“Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado”.
Caetano Veloso – Queixa.
Nada parecia funcionar muito bem naqueles dias. Malu tentou resistir ao charme atrevido de Calebe. Ele, por sua vez, tentou resistir aos olhares convidativos da garota. Durante o dia, era como se eles fossem dois estranhos, aqueles mesmos coleguinhas de infância que tinham esquecido da existência um do outro. E durante a noite – quase sempre de madrugada – era como se fossem um casal.
Aquele casal que descobriram o sossego nos lábios um do outro na noite de ano novo.
Ele tinha um plano e, inicialmente, era não deixar ela o dominar. Tolice, pois ela sempre o dominava, mesmo que ela não tivesse muita noção do que fazia com ele. Maria Luiza frustrava todas as expectativas que ele já tivera em relação a alguém. Ele achava que após os amassos no ano novo, nada aconteceria. Porém, já estava quase chegando o carnaval e ele ainda se via tentado a mandar mensagem para ela toda noite.
E tentou muito se prender a outras, chegando ao ponto de sair beijando geral, mas tudo ia por água abaixo quando seu celular vibrava e na tela surgia uma nova mensagem dela dizendo: Oi, tá por onde?
Malu tinha como plano não se envolver com ninguém, principalmente com Calebe. No momento, seus únicos planos envolviam estudos e o maldito vestibular. E sem falar que ficar com Calebe significava estar em um relacionamento com direito a plateia e interação de todo mundo que se achava no direito de se meter na vida do garoto simplesmente por ele ser... Bom, por ser o Calebe.
Porém, a carne de Maria Luiza era fraca e o coração de Calebe era vagabundo. Então, em uma terça-feira qualquer, se encontraram na parada de ônibus e ele a acompanhou até sua casa. E mesmo que sem querer muito, acabaram se beijando.
E naquela quinta, após o futebol da rua, se encontraram na barraca de hot dog e quando a noite caiu, Malu pediu que ele a acompanhasse até a parada de ônibus. E se beijaram de novo.
E aconteceu de novo na quarta, na sexta de manhã, no domingo de tarde, na segunda de noite.
Ninguém sabia o que acontecia entre eles, seus amigos achavam que eles eram colegas de rua ou, até mesmo, apenas vizinhos. No fundo, nem eles sabiam muito bem o que estava acontecendo. Não tinha como negar que eles estavam lotados de sentimentos e ignoravam por motivos diferentes. Ela fugindo “da lista” e ele simplesmente aderiu a forma dela de “ficar”. Era melhor do que não ficar, certo?
– Na moral, Alanne, só você pra me fazer sair de casa hoje. – Malu reclamou ao entrar no local da festa, arrumando seu macaquinho vermelho, curto e de alcinhas, do jeito que ela amava usar.
Um galpão abandonado, que fora transformado em salão de festas, promovia toda sexta-feira, o famoso forró universitário. Maria Luiza não ia muito a essas festas. Mesmo após o momento emocionante e fragilizado protagonizado pelas duas na virada do ano, sua relação com Andréia – sua mãe – não havia mudado muita coisa, só que agora Malu sabia o quão triste e sofrida sua mãe estava, por isso se tornava mais difícil ainda ter uma juventude badalada. Sentia-se culpada e preocupada por deixar a mãe sozinha em casa nos finais de semana.
– Amiga, você só sai daquela casa uma vez por mês. – Reclamou, guardando a carteira de identidade na bolsa e puxando Malu pelo braço até chegar ao bar. – Não custa nada se divertir um pouco! Eu vou até pagar tua cerveja, olha! – Brincou, mostrando algumas notas de dinheiro a amiga.
– Dinheiro não é exatamente o problema...
– Sua mãe tá bem, Malu! Ela disse pra você sair, não foi? – Interrompeu, indagando-a e vendo a amiga assentir levemente. Quando perguntou timidamente para a mãe se estava tudo bem se ela saísse naquele dia, Andréia apenas deu de ombros e a mandou levar a chave de casa, pois não queria acordar de madrugada para abrir a porta para a menina. – Hoje é sexta, amiga. Eu tenho certeza de que você vai passar as próximas semanas enfiada em casa, estudando, e só vai sair de novo talvez quando chegar o carnaval. Então, aproveita!
Maria Luiza suspirou e sorriu após ouvir o pequeno discurso de uma Alanne bem convincente. Sentia-se agraciada por ter conquistado essa amizade. Alanne era uma garota muito especial e conhecia Malu o suficiente para saber a hora de insistir e a hora de parar. Ela pegou o copo da mão do vendedor e entregou a Malu. Olhando em volta, com a boa música, o ambiente agradável, animado e um luar invejável, ela pensou: “por que não?”
A garota olhou em volta, balançando o corpo no ritmo da música e foi quando seus olhos encontraram um foco que fez sua garganta secar tanto que ela precisou dar uma boa golada no líquido gelado em seu copo.
Precisava ele estar bonito, sorridente e com aquela maldita covinha que quase explodia quando ele ria?
Diferente de Malu, que quase não saia de casa, Calebe era um participante ativo das festas da cidade. Ia quase todas as sextas, sendo aquele o local onde encontrava a maioria das suas “distrações do problema principal”, que era como ele tinha nomeado as garotas que se envolvia para diminuir o peso de Maria Luiza em sua vida. Afinal, tinham ficado poucas vezes e ele já sentia menos vontade em ficar com outras pessoas.
Imagine sua decepção e surpresa ao encontrar Maria Luiza encostada em um pilar do local ao lado de Alanne. Ela dançava lentamente ao som de algum novo sertanejo que ele desconhecia, parecendo perdida em pensamentos.
– Sua gata tá aqui. – Vinícius comentou discretamente assim que encontrou Calebe, mas ele já estava sabendo da notícia, tinha visto com seus próprios olhos.
– E quem é minha gata? – Questionou, rindo, tentando disfarçar. A pouca relação dele com Malu ainda era desconhecida por todos, exceto para Vinicius, seu vizinho e um de seus melhores amigos, que tinha visto Malu e Calebe saindo da casa dele no ano novo. Não foi difícil a mente do menino criar toda a história em sua cabeça, partindo direto para a malícia.
– Ah, Calebe! Vai fingir pra mim, cara? Seu parceiro de vida, pô. Não vou te explanar, não! – O rapaz passou o braço pelo pescoço do amigo, rindo, já deixando evidente os traços do álcool em seu sangue.
– E você já tá alterado demais pra quem bebeu apenas quatro cervejas... – Segurou o amigo cambaleante no lugar, rindo da feição abobalhada dele.
– Eu vou no banheiro! – Exclamou, falando alto demais e sem necessidade.
– Quer ajuda? – Ofereceu, mas Vinicius negou.
– Não, tô tranquilo. – Balançou a cabeça e depois, em tom de alerta, murmurou no ouvido de Calebe: – Fica de olho na tua mina porque tá cheio de gente aqui que também tá de olho!
E foi trôpego aos fundos do local, onde se localizavam os banheiros, deixando Calebe rindo desacreditado e com uma breve dor de cabeça. Ele sabia muito bem que Malu despertava a curiosidade de alguns caras que ele conhecia e, às vezes, quando ouvia algum comentário, ele tinha vontade de gritar aos quatro ventos que já tinha tocado aqueles lábios.
Entretanto, ele não era mais um menino de 15 anos, não tinha por que se expor e expor Malu daquela forma apenas para descarregar seu ciúme e acariciar seu ego.
– Finalmente, eu pensei que ele nunca ia sair daqui. – Calebe não passou nem quatro minutos sozinho quando ouviu uma voz falando por cima de seu ombro. Virou a cabeça, vendo que uma garota ruiva o olhava, sorrindo maliciosa e o encarando. – Ele é teu namorado?
– Não, bem que ele queria. – Brincou, ficando de frente para ela, para ter uma visão melhor da garota.
– Que bom, posso te atacar sem me sentir culpada mais tarde. – Sorriu de lado com a ousadia da menina.
– Quer dançar? – Perguntou, esticando a mão para ele.
– Ah eu... Eu não danço, eu não sei. – Ela respondeu, negando com a cabeça.
– Vem, eu te ensino. Sou bom nisso e em muitas outras coisas, caso você se interesse. – Sorriu, flertando. Ele teria que se esforçar muito para se distrair da presença de Malu com ela estando tão próxima dele. – É só você me acompanhar.
O azar de Calebe naquela noite foi quando ele girou no local e acabou ficando de frente para Malu, que no outro lado do salão, encarava a cena. Sem expressão, apenas olhava os dois dançando com extrema curiosidade. Calebe engoliu em seco, forçando-se a virar de costas apenas para não ter que lidar com aquele olhar.
No meio da festa, Malu se sentia como uma verdadeira fracassada, bebendo e assistindo Calebe trocar de parceira como ela trocava de copo. Já sentia a cabeça pesada e sua visão começava a ficar turva. Ela até aceitou uns convites para dançar, mas preferia mil vezes encostar no balcão, com sua bebida em mãos e dançava apenas quando curtia realmente a música.
Olhou para o lado vendo Alanne dançar agarrada em um cara alto. Ela rolou os olhos, gostava de dançar, mas estava especialmente chata naquela noite. Se isso tinha algo a ver com Calebe, não sabia dizer.
– Amiga! – Chamou, cutucando o ombro da garota.
– Tô ocupada, Malu! – Alanne gritou de volta, tentando manter-se concentrada na conversa com o rapaz a sua frente.
– Eu quero ir embora! – Reclamou, fazendo bico e puxando Alanne, que respirou fundo para não brigar com a amiga ao ver que ela já estava bêbada. Pediu desculpa ao homem que tentava falar com ela e se afastou com Malu.
– Tá muito cedo, Malu. – Puxou o celular, procurando saber da hora.
– Tô entediada. – Resmungou, batendo o pé.
– Vai dançar! – Sugeriu, percorrendo o local com o olhar e avistando os garotos da rua de cima, principalmente seu grande amigo, que ria de alguma palhaçada de Vinicius. – Olha os meninos ali! Vamos lá, o Calebe tá ali também.
– Não! – Malu cobriu os ouvidos e fechou os olhos, como uma criança com medo do escuro. – Não fala o nome desse garoto!
– Do Calebe? – Questionou, obrigando Malu a fazer outra careta e Alanne rir. – Por que? Achei que vocês eram amigos, aquele dia no ano novo...
– Que você sumiu com o Pedro Paulo, sua ridícula? – Exclamou.
– Quando eu voltei, você que tinha sumido! – Retrucou, puxando Malu pela mão em direção aos rapazes em roda.
– Fui dormir, você deu chá de sumiço! – Deu de ombros, envergonhada com a própria cara de pau.
Era mentira, ela não tinha ido dormir. Enquanto Alanne e Pedro Paulo se esgueiravam pelos becos adjacentes, tentando passarem despercebidos até chegarem na casa dele, Maria Luiza ainda estava no sofá de Ana, sentindo as mãos de Calebe passeando por debaixo do seu vestido enquanto trocavam beijos cálidos.
– Oi, lindos! – Alanne cumprimentou, empolgada, jogando-se nos braços de Calebe, abraçando-o fortemente. Malu rolou os olhos, indo cumprimentar os outros rapazes.
– Vocês nem pra avisar que iam aparecer aqui, né? – Tiago reclamou, dando um beijo no rosto de Malu.
– Eu também não sabia que viria. – Resmungou, trocando um abraço rápido com Vinicius. Paralisou quando percebeu que Alanne havia liberado Calebe, o que significava que ela teria que falar com ele.
– Caraca, Alanne! Que poder é esse, hein?! – Vinicius não se conteve e, impulsionado pela coragem do álcool, elogiou toda a beleza de Alanne, que gargalhou com a sinceridade e embriaguez do rapaz.
Malu também riu e disfarçando, resolveu agir espontaneamente, cumprimentou Calebe da mesma forma que falou com os outros rapazes. Ela apenas se esticou, apoiando-se nos ombros dele e beijando seu rosto rapidamente, mas Calebe a desestabilizou quando encaixou as mãos em sua cintura e murmurou em seu ouvido “cê tá linda hoje” e a afastou com a expressão neutra, como se nada tivesse acontecido. Ela rolou os olhos, beliscando a bochecha dele levemente e cortou o contato com ele, afastando-se.
– Amiga, é o nosso momento!
Alanne puxou a amiga pela mão ao ouvir as tradicionais batidas de funk que animaram a festa de vez, deixando todos mais do que empolgados. Malu gargalhou, jogou seus cachos para trás dos ombros, colocou as mãos no joelho e se preparou para dançar e rebolar da melhor forma que sabia.
Após algumas rodadas intensas de dança e muitas risadas patrocinadas por Vinicius – que fez todo o grupo gargalhar ao revelar seus passos de dança divertidos, sendo na maioria das vezes apenas uma imitação zoada do jeito que as meninas dançavam –, a sede bateu e a maioria dos copos estavam vazios.
Calebe e Tiago se responsabilizaram por irem ao bar e logo se afastaram. Malu e Alanne se sentaram no guarda corpo de madeira que tomava o local, finalmente descansando após muito tempo dançando e rindo exageradamente.
– A melhor coisa que aconteceu foi a gente ter encontrado esses meninos aqui. Olha isso! – Alanne comemorou e apontou rindo para Vinícius, que conversava com uma garota. Ela ficaria surpresa se a menina caísse no papo dele.
– Sim! Nossa, como são divertidos... – Malu comentou, prendendo os cabelos no alto e abanando o próprio pescoço com as mãos.
– Ei, você percebeu? – Perguntou, chamando a atenção de Malu, que negou com a cabeça. – Eu tenho certeza que o Calebe tá afim de você!
– C-como... Por que cê acha isso? – Malu abriu e fechou a boca várias vezes sem achar o modo certo de perguntar, ficando nervosa sem motivo, já que ela não tinha problemas em contar para Alanne. Sabia que talvez ele não quisesse explanação, mas era sua amiga e iria contar. Ela tinha certeza de que algum amigo dele também devia saber que eles andavam se encontrando por aí.
– Amiga, você não viu o jeito que ele tava te olhando. – Contou, mexendo nos longos cabelos loiros.
– Tá, eu preciso contar ou eu vou explodir. – Coçou a testa, incomodada.
– O que foi? – Questionou, confusa. Malu ergueu uma sobrancelha e fez um gesto explicativo com as mãos. – Não tô enten... Você tá pegando o Calebe?!
– Fala baixo, garota! – Reclamou, disparando um tapa no braço da amiga, que abriu a boca em choque com a revelação da amiga. Já tinha visto os dois sendo amigáveis um com o outro, mas pouquíssimas vezes. Ela nunca nem tinha visto eles se falando em dias normais. – Não é pegando, pegando. A gente tá... Ai, não sei explicar.
– Como assim? Desde quando? Como eu só soube disso agora, Maria Luiza? – Indignou-se, cruzando os braços.
– É porque eu não sei se tô ficando mesmo, a gente se beijou uma... – Parou para pensar e continuou. – Duas... Na verdade, três... Bom, talvez, quatro porque teve o dia em que ele foi lá na porta de casa e...
– Amiga, vocês estão ficando real! – Riu, embasbacada com a novidade. – E vocês já...? – Malu negou com a cabeça, mordendo os lábios. – Você e o Calebe, caraca! Como eu não vi isso acontecendo?!
– Eu não sei, Alanne! Eu não entendo nada quando o assunto é o Calebe. – Suspirou, quase frustrada.
– Amiga, cê tá gostando dele? – Indagou, curiosa.
– Eu não sei, Alanne, que saco! – Reclamou e bateu o pé no chão de forma infantil, fazendo a amiga rir. – Não quero e nem posso pensar nisso agora, vou no banheiro. – Alanne gargalhou, vendo sua amiga balançando seu corpo em direção ao banheiro.
Malu e Calebe, quem diria?!
Alanne sentiu seu celular vibrar na bolsa e o sacou, sorrindo e mordendo os lábios ao ver o destinatário da direct no Instagram: @pedropaulo29. Na mensagem, ele havia enviado um print de um stories de Vinicius, onde ela aparecia dançando de costas ao lado dos dois rapazes e questionava aquela amizade. Ela gargalhou, preparando-se para respondê-lo.
Pedrinho, lá de Brasília, mexia com o coração da bela Alanne.
જજજજજજજજજજજજજ
Calebe fora (novamente) interceptado pela ruiva – que ele descobriu que se chamava Bianca – assim que voltou para deixar as bebidas com as meninas. Estranhou encontrar Alanne sozinha, mas teve sua atenção desviada quando Bianca apareceu novamente ao seu lado.
E tudo bem que estava loucamente afim de Malu e estava completamente hipnotizado pelo balançar de seus quadris durante a noite inteira, mas isso não o impediria de dançar e trocar uns beijos com a ruivinha bonita.
Batendo os pés no chão, impaciente, Alanne olhava em volta sem receber nenhuma aproximação de Malu. O banheiro não era tão longe assim, a garota já devia ter voltado. Quando Alanne fez menção de se afastar a procura da amiga, ela notou Calebe abraçando uma garota pela cintura e fez uma careta.
Calebe era solteiro e a menina tinha anos de amizade com ele o suficiente para saber que Calebe amava garotas e dar em cima, conhecer em festa e ficar distribuindo beijos por aí, como um bom galanteador que era. Mas agora que ela tinha sentido um “quê” de hesitação em Malu, sua melhor amiga, ao responder se gostava ou não do menino, ela teria que invocar seus poderes como amiga do novo casal.
– Calebe! – Alanne chamou, sem se importar de estar atrapalhando o suposto caso dele.
Ele não pegaria outra enquanto estivesse ficando com sua melhor amiga, não em sua frente.
– Fala! – Suspirou, torcendo a boca, vendo Bianca também estranhar a forma abusada que a menina invadiu o espaço deles.
– Cê viu a Malu? – Todos os instintos dele se acenderam quando ouviu a proferida frase. Se Alanne estava perguntando, é porque não sabia onde ela estava. – Ela disse que tinha ido ao banheiro, mas até agora não voltou.
– Vou lá ver. – Falou, quase interrompendo a fala de Alanne e deixando a ruiva só, sem pensar duas vezes.
Alanne quase riu com a feição chocada da mulher, mas sentiu pena por ela ter sido facilmente trocada e disse: – É a irmã dele.
– Ah, fala pra ele me encontrar no bar. – A garota sugeriu.
– Claro que sim.
Claro que não falaria. Malu e Calebe eram seu novo casal preferido e se fosse possível, deixaria qualquer garota festeira longe deles.
Calebe foi em direção ao banheiro feminino e não precisou andar muito para encontrar Malu. A morena estava encostada atrás de um pilar, mexendo no celular. Quase não era possível reconhecê-la, mas Calebe havia passado tempo suficiente estudando a garota para reconhecer apenas parte da perna esticada da garota. Malu estava com os cabelos presos em um coque, estava com os olhos demonstrando uma leve embriaguez e mexia na ponta da roupa que vestia incessantemente, mexendo com os pensamentos impuros do garoto de dezoito anos.
– Alanne está louca atrás de você. – Chegou por trás, murmurando em seu ouvido e causando um leve pulo de susto em Malu, que não havia notado sua presença até aquele momento. – Você tá bem?
– Só tô tentando chamar um Uber. – Respondeu, suspirando.
– Não vai embora só, não é? – Questionou, balançando a cabeça negativamente.
– Acho que sim. Alanne quer ficar, mas eu tô bem cansada. – Bufou, irritada com o próprio celular que não cooperava em ajudá-la na missão de ir para casa e deixá-la bem longe de Calebe. – Minha internet tá horrível!
– Eu peço pra você. – Avisou, puxando o celular do bolso. – Quero acompanhar a corrida. – Calebe olhou as horas e suspirou, preocupado. Não queria deixá-la sozinha. – É melhor você chamar a Alanne, já tá muito tarde pra você ir só.
– Eu sei me cuidar, Calebe. – Respondeu, desaforada.
Estava envergonhada por tratá-lo assim e não sabia o porquê. Ele não havia feito nada de errado. Pelo contrário, Calebe nunca a tratou mal ou lhe faltou com respeito. Ele desviou a atenção do celular, olhando-a quando reconheceu o tom de voz irritado.
– O que eu fiz? – Perguntou, assustado.
– Nada, desculpa. – Sorriu sem graça e esticou a mão, tocando em seu braço, afagando suavemente. – Eu tô meio estranha hoje.
– Só hoje? – Brincou, desviando de uma tapa da menina. – Você é um caso sério de loucura, isso sim.
– Sou, é? – Ele levantou a cabeça, suspirou ao ver o sorriso ladino e provocante dela. Guardou o celular no bolso e pôs as mãos em seu quadril.
– É, sim. Você é um caso sério de loucura, de beleza... – Levantou o dedo indicador e disse cada palavra contornando os lábios dela. Refletiu por um segundo e parou subitamente no seu lábio superior. – Você é um caso sério, Maria Luiza.
Ousava dizer que nunca tinha acontecido de ela ficar completamente hipnotizada e presa no olhar de alguém. Tudo nele a atraia e ela não queria mais se negar a isso.
– Me leva em casa? – Pediu, impulsivamente. Calebe suspirou, quase sentindo-se derrotado, mas assentiu, concordando.
Havia passado a noite inteira com outras, mas, de alguma forma, lá no fundo, ele sabia que iria acabar na casa de número 200. Novamente.
───────◇───────
“Você disse que não sabe se não,
mas também não tem certeza que sim.
Quer saber?
quando é assim, deixa vir do coração”.
Se – Djavan
Buraco de minhoca é um conceito da física cuja definição científica eram “túneis” que uniam pontos distantes no espaço, um atalho entre o espaço-tempo do universo. Naquela madrugada de sábado, o quarto de Maria Luiza tornou-se um buraco de minhoca.
Sua cama havia se tornado uma galáxia só deles. Malu era o sol e Calebe era simplesmente um planeta que precisava dela para se aquecer. Era dois corpos celestes, tentando compreender a atração monumental que os unia. A química, a física, a biologia não faziam sentido naquele momento.
Chegaram na frente da casa dela e Calebe se viu como um servo quando, sem ao menos questionar, se deixou levar pela mão da menina pelo caminho já conhecido até o seu quarto. E desde que chegaram, estavam presos em sua própria galáxia. Apesar de a menina estar mais quieta daquela vez, ela estava mais receptiva aos carinhos de Calebe.
Aceitou todos os seus beijos, riu de suas investidas divertidas e teve diversas iniciativas ao beijá-lo (costumava ser o contrário).
– Meu celular... – Ela avisou ao ouvir o som familiar de mensagem de texto chegando, empurrando o rosto dele para longe dela. Ele expirou, saindo de cima da garota e se deitando ao seu lado, impaciente.
alanne ✨
onde c táaaa
vc me deixou, otária??? 😡😡😡
tá com o calebe? ele sumiu, os garotos estão procurando por ele
– O que foi? – Perguntou ao notar a apreensão da garota encarando a tela do celular.
– Alanne querendo saber onde eu me meti. – Contou, mordendo os lábios, planejando esconder o resto da mensagem.
– E...? – Ergueu a alça do vestido caída no ombro dela.
– Perguntou de você. – Contou, bloqueando o celular e voltando a deitar-se na cama. Ele avaliou o rosto dela, retirando um fio de cabelo teimoso de sua testa e sorriu de lado. – O que eu respondo?
– Você que sabe. – Deu de ombros, abrindo um sorriso relaxado, acariciando o ombro dela.
Esconder ou não, não era necessariamente uma questão para ele. Só queria ficar com ela mais um pouco, curtir o que quer que eles estivessem tendo. Ela mordeu os lábios, pensativa, pegando o celular novamente e abrindo na conversa de Alanne.
malu: ele já foi pra casa
alanne ✨
eu SEI que não foi a maria luiza hahahahahahaha
mas td bem, vou assumir essa por vc
cuidado vocês dois aí hein 😏
– Ela sabe. – Malu gargalhou, jogando o celular no peito de Calebe, que também riu ao ler a mensagem descrente de Alanne.
– Claro que sabe. Alanne é minha amiga, sabe que eu não ia resistir a uma morena dessas... – Brincou, puxando Malu pelas pernas até conseguir posicioná-la em seu colo.
– Ah, é? – Desdenhou, puxando-o pela gola da camisa e fazendo-o sentar-se.
Ele beijou cada centímetro do rosto de Malu, tentando mapear cada pedaço da pele morena com seus lábios. Beijou seu pescoço do jeito que ele já sabia que ela gostava: lento e molhado. Se viu em um impasse, pois como das outras vezes, quando ele chegava próximo aos seus seios, ela o parava. Até aquele momento.
Ela o parou, parecendo apreensiva, o olhava fixamente. Ele sentiu o coração querer fugir do seu peito, pois nunca sabia o que vinha depois de ela o olhar daquele jeito. Malu passou a mão entre os cabelos, parecendo nervosa, porém, decidida. Sem desviar o olhar dele, ela levou as mãos até as costas, procurando o zíper de seu vestido.
– Malu, tá tudo bem se você não quiser... – Tentou intervir ao notar o nervosismo da garota.
– Não é isso. – Respondeu, segurando o vestido já solto no corpo. – Eu acho que nunca fiquei insegura com ninguém antes.
– Eu te deixo insegura? – Questionou, preocupado. Não era o sentimento que queria causar na garota e nem acreditava que tivesse feito algo para tal.
– Não é você... – Ponderou. Pensou antes de continuar, pois o garoto merecia uma explicação do porquê ela sempre o parava antes de aprofundarem as coisas. Respirou fundo antes de pensar em continuar e fechando os olhos para esconder que tinha ficado com vontade de chorar.
– Malu. – Pediu, quase suplicante. Passou a mão pela testa, sentindo seus nervos se alterarem em poucos segundos.
– Pode parecer idiotice, mas...
– Não é idiotice, se você estiver desconfortável, a gente não precisa fazer nada. – Assegurou, suavemente.
– Não, Calebe. Eu quero. – Ela afirmou, passando a mão pelos cabelos da nuca dele. – Posso pedir uma coisa? – Ele assentiu. – Tem problema se eu ficar de blusa?
Calebe estranhou o motivo de tamanha insegurança. Se ela se visse da forma como ele a via, não se sentiria desconfortável ou algo relacionado. Decidiu respeitá-la e não questionou seus motivos.
O tempo inteiro, Calebe fez questão de deixar Malu ciente de que eles poderiam parar a qualquer momento, também não tentou ver debaixo da blusa, apesar de que sua confirmação de que o problema era mais visual veio quando Malu guiou as mãos dele para debaixo da blusa. Ele estava receoso, mas ao contrário do que pensava, foi ela que o deixou confortável o suficiente para ele seguir em frente.
Foi assim que, diferente das outras noites, eles não pararam.
જજજજજજજજજજજજજ
– Então tenta não me provocar, que eu prometo não vou complicar... – Malu cantou, filmando a tela da TV enorme na parede do local, fazendo questão de frisar aquela frase em texto e postando direto em seus stories das redes sociais, tendo apenas uma visualização como objetivo.
Desde que Malu, enquanto voltava da aula, viu Calebe cheio de sorrisos para uma garota da vizinhança, ela vinha bloqueando a entrada dele na casa dela, ignorando-o no Whatsapp, deixando o garoto sem entender nada. Ela sabia que não tinha direito algum de cobranças, não tinham nada concreto e sério, mas se Calebe podia ficar distribuindo sorrisos e gracejos pelo bairro, ela também podia.
Foi assim que Malu acabou sentada na mesa de uma lanchonete no bairro com um cara chato, ouvindo um papo chato e comendo um hambúrguer gigantesco, pois alguma coisa boa tinha que sair daquele encontro que ela havia se metido por puro ciúme. Ao invés de fingir que estava interessada no assunto do rapaz ao seu lado, ela estava ocupada demais mandando indiretas na internet.
Com o alvo sendo atingido com sucesso.
– Olha aí, mãe! – Calebe esbravejou, mostrando o celular para a mãe. – Usando a Anitta pra me atacar, vê se pode!?
– O que você fez pra ela, hein garoto? – Ana gargalhou com a expressão indignada do garoto. – Mal começaram e já estão assim.
– Não começamos nada. – Negou, ainda revendo a postagem da menina, tentando descobrir onde ficava aquele lugar. – Cê sabe onde é isso?
Calebe não tinha intenção alguma de contar à mãe dos seus rolos com Maria Luiza, mas foi inevitável quando ela o encontrou chegando em casa às duas da manhã em plena segunda-feira.
Ele nunca fora muito reservado mesmo, além disso, queria evitar uma bronca colossal, então acabou comentando que estava na casa de Malu e, mesmo assim, acabou sentado no sofá ouvindo um longo discurso de sua mãe, que implorava para que ele fosse cuidadoso e respeitoso com ela. Diferente das meninas que o filho se envolvia, Ana realmente se importava com Malu e via a menina como parte da família, sem falar no seu receio com Andréia, que quando descobrisse que os dois jovens andavam tendo encontros pela madrugada a fora, ficaria uma fera.
– Deixa eu ver. – Ajeitou os óculos no rosto e afastou o celular para visualizar melhor a tela, já que os anos só pioravam a visão da mais velha. – É naquele Blue Burguer, que fica uns quarteirões daqui. A comida lá é uma delícia!
Foi como se uma lâmpada se acendesse na cabeça de Calebe.
– É? Quer um lanche de lá? – Perguntou inocentemente. Ana semicerrou os olhos, repreendendo-o com o olhar. – O que? Você que disse que é bom. – Deu de ombros, puxando o celular do bolso e indo em direção ao quarto.
Calebe
tá aí?
Vinícius 🚬
Fala 🤔
જજજજજજજજજજજજજ
– Cê já viu a Maria Luiza por aí? Ou Alanne? – Questionou, tentando vasculhar o lugar com os olhos, mas sem perder a discrição.
– Se eu soubesse que a tal missão era pra espionar as meninas, eu cobrava mais do que uma pizza... – Vinícius reclamou, abrindo a latinha de refrigerante e acenando para um dos atendentes do local.
– Eu já disse que vou pagar, fica de boa aí. Cê já viu elas? – Questionou, olhando em volta.
Sentia-se ridículo, fazendo algo totalmente sem noção, mas suas pernas quase o guiavam sozinho quando se tratava de Maria Luiza. Ele nunca tinha feito isso por nenhuma garota, sequer sabia por que tinha ido até lá. Queria encontrá-la? Queria que ela não o visse? Queria realmente espionar? Que diabos estava fazendo ali, afinal? Vinicius também olhou em volta, ajudando o amigo e arregalou os olhos quando encontrou os cachos de Malu.
– Ué, você não disse que ela tava com a Alanne? – Perguntou, apontando com a cabeça para a terceira mesa à esquerda deles.
– Eu achei que estava... – Comentou, descrente.
Ele realmente esperava vê-la com Alanne ou alguma amiga sua do cursinho, mas seu queixo quase foi no chão quando viu um cara totalmente desconhecido sentado ao lado da sua garota.
– Bom, já que eu vim até aqui, seria bom uma explicação da tua relação com a Malu, porque eu já não tô entendendo nada. – Vinicius implicou, rindo.
– Não tem relação, ué. – Deu de ombros, tentando desviar o olhar do casal na mesa do outro lado.
– Peraí, você me tirou de casa pra me pagar apenas uma pizza, eu vou ter que pagar minha própria bebida, não tenho a Alanne e ainda tenho que ouvir mentiras suas? A gente é parceiro, mas não abusa! – Calebe gargalhou, passando a mão pelo rosto, a timidez lhe abatendo de repente.
– A gente só ficou, cara. – Resolveu ser justo e contou uma versão nada mais que resumida dos fatos. Vinicius negou com a cabeça, descrente. – Que foi?
– Você pegou a Malu! Máximo respeito, meu capitão. – Fingiu uma reverência, gargalhando. Vinicius já sabia, mas precisava da confirmação. Será que o amigo já sabia que estava louco pela garota? Ou estava negando os fatos, não apenas para o amigo, mas para si mesmo. – E o que tá rolando?
– Nada, ela tem me ignorado, mas eu não sei o que eu fiz de errado. – Contou, frustrado, desviando o olhar para a mesa três.
– Ah, bem-vindo ao mundo dos meros mortais, Calebe! É assim que nós, homens, somos tratados. A solução é pedir desculpas. – Vinicius brincou, olhando no cardápio e escolhendo a pizza mais cara sem dó.
– Eu não sei o que eu fiz, nem se fiz algo errado, não vou pedir nada! – Calebe indignou-se. – Vamo logo acabar com isso, pede sua pizza aí!
Enquanto isso, Maria Luiza batia os pés no chão, impaciente. Agora que já havia comido, já estava indo para o segundo suco de laranja e a terceira porção de batata frita, Malu queria que passasse um tempo socialmente aceitável até que ela pudesse dar uma desculpa para seu acompanhante insuportável e saísse de fininho.
Também queria que o alvo de sua indireta falasse com ela. É claro que ela não responderia, mas precisava que ele estivesse ali. Enquanto isso, ela mandava mensagens de teor desesperado para Alanne, sua parceira de crime, que não estava presente.
alanne ✨
Amiga, não tem nem 1h HAHAHAHAHA
pede mais um lanche, sei lá
😡
Fungou, pesarosa. Seu olfato detectou um cheiro mais do que familiar, fazendo-a fungar novamente, confusa. Até se inclinou um pouco na mesa, tentando identificar se aquele cheiro vinha de André – que babujava algo sobre academia – e ela não havia percebido.
– Que perfume você usa? – Perguntou, interrompendo-o sem discrição alguma.
– Anh, e-eu não sei o nome.
– Engraçado, parece o… – Ela estranhou, murmurando e olhando em volta. Arregalou os olhos ao encontrar o dono do cheiro. Puta merda, ela realmente havia sentido o cheiro de Calebe do outro lado do local?! E o pior: Ele realmente estava ali! – Ér... Ninguém, pode continuar.
– Então, tudo melhorou quando troquei de academia... – Malu desligou-se totalmente do assunto, puxando o celular quase desesperada.
malu
AMIGA🚨
vem pra cá!!!
alanne ✨
tá doida malu?
claro que não
Malu
Calebe tá aqui, não quero que ele pense que tô sozinha com o André 😖
alanne ✨
ué, e eu vou ter que ir aí pegar o André por você?
não que seja muito esforço, sabe 😈
malu
alanneeee, por favor!!!😫
alanne ✨
ah amiga, tô aqui na casa da Gi
malu
traz ela!
alanne ✨
ai malu...vc se mete em cada uma e ainda me leva junto
malu
eu pago o lanche de vcs 😇
alanne ✨
aí sim! HAHAHAHAHA
tamo indo amiga, aguenta aí
– Ei, umas amigas estão vindo aqui, tem problema? – Perguntou, interrompendo o rapaz novamente. Ela sabia que Alanne a ajudaria e mesmo que não conhecesse a garota que estava com ela, sentia-se aliviada.
Receava que Calebe a visse com alguém e perdesse o interesse e a deixasse de lado. Pensando bem, ela havia, sim, agido no impulso, mas não foi para deixá-lo com ciúmes. Pelo contrário, preferia que Calebe nunca soubesse de André.
Ela só queria estar com a consciência tranquila de que não estava “sozinha”, já que Calebe também não estava. Não que fosse uma competição, mas ela não ia perder.
– Não, não, tranquilo. Eu só achei que a gente fosse sair depois daqui. – O rapaz completou, fazendo Malu erguer uma sobrancelha. Ele realmente achava que iria conseguir algo mais a sério mesmo que ela tenha passado o encontro inteiro no celular?
– Olha só, eu amo essa música! – Disfarçou, ignorando o comentário, apontando para a tela grande em que passava alguns clipes de música que animavam o ambiente.
André não era de todo ruim. Era um cara bonito e gentil, entretanto, era chato. Seu jeito era chato, sua conversa era chata, suas piadas eram chatas. Ou talvez Malu só achasse isso porque seu interesse real estava na mesa do outro lado do local.
– Eu só quero um resumo, só isso. – Vinicius insistiu.
– Cara, se você não entende minha relação com ela, eu muito menos! – Calebe brincou, mordendo a pizza.
– Mas quando começou?
– Mas que bela fofoqueira que você tá me saindo, hein? – Brincou, rindo de leve. – “Sepá” começou lá em mil novecentos e alguma coisa. Mas no geral, a gente ficou a primeira vez no ano novo e foi ficando e ficando...
– Bom, o carnaval tá aí. Se vocês passaram por ele ainda nesse “ficando e ficando”, tão salvo! – Assegurou.
– Eu quero ficar com ela, mas não sei não, depois de tudo que aconteceu com a Priscila, não sei se quero parar com alguém de novo. – Refletiu.
– Pera, o negócio tá sério assim?! Você já tá comparando com a Pri e pensando em ficar só com ela? Que porra, eu achei que era só um “fica”! – Vinicius riu, feliz. Depois de Priscila, o amigo nunca mais havia se interessado de verdade por alguém e ele ficava contente que esse alguém era Maria Luiza. Ele adorava a garota, mais ainda a amiga dela.
– Não! Eu só... – Calebe parou para pensar e ficou confuso. – Eu tô?
– Ah, agora sim vai ser divertido de assistir! – Vinicius gargalhou, recebendo um chute de Calebe, que estava tentando passar despercebido.
– Bem, como você disse, o carnaval tá vindo aí e logo tudo isso vai passar. – Tentou transparecer segurança, mas nem ele acreditou em si mesmo.
– Ou... – Provocou.
– “Ou” nada, fica quieto e... –
Foi um choque quando os olhares de Malu e Calebe se encontraram acidentalmente e não conseguiram desviar. Malu ergueu uma sobrancelha e fingiu que não tinha o visto ali, acenando de leve como cumprimento. Calebe nem ao menos tentou disfarçar, olhou para o acompanhante da garota bem visivelmente e rolou os olhos, balançando a cabeça.
A atitude malcriada e ousada do garoto fez Malu comprimir os lábios, segurando o sorriso. Esse jeito atrevido e desleixado de Calebe mexia com ela e com todas as meninas do bairro.
Calebe pegou o celular que repousava na mesa e procurou pelo stories provocativo que ela havia postado e resolveu responder. De todos os poucos aspectos do envolvimento dele com Malu, o que ele mais gostava era aquela provocação infantil entre os dois.
Malu riu ao ler na barra de notificação do celular, que Calebe havia respondido sua publicação e olhou para trás, encontrando Calebe ainda olhando-a. Não ia responder, ia deixar bem visível que estava o ignorando, mas não se conteve.
Calebe
Você tá fazendo oq? provocando ou complicando?
Malu
nenhum dos dois
apenas jantando
e você?
Calebe
Decidindo se eu devo esperar pra te carregar daí agora ou depois
malu
se vc me fizer passar vergonha eu vou contar pra tua mãe, Calebe 😡
Calebe
boa sorte explicando pra ela! 🙂
– Amiga! – Malu desviou a atenção do celular quando ouviu a voz de Alanne e quase suspirou de alívio ao ver a amiga indo em direção a ela.
– Oi!! – Jogou o celular na mesa e se levantou, abraçando-a e sussurrando em seu ouvido: – Finalmente!
O queixo de Malu quase caiu quando virou para cumprimentar a tal amiga de Alanne.
Sabia que eram de um bairro pequeno, onde todos se conheciam, mas era muita brincadeira do acaso e do destino que a tal de Gi, amiga de Alanne, era justamente a menina que estava cheia de sorrisos e carinhos com Calebe na semana passada.
– Mano, aquela se sentando na mesa da Malu é a Gi? A que você tava semana passada? – Vinicius questionou, mordendo a pizza assistindo toda a cena como se fosse um bom filme.
– Puta que pariu. – Xingou, enfiando as mãos no cabelo.
– Agora você sabe porque você tem que pedir desculpa! – Vinicius gargalhou da desgraça alheia.
– É muito azar, não é possível! – Calebe resmungou, sem acreditar no seu próprio azar.
Pelo canto de olho, Malu observou a expressão nervosa de Calebe, confirmando o que ela já sabia. Ele estava sim de rolo com aquela menina. Seu lado racional a mandava ficar calma e não enlouquecer, pois ela e Calebe não tinham nada oficial, ficavam poucas vezes, transaram apenas uma vez, mal conversavam.
Calebe tinha seus direitos, era solteiro, assim como ela. Porém, seu lado irracional queria gritar, chutar a cadeira, ir até ele e perguntar o que diabos ele havia visto naquela garota.
– Essa é Gisele, minha amiga do curso de maquiagem, lembra? Comentei contigo ontem. – Alanne apresentou, apontando para a garota de cabelos pretos e lisos. Malu concordou, apresentando-se, tentando ser madura e engolindo os ciúmes chato que ela estava sentindo.
– Oi, tudo bem? – A garota cumprimentou e pigarreou ao notar que sua voz saiu estranha e ela falou de modo seco demais. Balançou a cabeça levemente, a garota não tinha feito nada de ruim para ela. Cumprimentou, trocando dois beijinhos com a garota, que foi simpática com ela.
Malu ficou responsável pelas apresentações e acabou se complicando um pouco ao apresentar seu acompanhante. Alanne ria discretamente do embaraço da amiga, sabendo que ela não estava tímida com a presença deles e sim, com a presença devoradora de Calebe.
– Tudo bem? Senta aí, esse aqui é o…
– Calebe! – A garota exclamou, surpresa e apontando para a mesa atrás delas. Malu engoliu em seco, virando a cabeça para Alanne, que assistia confusa a situação. – Olha aí, Alanne, quem tá aqui também! – Gisele riu, inocente sem saber da situação estranha em que estava se metendo e foi até a mesa dos rapazes.
– Amiga, eu não sabia que eles… – Alanne começou a se explicar, mas foi interrompida por sua amiga.
– Tá tudo bem, eu sabia. – Explicou, puxando a garota pela mão e apresentando-a a André. – Senta, amiga, relaxa.
Calebe sentiu seu estômago revirar de ansiedade quando viu que Gisele caminhava até a mesa dele, sorrindo e acenando. Só conseguia pensar que tinha estragado tudo com Malu antes mesmo de começarem algo concreto.
– Oi, Gi! – Vinicius, que também já conhecia a garota, cumprimentou. Ela não percebeu, mas ele estava prestes a explodir em gargalhadas.
Calebe tinha acabado de se enfiar em uma situação saída diretamente dos capítulos juvenis de Malhação. Ele queria rir só de olhar a expressão medrosa de Calebe, que sequer conseguia disfarçar que estava olhando para trás a cada segundo.
Sobre a Gisele. Era uma menina divertida e simpática, era interessante e ele até se interessaria por ela, se não fosse a Maria Luiza. Ele e Gi eram amigos de festa, haviam se conhecido na casa de amigos em comum e na semana passada, acompanhou a menina até a parada de ônibus ao encontrá-la na rua.
Conversa vai, conversa vem e Gisele, direta do jeito que era, flertou descaradamente com ele. Calebe até tentou se esquivar de todas as formas, mas acabou cedendo e acabou beijando-a antes do ônibus chegar.
Não foi nada demais, um beijo com o mínimo de carinho possível, podendo ser considerado até um pequeno “toque de lábios”, mas vê-la na mesa ao lado era o maior indício de que Malu sabia o que havia acontecido e por isso vinha ignorando suas mensagens, ligações e até mesmo sua presença.
– Te ver duas vezes na mesma semana, que privilégio! – Ela brincou, dando um beijo no rosto do Calebe.
– Pois é… – Ele riu sem graça, desconversando.
– Cê tava com a Alanne? – Vinicius perguntou, interessado.
– Sim, vocês se conhecem? – Ela questionou, surpresa.
– Sim, Alanne e Malu são nossas parceiras. – Vini comentou, chutando a perna de Calebe por debaixo da mesa, tentando acordá-lo do transe em que o rapaz havia se enfiado.
– Ah, que legal! São todos amigos, então, vocês querem sentar com a gente?
Um minuto de silêncio desconfortável seguiu a pergunta. Calebe e Vinícius se entreolharam, em seguida, olharam para a mesa à frente. Malu sentindo os olhares em sua direção, também olhou para a mesa. Malu não pensou mais em fingir naturalidade e Calebe percebeu isso ao notar a expressão dura da garota. Desviou o olhar para o babaca ao lado dela, olhou para Alanne que estava assistindo tudo, assim como Vinícius. E Calebe, novamente perdido em sua própria impulsividade, respondeu:
– Queremos.
– Queremos?! – Vinícius espantou-se, erguendo as sobrancelhas.
– Sim, claro. Somos todos amigos, não? – Levantou-se da mesa antes de mudar de ideia, levando consigo as latinhas de refrigerante e a bandeja de pizza.
– Só pode ser sacanagem… – Malu murmurou, negando com a cabeça quando notou os três vindo em sua direção a mesa dela.
– Ai, caralho… – Alanne sussurrou, fingindo olhar o cardápio.
– Gente, como todo mundo se conhece…– Gisele começou a se explicar e foi interrompida.
– Bom, na verdade, eu não conheço todo mundo… – Calebe explicou e olhou para o canto da mesa, encarando o acompanhante de Malu e perguntou de forma rude, sentando-se ao lado de Alanne. – Quem é você?
– Eu? Quem é você? – Óbvio que André notou o tom abusado na voz do rapaz e respondeu de volta.
Malu quase pulou no lugar ao sentir que algumas faíscas provocativas saíram daquela interação. Então resolveu acalmar aquilo, pois André não falaria nada pois apesar de ser direto, era bastante tímido. Mas Calebe era meio doido, como ela mesmo costumava dizer.
– Esse é o André, ele é meu amigo da academia. – Ela explicou, apontando.
– E aí cara? Beleza? Meu mano aqui já tá meio alterado, bebeu umas garrafas, sabe como é... – Vinícius, como um bom escudeiro, se meteu na frente e esticou a mão, cumprimentando o outro, que apenas assentiu.
Era mentira, óbvio. Calebe nunca esteve tão sóbrio, mas Vinícius sabia que aquela não seria a última atitude petulante do amigo, então o álcool seria responsabilizado por tudo que Calebe fizesse ou falasse a partir daquele momento.
– Ah, entendi, só amigos, né?
– Então gente, e o carnaval, hein? – Alanne comentou alto, chamando a atenção de todos, tentando tirar a tensão que havia se instalado na mesa, onde os únicos que não estavam entendendo nada eram André e Gisele.
– Vamos naquele bloco na beira-mar, lá no centro, sabe? Combinamos com algumas pessoas lá da nossa rua. – Vinicius também se empenhou em mudar de assunto e desviar a atenção do olhar gélido de Calebe.
– Sério? Nós também, combinamos agora pouco, não foi? – Gi contou, empolgada, apontando para Alanne, que confirmou de forma sem graça, olhando para Malu.
– Quer dizer, eu acho que vamos, né Malu? O que cê acha? – Alanne perguntou, apertando o braço de Malu.
– Eu acho que… – Inconscientemente, ela e Calebe se entreolharam, sem motivo real, apenas por saber que ambos estavam cheios de dúvidas entre si. – Pode ser, vamos sim, vai ser… divertido.
જજજજજજજજજજજજજ
“Como é gostoso gostar de alguém.
Ai, morena, deixa eu gostar de você
boêmio sabe beber, boêmio também tem querer”
Quem Sabe, Sabe – Marchinhas Clássicas de Carnaval.
Tão lento quanto o mês de janeiro havia passado, fevereiro estava voando. Mal havia chegado e já era carnaval. A festa, que era tão amada por uns e tão odiada por outros, era a oportunidade perfeita para quem ainda não havia tido coragem de começar o ano. Assim como Malu, que sentia totalmente presa e estagnada no mesmo lugar durante o ano inteiro.
– Eu vou atrás do trio elétrico, vou... – Malu assistiu a animação de Alanne, que dançava pelo seu quarto alegremente, balançando seus cabelos longos de um lado para o outro, enquanto cantava uma das músicas marcantes de carnaval que elas tinham na playlist.
– Eu queriaaa que essa fantasia fosse eterna... – Alanne arrumou o biquini rosa no corpo, que contrastava de forma quase perfeita com sua pele negra. – Eu queria qu...Malu! – Ela desviou o olhar para a amiga, que não demonstrava entusiasmo algum.
O chamado agudo de Alanne a assustou, fazendo com que ela sujasse o rosto com o delineador.
– Caraca, Alanne! Que susto, porra! – Reclamou e foi em busca de um lenço demaquilante que limpasse o estrago que ela havia feito em seu próprio rosto.
– Você que tá viajando aí. O que foi? Acorda, Malu! Carnaval, praia, cervejinha. Cadê tua empolgação? – Alanne questionou a amiga ao notar seu rosto quase impassível.
– Ficou na vaga da Fuvest que eu não consegui. – Murmurou, tristonha.
Malu tentou levar as coisas de forma leve e tranquila, não precisava acumular mais estresse em si mesma, mas então os resultados dos vestibulares que ela havia prestado começaram a ser divulgados e suas reprovações em cada um deles também. A menina tentou se convencer que não tinha pressa, que tinha apenas dezoito anos, ainda tinha um ano inteiro pela frente.
Ela tentou muito se convencer disso.
– Amiga, você nem queria Fuvest mesmo! Imagina se você ia pra São Paulo a essa altura do campeonato? – Alanne foi fuzilada pelos olhos de Malu e riu. – Tá, eu sei que não é bem por isso.
– Eu só queria passar no vestibular, Alanne. – Confessou, sentindo a tristeza passar a ser irritação.
Malu sentia que de uns tempos para cá, nada dava certo para ela. Tinha entrado em uma maré de azar e não parecia que iria sair tão cedo.
– Eu sei, amiga, eu também não passei, mas... – Alanne até tentou consolá-la, mas logo foi cortada pela amiga.
– Não passou, mas pelo menos tem um emprego. Eu sequer tenho um currículo! – Malu bradou, irritada. Jogou a maquiagem na bolsa e deitou-se em sua cama, suspirando completamente frustrada.
Alanne era uma ótima maquiadora e havia conseguido um emprego em um salão de beleza especializado em peles negras que havia no centro da cidade. Era um ótimo emprego e Alanne estava mais do que feliz por ter conseguido juntar o que gostava de fazer com o que precisava, ou seja, unindo o útil ao agradável. Agora além de trabalhar, ela conseguia pagar seus estudos e ajudar em casa. Enquanto isso, Malu sonhava em conseguir a mesma coisa.
Ela queria que a vida sorrisse para ela com um pouco mais de leveza também.
– Caramba, Malu! Nada que eu fale vai tirar você dessa bad, não é? – A garota negou, emburrada. – Já chega, Maria Luiza! Você tá acabando com meu espírito carnavalesco, eu hein! Levanta essa bunda daí, coloca esse tule, joga um brilho nesse rosto e vamos descer pra praia! – Alanne puxou a mão da melhor amiga, já perdendo a paciência.
Impaciente, Malu levantou-se da cama e puxou a saia vermelha que havia sido escolhida para combinar com o único biquini preto que ela tinha. Ela apenas assentia enquanto Alanne falava sem parar.
– E a gente já combinou de ir com a galera toda, não vem dar pra trás agora...
– Eu sei, eu sei... – Murmurou. Alanne observou a amiga se olhando no espelho de forma tristonha.
– Malu? Jura que vai tentar se divertir hoje? – Alanne insistiu, passando a mão pelos cachos armados da amiga, que sorriu de lado e assentiu, concordando.
Não precisava ser um gênio para perceber o quanto Malu estava tentando entrar nos eixos após a morte de seu pai. Ela sabia que a amiga dava duro á meses para tentar manter sua casa, sua vida e sua sanidade mental. Alanne se sentia impotente ao ver que não tinha muito o que fazer para ajudá-la. Resolveu fazer só o que estava a seu alcance, que era ser uma boa amiga e companheira.
As amigas finalizaram seus preparativos, agora contando com uma Malu mais animada e uma Alanne aliviada em ver a amiga mais receptiva a diversão. Ambas adoravam festa e era a primeira vez que curtiriam um carnaval juntas.
Iriam para a beira-mar do outro lado da cidade, que era o ponto de encontro de quase todos os blocos que sairiam pelas ruas das cidades. Era um ponto de diversão garantida, ainda mais com a certeza de que todas os seus amigos estariam reunidos.
Descendo a pequena escada na ponta dos pés e com os tênis em mãos, as meninas analisaram a sala minuciosamente, encontrando Andréia dormindo profundamente no sofá.
– Vai avisar? – Alanne perguntou em um sussurro.
– Se eu acordar ela, vai ser pior. Vem! – Murmurou, puxando-a pela mão e indo em busca da sua pequena felicidade momentânea.
જજજજજજજજજજજજજ
“Quanto tempo tenho pra matar essa saudade?
meu bem, o ciúme é pura vaidade [...]
sou perecível ao tempo, vivo por um segundo
perdoa meu amor, esse nobre vagabundo”.
Nobre Vagabundo – Daniela Mercury
Foi necessária uma viagem de 1h30 de ônibus até o litoral para Calebe ter certeza do que ele já sabia. Aquela terça-feira de carnaval seria um desastre.
Colocar dez jovens de dezoito a vinte anos dentro de um ônibus, a caminho de uma festa na praia, com um isopor lotado de bebidas alcoólicas enquanto o motorista do ônibus tocava os funks mais tocados do momento era uma receita para o desastre. Os ânimos já estavam mais do que exaltados, o grupo já havia feito amizade até com os passageiros dos ônibus que passavam ao lado e havia até se multiplicado.
Tinha algumas pessoas ali que ele não conhecia, era o “amigo de um amigo”, o “primo da minha prima”, fazendo com que o grupo de dez amigos se tornassem quase vinte. Tudo estava uma grande confusão, do jeitinho mais brasileiro possível.
E estava tudo bem, até Calebe notar que tinham uns e outros interessados demais em Malu. Então, ele se irritou. Maria Luiza havia ficado quase uma semana sem falar com ele, lançando indiretas em todas suas redes sociais, claramente incomodada com o que ele tinha feito. Mas agora ela estava fazendo o mesmo ao ficar de conversa com aquele tal de Renan. Ele se deu o direito de ficar chateado. Já havia admitido para si mesmo que gostava de Malu, então podia se dar o prazer de ficar bravo ao vê-la com outro.
Mas é claro, que seu orgulho ferido não o deixaria ir muito longe sem uma bebida na mão e uma mulher na outra. Então, foi o que ele fez, colocou uma cerveja na mão e Gisele em outra e fingiu que estava tudo bem. Fingiu que aquilo ali não era uma guerra fria em que ele havia entrado contra Malu.
– Tá ficando feio... – Alanne cantarolou, fingindo que estava lixando as unhas. Malu não entendeu e Alanne apontou com a cabeça em direção a Calebe e Gisele, que se beijavam encostados em um carro.
– Não adianta, ele não vai me atingir. – Malu assegurou e virou o copo de cerveja quase cheio na boca.
– Tô vendo! – Alanne debochou, rindo ao ver a amiga agindo de forma contrária ao que estava afirmando. – Mas até que o Renan é bonitinho.
– Quem?
– O primo do Tiago, aquele que você tava de papo ali, maluca! – Alanne riu da desatenção da amiga.
– Quer saber? – Ela desviou o olhar do casal detestável e sorriu provocante. –Ele é mesmo.
– Ih, vai dar ruim, não vai? – Alanne supôs, rindo sem parar, o efeito da bebida já contagiando a garota.
– Vai é dar bom, Alanne! – Abraçou a amiga pelo ombro, rindo.
Não demorou para as garotas se verem vivendo o melhor do carnaval brasileiro. No meio do bloco à beira-mar, a chuva resolveu dar as caras, mas nem isso foi capaz de tirar a animação do grupo de jovens da rua da Saudade. Brincaram na areia, dançaram alegremente, curtiram a chuva quando ela chegou e, é claro, tomaram umas além da conta.
Dançando como se não houvesse amanhã, de braços para cima e balançando seus cachos molhados, Maria Luiza sentia-se viva de novo.
Sabia que era um clichê que ela estivesse se sentindo como a única pessoa no mundo no meio de uma multidão, mas foi delicioso viver aquela sensação. Ela sentia como se ela pudesse fazer tudo o que queria fazer, como se tudo fosse possível. Ela sequer se importava que seus cachos estavam molhados, estragando toda a sua finalização. Ela se sentia tão bem, que parecia que havia passado no vestibular. Ou que o garoto que ela gostava havia deixado a outra garota de lado apenas para ficar olhando-a.
Calebe a assistia dançar quase hipnotizado. Malu tinha um jeito de menina/mulher que era algo de outro mundo. Ela chamava atenção onde passava e ele duvida que não houvesse pelo menos uns cinco pares de olhos a encarando naquele momento em que ela dançava de forma sensual e encantadora.
Ela sabia que ele estava a olhando. Era bom ser olhada daquela forma e aquele olhar ela só encontrava nos olhos de Calebe. Sentia seu corpo ser quase levado contra a maré, com todos os outros corpos encostando no seu, quando no fundo, ela só queria estar encostada nele.
Já sabia que todo a combinação de álcool + chuva + dança + calor humano estava dando mais do que certo, pois ela se viu indo em direção a Calebe.
Ela sorriu ao ver o olhar confuso e ansioso dele a medida em que ela ia se aproximando. Ele estava a coisa mais fofa vestido apenas com uma saia de tule igual a dela. Com os cabelos molhados, ele estava com glitter espalhado pelo rosto e pelo corpo de forma desproposital. Ele sentiu seu coração bater tão acelerado quanto a bateria que regia o bloco de carnaval que eles acompanhavam.
Ela estava dando o primeiro passo, ele sabia. Ela estava engolindo o orgulho e indo em direção a ele, na frente de todos, sem se importar com nada. Tudo ia ficar bem agora.
Iria. Até que, sem notar a situação em que Calebe estava, Gisele passou o braço pelos ombros do garoto e tentou beijá-lo. Malu travou no lugar, agradeceu aos céus que ainda garoava, assim ele não perceberia seus olhos enchendo-se de lágrimas. Mas ele percebeu.
Maria Luiza se sentiu frustrada e envergonhada. Olhou para os lados, mas ninguém parecia ter prestado atenção, todos estavam dançando e concentrados em suas próprias conquistas carnavalescas. De repente, a multidão que a acolheu minutos atras, pareceu sufocá-la e ela precisou sair de lá imediatamente. Ela se virou e começou a se afastar, sem saber muito bem para onde estava indo.
Calebe afastou Gisele de forma nada sutil enquanto tentava não perder Malu de vista. Ela sair andando sozinha no meio daquela multidão era uma péssima ideia e ele parecia ser o único que havia notado a garota se afastando. Sem pensar muito, ele deixou todos para trás e foi atrás da morena, que andava rápido entre as pessoas.
Ela finalmente conseguiu chegar à calçada, mas o local ainda estava cheio demais, lotado de ambulantes e pessoas tentando fugir da aglomeração na avenida. Pensando agora, foi uma péssima ideia ela ter ido para uma das alamedas adjacentes, onde não havia muita gente. Em compensação, estava lotado de possíveis ameaças. Se arrependeu no mesmo segundo que percebeu um homem alto que começou a seguir ela. Quase paralisou no lugar, mas seus instintos femininos falaram mais alto e ela deu meia-volta, voltando para o início da rua.
Calebe percebeu que havia um homem logo atrás da garota, olhando-a de forma obstinada e não pensou duas vezes em correr até lá. Ela franziu o cenho ao vê-lo correndo em sua direção e se assustou quando ele a abraçou com força sem mais nem menos. Como ele corria e estava agitado, acabou sendo mais um esbarrão do que um abraço.
– Ai! Tá doido, Calebe? – Ela reclamou, mas ele nem escutou.
Encarou o homem atras dos dois e engoliu em seco a raiva quando constatou que o homem sequer disfarçou que a estava seguindo e parou no meio caminho e voltou a subir a rua na direção contrária.
– Quem tá doida é você! Como é que você sai sozinha de perto de todo mundo? – Atacou, puxando-a pela cintura em direção a parede. – Tinha um cara atrás de ti, Malu!
– Eu sei, eu vi! – Suspirou, sentindo sua ansiedade e nervosismo se dissipando aos poucos. Queria estar perto dele, mas não tão perto como estava, sentindo as mãos dele em sua cintura.
– Viu, mas e aí? Ia fazer o que? Correr? É carnaval, Malu. É bom, é divertido, mas é extremamente perigoso. – Argumentou, irritado com a irresponsabilidade dela. Podia ver em seus olhos baixos que ela estava mais alcoolizada do que ele, então ele fez uma nota mental de não beber tanto para que pudesse ficar de olho nela.
– Eu só queria... – “Ficar longe de você”. Ela pensou em dizer, mas não queria parecer fraca. – Eu não preciso ficar te dando satisfação, não. – Ela tentou puxar seu braço do aperto dele.
– É, eu já percebi isso. – Murmurou. Era melhor que eles se afastassem e ele a levasse de volta para a companhia dos amigos, porém, apesar de ela estar mais alterada do que ele, não quer dizer que ele não estava também. – Eu também não preciso, apesar de que se você pedir, eu dou.
Malu suspirou, encarando-o. Ela negou com a cabeça, sentia-se farta daquela situação. De repente, percebeu que queria voltar para casa, mas não queria ir sozinha. Assim como já vinha acontecendo a algum tempo, ela percebeu que queria estar com ele, quase sempre. Sentia falta de quando ele não estava por perto. E quando ele estava por perto, era doloroso ver que ele não era dela.
– Tô cansada disso. – Admitiu.
– Do quê?
– Da gente, Calebe.
– A gente não tem nada, Malu. – Garantiu, trêmulo. Longe do amontoado de pessoas, o vento frio que batia em seu corpo gelado da chuva o fazia tremer.
– A gente não tem nada? – Riu com desdém, balançando a cabeça. – Você fala isso pra convencer quem? Pra mim, pra você ou pra Gisele? – Questionou, dura.
– Eu fiquei com ela uma vez, Malu, deixa de ser maluca! E você com aquele moleque estranho? Por favor, né! – Irritou-se.
– Maluca? Tá me tirando pra maluca agora? Na boa, Calebe, vai pra puta que pariu! – Ela xingou e virou de costas, tentando se afastar dele, em vão.
– Ei! Vem cá, não fala assim comigo, não! – Ele a puxou de volta e encurralou no caminho. – Cê tá meio maluca, sim!
– Porra nenhuma! – Ela tentou empurrá-lo e se afastar, mas ele a puxou para perto e entrelaçou os braços na cintura dela.
Ela desistiu de tentar se afastar.
– Não, não! Você falou pra caramba, passou o dia inteiro mandando indiretinha besta, agora você vai escutar. – Enfezou-se, sentindo seu sangue pulsar com a adrenalina e a vontade de falar na cara de Malu tudo o que ele queria já tinha um tempo.
– Escutar o quê, garoto? Não tenho que ficar escutando nada de você, não! – Indignou–se.
– Vai escutar, sim! Se tá tão incomodada com a menina, por que você não me deixa te beijar na frente de todo mundo?
A resposta dela veio em poucos segundos. Era a resposta que ela ficava relembrando quando sentia vontade dele e de ir até a casa dele.
– Porque eu não sou a porra do teu troféu, Calebe! Não sou e nem quero ser! – Bradou, aborrecida. Ele franziu a testa, confuso.
– Eu nunca disse isso, sequer pensei dessa forma! De onde você tirou isso? – Questionou, confuso. Nunca havia a ouvido falar desse jeito.
– Você acha que eu não percebo? O jeito que os meninos te veneram quando você pega essas meninas? Acha que eu não vejo eles lançando esses comentários idiotas quando me veem falar com você? Como eles sempre estão comentando que eu não a única que você não consegue “pegar”? – Calebe engoliu em seco.
Não adiantava negar, era totalmente verdade. Entretanto, não era culpa dele. Os outros que esperavam coisas dele que ele jamais se cobraria. Ele até tentava não colaborar com certos comentários e fazia o possível para não ficar com ninguém na frente de todo mundo pois sabia que isso geraria comentários, mas era inevitável. Era coisa de menino, a maioria dos amigos de Calebe eram uns moleques e ele não era a mãe, nem pai de ninguém para ficar ensinando que comentários deveriam ser feitos ou não.
Ele só não esperava que fosse justamente isso que tanto incomodava Malu.
– Esse é o problema, então? Quer ficar comigo escondido pra ninguém descobrir que você cedeu e caiu por mim? – Ironizou, não gostando nenhum pouco da insegurança boba da garota.
– Ah, Calebe, fala sério! – Ela rolou os olhos em respostas ao seu jeito debochado, sentindo até vontade de rir com a resposta desleixada.
– Maria Luiza. – Ele apertou o rosto dela entre suas duas mãos. – Eu não sei você, mas se você quiser, eu vou no meio da porra dessa avenida agora mesmo e grito que faz um mês que tô beijando a tua boca na frente de todo mundo.
– Aposto que você ia adorar! – Proferiu, sarcástica.
– Te assumir pro Brasil? – Ele riu, fazendo-a morder o lábio para não rir também com o trocadilho idiota. – É claro que eu ia adorar, morena! – Ele apertou seu rosto com apenas uma mão, forçando-a a encará-lo e fazendo com que ela notasse seus olhos e tão próxima que ela sentia o cheiro de álcool emanar dele.
– Você tá bêbado, Calebe. Não fala besteira. – Negou, ansiosa. Na verdade, não foi o jeito rebelde em sua fala que a deixou nervosa, e sim, a sinceridade que ela viu em seus olhos nebulosos.
Ele desceu a mão para o pescoço dela e acariciou sua bochecha com o polegar. Malu fechou os olhos, aproveitando tanto a caricia que recebia. Sentia todas as forças que tinha para afastá-lo indo embora no momento em que ele começou a deixar beijinhos castos no canto de seus lábios.
– Por que você dificulta tanto isso? – Murmurou, empurrando-a levemente em direção a parede de uma casa de pedras que tinha uma pequena coberta escura. – Eu não tenho a menor vergonha de dizer que eu quero você, não tenho orgulho nenhum, Maria Luiza. Se você deixar, se você quiser, eu me ajoelho na frente de todo mundo e imploro por você. – Ela sentia sua respiração no pescoço, enquanto ele sussurrava que era louco por ela.
– Não faz assim, Calebe. – Sussurrou, com a voz fraca. Ela se sentia salivando pelos lábios dele, por ele. Não queria mais se negar a isso, mas ela havia criado tantas barreiras que ela mesma estava tendo dificuldade para quebrá-las. – Você só tá assim porque me viu beijando o... o... Ah, não sei o nome dele. – Malu de ombros, subiu as mãos em seus braços. Ele riu com a desatenção dela, saber que ela sequer se importava com o nome do cara o deixou satisfeito.
– Quer saber? Tô! Tô com raiva, sim. E aí? – Indagou.
– Eu sou solteira, faço o que eu quiser, com quem eu quiser! – Respondeu, calma.
– Então, morena... – Ele se afastou e ajeitou os cabelos dela gentilmente e passou os dedos em seus lábios, sorrindo. – Faz o que quer... comigo! Eu tô aqui. – Ele abriu os braços em sua frente, entregando-se a ela literalmente de braços abertos. – Faz o que você quiser.
Não foi um pedido, foi um ultimato.
Sem pensar muito, ela jogou o corpo contra o dele, beijando-o de forma feroz, do jeito que ela queria desde que viu ele descendo a rua naquele dia. No meio do beijo, ele suspirou aliviado. O que mais queria era se sentir, pelo menos, considerado, se sentir acolhido. E o jeito que ela o beijava, e como ela abraça ele com vontade, deixava claro que ela o queria também.
– Caraca, que raiva de vocês! – Escutaram o brado raivoso vir de alguém atrás dele e se afastaram rapidamente. – Todo mundo preocupado com Malu, preocupado com Calebe e os dois pombinhos estão onde? Na maior trocação de saliva. – Alanne resmungou, jogando uma garrafinha de água nas costas de Calebe, que riu.
– É melhor do que trocação de soco, não é? – Ele brincou.
– Será? – Alanne questionou e puxou Malu pelo braço, afastando-a de Calebe, que estranhou. Malu olhou para trás enquanto descia a ladeira sendo puxada por uma Alanne irritada. Ela gostava de Malu e Calebe, torcia pelo casal, mas não gostava de ver o garoto fazer com a amiga o que fazia com todas, que era ficar com uma ou duas ao mesmo tempo. Calebe negou com a cabeça, sem ter tempo de se explicar. Então, apenas assistiu quando a garota se virou para Calebe e com a língua venenosa, lançou: – Gisele tá atrás de você.
જજજજજજજજજજજજજ
Já passava da meia-noite quando o grupo de amigos do bairro da Saudade desceu do ônibus que vinha do litoral. Animados, todos gargalhavam das imitações de Vinicius e comentavam os acontecimentos entre si. Apesar do desencontro de Malu e Calebe, o resto do dia fora extremamente divertido e o grupo já ansiava pelos próximos dias de carnaval.
Aos poucos, o grupo ia se dispersando e logo restou apenas Malu e alguns dos meninos, inclusive Calebe, que moravam na rua de cima. Eles fizeram questão de acompanhá-la até a porta de sua casa. Também não pouparam as brincadeiras e provocações entre si.
– Alô tia, a princesa tá entregue! – Um deles gritou na porta, fazendo Malu rir e mandá-lo falar baixo.
– Quer companhia pra dormir, Malu?
– Prepara o meu lado da cama, viu? Logo tô chegando.
– Vocês são péssimos! – Ela riu, enquanto abria a portinha de madeira. De canto de olho, ela observou Calebe, que apenas assistia com um sorriso de canto que beirava o insuportável para ela. Ela se despediu de cada um, com um abraço e um sorriso, sentindo-se satisfeita com as amizades que ela tinha ali.
– Se quiser que eu volte mais tarde, é só mandar mensagem, morena. – Calebe proferiu alto quando já estava quase no meio da rua.
Todos os meninos riram, achando que aquela era mais uma gracinha de Calebe, mas não perceberam pela troca de olhares dos dois, que o aviso era mais do que sério. Ela negou com a cabeça, novamente rendida pela atitude atrevida do rapaz. Cansada do jeito que estava, ele não a veria pelo resto do carnaval.
Ainda rindo, Malu se abaixou para tirar seus tênis imundos antes de entrar na sala de sua casa. Sabia que era ela que teria que limpar a mistura de lama, cerveja, chuva e lixo que estava impregnada nos calçados. Enquanto desamarrava os cadarços, ouvia sua mãe se aproximar e ergueu a cabeça.
– Oi, mãe. Cheguei. – Avisou e voltou sua atenção para os pés.
– Percebi. – Respondeu, num tom seco. – Você saiu assim?
– Assim como? – Retirou as meias e se levantou.
– De biquini e saia transparente, igual uma vagabunda.
– Sério, mãe? Sério mesmo? – Ignorou o comentário brutal da mulher e se afastou, indo até cozinha.
– Onde você tava? – Questionou, seguindo Malu de braços cruzados.
– Na rua. Carnaval. – Malu respondeu monossilábica e se serviu um copo de água.
Estava com tanta sede, tanto calor. Tudo o que ela queria era tirar o biquini, a fantasia, a maquiagem, tomar um banho de meia hora e dormir. Mas as intenções de Andréia eram outras. Ela estava extremamente irritada de ver a filha chegar em casa de madrugada, com a maquiagem escorrendo pelo rosto, claramente alcoolizada, descalça e... Feliz.
Ficou com raiva de ver sua filha feliz.
– Carnaval. – Bufou. – Quer saber? Some da minha frente agora, Maria Luiza. – Bradou, nervosa.
– Como assim? Pirou, mãe? – Malu franziu o cenho, totalmente confusa com a reação exagerada de sua mãe. Tudo bem que ela não avisou antes de sair, mas já tinha passado dessa fase. Já tinha um tempo que a mulher não pedia satisfação de onde a garota estava.
– Vai embora, Maria Luiza.
– Eu hein. – Ela deu de ombros e deixou seu copo na pia. – Tô indo pro meu quarto, se quiser conversar igual gente. – Provocou.
– Não, você não entendeu. Vai embora da minha casa. – Malu paralisou e ficou encarando a mulher, esperando ela dizer que estava brincado ou algo do tipo. Mas sua mãe não fazia brincadeiras. – Você quer viver sua vida dessa forma, se estragando em festa, bebidas e sabe-se lá o que mais que você faz na rua, você pode ficar à vontade, mas não debaixo do meu teto.
– O teto também é meu. – Malu sentia seu sangue começar a esquentar.
– Nada nessa casa é teu. Tô cansada de ver você agir como uma fedelha mimada que...
– Que o quê? Que paga as contas? Que cozinha, passa e lava porque você tá ocupada vegetando no sofá? – Retrucou, enfezada.
– Como é que é, sua ingrata?! – Ela se aproximou, irada. – Ou você me pede desculpas agora ou vou te fazer engolir cada palavra dessa, sua estúpida!
– Você começa a me atacar do nada e quer que eu fique calada? Mal pisei em casa e você me chamou de vagabunda, faça-me o favor! – Malu tentou seguir em frente, tentou ir direto para o seu quarto e evitar um atrito maior com a mulher que, novamente, tinha seus planos próprios.
– Enquanto morar nessa casa, vai ser uma mulher decente! Não quero mais te ver usando essas porcarias! – Antes que pudesse se defender, Andréia puxou a saia de tule colorida de Malu. Com a força, a saia se rasgou no cós, caindo no chão antes que Malu notasse. – Olha isso, o biquini depravado, mal cobrindo suas partes!
– Ei! – Ela gritou, tentando se afastar a todo custo, mas Andréia a segurava e gritava ofensas a garota – Tá ficando doida?
– Me respeita, porra. Cala a sua boca enquanto eu tô falando. Eu sou sua mãe e... – Agarrou-a pelo braço, sem medir sua força e apertou a pele da garota com força.
– Ah, lembrou que é mãe?
Ela desferiu um tapa em seu braço com força. A raiva que Andréia estava sentindo era perigosa, mas ela não estava conseguindo se controlar. De início, só queria chamar sua atenção, mas a forma como Malu a respondia lhe deixava brava.
Nos últimos meses, tudo que Andréia sentia, ela sentia em dobro. Quando estava triste, ficava muito triste. Quando ficava brava, ficava muito brava.
– Eu não suporto ver você falando assim comigo, Maria Luiza! Se o seu pai...
– Se o pai o quê, mãe? – Interrompeu antes de ela concluir. Não queria nem por um segundo que ela usasse o nome de seu pai naquela discussão.
– Se ele estivesse aqui, teria vergonha de te ver assim!
– Mas ele não tá aqui! Sabe por quê? Porque o papai morreu, mãe! Ele morreu!
Malu sentiu sua mãe esbofetear seu rosto, mas sequer se defendeu pois sentiu que havia merecido aquele tapa. Ela só não esperava que receberia mais alguns repetidas vezes. Ataques tão bravos que ela sentia sua pele arder. Lembrou de quando a mãe a batia na infância quando ela fazia alguma traquinagem, mas logo a lembrança a abandonou de forma bruta quando Andréia a empurrou contra a parede. Ela nunca teria feito aquilo com ela quando criança.
– Me solta! – Malu tentou falar de forma feroz, mas sua voz saiu chorosa e nervosa. Nunca havia passado por aquilo.
Não sentia que estava recebendo uma lição de sua própria mãe, sentia que estava apanhando de uma outra mulher e ela não demorou a perceber que eram coisas completamente diferentes.
– Vai embora daqui! – Ela empurrou Malu, que tropeçou nos próprios pés e caiu no chão. – Eu não quero te ver aqui tão cedo! – Para fugir dos ataques, Malu engatinhou rapidamente até a porta de saída da casa. – Vai embora! Vai embora DAQUI! – Malu lançou seu corpo para fora da casa sem pensar duas vezes.
Andréia jogou um quadro contra a porta ao ver a filha sair. Nervosa, ela passou a mão nos cabelos e correu até o banheiro de seu quarto. Enfiou garganta abaixo três comprimidos e se olhou no espelho.
Não reconheceu a figura descabelada, pálida, emagrecida e envelhecida que ela viu no espelho. Ainda tremendo de nervoso, Andréia foi até o sofá e pensou que seu marido morreu e ela bateu na sua filha, que era a única família que ela tinha. Andréia chorou copiosamente até cair no sono que o sedativo lhe presentou.
Cambaleando, Malu saiu de casa e só levantou quando sentiu que suas pernas não fraquejariam. Maria Luiza nunca havia se sentido tão desprotegida.
E não tinha nada a ver com o fato de ela estar apenas de biquini em uma rua vazia no meio da noite. Não queria voltar para dentro, mas estava de biquini, sem celular, sem dinheiro e principalmente, estava sem coragem. Nunca havia apanhado daquela forma. Ela sentia seu rosto pulsando e seu corpo inteiro latejava.
Malu engoliu o choro que queria vir com força e decidiu o que faria. Voltar para casa não era uma opção. Não no momento e, talvez, nem no futuro. Trêmula, ela tocou no próprio lábio e viu uma pequena gota de sangue em seu dedo quando olhou. Estava machucada, mas nem uma ferida em seu rosto ou hematoma em seu corpo doía tanto quanto o seu coração.
Não foi um garoto e sim, sua mãe quem partiu seu coração pela primeira vez.
Se deu o direito de deixar cair algumas lágrimas enquanto correu até a única casa onde ela poderia contar que foi Andreia que havia lhe batido.
Ana estava se preparando para ir para o seu quarto quando ouviu a campainha tocar. Olhou no relógio, preocupada. Calebe havia chegado tinham alguns minutos e o garoto chegou tão cansado que apenas deu um beijo na mãe e informou que iria tomar banho e cair na cama. Receosa, ela olhou pela fresta antes de abrir a porta totalmente e tomou um susto.
– Malu, pelo amor de Deus! – A mulher correu até o portão, tão nervosa que quase não conseguia colocar a chave no cadeado.
– Tia... – Ela choramingou. Não iria conseguir falar. Sua voz foi engolida pelo choro e soluço.
– O que aconteceu, minha filha? Minha nossa! – Desesperou-se quando abriu o portão e percebeu que não estava enganada. A garota realmente estava só de biquini e com machucados em seu rosto e braços. Puxou-a para dentro e abraçou-a rapidamente, levando-a para dentro da residência. – Malu, por favor! O que aconteceu? Fala comigo!
Não queria deixar a mulher ainda mais nervosa, mas não conseguia proferir nenhuma palavra sem soluçar e chorar. Toda a adrenalina da briga havia passado e agora além de sentir seu corpo doer, Malu sentia que não iria parar de chorar tão cedo.
– Malu, calma, respira! Você tá me assustando... Calebe! Vem aqui! Rápido! – A garota chorava desesperadamente e Ana já estava perdendo a força de segurá-la em seu braço. Chamou por Calebe imediatamente.
O rapaz havia acabado de sair do banho quando ouviu a campainha tocar, mas decidiu primeiro colocar um short antes de ver quem era. Correu em pânico quando ouviu sua mãe chamá-lo com a voz nervosa e agitada. Paralisou quando viu Maria Luiza ali. Não é possível, ele havia deixado ela praticamente dentro de casa, o que teria acontecido?
– Malu, o que aconteceu? – Correu até elas e ajudou a segurar a menina, que chorava e sequer sentia suas pernas, não sabia como estava se mantendo em pé. – Mãe?
– Eu não sei, ela chegou chorando e olha só, tá machucada. – Ana apontou para o rosto e as marcas no braço de Malu. Caleb desceu o olhar e quase vomitou de aflição quando notou que ela vestia apenas um biquini.
– Malu, por favor! Alguém...T-tocou em você? – Questionou e não esperou respostas, já ia em direção a porta.
Não sabia o que faria se algo realmente tivesse acontecido, não sabe se ele correria pela rua até chegar à delegacia mais próxima, se bateria de porta em porta, se pularia os muros até achar o culpado. Na verdade, faria de tudo um pouco.
– Não! – Ela segurou o braço dele antes que ele se afastasse. – F-foi a minha m-mãe... – Engoliu o máximo de choro e ar que conseguiu e olhou para Ana, que parecia desolada. – Ela me bateu, tia! Ela me empurrou, arrancou minha roupa, me chutou... – Não conseguiu continuar, apenas caiu em prantos novamente.
– Meu Deus... – Ana murmurou e puxou Malu para seus braços, acolhendo-a em um abraço.
– Puta merda. – Calebe engoliu em seco.
Foi a própria mãe que havia feito aquilo. Ele não poderia ir à delegacia, nem pular um muro, nem bater de porta em porta. O que diabos ele poderia fazer?
– Calma, filha. Senta aqui comigo... Eu não acredito que Andréia fez isso. – Confessou, Malu se sentou no sofá, sendo amparada pelos braços de Ana e Calebe, que a acalentava de maneia afetuosa. – O que aconteceu?
– Eu não sei, tia. Eu cheguei em casa e ela já começou a gritar e me chamar de nomes e... Eu juro que não sei, eu apenas rebati os absurdos que ela me falava e ela p-perdeu a cabeça e me a-atacou... – Contou, sentida e passando a mão pelos braços.
– Eu não acredito nisso. – Calebe bufou irritado. – Que filha da puta!
– Calebe. – Ana repreendeu.
– Não, mãe! Olha pra ela! Tá toda machucada, olha o rosto dela! – Apontou para Malu, que abaixou a cabeça, envergonhada.
– Quer saber? Vamos todos nos acalmar. Eu vou... – Ana não conseguiu fingir que não estava meio desorientada em ver a menina daquela forma. Quase não conseguiu formar uma frase pois só conseguia concordar com Calebe e pensar “que filha da puta!”. – Eu vou pegar uma roupa pra você, uma toalha e-e... Um banho, isso! Um banho vai ajudar! – Repetiu mais para si mesma do que para a menina. – Vai nos dar um tempo e...
– Eu não vou voltar pra casa, tia. – Malu informou de forma decisiva. – Ela disse que eu não deveria voltar e eu não vou. Pelo menos, hoje não.
– Não se preocupa, você não voltaria hoje nem se quisesse. – Calebe assegurou, olhando-a e se levantou, saindo do cômodo.
Ana suspirou, preocupada. É claro que não expulsaria a menina, ainda mais naquelas vestimentas. Mas se preocupava com sua amiga Andréia e principalmente com a amizade entre elas. Ana nunca bateu em Calebe, podiam ser contadas nos dedos as vezes em que ela havia levantado a voz para ele de maneira mais incisiva. Então, olhar o rosto machucado de uma menina tão bonita e frágil com Malu deixava Ana enfurecida.
– É claro que não vai, minha linda. Você fica aqui essa noite. – Concordou, pesarosa. – Eu vou organizar umas coisas pra você, ok? Ér... – Ela sentou ao lado de Malu e se inclinou em sua direção. – Você quer dormir no quarto comigo ou...? – Deixou a frase em aberto, apenas acenou com a cabeça em direção ao pequeno quarto de Calebe.
Ana não ia fingir que não sabia o que acontecia entre Malu e Calebe. Nunca precisou se preocupar com segredos, pois seu filho sempre fora muito honesto e sincero com ela. Eles tinham uma relação de cumplicidade de dar inveja em muito filhos que não conseguiam sentir segurança com seus pais. Quando Calebe contou que eles haviam se beijado, ela ficou preocupada com a forma que a menina poderia ser “usada” por Calebe.
Mas a alguns dias atras, o garoto comentou que estava se sentindo confuso e corou como um menininho quando Ana perguntou se ele e Malu estavam tendo mais intimidades que o normal.
No fundo, ela ficou feliz e até um pouco aliviada. Malu era uma ótima pessoa e ela sentia que Calebe realmente gostava dela. Sentiu-se aliviada que a garota por quem Calebe possivelmente se apaixonaria era uma que ela conhecia bem e amava. Ana amava Malu, de verdade. Sentia um carinho maternal por ela desde que nascera. E pensar isso, só a deixava mais entristecida ao pensar que a mulher que deu à luz a ela havia deixado uns bons hematomas em sua pele.
– Ah, tia... – Malu envergonhou-se e abaixou a cabeça. Calebe já havia comentado que sua mãe sabia sobre eles, mas se sentiu assustada por isso. Não iria negar, queria dormir no conforto e para ela, essa palavra remetia a ele. – T-tem problema? Eu não quero que a senhora pense... É que eu vou ficar mais...
– Confortável com ele. É, eu sei. – Ela completou, assentindo – Não me incomoda, de maneira alguma. Eu confio em vocês. – Ana acariciou os cabelos úmidos de Malu e sorriu, doce. Calebe voltou a sala com uma toalha grande suas em mãos. Ele entregou a ela, que se cobriu imediatamente, aliviada por não estar mais tão exposta. – Filho, a Malu vai dormir com você, tá? Só... Deixem a porta aberta, por favor. – Pediu, de forma bem-humorada.
– Tudo bem, mãe. Fica tranquila. – Ele tranquilizou, afagando seu ombro.
– Eu vou pegar umas roupas e uns produtos pra você. Talvez uma gaze pra limpar essa boca e eu acho que tenho uma pomada que pode ajudar... – A mulher se levantou e deixou a sala ainda falando, enumerando as coisas que ela traria para Malu. – Você pode tomar banho no banheiro do meu quarto enquanto Calebe arruma o quarto. – Ela assentiu, concordando e acompanhou a mulher, sem olhar para trás. Estava envergonhada de olhar para Calebe, apesar de ter escolhido dormir com ele.
Durante o banho, Maria Luiza se negou a chorar. Quando a água bateu em seus ombros, ela praguejou, incomodada com a sensação. Ela pensou que tinha errado em rebater a mãe de forma tão incisiva e raivosa, pensou ter sido realmente ingrata como sua mãe a chamou, mas no fundo, ela sabia que não havia certo ou errado. Sendo assim, ela se deu o direito de sentir um pouco de raiva da mãe, principalmente quando sentia o corpo arder nos locais doloridos onde sua mãe havia batido.
A garota vestiu o pijama confortável de Ana, mas a mulher era menor que ela, então a roupa acabou ficando justa demais, decidiu colocar a camisa grande de Calebe por cima. Entrou no quarto e encontrou Ana sentada na beirada da cama, olhando para as próprias mãos, parecendo perdida em pensamentos. Malu sentiu-se culpada de tê-la arrastado para aquela confusão, imaginou se a acolhida de Ana custaria a amizade dela com a mãe.
– Tia? – Chamou sua atenção.
– Oi! Já, meu amor? – Levantou-se, assustada por não ter percebido Malu ali. – Eu separei um lençol e deixei lá com o Calebe. Senta aqui, deixa eu dar uma olhada em você. – Pediu, suavemente.
Ainda fragilizada, Malu se sentou na cama e esperou que Ana observasse minuciosamente os hematomas em suas pernas e braços. Seus olhos se encheram de lágrimas enquanto Ana passava uma pomada aliviante em algumas marcas mais escuras.
– Tia, desculpa ter vindo pra cá, eu não queria envolver você nisso. – Malu enunciou, baixinho.
– Imagina, Malu. Eu jamais deixaria de te acolher aqui. – A mais velha assegurou, sorrindo.
– Eu nem sei como agradecer, de verdade. Eu tô com tanta vergonha, tia... – Admitiu, abaixando a cabeça. – Eu não acredito que isso aconteceu. Eu já apanhei antes, sabe? Mas dessa vez, foi diferente, sei lá. Foi a primeira vez que eu vi raiva nos olhos da minha mãe.
– Sua mãe tá passando por um momento difícil, Malu, mas nada justifica a violência que ela cometeu com você hoje. – Acariciou a cabeça da menina e suspirou, entristecida. Malu era daquelas pessoas que quando feliz, todo mundo se alegrava junto. E quando ela estava triste, era difícil não perceber e ficar triste também. – Já tá tarde, foi um dia cheio, vocês devem estar cansados. Tem certeza que não quer dormir aqui? – Malu assentiu com a cabeça.
– Na verdade, tia... – Ela pensou bem antes de falar. Já estava se sentindo tão exposta, mas não conseguiu manter aquela confissão apenas para si. – Eu só quero chorar mais um pouco e sinceramente, acho que só vou conseguir fazer isso com Calebe do meu lado.
“No vão das coisas que a gente disse,
não cabe mais sermos somente amigos.
E quando eu falo que eu já nem quero a frase fica pelo avesso.
[...]
Toda vez que eu procuro uma saída,
acabo entrando sem querer na tua vida”.
Quem De Nós Dois – Ana Carolina
– Tudo bem mesmo se eu dormir aqui? – Malu questionou enquanto observava Calebe a arrumar o colchão que ele havia colocado no chão, para dar lugar para a menina na cama.
– Claro, Malu. – Respondeu, simplesmente. Ele arrumou os lençóis atentamente e logo se deitou. Notou que a menina ainda estava sentada na beira da cama, olhando para os próprios pés.
Ele suspirou. Odiava ver Maria Luiza retraída daquela forma. Simplesmente não era ela. Os olhos tristes, os cachos desmontados e a feição atordoada deixavam Calebe mais do que irritado, deixava-o triste. Se ele pudesse voltar no tempo, jamais deixaria ela entrar em casa sozinha.
– Malu? – Chamou, fazendo com que ela quase se assustasse com sua voz grave. – Tá tudo bem? – Ela pensou por uns segundos antes de balançar a cabeça negativamente. Ele analisou a situação e se colocou no lugar dela. O que ele iria querer dela se estivesse em uma situação frágil como aquela? – Quer que eu durma aí com você?
Era isso que ele iria querer. O corpo quente dela o aquecendo e afastando toda a dor e tristeza que estivesse nele. Por sorte, era o que ela queria também. Malu assentiu e se deitou na cama, deixando um espaço para ele se deitar ao seu lado.
Calebe deitou-se ao lado dela, passando um braço em volta de seu ombro, receando machucá-la ainda mais. Ela se aconchegou no peito dele, sentindo que os batimentos tranquilos do coração dele era o que a acalmaria.
– Não levanta. – Murmurou, pedindo. Calebe a olhou confuso, não tinha intenção de sair dali. – Depois que eu dormir. Você p-pode não levantar daqui?
– Não vou te deixar sozinha. – Assegurou, firmemente. Ela assentiu e procurou pela mão dele debaixo dos lençóis.
Entrelaçando seus dedos, ela fez mais um pedido:
– Posso chorar mais um pouco? – Não queria incomodá-lo. Sabia o quanto ele devia estar cansado depois de um dia inteiro de carnaval na praia, mas ela sentia que também não conseguiria descansar se não tirasse aquele peso de lágrimas de dentro do seu peito.
– Pode chorar a noite toda se você quiser, Malu. Eu não vou sair do seu lado.
જજજજજજજજજજજજજ
– Ah, cara! Sério, que puta palhaçada! – Calebe bradou, irritado. – Desliga essa merda, eu não vou mais assistir! Quer saber, deixa aí só pra gente ver a merda que esses caras vão fazer daqui pra frente.
De cara fechada e braços cruzados, Calebe bufava e resmungava enquanto assistia ao jogo de futebol na TV. A única coisa que tirava mais a paciência dele, além de Maria Luiza, era o Fluminense. Ela, por sua vez, se deliciava assistindo as reações espontâneas dele. Malu não imaginou que passaria a Quarta-Feira de Cinzas deitada no sofá enquanto assistia um jogo de futebol do Fluminense com Calebe, mas não desejaria estar em outro lugar.
Os seus amigos estavam todos pelas ruas, celebrando e aproveitando o restinho do carnaval. Malu e Calebe mal conseguiram levantar-se da cama. Ela, apesar de dolorida, dormiu muito bem envolta nos braços de Calebe. E ele, dormiu melhor naquela noite – com a perna e os cabelos de Malu por cima dele – do que sozinho nas outras noites.
A noite passada fora pesada e intensa, Malu ainda sentia sua cabeça pesar quando pensava muito no que tinha acontecido. Então ela decidiu não pensar muito naquele dia.
– Puta merda, goleiro! Ajuda a gente também, né? – Exclamou, passando a mão pelo cabelo, demonstrando ansiedade. – Olha só, esse cara aí, toda vez faz isso. No jogo passad... o que foi, Maria Luiza? Tá rindo do quê? – A menina gargalhou, jogando a cabeça para trás.
– Você fica uma gracinha quando tá irritado com o Fluminense. – Ela balançou os pés, que repousavam nas pernas dele.
– Malu, eu tô puto da vida e você vem dizer que eu fico uma “gracinha” quando tô com raiva? – Reclamou, puxando os dedos dos pés dela e terminando com uma carícia suave. – Eu esperava que fosse algo tipo “pô, você fica sinistro, fica assustador”.
– Mas fica, ué! Você fica com uma ruguinha aqui perto dos olhos, parece muito de quando você era gordinho... – Ela riu quando ele negou com a cabeça, parecendo envergonhado. – Você era super fofinho, o que foi que aconteceu hein? – Ela brincou, cutucando a cintura dele com o pé.
Era óbvio que era apenas brincadeira da garota. Na verdade, ela não conseguia imaginar como aquele garoto gordinho e birrento havia se tornado tão bonito e educado. E vendo ele ali, de perfil e sem camisa, enquanto massageava os pés dela sem intenção alguma, ela precisava admitir. Calebe era mesmo um cara bonitinho. E droga, ela estava quase admitindo para si mesma que estava afim dele.
– Não vem ficar me zoando só porque você nasceu bonita, cresceu bonita e muito provavelmente vai morrer bonita. – Declarou, risonho e fez Malu rir também.
Aquelas tiradas brincalhonas e provocativas de Calebe deixavam-na completamente arrebatada. Era assim que ele a ganhava e sabia disso. Malu sentou rapidamente e se esticou, encostando os lábios nos dele, depositando alguns selinhos e voltou a se deitar. Ele a olhou, questionando, confuso. Não era uma reclamação, ele apenas ficara surpreso. Sempre ficava quando era ela que iniciava algum tipo de contato mais íntimo. Maria Luiza deu de ombros e voltou a olhar para a televisão, fingindo estar assistindo o péssimo jogo que o Fluminense fazia naquele dia.
– Caramba, morena. Até esqueci o ódio que eu tava sentindo do Flu. – No mesmo instante, algo mais surpreendente que o beijo de Malu aconteceu. O Fluminense fez um gol, levando Calebe aos gritos e Malu as gargalhadas. – Eu não acredito no está diante dos meus olhos, meu Deus! – Ele gritava o nome dos jogadores e batia palmas, entusiasmado.
– Que gritaria é essa, garoto? – Ana entrou na sala, assustada e reclamando. – Daqui a pouco o vizinho vem reclamar.
– Quem, mãe? Aquele flamenguista SECADOR? – Debochou, gritando a última palavra em direção a janela.
– Calebe! – A mulher repreendeu, rindo. – Eu vou até o supermercado e volto logo, pode ser?
– Supermercado, mãe? Hoje? Não tá tudo fechado, não? – Ele estranhou.
– Eu não sei, vou ver qualquer vendinha aberta. Quero comprar alguns materiais pra fazer um bolinho pra gente. Não sobrou nada do almoço e nem temos algo pra lanchar agora. – Ela arrumou a bolsa no ombro e foi até Malu. – Tudo bem, meu amor? Eu vou rapidinho, se comportem vocês dois.
– Não se preocupe, tia. Eu tô com um pouco de sono por conta do analgésico, logo vou tirar um cochilo. – Malu tranquilizou-a. Ana assentiu e caminhou até a porta, voltando para o sofá no mesmo minuto e disparou dois tapas no ombro de Calebe.
– Ai! O que eu fiz? – Reclamou, passando a mão no local.
– Se comportem. – Frisou, o encarando fixamente.
– Relaxa, mãe. A Malu é bonita, mas não ganha da torcida do Fluzão. Olha aí, que coisa mais linda! – Assegurou, apontando para a televisão. Malu e Ana se olharam e reviraram os olhos ao mesmo tempo.
Assim que Ana saiu de casa, Calebe olhou de canto de olho para Malu, que prendeu os lábios em um sorriso e fingiu que não estava vendo a expressão travessa do rapaz.
– O que foi agora, Calebe? – Não resistiu e perguntou.
– Nada, não. Pensando numa teoria aqui. – Ele coçou a cabeça, olhando-a. – Assim que a gente se beijou, o Fluminense fez gol. Mas assim, não tem como a gente comprovar muito bem essa teoria, não é? – Malu negou com a cabeça, descrente em como a lábia dele combinava bem com o sorriso atrevido.
– A não ser que o Fluminense faça outro gol. – Supôs.
– Ou que você me beije de novo.
– Sua mãe disse pra gente se comportar! – Ela apontou para ele com o dedo em riste.
– Mas eu não fiz nada. – Respondeu, contrariado. E proferiu num murmúrio após alguns segundos de silencio: – Só acho muita falta de consideração sua deixar o Fluminense perder esse jogo...
જજજજજજજજજજજજજ
Ana sorriu fraco ao ver a foto grudada no armário da sala. Malu sempre fora uma criança com um lindo sorriso e cachos bem formados. E na foto com ela sentada no colo do pai, era possível ver o quanto ela tinha herdado dele fisicamente. Os olhos pequenos e o sorriso simpático. Sentiu-se triste ao pensar que talvez Calebe e ela fossem os únicos que realmente se importassem com Maria Luiza. Mas essa sua suposição caiu por terra quando ela acordou naquela quarta-feira com uma mensagem de texto no seu celular, de um número bem conhecido.
“Ana. Ela está aí?”
Ana se sentiu aliviada ao ver a mensagem e ter a certeza de que Andréia se importava, sim.
– Me dê um bom motivo, por favor! – Ana suplicou, virando-se novamente para Andréia. Ela precisou ficar uns bons minutos batendo na porta até vencer Andréia pelo cansaço. Precisava conversar com ela, precisava entender. – Me dá um bom motivo pra você ter deixado a sua filha...
– Ana. – Andréia tentou interromper, sem sucesso.
Ana era uma mulher muito simples e dócil, mas sabia dar uma lição de moral como ninguém. Era paciente e bondosa, mas também sabia ser dura quando se via diante de qualquer injustiça.
– Pra você ter deixado a sua filha sair daqui de biquini, roxa e machucada! No meio da noite! Uma menina, Andréia! – Expressou, ríspida. Andréia passou a mão pelos cabelos frágeis e tão cacheados quanto o de Malu e suspirou profundamente. Merecia todas aquelas palavras duras de Ana, merecia todo o julgamento. Se fosse o contrário, ela também o faria. – O que diabos aconteceu?
– Você quer saber o que aconteceu, Ana? – Murmurou, amarga. – Meu João morreu, Ana. Morreu, levou minha alma junto dele e deixou meu corpo vagando nessa terra maldita. – Respondeu, seca.
– E eu sinto muito por isso, Déia. – Sentou-se ao lado da mulher, chamando-a pelo antigo apelido. – Mas a tua filha não tem nada a ver com isso. – Andréia pegou a carteira de cima da mesa de jantar e retirou um cigarro de dentro.
– Eu sei que não. Surtei, Ana. Surtei, perdi o controle de mim mesma. – Tentou explicar. Esticou a mão, oferecendo o cigarro aceso para a antiga amiga.
– Eu não fumo mais. – Ana contou, mas pegou o cigarro e deu uma longa tragada.
As duas mulheres de meia idade estavam sentadas no sofá, encarando o teto. Ambas com os cabelos embranquecendo, a idade começava a dar as caras na pele delas. Os anos foram duros e difíceis com as duas e apesar de nem sempre concordarem entre si, se respeitavam e, principalmente, se entendiam. Só foram trocar palavras novamente quando o cigarro chegou ao fim.
– Ela não quer voltar e eu não sei se vou deixá-la voltar. – Informou.
– A filha é minha, Ana. – Rebateu, indo em busca de outro cigarro, sentindo a garganta secar e o corpo implorar por mais nicotina quando ouviu a afirmação de Ana.
– E eu estou avisando que não deixo a sua filha voltar pra essa casa. Pelo menos não enquanto você não me garantir que isso nunca mais vai acontecer. – Ana foi categórica no aviso. Não queria meias palavras entre elas, queria ser a mais clara possível. – E se acontecer de novo, eu te prometo que vou ser a primeira a levar a garota numa delegacia e abrir uma ocorrência contra você.
– Você sempre curtiu essa área de defesa e advocacia, né Ana? – Exprimiu, sarcástica.
– Andréia. – Advertiu, sem paciência.
– Eu tomo dois remédios pra dormir toda noite, Ana. Depois de ontem, eu precisei tomar oito comprimidos. E olha só, já estou acordada de novo. – Contou, cabisbaixa. – Nem no dia da morte do João eu precisei de tantos remédios. O que eu tô tentando dizer é que... Estou garantindo que não vou fazer de novo.
– Acredito em você. – Ana afirmou. Não teve dúvidas, Andréia podia ser muita coisa, mas sempre fora uma mulher de palavra.
– Como ela está? – Questionou, curiosa.
– Vai sobreviver. É uma pessoa incrível, está caminhando pra se tornar uma mulher gigante. – Ana expôs, sorrindo orgulhosa. – Meu filho está se apaixonando por ela, caso queira saber. – Andréia sorriu, soltando a fumaça do cigarro com força.
– Calebe sempre foi apaixonado por ela, Ana. – Divulgou, balançando a cabeça. – Bom, eu já o vi escapando pela janela da sala durante a madrugada, caso queira saber. – Elas se entreolharam, cúmplices e riram. – São bonitinhos juntos, não dá pra negar. – Deu de ombros e Ana concordou.
Novamente a sala caiu no silêncio, sendo preenchido apenas pelas tragadas fortes e contínuas de Andréia e os pensamentos inquietantes de Ana. As duas grandes amigas se viram perdidas em seus próprios pensamentos por um tempo antes de Ana olhar no relógio e ver que já havia se passado quase uma hora.
– Eu preciso ir, não contei pra Malu que eu vinha aqui. – Revelou, indo para a porta de saída.
– Não conta ainda, Ana, e-eu... – Suspirou, abaixando a cabeça, sentindo-se completamente envergonhada. – Eu ainda não sei como vou olhar pra ela de novo.
– Não vou contar. Mas não é por você, Déia, é por ela. Não quero ser dura e chutar cachorro morto sendo a dona da verdade, mas a menina chorou a noite inteira. Meu filho contou que ela pediu permissão pra ele pra chorar. Ela não se sente confortável em chorar sem ser autorizada. Isso não é certo, Andréia. Ela é muito jovem pra ter esse tipo de insegurança consigo mesma.
– Eu sei, Ana. Eu sei que preciso colocar a cabeça no lugar. – A mulher esfregou a testa, inquieta. – Acredite quando digo que estou tentando, porque eu estou, Ana. Estou tentando muito ficar sã.
– Eu acredito em você, queria que não fosse tão complicado assim, mas você vai ter que lidar com as consequências de seus próprios atos. – Acenou com a cabeça, indo em direção a saída quando foi parada por Andréia novamente.
– Obrigada, Ana. Por cuidar dela quando eu não consegui. – Os olhos marejados da mulher provocaram lágrimas em Ana também.
– Você e João cuidaram de mim quando essa rua inteira me apedrejava. Tenho dívida com você até o fim, Déia.
– Considere a dívida paga, minha amiga.
જજજજજજજજજજજજજ
– Totalmente mentira. – Calebe murmurou contra os lábios dela.
– O que? – Ela questionou, totalmente inebriada com o cheiro e o carinho suave que Calebe fazia nela com seus próprios lábios.
– A torcida do fluzão é muito linda, mas perde e muito pra você, minha morena.
Não demorou muito após a saída de Ana que os dois jovens se enrolaram pelo sofá, brincando de abraço, flertando com beijos inocentes, trocando caricias inocente, até não serem mais.
– Calebe, tua mãe... – Ela suspirou, tentando tirar as mãos atrevidas dele de seu quadril.
– Eu sei. – Segurou o rosto dela com as duas mãos e avançou nos seus lábios, desistindo daquela brincadeira boba e a beijou com vontade. Malu o abraçou pelo pescoço e o puxou o suficiente para que ele deitasse por cima dela no sofá. – Não temos muito tempo.
– Não temos nenhum tempo, garoto. – Ela riu, fazendo carinho nas costas nuas dele e tomando seus lábios com fúria e vontade.
Na noite passada, Malu passou a noite chorando e quando cansou, caiu no sono tão rápido quanto Calebe. Apesar de dormirem e acordarem juntos, não sentiram a necessidade do toque íntimo. Até chegarem naquela tarde de quarta-feira chuvosa, quando todo e qualquer toque se tornou inflamável demais para seu próprio bem. Nem a falta de fôlego os afastou totalmente, fazendo com que intercalassem os beijos vorazes com selinhos provocadores.
Foi quando tudo saiu do lugar. Malu, como sempre, guiou a mão de Calebe para debaixo de sua blusa, ansiando pelo toque dele em sua pele. Aquele ato o incomodou profundamente, tanto que não conseguiu continuar. Se afastou, olhando-a curioso.
– O que foi? – Ela estranhou o olhar dele.
– Malu, eu te machuco? – Questionou, preocupado. – Das vezes que a gente... fez algo a mais, eu te fiz algo? – Ela negou com a cabeça, imaginando onde aquilo iria parar. Sabia o que vinha depois daquilo, sabia o que ele iria perguntar, mas não estava pronta para que ele visse aquela sua faceta.
De menina frágil. Não era assim que ela queria que ele a enxergasse.
– A gente precisa parar por aqui. – Ela tentou sair debaixo do corpo dele, mas ele não se moveu um centímetro, ainda olhando-a de maneira minuciosa, tão curioso que parecia estar analisando uma pedra lunar nunca vista antes. – O que foi, Calebe? Para de me olhar assim. – Pediu, envergonhada.
– Te assustei, não é? – Tomou suas próprias conclusões. – Você sabe o que eu ia perguntar.
– Você pergunta demais, Calebe. – Se remexeu debaixo dele, tentando novamente sair do lugar. – Sai de cima de mim.
– E você pergunta de menos. Na verdade, você nunca pergunta nada. – Constatou.
– Do que você tá falando? – Questionou, confusa e assustada.
– Nem sei, Malu. – Suspirou fortemente, arrumando um cacho teimoso que se soltava do coque no cabelo dela. – Só tô divagando, do nada vieram uns pensamentos aqui que não tá dando pra deixar passar. – Foi totalmente sincero, deixando as palavras saírem de sua boca sem passar pelo filtro que ele ativava quando estava com ela.
– Eu acho que preciso ir. – A voz dela estremeceu.
Malu pensou que logo Calebe ia pensar demais e ia se dar conta que talvez, estar com ela, não fosse a melhor escolha que ele faria na vida. Ou talvez ele estivesse pensando em como ia contar para os meninos da rua que ele estava dormindo com ela. Ou talvez... Ou talvez...
Eram muitas dúvidas que planavam sobre a cabeça juvenil dela. E na dele também.
– Pra onde? – Perguntou, sincero. Malu engoliu em seco quando se deu conta do fato de que, pela primeira vez na vida, ela não tinha para onde ir.
Tudo ficou estranho rápido demais.
– Sai de cima, Calebe. – Ela pediu, incomodada com o fato que tinha se dado conta.
– Eu acho que vou começar a gostar de ti mesmo. Tipo, de verdade.
Ela paralisou.
Ficaram em silêncio, cada um tentando lidar com o peso das palavras dele. Calebe não tinha ideia do porquê estava falando aquilo e daquele jeito, mas já tinha se acostumado com o próprio jeito impulsivo, depois seu “eu-futuro’ que lidasse com as atitudes precipitada do seu presente.
Malu pensou que talvez aquilo fosse um sonho. Ela queria muito que Calebe gostasse dela, mas com ele falando aquilo tão abertamente, ela sentiu medo. Sem nem saber do quê.
– Você gosta de mim também, não é? – Perguntou, tentando não parecer tão angustiado com o conhecido silêncio dela.
– Para com isso, me deixa ir, vai. – Murmurou, acanhada.
Ela tentou levantar novamente e ele, em um ato desesperado de fazê-la entender ou falar, prensou seus joelhos em cada lado do quadril dela. Ela até fingiu que queria sair dali, mas não lutou. Não queria deixar de sentir a pele dele na dela, mesmo que aquilo significasse ouvir demais.
– Deixa de ser difícil, Maria Luiza. – Sorriu, enviesado. O jeito arredio da garota o deixava maluco. Às vezes, não do jeito bom. Sabia que ela gostava dele, tinha quase certeza disso. Ele via no olhar dela o quanto ela o admirava. Mas ele sentir não era o suficiente, queria fazê-la falar. – Lembra do aniversário do Vini? Que você me agarrou no quarto da mãe dele porque eu tava olhando pra outra garota?
– Cê sempre tá olhando pra outra! – Reclamou, tentando ignorar o fato de que ela realmente o agarrou no quarto da mãe de Vinicius e muito provavelmente por ela estar com ciúmes.
– Eu sempre tô olhando pra você, isso sim. – Sorriu, implicante. – Às vezes, você me chama de “mô”. É muito bonitinho e nunca gostei disso antes, viu? – Confessou, passando a mão em seu rosto suavemente.
– Larga de ser besta, eu chamo todo mundo assim. – Tentou disfarçar o sorriso bobo que ficou em seu rosto com a confissão dócil do rapaz.
– Eu lembro quando você me deixou entrar no seu quarto pela primeira vez. Foi naquele domingo, lembra? – Ela cerrou os olhos, desconfiada. – Saímos com a turma da rua pra comer hambúrguer e acabamos em uma festa.
– Você tava bêbado. – Comentou, relembrando o quão engraçado e barulhento ele ficava quando estava embriagado.
– Tava mesmo, mas lembro que você não sossegou enquanto eu não entrei no táxi contigo. Você tava toda preocupada, queria até ligar pra minha mãe...
– Por que você tá lembrando dessas coisas? – Ela o empurrou delicadamente, fazendo com que ele se deitasse ao lado dela, jogando a perna e o braço por cima do corpo dela. Malu, novamente, não se mexeu ou reclamou.
– Você veio pra cá. – Sentiu a respiração dela se tornar totalmente irregular quando finalmente comentou o fato. – De todos os lugares, você veio. E preferiu dormir comigo do que ficar sozinha.
Era um terreno perigoso e instável. A noite passada era um assunto mais do que sensível para Malu, ela não queria ter que falar sobre isso tão cedo, mas Calebe estava forçando isso. Ela engoliu em seco e o encarou, quase de maneira tempestuosa.
– Eu não tinha ninguém. – Replicou, agitada.
– Não mesmo? – Ele questionou. Sem ser irônico, apenas curioso.
– Pelo amor de Deus, por que você tá falando essas coisas? – Irritou-se e empurrou os braços dele para longe e levantou-se do sofá. – Eu tenho a Alanne, sim! Mas como vou chegar na casa dela de madrugada e contar que peguei porrada? Com que cara eu contaria pra ela que minha mãe me bateu? – Malu se exaltou.
– Calma, Malu. Só tô tentando fazer você perceber que gosta mais de mim do que você queria gostar. E também tô tentando entender isso melhor... – Confessou, baixinho, para si mesmo. – Você gosta de mim, não é? – Perguntou tão calmo que sequer parecia um questionamento.
– Eu não tô ficando com mais ninguém, Calebe. Diferente de você. Já deixei de fazer alguma coisa pra passar a noite contigo, coisa que você também não fez. Você questiona demais pra quem não tá totalmente certo em relação a gente. – Irritou-se e deixou escapar algumas dúvidas que persistiam em sua cabeça.
Quando estavam juntos, Calebe parecia ser tão louco por Malu que estenderia um tapete para que ela caminhasse pelo bairro. Entretanto, mesmo parecendo tão intenso e apaixonado, Malu ainda escutava algumas histórias de Calebe se envolvendo com mais de uma garota por aí. Ela se restringia toda vez que se incomodava com isso, pois não queria fingir que queria um relacionamento sério naquele momento em sua vida.
Mas era Calebe. Era o seu Calebe, aquele abusado que paralisava partidas de futebol só para vê-la passar, é claro que ela se incomodaria.
– E você questiona de menos. – Refutou.
– Eu não vou ficar aqui agora. – Ela explicou lentamente, não queria mais se manter naquela conversa, naquele assunto. O clima leve que estava na sala evaporou de forma drástica com a mudança de assunto. – É melhor eu ir... – Ela se afastou e foi em direção ao quarto.
– O que você sabe sobre mim? Diz uma coisa. Só uma. – Ele levantou, pedindo decidido. Calebe vinha pensando naquele tinham uns dias, mas nunca tinha se permitido levar a frente o pensamento ridículo de que Maria Luiza não o conhecia. – Eu só preciso de uma coisa, Malu. Só uma certeza.
– E se eu disser que não sei? – Perguntou, relutante.
– Eu vou achar que você nunca quis saber algo real sobre mim. E pensando bem, eu acho que é isso mesmo... – Sentou-se novamente, apoiando os braços no joelho, pensativo. Malu irritou-se ao notar que ele agia como ele se ela nem estivesse ali. Reflexivo, perdido em si e em seus próprios pensamentos. – Você nunca perguntou pelo meu pai. – Declarou, absorto em pensamentos.
– Não vem querer fazer essa porra agora, sério! – Exclamou, apontando para ele com o dedo esticado, irritada. Não era hora de Calebe questionar suas ações, sentimentos e atos. – Você não sabe nada de mim, por que diabos eu tenho que me meter na tua vida?
Ele levantou do sofá, passando a mão pelo cabelo de maneira agitada. Acabou falando demais e não organizou suas ideias de maneira satisfatória, acabou causando uma tensão entre os dois que não existia antes. Ele não precisava de um título, não precisava de um papel e caneta, mas precisava da confirmação dela, queria saber se ela gostava dele tanto quanto ele estava descobrindo gostar dela. Queria saber mais dela, não importava como. Perdeu grande parte da vida dela e não conhecia aquela garotinha da vizinha, muito menos a mulher que voltou a morar lá anos depois. Se tivesse que ser por meio de brigas e discussões, então seria.
– Por que você não me deixa te ver sem blusa? – Perguntou o que queria ter perguntado na primeira vez que aconteceu.
– O que aconteceu com seu pai?
O silêncio emergiu como um soco no estômago de cada um, ambos não tinham intenção de fazer aquele tipo de questionamento de forma tão abrupta, mas os meios acabaram levando-os ali. Malu quase abriu a boca para responder à pergunta de Calebe, mas perdeu a coragem quando os olhos dele abandonaram os dela e se focaram na parede.
Calebe percebeu que não estava pronto para compartilhar e estava tão inseguro quanto ela, em relação a tudo. Ele engoliu em seco e abaixou a vista, não querendo ver a expressão dura que ela estava. Os dois ouviram um barulho no portão de entrada e não demorou mais que uns segundos para Ana entrar no cômodo com duas sacolas na mão.
– Cheguei! – Exclamou, animada. Porém, seu sorriso foi diminuindo quando ela notou a tensão no lugar e o jeito intenso que Malu e Calebe estavam se encarando. – Eu trouxe uns bolinhos de morango... – Murmurou, entreolhando entre os dois jovens.
– Obrigada, tia, mas posso me deitar no seu quarto? – Pediu, ressentida. – Tô com muita dor nas pernas. – Ana apenas assentiu, estranhando.
A mais velha se virou para o filho, confusa. Não tinha demorado mais que uma hora e as coisas pareciam ter saído do eixo de tal forma que Calebe parecia sério demais e Malu estava trancada no quarto.
– O que aconteceu, Calebe? – Perguntou, preocupada.
– O tio João morreu, mãe. Isso aconteceu.