Prólogo
PRIMEIRAS IMPRESSÕES
teve um sonho esquisito durante à noite. No sonho, ela foi derrubada por um cavalo enorme que havia fugido de seu dono e, logo depois, o dono do cavalo apareceu e jogou água no seu rosto aos risos. Poderia ser um mau presságio para aquela manhã ou para aquela semana? Ela não sabia, pois não tinha tempo para pressentimentos ruins em seu cronograma. A vida real já continha problemas demais, principalmente com seus genitores.
O aroma forte de café, falta de banho e desespero se misturava ao frio cortante da manhã de setembro, espalhando-se pelo pátio principal da Universidade Hartbridge, mais conhecida como o campo de batalha diário dos universitários em busca de diploma, cafeína e sanidade mental. O último principalmente.
atravessava o pátio com o semblante concentrado, como quem se preparava para vencer uma grande batalha, naquele momento se sentia uma gladiadora. O cabelo loiro estava preso de um jeito bonito com algumas mechas escapando de forma teimosa; o batom pêssego-nude aplicado apressadamente antes de sair do dormitório começava a desbotar, e o terninho cor de creme contrastava com a expressão de quem dormira apenas três horas por noite durante uma semana inteira.
Mas nem a falta de sono nem o desespero com a prova de Processo Penal a impediria de cumprir o ritual sagrado: encorajar a si mesma.
— Vamos lá, Sav. Três semanas. Só mais três semanas antes da prova, você sabe que consegue — resmungou, tentando equilibrar um copo de latte, alguns livros e seu celular ao mesmo tempo. — Depois disso, ou você passa, ou muda de país e abre um restaurante no Peru.
Enquanto isso, do outro lado do pátio, Han Jae-min se espreguiçou depois de sua corrida matinal com Thor, seu pastor-alemão de aparência tão imponente que parecia pertencer a um esquadrão policial, não a um estudante de Fisioterapia.
Jae-min usava calça de moletom escura, camiseta simples; respiração ritmada, expressão calma, fones de ouvido pendurados no pescoço. Thor trotava ao lado dele todo feliz, a língua de fora, ele sorriu e jogou uma bolinha para o cachorro buscar.
— Vai lá, garoto.
Thor disparou como um raio, atraindo olhares por onde passava e entre eles, o olhar distraído de , que tentava responder uma mensagem e beber o latte ao mesmo tempo.
No entanto, o destino — ou apenas a falta de coordenação motora dela — decidiu agir.
tropeçou no próprio pé, desequilibrou os livros, tentou se recompor e tropeçou de novo, desta vez, no infortúnio de Thor, que havia parado exatamente à sua frente com a bolinha na boca. Num segundo, o copo de latte voou no ar em câmera lenta, descrevendo um arco perfeito e aterrissou direto no peito de Jae-min, que não teve tempo nem de reagir. O líquido quente respingou em seu rosto e espalhou-se pela camiseta, descendo em linhas tortas até a barra.
O silêncio pairou por um segundo que pareceu durar uma eternidade.
O copo caiu no chão com um ploc deprimente.
piscou uma. Duas vezes.
— Meu Deus! — exclamou horrorizada. — Me desculpa! Eu juro que não vi o cachorro, eu só…
— Você só decidiu me batizar com latte quente no meio do campus? — interrompeu Jae-min, olhando para o peito encharcado e depois para ela, com uma sobrancelha arqueada e um meio sorriso incrivelmente irritante. — Criativo. Nunca tentaram me atacar assim antes.
— Atacar? — arregalou os olhos. — Eu tropecei! Você e esse cachorro gigante que apareceram do nada é que são o problema!
Jae-min inclinou a cabeça, observando-a com aquele olhar analítico e insolente que só piorava a situação.
— O “problema”, senhorita desastrada, é a sua coordenação motora. Thor está literalmente parado há cinco segundos.
— Ele é do tamanho de um cavalo, como eu ia ver o chão?! — retrucou ela, ofendida.
Ele deu uma risadinha curta.
— Caramba. E eu achando que estudantes de Direito sabiam argumentar.
bufou.
— Engraçadinho. — Ela cruzou os braços, tentando ignorar o quanto a camiseta colada realçava o corpo dele.
— Realista. — Ele afastou a camiseta do corpo, o tecido colando na pele. — E para constar, essa bebida estava fervendo.
Ela estreitou os olhos.
— Olha, eu já pedi desculpas, tá? Não foi de propósito.
— E eu já aceitei. — O sorriso dele cresceu, preguiçoso. — Só queria deixar registrado que você começou nossa relação literalmente jogando latte quente em mim.
— Relação? — ela quase engasgou. — Tá delirando?
— É o que parece, considerando que você ainda está parada aqui me encarando.
ficou sem palavras por um segundo, sem saber se pegava uma pedra para jogar nele ou em si mesma.
— Você é péssimo.
— Costumam me chamar de “encantador”, mas eu aceito “péssimo”. Combina com o meu humor matinal.
— O seu humor matinal é um desastre.
— E o seu equilíbrio é pior.
Ela soltou um suspiro exasperado, se abaixou para pegar de volta os livros e o celular que por sorte não estava com a tela trincada; virou as costas e começou a se afastar.
— Pois saiba que seu cachorro é fofo. Uma pena que o dono estragou o pacote sendo tão ridículo e insuportável.
Sem resistir, enquanto ela se afastava, Jae-min gritou:
— Não se preocupe, docinho! Eu sou insuportável só nas primeiras impressões!
Por impulso, levantou o braço e fez o famigerado gesto de “fala com a minha mão” sem olhar para trás, fazendo alguns alunos rirem ao redor.
Jae-min riu de verdade, e o riso dele ecoou genuíno pelo pátio, coisa rara ultimamente. E isso a irritou ainda mais porque ela gostou do som.
Thor, confuso, olhou de um para o outro e depois correu até , levando o copo amassado na boca.
Ela se virou, arqueando a sobrancelha.
— Ele quer me devolver o copo?
— Não. — Jae-min respondeu, com um sorriso torto. — Ele só está escolhendo o lado mais simpático.
se abaixou, acariciando o cachorro.
— Boa escolha, grandão.
Depois lançou um último olhar para Jae-min, o tipo de olhar que dizia “não acabei com você ainda” e saiu andando, com o queixo erguido e o terninho agora sujo.
Jae-min ficou parado por um instante, observando-a se afastar. O sol finalmente começando a esquentar pra valer, iluminando o pátio, e por um segundo ele teve a impressão de que aquela garota desastrada tinha acabado de transformar a manhã mais comum da semana na mais interessante.
Ele olhou para Thor, que ainda abanava o rabo.
— É, garoto… — Jae-min sorriu. — Acho que a gente acabou de encontrar encrenca.
Thor latiu, concordando.
O aroma forte de café, falta de banho e desespero se misturava ao frio cortante da manhã de setembro, espalhando-se pelo pátio principal da Universidade Hartbridge, mais conhecida como o campo de batalha diário dos universitários em busca de diploma, cafeína e sanidade mental. O último principalmente.
atravessava o pátio com o semblante concentrado, como quem se preparava para vencer uma grande batalha, naquele momento se sentia uma gladiadora. O cabelo loiro estava preso de um jeito bonito com algumas mechas escapando de forma teimosa; o batom pêssego-nude aplicado apressadamente antes de sair do dormitório começava a desbotar, e o terninho cor de creme contrastava com a expressão de quem dormira apenas três horas por noite durante uma semana inteira.
Mas nem a falta de sono nem o desespero com a prova de Processo Penal a impediria de cumprir o ritual sagrado: encorajar a si mesma.
— Vamos lá, Sav. Três semanas. Só mais três semanas antes da prova, você sabe que consegue — resmungou, tentando equilibrar um copo de latte, alguns livros e seu celular ao mesmo tempo. — Depois disso, ou você passa, ou muda de país e abre um restaurante no Peru.
Enquanto isso, do outro lado do pátio, Han Jae-min se espreguiçou depois de sua corrida matinal com Thor, seu pastor-alemão de aparência tão imponente que parecia pertencer a um esquadrão policial, não a um estudante de Fisioterapia.
Jae-min usava calça de moletom escura, camiseta simples; respiração ritmada, expressão calma, fones de ouvido pendurados no pescoço. Thor trotava ao lado dele todo feliz, a língua de fora, ele sorriu e jogou uma bolinha para o cachorro buscar.
— Vai lá, garoto.
Thor disparou como um raio, atraindo olhares por onde passava e entre eles, o olhar distraído de , que tentava responder uma mensagem e beber o latte ao mesmo tempo.
No entanto, o destino — ou apenas a falta de coordenação motora dela — decidiu agir.
tropeçou no próprio pé, desequilibrou os livros, tentou se recompor e tropeçou de novo, desta vez, no infortúnio de Thor, que havia parado exatamente à sua frente com a bolinha na boca. Num segundo, o copo de latte voou no ar em câmera lenta, descrevendo um arco perfeito e aterrissou direto no peito de Jae-min, que não teve tempo nem de reagir. O líquido quente respingou em seu rosto e espalhou-se pela camiseta, descendo em linhas tortas até a barra.
O silêncio pairou por um segundo que pareceu durar uma eternidade.
O copo caiu no chão com um ploc deprimente.
piscou uma. Duas vezes.
— Meu Deus! — exclamou horrorizada. — Me desculpa! Eu juro que não vi o cachorro, eu só…
— Você só decidiu me batizar com latte quente no meio do campus? — interrompeu Jae-min, olhando para o peito encharcado e depois para ela, com uma sobrancelha arqueada e um meio sorriso incrivelmente irritante. — Criativo. Nunca tentaram me atacar assim antes.
— Atacar? — arregalou os olhos. — Eu tropecei! Você e esse cachorro gigante que apareceram do nada é que são o problema!
Jae-min inclinou a cabeça, observando-a com aquele olhar analítico e insolente que só piorava a situação.
— O “problema”, senhorita desastrada, é a sua coordenação motora. Thor está literalmente parado há cinco segundos.
— Ele é do tamanho de um cavalo, como eu ia ver o chão?! — retrucou ela, ofendida.
Ele deu uma risadinha curta.
— Caramba. E eu achando que estudantes de Direito sabiam argumentar.
bufou.
— Engraçadinho. — Ela cruzou os braços, tentando ignorar o quanto a camiseta colada realçava o corpo dele.
— Realista. — Ele afastou a camiseta do corpo, o tecido colando na pele. — E para constar, essa bebida estava fervendo.
Ela estreitou os olhos.
— Olha, eu já pedi desculpas, tá? Não foi de propósito.
— E eu já aceitei. — O sorriso dele cresceu, preguiçoso. — Só queria deixar registrado que você começou nossa relação literalmente jogando latte quente em mim.
— Relação? — ela quase engasgou. — Tá delirando?
— É o que parece, considerando que você ainda está parada aqui me encarando.
ficou sem palavras por um segundo, sem saber se pegava uma pedra para jogar nele ou em si mesma.
— Você é péssimo.
— Costumam me chamar de “encantador”, mas eu aceito “péssimo”. Combina com o meu humor matinal.
— O seu humor matinal é um desastre.
— E o seu equilíbrio é pior.
Ela soltou um suspiro exasperado, se abaixou para pegar de volta os livros e o celular que por sorte não estava com a tela trincada; virou as costas e começou a se afastar.
— Pois saiba que seu cachorro é fofo. Uma pena que o dono estragou o pacote sendo tão ridículo e insuportável.
Sem resistir, enquanto ela se afastava, Jae-min gritou:
— Não se preocupe, docinho! Eu sou insuportável só nas primeiras impressões!
Por impulso, levantou o braço e fez o famigerado gesto de “fala com a minha mão” sem olhar para trás, fazendo alguns alunos rirem ao redor.
Jae-min riu de verdade, e o riso dele ecoou genuíno pelo pátio, coisa rara ultimamente. E isso a irritou ainda mais porque ela gostou do som.
Thor, confuso, olhou de um para o outro e depois correu até , levando o copo amassado na boca.
Ela se virou, arqueando a sobrancelha.
— Ele quer me devolver o copo?
— Não. — Jae-min respondeu, com um sorriso torto. — Ele só está escolhendo o lado mais simpático.
se abaixou, acariciando o cachorro.
— Boa escolha, grandão.
Depois lançou um último olhar para Jae-min, o tipo de olhar que dizia “não acabei com você ainda” e saiu andando, com o queixo erguido e o terninho agora sujo.
Jae-min ficou parado por um instante, observando-a se afastar. O sol finalmente começando a esquentar pra valer, iluminando o pátio, e por um segundo ele teve a impressão de que aquela garota desastrada tinha acabado de transformar a manhã mais comum da semana na mais interessante.
Ele olhou para Thor, que ainda abanava o rabo.
— É, garoto… — Jae-min sorriu. — Acho que a gente acabou de encontrar encrenca.
Thor latiu, concordando.
