Capítulo Único
Sempre me considerei o tipo de pessoa que gosta de viver perigosamente. De viver a vida sempre na corda bamba, com a adrenalina percorrendo a corrente sanguínea e o coração acelerado, quase saindo pela boca. A sensação de medo misturada à excitação e à realização sempre me fascinou.
Quando era mais nova e ainda morava no Brasil, costumava pular a janela de casa no meio da madrugada, e me esgueirava silenciosamente até a casa do meu namorado da adolescência. Fumávamos cigarros baratos, bebíamos dezenas de latinhas de cerveja e fazíamos aquilo que dois adolescentes de dezessete anos, convencidos de que haviam descoberto o amor, fariam sozinhos.
Depois de adulta, troquei as escapadas adolescentes pelo paraquedismo, pelas escaladas e pelos passeios de moto noturnos a 140km/h, madrugada adentro. Viciei—me na sensação absurda de liberdade: lançar—me a milhares de metros do chão, subir cada vez mais alto, olhar para baixo e ver tudo e nada ao mesmo tempo. Sentir o vento gelado no rosto e o ronco potente do motor vibrando sob mim.
Havia algo quase indescritível na combinação entre o perigo e a liberdade, como se, por alguns instantes, todas as preocupações do mundo deixassem de existir. Restavam apenas o momento, a velocidade e a certeza de que eu estava exatamente onde queria estar.
Talvez por isso eu não tenha me surpreendido quando o ronco potente da Ducati Streetfighter V4 ecoou pela minha rua e aquele frio familiar percorreu meu corpo. Tampouco me surpreendi com a expectativa queimando no baixo ventre diante de tudo o que aconteceria nos minutos seguintes. Porque sem dúvidas nenhuma, me envolver com é uma das coisas mais deliciosamente perigosas que eu ja havia feito na vida.
Além do sexo absurdamente viciante, havia algo fascinante no segredo, no risco, na ideia de estar envolvida com um artista mundialmente conhecido, desejado e admirado. Saber que em algumas noites ele era somente meu sempre foi excitante pra caralho. Mas, sendo honesta, a fama nunca foi o motivo de eu ter cedido pela primeira vez, porque convenhamos, ele é ; ridiculamente atraente, com aqueles olhos grandes e brilhantes, o sorriso cheio, as tatuagens deliciosamente espalhadas pelo braço direito e o corpo definido escondido sob roupas caras demais para parecerem casuais. A realidade era que o mais difícil sempre foi encontrar motivos para não querer ir para a cama com ele.
Nos conhecemos da forma mais aleatória possível: no estacionamento de uma loja de conveniência. Ele caminhou até mim quase silenciosamente, usando boné e máscara, mas ainda assim impossível de passar despercebido, e elogiou minha Yamaha MT—09 como se fosse a coisa mais natural do mundo. Dois anos depois, aqui estamos nós; nos encontrando furtivamente entre os compromissos dele, turnês internacionais e a minha rotina exaustiva como residente de neurocirurgia no Gangnam Severance Hospital. Às vezes, me pergunto como uma conversa casual sobre motocicletas havia se transformado em mensagens de madrugada, encontros escondidos e uma dependência mútua que nenhum de nós parecia disposto a admitir em voz alta.
Eu sabia que ele havia voltado para a Coreia. Toda vez que pisava no aeroporto de Incheon, parecia que metade do país entrava em estado de alerta. Então não estranhei quando meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha, algumas horas depois de todos os canais de telecomunicação cobrirem a sua chegada ao país. “Estou em Seul! Podemos nos ver?” Fazia duas semanas desde a última vez que tínhamos nos falado e quase quatro desde a última vez que nos vimos pessoalmente. As viagens dele e os meus plantões tinham dificultado qualquer chance de saciarmos aquela necessidade quase doentia que existia entre nós. Era ridículo, de certa forma. Eu era uma mulher adulta, com um emprego estável, responsabilidades suficientes para preencher cada hora do meu dia e problemas reais para resolver. Ainda assim, bastavam seis palavras em uma tela iluminada para que meu coração acelerasse como se eu tivesse voltado a ter dezessete anos.
Caminho até a janela do apartamento e observo a moto entrando pelo estacionamento do prédio. O veículo já registrado na portaria, o que evita perguntas e facilita suas visitas discretas noite adentro. O ronco grave do motor desaparece aos poucos quando ele estaciona na vaga de visitantes. Alguns segundos depois, retiro os olhos da janela e me afasto, sentindo aquela familiar expectativa se instalar no peito.
finalmente está aqui.
Leva exatamente seis minutos até a campainha ecoar pela sala. Aperto o laço do robe ao redor da cintura e passo os dedos pelos cabelos, bagunçando—os de propósito, apenas o suficiente para criar uma aparência despreocupada. Então caminho até a porta com um sorriso lento e provocador. A campainha ecoa uma segunda vez, curta e impaciente, e meu sorriso aumenta sozinho. nunca foi exatamente paciente quando quer alguma coisa. Abro a porta devagar, apoiando o ombro na madeira enquanto observo seus olhos percorrerem meu corpo sem qualquer tentativa de disfarçar. O capacete ainda está preso entre os dedos tatuados, os cabelos escuros bagunçados pelo vento da estrada, e a jaqueta de couro cara o deixa ainda mais bonito do que naturalmente já é.
— Você faz isso de propósito. — a voz dele sai baixa, rouca e carregada daquele tom preguiçoso que sempre faz meu estômago revirar.
— Não faço ideia do que você está falando.
Ele ri pelo nariz, entrando no apartamento sem esperar convite. O cheiro amadeirado do perfume invade meu espaço junto com ele, familiar demais depois de dois anos de encontros escondidos. fecha a porta atrás de si com calma, mas o jeito como os olhos dele permanecem presos em mim entrega completamente sua pressa.
— Senti sua falta. — diz simplesmente, e o que deveria soar casual, não soa. Porque com , nada nunca foi casual. Meu coração acelera enquanto ele se aproxima devagar, como se soubesse exatamente o efeito que causa em mim. As tatuagens aparecem sob as mangas erguidas da jaqueta, os anéis brilhando sob a luz quente da sala, e quando ele para na minha frente, sinto aquele mesmo frio na barriga de antes de um salto de paraquedas; expectativa, risco e satisfação.
— Você demorou seis minutos. — murmuro.
— Peguei todos os sinais vermelhos. — os olhos dele brilham, divertidos.
— Engraçadinho.
— Tá... — Ele inclina o rosto para perto do meu, a ponta do nariz quase tocando na minha. — Eu subi devagar porque queria aproveitar a sensação prazerosa de ter você esperando por mim. — sua voz não é mais que um sussurro, mas é o suficiente para que minha respiração falhe por um instante ou dois.
Perigoso; sempre foi perigosamente bom em saber exatamente o que dizer. A sagacidade era uma das características mais irritantemente atraentes nele. improvisa como quem respira: sempre com uma piada charmosa na ponta da língua, um sorriso torto preparado no momento certo e aqueles olhares profundos capazes de molhar a calcinha de qualquer mulher em segundos. E eu definitivamente não era uma exceção a sua regra, na verdade, minha calcinha já estava arruinada desde o instante em que li sua mensagem.
Respiro fundo, tentando recuperar a postura sedutora que ameaça desmoronar cada vez que ele me olha daquele jeito. Ergo o queixo, sustentando a pouca dignidade que ainda me resta enquanto deslizo os dedos lentamente pela gola da sua jaqueta de couro.
— Então você veio até aqui só pra me provocar?
— Não — responde de imediato, o sorriso crescendo devagar em seu rosto. —Vim porque estava com saudade de tocar em você.
Não consigo evitar engolir em seco diante das palavras dele, da promessa subentendida em cada sílaba. E , como o homem obstinado que é, não demora a segurar meu rosto com as duas mãos antes de colar a boca na minha com uma urgência desesperada. E o beijo me rouba o ar, não consigo conter o gemido baixo que escapa quando sinto sua língua tocar a minha; macia, quente e familiar demais. Era disso que eu sentia falta. Não havia delicadeza romântica naquele momento, apenas desejo bruto, saudade acumulada e intenções perigosamente claras.
me conduz pela sala sem jamais se afastar de mim. Seus lábios habilidosos parecem incapazes de me abandonar por um segundo sequer. Só percebo suas mãos deixando meu rosto quando escuto o som pesado da jaqueta de couro caindo no chão. E então ele me guia até o quarto, intimamente familiarizado com o caminho. Suas mãos voltam a percorrer meu corpo lentamente, como se quisesse confirmar que cada pedaço meu continua exatamente da forma como ele se lembrava. Então ele as percorre pelos meus seios, pelo abdômen, provocando arrepios violentos na minha pele até alcançarem o nó do robe preso acima do ventre.
É indescritível o olhar que ele me lança quando a peça desliza pelo meu corpo e cai no chão do quarto. me encara como se eu fosse algo sagrado. Como uma deusa. Uma entidade digna de adoração. Essa sempre foi a sua forma de fazer amor; com alma e com o corpo inteiro. Porque nunca foi apenas intensidade. Nunca foi somente desejo ou urgência. Quando estamos juntos, existe veneração em cada toque, cuidado escondido sob a selvageria, uma devoção silenciosa que sempre me fez sentir desejada. Seus olhos percorrem meu corpo sem pressa, como se estivesse me vendo pela primeira vez. Sinto o ar preso nos pulmões quando ele encosta a testa na minha, respirando pesadamente.
— Linda pra caralho… — Murmura, e o jeito como diz aquilo faz meu coração apertar perigosamente no peito, porque não soa vazio, não soa como desejo momentâneo.
Entre beijos desesperados e carícias que queimam minha pele, nossas roupas vão desaparecendo uma a uma, abandonadas pelo caminho até a cama, e então sou jogada contra ela, e instantaneamente o corpo de cobre o meu; pesado, quente e familiar. Ele prende meu lábio inferior entre os dentes antes de deslizar a boca até meu ouvido.
— Eu prometo cuidar de cada pedacinho de você depois… — sussurra, arrancando arrepios do meu corpo inteiro. — Mas agora eu preciso desesperadamente entrar em você..
Minha cabeça cai para trás imediatamente, no instante em que ele me preenche, o corpo inteiro estremecendo com a intensidade daquele momento. Cada músculo tensiona, cada pensamento desaparece, e tudo o que consigo sentir é ele. enterra o rosto no meu pescoço, soltando um gemido baixo, aliviado, enquanto me segura com força contra seu peito, como se tivesse passado tempo demais longe de mim. Um gemido falho escapa da minha garganta enquanto minhas mãos agarram seus ombros automaticamente, sentindo os músculos rígidos sob meus dedos; e então ele começa a se mover devagar, como se quisesse prolongar cada segundo, cada sensação, cada suspiro arrancado de mim. Os lábios dele encontram os meus outra vez num beijo intenso e desajeitado pela falta de ar. Não existe sensação melhor, nada no mundo se compara ao jeito como me faz sentir, cada beijo roubando meu fôlego, cada toque incendiando minha pele, cada palavra desconexa escapando de seus lábios entre as respirações pesadas. O ritmo entre nós cresce aos poucos, intenso. Enquanto seus movimentos me arrancam arrepios violentos e suspiros impossíveis de conter. O quarto se enche da mistura erótica das nossas respirações falhas, dos gemidos abafados contra a pele um do outro, do som dos nossos corpos se encontrando repetidamente. Suas mãos passeiam pelo meu corpo como se quisessem me sentir inteira, como se cada reação minha alimentasse ainda mais a fome em seus olhos. E talvez alimente mesmo, porque quanto mais eu me entrego, mais ele parece perder o controle. E sem controle é insaciável.
— Porra... — ele volta a murmurar contra meu ouvido, a voz quebrando no meio da respiração. — Você acaba comigo — Meu ventre se contrai ao ouvir aquilo, a sensação crescendo lentamente dentro de mim, quente e intensa, impossível de ignorar.
Cada toque dele parece calculado para me levar mais perto do limite, como se conhecesse meu corpo melhor do que eu mesma. E talvez conheça. Porque sempre soube exatamente como me desmontar.
E então acontece; a intensidade cresce rápido demais, tomando conta do meu corpo em ondas violentas. Um arrepio percorre minha espinha inteira enquanto o prazer explode dentro de mim, arrancando um gemido alto da minha garganta. Meus dedos se fecham com força nos ombros dele, o corpo tremendo sob o seu. solta um som alto e rouco ao sentir minha reação, minhas paredes internas o apertam com mais intensidade e isso também o leva ao limite. Segundos depois o sinto gozar.
Os movimentos desaceleram, desordenados, mas ainda intensos, enquanto ele me segura firme contra o colchão, respirando pesado, e desenterrando o rosto na curva do meu pescoço. O quarto mergulha em um silêncio quente e irregular, quebrado apenas pelas nossas respirações pesadas e ofegantes. mantém o corpo sobre o meu por alguns segundos, os olhos fechados tentando recuperar o próprio ar.
— Você tem noção do efeito que causa em mim? — Então ele ri baixinho contra minha pele. Sinto os dedos dele subindo devagar pela minha cintura, agora sem urgência. Diferente da intensidade de antes, o toque é cuidadoso, carinhoso. Ele afasta uma mecha do meu cabelo do rosto e me observa em silêncio por alguns segundos longos, daqueles que fazem o coração bater mais forte sem motivo aparente.
— Não olha assim pra mim — murmuro, tentando desviar os olhos.
— Assim como?
— Assim... como se isso fosse importante.. Como se eu fosse importante..
— Mas você é importante. — O canto da boca dele se ergue num sorriso pequeno, cansado, mas sincero. encosta a testa na minha outra vez, os narizes se tocando levemente enquanto os dedos dele desenham linhas distraídas pela minha pele. Meu coração que ora vinha retornando ao seu ritmo usual, volta a bombar rápido e forte contra minha caixa torácica. — Posso ficar essa noite? — ele pede num sussurro envergonhado de alguém que raramente pede alguma coisa.
O silêncio que se instala depois não é desconfortável. Pelo contrário. Parece cheio demais para precisar de palavras, e continua ali, perto o suficiente para que eu sinta sua respiração misturada à minha, os dedos deslizando distraidamente pela minha pele como se decorassem caminhos que já conheciam. Lá fora, a cidade ainda existe; carros, luzes, gente vivendo suas próprias histórias, mas naquele quarto tudo parece distante, abafado e lento. Seu olhar me observa em silêncio por alguns segundos longos, e existe alguma coisa diferente no olhar dele agora.
Menos tempestade. Mais certeza.
Meu corpo relaxa aos poucos sob o dele, não pela exaustão, mas pela estranha sensação de estar exatamente onde deveria estar. Como se, depois de tanto fugir um do outro, nós dois finalmente tivéssemos cansados da distância. fecha os olhos por um instante e encosta os lábios nos meus, e esse pequeno contato é suficiente para dizer tudo que nenhum dos dois tem coragem de dizer em voz alta.
Quando era mais nova e ainda morava no Brasil, costumava pular a janela de casa no meio da madrugada, e me esgueirava silenciosamente até a casa do meu namorado da adolescência. Fumávamos cigarros baratos, bebíamos dezenas de latinhas de cerveja e fazíamos aquilo que dois adolescentes de dezessete anos, convencidos de que haviam descoberto o amor, fariam sozinhos.
Depois de adulta, troquei as escapadas adolescentes pelo paraquedismo, pelas escaladas e pelos passeios de moto noturnos a 140km/h, madrugada adentro. Viciei—me na sensação absurda de liberdade: lançar—me a milhares de metros do chão, subir cada vez mais alto, olhar para baixo e ver tudo e nada ao mesmo tempo. Sentir o vento gelado no rosto e o ronco potente do motor vibrando sob mim.
Havia algo quase indescritível na combinação entre o perigo e a liberdade, como se, por alguns instantes, todas as preocupações do mundo deixassem de existir. Restavam apenas o momento, a velocidade e a certeza de que eu estava exatamente onde queria estar.
Talvez por isso eu não tenha me surpreendido quando o ronco potente da Ducati Streetfighter V4 ecoou pela minha rua e aquele frio familiar percorreu meu corpo. Tampouco me surpreendi com a expectativa queimando no baixo ventre diante de tudo o que aconteceria nos minutos seguintes. Porque sem dúvidas nenhuma, me envolver com é uma das coisas mais deliciosamente perigosas que eu ja havia feito na vida.
Além do sexo absurdamente viciante, havia algo fascinante no segredo, no risco, na ideia de estar envolvida com um artista mundialmente conhecido, desejado e admirado. Saber que em algumas noites ele era somente meu sempre foi excitante pra caralho. Mas, sendo honesta, a fama nunca foi o motivo de eu ter cedido pela primeira vez, porque convenhamos, ele é ; ridiculamente atraente, com aqueles olhos grandes e brilhantes, o sorriso cheio, as tatuagens deliciosamente espalhadas pelo braço direito e o corpo definido escondido sob roupas caras demais para parecerem casuais. A realidade era que o mais difícil sempre foi encontrar motivos para não querer ir para a cama com ele.
Nos conhecemos da forma mais aleatória possível: no estacionamento de uma loja de conveniência. Ele caminhou até mim quase silenciosamente, usando boné e máscara, mas ainda assim impossível de passar despercebido, e elogiou minha Yamaha MT—09 como se fosse a coisa mais natural do mundo. Dois anos depois, aqui estamos nós; nos encontrando furtivamente entre os compromissos dele, turnês internacionais e a minha rotina exaustiva como residente de neurocirurgia no Gangnam Severance Hospital. Às vezes, me pergunto como uma conversa casual sobre motocicletas havia se transformado em mensagens de madrugada, encontros escondidos e uma dependência mútua que nenhum de nós parecia disposto a admitir em voz alta.
Eu sabia que ele havia voltado para a Coreia. Toda vez que pisava no aeroporto de Incheon, parecia que metade do país entrava em estado de alerta. Então não estranhei quando meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha, algumas horas depois de todos os canais de telecomunicação cobrirem a sua chegada ao país. “Estou em Seul! Podemos nos ver?” Fazia duas semanas desde a última vez que tínhamos nos falado e quase quatro desde a última vez que nos vimos pessoalmente. As viagens dele e os meus plantões tinham dificultado qualquer chance de saciarmos aquela necessidade quase doentia que existia entre nós. Era ridículo, de certa forma. Eu era uma mulher adulta, com um emprego estável, responsabilidades suficientes para preencher cada hora do meu dia e problemas reais para resolver. Ainda assim, bastavam seis palavras em uma tela iluminada para que meu coração acelerasse como se eu tivesse voltado a ter dezessete anos.
Caminho até a janela do apartamento e observo a moto entrando pelo estacionamento do prédio. O veículo já registrado na portaria, o que evita perguntas e facilita suas visitas discretas noite adentro. O ronco grave do motor desaparece aos poucos quando ele estaciona na vaga de visitantes. Alguns segundos depois, retiro os olhos da janela e me afasto, sentindo aquela familiar expectativa se instalar no peito.
finalmente está aqui.
Leva exatamente seis minutos até a campainha ecoar pela sala. Aperto o laço do robe ao redor da cintura e passo os dedos pelos cabelos, bagunçando—os de propósito, apenas o suficiente para criar uma aparência despreocupada. Então caminho até a porta com um sorriso lento e provocador. A campainha ecoa uma segunda vez, curta e impaciente, e meu sorriso aumenta sozinho. nunca foi exatamente paciente quando quer alguma coisa. Abro a porta devagar, apoiando o ombro na madeira enquanto observo seus olhos percorrerem meu corpo sem qualquer tentativa de disfarçar. O capacete ainda está preso entre os dedos tatuados, os cabelos escuros bagunçados pelo vento da estrada, e a jaqueta de couro cara o deixa ainda mais bonito do que naturalmente já é.
— Você faz isso de propósito. — a voz dele sai baixa, rouca e carregada daquele tom preguiçoso que sempre faz meu estômago revirar.
— Não faço ideia do que você está falando.
Ele ri pelo nariz, entrando no apartamento sem esperar convite. O cheiro amadeirado do perfume invade meu espaço junto com ele, familiar demais depois de dois anos de encontros escondidos. fecha a porta atrás de si com calma, mas o jeito como os olhos dele permanecem presos em mim entrega completamente sua pressa.
— Senti sua falta. — diz simplesmente, e o que deveria soar casual, não soa. Porque com , nada nunca foi casual. Meu coração acelera enquanto ele se aproxima devagar, como se soubesse exatamente o efeito que causa em mim. As tatuagens aparecem sob as mangas erguidas da jaqueta, os anéis brilhando sob a luz quente da sala, e quando ele para na minha frente, sinto aquele mesmo frio na barriga de antes de um salto de paraquedas; expectativa, risco e satisfação.
— Você demorou seis minutos. — murmuro.
— Peguei todos os sinais vermelhos. — os olhos dele brilham, divertidos.
— Engraçadinho.
— Tá... — Ele inclina o rosto para perto do meu, a ponta do nariz quase tocando na minha. — Eu subi devagar porque queria aproveitar a sensação prazerosa de ter você esperando por mim. — sua voz não é mais que um sussurro, mas é o suficiente para que minha respiração falhe por um instante ou dois.
Perigoso; sempre foi perigosamente bom em saber exatamente o que dizer. A sagacidade era uma das características mais irritantemente atraentes nele. improvisa como quem respira: sempre com uma piada charmosa na ponta da língua, um sorriso torto preparado no momento certo e aqueles olhares profundos capazes de molhar a calcinha de qualquer mulher em segundos. E eu definitivamente não era uma exceção a sua regra, na verdade, minha calcinha já estava arruinada desde o instante em que li sua mensagem.
Respiro fundo, tentando recuperar a postura sedutora que ameaça desmoronar cada vez que ele me olha daquele jeito. Ergo o queixo, sustentando a pouca dignidade que ainda me resta enquanto deslizo os dedos lentamente pela gola da sua jaqueta de couro.
— Então você veio até aqui só pra me provocar?
— Não — responde de imediato, o sorriso crescendo devagar em seu rosto. —Vim porque estava com saudade de tocar em você.
Não consigo evitar engolir em seco diante das palavras dele, da promessa subentendida em cada sílaba. E , como o homem obstinado que é, não demora a segurar meu rosto com as duas mãos antes de colar a boca na minha com uma urgência desesperada. E o beijo me rouba o ar, não consigo conter o gemido baixo que escapa quando sinto sua língua tocar a minha; macia, quente e familiar demais. Era disso que eu sentia falta. Não havia delicadeza romântica naquele momento, apenas desejo bruto, saudade acumulada e intenções perigosamente claras.
me conduz pela sala sem jamais se afastar de mim. Seus lábios habilidosos parecem incapazes de me abandonar por um segundo sequer. Só percebo suas mãos deixando meu rosto quando escuto o som pesado da jaqueta de couro caindo no chão. E então ele me guia até o quarto, intimamente familiarizado com o caminho. Suas mãos voltam a percorrer meu corpo lentamente, como se quisesse confirmar que cada pedaço meu continua exatamente da forma como ele se lembrava. Então ele as percorre pelos meus seios, pelo abdômen, provocando arrepios violentos na minha pele até alcançarem o nó do robe preso acima do ventre.
É indescritível o olhar que ele me lança quando a peça desliza pelo meu corpo e cai no chão do quarto. me encara como se eu fosse algo sagrado. Como uma deusa. Uma entidade digna de adoração. Essa sempre foi a sua forma de fazer amor; com alma e com o corpo inteiro. Porque nunca foi apenas intensidade. Nunca foi somente desejo ou urgência. Quando estamos juntos, existe veneração em cada toque, cuidado escondido sob a selvageria, uma devoção silenciosa que sempre me fez sentir desejada. Seus olhos percorrem meu corpo sem pressa, como se estivesse me vendo pela primeira vez. Sinto o ar preso nos pulmões quando ele encosta a testa na minha, respirando pesadamente.
— Linda pra caralho… — Murmura, e o jeito como diz aquilo faz meu coração apertar perigosamente no peito, porque não soa vazio, não soa como desejo momentâneo.
Entre beijos desesperados e carícias que queimam minha pele, nossas roupas vão desaparecendo uma a uma, abandonadas pelo caminho até a cama, e então sou jogada contra ela, e instantaneamente o corpo de cobre o meu; pesado, quente e familiar. Ele prende meu lábio inferior entre os dentes antes de deslizar a boca até meu ouvido.
— Eu prometo cuidar de cada pedacinho de você depois… — sussurra, arrancando arrepios do meu corpo inteiro. — Mas agora eu preciso desesperadamente entrar em você..
Minha cabeça cai para trás imediatamente, no instante em que ele me preenche, o corpo inteiro estremecendo com a intensidade daquele momento. Cada músculo tensiona, cada pensamento desaparece, e tudo o que consigo sentir é ele. enterra o rosto no meu pescoço, soltando um gemido baixo, aliviado, enquanto me segura com força contra seu peito, como se tivesse passado tempo demais longe de mim. Um gemido falho escapa da minha garganta enquanto minhas mãos agarram seus ombros automaticamente, sentindo os músculos rígidos sob meus dedos; e então ele começa a se mover devagar, como se quisesse prolongar cada segundo, cada sensação, cada suspiro arrancado de mim. Os lábios dele encontram os meus outra vez num beijo intenso e desajeitado pela falta de ar. Não existe sensação melhor, nada no mundo se compara ao jeito como me faz sentir, cada beijo roubando meu fôlego, cada toque incendiando minha pele, cada palavra desconexa escapando de seus lábios entre as respirações pesadas. O ritmo entre nós cresce aos poucos, intenso. Enquanto seus movimentos me arrancam arrepios violentos e suspiros impossíveis de conter. O quarto se enche da mistura erótica das nossas respirações falhas, dos gemidos abafados contra a pele um do outro, do som dos nossos corpos se encontrando repetidamente. Suas mãos passeiam pelo meu corpo como se quisessem me sentir inteira, como se cada reação minha alimentasse ainda mais a fome em seus olhos. E talvez alimente mesmo, porque quanto mais eu me entrego, mais ele parece perder o controle. E sem controle é insaciável.
— Porra... — ele volta a murmurar contra meu ouvido, a voz quebrando no meio da respiração. — Você acaba comigo — Meu ventre se contrai ao ouvir aquilo, a sensação crescendo lentamente dentro de mim, quente e intensa, impossível de ignorar.
Cada toque dele parece calculado para me levar mais perto do limite, como se conhecesse meu corpo melhor do que eu mesma. E talvez conheça. Porque sempre soube exatamente como me desmontar.
E então acontece; a intensidade cresce rápido demais, tomando conta do meu corpo em ondas violentas. Um arrepio percorre minha espinha inteira enquanto o prazer explode dentro de mim, arrancando um gemido alto da minha garganta. Meus dedos se fecham com força nos ombros dele, o corpo tremendo sob o seu. solta um som alto e rouco ao sentir minha reação, minhas paredes internas o apertam com mais intensidade e isso também o leva ao limite. Segundos depois o sinto gozar.
Os movimentos desaceleram, desordenados, mas ainda intensos, enquanto ele me segura firme contra o colchão, respirando pesado, e desenterrando o rosto na curva do meu pescoço. O quarto mergulha em um silêncio quente e irregular, quebrado apenas pelas nossas respirações pesadas e ofegantes. mantém o corpo sobre o meu por alguns segundos, os olhos fechados tentando recuperar o próprio ar.
— Você tem noção do efeito que causa em mim? — Então ele ri baixinho contra minha pele. Sinto os dedos dele subindo devagar pela minha cintura, agora sem urgência. Diferente da intensidade de antes, o toque é cuidadoso, carinhoso. Ele afasta uma mecha do meu cabelo do rosto e me observa em silêncio por alguns segundos longos, daqueles que fazem o coração bater mais forte sem motivo aparente.
— Não olha assim pra mim — murmuro, tentando desviar os olhos.
— Assim como?
— Assim... como se isso fosse importante.. Como se eu fosse importante..
— Mas você é importante. — O canto da boca dele se ergue num sorriso pequeno, cansado, mas sincero. encosta a testa na minha outra vez, os narizes se tocando levemente enquanto os dedos dele desenham linhas distraídas pela minha pele. Meu coração que ora vinha retornando ao seu ritmo usual, volta a bombar rápido e forte contra minha caixa torácica. — Posso ficar essa noite? — ele pede num sussurro envergonhado de alguém que raramente pede alguma coisa.
O silêncio que se instala depois não é desconfortável. Pelo contrário. Parece cheio demais para precisar de palavras, e continua ali, perto o suficiente para que eu sinta sua respiração misturada à minha, os dedos deslizando distraidamente pela minha pele como se decorassem caminhos que já conheciam. Lá fora, a cidade ainda existe; carros, luzes, gente vivendo suas próprias histórias, mas naquele quarto tudo parece distante, abafado e lento. Seu olhar me observa em silêncio por alguns segundos longos, e existe alguma coisa diferente no olhar dele agora.
Menos tempestade. Mais certeza.
Meu corpo relaxa aos poucos sob o dele, não pela exaustão, mas pela estranha sensação de estar exatamente onde deveria estar. Como se, depois de tanto fugir um do outro, nós dois finalmente tivéssemos cansados da distância. fecha os olhos por um instante e encosta os lábios nos meus, e esse pequeno contato é suficiente para dizer tudo que nenhum dos dois tem coragem de dizer em voz alta.