POV
Uma furadeira insistente e irritante foi o meu despertador naquela manhã. A reforma do futuro quarto da minha doce noivinha começou em tempo recorde, no dia seguinte ao que nos conhecemos.
Os negócios iam mal. Os O’Brien tinham pressa.
Mas a pressa deles era boa para nós da Three Swords. Estávamos ansiosos por aquela fusão, já que o mercado americano era muito restrito no nosso segmento, muito imperialista, muito fechado, muito preconceituoso, muito…
estadunidense. Empresas estrangeiras não tinham o mesmo prestígio nem as mesmas oportunidades de crescimento que as nacionais e os Arata tentaram, por anos, expandir nosso domínio para esse lado do globo. Meu pai me preparou, fazendo questão de que eu estudasse e vivesse em Nova York, contudo, nem toda a preparação do mundo comprava a cartela de clientes fiéis e poderosos da O’Brien Group.
Por isso a solução do casamento.
Por isso eu estava engolindo aquela reforma indesejada junto com uma aspirina, sem água, no seco.
Por isso eu estava reformando também meu futuro inteiro.
O barulho me obrigou a levantar da cama antes das oito e antecipar todo o meu dia. Minha velha companheira insônia e seus sintomas que eu conhecia tão bem haviam piorado significativamente desde que eu tive que lidar com a carga emocional de um casamento repentino. Tudo estava mudando demais em tempo de menos: minha casa, minha rotina, minha vida…
Tudo saindo do singular e indo para o plural. Tudo deixando de ser meu e se tornando nosso.
Casamento era isso, certo?
Ou, pelo menos, foi o que me ensinaram. Era de se esperar que eu seguisse o exemplo que tive em casa, já que o casamento dos meus pais, feliz e duradouro, aconteceu por conveniência. A verdade é que esse é um arranjo muito comum quando se tem muito dinheiro e quanto se é asiático, então, quando me propuseram usar o matrimônio como moeda de troca, eu não me espantei. O que não significava, entretanto, que eu não estivesse nervoso pra caralho.
E o motivo do nervosismo? Digamos que, sendo um cara de 26 anos bonito e milionário, ter uma esposa não estava na minha lista de prioridades.
Apesar de aquela união ter fins meramente corporativos, no final do dia, era o que eu teria: uma esposa. Uma mulher para cuidar, amar e respeitar até que a morte nos separe. Uma mulher cujos sinais de sua presença já se faziam tangíveis (e audíveis) na casa em que, até ontem, eu morava sozinho. ia se mudar logo e, como ela não ia dormir comigo, estava transformando meu antigo quarto de hóspedes, praticamente demolindo-o e construindo outro no lugar. Exigiu inspeção imobiliária, dedetização, o inferno e o diabo a quatro, e enquanto a princesa se ocupava em escolher papéis de parede e artigos de decoração, eu tinha que ficar com o ruído insuportável da quebradeira no meu ouvido.
— Você é um frouxo, Arata. — falei para mim mesmo no espelho, ao cuspir a espuma da pasta de dente. — Nem casou e já está deixando ela mandar em tudo.
A furadeira cessou e deu lugar a marteladas, que foram ficando mais longe conforme eu ligava o chuveiro no máximo e abafava o som da reforma num banho. A água estupidamente gelada golpeou minhas costas e me lembrou dos arranhões que eu ganhei na última transa que tive e que ainda não tinham sarado. Deixei escapar um único nome, o da culpada pelos rasgões, como um feitiço lançado sobre mim mesmo:
— Ah, O’Brien! — ri, ensandecido.
Havia muitos meios de se driblar a tensão, mas ser um homem reduzia as opções a praticamente uma só. O cérebro masculino tinha suas vantagens, a hombridade era cômoda e fácil, até. A frase “eles só pensam naquilo” talvez fosse a mais verdadeira sobre nós porque, no meio de todo aquele estresse pré-nupcial e de uma obra em andamento, a resposta do meu corpo foi acelerar meu pulso e mandar sangue para baixo, dando sinais de vida e rigidez entre as minhas pernas. Tudo por causa de uma simples ardência como gatilho. Tudo por causa de uma simples lembrança.
Tudo por causa dela.
Sim. A mera visão de O’Brien embaixo da minha pele, gemendo com a boca entreaberta, me enchia de tesão e de saudade.
A parte da saudade me surpreendia, na verdade. A princípio, eu achava que depois da foda ela seria esquecível, contabilizada como mais uma conquista de bar, ou, nas palavras dela, “o último erro que eu cometi”.
Mas eu não a esqueci.
Tampouco achei que ela fosse um erro.
As interações que tivemos foram poucas, mas marcantes o suficiente. Eu já a admirava só pelo fato de ela assumir a responsabilidade de salvar a empresa da família sem titubear; descobrir quem ela realmente era só adicionou uma nova camada de fascínio à situação. A palavra era essa, fascínio. Eu estava fascinado pela . Não a conhecia muito, mas, do pouco que eu conhecia, eu gostava. Ela tinha fibra, vontade, gana. Nas duas vezes em que nos encontramos, deixou bem claro o que queria e quem era. Mostrou a que veio, me usou como quis, e fez questão de que eu soubesse disso quando saiu sem me dizer o nome, quando me deixou com as costas marcadas e a cueca manchada de batom num quarto de luxo.
É claro que uma única noite era pouco para aprendê-la de fato. Ela ainda era um mistério a ser desvendado, um lugar secreto onde eu fui parar vendado, de mãos atadas e sem saber como. era uma estranha que me concedeu o maior ato de intimidade quando me permitiu desfrutar do corpo dela —
do maravilhoso corpo dela —, e todas as sensações daquele sexo ficaram impressas na minha memória e na minha pele viciada. Eu não parava de pensar no som da respiração entrecortada, nem na cara de prazer, a mais linda que eu já tinha visto. Eu não parava de pensar em como ela preferia ir por cima, porque a perna dela tremeu mais quando ela gozou assim...
E eu não parava de pensar em tê-la de novo. Mas, obviamente, ela teria que consentir.
Ela teria que querer.
Ela teria que me pedir.
E foi com esse cenário mental que eu diminuí a água, decidido a me aliviar sozinho.
⚔️
Vesti uma das minhas melhores camisas sociais pensando em qual perfume usar, quando o toque do meu celular ecoou pelo quarto. Era uma ligação de um número que eu não tinha registrado ainda, mas a voz do outro lado da linha era inconfundível. Tinha um tom de irritação que eu adorava ouvir.
E era em quem eu estava pensando no chuveiro minutos atrás…
—
? — perguntou assim que atendi.
— Uau. — pus a ligação no viva-voz para terminar de me aprontar. — Quanta frieza pra falar com o seu futuro marido. Precisamos de um apelido carinhoso, baby.
—
Bom dia pra você também, docinho. — ela disparou, sarcástica.
— Docinho. — repeti. — Eu gostei. Agora tenta mais uma vez, sem a ironia.
—
Você já saiu de casa? — me ignorou.
— Ainda não. — analisei meus vidros de perfume enquanto falava. — Por quê?
—
Estava pensando em passar aí antes do trabalho para ver como vai a reforma.
— Ah, docinho, se você está com saudades de mim, não precisa ficar inventando desculpas. — me decidi, enfim, por um musk amadeirado. — É só aparecer.
O suspiro de impaciência que ela soltou me arrancou um sorriso triunfante. Deu pra sentir os olhos dela rolando.
—
Eu posso ir ou não?
— É claro que pode, essa casa também vai ser sua. — borrifei o perfume nos pulsos. — Mas venha no personagem. Kira está aqui.
—
Kira?
— Ficou com ciúmes? — sorri outra vez.
—
Da sua babá? Essa é boa.
— Kira não é minha babá, ela é minha diarista barra cozinheira. E ela só vem aqui duas vezes na semana.
—
Babá. — ela insistiu.
— Como você sabe sobre a babá? — sacudi a cabeça. — Sobre a Kira?
—
Eu fiz meu dever de casa. Se vamos brincar de marido e mulher, esse é o tipo de coisa que eu preciso saber, não acha?
— Andou me estudando? — arrumei os brincos. — Que esposa dedicada!
—
Guarda o açúcar pra quando estivermos na frente da Kira, por favor. A propósito, como eu faço pra ela ir com a minha cara? Preciso que ela goste de mim.
— Me cubra de amor e elogios. Kira sempre quis me ver casado com uma mulher que cuide de mim tão bem como ela.
—
Ou seja, uma babá.
— O que o meu docinho gosta de comer no café da manhã, hm? — foi a minha vez de mudar de assunto. — Kira com certeza vai me perguntar.
—
Não sabe as preferências da própria noiva na cozinha? — desdenhou.
— Eu só sei as preferências dela na cama. Ela gosta de-
—
Geleia de morango. — cortou. —
Eu gosto de geleia de morango.
— Interessante. Eu passo em você ou você passa em mim? Porque eu topo as duas coisas. — minha imaginação voou depressa.
—
Pro café da manhã, idiota. — ela pronunciou tudo com um ranço que me arrancou uma risada silenciosa. —
E um suco de laranja.
— Idiota? O que aconteceu com o docinho?
—
Troca o suco por um café bem forte, por favor. O dia mal começou e você já está me dando dor de cabeça.
— Você também, graças à sua reforma. — deixei o quarto e passei pelo corredor, o barulho aumentando a cada passo que eu dava. — Está ouvindo a trilha sonora?
—
Vai acabar logo. É só todo mundo me obedecer.
Lá estava, a mandona que me deixava tão fascinado.
Eu não via a hora de amansar aquela fera.
— Como quiser, senhora Arata. — desci as escadas. — Sua entrada já está liberada lá na portaria. Vem logo, eu estou faminto.
desligou com um “ok, tchau” e eu aproveitei para salvar o contato dela como “docinho”: um belo toque para enriquecer a farsa do nosso relacionamento.
Ou mais um item para a lista de coisas que irritavam a dona do apelido. Essa opção, obviamente, era a que mais me satisfazia.
Segui o cheiro delicioso de café e massa de bolo e encontrei a doce senhora que, há anos, era responsável por mim. Kira cuidava da minha alimentação, das minhas roupas e até da minha saúde, testando todas as receitas possíveis de chás calmantes para me ajudar a dormir, coisa que eu não fazia muito bem desde que tinha saído do Japão, há um bom tempo.
Eu sabia exatamente quando a insônia tinha começado. Eu tinha 18 anos e fui mandado para um país estranho, longe dos meus irmãos, dos meus pais e dos meus velhos amigos. Os novos que eu tentava fazer não duravam muito, porque ser herdeiro de um império como a Three Swords me distanciava das pessoas “normais” e atraía aquelas interessadas apenas no meu dinheiro. Depois de alguns meses tentando qualquer tipo de conexão verdadeira, eu me deparei com o triste fato de que eu estava condenado a ser sozinho.
Mas eu me acostumei bem rápido com isso. Eu só precisava me anestesiar com algumas doses rasas e momentâneas de
dopamina.
As mulheres com quem eu ficava e os caras com quem eu andava nas baladas eram só um paliativo, uma medida superficial para sedar um terrível caso de solidão extrema. Quando a farra acabava e quando a mulher que eu trouxe da festa ia embora, quem continuava comigo era a insônia, me lembrando que meu coração estava mais seco a cada dia.
Mais que isso, meu coração estava calado. O que não era exatamente uma coisa ruim agora que eu estava prestes a me casar numa decisão puramente racional, com alguém por quem eu não estava apaixonado.
Pelo menos não ainda.
A ideia de paixão para a nossa cultura era bem diferente da concepção ocidental, que tinha a paixão como algo avassalador, fatal, instantâneo. Nós pensávamos diferente. Meus avós uma vez me explicaram que os ocidentais se casam “com o fogo alto”, ou seja, no auge da paixão, com o relacionamento em chamas, fervendo da empolgação máxima. O problema é que o fogo alto se consome muito mais rápido e logo se apaga, baixando até se extinguir e virar uma fumaça morna.
E todos sabem que “morno” é uma temperatura insuportável para um casamento.
Por isso, nós, orientais, casamos “com o fogo baixo”. No nosso entendimento, é preciso acender o fogo, aumentá-lo dia após dia e, principalmente, mantê-lo. Alimentando a fonte do jeito certo, cultivando atitudes e observando detalhes, o amor construído e forjado no calor contínuo durará para sempre.
Bom, tudo isso segundo os meus avós. Eu não fazia ideia de como era amar alguém. Eu nunca tinha tentado de verdade.
O amor era uma entrega mais assustadora que a solidão.
— Me lembre de agradecer à sua noiva por essa adorável reforma no quarto de hóspedes. — Kira me despertou e começou a me servir como de costume: reclamando. — Agora, além de você, eu tenho uma fila de trabalhadores para alimentar. Pintor, marceneiro, decorador, pintor… que tanta gente é essa?
— Você disse pintor duas vezes. — aceitei o café. — Gostou dele, foi?
— Cala a boca e começa a comer. — ela colocou as frutas e o iogurte que eu gostava na mesa. — Meu ponto é: pra que ela precisa arrumar um quarto que ela nem vai usar? Ela vai dormir com você!
Engasguei com o gole. Com exceção de nós mesmos e nossos familiares mais próximos, ninguém fazia ideia de que o meu casamento com a era arranjado. Acontece que a falência iminente da O’Brien Group ainda era um segredo de estado, uma informação confidencial que deveria ser mantida assim a todo custo. Se os acionistas descobrissem que a Three Swords investiu numa empresa afundando, lá se ia o prestígio deles e a nossa credibilidade. Era preciso manter as aparências, fazer os outros acreditarem que o nosso casamento era motivado pelo nosso fogo altíssimo, e não pelo interesse mútuo nos negócios.
— Ela tem muita coisa. — contornei. — Roupa, bolsa, sapato… Vai ter que usar o quarto de hóspedes como closet.
Kira deu de ombros, acreditando na desculpa.
— Você vai ficar só no café? — ela olhou meu prato vazio. — Com aquele tanto de peso que você levanta na academia? Tá querendo morrer?
— Eu vou esperar a , ela vem tomar café comigo.
Cruzei os braços, prevendo a virada dramática de Kira. Ela fungou alto, emocionada, e sequer tentou disfarçar a cara de choro.
— Sabe, depois de tantos anos vendo você comer sozinho, é uma alegria finalmente colocar outro lugar à mesa. — a confissão dela foi tão genuína que eu quase me senti mal por estar envolvendo-a naquilo tudo.
— Então você não está arrasada por me perder para outra mulher?
— Eu estou
surpresa que você tenha conseguido uma mulher, já que eu nunca vi nenhuma aqui!
Kira tinha razão, nenhuma das minhas “namoradas” tinha conseguido a proeza de ser apresentada a ela, ou de dividir um momento tão íntimo como um café da manhã, a primeira refeição do dia. Era uma escolha consciente. Não queria ninguém tocando na solidão com a qual eu estava tão acostumado.
Acomodado, na verdade. Estar sozinho era familiar e seguro.
Mas O’Brien estava chegando para me tirar da minha zona de conforto.
—Temos geleia de morango, Kira? — perguntei enquanto ela posicionava as louças. — É a favorita da minha noiva.
— “Noiva”. — Kira bufou. — Não sei que noivado é esse que ainda não teve nem anel nem pedido.
Tive outra pequena indigestão e o café quase voltou mais uma vez. tinha sido bem enfática quanto a odiar diamantes e a ideia de um pedido cafona e espalhafatoso, mas fazê-lo era uma parte importante da trama. Assim como a Kira, outras pessoas iam nos perguntar sobre esse momento, iam querer ouvir a história, iam pedir para ver a aliança…
Se as pessoas queriam um show, então eu daria isso a elas. E à minha doce novinha, que detestaria cada segundo.
Ri sozinho enquanto voltava à xícara, sentindo um gosto doce no sentido literal e figurado. Deixar O’Brien irritada era a cereja no topo do bolo.
— Você acabou de me dar uma ótima ideia, Kira…
A campainha tocou e impediu que Kira, curiosa e intrometida, fizesse um interrogatório sobre o meu plano. Em vez disso, ela se apressou em abrir a porta para , que se apresentou toda confeitada e polvilhada de açúcar. Eu ainda não tinha visto esse lado extremamente simpático dela, tudo o que ela tinha para mim era sarcasmo e uma certa raiva inofensiva.
Ao que parecia, eu a deixava à flor da pele. E eu achava aquilo muito divertido.
— Bom dia, docinho. — levantei para recebê-la com um abraço e um beijo no rosto que ela teve que aceitar porque Kira estava olhando. — Dormiu bem? Sonhou comigo? — segurei ela pelo queixo.
— Sempre,
docinho. — ela fechou os olhos e formou um círculo perfeito com a boca antes de dar um espirro.
Pequenininho e fofo. Fofíssimo.
— Oh, querida, está resfriada? — Kira lamentou, já preocupada feito uma mãe com a moça que acabara de conhecer.
— Não, tudo bem. — espirrou mais uma vez. — É só alergia.
Kira recomendou um de seus famosos chás cura-tudo e se enfiou na cozinha para prepará-lo. Assim que ela sumiu de vista, me empurrou e coçou o nariz.
— Você tá usando Tom Ford?
— Só pra você. — confirmei, assistindo a pontinha do nariz dela ficar vermelha.
— Eu tenho alergia a esse perfume. — ela revelou. — Joga fora ou você vai ficar viúvo antes do casamento.
— Adoro quando você manda em mim. — provoquei.
— Falando em mandar, se importa de me acompanhar até o quarto?
— Se você quiser, eu dispenso a Kira e nós fazemos aqui mesmo.
— A obra, . — respirou fundo, estressada. — Eu quero ver a obra.
— Os operários estão no intervalo. — observei a movimentação do lado de fora da casa, nos fundos. — Mas você pode inspecionar tudo e gritar com eles depois. Por aqui, por favor. — indiquei o caminho e subimos.
entrou no quarto analisando todos os detalhes com um rigor quase militar. Testou as luzes (ela mandou trocar as frias por quentes), avaliou a pintura já seca e sem cheiro forte e, depois de muito procurar do que reclamar, finalmente achou, apontando uma bucha de parafuso na parede.
— Aqui. — ela indicou. — Eles furaram no lugar errado. Eu disse mil vezes que quero o espelho do outro lado.
— Tenho certeza de que deve ter uma explicação para isso. — disse da porta.
— Tem, eles são homens. — alternou o olhar entre a parede “certa” e as ferramentas no meio do quarto vazio. — Eu dei muitas ordens e homens não entendem mais de uma coisa ao mesmo tempo.
— Ainda assim, eu acho que… — parei de falar quando decidiu pegar um martelo e um prego, entrando também no quarto atrás dela. — Ei! Larga isso, você pode se machucar.
— Não se preocupe, docinho. — a voz dela ecoou e ela caminhou até a parede com os utensílios. — Eu sei usar isso, só quero marcar o lugar certo.
— , esses caras são profissionais, se eles não furaram onde você pediu deve ser porque-
A primeira martelada encobriu meu protesto, mas não se deu por satisfeita. Continuou enterrando o prego na parede até atingir um cano, que estourou e começou a derramar água.
— Porque existe um bom motivo. — completei, vitorioso.
soltou um pequeno grito, incrédula e enfurecida. A água era corrente, o que fazia com que ela escapasse numa velocidade e quantidade bem grandes mesmo para um furo tão pequeno, e eu me deliciei assistindo minha noiva se desesperar para conter o acidente.
— Para de rir, vem me ajudar! — ela tentava, sem sucesso, tapar o buraco com as mãozinhas pequenas e delicadas.
— É pra parar de rir ou pra te ajudar? É que eu sou homem, não entendo mais de uma coisa ao mesmo tempo.
— ! — ela resmungou, já com a camisa de seda encharcada.
— Sempre molhada e pedindo por mim.
— Você é impossível. — o jato esguichou bem na altura do rosto dela, deixando-a ainda mais zangada. —
Inlidável.
— Acho que essa palavra não existe. — me aproximei, rindo.
— Acabei de inventar. — uma mecha de cabelo molhada grudou na testa dela. — Significa impossível de lidar. Vou colocar num dicionário como sinônimo para “”.
— Você bem que mereceu esse banho, sabia? — afastei o cabelo dela dos olhos, colocando-o atrás da orelha. — Mas aguenta aí que o seu maridinho vai te ajudar.
Comecei a desabotoar a blusa de baixo para cima e tentou ficar alheia à abertura que expôs meu peito e abdômen, mas quando eu me livrei totalmente da peça, despindo os braços da manga comprida, ela falhou em segurar um suspiro e errou o ritmo da respiração.
Pelo visto eu não era o único com saudade.
— É sério isso? — ela acompanhou meu movimento.
— Desculpa, você prefere deixar seu quarto virar uma piscina? — amassei a camisa contra o vazamento.
não respondeu, somente recuou um passo, colocando-se atrás de mim enquanto eu segurava a água. De todas as ações que eu esperava que ela tomasse naquele momento, ela escolheu uma para a qual eu não estava preparado.
Sem aviso, ela deslizou os dedos finos pela base das minhas costas, subindo até o meu trapézio e me provocando um arrepio. Tremi com o toque, reconhecendo e gostando dele, e uma gostosa sensação de vertigem começou a tomar conta de mim.
— O que houve com as suas costas? — ela contornou os arranhões cicatrizando.
—
Você. — ri nasalado. — Não se lembra?
— É. Eu não pretendia lembrar. — ela parou o carinho e meu corpo achou ruim.
— Você é tão romântica! — zombei. — Agora vai lá fora, avisa a Kira e fecha o registro. Vai.
— Não usa esse tom comigo! — me deu um tapa no mesmo lugar que ela tinha acabado de alisar.
— Calma, nervosinha. Esfria essa cabeça. — soltei uma parte do tecido e deixei outro jato de água esguichar nela.
deu um pulo e esfregou o rosto bem devagar, decidindo como reagiria à brincadeira: relevando ou deixando o demônio sair.
Era hi-lá-rio vê-la possessa.
— Nós não vamos sobreviver a isso. — ela sentenciou.
— Ah, vamos sim, a água não vai alagar tudo. — sorri. — E se acontecer, eu sei nadar.
saiu batendo os pés e eu soltei uma sonora gargalhada. Ela tinha cometido o erro de se revelar cedo demais, eu já sabia direitinho como enlouquecê-la. Talvez eu tivesse um talento natural para tirá-la dos eixos e aquilo me dava cólicas de riso.
Levou poucos minutos para e Kira fecharem o registro e eu poder soltar a parede, contemplando o quarto semi-inundado. Antes que eu conseguisse pensar em como enxugariam aquilo tudo, reapareceu na porta com uma cara de cachorrinho arrependido e abandonado na chuva.
Meus lábios se torceram e explodiram em mais um ataque de riso quando a vi.
— Eu te odeio. — ela puxou a toalha que trazia no ombro.
— Obrigado. A propósito, você está linda. — dei meu sorriso mais galanteador.
revirou os olhos e arqueou o pescoço, enxugando algumas gotinhas acumuladas no colo. Era um gesto irresistível, e um decote mais irresistível ainda.
— Por que você não tira uma foto? — ela percebeu meu estado hipnótico e me jogou a toalha. — Vai durar mais tempo.
Sequei as mãos e meti uma delas no bolso da calça, procurando meu celular.
— Não se atreva! — ela me repreendeu.
— Desculpa. — pisquei, esfregando o peito sob o olhar atento. — É que eu já estou ficando acostumado a obedecer você.