Capítulo 01
encarava seu singelo lar pela última vez por um tempo indeterminado. Durante anos, sonhara em se mudar para a casa da tia avó Lucila, que havia visitado algumas vezes quando criança para eventos de família, mas não naquelas condições. Ainda não conseguia acreditar nas palavras do médico de que, após retornarem de uma visita feita a antigos amigos, seus pais, Mary e Paul , contraíram uma doença contagiosa. E muito pior: por prevenção, e sua irmã mais velha, , iriam para a casa de Lady Pency, sua tia avó.
Doeu não poder se despedir de seus pais, deixando apenas cartas apressadas com o médico da família, que se comprometeu em entregá-las. Não conseguia desprender os olhos de sua querida casa e não estava colaborando nem um pouco com o ajudante de sua tia que viera buscá-las. segurou em seu ombro:
— , querida, temos que ir agora. Eles vão ficar bem.
Mas a irmã mais nova não se mexia. repetiu, mais dura dessa vez, apertando seu ombro de forma mais firme.
— , vamos. Agora.
A jovem finalmente se mexeu e entrou na carruagem. Achava tão injusto que todos os seus sonhos estivessem se realizando em um momento como aquele. Em outro momento, estaria vibrando e tagarelando sobre tudo que visse no caminho, e faria seu máximo para tentar acompanhá-la. Mas, agora, estava desesperada pensando em seus pais.
— — , sempre responsável, tentava tranquilizá-la —, lembre-se que o doutor Plínio nos comunicou de que o pai e a mãe estão com sintomas muito primários, e que isso é mais por nós do que por eles. A chance de recuperação é enorme.
— Mas não 100% — colocou, quebrando seu silêncio, mas se arrependeu na hora.
Das duas, era a mais apegada aos pais e sabia que era quem estava sofrendo mais, só não era tão expressiva. Podia ver que a mais velha das segurava o choro, e abaixou a cabeça, se sentindo culpada por magoá-la.
O resto da viagem foi poupada de novas conversas, e apenas ficou vagando de pensamento em pensamento, lembrando de seus pais, martirizando-se pela fala mal humorada que soltou para a irmã e sentindo uma pequena euforia enterrada no coração ao pensar na mansão Louborne. Todavia, esse último desejo era afogado pela culpa e pela tristeza, fazendo-a se sentir extremamente egoísta.
Depois de algumas horas na carruagem, com Summerside já muito distante, fizeram uma rápida parada em Charlottetown, uma cidade muito maior que a de onde haviam vindo. Mais tarde, pararam em Carmody, uma pequena cidade, já perto de seu destino. Por orientação do médico, ambas tiveram diversas vestimentas queimadas para impedir a contaminação da patologia e tinham agora que encomendar novas. Uma parte de até se sentia empolgada de poder ter tantas roupas novas, mas ainda sentia falta enorme de seu lindo vestido azul de dezoito anos. Preferia não ter nenhuma roupa nova e poder estar em seu lar, com suas coisas e seus pais. Pelo menos, Lucila, mais do que generosa, cobriria todos os gastos.
A porta fez o sino se mexer, e o tilintar anunciou que as irmãs adentraram a loja da sra. Jeannie Pippett, costureira de renome da região.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-las? — Uma senhora já de idade e com olhos gentis apareceu para receber as jovens. presumiu corretamente que fosse a sra. Pippett.
Depois de todas as encomendas e algumas dicas sobre a região, as irmãs partiram. Apesar de terem adorado Jeannie, ambas estavam cansadas depois da viagem e só pensavam em parar um pouco.
Finalmente, quando Linus, o ajudante que Lucila mandara com a carruagem, conduziu-as para fora do veículo, elas se depararam com a casa da tia avó, a mansão Louborne, e um medo misturado com êxtase invadiu o coração de .
A mansão, que ficava ao nordeste de Canvedish, possuía um grande jardim a sua frente, com uma fonte e a entrada da casa enorme. Parecia um palácio de contos de fadas. Enormes e coloridas janelas com sacadas estavam distribuídas pela casa bege de três andares. Com o céu azul de fundo, a vida da mais jovem parecia um pouco mais com um conto de fadas, embora a tragédia assombrasse seus destinos.
A governanta da casa instalou as irmãs em quartos individuais, cada um deles enorme, com penteadeiras, espelhos, quadros e camas grandes e confortáveis, além das lindas sacadas. Essa era, sem dúvida, a melhor parte para , que sempre reclamava da falta destas em sua casa. Além, claro, dos quartos individuais, tão diferentes daquele compartilhado que a esperava em casa.
De volta ao enorme hall da casa, as jovens esperaram a chegada de Lady Lucila Pency. A energia da sala mudou completamente quando a tia apareceu no alto da escada, descendo com elegância que apenas a nobreza conseguia sustentar. A senhora, já com seus 70 anos, não aparentava mais de 50, com distinta beleza, porém certa dureza no olhar.
— Mas que adoráveis jovens as duas se tornaram. — A voz da tia avó ecoou pelo aposento. Ambas fizeram uma leve reverência respeitosa para a tia, na qual já cometeu o primeiro erro e tropeçou de leve. O olhar de Lady Pency se tornou mais duro e ela acrescentou, sem dó: — Talvez não tão adoráveis.
Se fosse dessas jovens que enrubescem, estaria completamente vermelha naquele momento. Por sorte, seu constrangimento não transpareceu e apenas , muito observadora e a pessoa que mais a conhecia em todo o mundo, percebeu.
— Pedimos perdão, tia Lucila. Nos encontramos abaladas com os acontecimentos recentes e, por tal razão, não nos portamos perfeitamente. Rogamos sua compreensão.
Os olhos da sra. Pency, antes tão simpáticos quanto rochas, brilharam ao ouvir as palavras de . Aquela jovem era bonita, jovem, perfeitamente educada e, talvez, uma esperança para sua família e sua herança, contudo, pensaria naquilo mais tarde.
— Acredito que seja , a mais velha. Quantos anos você tem?
— 21, querida tia. E minha jovem irmã completará os seus 19 anos daqui a breves dias.
— Sim, sim, recordo-me que uma das duas aniversariava em maio junto com o meu falecido marido. Acredito que futuramente devemos tomar providências sobre as comemorações.
discretamente cutucou , que ainda estava ofendida. Esta suspirou baixinho e se pronunciou.
— É extrema gentileza sua, tia, oferecer algo assim.
Lucila olhou novamente para , tendo esquecido que ela também falava, tão encantada estava com a sobrinha mais velha.
— Refira-se a mim como Lady Pency, não te ensinaram nada na sociedade de Summerside? — Ela não esperou de fato uma resposta de . — A sra. Taylor, nossa governanta, as convocará para o jantar às seis, portanto, estejam prontas, eu aprecio a pontualidade. Caso desejem banhar-se, chamem algum criado. Não façam muito barulho e não entrem na biblioteca às quatro, pois faço minha meditação nesses momentos — disse, em um tom que claramente dispensava as duas.
, que era considerada barulhenta, atrasada e esquecida, estava logo percebendo que ia se tornar tudo o que a tia não desejava e Lucila, caso irritada, poderia revidar. Sua estadia dos sonhos já não parecia mais tão perfeita.
*•.¸¸.•*´¨`*•.¸¸.•*´⊱✿⊰`*•.¸¸.•*´¨`*•.¸¸.•*
Um pouco a oeste da desolada , encontrava-se o povoado de Avonlea. Eram poucos moradores, mas todos se conheciam. No entanto, por causa disso, a fofoca era muito constante. E a notícia que todos não paravam de compartilhar era o esperadíssimo noivado de Anne Shirley e Roy Gardner. Todos os moradores estavam felizes. Ou quase todos.
Em uma fazenda dos arredores, encontrava-se o solitário Gilbert Blythe. Seu melhor amigo, considerado seu irmão, Sebastian Lacroix (carinhosamente chamado de Bash) estava viajando na sua lua de mel com a antiga professora de Gilbert, a senhorita Stacy.
Ou melhor, senhora Muriel Lacroix, o nome adquirido depois que os dois se permitiram amar de novo, visto que ambos eram viúvos. A bebê Delphine estava com a mãe de Bash, que aparecia todo fim de semana para visitá-lo, pois insistiu que permanecer ali seria um incômodo. E, quando Blythe mais estava precisando de amigos e de sua família, todos estavam longe.
Ele sabia que aquele dia iria chegar. Afinal, sua Anne que, na verdade, era de outro, havia recusado seu pedido de casamento. Então, havia namorado com Roy Gardner por dois anos e, para espanto de ninguém, agora estava noiva dele.
Era óbvio que esse era o curso natural do relacionamento de Anne e Roy. Mas, por tantos anos, Gilbert acreditara que ele e Anne ficariam juntos, algo dentro de si não o permitiu desistir. Então, quando todas as suas esperanças foram despedaçadas e ela escolheu outro, foi difícil vê-la partir.
Nos primeiros dias, não conseguiu apresentar-se no consultório para trabalhar, visto que cada pessoa na rua vinha lhe contar as tão belas notícias. Em uma cidade pequena, duvidava que não soubessem de seu envolvimento com a garota, mas não fez diferença. Ficou surpreso, no entanto, que justamente Rachel Lynde tentou afastá-lo dessas fofocas. Se sentiu grato pelo bondoso gesto, pois sabia do carinho da senhora pela jovem Anne.
Gilbert firmemente tentava, a cada dia, superar aquela que um dia ele achara ser seu amor. Era difícil responder às cartas raras, mas entusiasmadas de Anne. Afinal, ainda era seu amigo e não iria deixar nenhum sentimento egoísta afastar a boa amizade que tinham.
Mesmo um mês tendo passado do ocorrido, cada dia uma notícia nova do casal chegava.
— O arranjo escolhido foi de lírios selvagens! Imagino se a sra. Gardner concordaria. — Ouviu um dia a Sra. Allan contar à sra. Barry.
—Dizem que a irmã dele não usará rosa porque qualquer coisa dessa cor perto da menina ruiva pode desfavorecê-la — cochichou a sra. Monroe para sua cunhada.
— Não há estação mais bonita que a primavera para um casamento! Me pergunto se vão realizar logo a cerimônia porque as flores estão para desabrochar — comentou a avó de Moody Spurgeon.
Por isso, foi uma grande surpresa para ele quando a fofoca da cidade mudou seu foco.
Era um dia de maio e Gilbert estava no consultório, atendendo a sra. Pippett, uma das poucas da região que confiavam já em suas habilidades médicas. Era muito difícil ganhar seu espaço no mercado quando ninguém da sua família tinha essa formação. Ele tinha poucos clientes, mas a sra. Pippett estava entre eles.
— Você soube da nova notícia, doutor Blythe?
Gilbert adorava quando o chamavam assim, porém, nem o adorado título poderia distraí-lo da pontada de dor, o preparando para ouvir mais sobre Anne Shirley.
— Não, sra. Pippett, não soube. Foi a escolha do bolo de casamento de Gardner e Shirley dessa vez? — ele indagou, um pouco impaciente, ao mesmo tempo que tentava se mostrar tranquilo, mas não querendo descontar naquela pobre senhora a sua dor.
— Oh, não, menino bobinho. Essa notícia é passado.
Gilbert ficou perplexo com isso. Uma sensação de alívio, mas também de perda passaram por seu corpo. Jeannie continuou falando.
— Duas jovens se mudaram para a casa de Lady Pency dois dias atrás. Não sou do tipo fofoqueira, mas posso falar disso, pois fui a primeira a ter contato com elas. Moças bonitas e educadas, mas não parecem ser tão ricas quanto Lady Pency. A sra. Lynde me disse que são sobrinhas netas da Lady. Parece que os pais estão doentes e elas tiveram que sair de casa, pois era uma patologia muito contagiosa, pobrezinhas. Talvez o senhor devesse visitá-las, doutor. Talvez lhes dar esperança.
— Vamos esperar um pouco, sra. Pippett. Não sabemos se querem visitas e nem se esses boatos são reais.
— Ah, por mais que eu odeie admitir isso, Rachel Lynde nunca erra, sr. Blythe. Nunca!
Contudo, Gilbert se lembrava de uma vez em que ela havia errado. Uma vez em que Rachel teve certeza absoluta de que ele e Anne logo estariam noivos.
Mas ela disse não.
— Muito bem, senhora, realmente a sua tendinite está mais estável. Mas procure diminuir o ritmo da costura para evitar sentir essas dores muito constantemente. Em casos muito extremos, retorne aqui que eu vejo a necessidade de tomar um pouco de ópio.
— Ah, Gilbert, muito obrigada, querido! Quero dizer, doutor Blythe — ela se corrigiu com uma risadinha, fazendo-o corar. Sentia-se como uma criança. — Boa tarde, meu bem, se quiser um chá ou um café, sabe que pode me procurar!
— Cuide-se, Jeannie, e, ahn, obrigada pelo convite — ele disse, ainda meio constrangido. Era difícil conquistar respeito em uma posição tão prestigiada com apenas 20 anos e com todos de Avonlea e Carmody tendo o visto crescer.
Depois que a sra. Pippett saiu, deixando o consultório vazio, Gilbert se apropriou daqueles instantes para refletir sobre aquele novo boato. Será que todas as notícias de Anne iriam diminuir agora? Isso era bom, certo? Por que, então, sentia que era mais um choque de realidade e que sua querida amiga estava muito mais do que estabelecida com aquele a quem amava?
Não deveria ficar feliz por ela?
Sua cabeça voltou-se um pouco para a notícia das duas jovens, sobrinhas netas da Lady Pency. Aquela mulher estava sempre sozinha. E com muito dinheiro. O que a chegada daquelas duas jovens ia significar?
“Provavelmente, nada” pensou, e, em seguida, a sra. Jeannie retornou para novas dúvidas, como sempre.
Doeu não poder se despedir de seus pais, deixando apenas cartas apressadas com o médico da família, que se comprometeu em entregá-las. Não conseguia desprender os olhos de sua querida casa e não estava colaborando nem um pouco com o ajudante de sua tia que viera buscá-las. segurou em seu ombro:
— , querida, temos que ir agora. Eles vão ficar bem.
Mas a irmã mais nova não se mexia. repetiu, mais dura dessa vez, apertando seu ombro de forma mais firme.
— , vamos. Agora.
A jovem finalmente se mexeu e entrou na carruagem. Achava tão injusto que todos os seus sonhos estivessem se realizando em um momento como aquele. Em outro momento, estaria vibrando e tagarelando sobre tudo que visse no caminho, e faria seu máximo para tentar acompanhá-la. Mas, agora, estava desesperada pensando em seus pais.
— — , sempre responsável, tentava tranquilizá-la —, lembre-se que o doutor Plínio nos comunicou de que o pai e a mãe estão com sintomas muito primários, e que isso é mais por nós do que por eles. A chance de recuperação é enorme.
— Mas não 100% — colocou, quebrando seu silêncio, mas se arrependeu na hora.
Das duas, era a mais apegada aos pais e sabia que era quem estava sofrendo mais, só não era tão expressiva. Podia ver que a mais velha das segurava o choro, e abaixou a cabeça, se sentindo culpada por magoá-la.
O resto da viagem foi poupada de novas conversas, e apenas ficou vagando de pensamento em pensamento, lembrando de seus pais, martirizando-se pela fala mal humorada que soltou para a irmã e sentindo uma pequena euforia enterrada no coração ao pensar na mansão Louborne. Todavia, esse último desejo era afogado pela culpa e pela tristeza, fazendo-a se sentir extremamente egoísta.
Depois de algumas horas na carruagem, com Summerside já muito distante, fizeram uma rápida parada em Charlottetown, uma cidade muito maior que a de onde haviam vindo. Mais tarde, pararam em Carmody, uma pequena cidade, já perto de seu destino. Por orientação do médico, ambas tiveram diversas vestimentas queimadas para impedir a contaminação da patologia e tinham agora que encomendar novas. Uma parte de até se sentia empolgada de poder ter tantas roupas novas, mas ainda sentia falta enorme de seu lindo vestido azul de dezoito anos. Preferia não ter nenhuma roupa nova e poder estar em seu lar, com suas coisas e seus pais. Pelo menos, Lucila, mais do que generosa, cobriria todos os gastos.
A porta fez o sino se mexer, e o tilintar anunciou que as irmãs adentraram a loja da sra. Jeannie Pippett, costureira de renome da região.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-las? — Uma senhora já de idade e com olhos gentis apareceu para receber as jovens. presumiu corretamente que fosse a sra. Pippett.
Depois de todas as encomendas e algumas dicas sobre a região, as irmãs partiram. Apesar de terem adorado Jeannie, ambas estavam cansadas depois da viagem e só pensavam em parar um pouco.
Finalmente, quando Linus, o ajudante que Lucila mandara com a carruagem, conduziu-as para fora do veículo, elas se depararam com a casa da tia avó, a mansão Louborne, e um medo misturado com êxtase invadiu o coração de .
A mansão, que ficava ao nordeste de Canvedish, possuía um grande jardim a sua frente, com uma fonte e a entrada da casa enorme. Parecia um palácio de contos de fadas. Enormes e coloridas janelas com sacadas estavam distribuídas pela casa bege de três andares. Com o céu azul de fundo, a vida da mais jovem parecia um pouco mais com um conto de fadas, embora a tragédia assombrasse seus destinos.
A governanta da casa instalou as irmãs em quartos individuais, cada um deles enorme, com penteadeiras, espelhos, quadros e camas grandes e confortáveis, além das lindas sacadas. Essa era, sem dúvida, a melhor parte para , que sempre reclamava da falta destas em sua casa. Além, claro, dos quartos individuais, tão diferentes daquele compartilhado que a esperava em casa.
De volta ao enorme hall da casa, as jovens esperaram a chegada de Lady Lucila Pency. A energia da sala mudou completamente quando a tia apareceu no alto da escada, descendo com elegância que apenas a nobreza conseguia sustentar. A senhora, já com seus 70 anos, não aparentava mais de 50, com distinta beleza, porém certa dureza no olhar.
— Mas que adoráveis jovens as duas se tornaram. — A voz da tia avó ecoou pelo aposento. Ambas fizeram uma leve reverência respeitosa para a tia, na qual já cometeu o primeiro erro e tropeçou de leve. O olhar de Lady Pency se tornou mais duro e ela acrescentou, sem dó: — Talvez não tão adoráveis.
Se fosse dessas jovens que enrubescem, estaria completamente vermelha naquele momento. Por sorte, seu constrangimento não transpareceu e apenas , muito observadora e a pessoa que mais a conhecia em todo o mundo, percebeu.
— Pedimos perdão, tia Lucila. Nos encontramos abaladas com os acontecimentos recentes e, por tal razão, não nos portamos perfeitamente. Rogamos sua compreensão.
Os olhos da sra. Pency, antes tão simpáticos quanto rochas, brilharam ao ouvir as palavras de . Aquela jovem era bonita, jovem, perfeitamente educada e, talvez, uma esperança para sua família e sua herança, contudo, pensaria naquilo mais tarde.
— Acredito que seja , a mais velha. Quantos anos você tem?
— 21, querida tia. E minha jovem irmã completará os seus 19 anos daqui a breves dias.
— Sim, sim, recordo-me que uma das duas aniversariava em maio junto com o meu falecido marido. Acredito que futuramente devemos tomar providências sobre as comemorações.
discretamente cutucou , que ainda estava ofendida. Esta suspirou baixinho e se pronunciou.
— É extrema gentileza sua, tia, oferecer algo assim.
Lucila olhou novamente para , tendo esquecido que ela também falava, tão encantada estava com a sobrinha mais velha.
— Refira-se a mim como Lady Pency, não te ensinaram nada na sociedade de Summerside? — Ela não esperou de fato uma resposta de . — A sra. Taylor, nossa governanta, as convocará para o jantar às seis, portanto, estejam prontas, eu aprecio a pontualidade. Caso desejem banhar-se, chamem algum criado. Não façam muito barulho e não entrem na biblioteca às quatro, pois faço minha meditação nesses momentos — disse, em um tom que claramente dispensava as duas.
, que era considerada barulhenta, atrasada e esquecida, estava logo percebendo que ia se tornar tudo o que a tia não desejava e Lucila, caso irritada, poderia revidar. Sua estadia dos sonhos já não parecia mais tão perfeita.
*•.¸¸.•*´¨`*•.¸¸.•*´⊱✿⊰`*•.¸¸.•*´¨`*•.¸¸.•*
Um pouco a oeste da desolada , encontrava-se o povoado de Avonlea. Eram poucos moradores, mas todos se conheciam. No entanto, por causa disso, a fofoca era muito constante. E a notícia que todos não paravam de compartilhar era o esperadíssimo noivado de Anne Shirley e Roy Gardner. Todos os moradores estavam felizes. Ou quase todos.
Em uma fazenda dos arredores, encontrava-se o solitário Gilbert Blythe. Seu melhor amigo, considerado seu irmão, Sebastian Lacroix (carinhosamente chamado de Bash) estava viajando na sua lua de mel com a antiga professora de Gilbert, a senhorita Stacy.
Ou melhor, senhora Muriel Lacroix, o nome adquirido depois que os dois se permitiram amar de novo, visto que ambos eram viúvos. A bebê Delphine estava com a mãe de Bash, que aparecia todo fim de semana para visitá-lo, pois insistiu que permanecer ali seria um incômodo. E, quando Blythe mais estava precisando de amigos e de sua família, todos estavam longe.
Ele sabia que aquele dia iria chegar. Afinal, sua Anne que, na verdade, era de outro, havia recusado seu pedido de casamento. Então, havia namorado com Roy Gardner por dois anos e, para espanto de ninguém, agora estava noiva dele.
Era óbvio que esse era o curso natural do relacionamento de Anne e Roy. Mas, por tantos anos, Gilbert acreditara que ele e Anne ficariam juntos, algo dentro de si não o permitiu desistir. Então, quando todas as suas esperanças foram despedaçadas e ela escolheu outro, foi difícil vê-la partir.
Nos primeiros dias, não conseguiu apresentar-se no consultório para trabalhar, visto que cada pessoa na rua vinha lhe contar as tão belas notícias. Em uma cidade pequena, duvidava que não soubessem de seu envolvimento com a garota, mas não fez diferença. Ficou surpreso, no entanto, que justamente Rachel Lynde tentou afastá-lo dessas fofocas. Se sentiu grato pelo bondoso gesto, pois sabia do carinho da senhora pela jovem Anne.
Gilbert firmemente tentava, a cada dia, superar aquela que um dia ele achara ser seu amor. Era difícil responder às cartas raras, mas entusiasmadas de Anne. Afinal, ainda era seu amigo e não iria deixar nenhum sentimento egoísta afastar a boa amizade que tinham.
Mesmo um mês tendo passado do ocorrido, cada dia uma notícia nova do casal chegava.
— O arranjo escolhido foi de lírios selvagens! Imagino se a sra. Gardner concordaria. — Ouviu um dia a Sra. Allan contar à sra. Barry.
—Dizem que a irmã dele não usará rosa porque qualquer coisa dessa cor perto da menina ruiva pode desfavorecê-la — cochichou a sra. Monroe para sua cunhada.
— Não há estação mais bonita que a primavera para um casamento! Me pergunto se vão realizar logo a cerimônia porque as flores estão para desabrochar — comentou a avó de Moody Spurgeon.
Por isso, foi uma grande surpresa para ele quando a fofoca da cidade mudou seu foco.
Era um dia de maio e Gilbert estava no consultório, atendendo a sra. Pippett, uma das poucas da região que confiavam já em suas habilidades médicas. Era muito difícil ganhar seu espaço no mercado quando ninguém da sua família tinha essa formação. Ele tinha poucos clientes, mas a sra. Pippett estava entre eles.
— Você soube da nova notícia, doutor Blythe?
Gilbert adorava quando o chamavam assim, porém, nem o adorado título poderia distraí-lo da pontada de dor, o preparando para ouvir mais sobre Anne Shirley.
— Não, sra. Pippett, não soube. Foi a escolha do bolo de casamento de Gardner e Shirley dessa vez? — ele indagou, um pouco impaciente, ao mesmo tempo que tentava se mostrar tranquilo, mas não querendo descontar naquela pobre senhora a sua dor.
— Oh, não, menino bobinho. Essa notícia é passado.
Gilbert ficou perplexo com isso. Uma sensação de alívio, mas também de perda passaram por seu corpo. Jeannie continuou falando.
— Duas jovens se mudaram para a casa de Lady Pency dois dias atrás. Não sou do tipo fofoqueira, mas posso falar disso, pois fui a primeira a ter contato com elas. Moças bonitas e educadas, mas não parecem ser tão ricas quanto Lady Pency. A sra. Lynde me disse que são sobrinhas netas da Lady. Parece que os pais estão doentes e elas tiveram que sair de casa, pois era uma patologia muito contagiosa, pobrezinhas. Talvez o senhor devesse visitá-las, doutor. Talvez lhes dar esperança.
— Vamos esperar um pouco, sra. Pippett. Não sabemos se querem visitas e nem se esses boatos são reais.
— Ah, por mais que eu odeie admitir isso, Rachel Lynde nunca erra, sr. Blythe. Nunca!
Contudo, Gilbert se lembrava de uma vez em que ela havia errado. Uma vez em que Rachel teve certeza absoluta de que ele e Anne logo estariam noivos.
Mas ela disse não.
— Muito bem, senhora, realmente a sua tendinite está mais estável. Mas procure diminuir o ritmo da costura para evitar sentir essas dores muito constantemente. Em casos muito extremos, retorne aqui que eu vejo a necessidade de tomar um pouco de ópio.
— Ah, Gilbert, muito obrigada, querido! Quero dizer, doutor Blythe — ela se corrigiu com uma risadinha, fazendo-o corar. Sentia-se como uma criança. — Boa tarde, meu bem, se quiser um chá ou um café, sabe que pode me procurar!
— Cuide-se, Jeannie, e, ahn, obrigada pelo convite — ele disse, ainda meio constrangido. Era difícil conquistar respeito em uma posição tão prestigiada com apenas 20 anos e com todos de Avonlea e Carmody tendo o visto crescer.
Depois que a sra. Pippett saiu, deixando o consultório vazio, Gilbert se apropriou daqueles instantes para refletir sobre aquele novo boato. Será que todas as notícias de Anne iriam diminuir agora? Isso era bom, certo? Por que, então, sentia que era mais um choque de realidade e que sua querida amiga estava muito mais do que estabelecida com aquele a quem amava?
Não deveria ficar feliz por ela?
Sua cabeça voltou-se um pouco para a notícia das duas jovens, sobrinhas netas da Lady Pency. Aquela mulher estava sempre sozinha. E com muito dinheiro. O que a chegada daquelas duas jovens ia significar?
“Provavelmente, nada” pensou, e, em seguida, a sra. Jeannie retornou para novas dúvidas, como sempre.