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Revisada por Aurora Boreal 💫
Finalizada em: 20/04/2026

Eu não sabia quando aquilo tinha começado. Mas sabia exatamente quando saiu do controle.
Tony gostava muito de bailes e juntar pessoas. Principalmente se o objetivo era parecer caridoso ao arrecadar fundos para alguma causa enquanto ele juntava pessoas ricas e influentes que pudessem ter algum interesse por suas ideias bélicas e armamentistas.
Dois de outubro foi o dia escolhido para o baile de gala e beneficente para arrecadar fundos a uma nova ong que havia surgido em Nova Iorque. “Esteja na recepção às oito da noite, querida”, foi o que Tony disse ao mandar me entregar uma caixa grande demais para ser apenas um convite.
Lá dentro estava o meu vestido, feito sob encomenda e do meu exato tamanho. Eu não fazia ideia de como ele tinha as minhas medidas, mas aceitei com uma careta e disse que estaria lá. Afinal, todos os Vingadores estariam e eu não poderia desfalcar o time, não é?
Clint e eu fomos os escolhidos para recepcionar, cumprimentar e beijar as bochechas de pessoas importantes. Nossos looks combinavam. A gravata marsala do Gavião era da mesma cor do meu vestido.
— É sempre um prazer conhecer uma vingadora — disse um dos homens que eu havia acabado de cumprimentar enquanto balançava a minha mão por tempo demais.
Abri um sorriso educado enquanto outro homem o conduzia para dentro.
— Que pesadelo, né? — falei ao me aproximar de Clint, que soltou uma risada nasalada e passou o braço por cima de meus ombros, me puxando para perto.
— Pelo menos não ficamos com a parte do discurso. — Tentou ser positivo e eu rolei os olhos enquanto ele ria outra vez. — Nat ficou furiosa quando recebeu o script.
— Eu posso imaginar... — Suspirei e olhei para baixo da grande escadaria, onde mais e mais carros paravam e pessoas desciam. — Ele disse quantas pessoas convidou?
— O máximo que coubesse nesse salão — falou e eu estalei a língua no céu da boca.
— Meus pés doem — resmunguei ao sentir o calcanhar arder pelo salto agulha.
Clint abriu a boca para responder, mas foi impedido por um casal que subia as escadas com sorrisos grandes e uma animação que eu tentava acompanhar.
Ajustei o busto do meu vestido enquanto retornava para o meu lugar.
Mais algum tempo se passou quando muitos flashes e um alvoroço que eu não entendi de início se instalou na entrada. Do carro antigo e chique que parou logo à frente, saiu uma cabeleira loira que eu conhecia muito bem.
Steve Rogers desceu como se fosse um modelo da Victoria Secret’s e sorriu abertamente para todos os flashes que lhe quase lhe cegaram. Arqueei uma das sobrancelhas ao avistar a cena e segurei o riso. Tinha certeza deque Tony que tinha o convencido a fazer tudo aquilo.
Mas então algo me chamou mais a atenção. Do banco do lado, desceu outra pessoa. Alta, de costas largas e cabelo comprido em roupas sociais. A barba por fazer e um sorriso mínimo complementavam o restante do charme que me fez soltar um suspiro contido. Bucky Barnes.
Eu não o conhecia pessoalmente, mas já havia ouvido falar dele muitas outras vezes. O melhor amigo do Capitão América que havia sobrevivido à queda de um trem graças à Hydra, o vilão que havia se tornado herói. Mas que vivia uma vida incrivelmente reclusa desde que havia deixado de ser inimigo do Estado.
Olhei para mim mesma quando o vi se aproximar com o Capitão e agradeci mentalmente Tony por aquele momento. Graças a ele, eu estava deslumbrante!
! — disse Steve ao me ver e se aproximou para me dar um abraço apertado. — Como vai?
— Com as bochechas doendo de tanto sorrir e acenar — falei no meio de uma careta e Steve riu. — E você? Não te vejo desde a última missão para a Costa Rica.
— Culpe ao Fury por não me dar sossego nas últimas semanas — falou no meio de um suspiro. — Mas logo estou de volta à Torre.
— Ainda bem, não aguento mais ter que treinar com o Clint — respondi mais alto para que o nosso outro companheiro pudesse ouvir também.
— Melhorei o meu soco de esquerda, se quer saber. — Steve inflou o peito e eu rolei os olhos, mas sem deixar o sorriso.
E então Bucky pigarreou atrás de Steve. Sua postura estava rígida e seu maxilar duro como pedra.
— Ah, sim! Estou monopolizando você e o caminho — disse Steve, animado, e então deu um passo para o lado para que Bucky e eu pudéssemos nos ver melhor. — Esse é Bucky, meu amigo. Bucky, essa é , minha amiga e companheira de equipe.
E então aconteceu. Nossa primeira troca de olhares. Seus olhos cristalinos e incrivelmente profundos pareceram penetrar a minha alma. Sua mão direita saiu do bolso da calça e eu a apertei, num cumprimento duro e desajeitado.
— É um prazer finalmente conhecê-lo, Bucky. — Tentei parecer simpática. — Steve fala muito de você.
Ele não sorriu.
Não de verdade.
Houve um movimento quase imperceptível no canto dos lábios, algo automático, treinado… mas que não chegou aos olhos.
— Eu sei — respondeu, a voz baixa, rouca na medida certa para parecer desinteressada.
Meu sorriso vacilou por um segundo, mas eu o sustentei.
Talvez ele só fosse… assim.
Reservado. Antissocial. Difícil.
Ou talvez... Afastei o pensamento antes que ele pudesse terminar.
— Bom… — Limpei a garganta, ajeitando a postura. — É um prazer, de verdade.
Dessa vez, ele assentiu.
Seco. Contido. E um tanto quanto distante.
O silêncio que se seguiu não era exatamente constrangedor, mas também não era confortável. Era como se houvesse algo ali, pairando entre nós, algo que eu não conseguia ver, mas que ele parecia sentir com clareza.
Seus olhos voltaram para mim por um instante.
E então se demoraram.
Mais do que o necessário.
Mais do que o normal.
Senti meu estômago apertar, um desconforto estranho se instalando sob a pele, como se eu estivesse sendo analisada por algo que ia além da superfície. Como se ele procurasse alguma coisa em mim.
Ou esperasse.
Mas esperasse o quê?
— Buck? — A voz de Steve Rogers quebrou o momento, leve, mas suficiente para fazê-lo piscar e desviar o olhar. — Vamos?
Ele hesitou.
Foi mínimo.
Mas eu vi.
Seus olhos voltaram para mim uma última vez, dessa vez mais rápidos, como se tivesse se lembrado de algo, ou só decidido não fazer algo.
— Com licença — murmurou.
E então passou por mim. Sem encostar e sem olhar para trás.
Soltei o ar que nem percebi que estava prendendo.
— Ele é sempre assim? — perguntei, tentando soar casual ao me virar para Steve.
— Assim como? — Ele arqueou uma sobrancelha, genuinamente confuso.
Pisquei, pegando-me desprevenida.
Assim como?
— Estranho — respondi, por fim, dando de ombros. — Frio, talvez.
Steve soltou uma pequena risada pelo nariz.
— Ele só… leva um tempo — disse, com um sorriso tranquilo demais para quem claramente não tinha percebido nada fora do normal.
Assenti, mas não comentei mais nada.
Porque, se aquilo era o normal, então por que parecia que eu tinha feito algo errado?
Voltei para o meu lugar ao lado de Clint, retomando os sorrisos e cumprimentos automáticos, mas minha mente não estava mais ali.
Ela estava presa naquele olhar.
Na forma como ele tinha me encarado.
Na sensação incômoda de que havia alguma coisa quebrada naquela interação.
Alguma coisa fora do lugar.
E, após essa noite, não demorou muito para que Bucky se tornasse uma constante em minha vida. Os acontecimentos com Tony eram passados e algumas semanas após o baile de gala, Steve o convidou para passar um tempo na torre. Para poder se instalar melhor do que em um apartamento pequeno e apertado no Brooklyn.
E foi assim, quase sem aviso, que tudo mudou.
Do dia para a noite, ele deixou de ser apenas o melhor amigo do meu amigo.
Ele passou a fazer parte da equipe.
E eu… passei a reparar nele mais do que deveria. Não de imediato. Não como um raio.
Foi mais silencioso do que isso.
Como uma gota insistente caindo sempre no mesmo lugar.
No começo, eram detalhes.
O jeito como ele se movia pelos corredores, sempre atento demais. Como se estivesse pronto para desaparecer a qualquer momento. O silêncio. Não o silêncio confortável, mas aquele carregado, cheio de coisas não ditas.
E os olhares.
Sempre eles.
Rápidos demais quando eu tentava sustentar. Longos demais quando ele achava que eu não estava vendo.
— Você já pensou em dizer pra ele o que sente? — Foi o que Nat me perguntou enquanto trocávamos socos em um treino intenso.
— E como é que eu vou dizer para ele uma coisa nem que eu sei direito o que é? — resmunguei, respirando com dificuldade.
Ouvi Natasha rir e me abaixei com rapidez quando ela tentou me acertar outra vez.
— Pelo menos manter uma conversa com ele então — falou e foi a minha vez de investir contra ela, que desviou com facilidade. — Sei lá, perguntar como ele dormiu e passar um café da manhã juntos.
Estalei a língua no céu da boca e não consegui evitar uma careta. Como é que eu manteria conversa com Bucky se quando eu chegava no mesmo ambiente que ele, ele virava as costas e ia embora?
Pisquei de maneira lenta enquanto pensava e levei um chute na barriga, que me fez curvar para a frente e soltar um gemido de dor.
— Ai! — choraminguei, caindo no tatame vazio.
— Você está mole, — disse enquanto eu ainda segurava a barriga e tentava me adaptar com a dor. — E está sem foco. Por causa de um homem.
— Fala baixo — pedi, ainda com certa dificuldade.
— Ninguém aqui é surdo — respondeu Natasha, cruzando os braços com um meio sorriso que já dizia que ela não tinha a menor intenção de colaborar.
Revirei os olhos e me sentei melhor no tatame, soltando o ar devagar enquanto a dor diminuía.
— E não é “por causa de um homem” — completei, fazendo aspas no ar. — Eu acho que é só… falta de foco geral.
Natasha arqueou uma sobrancelha, como se não acreditasse em mim. E tudo bem. Porque nem eu mesma acreditava.
— Claro — disse, seca. — Totalmente convincente.
Bufei, apoiando as mãos no chão para levantar.
— Você é insuportável — choraminguei outra vez.
— E você está apaixonada.
— Eu não estou...
Parei a frase no meio. A palavra morreu na minha garganta antes de ganhar forma.
Porque, pela primeira vez, ela parecia menos absurda do que deveria.
Natasha percebeu. Claro que percebeu. Afinal, não havia nada que passasse dos seus olhos atentos, principalmente quando se tratava de alguma fofoca ou história não finalizada entre qualquer membro da equipe.
Seu sorriso mudou, ficando menor, mais sutil, quase satisfeito.
— Hm.
— Não faz esse som. — Apontei para ela, já de pé. — Eu odeio quando você faz esse som.
— Você odeia porque eu só faço quando estou certa.
— Você acha que está certa — corrigi, passando a mão pela testa suada.
Ela deu de ombros.
— Então prova o contrário.
Abri a boca para responder, pronta para rebater com qualquer coisa minimamente convincente…
Mas congelei.
Porque, do outro lado da sala, encostado próximo à porta como se estivesse ali há tempo demais para ser coincidência, ele estava.
Bucky Barnes.
Meu estômago virou.
Eu não tinha ouvido a porta abrir. Não tinha percebido a presença dele. E, ainda assim, lá estava. Imóvel. Silencioso. Observando.
Seu olhar não estava em Natasha.
Estava em mim.
Por um segundo que pareceu longo e sufocante demais, eu tive a sensação nítida de que ele tinha ouvido tudo.
Engoli em seco, sentindo o calor subir pelo pescoço.
— Há quanto tempo você está aí? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Ele piscou.
Como se estivesse voltando de algum lugar distante.
E então, como sempre fazia nos cinco minutos que ficávamos no mesmo lugar, ergueu a barreira.
— O suficiente — respondeu, neutro.
Meu coração bateu mais rápido e eu precisei conter o olhar de surpresa. Surpresa por ele ainda não ter virado de costas e ter ido embora. Surpresa por ele ter me respondido enquanto parecia analisar o fundo da minha alma.
Natasha não disse nada.
Mas eu senti.
Senti o olhar dela indo de mim para ele e voltando. Analisando toda a situação e guardando aquilo para me atazanar mais tarde.
— Eu já estava de saída — continuou ele, desviando o olhar por um instante, como se finalmente lembrasse como fazer aquilo. — Desculpa interromper.
Ele não tinha interrompido nada.
Ele tinha atravessado.
Virado tudo do avesso só por estar ali.
— Não, eu… — comecei, sem saber exatamente o que ia dizer.
Mas ele já tinha dado um passo para trás.
Distância.
Sempre a maldita distância.
— Bom treino — murmurou, e havia algo estranho na forma como disse aquilo.
E então ele foi embora.
De novo.
Fiquei parada por alguns segundos, olhando para o espaço vazio onde ele tinha estado.
Meu peito apertado de um jeito que eu não sabia explicar.
— Então… — a voz de Natasha veio leve, quase divertida — não é por causa de um homem, né?
Fechei os olhos por um instante.
Respirei fundo.
E balancei a cabeça, mais para mim mesma do que para ela.
Os dias que se seguiram após isso foram iguais. Interações mínimas, quase inexistentes. Eu o encontrava esporadicamente no refeitório da Torre, no almoço, ou na sala de treinamento. Mais duas ou três semanas de um completo limbo enquanto eu ainda tentava lidar com todas as borboletas que levantavam voo no meu estômago só de encarar a mecha do seu cabelo que insistia em cair no seu olho.
E então, após longas semanas de lamentos e de muitos sonhos acordados, minha mente foi invadida com outra coisa: uma missão.
E, pela primeira vez em semanas, a ideia de uma missão solo pareceu… um alívio.
Sem olhares atravessados.
Sem silêncios desconfortáveis.
Sem Bucky Barnes ocupando espaço demais dentro da minha cabeça.
— É só reconhecimento — disse Fury, passando o arquivo para mim sem muita cerimônia. — Entrar, pegar o que tiver lá e sair. Limpo.
Assenti.
Limpo.
Simples.
Exatamente do jeito que eu precisava.
(...)

A instalação parecia morta.
Abandonada tempo demais para ainda carregar o cheiro de metal e eletricidade no ar. Meus passos ecoavam baixo pelo corredor estreito, arma em punho, olhos atentos a qualquer movimento.
Nada. Nenhum guarda a postos. Nenhum som que indicasse que pudesse ter mais alguém ali comigo.
Só o silêncio.
E aquilo, por si só, já era errado.
Respirei fundo, tentando ignorar a sensação incômoda que rastejava pela minha nuca e fazia meus pelos arrepiarem por completo.
— Ok… — murmurei para mim mesma, me aproximando de um terminal antigo. — Entrar, pegar e sair.
Como sempre.
Ou quase.
Fechei os olhos por um instante.
Concentrar.
Sentir.
Eu não era uma Vingadora à toa. Não era apenas uma agente escolhida por Fury para integrar o grupo de heróis. Eu era como eles em muitos aspectos, mas o que eu carregava dentro de mim me diferenciava um pouco.
Meu poder nunca foi… fácil de explicar.
Não era como apertar um botão ou atravessar uma porta.
Era mais como… cair.
Como deixar o próprio corpo para trás enquanto algo dentro de mim se projetava para frente, deslizando por possibilidades que ainda não tinham acontecido.
Eu não via o futuro como um filme completo.
Via fragmentos.
Cortes.
Momentos.
O suficiente para saber o que vinha a seguir, minutos ou horas a frente, mas nunca o suficiente para mudar tudo.
Era útil.
Era perigoso.
Mas, às vezes, falhava.
Abri os olhos novamente, conectando o dispositivo ao terminal onde estariam as informações que precisávamos.
A tela piscou e, por um momento muito curto, fiquei tensa, com medo de que não desse certo.
E então, dados começaram a surgir.
Arquivos antigos. Códigos. Registros.
Até que pude ouvir um ruído que me fez congelar no mesmo lugar. Estava bem atrás de mim.
Meu corpo reagiu antes da mente.
Virei, com a arma erguida e pronta para atirar no que quer que fosse.
Tarde demais.
Um impacto forte veio pela lateral, me jogando contra a parede. O ar escapou dos meus pulmões num golpe seco, minha visão escurecendo por um segundo.
Droga.
Não estava vazia.
— Intrusa — uma voz disse fria, quase mecânica.
Levantei com dificuldade, sentindo a dor irradiar pelo corpo enquanto outra figura avançava.
Rápido, pesado e fatal.
Desviei por pouco do primeiro golpe, sentindo o ar cortar ao lado do meu rosto. Rebati, tentei abrir distância, mas ele era mais forte.
Mais rápido.
Mais implacável.
Outro ataque.
Dessa vez, não ia dar tempo.
Meu coração disparou.
E, instintivamente, fiz a única coisa que sempre funcionava.
Me soltei.
Me lancei para frente.
Para o futuro.
A sensação veio com o puxo familiar de deslocamento. Senti o mundo se desfazer ao meu redor, fechei os olhos por um instante, esperando pela próxima cena que viria.
Mas então... algo quebrou.
Não foi suave. Não foi controlado. Foi brusco e violento.
Como se alguém tivesse agarrado o fio que me puxava e o arrancado do lugar.
Meu corpo travou.
Minha mente despencou.
E, em vez de avançar… eu caí.
Para trás.
Eu ainda estava lá, no mesmo lugar. Naquela mesma base fria e metálica de segundos atrás. Mas não havia ninguém tentando me atacar e o lugar que antes parecia abandonado, agora parecia habitável e com certo tipo de vida.
Não. Não podia ser.
Levei a mão a minha arma, a empunhando novamente enquanto andava meticulosamente pelo perímetro, ainda tentando me convencer de que aquilo não era possível.
Eu nunca havia viajado para o passado. O futuro era sempre o que se mostrara para mim.
Arfei, tentando não entrar em pânico. E continuei andando lentamente pelo local, a procura de qualquer movimentação estranha.
Eu não sabia em que ano estava, mas se eu de fato estivesse no passado, as chances de eu estar em perigo eram grandes. Aquela era uma das bases da Hydra e, dependendo de quanto eu havia voltado no tempo, talvez ela não estivesse tão abandonada como eu esperava.
Mordisquei o lábio com força, tentando controlar a respiração e mantive o meu caminho, agora explorando os outros espaços daquele lugar.
Se dez minutos atrás todo aquele equipamento parecia velho e desgastado, agora as máquinas e outras coisas que eu não sabia dizer ao certo o que eram estavam novas e brilhantes. Porém, nenhum indício de que alguém havia passado por aqui nos últimos dias. Nenhum sinal de copos de café, jalecos nas cadeiras, ou lixo na lixeira. Tudo intocado.
Respirei um pouco melhor após a constatação. Se eu estivesse com muita sorte, talvez eu estivesse realmente sozinha ali dentro.
Mas então um ruído me fez parar imediatamente. Engoli o seco e voltei a apontar a arma para cima. Caminhei com cautela, procurando o que ou quem estava fazendo aquele barulho.
Porém, a coisa me encontrou primeiro.
Algo me agarrou por trás e pelo pescoço, quase encaixando um mata leão. Era frio e metalizado e logo as palavras que invadiram o meu ouvido me fizeram perder as forças das pernas.
— Quem é você? E o que está fazendo aqui? — Embora a fala tivesse saído ofegante e com um tanto de dificuldade, eu reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
— Bucky? — falei com tanta dificuldade quanto a dele, pelo aperto firme e forte em meu pescoço.
Arfei e tentei virar o rosto para olhá-lo, na certeza de que eu não estava errada. Mas seu aperto só se tornou mais forte e bruto.
— Como sabe o meu nome?
— Eu… — tentei continuar, mas o ar começou a faltar em meus pulmões e o nervosismo do momento fez com que todas as palavras que existiam em meu cérebro simplesmente sumissem.
O aperto aumentou. Instintivo e defensivo. Como num gesto de sobrevivência.
Minha mão foi direto para o braço metálico, tentando criar espaço, mas era como segurar aço vivo. Frio. Implacável.
— Responde — ele exigiu, mais baixo agora, mas ainda tenso. — Como você sabe o meu nome?
Arfei, sentindo a visão escurecer nas bordas.
Pensa.
Fala alguma coisa.
Qualquer coisa.
— Steve… — Consegui forçar, a palavra saindo arranhada. — Steve Rogers.
O efeito foi imediato.
Não uma soltura completa.
Mas uma hesitação pequena, quase imperceptível.
— O que tem ele? — A voz veio mais instável, menos automática.
Meu coração disparou.
— Ele… — Puxei o ar com dificuldade. — Ele está procurando você.
Mentira e verdade. As duas coisas ao mesmo tempo e em passagens temporais diferentes.
O aperto afrouxou um pouco. Mas o suficiente para que eu conseguisse puxar ar de verdade.
— Onde? — ele perguntou, mais rápido agora.
Havia urgência ali.
Algo que não combinava com a máquina que ele deveria ser.
Engoli em seco.
— Não aqui — respondi, ainda tentando recuperar o fôlego. — E se você continuar aqui… eles vão te encontrar primeiro.
Um silêncio pesado tomou conta do ambiente. Senti a pressão começar a esmagar nossas cabeças para baixo.
Eu sentia o conflito nele.
No jeito como o braço não decidia se me segurava ou me soltava.
No ritmo irregular da respiração contra a minha nuca.
— Eu não vim atrás de você — continuei, mais firme agora, mesmo com o coração disparado. — Mas posso te tirar daqui.
Outro segundo. Outro cálculo. Outra luta interna.
Que merda! Por que é que eu tinha que ter voltado no tempo justamente quando Bucky Barnes ainda era atormentado pelo Soldado Invernal?
E então... o aperto cedeu. E ele me soltou como se nunca tivesse me prendido antes.
Afastei-me rapidamente, virando para encará-lo enquanto puxava o ar como se fosse a primeira vez.
E lá estava ele.
Despedaçado.
Os cabelos longos caindo em seu rosto suado e sujo. Havia sangue seco em seu rosto e no braço humano. A roupa tática também parecia manchada com sujeira e sangue. Ele respirava com dificuldade e eu identifiquei na hora que ele estava machucado.
E então eu olhei os seus olhos, procurando pro algum vestígio de que aquele poderia ser o Soldado Invernal, mas o cristalino das írises continuava brilhando, não estavam vazios. Quase suspirei de alívio.
Já ele me analisava como quem tenta montar um quebra-cabeça com peças faltando.
— Você não parece ser da Hydra — disse, por fim.
Soltei uma pequena risada sem humor.
— Fico feliz em saber.
Ele não reagiu, mas também não atacou. O que já era um avanço.
— Se eu quisesse te derrubar — completei, mais calma agora — não teria chamado você pelo nome.
Os olhos dele se estreitaram levemente, como se considerassem a minha fala.
— Prova — disse ele.
Arqueei uma sobrancelha.
— Provar?
— Que não está mentindo.
Respirei fundo.
Claro.
Não ia ser fácil. Bucky não era fácil.
Dei um passo lento para o lado, apontando com o queixo para o corredor por onde eu tinha vindo.
— Tem uma saída a dois corredores daqui. Porta lateral. Pouco vigiada. Podemos sair sem sermos vistos e em segurança. — Tentei parecer o mais confiante possível para que ele não duvidasse de mim.
Ele não se mexeu.
— E por que eu confiaria em você?
Segurei o olhar dele.
Firme.
Sem fugir.
— Porque eu estou indo pra lá de qualquer forma — respondi. — Com ou sem você.
Silêncio mortal.
E então ele deu um passo à frente, pequeno e decisivo. E eu quase sorri com a pequena vitória.
— Anda — murmurou um tanto quanto carrancudo e ele começou a se parecer ainda mais com o Bucky que eu conhecia.
Assenti e tomei a frente, tentando ser o mais furtiva que eu conseguia. O que era uma dificuldade, já que esse era sempre o que Clint e Steve brigavam comigo por ser espalhafatosa demais nas minhas transições temporais.
Bucky, por sua vez, me seguiu como uma sombra macabra. Eu conseguia ouvir a sua respiração descompassada, mas seus passos eram silenciosos e precisos.
Virei o primeiro corredor com cuidado, conferindo a esquina antes de avançar.
— Você faz muito barulho. — A voz dele veio baixa atrás de mim, quase um sussurro.
Revirei os olhos, mesmo sabendo que ele provavelmente não veria.
— E você respira como se tivesse corrido uma maratona — retruquei no mesmo tom.
Silêncio.
Por um segundo, achei que tinha irritado ele e esperei que ele apenas virasse as costas e desaparecesse, como eu havia me acostumado.
— Justo — ele disse de repente e eu quase vibrei de alegria em conseguir fazê-lo falar um pouco mais.
Seguimos.
Dobrei à direita, como tinha indicado, e senti ele se aproximar um pouco mais. Não o suficiente para encostar, mas o bastante para que eu percebesse o calor dele atrás de mim e o peso da presença.
— Quanto tempo faz? — ele perguntou de repente.
Franzi o cenho, sem diminuir o passo.
— Tempo de quê?
— Que você está aqui.
Hesitei.
— Não muito — disse, por fim. — O suficiente pra saber que não é um bom lugar pra ficar.
— Isso eu já sabia — murmurou.
Havia algo seco na voz dele.
Cansado.
Como se aquilo fosse só mais uma repetição de algo que ele já tinha vivido vezes demais.
Meu peito apertou, mas não comentei.
Viramos outro corredor.
Mais perto.
— É logo ali — sussurrei, diminuindo o ritmo.
Mas, antes que eu pudesse dar mais um passo, ele segurou meu braço.
Congelei, sem saber o que fazer.
— Espera — disse com o tom mais sério do que o normal. Senti os pelos da nuca se arrepiarem.
Segui o olhar dele.
E então ouvi. Vários passos que se aproximavam rápido demais. Merda!
Reagi por instinto, puxando-o comigo para dentro de uma sala lateral antes que virássemos alvo fácil no corredor. Fechei a porta com cuidado, segurando a respiração.
Estava tudo escuro, com apenas uma pequena fresta e luz entrando pela porta. A presença de Bucky ao meu lado ficou ainda mais pesada.
Os passos passaram.
Um.
Dois.
Três homens que conversavam e riam, totalmente alheios que na porta ao lado havia um matador profissional e uma maluca que viajava no tempo.
Só soltei a respiração quando os passos ficaram tão distantes que quase eram impossíveis de serem ouvidos.
E foi aí que percebi.
Ele ainda estava segurando meu braço. Forte. Quente.
Olhei para baixo, na direção da sua mão humana e senti as mesmas borboletas que haviam invadido meu estômago no dia do baile, quando o vi subindo aquelas escadas.
Então olhei para ele, subi o olhar devagar e quase engasguei ao ver que os olhos dele já estavam em mim, mais perto que antes.
O espaço entre nós parecia… menor. Mais denso. Como se o mundo lá fora tivesse diminuído e deixado só aquilo.
Ele soltou meu braço devagar, como se tivesse acabado de perceber.
— Desculpa — murmurou, baixo, quase automático.
Pisquei, surpresa.
— Você pede desculpa?
A pergunta escapou antes que eu pudesse filtrar.
Mas ele não reagiu mal.
Só desviou o olhar por um instante, como se aquilo também fosse estranho pra ele.
— Às vezes — disse, e sua boca quase se curvou num sorriso. Quase.
Meu coração fez algo esquisito no peito.
O silêncio voltou. Mas não parecia mais o mesmo, pois não era mais hostil. Soltei um suspiro, mais aliviada e até mesmo satisfeita.
— Vamos — sussurrei, voltando a focar. — Antes que a sorte acabe.
Ele assentiu.
E, dessa vez, ao sairmos da sala, ele não ficou atrás de mim. Ficou ao meu lado.
— Estamos perto — murmurei, quase para mim mesma quando reconheci os corredores que nos daria acesso a saída.
Ele não respondeu.
Mas eu senti o jeito como o corpo dele se ajustou ao meu lado. Mais atento. Mais presente. Mais vivo.
Viramos o último corredor.
E lá estava.
A porta metálica, pesada, com uma pequena barra de abertura manual. Sem guardas à vista.
Aproximei-me devagar, testando a maçaneta e soltei um grunhido frustrado ao ver que ela estava trancada.
— Droga… — falei tentando outra vez.
Antes que eu pudesse tentar outra coisa, o braço metálico dele surgiu ao meu lado.
E então, num movimento rápido e preciso, o som seco do metal cedendo ecoou baixo demais para ser ouvido de longe e a porta se abriu.
Virei o rosto na direção dele, surpresa. Às vezes, eu me esquecia que ele havia sido treinado para ser uma máquina assassina e com todas as habilidades possíveis e inimagináveis.
— Útil — comentei, quase sorrindo.
Ele deu de ombros, como se não fosse nada.
Mas havia um brilho diferente nos olhos. Algo parecido com orgulho contido.
Saímos.
O frio do lado de fora me atingiu como um choque.
Ar puro e céu aberto.
Nos afastamos da base o suficiente antes de parar, protegidos por uma linha de árvores densas. Só então me permiti respirar de verdade.
Ele não.
Ainda estava tenso.
Como sempre parecia estar. Eu sabia, pois já havia me pegado olhando os seus ombros largos e tensionados por tempo demais.
O silêncio caiu entre nós, mas não era desconfortável. Eu ainda não sabia dizer o que ele era, mas só de não ser mais sufocante e desconfiado, eu me sentia feliz.
Ele passou a mão pelo rosto, cansado, e se apoiou levemente contra uma árvore próxima.
— Você não deveria ter voltado — disse de repente.
— Voltado? — Franzi o cenho, sem entender sua colocação.
Ele assentiu, desviando o olhar por um segundo.
— Pra dentro — corrigiu, mais baixo. — Era mais seguro ir embora sozinha.
Soltei um pequeno suspiro, contrariada.
— E te deixar lá?
Ele não respondeu de imediato.
Os olhos voltaram para mim, mais calmos agora. Mais atentos.
— Você não me conhece.
A frase veio simples, mas incrivelmente carregada.
Dei um meio sorriso, quase sem pensar.
— Engraçado… — murmurei. — Eu estava pensando exatamente o contrário.
Ele franziu levemente a testa, numa confusão visível. E eu não me importei em explicar, pois sabia que explicar naquele momento não era uma opção, não ali, não quando ele não sabia quem eu era enquanto eu já havia passado tempo demais suspirando por ele.
O silêncio voltou.
— Você sempre fala assim? — ele perguntou depois de alguns segundos.
— Assim como?
— Como se soubesse mais do que está dizendo.
Prendi a respiração por um instante.
Acertou. Claro que acertou.
Desviei o olhar, chutando levemente uma pedra no chão.
— Talvez eu só goste de parecer interessante — admiti mais para mim mesma do que para ele.
Ele soltou um sopro baixo, quase uma risada.
Meu coração apertou de um jeito estranho.
— Você é estranha — ele disse.
Levantei o olhar de novo.
— Já ouvi coisas piores. — Dei de ombros enquanto chutava uma pedra que estava no caminho.
— Não foi um insulto.
Aquilo me pegou desprevenida.
O jeito como ele disse aquilo… calmo, sincero, sem peso e julgamento. Só uma simples e direta constatação.
Peguei-me pensando em como poderiam ter sido todas as nossas interações se ele não me afastasse todas as vezes em que nos encontrávamos.
Meu peito apertou.
E, por um segundo, eu esqueci. Parei de pensar na base, no tempo e no perigo.
Só fiquei ali. Com ele.
— Então tá tudo bem — respondi, mais suave.
O silêncio se acomodou entre nós outra vez.
Mas, dessa vez, foi quebrado por um pequeno vacilo.
Bucky voltou a caminhar, tentando tomar a frente. Mas, após o primeiro passo, o braço humano foi instintivamente até a árvore ao seu lado e ele parou. O seu corpo cedeu um pouco, como se a força simplesmente tivesse ido embora por um segundo.
Franzi o cenho imediatamente, sentindo o coração errar uma das batidas.
— Ei...
Aproximei-me sem pensar, segurando o braço dele antes que ele perdesse o equilíbrio.
O contato foi firme e quente.
— Você está machucado — afirmei, já analisando melhor.
De perto, era impossível ignorar os cortes e os hematomas nas áreas visíveis do seu rosto e braços.
Ele tentou se soltar no próprio instinto.
— Estou bem — resmungou, com a respiração ofegante, não me convencendo nada do que dizia.
— Não, não está — rebati, firme.
Ele me encarou. E, por um segundo, achei que ele ia insistir. Recuar e se fechar de novo. Mas ele não fez isso. Apenas me encarou e soltou o ar devagar, como se o fato de encher os pulmões de oxigênio fosse doloroso o suficiente.
— Já estive pior.
— Não duvido — murmurei.
Aproximei-me um pouco mais, com cuidado, levantando levemente a manga rasgada do braço dele para avaliar melhor um corte mais profundo.
Ele enrijeceu no primeiro toque.
Mas não se afastou.
— Isso aqui precisa pelo menos de um curativo — falei, mais baixo agora.
Rasguei um pedaço do tecido da minha própria roupa, improvisando sem pensar muito.
— Você sempre anda preparada assim? — ele perguntou, observando.
— Não — respondi, concentrada. — Mas eu sou criativa sob pressão.
Ele soltou um sopro baixo.
Se eu não estivesse tão tensa com toda aquela situação, teria afeito algum comentário provocativo sobre seus quase momentos de riso.
Amarrei o tecido com cuidado, tentando não pressionar demais.
Meus dedos roçaram na pele dele.
E, por um instante, ninguém se mexeu.
O mundo pareceu desacelerar só o suficiente para aquele detalhe existir.
Levantei o olhar.
Ele já estava olhando para mim. De novo.
Tentei ignorar todas as borboletas e o desconforto em me sentir despida pelo seu olhar intenso.
Terminei o nó devagar, ainda sentindo o peso daquele olhar.
— Pronto — murmurei, sem me afastar imediatamente.
— Obrigado — ele disse, baixo.
Assenti, dando um meio passo para trás, ainda me acostumando com o jeito estranho que meu coração tinha começado a bater.
— De nada.
Puxei o ar fundo, tentando aliviar a tensão que parecia ter se instalado sem aviso.
E então soltei, quase sem pensar:
— Acho que formamos uma boa dupla.
A frase ficou no ar por alguns segundos, como se flutuasse acima das nossas cabeças. Senti as bochechas esquentarem no segundo seguinte, mas não tinha como voltar no tempo. Não quando eu não sabia como fazer isso.
Ele piscou, como se não esperasse aquilo.
Os olhos passaram rapidamente pelo caminho que tínhamos feito. Pela base ao longe.
E então voltaram para mim.
Um segundo.
Dois.
E, pela primeira vez, um sorriso de verdade apareceu.
Um sorriso pequeno, cansado e real.
— É… — murmurou. — Acho que sim.
Meu peito apertou num misto de alegria e medo do que viria a seguir.
E foi nesse exato instante que a sensação veio. Como um puxão.
Mais violento dessa vez.
Dei um passo para trás, o sorriso desaparecendo, pois eu sabia o que aquilo significava.
— Não… — sussurrei.
Ele franziu o cenho imediatamente.
— O que foi?
Olhei para ele com atenção, tentando gravar cada detalhe do seu rosto e da situação que nos encontrávamos.
Porque agora eu sabia.
Sabia que aquele momento não era pra durar.
— Eu tenho que ir — admiti com mais tristeza do que eu gostaria.
A confusão no rosto dele foi imediata.
— Ir pra onde?
Abri a boca. Mas a fechei no instante seguinte. Pois não havia resposta que pudesse fazer sentido para ele. Afinal, como é que eu explicaria que eu vinha do futuro?
O ar ao redor começou a vibrar, sutil no começo… quase imperceptível. Mas eu senti, senti, pois tudo aquilo vinha do meu próprio corpo. Do meu poder que começava a vibrar dentro de mim. Era isso. O tempo estava me puxando de volta.
— Eu não posso explicar. — Minha voz saiu mais baixa do que eu queria. — Eu só… preciso ir.
Ele deu um passo na minha direção, mancando no instante seguinte, mas não parou, ele parecia instintivo, quase impulsivo.
— Não — disse, firme, como se pudesse simplesmente impedir aquilo. — Espera.
Meu coração apertou com força.
Porque eu não queria ir embora. Não naquele momento. Não quando eu finalmente parecia estar conseguindo criar algum laço com ele. Eu queria ficar.
Mas o mundo não estava interessado no que eu queria.
Dei mais um passo para trás.
Minhas mãos tremiam.
— Só não faça nenhuma besteira, tá bom? — falei, sentindo a voz fraca e trêmula.
Os olhos dele se prenderam nos meus.
— Ei... — ele começou, avançando mais um passo.
Mas já era tarde demais.
A força veio.
Violenta.
Brutal.
Não como antes.
Dessa vez, não parecia um deslocamento.
Era como se algo estivesse me puxando para fora daquele momento à força, rasgando cada segundo que eu tentava segurar.
Meu corpo perdeu o equilíbrio.
Minha visão distorceu.
— Espera! — A voz dele veio mais alta agora, mais urgente.
Estendi a mão.
Instinto puro.
Desespero.
E, por um segundo... nossos dedos quase se tocaram.
Mas o tempo não permitiu.
O mundo cedeu.
E ele ficou.
(...)

O retorno a base não foi bom, muito menos tranquilo. Eu avancei no tempo, como era o plano desde o início. O homem que havia me atacado estava estirado no chão, como se a nossa luta tivesse sido muito feia. Mas eu não havia lutado com ninguém.
Apenas conectei meu pendrive na máquina e saí de lá como se eu nunca tivesse tido ali antes. Como uma sombra.
A volta para a Torre dos Vingadores foi calma. Em missões curtas eu gostava de ir até o aeroporto mais próximo, enfrentar a fila e pegar um voo normal para voltar para casa. Os jatos particulares eu deixava para quando as coisas estavam muito difíceis e cansativas.
Isso me fazia sentir um pouco mais viva e humana. Não apenas a mulher que avançava no tempo.
E meus pensamentos foram os meus maiores inimigos durante todas as horas de viagem. Minha cabeça tentava encontrar uma explicação plausível para tudo aquilo. Como é que eu havia voltado no tempo e encontrado Bucky?
E o pior, porque é que eu havia ido embora quando ele mais precisava de alguém? Eu sabia que ele estava fugindo da Hydra, e sabia também que sua fuga não durou muito, pois, infelizmente sua vida como Soldado Invernal havia sido muito mais longa do que isso.
Eu não sabia em que conclusão chegar.
Mas sabia o que eu estava sentindo. Ou não estava sentindo.
Dentro de mim era como se um grande buraco estivesse no lugar do peito. Deixá-lo para trás foi doloroso e sofrido.
E o pior: como é que eu o encararia agora que estava de volta?
Mas esse era um problema pra daqui algumas horas quando chegasse em casa.

(...)

A Torre estava mais silenciosa do que eu estava acostumada, o que me deu a sensação de que eu estive fora por muito mais tempo do que de fato eu havia ficado.
Respirei fundo antes de atravessar a entrada para o próximo corredor, ajeitando a bolsa no ombro como se aquele gesto simples pudesse me ancorar de volta à realidade.
Funcionou. Bom, mais ou menos.
Os corredores estavam como sempre. Vozes ao fundo. O som distante de algo sendo testado no laboratório. Vida acontecendo como se o mundo não tivesse acabado de se partir em dois.
Engoli em seco.
Normal.
Você só precisa ser normal, . Só não haja como uma esquisita.
Meus passos ecoaram pelo corredor enquanto eu tentava organizar a expressão no rosto, ensaiar respostas, montar uma versão aceitável do que tinha acontecido.
Ou do que eu diria que tinha acontecido.
.
Parei.
Congelei por meio segundo antes de me virar.
Steve vinha na minha direção, expressão atenta, mas não alarmada, como o Capitão perfeito que ele era.
— Oi. — Forcei um sorriso amarelo e pela ruga que se formou no centro das suas sobrancelhas, eu soube que ele já estava preocupado e pensando demais sobre as minhas reações.
Ele diminuiu o passo ao se aproximar, me analisando com aquele olhar que sempre parecia ver um pouco mais do que eu gostaria.
— Você demorou mais do que eu estava esperando — disse, com o tom de voz contido.
— Tive algumas intercorrências. — Mudei o peso de uma perna para outra e desviei do seu olhar atento. — Mas consegui pegar tudo o que precisava, tá tudo aqui.
— Ótimo. — Assentiu, aliviado. — O Tony vai querer...
— Eu sei — o cortei sem esperar. — Já estou indo levar.
Steve franziu levemente o cenho.

Droga. Eu odiava quando ele usava aquele tom de voz.
Respirei fundo, suavizando o meu próprio.
— Eu só preciso de um minuto, ok? Foi… mais cansativo do que parecia ser quando Fury me mandou pra lá. — Deixei os ombros caírem, para aumentar a credibilidade do que eu estava sentindo.
Ele hesitou. Mas assentiu logo em seguida.
— Claro.
Dei um meio sorriso e passei por ele.
Rápido demais.
Fugindo antes que ele perguntasse mais.
Mas não fui direto ao laboratório. Não conseguiria nem se eu quisesse muito.
Desviei no meio do caminho, entrando no primeiro corredor vazio que encontrei, como se precisasse de alguns segundos a mais antes de encarar qualquer outra pessoa. Ou qualquer outra versão da realidade em um espaço tempo diferente do que eu vivia.
Encostei na parede fria, fechando os olhos por um instante.
Respira. Só respira, .
Mas exercícios de respiração pareciam não serem o suficiente para acalmar todo o turbilhão de sentimentos que tinham dentro de mim naquele momento. Porque, todas as vezes que eu fechava os olhos, era ele que eu via.
Desgastado. Machucado. Vulnerável.
E havia também o jeito como ele tinha me olhado… diferente de qualquer outra interação que já havíamos tido no futuro. E isso havia mexido comigo muito mais do que eu gostaria de admitir.
Soltei o ar com força, passando a mão pelo rosto.
— Isso não aconteceu — murmurei para mim mesma em negação. — Não pode ter acontecido.
Mas aconteceu.
Eu sabia que tinha acontecido. E seria idiota se não conseguisse admitir isso para mim mesma.
Endireitei a postura com um suspiro pesado e me afastei da parede.
Eu não podia me deixar levar por sentimentos que eu nem sabia nomear. Não. Eu sempre me orgulhei da boa Vingadora que eu era. Então não podia deixar que meus problemas fossem maiores do que o meu objetivo: entregar as informações coletadas para Tony. Depois que eu preenchesse a papelada da missão, poderia chorar as pitangas pelos últimos acontecimentos.
Coloquei um pé na frente do outro, me obrigando a seguir até o laboratório.
Tony Stark nem levantou o olhar quando entrei.
— Demorou — comentou, digitando alguma coisa com velocidade absurda.
Revirei os olhos, agradecida pela normalidade.
— Senti saudade também — respondi, tão ácida quanto ele.
— Duvido — respondeu ele, finalmente olhando para mim. — Trouxe o que Fury pediu?
Joguei o dispositivo na direção dele, que pegou no ar com facilidade.
— Tudo aí dentro, senhor.
Tony conectou imediatamente, os olhos brilhando com interesse.
— Se isso for o que eu acho que é, você acabou de salvar semanas de trabalho — falou e eu soube que aquilo era o mais próximo de um “obrigado” que eu receberia.
Dei de ombros.
— Mais um dia comum, então.
Ele soltou um riso baixo, já totalmente absorto nos dados.
Perfeito. Menos perguntas e, consequentemente, menos atenção em mim. Era tudo o que eu precisava.
— Pode ir — ele disse, distraído. — Se eu morrer aqui, foi feliz.
Não me dei o trabalho de respondê-lo e apenas me virei e saí, indo em direção ao meu quarto.
O caminho foi automático. Quase mecânico. Como se eu estivesse apenas seguindo um roteiro decorado.
Fechei a porta atrás de mim e, pela primeira vez desde que tinha voltado, o silêncio caiu de verdade. Um silêncio pesado e denso. Meus pensamentos agora não tinham mais fuga nem distrações, a missão havia terminado e eu tinha todo o tempo do mundo para refletir sobre os últimos acontecimentos.
Encostei na porta por alguns segundos.
E foi como se o ar em meus pulmões tivesse sumido repentinamente. Meu peito ardeu e eu levei as mãos ao rosto, apertando os olhos com força.
— Mas que droga — resmunguei para mim mesma, ainda com os olhos fechados e tentando controlar o que parecia me corroer por dentro.
Por quê? Por que aquilo estava doendo tanto?
Eu mal conhecia ele.
Mal tinha passado tempo suficiente para... Mentira. Meu pensamento travou.
Não foi “pouco tempo”.
Foi tempo suficiente. Suficiente para ver ele sem máscara. Suficiente para ele confiar em mim. Suficiente para ouvi-lo concordar comigo quando eu disse “acho que formamos uma boa dupla”.
Engoli em seco, sentindo algo apertar ainda mais forte dentro do peito.
— Idiota… — murmurei, sem saber se falava de mim ou da situação.
Afastei-me da porta, caminhando até a janela.
A cidade se estendia lá fora, viva, barulhenta, completamente alheia ao fato de que eu tinha acabado de quebrar o tempo.
Ou ele tinha quebrado a mim.
Cruzei os braços, apoiando a testa no vidro frio.
E então a pergunta veio.
Será que ele se lembraria? Se lembraria de mim e do que havíamos vivido? Ou seria mais uma das tantas memórias apagadas pela Hydra?
Será que só eu que conviveria com o peso dessa lembrança pelo resto da vida? Me lamentando por não saber o que poderia ter sido?
Meu coração disparou só de pensar.
— Eu vou ter que falar com ele… — disse com a voz quase inaudível, sem ter certeza que era isso mesmo que eu deveria fazer.
Mas eu sabia que não conseguiria dormir ou descansar a cabeça se não tirasse essa história a limpo.
Limpei uma lágrima solitária que escorreu pela minha bochecha e inflei o peito. Era isso. Eu iria falar com Bucky Barnes e perguntar se ele também se lembrava.
(...)

Eu sabia exatamente onde encontrá-lo. Eu só torcia para que não tivesse mais ninguém além dele na sala de treinamento ou ficaria ainda mais nervosa para conversar.
Terminei de amarrar os cabelos e saí do quarto respirando fundo. Caso houvesse mais alguém, eu pelo menos estava com roupa de academia para poder fingir que aquele era o plano desde o início.
Os sons de socos e golpes do que quer que fossem foram ouvidos assim que adentrei a sala de treinamento. Varri o lugar com o olhar e lá estava ele, lutando contra um saco de pancadas como se sua vida dependesse disso.
No instante seguinte ele notou minha presença e virou o rosto, me encarando profundamente. Senti o frio na barriga aumentar e me aproximei com cuidado.
— Oi — falei, sem saber por onde começar.
— Você demorou — ele disse.
Não consegui evitar uma expressão de surpresa.
A última coisa que eu esperava naquele momento era que ele tivesse notado a minha falta. Mas ele tinha.
Engoli o seco.
—Já me disseram isso hoje. — Foi tudo o que consegui pensar para dizer e um barulho esquisito saiu do fundo de sua garganta, como um riso abafado. Senti as pontas dos dedos ficarem trêmulas.
O silêncio caiu entre nós.
Espesso.
Cheio de coisas não ditas.
Dei alguns passos à frente, o som dos meus pés ecoando no chão.
— A gente precisa conversar.
— Precisa? — Pude ver sua sobrancelha direita se arquear minimamente e ele então se virou, ficando de frente para mim.
Aspirei profundamente outra vez.
— Eu… — Parei.
Droga. Por onde eu deveria começar? Eu não podia simplesmente dizer: “Oi, eu viajei no tempo, te encontrei no passado e te deixei pra trás. Agora estou com remorso e morrendo por dentro para saber se você lembra de mim”.
Soltei um suspiro curto, passando a mão pelo cabelo.
— Eu tive um imprevisto na missão — disse, ainda o olhando.
Bucky apenas me observou em completo silêncio, com uma expressão quase contida de curiosidade.
— Mais do que um imprevisto, na verdade — continuei, tentando organizar as palavras. — Eu… fiz algo que normalmente não acontece.
Os olhos dele estreitaram levemente.
— Tipo o quê? — Inclinou o corpo minimamente para frente, num sinal de que estava mais interessado do que aparentava.
Hesitei.
Um segundo.
Dois.
— Eu fui pro passado.
A frase ficou no ar.
Ele não reagiu de imediato. Não demonstrou nenhuma surpresa exagerada nem fez nenhuma pergunta impulsiva.
Só… silêncio. Como se estivesse encaixando aquilo em algum lugar dentro dele.
— Isso é possível pra você? — ele perguntou, por fim.
— Não era pra ser. Nunca foi — respondi devagar, como se tentasse convencer a mim mesma antes dele.
E outro momento de silêncio se formou entre nós.
— E você encontrou alguém lá — ele disse.
Não perguntou.
Afirmou.
Meu coração tropeçou.
— Como você...? — Mas parei de falar no instante seguinte.
Porque não importava. Ou talvez importasse demais.
— Sim — respondi, mais baixo.
Os olhos dele não saíram dos meus.
— Alguém que você conhece — completou.
Achei que fosse desmaiar ali mesmo pela intensidade do seu olhar.
Minha respiração falhou.
— Bucky… — O nome dele escapou antes mesmo que eu pudesse segurar e eu me senti uma tola pela forma como estava derretendo apenas pelo seu olhar.
E, para a minha surpresa, ele reagiu. Seu rosto pareceu se iluminar aos poucos e o maxilar foi suavizando.
— O que você disse pra ele? — questionou de repente, com a voz baixa e eu achei que meu coração fosse explodir dentro da minha caixa torácica.
Engoli o seco e fechei os olhos por alguns segundos, tomando coragem de responder aquilo.
— Eu disse que formávamos uma boa dupla — respondi por fim e só abri os olhos quando terminei de falar.
O olhar dele mudou levemente. Foi como se uma peça finalmente tivesse encontrado o lugar certo.
Senti meu corpo estremecer quando ele deu um passo à frente, se aproximando ainda mais devagar. Pé ante pé, até parar perto demais. Arfei quando senti a respiração dele soprar em minhas bochechas.
— Engraçado... — murmurou, olhando dentro dos meus olhos. — Eu sempre achei que havia sido um sonho...
Meu estômago revirou junto com a minha cabeça. Ele sabia. Ele se lembrava.
— Mas acho que tudo foi real, não é? — Sua voz baixou o tom outra vez e eu senti os olhos arderem pela vontade de chorar.
— Eu... — Não encontrei palavras que pudessem fazer sentido naquele momento.
Bucky abriu um sorriso. De verdade. Pequeno e cansado. Mas de verdade.
E então ele disse:
— Acho que formamos uma boa dupla mesmo.
Achei que eu fosse desmaiar ali mesmo.
— Eu fiquei... — Engoli o seco, com dificuldade de continuar. — Fiquei com medo que... sabe... você não se lembraria.
— Como eu poderia me esquecer de alguém que fala tanto? — Arregalei os olhos pela surpresa de finalmente começar a enxergar o lado dele que ele nunca havia me dado o prazer de ver.
Peguei me rindo como uma garota apaixonada e boba.
— Eu não me lembro de tudo — admitiu, passando a mão pelo cabelo, mas nunca sem deixar de me olhar. — Mas lembro do suficiente.
Engoli em seco outra vez. Parecia que toda a saliva da minha boca havia sumido de repente.
O silêncio entre nós não era mais desconfortável.
Era carregado. Cheio daquilo que havíamos vivido. Eu, horas atrás, e ele, anos.
— Eu achei que tinha imaginado — continuou ele, a voz um pouco mais baixa agora. — Por muito tempo.
Meu coração apertou.
— Muito tempo… quanto? — perguntei com cuidado, com medo de avançar por aquele campo desconhecido.
— Tempo suficiente pra não confiar na minha própria cabeça — respondeu soltando um sopro curto pelo nariz, sem humor.
Aquilo doeu. Mais do que eu esperava.
— Bucky…
— Eu fugi — ele continuou, me cortando com suavidade, como se precisasse tirar aquilo de dentro antes de perder a coragem. — Naquele dia. Da base.
Assenti devagar. Eu sabia.
— Não fui muito longe. — A frase veio seca e direta, numa lembrança dolorida. — Eles me encontraram. Sempre me encontravam.
Uma lágrima escorreu antes que eu conseguisse secar. Bucky pareceu alheio a isso e continuou sua narrativa.
— Me levaram de volta e limparam tudo de novo. — A mandíbula dele tensionou levemente. — Ou tentaram.
Meu peito apertou com força.
— E você… lembrou?
Ele demorou um segundo. Como se a resposta não fosse simples.
— Não como lembrança — disse, por fim. — Não no começo.
Deu um meio passo mais perto.
Quase imperceptível.
— Era mais… como uma sensação.
Meu coração acelerou outra vez.
— Como quando você acorda de um sonho e sabe que foi importante, mas não consegue lembrar do quê.
Assenti devagar, pois eu conhecia aquela sensação.
— Só que não passava — continuou. — Não sumia.
Os olhos dele se prenderam nos meus, mais intensos agora. Um arrepio percorreu minha espinha.
— E quando eu te vi… — Ele parou por um segundo, como se aquela parte fosse a mais difícil.
Prendi a respiração.
— Pela primeira vez — completou, mais baixo — foi a mesma sensação.
Meu coração tropeçou.
— Como se eu já te conhecesse.
O ar ficou pesado.
Denso.
Quase impossível de respirar.
— Mas eu não sabia de onde — continuou. — Nem por quê.
Dei mais um passo.
Agora a distância entre nós era mínima. Era perigosa e inevitável.
— E isso te assustou — falei, conectando os pontos.
— Assustou.
Os olhos desviaram por um segundo, mas não demoraram para voltar.
— Porque, quando você passa tempo demais sem saber o que é real… — a voz ficou mais grave — qualquer coisa fora do lugar vira ameaça.
Aquilo acertou direto. Sem defesa. E eu quase dei um passo para trás pela força que me acertou.
— Então você me evitou — murmurei.
Não era uma pergunta.
Ele assentiu.
— Era mais fácil — disse. — Fingir que não tinha nada ali.
— E funcionou? — Minha voz falhou pelo medo do que viria seguir.
Ele me encarou por um segundo longo demais.
— Não.
— Eu achei que tinha feito algo errado — confessei, antes de conseguir me segurar.
Minha vulnerabilidade escapou. Crua. Real.
Ele franziu levemente o cenho.
— Não.
A resposta veio imediata.
— Nunca foi você — completou.
O silêncio que caiu depois disso foi diferente.
Mais próximo.
Mais… íntimo.
Sem perceber, minha mão se moveu um pouco.
Quase encostando na dele.
Mas, dessa vez não havia tempo me puxando de volta. Não havia nada para nos interromper. Apenas a escolha de ficar.
Ele olhou para o movimento e depois para mim.
E não se afastou.
— Eu devia ter falado antes — ele disse, mais baixo.
— Eu também — respondi.
Um pequeno sorriso apareceu no canto da boca dele.
— A gente demora, hein — falou, e eu ri pelo nariz.
— Demais — Sorri. — E agora... O que a gente faz agora?
Bucky voltou a me encarar com intensidade. Os olhos azuis olhando no fundo dos meus, como se soubessem tudo o que havia dentro de mim. O silêncio que se seguiu até sua resposta foi demorado enquanto minhas bochechas esquentavam cada vez mais.
— Acho que a gente descobre — falou, por fim. — Já que fazemos uma boa dupla.
Arfei outra vez quando vi que ele não se afastou.
— É até estranho ouvir você admitir isso — falei, tentando amenizar o clima e ele riu pelo nariz.
— Eu tinha uma reputação a zelar — disse, no mesmo tom que o meu.
— De homem misterioso e emocionalmente indisponível? — Atrevi-me a perguntar e mordi o lábio em seguida, sem ter certeza de que deveria ter dito aquilo.
— Algo assim — respondeu, parecendo não se importar, com o sorriso nunca deixando o canto dos seus lábios.
Eu quase ri. Mas meu riso morreu no meio do caminho ao ver que a mínima distância que havia antes, agora era praticamente inexistente. Eu não sabia dizer quem havia se aproximado primeiro, mas conseguia sentir as pernas dele encostando nas minhas.
Mordi o lábio outra vez, em nervosismo, enquanto Bucky levava a mão humana até a minha bochecha, acariciando de leve.
— Bucky... — sussurrei, fechando os olhos.
E então os lábios dele roçaram nos meus e eu achei que desmaiaria ali mesmo.
O braço de metal circundou minha cintura, me puxando para mais perto ainda e então ele me beijou.
Foi cauteloso. Brando. Bucky me segurava como se eu fosse algo prestes a se partir no meio.
Mas quando eu abri um pouco mais meus lábios e a ponta da sua língua tocou a minha, foi como se o ponto de encontro se desfizesse em mil pedaços e todo o sentimento explodiu em algo mais voraz e intenso.
Ele me apertou com mais força e nossas bocas se moveram em perfeita sintonia.
Quando o ar se fez necessário, nos afastamos minimamente, testa com testa.
Um sorriso idiota tomou conta do meu rosto e eu tinha a sensação de estar flutuando sob as nuvens.
Encontrei a mão humana pelo meio do caminho e nossos dedos não demoraram a se entrelaçar, num gesto carinhoso e que fez com que os pelos da minha nuca se arrepiassem. Eu não conseguia acreditar que isso realmente havia acontecido.
A respiração de Bucky era menos ofegante que a minha, mas eu a sentia em meu rosto. Movi minha boca até sua bochecha e demorei um beijo em cada uma delas, sentindo elas se curvarem em um sorriso grande.
Logo ele me beijava de novo. Tão intensamente quanto antes.
Agarrei-me em sua blusa enquanto agora suas duas mãos me seguravam pela cintura, como se minha vida dependesse disso.
E tudo ao nosso redor parecia ter desaparecido. Não havia missão. Não havia Torre. Nem Vingadores.
Apenas eu e ele.
Como na fuga da base. Como na floresta.
E tudo pareceu certo demais.
— Acho que demoramos mesmo — murmurei, quase sem voz, assim que nos separamos pela segunda vez.
Ele soltou um pequeno riso, baixo.
— Um pouco.
Abri os olhos devagar.
Minha testa ainda estava encostada na dele.
E, por um segundo, ninguém falou nada. Como se qualquer palavra pudesse quebrar aquilo. Ou pior… fazer parecer menos real.
A respiração dele ainda estava descompassada, misturando com a minha, criando um ritmo estranho, mas confortável.
— Então… — murmurei, sem me afastar. — Isso definitivamente não estava no relatório da missão.
Ele soltou um riso baixo, que vibrou leve contra mim.
— A gente pode acrescentar como “imprevisto”.
Sorri.
— Acho que Tony não ia gostar dessa parte.
— Ah, ele ia, e ia querer detalhes demais — disse, rindo, e eu o acompanhei.
— Tem razão.
Outro momento de silêncio se instalou entre nós dois, mas não era pesado, era leve e confortável. Como se tudo estivesse no seu devido lugar.
Minha mão ainda estava presa na camisa dele, e só então percebi. Afrouxei um pouco o tecido, mas não soltei completamente.
Não queria soltar.
Ele também não se afastou.
Na verdade, fez o oposto.
Os dedos deslizaram do meu rosto para minha mão, a pegando novamente e encaixando com cuidado, como se aquele gesto simples tivesse mais significado do que qualquer outra coisa.
E talvez tivesse.
Olhei para nossas mãos por um segundo.
Depois para ele.
— Então… — repeti, agora um pouco mais firme — isso muda alguma coisa?
Ele inclinou levemente a cabeça, me observando como se a resposta não fosse simples.
— Acho que muda tudo — disse, por fim.
— Isso é bom ou ruim? — perguntei, meio rindo, e nervosa pela resposta.
Um pequeno sorriso surgiu no rosto dele.
Mais leve do que qualquer outro que eu já tinha visto.
— Ainda estou decidindo.
Revirei os olhos, fingindo indignação.
— Ótimo. Muito tranquilizador.
— Mas — ele continuou, apertando levemente minha mão — eu sei que não quero voltar pra como estava antes.
Aquilo… aquilo acertou direto. Sem defesa.
Assenti devagar.
— Eu também não.
O silêncio voltou.
Como um espaço onde a gente podia existir sem precisar provar nada. Sem precisar correr. Sem precisar fugir.
— A gente vai ter que contar pro Steve — falei, depois de alguns segundos.
Ele fez uma careta leve.
— Vamos fingir que isso não aconteceu por mais umas… duas horas?
Ri.
— Fechado.
Mais um pequeno silêncio.
— E o tempo? — ele perguntou, mais baixo.
A pergunta veio com cuidado. Como se ainda fosse um território delicado. E era.
Respirei fundo.
— Eu não sei — admiti. — Nunca aconteceu antes. Nunca voltei pro passado.
Ele assentiu, absorvendo.
— Mas agora aconteceu.
— Agora aconteceu.
Nos olhamos.
E, pela primeira vez, aquilo não parecia um problema.
Parecia parte de nós.
— Então a gente descobre — ele disse.
Sorri.
— Juntos?
Ele apertou levemente minha mão.
— Juntos.
(...)

— Você ainda faz muito barulho — ele disse enquanto as coisas ao nosso redor pareciam acontecer rápido demais.
Revirei os olhos imediatamente.
— E você ainda é irritante — retruquei com a voz que saiu entrecortada pela respiração enquanto eu me movia pelo corredor, mantendo o ritmo, mesmo sabendo que ele estava logo atrás.
Ou melhor, ao meu lado. Sempre ao meu lado agora.
Bucky desviou com facilidade de um obstáculo, quase sem esforço, enquanto eu precisava me ajustar no último segundo.
— Isso foi desnecessário — resmunguei.
— Foi eficiente.
— Você está se divertindo.
— Um pouco.
Bufei, mas não consegui segurar o sorriso.
A missão estava sob controle.
Quase fácil.
E, ainda assim, havia algo diferente.
Leve.
Como se o peso não fosse mais só meu.
Como se, pela primeira vez, eu não estivesse sozinha no meio do caos.
Paramos ao final do corredor, verificando o ambiente antes de seguir.
Um segundo de silêncio pairou entre nós dois.
Olhei para ele de lado.
Ele já estava me olhando. De novo. Como sempre fazia.
Mas agora… sem distância.
Sem dúvida.
— Sabe… — comecei, apoiando o ombro na parede — pra alguém que me evitava, você até que melhorou.
Ele soltou um riso baixo.
— Eu tinha meus motivos.
— Eu sei.
— E você? — ele perguntou. — Ainda acha que eu sou um problema?
Sorri de lado.
— Acho que você é o meu problema favorito.
O canto da boca dele subiu.
— Acho que formamos uma boa dupla — falou, estufando o peito, como se sentisse orgulho daquilo.
Meu coração bateu mais forte. Mesmo depois de tudo.
Dei um passo mais perto.
— Acho que sim — respondi, mais baixo. E, dessa vez... não havia passado. Não havia futuro.
Só o presente.
E, finalmente… no tempo certo.


Fim.


Nota da autora: Sem nota!

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