Codificada por: Sol ☀️
Finalizada: 11/05/2026.— SCHWAB, V. A Vida Invisível de Addie La Rue.
Das fissuras entre tempo e a realidade, onde os deuses, oriundos de proferidas súplicas e desejos fizeram-se carne, resvala no silêncio mortal uma sina inesperada. A antropofágica presença, benevolente detorpe-se a criaturas que não sente; seres de imensuráveis compreensões jamais poderiam ser capazes de compreender meras criaturas as quais governam. Do sangue encontraram prazer, das súplicas, seu poder. De onde outrora havia apenas os sussurros de um desejo infundado, agora, compõem as estruturas em que tudo é ordenado.
Na aurora de noites sombrias eles surgiram como a estrela oferecida como guia; para a bocarra de escuridão que a tudo engolia, suas naturezas finalmente libertaram-se. A misericórdia e humildade, de falta, proferiram, não por maldade, apenas porque deuses não os possuíam. Da fé exacerbada, conduziam-se, e foi assim que a era das cidades vivas surgiu. Por um milênio, de seus regalos e caprichos, a menores criaturas, vãs em suas existências, ofertaram-lhe de sincero bom grado, a crença e lealdade cega do servo a seu benevolente patrono, e voraz criaturas ofertaram apenas aquilo que consideraram justo; de sua justiça apenas o consumo, valia-se.
Mas tudo aquilo que apenas consome, depara-se eventualmente com o vazio perpetrado de seus passados. A onde a fé outrora, entregue por amor, tornou-se medo, e a onde, de suas raízes profundas fincavam-se, o medo faz morada, falha tardia não faz ao deparar-se com o desejo por resistência. De números contados, sob o pátio central, aos poucos, o grupo composto por dois, tornou-se milhões, mas tal qual formigas, como poderiam vencer a um gigante?
Esta, ouça, ouça, foi a intercessão de Shao-Kai.
No ocaso da Era dos Deuses, foi Shao-Kai o responsável por aprisionar criaturas vis de volta a um limbo onde de seus toques reféns pouco poderia fazer. E então, houve paz. Como um tributo para conciliar por seus próprios infortúnios e fome, Shao-Kai tomou uma drástica decisão: tornou-se cidade. De sua alma, tornou-se duas peças, Doreen e Noreen, o Perfeito Equilíbrio. Das duas contra parte, em medidas iguais, completavam o todo. E por um tempo, o equilíbrio permaneceu; dos resquícios de sua essência, os Vhag Doreen surgiram. Nascidos do fogo e das escamas, criaturas majestosas e capazes de perdurar por séculos a fio sobrevoavam e lançavam-se aos mares como titãs abrasivos, majestosos por natureza, arrogantes em seu conforto, do verdadeiro precioso criavam suas coleções. De sua contraparte, os Valar Noreen nasceram, como contraste a criaturas feitas de escamas e poder.
Das entranhas das florestas, criaturas travessas e repletas de peripécias; aos jogos traiçoeiros, de suas verdades cantadas jamais capazes de escapar, surgiram os Valasi. Oriundos da magia pura, as crianças do ar, herdeiros da terra, provenientes de belezas dolorosas e feiuras atraentes, estranhas criaturas encantavam e ofertavam o equilíbrio necessário diante de sua contraparte. O coração do deus, detentor de seus poderes, equilibra a balança de suas existências, até, eventualmente, o escárnio de um coração quebrado, o desejo de uma mente ambiciosa ter quebrado. Das desaparecidas partes do antigo deus, uma guerra de 100 anos iniciou-se: Shao-Kai foi dividida entre o Norte pertencente aos Vhag Doreen, e ao Sul, pertencente aos Valar Noreen. Do sangue espalhado em batalha, da supremacia organizada e do veneno alimentado pelo desprezo entre as raças, a cidade viva, partiu-se ao meio, e começou a deteriorar-se. De seu centro, fissuras do limbo abriam-se, oferecendo passagem para os monstros que outrora antigo benevolente selou. A destruição tornou-se certa, e aos pecados e infortúnios cometidos por nós, restou o dever de finalizá-los.
Pois é o dever de um Valasi, a compreensão de que tudo começa, e tudo termina dentro de si. Não há Vhag Doreen, sem Valar Noreen, e não há Valar Noreen sem Vhag Doreen. Apenas uma ligação entre ambos pode ser capaz de restaurar a cidade viva a sua outrora integridade. Mas para isso, um primeiro passo precisa ser dado. Ao sangue que porventura ainda for derramado, em decadência a cidade viva desfalece-se.
E o ciclo apenas repete-se.
— MERAKHE DOORI. Livro Sagrado Valasi.
¹A personagem principal desta história não me pertence, mas sim a OffMira, a quem generosamente me emprestou o uso aqui; todos os créditos reservados a ela.
