Codificada por: Sol ☀️
Finalizada: 22/05/2026.O aroma forte de café, falta de banho e desespero se misturava ao frio cortante da manhã de setembro, espalhando-se pelo pátio principal da Universidade Hartbridge, mais conhecida como o campo de batalha diário dos universitários em busca de diploma, cafeína e sanidade mental. O último principalmente.
atravessava o pátio com o semblante concentrado, como quem se preparava para vencer uma grande batalha, naquele momento se sentia uma gladiadora. O cabelo loiro estava preso de um jeito bonito com algumas mechas escapando de forma teimosa; o batom pêssego-nude aplicado apressadamente antes de sair do dormitório começava a desbotar, e o terninho cor de creme contrastava com a expressão de quem dormira apenas três horas por noite durante uma semana inteira.
Mas nem a falta de sono nem o desespero com a prova de Processo Penal a impediria de cumprir o ritual sagrado: encorajar a si mesma.
— Vamos lá, Sav. Três semanas. Só mais três semanas antes da prova, você sabe que consegue — resmungou, tentando equilibrar um copo de latte, alguns livros e seu celular ao mesmo tempo. — Depois disso, ou você passa, ou muda de país e abre um restaurante no Peru.
Enquanto isso, do outro lado do pátio, Han Jae-min se espreguiçou depois de sua corrida matinal com Thor, seu pastor-alemão de aparência tão imponente que parecia pertencer a um esquadrão policial, não a um estudante de Fisioterapia.
Jae-min usava calça de moletom escura, camiseta simples; respiração ritmada, expressão calma, fones de ouvido pendurados no pescoço. Thor trotava ao lado dele todo feliz, a língua de fora, ele sorriu e jogou uma bolinha para o cachorro buscar.
— Vai lá, garoto.
Thor disparou como um raio, atraindo olhares por onde passava e entre eles, o olhar distraído de , que tentava responder uma mensagem e beber o latte ao mesmo tempo.
No entanto, o destino — ou apenas a falta de coordenação motora dela — decidiu agir.
tropeçou no próprio pé, desequilibrou os livros, tentou se recompor e tropeçou de novo, desta vez, no infortúnio de Thor, que havia parado exatamente à sua frente com a bolinha na boca. Num segundo, o copo de latte voou no ar em câmera lenta, descrevendo um arco perfeito e aterrissou direto no peito de Jae-min, que não teve tempo nem de reagir. O líquido quente respingou em seu rosto e espalhou-se pela camiseta, descendo em linhas tortas até a barra.
O silêncio pairou por um segundo que pareceu durar uma eternidade.
O copo caiu no chão com um ploc deprimente.
piscou uma. Duas vezes.
— Meu Deus! — exclamou horrorizada. — Me desculpa! Eu juro que não vi o cachorro, eu só…
— Você só decidiu me batizar com latte quente no meio do campus? — interrompeu Jae-min, olhando para o peito encharcado e depois para ela, com uma sobrancelha arqueada e um meio sorriso incrivelmente irritante. — Criativo. Nunca tentaram me atacar assim antes.
— Atacar? — arregalou os olhos. — Eu tropecei! Você e esse cachorro gigante que apareceram do nada é que são o problema!
Jae-min inclinou a cabeça, observando-a com aquele olhar analítico e insolente que só piorava a situação.
— O “problema”, senhorita desastrada, é a sua coordenação motora. Thor está literalmente parado há cinco segundos.
— Ele é do tamanho de um cavalo, como eu ia ver o chão?! — retrucou ela, ofendida.
Ele deu uma risadinha curta.
— Caramba. E eu achando que estudantes de Direito sabiam argumentar.
bufou.
— Engraçadinho. — Ela cruzou os braços, tentando ignorar o quanto a camiseta colada realçava o corpo dele.
— Realista. — Ele afastou a camiseta do corpo, o tecido colando na pele. — E para constar, essa bebida estava fervendo.
Ela estreitou os olhos.
— Olha, eu já pedi desculpas, tá? Não foi de propósito.
— E eu já aceitei. — O sorriso dele cresceu, preguiçoso. — Só queria deixar registrado que você começou nossa relação literalmente jogando latte quente em mim.
— Relação? — ela quase engasgou. — Tá delirando?
— É o que parece, considerando que você ainda está parada aqui me encarando.
ficou sem palavras por um segundo, sem saber se pegava uma pedra para jogar nele ou em si mesma.
— Você é péssimo.
— Costumam me chamar de “encantador”, mas eu aceito “péssimo”. Combina com o meu humor matinal.
— O seu humor matinal é um desastre.
— E o seu equilíbrio é pior.
Ela soltou um suspiro exasperado, se abaixou para pegar de volta os livros e o celular que por sorte não estava com a tela trincada; virou as costas e começou a se afastar.
— Pois saiba que seu cachorro é fofo. Uma pena que o dono estragou o pacote sendo tão ridículo e insuportável.
Sem resistir, enquanto ela se afastava, Jae-min gritou:
— Não se preocupe, docinho! Eu sou insuportável só nas primeiras impressões!
Por impulso, levantou o braço e fez o famigerado gesto de “fala com a minha mão” sem olhar para trás, fazendo alguns alunos rirem ao redor.
Jae-min riu de verdade, e o riso dele ecoou genuíno pelo pátio, coisa rara ultimamente. E isso a irritou ainda mais porque ela gostou do som.
Thor, confuso, olhou de um para o outro e depois correu até , levando o copo amassado na boca.
Ela se virou, arqueando a sobrancelha.
— Ele quer me devolver o copo?
— Não. — Jae-min respondeu, com um sorriso torto. — Ele só está escolhendo o lado mais simpático.
se abaixou, acariciando o cachorro.
— Boa escolha, grandão.
Depois lançou um último olhar para Jae-min, o tipo de olhar que dizia “não acabei com você ainda” e saiu andando, com o queixo erguido e o terninho agora sujo.
Jae-min ficou parado por um instante, observando-a se afastar. O sol finalmente começando a esquentar pra valer, iluminando o pátio, e por um segundo ele teve a impressão de que aquela garota desastrada tinha acabado de transformar a manhã mais comum da semana na mais interessante.
Ele olhou para Thor, que ainda abanava o rabo.
— É, garoto… — Jae-min sorriu. — Acho que a gente acabou de encontrar encrenca.
Thor latiu, concordando.
Que cara mais irritante!
— Fisioterapeuta — resmungou, sentada na escadaria principal da universidade. — Mas é claro que é! O tipo que acredita entender do corpo humano e, por consequência, acha que entende todo o resto.
Miranda (que preferia ser chamada de Mia), sua prima e cúmplice de todas as horas, estava largada ao seu lado nos degraus, mascando um chiclete com a expressão de quem tentava parecer empática, mas sem muito sucesso.
— Você precisava ver o tamanho da audácia daquele ser humano — continuou , gesticulando. — Ele me chamou de docinho, Mia. Docinho!
Mia mordeu a tampa da caneta para não rir.
— E o que você fez?
olhou pra ela como se a resposta fosse óbvia.
— Mandei ele falar com a minha mão, claro.
Mia explodiu numa gargalhada, dando tapinhas no braço da prima.
— Ai, Sav, você tem o que, oito anos?
— Ele que começou! — ela protestou, indignada. — Com aquele sorrisinho pretensioso de quem sabe que é bonito e abusa disso.
— Hm. Bonito, então? — Mia arqueou uma sobrancelha, divertida.
apertou os lábios, irritada com o próprio vacilo.
— Eu disse pretensioso, não bonito.
— Aham. Claro. — Mia balançou a cabeça, sarcástica. — Isso está com cara de inimizade que vai virar atração fatal. Aposto vinte dólares.
girou o corpo para encará-la.
— Você anda assistindo muita série ruim, só pode.
Antes que Mia respondesse, o alto-falante da praça principal do campus chiou, interrompendo o burburinho dos alunos.
— Atenção, alunos da Universidade Hartbridge! — a voz da diretora de eventos anunciou empolgada. — Amanhã, para abrir o início de um novo semestre, teremos nossa tradicional Feira de Integração de Cursos! Participação obrigatória para todos! Tenham um ótimo dia!
Elas se entreolharam. gemeu, a cabeça caindo para trás.
— Integração. Significa gente nova, que significa multidão, que significa barulho, calouros perdidos e… trabalho.
Mia mordeu o lábio, sorrindo sapeca.
— Ou, quem sabe, o reencontro com algum “docinho”?
empurrou a prima com o ombro, fazendo as duas rirem.
No dia seguinte, o ginásio esportivo da universidade estava uma verdadeira bagunça organizada, cada área tinha montado estandes representando seus cursos. Os de Direito usavam togas e reproduziam julgamentos cênicos. Os de Saúde aplicavam massagens e simulavam procedimentos de APH avançados. Os de Engenharia tentavam explodir coisas "com segurança". Os de Letras recitavam poemas, apenas.
, vestindo uma camiseta preta com o brasão de Direito, caminhava distraída com uma prancheta na mão, checando os materiais do estande, repassando mentalmente o que precisava ser incluído na lista, até esbarrar em alguém.
De novo.
— Você tem um problema sério de direção, sabia? — A voz veio divertida, e ela reconheceu na hora.
Ela olhou para cima e deu de cara com Jae-min Han, sorrindo como se tivesse ganhado na loteria. Usava jeans escuro e camiseta azul-marinho larga com o brasão de Fisioterapia. Thor estava sentado pacientemente ao lado dele, fofíssimo com uma bandana da universidade no pescoço.
tentou ignorá-lo, focando na prancheta.
— Se você estiver me seguindo, eu juro que te processo — respondeu friamente.
Jae-min arqueou uma sobrancelha.
— Ameaças legais logo cedo? Uh, já estou ficando emocionado.
Ela estreitou os olhos.
— Você acha que é engraçado, né?
— Eu sei que sou. — Ele sorriu. — Mas você é uma boa rival, docinho.
sentiu o canto superior do lábio tremer, e antes que ela pudesse respondê-lo — ou socá-lo — um dos organizadores se aproximou, suando em bicas e ofegante.
— Ótimo! Vocês dois! Vocês estão aqui! Precisamos de voluntários para a missão principal da feira: apresentar o Tour da Hartbridge para os calouros.
arregalou os olhos.
— Nós dois?
— Isso! Direito e Fisioterapia juntos é perfeito. Mistura de cursos, integração, blá blá blá. Toma — explicou, empurrando um maço de mapas nas mãos deles sem muita paciência. — Primeiro grupo já está esperando por vocês na entrada. Andem logo!
E o homem desapareceu antes que ela protestasse.
Ela virou-se para Jae-min, indignada.
— Isso é uma piada.
Ele abriu um sorriso largo e travesso.
— Eu tô achando tudo ótimo.
Ela girou nos calcanhares, resmungando:
— Maldito karma.
marchou a passos duros; ao encontrarem com o primeiro grupo de calouros, se identificaram e Jae-min distribuiu entre eles os mapas que continham todas as informações necessárias sobre a universidade. As garotas sorriam para ele, elogiavam Thor e faziam carinho nele mesmo sem permissão.
Enquanto guiavam o grupo animado pelo campus, a tensão entre os dois era palpável. Ao passo que Jae-min esbanjava cordialidade excessiva para irritá-la, ela o encarava como um espírito obsessor raivoso.
— À esquerda, temos o prédio de Direito — apresentou, apontando a prancheta com uma falsa simpatia. — Onde aprendemos a ter ética, a lutar contra a injustiça, e contra… pessoas folgadas. — Sorriu venenosa para Jae-min.
Ele tossiu para esconder o riso e apontou para outro prédio.
— E à direita, o Centro de Reabilitação Física. Onde salvamos pessoas e as ajudamos a se reerguerem. Inclusive as que têm mania de esbarrar nos outros e tropeçar em cachorros inocentes.
Os calouros riram, encantados com a química involuntária dos dois. estreitou os olhos para ele, que apenas piscou de volta, desavergonhado.
No intervalo entre o terceiro grupo, os dois sentaram-se em um banco da praça principal sob uma árvore para uma pausa forçada. Thor deitou aos pés deles, satisfeito.
— Você não consegue levar nada a sério? — perguntou , já cansada da atitude relaxada dele.
Jae-min tirou a tampa da garrafinha de água, olhando para ela por cima da borda.
— Se eu levasse, já teria explodido faz tempo — ele respondeu num tom que, pela primeira vez, soou mais sério.
Ela se surpreendeu, pois houve uma carga momentânea na voz dele que a pegou desprevenida, algo que não combinava com o sorriso debochado. Curiosa, mas desconfiada, ela cutucou:
— Ah, é? E qual é a sua história, Mestre Zen?
Jae-min deu de ombros.
— Nada muito interessante. Família bagunçada, lutas de fim de semana, cachorro de terapia... vida comum.
o observou sem prestar muita atenção no que foi dito, mas surpresa pelo momento de verdade vindo daquele que ela considerava o babaca da semana. Um lampejo passou por sua mente e ela soltou um riso descrente.
— Você é muito estranho.
— Obrigado. É meu objetivo na vida. — Respondeu ele com uma reverência exagerada.
Apesar de tudo, sentiu a tensão dentro dela ceder. Talvez, aquele idiota fosse menos insuportável do que ela pensava. Ou não.
Ela abaixou o olhar e viu Thor com o focinho apoiado no seu joelho. O cachorro olhava pra cima, com aquele ar de quem conseguia tudo o que queria, quebrando um pouco de sua resistência. Ela cruzou os braços e fingiu indignação:
— Se seu cachorro me amar mais do que a você, é culpa sua.
— Ele tem bom gosto — Jae-min sorriu genuinamente.
Ela riu de verdade dessa vez, e por um instante, o barulho da feira desapareceu. Ficaram só os dois e o cachorro. E Jae-min sentiu, sem saber explicar, que queria ouvir aquele som de novo. Mesmo que tivesse que irritá-la até o fim do mundo pra isso.
— Eu não aguento mais termos jurídicos — ela reclamou, passando a mão no rosto e arrastando os dedos até o cabelo. — Mens rea, actus reus… daqui a pouco eu começo a falar latim sozinha no meio da rua.
Mia, sentada no chão com um pote de pipoca, entretida com algo no notebook, nem se deu ao trabalho de disfarçar o riso.
— Ô amiga, Isso nem foi uma piada ruim. Foi um pedido de socorro. — Mia fez cara de pena.
virou o rosto lentamente para ela, as olheiras se destacando.
— Eu estou oficialmente aceitando ajuda humanitária. — Bocejou. — Café, sono ou um milagre divino. Nessa ordem.
— Ou você pode simplesmente sair de casa — Mia sugeriu, como quem não quer nada. — Tá rolando um festival de food trucks hoje no distrito industrial. Música, comida, gente da faculdade… — ela fez uma pausa estratégica, sorrindo de canto. — …quem sabe um certo “docinho” irritante?
A almofada voou na direção dela com uma precisão admirável.
— Nem morta — respondeu , afundando mais no sofá. — Estou em modo eremita. Se eu sair hoje, é só pra comprar um novo cérebro.
Mia se levantou, colocando o pote da pipoca na mesinha de centro, abriu o armário de roupas, pegou um casaco e jogou outro no colo de .
— Ótimo. A gente passa no festival e depois procura um pra você. Vem.
— Miranda!
— Levanta agora!
levantou devagar, pegando o casaco de má vontade.
— Eu só vou porque eu quero ir, não porque você é completamente chata.
— Claro. — Mia abriu a porta. — Totalmente indiferente. Vamos.
passou por ela resmungando, mas já estava calçando o tênis.
O distrito industrial, normalmente um deserto de concreto e silêncio após às dezoito horas, estava pulsando. O ar ali era carregado com o cheiro de óleo diesel, fumaça de lenha, churrasco na grelha e o aroma gorduroso de fritura que emanava das dezenas de barracas e trucks coloridos estacionados entre galpões. O som de um indie rock genérico competia com o burburinho da multidão.
parou por um segundo, observando tudo.
— Isso aqui é uma bagunça.
Mia sorriu, já puxando ela pelo braço.
— Isso aqui é vida, Sav. Anda.
Mas, para sua própria surpresa, ela não se sentiu deslocada; havia algo de autêntico naquela incoerência que a fascinava. Gostou da aparente falta de controle do ambiente, da espontaneidade, do fato de ninguém ali se importar com aparência ou perfeição. Era o oposto do mundo impecável dos seus pais — e, talvez por isso mesmo, parecia muito mais honesto.
— Prova isso — disse Mia, empurrando um taco na mão dela.
— Isso tá escorrendo!
— Come.
mordeu e mastigou devagar, saboreando o recheio suculento de carne, molho e muito vinagrete.
— Tá bom. — Fez uma pausa. — Isso é muito bom.
— Eu sei — Mia respondeu, orgulhosa.
Enquanto Mia arrastava de trucks em trucks, experimentando outros sabores de tacos, sorvetes e refrigerantes artesanais. Elas continuaram andando, parando aqui e ali, degustando mais comidinhas, comentando gente aleatória, rindo sem perceber. Até sentir um formigamento na nuca e parar, de repente.
— Mia…
— Hm?
Ela não respondeu de imediato. Só inclinou levemente a cabeça, olhando fixamente para um ponto mais afastado.
Um beco estreito no final da rua em que as luzes do festival não alcançava, e lá o clima festivo morria. Homens de jaquetas de couro pesadas formavam uma barreira humana silenciosa. Um deles carregava um saco de lona que parecia pesado demais para conter apenas roupas.
semicerrou os olhos, a curiosidade acadêmica dando lugar ao instinto investigativo de sua futura profissão.
— Você tá vendo aquilo?
Mia olhou rápido por cima do ombro.
— Bairro industrial, Sav. Você tá esperando o quê? Unicórnios? Estamos num lugar questionável com pessoas questionáveis. — Deu de ombros. — Eu diria que está dentro do esperado.
franziu a testa.
— Não é só isso, tem alguma coisa errada ali.
— … — Mia virou o corpo pra ela, já desconfiada. — Não.
— Eu volto rapidinho. Me espera no truck de churros.
— !
Mas era tarde demais, ela já estava se misturando à multidão. avançou pelas sombras, o coração martelando contra as costelas. Ela se enfiou discretamente pelo beco, escondendo-se atrás de uma pilha de paletes de madeira e caixotes velhos, prendendo a respiração. O som da música do festival tornou-se um eco distante, substituído por murmúrios graves, risadas e o som seco de carne atingindo carne.
— E aí, quem vai encarar o próximo? — Uma voz masculina desafiou com malícia.
espiou por uma fresta entre os paletes, o que viu fez o sangue congelar em suas veias: um círculo de homens rodeava um espaço iluminado apenas por um holofote de obra. No centro, dois rapazes trocavam socos. Não havia luvas, nem ringue, proteção e talvez nem regras. Era uma luta clandestina no seu estado mais brutal.
O som de um soco mais forte fez prender a respiração e então outro golpe. Alguém riu, alguém xingou. Seus sentidos em alerta. Ela deveria ir embora, sabia disso, mas não foi. Suas pernas tinham vontade própria e seu subconsciente dizia que ela precisava continuar ali, porque um dos lutadores se moveu e tudo dentro dela travou.
Era Jae-min Han.
Por um segundo, a mente dela se recusou a aceitar. Não combinava. Não era o mesmo cara. O sorriso zombeteiro que ela conhecia tinha sumido. No lugar, havia uma concentração mortal nos olhos dele. Cada movimento era rápido, implacável.
O Jae-min que ela conhecia falava demais e provocava como se tudo fosse nada. Aquele… não. Aquele Jae-min era silencioso, focado. Era completamente diferente, mais frio e sombrio. Ele estava sem camisa, o suor brilhando sob a luz fria, os nós dos dedos manchados de vermelho.
O adversário, um homem mais alto e todo tatuado, avançou com um soco direto visando o queixo de Jae-min.
Foi um erro estúpido.
Jae-min não recuou; ele avançou. Com uma esquiva milimétrica, ele fluiu por baixo da guarda do oponente, agarrou o pescoço do homem com uma precisão e usou o impulso para projetá-lo contra o chão de concreto. O estalo da carne atingindo o solo ecoou nas paredes do beco.
sentiu o estômago revirar não pela violência em si, mas pela facilidade, pelo jeito como ele fez parecer simples, como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes.
O oponente tentou se levantar, mas não conseguiu.
A roda de homens explodiu em aclamações. O dinheiro trocava de mãos com uma velocidade frenética. Jae-min apenas se afastou, limpando um filete de sangue que escorria de seu supercílio com as costas da mão, o peito subindo e descendo com a respiração pesada, mas controlada; sua expressão tão neutra quanto a de quem acaba de finalizar mais um dia de trabalho.
estava em transe, horrorizada e estranhamente hipnotizada, até que um dos seguranças na periferia do círculo virou a cabeça em sua direção.
— Ei! Quem está aí? — o homem rosnou, dando um passo em direção aos paletes.
O cérebro dela finalmente voltou a funcionar, girou nos calcanhares e correu como uma louca, o pânico subindo a garganta. Seus pés batiam no asfalto irregular, as solas ardendo por dentro do tênis, enquanto ela se infiltrava novamente na multidão colorida do festival, o coração parecendo querer saltar pela boca.
Quando finalmente reencontrou Mia, estava trêmula, pálida, a respiração irregular, os pensamentos atropelando uns aos outros. A prima arregalou os olhos.
— Ei! Sav? — Mia segurou seu braço, preocupada. — O que aconteceu?!
tentou falar, mas as palavras morriam em sua garganta seca. Ela só conseguia ver o olhar de Jae-min e aquela vacuidade fria no momento do impacto. Como é que ela explicava aquilo?
— Eu… — passou a mão no cabelo, ainda tentando se ancorar. — Eu quero ir embora.
— O quê? Agora? Mas—
já puxava o capuz do casaco sobre a cabeça, na intenção de se esconder do mundo e, principalmente, do que tinha acabado de descobrir.
— Depois eu explico. — Gesticulou apressada, evitando olhar para qualquer lado. — Só… vamos.
Sem esperar a prima se despedir do pessoal com quem estava, ela mergulhou no mar de pessoas, tentando desesperadamente fugir da imagem que agora estava gravada em sua memória.
Naquela madrugada, o teto do quarto de tornou-se o palco de suas obsessões. Ela rolava de um lado para o outro, o travesseiro quente, os lençóis emaranhados em suas pernas, revivendo cada segundo do que testemunhou.
Como alguém podia carregar tanta violência e tanta leveza no mesmo par de mãos? Como alguém que parecia ter tanto sossego durante o dia podia abrigar tanta violência à noite? Por que ele lutava com aquela fúria contida, como se cada soco fosse uma tentativa de nocautear a si próprio?
O que a assustava, e a fazia odiar a própria mente, não era apenas o segredo dele, mas o fato de que, mesmo após testemunhar o horror daquela brutalidade, seu coração teimava em bater em uma frequência ridícula sempre que a imagem dele todo suado, letal e indomável invadia seus pensamentos.
soltou o ar devagar, virando o rosto no travesseiro.
— Quem é você… — murmurou no escuro.
Aquilo era problema. Ela sabia, e não existia jurisprudência no mundo que fosse capaz de protegê-la daquele perigo absolutamente irresistível.
Na segunda-feira seguinte, o campus da Universidade de Hartbridge estava exatamente como sempre: gente espalhada pelo gramado, grupos rindo alto demais pra uma manhã quente, o barulho irritante dos patinetes elétricos passando rápido pelas calçadas.
Nada tinha mudado, exceto o jeito como estava reagindo a tudo aquilo.
Ela caminhava entre os alunos com a mochila de couro pendurada no ombro, o cenho franzido e a paciência em níveis perigosamente baixos. A cada vez que um cara alto de fios escuros cruzava seu campo de visão, seu coração dava um solavanco involuntário. odiava a própria traição biológica.
Ela buscava por uma jaqueta preta jeans resinada com uma insistência que beirava o masoquismo, apenas para se frustrar ao perceber que a anatomia da instituição não colaborava; rapazes com traços asiático-oriental não eram exatamente a maioria ali, o que tornava sua busca “inconsciente” estatisticamente óbvia e pessoalmente humilhante.
Ela soltou um suspiro irritado e pressionou a ponte do nariz.
— Ridículo… — murmurou, mais para si mesma do que para qualquer outra pessoa.
Absolutamente ninguém era ele. Na teoria deveria ser mais fácil encontrá-lo. Na teoria. Na prática parecia que Jae-min tinha evaporado desde aquela noite e isso só deixava mais inquieta e cheia de perguntas.
Durante a aula, a situação piorou.
Ela abriu o caderno, tentou acompanhar o raciocínio do professor à frente, até escreveu alguma coisa do assunto que era muito importante, mas nada fixava. As palavras no quadro se embaralhavam, perdiam sentido, desapareciam no meio de um único pensamento insistente. apoiou o cotovelo na mesa e pressionou a testa com os dedos, olhando fixamente para o quadro sem realmente enxergar.
E se não fosse ele? E se fosse só alguém parecido? A semelhança era absurda, mas a aura era outra. O Jae-min que ela conhecia era um espetáculo de deboche; o do beco era um instrumento de violência pura. Ela lembrava com clareza demais da facilidade com que derrubou o outro cara.
O estômago dela revirou de leve, soltou o ar pelo nariz.
Poderia ele ser um possível criminoso? Afinal, lutas clandestinas são ilegais por motivos óbvios e geralmente envolvia gente que não era exatamente confiável. Então por que ele estava lá? E por que isso estava a incomodando tanto?
Era inacreditável aquela situação. Ela tinha uma prova muito importante chegando e estava ali, completamente distraída por causa de um cara irrelevante que ela mal conhecia, e pior: um cara que ela claramente não gostava.
fechou o caderno com mais força do que precisava. Quando a aula finalmente terminou, ela juntou suas coisas rápido demais, tentando se livrar dos próprios pensamentos.
Saindo do prédio de Direito impaciente, ela deu informações a duas calouras que estavam meio perdidas, e foi aí que ela o viu.
Alguns metros à frente, Jae-min estava sentado sob uma árvore frondosa no gramado, a cabeça jogada para trás, rindo de algo que o melhor amigo Noah — o gigante que mais parecia um guarda-costas russo — estava dizendo. Ao lado deles, seu pastor alemão dormia com a língua de fora e barriga para cima. O riso dele era pleno e despreocupado, como se nada tivesse acontecido.
observou por um segundo, comparando mentalmente aquela cena à sua frente com a que tinha visto no beco. Não combinava, como podia ser a mesma pessoa? Ela respirou fundo e foi direto até ele; a mochila batendo contra a coxa, o passo firme, a expressão fechada. Parou na frente dele sem cerimônia nenhuma.
— Precisamos conversar — ela disparou, dispensando qualquer preâmbulo social.
Jae-min levantou o olhar devagar, reconhecendo a voz antes mesmo de ver o rosto, um sorriso apareceu nos lábios dele.
— Nossa, que educada. — Ele fez careta, Noah riu. — O que foi? Vai me processar por uso indevido de oxigênio no campus ou vai direto pra agressão verbal?
— Não. Vou perguntar o que diabos você estava fazendo esmagando a traqueia de um homem naquele beco imundo na sexta-feira — ela rosnou, cruzando os braços com tanta força que os nós dos dedos empalideceram.
O sorriso de Jae-min não sumiu, ele congelou. Foi uma transição sutil, mas para ela, que analisava evidências por hobby, foi como ver uma máscara de porcelana rachar. Por um milésimo de segundo, o brilho sombrio que ela viu na luta, lampejou ali, sob a luz do dia.
Noah, sentindo a pressão barométrica da conversa despencar, pigarrou alto, desconfortável.
— É... eu acho que o Thor precisa de um poste. Ou dez — ele murmurou, se levantando e puxando a coleira do cachorro, que saiu trotando, confuso, sumindo na velocidade da luz.
Sozinhos, o silêncio era uma terceira pessoa entre eles.
— Como sabe sobre isso? Você me seguiu? — Jae-min perguntou, a voz baixa e dura.
soltou uma risada sem humor.
— Ah, claro. Até porque você é um evento imperdível, né? — revirou os olhos. — Eu estava com a Mia no lugar errado, na hora errada. E o que eu vi foi o "grande e engraçado Jae-min" esmagando o cara como se fosse uma mosca!
Ele se levantou lentamente, impondo uma distância desconfortavelmente pequena entre eles. teve que erguer o rosto para encará-lo.
— Você não sabe nada sobre mim, princesa — ele disse, a palavra "princesa" saindo como um insulto velado.
Ela sentiu o rosto esquentar de raiva, claro.
— Não me chame de princesa! — rebateu. — E talvez eu não saiba, mas agora sei o suficiente para entender que você é um problema ambulante!
Os olhos de Jae-min brilharam com algo indefinido, convidando-a a dar um passo para dentro do abismo.
— Se você realmente acredita nisso, deveria fazer a coisa mais inteligente da sua vida.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Que seria?
— Ficar bem longe de mim. — Ele murmurou, inclinando o rosto, a voz roçando a orelha dela.
Por um segundo, o mundo envolta de emudeceu. Talvez ele tivesse razão. Mas então, ele recuou apenas o suficiente para olhá-la nos olhos e sorriu. Aquele maldito sorriso arrogante.
— Mas é claro… — ele acrescentou, a voz carregada de sarcasmo. — Você não me parece muito boa em tomar decisões inteligentes, né, docinho?
deu um passo para trás, irritada por sentir o estômago revirar de forma traiçoeira.
— Para de agir como se me conhecesse.
— Difícil — ele respondeu. — Você é muito previsível quando tá irritada.
Ela soltou uma risada seca.
— E você é exatamente o tipo de problema que eu aprendi a evitar. — Ela encarou o corte no supercílio dele.
— Então estamos quites — ele olhou pra ela de cima a baixo, sem pressa.
Aquilo foi o suficiente.
— Você é péssimo — disse ela, virando-se bruscamente.
— Já ouvi isso antes — ele respondeu atrás dela.
— Tenho certeza que sim.
saiu andando sem olhar para trás, o passo firme demais, a respiração levemente descompassada. Ela só desacelerou quando já estava longe o suficiente. Passou a mão no cabelo, irritada.
— Idiota — murmurou.
Mas não tinha certeza de quem estava xingando.
Jae-min permaneceu sob a árvore, observando a silhueta dela se afastar. Ele levou a mão ao supercílio, onde um pequeno corte da luta ainda cicatrizava; apertou os olhos numa expressão estranha.
O sorriso já não estava mais ali, ele passou a mão na nuca, soltando o ar devagar.
— Problema ambulante… — murmurou, sem humor.
Thor voltou trotando, puxando a coleira da mão de Noah, Jae-min automaticamente passou a mão na cabeça do cachorro, ainda olhando na direção em que havia sumido. Pensando porque aquela não tinha sido só mais uma discussão, não tinha reagido como os outros e isso complicava tudo.
Ele desviou o olhar, como se pudesse simplesmente deixar aquilo pra lá, mas não conseguiu, porque alguém tinha conseguido ver além da superfície. E ele ainda não sabia se isso era um problema ou algo pior.
Algo em fazia suas defesas vacilarem. Algo nele fazia a raiva dela ganhar um calor inexplicável. Ambos se odiavam, mas a semente já estava plantada. E ela crescia, silenciosa e traiçoeira.


