Step 01
Broken rhythm
— Anson Seabra, "Unforgettable".
💃🏻✨
Peter Pan estava certo. Talvez essa tenha sido a vez que a Disney acertou pra cacete. Crescer é uma merda. Quando eu era criança, achava que ser adulta significava liberdade. Coitada de mim! Hoje, eu tenho certeza de que ser adulta significa aprender a sorrir enquanto tudo pega fogo (inclusive você mesma) e ainda dizer "tá tudo sob controle".
E a verdade? É que nunca tá. Nunca, mesmo.
Crescer é acordar com a porra de uma dor nas costas e chamar de clima. Descobrir que talvez seu cabelo esteja uma porcaria por conta de falta de vitaminas que deveriam estar na sua alimentação, mas não estão porque você não tem pra fazer uma refeição decente. É fazer planilha, malhar a mente pra não surtar e ainda ouvir do universo que "tudo tem um propósito", como se fosse fácil encontrar sentido quando o seu café derrama na blusa branca às 8h da manhã e, detalhe: estando atrasado para alguma coisa que sua vida depende. É lidar com chefes passivo-agressivos, dançarinos egocêntricos e o joelho que range igual portão velho.
Foram dois anos afastada da dança.
Dois. Anos.
Parece pouco? Pois tenta ficar esse tempo longe da única coisa que faz sentido pra você nesse mundo horrível que é ser adulto. A dança era meu oxigênio, meu idioma, meu jeito de dizer "tô viva" sem abrir a boca. Foram dois anos e, agora, herdei um corpo diferente. Porra, muito diferente.
Não pelas cicatrizes — embora elas ainda gritassem às vezes quando o silêncio caía —, mas pela ausência. Pela saudade de sentir o chão respondendo aos meus pés, a música atravessando minha pele até alcançar o peito. A dor nunca é apenas o que se vê.
Há um tipo de dor que não é palpável, mas é a mais pesada de todas. A dor que vai além dos ossos quebrados, da pele rasgada ou do corpo exausto. A pior dor é aquela que te arranca algo que você ama e, com isso, rouba um pedaço de quem você é. A dor física é simples. Ela grita no momento, ataca com intensidade, mas logo se acalma. Nem que seja com a porra de um analgésico muito bom que te deixe sonolento por algumas horas. Você supera isso. Um corte cicatriza. Uma lesão melhora. O corpo, por mais que demore, sempre encontra um jeito de se recompor. Mas a dor de se afastar do que se ama é silenciosa, constante, e nunca desaparece de verdade. Porque foi a dança que me definiu, desde a primeira vez que meus pés tocaram o chão, e o ritmo, embora imperfeito, parecia ser meu norte. Eu não apenas dançava. Eu era a dança. Pelo menos, era o que eu me convencia todos os dias, quando tudo ao meu redor estava uma verdadeira merda. Cada movimento, cada passo, era um pedaço de mim jogado para o mundo. A dança me disse quem eu era e me trouxe forças para ser mais. E depois, sem aviso, ela se foi. Simplesmente. Não por escolha, mas por um erro no meu corpo, como um alarme que não tocou a tempo.
O mais irônico é que aconteceu no palco. Foi tudo muito rápido. A sensação de que eu tinha o controle, de que estava no meu elemento, e então, tudo se desfez. Um passo errado, uma falha no meu movimento, e o resto veio como um pesadelo se desenrolando bem diante dos meus olhos. A perna se torceu, o som da articulação estalando, e, no momento em que a dor tomou conta, eu soube que tudo havia mudado. A queda foi quase como se o tempo tivesse desacelerado. Mas, quando o impacto veio, o peso do meu próprio corpo me esmagou de forma brutal. O chão, que sempre foi meu parceiro, que sempre me sustentou e me deu o ritmo certo, tinha sido a razão do meu fracasso.
O diagnóstico não foi uma surpresa: lesão grave no ligamento cruzado anterior.
A fisioterapia viria depois, mas a verdade que me assustava estava na percepção de que eu não só tinha que me recuperar fisicamente, mas de que eu tinha acabado de perder algo que sempre foi parte de mim. Como eu poderia ser uma dançarina sem a confiança no meu próprio corpo? Como eu poderia voltar a fazer o que mais amava quando ele já não me obedecia mais da mesma maneira?
Eu sabia que a recuperação seria longa, mas isso não era o pior. O pior era a sensação de que a dança estava me dizendo "não" de uma forma que eu nunca imaginei. O medo de não voltar ao palco. O medo de não sentir mais o chão sob os pés, como se ele fosse mais do que uma superfície de apoio – fosse uma extensão de quem eu sou. Eu sabia que eu não seria mais a mesma. E não só fisicamente, mas, dentro de mim, algo se partia também. E, é por isso que eu acho que o universo me odeia, porque, naquela maldita semana, tudo já estava desmoronando.
Eu e Jung Hoseok tínhamos brigado. Como sempre. Não uma briguinha qualquer — uma daquelas discussões onde o orgulho fala mais alto que a razão, onde cada palavra é uma arma. Tudo começou com uma crítica dele à minha dança. Um comentário idiota, típico daquele desgraçado. Disse que eu não levava aquilo tão a sério quanto deveria. Que eu estava dançando como se estivesse... confortável demais. O que aquele maldito sabia sobre conforto?
"Se continuar assim, vai cair", ele disse. Com aquela arrogância que me tirava do sério.
E, ironicamente, foi o que aconteceu. Boca de praga. Desgraçado. Infame.
Ele é um dos melhores dançarinos que eu já vi na vida. Isso era inegável — o tipo de talento que não precisa de holofotes, porque o corpo dele já carrega a luz e tantas outras coisas. Precisão, presença, intensidade. Quando ele dança, parece que o tempo desacelera só pra assistir.
E, claro, o filho da puta sabe disso. É aí que mora o problema.
Arrogante, prepotente, mimizento — a trindade perfeita do ego inflado. Jung Hoseok tem sempre uma crítica na ponta da língua, um comentário sarcástico na hora errada, uma postura de quem acha que está dois passos à frente de todos. Talvez o desgraçado esteja mesmo. Mas precisava esfregar isso na cara de todo mundo o tempo todo?
E pra piorar, ele é lindo. Do tipo irritantemente bonito. Sabe aquele visual "acordei assim, perfeito", com o cabelo bagunçado de um jeito estratégico e um sorriso que parece que vai te desmontar só pra te deixar brava depois? É. Ele é essa pessoa. Infelizmente.
Porra, infelizmente pra cacete.
A raiva que eu sentia dele vinha no mesmo ritmo da admiração que eu tentava esconder. E talvez fosse esse o problema: Hoseok me tirava do sério, porque me fazia sentir demais — mesmo quando tudo o que eu queria era ficar no controle.
E aí, como se o mundo ainda tivesse uma última cartada pra me derrubar, ele jogou a bomba final: Depois de dois anos. Dois anos inteiros de dor, fisioterapia, choro escondido no banheiro e vídeos motivacionais no Instagram às três da manhã...
Finalmente, eu posso competir de novo.
Finalmente, eu vou voltar a fazer o que eu amo.
E sabe quem vai ser o meu par?
Jung Hoseok.
Sim. O próprio.
É por isso que eu não julgo Peter Pan por não querer crescer. Ele tinha era juízo. Crescer é lidar com essas merdas que não estão no seu controle e, ainda assim, dar a porra de um sorriso e fingir que tá tudo bem. Peter Pan tava certo. Nunca crescer é o verdadeiro final feliz. Se eu soubesse, tinha me agarrado na sombra e voado pra Terra do Nunca com ele. Mas é claro que o universo, como sempre, tem outros planos pra mim, certo?
O estúdio parecia menor do que eu lembrava.
Ou talvez fosse só o peso da expectativa comprimindo tudo ao meu redor. O cheiro de madeira encerada, o som abafado do aquecimento de algum grupo na outra sala, o espelho me encarando como se quisesse dizer: "Tem certeza de que quer voltar, querida?"
Não, eu não tenho certeza. Mas tô aqui.
Apertei os ombros pra trás, ergui o queixo e entrei. O cabelo estava preso num coque que já dava sinais de desespero e meu joelho, mesmo enfaixado com carinho, parecia questionar todas as minhas escolhas de vida. Eu te entendo, joelho fodido. Eu faço isso diariamente. Minjae, o coreógrafo e chefe do estúdio, estava agachado ajustando o som, com a cara de quem já tava há cinco horas no mesmo café frio.
Ele me viu pelo espelho e sorriu.
— , viva e inteira. Ou quase.
— De corpo presente. Alma em processo de convencimento.
Ele riu, se levantando com aquele jeitão elétrico de quem tomava cafeína no lugar da água. Sorri de volta, tentando parecer confiante. É, eu senti falta dele.
— Bem-vinda de volta. Tá pronta pra quebrar tudo?
— Desde que não seja o joelho de novo — respondi, forçando um riso.
Ele riu também, depois virou-se para um clipboard cheio de anotações.
— Bom, vamos direto ao ponto. Eu sei que a Jiwoo já te avisou, mas meu dever como chefe é reiterar as informações. O dançarino que seria seu parceiro, o Minho, entrou de licença médica ontem. Torção no tornozelo. Nada grave, mas vai ficar de molho por um tempo.
— E vocês decidiram que o Jung Hoseok era a melhor opção?
Minjae ergueu as mãos, defensivo.
— Eu sei, eu sei. Mas vocês dois são incríveis. E com a química certa…
— A gente não tem química. A gente tem atrito. Faísca. Curto-circuito — rebati, cruzando os braços. — Você confundiu as ciências.
— Química ou física, o efeito é perfeito pra um duo de dança esportiva, não acha? — Ele piscou, atrevido.
Revirei os olhos e suspirei, tentando não surtar.
— Olha, Minjae... — falei, tentando manter a voz serena, racional, madura. — Eu tava pensando aqui, e, talvez, dançar em dupla nesse campeonato não seja a melhor ideia, sabe?
Ele me olhou por cima do clipboard, desconfiado.
— Como assim?
— Bom, primeiro que faz tempo que eu não danço em dupla. O joelho ainda tá se adaptando, os reflexos também. E, convenhamos, eu sou uma mulher independente. Solos são mais a minha vibe no momento, sabe? Minimalismo. Existencialismo. Uma coisa meio... mais música mais holofote.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Você quer competir sozinha numa competição de duplas obrigatórias?
— Então, tecnicamente, o regulamento não fala sobre duplas com conexão emocional. Só sobre dois corpos no palco. E, nesse caso, talvez uma coreografia com um manequim seja mais tranquila de montar. Você sabe que isso é uma nova modalidade na dança contemporânea, né?
— ...
— Sem contar que o Hoseok… — Respirei fundo. — Ele é o Hoseok.
— Sim. Isso costuma ser uma vantagem. Ele é bom.
— Ele é insuportável. Arrogante. Prepotente. E sabe que é bom, o que torna tudo ainda pior. Ele é o tipo de pessoa que corrige sua postura com um olhar e te chama de “travada” como se fosse um elogio. Minjae, eu já fiz terapia. Não mereço isso.
Minjae riu. O infeliz riu.
— Você tá com medo dele?
— Não tô com medo. Não tenho medo daquele babaca. — Cruzei os braços. — Tô com bom senso. E instinto de sobrevivência.
Ele fechou o clipboard e me lançou aquele olhar de “tenta mais uma e eu te coloco pra ensaiar com um cone de trânsito”.
— Você vai dançar com ele. Ponto.
— Minjae...
— . Você sobreviveu a uma lesão. Sobreviveu a dois anos longe do palco. Agora você vai sobreviver ao Jung Hoseok. Não é ele quem tem que te derrubar. A não ser, claro, que você esteja com medo de ser boa com ele.
Fiquei em silêncio. Porque, infelizmente, ele era ótimo com frases de efeito quando queria.
— Ele tá chegando — disse Minjae, se afastando com aquele sorrisinho filho da mãe. — E, por favor, sem ameaças físicas. A gente ainda não renovou o seguro da companhia.
Eu respirei fundo, ajeitei a postura e olhei para o espelho.
E, lá no fundo, já me preparei pro caos.
Eu estava me alongando no canto da sala, respirando fundo, tentando manter o mínimo de dignidade e flexibilidade, quando ouvi a porta se abrir. Nem precisei olhar pra sentir meu estômago revirar.
Dava pra reconhecer o ego chegando antes mesmo do som do tênis contra o chão.
— Que clima animado. — Veio a voz dele, carregada de ironia e cafeína mal digerida. — Olha quem apareceu depois de… quantos anos mesmo? Dois? — Ele cumprimentou Minjae e deu um sorriso irônico na minha direção. — . Isso vai ser interessante.
Me endireitei devagar, virei o rosto e lá estava ele: Jung Hoseok, em carne, osso e regata preta colada. Cabelos perfeitamente bagunçados, mochila pendurada no ombro e aquele sorrisinho que deveria ser proibido por lei em ensaios com tensão emocional.
— Que bom que chegou — respondi, com um sorriso falso digno de Globo de Ouro. — Ainda dá tempo de voltar por onde veio.
Ele riu pelo nariz, largou a mochila no canto com um baque calculado e começou a se alongar ao meu lado.
Claro. Porque a vida é generosa.
— Tava com saudade de mim, ?
— Você sabia que uma dor no joelho é mínima perto da dor de ter que trabalhar com você? — Alonguei o braço esquerdo, enquanto ele dava um sorriso ladino — E, respondendo sua pergunta, não. Nem um pouco.
— Que pena. Eu tava torcendo pra gente começar essa parceria com maturidade e espírito esportivo — disse ele, com a cara mais cínica do planeta, alongando os braços acima da cabeça. — O que é bem típico de você.
— Você? Espírito esportivo? Hoseok, até sua sombra é competitiva.
— E você continua sensível, hein. Um elogio e já responde como se eu tivesse invadido seu camarim. Estranha.
Revirei os olhos.
— Acho que você poderia me poupar, sabe? Fingir que eu não existo, mesmo. Isso seria muito interessante.
Ele não respondeu de imediato. Apenas se abaixou para alongar a parte de trás das pernas… exatamente ao meu lado. Tipo, centímetros de distância. Era uma sala enorme, cheia de espaço vazio. Mas claro que o Hoseok ia escolher o meu campo gravitacional pra esticar os tendões. Maldito.
Me virei de leve, só pra manter a postura superior. Mas meu olhar foi direto pra ele.
Regata preta. Gotas de suor começando a descer pelo pescoço. Músculos contraídos de um jeito que me fez esquecer por um milésimo de segundos todas as palavras do dicionário.
Engoli em seco.
Voltei o olhar pro espelho imediatamente, como se ele tivesse lasers.
Respira, . Respira. Ele não é bonito. É uma ilusão coletiva. Um feitiço de palco. Um bug no cérebro.
— Tá desconcentrada já? — ele provocou, ainda no alongamento, sem nem olhar pra mim. A voz dele era baixa, com aquele tom casual que irrita mais do que grito.
— Só tô tentando ignorar a presença de uma criatura invasiva no meu campo sensorial — respondi, com dignidade ferida, mas viva.
Ele riu.
Um riso calmo, arrastado. Quase… carinhoso?
Não. Não. Delírio meu.
— Vai ser divertido dançar com você — ele disse, se levantando devagar, ainda perto demais. — Acho que a parte mais legal vai ser ver até onde seu autocontrole vai durar.
Eu respirei fundo, mirando o espelho como quem se prepara pra uma guerra espiritual.
— Cuida do seu alongamento, Hoseok.
— Tô cuidando — ele respondeu. — Só que você tá no meu campo sensorial agora.
Desgraçado.
— Jesus, o que eu fiz para merecer isso? — murmurei, em um choro teatral, encarando o teto como se Deus fosse responder ali mesmo. — Sério.
Eu já tava no limite da paciência — o que, no meu caso, significa uns dois centímetros antes de fazer drama. Mas claro que o Hoseok conseguiu ultrapassar essa linha com a naturalidade de quem cruza um palco.
— Já vou avisando — ele disse, girando o pescoço como se não estivesse prestes a jogar mais veneno —, tô zero afim de ouvir lamentos, reclamação ou monólogo existencial, tá? Você é dramática pra cacete.
Eu parei no meio do alongamento e encarei ele como se tivesse me xingado em três idiomas.
— Dramática? Eu? Eu sou a calma em pessoa. A paz. A serenidade. Uma monja da dança.
Ele riu. Alto. Na minha cara.
— , você faz tempestade até com a temperatura do ar-condicionado.
— Porque você faz questão de colocar essa merda em 17 graus, Hoseok. Em pleno inverno de Seul. Meus ossos ficam implorando por socorro.
— Drama.
— Arrogância.
— Sensível.
— Egocêntrico.
— Travada.
— Insuportável.
— Confusa.
— CHEGA. — A voz do Minjae cortou o ar como um trovão dançante. Ele se levantou do canto com a postura de quem tinha lidado com dez crises emocionais só naquela manhã. — Vocês dois estão ensaiando juntos. Ponto. Essa competição não é sobre o ego de vocês. É sobre representar a companhia. A gente tem menos de quatro semanas até o All Motion. E, com o histórico de vocês, precisa de milagre e terapia pra funcionar.
Ficamos em silêncio. Eu respirei fundo. Hoseok respirou fundo.
Minjae olhou pra gente como um professor que largou tudo por amor à arte e agora se pergunta onde errou.
— Então — ele continuou — vocês vão se ajudar. Vão ensaiar. Vão deixar a guerra civil pra depois. Porque o mundo lá fora quer ver vocês caírem, e sinceramente? Eu quero ver vocês brilhando.
Mais silêncio. Hoseok ainda me encarava. Eu devolvi o olhar, porque abaixar a cabeça pra ele? Só se for pra dar uma rasteira.
— Trégua? — ele disse, estendendo a mão, com um meio sorriso debochado.
— Tensão controlada — corrigi, apertando a mão dele como quem segura uma cobra.
— Por enquanto — ele sussurrou.
— Até o próximo comentário idiota — retruquei, baixinho.
E foi assim que começamos. Com orgulho engolido, mãos suadas e a certeza de que aquela dupla tinha tudo pra dar errado.
Ou muito, muito certo.
A música começou e, com ela, a humilhação.
No papel, a coreografia era linda. Intensa, cheia de linhas limpas e contato. Na prática? Eu parecia uma girafa com patins. Meus pés estavam fora do tempo, os giros tortos, e o meu joelho — aquele traidor de confiança — dava sinais de que ia abrir um boletim de ocorrência a qualquer momento.
Hoseok mantinha o profissionalismo… até a terceira tentativa falhada.
— De novo. — A voz dele estava firme. Neutra. Na teoria.
Fizemos a sequência mais uma vez. E de novo. E aí, no quinto erro seguido, ele parou no meio da sala e soltou o ar com força.
— . Pelo amor de Deus. O braço é pra cima, não pra frente. Isso aqui não é um ritual de invocação.
— Tá difícil se concentrar com você reclamando no meu ouvido a cada cinco minutos.
— Tô reclamando porque você tá dançando como se estivesse em câmera lenta e bêbada. Foco, garota.
— Exagerado.
— Realista e você sabe disso.
Voltei pra marcação com vontade de empurrar ele pra fora do estúdio e dançar com um espantalho. Seria muito mais proveitoso, talvez. Mas então a música começou de novo, e a gente seguiu com a sequência.
E aí aconteceu.
Na parte do encaixe — um passo onde ele precisava me girar e segurar firme pela cintura antes do mergulho —, Hoseok me puxou de repente. Firme. Sem aviso. Aquela merda não estava no roteiro.
As mãos dele se fecharam ao redor da minha cintura com precisão. Os olhos encontraram os meus. A respiração dele bateu no meu rosto.
Não. Isso, definitivamente, não estava no roteiro!
E, por um segundo — só um —, o tempo parou. Era aquele tipo de momento em que ninguém diz nada, mas tudo é dito. A tensão entre nós explodiu no espaço de dois palmos.
Olhar firme. Mãos firmes. E eu fui embora de mim por meio segundo. Coração descompassado. Pensamento fora do lugar. Músculos colapsando.
E, resultado? Errei novamente. Pisei no tempo errado, me desequilibrei e quase derrubei nós dois.
— Você tá brincando comigo, né? — ele disse, depois que eu executei a porra do passo errado pela vigésima vez naquele dia. O tom era exausto, impaciente, como se eu tivesse acabado de destruir o último neurônio dele.
Eu abri a boca pra responder, mas nada saiu. Porque a verdade? Eu nem sabia mais qual passo era o certo. Só sabia que o toque dele ainda estava queimando na minha pele.
— Eu estou tentando, Hoseok! — Minha voz saiu mais alta do que eu queria. Mas era isso ou gritar de verdade.
Ele passou as mãos pelo rosto, respirou fundo, e soltou:
— Tentar não é o bastante. Você tá travada. Tá desconectada. Tá... tá dançando como se nem soubesse o que tá fazendo aqui.
Aquilo me atingiu como um tapa. Mas eu respirei. Engoli. Mantive a pose.
— Não é fácil voltar depois de tudo. Você sabe disso. E essa coreografia não é a coisa mais simples do mundo. Dá um desconto, Hoseok.
— Se você realmente soubesse de alguma coisa, não estaria aí ensaiando desculpa no lugar da coreografia.
Fiquei em silêncio. Porque agora era ele falando com raiva. O Jung Hoseok arrogante e insuportável que eu odiava. E eu, mais uma vez, tentava não desmoronar.
— Algo que me diz que a sua lesão talvez tenha sido o jeito do universo de dizer que isso aqui não era pra você. — Ele pegou a garrafinha de água e bebeu, após respirar fundo. — Deveria ter ouvido esse sinal e não ter voltado.
O estúdio ficou em silêncio.
Minjae, que antes mexia no som, se virou devagar com a expressão de quem ouviu a bomba cair, enquanto eu sentia meu corpo inteiro congelar.
A garganta fechou. O estômago virou um buraco. E os olhos começaram a arder antes mesmo que eu percebesse o que estava acontecendo. A merda de uma lágrima caiu instantaneamente.
— Espera, o quê? — sussurrei, quase sem voz, ainda incrédula com o que eu tinha acabado de escutar.
Hoseok me olhou — e ali eu vi. Ele não quis dizer pra mim. Foi uma frase solta, estúpida, cuspida no calor da frustração. Mas já era tarde. A flecha já tinha sido lançada. E cravada.
— ... — Ele tentou, a expressão mudando na hora. — Eu não quis dizer isso. Não assim.
— Mas disse — falei, com a voz embargada, mas firme. — Você disse.
Ele deu um passo em minha direção com as mãos erguidas, como se quisesse consertar. Mas eu recuei.
— Quer saber? Tá tudo bem. — Sorri, e aquela porcaria doeu mais do que qualquer lesão. — Talvez você tenha razão. Talvez eu esteja forçando uma coisa que o universo já decidiu por mim.
— ...
— Não, tá tudo certo. — Eu balancei a cabeça, tentando não deixar mais nenhuma lágrima cair. — Você só disse em voz alta o que provavelmente pensa desde que eu entrei aqui.
Ele abriu a boca, mas eu não dei chance.
— Sabe o que mais, Hoseok? Você pode ser bom na dança. Ótimo, até. E eu até concordo com isso. Mas isso não muda o fato de que você não passa de um arrogante, estúpido e completamente incapaz de enxergar alguém além do seu próprio reflexo no espelho.
Ele ficou em silêncio. Porque ele sabia. Sabia que eu estava sangrando por dentro. E ainda assim, eu continuei:
— Você dança com o corpo, mas pisa nas pessoas com o ego. Eu prefiro ser a porra de uma fracassada do que um lixo como você.
Minha voz tremia. O orgulho também. E eu tava prestes a desabar, então fiz o que dava pra manter o último fio de dignidade:
— Não precisa se desculpar. Nem fingir arrependimento. Eu sei exatamente quem você é. E, se eu ficar aqui mais um segundo, eu não sei se vou chorar ou mandar você ir se foder.
Peguei minha bolsa. A mão dele chegou a se mover. A boca também.
— , espera...
Mas eu já estava virando as costas. Já estava indo embora. Porque, naquele momento, ficar seria pior do que cair de novo.
O estúdio estava escuro. Só um feixe de luz atravessava a janela alta, riscando o chão de madeira como se o tempo tivesse parado ali, esperando por mim. Era estranho estar de volta àquele lugar. O mesmo onde tudo desmoronou. Onde meu corpo cedeu, onde a dor venceu, onde a dança — por um tempo — deixou de ser minha.
Me sentei devagar, no exato ponto onde havia caído dois anos atrás. O silêncio era um velho conhecido. E, dessa vez, eu não lutei contra ele.
Meu joelho doía. Não tanto quanto na época, mas o suficiente pra lembrar. Não do impacto. Mas de tudo que veio depois. Da pausa forçada. Do medo. Da pergunta que nunca deixou de martelar: e se eu não for mais boa o suficiente?
Apoiei os braços sobre os joelhos dobrados e encostei a cabeça neles. Por um tempo, só fiquei ali. Parada. Encolhida. Pequena. Pensando em nada e sentindo tudo. Peguei o celular, hesitante, e abri a conversa com Minjae. Gravei o áudio antes que tivesse tempo de me censurar.
— Oi... desculpa mandar isso assim, mas... eu acho que vou desistir. De verdade. Não tô pronta. Não pra isso. Não pra ele. Não pra mim mesma, talvez. Procura outra pessoa, tá? Alguém bom o suficiente. Que aguente o Hoseok. Que aguente o palco. Que aguente... ser boa de novo.
Enviei rápido.
E quando a mensagem sumiu da tela, senti como se algo em mim também tivesse ido embora junto. Fiquei ali, por mais alguns segundos. Em silêncio. Em pedaços.
Mas então me levantei. Talvez por orgulho. Talvez por impulso. Talvez por não querer aceitar que eu realmente tinha perdido tudo.
Caminhei até o centro da sala. Respirei fundo. Ajustei a postura. E comecei a dançar.
Sim, simples assim.
Os passos estavam no meu corpo. Não eram perfeitos — estavam duros, hesitantes —, mas eram meus. Até que a dor veio. Rápida. Fina. Quente. Um corte invisível que subiu pelo joelho e se espalhou pela coxa, atingindo meu peito junto com o arrependimento.
Cambaleei.
Apoiei as mãos nos joelhos.
Respirei fundo, com dificuldade.
E foi aí que chorei.
Não alto. Não escandalosamente. Mas daquele jeito que dói. Que aperta a garganta. Que vem porque não tem mais como segurar. A dor do corpo se misturava com a de estar ali. Sozinha. Frustrada. Ridícula. Derrotada.
Eu chorei porque eu ainda queria aquilo com tudo que eu era.
E então ouvi passos.
Me virei devagar, ainda com a respiração irregular e as mãos trêmulas.
Hoseok estava ali. Parado na porta, me olhando como se o mundo tivesse parado junto com ele. Ele não disse nada. Nem eu. Acho que ele entendeu que as palavras iam doer mais do que ajudar naquele momento.
E, por algum motivo... só o fato de ele ter vindo já me desmontou mais do que eu queria.
— O que inferno você está fazendo aqui? Veio me humilhar mais uma vez? Dessa vez, eu vou mandar você ir se foder e chutar seu saco — murmurei, enxugando o rosto com as costas da mão. Minhas pernas ainda estavam trêmulas, e eu odiava a ideia de estar tão vulnerável na frente dele. — Aliás, como me achou?
Hoseok deu um passo mais próximo, mas manteve uma distância respeitosa. Os olhos escuros me observavam com atenção, mas sem invadir.
— Não precisei procurar muito — respondeu. A voz dele estava mais baixa do que o normal, como se falasse com cuidado, como se soubesse que eu podia quebrar de novo a qualquer segundo. — Eu só pensei... se fosse eu querendo sumir do mundo por algumas horas, seria aqui. No lugar onde tudo começou a dar errado.
Desviei o olhar, mordendo o lábio. Parte de mim queria dizer que ele estava errado, mas não estava. Ele sabia. E isso me irritava tanto quanto me quebrava por dentro.
— Você ouviu meu áudio — murmurei.
Ele assentiu.
— Ouvi. E me odiei no segundo seguinte.
Meus olhos voltaram pra ele. Hoseok nunca foi bom com desculpas. Sempre preferiu se esconder atrás de sarcasmo, de exigência, de técnica. Mas ali, ele parecia cru. Despido de tudo que o deixava inalcançável.
— Eu vim porque... eu falei coisas horríveis — ele continuou. — E porque não eram verdades. Mas eu tava com raiva. E você tava perto. Demais.
— E eu virei o alvo mais fácil. — A mágoa escapou antes que eu pudesse conter.
Ele baixou os olhos, concordando em silêncio.
— Eu nunca quis que você pensasse que não é boa o suficiente, . Isso tá tão longe da realidade que chega a ser ridículo. Eu sei que você tá magoada. Eu vi. E você tem todo o direito. Mas... eu preciso que você não desista.
Ele deu um passo adiante, como se as palavras tivessem empurrado o corpo dele.
— Não porque a gente tem uma competição. Mas porque acreditamos em você. Porque eu acredito em você. Desde sempre. Mesmo quando eu era um babaca. Principalmente quando eu era um babaca.
Minha garganta apertou.
— Você é boa pra caralho, . Você é intensa, você dança como se tivesse vivido mil vidas, e eu... eu tenho medo disso às vezes. Porque é impossível não sentir quando você tá no palco.
Aquelas palavras me desmontaram por dentro. Ele não estava dizendo pra me convencer. Ele só... estava dizendo.
— Não joga tudo fora por minha causa. Por uma frase estúpida. Eu já me odeio o suficiente por ela.
Ele começou a se afastar. O silêncio entre nós estava carregado, mas havia mudado de peso. Agora era quase... reconfortante.
Antes de alcançar a porta, ele parou e tirou algo do bolso da jaqueta. Se virou e voltou até mim com passos calmos, cuidadosos. Na mão, um pequeno embrulho de pano claro, dobrado com perfeição.
— Ah... quase esqueci — disse, estendendo pra mim. — Yaksik.
Peguei o embrulho sem dizer nada, sentindo o calor do gesto atravessar minha pele.
— Boa noite, — ele disse, por fim, e sorriu. Um sorriso real. Quieto. Triste.
Eu não tinha muito tempo na Coreia. Não tinha raízes, nem certezas, nem um chão que sempre me acolhesse. Mas sabia que o yaksik não era só um doce.
Era uma desculpa.
Um cuidado.
Um gesto que dizia: eu vejo você.
E, naquele momento, talvez fosse exatamente disso que eu mais precisava.