Codificada por Lua ☾
Última atualização: 24/05/2026
Killian Jones tinha certeza de que conhecia os oceanos melhor do que a si mesmo. Ao longo dos anos, havia atravessado tempestades capazes de partir embarcações ao meio, enfrentado monstros que sequer possuíam nomes e navegado por águas além dos mapas.
Ainda assim, naquela noite, bastou um único olhar ao horizonte para fazê-lo perceber que algo estava errado.
O vento açoitava as velas do Jolly Roger e fazia as cordas estalarem acima da cabeça do Capitão Gancho. Ondas escuras golpeavam o casco do navio em intervalos cada vez mais irregulares, como se o oceano tentasse despertar alguma coisa adormecida nas profundezas. Nuvens pesadas cobriam o céu por completo e sua densidade chegava a esconder as estrelas e a lua. Era como se, de repente, o mundo se tornasse um enorme vazio negro, interrompido apenas pelas luzes das lanternas espalhadas pela embarcação.
A maior parte da tripulação já havia corrido para debaixo do convés, a fim de escapar da chuva fina que começava a cair. No entanto, alguns homens continuavam a trabalhar silenciosamente, e, enquanto ajustavam as velas e verificavam as cordas, até eles pareciam mais inquietos que o normal.
Jones apoiou os antebraços na amurada e observou a força com que as ondas se chocavam contra o navio.
Durante muito tempo, acreditara que o mar era a única coisa verdadeiramente livre naquele mundo, mas agora ele sabia que estava errado. O mar era uma prisão, e ele, seu prisioneiro.
Seu olhar perdido percorreu a linha do horizonte e acompanhou o movimento das águas. À primeira vista, o oceano parecia infinito, porém há séculos Killian não conseguia vê-lo da mesma forma. Não importava para onde navegasse, não importava quantos mares cruzasse. Em algum momento, mais cedo ou mais tarde, a maré sempre o encontrava.
Uma rajada de vento ainda mais forte atravessou o convés e jogou seus cabelos para trás. Os respingos de chuva atingiam seu rosto e formavam gotas que escorriam por suas bochechas.
Então ele ouviu.
Tic.
O som era discreto, e qualquer outra pessoa além dele poderia confundi-lo com o simples estalar de uma madeira.
Tac.
O pirata fechou os olhos e respirou fundo. Sabia que não vinha do navio, tampouco das cordas ou das ondas.
Vinha dele, ou melhor, para ele.
O maldito crocodilo.
A terrível sentença que o perseguia por anos. Décadas. Séculos.
Tic.
Tac.
TIC.
TAC!
De repente, era como se o relógio estivesse se aproximando dele. Sua respiração perdeu o compasso, suas mãos suaram frio e…
Atrás dele, passos pesados cruzaram o convés.
— Capitão?
Puxado bruscamente de volta à realidade, Killian sequer precisou se virar para reconhecer a quem aquela voz pertencia.
— Gideon.
O primeiro imediato parou ao seu lado e lançou um olhar preocupado para o horizonte.
— Os homens estão inquietos.
— E não é assim que os piratas costumam ficar quando acreditam que vão morrer?
— É diferente dessa vez, Capitão.
Jones permaneceu em silêncio por incontáveis segundos. Sabia que Gideon tinha razão.
O clima no Jolly Roger havia mudado nos últimos dias. A tensão se fazia presente até mesmo em pequenos gestos: conversas eram interrompidas quando alguém se aproximava, tripulantes trocavam olhares entre si e Tobias, de repente, passava mais tempo rezando do que trabalhando.
Todos haviam sentido, por mais que mal compreendessem. O mar estava mudando, e isso raramente acontecia sem motivo.
Outro trovão cortou o céu, e dessa vez parecia mais próximo. A chuva começou a cair com mais força e espantou mais uma parte da tripulação para debaixo do convés.
— Devemos alterar a rota? — Gideon se pronunciou, e Killian soltou uma risada baixa, completamente sem humor.
— Ah, meu caro. Você sabe tão bem quanto eu que isso não faria nenhuma diferença.
O primeiro imediato não insistiu, simplesmente porque também sabia.
Durante muito tempo, eles tentaram fugir. Mudaram a direção, o oceano, e até mesmo o mundo, porém não importava. A maré sempre encontrava o caminho de volta.
Tic.
Tac.
O Capitão apertou os dedos contra a madeira molhada da amurada.
A cada momento, aquele som parecia estar mais perto, e uma sensação desagradável percorreu sua espinha.
Era difícil explicar aquilo para alguém que nunca o ouvira. O tique-taque não era apenas um barulho insuportável, era uma presença. Um lembrete constante de algo inevitável. Como se o crocodilo fosse um carrasco indo lentamente até ele, enquanto os olhos diabólicos brilhavam em sua direção.
Atrás deles, uma porta bateu com violência e os fez se sobressaltarem.
Tobias surgiu no convés e praticamente corria sob a chuva. Estava muito mais pálido que o normal, e seu olhar passou de Gideon para Killian.
— Capitão…
Talvez fosse o tom ofegante ou algo em seu olhar assustado, porém Jones percebeu de imediato. Pela primeira vez, alguém também havia ouvido o relógio.
— O quê? — Gideon estava sem entender, mas Tobias sequer fez menção de responder.
Naquele mesmo instante, um novo trovão explodiu acima deles. O céu se partiu no meio, um clarão iluminou o oceano e, por um único segundo, algo apareceu entre as ondas.
Killian estreitou os olhos e se inclinou um pouco. Parecia uma silhueta pequena, distante e arrastada pela tempestade.
Quando a escuridão retornou, a figura desapareceu.
— Capitão? — a voz de Tobias murmurou, ansiosa.
Outro relâmpago rasgou o céu, forte o bastante para cegá-los por um instante e arrepiar os pelos de seus braços.
— Capitão! — Dessa vez, Tobias apontou, frenético.
A figura havia surgido novamente, e, dessa vez, não havia dúvidas: era uma pessoa sozinha, à deriva e em meio àquela tempestade terrível.
Como aquilo era possível?
Por um instante, nenhum dos três se moveu.
Nenhum ser humano era capaz de sobreviver naquelas águas, não naquela noite, com os relâmpagos espalhando clarões por toda a parte, e muito menos longe de qualquer pedaço de terra.
O oceano rugiu ao redor do navio, as ondas cresceram, e o vento uivou mais forte entre as velas.
Pela primeira vez em muitos anos, uma sensação que Killian Jones havia esquecido atravessou seu peito. Um pressentimento, como se algo estivesse prestes a transformar tudo o que ele conhecia.
A maré finalmente parecia ter decidido trazer algo em vez de apenas levar. O Capitão, no entanto, ainda não sabia dizer se aquilo era bom ou ruim.
Ainda assim, sua decisão já estava tomada.
— Tragam-na a bordo — ordenou a Gideon.
Tic.
TAC!
O som ecoou uma última vez, mais próximo do que nunca.
E, em algum lugar sob as águas escuras, algo pareceu despertar.
FIM!
Nota da autora: Vou começar essa nota com um agradecimento especial à Taíssa, por ter feito essa capa MARAVILHOSA, que me inspirou a escrever a minha primeira história com piratas. E quer um pirata mais delicioso do que Killian Jones? hehehehe.
Espero que gostem e aproveitem essa aventura a bordo do Jolly Roger.
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥
Espero que gostem e aproveitem essa aventura a bordo do Jolly Roger.
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥
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