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DEPOIS DA MEIA-NOITE

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CAPÍTULO 23

Três dias depois, eu estava me preparando para sair com Kate e para uma visitinha a uma taróloga/xamã que atendia em Korea Town, quando perguntou:
— Aonde vocês vão mesmo?
— Ter um compromisso de meninas. Faz um tempo que saímos e hoje é a folga de , então Kate e eu vamos arrastá-la também.
Ele não precisava saber sobre o tarô. Não era como se eu tivesse garantia de que fosse me ajudar com alguma coisa, mas não custava tentar.
— Tipo um dia de SPA? — ele tentou adivinhar. — Vocês deviam ter um pra relaxar um pouco, eu pago.
— Que gentileza, e agradeço. Mas hoje não. Vamos fazer uma visitinha em Korea Town. Kate quer dar uma olhada em umas coisas pro próximo livro — falei, enquanto guardava o celular na bolsa. — Ela vai passar aqui pra me pegar e vamos encontrar lá, então não se preocupe.
— Tá, tudo bem. Me avisa se precisar de alguma coisa. Vou trabalhar um pouco enquanto isso.
É claro que vai. Quando não precisava sair de casa e tinha tempo livre, o gastava se enfurnando no estúdio quando eu também estava trabalhando.
— Tá bom. Até logo. — Me despedi dele com um beijo.
Minutos depois, entrei no carro de Kate. Ela usava um óculos escuro chique de armação quadrada e seu cabelo castanho com mechas coloridas em rosa pastel estava levemente ondulado.
Como escritora, Kate mal saía de casa, a não ser que tivesse algum compromisso. Então se arrumava sempre que podia para gastar as roupas que comprava impulsivamente às vezes. E ser uma pessoa pública e esposa de um astro do rock super conhecido também era mais um motivo para se manter apresentável. Ela nunca sabia quando podia encontrar leitores ou algum paparazzi por aí, mas, no segundo caso, felizmente não acontecia muito quando ela estava sozinha.
Naquele dia, ela tinha escolhido um vestido midi floral branco de alcinha que ia até sua panturrilha e, nos pés, uma sandália simples de tiras, sem salto.
Eu havia me contentado com um short jeans azul e uma camiseta cropped branca bem básica da Double K, e um par de All Star vermelho. A única coisa que passei na cara foi um lip tint, que ainda usei de blush e sombra.
— Caramba, quanta arrumação. Vai a uma festa? — brinquei, assim que a vi.
— E você? Planeja turistar em Korea Town? Você penteou o cabelo hoje, ?
— Ainda não. — Pisquei os olhos, batendo os cílios exageradamente, colocando uma mecha do meu cabelo atrás da orelha. Eu o tinha prendido em um coque com um elástico e estava mais que suficiente. — Mas ninguém vai reparar em mim quando você tá vestida assim, que nem menininha.
Kate sorriu e balançou a cabeça, finalmente dando a partida no carro.
— Korea Town, aí vamos nós.

***


Encontramos algum tempo depois, do lado de fora do estúdio da Xamã.
— Tem certeza de que não era a Ayla? — Kate perguntou. — Você não assistiu nada que fizesse o seu subconsciente criar essas imagens?
— A menos que a Ayla seja secretamente uma entidade bizarra de olhos prateados, sim. Tenho certeza, Kate. E não, não assisti nada. Mas como eu disse antes, não faço ideia do que ela tava falando, então a intenção é que essa mulher nos ajude a descobrir.
— E se ela for uma charlatã? — perguntou. — Você vai só gastar seu dinheiro à toa.
— É isso ou quebrar a cabeça sozinha. E eu sei que vocês não acreditam cem por cento no que falei e acham que esses sonhos são só um reflexo do meu acidente, mas obrigada por me acompanharem mesmo assim.
— Você sabe que eu acredito nessas coisas também — as duas falaram ao mesmo tempo e se encararam, surpresas.
— Perfeito. — Sorri e puxei as duas para entrarmos no estúdio.
O lugar era relativamente simples, mas moderno e acolhedor. Uma atendente que não devia ter mais que vinte anos confirmou nosso agendamento e pediu para que aguardássemos na sala de espera por alguns minutos.
— Tem certeza de que ela é boa, Kate? Onde você disse que a conheceu mesmo? — perguntou.
— Ela é uma leitora — Kate disse. — Me deu o cartão durante uma sessão de autógrafos e me ofereceu uma leitura grátis, mas eu nunca vim aqui antes.
— E eu achando que vocês já eram amiguinhas — comentei. — Tomara que ela seja boa mesmo.
Menos de cinco minutos depois, a atendente voltou e nos guiou até a salinha onde a taróloga/xamã atendia. Seu nome era Sujin e ela tinha um longo cabelo vermelho, um pouco mais claro que o meu. O estúdio parecia com um daqueles que se vê em doramas coreanos, mas ela não estava vestida com roupas tradicionais.
Na verdade, Sujin estava vestida casualmente, como nós, e não devia ter mais que trinta anos. Ela abriu um sorriso para Kate assim que a viu.
— Olá, meu nome é Sujin, sejam bem-vindas. Fleur, é bom te ver aqui. — Ela disse à Kate, chamando-a pelo pseudônimo. — Quem vai fazer a leitura primeiro?
— Na verdade, só ela. — Kate apontou para mim. — Essa é minha agente, , e ela veio aqui para uma leitura de tarô porque anda tendo uns sonhos estranhos com algum tipo de entidade.
— Entidade, é? — Sujin me encarou, curiosa. — Me conte mais sobre isso.
Respirei fundo e detalhei o mesmo que contei para Kate e quando decidi que queria procurar a taróloga. Sujin ouviu em silêncio, assentindo algumas vezes e, quando acabei, ela começou a embaralhar as cartas.
— Pelo que você me disse, talvez esteja enfrentando algum tipo de karma. Algo que vem se repetindo por várias vidas. O espírito está tentando te orientar a fazer o certo.
— Aquela coisa assustadora e temperamental?
— Alguns espíritos são impacientes. Mas vamos ver o que as cartas dizem. Aqui, se concentre na sua pergunta e escolha três cartas usando a mão direita. — Ela abriu o baralho em um leque em cima da mesa.
— O que eu tenho que descobrir? Quero saber se aquele espírito falou de algum karma e que karma é esse.
Retirei as cartas, sem a mínima noção se estava fazendo algo certo, mas acho que estava tudo bem, já que Sujin não disse nada. Ela virou as cartas escolhidas e as analisou por um instante.
— Parece mesmo um karma. Há uma maldição que te persegue. Meus espíritos guias me dizem que esse ciclo vem se repetindo há muito tempo.
— Uma maldição? Que tipo de maldição? — perguntei, trocando um olhar com Kate e minha irmã, que também pareciam surpresas.
Sujin puxou mais uma carta do baralho.
— Aparentemente, você foi feliz por muitas vezes, mas em todas as suas vidas, essa felicidade foi arrancada de você. Havia um homem envolvido. — Ela puxou outra carta e fechou os olhos por alguns segundos, antes de continuar. Provavelmente ouvindo os tais espíritos guias. — Um homem comprometido se apaixonou por você e você por ele. Ele era um cliente.
— Um cliente de quê? — perguntei, confusa.
— Seu. Meus espíritos sugerem que você era uma cortesã e vocês já se conheciam antes do casamento dele. Um casamento arranjado desde a infância, com uma mulher que ele nunca amou ou dividiu a cama. A maldição foi jogada por uma esposa enraivecida, cheia de despeito pelo orgulho ferido. Por sua causa, ela nunca teve o marido que queria e sonhava.
— Mas o que é essa maldição? E continua acontecendo? Como eu quebro isso? Era sobre isso que a coisa do meu sonho falava?
— Um momento — Sujin pediu, levantando a mão.
— Certo — respondi, meio inquieta.
De olhos fechados, seu braço pairou sobre as cartas e ela escolheu uma. Então abriu os olhos e, olhando para frente, ela continuou:
— Um casal apaixonado foi amaldiçoado por uma esposa magoada. Havia uma criança que não vingou, sua e dele. Ela foi morta antes de ter a chance de viver. Lembranças foram esquecidas, e a mulher que rogou a maldição disse que não importa quantas vezes você e ele se encontrassem, a morte os perseguiria de um jeito ou de outro, acabando com toda a felicidade — ela disse, me fazendo arrepiar a cada palavra. — Para que a maldição seja quebrada, escolhas devem ser feitas. Você deve enfrentar seus próprios demônios, aceitar o que aconteceu e quem você é. Lembrar do que é preciso, escolher o que é preciso. Até o seu lado obscuro pode brilhar desde que você aceite a realidade. Suas escolhas influenciam no resultado final. Há um destino selado, mas a maldição o atrapalha. Faça escolhas sábias. Uma vez que você aceite, aquilo que é pra ser, será, como o universo declarou antes da maldição ser instalada.
Sujin então piscou e seus olhos ganharam foco mais uma vez. Eu sentia os olhos ardendo enquanto ainda absorvia cada palavra. Eu estava em choque, ainda um pouco confusa, e definitivamente nem um pouco menos inquieta.
— Meu namorado atual é esse homem? — perguntei, com a voz falha, e senti Kate e segurarem minhas mãos.
— Sim, ao que tudo indica. Você é feliz com ele, mas uma catástrofe aconteceu e outra pode acontecer se você não escolher bem.
— Eu sofri um acidente há pouco mais de um mês. Perdi minhas lembranças dele. Recuperei algumas, mas não tudo.
Era muita coisa batendo para ser uma simples coincidência. Fiquei assustada e, aparentemente, Kate e também, a julgar pelas expressões em seus rostos enquanto ouviam as palavras da Xamã.
— Pode ser um sinal de que está acontecendo novamente — Sujin respondeu. — Essa mulher provavelmente reencarnou também para fazer mal a vocês dois. Diferente de vocês, a identidade dela é obscura. Não consigo ver se é homem ou mulher, mas ela já te provocou mal. Talvez no acidente.
— Um cara me atropelou e fugiu. Você acha que pode ser a reencarnação dessa mulher?
— Talvez. Ela pode escolher não agir com as próprias mãos também. É só isso que consigo te dizer — Sujin concluiu. — Te desejo sabedoria para enfrentar as dificuldades, . A entidade estava falando de você também, e não apenas do livro.
Saímos de lá alguns minutos depois e, embora eu parecesse tranquila por fora, eu estava um caco por dentro. Kate e também estavam sérias e pensativas e não conversamos muito até chegarmos ao restaurante que escolhemos para almoçar.
— Você sabe que pode contar com a gente, não é, ? — Minha irmã perguntou, colocando uma mão no meu ombro.
— Conte tudo pra gente, inclusive se você sonhar de novo com a Ayla macabra — Kate acrescentou. — Eu sei que você não quer contar essas coisas pro pra ele não surtar, mas nós podemos te ouvir. E vamos torcer para que tudo dê certo. E que você se lembre do que precisa.
Sim, de novo aquela frase. Lembrar do que eu preciso. Mesmo sem ter ideia do quê.
Suspirei, me sentindo emocionalmente cansada. Sempre me perguntei se merecia a felicidade que tinha. O namorado dos sonhos, o emprego dos sonhos, até a conta bancária dos sonhos... Mas a possibilidade de ter essa felicidade arrancada de mim me apavorava.
Secretamente, orei por proteção, sabedoria e entendimento. Eu não tinha nenhuma religião, mas acreditava em Deus e pedi silenciosamente para que Ele me guiasse pelo caminho certo.
Que assim fosse.

CAPÍTULO 24

Depois de um almoço entre amigas, consegui esquecer um pouquinho do meu surto interno ao ficar distraída com conversas aleatórias sobre o cara que estava saindo — ainda o loiro bonitão chamado Garrett. Algumas papilas gustativas destruídas pela comida apimentada do restaurante também me ajudaram a tirar o foco da maldição para "eu deveria estar fazendo isso com meu próprio estômago?", enquanto cogitava se uma tigela de Jjamppong em pleno almoço de quarta-feira tinha sido uma boa ideia.
Quem almoçava sopa?
Ah, é. Pelo visto, eu.
Depois do almoço, nos separamos e voltei para casa sozinha de táxi, cogitando durante todo o caminho se eu deveria apenas voltar ao trabalho para me distrair. Quando entrei em casa, tudo estava em perfeito silêncio, então supus que provavelmente ainda estava trancado no estúdio.
Enviei uma mensagem para ele avisando que estava em casa e me certificando se ele tinha se alimentado, e recebi uma resposta positiva pouco depois. Me livrei dos tênis no meu closet e andei descalça até o escritório.
Liguei o computador e acessei minha agenda virtual. Não tinha o que fazer naquele dia, já que eu tinha adiantado o trabalho no dia anterior para tirar folga, mas mesmo assim me vi encarando a planilha quadriculada e rolei as páginas aleatoriamente olhando o que eu tinha anotado antes do acidente.
Havia uma parte cheia de estrelinhas na data do meu aniversário de três anos com e, antes disso, várias coisinhas que eu estava planejando em relação à data, como o que vestir, quando lembrar de fazer uma reserva no restaurante, entre outros.
Também descobri que alguns dias antes de voltar de viagem tive uma consulta com a minha ginecologista. Franzi o cenho, sem lembrar daquilo. Imaginei que fosse alguma coisa relacionada ao anticoncepcional que eu estava tomando ou, não sei, algum efeito colateral que tivesse me assustado. Não era incomum eu aparecer no consultório da Dra. Maria, mas o fato de não lembrar me levava a crer que tinha alguma relação com meu controle de natalidade, já que acordei no hospital achando que estava solteira e descobri que tinha um relacionamento de três anos cujas lembranças se apagaram da minha memória.
Cliquei na anotação da consulta para saber se tinha detalhes e umas letrinhas pequenas e completamente assustadoras chamaram minha atenção.
"Suspender anticoncepcional e retornar após um mês, fazer exames na clínica antes disso".
Gelei no mesmo instante. Eu achava que estava tomando anticoncepcional injetável. Que tinha sido renovado antes do acidente. Eu até tive sangramentos de escape e menstruei, então… Espera, eu menstruei. Isso só podia ser um bom sinal, certo? Sorri, aliviada, mas então enrijeci de novo, lembrando do que e eu tínhamos feito na última sexta-feira, em cima da minha mesa.
Pouco depois da menstruação acabar. Imediatamente procurei o aplicativo que usava para marcar meu período menstrual e rezei para que não tivesse no período fértil. Eu achava que as chances de engravidar após a menstruação eram baixas, mas àquela altura eu já não confiava mais na minha própria mente. E havia uma consulta marcada para o mês passado que eu perdi porque não fazia ideia disso.
Também nem liguei em checar nada de diferente na agenda sendo que eu nem estava trabalhando. Logo, sabia que não tinha nenhum compromisso. Até porque eu lembraria, se tivesse. Se eu soubesse que tinha um namorado, pelo menos. Aposto que não fazia ideia disso e estávamos os dois transando feito coelhos sem nenhuma proteção.
Chequei no aplicativo e confirmei que minha teoria estava certa, havia uma baixa chance de gravidez. Relaxei um pouquinho, mas não o suficiente para ficar totalmente tranquila. Dizia que era uma baixa chance e não chance nenhuma. Eu tinha que voltar na ginecologista logo para resolver isso. Já não bastava o lance da tal maldição que me perseguia, agora eu tinha que me preocupar com a possibilidade de ser mãe.
Fazendo uma rápida pesquisa, descobri que testes de gravidez normalmente funcionam entre o sétimo e décimo dia da provável concepção. Fazia cinco dias desde a minha última vez com .
Merda. Eu tinha que fazer um teste.
Só por desencargo de consciência.
De todo jeito, assim como o lance da maldição, resolvi manter aquilo para mim mesma e encomendei um teste em uma farmácia próxima. Com sorte, ainda estaria no estúdio quando chegasse. Pedi mais um remédio para enxaqueca só para disfarçar, caso ele perguntasse o que eu tinha comprado.
Eu esconderia o teste no meu closet e o faria assim que estivesse na data correta. E então voltaria à ginecologista para pedir meu anticoncepcional de volta porque eu não me sentia nem um pouco pronta para ser mãe. e eu nunca tínhamos mencionado filhos, ao menos não depois do acidente, e em nenhuma das lembranças que tive sobre nós. O acidente bagunçou tudo e agora eu tinha mais esse abacaxi para lidar.
Era só o que me faltava.
Ri, sem humor, e comecei a cutucar minhas gavetas em busca de uma receita ou algo do tipo sobre os tais exames mencionados na agenda que eu deveria fazer, mas tudo o que encontrei foi um cubo mágico todo bagunçado e o bloquinho de papel onde eu tinha anotado que deveria arrumar meu closet.
Bem, quando o teste chegasse, eu poderia usar isso como desculpa.
E aproveitaria para cutucar algumas bolsas para ver se a solicitação de exames estava em algum lugar. E marcar uma nova consulta. Mas, por ora, tudo o que fiz foi pegar o cubo mágico bagunçado e começar a resolvê-lo numa tentativa de esvaziar a mente.
Deu certo.
Logo que comecei a fazer os movimentos que decorei anos antes e agora eram simplesmente automáticos, me senti um pouquinho mais leve. Sempre que eu montava um cubo, eu entrava em hiperfoco. Minha mente começava a viajar, tendo pensamentos de várias das coisas mais aleatórias possíveis.
Eu deveria fazer assim pra chegar no passo dois. Tenho que fechar o amarelo, em seguida.
E se eu fizesse
banoffee nesse final de semana? Na verdade, eu poderia fazer hoje mesmo, deu vontade de comer banoffee depois que passei em frente àquele café coreano cheio de sobremesas bonitinhas.
Talvez esteja criando o próximo
masterpiece de sua carreira nesse exato momento.
E se o último livro da Kate terminasse de um jeito totalmente inesperado? Protagonistas fujões, talvez? O cara já era fujão.
Acho que vou comer iogurte com granola de lanche da tarde. Talvez colocar no YouTube e assistir vídeos de músicas aleatórias.
A Cave Panthers não ia lançar um clipe novo esse mês?
Como será que posso desfazer a maldição que àquela taróloga falou? Que decisão preciso tomar? O que preciso lembrar?

Franzi o cenho, percebendo o rumo que meus pensamentos estavam tomando outra vez, já perto de finalizar a montagem do cubo.
Por que ela mencionou a morte nos perseguindo? Será que tem a ver com o meu acidente? Eu deveria ter morrido?
E se acontecesse algo de novo? Será que eu morreria dessa vez?

Senti o coração acelerar com a possibilidade de algo ruim acontecer, mas tentei convencer a mim mesma de que sofrer por algo que nem se concretizou não adiantaria de nada.
Eu tinha que me concentrar no agora e tentar lembrar da tal coisa importante.
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem, mas me controlei para não chorar. Eu não estava nem mesmo de TPM, e perceberia que havia algo me incomodando se me visse de olhos vermelhos.
Depois de alguns instantes, a campainha tocou e corri para atender. Era o entregador da farmácia. Dei uma boa gorjeta a ele por ter que fazê-lo subir até ali e tirei rapidamente a caixa de remédio para enxaqueca da sacola, antes de correr com ela direto para o meu closet.
Ouvi a porta do estúdio abrir no instante que entrei no quarto e apressei o passo.
— ? — me chamou e fiquei nervosa. Achei um nicho largo de casacos de inverno e os levantei com uma mão para enfiar a sacola ali, quando senti algo.
Uma caixa. Franzi o cenho, sem entender porque tinha uma caixa ali, e enfiei a sacola no lugar, ao mesmo tempo que puxei a caixa. Era branca, de papelão, e havia um laço vermelho na tampa. A encarei com curiosidade, querendo dar uma rápida espiada antes que me encontrasse ali.
Talvez ele estivesse escondendo um presente surpresa. E que bom que eu era ótima em fingir surpresa, mesmo sabendo que presente ia ganhar.
Assim, não pensei duas vezes antes de puxar a tampa.
Só que em nenhuma realidade alternativa em que eu me enfiasse eu imaginaria que fosse encontrar aquilo. O sorriso se esvaiu de meu rosto no mesmo instante, quando li o bilhete escrito com a minha própria caligrafia.
"Parece que finalmente vamos ter que usar um daqueles quartos vazios do apartamento. Feliz aniversário de três anos, . Agora somos três também".
Um par de sapatinhos de bebê jazia ali. Vermelhos, feitos de crochê, e era a coisa mais fofa. Eu os encarei por alguns segundos, perplexa, tentando assimilar o que meu cérebro estava claramente raciocinando muito rápido para me fazer perceber.
Ouvi a voz de ao longe, um pouco abafada, me chamando mais uma vez. Então ficou alta, indicando que ele estava ali também.
— ?
Levantei a cabeça para encará-lo, sentindo o rosto encharcado de lágrimas que nem notei caindo, e encontrei seu olhar preocupado e repleto de tristeza mais uma vez.
Então eu lembrei.

CAPÍTULO 25

Um segundo depois, estava agachado ao meu lado.
— , o que foi? Você se machucou, o que-
Então ele viu o bilhete, os sapatinhos. Assisti ao exato momento em que ele terminou de ler o bilhete, uma expressão de pura tristeza tomando conta de seu rosto. Eu vi os olhos dele marejarem e então percebi que os momentos que ele parecia triste e culpado pelo meu acidente não significavam apenas isso.
Não era só por isso.
— ...
Ele me encarou com carinho e uma lágrima solitária escorreu por seu rosto.
— Eu sinto muito, .
Um soluço então irrompeu de mim. Chorei, desconsolada, sentindo um súbito peso no peito.
— Eu... Você sabia? — consegui perguntar.
— O médico disse que você perdeu o bebê no acidente. A batida foi forte e ele não sobreviveu ao trauma.
— E foi assim que você descobriu — afirmei. Não era uma pergunta, mas assentiu mesmo assim, em silêncio. — Foi por minha causa... Por minha causa, o nosso bebê morreu.
Desviei o olhar dele, pura vergonha tomando conta de mim.
— Não, amor. A culpa é da pessoa que te atropelou. E minha, que não estive com você.
Balancei a cabeça, soluçando outra vez, as lágrimas jorrando de mim como um rio, enquanto pensamentos que nunca cogitei me atingiam. Eu lembrei de tudo, tudo. E não sei dizer se aquilo foi pior ou melhor. Uma parte de mim preferia nunca ter descoberto; a outra, se sentia culpada por causar aquele sofrimento a .
Agora tudo parecia tão óbvio. O dia em que ele apareceu de olhos vermelhos e eu inocentemente perguntei se ele estava gripando, ou se tinha fumado. Não. Ele se escondeu para chorar. Ele estava passando pelo luto do nosso bebê sozinho e eu não fazia ideia, porque ninguém me contou.
Me senti mal até por chorar por aquilo. Eu não tinha direito de lamentar. A culpa era minha. Se eu tivesse ficado em casa, isso não teria acontecido. Eu teria visto no dia seguinte e estaríamos bem. Mas fui egoísta e fiquei chateada por algo que ele nem tinha controle. O meu orgulho ocasionou o meu acidente e a morte do nosso bebê.
Eu estava apavorada em ser mãe. Achei que ia ficar apavorado também, mas ele ficaria feliz. No fundo, eu sabia que sim. Mas como eu seria capaz de encará-lo de agora em diante?
— Você pode sair? Eu quero ficar sozinha — pedi, baixinho.
— Não, — disse, firme. — Não vou te deixar sozinha. Nós podemos passar por isso juntos, amor. Nós temos que passar por isso juntos.
— Eu lembrei de tudo, — confessei, com a voz falha. — Eu saí porque fiquei chateada com você, por não aparecer no dia em que combinamos. Eu vi um filme que você queria ver sozinha, só pra te irritar com spoilers quando a gente fosse assistir juntos. Eu tinha preparado uma surpresa, mas teria que adiar. — Encarei a caixa com os sapatinhos. — Eu nem consigo olhar pra você agora. Não consigo. — Solucei. — Eu não me sinto merecedora nem de chorar pela perda do nosso bebê. Foi minha culpa, minha culpa...
Abracei meus próprios ombros, cravando as unhas em minha pele. Eu merecia sentir dor depois de tudo aquilo. Solucei, correndo as unhas violentamente pelos meus braços, sentindo vergões se formando.
— , não! — me agarrou, passando os braços ao redor de mim, de modo que eu não conseguia mexer os braços. Tentei me afastar, mas foi em vão. Ele continuou me segurando firmemente, como se seus braços fossem feitos de ferro. — Você não pode se machucar, tá ouvindo? Não pode fazer isso consigo mesma! Eu não vou deixar, .
— Foi minha culpa, minha culpa... — Solucei outra vez. De repente, era tudo o que eu conseguia fazer: chorar e lamentar. Uma parte de mim tinha consciência de que eu estava parecendo descontrolada, que não deveria agir assim, mas eu não me importava. Eu merecia sentir dor, merecia a culpa de ser a responsável por aquilo. Por fazer passar um mês inteiro aguentando sozinho, fingindo que estava bem.
— Amor, por favor. Não faz isso, — murmurou. — Nós vamos superar juntos, eu prometo. Não foi sua culpa, não foi sua culpa.
A gentileza em sua voz me matava. Eu me sentia um ser humano mesquinho e desprezível e, mesmo assim, aquele homem estava ao meu lado.
Ele esteve ao meu lado durante toda a minha recuperação, fazendo de tudo para que eu me lembrasse dele, de nós. me amava como ninguém. Era o tipo de amor que nunca esperei receber um dia, que eu não sabia nem se existia mesmo. O tipo de amor de histórias épicas, que existia apenas em livros. E eu o amava de volta com todo o meu ser; cada pedacinho de mim vibrava por ele, por tê-lo ao meu lado.
Os últimos três anos haviam sido os mais felizes da minha vida, mas eu não merecia essa felicidade.
Eu não merecia o amor de .
Talvez não merecesse ser mãe também, visto como aquilo tudo tinha acabado. A minha ginecologista tinha suspendido o anticoncepcional por conta da gravidez, agora eu sabia. A consulta de retorno era para iniciar o pré-natal, porque ela também era obstetra. De todo modo, eu ainda precisava fazer o teste de gravidez que tinha escondido de . Não sabia nem se eu devia contar aquilo para ele.
Não queria que fosse um lembrete do bebê que tínhamos perdido, tampouco provocar algum tipo de esperança.
Mesmo querendo ficar sozinha, não me largou até eu me acalmar.
Eu solucei e solucei em seu ombro até ficar com dor de cabeça, e senti lágrimas quentes pingando em meu próprio ombro. Ele também estava chorando, em silêncio, enquanto esfregava minhas costas, tentando me consolar.
Mas ninguém estava consolando ele.
Quando meus soluços silenciaram, eu tentei me afastar e, dessa vez, me deixou ir. Por um breve instante, consegui encará-lo, apenas para ver seus olhos vermelhos e inchados também. Ele segurou meu rosto entre as mãos e encostou a testa na minha.
Mordi o lábio inferior para não começar a soluçar outra vez. Eu não conseguia lidar com a bondade dele. deveria estar me culpando, ele devia ter se afastado de mim, não ficado ao meu lado. Eu deveria estar sendo tratada como um párea por fazer aquele homem sofrer quando havia prometido justo o contrário. As nossas promessas... Agora pareciam ter um peso ainda maior depois que me lembrei delas.
De repente, as palavras da Xamã começaram a fazer sentido.
A criança que não vingou.
Eu achava que ela estava se referindo à época em que a maldição foi lançada, não que estava se repetindo em todas as minhas vidas. Minha mente começou a trabalhar com o pouco resquício de consciência que me restava. As minhas escolhas vão influenciar no resultado final. Talvez fosse um sinal. No fim, eu deveria abrir mão de algo importante para que a maldição fosse quebrada.
Respirei fundo, ainda sentindo as lágrimas correrem pelo meu rosto silenciosamente. Eu estava com pensamentos acelerados, raciocinando rápido sobre diversas possibilidades apenas para voltar para a única que eu achava que seria a certa.
A única escolha que eu acho que devia fazer. Por mim, por e pela criança que se foi. Por mais difícil que fosse para nós dois.
Por mais que fosse doer em nós dois, eu tinha que dar um fim naquilo.
Então, respirando fundo mais uma vez, me afastei para encará-lo novamente.
— ... Eu quero terminar.

CAPÍTULO 26

Encarei a parede cinza do meu estúdio no exato pontinho em que a tinta cinza tinha descascado, perto do rodapé. Eu estava sentado no sofá que havia ali, abraçando os joelhos, completamente imóvel enquanto absorvia tudo o que tinha acontecido nas últimas seis horas.
Senti meus olhos inchados e úmidos, e lágrimas silenciosas ainda jorravam deles como se vazassem de mim, como se eu fosse um recipiente cheio até a borda.
Talvez eu fosse um mesmo.
Pelas últimas horas, tudo o que fiz foi repassar cada palavra e ação de na minha mente. E cada uma delas eram como facas perfurando meu coração.
Ela tinha ido embora.
Por mais que eu tenha tentado impedir, ela tinha tomado a decisão, mesmo de cabeça cheia. Eu sabia que ela estava sofrendo e que queria me afastar, mas e eu também fizemos uma promessa de deixar o outro ir caso uma das partes não quisesse mais. Eu havia dito a ela que a única possibilidade disso acontecer era se partisse dela, já que nunca seria capaz de deixá-la por livre e espontânea vontade.
Eu amava aquela mulher como nunca tinha amado ninguém na minha vida.
E me sentia inútil por não poder fazer nada. Eu estava impotente e tinha prometido respeitar a decisão dela. E ela me fez prometer aquilo de novo antes de partir com uma mochila nas costas, uma hora depois de terminar comigo.
As cenas passavam repetidamente na minha cabeça.
— ... Eu quero terminar.
— O quê? Do que você tá falando?
— Não aguento mais olhar pra você, não depois de tudo.
— , não foi culpa sua. Nós podemos...
— Não, . Eu não quero mais. —
A voz dela falhou. — Eu não aguento.
Franzi o cenho, sentindo o coração na garganta.
— É isso, então? Essa é sua resposta? Você vai simplesmente desistir da gente? Acha que terminar vai resolver nossos problemas?
— Acho que a gente devia ter acabado depois do meu acidente. Foi um erro voltar pra cá, sem lembrar de nada. Eu devia ter voltado a morar com minha irmã.
— Não, . Seu lugar é aqui. Comigo. Nós prometemos nunca soltar a mão do outro —
retruquei, ouvindo a minha própria voz embargada. — Não faz isso com a gente, . Por favor.
— Toda vez que você olhar pra mim e eu olhar pra você… Vai ser um lembrete constante do que aconteceu. Eu não quero isso. Não quero que nenhum de nós lembre disso. Não aguento nem ficar aqui.
— Amor, por favor. Eu sei que é difícil, ainda mais depois de lembrar de tudo assim, mas eu tô com você. Podemos passar por isso juntos —
tentei convencê-la. — Eu te amo, .
— Sinto muito, .
— Ela chorou em silêncio. — Mas eu não posso. Sinto muito por quebrar nossa promessa.
— .
— Eu quero ficar sozinha —
ela disse, sem me encarar. — Vou pegar umas coisas e ir pra casa de , depois peço pra ela vir pegar o resto.
Foi como se meu coração tivesse sido espetado com mil alfinetes. Como se eu tivesse levado um banho de água fria. Como se cada palavra fosse uma facada. Eu não sabia o que fazer além de implorar. Senti minhas próprias lágrimas escorrendo pelo rosto e olhei para o teto. Eu não queria chorar na frente dela, e consegui evitar isso todas as vezes desde que ela voltou para casa, dizendo para mim mesmo que eu precisava ser forte por nós dois; mas naquele momento não me importei.
A ideia de jogar fora tudo o que nós construímos juntos me matava. Ficar sem era pior do que lidar com o lembrete constante da perda do nosso bebê. Se ela queria culpar alguém quanto a isso, então que fosse eu. Ao mesmo tempo, eu a compreendia. Eu tive um mês para me acostumar com a notícia do aborto, ela não. Tentei falar que daria um tempo a ela e depois conversaríamos, mas ela estava irredutível.
— Não quero conversar, . Eu quero ficar sozinha. Vá embora, por favor. Não vou conseguir fazer nada se você tiver aqui.
— Então não vá! —
retruquei, frustrado. — , nós não podemos terminar assim.
— Você prometeu que me deixaria ir se essa fosse minha vontade.
— Acontece que essa não é sua vontade. Eu te conheço. Você tá em choque e magoada, mas-
— Não, . É minha decisão e você prometeu cumprir.
— Por que eu tenho que cumprir minha promessa se você não tá cumprindo a sua? —
perguntei, magoado e irritado.
— Eu preciso que você respeite minha decisão e que não venha atrás de mim.
— Eu me recuso! Você pode ir embora agora, se é assim que quer —
falei, andando de um lado para o outro no closet, o rosto ainda molhado com lágrimas. — Mas eu me recuso a desistir de você, . Vai precisar de muito mais que isso pra me afastar de você.
suspirou, parecendo esgotada.
— .
— Você não aguenta olhar pra mim? —
Continuei a falar. — Então vamos trabalhar nisso até você aguentar. Eu não quero te perder, não quero perder o que a gente tem. Eu te amo, droga! Você sabe disso. Eu te falei um milhão de vezes. Não sei mais o que posso fazer pra você entender isso.
— Você pode seguir em frente —
ela sugeriu. — Ser feliz com outra pessoa. Eventualmente, é o que vai acontecer. Me esquece, .
— Por quê? Por que devo esquecer você? Você não pode me obrigar a isso.
— Porque eu não te mereço. —
Sua voz falhou novamente. — Você sempre foi bom demais pra mim e eu decepcionei nós dois por puro egoísmo.
— , olha pra mim.
Ela balançou a cabeça, negando. Dei um passo em sua direção e envolvi o rosto dela entre as mãos, a forçando a me encarar.
— Você me odeia? É isso? Não me ama mais?
— , por favor... —
Ela tentou se afastar, mas não deixei.
— Olha agora nos meus olhos e diga que não me ama, —
exigi, mas ela manteve os olhos firmemente fechados e ficou em silêncio. — Você não consegue, não é? Por que acha que vou ser feliz com outra pessoa? Por que acha que eu ia querer isso? Eu quero você, . Só você.
— Eu te amo, . Amo tanto... —
ela confessou, chorando baixinho. — Mas eu não quero mais ficar com você. Sinto muito, mas não posso. Vá embora, por favor — acrescentou, em seguida. — Por favor, me deixa sozinha.
Deixei minhas mãos caírem ao lado do corpo. Senti o ar escapar pelos pulmões de uma vez, a ficha finalmente caindo.
Ela me amava, mas não queria isso. Não queria ficar comigo, mesmo que a distância causasse mais sofrimento a nós dois.
Eu me sentia a pior pessoa do mundo. Como se estivesse tentando forçá-la a ficar. Mas eu não podia fazer isso, independentemente de uma promessa ou não. Se ela não queria minha presença, eu não podia insistir mais do que já tinha feito.
Então passei a mão no rosto, tentando me livrar das lágrimas que insistiam em cair e assenti em silêncio, antes de me virar e sair dali, exatamente como ela havia pedido.
Fiquei um tempo do lado de fora, andando pelo corredor com a mente maquinando em busca de alguma alternativa, mas não conseguia pensar em nada além de "eu te amo... Mas não quero mais ficar você."
Quando finalmente apareceu com uma mochila, me ofereci para levá-la até a casa de , mas ela negou, dizendo que havia um táxi esperando na portaria.
Um minuto depois, ela foi embora sem olhar para trás.
Me tranquei no estúdio, o único lugar daquele apartamento que não tinha resquícios de sua presença, e foi onde permaneci pelas últimas horas. Sentindo raiva de mim mesmo por não ter sido capaz de ser suficiente para ela. Pensando no que poderia ter feito para evitar aquilo. Talvez eu devesse ter contado sobre o aborto quando ela acordou no hospital. Talvez eu devesse ter contado tudo, assim ela teria mais tempo de se acostumar com a notícia e, àquela altura, quando se lembrasse, tivesse agido de forma diferente.
Adiar o inevitável só tornou tudo pior e a culpa era minha. O médico disse que eu poderia contar sobre o aborto se quisesse, mas se ela não lembrava nem de mim, como poderia entender aquilo tudo? ia achar que continuava sonhando. Ou pior, que eu tinha batido a cabeça em algum lugar e estava sonhando.
Além disso, filhos não era algo sobre o que costumávamos falar. Eu sabia que ela não queria ser mãe e estava bem em não ser pai se essa fosse a vontade dela. O corpo era dela, logo a decisão de termos filhos um dia também. E se ela quisesse, eu também estava bem com isso.
Eu apoiaria a decisão dela sobre isso porque era o que importava para mim. Se tinha algo a que eu era completamente neutro era em relação a ter filhos. Se tivéssemos um, eu o amaria incondicionalmente. Mas se quisesse adotar cinco gatos, então eu seria pai de pet com ela.
Só que agora nada daquilo parecia possível.
Nosso relacionamento parecia ter uma névoa espessa em torno dele, ocultando todo o caminho que podíamos tomar. Não havia direita ou esquerda, estávamos apenas estagnados no lugar, sem saber para onde ir, tomando decisões com base em mágoa, culpa e desespero.
Eu nem cheguei a saber da existência do nosso bebê antes que o perdêssemos, mas o amei mesmo assim. Chorei por ele, por sua chance perdida de viver, culpa de um bandido aleatório que atropelou o amor da minha vida e fugiu em seguida. A polícia nem sequer tinha localizado o cara ainda para fazê-lo pagar pelo crime.
E agora ele tinha causado o fim do nosso relacionamento também. Por que aquilo tinha que acontecer conosco? Por que tudo estava dando errado? Se eu não tivesse me atrasado no nosso aniversário, nunca teria ido àquele shopping. Estaríamos juntos em um restaurante, provavelmente comemorando a vida do nosso bebê, e não lamentando a morte dele.
Estaríamos felizes e bem, nós três.
Mesmo depois do acidente, criei esperanças de que ficaríamos bem quando ela lembrasse de tudo. Pensei que deixar ela lembrar disso sozinha também fosse ser mais saudável. Achei que conversaríamos, choraríamos juntos, e depois seguiríamos em frente. Porque era assim. Enquanto eu era a pessoa mais emotiva do nosso relacionamento, ela era prática e direta. Aceitava as coisas como eram. superava as adversidades. Ela era determinada assim.
Mas então nada tinha saído como eu havia imaginado. Tomei uma decisão errada e agora estava ali, encarando a parede, com o rosto molhado de lágrimas e mergulhado em um poço de tristeza e impotência.
Nossa felicidade havia sido arrancada de nós, e eu não tinha ideia do que fazer para recuperá-la.

CAPÍTULO 27

Na madrugada do dia seguinte, acordei no sofá do meu estúdio com o pescoço e o estômago doendo. Eu não saí dali nenhuma vez e a única coisa que tinha ingerido até então havia sido uma garrafa de água do meu frigobar.
Eu não fazia ideia de quando consegui cair no sono, mas a julgar pelo horário — cinco e meia da manhã —, provavelmente apaguei por menos de três horas. Não havia nem tomado banho, e nem senti vontade de comer, mesmo que meu corpo implorasse por isso. Além da noite mal dormida, agora eu tinha um torcicolo e um estômago vazio clamando por comida desde o instante em que abri os olhos.
Era um desastre.
me arrastaria dali se me visse negligenciando a mim mesmo. E eu não me importaria nem um pouco, desde que ela estivesse comigo.
Mas não estava.
A realidade do nosso término me deixava deprimido e angustiado. Meus olhos ardiam só de pensar nisso, e eu nem sabia que alguém podia chorar por tanto tempo até acontecer comigo. E quando meu corpo cansou e a enxaqueca veio, eu me tornei uma casca apática, olhando para o nada, mergulhado em um poço de autopiedade ridículo. Nunca sofri assim por nenhum término, mas também nunca havia namorado alguém por tanto tempo, ou sequer dividido uma casa.
era como uma esposa, ainda que não fôssemos casados. Eu a via assim e a tratava assim. Ela era minha prioridade. Mas era teimosa demais para ficar.
Teimosa. Má. Mesquinha.
não tinha o direito de me deixar sozinho assim. Eu não dei meu coração a ela para que ela o devolvesse. Não passei três anos com ela para que, de repente, ela ignorasse tudo o que vivemos. Ela tinha tomado uma decisão de cabeça quente, movida pelo estresse e a culpa que sentiu por causa do nosso bebê. Estava colocando pressão sobre si mesma. Nos fazendo sofrer acreditando que era a melhor opção.
Eu estava puto com ela.
E com dor e fome por causa dela.
O rei da coitadolândia.
Você é completamente patético, .
Suspirei, cansado, e abri uma gaveta no meu mini armário de lanches em cima do frigobar, tirando uma barra de proteína para comer. Mordi violentamente, mal sentindo o gosto. Parecia que eu estava comendo papel.
— Que palhaçada — murmurei de boca cheia, sentindo os olhos arderem outra vez.
Eu ainda tinha lágrimas para chorar? Pelo visto, sim, já que elas começaram a cair novamente. Me forcei a sair do estúdio para tomar banho, mas parei por um momento na porta do quarto, sem querer entrar ali. Que idiotice. Minha roupas estavam no closet que dividíamos.
Era só a merda de um cômodo, então por que eu estava hesitando?
A resposta veio assim que entrei para pegar as roupas e vi a caixa com os sapatinhos de bebê ainda no chão, esquecida junto com o bilhete. Um nó se formou na minha garganta e eu a recolhi com cuidado, olhando em volta em busca de um lugar para guardar.
No meio disso, vi que uma manga de um casaco de inverno de tinha escapado do nicho e automaticamente a coloquei de volta no lugar. Ela provavelmente tinha escondido os sapatinhos ali. Talvez eu pudesse até ter encontrado antes ao mexer nas roupas dela para encontrar as peças que ela tinha usado em nossos encontros. Se eu soubesse que os sapatinhos estavam ali teria os colocado em outro lugar, mas agora era tarde demais. Talvez devesse deixar os sapatinhos ali mesmo.
Suspirei, levantando o casaco, mas me deparei com uma sacola de plástico enrolada ali. Puxei, notando que havia algo dentro e guardei os sapatinhos antes de ver o que era.
Encontrei a caixa de um teste de gravidez e meu primeiro pensamento foi que tinha guardado para me mostrar o resultado. Mas levou um segundo para perceber que a caixa estava lacrada. Olhei na sacola novamente e encontrei um recibo dobrado.
Senti o coração acelerar ao ver que a compra tinha sido feita no dia anterior, junto de uma medicação para enxaqueca. Levou apenas um instante para eu deduzir o que tinha acontecido.
tentou esconder o teste ali e encontrou a caixa com os sapatinhos, o gatilho para o retorno de suas memórias.
Bati a mão no bolso em busca do celular, mas percebi que tinha deixado no estúdio. Um instante depois, me dei conta de que ela provavelmente não estaria disposta a falar comigo. Mas caramba, ela tinha comprado um teste. Será que estava tendo sintomas de gravidez? Se bem que... Ela teve o seu período recentemente, mas...
Caramba. Merda.
O anticoncepcional.
Fizemos sexo desprotegido por semanas, incluindo uma vez depois do período dela. provavelmente encontrou em algum lugar que não estava tomando anticoncepcional por conta da gravidez, e eu fui burro o suficiente para não me lembrar disso. Também não passou pela minha cabeça que fôssemos voltar a fazer sexo, não quando ela nem se lembrava de mim direito.
— Droga... — Bati na minha própria testa. — , seu burro. Ela é sua fã também.
Não que ser fã fosse motivo suficiente, mas e eu tínhamos dormido juntos na noite em que nos conhecemos. Muito precipitado, mas por algum motivo não me passou na cabeça que fosse acontecer de novo. Pensei que ela ia me estranhar por mais tempo, mas... Talvez fosse o subconsciente dela?
Obviamente, nada disso justificava a minha falta de atenção.
Quanta irresponsabilidade, , seu idiota.
E se ela estivesse grávida agora? Eu duvidava que fosse me contar qualquer coisa, mesmo antes de encontrar os sapatinhos. Mas agora eu tinha uma desculpa para falar com ela, mesmo que fosse morrer de ansiedade até isso acontecer.
Eu esperaria mais um dia e tentaria uma conversa, para ter certeza de que ela estava mais calma. Duvidava que fosse querer tocar no assunto agora, então não tinha nada a fazer a não ser esperar.
Peguei minhas roupas e levei para o banheiro. O banho foi rápido, no chuveiro. Eu ainda não queria ficar ali, então voltei para o estúdio logo depois. Achei que um banho pudesse aliviar um pouco o meu humor de merda, mas não adiantou muito. Bem, ao menos eu estava limpo e alimentado — mesmo que fosse só com uma barrinha de proteína.
Peguei meu celular, notando algumas mensagens e ligações perdidas. Uma delas era da minha cunhada, enviada na noite anterior.
: O que aconteceu? apareceu falando que vocês terminaram, mas não falou comigo e se trancou no quarto.
Eu nem sequer toquei no celular. tinha uma notificação personalizada para ligações e mensagens, então qualquer outra que ouvi foi ignorada.
Havia outra mensagem de , de cinco minutos antes.
: , tá tudo bem? Quer me encontrar pra gente conversar sobre isso? Tenho um tempo livre pro almoço.
Comecei a digitar freneticamente, esclarecendo algumas coisas.
: NÓS não terminamos. ELA terminou comigo. encontrou sapatinhos de bebê que ela mesma escondeu no closet e lembrou de tudo.
Um minuto depois, meu celular tocou.
— Oi, — respondi em meio a um suspiro.
— Me diz logo como foi isso, . Preciso saber.
Então eu contei tudo o que tinha acontecido e até mesmo o que eu tinha encontrado no closet.
— Um teste de gravidez? Acho que tá cedo pra isso, ela deve ter comprado pra fazer depois — deduziu. — E você parece péssimo.
— Não posso dizer que tô às mil maravilhas — ironizei, mas ignorou isso.
— Quer almoçar comigo? Vou ter que passar o dia fora mesmo. A gente pode discutir algo.
— Não, não se preocupa. Vou ficar em casa. Não deixa a sozinha quando chegar, tá? Faz ela comer também. Arromba a porta se for preciso.
— Se for preciso, eu chamo você pra arrombar — brincou, mas não havia nenhum humor na voz dela.
Ela provavelmente estava falando sério.
— Tudo bem.
— Sinto muito, . As coisas vão melhorar. Aguenta só mais um pouco.
— Tá.
Encerrei a ligação, mas o celular começou a tocar novamente. Dessa vez, era Jace ligando. Suspirei, sem um pingo de vontade de atender, mas aceitei a ligação mesmo assim.
— Oi, Jace.
— Ei, onde você tava? Tô tentando falar com você desde ontem. Preciso confirmar a reunião hoje e-
— Cancela a reunião — o interrompi. — Na verdade, cancele toda a minha agenda pelo resto da semana.
— Como assim, ? É sobre o seu álbum. A gente tem que resolver essas pendências e…
Ele continuou a falar, mas eu não estava mais nem prestando atenção.
— Eu nem sei se quero lançar esse álbum, Jace — interrompi seu monólogo outra vez. — Cancela tudo e depois a gente conversa. Eu não tô com cabeça pra isso agora.
— Aconteceu alguma coisa? — Ele quis saber. — É a ?
Respirei fundo, sentindo os olhos arderem outra vez.
— e eu terminamos. Preciso de um tempo, então não me incomode. Deixa que eu entro em contato com você depois.
— Ah, nossa. Sinto muito, . Eu entendo, mas... Olha, vai ver foi melhor que isso acontecesse…
— Como é? — Franzi o cenho, irritado. — Tá me zoando, Jace? Você acha que foi pra melhor? A minha mulher acabou de descobrir que sofreu um aborto e tá se culpando por isso. Um filho da puta atropelou ela, mas ela tá se culpando! E agora que sabe disso, acha que o melhor a fazer é se separar de mim!
— — ele tentou falar, mas o ignorei.
— Não me venha com essa merda de que é pra melhor. Nunca vai ser pra melhor, tá ouvindo? Eu amo a e vou lutar por ela. Então não fale do que você não sabe, porra. Fica na sua.
Eu estava ofegante e irritado pra caralho. Ouvi Jace xingar baixinho e tive vontade de dar um soco na cara dele.
— Uma semana, . Lide com isso e depois volte. Você não vai morrer por causa de um término idiota, e você já passou por isso antes. — O idiota teve a audácia de falar e juro que comecei a ver vermelho.
— Vai se foder, seu filho da puta! — xinguei, desligando na cara dele em seguida.
Num impulso, atirei o celular na parede, mas me arrependi no mesmo instante. me daria uma bronca se eu quebrasse o celular por raiva. Ela diria que era um desperdício de dinheiro. Além disso, a capinha que eu usava nele tinha sido presente dela. Me levantei para avaliar o estrago, já sentindo o peso da culpa por ter feito aquilo, mas aparentemente estava tudo bem com meu telefone.
Eu só não podia dizer o mesmo do buraco na minha parede. Não era grande, mas agora dava pra ver o concreto. também me xingaria por isso.
O pior de tudo é que eu sentia falta até da briguenta. A incerteza e a espera eram uma tortura para mim. Eu só torcia para que no dia seguinte ela estivesse melhor para falar comigo. A gente não podia ficar assim, eu me recusava.
"Eu te amo, ... Mas não quero mais ficar com você".
As palavras dela ainda me atormentavam feito uma maldição.
Sacudi a cabeça, como se de alguma forma aquilo pudesse afastar aquela lembrança. Em seguida, respirei fundo novamente, encarando o teto.
Então esperei o tempo passar.

CAPÍTULO 28


— Vamos, Zico. Eu pinto o seu primeiro e depois você pinta o meu — disse a minha skin de Ayla. — É só jogar no cabelo que nem um creme de hidratação e pronto. Eu já até preparei a tinta.
— Tá, e cadê as luvas? — ele perguntou e eu ri por dentro, já sabendo o que Ayla diria.
— Eu esqueci de comprar. Mas tá tudo bem, a tinta não mancha. Vem, senta aqui na cadeira. Pode segurar o espelho, se quiser ir vendo.
Zico fez o que ela/eu disse e comecei a tingir seu cabelo. Cerca de dez minutos depois, troquei de lugar com ele, depois de tirar o excesso de tinta das mãos.
— Tem certeza de que lavou a mão direito?
— Eu tirei só o excesso, vou pintar minha sobrancelha enquanto você pinta meu cabelo — expliquei.
Era uma cena automática em que eu era uma mera expectadora, mas estava me divertindo muito. Zico era uma graça. Falava "não" para Ayla umas mil vezes, mas no fim sempre fazia as vontades dela.
Naquela ocasião, Ayla o convenceu a pintar o cabelo da mesma cor que o dela, um ruivo laranjinha. Quando acabou, Zico relutantemente a deixou fazer uma maquiagem de idol de K-Pop nele, com direito a delineador e tudo. Tiramos algumas fotos e só então Ayla finalmente o deixou ir embora.
Senti a mudança quando fiquei sozinha. O controle de seu corpo era meu de novo. Fazia alguns dias que eu estava ali, mas tinha consciência que só devia ter se passado uns dois dias desde que cheguei na casa de . No entanto, passei a maior parte do tempo dormindo e me recusei a conversar com ela. Eu não queria tocar no assunto ainda, e ela não insistiu.
Quando chegou em casa à noite, perguntou se eu havia comido e como eu estava, e sem nem abrir a porta respondi que estava bem.
Nós duas sabíamos que era mentira, mas eu desconfiava que tivesse conversado com ela. Se tinha uma coisa que ele era incapaz de fazer era manter a boca fechada — acho que ele usava toda a sua força de vontade em me manter livre de spoilers de suas novas músicas. Tirando esse pequeno ponto, ele nunca conseguia esconder nada de mim. E se eu sabia, consequentemente minha irmã também saberia, então eu meio que já esperava que ele tivesse dado alguns detalhes da nossa discussão para ela.
Não que eu me importasse, é claro, era um trabalho adiantado. Tudo o que eu sentia vontade de fazer era dormir e vir parar em Tenaz, onde eu me distraía dos meus próprios problemas. Minha mente estava cheia e, acordada, eu só conseguia pensar nas palavras que eu deliberadamente falei para magoar e ele me deixar ir — além da maldição que nos perseguia.
Eu também sabia que não podia ficar assim para sempre. Fazia quase quarenta e oito horas e logo eu teria que voltar ao trabalho. Quando saí do apartamento, peguei algumas roupas, o notebook e meu tablet, além dos meus documentos. A maior parte obviamente ainda estava lá, mas eu ainda não tinha energia para lidar com isso. Você se colocou nessa posição por conta própria, agora lide com isso, pensei comigo mesma.
Deitei no sofá de Ayla e fechei os olhos por alguns minutos, até ouvir uma batida forte na porta do quarto que me fez levantar em um pulo. Automaticamente me dirigi em direção à porta e mal tive tempo de raciocinar que eu não estava mais em Tenaz, mas sim de volta à realidade, no quarto de hóspedes de .
As batidas continuaram e destranquei a porta, confusa. já tinha chegado e perdeu a paciência comigo?
Ainda eram quatro e meia da tarde.
Abri a porta, mas logo me arrependi ao ver parado ali, com bolsas de cansaço abaixo dos olhos e uma expressão nada feliz no rosto.
Na verdade, ele parecia bem irritado.
— O que você tá fazendo aqui? — perguntei baixinho, surpresa em vê-lo ali.
— Sua irmã me passou a senha da porta. Vim garantir que você tá pelo menos se alimentando, porque ela disse que você não saiu do quarto.
Senti o coração acelerar e meus olhos arderam um pouco. Ele também não parecia nada bem. Isso é culpa sua, . Você escolheu isso.
— Isso não é da sua conta, — declarei, tentando ignorar a voz da minha consciência que não parava de me criticar. — Você nem devia estar aqui. Eu não quero te ver.
Mentirosa.
Por um breve instante, abriu um sorriso sarcástico ao ouvir aquilo.
— Então feche os olhos. Não vou embora. — E se virou, indo em direção à cozinha.
Andei atrás dele.
— Como assim, não vai? Você nem devia ter vindo, ! A gente terminou!
— Você esqueceu uma coisa, . — Ele se virou para me encarar, então tirou algo do bolso e colocou em cima do balcão.
Arregalei os olhos quando vi o teste de gravidez que eu havia comprado. Me esqueci totalmente disso quando recuperei minhas memórias. Depois fiquei ocupada demais com nossa discussão, e então em sair de casa.
— , eu… — Eu nem sabia que desculpa inventar, na verdade. Nem tive tempo, já que voltou a falar, logo em seguida.
— Quando pretendia me contar? Ah, não, espera. Você não pretendia — ele me acusou.
— É só uma suspeita! — tentei justificar, me sentindo subitamente pressionada. — Eu tenho quase certeza de que não tô grávida. Não tô sentindo nada também. Comprei só pra não ter que ficar pensando nisso.
— , não importa se é suspeita ou não, eu tinha o direito de saber. E se você tiver grávida?
— Se eu tiver, então vou ter o bebê.
— É? Vai ter o bebê sozinha?
— Nós nem estamos mais juntos.
— Mas eu sou o pai! — gesticulou, apontando para si mesmo. — E não estamos juntos porque você não quer.
— Você fala como se o bebê já existisse.
— E se existir? — Ele deu a volta no balcão, parando na minha frente.
Dei um passo para trás.
— .
— . — Ele me puxou de uma vez, me fazendo esbarrar em seu corpo. — Por que você não para de ser teimosa e volta logo pra mim?
Meu coração errou uma batida. Ou talvez algumas.
Por que tinha que ser tão obstinado?
Ele estava próximo demais para que eu pensasse com clareza. Eu tinha que me afastar, mas o problema é que quando tentei pela segunda vez, tudo o que consegui foi ser prensada contra a parede ao nosso lado. Minha respiração falhou e fiquei levemente ofegante. Não havia nenhuma parte de seu corpo que não estivesse tocando o meu.
— , para com isso. Você sabe que é melhor você ir embora...
— Não, — ele insistiu. — Já disse que não vou.
— Você disse que ia me deixar ir... Eu falei que não quero mais ficar com você.
— Bem, acho que eu não tava pensando com clareza, mas você acha mesmo que faz sentido me amar e não querer ficar comigo? Estamos juntos há três anos, . Podemos passar por isso.
— Eu não mereço você — falei, sentindo a voz falhar.
— Isso não é você quem decide — ele retrucou baixinho, encarando meus lábios. — Eu sei que você é tão obcecada por mim quanto eu sou por você, amor.
Ele estava tão próximo que se eu me inclinasse um pouquinho para a frente, nos lábios se tocariam. Meu coração batia tão rápido que eu tinha quase certeza de que ele podia sentir.
— Por que você faz isso comigo? — perguntei quase em sussurro, virando o rosto para o lado, tentando colocar o máximo de distância que eu podia naquele momento. Senti os olhos arderem novamente e meu corpo clamar por ele. A proximidade era agonizante.
virou meu rosto delicadamente para que eu o encarasse outra vez.
— Porque eu te amo. — Ele roçou os lábios nos meus, sem realmente me beijar. Ele fez isso uma, duas vezes; na terceira, pressionei minha boca contra a dele e correspondeu de imediato.
Foi quase desajeitado. Um selinho que não devia acontecer. Assim como o beijo que se seguiu a ele, quando encaixou nossas bocas perfeitamente e nossas línguas brincaram juntas. Eu o queria, queria tanto. Tentei falar para mim mesma que aquele era um momento roubado, uma última vez. Que seria só aquela vez e depois eu o deixaria ir... Mas então as palavras sobre a maldição me atingiram novamente.
Eu tinha que fazer a escolha certa para quebrá-la ou a morte nos perseguiria. Já tínhamos perdido um bebê, e eu não podia arriscar que algo mais acontecesse. Eu tinha que ficar longe de para dar fim àquilo e, talvez... Na nossa próxima vida, finalmente seríamos livres. E pensar que ele era realmente a minha pessoa destinada...
A convicção de não poder ficar com me matava um pouquinho a cada segundo, mas eu estava fazendo isso para proteger nós dois.
A outra pessoa ainda estava por aí, procurando jeitos de nos separar. Talvez ela ficasse em paz, quando soubesse que tinha conseguido. E eu não tinha dúvidas de que era o maldito stalker. De todos os ditos fãs de , ele tinha sido a única pessoa a me perturbar de verdade. Talvez fosse até a pessoa que me atropelou. Se fosse um acidente, mesmo que ele quisesse roubar o carro, teria fugido. Havia espaço suficiente naquele estacionamento. Ele poderia se livrar do carro antes que a polícia fosse atrás dele.
Eu poderia até ter acreditado que poderia ser alguém roubando por necessidade — se eu não soubesse da maldição — e que se assustou após causar um acidente, mas era coincidência demais.
Se eu continuasse com , esse cara continuaria a nos infernizar de um jeito ou de outro, porque era parte do ciclo que vinha se repetindo. E eu tinha assistido dramas suficientes para imaginar que aquilo iria perdurar até que um de nós três fosse destruído.
Uma parte de mim queria contar para ele, explicar porque eu estava fazendo aquilo. Era algo que ia além da culpa que eu sentia por perder o bebê. Eu não me sentia digna e crianças estavam e continuariam a ser perdidas em todas as nossas vidas se eu não acabasse com aquilo.
Por mais que me doesse, por mais que eu odiasse com todas as minhas forças ficar longe de , eu só conseguia pensar que tínhamos que ter um fim.
Ofeguei em seus braços, tentando encontrar forças para afastá-lo. Eu sentia meus lábios levemente inchados, e um calor se espalhando lentamente pelo meu corpo. Eu queria envolvê-lo com as pernas, e queria que ele me fodesse contra aquela parede até me deixar mole feito gelatina.
Mas era só um momento roubado.
não merecia ouvir que era um erro quando tudo acabasse. Ele tinha sido a escolha mais certa da minha vida e ter que deixá-lo me fazia corroer de dentro para fora.
Então juntei toda a minha quase inexistente força de vontade e pedi para que ele parasse.
— Por quê? — ele quis saber. — Você também me quer, .
— Não posso. Por favor, , para.
Senti o corpo dele enrijecer e imediatamente ele me soltou, dando um passo para trás.
— Por que você tá fazendo isso comigo? — ele perguntou, olhando nos meus olhos, com uma mágoa quase palpável.
Os meus se encheram rapidamente e as lágrimas que eu tinha conseguido segurar até então molharam meu rosto.
— Nós não podemos. Por que você insiste em ficar? Por que, depois de tudo o que eu te disse? Por que você não esquece que eu existo e segue em frente? Você vai encontrar alguém melhor, . Uma separação não vai nos matar.
— Então por que eu sinto que vou morrer se ficar sem você?! — Ele me encarou, frustrado, e um par de lágrimas escorreu pelo seu rosto. — , por favor... A gente tava bem antes disso tudo acontecer.
Eu também sinto como se fosse morrer sem você, eu quis dizer. Mas não podia.
— Eu sinto muito, . — Você poderia morrer se ficasse comigo. — Vá embora, por favor.
— .
— Não. — Coloquei as mãos no rosto. — Por favor, vá embora. Eu tô implorando. Vá, .
Um momento de silêncio. Uma respiração profunda. E então...
— Tá. Se é assim que você quer, eu não vou mais insistir. Não posso lutar pela gente sozinho, . Eu trouxe comida pra você. Fiz bibimbap antes de vir. Por favor, se alimente. E me envia o resultado do teste quando fizer.
— Eu tenho quase certeza de que não tô grávida.
— Mesmo assim. Faça e me mande o resultado. Quero ter certeza também.
Assenti, de cabeça baixa, olhando para o chão. Então o vi dar um passo para trás.
— Eu vou voltar pra casa agora — disse ele. — Meu advogado tá tentando rastrear o stalker idiota que tava te perturbando, vou te manter atualizada sobre isso também até pegarmos ele.
— Tá.
Um momento depois, outro passo para trás. Então ele se virou e foi embora. Escorreguei pela parede assim que ouvi a porta bater e chorei mais ainda.
Eu estava com o coração despedaçado, e não sabia ideia de como fazer ele parar de doer.

CAPÍTULO 29

Quando chegou em casa, pouco depois das seis, eu estava em pé, de frente para o balcão da cozinha, terminando de engolir o resto da porção de bibimbap que tinha feito para mim. Meus olhos estavam tão inchados que mantê-los abertos estava sendo um pouco difícil.
Eu queria me esconder, apagar, e não pensar em mais nada.
Ficar sem era doloroso demais para que eu lidasse com isso acordada. Mas vê-lo ocasionalmente na skin de Dean também não ajudava muito, quando eu ia parar em Tenaz. Eu ainda não sabia nem por que continuava indo parar na história, afinal, já tinha recuperado todas as minhas memórias. Eu sabia disso, tinha certeza. Então qual a razão daquilo continuar? Seria um gatilho? Talvez um mecanismo de defesa para me afastar da realidade, mesmo depois de lembrar de tudo?
Suspirei, resignada, me sentindo um lixo. A pior das piores entre todas as perdedoras. Então encarei minha irmã, sentindo meus olhos ficarem úmidos mais uma vez.
— Por que você tem que contar tudo pra ele? Sua fofoqueira — resmunguei de boca cheia, enfiando mais uma colher de comida na boca.
suspirou e se aproximou.
— Por que ele é a pessoa que você prometeu nunca deixar ir — ela respondeu, apoiando os braços no balcão. — Você tá fazendo isso unicamente por conta do aborto, ?
E lá estava o elefante na sala. Não tínhamos falado sobre aquilo ainda, a lembrança do acidente, do sangue... Do momento em que eu sabia que estava perdendo meu bebê. Mas eu já esperava que fosse tocar no assunto em algum momento, especialmente quando ela e conversaram pelas minhas costas.
Já que eu não queria falar, ele fez aquilo por mim.
— Foi um dos motivos — eu admiti, abaixando a cabeça. — Me senti um lixo quando lembrei do acidente. Eu vi o sangue, . Eu soube antes de desmaiar, e só juntei um mais um pra confirmar o que tinha acontecido. Eu menstruei há uns dias. Minha barriga não cresceu nada. Se eu tivesse grávida, meu corpo teria mudado.
— Não foi culpa sua. Você foi atropelada, .
— É aí que tá. Foi culpa minha — enfatizei, encontrando seu olhar mais uma vez. — Se eu não tivesse saído de casa, meu caminho nunca teria cruzado com o daquele cara. Eu não consigo parar de pensar na maldição. Não foi um acidente perder o bebê, foi proposital. Se eu não estivesse grávida, poderia ser só coincidência, mas, quando lembrei... Só consegui pensar nisso, na tal mulher.
— Homem, segundo a xamã — corrigiu. — Você não tem ideia de quem seja? Alguém que você tenha conhecido?
Neguei com a cabeça.
— Não, nada. Acho que é o stalker. Há uns dias eu recebi uma mensagem dele no Instagram falando que eu deveria ter morrido no acidente. E isso da morte nos perseguir... E se algo acontecer com ou comigo, só porque estamos juntos?
Minha irmã franziu o cenho, preocupada.
— Você acredita mesmo nisso? Que a solução é romper com ele?
— É o que ele quer, o stalker. Considerando que ele seja a esposa reencarnada. Isso não vai parar nunca enquanto nós não dermos um fim.
— É isso que o seu coração diz, irmã?
— Meu coração não importa agora, — respondi, sentindo meu olhos arderem mais uma vez. — Não posso ser egoísta e me dar ao luxo de seguir o que ele diz. Eu amo . Você sabe disso, ele sabe também, mas prefiro ficar sem ele e saber que ele tá vivo do que arriscar perdê-lo de um jeito pior. Mas eu tô bem. A gente vai superar.
— Ah, é? E por que você tá chorando de novo? — ela perguntou, cética, e só então percebi que meu rosto já estava encharcado outra vez.
— Ele cozinhou pra mim. — Solucei, colocando outra colher de comida na boca. Seria até cômico se a situação não fosse trágica. Mesmo depois de magoar , ele ainda dava um jeito de cuidar de mim.
suspirou, parecendo cansada.
— Honestamente, ... Eu não sei o que fazer com vocês dois. Não acho que se afastar seja a solução, mas você é teimosa demais. E tá tirando meu cunhado favorito de mim. — ela reclamou, me fazendo rir entre lágrimas.
— Ele é seu único cunhado. Você não tem outra irmã — falei, logo percebendo o erro. — Bem, ex-cunhado agora.
suspirou novamente, e eu enfiei a última colher de comida na boca.
— Eu vou tomar banho — ela avisou, enquanto eu juntava os últimos grãos de arroz para comer. — Mas fico feliz por ele ao menos ter conseguido te fazer comer.
Então se virou e saiu. Um segundo depois, encarei o recipiente vazio que tinha embalado cuidadosamente, e então chorei mais um pouco.

***


Uma semana depois de terminar com e sair de casa, finalmente decidi fazer o teste de gravidez.
Depois de tudo, achei melhor esperar mais alguns dias para descobrir se estava mesmo grávida. E só para garantir, pesquisei na internet se poderia haver algum problema quanto a uma gravidez poucas semanas após um aborto, mas havia muitos casos do tipo aparentemente sem complicações. A ideia de engravidar de novo sabendo que meu corpo poderia rejeitar mais um bebê me apavorava. E ainda me senti culpada por ter pensado que não estava preparada para ser mãe e ter comprado um novo teste, já torcendo para não estar grávida.
No entanto, enquanto esperava o tempo para ver o resultado daquela vez, eu já não sabia mais o que queria. Eu tinha noventa por cento de certeza de que não estava esperando um bebê, mas quando confirmei isso com o teste, fiquei surpresa ao sentir a pontada de decepção que me atingiu ao visualizar uma única listra.
Tirei uma foto e enviei para , sem nenhuma legenda. Ele visualizou cinco minutos depois, mas não respondeu nada.
Era aquilo então, a confirmação que esperávamos.
Eu não tinha ideia do que faria se estivesse grávida, ainda mais separada de , e sabia que não estar era provavelmente melhor para nós dois, considerando nosso término. Mas mesmo assim, meu coração se apertou. A resignação de saber que era o fim de nós dois, colocado entre nós por mim mesma, me atingiu em cheio.
Não chorei dessa vez.
Provavelmente havia esgotado todas as minhas lágrimas na última semana enquanto tentei seguir em frente. Dediquei noventa e cinco por cento da minha atenção ao trabalho durante aquela semana, tentando me ocupar ao máximo enquanto me perdia no mundo literário de Kate, e deu certo na maior parte do tempo.
Aquela era a primeira mensagem que eu trocava com desde a última vez que o vi e como uma maldita masoquista, rolei a janela de nossas conversas, lendo algumas mensagens antigas. Era deprimente, eu era culpada por nosso sofrimento mútuo, mas estava firme em minha decisão.
Eu tinha que proteger ele, nem que para isso eu tivesse que ficar longe. Se a pessoa que queria nosso mal resolvesse agir, por qualquer motivo que fosse, isso poderia terminar mal, assim como todas as outras vezes em nossas vidas passadas.
Eu não contei a ninguém, mas naquela semana voltei para ver a xamã mais uma vez. Eu queria saber mais sobre as minhas vidas passadas, saber se a história da morte nos perseguir significava o que eu estava pensando. As palavras de Sujin ainda faziam minha mente girar, e a confirmação do que eu mais temia veio logo depois.
"Se a escolha errada for feita, a morte os perseguirá. Tirada pelas próprias mãos ou de outrem, a maldição se concretizará mais uma vez e a chance daquele que não viveu a vida e o amor que deveria continuará no limbo."
Eu estava certa então. Se ficássemos juntos, um de nós morreria, ou os dois. E a esposa que não teve chance de viver como queria e receber o amor de continuaria do mesmo modo. Eu não achava que me afastar dele daria uma chance para ela, especialmente quando ela era um ele nessa vida e era hétero. Tampouco achava que ele se tornaria amigo de um stalker, mas talvez a distância deixasse sua alma em paz. Se a maldição fosse quebrada assim, em outra vida poderíamos os três ter uma nova chance de ser felizes.
Mantive aquela informação para mim mesma. Eu não precisava discutir aquilo com mais ninguém e o resultado do teste era só mais um sinal de que não era para ser. Quando ouvi as palavras de Sujin, apenas assenti em silêncio e me fui embora sem falar mais nada.
Vivi três anos me sentindo a mulher mais sortuda e amada do mundo. Mesmo que isso tivesse sido arrancado de mim, eu levaria essas memórias comigo para sempre. Para mim, todo o amor, apoio, amizade e cuidado que recebi de eram preciosos. Construímos nosso relacionamento com base em companheirismo e respeito, e ele era o tipo de pessoa que eu admiraria para sempre, mesmo que um dia eu soubesse que ele havia passado a me odiar.
Eu não me via com mais ninguém além de , mas um dia... Quando ele encontrasse um novo amor, mesmo que doesse em mim, eu torceria para dar certo, torceria para que ele tivesse a chance de ser feliz.
era uma das minhas pessoas favoritas no mundo.
Mas a nós, agora só restava seguir em frente. Dar tempo ao tempo e esperar que fosse o suficiente para curar nós dois.
Mais tarde, quando chegou, conversei com ela e enviei uma mensagem para falando que iríamos buscar o resto dos meus pertences. Eu não tinha interesse em mobília nem nada do tipo, então levaria apenas as minhas roupas, sapatos e cosméticos.
Eu não precisava de mais coisas que me lembrassem dele. Já bastavam as mensagens e as fotos de nós dois, que eu não havia tido coragem para apagar.
E honestamente, nem sei se teria.
Talvez o máximo que eu fizesse fosse transferir tudo para uma nuvem. De todo jeito, deletar parecia demais. Quase um desrespeito a nós mesmos e tudo o que vivemos. Eu não queria esquecer, apenas não ter lembretes na minha cara toda vez que pegasse o celular.
respondeu minha mensagem poucos minutos depois.
♥: Tudo bem, vou ficar trabalhando no estúdio. Fique o tempo que precisar, não vou atrapalhar.
Não vou mais atrás de você, . Estou te deixando ir agora, foi o que imaginei que ele queria dizer, quando li.
No dia seguinte, e eu voltamos para o local que foi meu lar nos últimos dois anos. Era cerca de sete da manhã e eu não vi nem ouvi , então deduzi que ele estava trancado no estúdio. Eu sabia que ele tinha comida e bebida lá dentro, além de um pequeno banheiro, então era de se esperar que ele pudesse sobreviver lá dentro por várias horas sem sair.
O apartamento estava silencioso e o único barulho eram das vozes de minha irmã e eu enquanto conversávamos baixinho, decidindo como organizar as coisas.
Havia mais do que eu esperava, então deu um jeito e ligou para o tal Garrett bonitão com quem estava saindo, e o convenceu a vir ajudar. Ele tinha uma caminhonete e trouxe um amigo com ele, um cara chamado Jake. Os dois pareciam dois modelos saídos de uma capa de revista e tinham músculos úteis o suficiente para ajudar a carregar as caixas que fomos deixando prontas. Assim, o trabalho que duraria provavelmente o dia todo foi concluído antes do meio-dia.
Era um alívio terminar cedo, mas a sensação de sair daquele apartamento sabendo que nunca mais voltaria era completamente amarga. Mas desde a última visita à xamã, eu vinha me policiando para me lembrar do motivo de estar fazendo aquilo sempre que começava a me martirizar.
Não adiantava de nada continuar me remoendo em um poço de autopiedade. Nada mudaria, mas olhei para trás uma última vez antes de sair e, por alguns segundos, tentei capturar uma lembrança de cada pedacinho daquele lugar. E em meio à triste convicção de que aquele lugar não faria mais parte do meu presente, me virei e fui embora.
Um ciclo havia se encerrado.
E eu esperava que a maldição também.

CAPÍTULO 30


Rolei na cama, me espreguiçando, e abri os olhos para encarar as paredes do local onde eu vinha dormindo nas últimas semanas.
Fazia pouco mais de um mês que e eu tínhamos terminado e eu havia me mudado oficialmente para o quarto de hóspedes, incapaz de usar nosso antigo quarto.
Eu não havia nem mesmo trocado os lençóis da cama, que permanecia intocada desde o dia em que ela foi embora, e usava apenas o closet para me trocar. Ele parecia bem vazio sem o zilhão de pertences dela e, sempre que eu entrava lá, meu olhar automaticamente seguia até o nicho onde jazia a caixa com os sapatinhos de bebê que ela havia deixado para trás.
Podia ser coisa da minha cabeça, mas eu podia jurar que sempre que entrava no nosso quarto podia sentir resquícios do cheiro do perfume favorito de , o que ela usava no dia a dia e eu adorava. Era o único momento em que eu me permitia sentir saudade sem qualquer disfarce para mascarar que eu estava bem.
Eu ainda não estava, não sabia quando estaria, mas resolvi tentar seguir em frente, assim como vinha fazendo.
A última vez que tínhamos trocado mensagens havia sido há duas semanas, quando recebi uma atualização sobre o local que o stalker tinha usado para enviar aquelas mensagens nojentas para ela. Tínhamos descoberto o endereço de IP de onde tudo havia sido enviado, mas aparentemente o cara não morava mais no local.
Atualizei e deixei claro que a investigação continuaria a ser feita por um detetive particular. Meu advogado deu a ideia de contratar um para tentar rastrear o paradeiro do cara.
O nome dele era Roy Basset e tinha vinte e quatro anos. Tínhamos conseguido uma foto dele e eu a enviei para e os dois seguranças que eu tinha contratado para ficar de olho nela, assim que descobri que ele era o stalker.
Não contei essa parte para ela, obviamente, sobre os seguranças. No entanto, estava sabendo de tudo, e também me contava tudo sobre .
Como o fato dela ter voltado a trabalhar no escritório da editora dois dias depois de buscar suas coisas no nosso apartamento, já que o quarto que estava usando no de estava lotado de caixas que ela mal tinha onde colocar — e que meio que ainda permanecia assim.
Ambos sabíamos que odiava ter que organizar coisas. Ela havia juntado coragem para pegá-las, mas arrumar tudo de novo em outra casa era um processo que eu sabia que ela iria adiar até cansar de ver caixas ao seu redor.
Eu também havia voltado a trabalhar e, além disso, andava me exercitando mais que o normal. E se antes eu trabalhava muito, agora tinha me tornado um viciado nisso. Ficar exausto também me ajudava a dormir melhor e qualquer coisa que eu pudesse fazer para ocupar minha mente, eu faria, incluindo reuniões presenciais desnecessárias que poderiam ser resolvidas com uma ligação.
Minha equipe provavelmente estava me odiando por aquilo, mas era o novo que eles tinham que aguentar. Ninguém além de Jace sabia que e eu tínhamos terminado e, para todos os efeitos, nosso personal trainer achava que ela estava passando um tempo com a irmã para fazer companhia a ela.
Eu não sabia até que ponto dessa história John acreditava, mas não era da conta de ninguém o meu relacionamento com .
No dia seguinte após pegar seus pertences, desativou todas as suas redes sociais. achava que ela não queria apagar nossas fotos e desativar era uma opção melhor para gerar menos especulações.
Agora as únicas vezes que eu podia vê-la era através de ocasionais fotos que as duas tiravam quando saíam juntas para comer e postava em seus stories. Eu me sentia um pouquinho stalker por esperar constantemente uma atualização da minha ex-cunhada, mas era o único jeito que tínhamos arranjado para ela compartilhar imagens de comigo sem realmente fazer isso.
Em uma das ocasiões, não pude deixar de perceber que ainda usava nossa aliança de compromisso. Eu não sabia se ela queria manter as aparências ou não, mas eu também não tinha tirado a minha.
Eu sabia que podia não significar mais nada para ela, mas me sentia um pouquinho menos miserável por ela não ter pegado aversão a qualquer coisa que a lembrasse de mim.
disse que ela havia parado de chorar. Eu também. Acho que o processo das fases de luto era real, mas não deixava de ser menos doloroso.
Eu ainda não tinha deixado ela ir, embora talvez fosse isso que ela pensasse agora. Mas não sabia quando estaria pronto para fazer isso, e finalmente parar de perturbar por notícias dela. Eu queria saber de tudo, se estava se alimentando direito, trabalhando, se divertindo...
Meu celular tocou, interrompendo meus pensamentos. A primeira coisa que fiz foi ver a hora, notando que se passava das nove da manhã. E então atendi em meio a um suspiro.
— Oi, mãe.
— Oi, meu amor. Como foi a sua semana? — ela perguntou e murmurei uma resposta genérica.
Minha mãe e eu não éramos do tipo de ligar um para o outro com frequência, mas como se estivesse pressentindo alguma coisa, no dia em que veio pegar as coisas dela, ela fez isso.
Seu aniversário de sessenta anos estava chegando e ela estava organizando uma festa com as amigas e queria confirmar minha presença e de .
Naquele dia, murmurei um "mãe" e ela imediatamente soube que havia algo de errado. Contei tudo o que tinha acontecido, inclusive sobre o bebê que tínhamos perdido. Levei uma bronca por não ter falado nada antes, embora ela soubesse do acidente de , mas logo depois ela voltou a ser a mãe amorosa que sempre me consolou nos momentos difíceis.
Desabei no choro ouvindo suas palavras, mas me senti um pouquinho melhor por saber que ela estava ali caso eu precisasse.
Ela se ofereceu para vir passar alguns dias comigo, mas recusei delicadamente. No entanto, as ligações ficaram mais frequentes. No início, ela ligava dia sim, dia não. E então passou a fazer isso uma vez por semana. Eu estava grato e não queria fazê-la se preocupar tanto comigo, então foi um alívio.
— E como foi o trabalho? — ela quis saber, quando terminei de falar.
— Tenho uma reunião hoje.
— Você devia sair com algum amigo, .
— Eu tenho um compromisso em Los Angeles daqui a um mês, vou aproveitar pra encontrar alguns.
A verdade era que eu não tinha amigos em Nova York. Decidi morar na cidade simplesmente por gostar dela, mas eu era um lobo solitário. Fora dos palcos, minha vinda era cinza e chata.
Eu não tinha nenhum hobby e tudo o que fazia no meu tempo livre era beber, fumar, me exercitar, trabalhar mais um pouco em casa ou dormir. Eu sobrevivia de delivery porque não sabia cozinhar nada, e mesmo achando minha vida pessoal um tédio, eu não fazia nada para mudar aquilo.
Até aparecer na minha vida e trazer cor para ela. Alegria. Amor. Felicidade e sensação de pertencimento.
Me tornei bem mais saudável e consideravelmente mais divertido depois que a conheci. Fiquei encantado desde a primeira conversa. Ela era como um raio de sol em um dia frio e eu amava como me sentia ao redor dela. Ver feliz me deixava feliz, e era especialmente divertido porque eu não precisava me esforçar muito para fazer isso acontecer.
Uma edição de luxo de um livro que ela gostava, cozinhar ou comprar suas comidas favoritas, deixar ela dar uma olhada em uma música nova quando eu finalmente tinha concluído... O sorriso dela era como uma luz iluminando um quarto escuro. Eu quase podia ver o meu mundo ganhando um pouquinho mais de cor sempre que ela sorria.
Ela não era apenas brilhante, como também tinha um temperamento genioso. Eu seria hipócrita se falasse que não a achava assustadora às vezes, mas até isso era meio fofo. Ela ficava linda quando irritada e se via alguma ofensa a mim na internet, me defendia com unhas e dentes. Quando isso acontecia, eu sentia vontade de me ajoelhar aos seus pés e mostrar a ela com minha boca o quanto eu era grato só por ela existir e fazer parte da minha vida.
Eu era um idiota apaixonado e nunca neguei isso. Não me importava nem um pouquinho de orbitar ao redor de . Ela era meu amor, minha companheira e a minha pessoa favorita no mundo todo.
Desculpa, mãe.
Mãe!
Ela ainda estava falando ao telefone sobre alguma fofoca de uma amiga que eu não fazia ideia de quem era, mas ela jurava que sim e eu não tinha ouvido nem a metade.
— Mas enfim, vou te deixar em paz agora. Boa reunião, meu bem. Não se esqueça de se alimentar e beber água. Vou pra ioga agora.
— Obrigado, mãe. Boa aula pra senhora também.
Desligamos um momento depois e respirei fundo, olhando para o teto mais uma vez, antes de me levantar para tomar banho e iniciar mais um dia que me deixaria exausto o suficiente para que, à noite, eu não conseguisse pensar em nada a não ser em dormir.
Sem era como se tudo estivesse se tornando cinza outra vez.

Encontrei Jace para uma reunião duas horas depois. No fim, depois da minha última discussão com , eu acabei focando no trabalho outra vez e o andamento do novo álbum continuou seguindo.
Eu lançaria dez músicas dessa vez. Estavam escritas e eu mesmo as tinha produzido, mas ainda precisava dar uns toques finais. Precisávamos decidir as cores da capa do álbum e a ideia inicial tinha sido em tons de verde, mas agora eu queria preto e branco para combinar com o meu péssimo estado de espírito.
Uma hora ou outra teríamos que admitir o término publicamente, então talvez... Talvez pudéssemos usar o álbum para isso. Eu não queria que as pessoas atacassem e as músicas que escolhi colocar na lista meio que deixavam isso claro.
Originalmente seriam apenas oito, mas inseri outra duas que compus após o nosso término. Era como uma terapia, o meu modo de colocar para fora o que eu estava sentindo, e meio que me ajudava a aliviar a sensação ruim que tinha se atrelado em mim.
Era como se eu soubesse que estava morrendo um pouquinho a cada dia sem ela. Eu não tinha ânimo para nada, mas agora só me restava aceitar.
— Tem certeza de que quer preto e branco? Eu acho que o verde fica melhor — Jace opinou.
— Tenho certeza, Jace — respondi, apático. — Meus álbuns sempre refletiram meus sentimentos e, no momento, não vejo nenhuma cor nele. Só tons de preto, branco e cinza.
— Honestamente, … Essa não é a pessoa que seus fãs esperam.
— Como assim? — O encarei com o cenho franzido, sem entender aonde ele queria chegar.
— Já faz mais de um mês que você e sua namorada terminaram. Você precisa seguir em frente.
— Eu tô seguindo em frente — rebati, na defensiva.
— Você parece um zumbi na maior parte do tempo. — Rolei os olhos ao ouvir. — Sério, . Parece que aquela mulher sugou sua vida.
Eu ri pelo nariz, achando realmente engraçado.
— Você não lembra de mim antes, Jace? Antes da ? Acha mesmo que ela sugou alguma coisa de mim?
— Você só era mais retraído antes, mas sempre foi um cara legal, simpático.
— Ah, me perdoe se não tenho humor pra ficar de conversa fiada — falei, com ironia. — Não acuse de alguma coisa se você não sabe de nada. Eu nem falo da minha vida pessoal com você, porque ela te odeia.
— Me odeia por quê? Eu nunca entendi isso.
— Segundo as palavras dela, você é intrometido, incompetente e acha que pode me monopolizar.
— ! — Ele me encarou, ofendido. Não me importei. — Eu tô com você há mais tempo que ela. Isso não significa nada?
— O que deveria significar? era minha mulher, Jace. Você é só meu gerente.
— É só isso que você acha? Não me considera nem mesmo um amigo?
— Por que você tá tão sensível hoje? Você sabe muito bem que nossa relação sempre foi profissional e não passa de um arranjo. Nós não temos nada em comum, Jace. Você sabe disso.
— Um arranjo... — Ele riu pelo nariz e eu podia jurar que por um segundo, vi um brilho de raiva em seu olhar. — Tudo bem, então, .
— É, beleza — respondi, irritado por ele estar irritado. O que ele achava? Que íamos virar melhores amigos de uma hora para outra depois de anos sendo colegas? Que cara estranho. — Já que resolvemos tudo, eu vou pra casa.
Me levantei e segui em direção à saída, mas me virei quando o ouvi falar novamente.
— Vou te mandar o cronograma do mês que vem quanto à apresentação em LA. Vê se melhora até lá pros seus fãs não terem que ver essa sua cara de bunda.
Sorri sarcástico e me despedi dele com um aceno. Esse cara já tava me dando nos nervos e minha paciência estava curta. Quando estivéssemos em LA, eu visitaria a sede da empresa e daria um jeito nisso.
Já tava mais do que na hora de mudar de gerente.

CAPÍTULO 31

Eu estava sendo seguida.
Ou pelo menos era essa a impressão que eu estava tendo há várias semanas. O problema é que sempre que eu olhava para trás procurando por alguém, não encontrava nada. No início, desconfiei que pudesse ser algum paparazzi, mas a opção já tinha caído por terra quando nenhum artigo recente saiu sobre mim, tampouco fotos na internet. Não que eu estivesse acessando muito já que tinha desativado todas as minhas redes sociais, e agora eu só tinha uma conta fake no Twitter para acompanhar comentários sobre as expectativas do próximo lançamento de Kate e... Bem, outras coisas.
Eu podia deixar de ser namorada de de uma hora para outra, mas deixar de ser fã era outra história. Não é como se ele tivesse feito algo para me fazer odiá-lo. Na verdade, ele devia estar me odiando agora, mas ainda tinha a consideração de me mandar informações sobre a identidade do stalker que vinha nos perturbando.
Sendo bem sincera, se eu fosse a única sendo perturbada por esse cara, eu apenas ignoraria e seguiria em frente. provavelmente faria o mesmo, mas por ele, eu queria que esse cara fosse encontrado. Especialmente se ele fosse a tal esposa reencarnada cheia de rancor por nós dois. Eu queria que essa pessoa fosse pega e ficasse impossibilitada de fazer mal a .
Não tínhamos declarado nosso término publicamente, mas se o stalker fosse bom mesmo, então a essa altura já estaria sabendo que saí de casa. Além disso, tinha compromisso em cerca de duas semanas em Los Angeles e ele não precisava de um escândalo nosso e repórteres o enchendo de perguntas nesse momento, ainda mais quando estava se preparando para um novo álbum.
Eu sabia que ele tinha as músicas prontas, que já tinham sido escolhidas, mas não cheguei a ouvir nenhuma. sempre dava uns retoques antes do lançamento oficial, mas tinha me falado que a capa seria verde e oito músicas seriam lançadas. Eu sabia que ele tinha muito mais que isso naquele estúdio — que eu era praticamente proibida de entrar —, mas também sabia que ele era extremamente seletivo no trabalho.
valorizava planejamentos acima de tudo e odiava imprevistos. Se a capa seria verde era porque ele tinha passado dias, talvez semanas pensando nisso. Se oito músicas foram escolhidas, provavelmente eram as que passavam exatamente o que ele queria transmitir ao público. E obviamente, eu estava bem curiosa para ouvir tudo.
Depois de estacionar o carro para comprar café, continuei andando pela calçada, com aquela mesma impressão de estar sendo seguida. Olhei para trás novamente, mas apenas encontrei uma senhorinha prestes a atravessar a rua e dois homens enormes andando de mãos dadas.
Parei um pouco, fingindo checar o celular, e os dois caras passaram por mim, entrando na mesma cafeteria que eu planejava. Certo, estavam indo para mesmo local então. Os dois pararam na porta, observando o local, e eu segui direto para a fila, antes de eles resolverem se juntar também.
Um deles sorriu, encostando o queixo no ombro do outro, que parecia desconfortável, e deduzi que ele não era muito fã de demonstração de afeto em público. Talvez com receio de ter que encarar o preconceito de alguém, enquanto o outro claramente não se importava.
Eu sabia bem como era aquilo, ter alguém mais aberto ao lado. No início do meu relacionamento com , eu era retraída em público. Os paparazzi andavam interessados em nós e eu não queria esfregar na cara de seus fãs que estava com ele. Nenhum fã quer saber quando ou quem seu ídolo está namorando.
Ficar alheia quanto a isso era bem mais saudável para a maioria de nós. Felizmente, não teve nenhum relacionamento público antes de mim, então a maioria dos fãs achava que ele curtia sexo casual com várias pessoas diferentes e nada de compromisso.
Chegava a ser cômico agora.
não fazia questão de esconder nosso relacionamento, mas, no começo, tive medo de receber ataques nas redes sociais. Recebi mesmo, mas eles eram bem menores se comprados às mensagens cheias de humor dos fãs que não se importaram ou que simplesmente nos apoiaram. Eu ser uma fã de também foi um fator que influenciou bastante nisso, como se milhares de garotas estivessem vivendo uma fanfic através de mim.
Elas provavelmente acabariam comigo se descobrissem que parti o coração dele.
Eu faria isso se fosse elas.
Respirei fundo, me preparando para fazer o pedido, e deixei de lado a ideia de estar sendo seguida. Devia ser só impressão mesmo, porque acho que uma parte de mim sabia que eu poderia ser exposta e cancelada a qualquer momento — não por , mas talvez por algum paparazzi intrometido.
Girei a aliança no dedo enquanto pensava nisso. Evitar a exposição de nós dois foi um dos motivos que me fez mantê-la no dedo. Fazia um mês desde a última vez que eu tinha falado com , e mais que isso desde a última vez que eu o vira. Eu não fazia ideia se ele ainda usava a dele ou não, mas secretamente esperava que sim, ao menos para manter perguntas curiosas longe, já que ele nunca a tirava.
Eu não esperava mais que isso, no entanto. Não era como se eu planejasse começar a sair com outras pessoas, então deixaria que ele decidisse quando anunciar nossa separação.
Depois de comprar café da manhã, segui direto para a editora, e entrei com alguns copos e lanchinhos que eu costumava levar para Andrew e Diana. Mesmo sendo os donos da editora, ambos eram bastante presentes e ficavam imersos nos trabalhos de edição tanto quanto os outros profissionais que trabalhavam lá.
Encontrei os dois no escritório de Andy e coloquei nosso café da manhã cima da mesinha de centro que ele tinha ali. Deliciosos pãezinhos recheados com creme de chocolate jaziam no saco de papel, prontos para adoçar a nossa segunda-feira.
— Por que isso é tão bom? — Diana perguntou, algum tempo depois. — Será que conta como sair da dieta se for numa segunda-feira cheia de reuniões? Tipo, é só pra evitar o estresse com um pouco de açúcar.
— Claro que conta. Não vem com essa de matemática de menina agora, Di — Andrew riu.
— Eu discordo — opinei. — Acho uma ótima opção, desde que seja uma vez na semana e depois só no fim dela.
— Você e seu namorado são os senhores saudáveis, você não pode opinar, — Andy brincou. — Até onde sei, vocês gastam tantas calorias que podiam comer besteiras todos os dias sem engordar.
Sorri, sem graça.
Eles não sabiam sobre meu término ainda. Apenas e Kate, porque não tinha como esconder dela — não quando ela me ajudou a achar a taróloga/xamã que descobriu e me ajudou a entender a maldição.
— E você? Continua fingindo que a academia não existe, Andy? — devolvi. — E por que o meu ex tá falando da minha atual vida sexual, hein? Seu estranho.
— Nem vem, não sou um mero ex. Sou seu amigo, lembra? A gente já passou dessa fase de ficarmos constrangidos, . Eu, hein… — ele retrucou, mordendo mais um pãozinho. — E ainda corro três vezes por semana. Tá mais do que bom pra eu não ser totalmente sedentário.
Diana e eu rimos e tomei um gole de café enquanto ele mastigava como se aquela fosse sua comida favorita no mundo e não uma bomba de açúcar e calorias que faria a maioria das pessoas se arrependerem de comer algumas horas depois. A verdade era que Andrew nem precisava pegar pesado nos exercícios para ter um corpo definido. Ele fazia parte daquela porcentagem irritante de pessoas magras que não precisavam se esforçar quase nada para definir os músculos. Ele não era um cara volumoso como , que tinha um físico construído na academia com bastante proteína.
Andrew era slim, suave e o estereótipo do nerd gostoso, com óculos de aro fino e armação arredondada que o deixava mais atraente ainda. Foi uma das primeiras coisas que me atraiu nele quando começamos a desenvolver interesse um pelo outro. Mas era... O moreno bad boy e sarcástico dos livros. Tirando o fato de que eu não o achava realmente sarcástico, nem bad boy. Ele tinha a aparência de um, mas o espírito de um lobo leal e companheiro.
Será que Kate estaria interessada em escrever um romance de lobos depois que concluísse a série? Com certeza não. Ela nem curtia muito lobos hoje em dia. Embora o pensamento de ver em mais um personagem literário fosse interessante, suspirei, resignada.
Mas melhor do que isso era saber que ele era como um personagem literário da vida real, escrito por uma mulher — meu tipo favorito.
Eu amava o Dean, e sempre que eu dormia e ia parar em Tenaz, era como ter pequenos momentos roubados com — mas não era a mesma coisa. Eu ainda vinha sonhando com o livro, mas tinha se tornado menos frequente. O enredo não demoraria para ser concluído, e eu sempre me perguntava se pararia de sonhar quando ele se encerrasse.
Eu achava que sim, mas, por enquanto, eu estava aproveitando os momentos com a skin ranzinza de .
Na história, Dean terminou com Ayla para protegê-la. Quando presenciei isso, não passou pela minha cabeça que um dia eu fosse terminar com pelo mesmo motivo. Não tínhamos um progenitor mafioso atrapalhando nosso relacionamento, é claro, mas antes fosse algo do tipo. Lidar com esse lance de maldição que se perpetuava me parecia bem mais perturbador e difícil de resolver.
Ayla e Dean tiveram um mal-entendido, mas, na parte onde eu estava, isso já tinha sido resolvido. Na noite em que sonhei com essa cena, acordei chorando e me corroendo de inveja deles.
Porque eu queria que tudo fosse só um mal-entendido entre mim e também, fácil de resolver com uma conversa — e sem uma terceira pessoa intrometida carregando uma dor de cotovelo que já durava séculos.
Eu até podia ter optado por terminar meu relacionamento, mas, se um dia encontrasse aquele stalker… ele descobriria o que era levar um chute nas bolas. Eu o faria ver estrelas e passarinhos rodando ao redor da cabeça.
Idiota nojento, pervertido e intrometido.
Eu não era mais uma cortesã e ele nem era mais mulher! Podia só ter seguido a vida longe de nós. Ao invés disso, me fez perder um bebê e desistir da minha felicidade pelo bem de .
Ah... Era cansativo, de verdade.
Quando acabei de comer, saí do escritório e fui para a minha mesa para começar a trabalhar com o que quer que eu tivesse que fazer naquele dia — eu precisava checar na agenda primeiro. No entanto, quando fiz isso, não foi em um compromisso de trabalho que fixei meu olhar, mas sim em uma data circulada em vermelho, rodeada de estrelinhas.
O aniversário de sessenta anos da minha sogra era naquela sexta-feira.
Eu tinha esquecido completamente.
Sem pensar muito, disquei o número de e me levantei, para ter um pouco de privacidade.
Eu vinha me policiando para não enviar mensagens para ele, mas aquela era uma situação que não envolvia só a gente. A Sra. era uma querida, e mesmo que eu não fosse mais comparecer em seu aniversário, gostaria ao menos de enviar um presente.
Eu nem sabia se ia. Tínhamos conversado sobre o aniversário dela antes dele voltar de turnê. Eu sabia que a mãe dele queria dar uma festa, mas não se isso ainda estava de pé.
— ? — Ele atendeu após o terceiro toque. Meu coração deu um pulo, e meu sangue disparou quando ouvi sua voz rouca murmurar meu nome.
— Oi...
— Aconteceu alguma coisa?
— Não, é que... Eu acabei vendo na minha agenda a data do aniversário da sua mãe e queria saber se você vai. Ela não ia dar uma festa?
— Vai, sim. Mas eu não sei se eu vou. Talvez. Eu teria que voltar direto pra LA.
— LA? Você não ia só daqui a duas semanas? Quer dizer... — Pigarreei. — É o que diz a sua agenda pública.
— Então você anda olhando minha agenda? — ele perguntou sério, mas consegui identificar uma pitada de diversão em sua voz.
— Ei, antes de tudo, eu sou sua fã. Nunca parei de fazer isso.
— Certo, claro. — Ele suspirou. — Tenho algumas coisas pra resolver na empresa. Eu ia fazer isso quando fosse me apresentar lá, mas achei melhor ir antes. Vou sozinho mesmo.
— Sozinho? E Jace?
— Eu não disse a ele que vou.
Como assim ele não avisou ao agente dele que tá indo na sede?
— Ah... Certo. — Eu queria saber mais, mas também não queria parecer intrometida. — Você tem tempo essa semana? Eu queria conversar sobre o aniversário da sua mãe. Talvez comprar um presente. Você já comprou alguma coisa? Posso te ligar ou mandar mensagem pra pedir opinião?
— Não, mas... Nós podemos comprar juntos, se você quiser. Eu tô livre essa semana.
Mordi o lábio inferior, debatendo internamente se deveria aceitar ou não... Talvez fosse uma péssima ideia, mas… que mal faria? Já tinha quase dois meses que estávamos separados, certo? parecia bem pelo telefone. A gente tava seguindo em frente. E esse encontro era pela mãe dele, não por nós.
Podíamos separar as coisas, certo?
Não era como se isso fosse mudar algo.
— Você pode almoçar comigo hoje? — perguntei. — Pode escolher o restaurante se quiser.
— Não, você escolhe. Eu vou te pegar. Você tá na editora, né?
— Sim, faz umas semanas que voltei a trabalhar. E a dirigir.
— Ah, claro... Me manda mensagem quando estiver livre.
— Tá... Até mais tarde, .
— Até mais tarde, .
Encerrei a ligação sentindo um frio na barriga. Eu estava nervosa. Bem nervosa, na verdade. Talvez devesse tomar um chá para me acalmar. Sim, era exatamente isso que eu precisava. Caminhei até a copa, onde a equipe fazia lanches rápidos, e comecei a preparar um copo grande e gelado de chá.
Eu não devia estar assim.
Era só o . Eu tinha a manhã toda para me acostumar com a ideia de vê-lo outra vez. Não era nada sério. Passaríamos um tempo juntos resolvendo uma coisa, e depois cada um seguiria seu caminho.
Sim, era só isso. Ia ficar tudo bem.
Ou ao menos eu esperava que sim.

CAPÍTULO 32

♥: Chego em cinco minutos.
Minhas mãos tremeram levemente enquanto digitei uma resposta após ler a mensagem. Eu não tinha nem sequer tirado aquele emoji do nome dele.
: Tô descendo.
Peguei minha bolsa, passando rapidinho no banheiro para conferir minha aparência. A maquiagem estava no lugar e meu cabelo também, mas retoquei o batom rosado mesmo assim. Quando saí do elevador, pouco tempo depois, meu coração começou a bater tão forte que fiquei com medo de ouvir se chegasse muito perto.
Não que isso fosse possível, era meio ideia de gente doida. E não que ele fosse chegar perto o suficiente para sentir, muito menos ouvir. Mas eu estava nervosa pra cacete. Tive a manhã toda para me acostumar com a ideia de ver outra vez, mas não serviu de nada para me acalmar.
E não ajudou muito quando o avistei encostado no carro, do lado do carona, de braços cruzados, vestindo jeans e uma camisa social branca com as mangas dobradas até os antebraços e os dois primeiros botões desabotoados.
Odiei. Odiei demais.
Lá no fundo, uma parte bem egoísta minha achava que tinha feito isso de propósito. Ele era um cara que usava camisetas no dia a dia, camisas sociais eram para ocasiões específicas. E também sabia que eu me derretia toda quando o via todo charmoso assim.
O frio na barriga ficou um pouquinho mais forte à medida que fui me aproximando, mas tentei manter uma expressão impassível no rosto. Ele era meu ex-namorado agora, não precisava saber que, mesmo após quase dois meses, ainda me afetava. Ou melhor, eu não precisava admitir isso, sendo que ele conhecia todos os meus pontos fracos.
não tinha nada de inocente. Ele podia ser um cara legal, que fazia todas as minhas vontades frequentemente — como todo bom namorado deveria —, mas também tinha aquele lado que sabia exatamente o que fazer para ficar sob a minha pele.
Respirei fundo e caminhei até parar em sua frente.
— Oi. — Sorri de lábios fechados.
— Oi. — Ele sorriu de volta e abriu a porta do carro para mim, colocando a mão na parte superior da porta, para o caso de eu bater a cabeça. Isso só tinha acontecido uma vez quando fiquei bêbada, mas, desde então, tinha adquirido o hábito de fazer aquilo.
Ele deu a volta para entrar no carro e logo estávamos na estrada.
— Como tá o trabalho? — perguntou casualmente, quebrando o silêncio entre nós.
— Bem, e o seu?
— Só umas coisas aqui e ali pra resolver. Tô querendo liberar um single semana que vem. Vai estar no álbum e vamos revelar a capa na apresentação em LA.
— Sério? Tão rápido?
— Acabei adiantando umas coisas nas últimas semanas. — Ele deu de ombros. — E você? Tá feliz por voltar pro escritório?
— Eu amo home office, mas é meio entediante. No escritório eu sempre posso ver o pessoal e jogar conversa fora.
assentiu e caímos no silêncio novamente.
— E a sua mãe, como tá? — perguntei, uns trinta segundos depois.
— Ela tá bem animada com a festa. Vai ser à fantasia.
— Sério? Que legal. Você vai?
— Não, provavelmente não. — Ele encolheu os ombros. — Se eu aparecer sozinho, as pessoas vão me encher de perguntas e não tô muito a fim de socializar.
Ele não precisava explicar o resto. Eu sabia que seriam perguntas sobre mim, sobre nós. Eu conhecia a família de inteirinha. Diferente da minha, com quem eu nem tinha contato há anos, os membros da dele eram bem próximos uns dos outros.
— Entendi. E os presentes, então? Você vai mandar por correio?
— Acho que sim — ele respondeu, e então pareceu pensar por um momento, antes de voltar a falar. — Você quer ir? Pode ir sozinha, eu fico aqui.
Soltei uma risada, incrédula.
— Tá falando sério?
— Por quê? — Ele me encarou por um segundo, com o cenho franzido, antes de voltar a prestar atenção no trânsito.
Suspirei, prestes a falar o óbvio.
— É a sua mãe, . Não faz sentido nenhum eu ir e você ficar.
— Minha mãe te adora. Ela iria gostar que você fosse.
— Ela sabe? — perguntei, de repente. me encarou por mais um segundo, antes de responder.
— Sabe.
— E ela não me odeia?
— Minha mãe não odeia ninguém, . Além disso, é impossível te odiar.
— Até pra você? — perguntei, sem pensar.
— Especialmente pra mim — ele respondeu em um tom de voz baixo. — Mas se quer saber... Eu fiquei com raiva de você. Mas depois passou.
— Por quê?
— Porque eu acho que você deve ter outros motivos além do bebê. Não sei o que é, e se você não quis me contar, não vou te forçar a isso. Mas... Eu fiz alguma coisa?
— Não — admiti baixinho.
— Eu não fiz alguma coisa, então? Algo que deveria ter feito? — ele perguntou em seguida.
— Não. Você era perfeito.
Silêncio. Então ele pigarreou.
— Caramba, o trânsito tá péssimo hoje. Ainda bem que a gente tá perto. Escolhi aquele restaurante coreano que você gosta. Depois a gente pode ir num shopping atrás de um presente.
— Você já sabe o que vai comprar? — perguntei, tentando deixar aquele assunto de lado. Não estávamos ali para conversar.
— Não faço ideia — foi a resposta dele, para a surpresa de ninguém. era péssimo nessas coisas. — Você tem alguma sugestão?
— Sua mãe adora bolsas. Podemos procurar algum lançamento legal.
— Tá, você que sabe.
— Vamos escolher juntos — esclareci. — É sua mãe.
— Tá, tudo bem.
Alguns minutos depois, entramos no restaurante, e o garçom nos levou até a mesa que tinha reservado. Segui atrás dele e notei as pessoas nos encarando com curiosidade, provavelmente o reconhecendo, mas ele não pareceu se importar. Sentamos numa mesa dos fundos, um pouco mais distante das outras e logo fizemos o pedido.
Ficamos debatendo sobre o cardápio apenas para não cair em silêncio outra vez, e senti que tínhamos feito um acordo silencioso de não tocar no assunto nós.
Depois de um tempo, a comida chegou e eu não pude deixar de rir quando colocou uma colher de caldo apimentado na boca e quase o cuspiu de tão quente. Peguei um pedaço de rabanete em conserva e ofereci a ele. Ele encarou meu braço estendido por um segundo antes de aceitar, e senti meu rosto esquentar um pouco. Eu estava tão acostumada a dividir comida com ele, a alimentá-lo e ser alimentada, que não pensei antes de lhe oferecer.
Acho que ele percebeu meu leve constrangimento, porque logo tratou de encontrar outro assunto aleatório para conversarmos. Dessa vez, falou sobre um amigo, também músico, que encontraria em Los Angeles e se apresentaria com ele. Ji Ho era um rapper de ascendência asiática que tinha conhecido e com quem colaborou em algumas músicas no início da carreira. Os dois costumavam ser bem próximos e, mesmo com a distância, ainda trocavam mensagens frequentemente.
Era um dos poucos amigos que ele tinha. Provavelmente o único amigo que não era em comum comigo.
Embora conhecesse muita gente na indústria da música, era um cara mais introspectivo, que preferia ficar na dele. Ele e Hero se davam bem, mas nunca saíam juntos sem mim e Kate de chaveirinho. Hero também se limitava a interagir mais com os membros da banda — mas eu ainda sonhava com o dia em que os dois fariam uma colaboração juntos em uma música.

Depois do almoço, nós seguimos para um shopping perto do restaurante. Era a primeira vez que eu pisava em um após o acidente e fiquei meio travada para sair do carro quando chegamos ao estacionamento.
— ? Tá tudo bem? — me encarou, intrigado.
— Sim, só... Espera um pouco. — Respirei fundo duas vezes. — Tudo bem, vamos.
— A gente pode ir em outro lugar se você quiser — ele ofereceu.
— Não, tá tudo bem — neguei prontamente. — É só um estacionamento, .
Ele assentiu e saímos do carro. Quando fiquei ao seu lado, segurou minha mão.
— Você pode soltar se quiser, mas tô aqui se precisar — falou e senti um nó se formar na minha garganta.
— Obrigada. — Entrelacei meus dedos aos dele, deixando claro que não soltaria.
foi meu namorado por três anos, mas não era apenas amor que sentíamos um pelo outro. Ele era meu melhor amigo, meu porto seguro. Senti meu coração transbordar de gratidão por ele não me odiar, por continuar sendo gentil mesmo depois do que fiz com a gente.
Ele era bom demais para este mundo.
— Pronta? — ele perguntou e eu assenti.
Então começamos a andar até a entrada.
No meio do caminho, paramos para comprar sorvete e fiquei feliz por ninguém o abordar para pedir autógrafos ou algo do tipo. Eu estava acostumada com fãs aparecendo quase sempre que saíamos juntos, então aquilo era uma exceção.
Eu mal tinha chegado na metade do meu sorvete quando comecei a me sentir cheia, muito provavelmente porque tinha sido uma péssima ideia comer aquilo logo após um almoço repleto de comida. já tinha terminado o dele porque, aparentemente, seu estômago não tinha fundo, e senti seu olhar sobre mim enquanto eu mexia devagar no sorvete, sem realmente comer.
Levantei a cabeça sem dizer nada, e ele suspirou antes de pegar a casquinha da minha mão e começar a comer em silêncio. Tive que lutar para segurar um sorriso e até irei o rosto para o outro lado.
Então senti os dedos de no meu queixo, forçando-me a encará-lo e, em seguida, seus lábios gelados na minha bochecha, em um beijo tão rápido que não tive tempo de reagir.
— Ei, para de olhar pro nada, eu tô bem do seu lado.
Pisquei, levemente confusa. Ele queria atenção?
— Tá — respondi, e ele entrelaçou nossas mãos outra vez.
— Você não tirou sua aliança — cochichou, enquanto observava em volta.
— Nem você a sua — devolvi.
Eu tinha notado assim que ele pôs as mãos no volante do carro, logo antes de sairmos.
— As pessoas fariam perguntas...
— Então é isso? Vamos fingir pra elas não perguntarem? — eu quis saber.
— Não é da conta de ninguém.
— E você vai lançar um álbum em breve. Não precisa da imprensa te enchendo com isso — justifiquei, achando aquela desculpa perfeitamente aceitável.
— É... — ele concordou. — Eu tô bem. Mas você decide. Não precisamos fazer nada.
— Vamos só manter do jeito que tá — decidi. — Você era meu amigo também, não era?
Meu melhor amigo, acrescentei mentalmente. Mas eu não precisava dizer em voz alta porque o olhar de foi suficiente para eu saber que ele havia entendido. E eu também era sua melhor amiga. Éramos esse tipo de casal, com uma relação fácil e harmoniosa assim.
— Sim — ele respondeu, firme. E então apontou para uma loja da Prada. — O que acha de olharmos ali?
— Acho ótimo. Vamos.
Vinte minutos depois, saímos de lá com duas bolsas, cada uma com uma sacola de presente. Passei uns cinco minutos tentando convencer de que eu queria comprar um presente para a mãe dele com meu próprio dinheiro, enquanto ele resmungava que ela já devia ter bolsas demais e blá blá blá. Nós dois sabíamos que era uma desculpa, pois ele não queria que eu gastasse dinheiro e eu não o deixaria pagar pelo meu presente — essa era uma discussão perdida que ele sabia muito bem que não valia a pena sequer tentar me convencer.
Ganhei algumas reviradas de olhos dele, mas saí de lá feliz. Escrevi até uma mensagem em um cartão para a Sra. .
Meu horário de almoço acabaria em breve, então logo fomos embora.
— Você vai enviar os presentes ainda hoje? — perguntei, no meio do caminho.
— Não, talvez amanhã. Aposto que ela nem vai ter tempo de abrir os presentes no dia.
— Você devia ir, sabe? É sua mãe. Ela passou meses planejando essa festa. Não acha que tá sendo meio egoísta?
Certo, eu não queria dizer a palavra egoísta, mas infelizmente saiu assim.
— Egoísta? — riu, sem humor. — A minha mãe nem sabia se a gente ia. Não acho que ela vá sentir minha falta.
— Isso é o que você pensa. É óbvio que ela não ia admitir isso, . Até parece que você não conhece sua mãe. Além disso, você pode ir e, sei lá, se esconder num canto ou simplesmente evitar responder perguntas. Você não deve satisfação a ninguém.
— Rá! Até parece que você não conhece a minha família — ele retrucou, me encarando por um instante. Paramos em um sinal vermelho e ele se virou para mim. — Se for pra ir e ficar escondido, , então é melhor eu ficar em casa.
— Só tô dizendo que você podia fazer um esforço por ela.
— Não sei se vale a pena. Sempre posso ir em outra data, ou ela pode vir me visitar.
— Ai, sério. Você é tão cabeça dura — comentei, irritada. — Sua agenda vai ficar cheia em breve, você mal vai ter tempo de respirar, .
— Ah, agora eu sou cabeça dura? Bem, isso não estaria acontecendo se você não tivesse me largado porque aí nós iríamos juntos.
Fechei os olhos e respirei fundo, tentando conter meu temperamento. Ele estava sendo infantil agora.
— Achei que não íamos falar disso.
— Foi você que começou com essa insistência toda — ele me acusou, desviando o olhar para o trânsito à frente e batucando o dedo no volante.
Abri um sorriso e tive que lutar para não dar um tapa na parte de trás de sua cabeça — e também porque odiava admitir que ele estava certo. Se ainda estivéssemos juntos, aquela discussão nem estaria acontecendo. Então, em um impulso, sugeri o que provavelmente era uma péssima ideia:
— E se eu for com você?
parou de batucar o volante e virou lentamente a cabeça para me encarar.
— Tá falando sério? — Ele arqueou uma sobrancelha, desconfiado.
— Sim.
— Não é nenhuma pegadinha? Pra me fazer ir sozinho de última hora?
— Quer ficar com a minha identidade como garantia? — perguntei com ironia, mas então o idiota estendeu a mão. — Sério?
— Você que ofereceu.
Ri, incrédula, e enfiei a mão na bolsa para pegar a carteira. Um instante depois, bati com minha identidade na mão dele, e o idiota deu uma risadinha antes de guardá-la no bolso da camisa e voltar a dirigir.
— Que infantil, — resmunguei. — Você devia me dar mais crédito.
— É a garantia. Eu sei que você não aguenta ficar sem os seus documentos, então eu te entrego no avião.
Revirei os olhos e, pouco depois, ele parou em frente ao edifício da editora.
— Você compra as passagens — avisei, assim que abri a porta.
— Como se eu fosse te deixar pagar por qualquer coisa.
— Ótimo. Melhor ainda.
— Vejo você na quinta, . — Ele soprou um beijinho para mim com um sorrisinho que fez meu coração pular.
Respondi mostrando o dedo do meio.
— Até mais, babaca.
E saí do carro, ouvindo sua risada antes de fechar a porta.

CAPÍTULO 33

Rolei na cama ao despertar e quando abri os olhos, encarei o teto branco do quarto de hóspedes com um sorriso no rosto. Fazia tempo que eu não acordava de bom humor assim, mas era o que vinha acontecendo nos últimos três dias.
A quinta-feira havia chegado, o que significava que era o dia de viajar com para a casa da minha mãe. Eu havia reservado um voo noturno para que pudesse trabalhar e folgar no dia seguinte, e levaria cerca de três horas de Manhattan até Nova Orleans.
Poderíamos ir na sexta, mas costumava ficar meio enjoada quando viajava, mesmo que fosse uma curta distância. Além disso, agora que tinha voltado a morar com , ela precisava percorrer uma distância maior até o trabalho. Embora eu não soubesse quanto tempo exatamente isso levava, eu imaginava que seria cerca de uma hora e meia, considerando o horário de pico da manhã. Não era preciso ser um gênio para adivinhar que ela estaria cansada à noite, e viajar na sexta durante o dia não era uma opção. sempre preferiu viajar à noite quando íamos visitar minha mãe.
Nosso voo sairia às oito e meia, então ela teria tempo de se aprontar. De todo modo, isso significava mais tempo com ela.
A ideia me fazia rir que nem um idiota.
Quem disse que ser teimoso e infantil não dava certo? Não que eu estivesse mentindo ao dizer que não viajaria sozinho — eu realmente não viajaria, e minha mãe já sabia disso. Tive que prometer passar um final de semana inteiro com ela para compensar, assim que encontrasse uma brecha na agenda.
Mas a verdade era que eu queria, sim, estar presente no aniversário dela, só que com . No entanto, eu também sabia que convidá-la estava fora de questão, por isso propus que ela fosse sozinha a princípio. Eu tinha que plantar a ideia da viagem na cabeça dela primeiro. admirava o relacionamento que eu tinha com minha mãe, e eu sabia que ela traria o assunto à tona novamente, tagarela do jeito que era. Ela sempre se esforçou para agradar à mamãe e tinha uma ideia meio ultrapassada de que minha mãe seria exigente com sua nora por eu ser seu único filho, mas nada disso era verdade.
De todo modo, foi a primeira namorada que apresentei a ela desde o ensino médio, quando tive um breve relacionamento que durou menos de três meses com uma colega de turma que me trocou pelo capitão de futebol, o que me fez ir sozinho ao baile de formatura. Acho que eu parecia um perdedor perto dele por ser mais quieto, e isso me deixou bem chateado na época.
Quando estreei como artista, uma das minhas músicas mais populares foi justo uma que escrevi por causa dela. A música falava sobre festas, dinheiro e como eu estava diferente e legal agora, mas honestamente, só a parte do dinheiro era verdade. Eu ainda era o mesmo cara introspectivo de sempre.
No fim, cheguei à conclusão de que só namoramos porque ela se sentiu grata por eu tê-la ajudado a passar em geografia. Nem todo mundo pegava essa disciplina, e acho que ela se arrependeu profundamente disso, até eu me oferecer para ajudá-la depois de um trabalho em dupla.
Namoradas à parte, eu achava que sempre seria a favorita. Minha mãe a via praticamente como uma heroína por ter conseguido, nas palavras dela, “derreter meu coração de gelo”.
Como se tivesse corrido atrás de mim.
Não era segredo para ninguém que eu fui o responsável, mas era ela quem levava o crédito.
O que minha mãe nunca soube foi que dormimos juntos na noite em que nos conhecemos. Para ela, foi amor à primeira vista em um bar, uma noite de conversa que terminou comigo indo deixar em casa e a chamando para sair depois. Uma história simples e pura, omitindo metade da verdade, e eu ria sempre que lembrava dela.
Me sentei na cama e esfreguei os olhos, então ouvi meu celular vibrando embaixo do travesseiro. Rolei os olhos antes de atender a ligação.
— Oi, Jace.
— Você viu o artigo que mandei?
— Que artigo? — perguntei, tranquilamente, em meio a um bocejo.
— Você e foram vistos juntos há alguns dias.
— Ah, isso.
— É. Vocês não tinham terminado? Já voltaram, por acaso?
Como assim, já? Me irritei um pouco.
— Não, Jace. Não voltamos.
— E por que saíram juntos?
O que é isso? Outro interrogatório? Respirei fundo, antes de responder.
— Não que seja da sua conta, Jace, mas fomos atrás de um presente de aniversário pra minha mãe.
— Sua mãe? E o que ela tem a ver com isso?
— vai comigo.
— Como assim? Você falou que não ia viajar.
— Mudei de ideia.
— Por causa dela?
— Sim, Jace. Por causa dela — respondi, impaciente. — Você tem mais perguntas ou já acabou o interrogatório?
— As pessoas estão achando que vocês estão juntos.
— Tecnicamente estamos. Nunca admitimos o término. E entramos num acordo de não fazer isso agora por causa do lançamento do álbum.
— Ainda, você tá fazendo sua vida girar em torno dessa mulher. Não deveria agir como um capacho.
— Ah, claro. Eu devia tratá-la como lixo, que nem você faz com todas as mulheres com quem se envolve, né?
— Só estou dizendo que você é . Não deveria estar sofrendo por alguém que te largou por uma besteira.
Ah, agora ele foi longe demais. De novo.
— Besteira? Minha mulher ficou traumatizada por perder nosso filho e isso é uma besteira pra você?
— Você disse que ela nem lembrava de nada. Além disso, mulheres abortam o tempo todo.
Tive que contar até dez mentalmente.
— Jace, por que você não vai encher o saco de outra pessoa e me deixa em paz? Antes que eu vá aí e dê um soco na sua cara, seu imbecil.
— O quê? — Ele riu. — Do que você tá falando? Ficou com raiva por causa de um comentário?
Rolei os olhos mais uma vez.
— Jace, me diz uma coisa... Você pensa? Quer que eu ouça você insultar minha mulher e fique quieto, seu idiota?
— Você quer dizer ex-mulher. E vocês não eram casados, então, ex-namorada.
— era praticamente minha esposa, e nunca precisamos de um pedaço de papel pra confirmar isso. E quer saber? Eu tô no meu limite com você, cara. Cuida da sua vida e para de se meter na minha. Eu não tenho obrigação nenhuma de te dar satisfação da minha vida pessoal, e já falei isso várias vezes.
— .
— Não me ligue, não me mande mensagens, nem sequer por e-mail. Vou visitar minha mãe e só vou atender chamadas de emergência, entendeu?
Ouvi um suspiro.
— Certo — ele respondeu finalmente. — Me desculpa, eu fui insensível.
Abri um sorriso de escárnio e desliguei, sem responder.
Eu ia me livrar desse idiota o quanto antes.

***


Passei a tarde preparando uma mala para a viagem, enquanto tentava manter a calma. Eu estava me sentindo meio idiota, nervoso por ter mais um tempo a sós com , mesmo sabendo que isso provavelmente não significaria nada. Nada além da amizade que desenvolvemos em nossos anos juntos como um casal, pelo menos.
O plano era chegar na casa da minha mãe ainda na quinta e voltar no sábado. voltaria para Manhattan sozinha, enquanto eu seguiria para Los Angeles, passaria a noite lá, e então voltaria para casa na manhã seguinte.
Cansativo, mas eu tinha dado um jeito de conseguir uma reunião extraordinária no domingo, e faltar não era uma opção. Todos estavam ocupados e eu queria resolver aquele assunto de uma vez, de preferência antes de voltar para a apresentação que eu teria lá.
No meio da tarde, enviei mensagem para perguntando se ela já tinha escolhido uma fantasia e dizendo que eu não tinha ideia do que vestir. Sua resposta veio pouco depois.
♥: Sempre deixando pra última hora. Vou de Anastasia, é uma das poucas fantasias que posso usar sem peruca.
Anastasia tinha várias opções de roupa, mas imaginei que escolheria algo elegante, já que adorava festas à fantasia. Na última vez que participamos de uma, em Los Angeles, na casa de Ji Ho, ela se vestiu de Jessica Rabbit. estava impecável e eu a ajudei a colocar o vestido naquela noite, auxiliando com o zíper. Também ajudei a tirá-lo horas mais tarde, o que foi a melhor parte.
: Você tem alguma sugestão pra mim?
Perguntei, sem nenhuma vergonha. Eu não tinha muitas opções e me vestir de super-herói não era uma delas.
♥: Que tal Clark Kent? Ou James Bond? Com certeza deve ter algum Bond que você se encaixe. Mas aí ninguém vai saber que você é ele.
: Kent, então? Acho que tenho um óculos quadrado em algum lugar.
♥: No closet, no armário onde eu guardava meus acessórios.
: Certo, vou procurar. Obrigado.
♥: Você também tem uma camiseta com a estampa do Superman em algum lugar, vê se acha também. Você pode vestir por baixo do terno.
: Eu vi ela essa semana.
Me concentrei em procurar e, depois de uns cinco minutos, encontrei tanto os óculos quanto a camisa azul. Escolhi um terno preto e coloquei tudo na mala, fechando-a em seguida. Três horas mais tarde, peguei um táxi até a editora para encontrar e irmos para o aeroporto. Ela havia levado a mala para o trabalho e conseguiu tomar um banho lá mesmo, assim que seu expediente terminou.
Não houve muita conversa no caminho. O taxista, um senhor de idade, parecia mais preocupado em sintonizar uma estação de rádio do que em conversar conosco. Cumprimentei baixinho quando ela entrou, mas não passou disso até chegarmos ao aeroporto. Antes de sair do carro, coloquei uma máscara e um boné preto. podia passar despercebida nos lugares, mas para mim nem sempre dava certo. Especialmente em um aeroporto repleto de gente de todos os lugares do mundo.
Caminhamos até o portão de embarque e após longos minutos de espera, finalmente pegamos nosso voo.
Eu havia comprado passagens de primeira classe, o que nos dava um pouco de privacidade, mas só depois que nos acomodamos nas poltronas foi que tirei a máscara e o boné.
— A gente vai ficar na casa da sua mãe mesmo ou em um hotel?
— Na casa dela. Mas eu pedi pra ela aprontar mais um quarto pra você.
Minha mãe tinha uma casa grande e ia receber alguns parentes, no máximo dois ou três. Ela ficou bastante animada quando mencionei que eu e iríamos, mas pude ouvir seu sorriso desaparecer quando mencionei que ficaríamos em quartos separados.
— Você tá maluco? — perguntou. — Ninguém sabe sobre a gente. Acha que faz sentido dormirmos em quartos separados?
— É que... Achei que você fosse ficar desconfortável.
— Eu posso muito bem dividir um quarto com você, . Eu sei que pode ser meio estranho pra gente agora, mas é só... fingir que somos uma parede ou coisa assim.
— Uma parede com seios e uma bunda enorme é novidade pra mim, — brinquei, sem pensar.
— ! — Ela me bateu no ombro e eu ri, resmungando baixinho enquanto esfregava o local atingido.
— Espero que você não tenha escolhido aquela camisola azul como pijama — comentei e imediatamente ela ficou em silêncio. Meu sorriso morreu. — Você escolheu ela, não foi? Porra, !
— Olha, eu não pensei, tá? Foi literalmente a primeira que vi — retrucou. — E não tem nada de mais. É bem mais comportada do que meus outros pijamas.
— E cheia de renda, sexy pra cacete.
Ela ficou em silêncio outra vez e, por um segundo, me perguntei se a tinha deixado desconfortável com aqueles comentários. No entanto, quando ela continuou a falar, percebi que não.
— Eu posso resolver isso facilmente pegando um moletom seu e uma calça emprestada. — Ela deu de ombros, inabalável.
— Pior ainda. — Vou querer tirar tudo de você, eu quase disse. — Mas tudo bem, eu tenho travesseiros suficientes na cama.
— Pra montar uma barreira? — Ela riu com a possibilidade.
— Ou improvisar outra cama no chão — acrescentei.
riu de novo e senti o som reverberar pelo meu peito, absorvendo-o com gosto.
Uma aeromoça se aproximou para nos oferecer uma bebida.
— Por que não? — arqueou uma sobrancelha, interessada. Cinco minutos depois, ela estava com um Martini de limão nas mãos, enquanto eu preferi ficar só na água com gás.
Quando acabou, ela se virou para o lado e adormeceu até pouco antes do avião pousar em Nova Orleans.

***


Na casa da minha mãe, ela nos recebeu com um abraço apertado. Notei que ela parecia felizinha e imaginei que tivesse bebido um pouco de vinho enquanto nos esperava.
Era quase meia-noite quando chegamos.
— Venham para a cozinha, preciso falar com vocês.
Nós acompanhamos em silêncio e, já na cozinha, minha mãe se virou para mim.
— Seus primos Percy e Wanda estão aqui em casa.
— Você convidou aqueles idiotas? — cochichei, olhando para os lados, mesmo sabendo que eles deviam estar no andar de cima.
— Eu convidei a família toda, mas não imaginei que eles viriam de Londres até aqui. Foi uma surpresa.
— Que merda, mãe.
— Pois é, tive que dar um dos quartos pro Percy, então vocês vão ter que dividir o de sempre.
Respirei fundo, e então encarei .
— O que você acha? Podemos ir para um hotel se você quiser.
— Vamos ficar. — Ela deu de ombros. — Já conversamos sobre isso.
— Ótimo — falei, já me preparando psicologicamente para A Camisola Azul. — Vamos então.
Peguei as malas enquanto se arrastava atrás de mim e, quando entramos no quarto, a primeira coisa que ela fez foi tirar os sapatos e se trancar no banheiro para trocar de roupa.
Cumprindo o que eu tinha dito no avião, peguei dois travesseiros e os coloquei no meio da cama, criando uma barreira. Quando ela voltou, foi a minha vez de ir ao banheiro e rapidamente vesti um pijama, incluindo a camiseta. Com exceção do inverno, eu não costumava dormir com nada além de uma cueca boxer, mas não podia mais fazer isso com ela ali.
Infelizmente, não se importou em expor menos pele e parecia bastante tranquila para alguém que dormiria na mesma cama que o ex.
Involuntariamente, um pensamento me ocorreu. Será que ela agiria assim com Andrew também, agora que estava solteira? Tratando ele como um mero amigo com quem poderia dividir uma cama? Não foi difícil para mim deduzir que sim, ela provavelmente faria isso sem problemas, mas a ideia de outro homem — amigo ou não — dormindo ao lado dela provocou um súbito mau-humor em mim.
De repente, minha mente se encheu de possibilidades e até cheguei a pensar em quando ela poderia abrir o coração para outra pessoa no futuro e iniciar um novo relacionamento, enquanto eu ficava para trás. Só de pensar nisso, meu coração se apertava.
Eu a tinha perdido por um motivo que ia além da perda do nosso bebê, mas não tinha ideia do que era. Ela não ia me contar, nem eu a forçaria a fazer isso, por mais que me incomodasse não saber.
Talvez com o tempo, se ela não conhecesse ninguém e se ainda tivesse sentimentos por mim... Então nós poderíamos conversar.
Eu poderia esperar o tempo que fosse por ela.
Apaguei as luzes e deitei ao seu lado na cama, em silêncio. As cortinas da janela do meu quarto estavam fechadas e estava de costas para mim.
Antes eu me aconchegaria nela e conversaríamos até cair no sono. Agora, ela estava a um braço de distância e não poder mais fazer isso era um saco. Passei semanas para me acostumar a dormir sem a presença dela ao meu lado no nosso apartamento e, quando eu voltasse, teria que reaprender. As duas noites que passaríamos naquele quarto eram suficientes para bagunçar o meu sono.
Respirei fundo e encarei a barreira de travesseiros. Meus pensamentos intrusivos me diziam para me livrar deles e puxar o corpo dela de encontro ao meu.
No avião, não consegui dormir. Eu deveria estar com sono naquele momento, mas parecia impossível pregar o olho. permaneceu na mesma posição enquanto eu me revirava na cama até decidir ficar parado, encarando o teto até adormecer. Não sei quando isso aconteceu, mas na manhã seguinte, acordei com um corpo em cima do meu.
Os travesseiros estavam no chão e me abraçava, com uma perna sobre meu corpo. Eu tinha certeza absoluta de que não era o culpado. Acordei na mesmíssima posição em que adormeci, mas ela estava ali, invadindo meu espaço pessoal, mesmo tendo dois terços da cama livres.
Grudada em mim como um chiclete.
Infelizmente, gostei demais para me afastar, então continuei parado até ela acordar e se dar conta do que tinha feito. De jeito nenhum eu fingiria que aquilo não tinha acontecido. Se ela fez, então que lidasse com as consequências.
Vi o exato momento em que ela arregalou os olhos e se afastou cuidadosamente até notar que eu a encarava. Eu não podia negar, era divertido pra cacete.
— Por que você não me acordou? — ela quis saber.
— Por que você ultrapassou a barreira? — devolvi.
respirou fundo e se sentou de costas para mim no seu lado da cama, colocando um pouco de distância entre nós.
— Acho que foi enquanto eu dormia, desculpa.
— Não tô ofendido. Na verdade, é até bom saber que seu corpo procura pelo meu quando você tá inconsciente. Tive que me policiar pra não fazer o mesmo — falei e vi seus ombros enrijecerem. Uma pontada de decepção me atingiu, e me arrependi de ter comentado aquilo.
Eu estava tão acostumado a ser cem por cento sincero com e a falar o que me vinha à cabeça que não poder, não dever mais fazer isso era absolutamente ruim. Eu odiava. Queria minha melhor amiga de volta, minha mulher de volta.
— Não vai acontecer de novo — disse .
Aquilo foi o suficiente para que eu também colocasse uma distância entre nós. Me sentei na cama e me levantei em seguida, anunciando que ia tomar banho. Nem mesmo perguntei se ela queria ir primeiro. Eu podia sentir o perfume dela em cima de mim e queria me livrar de tudo o quanto antes. Ficar naquele quarto só me faria remoer nosso término e as coisas não ditas pela milésima vez.
Quando saí do banheiro, meu humor estava um pouco melhor e eu esperei por ela para descermos juntos para tomar café da manhã. Então lembrei dos meus primos odiosos e intrometidos.
— Espera. — Segurei seu pulso, antes que ela abrisse a porta. — Percy e Wanda estão aqui.
— Ah, é. Você nunca me falou sobre eles.
— Você conheceu tipo noventa e cinco por cento da minha família. Nem todo mundo de Londres vêm pra cá, e eu passo cem por cento do tempo esquecendo que aqueles dois existem.
— Caramba. Quem são eles? — perguntou, interessada. — Já deu pra ver que você não simpatiza com nenhum. — Ela riu, divertida.
Eu já esperava que ela ficasse curiosa. adorava uma fofoca, e na minha família tinha de sobra, mas ela não sabia de tudo.
— E não simpatizo mesmo. Aqueles idiotas faziam bullying comigo quando a gente era criança. E isso durou até uns anos atrás, antes de eu te conhecer. Eu já tinha estreado como cantor, mas eles não levavam isso a sério. Na verdade, acho que todo mundo achava que não ia pra frente.
— Que infantil… Mas olha onde você tá agora. Pode esfregar seu sucesso na cara daqueles dois.
— Não vou fazer isso. A família deles é bem rica e influente na Inglaterra. Eles debocham porque são arrogantes. Não importa se eu tô ganhando dinheiro com isso ou não. Eles só apreciam música clássica e arte que ninguém entende.
Foi então que ela abriu um sorriso malicioso, com cara de quem ia aprontar.
— Que bom que para todos os efeitos você tem uma namorada meio maluca, então. Deixa comigo e eu coloco aqueles dois no lugar se falarem um ‘A' de você. Vamos. — Ela abriu a porta e me puxou pela mão, determinada.
Sorri atrás dela. era bem menor que eu, mas parecia uma loba quando o assunto era defender as pessoas de quem gostava. Eu amava esse lado dela.
Encontramos minha mãe, uma tia e meus dois primos já sentados à mesa e cumprimentamos todos, trocando as apresentações necessárias. As duas estavam de saída para resolver sei lá o que da festa e ficamos só nós quatro.
— Caramba, primo. Andou malhando muito? Você nem parece mais aquele garoto magricelo de antes — Percy comentou.
— se exercita a semana toda, mas acho que você não deve ter muita experiência com isso, né? — comentou com um sorriso doce, desviando os olhos para a barriguinha de chope dele.
Percy pigarreou e voltou a fazer seu prato.
— Não gosto de academias, prefiro fazer caminhadas de vez em quando, dizem que faz bem pro coração. Além disso, a empresa ocupa muito do meu tempo.
— Ah, sim... também é bastante ocupado, mas é aquela coisa... Quem quer, dá seus pulos. — Ela deu uma risadinha.
Meu primo a encarou levemente desconfortável, mas fingiu não perceber. Do outro lado, Wanda estava batendo pedaços de frango cozido em um suco verde. Quase enjoei só de ver. E reclamando dos meus shakes de proteína.
— É o que eu sempre digo a ele, — Wanda comentou. — Eu me exercito todos os dias, como três refeições diárias e alguns dias da semana só ingiro sucos caseiros com frango. São nutricionalmente eficazes pra mim.
Ao contrário de Percy, eu não tinha certeza se Wanda possuía alguma porcentagem de gordura corporal. A impressão que eu tinha era de que alguém poderia quebrá-la ao meio com um simples abraço.
— Ah, claro. Não sou muito fã disso. Eu malho pra comer o que der vontade — comentou.
— Deu pra notar. — Wanda a encarou de cima a baixo. — Quanto você usa de calça? Um quarenta e quatro?
— Trinta e oito, por incrível que pareça. Mas prefiro comprar tamanho quarenta pra ficar mais confortável, sabe como é...
— Na verdade, não sei não. Não acho que eu teria uma... bunda desse tamanho nem se eu comesse toda a comida do mundo. Mas tenho sorte que a minha genética impede que isso aconteça.
Caramba, ela tinha acabado de chamar de gorda? Tudo bem que praticamente tinha feito o mesmo com Percy, mas o insulto foi para me defender e foi definitivamente mais sutil. Eu estava com todos os panos prontos para passar para ela.
— Ainda bem que tenho sorte de ter um namorado bonitão que prefere essa versão de mim. — Ela me encarou e eu sorri.
— Ah, com certeza. — Dei um tapa na bunda dela, mostrando o quanto eu gostava.
— ! Não na frente da sua família — ela cochichou, divertida.
Eu dei uma risadinha e a beijei no rosto, antes de me afastar para fazer meu prato. Wanda tinha uma careta de nojo no rosto, mas aquela meio que era a expressão habitual dela. Felizmente, aquela conversa não se estendeu. me seguiu, ainda sorrindo, e foi quando me dei conta de que talvez ela estivesse mesmo aproveitando aquilo tanto quanto eu.
Em público, ainda éramos um casal. E eu aproveitaria aqueles momentos roubados para abraçá-la quando bem entendesse porque ela provavelmente faria o mesmo.
tinha terminado comigo, mas acordar com ela agarrada a mim só me fez ter certeza de que a atração física entre nós ainda era forte.
Algum tempo depois, minha mãe voltou e nos ocupamos em ajudá-la com alguns preparativos da festa. Ela tinha contratado pessoas para transformar o jardim de casa num local de festas. Havia até uma pista de dança no meio e dois quiosques de bebidas.
Ela me disse que tinha convidado apenas parentes e amigos próximos, mas eu sabia que haveria no mínimo umas cinquenta pessoas. Para mim, isso já era bastante gente para uma festa intimista, mas minha mãe sempre foi muito sociável e fazia amigos com facilidade, diferente de mim.
Organizar esse tipo de evento era divertido para ela e eu estava feliz de termos dinheiro suficiente para bancar tudo aquilo do jeito que ela queria sem nos preocupar financeiramente.
Meu pai provavelmente diria que era um desperdício de dinheiro, se estivesse ali. Quando eles se divorciaram, eu estava no ensino médio. Nossa relação, que já não era das melhores, se deteriorou mais ainda e nos falávamos apenas algumas vezes por ano. Ele nem mesmo sabia muito da minha vida pessoal e nunca fiz questão de apresentar para ele. Não era algo que a incomodava, no entanto. Até porque, para todos os efeitos, era a única parente dela que eu conhecia. Ambas se tornaram a única família uma da outra muito antes de eu aparecer. Mesmo não estando mais ao lado de , era bom saber que ela não estava sozinha e que tinha alguns amigos além da irmã.
Quando a noite veio, insistiu que eu tomasse banho primeiro enquanto ela terminava de arrumar o cabelo e, em pouco tempo, fiquei pronto. Normalmente, as pessoas que se fantasiavam de Clark Kent deixavam a camisa aberta, exibindo o símbolo do Superman, mas preferi não fazer isso. Eu sempre poderia abri-la se me perguntassem qual era minha fantasia.
Ou simplesmente poderia guardar o óculos e começar a fingir que eu era Dimitri, o par romântico de Anastasia.
Embora não tivesse visto sua roupa ainda, eu tinha uma leve suspeita de que tipo de vestido ela tinha escolhido e mal podia esperar para ver.
— Vou lá pra baixo, me avisa quando tiver pronta e eu venho te buscar — avisei.
— Tá bom — ela respondeu enquanto colocava mais um grampo no cabelo, sem olhar para mim.
Saí, pronto para cumprimentar o zilhão de pessoas que minha mãe tinha convidado e já estavam chegando e, cerca de uma hora mais tarde, eu acho que já tinha falado com quase todos ali presentes quando me mandou mensagem falando que estava pronta.
— Vou buscar — avisei para minha mãe, que estava ao meu lado em sua fantasia de Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo.
— Sim, meu bem — ela respondeu, voltando a atenção novamente para a conversa com uma das minhas tias.
Subi as escadas rapidamente e parei no corredor, aproveitando o breve momento de paz sem ter que socializar com ninguém, antes de seguir até meu quarto.
Abri a porta de uma vez.
— , você tá... — Perdi a voz no meio da frase quando ela se virou para mim. — ...pronta?
— Oi. — Ela sorriu, um pouco tímida, e eu engoli em seco. — Você ficou um ótimo Clark Kent, eu sabia que combinava com você. O que achou da minha? — Ela se balançou de um lado para o outro, exibindo o vestido, absolutamente adorável.
Era um tom de azul-escuro, sem alças, com um véu translúcido e brilhante da mesma cor, preso nas costas. Seu cabelo tinha uma tiara brilhante e, nas mãos, um par de luvas brancas acetinadas.
Andei até ela, encantado. Levei uma mão ao seu rosto e me inclinei para beijar sua bochecha, sem deixar de notar que ela não enrijeceu ou se afastou.
— Você tá tão linda, . Essa fantasia ficou bem melhor do que eu esperava. — Segurei uma de suas mãos e levei aos lábios. — Vamos?
assentiu com um sorriso e entrelaçou o braço no meu.

Eu senti quando as pessoas notaram sua presença. Muitas pararam de falar no meio de uma frase, outras se viravam bruscamente, sem nem disfarçar. Não demorou muito para sermos abordados.
Felizmente, foi por minha mãe.
— , querida. Que fantasia mais linda! Quem você é?
— A princesa Anastasia. — sorriu. — A senhora tá linda e muito elegante também.
Minha mãe sorriu de volta, satisfeita com o elogio.
— Obrigada, meu bem. Venha, vamos tomar uns drinks. — E arrastou para um dos quiosques, me deixando para trás.
Suspirei e fui até o outro, em busca de uma dose de whisky.
Uma hora depois, ela e minha mãe estavam na pista de dança ao som de músicas dos anos 80, enquanto eu as assistia de uma mesa meio escondida atrás de um arbusto alto, feliz que ninguém estava falando comigo ou me pedindo para cantar aleatoriamente.
Ali, eu podia ser apenas eu.
Após um tempo, apareceu e me puxou para uma dança lenta. Ela já estava meio alta e bem mais desinibida. Se encostou em mim, passando os braços pela minha cintura e sorriu, nos balançando para lá e para cá, tentando me convencer a acompanhá-la.
Ela não parecia se importar com a música que tocava, mas eu estava terrivelmente incomodado, sendo alguém que tinha ingerido uma única dose de álcool, ao ouvir a letra de “It must have been love” de Roxette.
Me inclinei para cochichar com ela.
— Você tá bem? Por que a gente tá dançando essa música?
— Porque é uma boa música.
— Não gosto dela agora. Vamos sair daqui? Acho que você precisa tomar água.
— Eu não tô bêbada, . Até parece que você não sabe disso.
— Eu sei que não tá. Mas não quero que acorde de ressaca amanhã, pode ser?
revirou os olhos e paramos de dançar. Segurei sua mão e fomos até a cozinha da minha mãe que, felizmente, estava vazia e livre de olhares curiosos.
Peguei dois copos de água e coloquei um na frente dela.
— Você não tá se divertindo — ela reparou.
— Tô deixando você fazer isso por nós dois — comentei.
O único local que eu me sentia à vontade para me soltar era em um palco, retribuindo o tempo que as pessoas tinham reservado para me ver com uma apresentação o mais impecável possível. Era diferente de estar em um lugar onde dois terços das pessoas tinham me visto crescer. Eu me sentia exposto, rodeado de abutres em busca de um pedaço de mim. Era só mais uma brecha para fofocar, encontrar um defeito. Sempre tinha sido assim na minha família, mas eu imaginava que devia ser assim em qualquer uma que fosse grande demais.
— É o aniversário da sua mãe. Você devia ao menos dançar com ela.
— Tudo bem. — Suspirei, tomando um gole de água. — Acho que foi só minha bateria social que esgotou.
— Vamos ficar até os parabéns, comer um pedaço de bolo e subir, então. — Ela deu um passo para o lado, me abraçando pela cintura como tinha feito na pista de dança. — O que você acha?
— Tudo bem. — Beijei a testa dela.
— Ótimo! Então vamos voltar. Eu vou te fazer companhia, mas tem uns três ou quatro drinks diferentões que eu quero provar.
Rolei os olhos, contendo um sorriso, e deixei que ela me arrastasse de volta para um dos quiosques de bebidas. me convenceu a experimentar um drink com ela e, em seguida, me afastei para dançar com minha mãe, mantendo um olho nela de longe.
— Ela tá se divertindo, não precisa se preocupar. — Minha mãe riu, percebendo minha atenção em . — Você sempre foi muito cuidadoso com ela. Acho isso um amor.
— Aprendi com você. — Sorri. — Você parece feliz, mãe.
— E estou. Essa festa deu um trabalho pra organizar, mas tá melhor do que eu esperava.
— Bom saber.
Quando a dança terminou, fui até novamente e descobri que ela estava em seu terceiro drink desde que voltamos para o jardim.
— Oi, gostosão! — Ela sorriu, colocando uma mão no meu peito.
— Tá, agora você tá bêbada — comentei com convicção.
— Só um pouquinho. — Ela indicou com o polegar e o indicador, antes de passar os braços ao redor do meu pescoço. — Você tá um Clark Kent muito sexy. O que será que tem por trás dessa fantasia de bom moço?
— Você sabe muito bem o que tem. — A abracei pela cintura, contendo um sorriso.
— Sei mesmo — ela respondeu, me puxando pela gravata para um beijo repentino.
Me afastei após um instante.
— . Acho que nós não-
Ela me beijou novamente, me interrompendo. Em seguida, moveu os lábios para minha mandíbula e então para o meu pescoço.
— Você é tão gostoso, eu quero te comer todinho — ela murmurou no meu ouvido e tive que criar coragem para afastá-la de mim.
— Amor, aqui não. As pessoas tão olhando, lembra? — cochichei com ela. — Seja uma boa menina e se comporte.
— Não vou me comportar se você continuar falando desse jeito comigo.
— De que jeito?
— Do jeito que promete acabar comigo na cama.
Eu ri, nervoso, e olhei para os lados para ter certeza de que ninguém estava ouvindo aquela conversa.
— Eu bem que queria — respondi, olhando nos olhos dela. — Você sabe muito bem disso.
— Então a gente devia ir embora. — Ela sorriu, maliciosa.
— Ei, só depois dos parabéns e do bolo, lembra?
— Ah, é mesmo. — Seu sorriso desapareceu.
No entanto, menos poucos minutos depois, as pessoas começaram a cantar para minha mãe. Já eram quase onze da noite, então estava mais do que na hora. Depois da cantoria, ganhei o primeiro pedaço de bolo. Cinco minutos depois, eu estava sentado na mesma mesa de antes, com sentada ao meu lado, fazendo dancinhas enquanto comia uma fatia enorme de bolo de chocolate.
Torci para ela não passar mal depois, mas não tinha certeza se ela escaparia de uma dor de cabeça de ressaca. Pensei que comer doce faria um pouco do álcool em seu organismo se dissipar, mas não foi o que aconteceu.
Saímos de fininho da festa e, de volta ao meu quarto, se sentou na cama, já tirando os sapatos e puxando os grampos do cabelo.
— Quer ajuda? — ofereci, me sentando ao seu lado.
Ela assentiu em silêncio e comecei a procurar os grampos, soltando aos poucos seu cabelo, que caiu em cascata por suas costas.
— Ai, finalmente. Eu não via a hora de soltar o cabelo.
Eu ri baixinho e me levantei para colocar os grampos em um cantinho.
Quando me virei, estava terminando de abaixar o zíper lateral do vestido, que caiu aos seus pés um momento depois.
— Eu vou tomar banho — anunciei, já indo em direção à mala, em busca do meu pijama.
— Eu também — ela disse.
— Pode ir primeiro então, eu espero.
Felizmente, ela concordou e, um momento depois, entrou no banheiro sem se importar em fechar a porta.
Respirei fundo algumas vezes. Aquilo não era diversão, era tortura. Mas fiquei satisfeito comigo mesmo por mal ter bebido naquela noite. Assim, pelo menos um de nós poderia estar com a cabeça no lugar.
voltou só de toalha, com o cheiro do seu óleo corporal se espalhando pelo quarto, e eu me enfiei no banheiro o mais rápido que pude, trancando a porta atrás de mim, só por precaução.
Em seguida, tomei um banho de água fria.
Foi só quando terminei que percebi que tinha deixado a camiseta cair no chão do quarto. Que se dane então, xinguei mentalmente e vesti a cueca e a calça, antes de sair.
estava sentada de costas para mim do seu lado na cama, ainda de toalha, e parecia pensativa. Resolvi não dar atenção e apenas me deitei do meu lado, fingindo desinteresse enquanto mexia no celular.
— Até que fim você voltou — ela disse, antes de se levantar e se livrar da toalha, subindo na cama direto para o meu colo antes que eu pudesse reagir. — Eu tava esperando por você. — Ela sorriu, passando um dedo pelo meu peito desnudo.
— , para com isso. — Olhei para o teto, tentando me controlar para não encará-la em cima de mim.
Merda, o que eu fiz feito para merecer isso? A mulher que eu amava estava nua em cima de mim e eu não podia fazer nada porque ela estava bêbada e provavelmente se arrependeria no dia seguinte caso algo acontecesse.
— Por quê? Eu tô com saudade. — Ela se inclinou, beijando meu pescoço. — Eu quero você, .
Ela pressionou o quadril contra o meu e gemi baixinho, xingando mentalmente em todas as línguas que eu tinha aprendido a xingar.
— , não vou transar com você — consegui dizer.
— Por que não? Você me quer também, eu tô sentindo. — Ela se movimentou outra vez.
Merda. Merda. Merda.
Por que isso tinha que acontecer?

— Você me largou, lembra? — Decidi ir pelo caminho mais difícil. — Você terminou comigo, . Não podemos mais fazer isso, você nem é mais minha namorada.
— Eu também não era sua namorada na noite em que nos conhecemos — ela retrucou, parecendo inabalável. — E mesmo assim a gente transou.
Respirei fundo e inverti nossas posições.
— Agora é diferente e você sabe. Ninguém mandou terminar comigo — falei, firme. — Não vou dormir com você, . Acho melhor eu sair daqui.
Tentei me levantar, mas ela me puxou.
— Não, fica. Por favor, . Eu vou me comportar agora, prometo.
— Então vá se vestir. Não quero que você acorde nua do meu lado e ache que aconteceu alguma coisa.
— Você me ajuda? — ela pediu.
— Claro. — Me levantei, procurando a bendita camisola azul que ela tinha trazido.
Me atrapalhei um pouco com as alças que se entrelaçavam nas costas, mas no final deu certo. Quando terminamos, deitamos um ao lado do outro e ela se virou para mim.
— Posso te abraçar, pelo menos?
A encarei por um instante em silêncio, mas por fim abri os braços.
— Vem cá — chamei, e ela se aconchegou ao meu lado.
— Eu senti sua falta. Sinto muito por tudo, — ela começou a dizer. — Eu não queria terminar com você.
— Então, por que terminou? — perguntei, mesmo sabendo que provavelmente era o álcool que a estava fazendo falar aquelas coisas.
— Pra te proteger — ela admitiu baixinho.
— Me proteger? — Franzi o cenho. — Do que você tá falando, ?
— Do stalker. Ele é tipo... Nosso carma, pelo que descobri. Além disso, ela me disse que minhas escolhas podiam quebrar a maldição, então terminei com você por isso.
— O quê? Maldição? — Me afastei para encarar seu rosto. — Amor, acho que você tá confundindo alguma coisa.
Talvez ela tivesse lido algum livro de fantasia recentemente e estivesse resmungando aleatoriamente por causa da bebida.
Mas negou com a cabeça.
— Não, a xamã me disse. Não perdemos o bebê por acaso. Alguém provocou isso, e vem se repetindo em nossas vidas, porque você era casado e eu era sua amante.
— Como assim? — Sorri, sem entender nada. Eu estava certo de que ela tinha nos confundido com personagens literários, mas a deixei falar.
— Eu era sua amante antes dela. Vocês tiveram um casamento arranjado, mas nós continuamos a nos ver mesmo assim. Ela te queria, mas você era apaixonado por mim.
— E por que não me casei com você ao invés dela?
— Porque eu era uma cortesã. Seria mal visto na sociedade. Mas então eu engravidei e ela descobriu e nos jogou uma maldição que vem se repetindo há centenas de anos. Eu sempre engravido e perco o bebê, e algo de ruim sempre acontece com a gente.
— E você acha que a escolha certa foi se afastar de mim? — A abracei novamente. — O stalker te mandou alguma coisa?
— Não, mas eu sei que ele é ela. Só pode ser. Mas eu meio que me conformei, por mais doloroso que seja. Só que aí fizemos essa viagem e... — Ela suspirou. — Eu quis aproveitar alguns momentos roubados com você, mesmo sabendo que não devia.
Apertei ela ainda mais contra meu corpo, não vendo mais graça nenhuma naquela história.
— Como você descobriu isso, ?
— Comecei a sonhar com algo, acho que é uma entidade, mas ela tinha a aparência da Ayla e me disse isso, essa coisa de fazer a escolha certa. Então Kate, e eu visitamos uma taróloga, que também é xamã, e ela nos ajudou a entender.
— Você acredita mesmo nisso? — Levantei seu rosto, fazendo-a me encarar. — Acredita que o sofrimento vale a pena?
— Ela disse que a morte nos persegue — ela sussurrou, os olhos se enchendo de lágrimas. Em seguida, levou uma mão ao meu rosto, acariciando de leve. — Eu não posso arriscar que algo aconteça com você, . Eu não ia conseguir suportar.
Coloquei minha mão em cima da dela, confuso, sentindo o coração acelerar.
Eu não sabia mais se aquela conversa era fruto de uma mente inebriada pela bebida, mas parecia bem real. Como se ela realmente acreditasse naquilo.
Eu queria perguntar mais agora que ela estava falando, mas quando abri a boca para fazer isso, apenas um instante depois, notei que tinha adormecido em cima de mim, o rosto ainda molhado pelas lágrimas que haviam caído.
A chance havia passado.
E algo me disse que ela não tocaria mais naquele assunto de jeito nenhum.

CAPÍTULO 34

Acordei na cama sozinha.
O quarto estava meio escuro devido às cortinas fechadas, mas não vi sinal de . Depois de um tempo piscando e tentando, de fato, acordar, me sentei na cama. O arrependimento veio no mesmo instante em que senti minha cabeça girar de dor e tontura. Coloquei dois dedos nos olhos e fiquei parada por um momento, rezando para não enjoar. Quando minha visão pareceu melhorar um pouco, levantei a cabeça e avistei um copo de água em cima de uma cômoda, com um remédio de enxaqueca ao lado.
Agradeci mentalmente a por aquilo.
Eu nem sabia como tinha ido parar naquele quarto. Tudo que eu me lembrava da noite passada era de ter dançado e bebido com a mãe dele, depois ele e eu na cozinha bebendo água, e algum momento em que nós dois dançamos. Fazia tempo que eu não tinha amnésia depois de beber.
Mas também fazia tempo que eu tinha bebido. Acho que a última vez foi antes de descobrir a gravidez, então era provável que o álcool tivesse me pegado um pouco mais rápido que o normal.
Depois de tomar o remédio, procurei meu celular e o encontrei embaixo de um travesseiro. Já eram quase onze da manhã e eu não fazia ideia de quanto tempo tinha dormido. Suspirei, ainda me sentindo um pouco zonza, e fui ao banheiro para trocar de roupa e escovar os dentes. Quando saí, já um pouco mais apresentável e me sentindo com um pouquinho mais de vitalidade, desci até a cozinha e encontrei a Sra. tomando café.
— Bom dia.
— Bom dia, querida. Você dormiu bem? Como está se sentindo?
— Sim. Acordei um pouco zonza, mas nada de mais. Fazia um tempo que eu não bebia tanto.
— Ah, sim. Eu também acordei com um pouco de dor de cabeça, acho que foram aqueles drinks, são uma delícia, mas um perigo também — ela comentou com uma risadinha. — Venha comer comigo. — Ela apontou para a mesa.
Me sentei em sua frente e comecei a me servir de uma xícara de café preto.
— E ?
— Foi deixar minha irmã no aeroporto, mas já deve estar voltando.
— Ah... — Sorri, sem mostrar os dentes.
Eu não era a pessoa mais sociável do mundo na manhã seguinte a uma bebedeira, mas a mãe de não parecia se importar com isso e continuou puxando assunto comigo.
— Ele me contou sobre vocês, sabe...
Assenti, sem olhar para ela.
— Ele me disse.
— Não sei que motivos você teve, meu bem, mas é nítido que vocês ainda se amam e são apaixonados um pelo outro. Eu me sinto honrada por ter testemunhado o amor de vocês, por mais que não estejam mais juntos.
— Eu não queria terminar, Sra. , mas é complicado...
— Por acaso, fez alguma coisa? — ela perguntou, meio apreensiva. — Ou você se sentiu pressionada pela perda do bebê?
— era perfeito. Eu não poderia imaginar ter um parceiro melhor. Quanto ao bebê... Foi um dos motivos. Sinto muito por fazê-lo sofrer, mas eu tinha que fazer uma escolha e algo me disse que ficar com o prejudicaria.
Ela me encarou em silêncio por um momento, então respirou fundo.
— Espero que tenha feito a escolha certa, então, . E que não se arrependa disso.
Quase ri quando ouvi aquilo.
Nós duas sabíamos que eu já estava arrependida.
Mas infelizmente eu não podia voltar atrás.

***


Quando voltou, cerca de meia hora depois da minha conversa com a mãe dele, eu já tinha voltado para o quarto e começado a arrumar minha mala.
— Oi — ele disse, fechando a porta atrás de si. — Você acordou bem?
— Um pouco zonza e com enxaqueca, mas já tô melhor graças ao remédio que você deixou — comentei, dobrando uma peça, sentada no chão. — Obrigada.
assentiu e então começou a organizar as coisas dele também, em silêncio. Cinco minutos se passaram, e então dez, até que comecei a achar estranho.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntei, enquanto organizava minha bolsa de cosméticos. — Você tá pensativo.
— Nada de mais. — Ele deu de ombros, terminando de fechar um saquinho com roupa suja. — Tirando que você passou a noite toda dando em cima de mim na festa e quando chegamos no quarto, subiu em cima de mim nua... Não, nada de mais.
— Eu... O quê? — Ri, incrédula. — Tá falando sério?
— Eu tô com cara de quem tá mentindo, ? — Ele me encarou, sem achar um pingo de graça.
— Eu... Meu Deus! — Coloquei a mão na boca, em choque. — A gente transou?
— Você não lembra de nada, né? — Ele semicerrou os olhos. — Como imaginei.
— A gente transou, não foi? — Que merda. E se aquilo bugasse a minha escolha de me afastar dele? Uma coisa era a gente ir a um evento juntos, mas isso...
— Não, . — interrompeu meus pensamentos. — A gente não transou. Eu nunca faria isso com você bêbada e claramente fora de si.
Uma onda de alívio tomou conta de mim, mas então a vergonha veio com tudo e eu senti meu rosto esquentar.
— Sinto muito, . Por favor, me desculpa. Eu não devia ter feito isso — falei, sem coragem de olhar para ele. — Não sei nem o que dizer...
— Tá, relaxa. Eu consegui te convencer a se vestir e depois a gente só deitou e você ficou falando umas coisas até cair no sono.
— Falando umas coisas? Que tipo de coisa?
— Algo sobre uma maldição ou sei lá. — ele comentou e enrijeci no lugar. — Acho que você se confundiu com algum livro de fantasia ou algo assim. Você falou do stalker, e que terminou comigo pra me proteger, porque esse cara era a reencarnação de uma esposa que tive em outra vida. — Ele riu, parecendo nem acreditar. — Falando assim em voz alta parece mais absurdo ainda. Mas você até falou que visitou uma taróloga com e Kate.
— E visitei mesmo — falei sem pensar. — Pra uma pesquisa pro livro da Kate. — Inventei rapidamente. — tava de folga e foi com a gente.
— Tá... Enfim. — Ele deu de ombros novamente. — Eu sabia que você não queria me dizer o real motivo do nosso término, mas também não achei que fosse inventar algo do tipo. Deve ter sido a bebida.
— Sinto muito, . Muito mesmo. Eu não queria que fosse assim.
— Você fez sua escolha. E foi bastante difícil aceitar isso, ainda é. Mas eu apreciaria que ao menos controlasse melhor seus impulsos, — ele comentou. — Se você estivesse sóbria ontem... Eu teria feito qualquer coisa que você me pedisse pra fazer com você — acrescentou, com a voz mais baixa.
Levantei o olhar e senti meu corpo esquentar quando vi desejo brilhando em seus olhos. Mais uma vez, desejei que não houvesse maldição nenhuma, muito menos uma escolha que me obrigava a ficar longe dele. Porque se não fosse por isso... Bem, talvez fosse melhor nem pensar no que teria acontecido.
— Não vai acontecer de novo. Prometo que vou ficar longe de você quando a gente voltar pra Nova York e... Logo deve ficar mais fácil pra nós dois. Eu espero.
riu pelo nariz, sua expressão corporal inteira mostrando que ele não acreditava naquilo, mas não falou mais nada.

***


O caminho até o aeroporto foi em quase completo silêncio, se não fosse pelo rádio ligado e as poucas palavras que trocamos com o motorista. Quando chegamos, colocou um boné e uma máscara novamente antes de sair do táxi, e caminhamos juntos pelo aeroporto.
Era pouco mais de cinco da tarde e o meu voo sairia vinte minutos após o dele, que seguiria para Los Angeles. Ainda tínhamos algum tempo livre, então entramos em uma cafeteria para fazer hora. Ele virou o boné para trás quando notou que estávamos em meio a poucas pessoas e algo me chamou a atenção.
Um pequeno cílio tinha caído no canto de seu olho esquerdo.
— Tem uma coisa no seu olho. — Me inclinei para frente, pegando o cílio com o polegar. — Olha, vamos fazer um pedido.
revirou os olhos, mas apertou o polegar contra o meu. Fechei meus olhos por um instante. O último fio de esperança dentro de mim me fez desejar poder voltar no tempo, de uma forma que pudesse escolher ficar com ele.
Abri os olhos e separamos nossos dedos, notando que o cílio tinha ficado grudado no polegar dele.
— Parabéns — falei. — Espero que seu desejo se realize.
encarou o cílio por um momento antes de esfregar o polegar no indicador, se livrando dele. Em seguida, pegou o cardápio.
— Acho que vou comer alguma coisa antes de ir. Não tô a fim de comida de avião — comentou. — Que tal um croissant recheado?
— Vou querer um também. E um frappuccino de chocolate.
— Eu também.
Quando terminamos de comer, faltavam quinze minutos para o voo de sair. Fui com ele até o portão de embarque e, na hora de nos despedir, ele me puxou para um abraço.
Agradeci mentalmente por ele ter tomado àquela atitude porque eu ainda estava com vergonha depois de saber o que tinha aprontado na noite passada. Aproveitei o momento e o abracei o mais forte que pude. Quando nos separamos, abaixou a máscara rapidamente e depositou um beijo na minha cabeça.
— Boa viagem, .
— Pra você também, — murmurou, antes de dar as costas.
Observei ele se afastando aos poucos e respirei fundo, dizendo para mim mesma que a tristeza que agora sentia era a consequência da escolha que eu tinha feito. Não havia outra opção a não ser lidar com isso e seguir em frente.
estava cada vez mais distante.

***


Dois dias depois, quando saí para trabalhar, a sensação de estar sendo seguida voltou com tudo, e não só ela. Eu tinha um pressentimento de que algo aconteceria em breve.
Olhei para os lados e atrás de mim depois de comprar café da manhã na cafeteria de sempre, mas não notei nada.
Foi só quando virei uma esquina a caminho da editora, que vi um carro preto de vidros escuros fazer o mesmo. Intrigada, comecei a dar voltas em um quarteirão só para ter certeza de que ele me seguia. Quando isso aconteceu, pisei no acelerador de repente e tentei despistá-lo. Não funcionou muito bem, por haver pouco movimento onde eu estava. Acelerei um pouco mais e o carro atrás de mim fez o mesmo. Foi então que notei mais um, de cor prateada, seguindo na mesma direção.
— Que porra é essa? — murmurei comigo mesma, enquanto tentava passar por um sinal antes que ele fechasse.
Ouvi meu celular tocando na bolsa, mas estava ocupada demais para atender.
Acelerei mais, ciente de que estava acima do limite de velocidade, mas consegui passar pelo sinal e virar uma esquina e mais outra, finalmente despistando o carro. Meu celular tocou novamente e, com cuidado, o puxei da bolsa.
estava ligando. Que estranho. Eu não estava esperando uma ligação nem tão cedo. Na verdade, não estava esperando nenhuma.
Atendi e coloquei no viva-voz, apoiando o aparelho no colo.
— Oi, .
— , onde você tá agora?
— Perto da editora, por quê?
— Tem alguém te seguindo.
Franzi o cenho.
— Como você sabe disso? — eu quis saber.
— Não importa agora. Eu quero que você tenha calma...
— Eu tô calma! Quero saber como você sabe disso, .
— , eu acho que é o stalker.
— O quê? — Franzi o cenho. — O stalker tá me seguindo?
— Sim, e quero que você-
Não consegui ouvir o resto.
No mesmo instante, alguém me atingiu na traseira do carro, fazendo meu corpo dar um solavanco para frente e perder o controle do volante, batendo em um poste um instante depois. O airbag saiu e minha cabeça girou com o impacto. Senti o ar faltando nos pulmões e uma dor excruciante na região das costelas e no ombro esquerdo. Minha visão escureceu com um líquido escuro e percebi que era sangue.
Eu não conseguia me mexer. Não conseguia nem respirar direito. Meus pulmões estavam queimando com a dificuldade de respirar e a dor só aumentava. Havia fumaça saindo do capô e ouvi a voz de ao longe gritando meu nome.
Me esforcei para falar, mas não tinha forças. A sensação de não poder respirar era terrível e eu estava presa. Meu olhar seguiu para o retrovisor e encontrei o carro preto que me seguia parado atrás de mim.
Meus pulmões queimaram ainda mais.
A porta do motorista se abriu, mas aquela foi a última coisa que consegui ver antes de apagar.

CAPÍTULO 35

— Eu te amo. — Ele disse, colocando a mão no meu rosto, o polegar esbarrando propositalmente no meu lábio inferior.
...
— Eu também te amo, Dean — falei automaticamente, então percebi que não era eu, mas Ayla.
Eu estava de volta a Tenaz.
Mas tinha algo diferente. Bem ali, diante dos meus olhos, Dean desapareceu e então vi cenários mudando, cenas passando na minha frente com uma velocidade absurda que quase me deixou tonta.
Fechei os olhos por um instante.
— Vem morar comigo, amor — ouvi e abri os olhos, me deparando com Dean. Estávamos dançando e aquilo só podia ser o casamento de Tiana.
A cena passou e novamente fiquei confusa. Fazia alguns dias que eu não sonhava com Tenaz e nunca era assim, não tão rápido a ponto de eu praticamente nem identificar o que estava acontecendo.
O cenário acelerou mais uma vez e senti meu corpo sendo jogado para trás. No minuto seguinte, eu estava assistindo de terceira pessoa e não mais no corpo de Ayla. Olhei para baixo, constatando que estava no meu próprio corpo, meu cabelo vermelho caindo sobre meus seios.
Em seguida, vi Karina pegar o buquê de Tiana e se abaixar enquanto Ayla o chutava para longe, direto no rosto de Dean. As pessoas riram e me vi fazendo o mesmo. Até que eles se beijaram e... Fim.
Tudo ficou escuro. Eu estava em um breu, sem conseguir enxergar absolutamente nada e então, de repente, um rosto surgiu na minha frente.
Gritei, cambaleando para trás e a Ayla de olhos prateados riu, claramente se divertindo. Ela tinha voltado. A tal entidade que eu não fazia ideia do que era.
— Você devia ter visto sua cara — comentou, ainda sorrindo.
— Isso não tem graça. O que você quer?
— Te avisar.
— Sobre o quê?
— A maldição pode ser quebrada dependendo da escolha que você fizer.
— Você já me disse isso antes. Eu já fiz uma escolha.
— Muito bem, então, se é o que diz. Mas lembre que todas as escolhas têm consequências, sejam boas ou ruins. Está na hora de seguir em frente.
— Quer dizer que eu não vou mais sonhar com o livro?
— O livro acabou, embora mais rápido do que pensei.
— Por que sonhei com isso então?
— Sua mente quis uma fuga, uma distração das coisas ruins. Sempre foi assim.
— E você? Vou parar de te ver também?
— Ouvindo assim até parece que você gosta de mim — debochou ela. — Mas sim, se você já fez sua escolha, não virei mais te encontrar. Irei assistir o desenrolar dessa história de longe.
— De longe...?
— Boa sorte, você vai precisar.
E então ela sumiu. Me vi no breu mais uma vez e fechei os olhos, respirando fundo. Quando os abri novamente, encarei um teto branco, em um quarto igualmente branco.
E estava ao meu lado.
— ... Graças a Deus. — Ele segurou minha mão direita entre as suas e a beijou.
Tive uma sensação de déjà vu ao acordar ali. Era quase como da última vez depois do meu atropelamento. Então notei que havia uma tipoia em meu braço esquerdo e meu ombro estava imobilizado.
— Merda... Eu quebrei algum osso? — perguntei ao tentar me sentar. Senti uma dor incômoda nas costelas quando fiz isso.
— Você fraturou duas costelas e deslocou o ombro esquerdo. Os médicos acham que foi o impacto com o cinto de segurança.
— Merda... E o idiota que fez isso?
— A polícia o prendeu. Era o stalker, . Ele confessou tentar te matar — murmurou baixinho.
Engoli em seco, sentindo um arrepio na nuca, mas tentei disfarçar.
— Que bom que não conseguiu então. E o meu carro?
— Seu... Carro? — Ele franziu o cenho, como se estivesse surpreso com a pergunta.
— É, meu carro, . Ficou muito destruído?
— Ah... Consideravelmente, eu diria — ele respondeu, com uma mão na nuca. — Tivemos sorte de você não ter ficado presa nele.
— Porra! Eu vou esganar aquele pervertido! — xinguei, irritada. — Meu carro era novinho... — choraminguei.
— Eu te dou outro — ofereceu e o encarei como se ele tivesse falado uma asneira.
— Nem vem. Eu comprei com meu dinheiro. Pelo menos, tem seguro...
— Sim...
— Quando vou poder sair daqui? E aquele idiota? Eu quero ver ele.
— Acho que no fim da tarde você pode ter alta. Precisa ficar em observação por um tempo e esperar o resultado dos exames... A polícia se ofereceu pra vir pegar seu depoimento.
— Não precisa, eu quero ir à delegacia e ver aquele stalker pessoalmente.
— Vão interrogar ele mais tarde. Vou saber se podemos assistir.
— E ? Você avisou a ela?
— Sim, ela deve estar a caminho se não tiver ficado presa no trânsito.
— Certo. — Assenti e então me lembrei de algo. — E como você sabia que eu tava sendo seguida?
desviou o olhar do meu e apertou os lábios em uma linha fina.
— ... — Ah, não. Eu conhecia aquela expressão. Cara de quem tinha feito algo que eu provavelmente não concordaria.
— . É bom você começar a se explicar agora. Você colocou um rastreador em mim? No meu carro?
— Não.
— No meu celular?
— Não.
— E então o que foi?
— Contratei seguranças pra ficarem de olho em você.
— O quê?! Era por isso que eu andava com a impressão de que tava sendo seguida, então? Porque eu realmente tava! Porra, !
— Desculpa por não dizer. Mas eu sabia que você não ia concordar, então pedi a eles para serem discretos.
— É claro que eu não ia! Onde eles estão agora? — eu quis saber. — Quero ver quem são.
— Lá fora.
— Chame eles, então.
assentiu e fez uma rápida ligação. Um minuto depois, dois caras enormes vestidos casualmente entraram no quarto. Minha boca se abriu em choque.
Era o casal que eu tinha visto na cafeteria.
— Não acredito! Então era vocês?
— Sim, senhora. — Um deles respondeu e o reconheci como o mais ranzinza da vez que os vi. — Meu nome é Carter e esse é Louis.
Os dois tinham uma vibe de agentes secretos agora, se reportando a mim como se eu fosse chefe deles. Era até meio cômico.
— Eu não sou casada, Carter. Podem me chamar apenas de — comentei. — Vocês não são um casal, né?
— Não, senhora. Quer dizer... — Louis respondeu. — Na verdade, temos esposas e filhos.
— Que interessante. Vocês são bons atores. Foi um prazer conhecer vocês. Obrigada pela ajuda hoje.
— É nosso trabalho, se- — Carter disse.
Um momento depois, os dois saíram, me deixando sozinha com mais uma vez.
— Você não devia ter feito isso — O encarei. — Não tem nenhuma obrigação comigo.
— O stalker tava solto, . Eu tinha que te proteger de alguma forma. Não me interessa se você é ou não minha namorada. Eu não me arrependo de nada.
— Claro que não — retruquei, irritada. — Mas eu podia me cuidar sozinha.
— Ele teria te matado se meus seguranças não tivessem percebido e atrapalhado — disse, irritado também. — Não vou me desculpar por cuidar de você.
— Por que você é tão teimoso?
— Por que você é tão teimosa?
Respirei fundo, tentando conter a irritação.
— Eu me distanciei pra proteger você, seu idiota! E agora você me diz que tava fazendo o mesmo?
— Pelo menos, estamos de acordo em proteger um ao outro — ele comentou, sem se abalar. — Agora acabou, . O stalker foi pego e não vai mais nos incomodar.
— Assim espero. — Suspirei, passando a mão no rosto e notei um curativo na minha testa.
— Você pode voltar pra casa agora — ele comentou baixinho e o encarei novamente. — Pra nossa casa.
— ... — Prendi a respiração por um momento. — Não posso voltar com você.
— Por que não? Você disse que terminou comigo por causa do stalker.
— E do bebê também.
— Podemos superar isso juntos, eu te disse. E o problema com o stalker já foi resolvido. O que te impede?
Uma maldição, eu quis dizer. Ou melhor, repetir. Mas sabia que ele não ia acreditar naquilo. achava que eu tinha inventado um monte de lorotas só porque não queria revelar o motivo do nosso término.
— Eu só... Não posso, tá?
— Você não me ama mais? É isso? — ele perguntou e senti cada palavra como uma agulha enfiada no meu coração. — O amor acabou pra você, ?
— ...
Ele colocou uma mão no rosto e respirou fundo, antes de voltar a me encarar.
— Só quero que seja sincera comigo. Não pode fazer isso nem ao menos uma vez? Vai continuar me deixando no limbo, sem nem saber o motivo que me fez perder você? Eu mereço ao menos isso, . — O lábio inferior dele tremeu, denunciando seu nervosismo, e meu coração se apertou. — Tô cansado de ficar longe de você.
Senti meus olhos arderem e tive que fazer um esforço para não chorar em sua frente.
— Você consegue viver sem mim, . Nós vamos seguir em frente.
— Você não respondeu minha pergunta.
Apertei os lábios, tentando controlar minhas emoções. Eu não queria responder. Não queria magoá-lo mais do que já tinha feito. Mas também sabia que se não fizesse aquilo, ele continuaria insistindo.
— Sim, . Eu... — te amo demais. Desesperadamente. Como nunca imaginei amar ninguém. — Não te amo mais. Sinto muito.
me encarou com os olhos brilhantes, incrédulo, como se não esperasse mesmo que eu fosse falar aquilo. Então desviou o olhar e assentiu, antes de se levantar.
— Vou tomar um ar — disse, andando até a porta, mas parou com a mão na maçaneta. — Vou acompanhar você no depoimento, . Depois disso, prometo que vou te deixar em paz — acrescentou, sem olhar para mim.
— Certo — respondi, um instante antes dele abrir a porta e sair.
Quando fez isso, me permiti chorar as lágrimas que estava contendo até então.

***


Quando chegamos à delegacia, pouco depois das sete da noite, o advogado de já estava à nossa espera. se ofereceu para nos acompanhar também, mas recusei. No fim das contas, eu estava bem após o acidente e não queria que ela bagunçasse sua rotina por minha causa sem necessidade. Então era apenas e eu. Nosso depoimento durou cerca de uma hora e então o detetive responsável nos deixou assistir o interrogatório da sala de observação.
Roy Basset era igualzinho às fotos que havia me enviado. Jovem e com uma expressão amarrada no rosto. Mas havia certa inquietação em seus olhos para alguém que tinha confessado vários crimes de boa vontade após ser pego. E acho que o detetive também notou isso durante o interrogatório, ao arquear uma sobrancelha com uma expressão de desconfiança no rosto.
Ele perguntou sobre os vídeos enviados para mim e , e então os seus motivos, e Roy revelou ter feito isso por não gostar de nos ver juntos, porque não gostava de mim e achava que merecia alguém melhor.
Ele estava repetindo o mesmo que disse nas mensagens.
— Por que quis matar a Srta. ? — o detetive perguntou.
— Porque assim ela o deixaria em paz.
— O Sr. e ela revelaram que não estão mais juntos.
— Se não estão, então não deveriam sair juntos.
— Alguns casais ficam amigos mesmo após o término...
— Mas eles não podem. Não quero.
Tudo o que ele falava parecia automático. E durante todo o processo, ele apertou a mão direita com a esquerda, como se tentasse ficar calmo. O detetive assentiu e estendeu uma prancheta para que ele assinasse um documento. Roy segurou a caneta com a mão esquerda e assinou, empurrando a prancheta de volta para o detetive com a direita. Foi quando eu vi algo no dorso de sua mão, mas estava longe demais para enxergar.
— Eu posso entrar ali? — perguntei para o policial que estava na sala. Quero só fazer uma pergunta.
me encarou como se eu estivesse maluca.
— , o que você-
— É só uma pergunta, .
O policial me encarou por um instante e então usou um microfone para pedir permissão ao detetive que o interrogava. Ele assentiu e, no mesmo instante, sai em direção à sala, que ficava na porta ao lado. Respirei fundo e me aproximei da mesa devagar. Roy me olhou com curiosidade e não era bem isso que eu esperava dele. Então meu olhar caiu para suas mãos.
Havia uma cicatriz antiga no dorso de mão direita.
— Você não é o stalker, né? — Sorri e o vi arregalar os olhos levemente.
— Eu sou. Já confessei tudo.
— Não é não. O stalker é destro e não tem uma cicatriz na mão. A menos que não fosse você naqueles vídeos.
— É claro que era! — ele retrucou e então se deu conta do que tinha feito. — Só não apareceu na câmera...
Suspirei e encarei o detetive.
— Acho que alguém contratou ele. Chequem os vídeos e vão ver que a pessoa que fez os vídeos não tem cicatriz. Talvez ele só tenha enviado as mensagens ou deixado alguém usar o endereço de IP dele.
— Certo. Obrigado pela informação, Srta. .
Assenti e voltei a encarar o garoto.
— Você tá seguro aqui. Se alguém te ameaçou, esse é o momento de falar.
E então saí. Um instante depois, me alcançou e me segurou pelo pulso livre, me virando para encará-lo.
— Do que você tava falando?
— Mesmo que não houvesse cicatriz, é muito óbvio. O cara é canhoto.
— E como você tem certeza de que o stalker é destro?
— Adivinha. — Fechei a mão e sacudi no ar.
— Porra, . Você reparou em como o cada se toca?
— Eu gostaria de apagar aquelas cenas da minha mente, se você quer saber. De todo jeito, aquele garoto tem uma cicatriz antiga. E o detetive também tava desconfiado, você não viu?
— Como assim?
— O garoto tava só repetindo coisas escritas nas mensagens, . E tava nervoso o tempo todo pra alguém que tinha acabado de confessar os crimes de boa vontade. Não é ele.
— Se não é ele, quem pode ser?
— Não faço ideia. Mas aquele tal de Roy? Aposto que nem conhece suas músicas.
franziu o cenho, preocupado.
— Eu tenho que ir. Tô cansada.
— Eu levo você.
— Não precisa, eu pego um táxi.
— Não, — rebateu com firmeza. — Não pedi sua permissão. Eu vou te levar pra casa. Vamos. — Ele me puxou pela mão, mas eu a puxei de volta.
— Eu posso andar sozinha, então — garanti, me afastando dele.
Por um milésimo de segundo, vi a mágoa cruzar seu olhar, mas disfarçou, fingindo não se importar. Passei na frente dele e andei mais rápido. O caminho até o carro se seguiu em silêncio e permaneceu assim até chegarmos ao endereço de minha irmã.
— Obrigada — murmurei, saindo do carro antes de ouvir uma resposta dele.
foi embora assim que fechei a porta.
Respirei fundo e observei o carro se afastar, algo me dizendo que aquela era provavelmente a última vez que nos veríamos.

CAPÍTULO 36

— O videoclipe é um sucesso — Jace comentou durante a pequena reunião de comemoração da equipe. — As visualizações não param de aumentar. Confesso que nunca achei que um vídeo tão simples fosse ter tanto sucesso.
— Isso é porque a música foi um sucesso — explicou Erika, uma das produtoras executivas. — Devemos tudo isso a , que nunca decepciona em suas composições. Um brinde a isso! — Ela levantou o copo e todos brindaram com suas bebidas.
Até mesmo eu, por educação.
Tinha lançado “Red Shoes” no dia anterior, incluindo um videoclipe da música. O público tinha aceitado bem, mas eu sabia que a maioria estava curiosa sobre o motivo da escolha do tema.
Gravei o vídeo na semana anterior, antes de viajar com , e consistia em apenas eu sentado no chão, com brinquedos infantis ao redor, um berço e os sapatinhos vermelhos que havia deixado para trás. Na edição, havia alguns cortes de fotos sem os nossos rostos passando em um loop rápido, como se fosse uma espécie de falha na imagem, e o bilhete que ela tinha colocado com os sapatinhos. Eu estava de pijama, cantarolando a música que tinha um toque de violão ao fundo, enquanto olhava com carinho para o parzinho minúsculo de crochê.
A música tinha uma letra simples e curta. Falava sobre alguém que tinha ido embora, mas ainda assim tinha lugar especial no meu coração. O vídeo era inteiramente preto e branco, a não ser pelos sapatos. Eu sorria enquanto cantava, mas, no final, deixei uma lágrima escapar.
Era mais do que óbvio o que aquilo significava, mas ainda que o clipe estivesse relacionado a um bebê, eu tomei cuidado para a letra soar ambígua, apenas sobre uma pessoa que se foi e deixou sapatos para trás. Poderia ser qualquer um. As pessoas poderiam se identificar de diversas formas com a música, mas a verdade era que eu a tinha escrito para mim mesmo e para .
Era uma música escrita alguns dias depois de ir embora, em uma tentativa de confortar a mim mesmo, não só sobre a perda do bebê, mas também sobre . De certa forma, eu esperava que ela também encontrasse algum conforto nela.
Eu não fazia ideia se ela havia ouvido, mas imaginava que sim. Ela tinha sido uma das pessoas mais ansiosas por um novo lançamento. Um dia antes de lançar “Red Shoes”, minha equipe divulgou a capa do novo álbum, que estava programado para sair à meia-noite após minha apresentação em Los Angeles, no dia seguinte. Eu já estava na cidade há dois dias. Resolvi viajar antes para me preparar para o festival e me hospedei no hotel onde minha equipe e eu costumávamos ficar, e agora estávamos ali, comemorando um sucesso com o qual eu não conseguia me sentir feliz.
Respirei fundo, bebi o último gole de cerveja, e observei as pessoas sorridentes ao meu redor por um instante, antes de decidir me recolher para o quarto. Uma série de reclamações veio, mas os convenci de que precisava descansar a voz para o dia seguinte.
Lancei um último olhar para Jace, que sorria animado, e ele levantou o próprio copo em um cumprimento antes de eu sair. Ele podia aproveitar os últimos dias como meu gerente o quanto quisesse, mas eu sabia que, em breve, um aviso de demissão viria.
E talvez ainda naquele fim de semana.

***


Ouvi a multidão gritar meu nome repetidamente enquanto observava meu próprio reflexo no espelho da sala de espera. Uma staff tinha acabado de me avisar que eu tinha dois minutos para subir ao palco, então respirei fundo, terminei a dose de whisky que tinha em mãos e saí para me apresentar, tentando ignorar a sensação esquisita no meu peito a cada passo.
Imaginei que devia ser apenas ansiedade, já que aquela era a minha primeira apresentação desde a turnê que finalizei antes do acidente de .
E eu ainda não conseguia tirá-la da cabeça. Não que eu esperasse conseguir tão cedo depois do que aconteceu na casa da minha mãe, mas ela era como uma coisa fora do lugar, do tipo que você ignora na maior parte do tempo, dizendo a si mesmo que vai arrumar, mas continua lá à medida que os dias passam, como um lembrete constante de que você deveria fazer algo a respeito, mas continua apenas adiando porque não te incomoda muito.
De fato, pensar em não me incomodava, mas sim pensar sobre o que tinha restado de nós: um grande e belo nada.
Eu também havia ficado intrigado com a insistência dela quanto ao stalker. O cara estava preso, mas tinha insistido tanto que Roy era um bode expiatório que, quando a deixei em casa, acabei voltando para a delegacia e pedi ao detetive para não encerrar o caso, mas conduzir uma investigação mais apropriada.
Ele não hesitou. Na verdade, tinha a intenção de fazer isso e contou que, durante o interrogatório, pensou que Roy estivesse mentindo antes mesmo de pedir para entrar na sala e que, após sairmos, constatou exatamente o que ela pensava.
Roy não conhecia nenhuma música minha. Além disso, o celular que ele carregava continha apenas uma ligação suspeita, vinda de um telefone descartável. Nada de aplicativos de redes sociais, fotos ou vídeos na galeria, o que não condizia com a obsessão que ele alegava ter por mim.
No entanto, no dia anterior, recebi uma atualização do meu advogado, informando que Roy tinha um vínculo com alguém. Sua avó estava internada em um hospital e a conta só aumentava, até que, cerca de uma semana atrás, foi quitada por alguém com o sobrenome Keller.
Senti o sangue fugir do meu rosto no momento em que li a mensagem.
O palpite do detetive era que Roy não esperava que o vínculo com sua avó fosse ser descoberto, mas isso foi o suficiente para que eles chegassem a um novo suspeito. E eu só conhecia uma pessoa com aquele sobrenome, alguém que tinha informações suficientes sobre mim para agir como um stalker.
Conversei com meu advogado e notificamos o detetive, que por sua vez notificou a polícia de Los Angeles. Jace seria convocado em breve, mas pedi que isso acontecesse após a apresentação. Aquilo seria um escândalo praticamente concomitante ao lançamento do meu álbum e eu não queria chamar atenção para isso antes de subir ao palco.
A apresentação correu bem e eu consegui manter um sorriso no rosto na maior parte do tempo até chegar em “Red Shoes”, que era a última música.
— Essa música originalmente não faria parte do álbum, mas resolvi incluí-la há algum tempo. É sobre aqueles que se foram, mas que mesmo assim têm um espaço especial no nosso coração. Espero que gostem.
A plateia gritou e logo os primeiros acordes começaram a tocar. Senti um leve frio na barriga, por ser a primeira vez que cantava aquela música ao vivo, mas felizmente correu tudo bem.
Eu ainda tinha um sorriso no rosto quando terminei, embora meus olhos estivessem ardendo e levemente embaçados.
Em seguida, agradeci, me despedi e enfim saí do palco.

***


Quase duas horas depois, eu já estava de volta ao meu quarto de hotel quando bateram à porta. Já passava das onze e meia, mas eu tinha pedido serviço de quarto um pouco tarde. Depois de um show, eu nunca conseguia dormir cedo e certamente não o faria de estômago vazio. Tomei um banho enquanto esperava e, pelo visto, o momento tinha sido perfeito.
Eu ainda estava com uma toalha ao redor do pescoço quando fui atender a porta para pegar a comida. Mas mal a abri, Jace já estava ali, empurrando uma folha de papel contra meu peito.
— Que porra é essa, ?! — ele perguntou, entrando no quarto sem permissão.
Peguei a folha e examinei o título rapidamente.
— Uma demissão — respondi calmamente e me virei, indo até a pequena cozinha que havia ali enquanto secava o cabelo. O quarto parecia um pequeno apartamento, com uma varanda que dava para a frente do edifício.
Jace andou em meu encalço.
— Por que você tá me demitindo? Eu não fiz um bom trabalho gerenciando você?
— Fez — admiti. — Mas eu não quero mais trabalhar com você.
— E por que não? Estamos juntos há cinco anos!
Eu ri pelo nariz e o encarei.
— Você fala como se a gente tivesse em um relacionamento — zombei. — Você faz um bom trabalho, Jace, mas temos diferenças de personalidade que estão me incomodando há um tempo. Sinto muito.
— Diferenças de personalidade? Como assim? O que eu fiz pra você pensar isso?
Respirei fundo, antes de responder.
— Pra começar... Você vive querendo se intrometer na minha vida pessoal, sabendo que detesto isso. E eu não gostei das coisas que você falou sobre a quando a gente terminou.
— É sobre ela, então? A sua ex? Eu tava tentando te ajudar a superar.
— Falando mal da mulher que eu amo?
— Você é um capacho dela, ! Não percebe? Essa mulher te controla!
— pode até mandar em mim se ela quiser, Jace. Se ela me pedir pra ajoelhar diante dos pés dela, eu o farei de bom grado.
Ele riu, sem humor.
— Vai beijar os pés dela também? — debochou.
— Eu começaria pelos pés — devolvi com um sorriso, vendo-o travar a mandíbula de desgosto.
Peguei meu celular em cima do balcão onde o havia deixado e enviei uma mensagem rápida para meu advogado, solicitando a polícia.
— Inacreditável, ! Ela terminou com você há dois meses! Ela não te quer mais, só que você continua agindo assim.
— E, de novo, isso não é da sua conta, Jace. Agora que já estamos esclarecidos, você pode ir embora, por favor? — pedi calmamente, e ele me encarou como se eu tivesse lhe dado um soco.
— Você tá me expulsando agora?
— Tecnicamente, eu nem te convidei pra entrar. Quero ficar sozinho.
— , pense direito. Você não tá sendo profissional. Vai mesmo me demitir por causa de uma mulher que nem tá mais com você?
Exalei o ar de uma vez, sentindo minha paciência se esvair.
— Ela ainda estaria comigo se não fosse por você — falei sem pensar.
E o idiota ainda teve a ousadia de parecer surpreso.
— Como assim? Eu não fiz nada com ela.
— Não. Você só pagou alguém pra fazer, seu imbecil — retruquei com raiva.
— O quê? — Ele pareceu vacilar por um instante.
— Achou que eu nunca fosse descobrir, Jace? Que você é aquele maldito stalker que vinha importunando a mim e a durante meses?
— Do que você tá falando? A polícia pegou esse stalker, era aquele tal de Roy.
— Pegou? — Arqueei uma sobrancelha. — Eu não me lembro de ter contado isso a você. Na verdade, além dos policiais envolvidos, apenas , eu e meu advogado sabíamos. A não ser que você tenha entrado em contato com Roy.
— O que pensa que eu sou, ?
— Além de um idiota doente e obcecado? Não faço ideia.
O olhar dele endureceu, perdendo a falsa inocência que fingia.
— Você nunca deveria ter se envolvido com aquela mulher. Eu cheguei primeiro! Devia ser apenas nós dois!
— Do que você tá falando?
— Devia ter acabado no atropelamento dela, mas aquela vadia sobreviveu. E mesmo sem memória, você insistiu em cuidar dela quando ela nem lembrava de você! E continuou feito um cachorrinho. Mas eu… Eu te amei primeiro!
Eu ri, incrédulo, incapaz de me controlar.
— Se olhe no espelho, Jace. Eu gosto de mulheres. Não seja idiota, o que pensou que poderia acontecer entre a gente?
— Eu deveria ter sido mulher também. Já fui uma... Em outra vida.
— O quê? — Franzi o cenho. Que papo era aquele?
— Devíamos ser casados, — ele continuou. — Mas aquela prostituta nojenta sempre apareceu. Eu não suporto o fato de você sempre ficar que nem um cachorrinho atrás dela e me ignorar.
De repente, senti meu sangue ferver.
— Você tentou matar minha mulher, seu imbecil! — esbravejei. — Duas vezes! E você deve estar realmente doente pra vir com esse papo de casamento pra cima de mim. — Me aproximei dele, apertando os punhos. — Não importa o que você faça, eu nunca vou parar de amar . Não quero ninguém que não seja ela, me ouviu? Agora dá o fora daqui, Jace. Acabou.
— Não! Eu me recuso! Você tem que pensar, . Seu lugar não é com aquela puta! Eu-
Soquei seu rosto antes que ele pudesse continuar.
— Não se atreva, Jace!
Ele colocou a mão na boca, percebendo o sangue em seu lábio cortado. Minha aliança tinha provocado aquilo, mas eu não sentia nem mesmo um pingo de remorso. E, pelo visto, ele percebeu isso, já que sua próxima ação foi vir para cima de mim, seu corpo colidindo com o meu enquanto nos arrastava para a varanda.
Uma batida na porta soou naquele exato momento.
— Sr. ? Aqui é a polícia.
— Aqui! A porta tá aberta — gritei, enquanto tentava fazer Jace me soltar.
— Você chamou a polícia? Como se atreve a fazer isso comigo?! — Ele me deu um soco e eu cambaleei um passo para trás, antes de avançar nele de novo.
— Sr. ? Recebemos seu chamado. Se não responder agora, iremos entrar mesmo assim.
— Entrem! — gritei mais alto e, um momento depois, a porta foi aberta e dois policiais entraram.
Apontei para o chão, onde Jace havia caído sentado. Eles se aproximaram, cada um com a mão sobre a arma na cintura. Mas antes que pudessem nos alcançar, Jace se levantou e usou um vaso de planta para quebrar o vidro da varanda, alarmando ainda mais os policiais e a mim.
— Que porra você tá fazendo?! — gritei, me afastando da parte quebrada.
— Sr. Keller, mãos para o alto! — Um dos policiais gritou, apontando uma arma para ele.
Jace veio até mim, ignorando o aviso e me agarrou pela camisa, me empurrando para a beirada. Os policiais gritaram ordens, mandando ele me soltar. Eu tentei me soltar dele, consciente de que estávamos perto demais da beirada, que seria arriscado demais os policiais atirarem ou tentarem nos puxar.
— Me solta, seu filho da puta! — Tentei tirar suas mãos da minha camisa, mas ele se agarrou a mim, seus braços como um cinturão ao meu redor.
— Se eu não posso te ter, então ela também não! — ele gritou, e eu arregalei os olhos por um milésimo de segundo, sentindo uma onda de medo e adrenalina me atingir.
Então ele nos atirou do prédio.
Levou cerca de dois segundos até eu sentir o impacto em todos os meus ossos, o ar escapando dos meus pulmões, uma dor absurda em todos os lugares e uma tentativa falha de respirar que me fez engasgar com um líquido que percebi ser meu próprio sangue. Jace estava ao meu lado, imóvel, mas havia a sombra de um sorriso em seu rosto. Engasguei novamente, vendo minha vida passar diante dos meus olhos.
Uma lágrima caiu e pensei no sorriso de , a última memória à qual eu queria me agarrar, enquanto uma estranha consciência do que estava acontecendo tomava conta de mim. , , , pensei, sem parar.
E então... Nada.

CAPÍTULO 37

Três dias antes

Esperei até a meia-noite para acompanhar o lançamento da nova música de .
A capa do álbum novo, que sairia em alguns dias, havia sido divulgada também. Não era verde, mas preto e branco, com vários tons de cinza. Imaginei que tivesse mudado de última hora, embora não fosse de seu feitio modificar algo que havia sido decidido há meses. Também havia duas músicas a mais na lista do álbum, uma delas era o single cujo videoclipe eu estava prestes a ver.
Por algum motivo, senti um frio na barriga enquanto digitava o título da música na barra de navegação do YouTube no meu tablet. Quando o ícone do vídeo apareceu, cliquei nele e esperei a imagem carregar um pouco antes de dar play.
Então fui surpreendida por uma série de acordes de violão e a voz de se sobressaindo enquanto ele cantava o que quase parecia como uma canção de ninar. Meus olhos se encheram e jorraram lágrimas silenciosas quando notei o cenário.
Ele estava sozinho em um quarto com um berço no fundo, brinquedos ao redor e os sapatinhos que comprei quando planejei dar a notícia da gravidez quando ele chegasse de viagem, antes do meu acidente. Os sapatos eram os únicos itens coloridos do vídeo. não olhou para a câmera em nenhum momento e acho que estava absorto demais para fazer isso.
A letra era sobre nosso bebê, mas poderia muito bem ser sobre qualquer pessoa que tivesse ido embora.

"Você se foi antes de eu chegar
O céu ganhou uma nova estrela brilhante
E a mim restaram apenas esses sapatos vermelhos
Mas não se preocupe, baby
Irei olhar para o céu e sorrir para você
Não mais chorar
Vou te guardar no meu coração
Junto desses sapatos vermelhos
E te amar para sempre"


Instantaneamente, percebi que tinha escrito aquela música para servir de conforto. Não era nada do que os fãs estavam esperando para o novo álbum, mas todos sabiam que ele por vezes inseria composições baseadas em suas próprias experiências, e algo me dizia que em breve as pessoas iriam especular sobre o tema daquele vídeo. Especialmente quando ele revelou o bilhete que escrevi, além das nossas fotos passando no fundo, mesmo sem revelar nossa identidade.
Aquela música talvez fosse a sua versão de página virada. Uma parte de mim não conseguia nem imaginar como foi para ele descobrir que eu estava grávida com a notícia de um aborto e ter que lidar com isso sozinho porque eu não podia saber ainda. E quando eu soube, a primeira coisa que fiz foi fugir e deixar para trás aqueles mesmos sapatinhos vermelhos.
Me senti um lixo por isso, por provocar mais sofrimento em por conta de emoções que hoje, em outras circunstâncias, eu talvez tivesse encarado de outra forma. Mas tudo o que pude associar àquela perda foi a maldição. O maldito stalker tinha provocado aquilo e talvez sua intenção nem fosse tirar apenas a vida do meu bebê, mas a minha também.
Perdi a conta da quantidade de vezes que assisti o vídeo de “Red Shoes”. Absorvi a voz de como se fosse um abraço aconchegante, o conforto que eu sabia que poderíamos ter encontrado um no outro se eu não tivesse me afastado e o deixado lidar sozinho com os nossos problemas.
Ele tinha segurado as pontas por mim durante meses e tudo o que fiz por ele foi abandoná-lo e falar que não o amava mais. A maior mentira que já contei, com toda certeza. Mas não se afastaria por completo se eu continuasse dando sinais de que ainda tinha sentimentos por ele. E acho que no fundo ele sabia que eu estava mentindo, mas a mágoa tinha enevoado sua percepção.
Eu sabia que tinha dado um fim definitivo para nós dois no momento em que disse aquilo. Pensar nisso provocava um aperto no meu peito, mas eu disse para mim mesma que era o melhor para nós dois.
Eu estava protegendo ele e até mesmo havia revelado sobre a maldição, embora acreditasse que era só invenção minha enquanto bêbada. E era melhor que ele pensasse assim mesmo, pois nunca me deixaria em paz se eu tivesse falado aquilo sóbria, e provavelmente teria me convencido de que era tudo coincidência quando eu sabia que não era.
Quando o videoclipe acabou pela... não sei qual vez, pois tinha perdido a conta, coloquei o tablet de lado e me deitei para dormir. Ou pelo menos tentar, enquanto lágrimas ainda escorriam por meu rosto já inchado de chorar.

***


Atualmente, aproximadamente nove horas após o acidente de

Era domingo de manhã e eu estava na cozinha com enquanto preparávamos nosso café da manhã.
Me encostei no balcão da cozinha de olho no meu e-reader e tomei um gole de café com a mão livre, enquanto voltava para a leitura que havia começado na noite anterior. Já fazia alguns dias desde o meu segundo acidente e, felizmente, as dores haviam diminuído.
se afastou com seu prato na mão e se sentou no sofá em frente à TV da sala. A ouvi zapeando os canais aleatoriamente enquanto procurava algo para assistir, até que parou em um que me chamou atenção no mesmo instante.
— "E agora voltamos com a notícia que deixou muitos fãs abalados. Na noite passada, pouco depois da meia-noite, o cantor foi assassinado por seu gerente, Jace Keller..."
Senti o corpo inteiro gelar e, no mesmo instante, corri para a frente da TV.
— ... — disse em um sussurro, mas meus olhos estavam vidrados na televisão, uma sensação de peso me atingindo a cada palavra que eu ouvia.
— "Foi descoberto que Keller era um stalker anônimo que vinha incomodando e sua namorada há alguns meses. Policiais que estavam no local informaram que encontraram os dois no meio de uma briga e o gerente quebrou o vidro de proteção da varanda do vigésimo andar e se jogou com pouco depois. Os dois morreram antes que pudessem ser levados ao hospital. Voltaremos com mais notícias breve, mas até lá oferecemos nossos pêsames à família do Sr. , sua namorada, amigos e fãs..."
— Isso deve ser mentira. se apresentou ontem, ele tava bem! Vou ligar pra ele, deve ser alguma notícia sensacionalista — comentei e saí em direção ao quarto para pegar meu celular. Disquei o número dele e voltei para a sala com o celular no ouvido, andando de um lado para outro apressadamente. A ligação caiu na caixa postal e eu tentei mais duas vezes, em vão.
— Não pode ser, ... Eu vou tentar ligar pra mãe dele.
Achei o contato da Sra. na agenda e liguei. A primeira vez caiu na caixa postal e eu tentei outra vez. Ela atendeu no terceiro toque.
Parei de andar.
— Sra. .
— , querida... — ela murmurou com a voz chorosa e aquilo foi o suficiente para que eu entendesse. No instante seguinte, o celular escorregou na minha mão, a realidade me atingindo com tudo. Caí no chão, perdendo as forças nas minhas próprias pernas e de repente respirar se tornou difícil. Puxei o ar, mas havia uma angústia que me impedia de expandir o peito por completo.
— ... — me chamou, se colocando ao meu lado um momento depois. Minha irmã me abraçou e eu senti lágrimas quentes jorrando dos meus olhos sem parar enquanto engasgava com a falta de ar e o aperto em meu peito. — Eu sinto muito, sinto muito, irmã — ela acrescentou, com a própria voz embargada.
Solucei em seus braços, ainda absorvendo aquela notícia. Como aquilo tinha acontecido? estava tão bem da última vez que eu o tinha visto. E Jace? Ele era o stalker? Por que ele matou ? Por quê? Por quê?
— Eu não- ele não devia morrer. , eu- disse que não o amava. Eu disse isso a ele e agora...
Solucei sem parar, incapaz de absorver a dor que estava sentindo.
— Ele sabia que era mentira, irmã... Tenho certeza de que sabia.
— Mas eu- Se eu tivesse morrido no acidente... Se eu tivesse, ele estaria bem, . Ele estaria-
Solucei outra vez, não mais conseguindo falar. Por que aquilo estava acontecendo? Eu fiz de tudo para proteger do stalker, me afastei para evitar mais uma tragédia, e mesmo assim...
Eu nunca havia sentido um sentimento como aquele, tão dolorosamente cru e forte antes. Era como se meu coração estivesse sendo rasgado aos pedaços e eu queria morrer. Não fazia sentido viver em um mundo sem . Eu podia aguentar ficar longe dele e tentar seguir em frente sabendo que ele estava bem, mas isso... Isso era o mais completo absurdo.
Tudo estava bem e, de repente, o amor da minha vida se foi. A pessoa que me amou e que amei incondicionalmente até o último momento. Eu ainda o amava, o amava tanto. Como superaria sua perda? Como eu poderia sequer acordar no dia seguinte sabendo que ele não estava mais vivo? era uma das pessoas mais cheias de vida que eu conhecia. E mais positivas também, embora ele falasse o mesmo de mim. Quando eu estava frustrada e desmotivada com algo, sempre estava lá, disposto a me mostrar tudo de uma outra perspectiva.
Eu não conseguia parar de pensar que eu devia ter morrido em seu lugar. Não conseguia parar de pensar que eu ainda deveria morrer. Eu não queria saber de nada. Eu queria estar com como sempre foi nos últimos três anos. Queria mostrar a ele o quanto o amava, o quanto ele era precioso para mim e pedir perdão por todas as vezes que o magoei.
Queria prometer nunca sair de seu lado, não importa o que acontecesse.
Se eu soubesse que tudo acabaria assim, eu teria aproveitado cada segundo em sua presença, e teria dado um jeito de ir em seu lugar. Agora tudo que eu conseguia pensar era em me juntar a ele e devo ter dito isso em voz alta pois no instante em que tentei me levantar em busca de algo que me ajudasse a interromper minha própria vida, minha irmã se jogou em cima de mim, usando o peso do próprio corpo para me manter no lugar.
O rosto de também havia sido tomado por lágrimas e ela gritava comigo, falando que não ia me deixar fazer nada que me machucasse. Gritei de frustração o mais alto que pude, incapaz de raciocinar direito e não me importando nem um pouco com isso.
Eu queria parar aquela dor, eu queria ficar com , mesmo que para isso eu tivesse que tirar minha própria vida.
Mas se agarrou a mim e conseguiu me manter imóvel no lugar, mesmo quando tentei me debater e continuei gritando sem parar. Ela chorou comigo e murmurou palavras de conforto, tentando me acalmar.
Depois de vários minutos que mais pareceram horas, fui vencida pelo cansaço. Perdi minha voz depois dos gritos e o que restou de mim foi uma casca vazia, apática, olhando para o nada, enquanto lágrimas silenciosas ainda escorriam pelo meu rosto como se tivessem vida própria.
Então, em algum momento, tudo ficou escuro.

CAPÍTULO 38

Bam. bam. Bam.
Bam! Bam! Bam!

Acordei com o barulho de batidas, semelhante ao de uma porta. Olhei ao redor, confusa, mas então tudo ficou em silêncio por um momento. Me levantei e caminhei em direção à porta, ficando parada ali por alguns segundos, ainda um pouco sonolenta e tinha acabado de chegar à conclusão de que eu tinha imaginado aquele barulho depois de adormecer. Uma rápida conferida no relógio me disse que não fazia muito tempo que eu havia pegado no sono, e decidi aproveitar a chance de dormir, já que eu não vinha conseguindo fazer muito isso ultimamente.
Bam! Bam! Bam!
A batida recomeçou, dessa vez mais alta, me fazendo virar de uma vez em direção ao som, com os olhos arregalados. Me assustei com meu próprio reflexo no espelho de corpo inteiro que havia em uma parede ao lado da cama e coloquei a mão sobre o peito, sentindo o coração acelerado. Olhei para o espelho durante mais alguns segundos, quase certa de que o barulho tinha vindo daquela direção, o que não parecia fazer sentido algum.
Bem, isso até uma mão espalmada surgir no vidro de repente, como se alguém estivesse do outro lado. Me sobressaltei, dando um gritinho e desviei o olhar do espelho, incapaz de raciocinar o que diabos estava acontecendo. Um segundo depois, ouvi meu nome sendo chamado ao longe. . . ! Bam! A batida novamente. No próximo instante, a voz veio mais alta e eu travei no lugar quando finalmente a reconheci. Olhei novamente para o espelho e dessa vez havia um rosto ali. Não, um reflexo completo, que não era o meu.
Do outro lado do espelho, me encarava com uma expressão frustrada no rosto, enquanto socava o vidro com força.
— … — choraminguei, finalmente tomando uma atitude. Dois passos à frente e eu o encarei de perto através do vidro.
— , eu sinto muito. Sinto muito. A culpa foi minha — murmurei baixinho, tocando o vidro no local onde sua mão estava espalhada.
me encarou com tristeza e uma lágrima escorreu por seu rosto também. Ele franziu o cenho e socou o outro lado do espelho, onde nossas mãos não estavam espalmadas. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo e em determinado momento comecei a balbuciar palavras sem parar.
— Eu te amo tanto. , por favor, me leva com você. Me deixa ir com você — choraminguei.
travou a mandíbula, como se aquilo fosse uma decisão difícil e sacudiu a cabeça, negando.
— Por quê?! — Gritei, socando o espelho com as duas mãos. A moldura tremeu e uma luz prateada surgiu ao redor, mas eu estava incapaz de me importar com mais alguma coisa que não fosse ele, que não fosse em me juntar a ele. — Deveria ser eu no seu lugar!
balançou a cabeça novamente e vi ele tentar falar novamente. De alguma forma, sua voz continuava distante.
— , não. Por favor.
— Mas eu quero! — Soquei o espelho outra vez, frustrada por ele estar me negando aquilo. — Por quê? Por que eu não posso?
— Porque eu te amo. E você deve ficar.
A imagem de tremeu de repente e eu arregalei os olhos, amedrontada que ele fosse desaparecer.
— , não. Não vá, por favor. Eu amo você — murmurei, caindo em prantos quando vi sua imagem sumir bem na minha frente. — Não! Não! Não!
Soquei o espelho com mais força, sem parar, até que ele finalmente quebrou.

***


Quatro dias depois que eu soube da morte de , a mãe dele me enviou uma mensagem sobre seu funeral.
Eu sabia que ele tinha sido cremado há dois dias e tudo o que tinha restado era uma pilha de cinzas. Também fazia quatro dias que eu estava trancada no meu quarto, ou pelo menos algo perto disso, já que escondeu todas as chaves, objetos pontiagudos e qualquer peça de vidro que eu pudesse usar para tentar me ferir, incluindo espelhos. Aparentemente, eu tinha tentado tirar minha própria na madrugada seguinte da morte de e quase consegui fazer algo dessa vez, embora não me recordasse de nada.
Eu lembrava de ver no espelho e de socar o vidro até ele se despedaçar, mas nada depois disso. me contou que acordou com meus gritos e quando estava prestes a entrar em meu quarto, ouviu o barulho do espelho se quebrando. O resultado disso foram alguns cortes superficiais nas minhas mãos, uma dor chata no braço engessado — que provavelmente ajudou a espatifar o espelho — e talvez um pequeno trauma na minha irmã, depois de conseguir me impedir a tempo, antes que eu me machucasse de verdade.
Ela estava tentando se manter firme diante da minha situação, mas, no fundo, eu sabia que minha irmã estava apavorada e fez questão de não me deixar mais sozinha em nenhum momento durante os últimos dias. Quando teve que sair para trabalhar, Andy e Kate se revezaram para ficar comigo.
Não falei com ninguém durante esses dias. Tive que ser praticamente arrastada para fora da cama para comer e tomar banho, até que comecei a fazer isso no automático após o segundo dia após meu pequeno incidente com o espelho.
No dia seguinte a ele, quando recebi a mensagem da Sra. , eu já ouvia as músicas que escreveu para nós dois sem parar, me agarrando às memórias que tínhamos feito juntos, agora sendo tudo que restava de nós. Ocasionalmente, novas lágrimas silenciosas fluíam de meus olhos e, às vezes, se transformavam em soluços no meio da noite quando eu não conseguia dormir. Era especialmente difícil agora e eu só apagava quando minha mente exausta me forçava a isso. Sempre que me ouvia chorar, acordava ao meu lado e me abraçava em silêncio até eu me acalmar.
Quando veio a mensagem da Sra. sobre o funeral, mostrei a tela do celular para minha irmã e ela me encorajou a ir e se ofereceu para me acompanhar, mas só tive coragem de fazer isso no final da tarde.
Ao chegamos ao local do funeral, parei na entrada da sala onde a mãe de estava e colocou uma mão nas minhas costas, em um apoio silencioso para que eu seguisse em frente. Por mais que o velório fosse privado, na entrada havia dezenas de flores enviadas pelos fãs de . Havia alguns rostos conhecidos ali, pessoas da equipe dele, e outros que eu não fazia ideia de quem eram.
A Sra. estava sentada em uma cadeira encostada em uma das paredes da sala, mas se levantava toda vez que alguém vinha lhe oferecer os pêsames. Caminhei hesitante até ela e notei alguns olhares curiosos ao meu redor.
e eu paramos em sua frente e eu mordi o lábio inferior com força, tentando prender o choro. Ela olhou para cima e se pôs de pé quando me viu e, em silêncio, me envolveu em seus braços. Continuamos assim por alguns minutos, sem trocar uma palavra, e choramos juntas até que ela se afastou e passou as mãos pelo meu rosto, afastando minhas lágrimas, exatamente como fazia. Então, com sua voz gentil, disse:
— Preciso conversar com você depois, meu bem.
Assenti e me afastei para que outras pessoas pudessem cumprimentá-la e fiquei em um canto atrás de um arranjo de flores, querendo ficar sozinha. se sentou ao meu lado em silêncio e segurou minha mão.
Cerca de uma hora depois, já tinha anoitecido e as visitas pareciam ter cessado por um momento quando a Sra. veio até mim.
Me levantei e juntei as mãos na frente do corpo, esperando pelo que quer que ela tivesse para falar.
— Eu vou ao banheiro enquanto vocês conversam — avisou, antes de se afastar e sumir de vista.
Ficamos somente eu e a mãe de na sala e ela suspirou, visivelmente cansada.
— Eu perdi meu único filho, ... Mas você perdeu o amor da sua vida. — Ela me encarou com carinho, mesmo com seus olhos repletos de tristeza.
Pressionei meus lábios juntos e abaixei a cabeça, até que senti ela colocar algo em minha mão. Um saquinho de veludo preto.
— Posso jurar que meu filho foi mais feliz com você nos últimos três anos do que no resto da vida dele inteira, querida — ela continuou. — Quero que saiba que sou grata a você por cada momento que o fez feliz. Me entregaram isso há uns dias, mas acho que ia querer que ficasse com você.
Olhei para ela por um instante e então voltei minha atenção para o saquinho, o abrindo e virando sobre minha mão.
A aliança de compromisso de caiu sobre minha palma com um toque gelado e eu a apertei na mão, segurando forte, enquanto um soluço escapava de mim.
— Eu sinto muito, Sra. . Sinto muito — murmurei, minha voz soando áspera pelos dias em silêncio. Então saí correndo, incapaz de passar mais um minuto que fosse ali.
Pouco depois, me vi do lado de fora do prédio e continuei correndo sem rumo, sem nem prestar atenção na direção que estava indo. O vento gelado batia em meu rosto em meio às lágrimas e pingos de água que começavam a salpicar o chão logo se misturaram a elas, mas isso também não me impediu de continuar correndo até ficar sem fôlego. Parei de correr, colocando as mãos nos joelhos e percebi que havia chegado a um parque infantil, sem ninguém à vista. Tossi sem ar algumas vezes, em meio a lágrimas e soluços.
Eu ainda segurava a aliança de em uma das mãos, mas com medo de perder, a coloquei no meu polegar direito. Àquela altura, eu já estava completamente encharcada, mas não me importei. Gotas grandes de água continuaram a cair e se acumular ao redor dos meus tornozelos, mas fiquei parada, tremendo dos pés à cabeça.
— Por que você tá chorando? — Ouvi e me virei depressa, encontrando parado a alguns metros de distância.
Meu coração acelerou de repente.
— ? — Esfreguei meus olhos para tentar enxergar melhor, mas quando olhei novamente, não havia nada.
Deixei meus ombros caírem em decepção e suspirei, cansada, achando que tinha imaginado vê-lo outra vez. Respirei fundo por um momento, pensando em ir embora, mas, quando girei o corpo, paralisei no lugar.
— Oi, amor. — sorriu, inclinando a cabeça para o lado, as duas mãos nos bolsos da calça jeans que usava.
Ele estava ali. Bem na minha frente. Mais lágrimas se acumularam em meus olhos e os esfreguei outra vez. continuava ali, me encarando com um sorriso no rosto, bem diferente de sua versão no espelho. Franzi o cenho, confusa, sem entender o que estava acontecendo. Eu estava sonhando, por acaso? Até cogitei isso por um momento, então ouvi sua voz, em alto e bom-tom, chamando meu nome.
— ? — murmurei de volta, sem saber o que fazer.
— Dance comigo, . — Ele me puxou pela mão de encontro a ele e pude jurar que senti o calor emanando de seu corpo, também encharcado pela chuva. vestia preto da cabeça aos pés e parecia tão real que comecei a acreditar que ele estava realmente ali comigo.
— .
— Escuta, amor. Eu amo o som da chuva. E se eu colocasse isso em uma música? Andei pensando nisso — ele comentou com um sorriso. — Mas agora, é hora de dançar.
E então me girou pelo meu braço livre e me puxou de volta, meio desajeitado, quase derrubando nós dois. Uma risada involuntária escapou de mim e, no momento seguinte, me vi dançando uma espécie de valsa exagerada com ele no meio da chuva, tal como tínhamos feito algumas vezes nos últimos três anos ao sermos surpreendidos no meio de um passeio sem nenhum guarda-chuva.
Às vezes, juntávamos nossos casacos para tentar barrar a água, mas, quando não dava certo, desistia e me puxava para dançar, exatamente como naquele momento. Aquelas eram algumas das minhas memórias favoritas. Com ele, a chuva não parecia tão fria, mesmo que nós dois começássemos a tremer após poucos minutos; e o guarda-chuva não fazia falta, pois tiraria a magia daqueles instantes. Viver isso outra vez me trazia uma sensação de aconchego e de pertencimento.
Senti meu coração começar a se acalmar quase que instantaneamente.
A chuva começou a diminuir, mas nós não paramos. Rimos e dançamos por mais alguns minutos até que me girou novamente e minha mão escapou da sua. O mundo ficou silencioso e eu já não ouvia mais a sua voz nem sua risada, como se tivessem sido levadas pelo vento.
Quando me virei, ele já havia ido.

***


A próxima coisa de que me lembro daquela noite foi de acordar em um hospital novamente. Já era a terceira vez que aquilo acontecia em menos de seis meses. Mas, diferente das outras, eu estava em uma enfermaria e não era que estava ao meu lado, e sim .
— ! Ai, que bom que você acordou — ela disse, meio alarmada, assim que percebeu que eu havia despertado.
Me sentei na cama e notei que havia um soro sendo injetado em mim.
— O que é isso? O que aconteceu?
— É só soro com vitaminas — ela explicou. — A médica falou que você tá desidratada. Alguém te viu dançando sozinha em um parque e disse que você desmaiou de repente, então ela te trouxe até o hospital. Ela ainda tá aqui, faz só uns cinco minutos que cheguei.
— Quem...? — Comecei a perguntar, no intuito de agradecer quem quer que fosse por não me deixar congelar na chuva, mas antes que eu pudesse fazer isso, uma pessoa apareceu.
Instantaneamente, eu a reconheci.
— Oi, — ela me cumprimentou com um sorriso, mas ele não atingiu seus olhos.
— Sujin?
Por que a Xamã que consultei estava ali?
— Você deve estar curiosa por ser justo eu, não é? Posso falar com você por um instante?
Assenti e se levantou, oferecendo a cadeira a ela antes de se afastar para nos dar privacidade.
Sujin puxou um pouco a cortina da cama e então se sentou. Imediatamente notei que ela estava usando roupas casuais, bem diferentes dos robes e chapéus enfeitados que vestia quando estava atendendo. Se bem que aquilo era até óbvio, não era como se ela fosse andar por aí vestida daquele jeito.
— Como você...? — tentei formular uma pergunta, em vão.
Felizmente, Sujin parecia entender exatamente o que eu queria saber.
— Eu tive uma... Sensação hoje. Que algo ruim poderia acontecer — ela contou. — Não sei por que, mas me vi saindo de casa e perambulando pelas ruas de Nova York sozinha, com um guarda-chuva amarelo na mão. Estava passando por um parque quando te vi dando sozinha, mas... Você não tava sozinha, né?
Meus olhos se encheram novamente e minha visão embaçou. Abaixei a cabeça e encarei a aliança de em meu polegar.
Sujin suspirou.
— Eu fiquei sabendo da sua perda e sinto muito, . Mas acho que foi ele me levou até você.
— O quê? — A encarei, surpresa.
— Não é comum, sabe? Mas às vezes acontece e então, quando menos percebo, sou levada até alguém. Hoje apenas coincidiu de você ser uma das minhas clientes. Acho que ele sabia que você ia desmaiar em algum momento e quis ter certeza de que alguém te ajudaria.
— fez isso? Você consegue ouvi-lo?
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Mas você estava em um local sem ninguém por perto e se tivesse continuado sozinha... A médica disse que isso poderia ter provocado uma hipotermia caso não fosse socorrida logo.
— Entendi — murmurei, assentindo com a cabeça. — Obrigada, Sujin.
— Agradeça a também. Ele não queria que você se machucasse.
Tentei engolir o nó que estava em minha garganta, percebendo que ele quis dizer isso através do espelho também. Então lembrei do nosso momento roubado no parque e fechei os olhos, rezando para não esquecer nunca aquela memória.
— Eu fiquei feliz por um momento, sabe? — desabafei. — De repente ele tava lá… até que não tava mais. Não entendo o que deu de errado, Sujin, sobre a maldição. Eu me afastei de pra proteger ele, pra tentar evitar mais coisas ruins de acontecerem, mas...
— Você... Se afastou? — Sujin franziu o cenho, confusa. — Foi isso que você entendeu que deveria fazer pra quebrar a maldição?
— Eu... Não deveria? — A encarei, assustada. — Eu fiz mesmo algo de errado?! morreu porque eu fiz a escolha errada?
— Ah, ... — Sujin me encarou com tristeza. — Eu sinto muito. Achei que tivesse sido clara a mensagem que me foi passada sobre a maldição, você parecia ter entendido. deveria ter sido a sua escolha. Nas outras vidas, a história se repetiu porque você continuou se afastando.
— O quê?! Você tá me dizendo... Que eu devia só ter seguido em frente com minha vida? Com ele?
— Era a determinação que vocês dois tinham juntos que quebraria a maldição. Vocês eram amigos, amantes, parceiros. O seu aborto foi um obstáculo que vocês deviam ter superado juntos. As coisas ficariam bem eventualmente, mas...
— Não. Não, não, não, não. Você tá brincando, né? Então morreu mesmo por minha causa? E eu tenho que viver sabendo disso? Sujin... Qual o sentido de viver se ele não tá mais aqui? — perguntei, com a voz embargada. — Como eu pude ser tão burra?!
— Eu sinto muito, . Talvez a maldição tenha nublado o seu entendimento e acabamos não percebendo.
— Não, não. — Sacudi a cabeça, alarmada. — Você tem certeza de que acabou? Não pode ser. A... A entidade ou o que quer que ela seja. Ela se foi. Parei de sonhar com ela e o livro. Não tem alguma forma de eu entrar em contato com ela outra vez?
— Isso não vai fazer retornar dos mortos, .
— Mas você pode, não é? Você sabe como fazer isso.
Sujin respirou fundo, como se estivesse em um dilema sobre o que responder. Então, um instante depois, voltou a falar.
— Tem uma coisa... Um ritual que posso fazer, mas não há garantia de que vá mesmo funcionar. Se não der certo, posso te dar um talismã também pra você colocar debaixo do travesseiro quando for dormir, ao menos pra te acalmar.
— Sim, sim, por favor. Faça o ritual, Sujin. Eu preciso falar com ela, ver se tem alguma coisa... Por favor, Sujin, eu pago o valor que for. Só preciso entender… porque parece que eu tô em um pesadelo do qual não consigo acordar.
— Tudo bem, mas... Eu preciso te dizer algo antes, . Se o ritual der certo e você conseguir o contato… Você tem que saber que esses seres normalmente gostam de barganhar. Você pode ter que oferecer algo em troca do que quer que queira.
— Tudo bem, isso não importa. Quando você pode fazer?
— Após a meia-noite seria o ideal. Podemos fazer amanhã se-
— Não. Vamos fazer hoje mesmo. Assim que eu sair daqui.
— Tem certeza?
— Absoluta.

Cerca de duas horas depois, quando finalmente me vi livre do hospital, tive que convencer minha irmã a me levar até o estúdio de Sujin em Korea Town.
No meio do caminho, transferi o dobro do valor que ela tinha me cobrado pelo serviço, como forma de demonstrar minha gratidão. Ela tinha ido antes para aprontar o que quer que precisasse, e embora não estivesse nada satisfeita com aquela história de ritual, resolveu me apoiar mesmo assim.
Quando chegamos, tivemos que esperar por mais uma hora até Sujin aparecer em suas vestes de xamã, arrumada da cabeça aos pés. Ela pediu para que eu a acompanhasse sozinha e então me levou até o terraço do prédio. Já não estava mais chovendo e a noite agora estava incrivelmente estrelada.
Bem ali, havia uma espécie de altar ou algo assim, com itens que eu não fazia ideia do que significava. A única coisa que eu sabia sobre xamanismo era que variava de cultura para cultura, cada uma com suas particularidades.
Resolvi confiar em Sujin e fiz exatamente o que ela pediu. Sentei sobre meus joelhos em cima de uma almofada vermelha que ela tinha posto em frente ao altar e então Sujin começou a bater em um tambor e usar um chocalho do tipo que eu só havia visto em dramas.
Ela dançou e dançou ao meu redor e juntei as duas mãos, orando para que aquilo desse certo. Eu estava desesperada, e tentaria de tudo para conseguir contato com aquela entidade mais uma vez. Eu queria uma alternativa, uma última chance de fazer as coisas darem certo. E me agarraria nisso com toda a força e determinação que eu tinha dentro de mim.
Em certo momento, Sujin começou a diminuir os movimentos de dança e eu senti meus olhos pesarem e meu corpo relaxar de uma vez, como se eu tivesse adormecido de repente.
Quando abri os olhos novamente, eu estava em um breu com apenas dois pontos brilhantes de luz, que logo percebi serem um par de olhos.
— Você veio. Demorou mais do que imaginei. — Ela se aproximou, tomando a forma de Ayla.
— Você sabia que eu viria?
— Não. Mas tinha um palpite de que você descobriria antes que fosse tarde demais. Não foi o que aconteceu, né? — Ela andou ao meu redor, com um sorrisinho debochado no rosto.
— Por favor, eu preciso desfazer isso. Se tem algum jeito de trazer de volta, eu... Eu faço o que você quiser.
— Não há como trazer os mortos de volta à vida, garota. Não seja tola. Não podemos perturbar o universo assim. E o universo não está nem um pouco feliz com você por ter repetido a mesma escolha errada mais uma vez.
— Eu não sabia! Achei que tivesse entendido!
— Eu te dei uma dica com Tenaz. Quando você perturbou a cena em que Ayla deveria se machucar, o que aconteceu? — ela perguntou.
Franzi o cenho.
— Eu... Acordei com ferimentos em mim.
— Exatamente. Porque você perturbou o universo do livro — ela explicou. — Quando descobriu sobre a maldição com aquela xamã, pensei que fosse entender, era tão simples... Você me frustra, . E eu estou mais uma vez fadada a assistir essa história se repetir em outra vida. Não gosto disso, sabe? Ver você repetir as mesmas merdas de sempre. Se afastar da pessoa que mais te amou como uma covarde. merecia mais. Ele te defendeu até o fim quando brigou com ela.
— Eu não queria... — Solucei. Eu não sabia que essa era a resposta...
Àquela altura, tudo o que eu conseguia fazer direito era chorar. Não me surpreendia estar desidratada depois de tudo.
— Ah, engula o choro. Você não veio aqui pra isso! — A entidade sibilou, fazendo meu corpo inteiro se arrepiar. — Acha que eu queria também?! Por causa de duas mulheres tolas, eu estou presa nisso há séculos!
— Então me ajude! — implorei. — Me diga o que fazer!
— Eu já te disse, não há como trazer de volta, garota. Mas...
— O quê? — perguntei, desesperada. — Tem algo, não tem?
— Há... Uma coisa. Que pode trazer benefícios para nós duas. Assim eu também posso me livrar disso. Aquela xamã barulhenta deve ter te dito algo sobre uma barganha.
— O que você quer? Eu te dou qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
— Mesmo que você tenha que trocar a sua vida pela de ? — Ela arqueou uma sobrancelha.
— Eu... Sim. Mesmo isso. Prefiro que ele viva feliz e bem do que viver sem ele.
Ela deu uma gargalhada, parecendo se divertir. Franzi o cenho, com raiva por ela estar debochando dos meus sentimentos, mas desesperada demais para dizer algo.
— Não seja idiota, não vou pedir sua vida — A entidade voltou a falar, me pegando de surpresa, seu rosto completamente sério dessa vez. — Vocês são predestinados há séculos. Acha mesmo que aquele homem conseguiria viver sem você? Ele já tentou fazer isso antes, em outras vidas. E morreu pelas próprias mãos ou pelas mãos da então esposa, como dessa vez. Você desapareceria deste mundo eventualmente também. Em todas as vezes, você colocou um fim à sua própria vida. E quis fazer isso de novo, não foi?
Engoli em seco, assustada com tudo o que ela sabia, mas não mais surpresa.
— E pensar que ele se deu ao trabalho de salvar sua vida hoje. — Ela estalou a língua em desaprovação, antes de continuar. — Eventualmente, vocês reencarnariam e outra vez se encontrariam. A história se repetiria e eu a assistiria tal qual um filme em loop, sempre torcendo por um final diferente, mesmo sabendo que não viria.
— Então me deixe mudar o final. Por favor. Por favor — implorei mais uma vez. — Eu faço o que você quiser.
Ela então andou ao meu redor em silêncio por mais um instante, com as duas mãos para trás, como se estivesse pensando a respeito.
Então parou em minha frente.
— Muito bem, então — decidiu. — De você, eu só quero uma coisa. Você deve cuidar daquele que não teve a chance de viver.
— O quê? O que isso significa?
— Talvez um dia você descubra. Ou não. — Ela deu de ombros. — Está nas suas mãos agora. Se disser sim, posso fazer algo por você uma última vez. Vou te fazer voltar para um momento crucial, mas você terá que ter em mente que, em algum momento, você vai esquecer de mim e dessa conversa. Vai esquecer de tudo o que aconteceu até agora e terá que agir com inteligência. Se der errado dessa vez, você não vai conseguir me encontrar de novo.
— Sim, sim, sim. Por favor. Eu aceito. Qualquer coisa. Por favor.
Eu não ia nem sequer pensar duas vezes. Fosse o que fosse que ela queria, eu o faria.
A entidade sorriu, satisfeita.
— Ótimo. Mantenha em mente a escolha que deve fazer, . Tente o máximo que conseguir, e aja rápido, pois eventualmente você vai esquecer. Além disso, tem só mais uma coisa.
— O quê? — eu quis saber.
— Você não deve dizer a sobre a maldição. Não que ele vá acreditar, claro. Mas talvez pense que você está louca. — Ela deu uma risadinha.
— Tudo bem, não vou contar. E agora?
— Agora... — Ela se aproximou e colocou dois dedos em minha testa. — Você deve acordar.
Seus olhos brilharam em uma luz ofuscante e tive que fechar os meus, colocando as mãos no rosto, tamanha a intensidade da luz. Instintivamente, me agachei para me proteger da luz até que então, sem mais nem menos, ela desapareceu de repente e eu estava de volta ao meu quarto, no apartamento de minha irmã.
Um segundo depois, me assustei levemente ao ouvir batidas na minha porta, e imediatamente soube quem era.

CAPÍTULO 39

Assim que abri a porta, me deparei com parado ali, com os mesmos olhos cansados e a expressão irritada que eu me lembrava da última vez.
— ...
— Não me olhe com essa cara, me deixou entrar. Ela me deu a senha da porta e vim garantir que você tá pelo menos se alimentando, porque ela disse que você não saiu do quarto.
Eu não sabia com que cara eu tinha olhado para ele, a não ser alívio. Porque era assim que eu estava me sentindo ao vê-lo ali parado na minha frente, vivo e bem. Tive que fazer um esforço gigantesco para não cair no choro e me agarrar a ele.
Eu tinha voltado no tempo, não tinha? Era a única explicação.
se virou em direção à cozinha e eu o segui em silêncio, respirando fundo para conter meu nervosismo. Me perguntei se íamos ter o mesmo diálogo de antes, mas logo descartei a possibilidade.
Aquele era meu corpo. Eu tinha o controle. Se eu realmente tinha voltado no tempo, aquela linha do tempo provavelmente seria diferente. Eu faria com que fosse. Se antes interferi na nossa história ao escolher ficar longe dele, agora seria o contrário. Eu deixaria as coisas acontecerem seguindo o que meu coração mandava.
— Eu fiz bibimbap pra você jantar — disse, tirando uma marmita quadriculada de uma sacola. Eram três andares e ele abriu um por um, revelando acompanhamentos típicos da culinária asiática. — Vem comer.
Sem hesitar, fui até ele e me sentei ao seu lado em frente ao balcão. Encarei a comida e meus olhos arderam. Quanto tempo fazia que eu não comia nada que ele havia cozinhado? Aquela tinha sido a última vez. Mas eu estava determinada a fazer com que fosse apenas mais uma, que se repetiria por muito mais tempo.
— Tá com uma cara muito boa — elogiei, ganhando um vislumbre de sorriso no canto dos seus lábios.
Comecei a comer com vontade, só então me dando conta do quão faminta eu estava. O molho apimentado provocou uma dor bem-vinda na minha boca, algo que me distrairia em vez de ficar relembrando o que tinha acontecido antes. não tinha vivenciado nada daquilo e eu não o faria sofrer mais.
E quando chegasse a hora, eu o escolheria. O escolheria quantas vezes fosse possível.
me observou comer como se fosse a coisa mais interessante do mundo e contive um sorriso. Percebendo isso, ele sorriu abertamente.
— O quê?
— Nada. — Ele deu de ombros.
— A comida tá uma delícia. Você não quer? — Ofereci uma colherada para ele, que a encarou por um instante antes de se inclinar e comer.
Sorri, satisfeita, não me contendo mais. Havia comida suficiente para duas pessoas e, mesmo que ainda fosse cedo, comemos tudo mesmo assim. Quando acabamos, me levantei para pegar duas latas de Coca Zero na geladeira e coloquei uma em frente a ele.
— Tem certeza de que você devia tomar isso? — perguntou, e eu o encarei, confusa.
— Você esqueceu uma coisa, — acrescentou ele.
Então tirou algo do bolso e colocou em cima do balcão.
Eu já sabia o que era e como ele tinha encontrado, então não me surpreendi. Decidi ser sincera e evitar uma discussão.
— , eu... Tive uma suspeita.
— E quando pretendia me contar?
— Acabei esquecendo disso, desculpa. Fiquei com a cabeça cheia. Eu tenho quase certeza de que não tô grávida. Não tô sentindo nada. Comprei só pra ter confirmar. Não queria te preocupar com isso também.
— , não importa se é uma suspeita ou não, eu tinha o direito de saber.
— Tudo bem, desculpa. — Peguei a minha lata de refrigerante com a intenção de abrir, mas ele a afastou de mim.
— Nada disso. Tenho certeza de que faz mal pro bebê.
Eu o encarei, incrédula. Tentei pegar a lata de volta, mas ele se levantou. Fui atrás, mas foi em vão.
— ! — reclamei, quando ele se esgueirou mais uma vez para o lado oposto do balcão.
— Acho melhor você tomar um suco.
Grunhi, irritada, e andei um pouco de um lado para o outro, com as mãos na cintura.
— Você fala como se o bebê realmente existisse.
— E se existir? — Ele deu a volta no balcão, parando na minha frente.
Respirei fundo uma vez, então resolvi dizer o que eu já sabia.
— ... Eu não tô grávida.
— Você não sabe disso ainda.
Por um instante, quase discuti com ele, mas me lembrei, mais uma vez, de que ele ainda não tinha vivenciado aquele momento.
— Eu...
— . — Ele me puxou para perto, me fazendo esbarrar em seu corpo. — Por que você não para de ser teimosa e volta logo pra mim?
Meu coração errou uma batida.
Talvez aquele fosse o momento.
— ... — sussurrei seu nome, mas soou mais como uma súplica.
— Eu sei que você é tão obcecada por mim quanto eu sou por você, . — Ele roçou o nariz no meu, tão próximo que se eu me inclinasse um pouquinho para frente, nossos lábios se tocariam.
Senti os olhos arderem e meu corpo clamar por ele, mas dessa vez não era porque eu sabia que tinha que me afastar, e sim porque eu estava morrendo de saudades. A proximidade era agonizante e embora para fizesse apenas alguns dias que estávamos separados, para mim eram mais de dois meses, somados à dor de lidar com sua morte, ainda fresca na memória.
— Eu te amo demais. Não posso te deixar ir — ele sussurrou, roçando os lábios nos meus, sem realmente me beijar. Ele fez isso uma, duas vezes. Na terceira, pressionei minha boca contra a dele e ele correspondeu de imediato.
Foi quase desajeitado, assim como da outra vez. Mas eu estava desesperada por seu toque e, quando encaixou nossas bocas perfeitamente e nossas línguas se entrelaçaram, tive certeza de que ele era a minha escolha mais certa, não só naquele momento, mas desde que o vi pela primeira vez, sete anos atrás, quando eu era apenas uma fã.
Eu o queria tanto… E, daquela vez, estava decidida a não me segurar.
me pressionou contra a parede ao nosso lado e, no instante seguinte, minhas pernas já estavam ao redor de sua cintura. Interrompi o beijo por falta de ar e ofeguei, com a respiração e o coração acelerados. Ele levou a boca ao meu pescoço e me beijou ali, enquanto eu me agarrava a ele como se fosse a última gota de água em um deserto. Meu corpo estava quente, e senti o calor se concentrar no centro dele, onde eu mais o queria.
— ... o quarto — consegui dizer. Embora a ideia de terminar o que começamos ali mesmo fosse tentadora, podia chegar a qualquer momento.
Sem pestanejar e ainda comigo no colo, ele entrou pela porta a um metro de onde estávamos e a fechou com o pé. Em seguida, dirigiu-se até a cama, onde me colocou com cuidado, e se afastou para tirar a jaqueta e a camisa.
Havia uma intensidade no seu olhar que provavelmente me deixaria de pernas bambas. Ainda bem que eu já estava na cama. Mas, por mais que apreciar o momento fosse bom, eu estava faminta por ele. Assim, não perdi tempo e me levantei também, livrando-me de todas as minhas roupas, uma a uma. Quando percebeu o que eu estava fazendo, continuou a se despir enquanto me encarava.
Então nos atracamos outra vez, tropeçando e caindo na cama. Rimos juntos do nosso desajeito, mas no instante seguinte, seus lábios encontraram os meus outra vez e sua mão deslizou entre nossos corpos, alcançando o meu centro úmido. deslizou um dedo em mim com facilidade, e eu sabia que ele queria ter certeza de que eu estava pronta, e a resposta era: sim, eu estava.
Aquela parte de mim estava literalmente doendo por ele.
Eu estava impaciente e morrendo de saudades. Poderíamos nos apreciar devidamente em outro momento, mas não naquele. Com isso em mente, empurrei para que se deitasse e, em seguida, subi em seu colo.
— ... — ele murmurou meu nome, um segundo antes de eu o beijar.
— Eu quero você, . Agora, depois e pra sempre — esclareci.
Deslizei meus lábios pelo seu pescoço e rocei os dentes na tatuagem que ele tinha do lado esquerdo, notando sua pele se arrepiar. De baixo de mim, sua rigidez cutucava minha barriga. Me afastei e o segurei com uma mão, guiando-o até minha entrada. Então, lentamente abaixei os quadris, envolvendo-o aos poucos enquanto sentia meu corpo se esticar e se adequar ao seu redor para recebê-lo. Suspirei com a sensação de estar completamente preenchida e apoiei as duas mãos em seu peito antes de começar a me mover para cima e para baixo.
Um gemido baixo escapou de nossos lábios em uníssono, e me segurou firmemente pelos quadris, me guiando nos movimentos.
Um instante depois, havíamos encontrado um ritmo, e eu só conseguia pensar quão magnífico era conhecermos tão bem o corpo um do outro.
O clímax me atingiu de repente, e vacilei um pouco sobre ele. aproveitou a oportunidade para inverter nossas posições e, um segundo depois, estava dentro de mim novamente. Ofeguei ao sentir aquela sensação crescendo em mim outra vez. Meus músculos se tensionaram e apertei minhas pernas ao redor de sua cintura, sentindo uma fina camada de suor se formar em nossos corpos. enfiou a mão entre nós novamente e me tocou, provocando um estímulo extra que me fez cravar as unhas em seus ombros. A tensão aumentou e, quando menos esperei, estremeci embaixo dele, um instante antes dele me acompanhar, se derramando em mim enquanto eu o abraçava com toda a força que tinha.
Estávamos ofegantes e cansados, e eu senti que estava recuperando minha felicidade aos poucos. Meus olhos arderam e eu funguei, sentindo as lágrimas que segurei mais cedo caírem.
Ao ouvir o som, se afastou e me encarou, preocupado.
— Ei, o que foi? — perguntou, suavemente. — Por que você tá chorando?
— Porque eu tô feliz — respondi, sincera. — Sinto muito por fugir e por ter magoado você. Eu não devia ter feito isso. Não queria ter feito.
se moveu para o meu lado na cama, puxando-me para que eu me aconchegasse em seu peito. Em seguida, acariciou meu rosto com uma das mãos e limpou minhas lágrimas. Então, inclinou-se, beijando meu rosto molhado.
— Tá tudo bem, amor. Vai ficar tudo bem, vamos enfrentar isso juntos.
— Eu te amo, . Muito mesmo. Não quero ficar longe de você nunca mais.
— Então não fique. — Ele sorriu. — Eu sou todo seu.
— E eu sou toda sua. — Afastei uma mecha de cabelo de sua testa, e ele segurou a minha mão, beijando a palma.
Pela primeira vez em meses, senti que finalmente estava no lugar certo.

***


chegou pouco depois das seis. e eu tínhamos acabado de tomar banho havia poucos minutos quando ouvimos a porta da frente abrir.
Saímos do quarto logo em seguida, e pareceu surpresa por ainda o encontrar ali. segurou minha mão e sorriu para ela, que entendeu tudo no mesmo instante.
— Eita, isso é o que eu tô pensando? — ela perguntou, olhando de para mim.
— Vou voltar pra casa. Desculpa te preocupar. — Encolhi os ombros, me sentindo meio desconcertada.
assentiu e andou até mim.
— Vai ficar tudo bem. Se cuida, irmã. — Ela me abraçou e se virou para . — Você também.
— Pode deixar. — Ele sorriu.
me ajudou a arrumar minhas coisas e saímos alguns minutos depois. Felizmente, eu havia voltado no tempo para um momento antes de fazer minha mudança completa, então não havia muitos pertences ali.
Quando chegamos em casa, encontrei o quarto exatamente como o tinha deixado. Se não fosse pelo cesto de roupa suja no banheiro, eu diria que nem sequer tinha entrado ali. Não era do feitio dele arrumar a cama ao se levantar, mas talvez tivesse feito isso.
Não dei muita importância. Troquei de roupa, vestindo um baby doll azul e branco, e notei que havia recolocado os sapatinhos vermelhos dentro da caixa, que agora estava em cima do móvel onde ele guardava seus acessórios.
Encarei a caixa com um misto de carinho e tristeza e me virei para sair do closet. Encontrei colocando uma pilha de lençóis na cama. Ele também havia trocado de roupa e agora estava sem camisa, vestindo apenas uma calça preta larga.
— Você lavou isso? — perguntei.
— O quê? — Ele me olhou e seguiu meu olhar até os lençóis. — Ah... os lençóis? Não.
— E o que você tava fazendo com eles?
soltou um suspiro resignado.
— Tava trazendo do quarto de hóspedes.
— Como assim? Você tava dormindo lá?
Ele assentiu, devagar.
— Por quê?
— Por que você acha, ? — Ele me encarou, a voz baixa, firme. — Você foi embora pra fugir das nossas lembranças… mas pra onde eu iria, se eu te vejo em cada canto desse apartamento?
— Você... Tava tentando me esquecer?
— Não. Eu tava tentando não pensar em você — ele confessou. — Não deu muito certo, por sinal. Passei umas noites no estúdio antes de resolver ir pro outro quarto.
— Ah… certo.
Na outra linha do tempo, mesmo quando viajamos juntos, nunca me contou isso. Não que ele tivesse que fazer isso, é claro. Estávamos separados. Eu não sabia muito bem como assimilar aquela informação sem me sentir culpada, e acho que minha expressão deixou isso óbvio, já que ele se apressou em esclarecer.
— Não tô dizendo isso pra você se sentir culpada, . Foi só o que aconteceu. Passou. Mas não pense em me deixar de novo, ou acho que vou ter que me mudar de apartamento.
Uma risada escapou de mim ao ouvi-lo, e pensei em como era dramático da parte dele dizer aquilo, embora soubesse que provavelmente faria mesmo algo do tipo. Ou reformaria o apartamento inteiro.
— Não vou sair de perto de você, eu prometo. E prometo não quebrar essa promessa — declarei. — Pensando bem, vou virar sua sombra.
riu e me puxou pela cintura.
— Vou levar isso a sério e te arrastar comigo pra todo lugar — ele brincou.
Em seguida, levantou uma das minhas mãos e a beijou enquanto me olhava nos olhos.
O encarei, completamente abobalhada, me sentindo em paz. Mas, embora soubesse que era a escolha certa, eu também sabia que isso não o isentava de correr perigo, nem a mim. O stalker ainda estava solto e, em breve, eu esqueceria de tudo o que tinha acontecido antes, então precisava dar um jeito de fazer algo a respeito antes de perder minhas lembranças, já que não fazia ideia de quanto tempo elas durariam. Seriam dias, semanas? Talvez meses, se eu tivesse sorte? De um jeito ou de outro, Jace ainda estava solto, assim como Roy, o cara que ele contratou para me atacar. Eu não sabia como ainda, mas daria um jeito neles.
Respirei fundo, absorvendo a tranquilidade que me trazia ver vivo e bem, e envolvi meus braços ao redor de sua cintura, abraçando-o apertado. Eu precisava protegê-lo da melhor forma possível, não me distanciando dessa vez, mas permanecendo ao seu lado. Jace Keller ia ver só a próxima vez que eu o encontrasse.
Nós seríamos felizes. E eu me agarraria com unhas e dentes à nova chance que me foi dada.

CAPÍTULO 40

Assim como da última vez, depois de alguns dias após me visitar no apartamento de , ele recebeu informações sobre o suposto stalker.
Roy Basset era só um bode expiatório e eu sabia disso, mas não podia falar nada enquanto ele não fosse pego. E considerando que e eu estávamos juntos novamente, era provável que Jace o mandasse me atacar mais uma vez, especialmente agora que eu tinha voltado a morar com ele.
Um dia após voltar para casa, movida pelo medo de esquecer das informações que eu tinha na minha nova linha de tempo, escrevi uma lista de coisas enquanto trabalhava, lembretes que li repetidamente no intuito de fixar aquelas informações ao menos no meu subconsciente, apenas para o caso de acontecer algo e eu esquecer de tudo repentinamente.
A primeira delas era: Roy Basset não é o stalker. Ele tem uma avó doente que está internada.
Os outros itens variavam em coisas aleatórias sobre Jace, sobre o meu próximo acidente e o que poderia acontecer com . Ele me contou sobre a apresentação em Los Angeles e prometi acompanhá-lo naquela viagem. De jeito nenhum eu o deixaria sozinho perto daquele idiota Jace, ainda mais sabendo que na linha do tempo anterior ele havia surtado bem ali.
Deixei a lista colada na minha mesa, em um local suficientemente visível para que eu pudesse consultá-la sempre. Eu estava trabalhando novamente e já havia relido a lista três vezes naquela manhã. estava trancado no estúdio, mas, na hora do meu intervalo de almoço, ele apareceu para avisar que nossa comida havia chegado. Eu ainda estava proibida de tomar refrigerante por causa da minha suposta gravidez, então não me surpreendi quando ele tirou uma jarra de suco de laranja da geladeira. Tínhamos voltado para nossa dinâmica e rotinas habituais, e ele agia como se nada tivesse acontecido.
— Vou fazer o teste hoje — anunciei, enquanto comíamos. — Mas tô te falando, eu não tô grávida.
— Vamos ver, então. — Ele deu de ombros.
Quase parecia que estava me desafiando. Mas eu sabia que o teste seria negativo porque já tinha feito ele antes. Só que mesmo sabendo disso, quando entrei no banheiro com ele em mãos, logo após o almoço, não deixei de me sentir um pouquinho nervosa.
ficou esperando do lado de fora e parecia um pouco ansioso também. Quando terminei, coloquei o teste de volta na caixa e o deixei entrar. Esperamos o tempo do resultado e, quando isso aconteceu, fui puxando lentamente o teste da caixa até o visor estar completamente descoberto.
Como eu esperava, havia apenas uma linha, e ainda assim senti uma pontada de decepção. Aparentemente, também, já que suspirou, pegou o teste e o jogou no lixo.
— Viu? Eu disse que não tava grávida — falei, bem humorada, mas ele nem mesmo sorriu.
— É, você disse.
— Você tá decepcionado? — Segurei o rosto dele com uma mão. se inclinou ao toque e beijou a palma da minha mão.
— Não, só... desiludido, eu acho. Já tinha pensado em um zilhão de coisas pra fazer caso você estivesse grávida.
— Ah... Mas é melhor assim, né? Você vai lançar um álbum em breve. O público não precisa de uma fofoca dessas.
— É, talvez.
não parecia acreditar nisso, mas imaginei que ele não queria prolongar o assunto. Da última vez que engravidei, não foi planejado. Eu fiquei muito ansiosa quando descobri, mas, no fundo, sabia que ficaria feliz. Tínhamos conversado apenas uma vez sobre filhos e ele deixou claro que gostaria de ter ao menos um, mas que a escolha seria sempre minha, já que o corpo era meu. E se não tivéssemos nenhum, tudo bem também.
Aquilo tinha acontecido há mais de um ano e não tínhamos tocado no assunto desde então, mas acho que o aborto mexeu com e talvez comigo também, embora agora eu soubesse — e aceitasse — que perder o bebê não fora minha culpa.
Alguns minutos depois, me arrastou até o estúdio, ansioso para me mostrar algo. Eu nem mesmo hesitei, embora já tivesse ouvido seu álbum novo inteiro antes, na outra linha de tempo. No entanto, assim que pensei nisso, percebi que a única música de que me lembrava com clareza era "Red Shoes". Franzi o cenho, assimilando aos poucos a constatação da minha memória falha. Não que fosse algo extremamente importante, mas eu havia ouvido o álbum dezenas de vezes na semana de sua morte, em um esforço desesperado para me agarrar a alguma coisa. Além disso, a cena dele aparecendo para mim e me puxando para dançar ainda estava fresca na minha mente. Era doloroso lembrar daquilo e só de pensar nisso, eu já me sentia ansiosa e com vontade de chorar.
Felizmente, me distraiu quando os primeiros acordes de “Red Shoes” começaram a tocar. Sorri para ele, sentindo os olhos arderem e a visão embaçar instantaneamente enquanto eu ouvia a música. entrelaçou nossas mãos e sorriu com carinho. Seus olhos também brilhavam com emoção, e quando minhas lágrimas começaram a cair, ele se juntou a mim. “Red Shoes” era, ao mesmo tempo, triste e reconfortante, mas ouvi-la daquela forma, ao lado dele, me trazia uma sensação diferente. me puxou para um abraço e, mesmo quando a música acabou, continuamos assim, chorando em silêncio. Havia algo de reconfortante em fazer aquilo com ele, em dividir aquela dor.
— Você podia ter me contado antes, sabe? Sobre o aborto — murmurei, afastando-me para encará-lo, ainda abraçada a ele. — Você lidou com isso sozinho enquanto eu era a maluca que tinha acabado de descobrir que namorava seu cantor favorito.
— Eu não podia te sobrecarregar. Você lembrou de uma parte da noite em que nos conhecemos e desmaiou por uns segundos. Você sabe que eu não podia contar, .
Suspirei, desanimada.
— Me sinto mal por você ter descoberto assim. Eu queria fazer uma surpresa.
— Eu sei. Mas vou guardar aqueles sapatinhos com carinho. Podemos ter perdido um bebê, mas não quero esquecer que, por um tempo, ele esteve lá.
— Talvez não fosse pra ser — comentei, lembrando da maldição.
assentiu.
— Talvez não fosse o momento, assim como hoje.
Enterrei o rosto no seu pescoço e respirei fundo, sentindo o cheiro do seu perfume. Senti um nó se formar na minha garganta e o abracei um pouquinho mais forte. Se havia uma memória que eu gostaria de esquecer, era a de quando descobri que ele não estava mais aqui e os dias que se seguiram depois.
— Obrigada pela música, . É reconfortante, espero que seja assim pra você também.
— Agora é — ele admitiu, esfregando minhas costas suavemente.
— Vai ficar tudo bem agora. Nós vamos ficar bem, vou garantir isso — prometi.
— Vamos sim, amor.

***


— Quer dizer que sua mãe vai dar uma festa à fantasia? — perguntei, alguns dias depois.
Eu estava me arrumando para ir ao trabalho, agora que tinha resolvido voltar a trabalhar presencialmente, e tinha acabado de receber uma ligação da mãe, confirmando nossa presença.
— Preciso comprar um presente. Você pode ir comigo?
— Que tal amanhã? O aniversário dela já é na sexta, a gente devia ter ido antes — comentei, incomodada.
Era igual da outra vez, a gente fazendo as coisas em cima da hora. O que significava que alguma coisa também se aproximava. Mas o quê? Tentei lembrar se havia alguma data importante após o aniversário da mãe dele, mas nada. Tinha a impressão de ter anotado algo em uma lista, mas revirei o celular, o tablet, minha mesa e não encontrei nada.
O que eu estava esquecendo?
Será que eu havia sonhado com aquilo?
Se bem que, ultimamente, eu não vinha sonhando com mais nada de que eu me lembrasse depois. Nem mesmo com Tenaz. Depois que voltei para casa com , tudo parou. Achei uma pena, porque eu queria presenciar Cora , a mãe de Ayla, prendendo James Nam, o pai de Dean. Além de todo o resto do romance, é claro. E o casamento de Tiana! Parecia tão real...
— A gente pode comprar algo que ela goste e viajar na quinta. Vou comprar as passagens hoje mesmo — disse, interrompendo meu devaneio.
— Sua mãe gosta de bolsas — comentei, enquanto passava o batom. — Vou dar uma pesquisada na internet e depois a gente pode ir comprar em algum shopping.
— Sim. Ah, já ia esquecendo de falar, contratei dois guarda-costas pra você.
— O quê? — Me virei para ele. Aquela informação era nova para mim, mas, ao mesmo tempo, era como se não fosse. Eu não tinha ideia do porquê.
— Por causa daquele garoto. Ele te atropelou uma vez, . E se ele for atrás de você de novo?
— Se ele vier, espero que esteja a pé pra eu poder dar um chute nas bolas dele. — Levantei uma perna, mostrando exatamente como faria, e riu, divertido.
— Você tá rindo, mas sabe que eu faria isso mesmo.
— Ah, eu tenho certeza. Mas vou te poupar desse trabalho e deixar isso pra Carter e Louis.
Dei de ombros, não me importando muito.
— Peça pra que eles sejam discretos. Mas eu gostaria de ao menos saber quem são.
— Eu tenho fotos, vou te mostrar.

***


Conheci Carter e Louis brevemente na fila da cafeteria onde eu costumava passar antes do trabalho. Eram enormes e tinham uma aparência meio intimidadora, mas foram bastante gentis. Querendo ou não, era um alívio saber que eles estariam por perto, caso eu precisasse. Pelo menos, enquanto eu estivesse fora de casa.
No edifício onde morávamos, a segurança era pesada e não costumávamos receber ninguém estranho. Na verdade, as únicas pessoas que tinham passe livre para entrar eram Kate, Andrew e . Mesmo assim, ninguém nunca aparecia sem avisar. Até os entregadores tinham um acesso controlado e sempre tínhamos que confirmar que estávamos esperando alguma entrega.
Embora trabalhasse a maior parte do tempo em casa, não gostava de trazer colegas de trabalho para seu lar. Ele era o oposto de mim, mas eu sabia que a amizade que eu havia desenvolvido com Kate e Andy não se comparava nem um pouquinho com o relacionamento estritamente profissional que mantinha com sua equipe. Ele saía com Jace e o restante do pessoal às vezes, mas eles nunca visitaram nossa casa. Por causa disso, foram raras as vezes que encontrei algum um deles.
Não que eu estivesse reclamando, é claro. Especialmente sobre o idiota do Jace Keller. Eu não queria aquele cara na minha casa de jeito nenhum, principalmente quando descobri que ele nem estava fazendo seu trabalho direito como gerente de . E minha antipatia por ele piorou mais ainda quando me contou o que ele tinha dito no telefone sobre mim e o nosso término. Babaca. Mas eu também só soube disso quando me disse que queria trocar de gerente após o lançamento do álbum. Deduzi que aquela não tinha sido a única vez que Jace tinha falado alguma besteira sem pensar, disfarçada de brincadeira.
— Não me sinto confortável trabalhando com alguém que menospreza a minha mulher — comentou.
Tínhamos acabado de almoçar e estávamos a caminho de um shopping, em busca de um presente para a mãe dele.
— Eu teria demitido ele desde quando ele te negligenciou com a história do stalker. Você aguentou muito e ainda foi simpático.
riu pelo nariz.
— Bem, agora minha simpatia se esgotou. Vou pra LA no sábado pra resolver isso e volto no domingo.
— Quer que eu vá junto?
— Não, vai ser muito cansativo pra você. Além disso, você vai pra comigo na próxima semana.
— Tudo bem — assenti, sem discutir.
Não tinha muito o que fazer lá mesmo. E eu ainda teria que trabalhar na segunda.

Quando chegamos no estacionamento do shopping, me senti um pouco ansiosa antes de sair do carro.
— Tá tudo bem? — quis saber.
— Sim, é só que... Eu não vou a um shopping desde o acidente.
— Quer tentar outro lugar?
— Não, eu tô bem. Vamos. — Saí do carro, ainda um pouco ansiosa, mas isso amenizou quando segurou minha mão.
Ele não se preocupou em usar um disfarce naquele dia. Usou apenas um boné preto, sem máscara ou óculos escuros e fomos parados cerca de três vezes por fãs pedindo autógrafos e fotos até finalmente chegarmos à loja. Não demoramos muito; saímos de lá depois que cada um comprou uma bolsa para a mãe dele — insistiu que eu não precisava, mas eu quis mesmo assim — e paramos em um quiosque para comprar gelato.
Fui gulosa e peguei um tamanho grande, que era maior do que eu pensava. Quando cheguei à metade, já não queria mais e fiquei enrolando até revirar os olhos e pegar o gelato da minha mão para terminar de comer. Sorri quando ele fez isso e enrosquei o braço no dele, enquanto caminhávamos até a saída. Tive a impressão de que estávamos sendo seguidos e, quando olhei para trás, não muito longe de nós, estavam Carter e Louis, andando lado a lado.
— Seus guarda-costas são bem legais — comentei com . — Embora Carter seja mais fechado e tenha aquela cara de assustador. Onde você encontrou eles?
— Eles costumam me acompanhar em turnê, mas quando tô aqui eu dou uma folga a eles, já que mal saio de casa. A não ser que tenha algum evento que exija proteção.
— Tipo a apresentação de Los Angeles?
— É, tipo isso. — Ele deu de ombros.
Passamos em frente a uma joalheria e parou de repente.
— O que foi? Achou alguma coisa legal? — perguntei. Não era raro ele comprar acessórios. adorava correntes discretas e anéis, embora só os usasse quando ia se apresentar, com exceção da nossa aliança.
— Olha só. Ficaria lindo no seu dedo. — Ele apontou para a imagem de um anel de platina com uma pedra azul-clara e pequenos diamantes ao redor.
Era lindo.
— Eu já tenho uma aliança. Não preciso disso.
— E se eu quiser te dar? — Ele me encarou. — Você vai negar?
— Por que isso de repente? — Eu ri. — Se eu aparecer com um anel desses, as pessoas vão pensar que noivamos.
— Então vamos comprar alianças novas e trocar de dedo, assim elas vão pensar que casamos.
— Ei, eu gosto da nossa aliança atual. Tenho apego emocional a ela. Por que você quer trocar?
— Não sei. Acho que queria algo que marcasse o nosso recomeço ou algo assim. Podemos usar as antigas como colares. Eu fico com a sua e você com a minha — ele sugeriu.
Não sei por que, mas a ideia de ficar com a aliança de me trouxe um aperto no coração. Não fazia sentido, mas mesmo assim fiquei relutante.
— Tem certeza? Acho que você nem devia gastar dinheiro com isso.
Ele suspirou, rolando os olhos de forma dramática.
— Tudo bem, você venceu. É só um item material mesmo, o que importa é você estar comigo.
Sorri, satisfeita, e voltamos a andar.
— Faça uma doação com esse dinheiro. Você pode encontrar uma boa causa ao invés de comprar anéis novos.
— Eu vou. — Ele sorriu, meio tímido. — Planejo doar a monetização do vídeo de “Red Shoes” pra um orfanato aqui na cidade. Nenhuma daquelas crianças pediu pra vir ao mundo, e não tiveram nem a chance de ter pais, já que foram abandonadas.
— É uma pena. Mas tenho certeza de que uma doação vai ser bom pra elas. Isso me deixa mais feliz do que alianças novas.
riu baixinho e se inclinou, me dando um beijo no rosto.
— Eu ainda vou te convencer, não se preocupe.
— Tente na semana que vem de novo. Quem sabe um dia você consegue — brinquei.
— Ou quando você tiver bêbada no aniversário da minha mãe. Assim é mais fácil.
Foi minha vez de rir, mas no fundo eu sabia que ele tinha razão. Eu teria que manter a mente de ferro ou conseguiria me convencer a casar com ele no dia seguinte àquele aniversário. E como eu tinha prometido não quebrar mais nenhuma promessa, não teria escapatória. Seria sim ou sim.
Mas a ideia até parecia divertida.

CAPÍTULO 41

No dia da viagem para o aniversário da Sra. , consegui sair um pouco mais cedo do trabalho para tomar um banho rápido em casa antes de pegarmos um táxi até o aeroporto. O trajeto foi tranquilo e passei a maior parte do tempo tagarelando com sobre o novo livro de Kate.
— Lembra daquele drama que a gente viu, Taxi Driver? O Sean meio que tem o temperamento daquele cara, só que mais bem-humorado. Acho que Kim Do Ki é uma mistura dos irmãos Lee, meio taciturno como o Yeong, mas com o pavio curto como o Sean...
ouvia tudo atentamente e concordava com a cabeça de vez em quando. Às vezes, o taxista puxava assunto com nós também. Quando enfim chegamos ao aeroporto, saí do táxi primeiro enquanto colocava uma máscara preta, da mesma cor do boné que usava.
Ainda tínhamos algum tempo até o voo, então ficamos fazendo hora e comprei café pra nós dois.
— Você confirmou o horário com a sua mãe? — perguntei, fazendo barulho com o canudo em seguida, só para garantir que tinha tomado tudo. Eu amava café com leite gelado.
— Sim. Ela disse que ia esperar a gente acordada. — respondeu distraidamente, tirando a tampa do copo para pegar um cubo de gelo que estalou assim que ele o mordeu.
— Ela deve andar bem ocupada com os preparativos da festa. Mas adorei ser à fantasia. Sempre quis me vestir de Anastasia.
abriu um sorrisinho arteiro.
— Eu devia ir de Dimitri só pra combinar com você.
— Nada disso, você vai ficar um ótimo Clark Kent gostosão. E depois da festa, vou revelar sua identidade. — Fiz um movimento com as mãos em frente ao peito dele, fingindo abrir uma camisa imaginária.
— Só se eu puder tirar o seu vestido também... — ele murmurou no meu ouvido, me fazendo rir.
— Vou pensar no seu caso.

No avião, assim que tivemos um momento de privacidade, finalmente tirou a máscara e o boné. O voo até Nova Orleans levaria cerca de três horas e mais alguns minutos de táxi até a casa da mãe dele.
Peguei meu tablet e conectei nossos fones bluetooth para assistirmos os episódios novos de um drama em lançamento que havíamos começado naquela semana. Se chamava Uma Advogada Extraordinária e contava a história de uma advogada autista em seu primeiro emprego em um grande escritório de advocacia. Era doce e envolvente, com diferentes casos judiciais a cada semana.
Dois episódios depois, me recostei no ombro de e ficamos conversando baixinho.
— Minha mãe disse que meus primos Percy e Wanda estão hospedados lá — ele comentou de repente.
— Percy e Wanda? Você nunca me falou deles.
— Não tem muito o que falar. Eu passo a maior parte do tempo fingindo que eles não existem.
— Quanto amor... — brinquei. — Qual o motivo?
— Eles faziam bullying comigo.
Me afastei no mesmo instante para encará-lo.
— Como é?
riu pelo nariz, como se a informação tivesse alguma graça, mas seu olhar dizia o contrário.
— Isso durou até uns anos atrás, antes de eu te conhecer. Eu já tinha estreado como cantor, mas eles não levavam isso a sério. Na verdade, acho que todo mundo achava que não ia dar certo. Ninguém entendia por que eu tinha escolhido seguir carreira na música.
— Que idiotas. Mas olha onde você tá agora. Pode esfregar seu sucesso na cara daqueles dois.
No mesmo instante em que eu disse isso, tive uma sensação de déjà vu.
— Ah, não. A família deles é bem rica e influente na Inglaterra. Eles debocham porque são arrogantes. Não importa se eu tô ganhando dinheiro com isso ou não. Meu estilo de música definitivamente não é o que eles apreciam, principalmente as letras.
— Por que são sexy pra cacete? — brinquei. — Só sei que eu nunca vou deixar de gostar, ainda mais com essa voz maravilhosa que você tem. — Segurei o rosto dele e dei um beijo em sua bochecha.
riu, divertido, e devolveu um beijo na minha.
— Bom saber disso.
— Se eles insinuarem qualquer coisa sobre você, deixa que eu respondo.
— Faz uns anos que não os vejo. A última vez foi um ano antes de te conhecer. Nem sei como eles tão agora. Não acompanho ninguém nas redes sociais.
— Que bom que você arrumou uma namorada meio maluca então. Como aqueles idiotas ousam fazer bullying com você? Um bolinho de arroz desse? — Apertei as bochechas dele, o fazendo rir. — Eles vão ver só uma coisa...
Cerca de uma hora e meia depois, finalmente chegamos à casa da Sra. . Ela nos recebeu como sempre: com um sorriso brilhante e um abraço apertado.
Depois disso, e eu fomos direto para o quarto. Troquei de roupa, vestindo uma camisola azul-marinho, enquanto ele ia ao banheiro. Um momento depois, ouvi um gemido de reclamação, um "ah, não", vindo de trás de mim.
Me virei e encontrei me encarando com uma careta.
— O que foi? — perguntei, sem entender. — Esqueceu alguma coisa? Sua escova de dente?
— Não. É só você decidindo usar essa camisola.
— O que tem ela? — Dei uma risada, olhando para meu próprio corpo.
— Sério, ? Você sabe que é a minha favorita. Não vem se fazer de inocente agora. — Ele revirou os olhos. — Se a gente não tivesse cansado, eu não ia conseguir manter minhas mãos longe de você.
— E quem disse que você precisa? — provoquei. — Eu ainda pretendo te fazer de travesseiro gigante.
sorriu e veio até mim, me abraçando pela cintura e me tirando do chão por um instante para me beijar.
— Vamos logo pra cama antes que eu desista de ser seu travesseiro, então. Essa viagem me deixou morrendo de sono.
Eu que o diga. Eu gostava de conhecer novos lugares e viajar, mas o percurso da viagem era bem cansativo para mim, fosse de carro ou avião.
Assim, nos deitamos e nem demorou muito até cairmos no sono.

***


Acordei toda enrolada em . Minha cabeça estava em seu ombro e eu tinha uma perna e um braço em cima dele, que tinha uma mão repousando na minha coxa.
Ele ainda estava dormindo profundamente e eu o observei por alguns minutos, uma vez que minha visão se habituou à escuridão do quarto. Acho que caí no sono de novo, porque o que lembro depois foi de abrir os olhos quando tentou se levantar, enquanto eu rolava para o outro lado da cama, deitando de bruços.
— , acorda... — Ouvi ele me chamar depois de... Eu não tinha ideia de que horas eram. — Vem tomar café da manhã comigo. — Ele pôs a mão no meu braço e depositou um beijo entre as minhas omoplatas.
— Hm... Que horas são? — consegui resmungar, sem forças para abrir os olhos.
— Umas oito e pouquinho. Vem, a gente tá sem comer desde o lanche no avião.
Rolei para o lado, finalmente abrindo os olhos, e encarei o teto por alguns segundos antes de voltar a atenção para e estender um braço para que ele me ajudasse a levantar.
Peguei uma roupa na mala e, em seguida, fui até o banheiro para recuperar minha dignidade e me tornar apresentável outra vez após um rápido banho quente.
Quando chegamos à sala, a mãe dele nos cumprimentou junto de uma de suas irmãs, mas estavam de saída para resolver algo sobre a festa. Viramos em direção à cozinha, onde havia mais duas pessoas.
Uma mulher mais magra, que parecia estranhamente familiar, estava fazendo algo no liquidificador e um cara meio calvo, com uma barriguinha de cerveja, enchia uma xícara de café.
Bastou olhar uma vez para para perceber que aqueles eram Percy e Wanda.
— ! E aí! — O cara veio em direção a ele, dando uns tapinhas em seu ombro. — Como você tá?
— Bem, e você, Percy? — devolveu, por educação, se afastando discretamente de seu toque.
— Ótimo, na verdade. — Ele se virou para mim, em seguida. — E você... Deve ser .
— Isso mesmo. — Sorri, simpática, e trocamos um aperto de mão.
— Eu sou Percy. Minha tia falou muito sobre você. Vocês formam um belo casal — ele elogiou, voltando-se para mais uma vez. — Mas você anda malhando, ? Olha esses braços. Ainda bem que sua namorada te conheceu depois da puberdade. Esse cara aqui era só pele e osso — disse para mim, enquanto ria.
— Você devia se exercitar também, Percy — comentou Wanda, chegando ao nosso lado. — Oi, sou Wanda. Irmã do Percy.
— Oi, Wanda. — Sorri educadamente e me voltei para Percy. — Eu tenho certeza de que teria ficado caidinha por , mesmo na adolescência.
— Que nada — Percy debochou.
— Que isso, olha só pra essa carinha de neném. — Apertei as bochechas de com uma mão. — Eu ia ficar caidinha.
— Ah, claro. Ele sempre foi bonito. Mas era o esquisitão excluído e nem conseguia fazer amigos. Mas agora mudou, né, ? — Ele colocou uma mão no ombro dele novamente e se afastou novamente, dessa vez sem disfarçar seu desconforto.
— Pois é, tá no passado, Percy.
— Se bem que sua mãe me disse que você ainda não tem muitos amigos, mesmo agora — continuou ele. Que cara chato. — O que é estranho, já que você tem tipo, um milhão de fãs.
— não é esquisito, Percy — falei firme, disfarçando com um sorriso. Senti a mão de na minha cintura. Ele já tinha percebido que eu tinha me irritado. — Mas me conta, você é o irmão caçula da senhora ?
— Irmão? Não, sou sobrinho dela. Sou um ano mais velho que . — Ele sorriu.
— Só isso? — Abri a boca em choque. — Pela sua cara, achei que você uns dez anos mais velho. Acho que você também não é muito fã de exercícios, né?
O sorriso de Percy murchou na mesma hora e ele pigarreou. Ao nosso lado, Wanda, que até então só observava, riu.
— Tá vendo, Percy? Largue a cerveja e abrace o suco verde. É o que eu sempre digo. — Ela levantou o copo enorme de gororoba verde que quase me deu ânsia só de ver.
— Prefiro fazer caminhadas, dizem que faz bem ao coração — Percy declarou. — Além disso, a empresa ocupa muito do meu tempo.
— Que nada. Quem quer, dá seus pulos — retruquei. — é super ocupado também e mesmo quando tá em turnê, dá um jeito de se exercitar.
— E vocês dois se exercitam juntos quando você tá em casa, ? — Wanda perguntou.
— Isso aí — respondeu. — Cinco vezes na semana. vai pra academia sozinha quando tô em turnê também.
— Que legal. Eu me exercito todos os dias, como três refeições diárias e, em alguns dias da semana, só consumo sucos caseiros com frango. São nutricionalmente eficazes para mim.
— Incrível, você deve ter muita disposição — comentei. — Mas não sou muito fã desses sucos. Eu malho pra comer.
— Deu pra notar. — Wanda me encarou de cima a baixo. — Quanto você usa de calça? Um quarenta e quatro?
— Trinta e oito, por incrível que pareça. — Sorri, ainda fingindo simpatia. — Mas prefiro comprar tamanho quarenta pra não apertar na bunda, sabe como é...
— Na verdade, não sei, não. Nunca passei de um tamanho trinta e quatro.
— E você tá orgulhosa disso? — perguntei sem pensar.
Wanda riu pelo nariz e me encarou de cima a baixo outra vez.
— Não acho que eu teria uma... bunda desse tamanho nem se eu comesse toda a comida do mundo. Mas tenho sorte que a minha genética impede que isso aconteça.
Sorte? Aquela vaca tinha acabado de me chamar de gorda?
Tudo bem que eu praticamente tinha feito o mesmo com o irmão dela, mas ele estava insultando meu namorado.
— Ainda bem que tenho sorte de ter um namorado bonitão que prefere essa versão de mim. — Encarei , que sorriu com malícia.
— Ah, com certeza. — Ele deu um tapa na minha bunda, me pegando de surpresa.
— ! Não na frente da sua família — cochichei, alto o suficiente para que Wanda também ouvisse. Ele deu uma risadinha e me beijou no rosto, antes de me afastar para fazer seu prato. Wanda tinha uma expressão de nojo no rosto, e sorri para ela mais uma vez.
— Eu costumava ser bem magra, sabe? Mas prefiro essa versão atual de mim mesma — acrescentei, antes de me afastar.
Felizmente, aquela conversa não se estendeu.

***


de Clark Kent era uma delicinha.
Precisei me esforçar para desviar o olhar dele algumas vezes durante a noite, porque ele parecia mais bonito que o normal. Felizmente, acabei me distraindo dançando e tomando drinks com a Sra. e suas irmãs, o que me impediu de arrastar até o quarto e desistir da festa.
Ele ficou sentado numa mesa atrás de um arbusto e eu sabia que estava evitando muito contato social depois de falar com dezenas de pessoas, desde parentes a amigos de sua mãe. Depois de um tempo, dei uma corridinha animada até ele e me sentei em seu colo, dando um beijinho em sua bochecha que o fez rir.
Eu estava beeeem alegre depois de uns drinks.
— Você não vai dançar comigo? — perguntei, ajeitando uma mecha de cabelo dele. Estava maior, de um jeito que o deixava sexy. Tipo aqueles caras que você já acha bonito, mas aí ele aparece com algo diferente que você não sabe o que é, até perceber que era só um corte ou penteado diferente.
— Que tal a gente ir beber um pouco de água primeiro? — ele sugeriu.
— Tem razão. Aí vamos pegar mais uns drinks. Quanto você bebeu?
— Umas duas doses de whisky.
— Você precisa experimentar uns drinks então. Aquele barman é ótimo — comentei.
— Ótimo, é? — Ele arqueou uma sobrancelha.
— Ele faz umas bebidas legais. Falei que ia voltar com meu namorado. — Pisquei para ele, que estreitou os olhos para mim.
com ciúmes de pessoas aleatórias era uma gracinha.
Depois de um pouco de água, arrastei ele de volta ao quiosque de bebidas e tomamos dois drinks cada antes de irmos para a pista de dança. Ele não era do tipo que dançava, a menos que estivéssemos sozinhos, mas acho que o álcool o tinha animado o suficiente para se soltar.
De repente, me girou e eu tive outro déjà vu.
Eu estava em um parque, dançando com ele na chuva, mas quando eu virava ele não estava mais lá. Aquilo me deu um susto, mas quando me dei conta, estava me puxando de volta de encontro a seu peito, rindo e me balançando de um lado para o outro numa versão improvisada e nada a ver com a coreografia original de “The Time of My Life” de Dirty Dancing, que tocava naquele momento.
Sua risada me contagiou e logo esqueci o que estava pensando. A música encerrou e eu passei meus braços ao redor de seu pescoço, puxando-o para um beijo suave.
Cantamos “Feliz Aniversário” para a mãe dele com os convidados alguns minutos depois e, mesmo bêbada, não deixei de aproveitar a oportunidade de encher dois pratos com salgados e docinhos, além do bolo de chocolate delicioso que a Sra. havia encomendado. Me senti no céu e eu nem me lembrava da última vez que tinha comido tanto assim.
Em nossa própria bolha, e eu começamos uma degustação dos docinhos da festa como se fôssemos especialistas naquilo. De longe, avistei Wanda em sua fantasia de Tinker Bell olhando para nós com espanto enquanto nos enchíamos de comida e, quando eu disse a , ele deu uma risada alta, jogando a cabeça para trás.
Meia hora mais tarde, nos despedimos da mãe dele e subimos para o quarto.
Tirei os sapatos, grata pelo alívio que senti nos meus pés após horas dançando, e comecei a desfazer meu cabelo, que estava no estilo de Anastasia, combinando com seu vestido azul-marinho brilhante.
se livrou das próprias roupas rapidamente, ficando apenas de cueca, e pedi ajuda com o vestido quando o zíper emperrou. Logo ele caiu aos meus pés como um mar brilhante, e eu fiquei só de calcinha.
Me virei para , com uma mão em seu peito.
— Banho?
— Que tal depois? — Ele sugeriu e me jogou na cama, vindo para cima de mim como um predador atrás de sua presa. Eu ri alto, achando aquilo engraçado e quando ele chegou perto o suficiente, usei minhas pernas para jogá-lo para o lado, invertendo nossas posições.
— Quem disse que você tá no comando, gatinho? — Dei um beijo em seu pescoço, bem onde a tatuagem começava.
— Que mandona... Quer que eu fique de joelhos por você? — Ofereceu, suas mãos passeando lentamente pelo meu corpo, parando em meus seios.
— Que tentador... Mas não, quero brincar um pouquinho com você antes. — Deslizei minha mão até sua cueca, puxando seu membro para fora.
— ...
— O quê? Gostaria de alguma coisa, Sr. ? Aproveita que hoje eu tô boazinha — brinquei, movimentando a mão em seu comprimento.
— Sua boca — ele falou, sem pestanejar. — E depois quero enfiar a cara no meio das suas pernas.
— Que generoso... — Sorri. — Algumas palavrinhas mágicas?
— Vai logo, gostosa. — Ele deu um tapa na minha bunda, me fazendo rir.
Não eram as palavras que eu estava esperando, mas funcionou mesmo assim. O tomei com a boca no momento seguinte e fiquei satisfeita com os suspiros que arranquei dele. colocou uma mão no meu cabelo e o agarrou, mas não puxou nem tentou controlar meus movimentos. No entanto, quando foi demais para ele, ele me fez parar.
— Eu não acabei ainda — reclamei.
— Eu sei, mas quero prolongar — esclareceu, levantando-se rapidamente para se livrar de sua cueca e então da minha calcinha, que logo foi parar em algum lugar qualquer do quarto.
Lá fora, no jardim, a música estava alta o suficiente para que ninguém nos ouvisse. se inclinou sobre mim e me beijou por um instante antes de descer com a boca até meus seios, dedicando-se um pouco ali, enquanto uma de suas mãos seguia até o meio das minhas pernas. Não durou muito, no entanto. Quando senti o calor em meu corpo começar a crescer, ele se afastou e substituiu a mão pela boca entre minhas pernas. Involuntariamente, tentei me encolher, mas segurou firme em meus joelhos, me deixando completamente a sua mercê.
Me derramei em sua boca pouco depois e senti minhas pernas virarem gelatina, cada parte do meu corpo parecendo mais sensível que o normal. deu uma risadinha vitoriosa e se posicionou contra mim, aproveitando a onda de sensibilidade que ele sabia que havia provocado. Não havia outra pessoa no mundo que conhecesse meu corpo tão bem quanto ele.
Ele deslizou para dentro de mim de uma vez só e dei boas-vindas à pressão entre nossos corpos.
Já tínhamos feito aquilo centenas de vezes, mas sempre parecia diferente, mesmo com toda a familiaridade que tínhamos. Nossos corpos se movimentaram em sincronia e senti minha respiração falhar algumas vezes até que, enfim, viemos juntos.
beijou meu pescoço algumas vezes, sua respiração também ofegante, e um sorriso se formou em meu rosto. Ele saiu de mim um instante depois e passamos alguns minutos enrolando na cama até finalmente seguirmos para tomar um banho.
A ideia inicial era apenas tomar banho, mas no fim não foi só isso que aconteceu.
Quando dei por mim, eu estava com as mãos apoiadas na parede do banheiro enquanto me penetrava por trás. Pelo visto, a quantidade de açúcar que tínhamos comigo havíamos nos dado alguma energia.
Nada como um pouco de cardio para fazer bem ao coração.
Depois que acabamos o banho — um banho de verdade, dessa vez — nos vestimos e fomos direto para a cama.
Senti meus músculos doerem de um jeito bom, e a cama macia de foi um alívio. Assim como quando me aconcheguei ao meu travesseiro gigante favorito, vulgo ele.
Caí no sono alguns minutos depois, me sentindo feliz e tranquila como nunca.
tinha esse efeito em mim.

CAPÍTULO 42

Cerca de vinte e quatro horas depois da última vez que vi , entrei em casa e a encontrei na cozinha com uma pilha de kimbap do lado e enrolando mais um.
— Oi. — Ela sorriu, bem-humorada. — Como foi a viagem?
— Tranquila, mas um pouco longa. — Deixei a mala para trás e fui até ela. — Eu tava doido pra chegar em casa.
— Ah, é? E por que a pressa?
— Porque você tá aqui. — A abracei por trás, dando um beijo em seu pescoço.
colocou o último rolinho de kimbap na pilha e se virou para mim.
— E como foi lá?
— Bem. Poderia ter sido resolvido online se eu não tivesse que assinar uma papelada. A reunião em si foi rápida, mas meu voo só saía depois de meio-dia.
assentiu, mas já sabia daquilo. Eu vinha dando notícias a ela por mensagens, mas sem detalhes.
— Eu assisti três episódios de Taxi Driver no avião porque fiquei entediada. Você vai ter que me acompanhar depois.
— Que bom que já tem todos então. — Sorri. — Vou assistir hoje à noite.
— Ótimo, porque Kate enviou três capítulos novos de Oblíquo pra mim e preciso ler.
— Hoje é domingo, .
— E daí? Meu cérebro não aguenta de curiosidade.
Deixei uma risadinha escapar e selei nossos lábios.
— Vou tomar banho e depois venho jantar.
— Tá bom. Não esquece de levar a mala pro quarto.
— Sim, senhora.
No nosso quarto, deixei a mala no closet para desfazer depois e segui para o banheiro. Encarei meu próprio reflexo, notando que ainda havia um sorriso idiota no rosto. Era bom voltar a uma rotina, especialmente uma que envolvia . Meu coração estava um pouquinho mais cheio de felicidade desde o momento em que ela decidiu voltar para casa comigo, alguns dias atrás.
Além disso, era um alívio ver superando a perda do bebê da forma como deveria ser: comigo.
Os poucos dias que fiquei sem ela foram angustiantes e só me fez ter ainda mais certeza de nunca querer perdê-la outra vez.
Nós éramos um só. Éramos parceiros. Uma dupla, que funcionava perfeitamente. Ficar sem era como arrancar um pedaço de mim; sua ausência era como um membro fantasma. Eu sabia que ela não estava lá, mas aquele era o nosso lar, e cada cantinho guardava um registro dela.
Eu era um idiota apaixonado mesmo após três anos de relacionamento e dois morando juntos. Honestamente, nossa dinâmica como casal funcionava tão bem que eu acho que me apaixonava um pouco mais a cada dia. Era óbvio que tínhamos nossos momentos de briga, mas eu não conseguia me lembrar de nenhum, já que sempre virava algo sem importância depois.
Não era da nossa natureza ultrapassar os limites do outro, tampouco desrespeitar. E quando decidimos morar juntos, propôs que sempre falássemos se algo nos incomodava, fosse em relação aos outros ou a nós mesmos.
Eu sabia exatamente de onde vinha aquilo. Seus pais tiveram um divórcio terrível quando ela ainda era adolescente e, às vezes, pareciam estranhos dentro de casa. tinha problemas com os dois e fazia anos que ela e haviam cortado relações com eles.
Eu também tinha problemas com meu pai e, embora ainda falasse com ele algumas vezes por ano, éramos definitivamente distantes. Mas assim era mais saudável. Eu não tinha paciência nem disposição para lidar com as atitudes dele e, certamente, não havia esquecido que ele havia traído a minha mãe, mesmo ela tendo superado isso há muito tempo.
Felizmente, ele também morava do outro lado do país e todo o contato que tínhamos se resumia a uma ligação diplomática em datas comemorativas. nem mesmo o conhecia, e eu acho que preferia que continuasse assim. Ele não era o tipo de pessoa que ela — muito menos eu — gostava de ter por perto.
Assim, em nosso relacionamento, tentávamos nos comunicar ao máximo para evitar possíveis conflitos. A única vez em que omiti algo que ela deveria saber foi durante sua amnésia pós-acidente, e as consequências foram graves: um término e a perspectiva de perdê-la para sempre.
Eu não queria reviver essa experiência nunca mais.

***


Na segunda-feira de manhã, me ofereceu seu carro.
— Fica com ele, pro caso de você precisar. Vou almoçar com Andy e Kate hoje e não vou usar ele.
Eu havia levado o meu para a oficina antes de viajarmos, mas ainda não estava pronto. Honestamente, acho que a culpa era minha, já que falei pro mecânico que ia viajar e não mencionei quando voltaria. Quando entrei em contato, ele disse que o consertaria hoje e ficaria pronto no fim da tarde.
No entanto, eu tinha uma reunião no trabalho e minha opções eram o carro de ou pegar um táxi sempre que precisasse me locomover.
Felizmente, era prática por nós dois.
— Vou te levar pro trabalho, então. Me avisa quando for pra te buscar.
— Tá. Mas vamos passar naquela cafeteria que eu costumo ir, preciso comprar umas coisas.
Dito e feito, algum tempo depois saímos da cafeteria com meia dúzia de bebidas e então estávamos de volta na estrada. me indicou um atalho e nós o pegamos, no entanto, notei algo estranho no retrovisor. Um carro branco, de vidros escuros, nos seguia. Pensei que fosse só coincidência, mas para testar, dei a voltar em um quarteirão duas vezes.
Abri um sorriso irônico quando ele continuou nos seguindo e, um instante depois, meu celular tocou com uma ligação de Louis. atendeu e colocou no viva-voz.
— Senhor, localizamos Roy Basset e ele está seguindo vocês.
— Como é? — ela perguntou, olhando imediatamente para trás. — É o carro branco?
— Sim — Louis e eu respondemos ao mesmo tempo.
— Foi por isso que você passou pelo mesmo quarteirão duas vezes?
— Sim, vou tentar despistar ele. Vocês estão perto?
— Logo atrás, senhor — Louis respondeu.
— Certo. — Desliguei. — Vamos lá.
Acelerei o carro e agradeci mentalmente por não haver muito trânsito naquele momento.
— Toma cuidado, — comentou. — A gente tá perto da editora, tenta virar à direita e então à esquerda, dois quarteirões depois.
— Beleza. — Acelerei mais, sempre de olho no retrovisor. — Liga pra polícia, . Vou tentar levar esse idiota até a editora.
Ela assentiu e entrou em contato enquanto eu continuava a desviar do carro. Estávamos chegando perto da editora e eu já conseguia avistar meus guarda-costas atrás do carro branco, quando, de repente, ele acelerou de uma vez e conseguiu bater na traseira do carro. Foi quando entendi sua intenção e tive uma ideia.
— , vou tentar um coisa, então não surta — falei, logo após ela gritar e xingar Roy pela batida no carro.
— Como assim, não surtar? O que você tá pensando, ?
Roy estava tentando bater em nós propositalmente para provocar um acidente e não havia muitas opções para mim.
— Segura firme — foi tudo o que eu disse.
Então fingi perder o controle do carro em direção a um poste e, no último segundo, girei o volante de uma vez, parando o carro na posição contrária.
A batida veio logo depois. Não em nós, mas nele.
— Meu Deus! — arregalou os olhos ao ver a cena, e notei que ela tremia.
O carro de Roy estava completamente destruído na frente, mas ele estava acordado e tentando sair do veículo. Desci para ajudar o idiota e pedi a que chamasse uma ambulância. Havia um corte em sua testa e ele reclamou de dor no ombro, mas permaneceu consciente até meus guarda-costas e a polícia chegarem logo depois.
Roy desmaiou por alguns minutos quando um policial se aproximou, mas retomou a consciência e gemeu de dor quando os socorristas apareceram. Seguimos para o hospital e, enquanto ele era examinado, e eu demos nosso depoimento à polícia, contando o que havia acontecido.
Consegui convencê-la a voltar para o trabalho logo após o policial nos dispensar. Roy ficaria sob vigilância no hospital antes de ser liberado para ir à delegacia. Ele tinha que quebrado uma clavícula e duas costelas, e precisaria ficar mais algumas horas em observação.
Deixei no trabalho e segui para a minha reunião, já um pouco atrasado.
— Você demorou. Achei que não ia vir. Aconteceu alguma coisa? — Jace perguntou, assim que entrei na sala onde ele e o resto da equipe estavam.
— Tive um pequeno imprevisto no trânsito — foi tudo o que falei. — Desculpem o atraso.
A reunião durou cerca de quarenta minutos e serviu basicamente para acertar os últimos detalhes do meu álbum digital, que seria lançado no final da semana, e da gravação do videoclipe de “Red Shoes”, que aconteceria no dia seguinte. Minha equipe teria um dia para editar e liberar o vídeo. A filmagem era para ser simples, sem grandes efeitos especiais, e seria gravada em poucos ângulos de uma vez só, então meu objetivo era fazer tudo em um take.
— Então a cor do álbum será verde e vamos ter mais duas faixas? — a designer da equipe perguntou.
— Isso aí — confirmei.
Quando tudo terminou, voltei para casa e, algumas horas depois, recebi uma ligação do detetive responsável pelo caso de Roy. Ele havia confessado no hospital que a intenção era atacar , mas ainda seria interrogado sobre os outros atos que cometeu como stalker, incluindo os vídeos obscenos que enviou para ela.
Antes de ir para a delegacia, passei na editora para buscá-la e, alguns minutos mais tarde, nós dois estávamos assistindo ao interrogatório de Roy através de uma salinha de observação.
— Tem algo estranho — comentou, após alguns minutos. — O que é aquilo na mão dele?
— Parece que ele tem uma cicatriz na mão direita — falei, e franziu o cenho. — O que foi?
Em resposta, ela se dirigiu ao policial que também estava na sala e solicitou permissão para entrar.
— , o que você tá-
Mas ela saiu antes que eu terminasse a pergunta. Um segundo depois, apareceu na sala de interrogatório. Sem mais delongas, pediu para Roy assinar seu nome em um papel.
— Não posso fazer isso.
— Por que não?
— Não consigo escrever com o braço imobilizado. — Ele apontou com a cabeça.
— Tá dizendo que é canhoto? — perguntou, trocando um olhar com o detetive.
— Sim, mas o que isso tem a ver? Veio aqui só pra me perguntar isso?
— Onde conseguiu essa cicatriz? — Ela apontou para a mão livre dele. — Parece antiga.
— Foi uma queimadura, quando eu era adolescente — Roy respondeu, parecendo meio confuso com a pergunta repentina.
— Você não é o stalker, né? — sorriu e eu arregalei os olhos. — Alguém te contratou. — Em seguida, ela se virou par ao profissional ao seu lado. — Detetive, a pessoa dos vídeos que recebi parecia ser destra e não tinha uma cicatriz. Não acho que seja esse garoto.
— Não, eu sou sim! — Roy rebateu, agitado. — Sou eu, já confessei. Do que você tá falando? Eu usei um filtro!
O detetive arqueou uma sobrancelha e o encarou com descrença. Não parecia surpreso com o que havia dito.
— Obrigado pela dica, Srta. . Vamos continuar o interrogatório e a investigação. Pode ser que demore, então você e o Sr. podem ir caso queiram. Já pegamos todas as informações necessárias com vocês.
assentiu e agradeceu, pouco antes de se retirar e voltar para a salinha.
— Vamos?
— Que papo foi aquele? — eu quis saber, assim que saímos pelo corredor. — Como você sabe que o stalker é destro?
— Como você acha que eu sei? Ele usou a mão direita nos vídeos. E, embora eu queira deletar essas memórias da minha cabeça, tenho certeza de que não havia cicatriz nenhuma. E aquele papo de filtro? Quem usa filtro no pau?
— ! — Ri pelo nariz, incapaz de me segurar, mesmo sabendo que a situação era séria.
— O quê? Vai dizer que faz sentido?
— Óbvio que não. Só não esperava que você fosse reparar nessas coisas. É muito aleatório.
— Que nada, você que é lerdo demais, . — rolou os olhos e eu ri de novo, incapaz de retrucar.
Ela meio que tinha razão. Meu senso de observação era bem seletivo, já o dela… Bem, literalmente trabalhava com isso sempre que revisava um texto.
— Vamos esperar e ver se o detetive consegue descobrir algo sobre aquele garoto. Se for como você diz, então...
— O stalker ainda tá à solta — ela concluiu.
— É.
E não tínhamos ideia de quem poderia ser, a menos que Roy confessasse. Era isso ou voltar à estaca zero.

CAPÍTULO 43

— Pelo menos não fez muito estrago — concluí, enquanto examinava o resultado da batida na traseira do meu carro. — Eu quebraria a outra clavícula daquele idiota se tivesse acabado com meu carro.
— Olha pelo lado bom, foi o carro e não você — lembrou.
— Nem você — acrescentei, satisfeita. — Aliás, desde quando você sabe dirigir daquele jeito? Me senti em Taxi Driver com o Kim Do Ki.
deu uma risadinha, claramente se divertindo ao lembrar.
— Se eu disser que nem eu sei, você acredita?
Rolei os olhos, contendo um sorriso.
— Aposto que aquele idiota do Roy nem conhece alguma música sua e tá só fingindo ser fã. Tenho quase certeza disso.
— Se for assim, então vamos descobrir em breve.
Suspirei, me sentindo um pouco ansiosa.
— Tomara que o detetive consiga encontrar quem tá por trás dele.
Alguns minutos depois, fomos embora, deixando o meu para trás, na oficina.
— Você vai ter que me deixar no trabalho amanhã de novo — avisei. Então lembrei de algo. — A reunião deu certo?
— Sim, vou filmar o vídeo amanhã. E depois vamos pra LA. Seu chefe já sabe que você vai comigo?
— Por que você acha que trabalhei no fim de semana?
sorriu de lado, ainda com os olhos na estrada.
— Você devia escrever também, . Você tem ótimas ideias e acho que se daria bem.
— Não sei. — Dei de ombros. — Sou feliz sendo agente e leitora beta da Kate. Mas quem sabe um dia? Talvez eu acorde um dia com vontade de contar uma história ao mundo.
— Se isso acontecer, quero ser o primeiro leitor.
— Diz o cara que não me dá nenhum spoiler das músicas.
— Pelo menos eu te deixo ouvir antes quando elas ficam prontas — rebateu prontamente e nós rimos.
Quando chegamos em casa, foi como se um peso tivesse saído dos meus ombros. Nada era melhor do que nosso lar após um dia longo e cansativo. Depois de tomar banho e jantar, não demorei muito para cair na cama naquela noite.
O problema veio mais tarde.

De repente, me vi na cozinha de , tomando café da manhã. Ela estava fazendo o mesmo na sala, sentada em frente à TV ligada.
Eu estava entretida lendo um livro, mas então ouvi algo que chamou minha atenção, me fazendo gelar dos pés à cabeça.
— "E agora voltamos com a notícia que deixou muitos fãs abalados. Na noite passada, pouco depois da meia-noite, o cantor foi assassinado por seu gerente, Jace Keller..."
Senti o corpo inteiro gelar e, no mesmo instante, corri para a frente da TV.
— ... — disse em um sussurro, mas meus olhos estavam vidrados na televisão, uma sensação de peso me atingindo a cada palavra que eu ouvia.
— "Foi descoberto que Keller era um stalker anônimo que vinha incomodando e sua namorada há alguns meses. Policiais que estavam no local informaram que encontraram os dois no meio de uma briga e o gerente quebrou o vidro de proteção da varanda do vigésimo andar e se jogou com pouco depois. Os dois morreram antes que pudessem ser levados ao hospital. Voltaremos com mais notícias breve, mas até lá oferecemos nossos pêsames à família do Sr. , sua namorada, amigos e fãs..."
— Isso deve ser mentira. se apresentou ontem, ele tava bem! Vou ligar pra ele, deve ser alguma notícia sensacionalista — comentei e saí em direção ao quarto para pegar meu celular. Disquei o número dele e voltei para a sala com o celular no ouvido, andando de um lado para outro apressadamente. A ligação caiu na caixa postal e eu tentei mais duas vezes, em vão.
— Não pode ser, ... Eu vou tentar ligar pra mãe dele.
Achei o contato da Sra. na agenda e liguei. A primeira vez caiu na caixa postal e eu tentei outra vez. Ela atendeu no terceiro toque.
Parei de andar.
— Sra. .
— , querida... — ela murmurou com a voz chorosa e aquilo foi o suficiente para que eu entendesse. No instante seguinte, o celular escorregou na minha mão, a realidade me atingindo com tudo. Caí no chão, perdendo as forças nas minhas próprias pernas e de repente respirar se tornou difícil. Puxei o ar, mas havia uma angústia que me impedia de expandir o peito por completo.
— ... — me chamou, se colocando ao meu lado um momento depois. Minha irmã me abraçou e eu senti lágrimas quentes jorrando dos meus olhos sem parar enquanto engasgava com a falta de ar e o aperto em meu peito. — Eu sinto muito, sinto muito, irmã — ela acrescentou, com a própria voz embargada.
Solucei em seus braços, ainda absorvendo aquela notícia. Como aquilo tinha acontecido? estava tão bem da última vez que eu o tinha visto. E Jace? Ele era o stalker? Por que ele matou ? Por quê? Por quê?
De repente, senti meus ombros serem sacudidos bruscamente e abri os olhos, me deparando com um rosto familiar.
— — murmurei, com a voz chorosa.
— . Você tava tendo um pesadelo — disse ele, com a voz firme. — Tá tudo bem.
— Você... Tinha morrido e eu- — Solucei, sem conseguir terminar a frase.
— Shh, tá tudo bem, amor. Eu tô aqui. Nada aconteceu — ele garantiu. — Foi só um sonho ruim.
Me sentei na cama e segurei seu rosto com as duas mãos. Já era de manhã, então eu conseguia enxergar suas feições mesmo na escuridão do quarto.
— Eu fiquei com medo. Muito medo. No meu sonho, Jace era o stalker e...
— Jace? — Ele franziu o cenho, confuso. — Que estranho.
— Foi horrível. Eu não tava com você e então veio a notícia — solucei novamente, incapaz de segurar o choro. me abraçou forte. — Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Tô com medo, . Se algo acontecer com você, eu não vou suportar.
apertou os braços ao meu redor e esfregou minhas costas com uma mão, me balançando levemente de um lado para o outro, como se eu fosse uma criança.
— Não vou a lugar nenhum, amor. Vai ficar tudo bem. Nós vamos pegar o stalker e vamos ficar bem.
Solucei outra vez, mas, depois de alguns minutos, finalmente consegui parar de chorar. Eu não sabia por que tinha sonhado com aquilo. Talvez minha mente tivesse começado a criar peças.
— Que horas são? — perguntei, após um tempo.
— Umas cinco da manhã. Podemos dormir mais um pouco, vem. — Ele me puxou e nos deitamos juntos.
Deitei a cabeça em seu ombro esquerdo, com um braço ao seu redor.
estava quente e respirando e constatar isso me acalmava. Tinha sido só um sonho ruim.
Só um sonho ruim.
Mas então, quando eu estava prestes a adormecer, pude jurar ter ouvido uma voz na minha cabeça.
Fique com .
Fique com .
Fique com .


***


Dois dias depois, assisti ao videoclipe de Red Shoes assim que recebeu a versão oficial, algumas horas antes de ser lançado. Choramos juntos mais uma vez, mas agora eu sentia o peito mais leve, aliviada por ter escolhido voltar.
Ele tinha razão o tempo todo.
A perda do nosso bebê era algo que deveríamos enfrentar juntos e nos apoiar um no outro trazia certo consolo.
Quando viajamos para Los Angeles, fiz questão de acompanhá-lo em todos os compromissos, mesmo nos ensaios de apresentação que ele dizia serem chatos.
Às vezes, acho que esquecia que eu ainda era uma fã dele. Ensaios nunca eram chatos para nós, pelo contrário. Eu amava conhecer os processos criativos e bastidores dos artistas que eu admirava, e com ele não era diferente.
Mantive minha distância para não atrapalhar nada, mas nossos olhares frequentemente se encontravam, quando ele desviava a atenção de quem estava falando com ele e me encarava com um sorrisinho no canto dos lábios. Em outra ocasião, talvez eu tivesse ficado um pouco envergonhada com aquilo, já que ele não fazia nem questão de disfarçar, mas saber que não conseguia tirar os olhos de mim — assim como eu não conseguia tirar os olhos dele — me trazia uma sensação agradável.
Vez ou outra, eu ainda escutava aquela voz na minha cabeça.
Fique com .
Ah, eu iria. Com toda a certeza do mundo. Eu tinha que cumprir minha promessa de virar sua sombra. Lembrei disso no avião, antes de chegarmos, mas acho que estava se divertindo com aquilo já que não acontecia sempre. Raramente eu o acompanhava em compromissos porque tinha os meus próprios para dar de conta.
Só que daquela vez era diferente.
Horas mais tarde, estávamos em uma pequena reunião de jantar com a equipe de , no restaurante do hotel onde estávamos hospedados.
— O videoclipe é um sucesso — Jace comentou. — As visualizações não param de aumentar. Confesso que nunca achei que um vídeo tão simples fosse ter tanto sucesso.
— Isso é porque a música foi um sucesso — comentou Erika, uma das produtoras executivas. — Devemos tudo a , que nunca decepciona em suas composições. Um brinde a isso! — Ela levantou o copo e todos brindaram com suas bebidas.
O público tinha aceitado bem a música nova, mas todos sabiam que havia certa curiosidade quanto à escolha do tema. Nele, estava sentado no chão, com brinquedos infantis ao redor, um berço e os sapatinhos vermelhos que eu tinha comprado.
Na edição, havia alguns cortes de fotos sem os nossos rostos passando em um loop rápido, como se fosse uma espécie de falha na imagem, e o bilhete que eu tinha colocado junto com os sapatinhos.
Ele estava de pijama, cantarolando a música com um toque de violão ao fundo, enquanto olhava com carinho para o parzinho minúsculo de sapatinhos de crochê.
O vídeo era inteiramente preto e branco, com exceção deles.
Era mais do que óbvio o que aquilo significava, mas ainda que o clipe estivesse relacionado a um bebê, a letra da música falava apenas sobre uma pessoa que se foi e deixou sapatos vermelhos para trás.
Poderia ser qualquer um.
A capa do novo álbum também havia sido divulgada e os fãs estavam ansiosos pelo lançamento, que estava programado para sair à meia-noite, após a apresentação dele em Los Angeles, no dia seguinte.
— É bom saber que as pessoas gostaram da música tanto quanto eu — falei baixinho para e ele sorriu.
— Vamos subir pro quarto? Quero descansar mais um pouco pra amanhã.
Assenti e terminei de tomar o meu refrigerante enquanto ele se despedia. Uma série de reclamações veio, mas os convenceu de que precisava descansar a voz para o dia seguinte. Senti um olhar em mim enquanto pegava minha bolsa e, um segundo depois, encontrei Jace me encarando com um sorrisinho no rosto e ele levantou o próprio copo em um cumprimento, antes de sairmos.
Não sorri de volta. Eu ainda não tinha esquecido do meu pesadelo nem do que ele tinha feito com nele. E claro, eu tinha plena consciência de que podia parecer coisa de gente doida desconfiar de alguém assim por causa de um sonho, mas, de certa forma, eu me sentia aliviada em saber que a relação daquele cara com acabaria logo.
Jace podia aproveitar os últimos dias como gerente dele o quanto quisesse, mas um aviso de demissão chegaria em breve. Provavelmente naquele fim de semana, segundo o que disse.
Nunca gostei daquele cara e o próprio Jace sabia disso. Provavelmente todos da equipe sabiam, já que nem fazíamos questão de falar um com o outro.
Honestamente, eu não estava nem aí.

***


A apresentação de passou voando.
Assisti de um lugar nos bastidores e estava perto de algumas fãs, então pude ter a sensação de estar em um show e gritar e surtar por ele tanto quanto elas. Foi incrivelmente engraçado e divertido. Em certo momento, desceu do palco e veio até mim com um sorrisinho no rosto enquanto cantava. Segurei sua mão e o direcionei para as fãs, que gritaram quando ele segurou suas mãos também.
Me senti feliz por elas e até tirei algumas fotos, que postei algumas horas depois que a apresentação acabou. se despediu cantando Red Shoes e depois voltamos para o hotel. Já se passava das onze horas quando chegamos e eu estava morrendo de fome. Dali a uma hora o álbum novo seria lançado e planejava abrir uma live em breve, para acompanhar o lançamento com os fãs.
Pedimos serviço de quarto e estávamos esperando chegar depois do banho. Saí do banheiro antes para receber e já tinha preparado uma garrafa de vinho para comemorarmos.
O quarto de era como um pequeno apartamento de luxo. Além da suíte, tinha cozinha, uma sala bem espaçosa e uma varanda.
Eu estava na sala terminando de abrir a garrafa de vinho quando ele saiu do banho, vestindo uma calça de pijama e uma camiseta branca sem estampas, ainda secando o cabelo com uma toalha.
— Tô morrendo de fome — declarou, me puxando para um abraço. — Será que o jantar chega antes da eu abrir a live?
— Se chegar depois, você pode dizer que é um date com os fãs.
No mesmo instante, o celular de tocou e ele o tirou do bolso da calça.
— É o detetive.
Um segundo depois, ele atendeu, colocando no viva-voz.
— Boa noite, Sr. . Desculpe ligar nesse horário, mas é urgente. Eu soube que o senhor está em Los Angeles agora e creio que seu gerente, Jace Keller, também. Estou certo?
— Sim, detetive. Algum problema?
— Descobrimos que Roy Basset tem uma avó doente que está internada no hospital. As contas estavam se acumulando, no entanto, foram quitadas pouco antes do acidente por alguém de sobrenome Keller.
— O quê? — perguntei, alarmada.
me encarou, surpreso.
— Srta. , é você?
— Sim, detetive. Boa noite. Roy disse alguma coisa ao senhor?
— Pressionei o garoto e ele confessou ter aceitado dinheiro em troca de provocar os acidentes. Ele se recusou a falar o nome do mandante, mas Jace Keller é meu palpite. É próximo o suficiente do Sr. e pode ter certas motivações.
— Jace e nunca se deram bem, detetive — contou. — Acha que pode ser por isso que ele tentou atacá-la?
— Pelo histórico de mensagens, suponho que ele seja obcecado mais por você do que por ela. Onde estão agora?
— No quarto do hotel, estamos sozinhos. Mas Jace também está-
Uma batida na porta nos interrompeu.
Corri para ver quem era enquanto continuava a falar com o detetive e gelei quando vi Jace pelo olho mágico.
Voltei correndo até .
— Jace tá aqui e não parece muito feliz. Vou chamar os seguranças — falei, já pegando o telefone para ligar para a recepção.
— Vou comunicar a polícia local também, tentem fingir que não sabem de nada — o detetive aconselhou. — Ele não vai ser idiota de tentar algo.
Desligamos pouco depois e fui em direção à porta, enquanto digitava algo no celular.
— — ele me chamou antes de eu abrir a porta e apontou para o celular, apoiado atrás de uma decoração em cima de uma prateleira na parede.
Assenti e abri a porta, tentando parecer calma.
— Cadê o ? — Jace empurrou a porta e tropecei para o lado. Um instante depois, ele estava em frente a , empurrando uma folha de papel no peito dele. — Que porra é essa? Você tá me demitindo agora?
encarou o documento por um momento, antes de desviar o olhar para ele.
— Estou — respondeu ele, calmamente.
— E por quê? Eu não fiz um bom trabalho te gerenciando?
Cruzei os braços e andei até o sofá enquanto os dois discutiam.
— Fez. Mas eu não quero mais trabalhar com você, Jace.
Coloquei um pouco de vinho em uma taça e bebi de uma vez, antes de devolvê-la para a mesinha de centro. Eu tinha que agir com normalidade, certo?
— E por que não? Estamos juntos há cinco anos!
riu pelo nariz e eu engasguei quando ouvi. Àquela altura, eu já tinha certeza de que Jace era o maldito stalker.
— Você fala como se a gente tivesse em um relacionamento — zombou. — Você faz um bom trabalho, Jace, mas temos diferenças de personalidade que estão me incomodando há um tempo. Sinto muito.
— Diferenças de personalidade? Como assim? O que eu fiz pra você pensar isso?
Meus olhos automaticamente se dirigiram para a varanda até que ouvi respirar fundo, antes de responder.
— Pra começar... Você vive querendo se intrometer na minha vida pessoal, mesmo sabendo que detesto isso. E eu não gostei das coisas que você falou sobre a quando a gente terminou.
Sorri ao ouvir. Tinha um gostinho especial ser defendida pela pessoa que te amava.
— É sobre ela, então? Eu tava tentando te ajudar a superar — Jace justificou.
— Falando mal da mulher que eu amo?
— Você é um capacho dela, ! Não percebe? Essa mulher te controla! — Ele praticamente gritou, apontando para mim.
— Eu controlo ele? — Coloquei a mão no peito, fingindo surpresa.
Mas então voltou a falar.
— pode até mandar em mim se ela quiser, Jace. — Então ele me encarou, antes de acrescentar. — Se ela me pedir pra ajoelhar diante dos pés dela, eu o farei de bom grado.
Jace riu, sem humor.
— Vai beijar os pés dela também? — ele debochou.
— Eu começaria pelos pés — retrucou com um sorriso que fez Jace travar a mandíbula de desgosto.
— , pense direito. Você não está sendo profissional. Vai mesmo me demitir por causa de uma mulher? O que você pensa que eu sou?
— Além de um idiota doente e obcecado? Não faço ideia — disse, perdendo a paciência.
O olhar de Jace endureceu, perdendo o ar de inocência que ele fingia.
— . — Lancei um olhar significativo para ele se acalmar.
— Isso é culpa sua! — Jace se virou para mim. — Ele nunca deveria ter se envolvido com você. Eu cheguei primeiro! Devia ser apenas nós dois!
— Do que você tá falando? — perguntei, fingindo não saber de nada.
— Devia ter acabado no atropelamento, mas você sobreviveu. E mesmo sem memória, ele insistiu em cuidar de você!
— Quer dizer que você admite que era o stalker esse tempo todo e contratou Roy Basset pra tentar me matar? — indaguei, deixando cair a minha própria máscara de fingimento.
— Tudo teria dado certo se aquele moleque tivesse feito o trabalho direito — Jace disse, parecendo não se importar em admitir tudo aquilo. — Mas você... Ele continuou atrás de você feito um cachorrinho. Só que eu amei ele primeiro!
— Não seja idiota, Jace. O que pensou que poderia acontecer entre vocês? — debochei. — Perdemos o nosso bebê por sua causa e você ainda quer ter direito de exigir alguma coisa?
— Sua vadia! Você nunca devia ter aparecido. Ele me ignora por sua causa! — Ele avançou em mim, me dando um tapa no rosto antes mesmo que eu pudesse reagir.
Minha pele queimou com o golpe, mas ignorei a dor, sentindo o sangue ferver de raiva. Sem pensar, agarrei a garrafa de vinho em cima da mesinha e a quebrei na cara dele. Nem eu sei de onde tirei tanta força, mas cacos de vidro se espalharam por toda a sala e Jace gritou. Em seguida, colocou uma mão no rosto e notou que sua bochecha sangrava.
— Sua louca! Podia ter me cegado! — ele gritou novamente, a voz transbordando ódio. — Eu vou matar você!
— Ah, não vai, não! — puxou ele pela gola da camisa e lhe deu um soco, fazendo-o cair no chão.
— Devíamos ser casados — ele murmurou, feito um lunático. — Se ela não tivesse aparecido...
riu, incrédulo.
— Você só pode estar delirando em vir com esse papo de casamento pra cima de mim. Você tentou matar minha mulher, seu imbecil! Duas vezes! — Ele se aproximou de Jace mais uma vez, exalando raiva por cada poro.
Uma batida na porta surgiu naquele instante. Corri para atender e me deparei com dois seguranças do hotel, seguido de dois policiais.
— Por aqui. — Indiquei, apontando para Jace, que agora se levantava do chão.
Corri para o lado de e me agarrei em seu braço.
— Acabou, Jace. É melhor você sair agora.
— Sr. Keller, o senhor está preso sob suspeita de homicídio e perseguição. Por favor, venha conosco.
— Não! Eu me recuso! — Ele deu um passo para trás, em direção à varanda. Apertei o braço de , garantindo que ele continuasse perto de mim. — Você tem que pensar, . Seu lugar não é com essa puta!
— Jace, já deu — falei, irritada. — Me xingar e repetir essas merdas não vai adiantar de nada. Não vamos nos separar só porque você quer, seu lunático idiota!
— Não, não devia ser assim... Ele devia ser meu, meu... — Ele começou a murmurar, delirante, e lágrimas escorreram pelo seu rosto. — Por que isso continua se repetindo? Vai ser sempre assim? Eu nunca vou conseguir?
e eu nos encaramos, sem ter ideia do que diabos ele estava falando.
— Se eu não posso ter ele, então você também não vai! — Ele gritou, pegando um caco de vidro antes de vir ao meu encontro, tentando me atacar.
Me separei de para desviar e, no instante seguinte, me vi parada na porta da varanda com Jace agarrado a mim, pressionando um caco de vidro contra meu pescoço.
Engoli em seco, sentindo uma onda de medo, adrenalina e raiva ao mesmo tempo.
— Sr. Keller, ordeno que pare agora mesmo! — Um policial gritou, apontando uma arma para ele.
Jace riu como um maníaco.
— Você não vai conseguir o que quer — falei para ele.
— E nem você — ele murmurou no meu ouvido, me puxando em direção à varanda de vidro.
Eu sabia o que ele planejava. Era como se o meu sonho estivesse acontecendo, mas em vez de , Jace se agarrava a mim.
E eu também sabia que os policiais e os seguranças estavam hesitando em se aproximar por minha causa. Mas se fosse como no sonho... Se eu ia morrer de um jeito ou de outro, então que fosse ao menos tentando me livrar daquilo.
— ... — me chamou, com sua voz cheia de preocupação e eu sorri, determinada.
Então, em um surto repentino de coragem, pisei no pé de Jace em uma tentativa de distraí-lo e forcei todo o peso do meu corpo para frente, tal como havia aprendido em uma aula de defesa pessoal que frequentei com Kate. Bati com o cotovelo direto em suas costelas e enfim consegui me soltar dele.
Imediatamente, os policiais me cercaram e se colocou ao meu lado. Respirei fundo, ofegante, meus olhos ainda presos no homem que tentou me matar não uma ou duas, mas três vezes.
— Eu não vou ser preso! — Jace gritou para os policiais. — Não vou passar por essa humilhação depois de tudo que fiz por ele!
E então Jace apontou o caco de vidro para o próprio pescoço, pegando todos de surpresa.
— Sr. Keller, se acalme e venha conosco. — Um dos policiais tentou convencê-lo.
Jace negou com a cabeça e lágrimas rolaram por seu rosto. Com a mão livre, ele pegou um pequeno vaso de planta em cima da mesa que havia ali e jogou no policial, que felizmente conseguiu desviar.
Um segundo depois, ele jogou o caco de vidro no outro policial, subiu em uma das cadeiras e pulou.
De repente, foi como se tudo estivesse em câmera lenta. O barulho de seu corpo batendo no chão veio logo depois, como um som grave e alto.
e eu estremecemos ao ouvir, ambos em choque. Me agachei instintivamente, assustada com tudo aquilo. me abraçou forte e eu me agarrei a ele, então comecei a chorar. Por mais trágico que tenha sido aquele fim, uma parte de mim estava aliviada por não ter ido junto, como no meu sonho. Ele estava vivo e bem, me abraçando forte enquanto eu soluçava em seus braços.
A noite tinha sido um completo caos, mas tive a sensação de que algo importante havia finalmente terminado, embora eu não soubesse o quê.
Os policiais e os seguranças saíram correndo do quarto e e eu nos levantamos para fazer o mesmo. Ele me puxou pela mão e passei a mão no rosto, me livrando das lágrimas.
Ainda estávamos saindo da varanda, quando ouvi uma voz no meu ouvido, como se alguém tivesse acabado de sussurrar.
Vocês estão livres agora.
Me virei rápido, mas não havia nada.

CAPÍTULO 44

Com o caos da noite em que Jace Keller cometeu suicídio, foi impossível impedir que a história do Stalker de se tornasse pública, especialmente quando era alguém tão próximo a e que gerenciou sua carreira por anos.
Ele não precisava de nenhum escândalo naquele momento, logo após o lançamento de um álbum, mas sabíamos que era apenas uma questão de tempo até todos saberem. Em pouco tempo, fãs começaram a desenterrar informações e pistas de que Jace pudesse ser um stalker e eu descobri que tinha até teorias sobre isso no TikTok.
Era como se eu tivesse encontrado as minhas próprias teorias da conspiração, considerando que todas envolviam Jace, e eu. Até mesmo leituras de tarô haviam sido feitas em relação ao que poderia ter acontecido e algumas até mencionavam uma ligação de séculos que havia sido encerrada. Nelas, Jace era frequentemente citado como alguém que tinha uma obsessão doentia por . Houve uma pessoa que sugeriu que eu poderia ser a amante dele, enquanto Jace seria uma esposa vingativa que reencarnou e lembrou de sua vida passada em algum momento enquanto crescia, algo que estaria atrelado diretamente a algum tipo de maldição que ela mesma poderia ter jogado.
Senti minha pele arrepiar quando ouvi sobre isso. Uma parte de mim queria apenas acreditar que Jace era só um idiota obcecado pelo meu namorado, mas a outra, que tendia a acreditar em coisas esotéricas, estava aliviada de que essa supostamente ligação de séculos já não existia mais — e até um pouco chocada também com a possibilidade de eu ter sido a amante.
ficou bem estressado com tudo o que aconteceu e durante horas prestamos depoimento para a polícia de Los Angeles. Felizmente, ele havia posicionado o celular em um ângulo que captava toda a sala de estar, então a parte da discussão antes da chegada dos policiais estava toda gravada. Nossas ações foram consideradas legítima defesa, visto que Jace nos atacou primeiro.
Quanto ao resto... Bem, havia quatro testemunhas além de e eu.
Voltamos para Nova York dois dias depois.
Mesmo com parte de sua vida privada exposta ao mundo, o escândalo acabou atraindo muita gente a conhecer e sua música, de modo que parte da atenção indesejada acabou se convertendo em algo bem-vindo. De todo modo, eu estava confiante de que era apenas uma questão de tempo até que as pessoas começassem a deixar aquele assunto de lado, e isso começou a acontecer cerca de um mês depois.
decidiu tirar uma folga da música após o lançamento do novo álbum e pareceu bem feliz com a expectativa de passar alguns meses como dono de casa, enquanto eu saía para trabalhar.
Infelizmente, eu não ganhava dinheiro com royalties, sem precisar fazer absolutamente nada. Felizmente, ele ganhava o suficiente para sobreviver apenas com isso por anos, se quisesse, sem contar as campanhas publicitárias das quais fazia parte.
Quando o inverno chegou, já se encontrava novamente enfurnado no próprio estúdio, incapaz de passar muito tempo sem fazer música, mesmo que não fosse usar nada depois. Eu já tinha perdido a conta de quantas vezes ele havia trabalhado até tarde da noite com a desculpa de que aquele era o horário que mais lhe trazia inspiração.
Foi naquele mês que decidi fazer uma surpresa para ele, mais especificamente na véspera de seu aniversário. Quando deu meia-noite e o calendário virou para 10 de novembro, surpreendi com um bolinho de aniversário grande o suficiente para duas pessoas. Era de seu sabor favorito e estava personalizado, mas eu também não via a hora de comer.
O presente dele, escolhido com a ajuda de e Kate, estava em uma caixinha azul envolta de um laço prateado.
Acendi uma velinha antes de bater na porta do estúdio — certas coisas nunca mudam e eu ainda não podia tentar espiar à procura de spoilers de músicas novas — e esperei aparecer.
Ele tomou um leve susto quando viu o bolo que eu coloquei na altura de seu rosto, mas um sorriso tímido, de canto, logo surgiu em seus lábios.
— Feliz aniversário! — Abaixei o bolo e ele riu ao ler a frase que havia nele.
Há 32 anos sendo um grande gostoso, com direito a um bonequinho exibindo o bíceps musculoso.
Ele se afastou para que eu pudesse entrar e fui direto para o sofá, com o bolo em uma mão e a caixinha de presente na outra.
— O que é isso aí? — ele perguntou, curioso, e se sentou ao meu lado.
— Uma coisa que acho que você vai gostar.
arqueou uma sobrancelha, desconfiado, e sem mais delongas, desfez o laço da caixa. Havia outra caixa menor, de veludo preto. Quando ele abriu, encontrou duas correntes e um novo par de alianças de compromisso.
— ... — Ele sorriu, bobo, parecendo genuinamente feliz, e então seus olhos encontraram os meus. — Você disse que não queria que eu gastasse dinheiro com isso.
— Mas não falei nada sobre mim. Podemos colocar as antigas nas correntes, como você sugeriu.
No mesmo instante, pegou as correntes, tirou a própria aliança e a enfiou em uma delas, antes de pedir para eu virar e ele colocá-la em mim. Fiz o mesmo com ele e, em seguida, peguei sua nova aliança. Ele estendeu a mão esquerda ao invés da direita.
Eu ri, divertida, e por algum motivo, senti os olhos arderem de emoção.
— Isso é praticamente uma renovação de votos e a gente nem é casado — brinquei.
— Podemos resolver isso facilmente assinando um papel. Mas pra mim, você se tornou minha esposa desde o momento em que aceitou morar comigo — ele disse, e então segurou minha mão esquerda e deslizou a aliança no meu dedo, selando com um beijo.
Senti outro sorriso se abrir no meu rosto e um par de lágrimas escapar dos meus olhos. riu baixinho e as secou por mim, antes de me puxar para um beijo suave. Era tão bom estar assim com ele que, às vezes, era difícil acreditar que eu podia sentir tanta felicidade.
— Então... — comecei, assim que nos afastamos. — Tô ansiosa por esse bolo. O que acha de partirmos logo?
— Ei, eu sou o aniversariante e você é quem tá ansiosa?
— Tô morrendo de vontade de comer ele o dia todo. Quase passei o dedo na cobertura antes de vir pra cá.
— Achei que a gente ia comemorar só mais tarde, à noite, com minha mãe, e nossos amigos — ele lembrou.
— E vamos. Mas eu queria um tempo sozinha com você antes. Uma comemoração só nossa... — expliquei. sorriu e tentou se aproximar de novo, mas o empurrei, rindo. — Só que o bolo vem primeiro.
Ele rolou os olhos e pegou a faca que eu havia apoiado ao lado do bolo, então o cortou bem no meio do bonequinho. Em seguida, me entregou o primeiro pedaço e eu o enfiei na boca como se não comesse há dias, gemendo de satisfação com o sabor delicioso antes de engolir.
Então veio o problema. Um enjoo instantâneo se instalou no meu estômago e o que eu tinha acabado de engolir pareceu voltar com tudo. Corri para o banheiro do estúdio e despejei tudo o que havia comido, não apenas o bolo, mas também o jantar de algumas horas antes. Tossi e engasguei, e em um segundo, já estava ao meu lado, esfregando minhas costas. Eu o expulsei do banheiro um minuto depois, quando me vi forte o suficiente, então lavei o rosto e escovei os dentes com uma escova reserva que havia ali.
Encarei meu próprio reflexo e fiz uma careta. Era incrível como vomitar era exaustivo. Num momento você está bem, e no outro parece que acordou de ressaca.
— . — deu duas batidinhas na porta. — Tá tudo bem?
— Sim. Agora tô melhor. — Abri a porta, e o encontrei parado com um olhar de preocupação no rosto. — Não sei o que houve. Foi só eu comer o bolo e... Puff!
— E se você estiver grávida? — ele perguntou como se não fosse nada.
Arregalei os olhos.
— Não, de jeito nenhum — descartei a ideia. — Minha menstruação nem tá atrasada... Ou tá? — Franzi o cenho, sem ter ideia.
— Por que você não compra um teste e faz amanhã? Só pra descartar.
Fiz uma careta ao ouvir. Eu estava tomando anticoncepcional desde que voltamos para Nova York e minha ginecologista me fez fazer um teste para garantir que não havia nenhum bebê. Eu sempre ficava nervosa antes de fazer um, mas deu negativo. Não disse nada a porque sabia que era protocolo, mas agora era diferente. Seria como da última vez. E eu tinha quase certeza de que não tava grávida.
Bem, na verdade, eu não tinha certeza de nada... Mas a ideia me apavorava. Acho que mesmo que eu quisesse um bebê, continuaria sendo assustador. Aposto que as mães modelo apenas fingiam que eram tudo às mil maravilhas.
— Tá, de manhã eu faço — concordei. — E lá se vai a nossa comemoração...
riu, divertido.
— Vamos ver como você vai estar de manhã.

***


Exatamente como da última vez, fiz o teste de gravidez e o enfiei dentro da caixa enquanto esperávamos o tempo necessário para conferir.
estava encostado na pia do banheiro, de braços cruzados, parecendo um poço de tranquilidade, o contrário de mim.
— E se der positivo? — perguntei, aflita.
— Se der positivo, vamos ter um bebê e é isso. — Ele deu de ombros.
— Jura? Eu podia jurar que seria um cachorro que ia sair de dentro de mim.
Ele riu pelo nariz, mas não achei graça.
— Tudo bem, eu me expressei mal. O que quero dizer é que vai ficar tudo bem. Não é o fim do mundo. E você não tá sozinha nessa.
Respirei fundo, tentando me acalmar, e chequei a hora.
— Tá na hora. Você olha. — Entreguei a caixa para ele e coloquei as duas mãos no rosto, sentindo meu coração bater tão forte que parecia que ia sair pela boca.
— Relaxa, amor. Vai ficar tudo bem. Independentemente de qual for o-
De repente, se calou.
— O que foi? — Tirei as mãos do rosto e o vi encarando o teste, atônito. — ?
Lentamente, ele virou o teste para mim e eu prendi a respiração ao ver o resultado.
Duas linhas vermelhas. Positivo.
Íamos ser pais.
Senti minhas pernas falharem naquele momento e me apoiei na pia, respirando com certa dificuldade.
— ? Tá tudo bem?
— Sim — falei, após um momento, quando finalmente consegui puxar o ar decentemente para os meus pulmões. — Acho que vou encarar isso como algo que deveria ter acontecido antes.
Nosso primeiro bebê teria nascido naquele mês se não fosse pelo acidente, mas mantive esse pensamento para mim. Então, pensei comigo mesma que talvez fosse assim que as coisas deveriam ser.
— Nesse caso... — se aproximou e me envolveu em um abraço. — Posso dizer que tô muito feliz?
— Uhum — murmurei, apertando meus braços ao redor dele, com uma bochecha colada em seu ombro. Meus olhos arderam, e me perguntei naquele instante se era resultado da minha apreensão ou do famoso turbilhão de sentimentos imprevisíveis da gravidez. Talvez fosse um pouco dos dois.
se afastou, segurou meu rosto entre as mãos e foi então que notei seus olhos marejados.
— Eu te amo, . Muito mesmo. Obrigado por fazer eu me sentir o homem mais sortudo do mundo, amor.
— Vamos ter um bebê... — sussurrei, meio chocada, sentindo as lágrimas começarem a escorrer.
— Sim, vamos ter um bebê. — riu, e eu o acompanhei. De repente, estávamos chorando juntos, mas agora era um misto de felicidade, nervosismo e esperança pela nova vida que crescia dentro de mim.
— Vamos contar a todo mundo hoje?
— Com certeza, não vou conseguir esconder isso por muito tempo — ele brincou. — Temos que escolher os nomes.
— Ainda temos tempo, não é como se o bebê fosse nascer amanhã — lembrei. — Nem sabemos o sexo ainda.
Algo me dizia que seria uma menina, mas talvez fosse apenas uma impressão maluca. Pelo menos, eu não estava mais enjoada, embora provavelmente não conseguisse ver aquele bolinho de aniversário — que mal comemos — na minha frente nos próximos dias.
Um desperdício, pois estava uma delícia.
— Vamos comemorar, então? — se aproximou, roçando o nariz no meu.
— Sua mãe vai chegar a qualquer momento.
— Minha mãe vai levar pelo menos mais duas horas para chegar aqui; o avião dela nem pousou ainda — ele retrucou com um sorriso.
— Parece que temos tempo de sobra, então. — Sorri de volta, mordendo o lábio inferior de empolgação.
— Ah, temos sim.
Sem mais nem menos, ele me colocou sobre o ombro, me fazendo rir alto, e seguiu em direção à nossa cama.
Hora de comemorar.
A vida dele, a minha e a que crescia dentro de mim. Em meio à felicidade, amor e roupas jogadas no chão, senti o amor expandir entre nós e que as coisas finalmente estavam como deveriam estar.
E com isso, tive a certeza de que mais momentos assim viriam.

Epílogo

Dois anos depois...

Ajustei os óculos no rosto e continuei a digitar rapidamente, sem tirar os olhos da tela do computador no meu colo.
Quando cheguei ao último parágrafo, respirei fundo antes de continuar e testei algumas frases que apaguei cerca de cinco vezes.
— Não, assim não... — Tentei digitar novamente, mas parei no meio quando ouvi um gritinho agudo ecoando no corredor, seguido de passos rápidos, alguns bem mais pesados.
— Mamãe!
— Que mamãe, o quê! Volta aqui, sua pestinha! — Ouvi a voz de dizer no instante em que ela alcançou o sofá, parando em minha frente.
Ele parou do outro lado do sofá e colocou as duas mãos na cintura, uma delas segurando um par de sapatinhos vermelhos no estilo boneca.
— Que barulho é esse enquanto eu tô trabalhando? — Fingi brigar e então encarei a menininha ao meu lado. Nossa filha. — Ayla , obedeça ao papai e deixe ele colocar seus sapatos.
Ela me encarou com seus olhos cinza enormes e, em um gesto dramático demais para uma menina de quinze meses, passou as duas mãos pelo cabelo preto, idêntico ao de , e cruzou os braços antes de levantar um pé.
— Quer dizer que eu é que tenho que ir até você, sua espertinha? — ele resmungou, dando a volta no sofá.
— A culpa é sua por mimar ela como se fosse uma princesa — rebati. — Eu avisei.
— Isso porque ela é a princesa do papai, não é, sua pestinha? — Ele ajoelhou em frente a ela e apertou uma de suas bochechas, deixando-a irritada de propósito. Ayla deixou que ele calçasse os sapatinhos e depois veio até mim e bateu um calcanhar no outro de forma desajeitada.
— Ó, mamãe. — Ela bateu novamente.
— Agora sim, minha Dorothy tá completa. Vamos tirar uma foto? — tirou o celular do bolso do short e Ayla segurou o vestido com uma mão de cada lado, em uma pose que tínhamos ensinado a ela duas semanas antes.
Depois que o papai babão tirou algumas dezenas de fotos, ela subiu no sofá e sentou ao meu lado, olhando com curiosidade para a tela do computador. Ela não tinha permissão para mexer em coisas eletrônicas sem supervisão e e eu meio que evitávamos isso e oferecíamos outros estímulos de entretenimento para ela. Não tínhamos crescido com smartphones fritando nosso cérebro e preferíamos que Ayla não tivesse nenhum estímulo excessivo que pudesse afetar seu desenvolvimento.
— Vou tomar banho agora e volto pra ficar com ela pra você poder ir — informou, antes de sair.
Era seu aniversário de 34 anos e faríamos uma festa à fantasia. Era a terceira vez que Ayla vestia uma, levando em conta o Halloween do ano passado e o de algumas semanas antes. Quando perguntamos de qual personagem ela queria se fantasiar para o aniversário do papai, sua resposta foi buscar O Mágico de Oz na sua estante de livros infantis e apontar para a Dorothy na capa. Bem inteligente para uma criança da idade dela, mas a Sra. havia me dito que também era assim.
— Mamãe tá terminando uma coisa — cochichei, como se fosse um segredo, e ela assentiu, ficando quieta, enquanto eu terminava de digitar.
Quando acabei, encarei a tela por alguns segundos, incapaz de acreditar que finalmente havia terminado de escrever meu primeiro livro.
Quando contei a Kate, Diana e Andy que eu queria escrever um romance com elementos de fantasia no mundo contemporâneo sobre uma protagonista que esquecia que namorava seu ator favorito há anos e ia constantemente parar dentro de seu livro favorito quando adormecia, enquanto no mundo real ele tentava fazer com que ela se lembrasse deles, a resposta foi unânime: você tem que escrever isso.
Mencionei a ideia há cerca de um ano e fiz os primeiros rascunhos algumas semanas depois, antes de realmente começar a escrever.
não tinha brincado quando disse que queria ser o primeiro leitor, mas ele e enfrentaram um embate, pois ela também queria. Acabei decidindo enviar os novos capítulos para o e-mail dos dois ao mesmo tempo e, desde então, os dois viviam numa espécie de competição para ver quem lia primeiro. Como autora, eu achava extremamente divertido e mal podia esperar para que eles lessem o último capítulo e o epílogo que eu tinha acabado de escrever.
Enviei o arquivo por e-mail e então respirei fundo.
— Cabô? — Ayla perguntou ao meu lado.
— Acabou. Vamos fazer o penteado agora? — Fechei o computador e o coloquei de lado antes de me levantar e pegá-la nos braços. Fomos até o seu quarto, ao lado do quarto de hóspedes, e a coloquei sentada em sua mini penteadeira.
Então eu amarrei seu cabelo em duas partes com um elástico e uma fita azul de cada lado, da mesma cor do vestido que ela usava. Quando terminei, Ayla me entregou um pote de brilho labial rosado para que eu passasse nela.
— Agora sim, uma bonequinha! — Sorri, dando uns últimos ajustes nas mangas bufantes de seu vestido, enquanto ela me encarava com seus olhos cinza enormes.
Quando ela nasceu, eu não esperava aquela cor, mas então me contou que na família dele havia alguns parentes com olhos daquela cor. No fim, acho que ela puxou mais a ele do que a mim, ao menos na aparência. Nós dois sabíamos que Ayla teria um temperamento forte quando adulta, pois, naquela idade, já expressava o que queria com assertividade. Ela havia nascido em 17 de julho, exatamente um ano após e eu reatarmos nosso relacionamento. Felizmente, tive uma gestação tranquila, mas no fim dela e mesmo sabendo de todos os prós de um parto normal, optei por uma cesariana, já que eu não queria passar por aquele tipo de trauma de jeito nenhum.
Ser mãe era assustador na maioria das vezes, mas felizmente eu tinha uma válvula de segurança em casa com tranquilidade suficiente por nós dois. Quando eu surtava, era que segurava as pontas, o que aconteceu com certa frequência no primeiro ano de vida de Ayla.
Felizmente, quase todas as vezes era apenas uma tempestade em um copo d'água.
— Voltei! — apareceu novamente, já vestido em sua fantasia nada criativa de O Fantasma da Ópera. Tudo o que ele precisou fazer foi colocar um smoking e uma máscara.
Contudo, meus olhos não tinham do que reclamar.
— Minha vez — falei e corri para o banheiro. Voltei quarenta minutos depois, vestida com a fantasia de Jenna de De Repente 30.
Eu sei, também não era lá muito criativa, mas eu não tinha tempo para algo mais elaborado e precisava de uma fantasia com maquiagem e penteado fáceis, especialmente quando ainda tínhamos que sair de casa para ir ao local da festa.
— Que linda — disse , segurando minha mão e me fazendo dar uma voltinha. — Vai dançar “Thriller” também?
— Só se você for comigo. — Sorri.
— Quem sabe? Mas agora... Hora da foto em família. — Ele pegou Ayla no colo e fomos até a sala, onde nos sentamos no sofá com nossa garotinha no meio, algo que virou tradição quando decidimos registrar o crescimento dela.
Em seguida, selecionou o tempo na câmera que já havia deixado na mesinha de centro mais cedo e esperamos com um sorriso no rosto. No entanto, nos últimos segundos, resolvi mudar a pose e, pelo visto, nossa filha quis fazer o mesmo.
Sem avisar, puxei pela camisa, beijando-o no rosto, e Ayla colocou as mãozinhas nas bochechas, ainda sorrindo para a câmera.
Um instante depois, tínhamos mais um registro de felicidade.
Fim.
Nota da autora
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