou o olhar; ao contrário, encarava-a com uma frieza que ela jamais imaginou receber daquele rosto que antes guardava só doçura.
— Você acha mesmo — ele começou, a voz baixa mas carregada de veneno — que tem o direito de decidir o que é melhor pra mim? Você? — Ele deu uma risada breve, incrédula. — Uma menina que mal aguenta o próprio nome estampado nos jornais.
cerrou o punho, sentindo a ponta das unhas cravar na palma da mão, tentando segurar qualquer coisa dentro de si antes que tudo transbordasse.
— Eu fiz isso porque te amo — ela disse, a voz firme apesar do tremor. — Porque você vive cercado de fantasmas, e ninguém nunca te ajudou a enfrentá-los. Nem seu pai. Nem sua mãe. Nem você mesmo.
— Não fala da minha mãe. — O tom dele ficou mais grave, como se algo muito antigo tivesse sido cutucado. — Você não a conhece. Não sabe o que ela passou.
— E você acha que sabe o que eu passo? — rebateu. — Você acha que me esconder é leve? Que mentir pra imprensa é simples? — Ela avançou um passo, encarando-o de perto. — Você quer ser amado, , mas quer ser amado no escuro. Como uma ferida que ninguém pode encostar.
piscou, mas não recuou.
— Melhor no escuro do que sob os holofotes falsos da sua família.
sentiu o golpe. Danika, atrás dela, ficou rígida.
— Minha família? — repetiu, a voz se partindo num riso amargo. — A minha mãe, que passou a vida inteira carregando cicatriz por causa de vocês? Do seu pai? Do que vocês fizeram um com o outro? — Ela balançou a cabeça, desgostosa. — Eu não pensei que você fosse igual. Mas você é. Igualzinho.
avançou meio passo, os olhos faiscando.
— Igual a quem, ? Vai, fala. Igual ao homem que traiu sua mãe? Igual ao homem que destruiu a própria família? Você acha mesmo que eu sou ele?
— Agora? — ela murmurou. — Agora eu não sei quem você é.
Alexandre, ao fundo, murmurava o nome de Danika com outra voz, outra idade, confuso, perdido no labirinto da própria mente. Danika tentava acalmá-lo, mas sua atenção dispersava-se entre o homem que amava e os jovens que se destruíam bem diante dela.
E ali, num flash doloroso, ela viu, com uma clareza que a fez estremecer, o mesmo abismo que ela e Alexander cavaram cinquenta anos atrás. O orgulho, o medo, a fratura. A juventude acreditando que o amor era forte o suficiente para sobreviver à verdade. E não era. Não tinha sido.
— Eu tentei. — sussurrou, voltando a olhar para . — Eu tentei tanto te amar do jeito certo. Mas você carrega a culpa dos outros como se fosse sua. E joga ela em mim. E isso… isso não é justo.
Os olhos de ardiam, mas não havia lágrimas, só uma dor densa, comprimida demais para se transformar em qualquer coisa macia.
— Eu confiava em você — ele disse. — E você virou outra pessoa. Uma que manipula. Que arma encontros. Que acha que sabe tudo. — Ele respirou fundo, quase trêmulo. — Você é igual eles, . Todos vocês. Sempre achando que podem decidir quando revelar a verdade.
A frase caiu como uma pedra. Danika engoliu seco. sentiu algo ruir dentro dela.
— E você é igual a quem abandona antes mesmo de tentar. — Ela respondeu, a voz quase calma, mas devastada. — Igual a quem foge. Igual a quem se esconde atrás de dor antiga para não enfrentar a nova.
desviou o olhar por um instante, rápido, breve, mas suficiente para mostrar a fissura. Danika viu. E soube: assim começou o fim dela e Alexander também.
deu um passo para trás, respirando fundo como quem tenta se impedir de despencar.
— Eu nunca quis te machucar — disse, com sinceridade crua. — Mas você… você está tão acostumado a sofrer que não sabe o que fazer quando alguém tenta te amar. Então transforma amor em ameaça. Sempre.
a olhou como quem encarava um espelho sujo demais, revelando o que não quer ver.
— Vai embora, — ele disse, a voz baixa e cortante. — Antes que a gente diga coisas piores.
— Piores do que isso? — ela riu, mas era um riso sem ar, sem alegria. — Eu já te perdi, . Você percebeu antes de mim.
Ela virou-se sem esperar resposta. Danika a chamou, mas não ouviu. Ou não quis ouvir. ficou ali, parado no meio do jardim destruído que antes seria um café da manhã. Seu pai chorava, Danika tentava acalmá-lo, o bolo começava a derreter ao sol, e ele estava sozinho pela própria mão. Danika fechou os olhos por um instante, sentindo lágrimas antigas arderem. Porque agora ela sabia com absoluta clareza: a história tinha se repetido. E nenhuma das duas gerações tinha conseguido se salvar daquilo que sempre os condenou.




acordou com a sensação de que o próprio corpo tinha se tornado um campo de batalha. Os músculos pesavam como se houvesse dormido dentro de um terremoto, mas nada pesava tanto quanto o silêncio que pairava sobre o celular ao lado da cama. A tela acesa mostrava notificações inofensivas, uma mensagem da mãe perguntando se ele tinha chegado bem, outra de seu treinador e nenhuma de .
Ele engoliu seco, ignorando o aperto no peito que veio junto com a constatação. Era cedo demais para sentir falta, mas tarde demais para desfazer o estrago. O quarto parecia menor, abafado, como se cada objeto tivesse ouvido a briga e agora o encarasse com julgamento.
A cozinha estava silenciosa quando ele desceu, e ainda assim a mãe conseguiu notar nele algo que ele mesmo tentava esconder. Ela o observou por alguns segundos, segurando uma xícara entre as mãos, e desviou o olhar, porque não suportaria que alguém, principalmente ela, percebesse que estava à beira de ruir.
— Como foi ontem com o seu pai? — ela perguntou, com uma doçura cautelosa.
Ele deu de ombros, murmurando um “normal”, que soou mais como um pedido para que a conversa morresse ali. Quando ela tocou seu ombro, tentando quebrar a distância, ele recuou um passo, quase imperceptível. Mas ela viu. E isso fez seus olhos murcharem de um jeito que o deixou ainda pior.
— Eu vou treinar — foi tudo que disse, antes de sair pela porta como se o ar dentro de casa estivesse pesado demais para respirar.
A pista de skate ainda estava vazia quando chegou, a luz pálida da manhã refletindo no concreto áspero. Era exatamente isso que ele queria: estar sozinho o suficiente para não ter que fingir nada. Pegou o skate e começou a se mover como quem tentava fugir do próprio coração. Primeira manobra: errou. Segunda tentativa: força demais nas pernas, o skate escorregou. Na terceira, quase caiu.
Cada erro parecia um lembrete cruel da manhã anterior, da voz dela tremendo, do “você é igual eles”. A frase batia no crânio como uma marreta. Então ele acelerou. Empurrou o corpo até sentir o vento cortar o rosto, o ar entrar quente demais no pulmão. As rodas vibravam sob seus pés, e por um instante, ele quase acreditou que poderia deixar tudo para trás. Mas o pensamento voltou, indesejado, ardendo como álcool em ferida aberta: Eu estraguei tudo.
E quanto mais aquilo queimava, mais ele tentava compensar com força, com risco, com velocidade.
A queda não foi uma surpresa para ninguém, nem para ele mesmo. Era quase inevitável. Ele tentou uma manobra alta demais para um corpo descompassado: um salto sobre o corrimão que exigia precisão mental, foco, clareza… tudo o que ele não tinha.
Sentiu o skate fugir sob os pés, o mundo girar rápido demais, e depois um impacto seco que arrancou o ar dos pulmões. Ficou deitado ali, sentindo o concreto quente sob as costas, tentando decidir se respirava ou desistia. O joelho queimava, o cotovelo ardia, e mesmo assim a dor física era pequena diante da outra, aquela que ele não sabia onde colocar.
O treinador o encontrou minutos depois, com o rosto pálido de susto.
— Cara, o que você está fazendo? — ele disse, correndo até o amigo.
tentou levantar como se estivesse tudo bem, mas quase caiu de novo.
— Treinando — respondeu, a voz seca, teimosa.
O homem soltou uma risada curta, triste.
— Isso não é treino. É punição.
desviou o olhar, porque a verdade tinha um som incômodo demais quando dita em voz alta.
Em casa, entrou direto para o banho, deixando o rastro de sangue secar na roupa. A água quente bateu nas feridas abertas, fazendo-o morder o lábio inferior, mas ele não diminuiu a temperatura. Deixou arder. Talvez merecesse arder. Ficou ali tempo demais, até o vapor deixar o espelho embaçado, até a cabeça latejar. Quando finalmente saiu, encarou o celular outra vez. Nada dela.
Ele riu, mas era um riso oco, sem alegria.
— Melhor assim — murmurou para si mesmo. Mas a frase soou tão falsa que o deixou envergonhado.
A noite chegou devagar, arrastando o ruído dos carros, o som das televisões dos vizinhos, o peso de um vazio que ele tentava não nomear. No quarto, tentava ocupar as mãos com qualquer coisa, música, vídeos, jogos, mas nada prendia. Nada distraía. Sentia-se preso dentro da própria pele. Às vezes andava de um lado para o outro. Às vezes sentava. Às vezes se encolhia no chão. E tudo parecia errado.
Porque tinha razão. Ele transformava amor em ameaça. Sempre.
Quando não conseguiu mais ficar parado, pegou o celular. A tela iluminou seu rosto ferido. O nome dela não estava lá. Ele jogou o aparelho na cama, passou as mãos pelo rosto, respirou fundo, mas o peito apertou de um jeito que parecia impedir o ar de entrar.
Ele pensou em ligar. Pensou em escrever. Pensou em pedir desculpas, dizer que errou, que estava com medo, que amava ela mais do que imaginava possível. Mas a voz dela dizendo “eu não sei quem você é” ainda ecoava fundo demais.
ficou sentado à beira da cama por longos minutos, antes de levantar devagar e caminhar até o espelho. A clavícula estava marcada, o desenho da lua e do sol que tinha feito para ele. Tão pequeno e ainda assim tão brutal. Passou a ponta dos dedos devagar, como se aquilo pudesse trazê-la de volta. Mas não trouxe.
O rosto dele refletido no vidro parecia mais velho, mais cansado, mais quebrado.
— Me desculpa, … — sussurrou, quase sem voz.
Foi só então que ele percebeu que estava chorando. E que, pela primeira vez desde ontem, não tentou impedir.





acordou com a garganta seca e os olhos pesando como se tivesse chorado enquanto dormia, embora não lembrasse de ter conseguido adormecer de fato. A manhã entrou pelo estúdio como um intruso gentil, iluminando os cabos no chão, o violão encostado na parede, o caderno aberto na mesa, na página onde o desenho do eclipse ainda parecia pulsar.
Aquelas linhas simples, riscadas à mão, tinham virado uma pequena tortura; cada curva da caneta parecia guardar a voz dele. Ela respirou fundo, sentindo o corpo inteiro rígido, como se tivesse segurado a respiração por horas, e se levantou devagar, quase temendo que o ar do ambiente fosse pesado demais para suportar.
O celular vibrava com notificações: mensagens da assessoria, de Rod, de publicações marcando seu nome, de fãs tentando adivinhar qualquer coisa que ela não estava pronta para dizer. E no meio de tudo isso, um silêncio absoluto de . Era um silêncio que parecia caminhar pela sala, sentar-se do seu lado, encostar-se nas paredes. Um silêncio que parecia ter corpo.
Ela colocou o celular de tela virada para baixo, como se isso conseguisse deter a sensação de abandono que a consumia, e sentou-se no chão, o violão repousando no colo como uma promessa que ela não sabia se queria cumprir.
Tentou tocar acordes soltos, quase aleatórios, como quem procurava algo no escuro. As notas soavam fracas, inseguras, faltava alma, faltava ela ou faltava ele. O som parecia ecoar a própria falta. deixou as mãos caírem sobre as cordas, exausta demais para insistir.
Então, como se fosse puxada por uma força antiga, abriu o caderno na primeira página em branco e deixou os dedos correrem pelo papel. “You were the best, but you were the worst.” A frase saiu sozinha, tão sincera que a assustou.
Por um instante, ela fechou os olhos, tentando lembrar o som da voz de . Lembrou-se de como ele dizia seu nome, lento, quase cauteloso e isso fez seu peito apertar de um jeito quase cruel. As lágrimas vieram sem permissão, quentes demais para fingir força. Ela tentou enxugá-las, mas outras vieram, silenciosas, persistentes e teimosas como ele. A dor tinha um gosto tão real que parecia música.
inspirou devagar e tocou outra sequência de acordes. Eles saíram doloridos, trêmulos, mas verdadeiros. Era como se cada batida de seu dedo fosse um pedido de desculpas que jamais seria enviado.
Ela murmurou algumas palavras, quase sem voz, frases que não faziam sentido isoladamente, mas carregavam a alma inteira quando juntas: “I love you, I'm sorry” E de repente, ela percebeu: estava escrevendo sua música mais honesta.
A canção não nascia perfeita. Nascia quebrada, desalinhada, como um quarto depois de uma tempestade. Mas tinha coração. E tinha dor suficiente para preencher páginas.
escrevia versos que pareciam confissões: sobre noites mal dormidas, sobre o medo de perdê-lo, sobre a forma como ele a olhava como se ela fosse uma novidade; e, acima de tudo, sobre o modo brutal como ele a feriu no jardim e como ela sabia, secretamente, que também o tinha ferido.
Porque ali, naquele instante, ela admitiu algo que não tinha coragem de dizer em voz alta: Ela o amava demais para não ter tentado ajudar. E ele a amava demais para não ter reagido com medo.
A canção saiu como um desabafo. Como uma carta que ela nunca enviaria. Como algo que existia só porque precisava existir. A tarde caiu sem que ela percebesse, transformando o estúdio em um casulo azul. O violão descansou nas pernas dela, enquanto recostou a cabeça na parede, o caderno aberto no colo. O último verso ainda tremia em sua caligrafia: “A habit to kick, the age-old curse”
Ela passou os dedos sobre a frase com delicadeza, como se pudesse apagá-la só com a vontade. Mas não apagou. Não podia. Aquela era a verdade que ela tinha evitado o dia inteiro. tinha sido mais que um romance proibido; tinha sido refúgio, cura, ferida. E agora era ausência.
Ausência que gritava.
A porta do estúdio se abriu devagar.
Rod apareceu ali, mais pálido que o habitual, caminhando devagar, quase com cuidado para não assustar a amiga.
— Posso entrar? apenas assentiu, sem força para falar. O homem se aproximou, reparando no violão, no caderno, no rosto da amiga. — Você compôs? — perguntou, sentando-se ao lado dela.
A jovem fez que sim, limpando discretamente os olhos.
— Saiu doendo — ela confessou, a voz baixa. — Mas saiu.
— As melhores músicas… saem assim mesmo.
sorriu fraco, sem humor.
— Eu queria que ele tivesse me ouvido antes de me odiar. — Às vezes, o amor chega atrasado nas pessoas — ele disse, com uma sinceridade. — Mas chega. De um jeito ou de outro, chega.
apoiou a cabeça no ombro do amigo. Pela primeira vez em dias, respirou sem sentir que o peito ia rachar. E no caderno aberto a música continuava ali, crua, honesta, sangrando. Era a maneira dela dizer “I love you. I miss you. I’m sorry.” Mesmo que ele nunca escutasse.



Continua...


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