Capítulo 1
MELODIA
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Londres parecia sempre respirar em um tom menor. As ruas encharcadas devolviam reflexos de letreiros e passos apressados, como se cada pessoa tivesse seu próprio ritmo e o dela nunca coubesse em nenhum.
ajustou os fones de ouvido, o capuz cobrindo metade do rosto, enquanto subia os degraus da Rivera Records. Era sua primeira vez ali, mas o nome pesava: o lugar que transformava vozes em produtos, corações em cifras. Uma das maiores gravadoras do país, Rivera era o produtor que descobria talentos.
Ela não se considerava ingênua. Sabia que música era negócio. Mas ainda acreditava que existia espaço para alma entre os acordes. E era isso que esperava trazer para o novo álbum da banda The First Art.
Estava em um dia comum no apartamento quando recebeu uma mensagem do próprio Rivera: “, preciso da sua ajuda para um novo projeto. Venha o mais breve possível me encontrar! Abraços.” A mensagem era como o homem, concisa e informativa.
Quando entrou no estúdio principal, o ar cheirava a madeira, cabos e café frio. Havia instrumentos por toda parte e, no centro, um homem de terno escuro regulava os volumes como se cada botão fosse uma questão de vida ou morte. Sua concentração era tamanha que nem o fechar da porta automática fez com que ele olhasse para .
Mas quando olhou, o impacto foi estranho: uma colisão muda, como se o som do mundo tivesse sido engolido por um silêncio absoluto. E esse silêncio era irônico para uma sala de música.
O homem à sua frente a mediu dos pés à cabeça e, quando chegou aos olhos, o mundo pareceu voltar a girar. Ele desviou o olhar de imediato, como se pudesse roubá-lo pela íris. A mulher riu do próprio pensamento.
— ? — ele perguntou, sem sorriso, sem qualquer traço de curiosidade.
— Sou eu. E você também é... compositor, certo?
— .
havia sido avisada pelo produtor que teria um companheiro durante a produção, mas ele não quis informar quem era. Agora ela entendia o porquê. O nome cortou o ar com precisão britânica.
Ela já tinha ouvido histórias: o perfeccionista, o crítico implacável, o homem que acreditava que emoção demais era um erro de mixagem. E, claro, já fizera inúmeras críticas às suas composições: “fora de métrica”, “sem precisão de tempo”, “o conceito dominou a musicalidade”.
Antes que ela pudesse dizer algo, a porta do estúdio se abriu. Um homem de cabelos grisalhos e expressão calculadamente amigável entrou, batendo palmas como quem tenta aplacar um temporal.
— Meus compositores preferidos — disse o Sr. Rivera, dono da gravadora e pai de uma das integrantes da banda. — Que bom ver vocês finalmente juntos.
e trocaram um olhar rápido. Nenhum dos dois sabia ainda se “juntos” era a palavra certa.
— Como está a banda? — perguntou , tentando soar casual.
Rivera suspirou, apoiando-se na mesa de som.
— O primeiro álbum foi um sucesso. O problema é o que vem depois do sucesso. — Olhou para , depois para . — Eles travaram. Todos. Ninguém compõe, ninguém grava.
— Bloqueio criativo? — perguntou.
— E medo de cair — respondeu Rivera, com a objetividade de quem já viu muitos sonhos despencarem das paradas. — Além disso, a imprensa está transformando Danna e Shawn num circo. Cada briga vira manchete. Discordam de tudo: música, estética, até sobre quem fala nas entrevistas. — Fez uma pausa, torcendo o rosto num meio sorriso cético. — Ótimos rivais, péssimos companheiros de banda.
Houve um silêncio momentâneo, como se Rivera precisasse organizar os próprios pensamentos após a avalanche de informações.
pigarreou, desconfortável.
— Então o senhor quer... o quê, exatamente?
— Que vocês consertem isso. — Rivera cruzou os braços. — Conversando com a equipe de crises, tivemos uma ideia: usar a rivalidade deles como conceito para o próximo álbum. Algo como o que a Taylor Swift faz.
arqueou uma sobrancelha.
— Vocês pensam rápido.
— Foi assim que me consagrei — respondeu Rivera, com ironia contida. — E foi por isso que chamei vocês dois. Preciso que as músicas transmitam o conflito e nada melhor que duas pessoas que também não se dão para isso.
— O quê? Não, não é nada disso — rebateu de imediato.
— Eu não tenho nada contra ele. Foi ele que falou mal de mim em uma coletiva. — deu de ombros.
— Eu não controlo as perguntas que fazem pra mim. Só respondi sobre um álbum e disse o que achava — retrucou ele, direto.
desviou o olhar, encerrando o assunto. Mas ainda sentia o eco daquela crítica atravessando a conversa.
Meses antes, um artigo de autoria dele destrinchara seu último álbum solo com uma frieza quase cirúrgica. Não tinha sido apenas uma coletiva, como ele afirmava, ele escrevera um texto inteiro.
“ chama de desordem o que outros chamariam de sinceridade”, ela pensara ao ler. Ele descrevera suas canções como “emocionalmente honestas, porém estruturalmente ingênuas.” As frases a atingiram como lâminas. Ainda assim, ela relia o texto. Parte dela queria odiá-lo; outra parte queria entender o que ele via que ela não via.
Agora, olhando pra ele ao vivo, percebeu algo desconcertante: para , aquela crítica não havia significado nada. Era apenas mais um texto entre muitos, mais uma madrugada de análise impessoal.
Mas pra ela, havia sido uma ferida. Uma daquelas que doem tanto que acabam se tornando combustível. No mundo em que ela vivia, precisava aprender a lidar com esse tipo de coisa, mas lidar não tornava o processo menos doloroso.
— Tá, tá... isso não importa mais agora — interrompeu Rivera, encerrando o impasse. — A partir de hoje, vocês são parceiros.
Ele recolheu alguns papéis da mesa, já se preparando para sair.
— Ah, e concordamos que tudo sobre o novo álbum será feito longe dos holofotes. O mais longe possível.
— Longe... quanto? — perguntou.
Rivera sorriu de canto.
— Tenho uma casa de campo em Bath. Cercada de árvores, silêncio e solidão. É perfeita pra criar e pra esconder. A imprensa não precisa saber que o First Art está em crise.
trocou um olhar rápido com . Ela entendeu o que ele pensou sem precisar de palavras: isolamento forçado, convivência constante, nenhuma rota de fuga.
— Danna e Shawn vão com vocês — completou Rivera. — A ideia é que o ambiente inspire. Ou, pelo menos, que ninguém mate ninguém antes do álbum ficar pronto.
riu, mas manteve o semblante sério.
— Isso não é um retiro artístico, é um confinamento — murmurou.
— Chame como quiser, . Só me traga um disco pronto no fim.
O homem se afastou, levando o próprio cansaço junto. Antes de sair, apontou para os dois:
— E uma última coisa. Não quero saber de desentendimentos. Já tenho dois artistas que não se suportam; não preciso de outro par de faíscas no estúdio.
O som da porta automática ecoou, e o silêncio voltou.
— Bom — disse , depois de um tempo — parece que estamos condenados a nos dar bem.
ergueu o olhar, provocando:
— Condenados é uma boa palavra.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Espero que saiba trabalhar sob pressão.
— Espero que saiba trabalhar com emoção — ela devolveu.
O olhar dele endureceu, e ela percebeu o que já esperava: aquele estúdio seria um campo de batalha, mas, como toda guerra entre compositores, isso viraria arte!
ajustou os fones de ouvido, o capuz cobrindo metade do rosto, enquanto subia os degraus da Rivera Records. Era sua primeira vez ali, mas o nome pesava: o lugar que transformava vozes em produtos, corações em cifras. Uma das maiores gravadoras do país, Rivera era o produtor que descobria talentos.
Ela não se considerava ingênua. Sabia que música era negócio. Mas ainda acreditava que existia espaço para alma entre os acordes. E era isso que esperava trazer para o novo álbum da banda The First Art.
Estava em um dia comum no apartamento quando recebeu uma mensagem do próprio Rivera: “, preciso da sua ajuda para um novo projeto. Venha o mais breve possível me encontrar! Abraços.” A mensagem era como o homem, concisa e informativa.
Quando entrou no estúdio principal, o ar cheirava a madeira, cabos e café frio. Havia instrumentos por toda parte e, no centro, um homem de terno escuro regulava os volumes como se cada botão fosse uma questão de vida ou morte. Sua concentração era tamanha que nem o fechar da porta automática fez com que ele olhasse para .
Mas quando olhou, o impacto foi estranho: uma colisão muda, como se o som do mundo tivesse sido engolido por um silêncio absoluto. E esse silêncio era irônico para uma sala de música.
O homem à sua frente a mediu dos pés à cabeça e, quando chegou aos olhos, o mundo pareceu voltar a girar. Ele desviou o olhar de imediato, como se pudesse roubá-lo pela íris. A mulher riu do próprio pensamento.
— ? — ele perguntou, sem sorriso, sem qualquer traço de curiosidade.
— Sou eu. E você também é... compositor, certo?
— .
havia sido avisada pelo produtor que teria um companheiro durante a produção, mas ele não quis informar quem era. Agora ela entendia o porquê. O nome cortou o ar com precisão britânica.
Ela já tinha ouvido histórias: o perfeccionista, o crítico implacável, o homem que acreditava que emoção demais era um erro de mixagem. E, claro, já fizera inúmeras críticas às suas composições: “fora de métrica”, “sem precisão de tempo”, “o conceito dominou a musicalidade”.
Antes que ela pudesse dizer algo, a porta do estúdio se abriu. Um homem de cabelos grisalhos e expressão calculadamente amigável entrou, batendo palmas como quem tenta aplacar um temporal.
— Meus compositores preferidos — disse o Sr. Rivera, dono da gravadora e pai de uma das integrantes da banda. — Que bom ver vocês finalmente juntos.
e trocaram um olhar rápido. Nenhum dos dois sabia ainda se “juntos” era a palavra certa.
— Como está a banda? — perguntou , tentando soar casual.
Rivera suspirou, apoiando-se na mesa de som.
— O primeiro álbum foi um sucesso. O problema é o que vem depois do sucesso. — Olhou para , depois para . — Eles travaram. Todos. Ninguém compõe, ninguém grava.
— Bloqueio criativo? — perguntou.
— E medo de cair — respondeu Rivera, com a objetividade de quem já viu muitos sonhos despencarem das paradas. — Além disso, a imprensa está transformando Danna e Shawn num circo. Cada briga vira manchete. Discordam de tudo: música, estética, até sobre quem fala nas entrevistas. — Fez uma pausa, torcendo o rosto num meio sorriso cético. — Ótimos rivais, péssimos companheiros de banda.
Houve um silêncio momentâneo, como se Rivera precisasse organizar os próprios pensamentos após a avalanche de informações.
pigarreou, desconfortável.
— Então o senhor quer... o quê, exatamente?
— Que vocês consertem isso. — Rivera cruzou os braços. — Conversando com a equipe de crises, tivemos uma ideia: usar a rivalidade deles como conceito para o próximo álbum. Algo como o que a Taylor Swift faz.
arqueou uma sobrancelha.
— Vocês pensam rápido.
— Foi assim que me consagrei — respondeu Rivera, com ironia contida. — E foi por isso que chamei vocês dois. Preciso que as músicas transmitam o conflito e nada melhor que duas pessoas que também não se dão para isso.
— O quê? Não, não é nada disso — rebateu de imediato.
— Eu não tenho nada contra ele. Foi ele que falou mal de mim em uma coletiva. — deu de ombros.
— Eu não controlo as perguntas que fazem pra mim. Só respondi sobre um álbum e disse o que achava — retrucou ele, direto.
desviou o olhar, encerrando o assunto. Mas ainda sentia o eco daquela crítica atravessando a conversa.
Meses antes, um artigo de autoria dele destrinchara seu último álbum solo com uma frieza quase cirúrgica. Não tinha sido apenas uma coletiva, como ele afirmava, ele escrevera um texto inteiro.
“ chama de desordem o que outros chamariam de sinceridade”, ela pensara ao ler. Ele descrevera suas canções como “emocionalmente honestas, porém estruturalmente ingênuas.” As frases a atingiram como lâminas. Ainda assim, ela relia o texto. Parte dela queria odiá-lo; outra parte queria entender o que ele via que ela não via.
Agora, olhando pra ele ao vivo, percebeu algo desconcertante: para , aquela crítica não havia significado nada. Era apenas mais um texto entre muitos, mais uma madrugada de análise impessoal.
Mas pra ela, havia sido uma ferida. Uma daquelas que doem tanto que acabam se tornando combustível. No mundo em que ela vivia, precisava aprender a lidar com esse tipo de coisa, mas lidar não tornava o processo menos doloroso.
— Tá, tá... isso não importa mais agora — interrompeu Rivera, encerrando o impasse. — A partir de hoje, vocês são parceiros.
Ele recolheu alguns papéis da mesa, já se preparando para sair.
— Ah, e concordamos que tudo sobre o novo álbum será feito longe dos holofotes. O mais longe possível.
— Longe... quanto? — perguntou.
Rivera sorriu de canto.
— Tenho uma casa de campo em Bath. Cercada de árvores, silêncio e solidão. É perfeita pra criar e pra esconder. A imprensa não precisa saber que o First Art está em crise.
trocou um olhar rápido com . Ela entendeu o que ele pensou sem precisar de palavras: isolamento forçado, convivência constante, nenhuma rota de fuga.
— Danna e Shawn vão com vocês — completou Rivera. — A ideia é que o ambiente inspire. Ou, pelo menos, que ninguém mate ninguém antes do álbum ficar pronto.
riu, mas manteve o semblante sério.
— Isso não é um retiro artístico, é um confinamento — murmurou.
— Chame como quiser, . Só me traga um disco pronto no fim.
O homem se afastou, levando o próprio cansaço junto. Antes de sair, apontou para os dois:
— E uma última coisa. Não quero saber de desentendimentos. Já tenho dois artistas que não se suportam; não preciso de outro par de faíscas no estúdio.
O som da porta automática ecoou, e o silêncio voltou.
— Bom — disse , depois de um tempo — parece que estamos condenados a nos dar bem.
ergueu o olhar, provocando:
— Condenados é uma boa palavra.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Espero que saiba trabalhar sob pressão.
— Espero que saiba trabalhar com emoção — ela devolveu.
O olhar dele endureceu, e ela percebeu o que já esperava: aquele estúdio seria um campo de batalha, mas, como toda guerra entre compositores, isso viraria arte!