Enquanto se pendurava em suas teias e atravessava os grandes prédios de New York, Peter não conseguia evitar pensar que há apenas poucos minutos estava na companhia de alguém incrível como . A sintonia entre eles era inegável, e Parker chegou até a se sentir idiota por ter tentado fugir dela no início.
No fim das contas, ele concordou com ela. Não precisava ficar sozinho.
No entanto, se a explosão tivesse ocorrido momentos antes, como Peter explicaria que precisava sair correndo? Apenas naquele momento se deu conta daquilo, afinal, não poderia simplesmente dizer que era o Homem Aranha. Não por não confiar em , mas porque todas as pessoas que sabiam sua identidade corriam risco.
Precisava pensar em desculpas aceitáveis se quisesse continuar com ela por perto. E o faria, porém não naquele momento.
O Homem Aranha não demorou a encontrar o local da explosão. Uma grande nuvem de fumaça negra era visível no céu e, ao se aproximar, se ouviam sirenes de ambulâncias e do caminhão de bombeiros, além das vozes e do choro dos populares e vítimas daquele acidente.
— Olha, é o Homem Aranha! — uma das pessoas disse, e logo em seguida vários olhares se voltaram para ele. Apesar de estar um tanto acostumado com aquele tipo de coisa, ainda assim sentia uma certa emoção ao ver como todos sempre confiavam suas vidas, ao mesmo tempo em que havia aquele frio na barriga. Querendo ou não, salvar pessoas com outras assistindo o deixava nervoso.
Aproveitando a deixa, Peter se aproximou ainda mais do prédio em chamas e não demorou a encontrar o andar onde havia ocorrido a explosão.
Enquanto alguns bombeiros tentavam conter as chamas, outros haviam se arriscado a entrar no lugar e resgatar as vítimas, que logo em seguida foram atendidas pelos paramédicos nas ambulâncias.
Parker estava prestes a soltar um cumprimento amigável aos bombeiros e questionar no que ele poderia ajudar, quando um grito por socorro chamou a atenção de todos.
Os olhos de Peter se arregalaram no mesmo instante. De alguma forma, uma mulher havia despencado da janela de seu apartamento e a única coisa que a impedia de ir de encontro ao chão eram suas duas mãos agarradas com força ao parapeito. Piorava ainda mais o fato de a estrutura da parede estar a ponto de se romper a qualquer momento.
Mais gritos ecoaram, junto a exclamações de surpresa. Outra vez, os olhares se voltaram para o Homem Aranha, que na verdade nem precisava daquilo para saber o que deveria ser feito.
Provavelmente algumas palavras de incentivo e expectativa foram proferidas a ele, no entanto, Parker voltou sua atenção unicamente para o prédio, pensando na forma mais rápida de alcançar a mulher sem que tudo desabasse.
Seria difícil, ele sabia daquilo. Estava surpreso porque nada havia despencado ainda, sem falar na quantidade absurda de fumaça que a vítima engolia.
Peter teria que fazer uma escolha a qual não hesitaria. Entre salvar a vida daquela mulher ou tentar manter as paredes no lugar, não havia muito o que pensar.
— Galera, vamos manter aquela área isolada. As paredes não vão aguentar muito tempo — alertou a todos e recebeu afirmações como resposta.
Respirando fundo, o Homem Aranha correu até o edifício ao lado, subiu na parede com agilidade e lançou sua teia acima da janela onde a mulher estava. Sem perder tempo, ele saltou, se pendurou e ficou um pouco abaixo dela.
Mesmo sabendo que o herói estava ali para salvá-la, a vítima temeu e, por mais que tentasse, simplesmente não conseguia se mover. Seus olhos oscilavam entre Peter, o chão abaixo dela e suas mãos com os nós dos dedos brancos de tanta força que fazia para se manter pendurada. A dor era absurda, seus pulmões protestavam, e lágrimas escorriam por suas bochechas. Queria se render, mas não podia.
— Ei, eu sei que você está com medo, mas tenta olhar só pra mim, tá bom? — A voz do Homem Aranha chamou a atenção dela, que imediatamente o encarou, chorou ainda mais e sentiu seus lábios tremerem.
Parker percebeu uma tentativa falha e desesperada de respondê-lo, porém os pulmões da mulher protestaram novamente, porque outro esforço para falar tiraria ainda mais seu oxigênio e a concentração em se manter firme.
— Eu perguntaria seu nome, só que nós não temos muito tempo. Então quando eu contar três, preciso que você se solte. — Os olhos dela se arregalaram com aquilo. — Confie em mim.
O tom de voz de Peter era tão gentil que não havia como não se sentir segura naquele momento. E, engolindo em seco, a vítima assentiu, se preparou e reuniu uma última dose de coragem.
— Um… — O próprio Parker se concentrava para que nada desse errado. — Dois… — Lá embaixo, as pessoas haviam prendido a respiração, todas em expectativa pelo que aconteceria. — Três!
No momento em que a mulher se soltou, o Homem Aranha a segurou em seus braços.
— Segura firme! — pediu urgente e não hesitou em lançar uma teia em direção a um ponto mais adiante (e aparentemente seguro) e outra no meio de um dos postes, aterrissando próximo às ambulâncias logo em seguida.
Vários gritos de comemoração e salvas de palmas ecoaram no instante em que todos se deram conta de que Peter havia conseguido.
— Melanie. Meu nome é Melanie — a mulher sussurrou com a voz fraca, enquanto permanecia agarrada ao pescoço dele, totalmente tensa.
— E eu sou o Homem Aranha. Você tá segura agora, Melanie, e os meus amigos ali vão cuidar de você. Não sei como conseguiu aguentar engolir tanta fumaça. — Mostrou os paramédicos nas ambulâncias, e Melanie se agitou nos braços dele.
— Minha mãezinha ficou presa dentro do outro quarto. Por favor, ajude ela também. — Então Peter entendeu o motivo de ela estar tão desesperada mesmo a salvo.
Alarmado, olhou de volta para o prédio e foi acompanhado pelas pessoas que haviam escutado aquilo.
E como se precisasse daquele gesto, uma parte da estrutura da parede despencou.
Parker sabia que as outras pessoas também reagiam àquilo, porém focou apenas no soluço esganiçado de Melanie.
— Em poucos minutos, ela vai estar ali contigo. — Indicou novamente a ambulância, e dessa vez a mulher assentiu e permitiu que ele a colocasse no chão.
No mesmo momento em que os paramédicos ampararam Melanie, Peter voltou a se lançar em direção ao prédio, o adentrou e torceu para tudo não desabar por completo com ele ali.
Depois de esperar alguns segundos para se certificar de que ainda havia alguma firmeza no chão, Parker avançou pelo cômodo, que não demorou a reconhecer como um quarto, provavelmente o de Melanie. O fogo não tinha chegado até ali, porém a fumaça, sim, e essa cobria todo o ambiente, o que o fez se sentir até um pouco tonto.
Por dois segundos, se perguntou se o uniforme do Peter Parker daquele universo do mago teria um filtro ou algo do tipo para situações como aquela e logo em seguida concluiu que era muito provável. Aquilo tinha nanotecnologia, pelo amor de Deus!
O Homem Aranha voltou a se concentrar e focar em seus sentidos, determinado a detectar qualquer sinal de que a mãe de Melanie estava viva. Mais alguns passos foram dados por ele e, assim que deixou o quarto, viu uma sala conjugada a uma cozinha e um pequeno corredor que levava a outras duas portas. Não era um ambiente muito grande, ou ao menos foi o que Peter imaginou, porque uma parte do ambiente estava destruída.
Ali, sim, o fogo lambia cada móvel que tocava e avançava com força, aumentava o nível da fumaça e tornava o local absurdamente quente.
Ao ignorar o som do crepitar das chamas, a sensação de sufocamento e seu próprio instinto de sobrevivência, o alertando que o melhor era sair dali imediatamente, Parker apenas
seguiu para o corredor.
A poucos passos de uma porta à esquerda, enquanto tentava ao máximo se manter esperançoso, porque não havia detectado sequer um movimento ali próximo, de repente, Parker ouviu o som de uma respiração.
Era fraco, quase totalmente esgotado, e os batimentos eram tão lentos que o Homem Aranha não hesitou em correr até o cômodo.
Quando tocou na maçaneta da porta, a sentiu tão quente que imediatamente recolheu sua mão. O local era logo ao lado da sala, o que explicava as chamas também já terem o atingido.
Parker tomou um impulso, então chutou a porta com força e percebeu que o cômodo era outro quarto, porém toda a parede onde deveria haver uma janela tinha desabado e revelava o outro apartamento.
Era um milagre que aquela senhora estivesse viva naquele lugar.
Caída a poucos passos da porta, a mulher grisalha estava desacordada, o que Peter concluiu ter acontecido por conta da quantidade de fumaça. Estava cada vez mais difícil para ele mesmo respirar e só faziam poucos minutos que tinha entrado ali.
Sem hesitar, o Homem Aranha chegou ainda mais perto da mãe de Melanie e a ergueu em seus braços. O corpo dela estava bastante pesado, devido ao seu estado de inconsciência, e ele encontrou um pouco de dificuldade em dar os primeiros passos. Seus pulmões protestavam cada vez mais por oxigênio e, desejando realmente um filtro de fumaça em seu uniforme, voltou até o quarto que imaginou ser de Melanie.
Não havia mais tempo para avaliar novamente a instabilidade do chão. Apesar da alta resistência, uma ardência em seu peito e uma certa sonolência tomavam conta de si, e Peter sabia que se permanecesse ali por mais alguns minutos, não poderia mais ajudar aquela mulher, porque ele mesmo estaria tão desacordado quanto ela.
E talvez até mesmo morto.
Ao tomar mais um impulso, Parker se esforçou para conseguir sustentar a senhora com um de seus braços, enquanto corria e lançava sua teia no mesmo poste usado ao salvar Melanie, que imediatamente veio em sua direção. Mesmo encontrando dificuldades porque estava fraca, a mulher apressou seus passos até parar diante do Homem Aranha e estendeu os braços enquanto chorava, num pedido mudo para que ele lhe entregasse sua mãe. Outra ovação ecoou da multidão, que assistia tudo atentamente.
— Aqui, nessa maca você não vai precisar se esforçar. — Gentilmente, Peter seguiu até uma das ambulâncias, onde os paramédicos já haviam deixado uma de plantão, e colocou a senhora sobre ela. — Eu a encontrei desacordada, Melanie, mas sua mãe é bem forte. Esse pessoal incrível vai cuidar dela pra você também.
— Obrigada… — A voz da mulher soou rouca e chorosa. O nó do desespero continuava apertando sua garganta e, mesmo com a intenção de dizer mais algo, sua fala foi interrompida por um estrondo.
A estrutura onde Parker estava segundos atrás, por fim, desabou em uma proporção um tanto maior do que ele esperava.
— Me diz que não tinha mais ninguém lá. — Peter se surpreendeu ao ouvir um dos bombeiros a poucos metros dele. A aflição era nítida em sua fala, e quando o Homem Aranha o encarou, percebeu sua expressão preocupada e chateada.
— Não. Não tinha. — Mesmo atordoado pelas próprias condições físicas, o herói se certificou daquilo e seu sentido aranha não falhava.
Seu peito ainda ardia, a sonolência o incomodava, e uma dor na garganta indicavam o quanto a fumaça havia o afetado. Ainda assim, Parker continuou ali até se certificar de que o fogo havia sido apagado e as vítimas devidamente atendidas.
Com um aceno simpático, o Homem Aranha se afastou, lançou uma teia e se pendurou para seguir de volta ao seu apartamento.
Não sabia se teria forças para agir se encontrasse mais alguém em perigo, porém sua vontade de ajudar as pessoas e as salvar sempre prevalecia.
Assim que adentrou finalmente a janela do lugar que chamava de lar, Parker imediatamente tirou sua máscara e começou a tossir incessantemente. Talvez tivesse engolido muito mais fumaça do que se deu conta.
Não demorou a abrir a geladeira e beber todo o conteúdo de uma garrafinha de água, pegou outra e bebeu também, porém de forma mais lenta dessa vez.
Descobriu que a mãe de Melanie se chamava Eleonor, e não pôde evitar se colocar no lugar da mais jovem. Ele já havia perdido tantas pessoas, mas não sabia o que seria de si se sua tia May fosse tirada dele.
Outra vez, pensou no
Peter 1 e suspirou fraco. Perder as pessoas que amava parecia ser o destino do Homem Aranha em todos os universos.
No entanto, lembranças diferentes tomaram lugar em sua mente. A forma como Melanie havia lhe agradecido, as pessoas aliviadas quando o viram chegar. Não havia nada melhor do que a sensação de ajudar quem quer que fosse. De salvar vidas. De ser um herói.
No fim das contas, mesmo já tendo cogitado algumas vezes — não seria hipócrita, ele havia ponderado, sim —, Peter Parker jamais deixaria de ser o Homem Aranha.
🕷
Um sorriso bobo permaneceu no rosto de durante todo o seu trajeto para casa. Mesmo quando se dava conta disso e tentava disfarçar, segundos depois já o exibia novamente, e, depois de quatro tentativas, decidiu que não havia nada de errado em demonstrar como estava alegre.
A companhia de Peter era tão boa que ao menos via as horas passarem, e ela mal conseguia acreditar que, graças a ele, havia conhecido um dos cientistas que despertaram sua paixão pela ciência. Connors a decepcionou, percorreu caminhos tortuosos e se deixou levar, sim, porém era brilhante e acrescentou várias informações e sugestões valiosas à sua pesquisa.
recebeu conselhos do Doutor Connors, dava para acreditar?
Se alguém lhe dissesse que aquilo aconteceria um dia, teria rido. Assim como a ideia de ser amiga e até mesmo trocar flertes com Peter Parker.
não era bem do tipo insegura, afinal,
ela tinha o chamado para sair, não é mesmo? Porém havia se conformado com a ideia de que passaria a vida inteira se dedicando ao seu trabalho, onde não haveria espaço algum para um romance.
Um romance?
Mas no que estava pensando?
Negou com a cabeça, rindo sem tirar a mesma expressão boba de seu rosto. E no momento em que chegou diante de sua porta, encontrou Hellen parada ali, com a mão erguida como se estivesse prestes a bater.
— Ora ora, isso são horas, mocinha? — a senhora Corbyn ralhou, fazendo rir mais uma vez, porque sabia que ela estava apenas brincando, embora uma sempre se preocupasse com a outra.
— Perdi a noção do tempo. — deu de ombros e torceu a boca, se segurando para não sorrir ou Hellen certamente perceberia algo acontecendo.
— Outra vez? — Uma sobrancelha da mulher se ergueu e apenas assentiu, murmurou um “uhum” enquanto se voltava para a porta, tratou de destrancá-la e entrou em seu apartamento com Corbyn em seu encalço.
Ao tirar o celular do bolso do casaco para poder se despir da peça e pendurá-la em um dos ganchos logo na entrada, não conseguiu evitar acender o visor do aparelho para verificar se recebeu alguma mensagem.
— Estava com ele, não? — Hellen foi direta, e ergueu a cabeça tão bruscamente que se aquele gesto não a denunciasse, o estalo em seu pescoço teria o feito.
— Ele quem? Claro que não, Hellen! — negou duas vezes e se praguejou segundos depois de perceber a contradição em suas palavras.
— Não se faça de boba, menina. Você sabe muito bem de quem eu estou falando! — Os olhos da senhora Corbyn se estreitaram em sua direção.
— E se eu disser que estava, a senhora vai me deixar em paz? — brincou para tentar disfarçar o rubor que sentiu surgir em seu rosto, enquanto a mulher soltou uma risada empolgada.
— Até parece que não me conhece. Ah, muito pelo contrário, a última coisa que vou fazer é deixá-la em paz depois disso. — As feições de Corbyn se iluminaram ainda mais e ela bateu pequenas palmas, demonstrando o quanto aquilo a deixava animada. Fazia tantos anos que não vivia um romance e pelo menos assistir com o possível namoradinho aquecia um pouco o seu coração.
— Sabe o que é? Eu preciso terminar uns relatórios para o laboratório e…
— Ótimo. Vou fazer um café pra você enquanto me conta todos os detalhes. — No instante seguinte, a senhora Corbyn já seguia até a cozinha.
Um suspiro alto ecoou dos lábios de . Ela já imaginava que Hellen faria algo do tipo, porém ainda havia guardado um resquício de esperança.
Se dando por vencida, a acompanhou e se encostou na pia, enquanto observava Hellen pegar todos os ingredientes necessários, ligando a cafeteira logo em seguida. não sabia o que ela fazia, mas o café da senhora Corbyn definitivamente era melhor do que qualquer outro. E por isso nem reclamou de nada.
A cozinha permaneceu silenciosa por alguns minutos. Até que a mulher olhou para e ergueu uma sobrancelha.
— E então?
— E então o quê? — franziu o cenho, sem entender nada.
— Não banque a sonsa, mocinha. Desembuche.
teria rido se não estivesse tensa. Hellen era como uma segunda mãe que ela havia ganhado.
— Olha só, eu já fui tratada melhor, hein? — implicou, apenas para provocar a mais velha e enrolar mais um pouco.
— Você não vale nada, menina. Mas nesse seu jogo aí eu virei mestre.
Desembuche — insistiu, frisando bem a palavra.
— Tá certo, tá certo. — de repente se deu conta de que estava ainda mais nervosa e respirou fundo.
Era Hellen, ela não precisava temer a reação dela. Então seguiu até um dos armários, puxou um pote de biscoitos e ofereceu à mulher antes de pegar um para si.
— Bom, ele simplesmente me levou para conhecer um dos cientistas que mais me inspiraram. Acho que estou até demorando a acreditar que tudo foi mesmo real. — Suas feições até demonstraram o quanto estava feliz.
A senhora Corbyn voltou a sorrir sugestiva.
— Que atencioso da parte dele. E você ainda quer me convencer de que não há nada entre vocês? — Ergueu uma sobrancelha, e rapidamente negou com a cabeça. Não devia mais se espantar com a audácia de Hellen, mas sempre acontecia.
— Nada a ver, Hellen! Não é nada disso. O Peter sofreu uma perda terrível e…
— Ah, então o nome dele é Peter? Finalmente estamos progredindo. — estreitou seus olhos para a mulher, que soltou uma risadinha. — Está bem, continue… Mas já me conta o sobrenome.
— Não vou te contar mais nada, Hellen Corbyn. Boa noite! — cruzou os braços, fechou a cara e seguiu em direção ao corredor que a guiaria ao seu quarto.
— Não vai tomar seu café, não? — Hellen sabia que aquele era o ponto fraco de e o cutucava sempre que era necessário.
suspirou alto, revirou os olhos e retornou até o lado da mulher, que riu baixinho.
— Só te digo o sobrenome dele, se me prometer que não vai sair o adicionando em todas as redes sociais possíveis. Nem eu fiz isso! — alertou, esperando realmente que a senhora Corbyn a atendesse.
— Se não fez, está perdendo tempo, mas eu prometo, vai — Hellen logo completou, ao ver abrir a boca para protestar a primeira parte de sua fala.
— O nome dele é Peter Parker. Só que realmente não é nada como você está insinuando. Ele sofreu uma perda muito ruim e não está pronto para se envolver com outra pessoa. — A mulher não conseguiu evitar suspirar com aquilo.
— Ele lhe disse isso? — a senhora Corbyn indagou e parou momentaneamente de fazer o café para olhar com atenção.
— Disse no primeiro momento em que nos conhecemos. E depois veio se desculpar e pediu para recomeçarmos. E eu aceitei, sabe? Quem nunca começou as coisas de forma errada, não é? Só que agora eu já sei que seremos apenas amigos. Eu
preciso lembrar disso, Hellen.
Até aquele momento, não havia se dado conta de que, por mais animada e encantada que estivesse, não podia ficar fantasiando as coisas. Peter havia deixado claro desde o início que não estava disponível emocionalmente, e ela precisava parar de achar que ele havia mudado de ideia só porque trocavam uns flertes de vez em quando.
Talvez nem fossem flertes. Talvez fosse apenas o jeito dele.
Droga, por que de repente ela estava tão insegura? não era assim.
— ? — Se assustou ao sentir a mão de Hellen tocar seu ombro gentilmente. A senhora havia parado tudo o que estava fazendo e se aproximado ao perceber o surto interno da amiga.
— Desculpa, acho que me distraí — murmurou e fez uma careta.
— Por que não volta a me contar sobre o que vocês fizeram hoje, uh? — O tom gentil de Hellen fez sorrir fraquinho e concordar com um aceno de cabeça.
— Outro dia estávamos conversando sobre a minha pesquisa e eu acabei soltando que sempre fui fã do Doutor Connors e do Doutor Parker, que era pai de Peter, mas morreu quando ele era criança.
— Pobrezinho… — Corbyn murmurou, sem desviar sua atenção de .
— E hoje Peter simplesmente me convidou para ir até a casa do Doutor Connors. Eu nem acreditei, sabe? Achava que seria impossível ele nos receber, mas tinha esquecido de que… bem, o Peter é filho do ex-parceiro de pesquisa dele, certo? Então eu não só conheci um dos cientistas que me inspirou, como também recebi várias dicas para o meu trabalho.
ainda estava um tanto triste com seus pensamentos anteriores, mas contar sobre seu passeio serviu para trazer um pouco daquela animação de antes.
— Sabe, no meu tempo, isso aí era uma tentativa de impressionar. — E, mais uma vez, o sorriso sugestivo de Hellen estava de volta.
— Não. Não faça isso. A gente não se decepciona quando não cria expectativas sobre as coisas. — ficou séria e respirou fundo, tentando convencer a si mesma a seguir suas próprias palavras.
— Tudo bem, você até tem razão. — A senhora Corbyn não gostou do rumo que a conversa voltava a tomar. — Mas, quer saber? Traga-o aqui.
arregalou os olhos.
— O quê?
— Você ouviu, menina. Traga esse tal de Peter Parker aqui. Invente alguma coisa.
— E por que eu deveria fazer isso? — Ela ainda estava surpresa com aquela sugestão. Realmente não fazia ideia de qual era a intenção de Hellen com aquilo.
— Porque eu quero dar uma boa olhada nesse homem. Minha intuição nunca falha.
deveria imaginar algo daquele tipo.
Sem conseguir se conter, soltou uma gargalhada.
Aquele era um dos motivos de ela não conseguir se imaginar morando em qualquer outro lugar além daquele apartamento. Como poderia viver sem alguém como Hellen Corbyn ao seu lado?
— Tá certo. Eu vou ver o que posso fazer.
As duas continuaram a falar sobre Peter. Hellen pedia por mais detalhes sobre tudo e foi contando. Se sentia absolutamente à vontade e sabia que poderia confiar até mesmo a sua vida à mulher.
Corbyn percebia o brilho nos olhos da jovem e a empolgação dela ao falar sobre Peter. Apesar do surto momentâneo, ela estava encantada e a senhora conseguia perceber que o homem fazia bem a . Por isso, mesmo sem conhecê-lo, ela já sentiu que gostava dele.
Quando o café expresso ficou pronto, elas resolveram bebê-lo na sala, com o pote de biscoitos em cima da mesinha de centro e a televisão ligada em um canal qualquer.
— Esqueci de te contar um detalhe. Vamos sair na sexta à noite — murmurou, levou a xícara de café à boca e quase se engasgou quando sentiu Hellen estapear seu braço.
— Menina, como você esquece de contar logo isso?
— Vou anotar aqui que a senhora anda muito violenta também, viu? — Corbyn estava tão acostumada com aquela estratégia para desconversar que apenas estreitou os olhos, gesto que arrancou uma risadinha de . — Tá bom, desculpa. É que eu fiquei tão surtada comigo mesma e…
— Como foi isso? — Hellen a interrompeu, porque sabia que a mulher voltaria a divagar sobre aquilo e acabaria surtando de novo. Era sempre assim. não podia pensar demais sobre nada, ou cogitava demais e acabava tirando as piores conclusões.
— Ah, depois que saímos da casa do Doutor Connors, Peter acabou dizendo que me chamaria pra ir beber algo se não estivéssemos cheios de chá, eu disse que aceitaria, então ele propôs que fizéssemos isso outro dia. — bebeu mais um gole de café e mordeu o lábio depois de engolir para poder concluir sua fala. — Daí eu marquei para sexta, às nove.
— Colocou ele na parede, uh? — Corbyn soltou uma risadinha.
— Não! Eu só não gosto de fazer a promessa de deixar para outro dia e nunca chegar de fato a escolher esse dia. Então simplesmente marquei de uma vez. — Deu de ombros.
— Fez bem. E ele?
— Aceitou na hora.
Mais uma vez, a mais velha riu.
— Eu não sei por que você ficou aí endoidando, menina.
— Como assim?
— Tudo bem que não entendo direito as amizades de hoje em dia. Acho normal, sim, amigos saírem numa sexta à noite, mas os flertes que você me contou me dizem outras coisas.
— Hellen…
— Eu sei, você não quer criar expectativas. Mas quer saber como você vai descobrir o que isso tudo quer dizer?
— Como? — até se inclinou um pouco para ouvir melhor, e a mulher teria rido outra vez, mas se conteve.
— Continue sendo você mesma e flerte bastante com ele. Pelo que percebi, quanto mais você fizer isso, mais vai mexer com esse rapaz.
— Hellen! — Foi a vez de rir.
— Hellen nada. Joga seu charme, menina! No meu tempo, a gente só ficava na… como é mesmo que vocês chamam?
—
Friendzone? — estreitou os olhos, sem acreditar que a amiga estava mesmo dizendo aquilo.
— Isso! A gente só ficava nessa
friendzone se quisesse. Não há nada que uma mulher não possa fazer.
acabou sorrindo, gostando de ouvir aquilo. De fato, se achou um tanto tola por ficar surtando daquele jeito. O conselho de Hellen realmente serviu para ela recuperar um pouco de sua autoconfiança.
Abriu a boca para agradecer à mulher, mas então percebeu que a senhora Corbyn havia desviado o olhar para a televisão, que exibia o noticiário.
Explosão causa incêndio em prédio. Homem Aranha mais uma vez salva o dia.
não sabia se se espantava com a dimensão do incêndio, porque uma estrutura da construção parecia prestes a desabar, ou se ficava indignada com a audácia da imprensa em filmar cada momento daquilo. Não era a primeira vez, a mídia sempre se aproveitava para cobrir tudo o mais próximo possível, porém aquele tipo de coisa muitas vezes acabava atrapalhando o trabalho das pessoas que estavam ali salvando vidas.
Àqueles sentimentos também se somou o de seu coração disparar pela ideia de ver seu herói favorito na tela. Ela sabia, era bobo e a deixava parecendo uma adolescente, mas não conseguia evitar. O Homem Aranha era incrível, e admirava tudo que ele fazia.
A mulher inclusive não soube como conseguiu se manter tão discreta quando conversou sobre aquilo com Peter, mas agradeceu internamente por aquilo.
O fato foi que, ao ler aquele nome na legenda, imediatamente aumentou o volume da televisão e não desviou mais seus olhos dali.
e Hellen assistiram o momento em que o Homem Aranha se aproximou da mulher pendurada do lado de fora da janela e esta logo saltou para que ele a pegasse. Não demorou muito para ambos aterrissarem e, acompanhando as salvas de palmas das pessoas naquele local, as duas amigas também comemoraram.
— Me diga como não amar uma pessoa dessas? — Os olhos de brilhavam de emoção.
— Eu queria ser uma mosquinha só pra ver quem está embaixo da máscara, sabe? — Hellen também era uma grande fã do amigo da vizinhança e aquele comentário fez as duas rirem. Estavam aliviadas por ele ter conseguido.
No entanto, suas feições logo voltaram às de preocupação.
— Espera, acho que ainda tem alguém dentro do prédio. — se inclinou no sofá, até levando uma unha à boca e roendo o esmalte preto, o descascando.
— Oh, meu Deus. Não acredito! Coitadinho, ele vai entrar lá. — A senhora Corbyn levou as duas mãos à boca.
Até parecia que era ao vivo. Mesmo sabendo que tudo havia se resolvido no final, as duas estavam nervosas.
Nos minutos seguintes, elas tornaram a assistir sem ao menos piscarem. A tensão era palpável naquele ambiente, e ambas desejavam internamente que tudo desse certo, que o Homem Aranha conseguisse salvar aquela outra pessoa e que o fogo e aquela fumaça toda não lhe fizessem mal.
— Acho que eu já teria desmaiado lá dentro — murmurou, com o olhar fixo na tela e roendo ainda mais a unha.
Do ponto em que a imprensa filmou, de repente já não dava mais para ver o herói em ação e só lhes restou ficar no mesmo lugar que as pessoas naquele local, paradas, encarando a janela em expectativa e torcendo para tudo dar certo. Confiavam, sim, no Homem Aranha, mas também sabiam que ele não era invulnerável.
— Vamos lá… Vamos lá… — Foi a vez da senhora Corbyn sussurrar, até tremendo os lábios, prestes a se debulhar em lágrimas.
Uma sombra pareceu se aproximar da janela e, sem perceberem, as duas mulheres prenderam suas respirações.
Assim que a figura do Homem Aranha carregando mais uma vítima salva apareceu, gritos irromperam pela sala e as amigas se levantaram em um salto.
— Ah, eu sabia! Eu sabia que ele conseguiria! — puxou Hellen para um abraço e elas ficaram por mais alguns segundos rindo e soltando exclamações de comemoração.
— Você já contou isso para o seu “amigo” Peter Parker? — Corbyn indagou, quando as duas voltaram a se sentar.
franziu o cenho.
— Contei o quê?
— Que ele vai ter que disputar você com o Homem Aranha, é claro.
levou alguns segundos para processar que sua amiga realmente havia dito aquilo, então, sem nem pensar direito, pegou uma almofada e jogou na mulher.
— Pare com isso, Hellen. Não tem disputa nenhuma! — chegou até mesmo a sentir suas bochechas esquentarem.
— Ah, é? Você escolheu um? Ou quem sabe quer os dois? Nesse caso, eles vão
dividir você. — O sorriso malicioso da senhora Corbyn era inacreditável.
— Às vezes eu me pergunto o que se passa pela sua cabecinha fantasiosa, Hellen, mas acho que é melhor
mesmo eu não saber.
— Não queira mesmo, querida. Se eu estivesse com a sua idade, esse Homem Aranha não me escapava. — Piscou para .
— Chega, viu? Depois dessa, eu vou até dormir. — Se levantou e juntou as louças da mesinha de centro para levar à cozinha e realmente começar a se ajeitar para ir descansar.
— Pode ir. Eu vou ficar aqui admirando mais um pouco essa belezinha.
— Vai pra sua casa, mulher! — riu alto, mas não falava sério.
Com Hellen ali, ela nunca se sentia sozinha.
🕷
Peter ainda estava cansado quando acordou no dia seguinte. Sua cabeça doía e seu corpo pesava como se ele tivesse sido atropelado por um caminhão, sem falar em sua garganta, que ainda arranhava de uma forma incômoda.
No entanto, ainda assim, ele insistiu em se levantar da cama. Precisava chegar à universidade um pouco mais cedo, já que precisava organizar tudo para a primeira aula do dia.
De repente, se perguntou se conseguiria se dedicar a uma pesquisa, assim como , porém sabia que seria complicado. Se já estava sendo difícil equilibrar sua vida dupla tendo dois empregos, imagina só com mais aquilo?
Não. Deixaria o lance das pesquisas e horas de laboratório para .
Percebendo o rumo de seus pensamentos, Parker negou com a cabeça. Não era ele que achava que jamais conseguiria se envolver com outra pessoa?
Quem sabe a culpa daquilo não fosse toda dela. era charmosa e sabia daquilo, principalmente porque a todo o momento jogava aqueles flertes.
Como ele não ficaria afetado com aquilo? Ainda mais sendo linda do jeito que era.
— É. Você tá ferrado. — Encarou o próprio reflexo no espelho, se referindo tanto ao seu estado emocional quanto ao físico, já que todo o cansaço se refletia em bolsas enormes logo abaixo de seus olhos.
Sem perder mais tempo, Peter pegou um pacote de biscoitos para levar consigo e comer mais tarde. Ele sempre acordava com fome, mas naquele dia ainda se sentia um tanto nauseado e não quis arriscar colocar tudo pra fora.
Preferindo ir do jeito convencional para a universidade, Parker aproveitou para observar um pouco as coisas ao seu redor, fazendo uma nota mental de que precisava passar no Clarim Diário mais tarde. Ele podia simplesmente enviar as novas fotos do Homem Aranha em ação para o senhor Jameson, porém o homem não aceitava, porque não sabia lidar com aquele tipo de tecnologia, então insistia que Peter trouxesse o material até o jornal.
Pensar no seu segundo ambiente de trabalho o fez lembrar da floricultura onde trabalhava e, contrariando o pensamento de que provavelmente era muito cedo para mandar mensagens a ela, Parker digitou um simples
“Bom dia ☺️”.
Aproveitou para ver as outras notificações e percebeu uma chamada não atendida de tia May, o que o fez se sentir um tanto culpado por aquilo. Havia prometido não ficar tão distante dela e até então não estava cumprindo.
Ele teria mais alguns quarteirões de caminhada até finalmente chegar ao trabalho, então rapidamente discou o número conhecido, sem nem se preocupar se ela estaria acordada naquele momento, afinal, Peter a conhecia muito bem e sabia que a resposta era sim.
—
Alô? — A voz de May ecoou no terceiro toque.
— Bom dia, tia May! — Parker soou um tanto animado.
—
Peter? O que aconteceu? — Ele achou graça daquela pergunta.
— Como assim o que aconteceu? — Ergueu uma sobrancelha, esquecendo momentaneamente de que a mulher não podia vê-lo.
—
Você não costuma estar acordado a essa hora, meu filho. Só pode ter acontecido algo. Sem falar nessa sua voz mais rouca do que o normal.
Parker não havia reparado naquilo. Ainda estava sentindo a garganta arranhando e a sensação de náusea, mas ignorava aquilo o máximo que podia.
— Não aconteceu nada, tia. Eu só liguei para conversarmos um pouco. Acordei a essa hora porque preciso arrumar umas coisas no laboratório.
—
Oh, é verdade! Esqueci que você está dando aulas de manhã. — A forma como ela havia dito aquilo sugeria que estava orgulhosa do sobrinho. —
Não quero atrapalhá-lo, Peter. Por que você não passa por aqui mais tarde? Tomamos um café juntos e colocamos o papo em dia.
Parker não conseguiu evitar que um sorriso se formasse em seu rosto ao ouvir a tia falando aquilo.
— Não está atrapalhando em nada, tia May. Fui eu que te liguei, mas nunca vou recusar um café na sua casa. — Soltou uma risadinha, que ela acompanhou. — Mais tarde vou passar no Clarim e depois vou até aí então.
—
Vou esperar. E é bom mesmo que você ligou. Estou com saudades.
Parker suspirou baixo, se sentindo culpado.
— Também estou. Me desculpe por isso, tia. Mas como a senhora está?
—
Estou bem, meu filho. Do melhor jeito possível, né? Minhas costas não são mais as mesmas e estão me matando. Mas é normal, certo? A idade chega e…
Peter momentaneamente perdeu o foco da conversa porque as coisas pareceram escurecer ao seu redor.
Respirando fundo, ele se apoiou em uma parede e sentiu que fazer aquilo lhe causava uma dorzinha no peito, assim como sua garganta arranhava ainda mais.
Sem conseguir segurar, de repente Parker começou a tossir, interrompendo a fala de tia May, que imediatamente ficou alarmada.
—
Peter? Querido? O que está havendo?
Tentando se recuperar o mais breve possível, o homem conseguiu acalmar o acesso de tosse, mas se xingou mentalmente por não ter pego uma garrafa de água.
Torcendo para não estar completamente sem voz, Peter voltou a falar ao telefone.
— Desculpe. Tive um acesso de tosse aqui, mas está tudo bem, tia, não se preocupe.
—
Como não me preocupar, Peter? Olha como sua voz está fraquinha! Você está doente, meu filho.
Parker deixou uma careta se formar em suas feições. Não queria mesmo que ela ficasse se preocupando com ele daquela forma.
— Vai ficar tudo bem. Eu vou dar um jeito nisso, prometo. — Ouviu May suspirar contrariada do outro lado, então logo emendou. — Estou chegando à universidade, tia. Mais tarde conversamos mais.
Ainda faltava um pedaço antes que ele de fato alcançasse seu destino, porém não queria continuar preocupando a mulher.
Outra vez, May suspirou contrariada.
—
Tudo bem. Mais tarde vamos ver o que está acontecendo com você. — A insistência o fez rir baixinho.
— Até mais, tia May.
—
Até mais, querido.
Apressando seus passos, Peter não via a hora de chegar e tomar quantidades generosas de água.
Talvez estivesse concentrado demais em seu objetivo. Não, na verdade, ele
realmente estava e só se deu conta quando seu corpo se chocou contra outro.
Não levaram nem dois segundos para Parker saber em quem havia esbarrado. O cheiro dela era marcante demais para não ser reconhecido.
— Sabe, acho que eu estava até com saudades de esbarrar em você assim. — Foi quem fez graça, abrindo um sorriso adorável quando seus olhares se encontraram.
— Não seja por isso. Podemos nos esbarrar assim sempre que você quiser, . — Tardiamente, ele percebeu um certo duplo sentido naquelas palavras, mas não se importou, ainda mais depois de ver o sorriso dela se transformar enquanto o encarava de cima a baixo. Ela imaginou que tivesse feito aquilo de forma discreta, mas descobriu que não pela maneira como Peter sorriu de volta.
— Eu vou cobrar isso, viu? — Ela estreitou um pouco os olhos.
— Pode cobrar. Aproveito e cobro de volta o que você sugeriu ontem.
sentiu o coração dar um salto com aquelas palavras. Apenas a presença de Parker já a afetava, era verdade mesmo quando tentava negar, mas ouvi-lo flertar daquele jeito com ela a deixava quase fora dos eixos.
Se um dia desses simplesmente o agarrasse, a culpa seria totalmente dele.
— Eu sugeri? — Ergueu uma sobrancelha, se fazendo de boba.
— Uhum. Sugeriu. — Ele não conseguiu evitar sorrir, rapidamente entendendo o jogo dela.
— E o que foi que eu sugeri, Peter Parker? — ergueu uma sobrancelha e o homem pôde jurar que de repente os dois estavam até mais próximos, porém não tinha certeza. A sensação de tontura não havia passado ainda, mas ele disfarçava para que ninguém percebesse. Sabia que logo melhoraria.
— Que eu conhecesse a sua casa. — Honestamente, Peter nunca se imaginou sendo tão sincero e direto, mas algo na forma como o encarava o instigava àquilo.
não podia dizer que não se surpreendeu ao ouvir suas palavras, assim como não poderia negar estar ainda mais afetada, até porque seu coração batia tão acelerado que não duvidaria se ele pudesse ouvir. As bochechas dela pegavam fogo e, na verdade, não só as bochechas.
— Está disposto a ir até lá mesmo depois de descobrir que pode não sair tão cedo? — jogou charme e mordeu outro sorriso.
— Acho que fiquei mais disposto ainda, pra ser sincero. — Peter não podia piscar pra ela daquele jeito.
Droga, por que ele fazia aquilo?
A mulher umedeceu os lábios, o notou acompanhar o gesto com o olhar e estava pronta para respondê-lo, no entanto, os dois foram interrompidos pelo professor Hofstader, que parou ao passar pelos dois para questionar Parker sobre detalhes das aulas daquele dia.
ficou assistindo a conversa dos dois em silêncio, incapaz de simplesmente se despedir e continuar o caminho até seu laboratório. Toda vez que estava com Peter Parker, o tempo passava rápido demais, e ela não queria se afastar tão cedo.
E foi ao observá-lo durante a conversa com Hofstader que reparou a respiração um tanto irregular de Parker. Ele estava fazendo um ótimo trabalho em disfarçar, mas a própria voz rouca dele já tinha começado a denunciar algo de errado.
Sentindo-se um pouco mais tonto do que antes, Peter deu um pequeno passo em direção à parede do corredor e se escorou ali, ainda disfarçando o mal estar.
— Senhor Parker, está tudo bem? — Ótimo, não era coisa da cabeça de , Hofstader também tinha percebido.
— Claro, claro. Assim que chegar ao laboratório, eu já deixo os microscópios instalados para os alunos. Fica tranquilo.
O professor trocou um olhar rápido com , numa conversa muda se ela também havia reparado algo de errado, então apenas assentiu e se despediu contrariado.
Um pouco depois da saída do homem, Peter fechou os olhos e respirou fundo para oxigenar melhor o cérebro.
— Peter?
Ele abriu a boca para responder , mas percebeu sua visão nublar e se apoiou com mais afinco na parede.
— Peter, o que você tá sentindo? — não fez questão de perguntar se ele estava bem, porque era claro que não estava.
— Eu… Não se preocupa. Eu saí correndo de casa e não comi nada. Deve ser isso. — Para completar, sua garganta doeu mais e lhe gerou outra onda de tosses.
Estreitando os olhos, ela se aproximou.
— Você precisa ir até a enfermaria. Não parece que é isso, não. — Então estendeu a mão para que ele a segurasse. — Vem, eu vou com você.
— Não! — Parker exclamou rápido demais.
O que diria se fosse mesmo até a enfermaria e lhe dissessem que ele estava daquele jeito porque engoliu muita fumaça?
estranhou a reação dele e estava prestes a insistir, mas Peter a interrompeu.
— Não quero te atrapalhar, . Eu vou sozinho e depois te digo como foi. Você deve ter suas coisas pra fazer.
— Minhas coisas poderiam esperar, mas tudo bem. Só me avisa assim que você for. Duvido que vou conseguir me concentrar até saber que você está bem.
Peter sentiu uma emoção engraçada ao ouvir aquilo. A forma como se preocupava estava mexendo com ele. Teria até aceitado a companhia da mulher, se não fosse por seu
pequeno segredo.
— Eu aviso, pode deixar. Vou até lá agora.
— Estou de olho em você, Peter Parker. — Mais uma vez, estreitou os olhos, e ele percebeu que adorava aquela expressão dela. Dava vontade de…
Bem, dava vontade de beijá-la.
— Vou acabar ficando mal acostumado com isso. — Sorriu, charmoso.
— Acho que se ficar, posso deixar passar. — Ela piscou. — Agora vá. Se você cair desmaiado aqui, eu não vou conseguir te carregar, sinto muito.
Aquele último comentário o fez rir alto.
— Tá certo. Até mais, .
Ele deveria ter feito alguma menção de se mexer, porém simplesmente não conseguiu. Era difícil se afastar dela, a companhia de era tão boa que o tempo voava.
— Vai, Peter! — Dessa vez, ela usou um tom mandão, e Parker cedeu, retomando o caminho de antes e contendo um comentário sobre aquilo.
Certamente, se ele dissesse que gostou de vê-la mandona daquele jeito, cruzaria um limite que havia traçado.
Porém, enquanto se afastava, questionou por que aquele limite ainda estava ali para começo de conversa.
🕷
Ao contrário do que havia prometido a , Peter não foi para a enfermaria da universidade. Sabia que, apesar de aqueles sintomas serem incômodos e parecerem um pouco mais intensos, seu fator de cura logo eliminaria qualquer resquício das toxinas inaladas durante o incêndio, então ele só precisava ficar em um lugar bem ventilado, de preferência. Como o laboratório onde trabalhava tinha grandes janelas, o local facilitou tudo ainda mais porque, durante o período em que ficou ali, Parker optou por deixá-las abertas.
O fato de o clima não estar mais congelando e o sol ter aparecido tinha ajudado e muito também.
Mesmo se sentindo culpado, Peter não teve escolha a não ser mentir para e dizer que ele havia, sim, ido procurar ajuda médica e foi liberado para descansar. Tudo não tinha passado de um mal estar.
Jura que foi só isso? 🤔
Se você estiver mentindo, eu vou descobrir, Peter Parker.
Ele torceu a boca, formando uma careta culpada ao ler aquilo.
Jura que foi só isso? 🤔
Se você estiver mentindo, eu vou descobrir, Peter Parker.
Mentira. Eu não sou muito boa em investigar coisas, não. Mas fiquei preocupada, tá?
Antes que respondesse, outra mensagem dela chegou e suas palavras o fizeram rir. Era engraçado como ele sempre conseguia até mesmo ouvir a voz dela em sua cabeça quando lia as mensagens de .
Fica tranquila, . Não é agora que você vai se livrar de mim. 😜
Droga, eu estava tão perto!
kkkkkkkk
Mas deixe de ser bobo. É mais fácil você querer se livrar de mim. 🙊
Então estamos presos um ao outro, .
Do outro lado da conversa, exibia o sorriso mais idiota de todos ao ler o que Parker havia escrito.
Toda vez que ela achava que não tinha como aquele homem afetá-la mais, era justamente o que ele fazia.
Onde você arruma essas frases? 😳
Se eu contar, elas perdem o efeito. 😉.
Ah, é? Mas eu sou curiosa. Vou arrancar isso de você na sexta-feira. ☺️
😱😱😱
E vai fazer isso como? Posso saber?
Não, não pode. 🤪
Espere e verá.
Eu já estava ansioso pra sexta chegar. Agora então…
Também estou ansiosa, Peter.
Não havia como não dizer que a última resposta dela mexeu ainda mais com ele.
Quando finalmente saiu de seu horário de trabalho, Parker já não sentia mais nenhuma tontura ou náusea, sua voz voltou ao normal e ele precisou se conter para não saltar animado pelos corredores. Não era mais um adolescente, afinal, mesmo que se sentisse como um.
Mesmo sabendo que ainda estava na universidade, Peter não conseguiu evitar dar uma olhada para dentro da floricultura ao passar pelo local. Ainda era difícil acreditar que nunca havia reparado nela ali, embora, de fato, isso fosse compreensível.
Distribuindo alguns cumprimentos quando adentrou o Clarim Diário, Parker seguiu até o elevador e se preparou para mais um dos discursos anti-Homem Aranha que o senhor Jameson insistia em dar.
No entanto, assim que as portas do elevador se abriram, Peter descobriu que o andar do editor chefe estava um verdadeiro caos.
Tentando entender o que acontecia, Parker rapidamente se aproximou da mesa da assistente do senhor Jameson e qualquer resposta que ela daria foi interrompida pelo próprio chefe abrindo a porta de sua sala e colocando uma parte de seu tronco para fora.
— Cadê o fotógrafo que eu pedi? Ninguém quer trabalhar nesse lugar… Ah, Parker, você está aqui. Ótimo!
— Senhor Jameson, o que…
— Não há tempo a perder, garoto. Aconteceu mais um ataque do Dahlia Negra e você vai garantir as fotos da cena do crime.
Peter achava graça, porque Jameson insistia em chamá-lo de garoto. No entanto, sua atenção imediatamente se voltou para a última parte e ele mesmo ficou alarmado.
— Anda, Parker! Se mexe! — o homem gritou e fez Peter se assustar.
Um tanto atordoado, ele rapidamente se prontificou e pediu o endereço ao editor chefe.
Nada havia preparado Peter Parker para o que descobriria nos próximos segundos, porque o endereço que recebeu era o mesmo do Doutor Connors.