Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: 25/03/26
O Japão é meu lar desde os meus cinco anos e já estou acostumada com as escolas japonesas, mas, essa é a primeira vez que me encontro em uma tão grande. As escolas que eu frequentava eram menores, com muitos alunos e professores rigorosos, então não entendo o porquê me colocaram em uma escola tão prestigiada logo no meu último ano — Principalmente após um acidente que me forçou a estudar em casa.
Foram quatro anos de treinamento e estudo com a vovó Dusa, para ela dizer que estou preparada para voltar a estudar em uma escola normal. Sou uma psíquica — mais especificamente uma ritualista — então consigo ter a habilidade de ver espíritos e assombrações, então a realidade pode acabar se misturando com o espiritual para mim. Aos meus treze anos, aconteceu um pequeno imprevisto com uma professora e um cabo de vassoura, após ela aparecer de repente atrás de mim nos corredores da minha antiga escola. Esse episódio acarretou em vários outros problemas na minha percepção do mundo normal e paranormal, então tivemos que mudar de cidade e os estudos foram transferidos para professores particulares.
Mas agora que retornei, estou estranhando estar em um lugar tão grande. Os corredores da escola são longos, mas estão um pouco sujos para uma escola “prestigiada” como dizem. Em compensação, as salas são grandes e quando cheguei à minha no final do corredor principal, havia poucas pessoas ali, muito melhor do que eu esperava; não queria compartilhar sala com uma multidão.
A porta ficava no fundo da sala, onde eu conseguia ver o tablado e a mesa do professor no lado oposto. Pela minha sorte, ninguém olhou para trás, pois estavam distraídos com uma garota sentada na segunda cadeira da terceira fileira, que tinha cabelo escuro como piche e pele branca como papel. Aproveitei que não era o centro das atenções — como sempre fui — e me sentei na cadeira mais afastada possível do professor.
Agora que estava sentada, podia observar melhor a garota “popular” que chamava a atenção de todos. A escola tinha acabado de começar, e ainda faltavam trinta minutos para o início da aula. Como ela conseguia tanto destaque? Apesar de ser óbvio, ela se virou ligeiramente para conversar com alguém atrás da carteira, e eu pude perceber o motivo de tanta atenção. Era a garota mais linda que eu já vi em toda minha vida: cabelo longo perfeitamente simétrico, corpo perfeito, pele impecável, olhos negros que encaravam o mundo com desdém, puxados e com cílios que pareciam delineados.
Em comparação, fez-me lembrar por que não gosto da escola. Minha mãe insiste em cortar o meu cabelo da maneira tradicional japonesa, desde nossa mudança do Brasil para cá; por isso, meus cachos estão sempre curtos e desajeitados. O uniforme teve que ser pedido sob medida porque todos aqui parecem ter anorexia, e me encaram de maneira esquisita por minha altura e pele negra. Mas não me importo com eles, eu sou bonita, bonita como a minha mãe e minha vovó Dusa. Ainda assim, tenho que admitir: aquela garota consegue ser bonita em qualquer lugar.
— Seu nome não é japonês, você é de algum lugar, Adelaine? — a voz de um garoto me tira dos meus pensamentos, me trazendo de volta à realidade.
— Eu vim para cá com sete anos. Minha mãe se casou com um japonês, mas nunca quisemos mudar meu nome, que herdei da minha avó. — sua voz era cheia de confiança, não tão grossa nem tão fina; parecia ter saído de uma novela, daquelas personagens com voz de atriz chique.
— Uoou, que legal!! De que país você veio? “Adelaine” tem algum significado? — uma garota de cabelo moreno curto diz animada, e a diferença de tratamento é gritante. Quando digo que meu nome é Miriam, apenas acenam a cabeça e voltam às suas vidas.
— Eu morava mais para o norte da Rússia. “Adelaine” pode significar nobre. — Ela pronuncia o próprio nome de forma diferente, cantando-o, e até mesmo o significado já demonstra sua imponência.
O sinal toca, e tenho certeza de que esses foram os trinta minutos mais rápidos da minha vida. Todos voltam às suas carteiras, ainda cochichando. Todos pareciam satisfeitos e de bom humor naquela manhã, tudo por causa de uma garota. Eu entendo: ela é bonita e importada, mas, após alguns dias, ela não saía da boca da escola. Professores, alunos e até mesmo o diretor a adoravam. Pelo que aprendi na minha vida, ninguém neste mundo é 100% admirado, e eu via claramente que apenas eu, naquela escola inteira, não a achava tão incrível assim.
Os primeiros cinco meses passaram rápido, e para a surpresa de ninguém, Adelaine não era só bonita, mas extremamente inteligente. Tirou as maiores notas da escola, entregou todos os trabalhos com perfeição, suas apresentações eram impecáveis, e ela falava como se fosse uma nova ditadora, apenas comandando a escola inteira como seus fiéis súditos. Ela andava como uma modelo, rodeada e admirada, mas, todo intervalo, sumia. Desaparecendo dentro daquela escola gigante e suja, apenas para reaparecer sentada em sua cadeira.
Eu não sei como, mas comecei a perceber melhor não só ela, mas todo mundo com quem ela interagia. No terceiro mês, houve o caso de uma garota muito rica da escola que cometeu suicídio. Ninguém comentou nada sobre ela, apenas uma pequena menção sobre como, onde e um “por que” inventado. Ela se enforcou em uma construção durante a noite; ninguém a viu entrando, e tudo indica que ela fez tudo sozinha. O “por que” é especulado que foi apenas os estudos, ou que ela se sentia muito pressionada, algo bem comum. Mas tem algo de errado. Algo espiritual.
A vovó Dusa me disse que eu estou sendo paranoica, que ela provavelmente só é popular e que eu nem vi as duas juntas para ter algum motivo para suspeitar, mas algo está errado. Há algo de errado com aquela garota.
— Vovó, eu estou te dizendo. Não existe mesmo nenhum pacto, ou sei lá, nenhuma assombração que faça alguém ser adorado? É impossível alguém ser tão adorado! E aquela garota de quem te falei, não acha estranho? É proibido ter cabelos longos, mas ninguém fala nada do dela! Ela é intocável. — minha voz sai alta, meus braços se abrem enquanto me abaixo um pouco para ficar na altura da pequena velhinha. Peguei o hábito de gritar e ser muito expressiva quando estou perto dela; ela só não é surda porque ouve os meus resmungos após me dar bronca.
— Miriam, você disse que todo mundo gosta dela, mas, pelo que estou vendo, há alguém bem na minha frente que não a suporta. Isso não seria prova suficiente de que não se trata de um pacto? Pactos também afetam os psíquicos. E, novamente, foi apenas um infortúnio dessa nova geração; ela não foi a primeira nem será a última.
Vovó era uma mulher pequena e de idade extremamente avançada, mas nunca responderá realmente quantos anos tem; eu chutaria na casa dos trezentos, se fosse sincera. Mesmo assim, ainda era uma psíquica poderosa, me treinando para ser a melhor, pois ela sabe que eu sou. Bem, só depois da sua aposentadoria vou ganhar esse rótulo.
— Não vovó, eu acho suspeito, mas já conversei com a garota, fizemos um trabalho juntas. Nossa, ela é incrível, muito graciosa, e ela até mesmo cheira bem. Ela é perfeita, e isso é estranho, porque não existe ninguém perfeito neste mundo. Vovó, apenas três meses não são suficientes para uma garota tão rica e poderosa não aguentar o tranco.
— Querida, você só está tendo uma quedinha pela garota e está surpresa com isso. Pare de arranjar desculpas sobre algo que não tem nada a ver com ela; chame-a para sair e resolva isso logo. E se lembre, cuidado, você vê mais coisa por ser uma ritualista, não confunde a garota que você gosta por um monstro.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela se virou de costas e foi embora, deixando-me sozinha no pequeno quarto escuro, cheio de velas, símbolos e ervas.
Entendo a preocupação deles, um psiquico do tipo ritualista é o único tipo que consegue celar quase todo tipo de assombração com maior facilidade do que os outros psíquicos. E eu tenho mais energia, e é mais dificil digerir o que é espiritual e natural para mim. Mas será que aquela garota era mesmo real?
“Será que eu estou só com uma queda nela? Tenho pensado muito nela.”
Mexo a minha cabeça repetidas vezes e saio da pequena casa de madeira da vovó, e vou passando pelas ruas como um avião. Ainda assim, penso nela todo dia, e às vezes a sigo, em esperança que veja ela virando um obsessor do nada. Ela provavelmente é uma assombração, principalmente por esses fatos.
— Sim, não há nada de errado com as minhas ações. E eu não tenho um crush nela.
— Está gostando de alguém, Miriam?
Fico arisca como um gato, soltando um grito abafado. A mesma garota que eu estava pensando agora estava diante de mim, com as mãos à frente do corpo e o rosto assustado.
— Calma, calma, eu não mordo. — ela ri envergonhada enquanto mexe as mãos como um palhaço brincalhão. Seu uniforme está em perfeito estado, sem um pingo de suor em todo o semblante, mesmo a gente estando muito distante da escola.
— Perdão, não tinha te visto aí. — tento manter contato visual, mas a vergonha me faz olhar para os seus pés; mas enfim, foco minha visão na parede atrás dela.
Forço uma tosse para liberar a garganta antes de continuar.
— Eu estava apenas reclamando da minha avó, ela acha que estou com uma queda por alguém. Mas não, não estou gostando de ninguém. — desfaço um cacho enquanto tento soltar uma risada, mesmo que isso não ajude em nada no clima entre nós.
— Entendi, se ela for idosa, acontece bastante. Mas deve estar apenas preocupada com você.
— É talvez, mas, você mora por essa região? É bem longe da escola. — tento olhar para os seus olhos, mas eles se dispersão para o meio de suas sobrancelhas.
— A não não, eu moro em outro bairro. Só estou passeando por aqui, é um bairro calmo, e gosto do barulho do riacho que tem aqui perto.
— O riacho? — meu rosto enrijesse em uma carranca.
— Sim? Esse bairro é conhecido pelo seu riacho, e ele tem um som muito pacífico se eu for honesta. — seus ombros ficam tensos, e ela segura a sua bolsa escolar com mais força.
— O riacho é sim importante para o bairro, mas ele está no meio do mato a mais de 600 metros a um quilometro daqui. Como você consegue o ouvir?
— Bem, acho que o meu ouvido é só muito afiado, não? Ou..o riacho gosta de mim. Mas, foi bom falar com você Miriam, adoro o seu estilo mais...rebelde. Mas eu vou ter que ir agora; nos vemos amanhã na escola. — Ela se distancia, acenando com um pequeno sorriso enquanto ainda me olha, parando de acenar somente ao virar a esquina.
— Tchau tchau... — a observo indo embora, e antes que eu sequer perceba o que estou fazendo, começo a seguir. — Não é um crush, vovó, e eu vou te provar isso. Eu nunca erro nessas coisas.
Eu a segui por muito tempo, escondendo minha presença ao máximo, mas, aos poucos, saíamos cada vez mais da área popular da cidade, adentrando uma região cada vez mais rural. A beleza e nobreza da garota destacavam-se cada vez mais naquele lugar; seus sapatos permaneciam limpos mesmo ao andar na terra molhada, o aroma doce do seu perfume era perceptível a muitos metros de distância, e seu cabelo não se molhava com as folhas que gotejavam sobre ele. Tudo nela parecia irreal, surreal, místico.
A pequena floresta agora crescia cada vez mais sobre nós, e tive que começar a me esconder entre as árvores, fugir de galhos enquanto ainda prestava atenção nos cabelos negros balançando metros à minha frente. Após onze minutos de caminhada naquela floresta, enfim chegamos ao local; não havia casas em um raio de pelo menos 1 km². Apenas passava o pequeno riacho; o som dele era a única coisa que se podia ouvir, os pássaros estavam quietos, e isso nunca significava algo bom.
Estava escondida atrás de uma árvore, abaixada para ficar na mesma altura dos arbustos. A garota encarava as águas, com a sua bolsa da escola ainda em seu ombro, até que a soltou sem delicadeza alguma, apenas jogando-a nas pedras molhadas ao lado do riacho. O clima do local começou a pesar; comecei a sentir a aproximação de uma tempestade, um cheiro de peixe substituiu o perfume de rosas, e antes que eu pudesse me preparar, olhar para outro lado ou ao menos fechar os olhos, ela começou a se despir. Sua saia longa escolar caiu do corpo, a blusa vermelha foi arrancada dos seus ombros e braços, sobrando apenas sua camisa branca longa de botões para cobri-la.
Comecei a olhar apenas para os seus pés, para conseguir saber sua posição, mas sem invadir a sua privacidade. Sua camisa caiu com o resto das roupas; o sutiã e a roupa íntima foram os próximos. Meus olhos e mente lutavam para continuarem olhando apenas para baixo; consigo sentir meu rosto quente como asfalto ao meio-dia. Mesmo após tirar todas as roupas, ela não saiu do lugar, permanecendo parada diante da água cristalina, mas ao encarar melhor, consegui enxergar o seu reflexo na água, pois pela turvação não conseguia ver tão bem. Quanto mais olhava, mais estranho parecia, não enxergava nada no reflexo além de seus pés.
“Mas o quê?” Quando olho um pouco mais para cima, minha expressão escurece, arregalo os olhos e começo a tentar me afastar discretamente, com o coração batendo como um tambor. Arrastando-me pela grama molhada, minha cabeça bate em algo, e o cheiro de peixe se torna mais forte ao meu redor. Um raio ilumina o céu, o som do trovão o seguindo logo em seguida, e mesmo que a chuva começasse, não caia água em minha cabeça.
— Miriam... — a voz era fina e arrastada, como uma fita quebrada. Ao olhar para cima, sou encarada de volta por olhos vermelho-sangue, sua mandíbula deslocada do crânio, cabelos negros formando uma cortina em volta das nossas cabeças, me protegendo da chuva. Uma energia negativa estava em volta de nós duas, distorcendo as formas de tudo em volta, como uma chama invisível, eu sei muito bem o que era, e o que significava isso. Um espírito vingativo, o único tipo de espírito que não era possível exorcizar.
— … Eu estava certa, vovó.
Minhas pernas tremiam, o rosto tão belo que eu conhecia, agora era apenas um resto mortal com larvas se esgueirando pelas aberturas em sua cabeça. Onde deveria estar a sua caixa torácica agora tinha guelras e um buraco em seu peito que mostrava explicitamente o seu coração, que mesmo ainda estando vermelho, não batia mais. Não posso me afastar, não posso fugir, não posso lutar contra, estou presa á aqueles olhos.
Suas mãos esqueléticas com seu toque frio como de um cadáver, se esgueiram até o meu rosto, as suas garras perfurando a minha pele, que logo se aquece e se molha pelo sangue fresco. Quero gritar, pedir ajuda, chamar a minha vó, ou a minha mãe e pai. Mas, não há ninguém nessa floresta sem ser a minha teimosia e o monstro, e não há ninguém que consiga matar isso.
Descendo pela minha pele como um peixe, e se enrolando em meu pescoço como uma cobra. Ela o agarra, o apertando. O ar restante dos meus pulmões começa a não ser o suficiente, mas, meu corpo não luta contra ela, não parece que deseja que ela pare. Que ela me solte. O medo que eu sentia míseros segundos atrás se desvai. Minha visão escuressendo aos poucos, e quanto mais escuro fica, mais o seu rosto se transforma ao normal, estou a olhando como a minha única fonte de luz no momento, mesmo sendo o motivo da falta dela. Ela sorri, da mesma maneira que eu achava tão bela, agora estava sendo usada como minha última visão de morte.
Seu rosto se aproximando ao meu, não sinto ar saindo de seu nariz ou boca, estamos iguais. Única vez que estaremos iguais. Seus labios beirando aos meus, luto para manter os olhos abertos, mas, eles se fecham. Sinto o frio da morte me tocar, um selinho simples, que amortece os meus lábios como um veneno de serpente.
Meu destino será morrer nas mãos frias de um ser mais forte, que mentes comuns nunca conseguiram entender. E a culpa disso tudo deverá cair somente em meus desejos. Eu provoquei isso, eu a procurei, enquanto me entrentia em seu mistério e luz. Como uma mariposa atrás do que parecia ser a Lua.
