CAPÍTULO UM
balançava incessantemente uma das pernas, em uma tentativa falha de reduzir a tensão que aumentava em seu corpo. Ela se sentia assim, desde o momento em que despertou, durante todo o caminho rumo àquela clínica até o momento que ela se encontrava agora, preenchendo os formulários finais para a permanência de sua mãe.
De alguma forma a jovem tentava acalmar seu coração, repetindo que desde o início ela apenas estava cumprindo um combinado a muito tempo feito com sua mãe. A mãe de , Danika, sempre a alertou que quando chegasse a uma certa idade era o seu desejo que sua filha a encaminhasse para determinada instituição de longa permanência.
Porém , nunca se agradou com essa ideia, mas nunca iria contra um desejo de sua doce mãe. Ela encarava as inúmeras linhas, com pequenas perguntas, que pareciam apenas aumentar. A cada momento que passava sentada, encarando os papéis a sua frente, ela imaginava um cenário catastrófico, onde paparazzis encontrassem sua mãe, ou os enfermeiros a tratassem mal, ou até mesmo que em algum momento Danika mudasse de ideia e quisesse retornar a sua casa, porém não conseguisse comunicar isso a filha.
Então a jovem de cabelos escuros fechou por um breve momento os olhos, respirou fundo, tentando acalmar todos aqueles pensamentos insistentes. Ao abrir vagarosamente os olhos, teve a sensação de que alguém a encarava…e isso se confirmou. Alguém tocou seu ombro suavemente, na tentativa de chamar sua atenção.
— Hey… está tudo bem? — ela ficou por alguns segundos encarando o jovem ao seu lado, que tinha um cabelo perfeitamente penteado para trás com uma quantidade significativa de gel, e pequenos olhos, escuros e densos.
— Ah… acho que só são muitos papéis para assinar de uma vez. — desviou sua atenção para os papéis, os embaralhando em suas mãos.
— Sei como é. Quando vim aqui pela primeira vez com o meu pai, me senti meio desconfortável e confuso com tudo também. — Confessou de forma simples para ela, isso a fez relaxar. Deixando os ombros agora menos tensos, porque, afinal, ela não era única então com aquele sentimento estranho. — Prazer, me chamo … — estendeu sua mão para , que apertou e viu nos lábios dele um sorriso pequeno crescer.
— … pode me chamar de . — preferiu não falar seu sobrenome, porque temia ser descoberta ou reconhecida.
, ficou encantado com o nome da moça a sua frente, mas o que realmente chamou sua atenção foram os olhos castanhos e marcantes. Ele poderia escrever um poema só sobre como eles brilhavam naquela manhã nublada e aqueciam suas mãos geladas.
Ele não queria confessar, mas os 10 minutos que passou tentando tomar coragem para falar com , valeram a pena, só por renderem a visão de olhos tão bonitos.
— Pode parecer estranho, mas tenho a sensação de que te conheço de algum lugar. — tentava puxar em sua mente de onde aquele sorriso pequeno era familiar. Será de uma foto? Será que já foram colegas de sala? Será que era apenas sua ansiedade?
soltou um riso pelo nariz. Não imaginou que seria reconhecido, não que era famoso, mas era difícil depois de tanto tempo frequentando ali alguém ainda se surpreender com sua presença. Isso não o incomodou, mas fez o seu coração dar um pequeno salto, talvez, ela realmente o reconhecesse ou até acompanhasse seus campeonatos.
— Bom, você pode reconhecer a mim ou ao meu p… — foi cortado por uma voz que se fez mais alta naquele ambiente, chamando a atenção da jovem a sua frente.
— Espinosa — o homem trajado todo de branco a chamou. Nicolai viu a moça se levantar, porém nesse movimento rápido, ela acabou derrubando a papelada e ele logo se prontificou a ajudá-la.
— Merda... — disse se agachando para pegar os papéis que haviam caído e assim batendo sua cabeça com o seu novo conhecido. — Ai, meu Deus! Me desculpa. — levou a mão até a cabeça do jovem em sua frente, na tentativa de amenizar aquela situação.
— Relaxa, não foi nada. Aqui está, olha vai dar tudo certo. — ele disse essa última parte em um tom mais baixo para que só ela escutasse, e em forma de retribuição ela abriu um sorriso confiante.
— Ao se levantar e se recompor, o médico que a esperava, pegou os papéis de sua mão. — Pode me acompanhar, por favor.
Quando a figura da jovem de cabelos escuros sumiu de sua visão, rapidamente sacou seu celular em mãos e confirmou a hipótese, que de alguma forma ele tinha certeza, sobre .
Ao ouvir o médico chamar seu nome completo, ele teve certeza que também a conhecia… e dando uma pequena pesquisada, isso apenas se confirmou.
Ela era filha de Danika Espinosa, que por acaso, era uma ex-integrante da banda em que seu pai Alexandre Casillas fez parte durante toda sua adolescência e parte da vida adulta.
Ainda pesquisando sobre Danika, ele se lembrou dos rumores de romance entre seu pai e ela, e o fim abrupto do sexteto que era sucesso mundial.
Com essas informações em mãos, algumas recordações se fizeram nítidas em sua memória. Como por exemplo, quando era menor, e seu pai o levou em um jantar de “reencontro” do grupo, se lembrou também de interagir com os filhos dos outros integrantes, porém pouquíssimo com , já que seu pai preferia manter certa distância de Danika.
Agora ele se sentia mais confiante de certa forma, porque a mulher que tinha despertado o interesse dele, pelos olhos cativantes, não era uma completa estranha e, com isso, eles teriam muito o que conversar.
Ele não queria ser invasivo, mas resolveu esperar ela retornar e talvez a chamar para um café.
Quando retornou a recepção e percorreu rapidamente o seu olhar sobre ela, notou que ainda estava ali, lendo um pequeno livro. Então ela resolveu que não seria nada demais ir até ele se despedir e agradecer o apoio mais cedo.
— — ela o chamou. Ao olhar para ela, ele novamente abriu aquele pequeno sorriso. — Vim te agradecer pelo apoio hoje mais cedo, muito obrigada.
— Ah, que isso, não precisa agradecer. Para falar a verdade, eu fiquei te esperando — ele pareceu ficar envergonhado de repente, mas respirou fundo e continuou — Quem sabe a gente poderia tomar um café, aqui tem uma cafeteria ótima.
, de alguma forma, se sentiu feliz pelo convite, porque percebeu que o interesse que sentia pelo rapaz era recíproco.
— Claro, vamos. — então ele se levantou e ela apenas o seguiu.
Após os pedidos de ambos chegarem, o silêncio reinou entre eles, apenas se escutava o barulho da mastigação. E a jovem notou um leve tique que demonstrava, parecia estar ansioso? Ele estava piscando mais frequentemente do que quando conversavam mais cedo, e isso a intrigava.
— Tenho uma coisa para te contar — colocou sua xícara sobre a mesa.
— Esse é o momento que você diz que é um repórter e quer escrever a biografia da minha mãe, certo? — após ela dizer isso, ele acabou rindo e ela gostou muito de como a risada dele era de certa forma rouca.
— Ohh… você me descobriu — disse, levantando os braços para o alto em tom de “rendição”. — Lembra que hoje mais cedo você comentou que me reconhecia de algum lugar? — concordou com a cabeça enquanto dava mais uma golada de seu chocolate quente — No começo eu pensei que fosse por conta, de eu ser skatista profissional… — ele viu a testa dela se enrugar e percebeu que definitivamente ela não o acompanhava no esporte. — Aí o médico foi lá e te chamou e quando eu escutei o Espinosa, tudo fez sentido. — agora ele tinha total a atenção dela. — Não falei mais cedo, mas o meu pai é Alexandre Casillas Von. — sorriu ao final.
Ela demorou um pouco para conectar essa informação, mas quando percebeu de quem se tratava, tudo fez sentido. Era claro que ela o reconhecia, ainda mais aquele sorriso, havia fotos em todos os lugares da internet de seu pai com a sua mãe, e definitivamente tinha o mesmo sorriso de seu pai, era idêntico, as fotos e a forma como Danika descrevia.
— , não acredito que você é filho do Ale. —sem pensar, ela esticou seu corpo sobre a pequena mesa, e o abraçou.
O sentimento que tinha agora em seu peito era de ternura, porque neste momento ela recordou das inúmeras conversas que teve com a sua mãe e de como sempre Dan, elogiou cada integrante, principalmente o Ale. Sendo assim, de alguma forma, sentia esse apreço por ele e agora por seu filho também.
Fazia muito mais sentido ainda, ela talvez não estar atraída por ele, mas apenas estar o reconhecendo e vendo nele os inúmeros sentimentos que sua mãe relatava durante as histórias.
Após o pequeno abraço, se sentou novamente e agora havia um brilho em seu olhar ainda mais cintilante que antes.
— Sei que de todos os filhos dos integrantes, eu sou o que menos interage com o restante, mas é estranho como Madri realmente é pequena. Quem diria que eu iria te encontrar aqui…depois de sei lá 15 anos?
— É, acho que é… o último reencontro, eu ainda tinha minha naninha debaixo do braço — e novamente ambos riram — e agora eu estou me sentindo a pior filha do mundo por estar autorizando minha mãe a ficar em um asilo.
— No começo eu também me senti assim, mas como você retira uma promessa que fez para um Casillas?
— Sério? Também estou fazendo isso para cumprir uma promessa que fiz à minha mãe. Bom, vai entender esses dois. — retornou a petiscar um pão de queijo.
— Cara, é muito estranho eu estar aqui na sua frente. Porque foram anos, vendo montagens nossas bebês para edits dos nossos pais e isso era louco demais na minha cabeça. — ele confessou, porque, de alguma forma, sabia que ela entenderia o que ele sentia.
— Sim, eu ficava “gente, o meu pai é o Paco…deixem disso”, mas no fundo eu meio que entendia que nossos pais tinham certa química. — ela deu de ombros, depois de tanto conviver com os fãs de sua mãe, ela de alguma forma compreendeu a fissura deles. — E outra, minha mãe de fato nunca se importou com isso, ela dava todo o seu amor e carinho para meu pai e ponto.
— É, meu pai também, mas a minha mãe não soube lidar muito bem com isso. Eles sempre discutiam, não só pelos fãs, mas pela forma como a imprensa sempre distorcia os fatos e caía matando em cima dela. Isso a deixava mal, até que enfim…acabou — ao olhar de relance para , ela percebeu seus olhos um pouco vermelhos, mas rapidamente ele fez questão de passar a mão para disfarçar qualquer lágrima que fosse se formar ali. — E o seu pai? Como está?
— Meu pai…faleceu já faz 3 anos.
O coração dela ficou um pouco apertado, por mais que a dor da perda tenha cicatrizado, a da falta de seu pai no seu cotidiano ainda estava aberta e agora com essa mudança da sua mãe, ela temia se sentir ainda mais sozinha.
— Então, eu resolvi morar com a minha mãe quando isso aconteceu, e agora…agora estamos aqui. — ela sorriu fraco, e quando percebeu isso, tratou de confortá-la. Tocou sua mão, a fazendo o encarar.
— , você não está sozinha, agora eu estou aqui — ela concordou com a cabeça e deixou que uma lágrima solitária escorresse por sua bochecha. — A gente sabe que não é fácil passar por tudo isso e ainda ter um monte de urubu babaca fotografando a gente, mas agora eu estou aqui para o que você precisar. — Com isso ela apertou ainda mais a mão dele e esboçou um sorriso.
— Acho que a pior parte são os paparazzis, não quero ter que encontrar nenhum, mesmo sabendo que esse é um local distante e discreto, tenho medo de me deparar com eles e ter uma enxurrada de perguntas.
— Eu sei, eu sei, mas fica tranquila. Meu pai está aqui há mais de um ano e nunca descobriram nada. Confesso que no começo eu também tinha receio, mas aqui todo mundo é muito profissional. Nunca saiu nada na mídia sobre a doença do meu pai.
Essa última parte chamou a atenção de , nem ela e muito menos sua mãe sabiam que Alexandre estava passando por uma doença.
— Seu pai está doente? — uma pontada de preocupação se estabeleceu nela.
— Sim, há seis meses, acabamos descobrindo o início do Alzheimer — ele se recostou na sua cadeira e respirou fundo.
Eram poucos assuntos que não gostava de tocar e com certeza a doença e a forma avassaladora que ela estava tomando seu pai era um deles.
— No começo, não era muito evidente, mas agora tá cada dia pior, as crises de localização, o esquecimento…e hoje ele — seu olhar se abaixou para encarar seus pés, era difícil para ele lidar com o que ocorreu mais cedo. — Ele não se lembrou de mim.
Ela notou a mudança abrupta no semblante do seu novo amigo, a tristeza que estava nele logo também chegou a ela.
— Eu sinto muito... de verdade. Se eu puder ajudar em alguma coisa.
Ela gostaria de ter uma forma de reverter isso, mas sabia que não era possível. O que ela poderia oferecer a ele agora era apenas o conforto de sua amizade.
A conversa entre ambos continuou a fluir, porém optou por mudar o assunto principal, e focar mais em suas vidas particulares, por exemplo, contou a ele sobre as composições que ela estava trabalhando para o seu novo álbum, e como ela estava usando de referência a era pop/rock da sua mãe.
Ele detalhou um pouco mais sobre os treinos intensos que estava tendo e o quanto ele esperava chegar nas etapas finais do concurso. Contou também que quem o incentivou mais no esporte foi seu pai, e que ainda tinha esperança de ele poder assistir pelo menos uma última competição sua.
estava abalado após o pai não reconhecê-lo e por mais que médicos e especialistas o tivessem avisado sobre esse estágio, nada o preparou para isso. Alexander e ele sempre foram grudados, melhores amigos e confidentes. A prova disso foi que quando sua mãe resolveu se separar, sem pensar muito ele escolheu continuar morando com o pai.
Casillas foi um bom pai e, acima de tudo, um ótimo amigo. Sempre o apoiando em seus projetos e escolhas de vida. E agora com as competições finais se aproximando o jovem se sentia solitário, pois não havia com quem compartilhar seus medos.
Por mais que sua mãe quisesse preencher de alguma forma o papel que antes era desempenhado pelo seu pai, ainda assim, não era o suficiente.
— Se você quiser posso te levar para casa. — ele disse ao ver a jovem à sua frente colocar a bolsa sobre o ombro e se levantar.
— Ah, muito obrigada, mas eu vim de carro. — ela se aproximou de sua cadeira, se levantou e ambos se abraçaram por poucos segundos. — Obrigada pelas palavras de apoio, foi muito bom não ter que passar por tudo isso sozinha…
— Bom… enquanto eu estiver aqui, você não vai estar sozinha. — abaixou seu olhar rapidamente depois de se dar conta do quanto aquela fala parecia desesperada ou até mesmo emocionada demais. — Quan-quando você quiser conversar claro! — após gaguejar um pouco, o maldito tique dos olhos havia voltado.
— Tá bom, até! — se foi.