Capítulo 1
Woodsboro, Maryland.
— E aí, o que você acha?
parou o seu Jeep no estacionamento deserto do campus do colégio e olhou para a garota ao seu lado com os pés apoiados no banco do passageiro. Ela tirou os olhos do celular, o olhando, e ambos compartilharam um sorriso sapeca. Um vento mais forte adentrou, fazendo com que os cabelos vermelhos dela esvoaçassem e ele não conseguiu tirar os olhos desse acontecimento.
— Acho que vai ser incrível, .
O silêncio perdurou por alguns segundos entre os dois. Eles se olhavam e Aurora sentiu seu coração palpitar mais forte com a troca de olhares mais demorada. Foi abrir a boca ao ver se curvar e pegar o aparelho celular que se encontrava no painel do carro, no entanto, o celular caiu das mãos do rapaz no chão do automóvel, e ele se curvou um pouco mais para alcançá-lo no escuro dos seus pés.
Um barulho no vidro fez com que os dois se sobressaltassem e olhassem na direção de onde vinha aquele barulho. Os amigos de gargalharam ao conseguirem dar um susto nos dois, e o rapaz abriu o vidro enquanto negava com a cabeça em desaprovação ao comportamento deles.
— Que merda vocês dois tem na cabeça? — disparou, levemente irritado com o susto que havia tomado.
— Relaxa, . Você e a Aurora estavam fazendo algo de errado? — um deles falou, enquanto sorria maliciosamente para a garota, que revirou os seus olhos.
O rapaz engoliu seco antes de responder.
— Mais respeito! — acrescentou ele rapidamente. — O que vocês estão fazendo aqui?
Aquela noite era uma das últimas antes da volta às aulas e, consequentemente, aos dias mais chatos da sua vida, como chamava o colégio, mas algo em seu coração o dizia para aproveitar aquele ano como se fosse o último, já que, no próximo, ele estaria em uma faculdade, em uma outra cidade.
— Nós estávamos praticando os 500m na pista — o outro respondeu, enquanto sorria. — Mas já estamos indo, tá tarde.
se despediu dos seus amigos com um aceno rápido com a cabeça, os viu andar calmamente em direção a um dos carros que estava por ali no estacionamento e logo o automóvel desapareceu na noite. Nem notou que se encontrava sozinho no carro, então saiu, batendo a porta e vendo Aurora parada próxima ao porta-malas. Sorriu.
— Não liga pra eles. São uns idiotas — falou, ao abrir e pegar a cesta com comidas que havia trazido. Aurora estava com uma mochila amarela nas costas e alcançou uma sacola com a toalha que usariam naquele piquenique noturno.
Andaram lado a lado, conversando a respeito de assuntos aleatórios, rindo um com o outro e aproveitando suas companhias. Ela, então, estendeu a toalha, e ele colocou a cesta. Logo ambos se sentaram.
— Você já contou? — ouviu Aurora questionar, no instante em que ficaram lado a lado.
— O que eu contei e pra quem exatamente? — Ele a olhou, rindo.
A ruiva observou as sardas no rosto do rapaz perfeitamente desenhado. Riu, mordendo o próprio lábio inferior, e negou com a cabeça.
— Pro seu pai. Sobre...
— Não falei ainda. — Se apressou em responder.
Certo silêncio se fez presente entre os dois e tirou algumas coisas que haviam trazido de dentro da cesta, enquanto pensava em relação à pergunta de Aurora. Ele teria mais cedo ou mais tarde que conversar com o seu pai. Seus pensamentos foram interrompidos pelo toque do seu celular.
— Merda, eu falei que desligaria. Desculpa.
A garota riu ao deitar-se de barriga para cima e continuou rindo ao ver o rapaz ao seu lado procurar pelo aparelho nos bolsos da bermuda que usava.
— Alô — atendeu, com certa impaciência em sua voz.
Tudo que pôde ouvir do outro lado da linha foi uma respiração estranha e uma ou outra palavra incompreensível. Franziu o cenho para o aparelho em sua mão e olhou o visor com a seguinte mensagem:
— Ei, quem quer que seja, me liga de novo. O número tá bloqueado e não tá dando pra entender nada.
Assim, deixou o aparelho sobre a toalha, enquanto alcançava uma garrafa de água.
— Tudo bem? — Ouviu Aurora indagar. meneou a cabeça, enquanto bebia um gole do líquido.
— Deve ser uns dos meninos. Você sabe que o Alex e o Mike adoram essas coisas.
— Essa é a personalidade deles! — Riu.
Ficou mais à vontade, esticando as pernas ao lado da garota, e sorriu rapidamente ao olhá-la.
— E você, está ansiosa para Harvard?
O celular começou a tocar novamente. O mesmo aviso de número bloqueado aparecia no visor, e o rapaz voltou a franzir o cenho.
— Coloca no viva-voz — pediu Aurora, ao notar a confusão em sua expressão.
passou o dedo pela tela e fez o que ela havia pedido.
— Oi. Quem é?
— Oi, !
Um arrepio estranho lhe percorreu a espinha e ele engoliu seco instantaneamente.
A voz era estranha. Era rouca. Não lembrava ninguém que conhecia. Soava como algo que ele nunca havia ouvido.
— Desculpa, mas isso está muito estranho. Vou desligar.
Foi para apertar o botão vermelho que encerrava a ligação, mas a voz falou novamente:
— Se você desligar, eu corto a garganta da garota ao seu lado na sua frente.
Seu coração bateu tão forte em seu peito que chegou a doer.
Ele e Aurora se entreolharam. Ela, sentindo o corpo inteiro tremer depois do que havia ouvido. O coração da garota batia forte, e percebeu pela sua expressão, então pegou em uma das mãos dela.
— Fica calma. Pega o seu celular e ligamos para o meu pai — falou, apenas mexendo os lábios, não emitindo nenhum som.
— ?
Aurora concordou com um aceno.
— Tô aqui — respondeu para o seu aparelho, ainda em mãos.
Olhava para a garota, enquanto ela procurava pelo celular nos bolsos da mochila.
— Qual é o seu filme de terror favorito?
Aquela pergunta fez com que, estranhamente, o corpo do rapaz gelasse. Não soube ao certo por quê. No entanto, uma sensação ruim se apoderou. Tirou seus olhos da mulher e olhou para o aparelho.
— Eu não gosto de filme de terror. Quem é que está falando, porra? — Não soube dizer de onde, mas tirou coragem para usar aquele tom de voz com a pessoa do outro lado da linha.
— Sou o seu pior pesadelo, Riley.
— Como você sabe meu nome? Como você sabe quem eu sou?
— Você é muito famoso.
De fato, no colégio, ele era um rapaz bem popular, todos o conheciam. Viu Aurora começar a discar alguns números de canto do olho.
— Você é um fã? — Foi debochado.
— Da sua família.
— Me diz quem você é. Podemos marcar um encontro.
— Nós vamos nos encontrar, sim.
Uma gargalhada rápida foi ouvida no fim da conversa, a ligação abruptamente encerrada, e eles se entreolharam.
De repente, todos os postes ao redor do enorme campo de futebol foram apagando, um por um, como se as lâmpadas explodissem. Cada barulho era um susto diferente para ambos, que, no fim, se encontravam em um breu, com o coração batendo forte e a respiração ofegante. Ambos podiam ouvir suas próprias respirações.
— Que merda está acontecendo, ? — A voz de Aurora era exacerbada.
Lágrimas brotaram nos olhos da jovem mulher. Ela não precisava ser uma gênia para saber que as coisas estavam indo de mal a pior. Aquilo não era uma simples brincadeira.
— Vamos sair daqui! Rápido! — O rapaz se colocou em pé num pulo, puxando a garota pela mão e com as telas dos celulares ligadas. — Liga pro meu pai! Agora, por favor! — suplicou.
Aurora, trêmula, começou a mexer no aparelho, mas um barulho fez com que os dois voltassem seus celulares e atenções para frente. A sensação de que tinha mais alguém ali predominava em seus corpos.
Com a mão igualmente trêmula, virou a tela do seu aparelho para si e ligou a lanterna, a fim de ver o que estava acontecendo à certa distância dos seus olhos. A princípio, não viu nada.
— Não tem ninguém aqui — sussurrou, sem certeza. — Fica perto de mim. — Passou um dos seus braços pelos ombros da garota, a mantendo próxima.
Desse modo, começaram a andar lentamente pelo campo de futebol escuro. Seus pés pisavam em algumas folhas caídas no local, fazendo com que se assustassem com qualquer tipo de barulho, tendo em vista o silêncio que predominava. O único som que ouviam era das suas próprias respirações.
Mais um passo e o celular de Aurora caiu no chão. Pararam de andar imediatamente para que ela pegasse, e acompanhou com o olhar o seu movimento, mas, no segundo seguinte, algo brotou na frente dos dois, os assustando.
engoliu seco, reconhecendo a roupa e o pânico tomou conta do seu corpo ao ouvir um grito de Aurora com o susto.
Viu uma mão se levantar, portando uma faca, e ele não pensou duas vezes em seus próximos movimentos. Deu um impulso para frente, se jogando sobre, tentando parar, mas tudo que sentiu, segundos depois, foi a faca penetrando a sua carne. Um grito engasgado ecoou pela sua garganta, seguido de uma dor insuportável nas costas. Assim, caiu de joelhos no gramado, ouvindo o choro de Aurora e certo frio abraçando seu corpo.
— ! — ela gritou, com os olhos marejados e vermelhos, as bochechas cheias de lágrimas e o corpo travado, vendo aquela cena que parecia ter saído de um filme de terror. Não conseguia se mexer, não conseguia pensar.
O corpo do atleta caiu de costas no gramado com quem tinha feito tudo isso próximo a ambos. Parecia ser destemido, saber o que queria e não ter nenhum tipo de sentimento.
— Aurora, corre, por favor.
A voz de saiu entrecortada e fraca. Notou uma perna por cima de si e começou a sentir todo seu corpo ficar frio. Ele sabia o que iria acontecer, que fim teria, não iria de forma alguma conseguir sobreviver. Esperou pelo pior, mas a dor alucinante novamente atingiu sua carne, um pouco abaixo do ombro, e ele gritou.
Sua camisa branca estava tomada pelo vermelho do seu sangue, o gosto metálico era sentido em sua boca e certo enjoo atacou seu estômago, mas sabia que a sensação era de que seu corpo estava desistindo.
Seus olhos começaram a fechar e ele não conseguiu ver com clareza os próximos acontecimentos. Apenas viu vultos distantes, ouviu os gritos de Aurora e o som da faca a atingindo várias vezes. Aquilo parecia estar acontecendo com ele, o tanto que doía saber que ela estava perdendo a batalha.
— Ei, parado! — Ouviu alguém distante gritar, mas não soube dizer quem era.
As luzes se acenderam como um milagre, os refletores foram acesos um a um, e pôde ouvir passos se aproximando, enquanto ouvia tiros. Não teve forças para se mexer, a dor que sentia em seu corpo era gigantesca.
— O filha da mãe sumiu! Continuem procurando por ele! — gritou para os outros policiais, que saíram correndo. — , eu estou aqui, filho!
— Pai... — Ele tinha lágrimas nos olhos e levantou uma das mãos, procurando por ele.
— Não fala nada. Não faz nada. Tá tudo bem. — O mais velho puxou o mais novo para o seu colo, pegando em uma das mãos dele. Deixou que lágrimas escorressem pela sua bochecha. — CHAMEM UMA AMBULÂNCIA! — gritou.
— Nós já chamamos, xerife. Eles chegam em 3 minutos — um dos policiais respondeu calmamente.
— A Aurora, ela... — murmurou.
O Riley mais velho levantou o rosto, notando o corpo de Aurora no chão. Estava tão desnorteado que não tinha conseguido prestar atenção em mais nada. Olhou para o lado e viu que um dos seus homens se aproximava e checava se a garota estava viva. Ele negou com a cabeça ao olhá-lo.
— Tá tudo bem, filho. Tá tudo bem. — O beijou na cabeça, mas com o coração apertado de preocupação.
— Ele me ligou.
Os sons da ambulância chegando já podiam ser ouvidos.
O xerife franziu o cenho.
— Quem te ligou? — Olhava para o filho em seus braços, que possuía os olhos fechados e a pele mais pálida do que o normal.
— Ele me perguntou qual era meu filme de terror favorito, pai.
O coração do mais velho quase parou de bater.
— Você viu a máscara dele?
Ele sentia o olhar do mais novo sobre si. segurou no uniforme do pai, o puxando, e sentiu uma lágrima descer pelo seu rosto.
— É o ghostface.