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Revisada por: Júpiter

Última Atualização: 12/12/2025


encarava seu singelo lar pela última vez por um tempo indeterminado. Durante anos, sonhara em se mudar para a casa da tia avó Lucila, que havia visitado algumas vezes quando criança para eventos de família, mas não naquelas condições. Ainda não conseguia acreditar nas palavras do médico de que, após retornarem de uma visita feita a antigos amigos, seus pais, Mary e Paul , contraíram uma doença contagiosa. E muito pior: por prevenção, e sua irmã mais velha, , iriam para a casa de Lady Pency, sua tia avó.
Doeu não poder se despedir de seus pais, deixando apenas cartas apressadas com o médico da família, que se comprometeu em entregá-las. Não conseguia desprender os olhos de sua querida casa e não estava colaborando nem um pouco com o ajudante de sua tia que viera buscá-las. segurou em seu ombro:
, querida, temos que ir agora. Eles vão ficar bem.
Mas a irmã mais nova não se mexia. repetiu, mais dura dessa vez, apertando seu ombro de forma mais firme.
, vamos. Agora.
A jovem finalmente se mexeu e entrou na carruagem. Achava tão injusto que todos os seus sonhos estivessem se realizando em um momento como aquele. Em outro momento, estaria vibrando e tagarelando sobre tudo que visse no caminho, e faria seu máximo para tentar acompanhá-la. Mas, agora, estava desesperada pensando em seus pais.
, sempre responsável, tentava tranquilizá-la —, lembre-se que o doutor Plínio nos comunicou de que o pai e a mãe estão com sintomas muito primários, e que isso é mais por nós do que por eles. A chance de recuperação é enorme.
— Mas não 100% — colocou, quebrando seu silêncio, mas se arrependeu na hora.
Das duas, era a mais apegada aos pais e sabia que era quem estava sofrendo mais, só não era tão expressiva. Podia ver que a mais velha das segurava o choro, e abaixou a cabeça, se sentindo culpada por magoá-la.
O resto da viagem foi poupada de novas conversas, e apenas ficou vagando de pensamento em pensamento, lembrando de seus pais, martirizando-se pela fala mal humorada que soltou para a irmã e sentindo uma pequena euforia enterrada no coração ao pensar na mansão Louborne. Todavia, esse último desejo era afogado pela culpa e pela tristeza, fazendo-a se sentir extremamente egoísta.
Depois de algumas horas na carruagem, com Summerside já muito distante, fizeram uma rápida parada em Charlottetown, uma cidade muito maior que a de onde haviam vindo. Mais tarde, pararam em Carmody, uma pequena cidade, já perto de seu destino. Por orientação do médico, ambas tiveram diversas vestimentas queimadas para impedir a contaminação da patologia e tinham agora que encomendar novas. Uma parte de até se sentia empolgada de poder ter tantas roupas novas, mas ainda sentia falta enorme de seu lindo vestido azul de dezoito anos. Preferia não ter nenhuma roupa nova e poder estar em seu lar, com suas coisas e seus pais. Pelo menos, Lucila, mais do que generosa, cobriria todos os gastos.
A porta fez o sino se mexer, e o tilintar anunciou que as irmãs adentraram a loja da sra. Jeannie Pippett, costureira de renome da região.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-las? — Uma senhora já de idade e com olhos gentis apareceu para receber as jovens. presumiu corretamente que fosse a sra. Pippett.
Depois de todas as encomendas e algumas dicas sobre a região, as irmãs partiram. Apesar de terem adorado Jeannie, ambas estavam cansadas depois da viagem e só pensavam em parar um pouco.
Finalmente, quando Linus, o ajudante que Lucila mandara com a carruagem, conduziu-as para fora do veículo, elas se depararam com a casa da tia avó, a mansão Louborne, e um medo misturado com êxtase invadiu o coração de .
A mansão, que ficava ao nordeste de Canvedish, possuía um grande jardim a sua frente, com uma fonte e a entrada da casa enorme. Parecia um palácio de contos de fadas. Enormes e coloridas janelas com sacadas estavam distribuídas pela casa bege de três andares. Com o céu azul de fundo, a vida da mais jovem parecia um pouco mais com um conto de fadas, embora a tragédia assombrasse seus destinos.
A governanta da casa instalou as irmãs em quartos individuais, cada um deles enorme, com penteadeiras, espelhos, quadros e camas grandes e confortáveis, além das lindas sacadas. Essa era, sem dúvida, a melhor parte para , que sempre reclamava da falta destas em sua casa. Além, claro, dos quartos individuais, tão diferentes daquele compartilhado que a esperava em casa.
De volta ao enorme hall da casa, as jovens esperaram a chegada de Lady Lucila Pency. A energia da sala mudou completamente quando a tia apareceu no alto da escada, descendo com elegância que apenas a nobreza conseguia sustentar. A senhora, já com seus 70 anos, não aparentava mais de 50, com distinta beleza, porém certa dureza no olhar.
— Mas que adoráveis jovens as duas se tornaram. — A voz da tia avó ecoou pelo aposento. Ambas fizeram uma leve reverência respeitosa para a tia, na qual já cometeu o primeiro erro e tropeçou de leve. O olhar de Lady Pency se tornou mais duro e ela acrescentou, sem dó: — Talvez não tão adoráveis.
Se fosse dessas jovens que enrubescem, estaria completamente vermelha naquele momento. Por sorte, seu constrangimento não transpareceu e apenas , muito observadora e a pessoa que mais a conhecia em todo o mundo, percebeu.
— Pedimos perdão, tia Lucila. Nos encontramos abaladas com os acontecimentos recentes e, por tal razão, não nos portamos perfeitamente. Rogamos sua compreensão.
Os olhos da sra. Pency, antes tão simpáticos quanto rochas, brilharam ao ouvir as palavras de . Aquela jovem era bonita, jovem, perfeitamente educada e, talvez, uma esperança para sua família e sua herança, contudo, pensaria naquilo mais tarde.
— Acredito que seja , a mais velha. Quantos anos você tem?
— 21, querida tia. E minha jovem irmã completará os seus 19 anos daqui a breves dias.
— Sim, sim, recordo-me que uma das duas aniversariava em maio junto com o meu falecido marido. Acredito que futuramente devemos tomar providências sobre as comemorações.
discretamente cutucou , que ainda estava ofendida. Esta suspirou baixinho e se pronunciou.
— É extrema gentileza sua, tia, oferecer algo assim.
Lucila olhou novamente para , tendo esquecido que ela também falava, tão encantada estava com a sobrinha mais velha.
— Refira-se a mim como Lady Pency, não te ensinaram nada na sociedade de Summerside? — Ela não esperou de fato uma resposta de . — A sra. Taylor, nossa governanta, as convocará para o jantar às seis, portanto, estejam prontas, eu aprecio a pontualidade. Caso desejem banhar-se, chamem algum criado. Não façam muito barulho e não entrem na biblioteca às quatro, pois faço minha meditação nesses momentos — disse, em um tom que claramente dispensava as duas.
, que era considerada barulhenta, atrasada e esquecida, estava logo percebendo que ia se tornar tudo o que a tia não desejava e Lucila, caso irritada, poderia revidar. Sua estadia dos sonhos já não parecia mais tão perfeita.

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Um pouco a oeste da desolada , encontrava-se o povoado de Avonlea. Eram poucos moradores, mas todos se conheciam. No entanto, por causa disso, a fofoca era muito constante. E a notícia que todos não paravam de compartilhar era o esperadíssimo noivado de Anne Shirley e Roy Gardner. Todos os moradores estavam felizes. Ou quase todos.
Em uma fazenda dos arredores, encontrava-se o solitário Gilbert Blythe. Seu melhor amigo, considerado seu irmão, Sebastian Lacroix (carinhosamente chamado de Bash) estava viajando na sua lua de mel com a antiga professora de Gilbert, a senhorita Stacy.
Ou melhor, senhora Muriel Lacroix, o nome adquirido depois que os dois se permitiram amar de novo, visto que ambos eram viúvos. A bebê Delphine estava com a mãe de Bash, que aparecia todo fim de semana para visitá-lo, pois insistiu que permanecer ali seria um incômodo. E, quando Blythe mais estava precisando de amigos e de sua família, todos estavam longe.
Ele sabia que aquele dia iria chegar. Afinal, sua Anne que, na verdade, era de outro, havia recusado seu pedido de casamento. Então, havia namorado com Roy Gardner por dois anos e, para espanto de ninguém, agora estava noiva dele.
Era óbvio que esse era o curso natural do relacionamento de Anne e Roy. Mas, por tantos anos, Gilbert acreditara que ele e Anne ficariam juntos, algo dentro de si não o permitiu desistir. Então, quando todas as suas esperanças foram despedaçadas e ela escolheu outro, foi difícil vê-la partir.
Nos primeiros dias, não conseguiu apresentar-se no consultório para trabalhar, visto que cada pessoa na rua vinha lhe contar as tão belas notícias. Em uma cidade pequena, duvidava que não soubessem de seu envolvimento com a garota, mas não fez diferença. Ficou surpreso, no entanto, que justamente Rachel Lynde tentou afastá-lo dessas fofocas. Se sentiu grato pelo bondoso gesto, pois sabia do carinho da senhora pela jovem Anne.
Gilbert firmemente tentava, a cada dia, superar aquela que um dia ele achara ser seu amor. Era difícil responder às cartas raras, mas entusiasmadas de Anne. Afinal, ainda era seu amigo e não iria deixar nenhum sentimento egoísta afastar a boa amizade que tinham.
Mesmo um mês tendo passado do ocorrido, cada dia uma notícia nova do casal chegava.
— O arranjo escolhido foi de lírios selvagens! Imagino se a sra. Gardner concordaria. — Ouviu um dia a Sra. Allan contar à sra. Barry.
—Dizem que a irmã dele não usará rosa porque qualquer coisa dessa cor perto da menina ruiva pode desfavorecê-la — cochichou a sra. Monroe para sua cunhada.
— Não há estação mais bonita que a primavera para um casamento! Me pergunto se vão realizar logo a cerimônia porque as flores estão para desabrochar — comentou a avó de Moody Spurgeon.
Por isso, foi uma grande surpresa para ele quando a fofoca da cidade mudou seu foco.
Era um dia de maio e Gilbert estava no consultório, atendendo a sra. Pippett, uma das poucas da região que confiavam já em suas habilidades médicas. Era muito difícil ganhar seu espaço no mercado quando ninguém da sua família tinha essa formação. Ele tinha poucos clientes, mas a sra. Pippett estava entre eles.
— Você soube da nova notícia, doutor Blythe?
Gilbert adorava quando o chamavam assim, porém, nem o adorado título poderia distraí-lo da pontada de dor, o preparando para ouvir mais sobre Anne Shirley.
— Não, sra. Pippett, não soube. Foi a escolha do bolo de casamento de Gardner e Shirley dessa vez? — ele indagou, um pouco impaciente, ao mesmo tempo que tentava se mostrar tranquilo, mas não querendo descontar naquela pobre senhora a sua dor.
— Oh, não, menino bobinho. Essa notícia é passado.
Gilbert ficou perplexo com isso. Uma sensação de alívio, mas também de perda passaram por seu corpo. Jeannie continuou falando.
— Duas jovens se mudaram para a casa de Lady Pency dois dias atrás. Não sou do tipo fofoqueira, mas posso falar disso, pois fui a primeira a ter contato com elas. Moças bonitas e educadas, mas não parecem ser tão ricas quanto Lady Pency. A sra. Lynde me disse que são sobrinhas netas da Lady. Parece que os pais estão doentes e elas tiveram que sair de casa, pois era uma patologia muito contagiosa, pobrezinhas. Talvez o senhor devesse visitá-las, doutor. Talvez lhes dar esperança.
— Vamos esperar um pouco, sra. Pippett. Não sabemos se querem visitas e nem se esses boatos são reais.
— Ah, por mais que eu odeie admitir isso, Rachel Lynde nunca erra, sr. Blythe. Nunca!
Contudo, Gilbert se lembrava de uma vez em que ela havia errado. Uma vez em que Rachel teve certeza absoluta de que ele e Anne logo estariam noivos.
Mas ela disse não.
— Muito bem, senhora, realmente a sua tendinite está mais estável. Mas procure diminuir o ritmo da costura para evitar sentir essas dores muito constantemente. Em casos muito extremos, retorne aqui que eu vejo a necessidade de tomar um pouco de ópio.
— Ah, Gilbert, muito obrigada, querido! Quero dizer, doutor Blythe — ela se corrigiu com uma risadinha, fazendo-o corar. Sentia-se como uma criança. — Boa tarde, meu bem, se quiser um chá ou um café, sabe que pode me procurar!
— Cuide-se, Jeannie, e, ahn, obrigada pelo convite — ele disse, ainda meio constrangido. Era difícil conquistar respeito em uma posição tão prestigiada com apenas 20 anos e com todos de Avonlea e Carmody tendo o visto crescer.
Depois que a sra. Pippett saiu, deixando o consultório vazio, Gilbert se apropriou daqueles instantes para refletir sobre aquele novo boato. Será que todas as notícias de Anne iriam diminuir agora? Isso era bom, certo? Por que, então, sentia que era mais um choque de realidade e que sua querida amiga estava muito mais do que estabelecida com aquele a quem amava?
Não deveria ficar feliz por ela?
Sua cabeça voltou-se um pouco para a notícia das duas jovens, sobrinhas netas da Lady Pency. Aquela mulher estava sempre sozinha. E com muito dinheiro. O que a chegada daquelas duas jovens ia significar?
“Provavelmente, nada” pensou, e, em seguida, a sra. Jeannie retornou para novas dúvidas, como sempre.




Os primeiros dias na casa de Lady Pency foram melhores do que esperava.
Ajudou bastante que sua tia só tivesse olhos para sua irmã.
Durante a vida das duas irmãs, algo sempre fora claro. Enquanto era mais cativante e enérgica, era como uma princesa. Linda, educada, sabia o seu lugar e como encantar a todos ao seu redor. sempre quis ser igual a ela, porém um dia ela simplesmente percebeu que nunca seria possível.
Mais de uma vez, a caçula havia sentido inveja de sua irmã por ser o perfeito exemplo de como uma moça deveria se portar. Mas, naqueles dias, apesar de claramente querer que a tia também gostasse dela, pelo menos havia conseguido uma liberdade provisória.
Rodou a casa umas três vezes, tentando ver do que se lembrava, do que não se lembrava e o que havia mudado. Visitou os cavalos da propriedade que, quando pequena, sonhava em montar. Sentou-se na fonte e refrescou o rosto no jardim. Avistou um antigo balanço de madeira, que o pai implorara à tia para montar para elas. Para alguém que foi tão resistente a isso, se surpreendeu que Lucila tivesse mantido aquele brinquedo.
Os jantares, por sua vez, não eram muito interessantes. Se resumiam em:
, você por acaso tem algum pretendente em Summerside?
— Não, Lady Pency, tive um pedido, porém não achei o jovem muito adequado nem muito de meu interesse.
, querida, me chame de tia Lucila. E, para você, o que seria um jovem adequado?
— Um jovem que pensa no futuro, na família e, principalmente, sabe aproveitar oportunidades. Que saiba ser gentil em casa e firme no trabalho. Um homem por quem sua mulher de tudo faria.
— a tia às vezes lhe dirigia a palavra, quebrando a esperança de uma noite de paz —, a comida não irá fugir de seu prato. Poderia, por favor, se comportar?
Não bastassem os jantares, depois de uma semana na casa, Lady Pency lhes informou que elas iriam à Carmody buscar os vestidos que haviam encomendado.
tinha que controlar sua cara sempre que Lucila ia apresentar aos novos vizinhos e se esquecia dela, causando desconforto entre os outros que não sabiam se deviam perguntar da terceira pessoa no canto. Por sorte, ou por azar, não esquecia da irmã, a apresentando com todo carinho, quebrando um pouco sua irritação. Todavia, isso sempre acabava com todos elogiando a doçura e a educação da mais velha.
Chegando à loja, o humor de piorou quando a tia começou a reclamar dos lindos trabalhos da sra. Pippett.
— Estão muito simples. Como espera que Charlottetown, Carmody e Canvedish vejam minha querida sobrinha? Ela precisa estar apresentável.
— Acho que a senhora quis dizer sobrinhas, madame — Jeannie colocou, constrangida, ao perceber as caretas de .
— Mais alguma correção? — A Lady mandou um olhar frio para a costureira. — Muito bem. O que realmente precisamos acertar são esses vestidos. Elas podem levar um do jeito que está para caso precisem de algo muito simples. Mas precisamos da moda atual estampada em cada um deles.
— Tudo bem, Lady Pency. Acredito que esses ajustes levarão mais uma semana.
— Uma semana?! E estará vestindo trapos até lá?
— Sinto muito, Lady Pency, porém minha ajudante está ocupada com outros projetos e eu estou debilitada, não posso trabalhar muito tempo por dia.
estava já de saco cheio e sussurrou para :
— Vou procurar alguns selos, para podermos escrever para papai e mamãe.
A irmã mais velha, compreensiva, assentiu e, enquanto a caçula saía, assumiu a discussão e convenceu a tia a esperar aquele prazo.
estava furiosa. Mesmo com todas as diferenças entre ela e sua irmã perfeita, nunca fora tratada tão mal em sua vida. Seus pais, às vezes, deixavam escapar comparações que a magoavam, mas sempre evitavam fazer isso e a tratavam com muito amor, fazendo-a se sentir especial do jeito que era. Estava com tantas saudades deles, tão irritada com o jeito que estava sendo tratada e com a cena que a sra. Pippett fora submetida que, sem perceber, algumas lágrimas começaram a rolar em seu rosto.
Distraída pelas lágrimas que a pegaram de surpresa e pela angústia que a abatia, a jovem não percebeu que uma carruagem estava vindo em sua direção. E não teria percebido se alguém não a tivesse puxado no último segundo.
— Cuidado!
ficou assustada e caiu no chão, ao lado de seu salvador. De repente, estava cercada de pessoas.
— É aquela menina de hoje mais cedo? A outra sobrinha de Lady Pency?
— Será que nunca esteve em uma cidade? Que sorte ela teve de o jovem Blythe estar atento.
— Ei, menina, tome mais cuidado, se minha carruagem quebrasse, já era para você! Isso se não morresse no acidente.
Morrer?, pensou, engolindo em seco.
— Com licença a todos, eu vou levar a jovem comigo para ser examinada.
, que parecia prestes a desmaiar, tentou focar o olhar na voz abafada que ouviu, mas tudo estava turvo.
— Eu... — ela se esforçou para dizer — não posso... ir com estranhos... Minha irmã...
Porém, sem mais forças, desmaiou nos braços do estranho de quem queria fugir.

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Gilbert Blythe estava intrigado com aquela menina. Deitada inconsciente no seu consultório há quinze minutos desde o acidente, ele começava a se preocupar. Tirá-la da rua foi um transtorno, pois, além de ter que carregá-la (por sorte, estava perto do trabalho), as pessoas não saíam de cima. Aparentemente, além de quase ter sofrido um acidente e ter desmaiado, a jovem dama era sobrinha de Lady Pency.
Desde que Mary, antiga esposa de Bash, morreu aos seus cuidados, Gilbert tinha medo de não ser um bom médico. Então, mesmo que tudo indicasse apenas uma queda de pressão por susto, Blythe estava apavorado. Por causa disso, observava a estranha deitada no seu consultório a seus cuidados.
Cabelos castanhos caíam em ondas pela almofada do sofá e seu vestido verde claro se estendia pelo móvel. Tinha um rosto adorável e poderia até ser considerada atraente, se não estivesse com a boca ligeiramente aberta e babando.
A cada minuto, ansioso, ele analisava as três pintas no lado direito do rosto da jovem. Estava tão absorto, que levou um pequeno susto quando a jovem abriu os olhos, mas logo já estava analisando o estado da moça, que tentou se levantar rápido, de modo que ficou tonta novamente.
— Senhorita Pency, sente-se, por gentileza. Gostaria de conferir sua pressão.
—Não.
Gilbert franziu as sobrancelhas.
— Mas eu sou médico. Preciso fazer isso. É o procedimento padrão.
— Não. Não sou Pency, sou . Sou . Mas também “não” aos procedimentos. Devo me retirar. Minha irmã deve estar preocupada. — Ela tentou novamente se levantar e, novamente, as pernas fraquejaram. — Droga. Que fique claro que eu não desmaio nunca. E eu estou perfeitamente bem.
— Senhorita...
— O quê? Vai me informar de que eu fui uma completa desatenta e tola, doutor? Esse diagnóstico é extremamente óbvio.
O jovem médico se assustou um pouco com a reação da dama, no entanto, distraiu-se com uma pequena mecha de cabelo que ficou grudada na baba do canto de sua boca. Automaticamente, afastou aqueles fios, roçando de leve no rosto de . Só então percebeu a sua invasão e seu desleixo, corando violentamente e tentando disfarçar. Ambos ficaram sem reação, o que tornou o momento excelente para a entrada de .
! ! Você está bem? — A irmã estava realmente preocupada, uma pequena quebra da sua geral calma e perfeita compostura.
Gilbert se afastou, enquanto as duas se abraçavam.
— Estou, . Era justamente isso que eu estava explicando ao doutor... Ahn, perdão, e o seu nome seria...?
— Doutor Blythe. Gilbert Blythe.
— Pois bem, ao doutor Blythe que eu estava perfeitamente bem.
— Sem querer soar arrogante, senhorita, mas depois de afirmar isso, a senhorita já quase desmaiou mais duas vezes e continua fraca. Permita-me garantir que você está bem, senhorita .
— Ela não está colaborando? — lançou à um olhar que o jovem médico presumiu ser bem comum. — Vamos, faça logo. Tia Lucila já foi embora de carruagem com os vestidos, então devemos alugar uma carruagem, não podemos voltar tarde. Ah, e creio que não fomos apresentados. Sou , irmã mais velha de , que vai fazer os exames agora.
— Está bem — disse, finalmente rendida.
Após alguns momentos de análise, Gilbert pôde conferir que realmente houve uma baixa na pressão, que logo se normalizou. Enquanto isso, a jovem contava à irmã sobre o quase acidente, embora nem , nem Gilbert, tivessem acreditado na desculpa de que ela se distraiu com um pássaro. Afinal, marcas de lágrimas ainda residiam em seu rosto. Porém, depois de se comportar tão mal, ele não comentou nada sobre o assunto.
— Procure ficar de repouso o resto do dia, beber bastante líquido e comer bem, especialmente algo mais salgado. Caso sinta algum mal-estar, pode retornar ou mandar alguém de sua casa me chamar.
— Casa de Lady Pency — ela corrigiu, muito formal.
— Exato. Peço perdão se lhe ofendi em algum momento de nossa consulta e espero encarecidamente que preste maior atenção às ruas. — Ele levantou uma sobrancelha, avaliando aquela nova jovem que estava quebrando suas expectativas como sobrinha-neta de uma Lady bem afortunada.
Eles trocaram um breve olhar, antes que a mais velha o agradecesse e se despedisse, alegando que logo o sol iria se pôr.
— Tenha uma excelente tarde, doutor Blythe. Sou profundamente grata por salvar a vida da minha irmã e providenciar-lhe conforto durante um momento frágil, além de atendê-la.
— Não há de quê, senhorita . Este é apenas o meu trabalho. E digo apenas que foi um prazer conhecê-las e espero vê-las mais pela região, mas, de preferência, não em meu consultório, sem ofensas.
riu e esboçou um sorriso perante aquela cortesia.
— Obrigada mais uma vez por tudo, embora eu já estivesse bem desde o início, e entenda: eu não desmaio. Mas, de qualquer jeito, obrigada por não me deixar ser esmagada por uma carruagem — ela desatou a falar, forçando uma risada no final e saindo apressada, sem dar ao Gilbert tempo de processar aquilo.
Na carruagem, no colo da irmã, , enfim, chorou todo o medo que sentiu naquela tarde, na qual algo sério poderia ter acontecido. Mas ela nunca admitiria a ninguém, afinal, nunca chorava.
No consultório, Gilbert estava estupefato com o jeito daquela nova moça, um pouco preocupado e curioso. E, pela primeira vez em alguns meses, lembrando cada olhar furioso, petulante e teimoso, ele permitiu-se sorrir sem forçar.


A segunda semana na casa da tia estava se aproximando do fim, e estava angustiada de saudades dos pais. Não era do tipo que sentia muita saudade, conseguia viver afastada por um tempo sem desesperar-se com a ausência dos outros, mas o estado de Mary e Paul, junto com a falta de notícias, lhe deixavam com um gelo no estômago e a garganta apertada.
Além disso, as atitudes de Lady Pency se mantinham as mesmas. Colocara para meditar com ela todas as tardes. Já de manhã, ficavam meia hora no jardim conversando, e depois ia estudar com um tutor contratado às pressas. Teoricamente, ele era para ambas as irmãs, mas nem nem a própria tia davam a mínima para sua presença na aula, de modo que a jovem só comparecera uma vez, escutara o tutor dizer que as pernas dela deveriam se cruzar de forma mais delicada e não retornara. Com isso, cada vez menos ela conseguia ver a irmã.
Elas só saíam de casa para ir à Igreja nos domingos, no entanto, poucos se dirigiam a elas, visto à posição de respeito de Lucila. No segundo dia, falaram com uma vizinha rapidamente, que se encantou com , mas logo depois teve sua companhia dispensada pela Lady.
Apesar de adorar a liberdade que tinha pela casa, já não via mais novidades ali. Gostava de ir para o jardim (apenas quando a tia lá não se encontrava), ficar um pouco no balanço, olhar os equinos de vez em quando (mas ainda sem coragem para cavalgar) e, longe dos horários de meditação da tia ou das aulas de , passava na biblioteca e contemplava suas enormes prateleiras, mas sempre confusa sobre que obra escolher. Depois de dois dias apenas contemplando, escolhera o romance Emma.
— Emma, Emma, você não está ajudando ninguém assim! — comentou o livro em voz alta para si própria.
A solidão acarretava hábitos no mínimo estranhos. Falar sozinha estava virando um deles, e pegava de surpresa alguns funcionários da mansão.
— Uma flor, para mim?! Que gentil da sua parte, minha cara . E ainda por cima, ofereceste-me uma singela margarida, uma de minhas preferidas — falou uma vez com si própria no jardim.
Claro que as notícias chegaram aos ouvidos de Lady Pency, que ficou horrorizada com a sobrinha delirante. Afastou-a ainda mais da irmã e passou a olhá-la de forma aterrorizada em cada jantar.
, distraída, não percebera o quanto a tia estava assustava com ela e, na verdade, só descobriu sobre os horrores de Lucila conversando um dia com a governanta.
— Bom dia, senhora Taylor — a jovem disse em uma manhã, descendo as escadarias correndo.
— Meu bom Deus, milady! Que susto você me deu! — A governanta, beirando os seus cinquenta anos, ficou pálida com aquela aparição.
— Desculpe-me! Fiquei animada para terminar logo esse livro. Que romance! Vou sentar no balanço para ler agora.
— Atenha-se a guardar seus pensamentos para si, senhorita. — A sra. Taylor não pôde deixar de colocar, apreensiva.
parou por um momento, confusa.
— E qual seria o objetivo desse conselho, senhora?
A governanta ficou envergonhada, porém não podia mais esconder nada.
— Lady Pency anda apreensiva com a senhorita pensando alto por estes cômodos. Preocupada com... sua saúde mental — completou, quase em um sussurro, trêmula.
A jovem parou para refletir. Então aquela brincadeira inocente estava atormentando verdadeiramente sua tia avó? Soltou um risinho ao imaginar o que Lucila faria se ela começasse a falar sozinha no jantar.
— Não há graça nenhuma nisso, milady. Ontem mesmo, ela estava considerando chamar um médico.
O sorriso de se apagou e ela entendeu a seriedade do assunto. No resto do dia, ela se conteve para acabar com qualquer brincadeira, não queria ter que envolver nenhum doutor em um pequeno passatempo bobo. Ainda mais quando, na última vez que encontrara um, estava tão atordoada que havia sido uma completa ignorante.
À noite, Lady Pency estava bem menos tensa, embora ainda atenta para qualquer esquisitice da sobrinha. , então, trouxe um assunto que, algumas poucas vezes, rondara a cabeça de .
— Querida tia, acredito que deveríamos contar à que oficializamos o seu baile de aniversário. — se virou para a irmã, sorrindo delicadamente com genuína alegria. — Será na próxima quarta e nós duas já escrevemos alguns convites que demorariam a chegar aos seus destinatários. Por que não escreve os restantes destinados à vizinhança, irmã?
ficou surpresa com aquilo e um pouco entusiasmada. A irmã sabia que ela adorava escrever cartas, embora de preferência não modelos prontos. Mas sabia que aquilo seria uma boa distração. Sem contar que nunca havia tido um baile de aniversário.
— Essa será uma ótima oportunidade — a tia falou, surpreendendo . — Vocês precisam de uma apresentação digna à sociedade, e poderemos receber ilustres convidados. — Lucila lançou alguns olhares para que a mais jovem irmã não compreendeu.
No dia seguinte, levantou cedo e começou a escrever convites à toda Carmody, Canvedish, Avonlea e Charlottetown. Não conhecia quase nenhum dos nomes, tendo reconhecido apenas a sra. Jeannie Pippett e o doutor Gilbert Blythe.
Ainda se envergonhava toda vez que pensava no jovem médico, mesmo que, com a visão embaçada e os sentidos embaralhados do acidente, nem se lembrasse muito de seu rosto. Ficou indagando como ele realmente seria. Se ele viria. E, principalmente, bom Deus, que ele tivesse esquecido seu comportamento lastimável naquele consultório.

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Depois de passar a semana inteira revezando-se entre o consultório e trabalhar na fazenda com Elijah — filho da antiga esposa de Bash, Mary —, Gilbert precisava de um descanso. Elijah estava morando com sua esposa desde que se casaram, há dois meses, e ia passar o fim de semana com ela, de modo que ficar em casa significaria o mesmo que ficar sozinho.
Decidiu, então, aceitar um convite muito antigo de Moody Spurgeon, seu antigo colega da escola. Por meses, Moody chamou Blythe para um encontro semanal em uma taverna próxima. Apesar de não ser muito seu estilo, sabia que estava afastando os garotos há um tempo e que, apesar de não serem melhores amigos, era uma afinidade que valia a pena manter.
E foi assim que, na noite de sábado, Gilbert acabou encontrando Moody, Charlie Sloane e até mesmo Billy Andrews, em pura sorte, pois nem sabia dizer se eles ali estariam.
O médico entrou na taverna escura e a surpresa foi tão grande que Moody derrubou a própria bebida no chão.
— A bebida está me fazendo alucinar ou eu realmente estou vendo Blythe aqui?!
Todos os jovens foram cumprimentar o antigo colega com abraços calorosos, já estando levemente alterados pelo álcool. Gilbert aceitou apenas um gole, nunca tendo sido muito fã.
— E como anda a vida, doutor Blythe? — zombou Charlie.
— Pelo menos alguém aqui terminou a faculdade — retrucou Gilbert, com humor, sabendo que Charlie nunca tivera o menor interesse nisso e não se importava com essa questão, já que ia administrar a fazenda de seu pai no futuro.
— E as moças de Carmody? Fingindo muito desmaio apenas para te verem? — caçoou Billy.
— Segura a onda aí, Andrews. — Moody o empurrou de leve, tropeçando nos próprios pés no caminho. Se sóbrio já era um desastre, bêbado então...
— O quê? — perguntou Gilbert, confuso, levantando uma sobrancelha.
— Ora, Avonlea só comenta das sobrinhas de Lady Pency e de como você socorreu a mais tola delas. Pelo menos era bonita? — continuou Andrews.
— Billy, você tá forçando a barra — falou Charlie, embora um pouco patético, já com um ar bêbado.
— Mas isso não foi semana passada? — Gilbert estava um pouco apreensivo.
— E daí? Você tá fugindo do ponto principal, Blythe. Era bonita?
— Era uma paciente.
— Ah, tenho certeza que era bonita. Pena que ainda não a encontrei. Ainda. — Andrews colocou com uma risada que deixou Gilbert um pouco desconfortável. — Ah, se eu fosse você, tendo uma moça assim inconsciente aos meus cuidados...
— Billy, é melhor você parar de falar antes que alguém te soque — falou Blythe, com um humor fingido apenas para não estragar a conversa.
— Ele tá certo, Billy. E por isso precisamos de mais uma rodada! A Gilbert Blythe! — Moody tinha ido de animado para completamente bêbado durante aquela conversa.
Gilbert sentira falta da convivência, mas também não podia dizer que sentia uma profunda amizade por eles, em especial por Billy. Lembrou de todas as vezes que trocaram pequenas farpas na escola, relembrando a leve irritação que sentia com sua presença.
Mais tarde, Gilbert chegou exausto em casa. Prometera a todos que se esforçaria mais para aparecer, porém não sabia dizer se aquela era uma vontade real. Às vezes, era difícil lidar com o fato de que amizades mudavam.
No dia seguinte, voltando da Igreja, o médico percebeu que havia recebido algumas cartas.
A primeira, trazia notícias de Bash.

Caro Gilbert,
Quando essa carta chegar até você, já devo estar no meu caminho de volta. E espero não encontrar a casa incendiada. Espero que os vizinhos tenham se compadecido e te alimentado, porque, sem a minha mãe, te resta apenas comer maçã todo dia, já que elas nascem prontas.
Você reclamou de falta de notícias na última carta. Você queria que eu passasse a Lua de Mel trocando cartas com um garoto? Você vai matar sua futura esposa de tédio.
Não, não vou escrever mais.
Se cuide,
Sebastian


Gilbert ria e revirava os olhos lendo a carta. Quantas saudades...
Ele dobrou o papel automaticamente e passou para a próxima, paralisando no processo. A segunda carta trazia um nome que lhe dava alguns arrepios. Piscou algumas vezes para ter certeza que não estava alucinando e, quando confirmou que aquele era mesmo o nome, não soube o que fazer. Parte de si queria rasgar o envelope o mais rápido possível, enquanto a outra parte queria lançá-lo na lareira.
Certamente, ele acabou lendo a carta.

“Querido Gilbert,
Como tudo está aí em Avonlea? Como vão os pacientes? Espero que não estejam te dando trabalho. Ou talvez eu deva desejar que estejam, já que você precisa trabalhar, mas me parece simplesmente cruel o menor ato de imaginar este desejo.
Hoje, Dorothy, irmã de Roy (creio que deve se recordar dela de minhas cartas regressas), veio me perguntar o significado de algésico, minha palavra da semana. Recordei de seu presente precioso de anos atrás, aquele singelo dicionário de bolso, e procurei para lhe mostrar que significava sofrimento. Para um tamanho tão questionável, ele é esplêndido!
Sinto saudades da época de escola, embora você fosse mais irritante lá. Que reviravolta hoje em dia cultivar tão singular amizade.
Não devo me demorar, pois estou muito cansada. Quem diria que planejar um casamento pudesse ser tão exaustivo. Uma linda expressão de amor nascida de uma tragédia, porque minha mente está tão cansada que já prevejo que farei alguma grande besteira.
Um abraço,
Anne
P.S.: Que fique claro que eu já sabia o significado da palavra. Só usei o dicionário para parecer mais formal.”

Gilbert não sabia dizer quanto tempo ficou ali lendo e relendo aquela carta. Todas as emoções possíveis passaram por seu peito ao analisar aquela caligrafia. Anne... por que, mesmo depois de tantos anos, não podia simplesmente esquecê-la? Sabia que estava aos poucos melhorando e seguindo em frente, afinal, só nos últimos meses estava realmente se forçando a acreditar que tinha perdido aquela que jurava ser seu amor. No entanto, apesar dos seus progressos, havia dias em que a dor da lembrança era tanta que nada parecia haver mudado.
Dias como aquele.
Atordoado e tomado por lembranças dolorosas, passou para a terceira e última carta, com uma caligrafia que lhe era nova e que teve que reler três vezes para, enfim, prestar atenção na escrita.

Para o doutor Gilbert Blythe:
Convido o senhor para celebrar o meu baile e jantar de aniversário na mansão Louborne, no dia 25 de maio, às 19 horas. Será uma honra contar com sua presença.
Respeitosamente,


Gilbert piscou, reconhecendo o nome e associando ao rosto adorável. Olhando para a carta de Anne ao lado da carta da jovem , ele soube: precisava de uma distração. Não uma taverna com perguntas idiotas. E nem mais trabalho que seu corpo não aguentasse. Precisava de uma distração verdadeiramente boa, e só havia comparecido a um baile uma vez, na época da faculdade. Não seria a oportunidade perfeita de aproveitar o tempo? Aliás, desde que Billy fizera suas perguntas desrespeitosas, aquela estranha paciente às vezes lhe vinha em mente. E isso era melhor do que ter uma jovem noiva em seus pensamentos.
Estava mais do que decidido. Não adiantava ficar pensando em Anne. Ele tinha que se ocupar.
Mas era claro que pensou nela algumas vezes, afinal, no mínimo, tinha que escrever uma carta de volta.
— Malditas convenções sociais — murmurou para si mesmo.


adorava bailes. Quando era criança, sempre que podia, acompanhava os eventos com sua família, mas, conforme ela foi crescendo, foi entendendo que as pessoas não podiam nem queriam ficar gastando seu dinheiro em festas como essas, de modo que poucos ainda aderiam essa tradição.
A vida para nunca fora muito difícil, então ela era do tipo que apoiava esses gastos que, para ela, apenas serviam para deixar todos felizes.
A mansão Louborne estava deslumbrante. A sra. Taylor passara o dia todo de um lado para o outro, recebendo bebes e comes, ordenando a limpeza do grande salão e posicionando mesas e adereços. A jovem só parou de olhar tudo quando foi forçada a se arrumar.
Ela e provaram os vestidos novos, animadas como duas crianças na noite de Natal. O vestido de era lilás com detalhes de renda branca contornando os seios e os braços. Já o de era creme, justo até a cintura, onde pairava uma fita preta de seda amarrada em um laço. Ambas fizeram o cabelo e passaram um pouco de maquiagem, ficando então satisfeitas com o resultado.
Foi um momento feliz. As irmãs ajudaram uma a outra, relembraram de outros bailes, rodopiaram no quarto com seus vestidos e gargalharam quando escorregou em uma chemise e caiu na cama, desmanchando parcialmente o cabelo recém feito.
Elas desceram as escadas para se juntarem aos convidados, se sentindo quase como princesas. estava encantada com o salão, que parecia ainda maior e mais brilhante com aquela decoração. Uma banda tocava no fundo um som extremamente agradável que fazia seus pés descerem a escada com mais velocidade.
, querida, venha receber os convidados — chamou a tia da entrada, de maneira até gentil e carinhosa. Muito diferente do tom usado para a outra sobrinha.
— Aproveite a noite e o seu aniversário, irmãzinha — disse , amavelmente.
logo estava sozinha e um pouco da magia acabou. Achou que, pelo menos no seu aniversário, estaria na presença de sua irmã, mas até isso ela perdeu. Como poderia aproveitar a festa se a única pessoa que conhecia e amava estaria distante?
Ela sacudiu a cabeça, afastando aqueles pensamentos ao dar uma nova olhada para o salão. Aquilo ainda era um sonho, e ela estava determinada a não deixar sua tia estragar tudo. Desceu para encontrar alguns convidados no salão, mesmo com um frio na barriga de não conhecer ninguém.
— Boa noite, como vão? — Ela se aproximou de um casal que parecia estar nos seus 50 anos. — Espero que tudo esteja agradável. É um prazer recebê-los aqui.
— E você deve ser a jovem . — Os olhos da senhora brilharam quando confirmou. — Meus parabéns! Eu sou Eliza Barry, de Avonlea, e esse é meu marido.
Após uma pequena conversa educada, estava prestes a se retirar para falar com outros convidados, quando a sra. Barry falou.
— Sabe, eu tenho uma filha da sua idade. Diana é uma ótima menina, acredito que vocês iriam se dar muito bem. Ela está por aí com seu noivo, Fred Wright. Mais tarde, eu gostaria de apresentá-las.
— Seria um prazer — respondeu, educadamente, e foi para o próximo convidado.
Passou os primeiros 40 minutos conhecendo vários daqueles que seriam seus vizinhos por tempo indeterminado, moradores de toda a região. Eram todos educados, curiosos e gentis, mas já estava ficando exausta, quando uma apresentação em particular lhe chamou a atenção.
Monroe — apresentou-se a jovem, que parecia ter a mesma idade de . Algo nela lhe chamou a atenção e, por isso, a convidou para caminhar pelo salão.
Conversaram brevemente sobre a festa, um pouco sobre a estadia de , seus pais e outros assuntos.
— Esses doces de chocolate estão uma perdição — falou , enfiando mais um na boca, mas não conseguiu responder, pois ambas foram abordadas por duas figuras loiras.
, quem é esta com você? Por acaso seria a deslumbrante aniversariante? — falou a mais velha das moças, com um sorriso um tanto forçado demais para o gosto da jovem .
— Era só o que me faltava... — murmurou a srta. Monroe. — Josie, querida, sim, essa é . , essas são Josie e Gertie Pye.
— Prazer — respondeu.
— Ah, o prazer é nosso. — agora não tinha dúvidas. Aqueles dentes mostravam a mais falsa simpatia, e ela nem entendia o porquê. — Embora, devo admitir, você não é... Como posso dizer? Tudo aquilo que dizem de você. Mas você me entende, não é, ?
— Josie, o que é isso no seu rosto? —disse , genuinamente preocupada, de modo que até ficou procurando algo fora do comum. — Você está verde porque está enjoada ou é apenas a inveja? — ela completou com um sorriso doce, mas fingido.
As irmãs Pye fecharam os olhos com raiva, tão simultaneamente que deixaram as outras meninas com nervoso, e depois, para alívio de todos, se retiraram.
soltou a respiração que nem percebeu que estava prendendo. Aquela presença realmente fora pertubadora.
— Acho que devo te agradecer, , embora esteja preocupada com o que elas podem falar de você.
— Ah, , você vai aprender que, com a família Pye, você pode ser o ser mais agradável que já pisou em Canvedish e, mesmo assim, eles vão te criticar. E não há de que. Confrontar uma Pye é até divertido. Inclusive, pode me chamar de .
— E você pode me chamar de , —respondeu, sorrindo. Esperava ter feito sua primeira amiga.
Depois de mais algumas palavras trocadas, elas tiveram que se separar para cumprimentar mais pessoas, prometendo manter contato. foi para perto de sua irmã na entrada, porém parou ao ver que ela estava acompanhada.
— Ah, — falou Lady Pency, avistando-a. Mais sorrisos forçados. — Devo lhe apresentar ao Conde Travis Phillips, que veio da Inglaterra a nosso convite. Eu e o pai dele somos velhos amigos.
— Encantado, senhorita . E devo dizer, que linda festa. — Ele, no entanto, olhava para , que estava corada.
fez uma reverência enquanto entendia o porquê de sua tia ter aceitado fazer o baile. O motivo de elas terem escrito cartas para convidados distantes. A necessidade de um ótimo vestido. Ela entendeu, enfim, que sua tia estava tentando arranjar um casamento para a irmã. E, para desgosto de , não parecia muito contrariada.
Enquanto assimilava tudo aquilo ainda, ouviu alguém dizer:
— Doutor Blythe, que ótimo te ver essa noite!
A jovem olhou em direção à porta de entrada e seu olhar parou ali. Diversas palavras inapropriadas vieram a sua cabeça quando ela olhou Gilbert Blythe. Como, em sã consciência, ela havia conseguido esquecer alguém com aquela aparência?
Seus cabelos pretos e encaracolados estavam muito bem ajeitados, embora com alguns fios rebeldes. Ele estava lindo com paletó. E seu rosto... tudo parecia simplesmente combinar. Seu maxilar, sua boca e seus olhos... Olhos cor de avelã...
Olhos cor de avelã que estavam a encarando, confusos, com uma sobrancelha arqueada.
se recompôs rapidamente.
— Boa noite, doutor Blythe. — E saiu para se esconder entre os convidados, tentando esconder seu constrangimento.
Como pôde ficar encarando o homem sem nenhum pudor?! Embora não fosse culpa dela Gilbert ser tão atraente... Ah, se sentia tão envergonhada! Mais uma vez, agradeceu aos céus por não corar.
Ainda intrigada com o doutor, esbarrou, sem querer, em um convidado, derramando metade do conteúdo de seu copo. Clamou milhares de desculpas e se afastou, sem saber se a situação poderia piorar.
Aquela seria uma longa noite.

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Era preciso compreender um fator importante sobre corações partidos e superações. Assim como existiam dias que a dor parecia infinita, o amor parecia inesquecível e rogava-se aos céus por um milagre — esquecimento ou retorno da pessoa amada —, existiam também os dias médios. Os dias médios eram aqueles que se lembrava da pessoa, mas, uma vez ou outra, conseguia se desprender e viver além daquilo.
E, ainda mais, existiam os dias bons. Os dias bons eram os dias que se pensava que os anjos haviam ouvido os pedidos e a superação havia chegado. Quase não se pensava no antigo amado e não sentia nada ao pensar. Claro que, no dia seguinte, já era possível estar de novo em um dia ruim.
Mas, o que importava, era que Gilbert Blythe estava em um dia bom. Sabia que toda a Avonlea estaria no baile, assim como outras vizinhanças, mas aquilo não o assustou. Uma hora ou outra, tinha que encarar as pessoas, e estava determinado àquilo.
— Boa noite, sr. e sra. Sloane. Como vão? — Gilbert se aproximou para cumprimentá-los, surpreendendo os vizinhos com seu bem-estar.
— Gilbert, que prazer te ver essa noite — falou O sr. Sloane. — Charlie estava me contando que esteve com você esses dias. Bom garoto, o meu Charlie. Vai nos deixar ricos administrando a fazenda comigo.
— Certamente, senhor — disse Gilbert, um pouco arrependido de ter se aproximado e começado a conversa. Esquecia que os Sloane podiam ser bem falantes sobre eles mesmos. — Espero que os senhores tenham uma noite muito agradável. — E se retirou, tentando não desanimar com aquele primeiro encontro. Festas eram assim. Exigiam educação e conversas fiadas.
Quando finalmente adentrou a mansão, ficou encantado. O grande salão estava preenchido com uma melodia incrível, rodeado de pessoas conversando, bebendo e dançando. Tudo parecia brilhar naquela imensidão. Então, alguém o tirou de sua admiração:
— Doutor Blythe, que ótimo te ver essa noite! — Era Prissy Andrews, irmã mais velha de Billy. Ao seu lado, estava Jane, irmã mais nova que estudara com Gilbert.
— Prissy, Jane, boa noite! Como estão as duas? Aproveitando a noite, senhoritas? — disse, educadamente. Continuaram uma conversa curta, até que Gilbert se despediu, sentindo sua nuca arrepiar com uma sensação esquisita.
Quando se virou para trás, encontrou ninguém menos que a própria anfitriã. Ela estava ainda mais bonita que no dia do acidente, com o bônus de que não babava. Porém, a jovem definitivamente o estava encarando.
E ela não parava.
Ele olhou curioso para ela, arqueando uma sobrancelha. Ela pareceu ter levado um susto e falou:
— Boa noite, doutor Blythe. — E se perdeu no meio dos convidados.
Gilbert ficou um pouco confuso e transtornado, mas compreendeu que a jovem, ao olhar para ele, devia ter se recordado do acidente traumatizante. Suspirou, esperando que aquela impressão passasse. Começou a andar pelo salão para cumprimentar a todos e se servir.
— Gilbert! — Moody se aproximou do jovem. — Que bom te ver aqui!
— Bom te ver também, Moody — disse Blythe, sorrindo, sincero. Apesar da sensação que havia tido no bar, de que a amizade não era mais a mesma, Gilbert sentiu também que estava exagerando, pelo menos com Spurgeon. O velho amigo, mesmo com seu afastamento, insistiu na amizade deles, e perceber as pessoas que o consideravam até nas horas ruins havia sido muito importante.
— Esses dias, estava vendo alguns tacos de hóquei à venda. Modelos novinhos! Lembra-se, Gilbert, de quando jogávamos entre as aulas? — comentou, se apoiando em uma mesa e quase derrubando tudo que estava em cima. Gilbert levou um susto e o ajudou a colocar tudo de volta no lugar. Aquilo tudo era muito caro para se manter perto daquele garoto desastrado. — Enfim, bons tempos. Afinal, por que não marcamos um dia para jogarmos uma partida?
— Sabe, Moody, estou um pouco atolado com o trabalho na fazenda. — Ele viu o amigo suspirar e sentiu-se mal. — Mas uma tarde jogando não faria mal, certo?
— Esse é o bom e velho Gilbert Blythe! — falou Moody, erguendo sua taça. Gilbert entrou no clima, erguendo um copo e comemorando também, depois caindo na gargalhada.
Naquele momento, Ruby Gillis passou, rodeando com suas bochechas rosadas combinando com um vestido de mesma cor, e o amigo de Blythe começou a se ajeitar no lugar.
— Depois de todos esses anos, ainda é o velho Moody, com medo de agir — provocou Gilbert, vendo o outro ficar vermelho.
— Eu não tenho medo de falar com uma garota! — exclamou Spurgeon, envergonhado e irritado.
— Então convide-a para dançar — falou o jovem médico, empurrando Moody, que estava quase tropeçando nos próprios pés. Ali perto, Ruby olhava corada para o garoto desastrado, achando tudo encantador.
— Tá bom, tá bom, tô indo! — falou Moody, ficando cada vez mais vermelho ao se aproximar de Gillis e lhe chamar para dançar. Os dois saíram dali como se fossem os únicos na festa. Mesmo que isso tivesse feito o doutor ficar solitário, Blythe só conseguia sorrir diante da cena.
Gilbert já devia estar há mais de uma hora na festa, quando Rachel Lynde se aproximou.
— Ora, bem, veja se não é Gilbert Blythe. Como você está, garoto? Está mais forte, mas continua magro. Anda trabalhando na fazenda? Está comendo direito?
— Boa noite, sra. Lynde. — Ainda estava digerindo todas as perguntas dirigidas a ele. — Estou bem, obrigada, e bem alimentado também. — Teve que rir perante aquela situação. — O trabalho na fazenda está puxado, mas acho que temos que agradecer por isso. Como está Thomas?
— Aquele velho já está andando por aí e bebendo como se fosse vinte anos mais novo. Não duvido nada que amanhã vai passar a manhã inteira reclamando para mim de dores nas costas. E ele acha que vou escutá-lo? Bom Deus sabe que só o faço por ser uma boa mulher. — Os olhos dela se estreitaram, como um falcão partindo para o ataque. — E as novas meninas? Avonlea não recebe um morador de fora há tempos, desde de... Bom, soube que você e Jeannie foram os primeiros a conhecê-las. Vi a mais nova hoje. Jovem bonita, mas precisa engordar; educada, mas parece um pouco atrevida. A irmã parece um excelente partido, mas já parece estar rendida pelo Conde. Esses malditos ingleses, Deus me perdoe, roubam nossas terras e, mais tarde, voltam para roubar nossas meninas.
— Se a senhora diz... — colocou Gilbert, embora soubesse que aquilo era mais um monólogo. Ouvia tudo intrigado, uma das sobrancelhas levantadas, e ria de vez em quando.
— Mas, oh, céus, esqueci do mais importante! Eu vi que Billy Andrews já dançou com ela uma vez, parecia um cachorro velho marcando território. Mesmo assim, ela recusou outro convite. Garota esperta, evitando escândalos. Diferente daquela garota Ruby Gillis, dançando por aí com Spurgeon três vezes. Três vezes! — Mesmo com o jovem claramente perdido, Rachel não parava de tagarelar. — De qualquer jeito, a mais jovem pode não parecer perfeita, mas não é bem dispensável.
— Perdoe-me, mas não compreendo o que quer dizer, sra. Lynde —admitiu Gilbert, um pouco incomodado com o jeito que a menina estava sendo avaliada.
— Estou falando, meu bom Deus, que você deve chamá-la para dançar, Gilbert Blythe! Não desperdice boas chances, menino! — Ele continuou a encarando, em choque. — Garoto, eu não tenho que fazer tudo! Vá logo!
Rachel saiu em seguida, indo conversar com outros convidados, embora ainda estivesse lançando olhares assustadores a Gilbert, movimentando a cabeça em direção à menina. Ele engoliu em seco e foi em direção à , sabendo que não estaria livre disso se não o fizesse logo. Assim, bem envergonhado, ele se aproximou da jovem, que estava conversando justamente com uma das últimas pessoas que queria ver: Diana Barry.
— Boa noite, srta. . — Então olhou para o lado e completou, tentando ser simpático e não desanimar. —Diana. — Respirou fundo e continuou. — Meus parabéns, senhorita. E que bela festa você está nos proporcionando. Não temos algo assim há muito tempo.
— Era o que eu estava contando para ela, Gilbert — falou Diana, e lá estava aquele olhar que ele mais do que nunca queria evitar. O olhar de pena. — Bom, eu vou pegar uma bebida. Vejo vocês mais tarde. Foi um prazer conhecê-la, .
— O prazer foi meu, Diana. — sorriu, mas parecia notar que algo estava errado. No entanto, antes que ela pudesse falar qualquer coisa, ele ouviu os primeiros acordes de uma música e se apressou:
— Me daria a honra dessa dança?
Ela pareceu um tanto surpresa, mas logo assentiu e sorriu, colocando a mão sob a do rapaz. Ele a conduziu gentilmente até a parte do salão onde todos estavam dançando.
— Então, Gilbert Blythe, apesar de ser um menino de fazenda, o senhor sabe dançar? — colocou , com humor, enquanto se posicionavam para a próxima dança.
— Pode ser que as faculdades não te ensinem a dançar, mas certamente estar em uma te faz aprender — respondeu, começando a se mover com a música que começara. Logo, estavam um pouco distantes para conversar.
— Soube que, além de médico, você tem as melhores maçãs — falou quando voltaram a se encontrar na dança. Gilbert não respondeu de imediato, pois os pares haviam sido trocados.
— Soube que a senhorita está perguntando muito sobre mim — disse, enfim, quando voltaram a dançar juntos. Ela congelou sob aquela afirmação, constrangida, mas se recompôs para continuar dançando, sem olhá-lo diretamente. “Droga”, ele pensou. Tentando quebrar o constrangimento que causara, completou: — E falando pouco de si mesma. Está gostando da região?
Ela sorriu, parecendo aliviada.
— É tudo muito lindo. As flores da primavera são excepcionais. O único problema é que é um pouco frio. E que eu saio pouco. — Ela fez uma careta, depois riu, enquanto rodava ao seu redor batendo palmas. — Sempre adorei a região. Só queria que as circunstâncias fossem diferentes... — Ela suspirou, depois sorriu tristemente.
— Sinto muito pela situação dos seus pais. Não sei se te conforta, mas pela situação que eu soube, eles bem provavelmente irão se recuperar logo e você e sua irmã poderão retornar — disse, seguro.
— O problema é que são sempre altas probabilidades, porém não certezas, se o senhor me entende.
— Entendo mais do que imagina. — Ele suspirou sob o olhar curioso dela. — Eu perdi meu pai com 14 anos. Minha mãe faleceu no parto. E, há três anos, perdi uma amiga para uma doença. Eu sei como é. O medo e o desespero. — Ele engoliu em seco, desviando o olhar do dela, que parecia surpreso. Ele abriu um sorriso tranquilo. — Mas sabe o que todos eles não tiveram que seus pais têm? Um diagnóstico imediato e inicial. Eles vão se recuperar.
parecia tocada com aquela informação e ele percebeu que, com todos aqueles sentimentos sinceros expostos, ela estava linda. Aquele vestido certamente ajudava, ela estava parecendo uma Lady. Na verdade, não estava longe disso, visto sua árvore genealógica.
— Sabe, doutor Blythe...
— Pode me chamar de Gilbert — interrompeu-a, fazendo-a sorrir.
— Sabe, Gilbert — ela se corrigiu —, você parece um bom rapaz que vai me compreender. Espero não estar presumindo uma falsa amizade, mas sinto certa... confiança em você. Não sei explicar. — Ela sacudiu a cabeça, balançando algumas ondas que escapavam do penteado. — Mas, enfim. Eu estou... meio confusa. Como... — Sua voz foi diminuindo e certo pânico se estampava no seu rosto. — Algo está me perturbando. Entalado na garganta.
— Pode continuar — incentivou-a, mesmo que estivesse um pouco perdido sobre o que fazer.
— Eu sinto que é errado eu estar aqui comemorando quando meus dois pais podem estar morrendo agora — desabafou , a voz firme, depois pequenas lágrimas se formaram no canto de seus olhos.
— A senhorita precisa de um lenço? — ofereceu Gilbert, desconfortável. Não sabia como agir com meninas chorando.
— Não! — respondeu , um pouco alto demais. — Eu não estou chorando. – E depois de fungar, ela completou, em um sussurro: — Eu não choro.
Um silêncio um pouco desconfortável se estabeleceu, e Blythe sabia que devia falar algo depois da maneira com que ela se abrira.
— Sabe, posso não ser, nem de longe, a melhor pessoa para falar isso, mas, pelo pouco que a conheci, você parece ser do tipo... como dizer? — Ele encarou os olhos dela, sorrindo levemente. — Espirituosa. E, se eu consigo ver isso, seus pais com certeza enxergam e admiram essa qualidade. Não acredito que eles iriam querer acabar com ela te trancando em uma casa para sofrer o dia inteiro em nome deles. Na verdade, nesse momento, os dois devem estar esperando muito que você esteja comemorando. Não é errado se divertir nessa situação, na verdade, acho que é necessário.
Assim que terminou, se calou. Ele encarou a garota a sua frente, lutando através de seus pensamentos para conduzi-la na dança. E se tivesse falado a coisa errada? Desde quando era tão tagarela? “Imbecil”, pensou consigo mesmo.
Até que viu abrir um sincero sorriso.
— Obrigada. — Foi tudo o que ela falou. E foi suficiente.
Quando se deram conta, a dança já havia se encerrado e eles se cumprimentaram, antes de se separarem.
— Gilbert! — Ele a ouviu chamar, e quando olhou para trás, viu que ela erguia o vestido e corria atrás dele. — Eu esqueci. Se eu posso te chamar pelo seu nome, por favor, me chame de . Ou .
— Tudo bem, . — Ambos sorriram e se separaram, se esbarrando, às vezes, durante a noite.
Gilbert foi embora duas horas depois. Afinal, tinha que trabalhar no dia seguinte. Mas só pensava que não conseguira se despedir de , que parecia ter ocupado um espaço na sua cabeça aquela noite. Mal sabia ele o quanto Rachel Lynde estava rezando por isso.


O baile de aniversário de parecia ter acontecido em um universo paralelo. Depois que deixou de sentir culpa e se permitiu aproveitar, deixou todos os seus problemas escorrerem da cabeça e teve uma das melhores noites de sua vida. Realmente adorara , ou melhor, , amara os docinhos, se divertira muito dançando com Billy e Gilbert. Até mesmo havia conseguido tolerar o tal Conde Phillips que não desgrudara de a noite inteira.
Mas o dia seguinte ao seu aniversário foi um completo balde de água fria. Todas as preocupações com os pais voltaram redobradas. Escreveu mais uma carta naquele dia mesmo para o médico, os pais, os criados, qualquer um que lhe pudesse dar alguma resposta.
Durante os próximos dias, ficou dividida novamente entre ler, escrever aos pais (inutilmente, ao que parecia), ouvir as reclamações da tia e raramente ver . Nessas horas, sentia imensas saudades de suas aulas de piano, mas não havia sinal do instrumento na casa, e isso ela podia afirmar. Pois, a cada dia, descobria um novo cantinho preferido na enorme propriedade, de tanto que ficava rodando seus corredores (Lady Pency uma vez berrara durante seu horário de meditação por causa de seus passos ansiosos), mas, nos últimos dias, um lugar em especial chamava muito a sua atenção.
No primeiro piso, nos fundos do grande salão, escondido, havia uma porta que levava a um pequeno corredor, onde a jovem encontrou duas portas: uma, dava acesso à uma sala apenas com muitas fotos de um casal jovem desconhecido, e, ao seu lado, uma porta trancada. Diferente das outras portas da casa, era apenas de madeira e parecia muito velha (talvez mais velha que Lucila).
Por dias, ficou lendo naquele corredor, escrevendo para seus pais e, quando a dor apertava muito, imaginava o que poderia estar escondido por aquela porta. Mais fotos? Algo muito secreto? A fortuna da tia? Uma sala de fotografia?
Um dia, porém, ao acordar e descer para o café da manhã, viu a sra. Taylor se espreitar por aquele pequeno corredor. Seu coração palpitou de ansiedade. Será que a governanta iria abrir a misteriosa porta? Mil ideias se passaram pela sua cabeça naqueles milésimos de segundos. Poderia se esconder na sala ao lado e pelo menos espiar quando ela entrasse... Será que conseguiria ser furtiva o suficiente?
Todos os seus pensamentos e planos foram interrompidos por batidas na porta principal e, logo, a sra. Taylor parecia ter se teletransportado para a porta, já anunciando:
— Lady Pency, é o Conde Travis Phillips!
Antes que seu cérebro pudesse processar, estava descendo as escadas perfeitamente arrumada, como sempre, seguida de Lady Pency, mais ansiosa do que jamais a vira. O olhar da tia se prendeu em e seu nariz se franziu.
— Ajeite-se, menina — a tia a repreendeu, a voz baixa, mas dura, antes de se virar para o Conde. — Ah, Conde Travis, que agradável surpresa o ter conosco em minha humilde casa!
Humilde seria a última palavra que usaria, mas tinha amor próprio o suficiente para não corrigir a tia avó.
— A honra é toda minha, Lucila — Conde Phillips colocou com um sorriso educado. — Jovem , que prazer revê-la. — fez uma pequena referência na menção de seu nome. — E... ... — Sua voz estava repleta de admiração e, constatou com horror, paixão. — Acredito que não sei como pude acreditar que qualquer outro dia fora bom, se não tive o prazer de ser alegrado por sua doce presença.
estremeceu diante de tanto flerte exagerado. Se manteve o mais educada e quieta possível, até poder ser dispensada, quando o jovem casal saiu para passear pelo jardim. Vendo-se livre, foi correndo para aquele corredor que estava se tornando seu maior conforto.
Como aquilo era possível?! Um homem chegava e logo a irmã não conseguia nem se lembrar dela! Ela, que estivera com a irmã por 19 anos, nas horas boas e ruins, trocada por um cara que ela via pela segunda vez. Isso era ridículo!
Sabia que, se a mãe estivesse ali, ela riria, como se entendesse de coisas que não conseguia nem imaginar, e diria algo como:
— Um dia, você vai entender. Um dia, você vai agir igualzinho.
Já seu pai, provavelmente do outro lado da sala, lendo jornal, iria, talvez, resmungar, indignado.
Mas não conseguia se imaginar agindo igual uma idiota por ninguém. Uma vez, estivera apaixonada por um amigo seu da escola, mas não ficava corando e rindo por qualquer elogio bobo.
Pensando bem, ela provavelmente nunca fora elogiada assim.
“Ainda bem”, ela pensou, imaginando que provavelmente sentiria vontade de rir — ou ânsia de vômito. Seria ridículo.
Mesmo assim, apoiada naquela porta de madeira, talvez por estar meio sonolenta, começou a imaginar alguém a elogiando assim.
— Meus dias não parecem o mesmo sem ver o seu belo rosto — disse a voz imaginária da sua cabeça. — Sortudo será aquele que puder ouvir o som de sua risada todos os dias — ela continuava, delirante. Ela realmente estava adormecendo...
— A senhorita está muito bonita, . — Ela ouviu o doutor Gilbert Blythe dizer.
acordou com um susto. O que diabos estava sonhando?
Envergonhada demais, ela tentou tirar aquela cena da sua cabeça. Primeiro, ficara a noite do seu baile pensando em Gilbert, tão bonito (ainda se envergonhava de lembrar como o havia encarado!) e tão gentil. Mas, então, o problema com os pais o tirara da cabeça, justamente. O que faria agora que ele parecia estar voltando?
Durante todo o jantar (no qual o Conde se recusou a ficar pelo horário, e nunca agradeceu tanto às regras de etiqueta), com Lucila muito distraída com para lhe dirigir comentários sarcásticos, os pensamentos da jovem ficaram se voltando para aqueles cabelos negros e os olhos de avelã. Nunca se sentira tão boba na vida, mas percebia que uma parte dela parecia gostar daquilo, chocando-a.
Em uma situação normal, naturalmente falaria com a mãe ou, melhor ainda, com . Mas, com a mãe distante e sempre sob os olhares atentos da tia e tomada por suas longas tarefas, estava sem ninguém. Com quem poderia falar sobre isso?
Já estava deitada na cama, se desviando de pensamentos com Gilbert Blythe, quando uma súbita ideia a invadiu.

“Cara Monroe,
Espero que a senhorita se recorde de mim! Apesar de nosso breve contato, senti uma imediata confiança, da qual espero desenvolver uma amizade.
Recorro a você e espero não a assustar com assuntos tão estranhos para uma primeira carta, mas...”

achou muito arriscado se abrir completamente com , por mais que gostasse dela, então decidiu contar uma pequena mentira:

“... minha irmã, , se encontra em uma situação delicada. Ficar pensando constantemente em um garoto, especialmente pensamentos bobos, significa amor, paixão ou coisas do tipo? Ou poderia ser simples consequência de uma rotina tediosa?
Grata por sua atenção,


Na manhã seguinte, ela buscou o endereço para o qual tinha mandado o convite do seu baile de aniversário e mandou a carta, ansiosa. Durante a noite, se revirou de um lado para o outro, se arrependendo amargamente da decisão. Quatro dias depois de pensamentos constantes e nervosismo crescente, sua resposta chegava, afinal.

“Querida ,
Fico imensamente feliz que tenha me escrito! Acredito, igualmente, que podemos ter uma futura amizade muito boa!
Sobre o outro assunto, avise a ‘sua irmã’ que é possível tais pensamentos acontecerem sem compromisso, mas é preciso avaliar muitos outros fatores, então eu lhe trago uma sugestão. Por que você não aparece aqui em casa no sábado às 15 horas para você me trazer notícias mais detalhadas?
Aguardo sua resposta.
Carinhosamente,

P.S.: Você é muito ‘educadinha’ em suas cartas!”

Rindo, aliviada de sua não-paixão e de não ter sido idiotice escrever a bendita carta, foi procurar a tia avó para confirmar sua ida.

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Era plena quarta-feira e o assunto mais interessante que se passara no dia inteiro de Gilbert foi, novamente, as dores da sra. Pippett e seus convites para um chá, mas, dessa vez, ele preferiu recusar, alegando que precisava trabalhar na fazenda. Não era exatamente verdade, mas certamente precisava descansar para trabalhar na fazenda cedo no dia seguinte.
Mas, chegando à sua casa, ele encontrou todas as luzes acessas. Seu coração paralisou. Era Elijah? Ele ainda estaria lá até aquela hora? Ou poderiam ser ladrões? Ficou sério e olhou ao redor, procurando como se aproximar sem chamar atenção e, sem muitas opções, pegou um machado que estava próximo das árvores. Se espreitou silenciosamente até a casa, porém percebeu que sua melhor chance seria assustá-los. Assim, respirou fundo e fez a cara mais raivosa que podia, chutando a porta entreaberta em seguida para entrar.
No entanto, ao ver quem estava lá dentro, Gilbert congelou. Depois, soltou o machado e correu, sorrindo, para abraçar Sebastian, que estava sentado na mesa da cozinha.
— Meu Deus, Blythe, não se pode nem fazer uma surpresa para você sem correr risco de morte? — Bash riu, com seu sotaque carregado.
— Talvez, na próxima surpresa, você possa tentar não invadir minha casa, certeza que será melhor sucedido — Gilbert falou, sarcástico, mas não conseguia tirar o sorriso do rosto. Logo depois, viu uma outra figura ali no canto, observando tudo com muito carinho.
— Senhorita Stacy! Quer dizer... Senhora Lacroix... Como você está?
— Gilbert, eu sei que isso pode ser esquisito a princípio, mas, por favor, me chame de Muriel — ela disse, rindo, antes de eles se abraçarem. Gilbert tinha um grande carinho por ela. Ela sempre o incentivara, o havia ajudado a conseguir uma vaga na Universidade de Toronto e, depois, ainda fizera o seu melhor amigo e irmão feliz novamente.
— Então, como foi a Lua de Mel? — Gilbert falou, sentando-se à mesa.
— Você provavelmente não quer saber — Bash provocou, colocando os pés na mesa.
— Sebastian! Ele só quer saber sobre os lugares que passamos — Muriel disse enquanto servia um chá que tinha acabado de fazer. — Ah, Gilbert, foi incrível! A praia, o lago de pesca... Eu peguei um peixe desse tamanho! — Ela separou bem os braços. — Claro que esse aqui — ela cutucou Bash — mal conseguiu pegar o menor de todos.
— Eu estava distraído com outras coisas — Sebastian sorriu, atrevido. — Tá olhando o que, Blythe? Tem mais o que fazer não?
— Certamente tenho, achei só que você poderia ter sentido saudades, e por isso estou me forçando a ficar nessa cozinha.
— Saudades de um garoto magrelo e folgado? Certamente que não. — Mas seu olhar era carinhoso.
Os três continuaram conversando, Bash e Gilbert se provocando, enquanto Muriel contava mais detalhes de cada lugar lindo pelo qual haviam passado. Blythe também contou algumas histórias de Delphine, as quais Bash escutou encantado, estava claro em seu olhar as saudades que ele sentia.
Muriel decidiu ajudar Gilbert no assado que o garoto estava preparando para o jantar.
— É só colocar um boi dentro do forno. Não é tão difícil assim, Blythe.
— Só que esse boi está mais teimoso que você.
— Não falta muito, logo a carne fica no ponto — Muriel os acalmou.
Bash resmungou, impaciente, batucando os dedos na mesa. Então, seu olhar se desviou para a pilha de papéis e cartas das últimas semanas.
— Vamos ver o que temos aqui que eu perdi. Jornal, jornal... Pobre senhor Carter, perdeu um dos burros. Mais jornal... Ah, minha carta! O que mais? Jeannie reclamando de dor... Ainda é sua única paciente? — Gilbert desviou o olhar do forno para lançar-lhe um olhar feio, então tentou tirar as cartas das mãos do amigo, que apenas desviou. — Que foi? Você ainda vai conquistar mais pacientes, relaxa, e... — Mas Bash congelou ao olhar para uma carta específica, arregalando os olhos. — Muriel, querida, por que não pega todas as conchinhas que você colecionou na praia pra mostrar pra ele?
— Não são “conchinhas”, são fósseis de animais marinhos como mariscos e... — Ela percebeu o olhar de Sebastian. — Claro, vou pegar.
— Que porcaria é essa? — Sebastian jogou a carta na frente para Gilbert e ele nem precisou olhar a caligrafia caprichada para reconhecer a carta de Anne. — Eu adoro aquela menina, mas para alguém tão inteligente... Como você está?
— Não sei — Gilbert respondeu sinceramente. — E não chame de porcaria, é só uma carta de... uma amiga.
— Uma amiga que te beijou e depois começou a namorar outro? Me poupe, Blythe, isso não é só uma carta.
— Olha, é o que é. Somos amigos. Eu só tenho que me acostumar com isso e isso é um bom choque de realidade.
— Um bom choque de realidade? Isso só te faz pensar mais nela, e certeza que depois você já ficou cheio de vontade de enviar outra carta e ter mais notícias dela. — Gilbert ficou envergonhado ao perceber que quase fizera aquilo mesmo. Levou um belo tapa na cabeça de Bash.
— Ei!
— Isso é para você pensar melhor em como você tem que esquecer a Anne.
Os dois ficaram quietos em seguida. Bash não tinha a intenção de magoar Gilbert, só queria ajudá-lo, mas era inevitável que ele não sofresse no processo. Os dois ficaram em silêncio, apenas o barulho das chamas do forno, até que Sebastian pegou a última carta. Ele levantou uma sobrancelha.
? Eu saio e você já arruma convite para festas de desconhecidos? — O tom de voz era mais leve, como se tentasse melhorar o ânimo do amigo. — Talvez você esteja melhor do que eu pensei.
— Para, Bash, não fala besteira. É só uma moradora nova. É sobrinha neta daquela ricaça Lady Pency. Ela e a irmã se mudaram para cá logo depois que você viajou.
— E aí? Conta mais!
— Cuidado para não tirar o cargo de Rachel Lynde de maior fofoqueir... ai! — Levara mais um tapa, agora na nuca. — Tá bom, tá bom, eu só as vi duas vezes! Os pais delas estão doentes, então tiveram que se mudar para cá. — Ele coçou a cabeça, sabendo que isso não era suficiente para Bash. — A mais nova acabou de fazer 19 e quase foi atropelada, eu a atendi e nesse dia eu conheci a mais velha também, que parece ter pouca diferença de idade para mim, talvez um ano a mais. Depois, as encontrei de novo nesse baile, mas só falei com a mais nova, que é a .
— Então, você tá tendo bastante contato com essa . — O sotaque de Sebastian parecia deixar a ironia muito pior.
— Para de achar que tudo tem segundas intenções! Além disso, não sei se ela realmente gosta de mim, ela meio que... brigou comigo por ajudá-la. Mas depois foi simpática comigo quando dançamos.
— Vocês dançaram?! E eu entendo a coitada, quem não quer brigar com você? E isso é mais ponto para ela, né? — Ele ergueu as sobrancelhas, sorrindo. — Só falta ela te bater e logo você vai estar caidinho.
Sebastian teve que se desviar de um biscoito que voou em sua direção.
— Tá precisando praticar mais a mira, Blythe. Achei que, sendo um doutor, você ia saber ser mais certeiro.
Logo, uma pequena guerra se estabeleceu na cozinha e só parou quando Muriel voltou com sua coleção de conchas. O resto da noite foi extremamente agradável e o coração de Gilbert se apertou quando eles se retiraram, já de noite, para dormirem na casa deles. O seu ânimo melhorara muito de uma forma que só Sebastian conseguia. Porém, não conseguia tirar da sua cabeça toda aquela conversa sobre Anne e sua necessidade de realmente esquecê-la. E sabia que não seria a única vez que Bash ia zombar dele por causa da nova garota, mas apenas a primeira. Aquele era Sebastian: sempre o perturbando. Mas Gilbert sabia. Por trás de todas aquelas implicâncias, ele encontrava ali o amor de um irmão.


nem acreditava que realmente estava a caminho da casa de . Deu a imensa sorte de o Conde ter marcado de voltar naquele mesmo dia e, para Lady Pency, manter a sobrinha neta mais nova afastada provavelmente seria bom para prevenir que ele não se afastaria, então recebeu permissão para visitar a amiga. nunca comemorou tanto o fato de ser considerada um empecilho. Até prendera o cabelo em um alto coque, colocara um vestido bem arrumado e levava uma sombrinha. Não havia como estar cumprindo melhor as regras de vestimenta social.
Escrevera mais uma das centenas de cartas que enviava aos seus pais pedindo notícias. Depois, relembrando as palavras de Gilbert Blythe em seu baile de aniversário, tentou colocar aquela tarde como sua prioridade, afastando pensamentos de culpa e tristeza.
só desejava profundamente (ou talvez nem tanto assim) que esse houvesse sido o único momento que pensara em Gilbert desde então: com apenas um conselho justo de ser lembrado. Mas não. Quando não estava pensando em seus pais ou na porta trancada, acabava pensando nele. Se frustrara tanto quando não conseguira ler um livro porque seus pensamentos ficavam se desviando para ele. Não se achava completamente culpada. Ela era uma menina vulnerável que acabara achando de pretexto pensar em um garoto bonito, gentil, inteligente... Porém, aquilo precisava parar. E, se tudo corresse bem, uma tarde de conversa com tiraria o médico de sua cabeça.
Quando a carruagem finalmente parou, se encontrou diante de uma casa marrom clara de dois andares e um belo jardim. Tropeçou ao descer a carruagem de tão animada que estava.
Na bela porta de madeira, ela ajeitou os últimos fios de cabelo e bateu à porta. Uma senhora, que ela imaginou ser a governanta, apareceu ali.
— Boa tarde, sou . Fui convidada pela senhorita .
— Mais convidados? Um segundo, chamarei a senhorita Monroe.
“Mais convidados?” pensou , confusa. Logo, no entanto, uma animada Lily estava em sua frente.
— Obrigada, senhora Prewett. ! Você veio mesmo! — A anfitriã começou a arrastá-la para dentro da casa, mas, depois de fechar a porta, fez parar e sussurrou: — Meus tios e uma de minhas primas vieram me visitar, eu não estava sabendo disso, por isso, vamos ter que passar por eles primeiro. Mas fique tranquila que o assunto da “sua irmã” não foi esquecido. Provavelmente, minha prima vai ficar conosco e ela é confiável, porém, caso você não se sinta confortável, nós fugimos de sua vista.
ficou um pouco nervosa, mas respirou fundo e agradeceu que sua animação a tivesse feito se arrumar propriamente. Entraram, então, na sala de visitas.
— Voltei, mamãe! Essa é de quem lhe falei. , esses são meus pais, Vera e Paul Monroe. — Ela apontou para o casal ao seu lado, e a convidada percebeu que a amiga possuía uma semelhança incrível com a mãe, exceto a cor do cabelo. — Esses são meus tios, Ruth e Harmon Andrews. — Lily agora apontava para um casal sentado no sofá, oposto a elas. percebeu que o sr. Harmon e a sra. Vera eram irmãos, pois eram muito parecidos. — E essa é minha prima, Prissy Andrews. Estavam todos no baile, mas, com tantos convidados, não te culparia de esquecer alguns. — Todos riram educadamente.
— Srta. , como você vai? E sua tia? Você também tem uma irmã, certo? — perguntou a senhora Monroe enquanto a conduzia para uma cadeira.
Uma conversa agradável e educada se instaurou por alguns minutos, até que a senhora Andrews falou:
— Pobres meninas, devem estar entediadas!
— Você tem razão, Ruth — Vera concordou com a cunhada. — , leve para conhecer a casa. Prissy, querida, acompanhe sua prima.
— Certamente, tia — a jovem Andrews disse, se levantando com elas.
— Venha, vou te mostrar meu quarto! — Lily falou, animada, quando elas já estavam fora da sala. Prissy riu da prima.
As três garotas subiram as escadas (bem menos grandiosas que as da mansão de Lady Pency) e passaram pelas portas de madeira, até que abriu uma delas.
— Que lindo! — falou sinceramente, olhando o pequeno quarto azul turquesa com uma vista para o jardim da casa. — Que livro é esse? — ela disse, apanhando um volume esquisito que estava na cama.
— Ah, entendo sua surpresa! — Lily deu de ombros, sorrindo. — Um livro de economia no quarto de uma menina. Bom, não é meu, é de Prissy, ela que é boa com essas coisas, até na escola eu era péssima com contas. Vamos para a sala de música, esse quarto é muito apertado para todas nós. Prissy, conte a ela sua história.
estava empolgada demais com a ideia de irem para a sala de música, contudo, ouviu a srta. Andrews atentamente.
— Bom, não é uma história muito bonita. Primeiro, eu me envolvi com o professor da minha escola. Eu era muito nova para pensar no que eu queria, tinha apenas 15 anos.
— Aquele nojento — acrescentou.
— Não discordo — Prissy continuou. — Mamãe nunca quis que eu me casasse, queria que eu fosse para a faculdade. No dia de meu casamento, eu decidi que aquilo não era o que eu desejava e sim continuar minha educação. Então eu fui para Queens.
— Sua mãe incentivou a faculdade? — ficou assombrada. Era raro ver meninas indo à faculdade.
— Bem, aqui em Avonlea, muitas meninas foram. Mamãe coordena um grupo que é a favor da educação superior para meninas também. Na verdade, o único da minha família que não foi para a faculdade foi meu irmão, Billy. Você o conheceu no baile.
se lembrou de ter dançado com o menino no baile, mas achou que não seria bom falar para sua irmã e sua prima a sua opinião dele, pois não era positiva. Decidiu apenas assentir para demonstrar que estava acompanhando.
— Desde que retornei, no entanto, minha maior vontade era administrar a fazenda do meu pai, mas claramente ela iria para Billy, mesmo que ele nem soubesse o que estava fazendo. Papai negou até mesmo que eu apenas ajudasse meu irmão.
— Até ele quase estragar tudo, como sempre — Lily falou honestamente.
— Praticamente, foi isso. E, quando eu consegui planejar maneiras de nos recuperar e melhorar nossos lucros, mamãe implorou para papai me deixar ajudar. E aqui estou eu.
não se lembrava de ter se sentido tão surpresa com algo antes. Uma mulher administrando uma fazenda? Sem se casar? Tendo feito faculdade?
— Você também fez faculdade, Lily?
— Ah, não, mamãe não concorda com essas coisas. O maior aprendizado que eu tive na vida, além da escola, foi sobre como bordar — ela completou, com uma careta.
compreendeu a amiga, contudo, sua concentração se perdeu quando passaram pela porta da sala de música e ela avistou um belo piano vertical na sala. Sem perceber o que estava fazendo, ela já estava colada no instrumento, encantada.
— Você gosta? — Prissy perguntou, educada.
— Ah, sim! Temos um lá em casa. Eu adoro tocar. — Ela abriu um sorriso discreto. — Mas eu não toco desde que cheguei, não tem nenhum na casa de Lady Pency.
— Você pode tocar, se quiser — falou, animada. — Mas... estou muito curiosa. Podemos começar o assunto da sua carta? Acho que, se minhas suspeitas estiverem certas, Prissy pode ser de grande ajuda.
A prima olhava para as garotas completamente confusa, e , tentando se distrair no piano, acabou concordando, começando a tocar.
— Para começar, não quero te deixar desconfortável, mas você não estava falando da sua irmã na carta, certo? — Lily nem esperou confirmação para continuar. — Eu sabia porque sua irmã não parecia nem um pouco confusa naquele baile. Ah, você deve estar perdidinha. — Lily olhou para Prissy, que olhava de uma à outra sem acompanhar muito bem. — está a fim de alguém.
— Não estou. Você mesma disse que não era necessariamente gostar — falou, errando uma nota perante seu nervosismo.
— E quem é? — Prissy indagou, agora bem interessada.
— Ah, se for quem eu penso, não são boas notícias. Fala logo, . É aquele Gilbert Blythe, não é?
levou um choque e parou de tocar. Estava tão óbvio assim? Seu susto foi suficiente para confirmar que estava certa e logo as duas primas estavam lhe lançando olhares de pena.
— Desculpa, mas o jeito que você estava dançando com ele... Ficou na cara! — Mas o olhar esquisito não sumia.
— O que foi? — indagou, suspeita.
— Ah, Prissy, você sabe melhor que eu — Lily falou, agora o olhar de pena se dissolvendo em curiosidade.
— Eu? Não é melhor você?
— Você sabe que não faz sentido eu contar, só sei por meio do que você contou em primeiro lugar. Conte logo!
— Ah, certo. Bom... — Prissy parecia confusa. — Por onde começar? Gilbert estudou comigo na escola. É, todas as meninas da cidade adoravam ele e eram apaixonadas por ele, principalmente aquela Ruby Gillis — se recordou de uma menina loira que estava em sua festa —, mas ele nunca se interessou por ninguém, mostrando apenas a sua habitual simpatia que era direcionada a todos.
— Isso é, até Anne Shirley chegar — Lily falou, sem conseguir se conter e se adiantando.
— Anne Shirley? Não lembro de ninguém com esse nome no baile.
— Ah, é porque aí vem história!
— Continuando... — Prissy se endireitou. — Anne é uma menina órfã que foi adotada pelos irmãos Cuthbert. Ficou claro que Gilbert estava a fim dela desde que se conheceram, mas ela nunca lhe deu bola. Anos depois, então, ele decidiu seguir em frente. Conheceu essa moça, Winifred Rose, e eles quase noivaram! Mas algo aconteceu, e pelo que Diana, a melhor amiga de Anne, me contou, Anne se declarou para Gilbert e, quando ele descobriu, foi atrás dela. Que cena foi aquela! Beijos e promessas para todo lado.
O estômago de estava se embrulhando a cada palavra, mas ela conseguiu falar:
— E então?
— Então, cada um foi para a sua faculdade e Anne conheceu Roy Gardner, um garoto lindo, inteligente, rico...
— Basicamente perfeito — Lily comentou.
— Basicamente — Prissy concordou. — Anne deixou sua relação com Gilbert voltar à amizade e namorou com Roy por dois anos antes de noivarem. Agora ela está na casa dele, quilômetros daqui. Mas há boatos que, mesmo sabendo do namoro, Gilbert nunca realmente desistiu dela. Mas agora está sendo forçado, não é? Já faz dois meses desde que eles noivaram. É realmente para valer.
— Todos que o conhecem comentam sobre como ele está abalado — concluiu.
Então era isso. não conseguia parar de pensar em um garoto cujo coração era completamente de outra. Todas as esperanças (que ela não admitira para si mesma) pareciam agora pesar dentro de si.
— Ah, eu sabia que você ia ficar assim — Lily comentou, tristonha.
— Assim como? — falou, espantando o choque e o desconforto. Tinha necessidade de se sentir assim por uma pequena queda que achou que talvez tivesse por um médico que apenas vira duas vezes? — Eu disse, não estava gostando dele, ele apenas me falou uma coisa no baile que me deu conteúdo para pensar. — Mas nem ela acreditava 100% no que dizia.
Um silêncio se instalou na sala de música.
— Bom, acho que esse momento pede biscoitos da Sra. Prewett — Prissy falou, gentil.
Os olhos de Lily brilharam.
— Alguém disse biscoitos?


Gilbert teve um dia agitado. Começou com uma visita de Bash e da bebê Delphine, que logo estaria fazendo 4 anos e que agora só o chamava de “tio Gilby”. Era melhor do que quando Sebastian ensinara a criança a chamá-lo de um jeito que fez o sapato da sra. Lacroix voar na cabeça do filho desafiando as leis da física.
Depois de se despedirem, foi Elijah quem chegou, e eles começaram a trabalhar nas macieiras, pois, com o início do verão, dali a dois meses já estariam carregadas. Depois, eles almoçaram e Gilbert deixou Elijah na fazenda, porque iria pegar o trem para Charlettown às 12 horas para comprar alguns materiais para o seu consultório.
A viagem foi agradável, mas estava um pouco preocupado com o horário. Queria chegar cedo em casa em um dos seus poucos dias de descanso e, no dia seguinte, já nas primeiras horas da manhã, teria Igreja.
Chegando à cidade, procurou a loja que ele costumava ir para encomendar o material e teve uma agradável surpresa ao encontrar um rosto amigo ao se dirigir para pagar.
— Meus olhos me enganam ou eu vejo Gilbert Blythe aqui comigo? — Era o Doutor Raynes, que havia cuidado de seu pai, de Bash, de Mary e havia dado a Gilbert seu primeiro estágio com ainda catorze anos.
— Doutor Raynes! Como o senhor vai?! — Eles apertaram as mãos, Gilbert muito animado. Tinha uma grande admiração e gratidão por ele.
— Bem, bem, mas o tempo está começando a me cobrar, meu jovem! — disse, rindo. — E você não apareceu mais no meu consultório!
— Ah, voltei da faculdade há apenas uns meses e estou com um pequeno espaço lá em Avonlea. Tentando conquistar as pessoas — respondeu, em tons de pedido de desculpa.
— Elas são difíceis, não são? Nunca abertas para o novo! Ainda mais você, que tinha a cabeça deslumbrada pelas novas pesquisas.
— Ah, senhor, mas você deveria ver todas as ideias que eles trazem! Pensar que tudo que temos pode ser útil, apenas não testamos da maneira correta! — Gilbert teve que se segurar. Aquele assunto o deslumbrava e o intrigava, mas a maioria apenas olhava com grande desinteresse.
— Ah, meu garoto, você pensa tanto! — Doutor Raynes riu. — Você deveria vir me visitar um dia desses.
— Ah... Claro! — Gilbert estava atônito. — Seria um prazer.
— Não suma de novo! E, Paul — o doutor se dirigiu ao caixa —, pode colocar o que ele precisar na minha conta.
— Doutor! Isso não é necessário!
— Não é mesmo. — Ele piscou. — Mas eu sei como é difícil sustentar um negócio no começo, ainda mais numa cidade pequena, com desconfiança. Venha ao meu consultório semana que vem e me pague isso com uma tarde com você como meu assistente novamente. Mãos jovens fazem milagres que já não me pertencem mais!
E, assim, ele saiu, deixando Gilbert completamente atônito.
Quando sua gratidão àquele homem já parecia no limite, ele aparecia novamente.
Depois de comprar o necessário na loja, aproveitou o dinheiro economizado e comprou uma boneca simples para Delphine, guardando o que restara.
Já voltando no trem, o jovem ficou refletindo sobre como o destino era engraçado. As últimas vezes em que estivera em Charlottetown fora para encontrar Winnifred, sua quase noiva, que ele abrira mão por... Anne. Sempre Anne.
Afastou aqueles pensamentos. O dia estava ótimo. Ele não queria atrapalhar aquilo. Ainda mais em uma viagem de trem, que ele adorava tanto. Ganhara o gosto por viajar de seu pai e, apesar de ter decidido ficar em Avonlea e virar um médico, cercado por seus amigos e sua família, ele ainda esperava ter a chance de conhecer tantos lugares novos. Tantos mares, tantas praias, tantos campos e montanhas... Mas um passo de cada vez. Primeiro, precisava melhorar seu consultório. E conquistar mais clientes.
Depois de uma viagem agradável, ele desembarcou na estação e já estava pensando em alugar uma carruagem para voltar, quando escutou:
— Blythe? É você mesmo?
O dia realmente estava cheio de reencontros.
— Billy! Como está? — ele respondeu, o mais educado possível.
— Bem, mas tenho que visitar minha família agora. Bobeira. E você? Vai para onde?
— Estou voltando para casa. Estive em Charlottetown.
— Ah, a última vez que vivia lá, quase acabou amarrado. — Ele riu, e Gilbert forçou uma risada. — Sua casa fica perto, deve ser uma hora andando de lá. Quer uma carona?
Pagar uma carruagem ou ter que aturar Billy Andrews? A resposta lógica era gastar o dinheiro, mas nem ele era capaz de negar uma economia.
— Claro! É muito gentil da sua parte.
Os dois garotos subiram no transporte e se acomodaram. Gilbert começou a se arrepender quando Billy abriu a boca:
— Anda brincando de boneca, Blythe? Não é muito homem da sua parte.
Ele respirou fundo. Ele está te dando uma carona, seja gentil, ele se relembrou, antes de forçar uma risada.
— É para Delphine, filha do Bash.
— Ah. Aquela gente — Billy falou, com claro desgosto.
Aquela gente é minha família, seu jumento. Ele respirou fundo e engoliu novamente os comentários e a súbita vontade de pular da carruagem. A partir de então, ele parou de ouvir, soltando apenas alguns “ahã” para não ser completamente ingrato pela carona. Mas era realmente muito difícil conviver com Billy Andrews.
Depois de uma hora de carruagem (que Gilbert ficava se relembrando, para não demonstrar sua frustração, que teria enfrentado muitas longas horas de caminhada ou um bolso bem mais leve), a visão da casa marrom clara foi o mais perto que ele poderia chamar de paraíso, tamanho seu alívio. Quando Billy parou a carruagem, o acompanhante pulou imediatamente para o chão e já se preparava para se despedir, quando os dois jovens perceberam duas figuras se aproximando deles. O dia realmente estava para reencontros.
— ... me visitar sempre que quiser! — Uma jovem, que Gilbert reconheceu como Monroe, falava para ninguém menos que . Ele viu Billy se ajeitar. , então, reparou neles. — Ah, doutor Blythe, que prazer! E, Billy, finalmente, seus pais já estavam começando a se desesperar.
— Boa tarde, senhores — cumprimentou a todos. Então, olhou para longe e pareceu congelar por um minuto.
— Tudo bem, ? — a srta. Monroe perguntou.
Ela pareceu constrangida.
— Bom, acho que me empolguei muito e planejei tudo para vir, mas... — Ela olhou para as próprias mãos, mexendo várias vezes no vestido. — Esqueci que precisava voltar.
Os três que a escutavam não puderam deixar de rir.
— Bom, estou com uma carruagem bem aqui, que conveniente. — Billy riu. — Não será incômodo acompanhá-la.
— Ah, Billy, mas você acabou de chegar. Seus pais vão falar no meu ouvido — resmungou.
— Mas seria muito perigoso deixá-la sozinha.
tentava pensar em alguma opção. Gilbert sabia o que era certo a fazer.
— Se Billy permitir, eu a deixo em casa e depois retorno com a carruagem para cá. Não é demorado o trajeto e assim ninguém precisa correr perigo, especialmente ameaças de parentes — ele comentou, bem-humorado. Estava cansado, mas não podia deixá-la sozinha. Ou com Billy. A última parecia ainda pior.
— Ah, doutor Blythe, o senhor é tão gentil! — disse.
— Não precisa, Gilbert — murmurou, baixinho.
— Não precisa mesmo, Blythe. — Billy agora estava mais mal-humorado.
— Claro que precisa. Não quero causar nenhuma discórdia familiar e nenhum risco desnecessário. E acredito que você tenha alugado a carruagem até amanhã, certo? — Gilbert replicou, agora já um pouco de saco cheio.
— Certo — Billy resmungou, depois de um tempo, ainda contrariado.
— Então, perfeito! — falou, puxando o primo, como se já soubesse de o que ele era capaz. — Vamos, Billy. Tchau, , até outro dia, mas garanta sua carona de volta! Tchau, Blythe, obrigada novamente! — E, em um rápido momento, os dois sumiram dentro da grande casa, sobrando apenas Gilbert e .
Ele estendeu o braço para ela.
— Vamos? — ele a chamou.
Andaram até a carruagem e ele ofereceu ajuda para levantá-la, mas ela recusou e subiu sozinha no transporte.
— Eu juro que normalmente eu não sou tão... tão... estúpida — ela completou baixinho. — Era tão óbvio.
— Bom, já percebi que você tende a entrar em situações inusitadas. Não precisa da cara fechada — ele acrescentou, rindo. — É só brincadeira.
— Para você, talvez — ela falou, mas suavizando a sua expressão. — Vejo que você está bem-humorado hoje.
— Gosto de pensar que estou sempre assim. Mas, sim, tive um bom dia, mas também um pouco longo.
Um silêncio se instalou.
— Me desculpa, se eu não fosse burra, você já poderia estar indo para casa. Estava indo para casa, certo? A propriedade dos Monroe fica próxima da entrada de Avonlea — falou.
— Estava, mas não me importo. A companhia me agrada. — Ele sorriu para ela. — E não se chame de burra, foi apenas distração.
— É, mas não é só isso. Parece que todas as meninas fizeram faculdade, menos eu. Eu nem fiquei tantos anos na escola. Nem era uma aluna muito boa. E parece que eu não faço nada certo — ela resmungou. — Meu bom Senhor. — Ela olhou de esguelha para ele. — Não era para eu ter falado isso. Me desculpa. Isso só estava na minha cabeça.
— Não precisa se desculpar, acho que é natural ficar assim. Além disso, há muitas coisas que não se aprendem na escola. Todos os meus meses de viagem equivalem há anos de aula que eu nunca tive. Não é só porque você não teve uma formação que você é incapaz ou inferior.
— Para onde você foi? — ela perguntou, os olhos brilhando de curiosidade.
— Com meu pai, fui para as montanhas. Depois, bom, estive dentro do navio a maior parte do tempo. Mas o Oceano Atlântico me levou a muitos lugares inesperados, como a Ilha de Trindade, terra de Bash.
— Bash?
— Ah, verdade, você não o conhece. Sebastian é um amigo que conheci no navio e, hoje em dia, ele é meu sócio na fazenda. E mais. É como um irmão para mim. Inclusive, essa boneca aqui é para Delphine, sua filha.
— Que lindo — ela falou, sorrindo. — Mas por que não o encontrei no baile? Se me lembro, você chegou sozinho.
— Olha você me observando de novo — ele brincou.
— Observei a todos! — ela disse, novamente com uma careta.
— Tá bom, tá bom! Você precisa de mais senso de humor.
— O meu senso de humor é excelente. Mas você não me respondeu.
— Ele estava em Lua de Mel, voltou há poucos dias.
— Ah, isso explica! Mas também não lembro dele na lista dos convidados. Escrevi apenas para você.
Gilbert suspirou, pensando em como ia explicar aquilo. Esperava que o que dissesse a seguir não transformasse em uma Josie Pie.
— Provavelmente, ele não era bem-vindo lá. Isso acontece frequentemente com quem não o conhece.
— Mas por que ele não seria bem-vindo? Ele... — Ela respirou fundo. — Ele é um criminoso?
— Só se você considerar um crime ele ter a língua tão afiada. — Gilbert riu, imaginando Sebastian reagindo àquela conversa. — Não, não, mas ele é uma pessoa de cor — ele falou, com um quê de orgulho de toda a força de seu amigo.
— Ah. — Foi o que ela pôde dizer.
O silêncio se instalou novamente e Gilbert suspirou. Por que todos não podiam só enxergar o fato de ele ser simplesmente... uma pessoa? E muito melhor do que muitos que ele conhecia.
— Ele deve passar por vários problemas por causa disso — ela falou, de repente. — Eu só conheci uma pessoa de cor na vida, por cinco minutos, antes de um oficial começar a segui-lo. Nunca mais o vi desde então. E tudo que ele fez foi... estar na cidade.
— É bem assim. — Ele suspirou. — Mas acho que não sou indicado para falar. Nunca passei por isso. Bash certamente tem muitos relatos ruins sobre essas questões.
— Seria adorável conhecê-lo, ele parece ser uma pessoa divertida — ela acrescentou, olhando para longe. De repente, se deu conta do que estava falando e ficou novamente constrangida. — Não que eu esteja me oferecendo para visitar ou algo assim!
— Uma pena, seria um convite bem-vindo. Mas, também, ele agora se mudou com a esposa.
— Ah, claro — ela falou, ainda envergonhada. Gilbert estava achando aquilo adorável e engraçado. Talvez eles pudessem ser bons amigos, afinal. Continuavam se esbarrando sempre por aí.
Depois de meia hora de viagem, com conversas e alguns silêncios, agora confortáveis, eles chegaram à Mansão Louborne.
— E a senhorita está entregue — Gilbert disse, com uma pseudo reverência, que a fez revirar os olhos e abrir um sorriso.
— Você se acha muito engraçado, mas precisa mais do que gestos bobos para me fazer rir — ela disse, embora já estivesse quase rindo.
— Bom, então pretendo te escrever futuramente para que você me visite, para conhecer Bash e para que eu prove, não que seja necessário, que eu sou um cara engraçado.
— Vai sonhando, doutor. Volte para a medicina, você não trabalha em um circo. — Então, a jovem sorriu. — Mas aguardo o convite. Obrigada novamente. Foi muito gentil da sua parte me trazer aqui.
— Eu que agradeço pela conversa.
Ela sorriu abertamente.
— Boa noite, Gilbert.
— Boa noite, — ele se despediu e, enquanto ela entrava, começou a retornar.
Meia hora para deixar a carruagem na casa dos Monroe e mais uma hora caminhando até em casa. Com isso, ele chegou na sua fazenda exausto e iluminado já pelo luar.
Mal jantou e se jogou na cama, feliz com o dia. Havia sido um dia fora do comum e dias diferentes sempre eram bem-vindos. tinha razão. Ele esteve mesmo de muito bom humor naquele dia.
Pensar em o fez lembrar de sua futura visita e ele planejou escrever para Bash no dia seguinte para marcar um dia. Ele sabia que ia ouvir diversas reclamações e implicâncias, mas, por algum motivo, estava animado demais para deixar aquilo desanimá-lo.


Desde que recebera a carta de Gilbert convidando-a para o aniversário de Delphine, ela não conseguia dormir.
Na primeira noite, sonhou que estava levando o bolo e o deixou cair no chão, fazendo a criança sem rosto chorar e todos a olharem de cara feia.
A segunda noite havia sido pior. Agora, ao invés de levar o bolo, ela tentava acender a vela, mas sempre apagava e, quando finalmente conseguia acender, ela derrubava a vela incandescente no chão e toda a casa começava a pegar fogo.
Na terceira noite, ela chegava à casa e ninguém estava. Horas depois, ela descobria que errara o local e estava no lugar errado. Quando conseguia chegar, todos a olhavam com desaprovação e desgosto. Até Gilbert.
Que, inclusive, foi o principal do quarto pesadelo, em que ele a olhava a festa toda e ela decidia se declarar... então, todos riam dela, enquanto uma linda mulher chegava, beijava o médico e todos diziam “é claro que Gilbert só poderia ficar com Anne Shirley...”.
Por sorte, o quinto dia era o dia da festa, então os pesadelos só dependeriam do decorrer do dia, que faria de tudo para ser perfeito.
Conferiu novamente o presente da jovem menina que comprara: um pequeno urso de pelúcia. Ficara tentada a comprar uma boneca de porcelana, mas a menininha tinha apenas quatro anos, e cacos de porcelana não eram o ideal. Quem sabe no futuro.
Olha só você, achando que haverá um futuro”, ela falava consigo mesma. Tinha decidido que Gilbert Blythe era apenas um jovem gentil. E a única coisa que poderia sair daquela relação era uma boa amizade. Nada mais.
Ela suspirava com os pensamentos.
Escolhera um dos seus vestidos de festas de dia, um pouco mais simples que os noturnos, mas igualmente elaborados. Com a ajuda do espartilho bem desconfortável, o vestido verde claro com renda azul e amarela lhe caiu perfeitamente. Por insistência da irmã, colocara um chapéu que combinava, conforme as regras de conduta social.
Não contara para Lady Pency de quem era o aniversário, apenas que Gilbert Blythe a convidara. Porém, foi um escândalo explicar que ele não poderia lhe buscar por ter prometido ao caro amigo que ajudaria a organizar a festa (apenas não mencionou que tal amigo era este), contudo, ele lhe oferecera carona de volta, situação que melhorou o mau humor da tia.
Um pouco.
Desceu da carruagem no endereço indicado e respirou fundo. De longe, conseguia ver uma fazenda adorável e algumas pessoas agrupadas em uma área externa.
Foi se aproximando aos poucos, analisando todos ali presentes. Pessoas de todos os tipos estavam presentes. Simples e arrumadas, brancas e de cor, contidas e animadas. Reconheceu alguns rostos de sua festa, entre eles Diana Barry e Rachel Lynde. Ambas a cumprimentaram cordialmente, a jovem com uma expressão doce e educada, já a senhora, curiosa e observadora. Sentiu-se muito constrangida sob aqueles olhos.
— Ora, ora, se não é . Boa tarde — a sra. Lynde disse, a olhando de cima a baixo.
— Boa tarde, sra. Lynde. Como vai?
— Muito bem, minha jovem, graças ao bom Deus. Então, o que faz aqui? Foi convidada? Talvez por Gilbert Blythe?
— Ahn, sim, precisamente, Gilbert me convidou.
— Então já estão se tratando pelos primeiros nomes? — Ela sorriu de maneira nada sutil.
— O quê?
, que prazer te reencontrar depois daquele baile maravilhoso! Como você e sua família passam? — Diana Barry perguntou, salvando de uma péssima situação.
— Muito bem, obrigada, e a senhorita e sua família?
— Bem também, muito obrigada por perguntar.
— Que jovens perfeitamente educadas. O bom Cristo sabe que logo terão maridos. Diana já está noiva e prevejo que logo você estará no mesmo caminho, srta. .
levou um susto tão grande que quase se engasgou na própria saliva.
— Perdão?
— Se todos ouvissem meus conselhos de cara, seria mais fácil. Como aqueles ali. — Ela apontou para um casal. — O sr. e a sra. Lacroix. Estariam casados há mais tempo se simplesmente me escutassem! Mas já vi que você é tão teimosa quanto. Um dia, como todos, você dirá, ah, sim, como dirá, que Rachel Lynde tinha razão. Guarde minhas palavras, criança.
estava em completo choque e só observou a senhora e a jovem se afastarem. Continuou seguindo, procurando um olhar conhecido, e recebendo vários estranhos e de julgamento em troca. De repente, sentia que estava muito arrumada, muito deslocada, muito educada e muito... desconhecida.
Por sorte, a salvação chegou com um par de olhos cor de avelã especialmente gentis.
, você veio!
— Boa tarde, Gilbert. Obrigada pelo convite — ela disse, tentando não soar agradecida demais. “Seremos só amigos”, reforçou para si mesma.
— Não há de quê! Venha, tenho que te apresentar a todos.
percebeu que nunca o vira tão feliz. Provavelmente, era porque estava no meio daqueles de quem verdadeiramente gostava. Aquilo fez o coração de se aquecer, feliz por vê-lo daquele jeito e pelo médico estar cercado de pessoas tão especiais para si, especialmente por sua história trágica.
— Bom, primeiro te apresentarei Bash e Muriel, e depois para Delphi. Ela deve estar correndo por aí como uma louca. Está em uma fase em que tudo é brincadeira.
Gilbert os conduziu em direção a um casal que parecia conversar com todos, o que Rachel Lynde havia apontado. A moça tinha os cabelos claros, olhos verdes e pele alva. Já seu companheiro, tinha cabelos pretos e olhos escuros e espertos, a pele de cor e uma barba cheia, aparentava ser um homem brincalhão, mas que já havia passado por maus bocados.
— Bash, Muriel, essa é a amiga que eu tinha dito que convidaria. — O estômago da jovem se revirou de nervosismo. Então ele já os considerava amigos? — Esta é .
— Sr. Lacroix, Sra. Lacroix, é um prazer conhecê-los. Obrigada por permitirem a minha presença neste dia tão encantador. — sorriu e começou uma reverência, depois pensando que não deveria ser necessária, resultando em uma meia mesura meio constrangedora.
— Então, você é a famosa . Blythe falou bastante de você — Sebastian comentou, com um sotaque carregado, fazendo ficar envergonhada. Graças a Deus não corava.
Gilbert lhe deu um tapa no ombro.
— Ai! O que foi?
— Sebastian, você está constrangendo a moça! — sua esposa comentou, mas parecia achar a situação muito engraçada. — Peço desculpas por meu marido. Era apenas uma brincadeira. Nós que agradecemos por sua presença. E, por favor, me chame de Muriel.
Muriel olhou feio para o marido, que estava quieto ao seu lado. Depois de uma forte cutucada, ele falou:
— Claro, claro! Bem-vinda, isso. Espero que aproveite.
— Eu trouxe uma pequena lembrança para a jovem aniversariante — falou, quebrando aquele clima meio esquisito. — Devo deixar com vocês?
— Oh, não era necessário! — Muriel falou. — Mas, visto que já está feito, por que não entrega para a aniversariante em pessoa? — A mulher sorriu.
— Seria um enorme prazer!
Os quatros foram andando pela festa, cumprimentando convidados no caminho, , inclusive, sendo apresentada para vários, enquanto procuravam a “pestinha”, como Sebastian a chamava.
Finalmente, a busca cessou quando encontraram um arbusto que estava se mexendo demais.
— Te achei! — Bash falou, afastando os arbustos e revelando duas crianças comendo biscoitos, uma que parecia ter 8 anos e uma mais nova, que assumiu ser a pequena Delphi.
— Por favor, srta. Stacy! — a menina maior começou a exclamar. — Não conta pra mamãe, por favor!
— Está bem, Minnie May — Muriel respondeu, parecendo segurar o riso. — Eu não conto, mas que isso não se repita. Muito biscoito faz mal. E é sra. Lacroix agora.
— Eu não sei por que gente adulta muda de nome! — A criança saiu correndo.
— E olhe quem também tá aqui! Se não é a bonequinha do papai! — Sebastian disse com uma voz infantil, pegando a criança no colo e depois fazendo cócegas nela, que não parava de rir. — Você tem mais um presente!
— Presente! — A jovem criatura agora tinha os olhos brilhantes e logo se viu completamente encantada com aquela menina tão pequena e tão preciosa.
— Ela é uma amiga do tio Gilby — Sebastian continuou.
— Delphi, essa é a , e ela trouxe um presente para você! — Gilbert falou.
— Delphi parecia testar o nome na sua boca, então percebeu o embrulho que a menina segurava. — Presente! Que é? Que é? — A criança tentava agarrar o pequeno embrulho, mas o pai a segurava fortemente, rindo. Ele estava completamente bobo perto dela e dava para ver que ela era quem ele mais amava no mundo.
— Tudo bem, Delphi? — se aproximou, sorridente. — Tá aqui o seu presente, oh! Espero que goste.
A criança nem respondeu, agora no chão, já abria o embrulho e soltou um arquejo ao ver o urso, abraçando-o e correndo de alegria.
— Espera aí, pestinha! — Bash a agarrou no último segundo antes que ela fugisse. — Como que se diz?
— Brigada! — Delphine abraçou a jovem, sendo um pouco mais alta que seus joelhos, e depois saiu correndo. estava completamente apaixonada.
— Não se sinta muito especial, cada presente que chega vira o seu favorito — Bash brincou.
— Então, pela primeira vez, espero que eu tenha sido a última a chegar! — replicou com humor, fazendo todos rirem.
— Gilbert, você deveria mostrar a fazenda para — Muriel falou, encostando gentilmente na jovem, guiando-a para perto do garoto.
— Ah, mas nada aqui nem se compara com a sua casa. — Ele coçou a cabeça, meio envergonhado.
— O seu problema é esquecer que aquela casa e essas roupas não são minhas, e sim de minha tia — falou para Gilbert. — O local é encantador e eu adoraria conhecer. — Não tinha problema, certo? Era educação e nada romântico.
— Vai logo, Blythe, não seja um anfitrião babaca. — Sebastian o empurrou em direção à garota, ganhando um empurrão de fora. — Que foi? Quero que a educação se mantenha nessa casa ou vão pensar que fui eu que te ensinei a ser sem noção desse jeito.
— Ninguém pensa isso, todos têm certeza! — Gilbert replicou para o amigo, depois parando para suspirar. — Então... me acompanha?
estava encantada com a dinâmica dos dois, ela via um lado novo de Gilbert, mais irônico e brincalhão. Então, olhou para aquela mão erguida para ela, tão convidativa, mas também a chamando para trair seus sentimentos. Então, olhou para aquele rosto encantador, com a sobrancelha erguida e o sorriso de canto, e teve que segurar um suspiro.
Amigos. Somos apenas amigos”.
Ela sorriu de volta.
— Será um prazer.


— Então, apesar da plantação diversa, a maçã é a chave de ouro daqui? — perguntou a Gilbert, tentando assimilar tudo.
— Exatamente! Infelizmente, não são tão bonitas quanto as flores do jardim dos Barry, por exemplo, mas acho que elas têm seu charme. E, com certeza, têm seu valor.
— Elas são lindas! — a jovem falou, maravilhada. — Em minha cidade, os edifícios andam tirando todo o espaço das árvores. E eu até gosto dos prédios, sabe? Especialmente os chiques. Mas eles são bem padronizados. Planejados. A natureza é espontânea. — Ela esticou a mão, raspando os dedos em um galho que estava muitos centímetros acima de sua cabeça. — Nenhuma árvore vai ser igual, nem que seja em um pequeno desvio de um galho. É único. Acho que eu gostaria de poder ser tão espontânea quanto esse crescimento, então acabo admirando muito. Entende?
— Acho que peguei a ideia. — Ele sorriu para ela. — Embora eu te ache espontânea. Não acho que pessoas não espontâneas falariam coisas assim.
— Ah, não! Me desculpe. Eu falei demais de novo, não é? — Ela não corou e nem abaixou a cabeça, mas não parecia conseguir olhá-lo nos olhos.
— Você não parece do tipo que se desculpa por falar o que pensa. E, comigo, tem menos motivos ainda para fazê-lo.
Ela fez uma cara pensativa e ele esperou, ansioso, sua resposta. Teria sido invasivo falando aquilo? Só queria ser educado. era uma pessoa legal, que estava virando sua amiga. Não queria que ela se sentisse desconfortável com ele.
— Tem razão — ela disse, fazendo-o suspirar aliviado. — Você quem me convidou e está puxando assunto. Agora, vai ter que me ouvir falar coisas desse tipo. Por bem ou por mal.
Os dois riram enquanto continuavam sua caminhada. De vez em quando, encontravam algum convidado, e Gilbert cumprimentava todos. Estava tendo um dia particularmente bom. Delphi estava muito feliz, cheia dos presentes. A festa ainda estava com poucas crianças porque ela não começara a escola. Muriel tentava a todo custo convencê-lo a colocá-la na escola de Avonlea, mas ele temia o que sua pequena podia sofrer. Mas aquilo era discussão para outra hora. Rachel e Marilla ajudaram na decoração floral. No início, havia sido muito complicado ver a segunda em questão, mas o fato de Anne não estar por perto ajudava. Aos poucos, a distância e o tempo faziam seu trabalho.
Além disso, fazia um lindo dia de sol e estava na companhia de . Fazia muito tempo que não tinha novas amizades e aquilo fazia bem. fazia parte de um novo universo e até mesmo de um novo ele.
— Gilbert... Posso te fazer uma pergunta? — falou, de repente, depois que eles se afastaram de uma conversa educada com uma das antigas amigas de Mary, falecida esposa de Bash.
— Acho que sim. Desde que prometa não me humilhar completamente — ele falou, irônico, vendo-a reagir revirando os olhos e dando um sorriso de canto. Estava determinado a diverti-la e se provar uma boa companhia.
— Você me deixou tentada a te constranger de diversas formas, mas não será dessa vez. Minha dúvida é sobre uma convidada sua... bom... a senhora Lynde. Espero que não me entenda mal, não é nada para magoá-la! — ela acrescentou rapidamente ao vê-lo levantar uma sobrancelha. — Ela é apenas... como dizer?
— Acho que você vai falhar se tentar colocar isso em palavras e ainda pode arrumar problemas! — ele caçoou. Rachel era... digamos... única. Mas, apesar de todo o seu jeito, ela fora uma amiga excelente da família de Gilbert sempre que eles precisaram.
— Era isso que eu queria evitar! Não quero criticá-la! Só fiquei me indagando... ela sempre foi assim? Metade do tempo ela me trata como se estivesse me analisando por cada detalhe e na outra metade fazendo insinuações sobre mim e sobre os outros que eu não compreendo uma única sílaba!
O garoto tentou se conter, mas não pôde deixar de rir. Ele, que crescera conhecendo a senhora Lynde, ainda se encontrava confuso. Imagine uma completa estranha a todos esses seus modos tão... de maneira não rude, distintos.
— BLYTHE! — Ele ouviu alguém o chamar de fundo. Virou-se e viu Sebastian, que ainda não o havia avistado.
— Que foi, Bash? — ele disse, se aproximando, e o amigo finalmente o viu.
— Aí que você tá, seu idiota. Preciso de você.
— Calma aí, o que que foi?
— O bolo. Cadê o bolo?! — Sebastian arregalou os olhos de tal forma que Gilbert não acreditou que fosse algo tão bobo.
— Como assim, cadê o bolo? Tá em cima da mesa, exatamente onde a sra. Barry deixou. — Gilbert riu diante do estresse do amigo.
— Cacete, Blythe, acha que eu te chamaria pra isso se estivesse lá? O bolo sumiu. — O amigo parecia que teria um infarto, como se quem tivesse sumido fosse sua própria filha.
— Tá, tudo bem, vamos ver. — O mais jovem tentou pensar. — Já viu com Muriel?
— Ela que me mandou buscar porque alguns convidados já vão embora. Quando eu cheguei lá, puf! Sem bolo.
— Não existe outro cômodo que possa estar? — sugeriu, baixo, parecendo não saber se deveria fazer algo. — Ou mais alguém que possa ter tentado ajudar...?
— Acho difícil. Eu preciso achar esse bolo, senão, não sei quem me mata primeiro: Delphi ou Eliza Barry — Bash comentou, enquanto os levava apressadamente para a entrada de trás da casa que estava vazia.
— É melhor nos dividirmos, certo? — Gilbert comentou. — Um de nós dois sonda com os convidados e o outro vê dentro da casa. Seria bom chamar alguém para ajudar, mas alguém discreto. — Ele pensou, se lembrando da conversa anterior sobre sua convidada mais fofoqueira.
— Vou falar com Muriel e perguntar por aí. Talvez Rachel ou Marilla tenham mexido em algo — Bash disse, antes de se afastar apressado.
— E eu faço o quê? — perguntou.
— Han? — Gilbert olhou para ela, confuso.
— Eu quero ajudar — a menina disse, levantando o queixo, determinada.
— Agradeço, mas realmente não é necessário...
— Honestamente, você é a única pessoa daqui com quem eu me sinto mais confortável. Eu me sinto estranha entre todas essas pessoas. Eu não conheço ninguém e, por mais simpáticos que pareçam, não quero me sentir deslocada e desconfortável — disse, levantando um dedo para cada argumento. — Por favor, não me deixe sozinha. — Ela pegou em uma mão dele e olhou dentro de seus olhos. — Me deixe ajudar.
Ele engoliu em seco, se sentindo um pouco desconcertado com aqueles olhos verdes brilhantes o encarando, determinados. Quando percebeu que estavam de mãos dadas, soltou-se dele, constrangida. Ele sentiu um vento frio onde antes tivera aquele contato quente.
— Tudo bem — ele cedeu, por fim, se sentindo um pouco confuso. — Mas vamos logo. Sei que Bash quer deixar tudo perfeito e Delphi realmente é louca por bolos. Especialmente esse, que é de uma das receitas antigas da mãe dela.
Eles entraram na casa vazia, onde ainda se ouvia a conversa abafada dos convidados.
— Certo. Se o bolo estiver em algum cômodo, será óbvio de ver. Se cada um verificar metade, terminamos em menos de cinco minutos e podemos investigar no quintal. Fique com os quartos mais pertos dessa entrada que eu vou para os mais distantes.
Gilbert estava realmente intrigado que um detalhe como o bolo tivesse se tornado uma confusão. Ele começou olhando pela cozinha, onde o bolo deveria estar na mesa de madeira, mas encontrou apenas um rastro da cobertura que deveria ter pingado ali. Procurou logo na dispensa e no primeiro quarto, que fora de seu pai.
A casa não era muito grande, então dois minutos depois ele e se trombaram na entrada de seu próprio quarto.
— Perdão — ele disse, segurando-a para que esta não caísse.
— Eu que peço. Achou algo?
— Previsivelmente, nada. E você?
— Apenas uma bolinha de gude que quase me derrubou — disse, rindo, entregando para o garoto uma pequena bola de vidro.
— Ah, desculpa, acho que é um dos presentes de . Quem a presenteou deveria ter esperado alguns anos a mais. Ela vai perder tudo nessa idade. Então, vamos lá para fora? — Ele lhe estendeu a mão, que ela segurou, decidida. Certamente, não segurava a mão de alguém tantas vezes assim desde Winnie. Ou quando estava dançando.
Eles saíram apressados juntos da cozinha e foram procurar Bash. Depois de receber um olhar arregalado da mãe de Sebastian, que ela tentou disfarçar, ele percebeu o que deveria estar parecendo ao sair daquela casa vazia de mãos dadas com . Ele a soltou, envergonhado, e sentiu um grande alívio ao perceber que ninguém mais parecia ter visto aquilo.
— Bash, Muriel! — Gilbert exclamou, finalmente os encontrando. — Não encontramos nada dentro da casa, e vocês?
— Então quer dizer que vocês procuraram juntos? — Bash perguntou, levantando as sobrancelhas sugestivamente. Por sorte, Muriel falou por cima dele.
— Infelizmente, encontramos o bolo — ela disse, suspirando. — Ou melhor, o que sobrou dele.
Ela os levou até uma mesa onde estava apoiado um amontoado meio confuso. E então, com um susto, Gilbert percebeu que aquele era o bolo.
— O que aconteceu? — perguntou, os olhos arregalados.
Antes que o casal pudesse respondê-la, o choro de uma criança chamou a atenção.
— E da próxima vez, Minnie May, te levaremos em um médico. Essa sua obsessão por doces está demais. E, pelo amor de Deus, limpe sua boca ou eu repensarei a ideia de trazer as aulas de etiqueta de volta para nossa casa! — a sra. Barry gritava com a criança cheia de farelo e glacê de bolo por toda sua roupa e sua face.
— Mistério... resolvido — Gilbert falou, meio em choque, e acabou rindo de tão sem reação.
— Não ria! Estamos sem bolo de aniversário! Delphi perguntou por ele o dia todo! — Bash estava realmente desesperado. Ver Delphi feliz significava tudo para ele.
— Não sei quanto do bolo pode ser salvo... — Muriel disse, desesperançosa. — E sua aparência certamente foi arruinada. Talvez eu tenha um resto de cobertura que Eliza Barry trouxe. Mas não sei se adianta muito...
— E se partirmos os pedaços? — falou, parecendo perdida na sua ideia. — Talvez distribuir os pedaços pela mesa e pegar aquele pedaço direito que está mais inteiro para colocar no centro com a vela. Os pedaços que estiverem muito feios, podemos jogar essa cobertura extra. Você pode até dizer que foi proposital, para já deixar acessível para os convidados... Ou não, também, é só uma ideia idiota — acrescentou rápido ao ver todos a encarando.
— Não acho uma má ideia. Na verdade, talvez seja a melhor opção — Gilbert comentou, sorrindo para ela.
— Não custa tentar — Muriel disse. — Mesmo que ninguém caia nessa do proposital, ninguém ali deve comentar muito. Bom, talvez Rachel, mas é bem capaz de ficar mais focada na fofoca de Minnie May.
E assim, eles foram para a cozinha para arrumar tudo o mais rápido possível. Em algum momento, Bash o chamou para um canto.
— Devo dizer que não sei como essas garotas decentes conseguem aturar um pé no saco como você.
— Talvez a gente deva perguntar a Muriel o segredo, por aturar o pior de todos — Gilbert rebateu. — E você está louco. Nós somos só amigos.
— Blythe, qual foi a última vez que eu ouvi esse discurso? Ah, é, sobre a garota que você era completamente apaixonado e ficou em negação por anos. — Bash lhe deu um tapa no pescoço.
— Ai! Eu mal a conheço. E sei que ela não me enxerga assim. Fala sério, mal começamos a ser amigos.
— Tá bom, Blythe, tá bom. Acredite no que quiser.
Gilbert ficou meio irritado com aquele papo. Ele estava começando a se aproximar de . Claro, ela era bonita. Muito bonita, tinha que admitir. E era engraçada, divertida. Era fácil conversar com ela. E por isso que eles eram amigos.
Certo?
Eles cantaram parabéns e Delphine achou incrível aquela disposição do bolo, tão acessível para comer que metade do maior pedaço havia sumido antes de apagar a velinha. Ao invés de chatear Bash, isso o deixou aliviado e contente. Aos poucos, os convidados foram embora e Gilbert cumpriu sua promessa de deixar em casa.
Eles conversaram o caminho de volta, embora Gilbert começasse a ficar mais ciente de cada palavra que dizia e recebia como resposta, mas depois tirou aquilo da cabeça. Não havia nada entre eles. Não ia deixar um comentário sem nexo de Sebastian deixar aquela nova relação esquisita. Além disso, Gilbert sabia, no fundo, que ele ainda não esquecera Anne por completo. Ele não seria capaz de gostar de duas pessoas ao mesmo tempo. E ele não sabia se estava pronto para outra nova rejeição.
Ele deixou no portão e eles se despediram com um curto abraço, amigável.
Por isso, na volta, ele percebeu que estava aumentando tudo aquilo só por estar pensando no que Bash dissera. Eles eram amigos. E nada mais. Ele não estava interessado nela e nem ela nele. E assim ia permanecer. Ainda mais que ela iria voltar para sua cidade natal em breve. Logo, ela nem se lembraria mais dele. Mas ele sabia que não ia esquecê-la.
Afinal, não havia nada errado em lembrar de uma boa amiga.


“Querida ,
Tudo bem? Como vão as coisas?
Essa semana eu recebi o convite do aniversário de Ruby Gillis e gostaria de saber se você também vai. Não seria nada agradável aparecer lá sem conhecer ninguém.
Espero muito que você compareça, sinto sua falta!
Com carinho,
.”

“Querida ,
Aqui está tudo bem, embora eu ande muito entediada. Mamãe diz que já passou da hora de eu arrumar um pretendente. Honestamente, não aguento mais estudar etiqueta em casa. Acho que gostaria de viajar, conhecer outros lugares. Mas mamãe diz que eu só viajarei por enquanto até Charlottetown.
Andei pensando em conseguir um emprego para guardar um dinheiro para mim. Eu sei o que você vai dizer! Mas, dependendo do emprego, acho que não vai ser radical. Contudo, esse não é o assunto.
Infelizmente, eu não conheço Ruby Gillis para ela me convidar. Honestamente, você deve ter sido chamada por conta de Lady Pency (sem ofensa). Mas acho que Prissy estará lá e você pode conhecer Jane também, irmã da Prissy. Ela é quase da nossa idade.
Além disso, pelo que você me contou da última festa que você foi, acho que companhia não deve ser difícil de arrumar. O seu querido-apenas-amigo doutor Blythe deve estar na festa. Aproveite para fortalecer seus laços de amizade.
Inclusive, devo dizer que sinto certa inveja de você. Está aqui na região há apenas dois meses e já tem uma vida social bem mais agitada que a minha.
Vamos marcar um encontro! Já se passaram duas semanas que não nos vemos e parece que foram meses. Me responda depois marcando um horário.
Mas isso é assunto para depois. Foque agora nesse aniversário. E depois me conte tudo!
Carinhosamente,
.”

ainda analisava aquela carta. O dia da festa havia chegado e ela ainda se sentia nervosa porque estaria sozinha lá.
Além disso, Lucila parecia cada vez mais irritada com todas essas saídas pegando a carruagem emprestada. Mas o que ela esperava? Que passasse seus dias trancada em casa? E a culpa daquele último convite era bem provável de ser de Lady Pency. Não que a jovem fosse reclamar com a tia avó. Ainda era uma boa desculpa para sair de casa.
O que havia falado sobre arrumar um emprego também martelava na cabeça de . Não seria nada mal conseguir um dinheiro seu e não depender de Lucila. Porém, honestamente, não conseguia pensar em nada que era realmente boa. Ler livros com velocidade, falar sozinha e tocar piano não pareciam habilidades úteis. Se ao menos soubesse costurar…
A jovem ouviu uma batida na porta.
— Pode entrar — ela disse, se sentando na cama.
A porta se abriu e entrou.
— Oi, . — Ela entrou elegante e com um sorriso gentil. — Titia disse que você ia sair agora.
— Titia? — ela retrucou, sarcástica. revirou os olhos, sorrindo. — Mas, sim. Eu fui chamada para um aniversário.
— Posso te ajudar a se arrumar? — perguntou, esperançosa. — Estou com saudades.
— Estranho como moramos na mesma casa, mas nos encontramos poucas vezes e raramente conversamos — falou, tentando esconder sua mágoa. — E eu já to pronta.
— É complicado… Você não vai assim, né? — disse, analisando a mais nova. Seu senso estético era o melhor das duas. — Anda, tire esse chapéu. Não combina com seu rosto. E prenda o cabelo assim. Ah, essas mangas...
E, antes que percebesse, tinha a transformado. Seu vestido antes branco fora trocado por um azul celestial. Seu simples coque agora era uma elaborada trança com um chapéu simples. Os sapatos de salto delicados, o batom rosa e um pó que corava as bochechas foram o último toque.
— Agora sim! Uma verdadeira dama. — sorriu, orgulhosa.
— De nada adianta parecer uma dama se estou longe de ser uma — retrucou.
— Vamos, pare de birra. A carruagem está te esperando. Ficarei surpresa se voltar sem pretendentes. — riu.
“Por que você só pensa em pretendentes?”, pensou em responder, mas não queria estragar aquele clima. Era tão bom estar ali com sua irmã.
— Então eu vou indo. — Estava saindo, quando se virou para perguntar aquilo que ela sempre pensava, embora já soubesse a resposta. — Alguma carta do papai e da mamãe?
sorriu tristemente e já tinha entendido.
— Sabe, a falta de notícias é uma boa notícia. Se algo muito ruim tivesse acontecido, teriam que nos informar. — A mais velha sorriu.
— Obrigada, . Por isso e pelo visual.
— De nada, . Aproveite — a mais velha se despediu.
Passado o trajeto de carruagem, a jovem chegou à residência dos Barry. O casal cedera o seu jardim para a comemoração do aniversário da amiga de sua filha. Era um lugar esplêndido, tinha que admitir. Mas o nervosismo já a consumia. Carregava consigo o pequeno embrulho que trouxera para presentear a aniversariante. Avistou de longe uma pequena figura loira que ela conhecera há um mês em seu próprio aniversário.
— Boa tarde! Feliz aniversário, Ruby. Espero que o presente seja de seu agrado. — sorriu, nervosa.
— Ah, obrigada, srta. Pency! — a jovem agradeceu.
— Na verdade, é .
— Ah, claro, claro. Por favor, fique à vontade.
andou pelo jardim até identificar alguém que ela conhecia.
— Prissy! — Ela foi rapidamente ao seu encontro.
— Ah, olá, ! Como vai? — a jovem Andrews respondeu, sorrindo.
— Bem, e você? — só queria conversar com alguém sem formalidades. Que falta fazia !
— Tudo ótimo. Creio que você não conheceu minha irmã. Essa é Jane — ela apontou para uma morena que lhe disse oi. — Estamos esperando Tillie, a melhor amiga de Jane. Ela esteve viajando com uma tia e retornou ontem.
— Sinto muita falta dela — Jane confessou. — Sabe, somos amigas desde muito jovens. Até a faculdade fizemos juntas. Nunca estivemos longe por tanto tempo!
— Enquanto ela não chega, quer dar uma volta? — Prissy ofereceu.
As três jovens passearam por aqueles lindos jardins, Jane focada mais em procurar a amiga, enquanto e Prissy conversavam casualmente. Até que dois jovens chegaram à festa.
— Olha como as coisas mudam! Ruby mal olhou para Gilbert e ficou toda corada falando com Moody! — Jane apontou, rindo. — Esses dois vão acabar juntos, mas como vai demorar se depender da lerdeza do Moody…
— E agora Gilbert está sem Anne e sem Ruby. Todas as meninas desse salão devem estar doidas por uma oportunidade — Prissy falou, olhando de esguelha.
— Ele parece mais contente nos últimos dias, não acha, Pris? — Jane comentou.
— Não reparei muito, mas você tem razão. O que será que causou isso? Ou melhor, quem? — Prissy sorria para , cada vez mais zombeteira. — O que você acha, ?
— Eu? Não sei — ela falou, rápido e meio nervosa. — Não o conheço há muito tempo e mal nos falamos.
Mas, naquele momento, Gilbert reparou nela e deixou o amigo em seu flerte. E veio na direção delas.
— Prissy, Jane, que bom vê-las aqui. , não sabia que ia ser convidada. Fico feliz. Dessa vez tem carona de volta ou vai precisar de algo? — ele falou, sorrindo.
— Ahn — ela começou, o coração um pouquinho acelerado, mas tentando ficar completamente indiferente —, eu lembrei de pensar na volta dessa vez. Não precisa se preocupar.
— Fico feliz — ele comentou. — Bom, vou andar por aí e cumprimentar as pessoas. Embora eu acredite que perdi meu acompanhante para a aniversariante. — Todos riram. — Bom, vejo vocês mais tarde — ele se despediu e saiu.
— O que foi isso? — Jane comentou com as sobrancelhas erguidas e um sorriso no rosto pronta para uma fofoca.
— Quase não se conhecem, é? — Prissy zombou.
— Ah, por favor, somos só amigos — falou e de novo agradeceu aos céus por não corar e entregar o que sentia.
— Se você diz — Prissy disse, mas trocou um olhar divertido com a irmã.
Pouco depois, uma jovem de cabelos pretos bem arrumados e um rosto gentil e bonito que não conhecia entrou no jardim e Jane saiu correndo, assim como Ruby, para cumprimentá-la.
— Tillie! — as jovens falavam, animadamente.
Mas a saída de Jane abriu espaço para a chegada de outro Andrews.
— Ora, , nos encontramos de novo! — Billy riu, talvez em uma tentativa de ser charmoso.
— Billy, na minha frente não — Prissy disse, antes de se retirar. Droga, agora estava nessa sozinha.
— Olá, Billy, como vai? — Ela forçou um sorriso. Não era exatamente a companhia que ela estava imaginando.
— Melhor agora que te encontrei. Então, soube que vai ter uma dança mais tarde. Gostaria de me acompanhar?
sabia muito bem quem ela desejava que a convidasse. Mas olhou discretamente em volta e o viu absorto em uma conversa com a recém-chegada, suspirando em seguida. Desejar não era o suficiente.
— Claro — ela respondeu, cortês.
— Então, te vejo já, já — ele disse, piscando e se retirando. Billy era bonito, mas algo no jeito que ele falava e agia o deixava menos agradável.
— Não acredito que meu irmão está afim de você — Prissy falou, desgostosa.
— Desculpa se você acha que eu não estou à altura dele. — sabia que eles eram irmãos, mas Prissy precisava tratá-la assim?
— Ah, não é isso! — Prissy sorriu. — Ele que não está à sua altura. É um idiota de personalidade e de cérebro.
— Bom, por enquanto, não ando com muito direito de opinar e escolher. — deu de ombros.
— Sei, sei. — Prissy riu.
foi apresentada à Tillie, que foi bem educada com ela. Encontrou Josie Pye de novo, que não agira muito diferente da última vez. Pelo menos, agora ela estava sem a irmã. não sabia se ia conseguir aturar duas Pyes novamente. Até Diana havia aparecido, acompanhada do seu noivo, Fred Wright, que ainda não tinha conhecido. Não se sentia extremamente confortável naquele meio onde sabia que era a estrangeira cercada de amizades de anos. Conheceu rapidamente também um primo de Ruby, Jake, e duas amigas da faculdade das meninas, Esther e Susane. Porém, logo o tempo passou e estava na hora da primeira dança. Billy logo veio convidá-la, o que fez Josie a olhar ainda mais feio.
— Vamos? — ele disse, lhe oferecendo o braço, que ela aceitou.
A banda que a família Gillis havia contratado já havia aquecido e agora vários pares se formavam. A própria Ruby e Moody. Diana e Fred. Jane e Charles. Tillie e um garoto que não recordava o nome, mas era alto. Prissy e Gilbert. E Josie com Jake. O garoto claramente olhava para a Pye com completa admiração, mas essa simplesmente revirava os olhos. Esther e Susane dançavam juntas, para o horror dos pais de Ruby, mas claramente estavam se divertindo.
A dança foi bem divertida, embora às vezes Billy a tocasse “acidentalmente” perto demais de lugares que ela preferia que ele se mantivesse longe.
No final da dança, todos aplaudiam e riam, com as bochechas coradas do esforço. Ruby era a que parecia estar se divertindo mais, afinal, era o centro de todas as atenções. Todos se dispersaram e Billy continuou grudado em .
— Vamos passear pelo jardim. Acho que existem cantos interessantes para serem... explorados. — Ele sorriu, maldoso.
— Ah, não, a música está tão boa, vamos ficar aqui — o desconversou.
— Qual é, você vai gostar, não seja chata.
— Chata? — olhou para ele, agora com total frieza. — Eu apenas quero ouvir a música.
— É sua última chance, . Vamos passear?
— Eu faria um teste de audição, Andrews — ouviu uma voz vindo por trás —, porque ela disse não.
Billy olhou feio para Gilbert, que havia acabado de interferir.
— Escuta aqui, Blythe, você anda me atrapalhando vezes demais.
— Então deixe eu te ajudar. Eu te dou um desconto pro teste de audição no meu consultório — Gilbert disse, sorrindo, mas com os braços cruzados passando uma seriedade. Billy, pela primeira vez sendo esperto, decidiu sair de perto.
— Obrigada — agradeceu, agora podendo revirar os olhos. Por Deus, esse Andrews havia se mostrado um cafajeste.
— Me agradeça com uma dança — ele disse, estendendo a mão e sorrindo. Ela aceitou, rindo, e eles se prepararam para dançar.
Dançar com Gilbert estava sendo tão mágico quanto a primeira vez, em seu aniversário. O toque inadequado e desgostoso de Andrews era substituído pelo toque correto e arrepiante de Blythe. Ela tentou, e tentou mesmo, não acreditar que cada rodopio e sorriso eram comuns, e que não deveriam significar nada para ela.
O resto da noite foi super divertido. dançou bastante, conversou mais com as meninas e, quando a carruagem chegou para buscá-la, qualquer chateação por conta de Billy já havia sumido e ela não parava de sorrir.


Gilbert estava em seu quarto, escrevendo algumas cartas. Não se lembrava para quem eram nem o que estava escrito em cada uma, mas honestamente aquilo não importava, ele só tinha que escrever e lacrar.
Quando terminou, se espreguiçou e se esticou na cadeira. Algo dizia que estava sendo observado e, por isso, olhou para trás.
Sentada em sua cama como se fosse a coisa mais natural do mundo, Anne lia um livro grosso, os cabelos presos em um coque e usando um vestido azul, como naquele dia, há três anos, em que se beijaram. Blythe deveria se sentir chocado, mas algo dentro de si já esperava por isso.
— O que está fazendo? — ele indagou.
Sem erguer os olhos, ela apenas respondeu:
— Quantos livros de geometria você tem aqui! Sabe, eles não são muito interessantes e nem muito românticos. Suas palavras são tão diretas e chatas, não existem versos nem metáforas. Qual seria a mínima graça nisso?
— Acho que está irritada porque sabe que eu sempre fui melhor nessa matéria. — O menino sorriu para ela.
— E mesmo assim nunca conseguiu me vencer.
— Um empate com você é um prêmio tão bom quanto o primeiro lugar. — Ele riu.
Ela bufou, finalmente deixando o livro de lado e olhando para ele. O coração do garoto errou uma batida. Ela estava tão linda. Estava como sempre tinha sido, lembrando a eles todos os momentos em que ele achou, erroneamente, que ela era sua. Como se lesse seu pensamento, Anne ficou pensativa.
— Você não gosta mais de mim?
O garoto travou e colocou a mão nos bolsos, tentando disfarçar o nervosismo.
— Claro que gosto. Quer dizer, somos amigos, né? Até porque você tem Roy...
Anne se aproximou ainda mais, tão próxima que o garoto podia contar suas sardas, e colocou a mão em seu rosto.
— Você me ama? — ela sussurrou, os olhos tão vivos, curiosos e cativantes.
Gilbert engoliu em seco e fechou os olhos, tentando pensar no que fazer. Anne era a garota a quem ele tinha amado nos últimos anos de sua vida. Mas ele não podia mais amá-la. Ela tinha Roy. Não. Ela escolhera Roy, o que era pior ainda. Anne não era sua.
Mas isso significava que ele deixara de amá-la?
Antes que pudesse responder algo, o toque de Shirley mudou. Se tornou um toque também conhecido, um toque que frequentemente ele estava encontrando.
Quando abriu os olhos, era quem estava na sua frente com seus olhos verdes brilhantes.
— Gilbert, você me ama? — ela sussurrou, antes de se aproximar para beijá-lo.
Blythe acordou, o coração batendo no peito. De nervosismo? De expectativa? Talvez de tudo isso e até mais. Afinal de contas, que porcaria de sonho tinha sido aquele?
Não sabia se tinha sido exatamente ruim. Odiava que seu subconsciente o fizesse recordar de Anne, como se acordado já não fosse difícil o suficiente fugir daqueles pensamentos. Também se odiava por alimentar aqueles pensamentos com . Aquilo o fazia se sentir esquisito e podia acabar afastando-a dele. Não queria estragar sua amizade.
E, bom, parte dele ficou muito ansioso por aquele beijo. Muito mais do que qualquer amigo deveria ficar.
Afastou aquilo tudo. Ele estava perdendo tempo e neurônios por causa de uma criação do seu subconsciente. Bom, não eram as horas no travesseiro que iriam pagar as contas. Decidido a esquecer aquilo, ele se levantou, tomou seu café e partiu para Carmody trabalhar.
No dia anterior, tinha cumprido sua promessa e visitado o dr. Raynes. Blythe foi seu assistente durante o dia inteiro e o médico elogiou muito o quanto ele havia crescido em suas habilidades. O gentil doutor ainda pediu o endereço de seu consultório para recomendar aos seus clientes, além de ter dado uma ou outra dica para o mais jovem. Combinaram que, toda quinta, ele o ajudaria em Charlottetown.
Gilbert não se sentia tão feliz há tempos. Se sentia revigorado ao trabalhar com alguém que compartilhava com ele o mesmo amor pela medicina. Sentia saudades dos colegas da faculdade e de todos os trabalhos e pesquisas que fizeram em conjunto.
Alegre e espantando qualquer pensamento que pudesse atrapalhar seu dia, Blythe chegou em seu consultório, cumprimentando a todos no caminho com um entusiasmo que sentia falta. Várias jovens acenaram para ele no caminho, encantadas e envergonhadas, mas ele apenas acenava de volta sem perceber o efeito que causava nelas.
Mal tivera tempo de tirar dois livros da estante, quando ouviu uma batida na porta. Não se surpreendeu nem um pouco ao ver a sra. Pippet parada na porta. Só ela iria procurá-lo sem que ele tivesse colocado o aviso “aberto” ainda.
— Ah, Gilbert, bom dia!
— Bom dia, sra. Pippet — ele respondeu, sorridente e educado.
— Vejo que está com um ótimo humor hoje! Bom, muito bom. Vi você chegar com seu cavalo e trouxe alguns bolinhos e café para você. Está tão magrinho recentemente. O dinheiro está dando para comer?
— Não se preocupe, estou me alimentando direitinho — Gilbert riu, lembrando por um segundo da sra. Lacroix que sempre reclamava que ele estava magro e colocava mais uma boa colher de comida no prato dele.
— Ah, não é só isso. Depois, gostaria que você desse uma olhadinha no meu pulso também. Uma senhora da minha idade precisa ficar atenta a todas as dores que sente: e, infelizmente, são muitas.
— A senhora é muito saudável e ainda é jovem, sra. Pippet. Não precisa se preocupar.
— Ah, Gilbert, uma senhora não merece ser bajulada assim!
Eles se sentaram e Gilbert tomou seu segundo café da manhã do dia. Jeannie ia mais empurrando os pedaços deliciosos de bolo para o prato do menino, mas ela mesma pouco comia, sempre olhando-o com seus olhos gentis. Ela não era de falar muito no início, mas depois de todos aqueles meses, ela se sentia mais à vontade para conversar com o menino. Estava cada vez mais o vendo como o neto que nunca teve. E ele, a avó que nunca conheceu.
— Agora, vamos dar uma olhada nesse pulso — Blythe disse quando terminaram a refeição. — Acho que está melhorando. Infelizmente, creio que nunca mais vai voltar a ser o que era antes. Mas, se você cuidar e não se esforçar muito, não vai voltar a sentir dor. Seria bom uma vez por semana você não trabalhar, ficar de repouso e colocar uma compressa quente. Isso fará com que a tendinite fique apenas dormente.
— Ah, doutor Blythe, você é um menino bom demais para mim! Muito obrigada! Aqui, tome, pela consulta.
A sra. Pippet deixou uma quantia para ele que deveria equivaler a cinco consultas suas, se não mais.
— Ah, você contou errado. — Ele devolveu a maior parte do dinheiro.
— Devo te dizer que fui a melhor aluna de matemática da minha série. Costurar envolve medidas! Eu não erro minhas contas. — Jeannie negou a devolução.
— Mas é muito!
— Então considere o resto por aturar uma velha chata como eu.
— Eu nunca consideraria passar tempo com a senhora algo chato. Assim como não a vejo assim.
— Viu? Gentil demais! Deve aceitar o dinheiro e guardar os elogios para uma moça mais jovem que os mereça.
E, antes que ele pudesse replicar, ela foi embora, deixando-o atônito.
Colocou a placa de “aberto” e se sentou em sua poltrona, mas logo o local fora ocupado.
Aqueles olhos, que ele jurou que facilmente esqueceria, entraram no seu consultório. Então, ele percebeu que nenhum sonho seria capaz de reproduzir o brilho daqueles olhos verdes, nem a maciez de sua pele ou o rosa de sua boca. Seu cabelo estava meio preso, meio solto, bagunçado, e ela parecia mancar um pouco.
Por Deus, ela estava mancando!
! O que houve com você? — Gilbert se aproximou, afastando qualquer pensamento e constrangimento além da racionalidade médica.
— Er... Eu caí? — ela riu fraquinho, mas gemeu de dor logo em seguida.
Gilbert olhou para , pedindo permissão para levantar seu vestido. Ela assentiu, distraída. Ele o levantou até o joelho e encontrou suas pernas cobertas de sangue.
— Caiu exatamente onde? — Blythe perguntou, os olhos arregalados.
— Olha, eu só estava dando uma volta enquanto... Ai, cuidado aí... Enquanto Lady Pency e minha irmã faziam compras juntas. Bom, eu só estava espian... olhando curiosamente o bar, mas parece que eles colocaram uma nova decoração.
Gilbert buscou um pano para limpar as pernas da menina.
— Que tipo de decoração?
Ela gemeu de dor antes de responder.
— Me diga, que tipo de estabelecimento se enfeita com uma planta tão espinhenta? Isso é ridículo — bufou, agora as pernas não mais cobertas de sangue e os diversos arranhões expostos.
— Você caiu em cima do cacto? — Blythe perguntou, se permitindo rir agora que via que não era nada grave.
— Bom, não foi exatamente culpa minha, você entende, não é? Semana passada, esses espinhos não estavam lá.
— Foi um presente, John ganhou de um cliente que voltou de uma grande aventura nos desertos distantes, ou assim ele diz. Fico surpresa que não tenha escutado as histórias.
— Fiquei mais preocupada com os machucados.
O garoto pegou uma substância gosmenta e começou a aplicar na garota, que fazia várias caretas e exclamava muxoxos.
— Por acaso, Lady Pency e a srta. sabem onde você se encontra?
— Não sabem e não saberão, se você cuidar rápido desses cortes.
— Isso é jeito de tratar o seu médico? Eu posso decidir sua vida, sabia?
Ela riu docemente enquanto revirava os olhos, mas depois se contraiu quando ele passou aquela gosma em um corte particularmente grande. Depois, ela permaneceu quieta, apenas olhando todo o processo.
— O que você tanto olha? — ele perguntou, enquanto pegava as gazes para o curativo.
— Ah, eu costumo ralar meu joelho às vezes, é bom saber como me virar numa situação dessas para não te perturbar sempre. Essa já é a segunda vez em dois meses que eu te perturbo.
— Você nunca me perturbaria e é sempre bem vinda aqui. Venha sempre que puder — Gilbert sorriu, enfaixando sua perna direita.
dirigiu um olhar um tanto surpresa para ele. Estavam próximos enquanto ele cuidava dela. Na verdade, agora ganhava consciência de que havia levantado a saia dela. Como médico, aquilo era apenas um procedimento padrão, mas não era exatamente assim que se sentia.
“Você me ama?”, a voz dela o perguntara.
Não, ele não a amava. Conhecia a jovem há pouco tempo. Mas gostava de sua amizade, de sua risada e do jeito em que ela passava de uma dama educada para uma menina obstinada. Céus, e com certeza a achava bonita.
Mas seu coração ainda era de Anne. Ou, ao menos, parte dele. Sentia que não era como antes, mas ela ainda estava lá.
Pensando bem, só deveria estar incomodado desse jeito porque as pessoas pareciam de certa forma fazê-lo considerar como uma pretendente. Até seu subconsciente sabia disso. Mas via, pela expressão chocada da menina, que ela o enxergava apenas como amigo. Assim como ele. Só tinha que lembrar a si mesmo disso. Por isso, completou sua frase:
— Venha sempre que puder, é sempre bom ter uma companhia amiga.
A menina pareceu se acalmar diante aquela última palavra. Então, afastando qualquer pensamento que não fosse puramente amigável, Gilbert continuou:
— Sabe, desde que Lady Pency e sua irmã não a vejam com qualquer vestido curto por, pelo menos, três semanas, não irão descobrir os arranhões. Mas eu só sei costurar pele e não tecido, por isso, não posso disfarçar seu vestido.
seguiu seu olhar e encontrou vários fios soltos saindo das suas vestes e suspirou, frustrada.
— Por que eles não podem enfeitar um bar com trevos? Ou, quem sabe, margaridas? Por que tinha que ser um cacto?
— Talvez para afastar pessoas bisbilhoteiras como você.
— Ei, eu não estava bisbilhotando, estava apenas... fazendo pesquisa local.
— Vou deixar passar essa sua pesquisa local porque tive uma ideia sobre o seu vestido.
Logo, Jeannie Pippet estava de volta, parecendo radiante de poder ajudar Gilbert. Ela cumprimentou , que falou com ela animada, já conhecidas. Não que isso surpreendesse Blythe. Em uma cidade tão pequena, era impossível não conhecer todos.
As mãos habilidosas da senhora logo deixaram o vestido novo e impecável, escondendo todos os fios soltos e consertando os rasgos. Ao mesmo tempo, Gilbert agora terminara a perna esquerda da garota. Em um instante, ela estava de pé, ajeitando os cabelos novamente, sem mancar mais, embora andasse devagar.
— Nunca poderei ser grata o suficiente para com ambos. Infelizmente, meu dinheiro está todo com Lady Pency, depois mandarei por correio o dinheiro de cada um, juro por minha vida!
— Não precisa jurar, eu acredito — Gilbert riu dela e ela retribuiu, mas logo parou ao desviar os olhos para a janela.
— As duas estão se aproximando daqui — falou, quase que em um sussurro. — É melhor eu ir rápido.
E, assim, sem olhar para trás, ela saiu pela porta, enquanto Gilbert a seguia com o olhar. Jeannie soltou uma risadinha.
— O que foi? — o menino perguntou.
— Sabe, essa é uma jovem que vale a pena gastar elogios. — E, antes que Gilbert pudesse responder, ela saiu, deixando para trás um jovem médico confuso e com um leve sorriso nos lábios.


— Eu não acredito que Billy realmente tentou algo com você! Puxa vida, eu queria ter ido nessa festa. — suspirou.
e estavam na mansão Louborne, sendo a primeira vez que a visitava desde seu aniversário. Ao contrário do chá formal que Lady Pency permitiu que fizessem, elas estavam no quarto da jovem , comendo torradas em cima da cama, conversando e rindo.
fora educada em casa e, por isso, nunca teve amizades que ela pudesse manter. O mais perto que chegou foi uma vizinha que tinha uma filha quase da sua idade. Mas, três meses depois de se conhecerem, a jovem Georgia se mudou para Paris para ser introduzida na sociedade. No início, as duas trocaram cartas para manter contato, mas logo os pretendentes ocuparam a mente de Georgia o suficiente para que ela deixasse de escrever.
não podia negar que temia que isso acontecesse com ela e , mas algo a dizia que não. Nunca tinha tido uma conexão amigável com alguém desse jeito. E, justamente por isso, afastava pensamentos ruins, preferindo aproveitar o tempo com sua amiga.
— Queria que você estivesse lá. Prissy é bem legal, mas ainda não é você. E acho que você poderia ter me ajudado a me livrar do seu primo. Sem ofensas.
— Ofensa para mim seria elogiá-lo. Mas eu acredito que, no fundo, por trás de todo o cérebro que falta nele, existe um coração. Só foi ensinado do jeito errado a usá-lo. — bufou, parecendo se perder em pensamentos.
, o que foi? — a jovem indagou.
— Ah, desculpa, , eu não queria te encher com meus problemas! É só que... Estou tão cansada. Quando finalmente consegui um emprego na floricultura, mamãe e papai ficaram horrorizados e me proibiram de continuar. No primeiro dia! Que péssima funcionária eu fui... Tenho certeza de que querem que eu seja dependente deles até passar a ser dependente de um marido. É com esse pensamento que meu tio criou Billy também. Os homens, mesmo os estúpidos e prepotentes, tudo podem e tudo receberão. Enquanto nós só teremos algo se tivermos um deles!
— Bom, acho que as coisas simplesmente são assim — disse, conhecendo as frustrações da amiga, mas também tendo marteladas em seu coração todas as convenções sociais que seguia.
— São, mas não precisam ser. O problema é que não sei o que fazer! Veja a pobre Prissy. Tão boa no que faz, uma mãe que a apoia... Mas nunca vai conseguir a fazenda a não ser que Billy seja internado em um hospício, o pai infarte e a mãe a proteja de documentos legais que provavelmente darão a propriedade para um primo distante.
bufou e se jogou na cama, caindo com os braços bem abertos, como se fizesse um anjo de neve no edredom. a olhou com carinho e um pouco de pena.
— E o que você faria se pudesse, ?
— Se eu pudesse? Ah, se o mundo fosse livre, eu teria meu dinheiro, teria uma paixão. E não por um homem, mas sim por um serviço! Qualquer um que não seja lavar louças e receber convidados. E então... viajaria o mundo. Há tanto para se ver! — A amiga olhava para o nada, maravilhada, mas depois, uma careta se formou em seu rosto. — Porém, no final, eu vou acabar na mesma casa de sempre, uma velha solteirona como Marilla Cuthbert, ou casada com um homem mediano que meus pais arranjarem, como acredito que seja o futuro das irmãs Pye. Nenhuma perspectiva animadora. E você?
— Eu não sei — admitiu. — A primeira vez que eu visitei a mansão Louborne, eu falei para minha mãe que eu seria uma cuidadora de cavalos, igual os rapazes que eu vi no estábulo daqui. Ela ficou tão pálida que quase desmaiou. Todos me perguntavam que coisa horrível eu havia falado. Nunca mais ousei pensar ou falar nada para que minha mãe não tivesse um grave problema de coração. No entanto, parece que eu a poupei de infartos, mas não de gripes. Agora que eu nem sei como ela se encontra... Acho que eu só faria qualquer coisa que a deixasse bem.
— Ah, , não me faça chorar! Não seja tão emotiva. Seja feliz. Se liberte! O que você faria se não estivesse ninguém olhando para adoecer ou julgar?
A jovem pensou, olhando para longe. Uma vez, seu maior sonho havia sido cuidar dos belos cavalos dessa casa, além de morar na propriedade. Descobriu que ambos não eram exatamente fáceis nem agradáveis. Agora, só pensava em encontrar , fugir de Lady Pency, ver seus pais bem, descobrir o que havia naquela sala tão secreta da casa e, bom, não podia negar, rever Gilbert.
Mas nada era grandioso. Eram respostas práticas. Teria que acordar uma imaginação muitas vezes adormecida pelos costumes para responder aquilo.
Cutucou seus pensamentos mais ousados, aqueles que nunca dava atenção ou alimentava, e começou a escutá-los. Sonhos que nem ela sabia que possuía, mas, pensando melhor, não se imaginava sem os possuí-los. O que eu faria sem ninguém para me olhar, julgar ou infartar?, pensou. E uma imagem brilhante veio à sua cabeça.
— Que minha mãe não me ouça. Nem meu pai. Nem Kimberly. Nem Lady Pency. Pensando bem, acho que peço que ninguém me ouça, mas... — a jovem suspirou —, não seria nem um pouco ruim ser uma musicista famosa e poder me apresentar em algum grande palco.
A garota ficou em silêncio, esperando a reação da amiga.
, eu ficaria honrada em ser a primeira de muitos dos seus fãs! Você toca piano, certo? Me recordo que tocou quando me visitou.
— Sim, eu toco flauta e canto, mas piano é minha paixão. Uma das poucas coisas que as convenções trouxeram de bom para a minha vida.
— Um dia, você precisa fazer uma apresentação para mim. Por favor!
— Não posso prometer nada. — riu. — Mas, se você arrumar um espaço privado e com instrumentos, eu penso no seu caso! Essa penitenciária, digo, mansão, parece ter algo muito forte contra a música. Não existe um único instrumento ou partitura para ser encontrado em lugar nenhum!
— Pois então saiba que minha missão pessoal será encontrar esse espaço para você!
As duas riram, cúmplices, e logo encheram a boca de torradinhas, se sentindo novamente na distante infância da qual elas sentiam imensas saudades.
— Sabe, , Prissy me contou que Billy não foi o único a cortejá-la. — sorria maliciosamente.
— Não sei do que fala — replicou, balançando a cabeça em negação.
— Ah, mas sabe muito bem! Quando me disse que era amiga de Gilbert Blythe, não me disse que ele fazia tanta questão de cumprimentá-la, dançar com você e nem dava tantos sorrisos!
— Porque ele faz isso com todas! Você mesma me disse. Ele é meu amigo e ele trata todas as amigas assim. É um perfeito cavalheiro.
— Ah, pelo que Prissy me contou, ele não estava te tratando como qualquer uma. — A jovem Monroe riu.
, não fale assim. Você mesma me disse que ele ainda é completamente apaixonado por aquela Anne Perfeita Shirley! De que adianta me encher de expectativa? — admitiu, pois sabia que parte de si se agarrava naquela esperança boba por um garoto bobo que ela pouco conhecia, mas mexia com ela como ninguém havia mexido.
, isso muda tudo! Talvez ele não estivesse sofrendo do jeito que acreditávamos. Ele pode ter superado. E você tem que aproveitar isso antes que outra aproveite.
— Parece que você está falando de um lote de casa disponível!
— E não seria a mesma coisa? Um homem disponível, uma casa à venda... Não vejo muitas diferenças. Quem possuir o maior financiamento, vence.
— Eu não quero financiar Gilbert Blythe! — a jovem exclamou, horrorizada.
— Não com dinheiro, ! Mas você irá fazer o seu financiamento com charme e esses dotes femininos que dizem que nós temos.
— Realmente, , devo estar fazendo um ótimo progresso. Já apareci desmaiada em seu consultório, com as pernas sangrando, já esqueci de pedir uma carruagem na sua frente. Ele deve me achar patética! — replicou, sarcástica.
— Não desanime! Homens gostam do complexo de serem nossos salvadores. Um desmaio é a maior chance para seus egos. Um homem não ama uma mulher, ama o quanto ela pode servi-lo e fazê-lo amar a si mesmo.
— Não é assim. Gilbert não é assim!
— Já o conhece bem o suficiente para esse julgamento, não é? — provocou, rindo, fazendo bufar.
— Não é isso. Eu não quero competir por Gilbert Blythe. E quem disse que quero ficar com ele? Eu tenho a amizade dele e é tudo o que preciso!
— Nunca o imaginou segurando sua mão? Dançando com você? — se aproximou com um tom conspiratório. — Te beijando?
Os olhos de se arregalaram e aquela foi uma das situações em que ela agradecia profundamente por não corar. Algo dentro de si a fazia sentir que enxergava sua alma. Enxergava cada baile que havia imaginado comparecer com o jovem médico. Como seria sentir sua mão na sua novamente, aquele calor confortante. Ou tê-lo em seus braços. E, ah meu Deus, que seu pai não descobrisse, mas ela já havia sonhado acordada imaginando como seria o toque dos lábios de Gilbert Blythe.
Acordou de seus pensamentos com rindo dela. Aquilo estava sendo frequente demais para sua querida reputação.
— Não precisa responder, seu rosto inteiro tem um grande “sim” estampado!
decidiu não rebater, se concentrando nas suas torradinhas.
— Onde você guarda papel, tinteiro e pena? — perguntou.
— O tinteiro e a pena estão em cima da penteadeira. O papel está na terceira gaveta — respondeu, curiosa com o que a amiga tinha em mente.
Depois de alguns minutos, a jovem se levantou da cama e se aproximou da amiga, espiando por seus ombros. escrevia com uma pressa impressionante para a caligrafia bonita que tinha.
— O que é isso?
— Sou eu salvando a sua vida — disse. — E pronto!
A amiga lhe estendeu a carta, a qual ela prontamente agarrou para ler.

“Querido Gil,
Há tempos que você não sai de minha cabeça, e, depois de tantos questionamentos, decidi perguntar o mesmo. Senti algo especial desde que você me socorreu enquanto eu estava tão indefesa e machucada. Cada dança que compartilhamos foi única. E fico imaginando se tudo deve ser interrompido na nossa amizade.
Chego a sentir-me indisposta ao conter meus sentimentos, mas o medo que sinto é cruel. Sente o mesmo por mim? Ou sou apenas outra das suas muitas admiradoras não correspondidas? Imploro-te que acalme meu coração e abra o seu para mim!
Sempre sua,

A jovem ficou encarando a carta em completo choque.
— E aí? Muito boa, não? Puxa, eu deveria trabalhar com isso — falou.
A resposta da amiga se deu com o barulho de papel rasgando.
— Não, minha obra prima! Tudo bem, eu faço outro. Estou mais inspirada agora!
— Outro? , isso é patético!
— Ah, você me chamou de . A coisa ficou feia...
— Feia? Feia?! , essa carta não tem nada a ver comigo! E que história é essa de “Gil”?
— É um apelido, ué.
— Justamente. E nós não usamos apelidos um com o outro.
— Ele nunca te chamou de ?
— O que importa é que eu nunca o chamei e nunca chamaria de Gil!
— Está bem, talvez não tenha sido minha melhor carta, mas você tem que tentar alguma coisa! Não pode deixar passar a oportunidade! Imagina o quanto você pode se arrepender no futuro quando descobrir que deixou o amor escorrer para longe de você? , você ama aqueles livros de romance. O que você acha que Emma faria agora?
— Empurraria a amiga para algum cavalheiro digno e procuraria o homem mais desejado para ela — respondeu, com um pouco de sarcasmo.
— Então faça isso! Mas sem a parte da amiga, por favor.
— Mas no final, não era o cara certo.
— E isso você só poderá saber se tentar, não é?
olhou para a amiga. Sua vida, em geral, era muito bem estruturada e simples, não corria grandes riscos além de falar sozinha para provocar Lady Pency. Agora, com Gilbert, sabia que poderia estar muito certa ou muito errada.
Sentindo a hesitação da amiga, acrescentou, baixinho:
— Bom, se tudo der errado, em algum momento será apenas uma memória cômica da qual riremos.
A jovem suspirou. Se desse errado, nunca mais faria algo parecido em toda a sua vida. Mas...
— Tudo bem — aceitou, dando um suspiro. Ela viu comemorar e correu para acrescentar: — Mas eu escrevo.
Pouco depois, ela assinou a carta e entregou para que a amiga analisasse.

“Caro Gilbert,
Como vai? Faz tempo que não o escrevo, certo? Espero não estar atrapalhando, mas desde minha última visita (ou, melhor dizendo, acidente) em seu consultório, estive pensando em uma ideia.
Haveria algum problema se eu passasse no seu trabalho na segunda de manhã? Gostaria de conversar com você. Não se preocupe! Nada sério. Pelo menos, nenhuma saúde em risco, que eu saiba.
Me responda quando puder.
Atenciosamente,

— E aí? — perguntou, ansiosa.
— Ah, a minha estava muito melhor. — deu de ombros e não pôde deixar de rir. — Mas estou tão orgulhosa! Você vai finalmente se declarar!
— Eu não vou me declarar!
— Ah, não? Então isso tudo é para quê?
abriu um sorriso conspiratório.
— Digamos que você pode ter me inspirado a ousar mais e talvez esteja na hora de eu tentar um emprego.


Gilbert ficara extremamente ansioso ao receber a carta de . Ela não escrevera nada demais, no entanto, sua natureza curiosa o fazia indagar o que ela havia pensado. Não sabia o que esperar dela. A jovem claramente não era convencional, mas ainda era uma dama. Uma garota. E ter consciência disso despertava coisas estranhas nele.
Quando, na segunda de manhã, a porta se abriu e revelou a sra. Pippet, ele precisou se conter para não demonstrar seu desapontamento.
— Bom dia, Gilbert! Que bom te ver tão bem disposto me esperando na porta. Eu trouxe bolinhos.
O jovem médico sorriu e a conduziu para a mesa a ponto de terem sua costumeira conversa matinal enquanto tomavam café. Ela contou de todos os seus projetos atuais e perguntou dos pacientes de Gilbert. Apesar de não entender muita coisa médica, ela era gentil e escutava cada palavra.
Depois da consulta diária no pulso de Jeannie, Gilbert ouviu a porta se abrir novamente.
— Ah, bom dia, sra. Pippet! Bom dia, Gilbert! Cheguei muito cedo? — A voz de preencheu o ambiente e Blythe se sentiu subitamente nervoso.
— Não se preocupe, querida, eu já estou indo! Não se incomodem comigo — a velha senhora comentou, juntando seus pertences e tratando de pagar Gilbert, generosa como sempre na quantia. — Agora entendi a ansiedade matinal. Uma velha como eu deveria ter percebido que era o amor jovem.
O rosto do jovem ficou vermelho e antes que ele pudesse replicar, a mulher saiu sorrateira e sorridente.
— O que ela te disse? — a jovem perguntou, curiosa.
— Ahn... Sobre alguns medicamentos — ele desconversou. — Mas, é... Bom dia! Já comeu algo? Tenho alguns bolinhos que a sra. Pippet deixou aqui.
— Eu agradeço, mas já comi deliciosas panquecas no café da manhã e pretendo comer pouco durante o dia para poder acabar com as sobras mais tarde. — sorriu, levemente constrangida.
— Então devo assumir que panquecas são seu prato favorito?
— Ah, com certeza! Tenho certeza de que os bolinhos estão deliciosos, mas é realmente impossível competir com as panquecas. Eles só venceriam se minha mãe me obrigasse a comer. Por favor, não conte à sra. Pippet! — ela correu para acrescentar.
— Você tem minha palavra. — Ele não conseguiu conter o riso. — Mas pelo menos se sente.
Ele observou a jovem ajeitar seu vestido amarelo claro enquanto se acomodava no sofá. As palavras estavam na ponta da sua língua, mas ele temia parecer muito ansioso. Por sorte, era tão, ou mais, ansiosa que ele.
— Então... Eu desejava falar com você sobre o que eu lhe escrevi na carta.
encarou Gilbert e este percebeu que nunca estaria realmente preparado para a intensidade daqueles olhos verdes. Ele pigarreou de leve antes de falar.
— Eu adoraria te escutar.
Ela sorriu, parecendo um pouco aliviada. Suas mãos mexiam distraidamente na saia, enquanto ela olhava ao redor, antes de focar o olhar novamente nele.
— Bom, como você sabe, tudo o que Lady Pency, toda a minha família e a sociedade espera de mim é um bom casamento. Ainda mais que eu estou envelhecendo.
O jovem médico não pode deixar de levar um susto. O assunto em questão era casamento? Ele não se via casando. Não agora. Será que ela entendera tudo errado e esperava um pedido? Será que ele deixara brechas a entender isso?
— Mas, recentemente, minha mente se abriu e eu percebi que acho isso muito esquisito. Por que deveríamos esperar a vida inteira por apenas esse momento? Ainda mais nos deixando dependentes financeiramente dos homens... Bom, eu não sei o que você pensa disso, mas já devo te avisar que, se você achar o que eu penso um absurdo, eu pretendo sair por aquela porta e cumprimentá-lo em todos os futuros eventos sociais por pura educação, sendo o fim da nossa amizade.
Gilbert não pôde deixar de rir levemente.
— Seria uma pena perder uma amizade assim, então me sinto aliviado por concordar com suas palavras. Afinal, existem muitas mulheres tão ou mais geniais que os homens. — Um relance de uma memória da garota ruiva passou por seus olhos, antes se voltar a focar na garota a sua frente.
— Ah, que ótimo! — comentou, contente. — Porque eu gostaria de pedir um favor e isto já vai ser constrangedor o suficiente mesmo com você concordando com isso.
— E o que é? — O médico não pôde conter a curiosidade.
A jovem respirou fundo, desviando o olhar.
— Eu queria que você me ajudasse a encontrar um emprego.
Primeiro, Blythe ficou extremamente aliviado por aquele assunto ter terminado tão longe de qualquer menção a casamento. E depois, não conseguiu deixar de se sentir surpreso e de admirar aquela menina na sua frente que estava confiando nele.
— Vai ser uma honra te ajudar.
O olhar de se ergueu rápido, brilhando com as possibilidades. Ela se levantou e correu até ele, envolvendo-o em um abraço inesperado e bem-vindo.
— Ah, muito, muito, muito obrigada! Eu estava com tanto medo de que você negasse! Quer dizer, com certeza você tinha esse direito, mas eu não conheço tantas pessoas, e você conhece todos por aqui.
Gilbert escutava parcialmente o que ela dizia, a outra parte completamente consciente do aperto firme e carinhoso que recebia. Era algo tão puro e espontâneo, que ele logo estava perdido no calor que o corpo da menina emanava e no cheiro de seu cabelo...
Até que ela se afastou abruptamente. Um tom levemente rosado tingia suas bochechas e precisava ser muito observador para perceber que ela estava corada. Logo ela, que nunca corava.
— Ahn... É... Eu... — Ela pigarreou. — Então, sobre o emprego?
Gilbert conteve um sorriso perante o constrangimento de , sabendo que, se implicasse demais com ela, poderia acabar afastando-a.
— Preciso saber de que tipo de coisa você gosta. Não adianta a gente conseguir um emprego para você se você não gostar.
— Eu desgosto de poucas coisas. Eu realmente amo música, mas nunca poderia tocar sem parecer uma artista libertina. Também não posso trabalhar em tabernas, então nada de garçonete.
— Basicamente, nada que comprometa sua reputação.
Principalmente aos olhos de Lady Pency. Ela já terá um infarto quando descobrir. Espero que seja o menos escandaloso e discreto possível.
Gilbert olhou em volta, pensando em cada ponto de Carmody por qual poderia circular sem chamar atenção e nem parecer um emprego. Teve sua primeira ideia.
— E que tal tentar algum emprego com Jeannie? Ela anda precisando de ajudantes com aquele pulso sensível, por mais que ela não admita.
— Ah, seria realmente uma ideia ótima — ela disse, embora soasse desanimada. — Mas costurar sempre foi a habilidade que minha mãe mais estimou e eu não consegui desenvolver. As agulhas gostam de furar meus dedos.
Ele sorriu, compadecido, embora um pouco decepcionado. Nenhuma outra ideia plausível passava por sua cabeça. Quer dizer, havia uma. Mas não sabia se seria boa.
Mas talvez... fosse a única saída.
— Bom... Eu nunca tenho tempo para limpar esse espaço como deveria. Às vezes, a senhora Lacroix faz esse favor para mim, mas eu ando sendo bem negligente. Eu não tenho muito dinheiro para te pagar, mas...
— Ah, você faria mesmo isso por mim?! — se levantou, animada.
— Não é muito — Blythe reafirmou, com medo de decepcioná-la.
— É perfeito — ela afirmou, um sorriso honesto se formando em seu rosto, fazendo Gilbert respirar um pouco mais rápido que o normal.
— Você nem sabe o salário.
— Eu não me importo. Eu sei limpar, poderia vir aqui sem levantar suspeitas, você é uma boa companhia... Tudo encaixa! — ria abertamente. — Quando posso começar?
O jovem médico arregalou os olhos, deixando uma risada escapar.
— Quando você quer começar?
— Por que não agora? — ela replicou. — Não me sinto energizada assim há dias.
era uma surpresa diária.
— Bom, não vejo motivos para dizer não.
A garota comemorou e pulou, depois parando por um segundo.
— Se bem que não estou com vestes adequadas. Não estou pronta para uma faxina. — Ela olhou em volta, os olhos voltando a brilhar quando avistou algo atrás do médico. — Mas posso começar com as estantes! Não é impossível passar pano e organizar as obras mesmo com um espartilho.
, você tem certeza? — ele precisou perguntar, especialmente para esconder seu próprio constrangimento ao escutá-la falar tão abertamente de uma peça de roupa mais íntima.
— Nunca senti tanta certeza quanto a alguma coisa em toda minha vida! Não vai desistir da ideia agora, vai?
O jovem médico sentia a incerteza dela e não queria ser o responsável por arruinar suas esperanças. era pura e animada, destruir sua alegria atual parecia tão cruel quanto assassinar um animal inocente.
— Eu não desisti da ideia e espero que você também não. Sabe, essa poeira está atacando minha alergia — Gilbert por fim disse, fingindo seriedade e assistindo a risada dela ganhar o ambiente. — Venha, vou te mostrar o local por completo e onde encontrar material de limpeza.
Os dois jovens seguiram pelo espaço modesto, explorando avidamente os três cômodos que Gilbert lhe mostrava: a sala de entrada, o pequeno consultório e uma porta pequena fechada a qual ele apontou que guardava os produtos de limpeza.
— Espere um segundo, a chave deve estar por aqui — ele falou, revirando os bolsos, logo em seguida procurando na mesa da entrada.
— Devo supor que não é uma sala muito visitada — debochou.
— Em minha defesa, a sra. Lacroix geralmente faz questão de trazer os próprios materiais.
— É melhor se calar, Gilbert Blythe, pois você está apenas cavando cada vez mais o buraco no qual você se colocou. — Ela apontou para ele, em uma bronca falsa. Logo depois, se distraiu com algo perto da porta. — Não seria uma daquelas chaves?
O médico olhou para trás, vendo o chaveiro ainda pendurado na porta de entrada. Se sentiu patético, percebendo que, em sua ansiedade matinal, havia se esquecido de algo tão simples assim. Bufando, ele se dirigiu à entrada e recolheu o molho de chaves.
— Não fique frustrado, eu vivo esquecendo meus grampos de cabelo em lugares variados da casa. Esses dias, encontrei um no armário de panelas.
— E o que uma jovem dama estaria fazendo perto de um armário de panelas? — Gilbert provocou.
deu de ombros, fingindo inocência ao olhar para o lado.
— Uma jovem deve manter algumas informações para si.
Rindo, o garoto se direcionou à pequena porta de madeira que era tão negligenciada, encontrando a chave de sua fechadura. No entanto, apesar do evidente clique escutado que apontava que a porta já estava destrancada, esta ainda não abria.
— O que houve? — perguntou, se prostrando na ponta do pé para enxergar.
— Está emperrada.
— Me deixe tentar.
Por entender que era teimosa e conhecendo mulheres teimosas, Gilbert pisou para o lado e deixou a garota passar. O que não esperava era que ela viesse tão veloz em direção à porta, batendo nela.
! Você está bem?! — o garoto perguntou, genuinamente preocupado diante da figura de amarelo atordoada no chão.
— Estou ótima! — ela falou, embora fosse curta e seca.
— Certo... — Foi tudo o que ele conseguiu dizer e, embora sentisse que devia se afastar, seu instinto de médico o fez analisar a garota, percebendo que tudo se encontrava em ordem, menos seu orgulho ferido. Aquilo foi um alívio e um tanto cômico também.
— Você não precisa me analisar tanto assim — reclamou.
— Qualquer ser machucado sob este teto é meu paciente. Mas eu já te liberei da consulta.
— Odeio ser sua paciente — ela bufou.
— Não sabia que minhas capacidades médicas precárias a desagradavam tanto assim — Blythe comentou, rindo, embora parte de si estivesse magoado.
— Não é isso! — ela prontamente se corrigiu. — É que... odeio me sentir fraca e vulnerável.
Gilbert analisou aquela garota em sua frente. não era do tipo que se aproveitaria de um tombo para conseguir a atenção de um cara, e sim se sentiria frustrada por perder o equilíbrio em primeiro lugar. Uma mão estendida como ajuda, para uma mente tão autossuficiente, poderia ser uma ofensa. Não corava, nem chorava... Era uma fachada de uma fortaleza. Mas, no fundo, ainda era uma garota com pontos fortes e fracos como qualquer um.
Por isso, mesmo sabendo do que lhe esperava, Gilbert lhe estendeu a mão.
E foi o fato de ela ter aceitado o gesto e a segurado firmemente que o fez falar.
— Sabe, não considero isso uma fraqueza. Afinal, pessoas fracas não se arriscam, seja física ou mentalmente. Apenas pessoas fortes e corajosas sofrem, porque elas tiveram coragem de se expor em primeiro lugar, sabendo que poderia dar muito certo ou totalmente errado.
Por alguns minutos, apenas o encarou, a boca levemente aberta em choque. Um sorriso foi crescendo ali e, por fim, ela apertou a mão dele mais forte. Foi nesse momento em que ele se deu conta que já havia se acostumado com o calor das mãos dela na sua. E o sentimento aumentou quando, impulsionada por ele, acabou trombando em seu corpo, muito mais próxima do que deveria. Os dois se encararam, sorrindo de leve, mas o coração de Gilbert acelerou de uma forma desconcertante.
Ele se aproximou de forma quase imperceptível, mas foi notado pelos olhos verdes observadores da jovem. O sorriso dela morreu e ele percebeu que era a segunda vez em apenas um dia que a fazia corar. Se perguntou qual seria o máximo de vezes que poderia alcançar aquele feito. As bochechas coradas combinavam perfeitamente com seus olhos verdes. E com seus lábios rosados. Lábios estes que pareciam estar úmidos e tão receptivos...
Gilbert despertou do transe, percebendo que quase estava cometendo um erro. Estava prestes a beijar , uma dama, sobrinha neta de uma das mulheres mais poderosas e temíveis da região que poderia esmagá-lo como um inseto irritante. Estava prestes a beijar uma menina sem saber se ela desejava isso e nem se ela esperaria compromisso disso. Da última vez, ele se enganara ao acreditar na reciprocidade. Não poderia cometer esse erro de novo.
O jovem médico se afastou rápido, mas não tão discreto quanto gostaria. Fingiu tentar abrir a porta de novo e, para sua surpresa, funcionou. Ele focou diretamente em encontrar o espanador, evitando ao máximo aqueles olhos brilhantes. Não poderia imaginar a fúria que ela devia estar sentindo. Isso se tivesse percebido o quanto ele quase ultrapassara todos os limites da amizade deles. E pensar que a quase três meses atrás achava que nunca superaria Anne... Querer beijar outra garota devia significar algo, certo?
— Han, bem... aqui, espanador e, se precisar de mais algo, pode procurar. Não sou exatamente especialista nisso. — Ele riu, passando a mão no cabelo e entregando o objeto para , evitando olhá-la e tocá-la. Tinha medo de ceder para seu transe de novo.
— Claro. É de se esperar que um médico seja tão seletivo com seus conhecimentos.
Blythe olhou em choque para a jovem na sua frente. poderia não demonstrar o que sentia pelas expressões mais básicas, não era fácil ler seu rosto se assim ela desejasse. Mas sua voz... aquela voz entregava tudo. Assim como o fundo de seus olhos. E ali estava
Mágoa. Frustração.
Se Gilbert não estivesse enganado, ela queria o beijo dele. Queria que aquilo tivesse acontecido. E uma parte dele estava simplesmente em êxtase com aquela descoberta.
E por isso, somente por isso (ou assim ele dizia a si mesmo), ele teve que beijá-la.
Foi natural e irresistível. Ele a puxou delicadamente pela cintura, mas ainda se sobressaltou. Ele buscou naqueles olhos verdes qualquer sinal de dúvida ou repulsa, mas eles estavam ainda mais brilhantes. Brilhando apenas para ele. Blythe deslizou outra mão pelos cabelos castanhos da jovem na parte que estava solta e os acariciou, ainda mais macios do que ele pensara. E, por mais que nunca fosse admitir, ele havia pensado. Havia até mesmo sonhado, ora!
O primeiro toque dos lábios foi tímido e delicado. Apesar de sua força aparente, podia ser frágil e ele não desejava assustá-la. Pelo contrário, queria fazê-la ansiar por mais. A boca quente dela mal se movimentava em encontro a dele, mas as mãos de agarravam as lapelas do casaco do médico, demonstrando que também sentia a intensidade daquilo e não desejava se afastar. Gilbert sentiu todo o seu corpo derreter.
Com cuidado, ele começou a explorar a boca da jovem com a língua, e aos poucos ela foi deixando de lado seu receio. Como tudo na jovem, seu beijo era curioso e orgulhoso. arquejava surpresa com algumas sensações daquele contato, assim como cuidava de observar para reproduzir no garoto tudo o que gostava, pois não ficaria para trás em nada.
Eles se afastaram aos poucos, os olhares se encontrando logo após tudo aquilo. Não parecia real. Gilbert realmente havia beijado ? Tinha que ser real, pois não poderia ser capaz de reproduzir uma sensação tão boa... Ele queria se afundar mais e mais nela, sem receios ou bloqueios, mas, porque era um cavalheiro, ele iria parar.
Blythe ajustou uma mecha atrás da orelha da jovem e sorriu. Se sentia particularmente orgulhoso de arruinar seu penteado.
o olhava intensamente, mas ele não conseguia identificar o que sentia. Não parecia raiva, pelo contrário, mas eram tantas coisas que ele não conseguia decifrar. Porém, ela sorriu de volta, um sorriso pleno, e ele se sentiu bem.
A garota abriu a boca para falar algo e finalmente quebrar o silêncio, quando a porta da entrada se abriu. Gilbert praticamente pulou para longe dela.
Ele se dirigiu para a entrada e avistou ninguém menos do que . Seria mentira dizer que ele não estava minimamente surpreso com o fato de a moça ter justamente interrompido um momento tão importante que ele estava tendo com a irmã dela.
— Ah, doutor Blythe, bom dia. Eu estava necessitada de uma consulta no meu ombro esquerdo.
Nesse momento, voltou do corredor e, para a condenação de Gilbert, não se dera conta dos cabelos despenteados.
? O que faz aqui?
— Eu pergunto o mesmo — a mais velha disse e, embora sua voz fosse doce, seu olhar claramente havia detectado o que havia acontecido.
Gilbert estava extremamente constrangido. E, justamente por isso, disse a primeira coisa que lhe veio na cabeça:
— A senhorita estava apenas procurando um emprego. Agora, ela está trabalhando comigo. Não fez nada de errado, além de tentar alcançar o potencial que ela sozinha já possui de viver feliz.
O olhar acusatório de o atingiu de imediato. Era para ser um segredo, ele lembrava. Mas o que acharia dele, se ele não contasse a verdade? Especialmente depois de sua irmã surgir descabelada do mesmo corredor que ele?
No entanto, a porta se abriu e outra pessoa apareceu na cena. Gilbert percebeu congelar ao seu lado e suas próprias mãos começaram a suar frio. Lady Pency nunca parecera tão assustadora.
— Vejo que está ajudando minha sobrinha a se tornar uma meretriz — a velha disse, direta.
Gilbert se engasgou.
— Minha senhora, o que quer dizer?
— Posso não ter um corpo jovem, mas não sou surda. E nem cega. Essa... Garota sem limites veio procurar um emprego e você logo se contentou em oferecer a ela em particular o que ela teria em um bordel. Jovens são manipuláveis e voláteis. Vamos, . Se retire agora e não contarei aos seus pais sobre esse escândalo. E nem sonhe em sequer voltar a vê-lo, menina desprezível.
O tempo, assim como tudo ao redor, ficou confuso para Gilbert. Ele não sabia quanto tempo segurou sua mão e nem quando a persuadiu para soltá-lo. Não sabia quando a menina cheia de vida e desejos perdeu a sua luz e se afastou dele, como se algo dentro de si houvesse quebrado. Ele com certeza sentiu algo assim.
Havia beijado e a perdido no mesmo dia. Não sabia o que aquilo significava para seu futuro ou para seu presente. Nem ao menos o que significava para seu coração. Quem ele queria mais: Anne ou ? Anne sempre estaria ocupando uma parte dali, ele sentia isso. Mas ela estava cada dia menor. Isso significava que a parte pertencente a cresceria? Não adiantava mais negar, ela já havia se infiltrado ali, sem que ele percebesse.
O que seria de ambos agora? Enquanto não sabia a resposta dessa pergunta, Gilbert suspirou e fechou os olhos, gravando o máximo possível consigo a sensação de ter tido para si, a última imagem dela sendo arrastada para fora queimando por trás de seus olhos, enquanto ele tentava ignorar a sensação de que poderia ser o fim de algo que mal havia começado.

chorava há dois dias. Não sabia exatamente como estava se sentindo, apenas percebia um vazio que se instalava no seu peito. Queria sumir. Queria dormir para sempre. Pelo menos, em seus sonhos, ela podia relembrar dos lábios de Gilbert.
Aquele momento... Ah, aquele momento fora único e mágico. Era seu primeiro beijo e ela sempre sonhara que fosse especial...
E fora mais do que isso. Beijar Gilbert Blythe era como tocar uma partitura que ela nunca havia lido, mas, em sua primeira tentativa, a música saíra de forma fácil e extremamente familiar. Cada nota parecia certa, a melodia era linda e ela sabia o que fazer. Era o tipo de música que arrepiava o corpo e tocava o coração.
Sim, só isso poderia chegar perto da emoção de beijá-lo.
Mas, como em todo drama de suas leituras, tudo havia sido arruinado.
Lady Pency chegara e deduzira tudo. E, dois minutos depois, ela estava a caminho de casa na carruagem, com segurando sua mão, embora aparentasse decepcionada. parecia um monstro por ter se aventurado naquele frio do estômago que sentira.
E nem era culpa dela! Bom, ela certamente desejara aquilo, mas nunca imaginava que poderia realmente acontecer. Afinal, Prissy e haviam deixado bem claro que ele amava Anne. Mas será que então aquilo significava que ele não amava mais Anne?
Será que seria porque ele gostava dela?
Ela comentou aquilo com Lady Pency. Comentou que eles gostavam um do outro.
A resposta veio em forma de uma ardência em sua bochecha. Para uma senhora, Lady Pency possuía tapas fortes.
— Sua tola! Ele é um homem! Ele não te beijou porque te ama, te beijou porque quer corromper sua inocência!
se virou esperançosa para . Ela iria defendê-la. Ela devia defendê-la. Mas tudo o que ela disse foi:
— Você perdeu sua virtude, ?
A jovem ficou em choque. Nada de “”, nada de conforto. Apenas acusações.
— É claro que não! — ela respondeu, mas ninguém a escutava.
— Eu sabia que aquele garoto era um aproveitador. Caçador de fortunas! Devia estar tentando comprometê-la para ficar com seu dote e se relacionar bem — Lucila falou, a voz transbordando veneno.
— Isso é mentira! Gilbert não é assim!
Ela deveria ter previsto o segundo tapa.
— Escute aqui, jovem. Você está sob minha guarda, recebendo um imenso favor. — O lábio de Lady Pency tremia e sua voz saía baixo como um rosnado. — Você é simplesmente uma menina tola que não sabe de nada!
— Eu sei quem ele é — respondeu baixinho.
— Sabe, não é? Então, diga-me, . Se ele é tão honrado, ele certamente não tentou nada que comprometesse sua honra com você, certo?
O rubor em suas bochechas, os cabelos castanhos despenteados e o silêncio respondiam aquilo.
— E, certamente — Lady Pency continuou —, após o mínimo movimento impróprio, ele lhe propôs casamento, certo? Afinal, ele gosta de você.
Casamento. A única vez em que sequer mencionara o assunto naquela tarde, Gilbert empalidecera, como se ela estivesse lhe propondo qualquer coisa. E isso fora antes do beijo.
Mais uma vez, o silêncio de fora suficiente para a velha mulher.
— Sua menina tola, era de se esperar que, assim como fala sem pensar, agiria da mesma forma. Nunca conheceu um homem para saber como eles pensam. O médico não gosta de você. Você foi um alvo fácil e tolo, e ele se aproveitou.
se sentia patética. Será que era verdade? Será que ele nunca gostara dela, só a vira como uma oportunidade? Ela sempre se orgulhara de ser inteligente, mas nunca se sentira tão estúpida. Dentro de si, ela sentia o vazio crescendo, com todas as suas esperanças se despedaçando.
Perdera seu recém adquirido emprego. Perdera seu primeiro beijo por interesse. Perdera Gilbert.
Na verdade, achava que nunca o tivera em primeiro lugar.
A jovem nem percebeu quando a carruagem, enfim, parou em frente à Mansão Louborne. De repente, a casa, que ela tanto amara quando pequena, parecia o pior lugar para se estar. Uma vontade de fugir para casa, para sua mãe, se fez presente dentro de si.
Mas, pensando bem, para quê? Suas broncas não seriam tão diferentes das de tia Lucila e o olhar de decepção seria idêntico ao de . Pois, no final, a verdade era simples: havia sido uma tola.
De repente, a jovem sentiu seu estômago se contrair de agonia.
Entrou na mansão, recebendo olhares discretos e treinados para serem indiferentes dos criados. Levou a mão ao rosto e percebeu que as lágrimas ainda caíam em seu rosto.
Então era assim que se sentia alguém com coração partido? Pensando melhor, talvez ela preferisse nunca ter se apaixonado em primeiro lugar.
E foi sem querer. Ela não queria. Mas o maldito Gilbert Blythe precisava tratá-la de forma tão gentil? Era claro que todas se apaixonavam por ele. Ele tratava todas dessa forma romântica. Pensando bem, quantas meninas ele poderia já ter beijado?
Lady Pency parou subitamente na sala de estar assim que a porta se fechou. afastou seus outros pensamentos e focou na mulher séria em sua frente.
— A partir desse momento, teremos novas regras nesta casa. Regras que minha bondade me impediu de instaurar anteriormente.
bufou. Bondade. Seria a última palavra para descrever as atitudes de tia Lucila até agora.
Mas, olhando nos olhos daquela mulher, percebeu que era assim que ela se via. Bondosa. E, bom, não era mentira que as irmãs estavam sendo acolhidas por ela. Era no mínimo algo. Por isso, a garota se resignou a não comentar nada e ficou calada, esperando.
Lady Pency pareceu satisfeita com seu silêncio e continuou.
— A partir de agora, você, , está proibida de entrar em contato com aquele médico pobre e com qualquer um que possa favorecer seu contato com ele.
arregalou os olhos. Qualquer um? Mas isso significaria todas as suas amizades recém conquistadas. Será que...?
— A partir de agora, a senhorita está oficialmente proibida de deixar essa casa e enviar qualquer correspondência até provar-se capaz de agir apropriadamente — Lady Pency decretou.
Se já não estivesse desolada e sem chão, isso teria sentenciado sua tristeza.
— Mas, Lady Pency...!
— E que fique claro que qualquer um que ajudá-la a descumprir tais ordens será devidamente punido. — Lady Pency olhou cuidadosamente para cada funcionário e também para .
Nesse momento, o olhar de também caiu sobre a irmã.
, por favor, você não pode concordar com isso — ela disse em um sussurro.
A mais velha suspirou e a encarou com o mesmo olhar que se dirigia a uma criança que não conseguia entender por que não podia almoçar doces.
, eu te amo. E te considero uma jovem tão forte e corajosa — dizia palavras doces, porém sentia o que estava por vir. — Mas o que ocorreu hoje foi extremamente grave. Você precisa ser mais prudente.
A jovem se sentia murcha como uma flor notificada que seria afastada de toda a luz do sol.
— Acredito que estejamos resolvidas, então — Lady Pency retomou a palavra. — E devo também anunciar que, se qualquer criado surgir com algum boato sujo, fará uma viagem apenas de ida para conhecer a sarjeta. Estamos entendidos?
Todos engoliram em seco e fizeram uma breve reverência de concordância.
— Muito bem, então o assunto está encerrado.
No entanto, um leve pigarro tomou a sala. se virou à procura e encontrou o mordomo atrás de alguns criados. Por Deus, quantas pessoas haviam presenciado tal humilhação?
— Diga, George — Lucila ordenou.
— Minha senhora, um presente acaba de chegar da Inglaterra para ti. É de Lorde Phillip, Lady Pency, o pai do mais novo Conde de Jordan.
Um sorriso discreto surgiu no rosto de tia Lucila e o rosto de ficou levemente rosado. se esforçou para relembrar daquele nome. E então, como um estalo, tudo voltou para sua cabeça. Era o pai de Travis Phillip, o Conde de Jordan. O pretendente ilustre de . Um que não a levaria para fazer algo impróprio. E se a levasse, bem, Lady Pency torceria para que fossem pegos e se tornasse rapidamente a Condessa de Jordan.
Enquanto uns tinham tão pouco, pensou , outros simplesmente tinham tudo.
— Deixe o presente em meus aposentos, George. E preparem um banho para essa menina. Está parecendo uma mosca com os olhos bulbosos de lágrimas.
não se recordava exatamente do que acontecera a seguir. Não sabia quanto tempo havia ficado na banheira, sem se enxaguar, sem agir, sem pensar em nada, apenas seu corpo naquele ambiente. E depois, tudo se misturava com dias iguais e sonhos confusos.
Já haviam se passado dois dias, porém ela continuava tão atordoada quanto. Sentindo o mesmo vazio e a mesma dor. Queria tanto que estivesse ali com ela. saberia as melhores palavras para consolá-la. Provavelmente sentiria mais por ela ter perdido o emprego do que perdido Gilbert e concordaria que todos os homens são insolentes.
Quem diria que e Lady Pency iriam um dia concordar.
Se bem que, para Lady Pency, nem todos os homens eram ruins. Não quando eles carregavam títulos, pelo visto, já que ela ressaltara diversas vezes durante o jantar a gentileza de Lorde Phillip e o colar maravilhoso que ele a enviara. Não parava de enumerar as grandiosas qualidades de seu filho, quase como se estivesse descrevendo um objeto válido de ser comprado.
Se bem que seria a mais comerciável da situação.
nem tinha mais energias para rebater nada durante o jantar. Geralmente, vinha se sentindo sem fome. Lady Pency a obrigava a comer, dizendo que não permitiria que ela adoecesse e a incomodasse ainda mais. Isso deixava a garota irritada, o que afastava um pouco a dor, e abria espaço para fome.
Ali, naquele sentimento, ela encontrou sua salvação. Raiva. Porque, quando sentia raiva de ter sido usada por Gilbert, não sentia a tristeza de ter tido seu coração partido, e sim uma extrema vontade de mostrar que ela era melhor do que ele imaginava. Quando sentia raiva de tia Lucila por trancá-la e humilhava, esquecia a dor de ser tão insignificante para ela, aumentando sua rebeldia. Quando sentia raiva de de não a defender e ficar pateticamente presa em seu mundo de paixão com Travis Phillip, afastava a mágoa de ter perdido sua melhor amiga e irmã.
Sim, era melhor sentir raiva.
E, sentindo raiva, ela conseguiu se levantar naquele dia. Comeu e ignorou as outras mulheres naquela mesa, relembrando como elas também eram responsáveis por fazê-la sofrer. Depois, foi para a biblioteca para ler e falar sozinha, assim como sabia que todos odiavam e achavam estranho. Porque assim, ao menos, poderia ser quem ela era. Até mesmo deixara uma meia suja perto da entrada apenas para enlouquecer os criados e, por consequência, Lady Pency. Tudo o que ela sentia era raiva, rebeldia e um sarcasmo doído do fundo da alma que parecia.
Isso até o momento em que todas as suas barreiras foram desmanchadas como se fossem feitas de papel.
— Ah, senhorita . — George veio em sua direção quando a viu no hall, sem imaginar que ela havia acabado de posicionar sua meia suja ali perto. — Carta para a senhorita e sua irmã. De um doutor Reynalds, vinda de Summerside.
se sentiu tonta. Doutor Reynalds. Summerside.
Mamãe e papai.
Ela agarrou a carta e seguiu para o quarto, escada acima. Já dentro do aposento, fechou a porta e se sentou na cama, segurando o envelope pardo com as mãos trêmulas.
Depois de meses, meses sem notícias, ali estava. A resposta de parte de suas aflições. Aquilo era tudo. Poderia significar que estava tudo bem. Ou que estava tudo muito, muito mal.
Não tinha coragem para abrir. Sabia que deveria chamar . Ela também merecia saber e com certeza iria consolá-la caso algo saísse errado, sendo sempre a rocha firme entre as duas.
Porém, não estava sendo uma boa irmã no momento. Não, ela estava sempre se colocando contra e ocupada demais com cartas para Travis Phillip. iria ler sozinha. Porque ela era forte, corajosa e prudente. Saberia como reagir, o que faria, mesmo na pior situação. Ela era independente e plenamente capaz de fazer aquilo sozinha.
Respirou fundo e pegou o abridor de cartas. Quando as folhas escritas rolaram por suas mãos, desdobrou a mensagem e se pôs a ler.

“Prezadas senhoritas ,
Devo dizer que lamento muito em informá-las...”

A carta caiu da mão de antes mesmo que ela continuasse. Seu coração parecia estar sendo esmagado e sua garganta comprimida. Ela não conseguia respirar. Não precisava ser uma vidente para saber o que viria a seguir.
No entanto, ela precisava ser prudente.
Mesmo com maior dificuldade de ler, causada por seus olhos embaçados com lágrimas que ela lutava para que não caíssem, a jovem continuou.

“... lamento muito em informá-las que, nesta madrugada, o senhor Paul , vosso querido pai, veio a falecer. Infelizmente, seu pulmão foi afetado de forma irreversível pela doença respiratória e este não resistiu. Devoto-vos nossos mais sinceros pêsames, porém saibam que nos dedicamos ao máximo por sua vida.
É um alívio, no entanto, poder afirmar que vossa mãe se encontra bem, seu único mal sendo resultado do luto por vosso querido pai.
Não é de maior segurança que vocês retornem ainda, visto que, após sua partida, diversos casos se fizeram presentes em Summerside. Informarei sua mãe para que vos escreva quando a situação for plausível de vosso retorno.
Respeitosamente,
Dr. Harry Reynalds.”

, paralisada pelo choque, conferiu a data da carta. 10 de agosto. Seu pai falecera há três dias e ela não sabia.
Nada daquilo podia ser real. Embora não fosse extremamente próxima do pai, ele fora seu protetor e provedor durante toda a sua vida. Não conseguia imaginar uma ceia, com a família sentada junta, sem que ele estivesse na cabeceira, com seu típico jornal aberto nas últimas notícias de Londres.
se deitou na cama, abraçando a carta, sem conseguir chorar. Não, aquilo era mentira.
Como pudera estar tão preocupada com um maldito coração partido quando havia perdido alguém e não sabia? Como podia ser tão injusta e egoísta de ter se considerado tão desafortunada? Ela tinha a sua família toda naquele momento.
Agora, ela perdera tudo.
Abraçando o envelope, ela percebeu que outro papel saíra dali. A letra indicava uma escrita às pressas. E o perfume...
Jasmim.
Era um bilhete de sua mãe.
No automático, abriu o pequeno bilhete.

“Minhas meninas,
Me sinto cansada e perdida. Não poderei me prolongar. Mas quero que saibam que eu as amo muito e não poderia estar mais desolada do que nesse momento, sem meu marido e sem vocês.
Cuidem uma da outra. Eu as verei em breve.
Com amor,
Mamãe.”


apertava o bilhete com força, como se pudesse puxar sua mãe de dentro dele. Por Deus, como precisava dela ali. Como pudera tentar esquecer seus pais, esquecer a agonia de tê-los doentes? Seria o Senhor a punindo por ter sido feliz com Gilbert quando seus pais sofriam? Não sabia se isso a tornava uma merecedora do Inferno.
Releu o bilhete novamente. “Cuidem uma da outra”. Aquilo não poderia estar mais distante da realidade. A mãe ficaria extremamente decepcionada de vê-las afastadas.
não conseguia perdoar por tudo. Ainda não. Mas não significava que não precisasse contar para a irmã o que acontecera.
Ser prudente não era ser independente. Também significava que ela deveria ser racional. Sua irmã também era parte daquele assunto e precisava ler a carta e o bilhete também.
se sentiu como um corpo sem alma se arrastando até o quarto de . Um ruído surdo acompanhava seus ouvidos e era tão difícil de respirar. Piscou e estava parada diante da porta da irmã. Não se lembrava de ter chegado até ali. Ainda mecanicamente, bateu na porta.
— Entre. — escutou a voz de .
Abriu a porta e viu o rosto da irmã de relance, antes de desabar no chão, derrubando as duas mensagens, e começar a chorar compulsivamente.
Talvez ser prudente fosse se deixar sentir a dor.

Gilbert estava dentro do trem, voltando de Charlottetown após a sua quinta-feira comum trabalhando com o doutor Raynes. O médico mais velho, que insistia que Blythe já trabalhara o suficiente para compensar os materiais que primeiro o fizeram volta a frequentar o consultório, agora o retribuía com um pequeno salário por aquelas horas. O garoto certamente tentou recusar, mas o doutor se mostrou irredutível. Então, pela segunda vez em meses, Gilbert acabou aceitando mais dinheiro do que sentia que merecia pela mão de amigos generosos.
O dia havia sido cansativo, embora sempre fosse incrível trabalhar com o doutor. Uma paciente precisara de anestesia, e eles se recordaram, saudosos, da primeira vez em que Gilbert vira a agulha de anestesia que seria aplicada em Bash e de seu consequente desmaio. Como era jovem e tolo! Agora, com seus 20 anos, aprendera depois de muito tempo na faculdade e nos consultórios a lidar com aquele nervoso e criar resistência.
De qualquer forma, por mais prazeroso que fosse trabalhar com o doutor, as viagens de trem de ida e volta, assim como as horas no escritório, custavam um preço. Já fazia mais de um mês em que ele, toda quinta, se acostumara àquele cansaço, dormindo cedo para acordar revigorado nas sextas. Porém, naquele dia, a situação seria diferente.
Por que o encontro de turma da escola havia sido marcado naquela quinta? Não poderia ter sido marcado em um dia mais tranquilo?
Gilbert sabia que não era obrigado a ir. Todos entenderiam se ele dissesse que tivera um longo dia de trabalho e acabara faltando. Talvez ficassem um pouco decepcionados, mas entenderiam.
O problema era que, por uma razão que ele preferia não nomear, ele queria ir a esse encontro.
Não era difícil de adivinhar que esse motivo era talvez encontrar Anne. Já se completavam sete meses de seu noivado e, mesmo assim, às vezes ele se via pensando nela. Recentemente, no entanto, ela vinha dividindo muito espaço em sua cabeça com outra pessoa.
Há mais de um mês que ele não via . Não que estivesse contando. Desde o fatídico dia do beijo, ela havia desaparecido. A ameaça de Lady Pency sobre não o ver mais se tornara real, porém, ele não deixara de notar que aquilo se estendera além. Não era apenas o garoto que não tornou a vê-la e nem apenas o consultório que ela deixou de frequentar. havia desaparecido por completo, dizia Jeannie, que ouvira da própria Rachel que agora só via a irmã mais velha na rua e que esta sempre alegava que não estava se sentindo bem.
Era claro que as especulações começaram na cidade: ela estaria doente? Estaria de luto pelo pai? Estaria grávida? Cada situação atraía um olhar diferente para ela. Gilbert, no entanto, tinha noção do verdadeiro motivo. E a culpa era toda dele.
A menina era parente de uma Lady. Em que realidade ele poderia simplesmente beijá-la sem consequências? Por mais que tenha sido um dos melhores momentos que vivera desde que se afastara de Anne.
E lá estava ela de novo. Seus pensamentos estavam mais confusos do que nunca e ele sentia uma vontade imensa de encontrar as duas para entender o que se passava dentro dele. Porém, uma estava noiva do outro lado do país e a outra estava afastada da sociedade, por mais perto que pudesse estar.
Felizmente, o trem chegara à estação e ele pudera afastar aqueles pensamentos o melhor possível. Sua preocupação agora era outra: ser gentil.
Quando comentara com os amigos que estaria chegando do trabalho antes da confraternização, Charlie e Moody fizeram questão de buscá-lo na estação para irem juntos à festa. Gilbert, quando avistou os dois o esperando perto de uma carruagem, não pôde deixar de negar que, apesar de não terem muitos interesses em comum, ambos sempre se esforçavam para manter a amizade e, naquele momento, ele estava muito grato por aquilo. Por mais que fosse muito mais próximo de Sebastian e de pessoas mais velhas no geral, a companhia dos dois antigos colegas era agradável.
Moody foi o primeiro a avistá-lo, sorrindo enquanto ele se aproximava.
— Gilbert! Como está? Muitos doentes nessa região?
— Graças a Deus, nenhum com sintomas graves. Parece que na Europa estamos tendo surtos de gripe e de outras doenças, mas aqui estamos bem — o jovem doutor reafirmou.
— Vamos conversando no caminho, que tal? — Sloane disse, já assumindo a condução.
— Poxa, eu estava dirigindo! — Spurgeon reclamou.
— É, e soltou a condução, quase fazendo com que batêssemos em uma árvore!
— Estou com o Charlie nessa, Moody — Gilbert se posicionou. Conhecia bem o jeito desastrado do amigo e preferia uma viagem segura.
O trio avançou a viagem até o bar em uma conversa agradável. Moody estava ansioso. Confessou ao grupo que Ruby o beijara em sua festa de aniversário, mas desde então nenhum avanço havia ocorrido. Ele pediu conselhos relacionados ao campo amoroso e parecia tão sério que Gilbert não duvidava que ele pedisse Gillis em casamento, se ela comentasse sobre o assunto.
Charlie, por sua vez, não parecia estar muito ligado nesse assunto. Ele dizia que tinha muito tempo para viver e muitas garotas para conhecer, fazendo os dois amigos rirem, como se fossem adolescentes de volta à escola.
Quando alcançaram o bar em que seria a festa, a noite já começara e Gilbert estava melhor humorado do que esperava. Nem mesmo o olhar de relance para os cactos, se lembrando de uma tarde no consultório com um vestido amarelo rasgado, o fez desanimar.
Porém, obviamente, assim que adentrou o local, sua mente automaticamente procurou um certo rosto. Na verdade, não tinha certeza absoluta de qual rosto estivera procurando, mas sabia que não encontrara nenhum deles.
Seus antigos amigos estavam ali. Além dos três que haviam acabado de chegar, Billy, Tiilie, Jane, Prissy, Josie, Gertie, Diana e até Fred estavam ali. As duas faltas mais marcantes eram Cole e, bom, Anne, mas todos esperavam que estes não viessem devido às suas atuais moradias.
— Blythe, Spurgeon, Sloane, que bom vê-los! — Wright os cumprimentou. — Finalmente um pouco mais de presença masculina. Eu realmente não consigo mais ouvir Josie Pye dizer que meu terno é de uma cor feia de mostarda e que eu deveria ter vestido amarelo. Digam-me, meus caros, mostarda não é amarela?
Os colegas riram e as garotas se opuseram, tentando mostrar o que para elas era uma clara diferença. Gilbert se viu sorrindo genuinamente, apreciando falar de algumas bobagens com aquelas pessoas que durante tanto tempo foram presença constante em sua vida. Mesmo Fred, a quem ele conhecera apenas na época da faculdade e logo se tornara muito presente no grupo.
— E quem vai se encarregar das bebidas? Hoje foi um dia longo na fazenda! — Charlie proclamou, já se sentando confortável ao lado de Billy.
— Não se preocupem, eu já pedi! — Uma voz feminina familiar vindo de trás do grupo fez Gilbert se interessar. De onde ele conhecia aquela voz?
Então, para sua completa surpresa, Monroe veio em direção à mesa deles.
Blythe não pôde deixar de se sentir agitado. A senhorita Monroe era prima dos Andrew, ele sabia, mas possuía uma relação muito mais interessante para ele: era amiga de . Agora, ele só tinha que pensar em como abordá-la sem chamar a atenção dos outros ou ser desagradável.
— Gente, para aqueles que não a conhecem, essa é , nossa prima — Jane disse, em especial para Charlie e Moody. — Me diga que pediu bebida para os cavalheiros apenas e não para você.
— Eu sempre quis provar cerveja. — Foi tudo o que a garota respondeu, sorrindo marota. Ela com certeza parecia alguém peculiar, Gilbert pensou, divertido.
— Isso me lembra uma coisa — Diana disse, chamando a atenção de todos. — Nosso próximo encontro deve ser em um local mais... agradável. Mamãe quase morreu do coração quando descobriu que eu estava indo para um bar.
— O problema é a privacidade. Aqui, podemos fazer o que quisermos longe do olhar de qualquer pai — Billy respondeu, já olhando para Josie, que apenas devolveu o olhar com nojo.
— Mas perto do olhar de qualquer bêbado fofoqueiro — Tillie devolveu.
— Pelo menos aqui temos instrumentos e o Moody pode tocar. Não é, Moody? — Ruby disse, com a voz mais inocente do mundo.
Spurgeon, por sua vez, ficara mais pálido do que a luz do luar.
— Eu... o quê?
— Ah, vamos, você toca tão bem! Você não tocaria para a gente? Por mim? — Gillis piscava os olhos e sorria como uma garotinha.
Claro que, menos de um minuto depois, Moody já estava falando com o proprietário e pedindo licença para os músicos.
— Coitado do menino! Olha o que a paixão faz. Ainda bem que eu não sou assim — Wright comentou com Gilbert, risonho.
— Fred, querido, acho que um de meus brincos caiu no chão. Pode me ajudar a encontrá-lo? — Diana o chamou.
— É para já, minha querida — ele disse, sem olhar para Gilbert, claramente constrangido. O jovem médico segurou uma risada.
Moody e Fred o haviam abandonado. As meninas estavam alheias em uma conversa própria, enquanto Billy e Charlie estavam envolvidos em uma discussão sobre a melhor forma de cultivar os legumes. Gilbert escutava a música, apreciando aquele momento com o grupo, por mais deslocado que pudesse se sentir.
Mas ele se surpreendeu completamente ao sentir um cutucão.
— Gilbert Blythe, eu preciso falar com você.
O menino levou um susto ao ver Monroe atrás dele. Ele podia jurar que ela estava, há menos de um segundo, ao lado de Prissy, bem distante dele.
E pensar que ele estivera preocupado em como abordá-la sem que ela estranhasse. Pelo menos isso não seria um problema.
— O que acha de darmos uma volta? — ele disse, estendendo o braço para ela. Ela arregalou os olhos, mas logo aproveitou a oportunidade para puxá-lo para fora do bar.
O vento gelado do local o atingiu certeiro. Ele fechou melhor o seu casaco e analisou a cidade iluminada por velas de dentro de algumas poucas lojas abertas e algumas casas habitadas. Ele percebeu que a mulher ao seu lado estava agitada.
— Blythe, preciso ir direto ao assunto — disse, mexendo no cabelo sem parar. — Você é o único que pode me ajudar. Eu apenas ouvi dizer que Lady Pency está na Inglaterra e as sobrinhas, em casa. Por favor, me diga que você tem notícias da .
Gilbert, que antes estava esperançoso que pudesse ter essas respostas, ficou visivelmente desapontado. Monroe, por sua vez, percebendo o estado do médico, suspirou abatida. Ambos ficaram ali, em silêncio, suas mentes voltadas para uma garota espontânea e divertida de lindos olhos verdes.
foi a responsável por quebrar aquele silêncio.
— Eu não sei o que aconteceu. Ela não me manda cartas e nem responde as minhas próprias. Nunca mais a viram em local nenhum da vila. Estou tão preocupada com ela... E se algo terrível tiver acontecido? — Então, como se algo tivesse se acendido em sua cabeça, ela se voltou abruptamente para Gilbert. — Faz um pouco mais de um mês que ela sumiu... E isso bate com a época em que ela ia te encontrar no consultório! Você recebeu a carta, certo? E a viu?
O jovem médico se sentiu levemente desconfortável por ter conhecimento daquela última carta que recebera de . Por algum motivo, aquilo era um pouco vergonhoso. Mas então ele se lembrou que também contara tudo a uma pessoa. Sebastian. Se havia contado a Monroe sobre a carta dos dois, era porque confiava nela, assim como Gilbert confiava em Bash.
Por isso, ele sentiu que para ela, e somente ela, aquilo poderia ser revelado. Ele se virou para a garota.
, eu tenho algo para te contar. Mas eu só posso fazer isso se você prometer não contar a mais ninguém. Ouviu? Mais ninguém. Pela .
Os olhos de Monroe se arregalaram instantaneamente e ela se sentou muito ereta. Porém, com uma seriedade assustadora, ela disse:
— Eu juro pela minha vida.
Então, Gilbert a contou sobre aquele último encontro. Claro que não detalhou muito, mas, infelizmente, teve que revelar à garota que ele tinha boa parcela de culpa pelo sumiço de . E, por mais que preferisse ficar uma hora conversando com Billy do que contando qualquer questão mais íntima sua a uma garota estranha a ele e amiga de outra por quem ele não sabia o que sentia, tentou de forma indiferente e rápida narrar que um beijo acontecera. Depois, mudou o foco para as reações de Lady Pency, explicando que ela dissera que não poderia mais vê-lo.
— E essa foi a última vez que eu a vi. Mas não sabia que Lady Pency faria restrições tão intensas — Gilbert finalizou, sentindo a vergonha queimando em seu peito.
encarava o jovem médico intensamente e ele já imaginava suas próximas palavras, algo como “e você não a pediu em casamento?” ou “como ela deixou isso?”.
Ele realmente não esperava que ela dissesse:
— Entendo... Fico feliz que ela esteja bem. Ou em partes. O pai dela faleceu, não sei se você ficou sabendo.
Ele apenas concordou com a cabeça. Aquilo era outra coisa que doía dentro de si. Ele a prometera que seus pais ficariam bem e agora ela devia estar arrasada. Ele conhecia o sentimento e queria estar ali por ela. Maldição, por que havia a beijado?!
— Uma última pergunta, Blythe — Monroe retomou a palavra, alheia à tristeza dele. —Você não gostava da jovem Anne Shirley?
Nada, absolutamente nada mais poderia ter surpreendido mais do que aquela fala. Acabou engasgado em sua própria saliva e foi socorrê-lo, embora ele tivesse a impressão de que Monroe estava se divertindo com aquilo.
— Eu... Anne... Está noiva! — ele afirmou, em seu desespero.
Ele não negou propriamente o que dissera. E, ela, observadora como era, percebeu. A garota abriu um sorriso irônico:
— Você parece uma boa pessoa, Gilbert Blythe. — Sua expressão, no entanto, de repente se tornou séria. — Mas isso não me impede de te avisar: não magoe a . Não a envolva em algo que você não terminou.
Gilbert nunca estivera tão sério na vida. Por alguma razão, aquela garota parecia muito mais ameaçadora que Billy, apesar de sua falta de músculos. Não, o que o assustava era seu cérebro.
Depois daquela conversa, ambos voltaram para dentro do bar e seguiram a noite como se nada tivesse ocorrido. Bom, pelos menos , já que Gilbert, por mais que tentasse aproveitar, tinha a cabeça tomada por muitos questionamentos.

🌼


No dia seguinte, Gilbert acordou com uma leve ressaca provocada pela cerveja e pelos pensamentos que não deixavam sua cabeça. Que grande sorte a sua por ser médico e por Sebastian ter tirado a sexta feira de folga. Assim, pôde arrumar rapidamente uma bebida horrível, mas que seria certeira para a dor, sem ter o amigo falando em seu ouvido apenas para incomodá-lo.
Por mais exausto que estivesse do longo dia anterior, Blythe acreditava que o trabalho certamente o ajudaria. Uma distração depois daquele dia tão confuso seria muito bem-vinda.
Porém, ele não esperava que a distração fosse estar na forma do seu locador, o esperando seriamente em frente ao seu consultório.
— Senhor Pye — Gilbert disse, claramente surpreso e nervoso. Aquele homem podia ser tão intimidante para ele como já vira suas filhas serem para outras meninas. Por sorte, sua dor de cabeça já estava quase desaparecendo por completo. — Bom dia! O que o traz aqui? Espero que nenhum problema de saúde.
O senhor Robert Pye o encarou, dando um sorriso com nenhum dente e pouca emoção. Não que o jovem médico pudesse reclamar, afinal, aquele homem fora responsável por ele conseguir um espaço para que ele pudesse exercer a sua profissão dos sonhos.
— Blythe, estava te esperando. E não se preocupe, estou em perfeita saúde. — Ele continuou sorrindo, as mãos no bolso. — No entanto, não vim discutir um assunto particularmente positivo.
Então, a ficha de Gilbert caiu. O aluguel.
— Senhor Pye, me perdoe, eu esqueci de pagar esse mês o aluguel para o senhor, mas eu já tenho aqui o dinheiro. — Um dinheiro apertado graças aos pagamentos generosos da senhora Pippett e do doutor Raynes. — Por favor, me acompanhe.
O homem entrou silenciosamente atrás de Gilbert no seu consultório, observando cada mínimo canto do local. Gilbert se dirigiu a um canto mais a fundo em que ele guardava uma caixinha com o dinheiro do aluguel. Separou as notas correspondentes ao valor, sobrando quase nada na caixa, e se dirigiu a Robert.
— Aqui está, senhor!
O homem, no entanto, apesar de ter o dinheiro em mãos, ainda sorria de uma forma esquisita. Gilbert não pôde deixar de se sentir inseguro.
— Algum problema, senhor Pye?
Robert ampliou ainda mais o sorriso e desviou seu olhar do dinheiro, encarando o jovem médico. Ali estava estampado: pena.
— Gilbert Blythe, você é uma ótima promessa para a vila, não? Por que não nos sentamos um pouco e conversamos sobre isso?
Mesmo sem muita vontade, o jovem médico ofereceu o sofá para o convidado e se sentou à sua frente em uma simples cadeira de madeira. Retorcia os dedos, nervoso, mas tentava transmitir uma postura relaxada.
— Então, como vão os clientes e os atendimentos? — o locador perguntou.
A postura relaxada de Gilbert ficara ainda mais difícil de ser mantida.
— Infelizmente, não muito diferente do início, senhor. Tenho visitas constantes da senhora Pippett e tive outras três ou quatro de outros clientes no último mês. — Ou melhor, uma cliente, mas isso ele decidiu guardar para si. — É difícil conquistar a confiança das pessoas.
— Sei... — O senhor mais velho mantinha aquele sorriso sem dentes estático. — E soube que voltou a trabalhar com o doutor Raynes em Charlottetown, estou correto?
— Sim, senhor. — Gilbert nem se questionou como ele sabia. Uma vila pequena era movida pelas fofocas. — Todas as quintas à tarde, eu tenho ido lá para ganhar ainda mais experiência, um dinheiro extra e até, talvez, conquistar alguns clientes.
— O doutor é bom com você ao oferecê-lo um emprego mesmo sabendo que você talvez leve embora seus clientes, não? Ou talvez ele não o veja como concorrência — o senhor Pye disse.
Foi a vez de Gilbert de sorrir sem mostrar os dentes, pois sabia que não devia discutir com o homem responsável pelo seu aluguel. Após o seu silêncio, no entanto, Robert pigarreou e seguiu seu diálogo.
— Sabe, Gilbert, eu não posso mentir para você. Eu ouço as pessoas falarem e essa confiança dos clientes ainda não foi construída.
— Eu só estou aqui há cinco meses. Isso leva tempo — Blythe não se segurou e tentou rebater.
— Eu sei, garoto. Mas eu não sou um simples locador, entende? Eu me vejo como um... investidor. E agora, eu não sei dizer se você está valendo a pena.
Aquilo deixou o jovem sem fala e, vendo-se sem resposta novamente, o senhor Pye continuou.
— Eu tenho recebido propostas. Boas propostas, inclusive. Mas eu segurei esse espaço o máximo que pude, acreditando em você. Mas será que isso é mesmo o melhor para você, meu rapaz?
— Claro que sim. — Ele recuperou a voz para responder. — Esse é meu propósito.
O senhor Pye, no entanto, apenas sorriu, agora mais saudoso.
— Propósito. Isso é algo engraçado, sabia? Eu tive em mente por muito tempo que meu propósito na vida era ser um bom pai e um bom trabalhador. E veja onde estou agora: com duas filhas corrompidas pela mãe e destruindo o sonho de um jovem garoto.
— O que isso quer dizer? — Gilbert o indagou, depois de engolir em seco.
— Quero dizer, criança, que você tem duas opções. O imóvel está valorizando e minhas filhas precisam de dinheiro. Gertie está quase noiva e eu preciso de um bom dote. O aluguel irá aumentar. Eu o diria que, se isso é o que você realmente deseja, invista. Venda sua fazenda e invista em ser médico. Ela valerá um bom dinheiro e eu estaria disposto a negociar esse local para não mais alugá-lo para você. Você, meu jovem, poderia ser definitivamente dono desse consultório. E não só daqui, como do apartamento aqui de cima! Poderia realmente se dedicar ao seu trabalho e ter sua casa no local que seu coração está. Conquiste seus clientes mostrando sua dedicação!
Aquilo agitou Gilbert. Apenas em seus melhores sonhos ele conseguia ser dono daquele local. Poderia acordar e evitar transportes e burocracias. Estaria sempre perto do movimento local, poderia investir em cursos e em melhores equipamentos. Era a realização de um sonho.
Ou a concretização de um pesadelo, pois, para isso, teria que renunciar a sua fazenda. O local em que estavam seus pais e Mary, a quem ele poderia visitar quando precisasse e cuidar daquele delicado santuário que o espaço virara. A fazenda que tinha suas melhores memórias, de toda a sua infância, da chegada de Bash, das visitas de Anne, do aniversário de Delphie com . A fazenda que era o último legado de seu pai, além dele mesmo. Ademais, Sebastian era seu proprietário também, ele não poderia simplesmente vendê-la assim.
Embora aquilo fosse uma desculpa. Bash faria de tudo para apoiá-lo a ser feliz.
A verdadeira questão era que aquela, em hipótese alguma, era uma escolha para ele.
— Qual a minha outra opção? — Gilbert perguntou ao senhor Pye.
O homem levou um susto com o garoto que se mantivera quieto por tempo demais.
— Perdão?
— O senhor disse que eu tenho duas opções. Já me falou da primeira. Qual a segunda?
O homem o olhou, intrigado, como se imaginasse que Blythe nunca hesitaria em fazer essa escolha.
— A segunda, meu rapaz, é ser talvez o mais próximo da sensatez. Se a fazenda é muito importante para ser vendida e você já está realizando seu sonho como médico com o doutor Raynes, por que se prender aqui?
Gilbert se sobressaltou. O homem realmente estava sugerindo que ele largasse seu próprio consultório?
— Não estou me prendendo aqui. Esse é o meu lugar — Gilbert rebateu.
Então, o sorriso sem dentes e sem emoção do senhor Pye retornou.
— Um lugar que te impede de trabalhar com verdadeiros clientes, ganhar dinheiro e ser feliz, como quando você está com o doutor Raynes. Ouvi dizer que seu salário tem sido mais do que generoso para apenas uma tarde por semana. Imagine o que ganharia em tempo integral.
Mas Gilbert não queria imaginar. Novamente, pelo bem de ambos, o jovem se manteve quieto.
— Não espero que se decida agora. Estou aconselhando-o, como sei que seu querido pai, que Deus o tenha, também o aconselharia nesse momento. Esse será o novo valor do aluguel a partir do ano que vem. — Pye rabiscou em um papel e entregou a Blythe. Seu coração afundou. Nem em cinco meses lucraria tanto para pagar o aluguel de um único mês com aquele preço. — Escolha o que for melhor. Venda a fazenda e seja independente ou deixe alguém inovar em seu lugar. Ou quem sabe você consiga conquistar os clientes até lá?
Ambos sabiam que isso era impossível. Robert se levantou do sofá, alisando seu paletó.
— Foi uma boa conversa, Blythe. Espero seu pagamento do próximo mês e sua decisão até o final do ano — disse o senhor Pye, e depois saiu.
Gilbert estava preso àquela velha cadeira de madeira, como se não conseguisse se levantar. Aquelas não eram escolhas. Eram imposições. Dolorosas imposições. E ele sentia que, independentemente do caminho que tomasse, perderia tudo.
Blythe riu da ironia da situação. Mais uma vez, estava dividido. Parecia que o destino realmente estava brincando com as indecisões dele.
“Não a envolva em algo que você não terminou”, ele escutou a voz de Monroe novamente em sua cabeça.
Suspirando fundo, ele se levantou. Ela tinha razão. Gilbert tinha muitos assuntos inconcluídos atrapalhando sua vida.
E era hora de tentar resolver algumas questões que estavam em aberto. Pelo menos, o que tivesse em seu alcance.

Aquele último mês era um borrão difuso na memória de .
A tristeza e a agonia tomaram seu coração, e ela sentia a dor de perder o próprio pai sem ter o colo da mãe, o apoio de ou até mesmo um abraço de Gilbert.
Gilbert. Era outro em quem evitava pensar por que só podia suportar uma dor de cada vez.
Talvez não tivesse aguentado o passar daquele mês, trancada em casa, sem nada para se distrair e com a dor a corroendo. Mas, então, um milagre aconteceu.
Ela ganhou sua irmã de volta.
Por pior que tenha sido o luto, era grata a Deus por ter ao seu lado. Como sentira falta da irmã mais velha! Por mais diferentes que pudessem ser, algumas coisas apenas a outra entendia, e uma delas era a saudade que seu pai iria deixar.
estava livre, diferente de , mas lady Pency deixou que ela ficasse em casa para sentir o luto e pudesse evitar suas atividades sociais. Ela não era um monstro, afinal. Por isso, as irmãs puderam ficar juntas. Chorar juntas. Se abraçaram até dormir em dias que as palavras ficavam presas na garganta. Reviveram memórias saudosas do querido pai. Sorriram ao imitar o que ele lhes falaria naquela situação.
As primeiras duas semanas foram imersas no luto, mas também na volta da confiança entre as irmãs. Aos poucos, elas iam se recuperando e se apoiando uma na outra. Uma noite, que não estava tão ruim quanto nas últimas, as duas irmãs estavam no quarto de , que penteava os cabelos castanhos e longos de , algo que sempre acalmava a mais nova e que elas nunca mais haviam feito desde que se mudaram. Era como voltar para uma época mais simples e tranquila.
— a mais velha a chamou, ainda desembaraçando as madeixas.
— Sim?
— Me desculpa.
Aquelas palavras surpreenderam . De tudo o que poderia sair da boca da irmã, não era exatamente isso que esperava. A mais nova se virou para encará-la.
— Do que está falando, ?
As bochechas da mais velha estavam coradas e ela desviou o olhar da irmã, parecendo muito envergonhada. virou-se de costas novamente, sabendo que aquilo tranquilizaria a irmã.
— A gente se distanciou tanto nos últimos meses... E eu sei que é culpa minha. Me desculpa, eu fiquei tão deslumbrada com tudo e deixei de lado minha única irmã.
sacudiu a cabeça. Um dia, ela poderia ter pensado assim, mas agora não mais.
— Você estava aproveitando um lugar novo. Eu também aproveitei. Conhecemos novas pessoas e acho que está tudo bem. — procurou cegamente uma das mãos da irmã e a apertou, gentilmente. — Talvez, se não tivéssemos nos permitido experimentar coisas novas, não teríamos conhecido pessoas incríveis ou vivido experiências maravilhosas. — Fez-se um silêncio e tomou coragem para continuar. — Você realmente gosta do conde Phillips, não gosta?
A mais nova sabia que a cara da irmã devia estar pegando fogo no momento. pigarreou e respondeu, a voz um pouco mais aguda que o normal.
— Travis é um homem muito gentil. Temos alguns gostos em comum. Ele também adora jogar xadrez, gosta da cidade, mas prefere o campo, e me trata muito bem. Sim, , eu gosto dele.
— E ele também parece gostar de você. Fico feliz. — sorriu, mas um pouco de tristeza passou por seu peito. Afastou-a rapidamente. — Viu? Você gostaria de fazer diferente e perder a chance de conhecê-lo?
— Mas eu poderia tê-lo conhecido e ainda sim ter continuado ao seu lado — replicou.
— Não sabemos, . Não temos como saber se, mudando algo, as coisas teriam dado certo assim. Então não se arrependa de ter conhecido alguém de quem você gosta.
sentiu a irmã abraçá-la por trás e deu uma risada fraca, fazendo carinho nos braços que a envolviam. Quando se separaram, parecia mais recomposta.
— Desde quando ficou tão sábia? — a mais velha brincou.
— Desde que aprendi a viver sozinha no mundo — dramatizou, tirando uma risada da irmã.
se levantou e levou a escova consigo. puxou uma mecha para frente, adorava sentir a maciez do cabelo depois de ser penteado com tanta delicadeza pela irmã.
— E aquela menina, Elizabeth Monroe? — questionou, ainda em pé, fechando a gaveta da penteadeira.
— O que tem ela?
— Você estava falando de pessoas novas que conheceu e valeram a pena. Isso a inclui?
se virou para novamente, abrindo um sorriso fraco e um pouco triste.
— Com certeza — ela respondeu —, foi uma amiga incrível para mim. Ela é muito divertida, sabia? Não tem medo de falar o que pensa, é honesta e me apoia. Você ia gostar dela e de Prissy, prima de . Embora não sejamos tão boas para você. — riu.
Mas não riu junto.
— O que quer dizer, ?
A mais nova ficou confusa e analisou o rosto da irmã iluminado pelas velas. Por que estava tão incomodada?
— Não se preocupe, eu estava só brincando.
— O que você quis dizer com não serem tão boas para mim?
suspirou. A irmã era uma pessoa gentil e perfeitinha, mas que sabia ser teimosa, embora nunca o demostrasse e guardasse aquele temperamento para . Aquele era um gene que ambas compartilhavam. Sabendo que não tinha escolha, a mais nova suspirou e começou a explicar:
— Ah, você sabe! Você é tão perfeita, . A garota que qualquer um desejaria ser. É linda, delicada, gentil, conhece todas as regras da sociedade, encanta a qualquer um, até mesmo lady Pency! Conquistou um conde e parece uma princesa de tão amável. Eu sou a esquisita que faz a própria tia odiá-la, que consegue se machucar toda semana, que fala sozinha e assusta os criados. Ótimo, não? — riu novamente, mas dessa vez com menos humor. Acabou sendo mais sincera do que deveria e expôs uma situação que sempre havia a incomodado.
, novamente, não riu. Na verdade, a observava com os olhos cerrados, como se pudesse desnudar sua alma. Sendo a pessoa que melhor a conhecia, não seria impossível.
— a irmã começou, lentamente —, é assim que você vê as coisas?
— Eu não vejo as coisas desse jeito, isso é como elas são. Ou vai dizer que não é verdade?
— Mas isso não é verdade. Eu não sou perfeita!
! — riu de nervoso, um pouco irritada com a incredulidade daquela frase. — Mas é claro que é! Você nunca teve um problema, todos te adoram, você é a perfeita debutante, já conquistando uma nova sociedade em um único dia.
— É claro que eu tenho meus problemas — comentou, baixinho.
— Sim, eu sei, mas você não tem problemas com os outros, entende? Você é maravilhosa!
— E talvez esse seja o problema — replicou.
— Ser maravilhosa? Puxa, eu bem que queria esse problema!
, pare por um segundo e me ouça!
A mais nova se surpreendeu. nunca levantava a voz para qualquer um, nem mesmo para ela, com quem tinha tanta intimidade. Emudecida pelo choque, apenas observou , que estava ofegante.
— Eu posso ser a pessoa bem-educada que você descreveu. Mas o que fica no fim do dia? Vocês lembram da perfeitamente enquadrada ?
, é claro que...
— Por favor, , me deixe falar — a mais velha interrompeu. — Eu sei que você acha que todos me adoram, mas, de verdade, quem me conhece? Quem lembra de mim quando não tenho nenhum traço marcante além de ser “perfeitinha’? — suspirou, se jogando na cama novamente. — Todos me elogiam, mas pelo quê? Por me segurar e cumprir meu papel? Você é tão genuína, tão única. Todos comentam de sua espontaneidade, de sua risada, de sua forma de aproveitar os momentos. Você é linda, , e também é educada. Mas não tem medo de não ser aceita por quem é.
fechou os olhos e a irmã se lançou ao seu lado, se esticando pelo colchão.
— Quem me dera isso fosse coragem — comentou —, quando, na verdade, eu só finjo não me importar porque já percebi que, se eu tento fazer tudo certo, eu com certeza farei algo errado. Não importa o quanto eu tente, eu estrago tudo. Então eu só parei de tentar.
— E, mesmo assim, você é encantadora.
— Só nunca tão encantadora quanto a minha irmã — disse, suspirando em seguida.
— A irmã que queria ser como você.
As duas encararam o teto, uma do lado da outra, diversos pensamentos percorrendo suas cabeças, mas, no quarto, apenas o barulho do crepitar da chama da vela podia ser escutado. De repente, soltou uma risada fraca, que mais parecia um tilintar de tão graciosa.
— Quem diria. Todos esses anos, eu te invejando, enquanto você não se achava boa para mim. É aquele velho ditado de que a grama do vizinho é mais verde — a mais velha comentou.
— Eu não quero que você ache que é uma pessoa chata ou desinteressante, , ainda incomodada com aquele assunto, colocou. — Você é incrível, gentil e legal. Não é à toa que o Conde se apaixonou por você.
virou a cabeça na direção da irmã, que sorria olhando para o teto. Estava realmente apaixonada. A mesma pontada incômoda voltou ao peito da mais nova, que voltou a encarar o nada.
provavelmente sentiu um estranhamento na mais nova e se virou para ela:
, posso te perguntar uma coisa?
— Claro — ela respondeu na mesma hora. Confiava na irmã para contar qualquer coisa, embora estivesse curiosa com o que ela falaria.
— O que exatamente aconteceu entre você e Gilbert Blythe?
Um bolo na garganta impediu de falar qualquer coisa. Por mais que confiasse na irmã, o que falaria? Se sentia constrangida com tudo o que tinha acontecido desde a última vez. E isso porque a irmã nem sequer sabia sobre Anne. Ah, como pareceria boba se contasse tudo!
Percebendo o desconforto da mais nova, voltou a falar:
— Não precisa me contar, se não quiser...
— Tudo bem, eu conto — falou, repentinamente, surpreendendo até a si própria.
Respirou fundo e se virou novamente para a irmã. Começou, receosa, a contar sobre o acidente, do qual a irmã se recordou, mas falou de outras coisas que a irmã não soube: a interação deles no baile, quando ele lhe deu carona para casa, a festa de aniversário da sobrinha dele, o aniversário de Ruby, o outro encontro no escritório, suas conversas com , o passado dele, a ideia de começar um emprego, a procura por ele...
Quando a garota terminou, recontando sobre o beijo, se virou, envergonhada de encarar a irmã depois de revelar o quanto talvez estivesse envolvida e como agira como uma idiota ao deixá-lo tocá-la (por mais que tenha desejado ardentemente aquilo).
Ela se surpreendeu ao sentir a mão da irmã em suas costas, a acariciando. Ficaram alguns minutos assim, até que suspirou e voltou a encarar .
— Ele não gosta de mim, . Por mais que fale que sim, eu sei que não gosta. Ela mesma me contou do quanto ele gosta de Anne. Devo ter sido só uma substituta conveniente.
Uma lágrima involuntária correu pelo rosto da mais nova.
— Ah, . — suspirou, abraçando-a. Sempre assumia o papel de mãe para com a mais nova quando a delas não estava por perto, como no momento. — Pode ser que ele goste, pode ser que não. Desculpe-me por ter sido tão grosseira no dia em que tia Lucila a deixou de castigo. Eu estava com medo por você, medo de você sofrer qualquer consequência social por causa disso. E se você fosse taxada como impura, se espalhassem por aí que você estava beijando um homem que não a pediu em casamento? Já pensou em como isso afetaria a mamãe?
baixou a cabeça, sentindo mais uma vez a culpa dividir espaço em seu coração com a mágoa.
— Mas chega de broncas — a mais velha disse. — Acho que, quando tudo isso passar, vocês devem conversar. Ele não me parece má pessoa. Quem sabe realmente tenha se interessado por você? Seria difícil não ter acontecido.
— Eu duvido.
segurou o rosto da irmã com firmeza.
— Ouça, nunca diminua a si mesma. Por tudo o que você me contou, esse garoto que deve correr atrás de você caso acorde e perceba que te perder é uma besteira gigante. Então, não se preocupe, ok? Se ele não fizer isso, a perda será dele. Terão outros muito melhores que vão querer te desposar.
Por mais que não concordasse plenamente, ficou grata por todo o apoio da irmã. Dormiram, mais uma vez, juntas, apoiando uma à outra, especialmente após aquela noite de reflexões e sentimentos compartilhados. Ambas se sentiam pensativas, mas com o coração mais leve depois de terem conversado.
Já fazia mais de um mês que Lady Pency não estava em casa. Havia viajado para Londres e apenas deixado uma carta dizendo que resolveria assuntos com o velho lorde Phillips. Todos sabiam que se tratava do noivado de e a menina recuperou um pouco de seu brilho com a notícia.
A tia não se despediu ao partir. Estava bem afastada das meninas desde o falecimento do pai delas. achava que era uma forma esquisita de demonstrar apoio e respeito, mas não podia reclamar.
Infelizmente para ela, a saída da tia não significava a volta da liberdade da mais nova. Todos os criados continuavam ameaçados se permitissem sua saída ou qualquer comunicação com o meio externo. Porém ao menos estava livre do medo de encontrar a tia pela casa.
Mais uma semana se passou do mesmo modo. As irmãs ficavam juntas quase o tempo todo, faziam companhia uma à outra, sentiam o luto que, vez ou outra, voltava mais intenso, e dormiam juntas para não se separarem.
Até que teve que ir ao vilarejo comprar um novo vestido. Por mais que tivesse prolongado, sabia que provavelmente receberia a visita de Travis e precisava de uma peça especial para tal. entendia e, por mais que não desejasse ficar sozinha, encorajou a irmã a sair de casa, com suas vestes pretas. Aquele seria um assunto muito comentado: por que estaria usando roupas pretas? Pela imaginação local e o confinamento de , eram capazes de achar que estava chorando a morte da irmã. Um sorriso sarcástico se firmou no rosto da mais nova com a ideia.
Passou o dia vagando pela casa, perdida no que fazer. Não sentia gosto por ler, ou sequer sair para os jardins que tanto adorava. Nada parecia ter muito sentido, simplesmente por não sentir ânimo. Nenhuma ideia parecia alegrar sua cabeça.
Durante seu andar errante, acabou reencontrando, no fundo do grande salão, a pequena porta que a levava pelo corredor secreto. Relembrou de quantos dias passou ali, se imaginando com Gilbert, tentando lutar contra seus próprios sentimentos: coisa que ainda fazia, se fosse sincera consigo mesma. Entrou no quarto dos porta-retratos, relembrando de cada foto que havia decorado do casal desconhecido que enfeitava o local. Eram tão jovens e apaixonados. A sua favorita era a da jovem mulher sentada à frente de um piano, os olhos fechados, entregue à música, enquanto o homem a encarava com completa adoração. sorriu, triste, e pensou em como sentia falta de tocar. Talvez aquilo fosse a única coisa que gostaria de fazer naquele período de luto.
Saiu da porta e parou de frente para o antigo motivo de sua angústia e curiosidade: o que estava por trás da antiga porta de madeira. Porém, analisando melhor, percebeu que a porta não estava alinhada com o portal e revelava uma fresta. prendeu a respiração: a porta estava aberta!
Não sabia exatamente o que sentir diante daquele fato. Como seria seu interior? E se decepcionasse todas as horas de imaginação dedicadas a criar uma imagem para o local? Seria melhor manter o mistério ou abri-la, por fim?
era muito curiosa para, mesmo se decepcionando, não conseguir abrir a porta. Respirou fundo e prensou a mão na porta de madeira, sentindo-a se afastar aos poucos...
— Lady Pency retornou à casa! — escutou o velho mordomo gritar. — Jones, pegue um cavalo e vá à Charlottetown: vossa lady precisa de um médico!
Lady Pency estava de volta?, a jovem pensou. E precisa de um médico?
A porta foi esquecida e correu rapidamente para o grande salão, atravessando até o hall principal, onde encontrou todos os criados se movimentando.
— O que está acontecendo? — indagou, mas todos pareceram ocupados demais para responder. Atordoada, foi atrás do mordomo. — Senhor, o que houve? Por que lady Pency precisa de um médico?
O mordomo a encarou, rapidamente, pronto para ignorá-la, mas parando ao ver de quem se tratava. Então, pigarreou e se voltou para ela:
— Lamento informar que lady Pency começou a sentir um mal-estar na carruagem durante sua volta para a mansão. Não temos mais informações e devemos esperar um médico analisá-la.
Um médico? O coração de se acelerou quando sua mente formou a imagem de Gilbert. Ela tratou de afastar a imagem. Por mais que não gostasse da tia, não era um monstro. Não queria vê-la doente. Era uma cena, inclusive, estranha de se conceber, pois a mulher parecia indestrutível e imortal, quase como um ser antigo que habitava o mundo desde sua criação.
chegou antes do médico e teve que ser a responsável por contar-lhe as notícias. A irmã ficou visivelmente abalada. e ficaram abraçadas, sentadas na escada do hall, aguardando o Doutor Raynes.
Uma hora mais tarde, o médico chegou à residência e foi diretamente para o quarto privado de lady Pency. As irmãs aguardavam, apoiando uma à outra. Estavam cansadas das doenças do mundo que abatiam àqueles a sua volta, até mesmo os que menos gostava, no caso de .
Esperaram mais meia hora o diagnóstico do médico.
— Pode ser velhice — disse, tentando tranquilizar a irmã, sempre a irmã bondosa e responsável que tentaria segurar seus próprios sentimentos pela mais nova. — Pode ser uma gripe. Pode ser só enjoo. Vamos aguardar.
Quando o Doutor Raynes desceu as escadas, de volta para o hall, no entanto, não trazia um sorriso muito tranquilizante no rosto.
— Não posso dizer com certeza, mas o caso parece muito semelhante à tuberculose. Os sintomas ainda são muito iniciais, então posso estar enganado, mas o melhor agora é que poucos fiquem na casa, que liberem todos os criados possíveis. E vocês duas devem ir para outro lugar.
— Para onde? — questionou, os olhos cheios de lágrimas. — Nossa mãe não pode nos receber porque também está infectada. Esse era nosso lar provisório.
— Sinto muito, senhoritas — o médico se encaminhou para a entrada, recolocando o chapéu. — Deixo a decisão a cargo de vocês. Os criados já foram informados. O mordomo se voluntariou a continuar com a cozinheira Linnet e a camareira Silvia. Os outros serão dispensados, ordem da Lady. — O homem abriu a porta e inclinou a cabeça com respeito. — Virei amanhã para conferir o estado dela. Rezo a Deus que não seja tuberculose. Boa noite.
A porta se fechou e as duas irmãs foram deixadas sozinhas no grande hall.
— Ah, , o que iremos fazer? — O choro já escorria na face de .
— Meninas, não se apavorem. — As duas se viraram ao escutar a voz da senhora Mary, a governanta da casa. — Minha casa não é muito grande, mas abrigaria com prazer as duas, pelo menos até termos um diagnóstico confirmado e pudermos buscar outro local melhor.
— Oh, Mary, seremos eternamente gratas por sua ajuda — disse, abraçando-a.
— Mary, as regras de lady Pency ainda são válidas? Estou proibida de me comunicar com o mundo externo? — questionou, as lágrimas diminuindo e uma ideia surgindo na cabeça.
— Oh, , não é hora de pensar nisso — brigou com a irmã gentilmente.
— Não, , você não entendeu. Se eu puder escrever uma carta, posso pedir estadia na casa de . Sei que ela não recusaria, mas preciso pedir a ela. E também explicar meu tempo sem enviar notícias. Não podemos abusar da senhora Mary.
— Não é abuso nenhum, meninas, seria uma honra — a governanta afirmou. — Mas acredito que seria bom pensarem em uma outra alternativa. É claro que pode enviar uma carta. Até lady Pency entenderia essa situação.
assentiu, efusiva, e correu escada acima para seu quarto. Revirou as gavetas atrás do papel e pena que estavam há semanas inutilizados. A carta saiu um pouco rasurada pela pressa e sua caligrafia não era das melhores, mas a emoção de poder falar com a amiga compensava tudo isso.

“Querida ,
Acredito que esteja surpresa por receber esta carta de minha autoria. Primeiro, devo-lhe desculpas por minha ausência. Não tenho muito tempo e realmente espero poder vê-la logo (entrarei em detalhes sobre isso em breve), mas, em resumo, lady Pency me proibiu de sair de casa ou me comunicar com qualquer um por causa de um evento acidental, um pequeno escândalo (não se preocupe, está tudo resolvido, exceto em meu coração).
Fico feliz de poder, enfim, contatá-la, embora isso só seja possível pela situação lastimável em que nos encontrando. Após o falecimento de meu pai há três semanas, agora recebo a notícia de que lady Pency possa estar com tuberculose. Teremos que, mais uma vez, nos realocarmos. A gentil governanta nos hospedará nos próximos dias, mas não queremos incomodá-la e sinto tanto a sua falta. Espero não ser deselegante de minha parte, mas, caso vocês possam receber minha irmã e eu, seremos eternamente gratas e os recompensaremos, obviamente.
Sinto imensas saudades suas. Me desculpa novamente por sumir, senti tanta a sua falta que mal pude ficar bem.
Com todo amor,


— Entregue para um criado levar ao correio antes que seja dispensado — disse ao mordomo após envelopar a mensagem.
Tinha medo de que interpretasse que ela apenas estava se aproveitando da situação, quando realmente sentia uma falta imensa da amiga. No entanto, apenas respirou fundo e deixou a carta ir. Não tinha mais o que fazer até obter uma resposta.
e fizeram rapidamente as malas e as irmãs sentiram um deja vu de quando estavam saindo de casa pela primeira vez. Em seguida, entraram na carruagem com a senhora Mary. Um dos cocheiros que morava perto as levou até a casa da governanta.
Chegaram à uma região mais simples da cidade, mas ainda bem arrumada. Era uma área que muitos criados de boas famílias se abrigavam. Um pouco mais adentro, eles pararam a carruagem na frente de uma adorável casinha de tijolos. As irmãs desceram da carruagem e levaram as bagagens para dentro, enquanto o cocheiro deixava o transporte em um local próximo.
As meninas entraram na casa, que tinha um andar com uma pequena cozinha embutida em uma sala de jantar e dois quartos, com um lavatório do lado de fora. As meninas ficaram com o quarto maior, que era de Mary, e a governanta se mudou para o quarto de visitas.
— Senhoritas, não posso oferecer muito, mas sintam-se em casa — a mulher disse, parecendo constrangida.
— Muito obrigada, Mary, nunca poderemos ser gratas o suficiente — disse, segurando a mão da mulher.
Ambas se instalaram no quarto. As três viveram durante quatro dias juntas, compartilhando a mesa de refeições, dividindo as tarefas (por mais que Mary tivesse insistido que elas não precisavam), mas no geral, ficavam quietas. ainda se esforçava para manter um clima agradável e tentava ser educada, mas estava uma pilha de nervos. Geralmente, Mary falava sobre sua vida sozinha, mas desistia depois de um tempo de silêncio. Receberam muitas visitas durante aqueles dias de vizinhos curiosos com as visitas tão bem-criadas por aquelas regiões.
Mas, enfim, a carta de resposta de chegou. ficou muito nervosa para abrir de cara. E se aquele fosse o fim de sua amizade? Mas seu bloqueio durou alguns poucos milésimos de segundos, porque a curiosidade venceu e logo pegou seu abridor de cartas, despejando o conteúdo em sua cama emprestada, desdobrando o pergaminho.

,
Primeiro, eu queria dizer que sinto muito pela perda do seu pai. Queria ter estado aí para te abraçar, só imagino quão doído foi para você.
Recentemente, encontrei Gilbert Blythe. Juntando as peças, acho que entendo o que você passou, só precisei ligar os pontos.
Queria dizer que estou indignada por você achar que precisava me pedir desculpas. É claro que entendo o que você passou e nem precisa me perguntar se pode vir para cá ou não. Falei com mamãe e ela ficou emocionada com a possibilidade de receber você e sua irmã aqui em casa.
Estaremos esperando vocês por aqui a partir do dia 10 de outubro. Venham logo! Precisamos conversar sobre várias coisas URGENTEMENTE!
Estou morrendo de saudade.
De todo o meu coração,


releu a carta três vezes, captando todos os detalhes e nuances, e rompeu em uma gargalhada feliz. ainda era sua melhor amiga e não a odiava! O alívio se espalhou por cada centímetro do seu corpo e ela se jogou na cama, braços e pernas espalhados em júbilo.
Então, se levantou rapidamente e releu a carta. “Estaremos esperando vocês por aqui a partir do dia 10 de outubro”. pegou o calendário de papel e conferiu o que passou por sua cabeça: era dia 12 de outubro. Elas já estavam a esperando. Por mais agradável e gentil que Mary fosse, ela podia já ver a amiga.
saiu correndo pela casa, procurando a irmã pela pequena propriedade. A encontrou do lado de fora, observando o movimento da cidade.
! ! — exclamou, acenando empolgada.
A irmã se virou para trás, assustada com a excitação tão discrepante do seu comportamento anterior, ansioso e para baixo.
— O que foi, ?
sorriu abertamente e pegou a mão da irmã, levando-a para dentro.
— Arrume suas malas. Você irá conhecer minha melhor amiga!

O outono já mudava significativamente o clima e Gilbert estava mais perdido do que nunca. O mês acabara há duas semanas e ele tinha que pagar o aluguel, aluguel este que ainda não havia recebido dinheiro o suficiente para pagar. E nem sabia se valeria a pena, pois o Sr. Pye já havia dito que, ao final do ano, o preço se tornaria muito mais alto e lhe deu apenas duas opções: largar o consultório ou comprá-lo de vez, o que ele só conseguiria se vendesse sua fazenda. A fazenda em que o pai e Mary descansavam. A única vez em que partiu foi porque sabia que tinha para onde retornar, para sua casa. Como ficaria, sabendo que nunca mais poderia estar ali se a vendesse? Mas como poderia também abrir mão dos seus sonhos?
Ele precisava de um conselho amigo, mas não queria incomodar Bash. Ele estava muito bem de vida, recém-casado e com uma filha pequena, guardando o que sobrava para o futuro da pequena Delphi, mas Gilbert sabia que ele não mediria esforços para ajudá-lo, mesmo que isso pudesse atrapalhá-los.
Por isso, quando Bash foi visitá-lo no mesmo dia, pela parte da manhã, Gilbert se esforçou para colocar um sorriso no rosto e ajudá-lo a esvaziar as macieiras. O mês de outubro seria a melhor época de maçãs. Elijah estava de férias naquele dia, então era função dos dois assumirem.
O trabalho, pelo menos, abriu caminho para assuntos mais tranquilos de serem discutidos, como as vendas e lucros que estavam tendo, as áreas mais prósperas da propriedade e, claro, sendo Sebastian ao seu lado, como Gilbert era desengonçado e tinha as mãos macias demais para o trabalho duro.
Naquele ano, as maçãs estavam muito bonitas e isso encheu Gilbert com um pouco de esperança de conseguir pagar o aluguel do mês e adiar a sua decisão sobre o consultório para final de outubro. Parecia que adiar a tomada de decisões estava se tornando algo frequente para ele.
Depois da longa manhã, Gilbert e Bash almoçaram uma bela refeição que havia sido deixada pela sra. Lacroix, a mãe de Sebastian. Os anos passavam e ela ainda sentia dentro de si a necessidade de agradá-lo. Ao menos, agora não como a serviçal que ela, no início, pensou ser, e um pouco mais como uma tia querida.
O almoço foi interrompido quando Blythe escutou o carteiro chamando-o do portão.
Voltou para a cozinha com as entregas recebidas: um jornal periódico da cidade, uma carta de Louis, um colega da faculdade que às vezes ainda mantinha contato com ele, além de uma carta de Diana Barry e outra de Monroe.
As mãos de Gilbert tremeram levemente. A matemática sempre foi a única área em que Gilbert conseguiu superar Anne, ele realmente tinha um excelente raciocínio lógico. E aquilo para ele havia praticamente se tornado um problema de matemática. Afinal, estava para Anne assim como estava para Diana. Relações de equivalência. Ou algo assim. E aquilo lhe lembrava escolhas, escolhas que ele estava se esforçando bastante para fugir.
Ignorando-as no momento, abriu a carta de Louis.
— Caramba, Louis está trabalhando na linha de frente em um hospital europeu. Aparentemente, está havendo um surto de gripes e doenças até mesmo desconhecidas! — Gilbert, por um momento, esqueceu das outras duas cartas e se permitiu ficar deslumbrado e apavorado ao mesmo tempo. Muitas pessoas estavam morrendo, mas ele mantinha esperança de que médicos como Louis poderiam fazer descobertas que salvariam essas vidas e mudariam para sempre o futuro.
— Ainda bem que minha lua de mel foi a meses atrás — Bash comentou, balançando a cabeça sombriamente. Com certeza a ideia de perder novamente o amor o apavorava.
Gilbert passou sua atenção, então, para o periódico de Avonlea. Na verdade, era a única coisa que restava entre ele e a escolha de qual carta ler primeiro.
— Ok, o que está havendo aqui, Blythe? — Bash perguntou, apoiando as mãos na mesa e olhando para o garoto como se suspeitasse de algo.
— Como assim? — Gilbert disse, virando a página. Já não se recordava nada do parágrafo anterior, o que era bom, porque assim poderia relê-lo.
Gilbert devia ter previsto o tapa.
— Ai!
— Você sempre joga essa porcaria de periódico no lixo, onde as opiniões sobre qual grama esteve cortada de forma mais rente devem mesmo ficar. Nunca se dá ao trabalho de ler a primeira página, quem dirá tudo! Acha que não sei que tem algo errado?
Blythe engoliu em seco, sabendo que era impossível enganar o melhor amigo, mas não se sentindo muito disposto a pensar na situação. Seu olhar recaiu por um segundo nas cartas, antes de se bronquear mentalmente e voltar para o periódico.
Mas Bash foi rápido e percebeu seu olhar, e logo as cartas estavam em sua mão.
— Diana Barry? É por isso que você está enrolando nesse maldito periódico? Eu já devia ter imaginado. — Sebastian, então, olhou para a outra carta e sua face assumiu uma expressão de confusão. — Monroe? Quem é?
As bochechas de Gilbert ficaram levemente coradas. Ele queria evitar ao máximo o assunto e agora havia caído no centro dele.
é… a melhor amiga de .
O menino podia enxergar as engrenagens no cérebro do amigo girando enquanto ele juntava as peças, dando forma à situação.

? ? A menina que você beijou e sumiu? — Ele subitamente olhou para as cartas. — As duas melhores amigas? — Eu me encontrei com recentemente — Gilbert admitiu, sabendo que precisaria contar ao amigo sobre o acontecido no bar, há duas semanas. Guardou aquilo para si como se o ajudasse a fingir que nada havia acontecido. — No encontro de turma dos meus colegas de escola, ela é prima dos Andrews. Enfim, depois que e eu nos beijamos, ela desapareceu completamente. ficou preocupada e veio me perguntar se eu tinha notícias. Nós acabamos conversando sobre o que aconteceu e… ela me deu um alerta.
Sebastian ergueu uma sobrancelha.
— Um alerta?
— Como minha vida é um entretenimento público para essa vila, ela sabia sobre a Anne. E me pediu para só me envolver com a se eu tivesse certeza absoluta do que sentia, para não envolvê-la nos meus problemas. Ela… deixou claro que eu deveria escolher.
Sebastian não riu nem o chamou de idiota. Ele olhou o amigo nos olhos, como se procurasse entender o que ele estava sentindo. Provavelmente, só encontrou um olhar desesperado, ansioso e confuso. Bash, então, voltou os olhos para as cartas.
— Escolher, é?
— Não sei se estou pronto para escolher. Não sei se conheço o suficiente para isso, ou se realmente posso me entregar para alguém. Eu não te contei porque, como é óbvio, estou tentando adiar tudo isso. Mas parece que as decisões ainda me chamam.
— Escolher entre as cartas das melhores amigas seria como escolher entre elas — disse, como se estivesse entendendo a lógica do amigo.
— Exatamente — Gilbert suspirou, derrotado.
— Blythe, você é um tremendo idiota.
Gilbert se sobressaltou na cadeira. Depois de todos os olhares compreensivos que o amigo estava enviando, certamente não esperava isso.
— Entendo o lado da tal de que você realmente não pode se envolver se não estiver pronto para entrar de cabeça, que a pobre garota não merece, mas você complica tudo demais! Essas cartas não são escolhas do seu coração, são escolhas de prioridade momentânea. Você nem sabe se essas cartas são sobre as garotas, de qualquer jeito.
— Sobre o que mais elas me escreveriam?
— Sei lá, convites para festas e eventos! Você conhece essas besteiras melhor do que eu.
Sebastian, como sempre, tinha razão, mas o coração de Gilbert ainda estava pressionado no peito. O amigo suspirou de novo.
— Ouça, Gilbert. Essas cartas não são sua escolha final. Elas são só cartas. E você não vai ter um dia de um grande veredito em que algum juiz engomadinho vai perguntar quem você deseja e, logo, você deve se casar imediatamente. Tá mais que na hora de você entender que Anne não vai voltar, mas você não precisa se envolver com ninguém também. Você pode levar tudo com calma com a e, ainda assim, pode depois mudar de ideia. Não se envolva demais se não estiver pronto, mas também não precisa evitar se envolver completamente só porque você teve alguém no passado. — Bash suspirou e seu olhar já não estava mais ali. Na verdade, Gilbert sabia bem onde ele tinha ido parar: em sua ex esposa, Mary. — Nunca esquecemos de verdade as pessoas que amamos. Mas, graças a Deus, nós não amamos somente uma vez. Anne pode ainda ficar no seu coração, mas não significa que você não vai ter espaço suficiente para outra pessoa um dia. E, aos poucos, uma nova pessoa abre cada vez mais espaço, até a pessoa antiga se tornar uma memória carinhosa, alguém que uma versão nossa já amou.
Gilbert segurou a mão do amigo, em um gesto confortante. Sabia como tinha sido difícil para Bash seguir em frente da primeira mulher que amou e se envolveu. E a situação dele era ainda mais triste porque ele havia a perdido para sempre. Já Gilbert poderia com o tempo reaprender a amar Anne apenas como uma amiga. Ele suspirou. Tudo parecia tão complicado, mas a conversa havia lhe dado um pouco de esperança.
— Desde quando ficou tão sábio? — Gilbert o provocou, tentando trazer um pouco de leveza para o momento.
Funcionou, porque Bash abriu um sorriso convencido.
— Desde quando eu não sou?
E, então, estendeu as cartas de volta para Gilbert. O garoto as segurou, a de na mão esquerda e a de Diana na direita.
— Não é uma escolha. São só cartas — Bash o lembrou.
Ele, então, respirou fundo e abriu a de Diana, que tinha mais chances de ser apenas sobre alguma convenção social.

Caro Gilbert,

Como vai? Talvez minha carta lhe seja uma surpresa. Espero que uma agradável. Nos vimos há poucos dias e fico sempre contente em sua companhia, mas temo que o foco dessa carta não seja eu.
Anne irá retornar no dia 15 de outubro para reencontrar Marília e Matthew, além de distribuir os seus convites de casamento. Ela decidiu nesse dia fazer um pequeno reencontro com todos os amigos locais aqui em casa, às cinco da tarde, e me pediu para convidá-los. Você, é claro, está na lista.
Não sei como se sente hoje em dia. Não cabe a mim perguntar. Gostaria apenas de estender o convite. Anne ficaria muito feliz com a sua companhia, mas quero que saiba que entenderá se você não for, afinal, você é um médico muito ocupado. Sinta-se à vontade.

Cordialmente,
Sua amiga, Diana Barry.

Gilbert terminou de ler e reler a carta com o coração na boca. Ele não tinha o que dizer sobre ela. 15 de outubro era o dia atual. Anne estava em Avonlea. Anne estava ali, perto dele. Com seus cabelos ruivos, seu temperamento indomável, sua sede de justiça, sua mente brilhante, sua risada contagiante. Uma princesa guerreira. Nem tudo aquilo seria capaz de descrevê-la.
Sua Anne. Ou melhor, a Anne que não era sua e tinha apenas sido por um breve momento. Ele não sabia como reagir com a sua proximidade.
Vendo o estado de choque do amigo, Sebastian tomou a carta de suas mãos e começou a ler. Suas sobrancelhas se ergueram em completa surpresa e então olhou para Gilbert, preocupado.
— Ela está aqui?!
Blythe engoliu em seco, mais nervoso do que nunca. Ele tinha um pressentimento sobre a carta, mas nada poderia chegar perto dessa notícia. Parte de si queria se levantar imediatamente para vê-la.
Mas uma parte maior, com o sentimento um pouco adormecido pela distância e que se lembrava da dor e constrangimento que a garota havia lhe causado, o fez ficar sentado em sua cozinha na presença de Sebastian.
— Blythe? O que você vai fazer?
Sem responder Bash, ele apenas tratou de abrir a última carta. A carta de Monroe.

Caro Gilbert Blythe,

Devo dizer que nossas teorias estavam certas. Lady Pency esteve mantendo afastada de tudo e de todos, impedindo-a de sair ou mandar correspondências, mesmo durante o período em que as perderam o pai.
Como eu sei disso? Aparentemente, Lady Pency está doente há quase uma semana. Gripe, aparentemente, e, com o risco de ser contagiosa, todos se retiraram da mansão. Já deve imaginar quem está na minha presença…
Não sei se é certo eu escrever e te notificar disso, porque eu ainda acho que você tem muita coisa para corrigir, mas isso não se trata das suas questões amorosas. acabou de perder o pai. Por mais que minha amiga não goste da própria tia, por favor, não a deixe perder mais alguém.
Minha casa está de portas abertas para você quando puder. Por enquanto.

.


Gilbert engoliu em seco ao ler a segunda carta, seu coração mais acelerado do que nunca. Ele deixou-a na mesa (sendo rapidamente capturada pelas mãos do curioso Sebastian) e buscou um copo de água, procurando se acalmar.
— Puxa, essa menina não está pra brincadeira — Bash tentou zombar. Gilbert tomou mais um longo gole. — Então parece que realmente se tornou uma escolha, não?
Blythe pensou sobre o que o amigo disse. Sim, era uma escolha aos olhos de Bash, mas não aos olhos dele. Aquilo era algo com o qual ele precisava lidar. Algo que ele jurou fazer ao terminar a faculdade.
— Não é uma escolha. Eu sou um médico.
Gilbert apoiou o copo na pia, sentindo-se um pouco mais seguro. Naquilo, ele tinha maior segurança e a desculpa perfeita para não escolher.
— Obrigado por tudo, Bash. Fique à vontade, mas estou partindo já. Tenho um caso urgente para tratar.


Gilbert parou diante da casa marrom e se lembrou quando, a meses atrás, deu carona para na carruagem alugada de Billy porque ela havia se esquecido de providenciar um modo de voltar para casa. Um pequeno sorriso se abriu na sua boca. Antes do beijo, ele achava a companhia dela confortável. E agora? Seu histórico com situações parecidas não era das melhores.
Mas ele não estava ali para se preocupar com isso. Era um médico e ia ajudar a familiar de uma doente. Com isso em mente, bateu à porta.
A cozinheira a abriu, olhando-o de cima a baixo.
— Pois não?
Ele engoliu em seco, um pouco ansioso.
— Meu nome é Gilbert Blythe, sou médico. Vim a pedido da senhorita Monroe.
A mulher se afastou um pouco do batente e, colocando a cabeça para dentro da casa, chamou pela garota.
Gilbert a viu descer as escadas, apressada. Já na porta, o encarou de frente. Mesmo baixa, a garota passava um olhar apavorante.
— Gilbert Blythe. Vejo que recebeu minha carta.
— Olá, . Estou aqui para ajudar como puder.
Ela assentiu com a cabeça e fez um gesto para que ele entrasse. A casa era bem arrumada e espaçosa o suficiente para uma família bem de vida de uma cidade pequena.
apontou para a escada.
— Ela está lá em cima com a irmã. Vamos?
Por um segundo, sua mão tremeu e ele engoliu em seco. Mas afastou todas essas sensações e começou a automaticamente apoiar seus pés nos degraus, um de cada vez. Ele podia sentir o olhar analítico de nas suas costas.
— Então, andou pensando na nossa última conversa?
Ah, e como estava pensando.
— Não seria justo da minha parte afirmar que já tenho minha resposta, embora tenha me dedicado bastante a refletir sobre o assunto. Mas não estou aqui para isso.
— Não, claro que não.
Ele não sabia se ela estava sendo sarcástica.
No topo da escada, ele começou a escutar uma melodia tocar, algo que fez os pelos em seu braço se arrepiarem. Era uma música triste que parecia fazer o coração de Gilbert se afundar. Mesmo abafada, ele conseguia perceber que era muito bem tocada e de forma tão emocionante e carregada. A música parecia atraí-lo para onde estava.
foi guiando-o pelo corredor, e conforme percorriam o espaço, o volume da música aumentava. Agora, seu coração disparava por mais um motivo: estava prestes a ver de novo. E cada vez mais ele tinha a impressão de saber de onde a música vinha.
Quando lhe indicou a porta, ele engoliu em seco e a abriu, a música atingindo-o em cheio. Mas não foi apenas a música.
Ele identificou sentada ali perto, com um vestido cinza, bordando, mas seu olhar estava fixo em outra figura. Na que tocava piano, virada de costas para ele. Mas não havia dúvidas de quem era. Só restava encontrar uma pessoa. E havia algo diferente que atraía seu olhar para a garota, algo que o fez, mais do que tudo, reconhecê-la.
Seus cabelos castanhos brilhavam com a luz do sol que entrava no ambiente. Suas mãos se moviam com destreza sobre o instrumento, com um talento que ele nem sequer sonhava que ela possuía. As vestes lilases o deixavam triste, porque ele conhecia o significado: meio-luto. Já havia tempo que o pai dela falecera, mas nenhum tempo era suficiente para superar esse tipo de situação, ele bem entendia. Era uma das cenas mais lindas e simultaneamente tristes que ele já havia visto.
quebrou o encanto do momento.
— Temos visitas.
A música parou subitamente. foi a primeira a vê-lo e suas sobrancelhas se ergueram com leveza, a boca se abrindo em um perfeito O que ela tratou de corrigir com um sorriso.
— Doutor Blythe, que… surpresa.
O som brusco de diversas teclas sendo pressionadas chamou a atenção dos presentes.
se virou rapidamente para trás, mortificada, as mãos ainda apoiadas nas pobres teclas do piano. Sua boca se abriu diversas vezes, mas se fechou em seguida. Ela não conseguiu pronunciar nenhum som.
Não que Gilbert estivesse muito atrás. Nenhuma lembrança fazia jus aos olhos verdes cheios de vida que o encaravam, e ele estava completamente perdido neles. Algo esquisito parecia se revirar em seu estômago. Havia intensidade até demais naquele olhar trocado.
Um pigarro chamou atenção dos dois. Gilbert sentiu as bochechas corarem e relanceou o rosto de . Apesar de seus olhos arregalados, ela mantinha a cor natural. Ele sorriu fracamente. Ela realmente tinha razão quando dizia que nunca corava. Exceto naquele dia…
— O que está fazendo aqui, doutor Blythe? — foi educada ao perguntar, seus olhos seguindo do doutor até a irmã.
Ele pigarreou, tentando se recompor. Como podia conquistar clientes se não estava sendo profissional?
— Vim a pedido de para ajudá-las com sua tia.
O olhar de se virou rapidamente para , que passou a admirar seu quarto com muito interesse, praticamente ignorando a amiga.
Então, se virou para Gilbert, com o queixo bem erguido.
— Agradecemos sua boa vontade, mas Lady Pency já está acompanhada de um médico.
— E ele já conseguiu curá-la? — o garoto perguntou.
— Não, mas…
— Então eu ajudarei.
A irritação voltou ao rosto da garota, ela era transparente demais com suas emoções. Voltou a olhar , e dessa vez a amiga a encarou de volta, dando os ombros. revirou os olhos.
— Tudo bem, senhor médico sabe tudo, o que acha que pode fazer?
Ele se encolheu um pouco ao receber a irritação de , mas lembrou-se de manter-se firme e profissional.
— Vamos começar do princípio. Quando ela ficou doente? Quais os sintomas e diagnósticos?
revirou os olhos e voltou a ficar de costas para ele, tocando uma nova música no piano, esta bem mais raivosa do que a primeira. Diante da atitude da irmã, suspirou e se virou para Gilbert.
— Tudo começou quando nossa tia retornou da Europa, uma semana atrás. Ela já retornou sentindo-se mal e um médico foi chamado imediatamente. Disse que é uma gripe contagiosa, por isso fomos retiradas de lá.
Gilbert assentiu, vendo que as informações coincidiam com o que havia lhe dito na carta. Antes que ele pudesse fazer uma nova pergunta, colocou uma mão na frente da boca.
— Será que… Doutor, será que pode ter sido algo que eu e trouxemos de casa?
A música raivosa no piano parou e pareceu atenta.
— Não se preocupe, senhorita . Já faz mais de cinco meses de sua chegada, se algo fosse acontecer, se vocês estivessem carregando a doença, ela teria se manifestado em uma ou duas semanas desde a chegada. Não é, de forma alguma, algo que vocês trouxeram, e menos ainda culpa de vocês. Se realmente for uma gripe, e se ela estava voltando da Europa, creio que ela tenha pegado a doença lá. Surtos de gripes e várias outras doenças estão sendo relatadas na região.
— Mesmo assim, ela foi à Europa por minha causa, pela minha corte. Eu sou a culpada…
— Não fale isso, disse, virando-se na direção da irmã. — Lady Pency já ia para a Europa antes, ela havia dito.
— E não tinha como saber a situação — completou .
não retrucou, mas se manteve em silêncio. De repente, Gilbert se sentiu em um momento íntimo demais em que achava que não era bem-vindo. Ele pigarreou baixinho.
— Vocês têm notícias se mais alguém da casa já ficou doente até então?
As três garotas ergueram o olhar para ele.
— Não estamos mais lá para saber — respondeu.
— Mas Mary, a governanta, nos manda notícias diárias — comentou.
As garotas reviraram as próprias coisas, até encontrarem três cartas.
— Enquanto estávamos lá, ninguém se contaminou, e pelo que ela escreveu, continua assim, graças a Deus — informou.
— Estranho — Gilbert disse. — Uma doença contagiosa, diversos criados em contato e ninguém se contaminou? Seu retorno foi há uma semana, mas alguém já deveria ter manifestado algum sintoma. Será que a doença está sendo tão bem contida assim?
— O que isso significa? — perguntou.
— Significa que talvez Lady Pency não esteja apenas gripada. Talvez seja outra coisa. — A mente de Gilbert estava a mil. — Vamos precisar conversar com o médico que a está tratando. Ele melhor do que ninguém saberá sobre os sintomas do que ela está passando. Depois, precisamos comparar o que ele informar com algumas pesquisas. Procurar a doença que corresponde.
— Eu não sei o nome do médico. Poderíamos perguntar à Mary — disse.
A porta se abriu e uma moça jovem entrou no quarto.
— Senhorita Monroe, correspondência para a senhorita .
se levantou e buscou a carta para a irmã, que corou e sorriu ao segurá-la.
— É de Travis.
Gilbert estava familiarizado com o nome do conde, já havia comentado sobre ele e toda Avonlea sabia do envolvimento de com o nobre inglês. A mais velha abriu o envelope e se pôs a ler o conteúdo da carta.
— Travis está vindo me visitar. Essa carta é de quinze dias atrás. Aparentemente, Lady Pency o havia convidado para jantar, então ele embarcaria no dia 30 de setembro para chegar aqui hoje. Hoje! — começou a se abanar.
— Ele vai te pedir em casamento! — exclamou.
— Não haverá casamento nenhum se ele chegar à mansão Louborne e não me encontrar.
— Não se preocupe! — exclamou. — Falarei com mamãe. O receberemos aqui em casa, mamãe se sentirá muito importante de poder organizar um jantar para um conde.
, não queremos ser um fardo maior — disse.
— Pois não são fardo nenhum! Será uma grande honra, prometo. — Ela sorriu. — Sou contra o meu próprio casamento, mas isso não significa que eu seja contra o que os outros escolherem como felicidade.
— Ah, , você foi uma amiga tão boa para e agora está sendo uma amiga tão boa para mim! Obrigada!
— Espera. Mas como o conde saberá onde nos encontrar? — questionou.
— Vamos juntar um problema a outro. — olhou para Gilbert e as duas o olharam como se tivessem se esquecido da companhia do médico. ficou extremamente vermelha. — Gilbert precisa ir à mansão Louborne descobrir o nome do médico e como encontrá-lo. E também precisamos deixar os criados avisados sobre a chegada do conde, para que possam direcioná-lo para cá. Como Gilbert é um estranho, deve acompanhá-lo, porque já conhece a casa e os criados. O pedido será melhor atendido e a mensagem será tida como legítima.
— Eu?!
— Enquanto isso — a ignorou —, eu e iremos avisar minha mãe das notícias e arrumar as coisas por aqui. Há muito trabalho a ser feito para se receber um conde.
— Então deixe-me ajudar!
— Você não ouviu nada do que eu disse sobre o seu papel? Isso é urgente, , não sabemos se o conde já pode ter procurado a mansão ou não.
bufou e olhou para Gilbert. Naquela fração de segundo, ele pôde ler seus olhos. Ela estava irritada, mas acima de tudo, magoada. Magoada por causa dele.
Mas alguma coisa se suavizou em seu olhar. A garota suspirou.
— Tudo bem. — Ela buscou entre as suas coisas e ajeitou a bolsa, calçou um par de sapatos mais arrumado e colocou um chapéu. — Vamos logo.
E agarrou Gilbert pelo braço, arrastando-o para fora do quarto sem nem se despedir das outras duas garotas.
O caminho até a mansão foi silencioso, mas não o silêncio confortável que antes eles compartilhavam. estava com o cenho franzido, bufava alto como se quisesse explicitar o quão chateada e irritava estava, e se recusava a encarar Gilbert. O caminho de uma hora, na primeira vez, parecera durar quinze minutos, de tão tranquila havia sido a viagem. Com o clima carregado, Gilbert sentia que estava há dias sentado ali, esperando para chegar ao seu destino.
Não pôde deixar de suspirar quando finalmente avistou a mansão Louborne.
e Gilbert desceram da carruagem, mas não foram para a entrada principal. Rapidamente, explicou que eles não estavam recebendo ninguém dentro da mansão, pois era o local em que Lady Pency estava isolada. A menina, então, os guiou para a casa da governanta Mary.
Ao chegarem lá, bateu à porta.
— Já vou! — Eles escutaram uma voz ao longe, então, um minuto depois, a porta se abriu. — Senhorita ! Que agradável surpresa! Não sabia que iria passar por aqui ou teria arrumado melhor o ambiente. Entre, por favor! Ah, e quem é esse?
— O doutor Gilbert Blythe, Mary.
Pela cara da governanta, Gilbert soube que o seu nome não era uma novidade para ela, mas ela escondeu bem suas reações, então não sabia se havia escutado bem ou mal dele. Trabalhando para Lady Pency, ele apostaria na segunda opção.
Os dois se sentaram na pequena sala da governanta, que serviu chá para eles.
— A que devo a honra?
olhou para Gilbert, as sobrancelhas arqueadas, como se o convidasse a falar.
— Obrigado por nos receber, senhora Mary. Estamos aqui por dois motivos. Primeiramente, estou querendo trabalhar conjuntamente com o médico que vem tratando de Lady Pency para ajudá-lo a descobrir mais sobre a doença, em favor a uma família que me ajudou tanto. — bufou baixinho, mas Mary, bem treinada, fingiu não ouvir.
— Se é da vontade das jovens , serei grata em ajudá-lo. O nome do médico é doutor Lucian, bem renomado aqui na região de Cavendish. Ele não está aqui hoje.
— Acho que já ouvi seu nome, mas não o conheço.
— Escreverei o endereço do consultório dele para você. É um homem bem receptivo.
Mary buscou um papel e escreveu um endereço para Gilbert, que o guardou em seu paletó, agradecido.
— Agora o outro motivo. Creio ter escutado que eram dois, certo?
Dessa vez, Gilbert se virou para . Ele sentia que não era seu direito falar do cortejo da irmã de .
— Conde Phillips enviou uma carta para minha irmã. Parece que Lady Pency o convidou para um jantar aqui antes que a doença a acometesse. Ele chegará de viagem hoje e está vindo para a mansão Louborne.
— Mas não temos condições de recebê-lo! Não temos nem permissão médica para recebê-lo!
— Exatamente, Mary! Por isso, disse que poderíamos recebê-lo na casa dela, mas preciso da sua ajuda. Preciso que, quando ele chegar, você informe a ele dos acontecimentos e passe o endereço de . Mary, ele vai pedi-la em casamento, isso é óbvio.
— Eu não teria dúvidas, de acordo com o que vi no jantar que aqui foi oferecido há alguns meses — Mary concordou, assentindo com a cabeça.
— Podemos contar com você, Mary? Pelo futuro da minha irmã?
A governanta suspirou e se levantou, alisando a saia do vestido.
— Não temos tempo a perder, ele pode chegar a qualquer instante. Escreva-me o endereço que irei avisar alguns criados que moram aqui perto. Pedirei ajuda para vigiarmos a chegada do conde.
— Ah, Mary, não sei o que faríamos sem você! — se levantou, correndo para abraçar a governanta. — Muito obrigada!
— Não há de que, senhorita — Mary respondeu, sorrindo, surpresa com aquele contato.
fez o que lhe foi orientado e se despediu de Mary, agradecendo-a novamente. Gilbert também lhe dirigiu seus próprios agradecimentos, enquanto planejava procurar o médico no dia seguinte para ajudarem Lady Pency o mais rápido possível. Ele queria muito encontrar de novo aquela provocativa e sorridente, e não a triste e raivosa que agora o acompanhava na volta da carruagem.
Depois de meia hora mais uma vez naquele castigo de silêncio desconfortável, Gilbert não se conteve.
— Pode falar comigo, por favor? Estava muito preocupado com você nesses últimos dias. E… estava com saudades.
As palavras, ao invés de terem um efeito positivo, pareceram causar a reação contrária, porque se virou para ele como uma águia, rápida e feroz.
— Saudades? Me poupe! Foi o seu bom coração de médico que fez com que nos procurasse. — Gilbert pôde sentir a ironia por trás de suas palavras.
— Mas é claro que esse foi o principal motivo, afinal, você já perdeu seu pai e não quero que tenha que lidar com outra perda.
— Mas foi só isso, não é?
— Claro que não. , eu queria muito vê-la…
O olhar dela parecia dividido, dividido entre acreditar nele ou não. Aparentemente, ele não estava sendo muito convincente, porque ela desviou o olhar novamente, cruzando os braços e se soltando no assento da carruagem, irritada. Gilbert suspirou.
— Me desculpe por beijá-la e deixá-la na situação que deixei. Foi muita falta de educação da minha parte. Se eu pudesse, eu voltaria no tempo e mudaria tudo — ele disse, quase que implorando para que ela o perdoasse.
Mas agora o olhar que se voltou para ele foi triste.
— Mudaria, é?
Gilbert suspirou, sabendo que talvez não tivesse sido muito bom de sua parte deixar dizer aquilo, como se dissesse que não queria a ter beijado. Se ela soubesse como o bico que fazia quando o olhava irritada o deixava louco…
Mas ele não poderia beijá-la. Nem se ela ficasse bem com ele. Não agora.
Gilbert segurou uma das mãos dela, a surpreendendo.
, me perdoe. Eu não quis dizer que não gostaria de te beijar, só não queria te deixar mal. Sei que ficamos com muitas coisas em aberto naquele dia, mas, de forma egoísta, eu gostaria de te pedir compreensão. E um tempo. Por favor, seja minha amiga novamente até conseguirmos resolver a situação da sua tia. Vamos ser uma equipe. Depois, nós podemos nos sentar e conversar. Você pode reclamar, me xingar e falar tudo o que eu mereço ouvir. E nós decidiremos o que é melhor para nós. Mas depois. Só por agora, me perdoe.
estava com os olhos arregalados, olhos que iam de suas mãos juntas até encontrar o olhar dele. Gilbert podia senti-la baqueada, ainda mais dividida do que antes. Só precisava de um empurrão.
Ele beijou levemente a sua mão.
— Por favor, .
A face dela se suavizou.
— Gilbert Blythe, o seu charme deveria ser proibido em todo o Canadá.
O garoto riu e ela sorriu de volta, fazendo o coração dele balançar no peito.
— Isso significa que podemos ser amigos?
Ela revirou os olhos.
— Céus, Blythe. Sim, podemos ser amigos. E… obrigada por ajudar com a minha tia.
— Não há de quê. Sinto muito mesmo pelo seu pai, e sinto muito não ter estado com você para te ajudar nesse momento. Você sabe que eu faria de tudo para ajudá-la.
Ela abriu um sorriso um pouco mais triste, soltando a mão dele sutilmente, mas parecendo não querer soltá-la.
— Eu sei.
Horas mais tarde, depois de Gilbert ter deixado na casa de , depois de ele ter se despedido das três garotas, depois de passar em seu consultório para encontrar Jeannie e ajudá-la com mais uma consulta, depois de chegar em casa e jantar, Gilbert levou um susto.
Ele havia se esquecido de que, naquele dia, Anne Shirley havia estado na cidade. Que Anne Shirley tinha o convidado para encontrá-la e ele não havia ido.
Constatar isso fez com que sorrisse. Sentado na mesa de jantar, apesar de ter devorado a comida da sra. Lacroix, Gilbert se sentiu leve como não se sentia há anos.


Continua...


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Nota da autora: Olá! Obrigada por estar aqui comigo por mais um ano! Espero que esteja gostando da história, porque eu estou extremamente ansiosa. Não esqueça de deixar um comentário sobre o que está achando da história, suas teorias e o que você espera ver. Beijinhos! <3

Nota da beth: Ele esquecendo que a Anne estava na cidade foi absolutamente tudoooo, amo esse casal ainda não casal hahaha 💜

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