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Efeito Colateral

por

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Capítulo Nove – e

Já era madrugada, mas ninguém ali parecia muito preocupado com isso. Eu, por outro lado, entrei em estado de alerta assim que percebi que o Montrachet do Ravi já não estava surtindo o mesmo efeito de antes. Na verdade, não estava surtindo efeito nenhum. O vinho tinha cumprido sua missão algumas horas atrás.
Avisei a que eu estava cansada e a três piscadas de desmaiar na mesa, mas ele recusou a ideia de me deixar ir sozinha como se fosse uma ofensa à sua função não oficial de me acompanhar por aí. A tal “caminhada até a recepção” acabou se transformando na nossa quinta volta completa pela orla. E, pelo visto, ainda sem qualquer previsão de chegada.
– Você pode me explicar novamente o quanto isso vai ser relevante na sua vida? Saber quantas mulheres eu já namorei? – Perguntou, rindo.
– ... é a primeira vez que te vejo solteiro em anos. É natural que eu esteja curiosa. – Dei de ombros. – Então? Você tem um número? Ou já se perdeu no caminho?
– Sério mesmo?
– Pesquisa informal. Prometo não usar contra você... ainda. Foram quantas mais ou menos? – Pulei em sua frente, começando a caminhar de costas na areia úmida, meus olhos fixos nos dele, desafiadores.
– .
– . – Repeti, imitando seu tom grave. – Duas?
– Não.
– Sete? – Sugeri, estreitando os olhos, tentando ler alguma pista em seu rosto fechado.
– Não!
– Cinco. – Afirmei, a voz triunfante. – É cinco, não é? Você ficou em silêncio! – Apertei os olhos e apontei um dedo acusador para seu peito, como uma detetive amadora que acabara de desvendar o crime perfeito. – Você namorou com cinco mulheres!
Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça como se eu fosse previsível demais.
– Tenta de novo.
– Três.
O silêncio se instalou, mas, dessa vez, não havia fuga no olhar dele. Ele soltou um suspiro leve, quase um riso, passando a mão pela nuca.
– Três. – Confirmou, por fim.
– Ha! Eu sabia! – Dei um pequeno pulo, como se tivesse acabado de marcar um ponto num jogo invisível. – Então, três mulheres marcaram passagem pela sua vida amorosa. Isso é... surpreendentemente normal para um .
– Normal? E o que você esperava? Um harém? Uma lista interminável com nomes e datas?
– Sei lá. – Dei de ombros, caminhando em volta dele, avaliando como se fosse um caso em aberto. – Um histórico caótico… Considerando que você namorou minha prima querida.
– Ó! – Ele apontou o dedo na minha direção, rindo. – Não começa.
– Não começa o quê? É um fato. Você namorou a Kiara. E, até hoje, eu não sei se aquilo foi exatamente um conto de fadas.
O riso dele diminuiu, virando outra coisa. Ele passou a mão pelo rosto, como se já esperasse por aquilo… como se soubesse que, em algum momento, a conversa ia chegar ali.
– A Kiara e eu… – Começou, mas a pausa veio antes do resto. – Foram circunstâncias. Não era para ser.
Inclinei levemente a cabeça, analisando.
– Circunstâncias? Essa é uma forma bem elegante de descrever um relacionamento.
Ele soltou um suspiro curto pelo nariz, quase um riso sem humor.
– Nem todo mundo entra na sua vida porque tem que ficar. – Os olhos dele vacilaram por um segundo – rápido, quase imperceptível – antes de voltarem pros meus. – Você é terrível, sabia? Me fazer relembrar um passado que eu já enterrei.
– Três. – Repeti e sorri de lado, devagar, ajeitando o cabelo que o vento bagunçara. – Ou você escolhe muito bem… ou se envolve muito mais do que deixa transparecer.
Ele ficou em silêncio por um instante, os olhos fixos em mim, como se estivesse lendo nas entrelinhas de cada palavra.
– E você? – Perguntou, a voz mais baixa agora. – Quantos marcaram passagem pela sua vida?
O sorriso congelou no meu rosto por um segundo. Eu não esperava que ele devolvesse a pergunta.
– Essa é uma pesquisa informal ou uma investigação aprofundada? – Desviei o olhar, pisando na areia com mais força.
– Troca de informações. – Ele inclinou a cabeça, um sorriso ladino se formando nos lábios, recuperando o tom provocador que tanto conhecia. – Você começou. Agora termine.
Por um segundo, considerei desviar de novo. Fazer uma piada. Mudar de assunto.
– E se eu disser que o meu número não é tão… organizado quanto o seu?
– O que diabos isso significa, ?
– Significa que eu sou uma menina, . – Soltei um riso baixo, sem graça, passando a mão pelos cabelos. – A gente nunca sabe exatamente qual é o nosso status de relacionamento. Uma vez passei duas semanas em Los Angeles com um cara. Só duas semanas. Depois ele foi embora para outra cidade. Mas eu o amei mais do que amei o Luca, meu segundo namorado, com quem passei apenas seis meses, mas foi tão ruim que me traumatizou o suficiente para aceitar o Andreas como namorado. E teve o Benny, que passei sete meses, mas eu não acho que conta.
– Como assim não conta?
– Porque a gente não se via. Ele morava em Bangladesh, conheci numa viagem. A gente trocava mensagem, ligação, vídeo chamada. Mas nunca foi real, sabe?
– Aconteceu comigo uma vez. Ela era espanhola, não falava uma palavra de inglês e eu não falava uma palavra de espanhol.
– E como vocês se comunicavam?
– Com os olhos. – Ele respondeu, inclinando o rosto com um ar teatral que me fez revirar os olhos na mesma hora. – E com as mãos. – Completou, rindo, enquanto fazia um gesto sugestivo e descaradamente obsceno.
– Ai, que nojo! – Soltei, entre risos, dando tapas na mão dele como se estivesse espantando um inseto.
– O quê? Estou sendo honesto. Comunicação não verbal é uma forma de arte. Foram sete dias de intensa... troca cultural.
– Acabei de lembrar que você é um homem hetero. – Fiz careta, fazendo-o rir, deliciosamente.
– Então deixa eu ver se entendi… – Começou devagar, como se estivesse organizando peças demais de um quebra-cabeça. – Teve o cara de Los Angeles, duas semanas e aparentemente o amor da sua vida. O Luca, meses suficientes para te traumatizar. O Andreas, claramente um erro estratégico pós-caos… – Fez uma pausa breve, contando nos dedos – e o de Bangladesh, que a gente finge que não conta porque era virtual.
– Isso. – Confirmei, simples, como se não fosse nada demais. – Fora os casos de uma noite.
– Como você conseguiu enfiar tanta história em tão pouco tempo? – Perguntou, olhando para mim de novo, meio impressionado, meio divertido. – É… honestamente, impressionante.
– Uma garota como eu não fica solteira por muito tempo. – Dei de ombros, rindo, lembrando que aquela era exatamente o tipo de coisa que a Nina costumava dizer.
– É claro que não. – Ele balançou a cabeça, segurando um sorriso que quase escapava. – É vago. – Ele corrigiu, inclinando a cabeça. – Pode significar muita coisa. Que você é bonita demais para ficar sozinha. Que você é carente. Que você escolhe mal. Que você tem medo de ficar só. – uma pausa. – Ou que você simplesmente não se permite parar.
– Você é tão... advogado. – Revirei os olhos, mas não consegui conter o sorriso que teimava em escapar. – É apenas uma frase engraçadinha de uma música.
– Uma música?
– Sim. – Dei de ombros, como se fosse óbvio. – Fergie.
Ele piscou uma vez. Depois outra.
– Fergie. A cantora de "My Humps"?
– A mesma. – confirmei, rindo da expressão dele.
– E você está citando Fergie como justificativa filosófica para sua vida amorosa?
– Não é justificativa. – Corrigi, apontando um dedo na direção dele. – É referência cultural. Há uma diferença.
– Claro. – Ele inclinou a cabeça, o sorriso se alargando. – Porque Fergie é conhecida por sua profundidade filosófica.
– Fergie é conhecida por ser uma lenda. – Retruquei, fingindo indignação.
Ergui o olhar quando um chuvisco fino e inesperado começou. As estrelas tinham desaparecido, engolidas por nuvens cinzentas. Corremos juntos até a entrada do hotel, mas parei ao notar que não me acompanhou. Ficou parado no meio do pátio, com o rosto voltado para cima, deixando as gotas caírem no rosto. Franzi o cenho, sem entender.
– Ei, quanto de narguilé você fumou? – Ri, observando-o ali, plantado no meio da calçada.
– A chuva daqui é quente. – Disse, com as palmas das mãos viradas para cima, como se estivesse testando a temperatura.
– Quente?
– É, tipo... morna. Parece até que vem direto do aquecedor. – Ele inclinou o rosto para trás e fechou os olhos, deixando a água escorrer pelo rosto num gesto tão pacífico que parecia um comercial de shampoo.
– Tem certeza de que não tem alguém mijando em você?
– Só se Deus tiver guardado um rancorzinho e não goste muito de mim.
– Não acho que isso seja possível. – Murmurei, mais para mim do que para ele.
Ele abriu um olho ao ouvir aquilo, como se não tivesse certeza de ter escutado direito.
– Como é?
– Nada. Só acho improvável mesmo.
ficou me olhando por um segundo a mais do que o necessário, a chuva ainda escorrendo pelo rosto dele, os cabelos começando a grudar na testa.
– Improvável por quê?
– Porque você é você.
– Isso foi um elogio? – Ele arqueou levemente a sobrancelha, como se estivesse avaliando a resposta por ângulos demais para algo tão simples. Dei de ombros, desviando o olhar. – Você devia experimentar... A chuva.
– Ahn... meu cabelo... – Toquei nas pontas com certo desespero contido.
Ainda estava com o penteado que minha mãe tinha feito, com laquê o suficiente para sobreviver a um furacão. E eu já sabia, por experiência própria, que molhar o cabelo assim resultaria numa dor de cabeça infernal.
– Ok. – Ele recolheu a mão com naturalidade.
Franzi a testa, incomodada com a rapidez da desistência.
– Ok? É isso? Você não vai nem tentar de novo? – A pergunta escapou antes que eu pudesse frear a língua.
– E você quer que eu tente de novo?
Eu sorri. Não consegui evitar. A audácia dele me arrancava sorrisos até quando eu não queria ceder.
– Sempre, .
– Então me faça a honra... – Ele fez uma pequena reverência com a cabeça.
Hesitei por um segundo, meus dedos ainda presos ao cabelo como se aquilo fosse uma desculpa válida. Mas ele não esperou resposta. Segurou minha mão com a leveza de quem confia no próximo passo e puxou. Logo, eu estava fora da proteção da marquise e sob uma chuva surpreendentemente... morna.
– Meu Deus. A chuva realmente é aquecida. – Falei baixo, quase em choque.
– Eu disse
E quando uma gota escorreu pela minha têmpora, ele não hesitou. Enxugou com o polegar, deixando o dedo pairando próximo da minha mandíbula.
Foi nesse instante que percebi. Eu estava tão distraída pela proximidade, tão acostumada com a presença dele ao meu lado naquela noite, que quase não notei como ele me olhava. De repente, ele sorriu. Um sorriso grande, espontâneo, que iluminou seus traços com uma naturalidade quase desconcertante. E então, sem qualquer aviso, me encarou com uma intensidade mais firme, como se tivesse tomado uma decisão.
– O que foi? – Perguntei, desconcertada, tentando fugir do olhar dele.
– Você é bem bonita, .
Simples, direto e impossível de ignorar. Soltei um riso curto, sem graça.
– É que... eu invisto em cremes caríssimos. – Brinquei, mas a voz saiu trêmula, entregando minha timidez e ele sorriu novamente.
– Deve ser isso. – Nós dois sabíamos que não era. – Feliz aniversário, .
Um sorriso pequeno, mas genuíno, tomou conta do meu rosto, e sem pensar muito, murmurei: – Obrigada, e obrigada por ter topado essa loucura comigo.
– O prazer foi todo meu, literalmente.
– Você não imaginava que seria assim, não é? – Perguntei, caminhando para a recepção em direção ao elevador.
– Nem por um segundo. Eu não teria pensado tanto na proposta se soubesse que ia acabar numa ilha paradisíaca, fingindo ser namorado de uma mulher bonita…
Dessa vez, não contive o sorriso.
– O que foi?
– Nada… só achei curioso. – Inclinei a cabeça, deixando a provocação vir com calma. – Os anos passam, , mas certas coisas não mudam, não é?
– Tipo o quê?
– Você. Ainda tem uma quedinha por mim.
Ele freou na hora. Foi sutil, mas eu vi. O microssegundo de surpresa atravessando o rosto dele antes de qualquer controle voltar.
Acho que a primeira vez que desconfiei foi aos dezessete. Era verão e último ano da escola, eu passava as tardes – e, muitas vezes, as noites – praticamente inteiras na casa da Nina. A casa tinha um silêncio diferente naquela época. A doença da tia Anamelia não dominava o ambiente, mas estava ali o tempo todo, ocupando espaço nos detalhes.
Foi nesse cenário que começou a aparecer. Sempre quando eu estava lá, recostada no sofá com um livro aberto no colo que eu mal lia, porque ler, na verdade, era só uma desculpa para existir naquele espaço sem precisar justificar minha presença.
“Esqueci meu celular”, dizia e eu apontava para a mesa sem erguer o olhar.
“Você viu a Nina?”, e eu dizia que não, que talvez estivesse no quarto, e ele dizia "ah, tá", mas não saía.
Era um flerte adolescente sem malícia, desses que a gente acha que nunca vai significar alguma coisa. No fundo, eu achava até graça. O irmão mais novo da Nina – tão educado, tão direitinho – com uma quedinha por mim? Era fofo.
Até que o verão acabou, como todos os verões acabam. A vida seguiu. Eu entrei na faculdade, troquei a rotina preguiçosa da casa da Nina por corredores lotados e horários apertados.
E quando dei por mim, o garoto que hesitava na porta tinha desaparecido e no lugar dele, havia alguém mais alto (ou talvez fosse só a forma como ele agora preenchia o espaço), mais quieto (não mais o silêncio tímido de quem não sabe o que dizer, mas o silêncio contido de quem sabe exatamente o que dizer e escolhe não dizer).
Ele tinha deixado de ser um menino e tinha deixado de ser transparente. Ele ainda entrava, mas agora me ignorava. Não de forma grosseira – nunca foi grosseiro com ninguém –, era educado, cordial, quase excessivamente polido. Dava bom dia, perguntava como eu estava, escutava com atenção se eu dizia alguma coisa.
A atenção que antes parecia escapar dele – involuntária, quase desajeitada – agora era medida. Controlada. E distribuída com uma generosidade tranquila para todos ao redor. Para a Nina. Para a mãe. Para qualquer amigo que aparecesse. Para todo mundo.
Menos para mim.
– De onde você tirou isso? – Ele riu levemente.
– Uma mulher sempre sabe, . – Dei de ombros, rindo também, tentando manter o tom leve, como se estivéssemos falando de algo banal. Como se o coração não tivesse disparado no exato momento em que abri a boca.
– Sabe o que, exatamente? – Ele inclinou a cabeça, como quem se diverte com a própria pergunta. – Que eu tive uma quedinha por você há dez anos… ou que eu ainda tenho? – Eu não esperava que ele confirmasse. Não esperava que fosse tão direto. Não esperava que ele jogasse de volta na minha cara com tanta tranquilidade. – Você nunca trocou mais de três palavras comigo, . E, além disso, eu era o irmão mais novo da sua melhor amiga. Não fazia sentido.
– E agora faz?
A pergunta escapou antes que eu pudesse segurá-la.
Não, não, não. Eu tinha chegado até ali sem que percebesse o estrago que ele vinha fazendo com uma mulher de trinta anos com o raciocínio emocional de uma adolescente mal resolvida. Não era agora que eu ia estragar tudo.
Os olhos encontraram os meus com uma calma calculada, como se ele tivesse esperado por aquilo. E naquele breve instante, eu achei que ele fosse dizer alguma coisa. Eu vi o movimento quase imperceptível dos lábios e como a respiração dele mudou (eu percebi, porque eu sempre percebi, mesmo quando ele achava que eu não estava olhando).
Mas ele não disse nada. Apenas soltou o ar, como se estivesse abrindo mão de alguma coisa. Tive a nítida impressão de que, se eu desse um passo em falso, ele não recuaria.

───────◇───────



Acordei naquela manhã com a cabeça latejando e uma leve ressaca me abraçava com força suficiente para me lembrar que uísque, vinho e cerveja definitivamente não eram exatamente meus amigos.
Peguei o celular largado no criado-mudo e encontrei uma mensagem da .
Ela avisava que faria um brunch – porque, claro, existiria um brunch – com a mãe e algumas tias, e que eu estava mais do que convidado a me juntar ao chá das matriarcas… ou, se preferisse, poderia ir pilotar karts com o pai dela e um grupo de amigos.
Por um instante, considerei seriamente enfiar o rabo entre as pernas e me refugiar na companhia das tias elegantes, cercado de porcelana fina e conversas educadas.
Mas aí lembrei que nunca tinha pisado numa pista de kart.
E, convenhamos, para alguém que colecionou carrinhos Hot Wheels até os quinze anos, deixar aquela oportunidade passar seria quase uma traição à própria história.
Depois – depois de me arrumar, depois de trocar de camiseta três vezes e decidir que a terceira era a melhor só porque eu já estava atrasado – desci até o restaurante do hotel. A área externa estava quase vazia, salvo por uma mesa ocupada nos fundos, debaixo de um guarda-sol listrado.
estava sentada com um copo de suco entre as mãos, distraída, sugando o líquido pelo canudinho. Os óculos escuros eram grandes demais para o rosto dela – quase cômicos – mas, de algum jeito, nela funcionavam. Ao lado, Nina ria de algo que Andreas tinha acabado de dizer.
A dinâmica entre os três era… estranha. Cordial demais.
Como se não houvesse motivo nenhum para aquilo ser desconfortável, sendo que, porra, como havia.
O jeito como eles conseguiam sentar à mesma mesa, trocar comentários casuais, dividir risadas… como se aquela história não existisse mais. Como se todo mundo ali tivesse decidido, em silêncio, fingir que não lembrava.
Eu lembrava. Na verdade, aquilo nunca me desceu muito bem.
– Bom dia. – Murmurei, forçando um sorriso enquanto me aproximava. – Alguém aqui pode me convencer de que pilotar um kart depois de uma noite regada a vinho, uísque e cerveja é uma decisão sensata?
– Depende. – Nina respondeu, sem nem levantar os olhos da torrada. – Você quer causar uma boa impressão ou só sobreviver ao passeio?
– Honestamente? Só quero sair inteiro. – Curvei-me para beijar a bochecha de e afaguei os cabelos de Nina com carinho.
– Dormiu bem? – Perguntei, pegando um dos cardápios sobre a mesa.
– Como uma pedra. – Nina respondeu por todos, ainda concentrada na própria torrada. Andreas soltou um riso curto pelo nariz, sem acrescentar nada.
pegou a garrafa térmica sobre a mesa, serviu uma xícara de café e a estendeu na minha direção.
– Achamos que você ia preferir os carrinhos mesmo. – Disse, entregando a xícara.
A mesa ficava próxima ao parapeito de pedra que separava a área externa do restaurante da vista para o mar, largo o suficiente para servir de apoio, com a imensidão azul se abrindo logo atrás.
Dei alguns passos até lá e encostei-me, sentindo o calor do sol bater de lado, e, quando ela se aproximou o suficiente, estendi o braço e a puxei pela cintura.
Eu era um ótimo namorado falso.
Especialmente quando minha namorada falsa era absurdamente cheirosa. Havia algo naquele perfume – suave, quase delicado, mas com um fundo quente que ficava – que tornava o papel ridiculamente fácil de sustentar.
– Você acha que vai demorar muito no autódromo? – Perguntei.
– Pelo que ouvi, vai ser o dia todo. Meu pai parece estar levando a sério essa história de "piloto de fim de semana".
– Ele leva mesmo. Só cuidado para não rir demais das manobras dele. Ele gosta de fingir que não se importa, mas se ofende fácil. Não sei se o está pronto para isso. – Andreas disse, com aquele sorriso de quem queria ser só espirituoso, mas o tom de voz entregava algo mais.
Olhei diretamente para ele, sem pressa.
– Agradeço a preocupação, camarada. Mas já me acostumei a pilotar máquinas de grande porte. – Apontei discretamente para e, no segundo seguinte, dei um tapa estalado na nádega esquerda dela. Ela virou o rosto na minha direção, surpresa e riu.
– Meu Deus… – cobriu o rosto com as mãos, ainda rindo, enquanto o rubor subia pelas bochechas de um jeito que eu achei ridiculamente encantador.
– Eca! Ei! Eu estou comendo! Limites, pelo amor de Deus! – Reclamou Nina, fazendo uma careta.
– Relacionamento saudável, Nina. – Dei de ombros, completamente à vontade enquanto me dava um empurrão leve no peito, como quem queria me repreender.
– Só não faz o que eu fiz da última vez. Me achei na Fórmula 1, entrei numa curva como se fosse o Hamilton e quase arranquei um banner de propaganda com o carro. – Andreas contou.
– Eu avisei que não era uma boa ideia. – Comentou , levando canudinho à boca. – E, para ser justa, vou avisar você também.
– Então quer dizer que devo recuar?
– Não, só... se divirta. Meu pai respeita quem se diverte mais do que quem tenta competir com ele. – Ela ergueu levemente as sobrancelhas em direção a Andreas.. seu ex.
Estranho demais.
– Obrigado pela dica, Sra. – Fiz uma reverência exagerada com a cabeça. – Desejem-me sorte.
– Você vai precisar. – Eu e trocamos um olhar rápido diante do murmúrio em tom amargo vindo de Andreas. Ela apenas revirou os olhos, sem paciência, como quem já estava acostumada com aquele teatrinho passivo-agressivo.
– Estarei na praia quando você voltar. – Avisou. – Não demore.
– Sim, senhora. – Me curvei teatralmente na direção dela e, antes que o bom senso me detivesse, me inclinei e roubei um selinho rápido dos seus lábios.
Foi um movimento simples, quase automático. Queria poder dizer que planejei, que calculei o momento certo para deixar Andreas desconfortável ou para arrancar um sorriso de . Mas, na real, foi puro reflexo. Ela riu pelo nariz e balançou a cabeça, sem conseguir esconder o sorriso no canto da boca.
Descobri, meio tarde demais, que o lugar aonde iríamos não ficava na ilha. Resultado: precisei fazer a travessia de barco para terra firme, lutando contra a leve ressaca.
Cheguei à entrada do kartódromo me sentindo anestesiado, me esforçando para parecer sóbrio e funcional. Perto da pista, um grupo já estava reunido: todos com óculos escuros dignos de comerciais de perfume importado e aquele tipo de confiança que não se compra, só se herda.
Era o tipo de gente que cresceu frequentando clubes exclusivos, discutindo apostas de corrida de jet ski como se fossem questões diplomáticas. Ajustei a postura, respirei fundo e pensei: É isso. Estou oficialmente infiltrado no habitat natural deles.
Reconheci o pai de imediatamente. Adit estava rindo alto, com um copo na mão e contando alguma história que fez dois dos caras ao lado darem tapas nos joelhos como se estivessem ouvindo a piada do ano.
– ! – Chamou, batendo no próprio ombro, como se dissesse “vem cá, senta aqui no banco dos adultos”. – Achei que você ia preferir o chá da tarde com as mulheres.
– Confesso que quase fui seduzido pela ideia. – Tentei manter o tom descontraído. – Mas minha criança interior, viciada em carrinhos de brinquedo, falou mais alto.
Todos riram. Um deles, um sujeito com barba cerrada e cara de quem já tinha dirigido mais carros de luxo do que eu tinha visto na vida, estendeu a mão.
– Ravi. Primo de . Bem-vindo ao lado selvagem da família.
– Valeu. Mas, só para constar, eu nunca andei de kart. – Confessei, dando um leve riso constrangido.
– Melhor ainda. – Respondeu um dos outros caras. – Vai ser divertido te ver girar na curva 3.
O pai de colocou um braço em volta dos meus ombros, como quem já tinha me adotado ou estava prestes a me jogar na pista como um cordeiro entre leões.
– Aqui é cada um por si, . Só não se esquece de frear.
Dei uma risada nervosa e naquele momento percebi: ou eu conquistava o respeito deles com habilidade no volante ou viraria a piada do almoço de domingo da família .
– Então é você o acompanhante misterioso da . – Comentou enquanto colocava as luvas. – Corajoso.
– Ou inconsequente. – Completei, meio rindo, meio sem saber se era uma provocação.
– A linha é tênue para os Bhasins, amigo. – Respondeu Ramesh, ajustando o capacete como quem se preparava para um duelo no Velho Oeste.
Quando os motores roncaram, um sorriso involuntário brotou no meu rosto. A criança que colecionava Hot Wheels ali dentro estava em êxtase. É, aquilo ali, eu também sabia pilotar.
No local, pude reconhecer uma porção daquelas pessoas, algumas do jantar da noite passada. A maioria parecia ter algum elo, direto ou distante, com o universo do automobilismo. Empresários ligados às peças e acessórios da AutoParts, investidores e, principalmente, parentes ricos. Todos estavam sendo devidamente paparicados pelas equipes com comida impecável, sombra fresca e uma vista espetacular da pista.
O tempo no kart acabou sendo mais divertido do que eu esperava. Não me saí tão mal, considerando a leve ressaca e a falta de prática. Optei por uma pilotagem cautelosa, o que provavelmente me salvou de repetir o vexame do Andreas. Dei risada com alguns dos outros pilotos, até ganhei um tapinha nas costas do Ramesh e um comentário do Ravi dizendo que eu “jogava seguro como quem joga xadrez”. Não levei como ofensa.
Naquele final de semana, segurança era exatamente o que eu buscava.
Depois da corrida, enquanto os outros ainda discutiam manobras e batidas quase épicas, encontrei o Sr. afastado do grupo, olhando o horizonte de sol já alto. Me aproximei com um sorriso e perguntei se podia pedir um uísque. Ele não só aprovou como fez questão de me acompanhar. Pegamos dois copos e nos sentamos em um dos sofás baixos no canto do autódromo, com vista para a pista agora silenciosa.
– Bom trabalho lá na pista. Não parecia sua primeira vez. – Disse, girando o gelo no copo antes de dar um gole.
– Eu diria que foi quase uma vitória, se o critério for “não capotar”.
– E para onde você vai agora? – Ele perguntou, o sol já começando a desaparecer atrás das colinas distantes.
– me pediu para encontrá-la no deck principal, na praia.
– Ah, sim. Eu e minha esposa vamos aguardar por vocês amanhã para o passeio de barco. – Ele sorriu. – Sério, cuide dela. tende a perder a cabeça nos aniversários dela.
– Pode deixar, Sr. . Estarei atento.
E eu ficaria mesmo. Até porque só bebia uma vez por ano e eu não perderia a chance de ver a princesa extrapolando limites.
Depois ficou um breve silêncio confortável entre nós e então, talvez guiado pelo uísque ou pelo sol que aquecia devagar as laterais do nosso rosto, ele falou:
– Quando conheci a Anjali... eu não tinha um centavo. A gente namorou escondido por quase um ano. O pai dela não queria nem ouvir meu nome. E, sendo justo… talvez ele tivesse razão. Mas Anjali era teimosa e eu… bom, eu estava completamente apaixonado. Trabalhei como um louco. Peguei dinheiro emprestado, abri meu negócio sem saber metade do que estava fazendo e errei mais vezes do que acertei no começo. Mas ela ficou.
O olhar dele se perdeu, distante, como se enxergasse um pedaço do passado projetado no asfalto da pista iluminada, continuou:
– Talvez seja por isso que hoje eu não sou do tipo de pai que faz muitos interrogatórios, que impõe regra ou fica testando quem chega perto da minha filha. – Adit retomou, a voz agora mais baixa, mais firme. – Eu sei como é estar do outro lado. E sei reconhecer quando alguém está falando sério… E quando não está.
– Imagino que deva ter sido difícil. – Falei, tentando manter a voz estável.
– Foi. Mas dificuldade não é exatamente um bom motivo para desistir de alguém.
Assenti, como se concordasse com naturalidade, como se aquela frase não tivesse acabado de encontrar um lugar muito específico dentro de mim.
Porque eu não estava ali por alguém, estava ali por dinheiro.
– … eu também não tinha carro quando conheci a Anjali. – Continuou, com um meio sorriso. E então fez sentido. A reação dele e da mãe dela naquele primeiro dia, quando comentou que eu não tinha carro. Não era estranhamento, era reconhecimento. – Eu era um azarão... com uma herdeira . Assim como você.
Soltei um riso curto, automático, mas, por dentro, eu estava morrendo de vergonha.
Se ele soubesse que o azarão ali não era só o rapaz sem carro, mas também era o cara que trocava mensagens com o chefe no banheiro do resort. O cara que tinha aceitado um trabalho sujo porque as contas tinham apertado um tempo atrás e fez umas merdas.
Adit ainda sorria, alheio, achando que estava tendo um momento de conexão com o namorado da filha. O homem tinha acabado de me dar o maior aval que um pai pode dar – que era confiar a filha a outro homem – e eu era uma farsa. Ele olhava para mim e via alguém que veio de baixo e estava tentando construir algo honesto ao lado da filha.
E eu… Novamente, me senti um babaca.
Após isso, a volta para ilha foi mais tranquila do que eu esperava. A gente até cogitou ficar mais um tempo nas pistas, mas entre a quantidade nada modesta de cerveja que já tinha passado pela mesa e o risco bem real de irritar , Adit resolveu ser a voz da razão e sugeriu que voltássemos antes que o céu escurecesse mais.
Seguindo as orientações do mapa desenhado por ela, passei por um breve matagal, e depois de alguns minutos, cheguei finalmente ao deck principal. O local parecia um pedaço isolado de paraíso, uma faixa de areia não muito grande, com o mar banhando suavemente a costa e o acesso era por uma passarela de madeira que se estendia até a praia. Ao redor, gigantescas árvores de raízes profundas e algumas construções rochosas emergiam.
O barulho alto só me alcançou de verdade quando pisei no deck de madeira. As batidas animadas vibravam, a garoa fina, misturada ao calor da festa, não parecia incomodar ninguém, pelo contrário.
Cumprimentei alguns primos pelo caminho, mas as palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro, porque meu olhar, traidor e insistente, procurava apenas uma pessoa entre aquela maré de rostos desconhecidos e familiares.
– !!
A voz dela cortou o barulho como se tivesse prioridade e eu ri na mesma hora.
bêbada. Perfeito. Nem precisei pensar duas vezes antes de começar a procurar a origem daquele chamado dramático, já antecipando o caos.
E então eu a vi, vindo direto na minha direção, meio correndo, meio tropeçando, os braços esticados como se estivesse prestes a me atropelar sem nenhum tipo de remorso. Ela vinha como um meteoro, bêbada era exatamente isso: uma força da natureza. Sem filtros, sem inibições, sem aquele verniz social que ela usava com tanta habilidade em dias normais.
– Você! – apontou para mim, o dedo meio trêmulo. – Eu gosto de você! – Eu ri, pois não tinha como não rir.
bêbada era um espetáculo – caótica, linda, impossível de ignorar.
Ela se jogou contra mim sem aviso, num abraço torto e confiante demais para alguém que claramente não estava em pleno equilíbrio. Eu a segurei, firmando as mãos na cintura dela. Ela se afastou o suficiente para me olhar, os olhos levemente nebulosos.
– Você está bonito.
– Você está bêbada – Respondi, rindo, segurando o rosto dela com uma mão enquanto, com a outra, afastava os fios grudados na pele úmida pelo chuvisco.
– As duas coisas podem ser verdade. – Ela riu alto.
– Você precisa de água. Ou de alguém responsável para te supervisionar.
– Sim. E esse alguém chegou. – Murmurou, encostando de novo no meu pescoço. Soltei um riso baixo, respirando fundo. bêbada tinha deixado de ser divertida fazia alguns segundos. Agora era perigosamente desafiadora. – Eu decidi uma coisa.
– O que? – Inclinei a cabeça, estudando-a.
piscou devagar, como se estivesse organizando os pensamentos numa fileirinha antes de soltá-los. A língua passou pelos lábios num gesto inconsciente e eu tive que fazer um esforço consciente para não olhar para a boca dela.
– Que você é bonito. – Contou nos dedos. – Cheiroso. E que eu vou te beijar agora.
– Você vai o quê?!
E antes que eu pudesse processar a visão ou sentir qualquer vergonha pelos olhares dos primos dela ao redor, , com a impulsividade deliciosa que era toda do álcool, segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou.
Fiquei paralisado por um segundo, surpreso com a intensidade e a falta de hesitação dela. Não foi um selinho distraído ou um gesto de bêbada alegre que poderia ser esquecido na manhã seguinte. Ela me beijou de verdade. Os lábios dela estavam com gosto doce de alguma bebida mista e as mãos segurando meu rosto com uma firmeza que não admitia dúvida.
O mundo à nossa volta explodiu em risadas, gritos de incentivo, aquele “ooooh!” coletivo que só uma família barulhenta sabe fazer. Mas eu não ouvi nada porque aquela era só a minha segunda vez beijando .
Eu senti o sorriso dela contra os meus lábios, como se o beijo fosse uma piada interna que só nós dois entendíamos e eu acabei sorrindo também. As mãos dela continuavam firmes no meu rosto, os polegares desenhando círculos distraídos nas minhas bochechas.
Sem desfazer o beijo, começamos a nos mover desajeitadamente para o lado, tropeçando um no outro, rindo contra as bocas entreabertas, até que minhas costas encontraram o suporte de um poste. Aproveitei a oportunidade para puxá-la ainda mais para perto, encaixando-a entre minhas pernas de forma instintiva. Com a respiração descompassada, afastei meu rosto apenas o suficiente para provoca-la.
– Sentiu minha falta? – Murmurei contra a boca dela.
riu, sem responder, o sorriso se abrindo devagar enquanto os lábios dela ainda roçavam nos meus. Ela se afastou o suficiente para que eu pudesse vê-la por inteiro.
Estava deslumbrante. Os olhos brilhando mais do que o normal, a pele corada pelo álcool e pela garoa, o cabelo úmido grudando nas têmporas de um jeito caótico.
– É meu aniversário! – Ela exclamou, como se a constatação fosse a melhor notícia do mundo, dando pulinhos desengonçados e sinceros, que faziam o vestido rodopiar e as pulseiras tilintarem. Não pude deixar de sorrir ao vê-la tão empolgada com a própria festa, como uma criança que acabara de ganhar o presente que mais queria. – Pensei que você fosse se atrasar.
– Não sou de perder um bom espetáculo. – Respondi, com meu tom mais brincalhão, tentando disfarçar a intensidade do que estava sentindo naquele momento. Estalei mais um beijo tímido em seus lábios – uma carícia rápida, quase um teste – e senti o sorriso dela contra os meus antes mesmo de terminar.
– Você devia me beijar mais vezes… – Ela sussurrou, com um sorriso travesso e deu uma risada solta que escapou enquanto ela se afastava com um passo dançante, rodopiando no meio da chuva como se a noite fosse dela. E era.
A festa, a música, a garoa fina… o mundo inteiro parecia pertencer a ela naquele momento.
E, naquela noite, será que eu também pertencia?
– Ժ –

Tinha uma coisa sobre os ricos que ninguém me avisou: as bebidas deles são traiçoeiras de um jeito bem mal-educado.
No meu mundo, álcool vinha com aviso prévio. Cerveja amarga, vodca que arranhava a garganta, gin barato que deixava bem claro que você ia se arrepender depois. Tudo muito honesto.
O uísque dos , por outro lado, era quase simpático. Descia fácil demais, basicamente, parecia inofensivo. Porém, quando você percebe, já passou do ponto e nem teve o aviso sonoro. O mundo só… amolece. Foi exatamente o que aconteceu comigo.
Eu já estava no quarto – quinto? – copo quando notei que as luzes da festa tinham ganhado um brilho extra, que a música parecia melhor do que realmente era e que, de alguma forma, eu tinha sido adotado por cinco indianos profundamente comprometidos com uma partida de beerpong.
Comprometidos no nível “isso aqui vale honra, legado e talvez um tratado internacional”. E, honestamente? Eu estava levando tão a sério quanto eles.
Não sei quando me tornei parte daquela confraria. Não sei quem decidiu que eu era digno. Mas ali estava eu – suando sob a garoa, com um copo de uísque na mão esquerda e uma bolinha de pingue-pongue na direita – pronto para defender a honra do time que nem sabia que eu tinha.
O uísque dos era convincente para caralho.
Apesar de estar imerso na minha própria névoa – uísque caro descendo fácil demais e a fumaça doce dos narguilés indianos deixando tudo ligeiramente fora de foco – eu vi e, ao lado dela, Maya. A prima lendária. A mesma que, segundo histórias contadas em tom de riso nervoso, já tinha entrado em coma alcoólico em um aniversário anterior.
E ali estavam as duas. Juntas. Com uma fileira de copos em sua frente, pequenos, transparentes e mortalmente inocentes.
Maya ria de algo que tinha dito, os olhos dela brilhando com aquele brilho perigoso de quem já estava no ponto onde o "divertido" e o "hospital" se encontram. E pegou um dos copos, ergueu num brinde à prima, e virou de uma vez.
– Não. Hum, hum. Não. – Murmurei para mim mesmo, já me levantando.
Abandonei a mesa sob protestos dramáticos de um público que, há cinco minutos, não sabia nem meu nome, e atravessei a festa.
– Isso aqui tem algum tipo de prêmio no final ou é só… destruição recreativa mesmo? – Perguntei, parando ao lado delas e antes que ela tivesse tempo de reagir, peguei o copo da mão dela, levei à boca e virei o conteúdo de uma vez.
ficou me encarando, ofendida por meio segundo… E depois arregalou os olhos: – Você bebeu o meu shot?!
– Sacrifício nobre. – Dei de ombros, sentindo o calor do álcool se espalhar pelo peito. – Alguém tinha que fazer. Você ia agradecer amanhã.
Atrás dela, Maya simplesmente… desistiu. Uma gargalhada alta, despreocupada, e então ela se jogou na areia como quem finalmente aceita seu destino. Olhou para o céu por um segundo, murmurou algo que poderia muito bem ter sido uma filosofia profunda e fechou os olhos.
– Ela… – começou, apontando vagamente. – Ela não pode dormir aí.
Olhei para Maya, perfeitamente instalada, como se tivesse sido arquitetada para aquele exato pedaço de areia.
– Tecnicamente, pode. – Falei. – Recomendo? Não muito. Não se preocupe, vou pedir para o Dodi levar ela.
– Isso é culpa sua. Ladrão! – rebateu, apontando para mim. – De shots. De momentos. De... – Ela parou no meio da frase, como se tivesse esquecido onde estava indo. – …coisas.
– Coisas? – Repeti, segurando o riso.
– Coisas importantes. – Ela assentiu com força, quase perdendo o equilíbrio. – Que você não tem direito de roubar.
– Eu não roubei nada.
– Roubou, sim! – Ela deu um passo à frente, o dedo ainda em riste. – Meu shot. Minha diversão. Minha...
Ela travou de novo. Os olhos se estreitaram, como se estivesse vasculhando o fundo da memória em busca de uma palavra que tinha escapado.
– Sua...? – Incentivei, a voz cheia de riso contido.
– Minha dignidade! – Ela finalmente declarou, triunfante, como se tivesse encontrado um tesouro perdido. – Você roubou minha dignidade, !
– Sua dignidade estava num copo de shot?
– Sim! – Ela cruzou os braços num gesto que deveria ser de indignação, mas que saiu mais parecido com um abraço nela mesma para não cair. – E eu a quero de volta.
– E como é que eu devolvo sua dignidade? Você quer que eu... desbeba?
– Não. – Ela deu um passo à frente, o dedo que antes apontava agora estava encostado no meu peito, bem no centro. – Você me deve um beijo, . Porque você roubou meu momento.
– , eu acabei de te beijar há meia hora. – Soltei uma gargalhada, meio em protesto, meio rendido, enquanto minhas mãos já encontravam o caminho de volta para cintura dela.
– Isso foi antes. Agora é outra situação. Você me deve outro. É a lei.
– Que lei?
– A minha lei. E ela é definitiva. – Deu de ombros.
– Impressionante. – Murmurei, deixando o olhar percorrer o rosto dela. Um pouco fora de foco – culpa do uísque, da fumaça, da noite inteira –, mas ainda perigosamente claro onde importava. – Um sistema jurídico completo em, o quê, trinta segundos?
– Eu sou extremamente eficiente. – Ela disse, com um ar quase convencido. Seus braços subiram devagar, se acomodando ao redor do meu pescoço.
– E se eu resolver ignorar essa… decisão judicial?
– Aí você vai estar oficialmente em dívida comigo.
– Já não estou? – Eu ri, balançando a cabeça, e me inclinei com calma.
Sustentei o olhar dela por um instante, procurando qualquer sinal de recuo. Não encontrei. Em vez disso, havia aquela mesma firmeza tranquila que eu quase sempre encontrava nela. A beijei e ela correspondeu sem hesitar.
– Era óbvio, – A voz de Nina atravessou o momento com uma pigarro. – que, se a sumiu e o também, eles iam estar se pegando em algum canto. A gente se afastou num susto mínimo quando Nina apareceu entre as sombras das pedras. – E, como boa amiga que sou... A gente trouxe shots!
Na mão dela, uma bandeja de plástico carregava pelo menos seis copinhos coloridos, todos parecendo uma péssima ideia.
Andreas vinha logo atrás, com os passos arrastados de quem já tinha desistido de tentar impedir qualquer coisa naquela noite. Ele levantou uma mão em um aceno preguiçoso, o sorriso no rosto misturando resignação e carinho.
Foi só ver a bandeja que os olhos de acenderam e ela já estava se jogando na direção dos copos quando eu passei o braço pela cintura dela e puxei de volta, no reflexo.
– Nina, intervenção. – Falei, segurando perto o suficiente para impedir qualquer tentativa heroica. – Ela já passou do ponto. Mais um shot e ela vira decoração de praia, igual à Maya.
Nina olhou por cima do ombro, na direção da prima estirada alguns metros atrás, perfeitamente integrada ao ecossistema local. Depois voltou para mim, muito tranquila.
– Ótimo. A praia é de graça.
Antes que eu organizasse um argumento minimamente convincente – porque talvez eu só não estivesse em plena posse das minhas capacidades também – senti os dedos de se encaixando nos meus de novo, ela girou no lugar, o vestido abriu com o movimento, a risada dela veio solta e bêbada. Por dois segundos… a gravidade resolveu se manifestar. Ela perdeu o equilíbrio no meio do giro e eu precisei puxá-la de volta rápido.
– Só quero que você termine a noite sem uma concussão, – Ri, mantendo as mãos firmes nos ombros dela para impedir que ela cambaleasse. – ou que você vire lenda familiar pelos motivos errados.
Apontei com o queixo na direção de Maya, que já estava sendo carregada por Dod para longe como um troféu de guerra. Ele usava um braço para segurar ela e o outro para filmar, provavelmente arquivando material para chantagem futura entre primos. Clássico.
Ela abriu a boca para responder, mas pareceu esquecer o argumento no meio do caminho. Acontecia bastante naquela noite. Era, na verdade, um dos meus momentos favoritos. Havia algo adorável naquela batalha dela contra a própria névoa alcoólica, tentando resgatar um raciocínio que já tinha ido embora.
– Você é muito chato. – Ela finalmente declarou, como se tivesse chegado à conclusão mais profunda do mundo me fazendo rir.
Levei a mão até a mandíbula dela e afastei todo o seu cabelo para trás e obrigando-a a me encarar. Ela piscou uma, duas vezes, e o olhar dela prendeu no meu.
– Vamos beber água?
– Não.
– Seu pai me fez prometer que eu não deixaria você morrer hoje, .
– E você vai obedecer? – Ela inclinou um pouco a cabeça, me olhando com aquele sorriso que parecia desafiar qualquer tentativa de bom senso.
Era quase engraçado como ela ainda tentava parecer no controle, como se estivesse conduzindo aquela situação perfeitamente, quando claramente já estava alguns drinks além do limite.
– Estou tentando. – Respondi.
– Tentando o quê?
– Fazer a coisa certa. – Por um segundo, ela pareceu não entender e eu não explicaria. Porque explicar significaria admitir que, enquanto para ela aquela era só mais uma noite de festa, música alta e uísque em excesso... para mim não era tão simples. – Água. Agora.
Antes que pudesse argumentar, Nina fez um som alto de desaprovação veio do nosso lado e reclamou: – Eu me recuso a continuar aqui enquanto isso vira… isso. – Ela apontou entre nós dois com uma expressão de puro julgamento. – Vocês são insuportáveis.
– Você que veio até a gente! – Rebati, sem sequer olhar para ela. riu baixo contra mim, o som abafado pelo meu ombro.
– , por favor…– E, como se estivesse apresentando uma proposta irrecusável, Nina ergueu a bandeja de shots outra vez. – Última rodada. Eu prometo. Pela honra da família.
– Que honra? – Retruquei no automático. – A gente não tem nenhuma.
– Ei!
– O quê? É verdade.
– Isso foi ofensivo. – Ela cruzou os braços.
– Foi factual.
Nina apertou os olhos, tentando encontrar uma brecha no meu argumento, e eu já estava preparando a próxima réplica quando alguém gritou do outro lado: – !
Ethan veio na nossa direção com passos rápidos, já puxando a toalha do ombro e, sem parar, ele lançou o tecido na direção de . Ela tentou pegar no ar, mas o corpo atrasou meio segundo e ela pendeu pro lado, traída pelo próprio equilíbrio. Apertei a mão na cintura dela e puxei de volta.
– O que eu fiz agora, Ethan? É meu aniversário. A agenda de reclamações só abre na segunda.
– Ethan! – Nina entrou no meio como uma parede humana, os braços abertos num gesto teatral que separava os dois. – Você veio para festa ou para trabalhar? A gente combinou: hoje você desliga o modo chefe.
– Estou desligado! – Ele respondeu, sorrindo mas os olhos foram direto para mim. Não eram hostis. Não exatamente. Porém havia ali uma avaliação silenciosa, de quem está medindo o terreno, calculando distâncias, decidindo se o visitante é amigo ou ameaça. – Eu sou Ethan. E você deve ser o famoso namorado que a , na sua habitual falta de consideração com os meus sentimentos, esqueceu de me apresentar.
Quase ri. Não pela piada em si, mas pela execução. Um comentário com mais de uma camada, entregue como se fosse apenas mais uma. Típico de ambientes corporativos. A gente aprendia a fazer isso: jogar uma isca com sorriso, ver se o outro mordia.
Eu apertei a mão de volta, mantendo o contato por um segundo a mais do que o necessário. O suficiente para que ele soubesse que eu não era um alvo fácil. Afinal, eu também era um cara do corporativo. Conhecia o jogo.
Mantive o sorriso, mas não soltei primeiro. Pequenos detalhes importam, especialmente quando alguém está prestando atenção neles.
– . – Falei, por fim, encerrando a formalidade.
Desviei o olhar de Ethan por um momento e, sem querer, encontrei o de Andreas. Ele estava ali, parado a poucos passos, os braços cruzados numa postura que tentava parecer casual mas não enganava ninguém.
– Então você é o tal codiretor. – Andreas disse, leve como quem tenta disfarçar o peso de uma pergunta que realmente quer fazer.
– Sou eu mesmo. – Ethan estendeu a mão com simpatia. – E você…
– …o ex-namorado da .
A frase caiu no meio do grupo como uma pedra num lago congelado.
Ele poderia ter dito amigo da . Poderia ter dito namorado da Nina, já que aquela era a informação mais óbvia para alguém de fora. Mas não, ele escolheu ex. E eu tive a impressão de que Ethan percebeu isso no mesmo instante pois seu olhar, antes apenas divertido, ficou mais atento.
virou na mesma hora, como se tivesse sentido a mudança no ar antes mesmo de entender o motivo. Os olhos dela passaram por Andreas e ele sustentou o olhar dela por um segundo a mais do que deveria.
Devia ter alguma coisa ali, alguma história que ainda não parecia completamente encerrada, um fio solto que alguém tinha puxado sem querer.
Andreas foi o primeiro a quebrar o contato. Deu um passo para trás, murmurou alguma coisa que ninguém conseguiu entender – uma desculpa qualquer, uma frase pela metade – e seguiu em direção ao deck.
Nina soltou o ar pelo nariz, cruzando os braços.
– Impressionante. Dois minutos de interação e já temos climão. Parabéns, Ethan. – Nina comentou, soltando uma risada sem muita convicção. Ela olhou na direção onde Andreas tinha ido, depois para nós, depois para o chão. Pareceu pesar as opções por um segundo e simplesmente desistiu de tentar explicar. – Eu vou lá ver o que foi… Sei lá. Tudo isso.
Ethan acompanhou a saída dela com o olhar, pensativo por meio segundo.
– Ué? – Disse então, voltando para nós. – O que foi que eu fiz? Eu estava esperando uma reação ciumenta do atual… – Completou, lançando um olhar rápido para mim – …não do ex. – Ele falou divertido.
Desviei o olhar de Ethan para . Ela ainda estava parada no mesmo lugar como se estivesse tentando entender o que tinha acabado de acontecer. Por alguns segundos, ela apenas ficou em silêncio. Então soltou um suspiro e virou o rosto para Ethan: – Ethan, em dez segundos a gente vai começar a se agarrar. Tem certeza de que quer estar aqui para isso?
Ethan não a deixou terminar a frase. Ergueu a garrafa num meio brinde, como quem encerra uma conversa perfeitamente normal, e já estava se afastando antes que alguém pudesse dizer qualquer coisa.
Fiquei olhando Ethan se afastar por alguns segundos e voltei minha atenção para .
– Então… – Murmurei, inclinando um pouco a cabeça na direção dela. – a gente vai se agarrar?
Ela me encarou por um instante, depois revirou os olhos, soltando uma risada curta.
– Não. Eu só não aguento a cara dele.
– Justo. – Dei de ombros. – Mas já que a gente não vai se agarrar … vamos vai falar sobre a cena do seu amigo Andreas agora? Ou amanhã?
Ela não respondeu de imediato, apenas soltou um suspiro longo. Mesmo bêbada, rindo à toa, tropeçando nas próprias decisões, não era distraída. O álcool podia deixar os passos dela menos precisos, mas não apagava a capacidade que ela tinha de perceber tudo ao redor.
Ela sabia exatamente do que eu estava falando. Sabia que eu tinha visto o olhar que Andreas sustentou nela, a forma como ele escolheu a palavra ex com uma precisão que não era inocente. Sabia que aquele silêncio entre eles tinha dito mais do que qualquer conversa poderia.
– Amanhã. – Disse finalmente, como se soubesse que aquela conversa existiria de um jeito ou de outro. – Hoje a gente pode só… – Ela fez um gesto vago com a mão, os olhos já percorrendo a festa como se buscasse algo para desviar a atenção. – …beber mais shots de gelatina?
– Um shot de gelatina e nenhuma outra aparição dramática de ex-namorados ou codiretores possessivos pelo resto da noite. – Estendi a mão livre na direção dela, como quem oferece um acordo. – Fechado?
– Dois shots de gelatina. – Propôs.
– …
– É meu aniversário! – Retrucou na hora e eu soltei um riso baixo, passando a mão pelo rosto.
– Só mais dois.
segurou o primeiro copo como se estivesse encarando um inimigo pessoal. Fez uma careta exagerada, torceu o nariz com uma dramaticidade que merecia um prêmio, fechou os olhos por alguns segundos – como quem se prepara para um mergulho – e ainda teve a audácia de reclamar entre um gole e outro, como se aquele pequeno shot de gelatina fosse uma prova de resistência. E o segundo demorou ainda mais.
Diferente dela, que parecia mais interessada em transformar cada gole em um espetáculo do que realmente beber, eu fui direto. Peguei o copo, inclinei a cabeça e virei de uma vez. Antes que ela tivesse tempo de fazer algum comentário, peguei o segundo e repeti o movimento. O pequeno tilintar do copo vazio contra a madeira soou quase como um ponto final.
ficou me encarando em silêncio por alguns segundos. Então soltou um assobio baixo.
– Uau. – Ela apontou para os copos vazios na minha frente. – Você bebe como se tivesse algum motivo.
– Eu tenho vários. – Dei de ombros, tentando parecer casual, como se não tivesse acabado de virar dois shots em sequência e como se o mundo não estivesse levemente inclinado alguns graus para a esquerda.– Você, por exemplo.
– Eu sou um motivo? – Ela perguntou, apontando para mim com uma expressão divertida, como se tivesse acabado de encontrar uma brecha no meu argumento.
– Tenho uma lista de motivos chamada “”. – Fiz uma pausa proposital, só para ver a reação dela. – É uma lista longa. Tem subitens.
– Subitens! – Ela gargalhou, segurando minha camisa para se equilibrar. – Que tipo de subitens?
– Para começar… você me prendeu em uma ilha com uns cinquenta indianos.
– É minha família! – Ela rebateu, mas já estava rindo antes mesmo de terminar a frase.
E era impossível não rir junto.
Aproveitei que ela estava distraída e passei o braço pela cintura dela, puxando-a um pouco mais para perto. Oficialmente, era para impedir que ela perdesse o equilíbrio. Extraoficialmente… eu só queria.
A música ficou para trás aos poucos, transformando-se em um som distante misturado às vozes e às risadas. No lugar das batidas, vieram as ondas. A garoa continuava caindo fina e insistente, deixando a areia escura sob nossos pés.
– E todos queriam jogar beerpong comigo. – Continuei.
– Isso é culpa sua. – Ela riu, tentando se afastar um pouco. Num movimento completamente impulsivo – e provavelmente influenciado pelos shots – ela prendeu as pernas ao redor da minha cintura, como se aquilo fosse a maneira mais fácil de resolver a questão do equilíbrio. – Você é bom no jogo.
– Eu nunca tinha jogado beerpong antes de hoje.
– Você ganhou aquele monte de partidas sem nunca ter jogado?
– Eu não sei como aconteceu. – Dei de ombros. – Seus primos gritando em hindi me deixaram confiante.
A água já começava a alcançar meus pés quando continuei andando em direção ao mar. estava no meu colo, os braços presos ao redor do meu pescoço e as pernas envolvendo minha cintura.
– Você vai me molhar! – Ela gritou, entre risadas e protestos.
– Você já está molhada.
– Isso é diferente!
– A chuva está caindo em você desde que a gente chegou.
– Molhada de chuva é diferente de molhada de água do mar!
– É a mesma água.
– Não é, não! – Ela insistiu, batendo de leve no meu braço com a mão livre, embora continuasse perfeitamente confortável ali. – Água do mar tem sal. Tem cheiro de alga. Água de chuva é… é limpa. Ela começa no céu.
Comecei a voltar para a areia, ainda carregando como se ela fosse incapaz de aceitar que tinha pernas próprias. Mas antes que ela terminasse a explicação sobre a superioridade da água da chuva, meu pé afundou.
Entre carregar , os shots que já tinham começado a negociar com meu senso de direção e a areia fofa que parecia ter virado lama de propósito, minhas opções ficaram bastante limitadas.
Afundei na areia, e , ainda completamente agarrada a mim, veio junto no movimento. Ficamos parados naquela posição ridícula até que o universo decidiu dar sua contribuição. Uma onda veio um pouco mais forte do que as anteriores e atingiu nossas costas antes que qualquer um de nós tivesse tempo de reagir. A água gelada nos envolveu de uma vez.
Ela abriu a boca, provavelmente pronta para reclamar, mas o que saiu foi uma mistura desajeitada de protesto, engasgo e risada, o que me fez gargalhar com vontade.
Ainda rindo, eu a ajustei melhor contra mim, porque bom senso, convenhamos, já tinha dado o fora naquela noite fazia umas boas horas. Ela continuava ali, completamente molhada, encaixada em mim, com um joelho de cada lado da minha cintura. Levei a mão até o rosto dela, afastando com cuidado a mistura de água salgada e areia grudada na bochecha. O sorriso dela continuava lá, mas tinha algo diferente agora, um brilho mais lento, mais curioso.
Ela me encarou por alguns segundos, como se estivesse lendo uma placa em outra língua, até que finalmente disse: – Você ri.
Pisquei, tentando acompanhar o raciocínio.
– Como assim?
desviou o olhar, os dedos distraídos brincando com a gola da minha camisa molhada, enrolando e desenrolando o tecido.
– Eu vejo você rindo com todo mundo… – Ela começou, meio hesitante. – Com a Nina, com seus amigos, até com gente que você acabou de conhecer. Mas comigo não. – Ela franziu levemente a testa, como se estivesse tentando organizar o que sentia enquanto falava. – Comigo você fica… mais quieto às vezes. Ou então fala alguma coisa e logo depois parece que se arrepende. Como se estivesse medindo cada palavra. E eu não sei se é porque você não se sente tão à vontade…Ou se é uma linha que você não quer cruzar comigo.
Eu não respondi de imediato. Não porque me faltassem palavras. Pelo contrário, minha cabeça estava cheia delas, todas prontas, organizadas… e inúteis. Porque, no fim, todas esbarravam no mesmo ponto: ela tinha acertado. Em cheio.
me observava sem pressa. E o estranho é que não havia decepção ou irritação no rosto dela. Só aquela calma… quase definitiva. Só parecia ter chegado a uma conclusão que, de alguma forma, a minha ausência de resposta já tinha confirmado.
– Você não precisa responder... – Murmurou, quebrando o silêncio com uma suavidade que desmontava qualquer defesa. – Eu só… queria que você soubesse que eu percebo.
Eu queria dizer que não era tão simples. Queria explicar que existiam coisas que ela não sabia mas, naquele instante, me ocorreu que talvez também existissem coisas que eu não sabia. Porque, no fim das contas, por que diabos eu me prendia tanto quando o assunto era ela? Por que diabos eu me prendia tanto perto dela? Por que o riso ficava mais curto, as palavras mais medidas, o corpo mais tenso?
A resposta veio meio torta, meio inconveniente: talvez, lá no fundo, eu soubesse que, se me soltasse demais… não ia conseguir voltar a ser só meu. E isso era ao mesmo tempo a coisa mais assustadora e mais tentadora do mundo.
Fiquei ali, olhando para ela, com todas as respostas emboladas na garganta, pesadas demais para sair do jeito certo. Então desviei o assunto covardemente.
– Você fala demais quando bebe. – Passei o braço ao redor dela e a puxei um pouco mais para perto, sentindo os joelhos dela afundarem de cada lado do meu quadril.
sorriu. Um sorriso de vitória de quem sabia que tinha furado minha defesa, a paciência de quem não precisava ouvir a resposta naquela noite e um afeto silencioso que dizia tudo bem, eu espero.
Ela se inclinou na minha direção, fechou os olhos e deixou o resto comigo.
Eu congelei. Meu corpo travou, mas meu olhar não. Ele percorreu cada centímetro do rosto molhado dela, devagar, como se eu estivesse guardando aquela imagem num lugar seguro: a água escorrendo pela testa, os fios de cabelo colados nas têmporas, o lábio inferior levemente entreaberto. A respiração tranquila demais para alguém que claramente estava esperando.
abriu apenas um dos olhos. Aquele olho me encarou com uma mistura tão precisa de impaciência e diversão que soltei uma risada nervosa.
– Você não vai me beijar?
Eu ri, não porque fosse engraçado – embora fosse –, mas porque era tão que chegava a ser previsível. A impaciência disfarçada de provocação, a certeza de que eu ia ceder.
Antes que pudesse analisar, pesar, ou encontrar uma desculpa esfarrapada, a beijei. Dessa vez, não havia plateia. Não havia primos gritando ao fundo, nem risadas de canto, nem aquele burburinho constante que tinha marcado a noite.
E foi diferente daquele primeiro beijo, lá no começo da noite, quando tudo era mais agitado, mais urgente, meio "vamos ver onde isso dá". Agora, apesar de ainda estar bêbada – e, sim, eu também já tinha passado do ponto fazia um tempo –, não era mais a pressa que guiava.
soltou um som baixinho contra minha boca, quase um suspiro. Senti os dedos dela se enroscarem no meu cabelo, me puxando um pouco mais para perto, encurtando qualquer espaço que ainda teimasse em existir entre a gente.
Nos afastamos devagar até nossas testas se encostaram. Por alguns segundos, ficamos ali, deixando o som das ondas e da chuva, agora mais fraca, preencher o silêncio entre a gente.
– Estou com frio. – Ela murmurou e mexeu o nariz contra o meu, num gesto tão bobo e tão íntimo que me arrancou um sorriso leve.
– Eu também – Murmurei, inclinando-me o suficiente para roçar um beijo leve no lábio inferior dela. – Mas não quero ir embora. – Minha voz saiu quase inaudível, engolida pelo som constante do mar.
Por um instante, pensei que ela não tivesse escutado. Mas sempre captava até o que eu não dizia direito, principalmente aquilo que eu tentava esconder nas entrelinhas.
Ela me observou em silêncio por alguns segundos e, dessa vez, eu não desviei o olhar.
Deixei que ela me visse.

Capítulo Dez –
– Quanto tempo mais conseguimos enrolar? – Murmurei, bocejando.
– Uns trinta minutos, talvez.
– Quarenta?
– Se você quiser Adit batendo na porta feito um carcereiro, talvez.
– Trinta e cinco.
– Quinze. Depois disso, você encara seu destino e eu, o seu pai.
– Você é obcecado por ele.
– O cara dirige igual piloto de Fórmula 1, . Em estrada de terra. Claro que sou obcecado.
– ?
– Hm?
– Por que tem uma pessoa dormindo na cama com a gente?
Acordei com a sensação de que alguém tinha usado minha cabeça como tambor durante a noite inteira. A ressaca estava instalada antes mesmo de eu abrir os olhos, meu corpo inteiro doía como se eu tivesse dormido sobre uma camada de pedras e eu já tinha bebido quase um litro de água antes mesmo de conseguir abrir os olhos.
estava encaixado atrás de mim, um braço envolvendo minha cintura e eu sentia a respiração quente dele contra a minha nuca. Estávamos espremidos em uma ponta da cama king-size enquanto mais da metade do colchão estava ocupado por uma silhueta desfalecida, de bruços, com um braço pendurado para fora e a respiração pesada
Ethan.
A porra do Ethan estava dormindo na minha cama.
– Ele... ele veio com a gente? – Franzi o cenho.
apoiou o queixo no meu ombro. O calor do corpo dele encostando no meu fez minha cabeça latejar um pouco mais. Talvez fosse só a ressaca. Talvez fosse o sono. Ou talvez fosse... outra coisa. Mas eu estava cansada demais para tentar descobrir qual das opções era a certa.
– Eu deixei ele ficar.
– Por que você deixou isso acontecer, ?
Fechei os olhos, tentando reconstruir a noite na minha cabeça.
– A garota com quem ele estava sumiu com o Anwar, e ele quis “resolver as coisas”. Estava bêbado, puto e prestes a apanhar dos seus primos. Meu quarto estava ocupado por uma mesa de pôquer clandestina, enquanto você tinha me informado, com bastante convicção, que ia dormir com a Nina.
É, eu tinha dito aquilo. O problema era que Nina havia desaparecido com Andreas em algum momento da noite.
– Eu tinha esquecido disso. – Admiti.
– Eu também não estava exatamente no auge da minha sobriedade. Então, considerando todas as circunstâncias, acho que fiz o melhor que pude: impedir que seis dos seus primos transformassem o cara em saco de pancadas e deixar ele dormir no corredor. – Ele fez uma pausa e coçou a nuca. – Além disso, a última coisa que eu queria era ser promovido a corno da temporada diante da sua família inteira. Já não basta Andreas ser conhecido aqui por...ter feito um combo com a minha namorada e a minha irmã?
Dei risada, coçando meus olhos, sentindo o resto da maquiagem se acumulando nos meus dedos.
– Então deixa eu ver se entendi. Você estava preocupado em não ser feito de idiota pela minha família....e a solução que encontrou foi colocar um homem bêbado no meu quarto?
– Não. A solução foi colocar um homem bêbado para dormir no chão e vir dormir com a minha namorada. – Ele apertou um pouco mais os braços ao redor da minha cintura.
– Então por que ele está na cama?
– Porque você teve pena dele.
– Eu? Eu não faria isso.
– , você quase chorou quando viu ele dormindo no chão.
Revirei os olhos e voltei a encarar Ethan. Ele continuava imóvel, completamente inconsciente do fato de estar dormindo na mesma cama que eu e .
Havia um motivo para eu só beber daquele jeito uma vez por ano. E, como acontecia depois de cada uma dessas ocasiões, eu renovava solenemente a promessa de nunca mais repetir a dose
Fechei os olhos e tentei catar os pedaços da noite anterior e organizar dentro da minha cabeça.
Música alta. A gargalhada da Nina. Meus primos me incentivando a fazer escolhas questionáveis. Um copo com alguma coisa vermelha, doce o suficiente para enganar qualquer pessoa minimamente inteligente. Depois disso... . A lembrança do beijo voltou inteira, sem pedir licença.
O que aconteceu depois? Eu tinha falado alguma besteira? Tinha feito alguma besteira? Ou... Até onde nós tínhamos ido?
Aquilo me deixou inquieta. Não porque eu necessariamente me arrependesse do que pudesse ter acontecido. Era justamente o contrário. Se alguma coisa tinha acontecido entre mim e , eu queria lembrar. Queria saber o que tinha dito, como tinha começado e entender como tínhamos terminado na cama juntos.
– ? – Murmurei. Senti que ele deu um pequeno susto, como se tivesse dormido de novo. – A gente...?
– O quê?
– Você sabe.
Ele ficou em silêncio por um instante que durou uma eternidade. Senti ele suspirar contra o meu cabelo e suspirei junto.
– Não. A gente não fez nada.
– Tem certeza?
A verdade é que minha preocupação não era exatamente a possibilidade de ter acontecido alguma coisa entre nós. Era a possibilidade de ter acontecido e eu não me lembrar. Se aquele momento finalmente tivesse chegado – de novo –, eu queria estar inteira. Queria lembrar, não reconstruir na manhã seguinte por migalhas de conversa, pela versão dele dos fatos.
– Bom... A gente não fez nada. – repetiu, mais baixo ainda, quase num sussurro contra a minha nuca. – Mas quase. Você quis. Eu quis. E aí você dormiu.
– Não. – Duvidei.
– Sim.
– Não existe a possibilidade de você estar inventando isso só para me humilhar? – Virei o rosto o suficiente para encará-lo, com os olhos semicerrados.
Ele sorriu daquele jeito convencido que dava vontade de empurrá-lo da cama.
– Foi o fora mais educado que já levei na vida. – A risada dele veio baixa, quente contra a minha nuca. – Você apagou. No meio. E eu fiquei aqui, olhando para o teto, me perguntando se eu beijava tão mal assim ou se você só estava muito cansada.
Fechei os olhos, envergonhada. Era tão absurdo que quase era cômico.
– Eu dormi no meio de um beijo, tem um homem bêbado ocupando a minha cama e existe uma chance muito real de meu pai bater nessa porta nos próximos quinze minutos. – Levei as duas mãos ao rosto. Se existisse um prêmio internacional para situações constrangedoras, eu acabara de garantir uma indicação fortíssima. – No meio de um beijo?
– Você parou, disse "estou com sono", e apagou. Foi tão repentino que eu achei que tivesse te dado um mata-leão sem querer.
Fiquei em silêncio, tentando organizar aquilo com qualquer nível mínimo de dignidade. Era uma cena tão absurda que eu nem sabia por onde começar.
– É por isso que eu não bebo... – Murmurei.
Demoramos um tempo para sair da cama. Não porque eu quisesse ficar – eu queria fugir – mas porque meu corpo ainda estava processando a noite anterior em câmera lenta e cada movimento exigia uma negociação com a ressaca.
se levantou primeiro. Com um gemido preguiçoso que parecia sair diretamente dos ossos dele, esticou os braços para cima, os músculos das costas se alongando. Foi quando ele começou a procurar a camisa pelo chão que eu reparei que ele estava sem ela. O tecido azul-marinho estava amassado perto da janela, a cinco passos da cama, como se tivesse sido arremessado com algum propósito.
Maldita ressaca. Maldito uísque. Maldita noite que eu não lembrava e que, aparentemente, tinha sido muito mais movimentada do que eu pensava.
Ele se inclinou, pegou a camisa pelo ombro, sacudiu uma vez – como se isso fosse desamassar alguma coisa – e enfiou a cabeça na gola.
– Temos o passeio de barco com sua família. – Disse, a voz abafada pelo tecido um segundo antes de a cabeça dele aparecer. – E, por favor, vê se esse cidadão acorda antes que alguém do hotel ache que você montou um harém acidental.
O "cidadão" em questão roncou em resposta, virado de bruços na minha cama, o rosto enterrado no travesseiro como se estivesse se afogando em linho branco.
– Harém acidental. – Repeti, com a voz seca. – É exatamente o que eu sempre sonhei para minha reputação.
riu, baixo, e passou a mão pelos cabelos tentando domá-los. Olhei para Ethan, que continuava estirado na cama.
– Ethan? – Chamei, baixinho. – Ethan. – Nem um movimento dele. Merda, já estávamos atrasados. Meu pai ia me matar. Minha mãe ia dizer que não tinha problema nenhum, sorrir daquele jeito educado e depois passar o resto do dia me lembrando, sem dizer uma palavra, de que eu era uma decepção logística. – ETHAN!
Ethan acordou como se tivesse levado um choque, sentando de uma vez, ofegante, o olhar correndo pelo quarto numa velocidade desesperada.
– Que porra... – Passou a mão no rosto, ainda tentando fazer o cérebro acompanhar a realidade. Ele olhou para mim e depois para e voltou para mim. – Ah, não... – Meu estômago despencou quando vi a feição dele. – A gente...
– Ethan! – Cortei, a voz aguda de pânico, tão alta que até levantou uma sobrancelha. – Não. Não foi nada disso.
– A gente...
– Não! – Ele ficou alguns segundos me encarando, claramente tentando montar a sequência dos acontecimentos. Pela expressão dele, fazia muito mais sentido acreditar que tínhamos dormido juntos do que aceitar qualquer outra explicação. E, bom, considerando que a um ano atras aquilo tinha mesmo acontecido... – Faz um enorme favor para todos nós e vai embora antes que meu pai resolva entrar aqui e antes que eu me afunde de vergonha na frente do meu namorado... eu agradeço.
– Tá. Tá bom. – Ethan assentiu várias vezes, ainda desnorteado. Ele levantou da cama quase tropeçando nos próprios pés e com os olhos ainda sem foco.
Quando passou por , diminuiu o passo. Lançou um olhar cauteloso para ele como quem esperava, a qualquer segundo, levar um soco perfeitamente justificável por ter acordado sem camisa na cama da namorada de outro cara. não fez absolutamente nada, só abriu um pouco mais o caminho. Ethan murmurou um "foi mal" quase inaudível e desapareceu pelo corredor. Esperei a porta fechar e olhei para .
– Eu vou guardar esse momento. – Ele disse, apoiando o ombro no batente, os braços cruzados. – "Meu namorado."
– Foi retórica. – Respondi, tentando ignorar o calor que subia pelas minhas bochechas e se espalhava pelo pescoço. – Estratégia de sobrevivência.
– Só estou dizendo... – Ele inclinou a cabeça, fingindo considerar a possibilidade. – "Meu namorado" é um termo bem específico para uma estratégia de sobrevivência.
– ...
– Você podia ter dito "o homem que eu contratei para me acompanhar em eventos sociais” ou “meu sugar baby”.
– . – Choraminguei, quase implorando para que ele tivesse piedade.
Ele riu baixo. Aquele tipo de risada que parecia aquecer o espaço entre nós e, por algum motivo irritante, ficava ecoando na minha cabeça muito depois de ele parar.
– Vamos lá, . Tem um barco esperando por nós. E seu pai já deve estar ensaiando o discurso sobre pontualidade e responsabilidade. – Ele abriu a porta e fez um gesto para que eu saísse. – Então finge que você não passou a última hora tendo um colapso existencial com dois homens na sua cama.

– Ժ –

A única vantagem do passeio matinal era que só compareciam os que não estavam mortos de ressaca. Meus tios, alguns primos mais velhos e os amigos dos meus pais. Gente que, aparentemente, acordava cedo por puro prazer de ver o sol nascer ou que tinha descoberto como beber sem passar o dia seguinte desejando a própria morte.
Nós quatro – eu, , Nina e Andreas – não fazíamos parte dessa categoria. Estávamos no auge da ressaca, com olheiras profundas e a dignidade deixada em algum lugar da festa da noite anterior. Para ser sincera, ainda me sentia meio bêbada. O mundo balançava num ritmo diferente do mar e meu estômago parecia ter decidido acompanhar os dois.
Arrumei os óculos escuros no rosto (minha proteção contra a luz, contra os olhares, contra as perguntas, contra tudo que exigisse que eu parecesse uma pessoa funcional) enquanto fugia do olhar de minha mãe. Ela me olhou por um segundo, depois desviou o olhar. Suficiente para eu saber que ela já tinha notado cada detalhe em mim.
Cumprimentei algumas pessoas com sorrisos automáticos. Nina e Andreas já tinham se refugiado do outro lado do barco, encostados na borda, fingindo interesse profundo em algo no horizonte. Convenientemente ocupados demais para cumprimentos sociais. Covardes. Traidores. , ao meu lado, não se refugiou. A mão dele roçou a minha suavemente.
– Tá bem? – Ele perguntou, baixo.
– Perfeita. – Menti.
– .
A voz da minha mãe cortou o ar como uma tesoura.
Ela vinha na minha direção impecável, como sempre. O sári branco de linho parecia ter sido escolhido só para deixar ainda mais evidente que, enquanto eu parecia ter dormido dentro de um carro, ela parecia ter acabado de sair de um editorial de revista.
– Maa.
Por um instante, achei que ela fosse me abraçar. Em vez disso, ela estendeu a mão e ajeitou uma mecha do meu cabelo que tinha escapado atrás da minha orelha. O gesto que me arrepiava sempre.
– Seu cabelo está horrível.
Fechei os olhos por um segundo. Contei até três. Respirei fundo.
– Bom dia para você também.
Ela ignorou. Como se eu não tivesse falado.
Virou-se para e, como se tivesse acabado de trocar de personalidade, abriu um sorriso. Não era um sorriso falso, exatamente – era um sorriso de ocasião, daqueles que ela guardava para encontros sociais, para pessoas que mereciam ser tratadas com educação.
– , querido. – Ergueu a mão num cumprimento breve.
– Bom dia, Anjali. – sorriu e assentiu.
O sorriso educado desapareceu assim que ela voltou a atenção para mim.
– Você dormiu? – Perguntou.
– Sim.
– Você comeu?
– Sim.
– Alguma coisa que não fosse álcool? – Debochou. tossiu ao meu lado, segurando um riso. – E você... – O olhar dela subiu e desceu por ele. – Você parece mais cansado do que ela.
– Tive uma noite longa. – A resposta dele foi tão calma que eu senti uma pontada de inveja.
não tinha sido criado pelas críticas de Anjali . Não tinha passado a vida aprendendo a medir cada gesto, cada palavra, cada escolha antes de fazê-los. Para ele, minha mãe era só uma mulher elegante com perguntas inconvenientes. Para mim, ela era o juiz que nunca dormia.
– Imagino. – Anjali voltou a atenção para mim como se tivesse deixado de existir no exato segundo em que terminou de falar. – Ouvimos alguns gritos durante a madrugada. E, quando fui pedir para diminuírem a música, tive a impressão de ver um casal se agarrando na areia.
Meu coração deu uma pequena cambalhota.
– Um casal?
– Uma moça particularmente parecida com você.
tossiu. Dessa vez, nem tentou disfarçar. Também senti o calor subir pelo pescoço. Não foi o sol, foi a lembrança da sensação de ter passado boa parte da noite me agarrando a como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
Peguei um copo de água da bandeja de um garçom que passava – o homem apareceu no momento exato, como se tivesse sido treinado para intervir em emergências familiares – e tomei um gole longo antes de responder.
– Está dizendo que todas nós, indianas, somos parecidas, Mãe? – Perguntei, fingindo a maior indignação que consegui reunir. – Isso foi extremamente racista da sua parte.
– . – Ela disse meu nome com aquele tom que significava ‘não tente’. Aquele tom que eu ouvia desde criança, sempre que eu tentava desviar de uma conversa com humor.
– Posso ter sido eu. Posso não ter sido. O universo nunca vai saber. – Dei de ombros, um gesto que eu esperava que parecesse casual.
– Conveniente. – Ela suspirou, cruzando os braços. – Quero vocês dois longe da água se estiverem bêbados demais para se equilibrar. E ninguém vomitando no convés.
– Sou uma dama, Maa.
– Vai sentar – Ela disse. – O sol está forte. – Ela ajeitou os próprios óculos e começou a se afastar. – E come alguma coisa leve antes do almoço. Você está com a pele amarelada.
Ela me olhou por mais um segundo. Depois, o rosto dela suavizou e deu um tapinha no meu ombro e depois arrumou a alça do meu vestido. Anjali cuidava corrigindo alguma coisa no caminho, como se o amor precisasse sempre vir acompanhado de uma nota de rodapé com recomendações de melhoria.
Eu nunca duvidei do amor da minha mãe. Só passei boa parte da vida tentando entender por que, nas mãos dela, o amor sempre vinha com uma lista de coisas que eu ainda precisava consertar.
Uma hora depois, o brunch tinha terminado e agora o barco começava a desacelerar junto com o resto da família. Alguns tinham voltado para os quartos. Outros estavam espalhados pelo convés, aproveitando o sol que finalmente aparecera depois da chuva da madrugada.
Depois de alguns minutos ouvindo vozes, risadas e música demais para uma cabeça em estado de ressaca, resolvi fugir e fui até a proa.
– E aí, gata. – Olhei para trás, sobressaltada.
Nina estava largada em uma espreguiçadeira a poucos metros dali, tão destruída quanto eu. Os óculos escuros cobriam metade do rosto, uma garrafa de água estava presa entre as duas mãos e a expressão dela era a de alguém que tinha sobrevivido a uma catástrofe natural.
– Gatona! – Fui até ela e me joguei na espreguiçadeira ao lado. – Você está viva.
– Você não está exatamente em posição de me julgar. – Ergueu a garrafa e apontou para mim com ela. – Eu vi você andando. Seus órgãos pareciam estar tentando pedir demissão.
Soltei uma risada que imediatamente se transformou em uma careta.
– Fazer o quê? Foi mais uma edição histórica do Anyapalloza. – Apertei os olhos atrás dos óculos. Nina riu baixinho, um som rouco que rapidamente se transformou em um gemido.
– Não me faz rir. Vai doer.
– Você está bem?
– Definição de "bem" tá meio elástica hoje. – Ela suspirou. – Você lembra do que aconteceu ontem?
– Qual parte?
– Da cena com o Andreas. – Meu sorriso desapareceu e isso foi resposta o suficiente para ela. – A gente brigou depois. Ele ficou estranho depois que viu o Ethan. Acho que ele ainda não superou tudo isso, .
Suspirei e esfreguei o rosto com as duas mãos. Por um momento, eu quis voltar para o quarto, me enfiar debaixo das cobertas e fingir que o mundo não existia.
– Nina, ontem não foi sobre mim. Você sabe disso. Ele viu o Ethan, juntou um mais um e... pronto. Foi ego ferido.
– Você contou para ele que era o Ethan? Na época?
O lance com o Ethan tinha sido um completo acidente de percurso. Eu e Andreas tínhamos acabado de terminar e eu estava magoada, assustada com a ideia de que aquele término pudesse significar uma espécie de sentença de solteirice eterna. Meus pais também não ajudavam. Continuavam insistindo em manter a proximidade com a família do Andreas, como se nosso término fosse apenas um detalhe inconveniente.
Então eu estava triste, bêbada, carente e cansada de me sentir presa.
E o Ethan estava ali.
O que aconteceu entre nós foi impulsivo, confuso e uma decisão bastante estúpida. Não significou nada. Pelo menos, não no sentido que o Andreas provavelmente tinha imaginado. Não foi amor. Não foi desejo. Não foi sequer vingança. Foi apenas... desespero.
– Não. Eu só disse que tinha ficado com um colega do trabalho. – A minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia. – Mas o Andreas sempre implicou com o Ethan, antes mesmo da gente terminar. Deve ter ligado os pontos.
– E você acha que ele ficou com ciúme?
– Acho que ficou com o orgulho machucado. É diferente.
Nina permaneceu em silêncio por alguns segundos, parecia estar processando.
– Você acha que ele ainda te ama?
– Não. – Respondi sem hesitação.
Andreas não me amava mais e eu não amava ele (sinceramente, acho que nunca amei). O que sobrava entre nós não era amor, era apenas uma história mal resolvida que aparecia nos momentos mais inconvenientes.
– Às vezes eu não sei o que fazer. Quando estamos só nós dois, é tão fácil. Ele é meu namorado. Eu sou a namorada dele. Parece ridiculamente simples. – Ela deu um sorriso triste. – Aí acontece uma coisa como a de ontem... E meu cérebro resolve estragar tudo. E eu sei que é ridículo. – Ela soltou uma risada fraca. – Acho que a gente devia falar mais sobre isso.
– Sobre o quê, exatamente?
– Sobre como é namorar o ex da sua melhor amiga.
– É um grupo de apoio bem específico. – Dei risada, acolhendo o braço dela que se enrolou no meu.
– Provavelmente somos as únicas duas pessoas qualificadas para participar. – Concordou, rindo também.
Ficamos em silêncio mais um pouco, não precisávamos de mais palavras naquele momento, só da certeza de que, não importa o que acontecesse – Andreas, , famílias, passados – a gente ainda tinha uma à outra.
– Não estou dizendo essas coisas para você se sentir culpada, ok? – Assegurou, brincando com os anéis em meus dedos. – Só... é uma coisa que às vezes passa pela minha cabeça. – Nina levantou a cabeça do meu ombro por um instante, os olhos fixos em mim. – Você não sentiu nada quando soube que a gente tinha começado a ficar?
– Eu senti alívio. – Respondi e ela riu. – Alívio por ele estar com alguém que eu sabia que conhecia ele de verdade. E alívio por você estar com alguém que... bom, que não era um idiota completo.
– Ele é meio idiota às vezes. – Ela deu de ombros.
– Todos são.
– Eu gosto dele. – Nina respirou fundo e voltou a apoiar a cabeça no meu ombro. O vento bagunçou o cabelo dela e eu senti o cheiro do xampu que ela usava desde o colégio, sorri. – Só que... – Nina fez uma careta e escondeu o rosto no meu ombro. – Ele é seu ex.
A risada escapou de mim antes que eu pudesse segurar.
– Você ainda está choramingando por causa disso? Pensei que já éramos bem resolvidas quanto a isso.
– Não estou choramingando.
Ri outra vez e apertei o braço ao redor dela. Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando o mar.
– Você nunca se arrependeu? – Perguntei, ela me olhou confusa. – De namorar o Andreas.
– Todos os dias, quando lembro que ele é seu ex. – Ela riu. – Que tipo de amiga eu sou? Isso já seria suficiente para deixar qualquer pessoa minimamente funcional desconfortável.
– Nós nunca fomos exatamente o exemplo de funcionalidade.
– Não, sério. – Ela sorriu, dessa vez sem brincadeira. – Porque, por mais que a gente faça piada sobre isso, eu sei que poderia ter sido muito diferente. Essa foi a parte mais estranha de todas. Eu estava me apaixonando por alguém que você tinha amado... e você estava genuinamente feliz por mim. Nunca reclamou, nem me fez escolher.
– Então por que ainda carrega essa culpa?
– Porque eu amo vocês dois. – Aquilo me desarmou. Não tinha como responder a isso com uma piada. Não tinha como desviar. – Você é minha melhor amiga. Ele é o cara que eu amo. Às vezes parece que eu estou sempre devendo alguma coisa para alguém. Só quero que você saiba que, se algum dia alguma coisa ficar estranha entre nós por causa disso, você pode me falar.
– Nina...
– Eu estou falando sério. Não quero que você fique tentando me poupar porque acha que precisa.
– Eu não faço isso.
– Você sempre faz isso! – Ela rolou os olhos, rindo levemente. – Eu sei que a minha depressão foi assustadora para você, mas eu não sou tão frágil assim. Você não precisa ficar escolhendo as palavras certas o tempo todo comigo. – Ela continuou. – Nem esconder coisas porque acha que eu não vou saber lidar.
Baixei os olhos para minhas mãos. Era exatamente isso que eu e estávamos fazendo com ela.
– Eu só tento não piorar as coisas.
– Eu sei, . Mas às vezes, tentando não piorar as coisas, você acaba decidindo por mim o que eu consigo suportar. – Não respondi, porque, dessa vez, ela tinha acertado. Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando o mar. – Você gostava dele? De verdade?
Ri outra vez e apertei o braço ao redor dela. Eu sabia que ela não ia deixar aquele assunto morrer tão facilmente. Nina tinha esse talento irritante de perceber quando eu estava tentando encerrar uma conversa.
– Às vezes penso que não, sabe? Olho para trás e não sei se era amor ou se era só... hábito. Ele era o que minha mãe queria que eu namorasse. Eu era o que a família dele esperava. Mas no fundo, acho que nunca tivemos uma conversa de verdade. Nunca nos perguntamos se a gente queria aquilo. A gente só fazia porque era esperado. – Balancei a cabeça de novo. – Você sabe, como nossas famílias torciam muito para essa transação comercial acontecer.
– A grande transação comercial dos e dos Buppha. – Nina soltou uma risada baixa. Apertou a garrafa entre as mãos e ficou alguns segundos encarando a água. – E você acha que... ele gosta de mim?
– Nina... você quer que eu te convença de alguma coisa? Porque eu não vou fazer isso.
Ela desviou o olhar por um instante. Depois voltou a me encarar.
– Você é uma pessoa muito sábia de ressaca. – Ela disse, por fim.
– É o efeito colateral da desidratação.
Ela riu e eu ri junto. O barco balançou suavemente sob nós. O vento trouxe o cheiro salgado do mar, e, por alguns segundos, foi fácil fingir que aquela conversa tinha resolvido alguma coisa. Eu quase esqueci que tinha um segredo deitado entre nós como uma pedra no fundo do mar.
– ?
– Hm?
– Se eu terminar com ele, você vai ficar do meu lado?
– Nina, eu fico do seu lado em qualquer circunstância. Mesmo que você decida ficar com ele. Mesmo que você decida mudar de nome e ir viver no interior da Tailândia. Eu vou estar aqui.
Ela riu de novo e eu senti o corpo dela relaxar contra o meu, como se aquelas palavras tivessem dissolvido alguma tensão nela.
– Você é a melhor amiga que alguém poderia ter. – Ela apertou meu braço. – E, só para deixar registrado... eu gosto de você e do Andreas juntos. Como pessoas que conseguiram sobreviver ao término sem destruir a amizade. Mas gosto ainda mais de você e do . – Ela fez uma pausa, me olhando. – Não estou dizendo que me mata de felicidade você ter se envolvido com meu irmãozinho. – Ela riu, ainda sem perceber meu desconforto. – Só estou dizendo que ontem, pela primeira vez, eu olhei para vocês dois e pensei: “ah”.
– “Ah”?
– Quando eu vi vocês dois na festa... rindo de alguma coisa que só vocês entendiam... eu pensei... – Ela sorriu de canto. – É assim que parece quando duas pessoas se escolhem.
Escolhem.
A palavra bateu em mim com uma força desproporcional. Porque Nina enxergava uma escolha, eu enxergava um contrato.
– Nina, eu...
– Não precisa dizer nada. Eu só queria que você soubesse que eu vejo. E que fico feliz por vocês dois. – Assenti, incapaz de responder.
Por um instante, imaginei como seria se eu contasse para Nina. A vontade veio tão forte que chegou a doer. Eu podia contar sobre o acordo, podia dizer que tudo havia condições, prazo, um fim previsto desde o primeiro dia. Podia dizer que nunca aceitou ser meu namorado, aceitou um trabalho. Que a história que Nina enxergava com tanta facilidade tinha nascido de uma mentira.
Mas a verdade não era só minha. O acordo envolvia muito antes de envolver a mim. O motivo que o levou a aceitar aquele dinheiro era dele e, por mais que aquela mentira estivesse pesando na minha consciência, eu não tinha o direito de arrancar o segredo das mãos dele para aliviar as minhas.
Eu conhecia apenas uma parte da história. Sabia que existia um motivo e que carregava um peso grande o suficiente para aceitar um dinheiro que claramente o incomodava, mas sendo completamente consciente de que eu não conhecia toda a verdade. E justamente por isso, não tinha o direito de contá-la.
E eu sabia que, se eu dissesse aquilo em voz alta, a Nina nunca mais olharia para nós da mesma forma. Ela ia ver como alguém que aceitou dinheiro. Ia me ver como alguém que comprou companhia. E pensar nisso me deixava ansiosa, só de pensar em ter Nina me vendo de outra forma senão como sua melhor amiga.
Nina apertou meu braço mais uma vez e apoiou a cabeça no meu ombro. Fechei os olhos, suspirando.
No horizonte, a água brilhava sob o sol. Linda e silenciosa, escondendo sabe-se lá quantas coisas sob a superfície.
Eu conhecia bem aquela sensação.
Capítulo Onze –
Diferente da faixa de areia clara que cercava o hotel, o oceano dali parecia ter sido pintado com uma cor completamente diferente. O azul era mais denso, quase anil, e se confundia com o céu carregado pelas chuvas da noite anterior. Ainda assim, era de tirar o fôlego.
Quando disse que a família ia sair para navegar, imaginei um catamarã simples. Algumas almofadas coloridas, música baixa, talvez uma mesa com frutas e queijos. Entretanto, o que apareceu foi um verdadeiro iate de luxo. Três andares. Tripulação uniformizada. Aparentemente, aquele era o conceito de "vamos dar uma volta" dos .
Era impossível não se sentir pequeno diante daquela visão de luxo exagerado, como se o universo tivesse decidido fazer uma piada comigo, misturando os absurdos da minha vida pessoal com a grandiosidade daquela cena.
Além do cenário digno de filme, no andar de cima, estavam Adit – meu sogro temporário – e alguns de seus irmãos e primos. Entre eles, como uma maldição em forma de terno amassado, estava Davi Martinez. Como se o iate não fosse humilhação suficiente, ainda tinham decidido colocar o meu chefe no mesmo barco. Ou, dependendo do ponto de vista, o homem que poderia destruir a minha vida sentado a poucos metros de distância enquanto eu fingia ser o namorado da filha de um dos homens mais poderosos que conhecia.
Só de pensar em Davi ali, meu estômago embrulhou e eu tive certeza de que não era ressaca. E ainda assim… Ali, no sofá de frente para o mar, na área de popa, com a brisa batendo no rosto e se encaixando contra o meu corpo como se aquilo fosse rotina, eu consegui esquecer – por alguns minutos – de quem eu era. Ou de quem eu fingia ser.
Ela estava linda. Não era a primeira vez que eu pensava aquilo, mas naquele momento, com a luz do sol filtrada pelas nuvens, a palavra parecia pequena demais. As bochechas ainda levemente coradas – vinho, ressaca, ou os dois –, alguns fios de cabelo insistindo em escapar do coque improvisado, e aquele sorriso.
No nosso teatrinho bem ensaiado de casal apaixonado, ela se acomodou contra mim com cabeça no meu ombro, o corpo encaixado contra o meu, o braço dela descansando sobre minha perna. E eu passei o braço por cima dos ombros dela, assumindo meu papel com eficiência duvidosa. Tentei focar na conversa, tentando parecer o namorado perfeito e não deixar transparecer que eu estava completamente desnorteado por .
Continuei respondendo às perguntas, concordando quando precisava, sorrindo nos momentos certos e fingindo acompanhar a conversa. Na prática, metade da minha atenção estava presa ao peso do corpo de encostado no meu. A outra metade ainda tentava organizar a noite anterior.
Quando Ethan apareceu completamente bêbado, tinha sido ele quem sugerira dormir no meu quarto. Só que as coisas saíram completamente do controle quando no meio da madrugada, a chuva começou a cair com força e aos poucos, o pessoal foi migrando para o cômodo mais próximo que encontrava... e, quando percebi, o salão improvisado da mesa de pôquer era o meu quarto. Quem teve a brilhante ideia de carregar uma mesa de pôquer inteira até lá? Sinceramente, até hoje eu não sei.
O quarto de estava vazio, já que ela tinha dito que passaria a noite com Nina. Na minha cabeça, completamente anestesiada pelo álcool, tudo aquilo pareceu fazer um sentido impecável. Se Ethan precisava apenas de um lugar para apagar, por que não deixá-lo na cama enquanto o restante da bagunça acontecia ao redor?
Tirei os sapatos dele, apaguei a luz e já estava saindo quando ouvi passos atrás de mim. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, me empurrou de leve contra a parede e me beijou, fechando a porta do quarto.
Sorri sozinho ao lembrar. Não tinha sido um beijo planejado. Nem delicado. Nem particularmente coordenado, considerando o nível de álcool que tínhamos ingerido. Foi desajeitado, cheio de intenção e de urgência e eu não queria que terminasse.
Nos enrolamos por alguns segundos, tropeçando em direção à cama, as mãos dela agarradas na minha camisa, a minha na cintura dela, o corpo dela colado no meu. E, por um momento considerei seriamente a possibilidade de transar com Ethan dormindo no mesmo ambiente.
Não foi um pensamento orgulhoso, mas foi honesto.
Naquele instante, com ela contra mim, o gosto do vinho ainda na boca dela, a respiração quente no meu pescoço, eu realmente não ligava para o fato de que tinha um homem roncando a três metros de distância.
E então ela dormiu, parecia que o simples ato de tocar o colchão tinha sido o gatilho que o corpo dela esperava. Fiquei alguns segundos olhando para aquele rosto completamente relaxado, tentando decidir se ria ou se me ofendia.
No fim, só a deitei na cama. Ajeitei o travesseiro e puxei o lençol, porém, olhei para Ethan. Olhei de novo para . Dormir ali parecia uma péssima ideia. Sair e deixá-los sozinhos – ela bêbada, ele bêbado, os dois numa cama que não era de ninguém – pareceu pior ainda. Então puxei um cobertor do armário, joguei Ethan no chão e planejei o resto da noite na poltrona ao lado da janela.
Mas se levantou, cruzou o quarto cambaleando e sentou no meu colo e deixou claro que só dormiria se fosse comigo. Eu tentei argumentar, – não muito, mas tentei – porém, ela fingiu não ouvir. A mulher só soltou minha camisa quando eu deitei ao lado dela. Cinco segundos depois, já estava dormindo.
Fiquei olhando para o teto por mais algum tempo, ouvindo Ethan roncar no chão e sentindo a respiração tranquila de contra o meu peito. Em algum momento, apaguei também.
A conversa ao meu redor continuava, mas eu já tinha perdido o interesse. Minha atenção tinha voltado para o peso de contra mim. Para a forma como os dedos dela traçavam círculos na minha perna, que ela provavelmente nem percebia que estava fazendo.
Mas eu percebia e sentia, o que era pior.
– Não foi você que namorou uma palhaça? – Ouvi a voz de Andreas.
Como diabos chegamos nesse assunto? Andreas tinha uma habilidade impressionante de puxar conversas dos lugares mais improváveis.
– Artista circense. – Corrigi, erguendo uma sobrancelha.
– ... a mulher era uma palhaça. No sentido literal da palavra! – Nina interrompeu, rindo alto, com o copo de vinho já meio vazio.
Vinho ao meio-dia para curar uma ressaca. Parecia que eu estava na porra de The OC. Só faltava alguém aparecer com um colete e um escândalo familiar.
– Ela era bonita. E flexível. – Dei de ombros, como se estivesse apenas defendendo um currículo. – Era divertida.
– Claro que era divertida, né. Uma verdadeira palhaça! – soltou, revirando os olhos com um sorriso sarcástico. – Ops... perdão. Artista circense.
– Amor, sem ciúmes. – Eu dei uma risada, ajeitando os óculos no rosto. Usar óculos de grau naquele sol era um inferno. – Esqueci minhas lentes de contato no quarto do hotel.
– Ainda bem... – falou. A olhei, confuso. – Acho você a coisa mais linda de óculos de grau.
– Você está brincando, né? – Tentei disfarçar a sensação de calor que começava a subir no meu rosto.
– Não.
Uma palavra. Uma sílaba. E tudo que eu achava que sabia sobre aquele momento – sobre o jogo, sobre o teatro, sobre o que era real e o que era encenação – foi parar no ar.
Fiquei sem palavras por um momento. Ela realmente tinha essa habilidade de me deixar com a cabeça girando, sem saber se devia sorrir, revirar os olhos ou simplesmente me perder nesse jogo de palavras.
Me levantei do sofá com um bocejo mal disfarçado, passando a mão pelos cabelos bagunçados. Disse que precisava ir ao banheiro, mas a verdade era que eu precisava de um respiro. Um minuto longe do teatrinho, do cheiro doce da pele da misturado ao perfume caro que ela usava. Longe da sensação incômoda de estar gostando demais daquilo tudo.
Longe dela.
O corredor estreito do andar superior era silencioso, eu segui em direção ao banheiro, ainda tentando afastar a névoa da ressaca, quando, ao virar a esquina, quase trombei com alguém. Ou melhor, com um copo de uísque.
– Que coincidência. – Davi Martinez sorriu de canto, firme o bastante para não derramar uma única gota. Com a mão livre, ajeitou o punho da camisa impecavelmente alinhada, como se aquele quase acidente fosse apenas um detalhe curioso da noite. Davi inclinou a cabeça, observando-me por alguns segundos quando não respondi. – E então? Como está indo?
– O quê? – Fingi não entender.
– O plano.
Dei uma olhada rápida ao redor. O corredor estava vazio. Mas mesmo assim, minha voz saiu mais baixa.
– Está indo bem.
– "Bem" é uma resposta vaga.
– Porque a pergunta foi vaga.
O sorriso dele apareceu de novo. Pequeno.
– parece bastante confortável com você.
– Somos namorados. – Respondi, como se aquilo explicasse tudo. Para Davi, explicava. Ele acreditava naquela parte da história tanto quanto qualquer outra pessoa naquele barco.
– Quero saber se está conseguindo conversar com ele sobre a empresa. – Ele tomou mais um gole do uísque.
– Aos poucos.
Davi assentiu, claramente incomodado com minha falta de palavras minuciosas.
– É melhor assim. Não tenha pressa. – Ele fez uma pausa. – A fusão não pode parecer uma ideia nossa.
– Sua. – Repliquei. – A ideia é sua.
Ele me encarou por alguns segundos, me examinando como um leiloeiro avalia um cavalo de corrida.
– Sabe, eu realmente não pensava que você fosse durar tanto. Achei que você ia vacilar. Mas aqui estamos, você e eu. Olha só, a família te adora e a garota... – Ele fez uma pausa, os olhos se fixando em mim com uma intensidade que fez meu estômago revirar. – Bem, ela olha para você como se você fosse a solução para todos os problemas dela.
– E o que você quer de mim, Davi? – Minha voz soou mais firme do que eu esperava. – Já que você já me colocou nesse papel, o que mais tem para mim nesse jogo?
– Você ainda não percebeu, não é? – Davi disse, quase como se estivesse se divertindo com a minha tentativa de resistência. – Você já está dentro, garoto. Já é parte do jogo.
Ele se afastou com a mesma calma com que tinha chegado e eu fiquei parado, sem muito mais o que fazer. Voltei pelo corredor devagar, respirando fundo e tentando convencer meu corpo de que não havia motivo para continuar tenso.
Depois do almoço, o barco inteiro pareceu entrar oficialmente no modo preguiça. Voltamos para os sofás da popa, espalhados entre almofadas, óculos escuros e copos de bebida como se ninguém tivesse planos de se mexer pelo resto do dia.
– Pelo menos a Maya não teve coma alcoólico esse ano. – deu de ombros. Conversávamos enquanto trocávamos versões do caos da noite anterior. Cada um lembrava de um detalhe diferente e nenhuma das histórias parecia combinar perfeitamente com a outra. – Isso já é um avanço.
– Isso que é herança e legado familiar… – Andreas interrompeu, com aquele sorriso cínico de quem está prestes a soltar algo ainda mais ácido. – Ter uma família com tanto nome e história tem suas vantagens, não é?
– Quem diria que a Maya, dona da loja Kaie, sairia de ambulância da festa de aniversário só por ingestão desenfreada? – Nina soltou, com um tom que misturava curiosidade e diversão.
– Ela tem uma loja? – Perguntei.
– A mãe dela tem a loja. A Maya cuida da parte criativa. – Ela inclinou a cabeça, pensando. – Na verdade, todo mundo aqui é envolvido nos negócios da família de algum jeito.
– Vocês sabem que existe um nome para isso na internet, não sabem? – Fiz um gesto amplo, apontando para o barco, para os parentes espalhados ao redor, para o universo inteiro. – Nepo babies.
– O nepotismo existe desde que o mundo é mundo, lindo. – sorriu.
– O nome é "Nepo Baby". – Corrigi, tentando brincar com a situação e alfinetar ao mesmo tempo. – Filhos do nepotismo, se preferir.
– Hum, então eu sou uma nepo baby? – Ela perguntou, com um sorriso astuto.
– Uma nepo muito baby. – Respondi, tocando o nariz dela de leve. deu um sorriso travesso e encostou a cabeça no meu ombro.
– No final, sempre acaba sendo sobre o que você faz com o que tem. – Ela falou com a calma de quem sempre encontra um jeito de transformar o mais complexo em algo simples.
– Essa é a moda agora? Nepo babies? – Andreas riu, bebericando o que restava no copo. – claramente tem um tipo. Nepo babies indianas.
A sacada foi rápida. E boa, infelizmente. Soltei uma risada antes de conseguir me controlar. Nina também, mas a gargalhada morreu no meio quando ela percebeu exatamente o que Andreas tinha acabado de dizer e deu um tapa no braço dele.
– Ai! – Ele se encolheu, olhando para ela. A confusão nos olhos dele durou um segundo. Depois, o clique. Foi quase possível acompanhar o momento exato em que o cérebro dele refez a própria frase e encontrou o problema.
Bro code. Não precisava nem perguntar. Ele tinha acabado de lembrar, tarde demais, que falar das minhas ex-namoradas na frente da minha atual talvez não fosse exatamente a melhor demonstração de inteligência social. Principalmente daquela ex-namorada.
Kiara.
O nome nem precisou ser dito. Mencionar aquela ex-namorada na frente de era praticamente pedir para ser jogado no mar.
– Tenho certeza de que ela encontraria alguma maneira de transformar isso em elogio para ela mesma. – resmungou.
– É bem a cara dela. – Nina riu.
– Nina. – Repreendi. – Não começa.
– Por que você a defende tanto? – virou o rosto na minha direção.
– Por que você a ofende tanto? – Retruquei, antes de conseguir me impedir.
O sorriso dela desapareceu. A obsessão de com Kiara sempre parecera exagerada.
– Eu não ofendo. Eu só me defendo das coisas ridículas que ela fala sobre mim. Kiara passou anos inventando versões de mim que fossem convenientes para ela.
– Que versões?
– A versão em que eu sou arrogante.
– Você é um pouco arrogante. – Dei de ombros.
– . – Ela me lançou um olhar irritado. – Digo a versão em que eu sou mimada. Fria. Competitiva.
– Você é competitiva.
– Eu vou jogar você no mar. – Ela revirou os olhos, mas o canto da boca dela tremeu em um quase um sorriso. – Kiara acha que qualquer coisa que venha fácil demais não tem valor, por isso me ataca usando a empresa. – soltou uma risada sem humor.
– Não parece uma posição tão absurda.
– Não seria, se ela não passasse metade do tempo tentando provar que é melhor do que todo mundo porque escolheu sofrer um pouco mais para chegar aos mesmos lugares. – inclinou a cabeça, os olhos fixos em mim. – Na cabeça dela, trabalhar na empresa da própria família invalida qualquer competência que você tenha. Como se todo o seu esforço deixasse de existir só porque você não começou do zero.
– Talvez ela só queira provar que consegue sozinha.
– E por que ela precisa provar isso me diminuindo?
Abri a boca para responder, mas nenhuma justificativa pareceu suficiente. Mais uma vez, me vi entrando na cabeça de , a quem eu passei a vida achando que era uma rica fútil, porém, ela tinha opiniões bem razoáveis para quem nasceu em berço de ouro.
Sem sequer desviar o olhar, continuou: – Kiara vive falando sobre como quer mudar o mundo, sobre como o país não precisa de outro rico aproveitando seus privilégios. E eu concordo. Mas, se ela realmente acredita em justiça social, poderia começar pelo básico. Poderia parar de ocupar espaços que nunca precisou disputar. Tirar a vaga de alguém que depende dela para mudar de vida só para provar um ponto... isso não é idealismo. É vaidade. O que a sua namorada não parece entender é que essa é a realidade de como o mundo funciona e...
– É você. – Soltei, sem pensar, interrompendo-a.
– O quê? – A mão dela, que estava gesticulando, parou no ar.
– Você é minha namorada.
A frase saiu antes que eu pudesse pesá-la. E só depois de ouvir em voz alta percebi como aquilo tinha soado com uma naturalidade muito, muito perigosa.
se calou imediatamente. Eu poderia ter jurado que vi uma corzinha nas bochechas dela, um tom rosado que subiu rápido e desapareceu quase no mesmo instante.
– Olha só, fez a calar a boca. – Andreas riu, apontando para nós dois como se tivesse acabado de testemunhar um acontecimento histórico. – Isso merece um brinde.
– Ao primeiro milagre do dia. – Nina levantou o copo imediatamente.
voltou a se sentar ao meu lado e ajeitou os óculos escuros sobre o nariz.
– Idiota. – Murmurou, me fazendo sorrir.
A tensão que havia se instalado entre nós depois da discussão foi se desfazendo aos poucos. Nina voltou ao assunto, Andreas entrou na conversa e, por alguns minutos, conseguimos transformar uma discussão sobre privilégios em uma análise informal dos ricos bonzinhos que descobriam a desigualdade social depois de terem dinheiro suficiente para pagar por um apartamento em Manhattan.
A conversa continuou por mais alguns minutos, até eu perceber que tinha ficado mais quieta. Estava recostada no sofá, os óculos escondendo os olhos e uma das mãos pressionando discretamente a testa. Ela ajeitou os óculos no rosto e se levantou devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse fazer seu cérebro abandonar o corpo.
– Vou deitar um pouco lá embaixo. Quer vir comigo?
O sol da tarde ainda batia forte, aquecendo a madeira do convés e deixando tudo com aquela aparência preguiçosa de fim de dia. Observei atravessar o espaço com naturalidade, seu vestido preto, simples e leve, acompanhava seus movimentos enquanto ela descia os degraus na parte traseira do iate.
Ali embaixo, o mundo parecia outro.
A plataforma de madeira se estendia sobre a água, tão próxima do mar que bastava sentar na borda para deixar os pés mergulhados. fez exatamente isso. Sentou-se na beirada e soltou um suspiro quando a água tocou suas pernas. Apoiou as mãos atrás do corpo e inclinou o rosto para o sol. A luz dourada banhava o rosto dela, iluminando os traços que eu já começava a conhecer de cor.
Por alguns segundos, não disse nada. Eu também não. Fiquei parado no último degrau, observando-a.
– Você vai ficar aí me encarando? – Perguntou, sem sequer abrir os olhos.
– Eu estava esperando você parar de reclamar da cabeça.
– Pode esperar sentado.
– Tecnicamente, é exatamente o que você está fazendo.
Ela abriu um olho por trás dos óculos e me olhou. O canto da boca dela subiu ligeiramente.
– Você está especialmente irritante hoje.
Sentei-me ao lado dela, deixando os pés mergulharem na água. O frio subiu pelas pernas e arrancou de mim um suspiro involuntário. Ficamos em silêncio até virar o rosto na minha direção.
– O que foi? – Perguntou, como se esperasse algo mais de mim.
– Essa dor de cabeça é ressaca ou culpa pela menção à Kiara? – Perguntei, sem pensar muito, tentando manter a leveza na conversa.
– Os dois. – voltou a olhar para o mar. – Me estressa o tanto que você se desdobra para defender ela.
– Você não pode me brigar, estou em um barco com seu ex-namorado, não esqueça disso. – Tentei brincar, mas a piada saiu com um tom mais defensivo do que eu queria.
– Ei! Você escolheu entrar nesse barco.
– Não sabia que vinha com uma guerra civil. – Resmunguei, fazendo ela rir.
– Andreas não é tão ruim assim... e é namorado da Nina – respondeu com a voz mais suave.
– Não sei não… ele me provoca demais para quem deveria estar supostamente apaixonado pela minha irmã. – A frase escapou de mim em uma forma de desabafo não planejado.
– É, pode ser... – Ela me olhou com uma mistura de compreensão e ironia nos olhos, como se tivesse visto através de mim. – Mas não acho que seja proposital. Acho que é porque nosso último ponto de divergência foi o meu aniversário. Foi quando terminamos. E ainda teve... – Ela suspirou, quase com vergonha, e balançou as pernas dentro da água. – Ethan.
– O que tem ele? – Perguntei, agora sério.
– Bom... no meu aniversário do ano passado, nós... – Fez uma careta. – Não foi exatamente uma decisão muito inteligente. Eu estava triste. Eu e Andreas tínhamos acabado de terminar e... enfim. Aconteceu.
– Aconteceu...? – Arregalei os olhos, tentando aceitar aquela frase. – Com o Ethan.
– Sim. – Ela revirou os olhos, como se estivesse cansada de ter que explicar aquilo. – Andreas acabou descobrindo que eu tinha passado a noite com o cara que ele sempre desconfiou. Foi uma confusão.
– Então você está me dizendo... – Fiz uma pausa proposital. estreitou os olhos, já prevendo onde eu ia chegar. – ...que o cara que eu arrastei para o seu quarto ontem... já tinha...
Ela soltou uma risada nervosa e cobriu o rosto com uma das mãos.
– Meu Deus. Sim, . – Ela baixou a mão e me encarou.
A resposta veio tão direta que meu sorriso vacilou por um instante. Todo mundo tem um passado, claro, mas ouvir aquilo da boca dela era diferente. E odiei descobrir que existia uma parte de mim que queria saber mais detalhes. Eu queria saber quanto tempo durou, se significou alguma coisa, se ela ainda pensava nele de vez em quando.
Encarei-a por alguns segundos antes de falar.
– Eu deixei ele dormindo sem camisa na sua cama, .
– Você também estava na cama. – Ela sustentou meu olhar, impassível.
– Eu devia ter deixado você dormir sozinha ontem.
Um sorriso discreto apareceu no canto da boca dela.
– Não teria. – Ela respondeu com tanta convicção que eu nem tentei discutir. Porque nós dois sabíamos que era verdade. Eu não a teria deixado sozinha da mesma forma que ela não me deixou dormir na poltrona. – Não depois de você transformar o seu quarto em um cassino clandestino de Las Vegas.
– Detalhes. – Eu me recostei, tentando fingir desinteresse, mas não pude evitar um sorriso, lembrando do caos que meu quarto no hotel havia acolhido. – O caso é... Ethan.
– Eu estava emotiva! E bêbada! E... ok, talvez um pouco carente. – Ela gargalhou, jogando a cabeça para trás, os cabelos caíram sobre os ombros, e por um momento, ela pareceu mais leve. – Mas foi uma vez. E eu juro que me arrependi no dia seguinte. Não que eu lembre de muita coisa. Mas arrependimento é um sentimento persistente, sabe? Não importa quanto tempo passe, ele sempre encontra um jeito de voltar.
– Eu sei como é isso. – Suspirei. Ela virou o rosto na minha direção. Os óculos escuros escondiam os olhos, mas eu sentia o peso da atenção dela. – Não vai perguntar qual foi o meu arrependimento?
– Achei que você fosse me contar quando estivesse pronto.
– Talvez outro dia. – Sorri de canto.
Pensei que meu maior arrependimento fosse o dinheiro que eu tinha roubado da empresa, a confusão com Davi ou todas as escolhas duvidosas que tinham me levado até ali. Mas, sentado ao lado dela, percebi que talvez meu maior arrependimento não fosse nenhuma das decisões que tomei.
Era justamente a única que eu não tomei.
Não ter ligado ou mandado uma mensagem. Não ter dito nada depois daquela noite.
Talvez se eu tivesse ligado, eu não estivesse aqui, sentado ao lado dela, fingindo ser seu namorado. Talvez eu fosse o namorado de verdade.
assentiu, seus olhos encontraram os meus por um segundo, mas ela não pressionou. Só ficou ao meu lado, as pernas balançando na água, o sol se pondo atrás de nós. Suspirei e molhei as mãos na água, deixando o frescor escorrer entre os dedos.
– E o Andreas? – Perguntei baixinho. – Você nunca me disse o que realmente aconteceu entre vocês dois, hein? Fiquei com a impressão de que ainda tem algo não resolvido, não sei… – Pausei, buscando as palavras certas.
Ela ficou em silêncio por um momento. Os olhos fixos no horizonte, as pernas balançando lentamente na água. Eu quase pensei que ela não ia responder.
– Não aconteceu nada... – Ela falou devagar, como se estivesse encontrando as palavras enquanto falava. – Eu e Andreas... não fazia muito sentido. Foi um grande nada.
Eu fiquei em silêncio, tentando digerir o que estava dizendo. Algo na maneira como ela falava – tão tranquila e quase indiferente – não batia com a complexidade de suas palavras. Eu a observava, procurando sinais de dor e não achei nada.
Fiquei quieto, processando o que ela estava me dizendo. Eu não sabia o que era mais difícil de acreditar: o fato de Andreas e Nina terem se envolvido ou o fato de que ela parecia tão... calma em relação a tudo isso.
– Então, me explica uma coisa, . Seu ex e sua melhor amiga? – Perguntei, o desconcerto tomando conta de mim. – Como é que você simplesmente... aceitou?
Eu precisava entender, de alguma forma. Aquela situação não se encaixava. Não no mundo que eu conhecia, onde términos vinham acompanhados de mágoas e bagagem.
– Parece complicado, não é? – Ela disse, rindo levemente. – Mas eu juro que não é. Como eu disse, Andreas foi... Ele nunca foi realmente algo, sabe? A gente se encaixava no papel. Ele era o que minha mãe queria. Eu era o que a família dele esperava. Mas no fundo... a gente só fazia porque era esperado. Então, quando surgiu o lance dele com Nina, não foi algo que me devastou. Não foi decepcionante, nem arrasador. Foi... apenas mais uma prova de que, às vezes, a vida não faz sentido.
– Você está me dizendo que seu ex começou a namorar sua melhor amiga e você simplesmente ficou bem?
– Não exatamente.
– Ah. Ótimo. Porque eu estava começando a achar que você era psicopata.
Ela me lançou um olhar divertido.
– Eu só não vejo sentido em sofrer por uma coisa que já tinha acabado. – Ela simplesmente deu de ombros, como se estivesse acostumada com a ideia de ser vista como a única pessoa a lidar com o caos de uma maneira mais prática. – Talvez seja porque eu nunca amei ele de verdade.
Agradeci pôr a brisa ter ficado mais forte. Ela deve ter ouvido meu suspiro satisfeito e aliviado, porque o canto da boca dela se moveu ligeiramente em um sorriso.
O sol se espalhava pela água à nossa frente, dourando a superfície e fazendo tudo parecer mais tranquilo do que realmente era. Olhei para ela. continuava ali, um pouco distante, os dedos tamborilando distraidamente no copo vazio enquanto parecia perdida em algum lugar dentro da própria cabeça.
O barco balançou suavemente e uma onda mais forte bateu contra a plataforma, fazendo a água subir até nossa cintura. Suspirei, maravilhado. A sensação era tão boa que dava até para deitar ali.
Olhei para mais uma vez.
– Quero comprar um barco.
– Não olha para mim, já gastei dinheiro demais com você. – Ela balançou a cabeça, rindo.
– Você é uma péssima sugar mommy. – Virei-me para ela, o sorriso se ampliando. – Está de biquíni? Segura isso.
Ela levantou uma sobrancelha, os olhos se estreitando, mas o canto da boca entregava um interesse inesperado. Tirei a camisa num movimento rápido, joguei meus óculos no colo dela e pulei no mar.
A água me atingiu com o impacto de um soco gelado, roubando o fôlego por um instante e depois um grande alivio. Flutuei por alguns segundos, deixando o corpo se ajustar à temperatura. Quando virei, ela estava na borda do barco, os braços estendidos na minha direção.
Nadei até ela, estendi a mão. Ela hesitou por um segundo, olhando para a minha mão como se estivesse avaliando o risco. Depois soltou o ar e se deixou cair. A água a engoliu por um instante e ela voltou a superfície com cabelos espalhados, braços abertos, o vestido se enrolando ao redor das pernas.
A água era absurdamente cristalina. A luz do sol atravessava a superfície e desenhava reflexos dourados sobre nossos braços e ombros. Alguns metros abaixo, porém, o azul se tornava tão profundo que o fundo simplesmente desaparecia. Era bonito e um pouco assustador.
Comecei a nadar em volta do iate, sem pressa, deixando a correnteza me levar. seguiu na direção do deck, apoiou os cotovelos na madeira e descansou o queixo sobre os braços cruzados. Seu corpo permanecia quase todo submerso, flutuando com facilidade, enquanto as pernas balançavam lentamente sob a superfície.
Por um instante, me perguntei se ela se afastaria caso eu encurtasse a distância entre nós. E depois me perguntei por que eu queria encurtar a distância. A resposta mais conveniente apareceu primeiro. Porque ela era absurdamente bonita. Porque o vestido molhado desenhava o corpo dela de um jeito que exigia um esforço quase desumano para fingir que eu não tinha notado. Porque eu era um homem. Só isso.
Nada mais complicado do que testosterona fazendo o trabalho dela.
Foi pensando que eu era apenas um cara reagindo à mulher incrivelmente gostosa ao meu lado que nadei na direção dela.
– Tudo bem? – Apoiei a mão na costa dela, me apoiando também no deck. – Toda essa quietude... é da ressaca?
Ela assentiu, mas depois levantou os óculos escuros ainda com a cabeça deitada para que seu olhos encontrassem os meus.
– Você acha mesmo que eu sou mimada e arrogante? – Perguntou, num tom tão direto que me pegou desprevenido.
Ah. Não era ressaca. Eram os reflexos da conversa anterior. A discussão sobre Kiara, sobre privilégios, sobre o que significava ser quem ela era. Acho que eu tinha mexido em algo que ela não tinha processado completamente.
– Acho. – Dei risada vendo ela resmungar e ameaçar se afastar, como sempre fazia quando se sentia contrariada e eu segurei a cintura dela antes que ela fosse longe enquanto me apoiava com um braço no deck. – Mas também acho que você é muito, muito amada. E só é mimado quem é muito amado.
Bastava prestar atenção.
No jeito como Adit olhava para ela. Em Anjali, que, apesar da rigidez, das críticas e das correções constantes, encontrava mil formas discretas de demonstrar afeto. Um prato preparado especialmente para . Um hotel inteiro reservado para que ela comemorasse o aniversário cercada por quem amava.
Até o desgraçado do meu chefe tinha um ponto fraco por ela. Nunca fazia questão de esconder o quanto a considerava inteligente.
Eu tinha visto tudo isso na ilha. Nos primos que gravitavam ao redor dela sem perceber. Na risada espontânea de Nina sempre que aparecia. Até no babaca do Ethan, o codiretor engraçadinho, que passava metade do tempo inventando qualquer desculpa para chamar sua atenção.
E não era só ele.
Era o garçom que sorria ao vê-la chegar. A recepcionista que a cumprimentava pelo nome. Os funcionários que pareciam genuinamente felizes quando ela passava. Eram pessoas de mundos completamente diferentes reagindo da mesma forma à presença dela.
– Minha avó diz isso. Que, para alguém ser mimado, primeiro precisa ser muito amado. E ela sempre termina dizendo que eu sou. Especialmente por ela. – O sorriso de se abriu um pouco mais. – A Nani é forte, meio doida, teimosa... – Ela riu baixinho. – Mas do tipo que faz você se sentir o centro do mundo só por estar ali. Mesmo quando tá errando feio.
– Então ela estraga as pessoas. – Ri pelo nariz.
– Bastante. – Inclinou a cabeça, o sorriso ainda nos lábios, os olhos perdidos em alguma lembrança que eu não conseguia ver. – Ela é meio bagunçada.
– Faz sentido. Você também é assim.
Ela me encarou por um instante. Pela primeira vez desde que a conversa tinha começado, foi ela quem pareceu não saber o que responder.
apenas se sentou no degrau submerso da escada. A água chegava à altura da sua cintura, balançando preguiçosamente ao redor do corpo. O iate subia e descia com a maré, e antes que eu pudesse pensar nas consequências, deixei a minha cabeça repousar sobre sua coxa. ergueu a mão e afastou, com delicadeza, uma mecha molhada que caia sobre a minha testa.
– Sabe... – Murmurou, a voz saiu quase engolida pelo barulho da água. – Você não precisa concordar comigo. Só não precisa presumir que eu nunca pensei sobre isso.
– Do que exatamente a gente está falando? – Virei o rosto para conseguir olhar para ela, apoiando os antebraços nas pernas dela.
– Privilégio. Gente rica. Kiara. Consciência social... – soltou um sorriso curto e sarcástico. – Assuntos leves.
– Eu não presumi. – Tentei me defender, mas ela logo me cortou.
– Presumiu.
Ficamos nos olhando. Eu conhecia aquele olhar. estava se preparando para argumentar até conseguir provar um ponto que talvez nem soubesse mais qual era.
– Talvez eu tenha presumido... – Admiti, devagar. – Mas não foi por mal.
– Não importa se foi por mal. – Ela inclinou a cabeça, a água balançando ao redor dela. – Importa que você fez. E que, quando você presume algo sobre mim, eu sinto que tenho que provar que você está errado.
Mais uma vez, a honestidade dela me deixou sem reação.
Estava virando rotina. tinha esse dom irritante de dizer exatamente o que pensava, sem rodeios, e me obrigar a encarar verdades que eu passava tempo demais tentando evitar.
– Eu sei que tenho privilégios, . Sei exatamente de onde eles vêm. Sei que tive sorte... – Ela interrompeu a própria frase e balançou a cabeça. – Não. Sorte, não. Eu tive acesso.
Passei a mão pelo rosto, limpando a água que escorria pelo queixo.
– Você não precisa fingir que não sabe disso só porque esperam que se sinta culpada. Mas também não pode usar esse privilégio como desculpa para nunca olhar para o que acontece ao seu redor. – Retruquei e ela assentiu quase imediatamente.
– É exatamente isso que eu penso.
– Eu sei.
Ela me encarou por um instante.
– Então por que você me olhou daquele jeito? Como se eu fosse só uma garota rica brincando de consciência social.
Demorei alguns segundos para responder.
– Porque... às vezes você parece.
– ! – Ela me acertou um tapa leve no ombro.
– Calma. Eu disse "às vezes". – Segurei seu pulso por um instante. – Talvez, em vez de presumir, eu devesse perguntar.
– Perguntar o quê?
– O que você realmente pensa. Sobre privilégio. Sobre tudo o que você herdou. Sobre quem você escolhe ser com isso.
respirou fundo antes de responder.
– Eu acho que o mundo não é justo. Nunca foi. E sei que nasci do lado que mais se beneficia dessa injustiça. – Fez uma pequena pausa. – Mas também acho que sentir culpa não muda a vida de ninguém. – As palavras saíram calmas, sem qualquer traço de defensiva. – O que eu posso fazer é reconhecer o lugar de onde vim e usar isso da melhor forma possível. Abrir portas quando eu puder. Dar oportunidades. Financiar projetos. Contratar pessoas. Compartilhar o que tenho.
Fiquei em silêncio.
– E a Kiara? – perguntei. – O que ela tem a ver com isso?
– A Kiara sente tanta culpa pelos próprios privilégios que transformou isso em identidade. Ela precisa provar o tempo inteiro que é diferente da família, diferente do dinheiro, diferente do mundo onde cresceu.
– Você não precisa provar nada, .
– Eu sei. – Inclinou a cabeça de leve, sem desviar os olhos dos meus. – Mas você continua perguntando. Eu vejo o jeito que você me olha e fico tentando descobrir o que passa nessa sua cabecinha anarquista. – Ela encostou um dedo na minha testa. Fiz uma careta exagerada, arrancando um sorriso discreto dela. – Então, no fundo, acho que você ainda está esperando uma resposta. E eu fico tentando te dar uma.
– Talvez eu esteja. Mas não porque quero te pegar num erro. É porque eu quero entender.
Ela ficou em silêncio. Os dedos voltaram a passear pelo meu cabelo. Depois de alguns segundos imersa em seus pensamentos, suspirou, dizendo: – Por que você quer entender o que eu sou, ?
Nem entendia direito como ela tinha notado aquilo que nem eu tinha percebido. Mas agora que ela tinha dito em voz alta, fazia sentido. Eu ficava mesmo procurando explicações e brechas e análises de .
Não respondi, só voltei a apoiar a cabeça sobre as coxas dela, sentindo o calor suave da pele através do tecido molhado e virei o rosto para o horizonte. O sol terminava de mergulhar no mar, derramando laranja e rosa sobre a água como tinta.
Ela não perguntou o que eu estava pensando, não tentou preencher o silêncio, só continuou passando os dedos pelo meu cabelo.
Aquele pôr do sol foi impressionante. Assistimos juntos em absoluto silêncio. E me senti em paz, mesmo com tanta coisa não dita entre nós.
Nota da autora
gente do céu… desde TSHA eu não escrevo uma long fic e eu tinha esquecido o quanto é difícil 😭
eu realmente achei que dessa vez, por já ter EC toda pronta, seria mais fácil… mas eu simplesmente mudo TUDO quando começo a editar o capítulo, então acaba demorando muito mais do que eu imaginava
isso aqui é basicamente uma desculpa pelo atraso 👍
porque estão vindo umas partes aí que eu já sei que vão me travar completamente
enfim… paciência comigo <3
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