Codificada por: Sol ☀️
Finalizada: 25/06/2026.O aroma forte de café, falta de banho e desespero se misturava ao frio cortante da manhã de setembro, espalhando-se pelo pátio principal da Universidade Hartbridge, mais conhecida como o campo de batalha diário dos universitários em busca de diploma, cafeína e sanidade mental. O último principalmente.
atravessava o pátio com o semblante concentrado, como quem se preparava para vencer uma grande batalha, naquele momento se sentia uma gladiadora. O cabelo loiro estava preso de um jeito bonito com algumas mechas escapando de forma teimosa; o batom pêssego-nude aplicado apressadamente antes de sair do dormitório começava a desbotar, e o terninho cor de creme contrastava com a expressão de quem dormira apenas três horas por noite durante uma semana inteira.
Mas nem a falta de sono nem o desespero com a prova de Processo Penal a impediria de cumprir o ritual sagrado: encorajar a si mesma.
— Vamos lá, Sav. Três semanas. Só mais três semanas antes da prova, você sabe que consegue — resmungou, tentando equilibrar um copo de latte, alguns livros e seu celular ao mesmo tempo. — Depois disso, ou você passa, ou muda de país e abre um restaurante no Peru.
Enquanto isso, do outro lado do pátio, Han Jae-min se espreguiçou depois de sua corrida matinal com Thor, seu pastor-alemão de aparência tão imponente que parecia pertencer a um esquadrão policial, não a um estudante de Fisioterapia.
Jae-min usava calça de moletom escura, camiseta simples; respiração ritmada, expressão calma, fones de ouvido pendurados no pescoço. Thor trotava ao lado dele todo feliz, a língua de fora, ele sorriu e jogou uma bolinha para o cachorro buscar.
— Vai lá, garoto.
Thor disparou como um raio, atraindo olhares por onde passava e entre eles, o olhar distraído de , que tentava responder uma mensagem e beber o latte ao mesmo tempo.
No entanto, o destino — ou apenas a falta de coordenação motora dela — decidiu agir.
tropeçou no próprio pé, desequilibrou os livros, tentou se recompor e tropeçou de novo, desta vez, no infortúnio de Thor, que havia parado exatamente à sua frente com a bolinha na boca. Num segundo, o copo de latte voou no ar em câmera lenta, descrevendo um arco perfeito e aterrissou direto no peito de Jae-min, que não teve tempo nem de reagir. O líquido quente respingou em seu rosto e espalhou-se pela camiseta, descendo em linhas tortas até a barra.
O silêncio pairou por um segundo que pareceu durar uma eternidade.
O copo caiu no chão com um ploc deprimente.
piscou uma. Duas vezes.
— Meu Deus! — exclamou horrorizada. — Me desculpa! Eu juro que não vi o cachorro, eu só…
— Você só decidiu me batizar com latte quente no meio do campus? — interrompeu Jae-min, olhando para o peito encharcado e depois para ela, com uma sobrancelha arqueada e um meio sorriso incrivelmente irritante. — Criativo. Nunca tentaram me atacar assim antes.
— Atacar? — arregalou os olhos. — Eu tropecei! Você e esse cachorro gigante que apareceram do nada é que são o problema!
Jae-min inclinou a cabeça, observando-a com aquele olhar analítico e insolente que só piorava a situação.
— O “problema”, senhorita desastrada, é a sua coordenação motora. Thor está literalmente parado há cinco segundos.
— Ele é do tamanho de um cavalo, como eu ia ver o chão?! — retrucou ela, ofendida.
Ele deu uma risadinha curta.
— Caramba. E eu achando que estudantes de Direito sabiam argumentar.
bufou.
— Engraçadinho. — Ela cruzou os braços, tentando ignorar o quanto a camiseta colada realçava o corpo dele.
— Realista. — Ele afastou a camiseta do corpo, o tecido colando na pele. — E para constar, essa bebida estava fervendo.
Ela estreitou os olhos.
— Olha, eu já pedi desculpas, tá? Não foi de propósito.
— E eu já aceitei. — O sorriso dele cresceu, preguiçoso. — Só queria deixar registrado que você começou nossa relação literalmente jogando latte quente em mim.
— Relação? — ela quase engasgou. — Tá delirando?
— É o que parece, considerando que você ainda está parada aqui me encarando.
ficou sem palavras por um segundo, sem saber se pegava uma pedra para jogar nele ou em si mesma.
— Você é péssimo.
— Costumam me chamar de “encantador”, mas eu aceito “péssimo”. Combina com o meu humor matinal.
— O seu humor matinal é um desastre.
— E o seu equilíbrio é pior.
Ela soltou um suspiro exasperado, se abaixou para pegar de volta os livros e o celular que por sorte não estava com a tela trincada; virou as costas e começou a se afastar.
— Pois saiba que seu cachorro é fofo. Uma pena que o dono estragou o pacote sendo tão ridículo e insuportável.
Sem resistir, enquanto ela se afastava, Jae-min gritou:
— Não se preocupe, docinho! Eu sou insuportável só nas primeiras impressões!
Por impulso, levantou o braço e fez o famigerado gesto de “fala com a minha mão” sem olhar para trás, fazendo alguns alunos rirem ao redor.
Jae-min riu de verdade, e o riso dele ecoou genuíno pelo pátio, coisa rara ultimamente. E isso a irritou ainda mais porque ela gostou do som.
Thor, confuso, olhou de um para o outro e depois correu até , levando o copo amassado na boca.
Ela se virou, arqueando a sobrancelha.
— Ele quer me devolver o copo?
— Não. — Jae-min respondeu, com um sorriso torto. — Ele só está escolhendo o lado mais simpático.
se abaixou, acariciando o cachorro.
— Boa escolha, grandão.
Depois lançou um último olhar para Jae-min, o tipo de olhar que dizia “não acabei com você ainda” e saiu andando, com o queixo erguido e o terninho agora sujo.
Jae-min ficou parado por um instante, observando-a se afastar. O sol finalmente começando a esquentar pra valer, iluminando o pátio, e por um segundo ele teve a impressão de que aquela garota desastrada tinha acabado de transformar a manhã mais comum da semana na mais interessante.
Ele olhou para Thor, que ainda abanava o rabo.
— É, garoto… — Jae-min sorriu. — Acho que a gente acabou de encontrar encrenca.
Thor latiu, concordando.
Que cara mais irritante!
— Fisioterapeuta — resmungou, sentada na escadaria principal da universidade. — Mas é claro que é! O tipo que acredita entender do corpo humano e, por consequência, acha que entende todo o resto.
Miranda (que preferia ser chamada de Mia), sua prima e cúmplice de todas as horas, estava largada ao seu lado nos degraus, mascando um chiclete com a expressão de quem tentava parecer empática, mas sem muito sucesso.
— Você precisava ver o tamanho da audácia daquele ser humano — continuou , gesticulando. — Ele me chamou de docinho, Mia. Docinho!
Mia mordeu a tampa da caneta para não rir.
— E o que você fez?
olhou pra ela como se a resposta fosse óbvia.
— Mandei ele falar com a minha mão, claro.
Mia explodiu numa gargalhada, dando tapinhas no braço da prima.
— Ai, Sav, você tem o que, oito anos?
— Ele que começou! — ela protestou, indignada. — Com aquele sorrisinho pretensioso de quem sabe que é bonito e abusa disso.
— Hm. Bonito, então? — Mia arqueou uma sobrancelha, divertida.
apertou os lábios, irritada com o próprio vacilo.
— Eu disse pretensioso, não bonito.
— Aham. Claro. — Mia balançou a cabeça, sarcástica. — Isso está com cara de inimizade que vai virar atração fatal. Aposto vinte dólares.
girou o corpo para encará-la.
— Você anda assistindo muita série ruim, só pode.
Antes que Mia respondesse, o alto-falante da praça principal do campus chiou, interrompendo o burburinho dos alunos.
— Atenção, alunos da Universidade Hartbridge! — a voz da diretora de eventos anunciou empolgada. — Amanhã, para abrir o início de um novo semestre, teremos nossa tradicional Feira de Integração de Cursos! Participação obrigatória para todos! Tenham um ótimo dia!
Elas se entreolharam. gemeu, a cabeça caindo para trás.
— Integração. Significa gente nova, que significa multidão, que significa barulho, calouros perdidos e… trabalho.
Mia mordeu o lábio, sorrindo sapeca.
— Ou, quem sabe, o reencontro com algum “docinho”?
empurrou a prima com o ombro, fazendo as duas rirem.
No dia seguinte, o ginásio esportivo da universidade estava uma verdadeira bagunça organizada, cada área tinha montado estandes representando seus cursos. Os de Direito usavam togas e reproduziam julgamentos cênicos. Os de Saúde aplicavam massagens e simulavam procedimentos de APH avançados. Os de Engenharia tentavam explodir coisas "com segurança". Os de Letras recitavam poemas, apenas.
, vestindo uma camiseta preta com o brasão de Direito, caminhava distraída com uma prancheta na mão, checando os materiais do estande, repassando mentalmente o que precisava ser incluído na lista, até esbarrar em alguém.
De novo.
— Você tem um problema sério de direção, sabia? — A voz veio divertida, e ela reconheceu na hora.
Ela olhou para cima e deu de cara com Jae-min Han, sorrindo como se tivesse ganhado na loteria. Usava jeans escuro e camiseta azul-marinho larga com o brasão de Fisioterapia. Thor estava sentado pacientemente ao lado dele, fofíssimo com uma bandana da universidade no pescoço.
tentou ignorá-lo, focando na prancheta.
— Se você estiver me seguindo, eu juro que te processo — respondeu friamente.
Jae-min arqueou uma sobrancelha.
— Ameaças legais logo cedo? Uh, já estou ficando emocionado.
Ela estreitou os olhos.
— Você acha que é engraçado, né?
— Eu sei que sou. — Ele sorriu. — Mas você é uma boa rival, docinho.
sentiu o canto superior do lábio tremer, e antes que ela pudesse respondê-lo — ou socá-lo — um dos organizadores se aproximou, suando em bicas e ofegante.
— Ótimo! Vocês dois! Vocês estão aqui! Precisamos de voluntários para a missão principal da feira: apresentar o Tour da Hartbridge para os calouros.
arregalou os olhos.
— Nós dois?
— Isso! Direito e Fisioterapia juntos é perfeito. Mistura de cursos, integração, blá blá blá. Toma — explicou, empurrando um maço de mapas nas mãos deles sem muita paciência. — Primeiro grupo já está esperando por vocês na entrada. Andem logo!
E o homem desapareceu antes que ela protestasse.
Ela virou-se para Jae-min, indignada.
— Isso é uma piada.
Ele abriu um sorriso largo e travesso.
— Eu tô achando tudo ótimo.
Ela girou nos calcanhares, resmungando:
— Maldito karma.
marchou a passos duros; ao encontrarem com o primeiro grupo de calouros, se identificaram e Jae-min distribuiu entre eles os mapas que continham todas as informações necessárias sobre a universidade. As garotas sorriam para ele, elogiavam Thor e faziam carinho nele mesmo sem permissão.
Enquanto guiavam o grupo animado pelo campus, a tensão entre os dois era palpável. Ao passo que Jae-min esbanjava cordialidade excessiva para irritá-la, ela o encarava como um espírito obsessor raivoso.
— À esquerda, temos o prédio de Direito — apresentou, apontando a prancheta com uma falsa simpatia. — Onde aprendemos a ter ética, a lutar contra a injustiça, e contra… pessoas folgadas. — Sorriu venenosa para Jae-min.
Ele tossiu para esconder o riso e apontou para outro prédio.
— E à direita, o Centro de Reabilitação Física. Onde salvamos pessoas e as ajudamos a se reerguerem. Inclusive as que têm mania de esbarrar nos outros e tropeçar em cachorros inocentes.
Os calouros riram, encantados com a química involuntária dos dois. estreitou os olhos para ele, que apenas piscou de volta, desavergonhado.
No intervalo entre o terceiro grupo, os dois sentaram-se em um banco da praça principal sob uma árvore para uma pausa forçada. Thor deitou aos pés deles, satisfeito.
— Você não consegue levar nada a sério? — perguntou , já cansada da atitude relaxada dele.
Jae-min tirou a tampa da garrafinha de água, olhando para ela por cima da borda.
— Se eu levasse, já teria explodido faz tempo — ele respondeu num tom que, pela primeira vez, soou mais sério.
Ela se surpreendeu, pois houve uma carga momentânea na voz dele que a pegou desprevenida, algo que não combinava com o sorriso debochado. Curiosa, mas desconfiada, ela cutucou:
— Ah, é? E qual é a sua história, Mestre Zen?
Jae-min deu de ombros.
— Nada muito interessante. Família bagunçada, lutas de fim de semana, cachorro de terapia... vida comum.
o observou sem prestar muita atenção no que foi dito, mas surpresa pelo momento de verdade vindo daquele que ela considerava o babaca da semana. Um lampejo passou por sua mente e ela soltou um riso descrente.
— Você é muito estranho.
— Obrigado. É meu objetivo na vida. — Respondeu ele com uma reverência exagerada.
Apesar de tudo, sentiu a tensão dentro dela ceder. Talvez, aquele idiota fosse menos insuportável do que ela pensava. Ou não.
Ela abaixou o olhar e viu Thor com o focinho apoiado no seu joelho. O cachorro olhava pra cima, com aquele ar de quem conseguia tudo o que queria, quebrando um pouco de sua resistência. Ela cruzou os braços e fingiu indignação:
— Se seu cachorro me amar mais do que a você, é culpa sua.
— Ele tem bom gosto — Jae-min sorriu genuinamente.
Ela riu de verdade dessa vez, e por um instante, o barulho da feira desapareceu. Ficaram só os dois e o cachorro. E Jae-min sentiu, sem saber explicar, que queria ouvir aquele som de novo. Mesmo que tivesse que irritá-la até o fim do mundo pra isso.
— Eu não aguento mais termos jurídicos — ela reclamou, passando a mão no rosto e arrastando os dedos até o cabelo. — Mens rea, actus reus… daqui a pouco eu começo a falar latim sozinha no meio da rua.
Mia, sentada no chão com um pote de pipoca, entretida com algo no notebook, nem se deu ao trabalho de disfarçar o riso.
— Ô amiga, Isso nem foi uma piada ruim. Foi um pedido de socorro. — Mia fez cara de pena.
virou o rosto lentamente para ela, as olheiras se destacando.
— Eu estou oficialmente aceitando ajuda humanitária. — Bocejou. — Café, sono ou um milagre divino. Nessa ordem.
— Ou você pode simplesmente sair de casa — Mia sugeriu, como quem não quer nada. — Tá rolando um festival de food trucks hoje no distrito industrial. Música, comida, gente da faculdade… — ela fez uma pausa estratégica, sorrindo de canto. — …quem sabe um certo “docinho” irritante?
A almofada voou na direção dela com uma precisão admirável.
— Nem morta — respondeu , afundando mais no sofá. — Estou em modo eremita. Se eu sair hoje, é só pra comprar um novo cérebro.
Mia se levantou, colocando o pote da pipoca na mesinha de centro, abriu o armário de roupas, pegou um casaco e jogou outro no colo de .
— Ótimo. A gente passa no festival e depois procura um pra você. Vem.
— Miranda!
— Levanta agora!
levantou devagar, pegando o casaco de má vontade.
— Eu só vou porque eu quero ir, não porque você é completamente chata.
— Claro. — Mia abriu a porta. — Totalmente indiferente. Vamos.
passou por ela resmungando, mas já estava calçando o tênis.
O distrito industrial, normalmente um deserto de concreto e silêncio após às dezoito horas, estava pulsando. O ar ali era carregado com o cheiro de óleo diesel, fumaça de lenha, churrasco na grelha e o aroma gorduroso de fritura que emanava das dezenas de barracas e trucks coloridos estacionados entre galpões. O som de um indie rock genérico competia com o burburinho da multidão.
parou por um segundo, observando tudo.
— Isso aqui é uma bagunça.
Mia sorriu, já puxando ela pelo braço.
— Isso aqui é vida, Sav. Anda.
Mas, para sua própria surpresa, ela não se sentiu deslocada; havia algo de autêntico naquela incoerência que a fascinava. Gostou da aparente falta de controle do ambiente, da espontaneidade, do fato de ninguém ali se importar com aparência ou perfeição. Era o oposto do mundo impecável dos seus pais — e, talvez por isso mesmo, parecia muito mais honesto.
— Prova isso — disse Mia, empurrando um taco na mão dela.
— Isso tá escorrendo!
— Come.
mordeu e mastigou devagar, saboreando o recheio suculento de carne, molho e muito vinagrete.
— Tá bom. — Fez uma pausa. — Isso é muito bom.
— Eu sei — Mia respondeu, orgulhosa.
Enquanto Mia arrastava de trucks em trucks, experimentando outros sabores de tacos, sorvetes e refrigerantes artesanais. Elas continuaram andando, parando aqui e ali, degustando mais comidinhas, comentando gente aleatória, rindo sem perceber. Até sentir um formigamento na nuca e parar, de repente.
— Mia…
— Hm?
Ela não respondeu de imediato. Só inclinou levemente a cabeça, olhando fixamente para um ponto mais afastado.
Um beco estreito no final da rua em que as luzes do festival não alcançava, e lá o clima festivo morria. Homens de jaquetas de couro pesadas formavam uma barreira humana silenciosa. Um deles carregava um saco de lona que parecia pesado demais para conter apenas roupas.
semicerrou os olhos, a curiosidade acadêmica dando lugar ao instinto investigativo de sua futura profissão.
— Você tá vendo aquilo?
Mia olhou rápido por cima do ombro.
— Bairro industrial, Sav. Você tá esperando o quê? Unicórnios? Estamos num lugar questionável com pessoas questionáveis. — Deu de ombros. — Eu diria que está dentro do esperado.
franziu a testa.
— Não é só isso, tem alguma coisa errada ali.
— … — Mia virou o corpo pra ela, já desconfiada. — Não.
— Eu volto rapidinho. Me espera no truck de churros.
— !
Mas era tarde demais, ela já estava se misturando à multidão. avançou pelas sombras, o coração martelando contra as costelas. Ela se enfiou discretamente pelo beco, escondendo-se atrás de uma pilha de paletes de madeira e caixotes velhos, prendendo a respiração. O som da música do festival tornou-se um eco distante, substituído por murmúrios graves, risadas e o som seco de carne atingindo carne.
— E aí, quem vai encarar o próximo? — Uma voz masculina desafiou com malícia.
espiou por uma fresta entre os paletes, o que viu fez o sangue congelar em suas veias: um círculo de homens rodeava um espaço iluminado apenas por um holofote de obra. No centro, dois rapazes trocavam socos. Não havia luvas, nem ringue, proteção e talvez nem regras. Era uma luta clandestina no seu estado mais brutal.
O som de um soco mais forte fez prender a respiração e então outro golpe. Alguém riu, alguém xingou. Seus sentidos em alerta. Ela deveria ir embora, sabia disso, mas não foi. Suas pernas tinham vontade própria e seu subconsciente dizia que ela precisava continuar ali, porque um dos lutadores se moveu e tudo dentro dela travou.
Era Jae-min Han.
Por um segundo, a mente dela se recusou a aceitar. Não combinava. Não era o mesmo cara. O sorriso zombeteiro que ela conhecia tinha sumido. No lugar, havia uma concentração mortal nos olhos dele. Cada movimento era rápido, implacável.
O Jae-min que ela conhecia falava demais e provocava como se tudo fosse nada. Aquele… não. Aquele Jae-min era silencioso, focado. Era completamente diferente, mais frio e sombrio. Ele estava sem camisa, o suor brilhando sob a luz fria, os nós dos dedos manchados de vermelho.
O adversário, um homem mais alto e todo tatuado, avançou com um soco direto visando o queixo de Jae-min.
Foi um erro estúpido.
Jae-min não recuou; ele avançou. Com uma esquiva milimétrica, ele fluiu por baixo da guarda do oponente, agarrou o pescoço do homem com uma precisão e usou o impulso para projetá-lo contra o chão de concreto. O estalo da carne atingindo o solo ecoou nas paredes do beco.
sentiu o estômago revirar não pela violência em si, mas pela facilidade, pelo jeito como ele fez parecer simples, como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes.
O oponente tentou se levantar, mas não conseguiu.
A roda de homens explodiu em aclamações. O dinheiro trocava de mãos com uma velocidade frenética. Jae-min apenas se afastou, limpando um filete de sangue que escorria de seu supercílio com as costas da mão, o peito subindo e descendo com a respiração pesada, mas controlada; sua expressão tão neutra quanto a de quem acaba de finalizar mais um dia de trabalho.
estava em transe, horrorizada e estranhamente hipnotizada, até que um dos seguranças na periferia do círculo virou a cabeça em sua direção.
— Ei! Quem está aí? — o homem rosnou, dando um passo em direção aos paletes.
O cérebro dela finalmente voltou a funcionar, girou nos calcanhares e correu como uma louca, o pânico subindo a garganta. Seus pés batiam no asfalto irregular, as solas ardendo por dentro do tênis, enquanto ela se infiltrava novamente na multidão colorida do festival, o coração parecendo querer saltar pela boca.
Quando finalmente reencontrou Mia, estava trêmula, pálida, a respiração irregular, os pensamentos atropelando uns aos outros. A prima arregalou os olhos.
— Ei! Sav? — Mia segurou seu braço, preocupada. — O que aconteceu?!
tentou falar, mas as palavras morriam em sua garganta seca. Ela só conseguia ver o olhar de Jae-min e aquela vacuidade fria no momento do impacto. Como é que ela explicava aquilo?
— Eu… — passou a mão no cabelo, ainda tentando se ancorar. — Eu quero ir embora.
— O quê? Agora? Mas—
já puxava o capuz do casaco sobre a cabeça, na intenção de se esconder do mundo e, principalmente, do que tinha acabado de descobrir.
— Depois eu explico. — Gesticulou apressada, evitando olhar para qualquer lado. — Só… vamos.
Sem esperar a prima se despedir do pessoal com quem estava, ela mergulhou no mar de pessoas, tentando desesperadamente fugir da imagem que agora estava gravada em sua memória.
Naquela madrugada, o teto do quarto de tornou-se o palco de suas obsessões. Ela rolava de um lado para o outro, o travesseiro quente, os lençóis emaranhados em suas pernas, revivendo cada segundo do que testemunhou.
Como alguém podia carregar tanta violência e tanta leveza no mesmo par de mãos? Como alguém que parecia ter tanto sossego durante o dia podia abrigar tanta violência à noite? Por que ele lutava com aquela fúria contida, como se cada soco fosse uma tentativa de nocautear a si próprio?
O que a assustava, e a fazia odiar a própria mente, não era apenas o segredo dele, mas o fato de que, mesmo após testemunhar o horror daquela brutalidade, seu coração teimava em bater em uma frequência ridícula sempre que a imagem dele todo suado, letal e indomável invadia seus pensamentos.
soltou o ar devagar, virando o rosto no travesseiro.
— Quem é você… — murmurou no escuro.
Aquilo era problema. Ela sabia, e não existia jurisprudência no mundo que fosse capaz de protegê-la daquele perigo absolutamente irresistível.
Na segunda-feira seguinte, o campus da Universidade de Hartbridge estava exatamente como sempre: gente espalhada pelo gramado, grupos rindo alto demais pra uma manhã quente, o barulho irritante dos patinetes elétricos passando rápido pelas calçadas.
Nada tinha mudado, exceto o jeito como estava reagindo a tudo aquilo.
Ela caminhava entre os alunos com a mochila de couro pendurada no ombro, o cenho franzido e a paciência em níveis perigosamente baixos. A cada vez que um cara alto de fios escuros cruzava seu campo de visão, seu coração dava um solavanco involuntário. odiava a própria traição biológica.
Ela buscava por uma jaqueta preta jeans resinada com uma insistência que beirava o masoquismo, apenas para se frustrar ao perceber que a anatomia da instituição não colaborava; rapazes com traços asiático-oriental não eram exatamente a maioria ali, o que tornava sua busca “inconsciente” estatisticamente óbvia e pessoalmente humilhante.
Ela soltou um suspiro irritado e pressionou a ponte do nariz.
— Ridículo… — murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.
Absolutamente ninguém era ele. Na teoria deveria ser mais fácil encontrá-lo. Na teoria. Na prática parecia que Jae-min tinha evaporado desde aquela noite e isso só deixava mais inquieta e cheia de perguntas.
Durante a aula, a situação piorou.
Ela abriu o caderno, tentou acompanhar o raciocínio do professor à frente, até escreveu alguma coisa do assunto que era muito importante, mas nada fixava. As palavras no quadro se embaralhavam, perdiam sentido, desapareciam no meio de um único pensamento insistente. apoiou o cotovelo na mesa e pressionou a testa com os dedos, olhando fixamente para o quadro sem realmente enxergar.
E se não fosse ele? E se fosse só alguém parecido? A semelhança era absurda, mas a aura era outra. O Jae-min que ela conhecia era um espetáculo de deboche; o do beco era um instrumento de violência pura. Ela lembrava com clareza demais da facilidade com que derrubou o outro cara.
O estômago dela revirou de leve, soltou o ar pelo nariz.
Poderia ele ser um possível criminoso? Afinal, lutas clandestinas são ilegais por motivos óbvios e geralmente envolvia gente que não era exatamente confiável. Então por que ele estava lá? E por que isso estava a incomodando tanto?
Era inacreditável aquela situação. Ela tinha uma prova muito importante chegando e estava ali, completamente distraída por causa de um cara irrelevante que ela mal conhecia, e pior: um cara que ela claramente não gostava.
fechou o caderno com mais força do que precisava. Quando a aula finalmente terminou, ela juntou suas coisas rápido demais, tentando se livrar dos próprios pensamentos.
Saindo do prédio de Direito impaciente, ela deu informações a duas calouras que estavam meio perdidas, e foi aí que ela o viu.
Alguns metros à frente, Jae-min estava sentado sob uma árvore frondosa no gramado, a cabeça jogada para trás, rindo de algo que o melhor amigo Noah — o gigante que mais parecia um guarda-costas russo — estava dizendo. Ao lado deles, seu pastor alemão dormia com a língua de fora e barriga para cima. O riso dele era pleno e despreocupado, como se nada tivesse acontecido.
observou por um segundo, comparando mentalmente aquela cena à sua frente com a que tinha visto no beco. Não combinava, como podia ser a mesma pessoa? Ela respirou fundo e foi direto até ele; a mochila batendo contra a coxa, o passo firme, a expressão fechada. Parou na frente dele sem cerimônia nenhuma.
— Precisamos conversar — ela disparou, dispensando qualquer preâmbulo social.
Jae-min levantou o olhar devagar, reconhecendo a voz antes mesmo de ver o rosto, um sorriso apareceu nos lábios dele.
— Nossa, que educada. — Ele fez careta, Noah riu. — O que foi? Vai me processar por uso indevido de oxigênio no campus ou vai direto pra agressão verbal?
— Não. Vou perguntar o que diabos você estava fazendo esmagando a traqueia de um homem naquele beco imundo na sexta-feira — ela rosnou, cruzando os braços com tanta força que os nós dos dedos empalideceram.
O sorriso de Jae-min não sumiu, ele congelou. Foi uma transição sutil, mas para ela, que analisava evidências por hobby, foi como ver uma máscara de porcelana rachar. Por um milésimo de segundo, o brilho sombrio que ela viu na luta, lampejou ali, sob a luz do dia.
Noah, sentindo a pressão barométrica da conversa despencar, pigarrou alto, desconfortável.
— É... eu acho que o Thor precisa de um poste. Ou dez — ele murmurou, se levantando e puxando a coleira do cachorro, que saiu trotando, confuso, sumindo na velocidade da luz.
Sozinhos, o silêncio era uma terceira pessoa entre eles.
— Como sabe sobre isso? Você me seguiu? — Jae-min perguntou, a voz baixa e dura.
soltou uma risada sem humor.
— Ah, claro. Até porque você é um evento imperdível, né? — revirou os olhos. — Eu estava com a Mia no lugar errado, na hora errada. E o que eu vi foi o "grande e engraçado Jae-min" esmagando o cara como se fosse uma mosca!
Ele se levantou lentamente, impondo uma distância desconfortavelmente pequena entre eles. teve que erguer o rosto para encará-lo.
— Você não sabe nada sobre mim, princesa — ele disse, a palavra "princesa" saindo como um insulto velado.
Ela sentiu o rosto esquentar de raiva, claro.
— Não me chame de princesa! — rebateu. — E talvez eu não saiba, mas agora sei o suficiente para entender que você é um problema ambulante!
Os olhos de Jae-min brilharam com algo indefinido, convidando-a a dar um passo para dentro do abismo.
— Se você realmente acredita nisso, deveria fazer a coisa mais inteligente da sua vida.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Que seria?
— Ficar bem longe de mim. — Ele murmurou, inclinando o rosto, a voz roçando a orelha dela.
Por um segundo, o mundo envolta de emudeceu. Talvez ele tivesse razão. Mas então, ele recuou apenas o suficiente para olhá-la nos olhos e sorriu. Aquele maldito sorriso arrogante.
— Mas é claro… — ele acrescentou, a voz carregada de sarcasmo. — Você não me parece muito boa em tomar decisões inteligentes, né, docinho?
deu um passo para trás, irritada por sentir o estômago revirar de forma traiçoeira.
— Para de agir como se me conhecesse.
— Difícil — ele respondeu. — Você é muito previsível quando tá irritada.
Ela soltou uma risada seca.
— E você é exatamente o tipo de problema que eu aprendi a evitar. — Ela encarou o corte no supercílio dele.
— Então estamos quites — ele olhou pra ela de cima a baixo, sem pressa.
Aquilo foi o suficiente.
— Você é péssimo — disse ela, virando-se bruscamente.
— Já ouvi isso antes — ele respondeu atrás dela.
— Tenho certeza que sim.
saiu andando sem olhar para trás, o passo firme demais, a respiração levemente descompassada. Ela só desacelerou quando já estava longe o suficiente. Passou a mão no cabelo, irritada.
— Idiota — murmurou.
Mas não tinha certeza de quem estava xingando.
Jae-min permaneceu sob a árvore, observando a silhueta dela se afastar. Ele levou a mão ao supercílio, onde um pequeno corte da luta ainda cicatrizava; apertou os olhos numa expressão estranha.
O sorriso já não estava mais ali, ele passou a mão na nuca, soltando o ar devagar.
— Problema ambulante… — murmurou, sem humor.
Thor voltou trotando, puxando a coleira da mão de Noah, Jae-min automaticamente passou a mão na cabeça do cachorro, ainda olhando na direção em que havia sumido. Pensando porque aquela não tinha sido só mais uma discussão, não tinha reagido como os outros e isso complicava tudo.
Ele desviou o olhar, como se pudesse simplesmente deixar aquilo pra lá, mas não conseguiu, porque alguém tinha conseguido ver além da superfície. E ele ainda não sabia se isso era um problema ou algo pior.
Algo em fazia suas defesas vacilarem. Algo nele fazia a raiva dela ganhar um calor inexplicável. Ambos se odiavam, mas a semente já estava plantada. E ela crescia, silenciosa e traiçoeira.
sequer tentou disfarçar a cara de tédio quando a professora de Direito Penal cruzou os braços atrás do púlpito e soltou a bomba na sala:
— Este ano, a reitoria optou por cruzamentos interdisciplinares, como já podem ter notado. Queremos expandir os horizontes de vocês além das bolhas de seus respectivos prédios. A lista com os pares e os projetos já está afixada no painel do saguão.
Fantástico, ela pensou.
Mais trabalho para sua vida acadêmica.
Ela só queria focar nas próprias matérias, não participar de teatrinho beneficente.
Soltando um suspiro pesado, ela juntou suas coisas e se arrastou até o saguão do prédio, havia uma pequena multidão se acotovelando e reclamando ao redor do painel. Ela esperou uma brecha, correu os olhos pelos nomes na folha de papel timbrado e quando achou seu próprio nome ela travou na mesma hora.

— NÃO! — Ela falou bem alto.
E como se tivesse sido invocado pelo grito dela, Jae-min brotou ao seu lado, com as mãos enfiadas nos bolsos da jaqueta colete e uma expressão absurdamente divertida no rosto.
— Olha só... destino cruel — ele disse, com um sorriso ladino.
Thor estava ao seu lado, sentado educadamente, olhando as pessoas com aquela pose majestosa de quem sabia ser incrível.
cruzou os braços, encarando a folha.
— Isso só pode ser piada! Quem decidiu isso? O diabo?! — perguntou, genuinamente infeliz.
Jae-min deu uma risadinha nasalada, dando um passo à frente, estreitando o espaço pessoal entre eles com a audácia que o caracterizava, achando graça do desespero dela.
— Prefiro chamar de interferência Divina. Mas confessa, princesa, você tá felizona em passar mais tempo comigo, né?
Ela fechou os olhos por alguns segundos, respirando fundo para não cometer um crime de ódio ali mesmo; controlando o compasso do próprio peito para não demonstrar o incômodo que aquela proximidade infame causava.
— Primeiro: pára de me chamar de princesa. Segundo: eu preferia enfiar agulhas de tricô nos olhos.
— Que dramática. — Jae-min riu, inclinando um pouco a cabeça para encará-la melhor, os fios escuros caindo desalinhados sobre a testa. — E você ainda diz que estuda Direito? Tão agressiva...
Antes que pudesse dar o troco, um coordenador do evento surgiu do nada segurando uma prancheta e apontou na direção deles.
— Vocês dois. — apontou para eles. — Amanhã, às oito da manhã em ponto, no abrigo Patas e Esperança. Vão trabalhar juntos o dia inteiro. Se faltar, reprovação automática no projeto de extensão. Eu fui claro?
— Cristalino — Jae-min assentiu.
Sem dar tempo para réplicas contrárias, o homem se afastou e sumiu no meio do fluxo de alunos.
O silêncio que ficou entre os dois era pesado. Eles se entreolharam de cara amarrada. No fundo, ela sabia que ele estava sentindo a mesma coisa que ela: uma repulsa imediata por aquela obrigação, mas também, talvez, bem no fundo, uma leve faísca de curiosidade para ver quem cederia primeiro.
— Então... — Jae-min quebrou o gelo, mexendo nas chaves dentro do bolso. — Espero que saiba lidar com cocô de cachorro. Porque amanhã vai chover merda.
Thor latiu bem na hora, como se estivesse acompanhando a piada do dono.
deu uma risada seca, ajustando a alça da mochila no ombro.
— Legal. Você cuida dos cães, eu cuido de não te matar.
— Combinado — ele piscou, afastando-se com passos descontraídos.
Ela o observou sumir pela saída do bloco, sentindo o rastro daquela energia irritante flutuar no ar. E, contra toda a sua lógica, bom senso e seu instinto de autopreservação, um meio sorriso teimou em tensionar o canto de seus lábios.
Maldito Jae-min.
O abrigo Patas e Esperança ficava a uns trinta e seis minutos de viagem do campus. Era um lugar simples, de tijolos aparentes, com um jardim meio improvisado, mas bonito, na frente e latidos ecoando por todos os cantos possíveis.
manobrou o Mini Cooper azul-bebê, estacionou no recuo de cascalho colorido e bufou ao olhar pelo vidro. Jae-min já estava lá, encostado na parede externa com os braços cruzados, as mangas do moletom escuro puxadas até os antebraços, totalmente imune e confortável com o vento frio daquela manhã.
Thor, que estava deitado perto dos pés dele, ergueu as orelhas e começou a abanar o rabo com energia assim que a viu descer.
— Chegou atrasada, docinho. — Jae-min sorriu daquele jeitinho irritante de quem entra em uma discussão já achando que ganhou.
— Dois minutos não é atraso. — Ela puxou a mochila para o ombro e bateu a porta do carro com um pouco mais de força do que o necessário. — E pára de me chamar assim.
— Você devia agradecer, eu podia te dar apelidos piores. — Ele deu uma piscadela de canto de olho.
Ela estava prestes a chutar a canela dele, quando uma mulher de meia-idade, com jaleco impermeável e cabelos grisalhos presos num coque meio frouxo apareceu na porta principal.
— Bom dia, crianças. Vocês devem ser a dupla de Hartbridge — confirmou ela, com um sorriso cansado, limpando as mãos num pano. — Eu sou a Kate, coordenadora do abrigo. Vamos direto ao ponto: temos vinte e oito cães, quinze gatos e um papagaio extremamente mal-humorado para cuidar. Vocês vão começar limpando as baias.
trocou um olhar rápido com Jae-min, o sorriso dele só aumentou.
— Depois de você — ele ironizou, estendendo a mão em direção ao corredor de entrada do abrigo. — Não diga que não te levo para os melhores lugares, .
Ela revirou os olhos, respirando fundo.
— Cala a boca e anda — ela sibilou, empurrando-o de leve pelo ombro ao passar.
Thor foi logo atrás deles enquanto entravam nos fundos do abrigo. O ar ali dentro era forte, misturando odor de desinfetante com pelo molhado. As baias se dividiam pelos lados; em algumas, os cachorros pulavam e batiam as patas nas grades pedindo atenção, em outras, alguns ficavam recolhidos nos cantos, olhando desconfiados.
sentiu um aperto no peito.
Ela amava animais, e encarar aquela realidade de perto mexeu consigo.
— Ei — Jae-min chamou sua atenção, entregando-a uma pá de limpeza e um balde plástico. — Princesa, hora de meter a mão na sujeira.
— Me chama de princesa de novo e eu jogo isso na sua cabeça. — ela ameaçou com a pequena pá.
Ele riu.
— Vai precisar de uma mira melhor, .
E o trabalho começou.
Eles lavaram o chão, organizaram as pilhas de ração, Jae-min carregando e levantando tudo o que era consideravelmente pesado, e limparam os comedouros. Para a surpresa dele, era rápida, focada e não soltou um único resmungo sobre a sujeira. Pelo contrário, depois de um tempo ela parecia tão distraída que cantarolava bem baixinho enquanto esfregava o piso.
Em um momento em que ela estava abaixada limpando os cantos de uma baia, sentiu algo úmido cutucar sua orelha. Ela virou com um sobressalto e deu de cara com o focinho imenso de Thor, que a encarava de perto com a língua de fora.
— Jesus, Thor! — Ela gargalhou, esquecendo a pose e afagando a cabeça do cachorro com as duas mãos. — Você é a melhor parte do seu dono, sabia?
Jae-min, que estava escorado na parede segurando uma vassoura, ficou observando a cena. Ele não fez nenhuma piada nem zombou. Só ficou olhando em silêncio, como se, por um segundo, ela fosse algo que ele não estava preparado para ver.
Sentindo o olhar dele, franziu a testa, parando o carinho por um segundo, mas mantendo as mãos nos pelos do pastor-alemão.
— Que foi? Tem alguma coisa na minha cara?
Ele desviou o rosto rapidamente, disfarçando enquanto fingia limpar a manga do moletom.
— Nada. Só não sabia que você sabe sorrir sem parecer que quer me esfaquear.
pegou a esponja molhada que estava usando e jogou na direção dele, e errou feio, o que arrancou uma risada alta e gostosa de Jae-min.
— Você é péssima em ataque surpresa, .
— E você é um idiota. — Mas, dessa vez, havia um sorriso de verdade nos lábios dela também.
O resto da tarde seguiu no mesmo ritmo, com as provocações indo e voltando enquanto eles terminavam as tarefas:
— Meu Deus, você limpa como uma princesa, docinho.
— E você cheira a cachorro molhado desde que chegou.
— Cuidado, a patricinha vai quebrar uma unha e processar o universo — ele desdenhou, despejando um balde de água limpa no chão.
— Sério, você tem cara de quem falaria "au au" só para tentar conquistar um cachorro. — ela devolveu, sem desviar os olhos do trabalho.
— Melhor "au au" do que "sua excelência, a patricinha irritada".
Eles brigavam, trocavam farpas, mas entre carregar sacos pesados de ração e recolher jornais rasgados, existia um fio invisível naquele atrito. Algo leve, que começava a conectar duas pessoas cheias de defesas que insistiam em fingir que não viam o que estava acontecendo.
Algumas horas depois, ambos foram separados para ajudar em suas reais funções. Jae-min foi conduzido por um funcionário até a sala de reabilitação dos animais debilitados e começou uma festa lá dentro, ele ajudou três cachorros a fazer exercício das patinhas traseiras, Thor pulava de um lado para o outro, tentando brincar com eles também. Já foi com a própria Kate até o escritório do abrigo, para instruí-la com alguns documentos jurídicos dos processos que o local estava enfrentando.
Quando o fim da tarde chegou, o cansaço cobrou seu preço.
se sentou nos degraus da varanda do abrigo, exausta, com sua coluna e seus ombros pedindo socorro. Thor veio caminhando devagar e deitou a cabeça pesada direto em seu colo. Ela começou a mexer nas orelhas dele, relaxando.
Jae-min se aproximou a passos lentos, segurando uma garrafa de água mineral bem gelada.
— Aqui. — Ele estendeu a garrafa para ela. — Você tá quase desmaiando, Docinho.
Ela pegou o plástico frio, soltando o ar pelo nariz.
— Obrigada... eu acho.
Os dois, sentados lado a lado, ficaram em silêncio por um tempo, só observando o sol sumir aos poucos atrás do horizonte de prédios. Foi um momento raro de trégua de verdade devido a exaustão em comum.
— Sabe — Jae-min quebrou o silêncio de repente, olhando fixo para o céu que estava ficando dourado. — às vezes, a gente acha que está sozinho pra sempre. Que ninguém entende a bagunça aqui dentro. — Ele deu duas batidinhas leves com a mão no próprio peito. — Mas, às vezes, só precisa encontrar outra alma bagunçada do seu jeito.
pausou os movimentos nos pelos de Thor, erguendo os olhos para o perfil dele. A luz do crepúsculo recortava as linhas duras de seu maxilar, revelando uma vulnerabilidade que o sarcasmo diurno costumava soterrar. Era o mesmo homem que derrubava oponentes no concreto, mas com uma fratura interna visível. Havia um rastro de dor ali, mas também um pouco de esperança. Alguém que lidava com os próprios demônios tanto quanto ela.
Mas não ia amolecer tão fácil.
— É uma análise bem refinada pra um fisioterapeuta — murmurou ela, arqueando uma sobrancelha com suavidade. — Mas não se iluda, Han. Eu ainda sinto impulsos homicidas em relação a você na maior parte do tempo.
Jae-min riu com franqueza.
— Já é um começo.
Thor soltou um latido baixo, concordando com a dinâmica deles.
E enquanto a noite começava a tomar conta do abrigo, os dois permaneceram lado a lado sobre o mesmo degrau. A semente plantada começava a nascer raízes na terra árida que ambos tentavam proteger. Ainda pequenas, singelas, mas nascendo.
e Jae-min, apesar da trégua informal, continuavam em guerra, só que agora era uma guerra um tanto diferente. Feita de olhares furtivos, provocações quase carinhosas e uma tensão invisível que nenhum dos dois queria admitir.
Na quinta-feira à tarde, o pátio central virou um formigueiro por causa da Semana das Sociedades Acadêmicas. Estudantes de todos os cantos montavam barracas, organizavam gincanas e tentavam fisgar novos membros para arrecadar fundos. acabou escalada pela Sociedade de Direito para ajudar na organização de um quiz jurídico, uma espécie de "show do milhão" adaptado para encurralar calouros e veteranos.
Ela ajeitava as últimas fichas de inscrição por ordem alfabética em cima do balcão improvisado quando uma voz arrastada e inconfundível surgiu bem atrás dela:
— Você se veste melhor para torturar alunos ou só pra me impressionar mesmo?
respirou fundo e se virou devagar, Jae-min estava parado ali, segurando a alça da mochila no ombro, com o cabelo liso mais bagunçado que o normal e o mesmo sorriso atravessado de sempre.
— Veio se humilhar, Jae-min? — Ela cruzou os braços, medindo-o de cima a baixo.
— Vim ganhar — respondeu ele, confiante. — E te provar que fisioterapeutas não são só músculos e massagem.
— Duvido muito que você saiba o que é "habeas corpus". — Ela debochou.
Ele deu de ombros, sem se abalar, sustentando o olhar dela.
— Eu aprendo rápido, . Aposto que te ganho nessa competição.
soltou uma risada, achando graça da audácia.
— Apostar? — Ela inclinou um pouco a cabeça, genuinamente intrigada. — E o que exatamente está em jogo, oh grande mestre dos chutes e socos?
Jae-min deu um passo à frente, o espaço entre os dois encurtou tanto que ela conseguiu sentir o cheiro fresquinho do perfume dele misturado a uma nota amadeirada mais quente.
— Se eu ganhar... você me deve um favor. Qualquer favor. Sem discussão. — Ele pontuou com o dedo erguido, para mostrar que era um acordo sério.
Ela arqueou uma das sobrancelhas, sem recuar.
— E se eu ganhar?
O sorriso dele se alargou, nitidamente desafiador.
— Aí eu te devo um favor. E, princesa, não sou homem de fugir de dívida.
calou-se por um instante, ponderando os riscos.
O problema é que o orgulho dela falava mais alto nesses momentos, visto que ela era competitiva ao extremo e a simples ideia de perder para aquele idiota convencido fazia seu estômago revirar.
— Fechado — ela concordou, estendendo a mão direita.
Jae-min aceitou o aperto na hora. No momento em que os dedos se fecharam, uma espécie de fagulha estranha e incômoda, algo que sempre acontecia quando se encostavam, passou entre os dois. Nenhum deles desviou os olhos ou mencionou o toque, mas apressaram-se em soltar as mãos.
— Vai ser divertido ver você limpar os banheiros da sociedade de Direito, Docinho — provocou ele, piscando.
— E vai ser maravilhoso ver você vestido de coelho para arrecadar fundos, Jae-min — ela rebateu, devolvendo um sorriso quase diabólico.
Debaixo da mesa, Thor soltou um latido abafado, ajeitando as patas no chão como se soubesse perfeitamente que dali só sairia encrenca.
Dali pra frente, só pra trás.
O quiz começou harmônico e o auditório médio acabou juntando mais pessoas do que o esperado. Para o choque de , Jae-min realmente não estava ali para passar vergonha. Pelo contrário, ele respondia às perguntas com uma agilidade absurda, pontuando conceitos como se estivesse acostumado a apostar e ganhar.
Mas ela não facilitou, pois jogava em casa, aquele era seu território e se manteve impecável em cada rodada. Toda vez que ela acertava uma resposta, fazia questão de lançar um olhar vitorioso na direção dele. Jae-min, por sua vez, devolvia o acerto soprando um beijinho de deboche no ar ou piscando, o que fazia o sangue dela ferver de irritação.
No final da última rodada, o telão mostrava um empate acirrado.
O burburinho na plateia morreu quando o mediador da mesa, um professor de Direito Civil com cara de quem queria estar em qualquer outro lugar do mundo, aclarou a garganta para ler a pergunta decisiva:
— Última pergunta: Qual a diferença entre Dolo Eventual e Culpa Consciente?
O cérebro de processou os termos no mesmo milésimo de segundo, ela sorriu, pronta para levantar a mão e responder, mas, para seu horror absoluto, Jae-min bateu a mão no botão do balcão bem antes dela.
Ela fechou a expressão e balançou a cabeça dizendo telepaticamente um “não responda”, ele sorriu abertamente e fez que sim com a cabeça.
— Dolo Eventual é quando o agente assume o risco de produzir o resultado. Culpa Consciente é quando prevê o resultado, mas acredita sinceramente que ele não vai acontecer — ele despejou as palavras com uma calma quase irritante.
O professor baixou os óculos de leitura, checou o gabarito na folha e assentiu com a cabeça.
— Correto. Vitória para Jae-min Han!
ficou estática, a boca levemente aberta enquanto a mesa ao lado comemorava. Jae-min girou o corpo na direção dela, os olhos escuros brilhando com uma malícia indisfarçável.
— Então, docinho... — ele murmurou, abaixando um pouco o tronco para ficar na altura dos olhos dela — está pronta para pagar sua dívida?
Ela apertou os punhos dos lados do corpo e mordeu o lábio inferior respirando fundo para manter a fachada de controle. Ao redor, seus colegas de curso olhavam para os dois entre risinhos e cochichos.
— Qual é o favor? — perguntou, falando baixo entre os dentes.
Jae-min abriu um sorriso misterioso, saboreando cada segundo do desespero interno dela.
— Ainda não decidi — ele deu de ombros, deixando a resposta no ar de propósito. — Mas prometo que vai ser inesquecível.
cruzou os braços, tentando adotar sua melhor postura de intimidação.
— Se for algo estúpido, eu juro que te processo.
A ameaça jurídica fez Jae-min gargalhar alto.
— Tô começando a achar que você me processaria só por existir.
Ela balançou a cabeça em negação, ainda irritada pela perda. Ele se virou, soltando um assobio curto para Thor. O cachorro levantou-se em um pulo e saiu trotando animado logo atrás do dono pelos corredores do auditório.
continuou parada no mesmo lugar, sentindo o rosto quente de raiva. Só que, bem no fundo, no meio daquela indignação toda, havia uma pontada inconveniente de expectativa.
As coisas estavam saindo do controle rápido demais.
Ela não sabia se odiava aquela sensação ou se, de um jeito meio troncho, estava gostando do jogo. Talvez aquele cara que ela jurava odiar fosse a única pessoa capaz de chacoalhar a vida perfeitamente organizada que ela levava.
Ou de desestruturar tudo de vez.
Ainda era muito, muito cedo para saber.
Mas uma coisa era certa: a guerra entre eles estava longe de terminar.
O tipo de dia cinzento e melancólico em que normalmente se trancaria em uma das cabines do fundo da biblioteca com uma garrafa fumegante de chá ou latte e esqueceria completamente que o resto do mundo existia.
Mas não hoje.
Hoje, ela estava sendo caçada.
Desde a competição na Sociedade de Direito, Jae-min vinha agindo como se carregasse um bilhete premiado no bolso da jaqueta. O sorriso dele era ainda mais folgado e irritante do que o normal. E, honestamente, passava as aulas sem saber se queria socá-lo até apagar aquela expressão abusada ou beij... bom, o resto do pensamento escabroso sequer deveria passar por sua mente.
Ela tentou evitar o quanto pôde, pois se escondeu por detrás dos armários, dos postes, das pilastras, das árvores e até no banheiro. Mas alguma garota vinha entregar o recado “Jae-min está procurando por você”.
Ela apertava os livros contra o peito, apressando o passo pelas calçadas de concreto do campus, tentando usar o fluxo de alunos como escudo para evitar qualquer encontro.
Não que essa estratégia fosse funcionar com ele.
— Achei você, . — A voz dele cortou o ar logo atrás de seus ombros.
travou no susto, fechou os olhos por um segundo, soltando o ar devagar para tentar recuperar a postura antes de girar nos calcanhares.
E ali estava ele, com a mochila jogada de qualquer jeito em um dos ombros e Thor trotando alegremente ao seu lado. O pastor-alemão não pensou duas vezes, correu direto até , pulando para apoiar as patas dianteiras nas pernas dela, abanando o rabo com tanta força que quase a derrubou.
— Ah, oi, Thor... — Ela amoleceu na hora, e se abaixou um pouco, afagando os pelos grossos do pescoço do cachorro em um carinho genuíno. — Diferente do seu dono, você é um anjo.
Jae-min levou a mão espalmada ao peito, fingindo uma pontada de dor.
— Isso dói. Mas tudo bem, porque hoje você vai pagar sua dívida, lembra?
se endireitou, estreitando os olhos enquanto cruzava os braços.
— Então? Qual é? — Ela soltou um suspiro carregado de desdém. — Quer que eu lave suas roupas? Finja ser sua tutora acadêmica? Quer que eu peça desculpas publicamente por você ter chutado minha bunda?
O sorriso que brotou nos lábios de Jae-min acendeu todas as sirenes de aviso no cérebro de .
— Nada disso, princesa. — Ele ajeitou a alça da mochila, encarando-a com uma mistura de diversão e desafio. — Você vai vir comigo para um treino.
Ela piscou algumas vezes, confusa, tentando processar a informação.
— Um treino? Tipo... academia?
— Não. — Ele riu. — Tipo treino de luta.
soprou uma gargalhada genuína, achando a proposta absurda.
— Você pirou. Sem chance.
— Ah, mas você prometeu. Um favor, sem direito a discussão. — Ele repetiu suas palavras, como se fosse um advogado veterano.
abriu a boca para rebater, mas a frase morreu na garganta. Não havia brecha, ela tinha aceitado os termos da aposta por puro orgulho.
Droga.
— Treino de luta, Jae-min? — Ela bufou, colocando as mãos nos quadris. — E se eu quebrar uma unha?
— Bom, aí a gente faz um funeral digno para ela. — ele deu uma piscadinha. — Vamos lá, vai ser divertido. E educativo. Você pode precisar se defender na carreira de advogada criminalista, sabia?
— Como você sabe que quero seguir na área criminalista? Eu nunca te contei.
Jae-min suspirou.
— Eu faço meu dever de casa, docinho. E aí, vamos?
Ele insistia com uma cara de quem sabia exatamente que estava prestes a vencer pelo cansaço. revirou os olhos, mas a verdade era que, em alguma camada escusa e insana de sua mente, a ideia de descarregar o estresse da semana e de estar com ele não parecia tão ruim. E ela definitivamente não era covarde.
— Tudo bem — cedeu, embora a voz guardasse toda a relutância do mundo. — Mas se você me machucar, eu processo você de verdade.
— Se você conseguir me machucar, eu até pago o seu almoço — ele devolveu, zombeteiro, abrindo caminho para que ela andasse na frente.
Trinta minutos depois, já se arrependia amargamente de ter saído da cama naquela manhã.
O local era uma academia discreta e meio escondida nos arredores do campus, usada quase exclusivamente para treinos fechados de boxe e artes marciais. Havia poucos equipamentos de musculação, mas sua intuição dizia que alteres não era lá muito necessário ali.
O ambiente exalava testosterona pura.
Alguns rapazes que estavam no local, concluíram seus respectivos treinos do dia, cumprimentaram Jae-min, deram um rápido aceno de cabeça para ela e saíram.
, vestindo uma legging preta e uma camiseta cinza três tamanhos maior que o seu, olhava com total desconfiança para Jae-min, que já cruzava o centro do tatame descalço, girando os ombros para se aquecer. Ele ficava diferente naquele espaço, menos brincalhão, mais focado. Cada movimento dele ali dentro era preciso, com a agilidade controlada que ela já tinha visto no beco e que, por um instante, a deixou hipnotizada.
— Pronta? — perguntou ele, pegando um par de luvas de foco e lançando as luvas de treino acolchoadas na direção dela.
segurou o equipamento contra o peito, encarando o couro desgastado.
— E se eu quiser desistir agora?
— Sem direito a apelação, docinho. — O sorriso dele voltou, cheio de provocação. — Vamos começar com o básico do básico. Se alguém tentar te agarrar à força, você precisa saber como se livrar do peso.
Ele avançou a passos lentos, os pés deslizando pelo tatame com o cuidado de quem lida com um animal arisco.
— Primeiro: tente me empurrar.
firmou os pés e obedeceu, plantando as duas mãos espalmadas contra o peito dele e empurrando com força. Jae-min não se moveu um único centímetro; o corpo dele parecia uma parede de concreto.
— Tá de brincadeira com a minha cara? — Ela bufou, irritada com a falta de reação física dele.
— Falta força, . Usa a base do quadril para projetar o corpo, não gasta só a energia dos braços. Tenta de novo.
Ela cerrou os dentes e avançou mais uma vez, jogando todo o peso do corpo no movimento e passou direto, tropeçando para a frente no vazio quando ele simplesmente se esquivou para o lado com sua agilidade irritante.
— Você é péssimo! — ela exclamou, recuperando o equilíbrio e se virando com o rosto vermelho de indignação.
— E você é completamente desastrada — devolveu ele, rindo com os olhos apertados.
O orgulho de foi atingido em cheio, ela limpou um fio de cabelo que grudava na testa e cerrou os dentes.
— Ah, é? Vamos ver se sou tão desastrada assim!
Sem dar aviso, ela avançou de novo. Dessa vez, em vez de focar nos braços, mudou o centro de gravidade e tentou uma rasteira improvisada no pé de apoio dele. Para a surpresa real de Jae-min, o golpe teve pressão suficiente para fazê-lo vacilar e quase perder o equilíbrio.
— Uh, essa foi boa! — ele admitiu, abrindo os braços para recuperar a postura, exibindo um brilho diferente no olhar.
O treino seguiu desse jeito por quase uma hora: quedas, empurrões, o som abafado dos impactos nas luvas e muitos xingamentos educados que soltava entre os dentes. Ela estava suada, ofegante e com as bochechas vermelhas queimando de calor, mas havia uma sensação viva e eletrizante correndo por suas veias que nenhum livro de Direito jamais tinha proporcionado. Do canto oposto, Thor assistia a toda a movimentação sentado e a língua para fora, parecendo achar aquela bagunça o máximo.
No final, Jae-min pegou uma garrafa de água mineral gelada e a estendeu na direção dela. desabou sentada na borda alta do ringue de boxe, pegando o plástico frio sem forças para manter qualquer pose de superioridade.
— Confessa, docinho — ele pediu, parando de pé na frente dela com as mãos nos quadris, ainda respirando um pouco mais forte pelo esforço — você se divertiu.
Ela tomou um gole longo da água, bufando antes de responder, mas os cantos de seus lábios a traíram, curvando-se em um sorriso pequeno e rendido.
— Talvez um pouco.
Jae-min deu um passo mais perto, diminuindo a distância até que a sombra dele cobrisse o corpo dela. ergueu os olhos e, com a proximidade, notou a marca avermelhada e fininha de um corte bem no limite da mandíbula dele, provavelmente ganho na pressa de algum movimento do treino.
De forma totalmente instintiva, sem parar para calcular o que estava fazendo, ela estendeu a mão. Os dedos de tocaram a pele quente e suada ao redor do machucado com uma delicadeza que ela não sabia que possuía.
— Você está sangrando.
Jae-min congelou no mesmo instante.
O corpo dele tensionou sob o toque leve e quase tímido dela, percebeu o que tinha feito tarde demais; sua mão continuava ali, parada contra o rosto dele, sentindo o calor da pele e a pulsação acelerada perto da jugular dele.
Nenhum dos dois se moveu, o ar dentro do galpão pareceu sumir, deixando o ambiente carregado por uma tensão pesada, o som das respirações misturando-se no silêncio enquanto o calor se espalhava entre eles em ondas calmas.
Assustada com a intensidade do próprio estômago revirando, puxou a mão de volta como se tivesse tocado em uma superfície em chamas.
— É... é melhor eu ir embora — ela murmurou, levantando-se em um pulo e se virando de costas rapidamente para recolher sua mochila e os sapatos.
— . — A voz dele a alcançou sem a ironia habitual.
Ela travou no lugar com a mochila na mão, sem ter coragem de olhar para trás e encarar o que quer que estivesse no rosto dele.
— Você luta bem melhor do que fala — ele completou, em um tom quase gentil que fez a espinha dela tremer.
sentiu um sorriso bobo nascer em seus lábios, embora tenha feito questão de mantê-lo escondido dele. Ela apressou os passos e cruzou a porta de saída da academia com o coração batendo frenético e descompassado, sem saber ao certo se estava correndo para fugir dele ou de si mesma.
Do lado de fora, o vento frio atingiu seu rosto com força, ela vestiu um casaco que trouxe na mochila e o apertou contra o corpo, puxando o ar gelado para os pulmões enquanto olhava para o céu nublado acima do campus.
Ela podia tentar negar para os outros e criar todas as teses jurídicas do mundo, porém não dava mais para mentir para si mesma: havia alguma coisa acontecendo entre ela e Jae-min.
Algo que nenhuma luta ou aposta seria capaz de apagar.


