Última Atualização: 23/01/2026
Manuel Rivera, era dono da Rivera Records uma das maiores gravadoras da Califórnia, o sonho de qualquer banda ou artista. Conhecido por ter um “olhar clínico", o negócio que Manuel entrava dava sempre certo. Sendo assim, e seu seleto grupo de dois amigos sempre tiveram o sonho de serem “notados” pelo homem.
Então quando foi possível os três se juntaram, gravaram por horas e enviaram uma única demo para Rivera Record, e depois de dois meses, foi chamado para uma reunião. Ele tentou de todas as formas não criar nenhum tipo de expectativa, mas só de receber um e-mail deles, já fez com que seu amigo Adris saísse três dias seguidos para “comemorar.”
E agora ele estava ali vivendo o que sonhou…não exatamente. A reunião no primeiro momento foi amigável, Manuel era extremamente afetuoso e teceu elogios sobre cada integrante, fazendo questão de saber os nomes. Também admirou a coragem de de trabalhar com sua banda e em mais alguns empregos para ajudar sua família com os estudos do irmão.
Quando a conversa tomou um rumo em relação ao fechamento de contrato, o jovem jurou que poderia infartar naquele momento, mas de certa forma se conteve apenas balançando a cabeça afirmativamente. Rivera, ofereceu valores justos, explicou sobre as possíveis formas de contrato e deu de exemplo artistas que trabalhavam com ele há anos. Tudo caminhava de forma promissora até que…
— , mas preciso ser sincero com você. Sua banda é boa, você canta bem, mas ainda falta algo em vocês. Algo que os una, uma voz entende? — Se levantou e começou a caminhar na sala de um lado para o outro. — Pensei que poderíamos adicionar uma voz feminina, mas como você disse Kaira, a baterista, odeia cantar, certo? — viu o jovem concordar com a cabeça. — Então vamos ter que adicionar alguém de fora.
— Assim que assinarmos os contratos, me disponibilizo para fazer os testes para a vaga de uma nova integrante. — Esboçou um pequeno sorriso. — Isso não vai ser necessário, . Já temos uma integrante. — Pegou um porta-retrato que estava em cima de sua mesa e entregou para o jovem, que ficou confuso ao ver a foto de uma garotinha. — Essa é minha filha, mi pequena, se chama . Ela é uma ótima cantora, mas ultimamente se esqueceu disso e quando eu ouvi vocês, soube que era a coisa certa a se fazer.
— Você vai colocar a sua filha como integrante da minha banda? — se sentiu ofendido de certa forma pelo homem apenas informar a ele essa decisão.
— , sei que parece radical isso, mas trabalho nessa indústria há anos. Com a colocação de um novo timbre, podemos mesclar e criar algo novo…e isso é perfeito para uma banda jovem.
— Sim, eu concordo. Só não concordo de não haver nenhuma seleção.
— Não é necessário, dou minha palavra que é incrível cantando. Ela nasceu para isso.
— Desculpa, sr. Rivera, não quero de forma alguma te desrespeitar, mas é um pai falando da filha. E outra, sempre tomo decisões em conjunto com Adris e Kaira, caso eles aceitem tudo bem, do contrário, teremos que abrir uma seletiva.
— Caso eles não aceitem, não terá seletiva, sr. . Porque simplesmente não haverá contrato algum. — o homem se sentou na cadeira, parecendo irritado. — Entenda uma coisa, esse mundo que vocês estão entrando é uma grande via de mão dupla, de um devendo favor para o outro, e não me sinto confortável de ser eu a ensinar isso a você. Mas, essa é minha última cartada com , preciso que ela entenda e tenha noção do seu talento, se eu falhar com o talento da minha filha, falhei em tudo…
Manuel confessou como uma última forma de ceder. sempre havia sido um doce de menina, carinhosa, atenciosa e cantora. A casa se enchia quando a voz dela preenchia cada cômodo. Ele sempre tentou dar o máximo de carinho para filha, em uma tentativa de abafar a inexistência de sua mãe durante toda sua vida.
E isso funcionou por um tempo, não para sempre como ele esperava. Então quando descobriu a verdade sobre sua mãe, foi como se a voz dela fosse roubada, e depois disso ela se recusou a cantar e interagir como antes com seu pai. Eles agora, mal se falavam, apenas quando o necessário, quando ela ia a produtora fazer alguma aula, apenas isso….
Porém, na noite em que recebeu o e-mail da banda da garagem, ele pensou no mesmo momento que primeiro: tinha que mudar o nome da banda, segundo eles tinham talento, mas faltava amor e isso ele sabia que tinha de sobra pela música. Foi aí que surgiu a ideia, talvez integrando uma banda ela ressignifica-se as descobertas sobre sua mãe.
— Então eu peço para você, faça esse favor para mim, sei que é importante o contrato para todos vocês e para mim também é.
E assim se instaurou um dilema na cabeça de aceitar o contrato e de brinde ganhar uma vocalista que ele julgou ser mimada, já que pelo jeito Manuel fazia tudo para ela. Ou negar, negar e manter a moral e os seus valores acima de tudo. Até mesmo dos estudos do seu irmão mais velho e a confiança de seus dois colegas.
estendeu sua mão em direção ao homem. — Tudo bem, eu aceito esse acordo.
Manuel apertou forte a mão do jovem, abriu um largo sorriso, contornou a mesa e o abraçou pegando desprevenido.
— Obrigado, e saiba que os contratos são renovados de ano em ano, então se algo não der certo em relação a ela, pode ter certeza que eu serei o primeiro a desfazer isso.
O trajeto para casa foi barulhento, a mente de não parava de pensar nas possíveis merdas que poderiam acontecer, agora que a banda de garagem tinha um contrato e uma nova integrante.
Ele queria comemorar, queria contar a todos o que tinha conseguido, mas simplesmente se tornava impossível, ele não via a hora de chegar em casa e contar para os amigos o que tinha acontecido, e assim, vendo a reação deles saberia como agir.
Logo que chegou em casa, a figura de sua mãe tomou a sua frente, ela parecia ansiosa, suas mãos estavam trêmulas e ela falava com ele de forma rápida, com certa pressa de passar a informação. Quem dera essa ansiedade fosse em relação a ele e sua banda.
— , que bom que chegou! Eu precisava muito falar com você. — Encarou o jovem por alguns instantes. — Liam, Liam ligou. E sei que esse mês está puxado para você, e também sei que você já mandou a mesada deste mês, mas ele falou que tem livros, apostilas, impressões… — não permitiu que a mãe terminasse.
— Tá, mãe, eu mando mais dinheiro para ele, é isso? — Viu a mulher à sua frente apenas concordar com a cabeça. — Onde está o Adris e a Kaira?
— Estão na garagem. — passou por ela indo em direção a garagem, então ela o chamou. — , obrigada! — deu um sorriso de ternura para o filho.
Antes de abrir a porta que dava entrada para o cômodo que os amigos estavam, ele contemplou por um momento o silêncio, não havia barulho nem do lado de fora e nem do de dentro. Assim, ele entendeu que a tensão sobre seus ombros era a mesma dos amigos, que pela primeira vez estavam juntos em silêncio. Quando ele adentrou a garagem, os olhares recaíram sobre ele. Adris se levantou e Kaira continuou sentada, apenas o encarando.
— E aí, cara? — não respondeu. — Mano, fala, porra. — se sentou ao lado da amiga.
— Galera, é o seguinte, a gente fechou o contra… — O jovem não conseguiu nem terminar, pois os amigos iniciaram uma comemoração o abraçando e gritando. — Pessoal, galera, eiii…— Empurrou os amigos de forma brusca. — O contrato foi fechado, mas foi com uma condição.
— Qual condição? — Kaira se pronunciou pela primeira vez, assumindo uma postura rígida.
— O Manuel…ele quer que a filha dele seja vocalista da banda, junto comigo. — ao final da frase ele soltou o ar de seus pulmões.
Agora o jovem se sentia menos tenso por compartilhar isso com os amigos.
— Foda-se, a gente tem um contrato, mano. Vamos comemorar. — Adris deu de ombros.
— Nem pensar, , nossa banda é uma coisa íntima, a gente tá junto há tempos para chegar a filha dele e ser a estrelinha. — disse a última palavra com certo desdém.
— Kaira, para de ser chata, o que que tem ter mais uma mulher na banda? Você não canta mesmo, e pelo menos eu posso fazer casal com alguém.
— Deu um pequeno soco no ombro de Adris.
— Não estou sendo chata, estou sendo racional. E se essa garota chega e começa a mandar, mudar nosso repertório…e até fala que você tem que tocar menos, Adris?
— Aí também não né, Kaira, tudo vai ser conversado. E outra, eu prefiro ela e o contrato, do que a gente sem contrato.
O silêncio se instaurou por um instante, os três se entreolharam sem nada dizer. Então tomou a iniciativa de falar.
— Eu assinei o contrato! — após dizer isso encontrou os olhos de Kaira, queria saber o que amiga achava de sua decisão.
— Aehh caralho — Adris o abraçou enquanto pulava. Depois o soltou e foi até um canto da garagem.
— E você, Kaira?
— Tá, tá bom. Melhor ter um contrato do que nada, né. — esboçou um sorriso.
Um barulho de algo se abrindo ecoou e logo a rolha disparada no ar bateu na perna de . Quando ele procurou em volta, viu o amigo bebendo no gargalo de um champanhe e se aproximando deles.
— Onde você conseguiu isso?
— Eu meio que já sabia que a gente ia conseguir, então antes de vir para cá, eu comprei.
— Isso é super caro. — disse a jovem, quando um amigo passou a garrafa para ela.
— Relaxa, gatinha, eu dividi no meu cartão que daqui alguns meses será premium platina black.
e Kaira se entreolharam e iniciaram uma gargalhada da felicidade do amigo. A tensão estourou junto com as bolhas de champanhe e os três tiveram certeza de que nada seria como antes
Mal conhecia essa mulher e já tinha uma certa repulsa pela vida ser tão fácil e compassiva com ela. Ela entraria em uma banda, aproveitaria de outros talentos e sucessos, sem ter feito esforço nenhum, apenas porque ela era filha de alguém.
E foi nesse momento que perdeu um pouco da sua admiração pelo trabalho de Manuel Rivera, e se questionou se todos nesse meio agiam dessa forma, todos passavam seus desejos acima das pessoas?
Os pensamentos dele foram roubados pelas gargalhadas de Adris que acabara de descobrir que na limusine que eles estavam tinha champanhe a vontade, tudo aquilo parecia um sonho se tornando realidade. Eles estavam passando pelas ruas da Califórnia em uma bela limusine, rumo ao estúdio Rivera prestes a se tornarem uma banda de prestígio.
— . — Chamou a atenção do amigo. — A garota, a tal , ela já está lá?— sabia que diferente de Adris, Kaira também não estava nada à vontade com essa história assim como ele.
Pegou seu celular e verificou mais uma vez a mensagem de Manuel.
— Pelo que o Manuel disse sim, parece que ela tem aulas de piano agora de manhã…ei dá uma maneirada ai, Adris. — disse pegando a garrafa da mão do amigo. — Preciso do meu tecladista sóbrio, ok?
— Tá, mano, relaxa. Foi apenas um gole para descontrair.
se recostou no banco tentando relaxar nos minutos restantes antes de chegar ao estúdio, então um breve filme passou pela sua mente. Começou a rememorar quando a banda de garagem surgiu…
Eles estavam no ensino médio, tinham entre 16 e 18 anos, não eram nada populares e isso acarretava a não ser chamados para festas. Mesmo não sendo convidado para nenhuma festa, Adris gostava de ser “informado” e sempre sabia de todas que estavam rolando pelo colégio.
E foi em uma dessas que ele ficou sabendo que teria uma festa que seria cancelada porque a banda contratada tinha pegado virose, e em uma conversa boba dos três eles tiveram a ideia de fingir ser a banda só para entrar e curtir um pouquinho que fosse.
Isso não seria difícil já que Adris fazia aula de piano e teclado desde pequeno, tinha um talento excepcional para guitarra, violão e baixo e Kaira tinha iniciado aulas de bateria. Eles poderiam enrolar por meia hora e aproveitar um pouco de interação humana além da deles, é claro!
Quando se reuniram para ensaiar qualquer coisa, e como se sempre tivessem feito aquilo, a harmonia fluiu dos três e quem observava falaria que era palpável. Então aos poucos o que era apenas meia hora em uma festa se transformou em shows todo final de semana. Os pais de Adris ficaram tão felizes que agora o filho tinha tomado um “rumo” para algo que presentearam os três com instrumentos impecáveis e isso só fez com que eles quisessem tocar cada vez mais.
com o tempo foi dominando a sua vergonha e se prestou a cantar e descobriu, o poder de cantar e compor, mas, o compor ainda era um segredo para todos. E foi assim que eles se denominaram banda de garagem…e pensar que querer participar de uma festa poderia trazer eles até esse momento atual. Era loucura.
Havia uma certa tensão no ar, resolveu não encarar o sr. Rivera, de certa forma, estava ainda chateado com toda a situação. Porém não era sua intenção criar um clima logo de cara com o seu chefe. Então a melhor forma que ele encontrou para disfarçar isso foi fingindo estar afinando sua guitarra, enquanto os amigos também verificavam seus instrumentos.
O estúdio era lindo, amplo e todo decorado em madeira, na sala que eles estavam tinham um isolamento acústico de primeira, um vidro os separaram do painel de controle e de Manuel, que apenas observava toda a movimentação, havia mais pessoas com ele lá.
— Mano, o cara está te chamando lá. — Adris avisou para o amigo, apontando para o homem mais velho.
— Ah. valeu. — caminhou para mais perto da divisão de vidro.
Manuel não disse nada, apenas acenou com a cabeça e com isso se virou e lançou um olhar primeiro para Adris, que apenas endireitou sua postura e depois para Kaira que saiu do cômodo de forma decidida.
Kaira caminhou em passos largos rumo a sala indicada pelo Sr. Rivera mais cedo, minutos antes de abrir a porta ela repassou as instruções de :
“Você tem que parecer convincente, ela vai estar lá no intervalo da aula, você tem que parecer desesperada. Na busca por algo que APENAS ela pode fazer. Você vai falar que a banda que você faz parte veio fazer um teste, mas que o vocalista está muito nervoso e com isso você acha que vocês vão perder o contrato. Então você olha para ela e pergunta se ela sabe cantar, ela vai dizer que sim, e se ela negar, insista! Com isso você vai ter a ideia de ajudar o vocalista a cantar e levá-la para o estúdio. O resto é comigo”
— Okay, Kaira, você consegue. — Abriu a porta em seguida.
Quando Kaira entrou na sala a jovem estava de costas, parecia concentrada, mas logo se virou para encarar a loira que agora começava a encenar.
Kaira colocou a mão sobre o peito e iniciou um choro falso.
— Me desculpe, eu pensei que não teria ninguém aqui.
— Não, que isso, tudo bem! Se quiser eu posso te deixar sozinha. — Se aproximou mais da loira, que começou a respirar de forma alta. — Tá tudo bem com você…?
— Me chamo Kaira. Olha, não queria te atrapalhar, nem nada, mas não está nada bem comigo. — Então a morena indicou para que ela se sentasse na poltrona atrás delas. — Acho que vou perder a única oportunidade da minha vida. — Colocou as mãos sobre o rosto e iniciou um pequeno choro. — Está tudo perdido.
se abaixou e iniciou um carinho nas costas da loira.
— Tá tudo bem, se acalme, isso vai passar.
— Não, não vai, não tem como. Essa é a única chance da banda que eu faço parte se apresentar para um cara importante como o Rivera, e simplesmente nosso vocalista está em surto e disse que não consegue cantar. — Então Kaira se jogou nos braços da jovem a sua frente.
— Qualquer coisa vocês podem fazer essa audição mais tarde, não sei, ou outro dia?
— Não, Manuel foi irredutível, a gente tem que se apresentar hoje. Eu já estava me deslumbrando com essa chance, eu iria pegar o dinheiro e pagar a cirurgia da minha…. Minha — olhou para loira dando incentivo para continuar. — da minha cachorrinha de 17 anos.
Kaira odiava cachorros.
— Olha eu posso conversar com Ma…
— Não.— Kaira limpou os olhos e se levantou sendo acompanhada pela morena. — Tive uma ideia, se eu conseguir alguém que cante junto com ele, talvez ele consiga. — Nesse momento encarou de forma penetrante. Limpou o nariz e se pronunciou. — Você sabe cantar?
— Eu? — ela hesitou.
— Eu gostaria de saber para poder ajudá-los. — Kaira limpou novamente o nariz.
— Eu canto de vez em quando, mas não é nada assim muito bomm… — Foi interrompida pela loira juntando suas mãos com as delas em súplica.
— Você pode nos ajudar… — Sorriu de forma larga. — Sim, sim, você pode nos ajudar. Canta com a gente.
— Ah não, que isso, é mais fácil eu conversar com o Ma…— Foi interrompida mais uma vez.
— Por favor, eu estou pedindo, nem que eu tenha que me ajoelhar.
Kaira nunca se ajoelharia para ninguém, nem por um contrato bilionário.
— Eu quero muito ajudar minha banda, e acima de tudo minha cachorrinha, por favor…como você se chama?
— . — Dessa vez a jovem pareceu mais ríspida que antes.
— Kaira pegou seu celular e viu a mensagem de na tela “CADÊ VOCÊS” — Deixa para lá, meu parceiro acabou de avisar que Manuel desistiu de nos ouvir.
Essa era a cartada final, se a morena não topasse, não teria o que ser feito. Ela se encolheu e iniciou uma caminhada lenta até a porta, pedindo para todos os anjos estarem a seu favor, e convencer essa morena cu doce a cantar.
— Kaira…eu, eu te ajudo vai.
não se sentia nada preparada para cantar, fazia um tempo que ela não fazia isso. Não parecia fazer mais sentido, depois de tudo que ela descobriu continuar a cantar. E agora do nada surgia essa moça precisando de ajuda…ela pensou em deixar passar, mas sabia que se seu pai tomasse a decisão de não ouvi-los mais, seria para sempre.
Se havia uma coisa que ela havia herdado de seu pai, era suas decisões indiscutíveis, quando um Rivera tomava uma decisão ela sempre era de forma definitiva, e isso exigia que eles pensassem muito antes de tomá-la
Olhou para um canto onde um jovem de cabelos cumpridos loiros esboçou um sorriso para ela e ela retribuiu, as tatuagens dele a atraíram de imediato, esperava que ele pudesse admirar uma boa visão dela, assim como ela admirava a dele e seu teclado.
Correu seu olhar para Kaira que agora estava sentada em sua bateria, e então o olhar dela foi invadido pelo olhar de um moreno alto, com os cabelos sedosos que a encarava de forma fria, ele parecia um pouco pálido demais, e suas pupilas pareciam um vortex sugando todo o branco em volta.
Então esse era o tal ansioso que ela iria ajudar?
Não tinha mais como voltar atrás, né? tentou contato visual com o pai mais algumas vezes, mas não obteve sucesso. O moreno, apenas a encarou e voltou seu olhar para seu instrumento. Ela não sabia para onde ir ou o que fazer.
forçou um sorriso e caminhou para mais próximo do jovem moreno.
— E aí, tudo bem?
— Sim, você pode se posicionar aí, eles estão buscando mais um pedestal para você. — Não a encarou ao falar.
— Tá bom, obrigada. Ahh…— Tocou de forma leve o ombro do rapaz. — Vai dar tudo certo.
Então ela viu pela primeira vez levantar o olhar para ela, porém ele desviou para a mão da morena com certo tipo de “nojo” e isso fez ela rapidamente tirar sua mão. O que havia de errado com esse cara?
Um pedestal foi colocado na frente dela, o microfone foi ajustado. Então o pai dela a encarou de forma fixa, depois foi até um rapaz e cochichou algo em seu ouvido e assim ele começou a mexer na mesa de controle.
Além do microfone, entregaram a ela uma folha com a letra da música escolhida, ela estava um pouco surpresa.
O prato da bateria começou a ecoar no estúdio, esboçou um pequeno sorriso, porque sabia que nesse momento Kaira deveria estar com os olhos fechados sentindo os pratos vibrarem, enquanto Adris a observava.
Chegou a sua vez, entrou não apenas com sua guitarra de forma suave, mas com sua voz quase preguiçosa.
— Something bad is 'bout to happen to me…I don't know it, but I feel it comin. Might be so sad, might leave my nose running. — Conferiu pelo canto do olho a expressão da morena a seu lado.
Ela estava como chegou, encarando o papel a sua frente e certa felicidade surgiu nele. Por mais que Manuel tivesse um plano, ele também tinha, queria provar para quem fosse que aquela banda, aquele som, a música era uma coisa dele, Adris e Kaira. E de quem fizesse um teste “verdadeiro”
Então desde o início optou por escolher uma música do seu gosto pessoal, que de certa forma, não destacasse nada para jovem ao seu lado, ela não teria como trazer sua voz, para uma música tão calma, ela iria se atrapalhar e não cantar nada, assim como ele previa.
E ali, ele iria provar para Manuel, que ser filha de alguém não te garante talento.
respirou, estava feliz, porque amava essa música.
— Don't you give me up, please don't give up. — Percebeu que a melhor forma de se encaixar aquela música e aqueles músicos, era entrar de forma sutil, fazendo uma segunda voz e depois cantando. — On me, I belong with you, and only you, baby. — Pegou o microfone na mão.
Ela tinha que admitir a voz do jovem ao seu lado, era doce, mas ao mesmo tempo firme e com certa agressividade. Quando ele começou a cantar as primeiras estrofes, foi como se ele estivesse falando cada palavra contra a sua nuca, todo seu corpo se arrepiou com isso.
, começava a se lembrar o porquê amava cantar, pois quando a música entrava em seu corpo, tudo aquilo que a prendia ao chão e a realidade saia. Ela começou a andar pelo estúdio cantando e interagindo com o tecladista.
Quanto ela voltou para “frente” fez um sinal para que ela e o moreno dividissem o refrão, com a voz profunda e melancólica dela se misturando com o doce e firme timbre dele.
— Only you, my girl, only you, babe.— tocava sua guitarra, de uma forma agressiva por estar irritado com a moça ao seu lado. — Only you, darling, only you, babe. — Continuou olhando de forma fixa para os olhos de Manuel, gostaria de demonstrar seu desprezo pelos dois, evitando olhar para ela.
puxou um pouco do rosto do moreno, fazendo ele cantar um pouco torto, aproximou sua boca do microfone dele e começou a cantar de forma suave os trechos finais.
— Only you, darling, only you.
estava furioso e não conseguiu esconder. No último acorde do seu instrumento ele virou o rosto e se afastou da morena. Estava incrédulo da forma como tinha se saído bem, como se aquilo não tivesse sido nada.
E o pior, ela cantava bem.
Sua visão estava um pouco embaçada pela raiva, mas ele pode escutar as palmas vindo da cabine de vidro, Adris comemorando. Com isso, ele se virou para encarar Kaira e ela deu a ele um de seus olhares ameaçadores, que ela costumava dar para Adris e balbuciou um “Relaxa, porra.”
, tinha certeza que se aquela cena tivesse sido com o loiro tecladista, teria sido finalizada com um bom beijo, isso era certo. Agora esse cara ao seu lado, era um metido, estúpido e nada artista.
Um cantor, precisava interpretar para passar a verdade da música, saber cantar e tocar, muitos poderiam fazer. Mas, entregar uma emoção, a isso sim era arte…e nisso ele deixou a desejar.
A atenção de todos foi roubada, quando no autofalante dentro da cabine a voz do pai dele se fez ouvir:
— Todos estão de parabéns. . — ela viu o moreno acenar com a cabeça.
Então esse era o nome do metido.
— Kaira. — a loira deu um singelo sorriso. — Adris e com surpresa, . — Ela rolou os olhos ao encarar o pai. — Todos presentes aqui concordaram que vocês estão prontos para um contrato com a gravadora, venham para cá, para o quatros assinarem.
, se assustou, quatro?
— Manuel, acho que teve alguma confusão, eu não os conheço. Só cantei para auxiliar, não é…— se virou para Kaira — Não é?
— , mesmo assim, o que eu e meus investidores gostamos foi vocês quatros. — Colocou a mão sobre o vidro. — O contrato vai ser fechado com quatro.
— Mas, eu não faço parte deles. — Apontou para os músicos. — Eu fiz um favor. — Se aproximou do vidro, porque estava ficando irritada com aquela situação.
— É, Manuel, ela não faz parte da nossa formação. — se aproximou dela. — Se ela não quer o contrato, não tem problema.
— Acho que você não entendeu o sr. Peters, o contrato que estamos propondo é para as quatro pessoas que se apresentaram para nós, menos que isso, não queremos. Essa é minha palavra final. — disse isso e retirou os headphones.
, estava com um ódio eminente crescendo cada vez mais por seu pai, ela fechou os olhos para evitar chorar com tanto estresse. Ele estava a colocando em uma sinuca de bico, quando se virou para trás pode encarar sua nova conhecida e se lembrou do desespero dela.
Pensou que ela poderia agora, em vez de ajudar, prejudicar eles. Pensou na pequena cachorra doente, e tudo começou a girar em sua cabeça. Seu pai estava prestes a deixar a cabine.
— MANUEL— ele e mais alguns homens que o acompanhavam pararam de súbito. — E-eu assino o contrato com eles. — Olhou para tentando procurar alguma aprovação, mas ele apenas caminhou e retirou sua guitarra.
Com um largo sorriso, Manuel disse no microfone de mesa.
— Bem-vindos a Rivera Record.
e trocaram um breve olhar, sentia o sangue ferver e sentia o mesmo, isso causado pela mesma pessoa Manuel Rivera!
Havia se passado uma semana desde a audição da banda, depois disso não havia encontrado mais nenhum dos integrantes, ela sentia uma sensação estranha. Era como se ela tivesse ganhado um presente pelo qual não havia pedido, mas, mesmo assim era um presente que ela queria há muito tempo.
Desde menina ela tinha esse desejo de fazer parte de algo, e quando ela descobriu o canto e o poder dele conectar pessoas, tinha certeza que seria por meio da música que ela atingiria esse “algo”. Então já adolescente ela participou de inúmeros musicais e de certa forma, se sentia completa…até que acabou.
E agora essa loucura, fazer parte de uma banda? Isso nunca tinha passado pela sua mente, muito menos uma banda já formada que ela desconhecia as pessoas. Não, isso não podia ser real, quer dizer podia, né? Porque estava acontecendo com ela, mas a forma como tudo aconteceu parecia surreal.
— Entendeu, . — Manuel aumentou seu tom de voz, para chamar a atenção da filha, que parecia absorta desde o começo da reunião. Viu ela acenar com a cabeça confirmando, mas a conhecia o suficiente para saber que ela não fazia ideia de nada. — Bom, agora vamos conversar sobre a imagem que vocês querem passar para público, vocês são jovens descolados, diferentes entre si. E isso já é um ponto, porque teremos um público diverso, iremos atrair homens — apontou para os meninos — e mulheres — olhou para as meninas. — Mas, uma coisa é certa: o nome da banda vai mudar!
— Que isso, Manu, é foda o nome. — Adris disse em um tom descontraído.
— Vocês fizeram uns covers e postaram na internet, certo? — Viu os três concordarem com a cabeça. — Quando digitei o nome de vocês no Youtube para procurar material, eu demorei 8 minutos para encontrar os covers. Sabe o que isso significa, Adris? — O loiro engoliu seco porque percebeu o tom rude de Manuel — Que o nome não é foda, porque foda significa genial, e a última coisa que esse nome é, é genial, milhares de outras bandas já usam ele. Bandas essas, que estão aparecendo antes de vocês nas pesquisas. Então vocês precisam surgir com um novo nome.
— Talvez não seja uma má ideia, a gente nunca pensou muito mesmo sobre o nome. — deu de ombros, porque considerava esse um dos seus últimos problemas.
— Tá, mas qual seria o novo?
— Conversei com alguns investidores, e chegamos à conclusão que First Art, FA, seria a melhor sigla e tudo mais seria perfeito.
— Primeira arte? Em inglês? Acho que não gostei muito. — Kaira torceu o nariz.
— A música — Todos voltaram a atenção para , que falava pela primeira vez naquela reunião. — A música é a primeira das onze artes. — A morena viu Adris e ficarem surpresos e Kaira revirar os olhos, e isso foi estranho.
— Exatamente, por isso escolhemos. A premissa da música ter conectado os três a ela — Apontou para filha — além, de dar a ideia de que vocês já são os primeiros. — disse de forma confiante. — Agora queremos lançar vocês já com um EP, a primeira aparição de vocês será já uma coletiva para divulgar o EP, que será composto por dois singles…
— Pera, Manuel, mas a gente tem no máximo duas músicas compostas e gravadas. E acho que conseguimos produzir um EP em três a cinco meses mais ou menos. — tentava raciocinar enquanto respondia Manuel.
— Fique tranquilo, meu jovem, já coloquei compositores para trabalhar nisso, e temos ao todo sete músicas, e uma faixa extra que será a música da audição de vocês, adicionada como um cover. Os fãs vão amar, e precisamos que vocês já comecem a ensaiar as músicas para a gravação na semana que vem. Dentro da pasta vocês já tem as letras e partituras das músicas…
— Mas essas músicas não são muito a nossa cara. — Kaira encarava as partituras com certo desdém. — Nossa, isso parece amador, simples demais.
— Kaira, sei que pode não agradar a você ou aos outros. Mas, eu preciso que vocês entendam, não é porque a banda está sendo lançada pela minha produtora, que o público vai abraçar a ideia e fã clubes irão surgir. Diferente disso, o pessoal será mais crítico. Então eu preciso primeiro conquistar eles, que eles queiram ouvir na esteira, na volta da faculdade, que toque nas lojas, preciso de um som chiclete, que vire trend. E aí quando todo mundo estiver ouvindo vocês por tabela…— Viu os quatro jovens o encarar com certa intensidade. — BUM vocês lançam um álbum autoral, aí escrevem, compõem, criam sons, façam o que quiserem. Mas, agora precisamos conquistar e mostrar que vocês são bons.
— Tá, tá nome mudado, ep pronto, conquistar público e o que falta mais?
— Bom, a próxima etapa é daqui vinte minutos. — Olhou o relógio em seu pulso. — Vocês vão fazer uma sessão de fotos que vai para imprensa, ep e posters. E claro, vai ajudar para que vocês interajam entre si e quebrem esse climão. Agora estão liberados!
Os quatros se entreolharam, se levantaram e saíram. A secretaria já esperava por eles ao lado de fora, explicou que primeiro eles iriam para o camarim, se maquiar, arrumar os cabelos, depois trocar de roupa e por fim se encaminhar para o estúdio de fotos. Antes de começar a andar, a mulher deu um último aviso:
— Ah, tudo bem se vocês dividirem o mesmo camarim, certo? — disse e iniciou sua caminhada.
se sentia um pouco ansioso com tudo, seu cabelo estava sendo escovado e o moreno evitava ficar encarando o espelho enorme em sua frente que refletia a imagem de ao seu lado esquerdo, Adris do direito e seguido dele Kaira. Seus amigos pareciam entretidos com celular, enquanto rodava de forma frenética o anel em seu dedo.
Sentiu uma mão sobre seu ombro esquerdo, e relutou um pouco para se virar para .
— Bom, a gente não conversou muito, mas eu queria… — começou, a voz baixa, quase cuidadosa demais para o clima entre eles.
virou-se lentamente, como se estivesse se preparando para uma crítica, um ataque, uma cobrança. Não esperava gentileza, não dela.
A maquiadora deu dois passos para trás, percebendo o início de uma conversa que não deveria testemunhar.
ajeitou um fio rebelde do próprio cabelo e continuou:
— …dizer obrigada. — Ela respirou fundo. — Por ontem. Pelo… pelo jeito que você segurou a música. Eu sei que você não queria que eu estivesse ali, mas… você segurou tudo. Você manteve a banda no eixo. E eu só… eu precisava reconhecer isso.
piscou, confuso. Aquilo não estava nos “roteiros” que ele criara na própria cabeça. Ele esperava arrogância, deboche, qualquer coisa que confirmasse o que pensava dela. Mas gratidão?
Não.
Ele engoliu em seco e desviou o olhar.
— Não fiz por você. Fiz pelo contrato. Pela banda. — respondeu, mais frio do que pretendia.
não recuou.
— Eu sei. — Ela sorriu de canto, um sorriso pequeno, sincero demais para caber naquela sala. — Mas, mesmo assim… obrigada.
respirou fundo, tentando impedir que algo nele amolecesse. Felizmente, Adris interrompeu a tensão ao se jogar no meio dos dois com o entusiasmo de sempre:
— Gente, vocês viram essa jaqueta que me deram? Eu tô literalmente parecendo um ícone do rock de 2005. Aquilo morreu, mas eu renasci! — Gritou, fazendo Kaira revirar os olhos.
— Amigo, você parece um motoboy com glitter. — Kaira respondeu, sem levantar o olhar do celular.
— EXATAMENTE! — Adris abriu os braços como se aquilo fosse uma vitória monumental.
riu de leve, também. Riram juntos, apesar de tentarem disfarçar. Foi rápido, quase escondido, mas foi a primeira vez. A maquiadora voltou, batendo palmas.
— Vamos, First Art. Precisamos de vocês prontos no estúdio em cinco minutos.
se levantou primeiro. Caminhou até o espelho maior, analisando a maquiagem, ajeitando a franja. Por um instante, ela pareceu outra pessoa — não a garota pressionada pelo pai, nem a menina que perdeu a voz, mas alguém que estava começando, mesmo sem saber como.
a observou pelo reflexo do espelho. O jeito delicado com que ela tocava o próprio rosto, a concentração, a postura. Uma parte dele — uma parte que ele odiava admitir — começou a entender por que Manuel acreditava tanto no potencial dela.
Ela realmente tinha algo. Algo que podia virar arte de verdade. Ela encontrou o olhar dele no reflexo, e por um segundo tudo pareceu calmo, suspenso. Mas só por um segundo.
— Vamos? — ela perguntou.
— Vamos. — respondeu.
Kaira passou por eles bufando.
— Só aviso uma coisa: se esse fotógrafo pedir pra eu sorrir, eu largo a baqueta no chão e vou embora. — anunciou.
— Eu pago pra ver. — Adris riu.
Eles saíram juntos do camarim, atravessando o corredor comprido que levava ao estúdio de fotos. A cada passo, o clima entre todos mudava um pouco. Não era leve, não era fácil, mas havia uma coisa nova ali.
Talvez fosse expectativa. Talvez fosse medo. Talvez fosse apenas o primeiro relance de algo prestes a se tornar muito maior. Quando as portas do estúdio se abriram e as luzes fortes iluminaram os quatro, sentiu um arrepio percorrer a pele.
Era real. Eles agora eram a banda que todo mundo ia comentar. E por mais que não quisesse admitir…Isso incluía ela.
.
A FIRST ART.
Eles. sentiu o peso disso no peito.
— Finalmente — disse a fotógrafa, uma mulher de cabelos grisalhos presos num coque elegante, enquanto ajeitava sua câmera. — Os recém-contratados. Vamos ver se vocês funcionam bem no papel de estrelas.
deu um sorriso educado. Kaira emburrou. Adris mandou um beijinho em direção a ela. permaneceu sério.
— Vamos começar com fotos individuais — anunciou a fotógrafa. — Depois duplas, e por fim o grupo.
foi puxada primeiro. Uma assistente ajeitou sua jaqueta preta, levantou um pouco sua franja, baixou o ombro dela com delicadeza para melhorar o ângulo.
Quando ficou diante do fundo cinza, algo mudou nela. Seu olhar, tão perdido antes, virou foco. A postura endureceu. Sua expressão ficou intensa, profissional. Como se ela tivesse guardado uma versão dela que só aparecia diante de uma câmera. observou sem admitir que ficou impressionado.
A fotógrafa clicava rápido.
— Isso! Mais séria. Gosto disso. Agora… vire mais o queixo. Aí. Perfeito, .
parecia finalmente no elemento dela. Controlada, elegante, misteriosa. E isso incomodou mais do que deveria.
— Próximo! — chamou a fotógrafa.
Kaira posou desconfortável, tentando não sorrir. Adris parecia numa campanha da Calvin Klein, exagerado e debochado. E então…
— — chamou a fotógrafa com firmeza. — Sua vez.
Ele respirou fundo e caminhou.
O microfone no pedestal estava ali apenas como adereço, mas bastou colocá-lo sob a mão para que seu corpo mudasse. Ele inclinou o tronco, segurou a guitarra imaginária no ar, mesmo sem tê-la, e encarou a lente como se cantasse para ela.
A fotógrafa demorou só três cliques antes de comentar:
— Agora eu entendi por que Manuel apostou em vocês.
voltou para o canto, mas sentiu um olhar queimando sua nuca. Virou-se. Era . Ela desviou na mesma hora, mexendo no próprio punho como desculpa forçada.
— Agora… duplas. — A fotógrafa bateu palmas.
Kaira e Adris foram primeiro. A química deles era caótica, engraçada e natural. Pareciam ter nascido em cena. Depois, a fotógrafa sorriu como quem estava aguardando a parte favorita:
— e .
Os dois congelaram.
— Sério? — perguntou, sem esconder o desconforto.
— A imprensa vai pedir fotos dos vocalistas juntos — respondeu a fotógrafa, impaciente. — Posições, por favor.
Eles caminharam até o fundo cinza. Ficaram um de frente para o outro, rígidos, tensos, como dois campos magnéticos tentando se repelir.
— Aproximem-se — pediu a fotógrafa.
Nada.
— Mais — insistiu.
deu um passo. deu outro. Ainda parecia longe demais.
— , mão no ombro dele. , olha para ela. Sem cara feia. Quero verdade.
respirou fundo. A mão dela pousou sobre o ombro de . Foi suave, quente, leve. Ele levantou o rosto devagar. Os olhos dos dois se encontraram. E o mundo, por um instante, parou.
Não o estúdio.
Não a equipe.
Não as luzes.
Só os dois.
Só aquele olhar. Só uma conexão involuntária que nenhum dos dois queria sentir. Mas sentiram. A fotógrafa suspirou, satisfeita.
— Isso. É exatamente isso.
Flash. recuou primeiro, rápido demais, como se estivesse se queimando.
— Próxima pose — disse a fotógrafa, sem perceber a tensão. — Quero vocês dividindo o mesmo microfone. Clássico.
Um assistente trouxe um pedestal duplo. e se posicionaram um ao lado do outro. Ombro com ombro. Rosto com rosto. O microfone no meio. olhou para frente, mas sentia o calor de chegando pelo canto do corpo.
Ele engoliu em seco.
— Mais perto — pediu a fotógrafa.
deu meio passo. também.
Agora estavam colados.
Flash.
Flash.
A fotógrafa desligou a câmera.
— Certo, temos material suficiente. Podem respirar agora — ela anunciou, rindo sozinha do próprio comentário. — A Crew vai montar o cenário para as fotos de grupo, vocês têm dez minutos.
mal esperou a mulher terminar de falar antes de se afastar de , como se ela tivesse morrido e ressuscitado coberta de espinhos. Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. Irritado demais para ser só por causa das fotos. Mas ele nunca admitiria.
cruzou os braços, observando a reação dele.
— Que foi agora? — ela soltou, exausta.
girou o corpo de volta para ela, o olhar duro.
— Da próxima vez, tenta manter a pose sem parecer que está prestes a rir. Você tirou minha concentração.
soltou uma risada incrédula.
— Desculpa? Eu estava trabalhando. Profissionalmente. Não sou eu quem quase tropeça na própria respiração quando a câmera liga.
deu um passo à frente.
— Eu? Tropeço? — ele bufou. — Você não entende a pressão de verdade. Você não entende nada disso. Trabalhar em banda não é só “ficar bonita e pronta”. É intensidade. É entrega. É não vacilar quando alguém depende de você.
ergueu o queixo, lentamente.
— Você não sabe nada sobre mim, .
— Sei o suficiente. — Ele passou por ela, roçando o ombro com firmeza, proposital. — Sei que você está aqui porque seu pai quer. Não porque você aguenta.
Aquilo acertou como um tapa. Mas ela não recuou.
— É mesmo? — Ela deu dois passos e ficou exatamente ao lado dele, encarando-o como se finalmente tivesse encontrado o próprio eixo. — Então vamos ver quanto você aguenta ter alguém dividindo o centro do palco com você.
A voz saiu firme, gelada, segura. piscou devagar, surpreso com a ousadia.
— Você fala muito.
— Eu faço mais do que isso. — passou por ele com a postura ereta, sem desviar o olhar. — E você vai ver.
ficou parado alguns segundos, engolindo a irritação e talvez algo mais, algo que ele se recusaria a nomear.
Kaira e Adris observavam de longe.
— Eles vão se matar — murmurou Kaira, limpando um brilho do olho com o polegar.
— Ou se beijar — Adris respondeu, tomando um gole de café. — Sinceramente? Não sei qual dos dois é pior.
Kaira bufou.
— Pro ? Beijar, com certeza.
— Pra ? — Adris arqueou a sobrancelha. — Seria homicídio.
Os dois riram, mas o clima no estúdio permanecia carregado, como se houvesse eletricidade presa no ar, esperando o momento certo para explodir.
Quando a equipe chamou:
— First Art no cenário!
e caminharam para o fundo iluminado. Os dois passavam lado a lado sem se tocar, mas com uma distância que queimava. E assim, com o orgulho de ambos inflando o ar ao redor, o primeiro ensaio oficial da banda tinha terminado.
A guerra tinha começado. Só eles ainda não sabiam até onde isso ia levar.
O clima no camarim ainda estava carregado quando a sessão de fotos terminou. e mal se olharam, cada um ocupado em fingir que não tinha sido afetado por nada do que aconteceu lá dentro. Kaira recolhia suas baquetas sem paciência. Adris observava tudo com a alegria de quem não tinha ideia da gravidade da situação.
A assistente apareceu na porta.
— Fotos feitas. A partir de agora, vocês entram oficialmente no calendário da banda. Treinos, mídia, composições, ensaios… tudo. Preparem-se, FIRST ART. A vida de vocês muda hoje.
Os quatro se entreolharam pela primeira vez com algo parecido com realidade. respirou fundo. roeu o canto da unha, nervoso. Kaira assentiu sozinha, como se já esperasse por isso. E Adris sorriu, como quem topava qualquer coisa.
— De novo, DO COMEÇO! — gritou o produtor, com a mão na cintura.
passou a mão pelo rosto, exausto. bebeu um gole d’água, tentando não desabar no sofá. Kaira girava as baquetas como um ventilador humano prestes a explodir. Adris conversava com uma câmera perdida no canto, achando que era uma entrevista.
A rotina tinha mudado drasticamente. Ensaios todos os dias. Treinos vocais. Reuniões com marketing. Aulas de mídia. Ajustes de figurino.
A convivência forçada transformava tudo em um campo minado. e discutiam por detalhes idiotas, o tom da música, a ordem de quem cantava, a intensidade da luz, o volume do retorno.
Mas, estranhamente, também funcionavam bem juntos quando o momento exigia. “Talvez química fosse isso”, pensava às vezes. “Talvez seja só irritação”, retrucava mentalmente.
No final da noite, Manuel entrou na sala.
— FIRST ART… — chamou, atraindo a atenção dos quatro. — Amanhã é o dia. Primeira aparição oficial da banda. Entrevista, fotos atualizadas, teaser de lançamento. Tudo vai ficar ao redor de vocês. E quero que estejam alinhados, unidos e — olhou direto para e — comportados.
cruzou os braços.
— A gente tá pronto.
levantou o queixo.
— Muito mais do que você pensa.
Manuel sorriu.
— Ótimo. Porque amanhã vocês deixam de ser só adolescentes brigando numa sala de ensaio… e viram a banda que o país inteiro vai comentar.
Os quatro respiraram fundo ao mesmo tempo. Não era mais brincadeira. Não era mais só ensaio. Era real. Era FIRST ART, de verdade. E no meio de tudo isso, e tentavam lidar com uma verdade incômoda:
Para funcionar em público, eles precisariam aprender a funcionar um com o outro. E ninguém ali achava isso fácil.
A porta deslizou. desceu primeiro, postura ereta, mãos nos bolsos, como se nada o afetasse. Kaira veio logo atrás, séria, quase militar na forma de andar. ajeitou a jaqueta, tentando disfarçar o tremor leve nos dedos. Adris saiu sorrindo para ninguém em específico, como se já tivesse fãs gritando o nome dele.
Manuel esperava perto da entrada, o celular na mão, expressão orgulhosa e ansiosa.
— Bom — disse ele — é aqui que tudo começa. Sejam inteligentes. Sejam vocês. E, por favor… — olhou para e com aquela intensidade de pai que prevê incêndio — …não briguem no ar.
virou os olhos. forçou um sorriso.
A assistente apareceu, elétrica como sempre.
— Acompanhem-me! Precisamos de vocês no camarim em cinco minutos.
sentou-se na frente do espelho e ficou quieto enquanto o maquiador retocava sua pele. Ele parecia distante, concentrado demais, como se estivesse sozinho ali. Kaira se sentou ao lado dele. Os dois trocaram poucas palavras, mas havia entendimento no silêncio. De tempos em tempos, quando o produtor falava algo técnico, os dois se olhavam rapidamente e assentiam como se compartilhassem o mesmo cérebro musical.
notou. De novo. E de novo aquilo que mordeu um canto incômodo dentro dela. Eles funcionam juntos tão naturalmente…Ela desviou o olhar, fingindo ajustar o batom. Adris surgiu atrás dela, esticando a camisa que tinha ganhado da produção.
— Oi, amiga famosa — disse com um sorriso enorme.
riu, o nervosismo amolecendo.
— A gente ainda nem apareceu.
— Eu já estou pronto para os fãs. — Ele ajeitou o cabelo com a mão. — Se ninguém desmaiar, ficarei pessoalmente ofendido.
Kaira, sem levantar o olhar, murmurou:
— Eles vão desmaiar… mas é de vergonha por você.
Adris levou a mão ao peito, ofendido de brincadeira. achou graça, mas escondeu.
A assistente entrou:
— Estão lindos. Estão prontos. Estão microfonados. Vamos, o programa entra em dois minutos e vocês serão apresentados depois da abertura.
O coração de pulou.
— Dois minutos?!
disse um “tanto faz”, mas ajeitou a gola. Kaira respirou fundo como quem se prepara para entrar num ringue. Adris sorriu como quem vai para um parque de diversões. Eles seguiram pelo corredor iluminado. andava entre e Adris, sentindo-se um pouco deslocada, as luzes, os ruídos da plateia, os bastidores cheios de gente.
ia focado, os olhos semicerrados. Kaira caminhava logo atrás, contando o ritmo da música nova batendo com a unha na calça. Adris cumprimentava qualquer pessoa que o encarasse por mais de dois segundos.
E ? Tentava respirar. As câmeras eram maiores do que ela imaginava. As luzes, mais quentes. A plateia, mais real. A voz da apresentadora ecoou pelo estúdio:
— Hoje, damos boas-vindas à promessa musical do ano… FIRST ART!
A música tema tocou. A porta se abriu. entrou primeiro, como um líder silencioso. Kaira logo atrás, firme, impenetrável. hesitou meio passo, mas Adris segurou sua mão discretamente e puxou, um gesto pequeno que salvou sua respiração. Eles se sentaram no sofá: à ponta, ao lado dele, Adris ao lado dela, Kaira no fim.
A apresentadora começou com aquele sorriso brilhante.
— Bem-vindos! O público está curioso. Quem é a FIRST ART, afinal?
respondeu imediatamente:
— Somos quatro pessoas muito diferentes tentando fazer algo verdadeiro.
Kaira assentiu, discreta. A apresentadora virou-se para .
— E para você? Como tem sido entrar nesse universo? É… intenso?
inclinou a cabeça, escolhendo cada palavra com cuidado:
— Intenso, sim. Mas também é libertador. Eu nunca tinha cantado com uma banda. Ainda estou aprendendo a me ajustar… e eles também estão aprendendo a lidar comigo.
olhou para ela de lado. Não com irritação, mas com surpresa.
A apresentadora percebeu.
— Ah, então existem ajustes?
Adris respondeu antes de todos:
— Inúmeros! Mas é normal. Somos pessoas diferentes. Eu, por exemplo, sempre acordo falando alto, a Kaira não fala por três horas, o ignora o planeta e a … — ele pausou — …respira fundo por todos nós.
A plateia riu. também. Até deixou escapar um meio sorriso.
A apresentadora então soltou a pergunta que mudava tudo:
— E vocês estão prontos para encarar o público? A responsabilidade, as críticas, o peso do nome FIRST ART?
falou com firmeza:
— Estamos prontos para crescer. O resto… a gente aprende fazendo.
Kaira completou:
— E tentando não matar uns aos outros no processo.
A plateia riu mais forte. E , pela primeira vez desde que tudo começou, sentiu algo quente no peito: pertencimento. Era pequeno, tímido, mas estava lá.
A entrevista terminou com aplausos, flashes e um teaser da música da banda tocando ao fundo. Nos bastidores, respirou fundo, finalmente.
— Foi… — ela começou.
— Intenso — completou.
Ela o encarou. Ele desviou. Kaira colocou as baquetas no bolso.
— Não foi ruim — ela admitiu. — Vocês falaram bem.
Adris levantou os braços.
— E EU ENTRETI O PLANETA!
— Adris… você falou que come cereal com glitter. — Kaira rebateu.
— ARTE!
passou por , mas parou por um segundo.
— Você foi melhor do que eu esperava.
A voz dele não era doce, era seca, sincera. piscou, pega desprevenida.
— Valeu… eu acho.
A equipe começou a se dispersar pelos corredores. já estava longe, andando ao lado de Kaira, discutindo algum detalhe técnico da música ao vivo que fariam em breve. os observou se afastando, tentando ignorar o aperto estranho no peito.
Foi quando sentiu alguém encostar o ombro no dela.
— Sabe… — Adris disse baixo, com aquele sorriso que parecia sempre um convite para confusão — …se você quisesse fugir agora, eu fugia contigo.
riu, cansada.
— Fugir pra onde, Adris?
— Sei lá. Qualquer lugar que não tenha câmera apontada pra nossa alma. Uma praia. Um bar. Meu apartamento…
Ela olhou para ele devagar. Adris levantou as mãos, rindo.
— Opa, calma! Foi só uma ideia. Uma ideia… muito boa, diga-se de passagem.
arqueou a sobrancelha.
— Você está dando em cima de mim?
— Eu? — Ele colocou a mão no peito. — Jamais! Sou um profissional sério, dedicado e íntegro.
Pausa.
— Mas se você quiser… posso começar agora.
Ela empurrou o ombro dele de leve, rindo.
— Você não presta.
— Eu presto pra muita coisa, meu bem. — Ele piscou. — Principalmente pra distrair você desses dois ali na frente.
arregalou os olhos.
— Quem falou que eles me incomodam?
— … — Adris riu — …você encarou os dois igual personagem de novela mexicana que descobre segredo da família.
Ela ficou sem resposta por um segundo. Adris colocou o braço ao redor dela com um gesto leve e brincalhão, guiando-a para o corredor.
— Relaxa. Eles só são parecidos. Você é… outra energia. E energia boa. Daquelas que entram no lugar igual raio de sol.
sorriu, um sorriso pequeno, sincero.
— Obrigada, Adris.
— Disponha. — Ele andou alguns passos à frente. — Agora, se você quiser que eu continue te elogiando assim… a gente pode marcar um encontro. Só dizendo.
Ela riu, vermelha.
— Boa tentativa. Próxima vez tenta menos.
— Eu nunca tento menos — ele disse, piscando teatralmente. — Eu só tento mais.
E saiu andando, satisfeito consigo mesmo. ficou ali parada por um instante, sentindo o peito aliviar. Adris tinha esse poder, trazia leveza onde tudo parecia pesado demais. E enquanto seguia pelo corredor, sentiu algo novo: Mesmo com a insegurança, mesmo com as dúvidas, mesmo com os dois lá na frente…
Ela não estava sozinha naquela banda. Não totalmente. E isso fazia toda diferença.
entrou por último, segurando a garrafa d’água como se fosse um escudo. estava sentado no banco do teclado, cabeça abaixada, os dedos batendo um ritmo nervoso na madeira. Kaira afinava a bateria com a precisão de quem finge que não ouve nada. Adris mexia no celular, mas era óbvio que escutava tudo.
O produtor fechou a porta atrás deles.
— Vamos revisar a música ao vivo de amanhã. — Ele falou sem rodeios. — A apresentação é curta, mas precisa estar perfeita. Vocês ganharam exposição demais hoje. Agora têm que sustentar.
levantou o rosto e soltou um riso curto, sem humor.
— Perfeita. Claro.
apertou o maxilar. Ele sempre falava como se fosse o único ali que entendia o peso das coisas.
— Beleza — ela rebateu. — Então vamos começar.
O produtor deu o sinal. Kaira contou:
— Três, quatro…
A música começou. entrou com a voz poderosa, focada, precisa. veio depois, mas algo estava errado: sua entrada saiu meio segundo atrasada.
— Para. — interrompeu, levantando a mão.
O produtor franziu o cenho.
— …
— Ela entrou errada. — Ele olhou para como se fosse óbvio. — Não dá pra seguir assim.
ajeitou o cabelo atrás da orelha.
— A gente nem terminou a primeira passada.
— Não precisa. — Ele cruzou os braços. — Se você errar a entrada ao vivo, todo mundo cai junto.
As palavras foram afiadas o suficiente para cortar o ar. A sala ficou pequena, quente e claustrofóbica.
— Tá. — disse, com calma forçada. — Então vamos de novo.
entrou no tempo certo dessa vez, mas interrompeu de novo.
— Para. — Ele levantou a mão, irritado. — Isso não tá bom.
fechou os olhos, respirando fundo.
— , a gente nem terminou a música.
— Não precisa terminar. — Ele cruzou os braços. — Você está instável. Assim não vai funcionar ao vivo.
O tom dele bateu nela como uma porta fechando.
— Eu estou tentando — disse, firme, tentando se controlar. — É só isso que eu posso fazer.
riu, um riso curto, seco.
— Tentar não é suficiente.
A sala ficou gelada. Kaira parou de afinar as baquetas. Adris levantou devagar a cabeça. se aproximou um passo.
— Você fala como se fosse perfeito.
— Não sou perfeito — rebateu. — Eu só não tenho o luxo de errar.
— E eu tenho?! — Ela soltou, sem conseguir segurar. — Você acha que eu estou aqui brincando? Que isso é um hobby pra mim?
recuou um pouco, mas o olhar endureceu.
— Eu acho que você não entende o peso disso.
Aquilo entrou nela como uma lâmina.
— Você não faz a menor ideia do que eu entendo.
aproximou-se, o rosto a centímetros do dela.
— E você não faz ideia do que acontece se eu falhar. Eu não posso… — ele parou, respirou fundo, a voz vazando trincada — …não posso decepcionar.
Silêncio. piscou, confusa. Ela percebeu que aquilo vinha de um lugar fundo demais. Mas antes que pudesse responder, Kaira levantou-se.
— Ele só quer que a banda funcione — disse, seca, como uma muralha entre eles.
virou-se devagar.
— Não estou dizendo o contrário.
— Então para de discutir com ele por tudo. — Kaira completou, direta. — Você desequilibra o ensaio.
A frase caiu pesada, como chumbo. Adris levantou-se também, colocando-se ao lado de .
— … — ele começou, um pouco hesitante — …relaxa, ok? O só quer acertar. É o jeito dele. Não leva pro pessoal.
O chão desapareceu por um instante. Eles não estavam “vendo os dois lados”. Eles estavam defendendo o amigo. Instintivamente. Automaticamente. Como se ela fosse a estranha no ninho.
riu sem humor.
— Claro.
franziu o cenho, incomodado com algo que não conseguia nomear.
— Não é isso… — ele começou, mas ela ergueu a mão.
— Não precisa explicar. Vocês já deixaram bem claro.
Adris tentou dar um passo à frente.
— Ei… , não é contra você. Ele só fica assim porque tem…
— Problemas? — ela completou, magoada. — Todo mundo tem. Mas parece que os meus incomodam mais.
Kaira apertou o queixo, sem paciência.
— Ninguém disse isso.
— Não precisou dizer. — respondeu, com a voz falhando na ponta. — Eu senti.
Ela olhou para . Ele abriu a boca, mas não saiu som.
— Eu não vou pedir desculpa por tentar — ela disse, mais firme dessa vez. — Mas… obrigada por me mostrarem onde eu fico nesse grupo.
deu um passo.
— …
Ela deu dois para trás.
— Eu preciso de um minuto. Só isso.
E saiu. Dessa vez, rápido. Não chorando, mas com o peito tão apertado que mal conseguia respirar. A porta bateu. O silêncio tomou conta. ficou parado, olhando para o chão. As mãos tremiam. Mas ele não foi atrás. Adris suspirou, passando a mão no rosto.
— Cara… acho que você pegou pesado.
Kaira cruzou os braços.
— Ela é nova. Vai se acostumar.
fechou os olhos, sentindo uma pontada incômoda. Não era orgulho. Não era raiva. Era culpa. Mas ele ainda não sabia como nomear.
Mas era inútil. A voz do ainda martelava na cabeça dela: "Tentar não é suficiente." "Você desequilibra o ensaio." "Eu não posso decepcionar de novo."
Uma mistura de raiva e mágoa subia pelo corpo, prendendo a respiração, e quando ela virou a esquina para o hall principal, congelou. Seu pai estava ali. Manuel segurava uma pasta de contrato nas mãos, mas quando viu o rosto dela, vermelho, tenso, brilhando na borda das lágrimas, o mundo dele parou também.
— ? — ele chamou lentamente, a voz mais baixa que o normal. Ele deu dois passos até ela. — O que aconteceu?
E foi como se alguém desfizesse o nó que segurava tudo no lugar. As lágrimas vieram de uma vez só.
caiu no abraço dele sem pensar, algo que não fazia desde os treze anos e Manuel a segurou forte, colocando a mão na nuca dela como quando ela era criança e tinha pesadelos.
— Ei… respira. — Ele a ajeitou contra o peito. — Respira, meu bem.
Ela apertou o rosto contra a camisa dele. Soltou o que vinha segurando desde o ensaio.
— Pai… eu… eu não aguento…
— Aguenta sim. — Ele murmurou, beijando o topo da cabeça dela. — Mas não precisa aguentar sozinha.
Ela fungou, apertando mais forte.
— Parece que tudo que eu faço tá errado. Eu tento… juro que tento… mas nada é suficiente.
Manuel segurou o queixo dela, erguendo seu rosto com cuidado.
— Escuta. — Sua voz estava firme, mas doce. — Esse sonho não é só seu. Se você fracassar… — ele respirou, como se tirasse algo pesado do peito — …então eu falhei junto.
arregalou os olhos. Ele sorriu pequeno.
— Eu nunca vou deixar você cair sozinha. Nem agora, nem nunca.
Aquilo a desmontou de um jeito diferente, não por dor, mas por um tipo de amor que ela tinha esquecido como era sentir.
— Obrigada, pai… — ela sussurrou.
Ele a abraçou de novo, mais forte.
— Vai lavar o rosto. — Manuel disse, quando ela começou a se acalmar. — Eu cuido de todo o resto.
assentiu, limpando as lágrimas. E andou até o banheiro feminino. Empurrou a porta, se apoiou na pia e deixou a água fria correr nas mãos antes de molhar o rosto. Respirou.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Quando levantou o rosto, a porta abriu de leve.
Kaira. A última pessoa que ela esperava, ou queria, ver.
— Eu… — Kaira começou, parando perto da porta — …eu ouvi. O que você falou com seu pai.
O estômago de afundou.
— Ótimo. Mais alguém pra julgar. — ela murmurou, amarga, passando a mão molhada no rosto.
Mas Kaira levantou as mãos.
— Não vim brigar. Só… — fez uma pausa, como se procurasse as palavras certas — …eu precisava te dizer uma coisa.
permaneceu em silêncio. Kaira respirou fundo.
— Eu fui injusta com você lá dentro. — Ela finalmente disse. — Eu vi você como uma intrusa. A que não sabe a nossa dinâmica. A que atrapalha.
desviou o olhar.
— É o que eu sou, não é?
— Não. — Kaira balançou a cabeça. — É só… cada um aqui tá carregando um peso que não fala em voz alta.
A forma como ela disse isso chamou a atenção de .
— O … — Kaira continuou — …não é assim porque te odeia. Não tem nada a ver com você.
ergueu o rosto.
— Então por que ele me trata daquele jeito?
Kaira respirou fundo de novo, como se estivesse abrindo algo que prometeu a nunca tocar.
— Porque ele tá segurando o mundo. Sozinho.
Silêncio.
A voz de Kaira ficou mais baixa, quase humana, o que era raro.
— O irmão dele… o caçula… tá na faculdade. Só tá lá porque o paga tudo. Aluguel, mensalidade, transporte, livros. Tudo.
piscou, surpresa.
Kaira continuou:
— A mãe deles trabalha em dois empregos. O pai… sumiu faz tempo. Então o carrega a casa inteira nas costas desde os dezessete. Essa banda não é só um sonho pra ele. É um… respiro. Um alívio. O primeiro desde sempre.
sentiu algo se rearrumar dentro dela, não diminuindo sua dor, mas abrindo espaço para entendimento.
— Ele não queria te machucar — Kaira completou. — Ele só tá com medo. Medo de falhar. Medo de decepcionar a família. Medo de perder isso aqui.
engoliu seco.
— Medo não justifica tudo — ela disse, a voz falhando, mas firme.
Kaira assentiu.
— Eu sei. Ele sabe também. Por isso ele tá lá agora, se odiando por cada palavra que disse.
A imagem de sozinho, irritado consigo mesmo, queimando por dentro, atravessou a mente dela.
Kaira continuou:
— Eu não vim pedir pra você perdoar ele. Só… — e pela primeira vez, a voz dela ficou suave — …pra você não achar que tá sozinha nessa banda.
respirou fundo. Deixou as palavras penetrarem devagar.
— Obrigada. — ela disse, baixinho.
Kaira apenas assentiu e virou para sair.
Antes de passar pela porta, parou.
— E, … — ela disse, sem olhar para trás — …se um dia você precisar de alguém pra segurar a barra…não precisa ir direto pro banheiro.
E saiu. ficou ali, parada, processando tudo, a dor, o amor, a culpa, o peso e o novo entendimento. Quando finalmente levantou o rosto para o espelho…ela parecia um pouco diferente. Ainda machucada. Ainda tremendo.
Mas, mais forte. Mais consciente do que tinha nas mãos. E de quem ela era, mesmo quando ninguém mais parecia saber.
Novo dia. Nova chance. Ela não seria definida por uma briga. Kaira chegou em seguida, com um aceno de cabeça discreto, mas diferente. Um “eu vi você ontem” silencioso. Adris chegou falando demais, como sempre, tentando normalizar o clima com piadas que ninguém riu.
E então entrou. Ele fechou a porta atrás de si, devagar, como se o ruído pudesse acordar algo que ele queria evitar. Os olhares dos dois se cruzaram por um instante.
Curto.
Tenso.
Ninguém desviou rápido demais, mas também não sustentou.
Era como encarar um espelho sujo: você se via, mas não queria admitir. se sentou atrás do teclado sem dizer nada. ajeitou o microfone sem olhar para ele. Kaira esticou os braços, preparou-se na bateria. Adris colocou o teclado no lugar.
Silêncio.
Manuel entrou por último.
— Bom dia. — Ele olhou para cada um, demorando um instante a mais em … e depois em . — Vamos ver o que vocês trazem hoje.
Kaira bateu as baquetas no ar.
— Três…
— Quatro…
Kaira contou até quatro e o estúdio se encheu daquela batida sombria e urgente. O cover de Habits ganhava uma força diferente na voz deles. respirou fundo antes de entrar no primeiro verso. A voz saiu trêmula no início, mas firme na emoção:
“I gotta stay high all the time…”
Aquela frase parecia sair direto do peito dela, crua, exposta demais. entrou logo depois, com a voz grave cortando o ar:
“…to keep you off my mind.”
A forma como ele cantou aquilo fez a espinha dela arrepiar, não por romance, mas por verdade. Era como se ele estivesse lutando contra algo que só ele conhecia. O refrão chegou como uma explosão. cantou, mais forte dessa vez:
“Spend my days locked in a haze…”
respondeu no verso seguinte, quase num duelo:
“Tryna forget you, babe…”
As vozes se encontraram no ar como se estivessem brigando e se completando ao mesmo tempo. Kaira batia com mais força a cada verso. Adris parecia possuído pelo teclado. E Manuel observava tudo com a expressão de quem acabara de testemunhar algo grande demais para interromper.
O refrão final veio como faca:
“I gotta stay high…” “…all the time…”
A música virou campo de batalha.
atingia notas altas com a garganta trêmula de emoção reprimida. acompanhava com precisão quase agressiva, como se competir com ela fosse a única forma de manter o próprio coração funcionando.
E quando a última nota caiu, o silêncio tomou o estúdio, um silêncio que tremia. e se olharam. Não planejado. Não combinado. Olharam porque era inevitável. E naquele olhar tinha fogo. Tensão. Raiva. Dor. Admiração. E uma química que nenhum dos dois queria admitir que existia, mas existia, queimando, respirando, pedindo espaço.
Respirações pesadas. Peitos subindo e descendo. Energia acumulada demais para caber dentro de quatro paredes.
Adris foi o primeiro a falar, com um sussurro:
— Caralho.
Kaira assentiu, ainda chocada. Manuel bateu palmas, duas, lentas, sérias.
— É isso. — Ele disse. — É isso que eu queria ver desde o primeiro dia — Ele apontou para a banda. — Quando vocês estão juntos… o mundo inteiro cala a boca.
engoliu seco e desviou o olhar de . Ela também desviou. Mas, por um segundo curto… ambos sabiam, mesmo que não dissessem, mesmo que não suportassem um ao outro ainda.
A música funcionava porque eles funcionavam. Porque ali, no palco, eles eram iguais. No palco, eles respiravam a mesma verdade: cada um deles estava quebrado. Mas juntos…eles soavam inteiros.
— Ei, respira, cara — Adris murmurou, colocando uma mão no ombro dele.
Nada. Kaira se aproximou, séria, sem pânico, mas sem disfarçar a preocupação.
— … olha pra mim. — Ele não olhou. Ela engoliu seco. — Merda…
finalmente ergueu o rosto. Olhos arregalados, pupilas dilatadas. Peito subindo e descendo rápido demais.
— Eu… não consigo… — Ele apertou o peito. — Não consigo respirar…
Adris se aproximou mais, tentando controlar a própria tensão.
— É só ansiedade. Você já passou por isso antes. Vem, respira comigo…
— Não está funcionando! — explodiu, a voz falhando no final.
Kaira tentou segurar o rosto dele entre as mãos, mas ele afastou, perdido demais para aceitar. E foi aí que , que observava tudo de longe, se aproximou. Primeiro hesitante. Depois decidida. Ela passou por Adris e Kaira e parou bem na frente de .
— Ei — disse baixinho.
Os olhos dele, perdidos, finalmente encontraram alguma coisa. Ela levantou a mão devagar, como se perguntasse silenciosamente: Posso? não respondeu. Mas também não recuou. Então ela colocou a palma da mão bem no centro do peito dele.
O toque foi quente. Firme. Estável.
— Me escuta. — Ela falou devagar, como se estivesse conduzindo um animal assustado. — Eu vou contar sua respiração. Você só precisa me seguir.
engoliu seco, o peito tremendo de forma irregular. aproximou-se mais um passo, até conseguir sentir a respiração dele bater em seu rosto.
— Inspira comigo. — Ela puxou o ar devagar. — Um… dois… três…
Ele tentou acompanhar. Tossiu. Tentou de novo. Ela manteve a mão no peito dele, firme, ancorando.
— Isso. — Ela sussurrou. — Agora solta. Devagar. Um… dois… três… quatro…
Ele obedeceu. A respiração começou a estabilizar. Aos poucos, os olhos dele voltaram ao lugar. Menos dilatados, menos perdidos.
— Você consegue. — disse, sem tirar a mão dali. — Eu tô aqui.
E, pela primeira vez… Ele acreditou. Kaira observava a cena com uma mistura de surpresa. Adris suspirou, aliviado, encostando-se na parede. Quando o produtor fez o sinal de que faltavam quinze segundos para a entrada, retirou a mão. Mas segurou o pulso dela.
— Fica. — Ele murmurou, quase inaudível.
Ela não hesitou. Entrelaçou os dedos nos dele. E assim, de mãos dadas, eles subiram juntos na plataforma de elevação do palco. Quando a plataforma começou a subir e as luzes estouraram sobre eles, o público foi à loucura. apertou a mão dela com força. apertou de volta. Eles estavam juntos. Mesmo que ainda não soubessem o significado disso.
O teclado de Adris abriu o show. Kaira entrou logo depois, feroz na bateria, batendo como se o coração dela estivesse grudado nas baquetas. E então começou a cantar. Não era só técnica. Era dor. Força. Vulnerabilidade transformada em arma.
entrou no verso seguinte, a voz escura, quente, segura, mais segura do que se sentia por dentro. Quando os dois se aproximaram no refrão, o público gritou. Havia uma sexualidade implícita na forma como cantavam de frente um para o outro. Como se o palco fosse um duelo. Como se estivessem prestes a se beijar ou se matar.
E os dois sabiam disso.
No último refrão, tocou de leve a cintura dela para guiá-la até o centro do palco. O toque foi rápido. Mas o suficiente para ela sentir o estômago afundar. Eles terminaram juntos. Respirando pesado, brilhando de suor, olhos presos um no outro.
A plateia explodiu.
Manuel abriu um sorriso orgulhoso na coxia. Era isso. Sua banda tinha nascido de verdade.
— Vocês foram incríveis. — Manuel disse, abraçando os quatro ao mesmo tempo. — Mas agora, cama. Amanhã tem o dobro de trabalho.
Adris rolou os olhos.
— Só hoje, chefe. — Ele sorriu malicioso. — A gente merece comemorar. Uma bebida só.
Kaira cruzou os braços.
— Uma bebida vira onze bebidas com você.
— Eu prometo que paro na nona.
riu. também, um riso curto, mas real. Manuel suspirou.
— Ok. Mas sem fazer merda. E sem beber como se não existisse amanhã.
— Quer beber o quê, estrela? — ele perguntou, aproximando-se, sem invadir mas chegando perto o suficiente para ela sentir o perfume dele.
riu.
— Algo doce. Surpreende.
— Gosto assim. — Ele piscou.
Kaira observava de longe, os olhos estreitando levemente conforme Adris se aproximava mais, dizendo algo no ouvido da que a fez rir outra vez. também olhava. Mas diferente de Kaira. O dele era um olhar que queimava. Não era preocupação profissional. Não era irritação pelo clima da banda.
Era outra coisa. Outra coisa que ele não sabia nomear, mas sentia como uma fisgada quente no estômago. Ele desviou quando Kaira percebeu que ele também observava.
Os dois trocaram um olhar rápido. Ciúmes. Dos dois lados. Por razões diferentes. , sem perceber nada, só levantou o copo que Adris acabara de lhe entregar e brindou:
— À FIRST ART.
Eles brindaram. O mundo deles estava só começando a incendiar. A balada estava cada vez mais cheia, cada vez mais quente, e cada vez mais barulhenta. sentia a eletricidade do pós-show correndo pelo corpo, como se o palco tivesse ficado preso na pele dela. Adris voltou do bar com mais dois drinks coloridos.
— Prova esse. — ele disse, entregando um para ela. — Parece doce, mas bate forte.
— Igual você? — provocou, sorrindo torto.
Adris piscou devagar, satisfeito demais com aquilo. Do outro lado da pista, Kaira viu a cena. Ela cruzou os braços automaticamente, o maxilar tenso. E …
ficou completamente imóvel. Ele tentava parecer indiferente, mas não estava ouvindo nada que Kaira dizia ao lado dele. Se alguém chamasse o nome dele ali, ele provavelmente nem percebia. O DJ trocou a música para uma batida baixa e sensual, daqueles sons que fazem a pista inteira se mexer devagar, como se tivesse um ritmo próprio.
Adris se aproximou mais de .
— Quer dançar?
Ela pensou por meio segundo antes de dar de ombros:
— Por que não?
E deixaram os copos numa mesa aleatória. Os dois foram para o meio da pista. A luz vermelha e azul cintilando, o clima quente, o suor do pós-show ainda escorrendo pela nuca. começou a se mover no ritmo, não provocante, mas natural. Solta. Adris se aproximou atrás dela, mas sem encostar. Ele sabia dançar, e sabia exatamente como ocupar espaço sem invadir.
riu com a surpresa, e aquilo atraiu olhares de todos os lados. Inclusive dois muito específicos. Kaira cerrou os punhos, porque claro que Adris ia atrás da única pessoa que ela não queria que ele fosse atrás.
E … sentiu algo prender na garganta. Algo quente, estranho, irritante. Ele apertou o copo na mão até sentir o frio do gelo queimando os dedos.
— Você tá bem? — Kaira perguntou.
Ele respondeu sem olhar:
— Tô.
Mas não estava. Nem um pouco.
A música mudou de novo. Algo mais grave. Mais lento. virou de frente para Adris, sem perceber que estavam próximos demais. A respiração dele encostou na dela. Ele sorriu, aquele sorriso de “eu quero, mas só se você quiser também”.
— Você dança bem pra caramba. — ele disse.
— Obrigada. — sorriu, com aquele brilho pós-palco.
— Sabe… — Adris começou, aproximando-se — …você devia sorrir mais assim. Combina com você.
Ela abriu a boca para responder, mas não conseguiu. Porque foi ali, naquele exato momento que apareceu. Ele não entrou na dança. Não separou ninguém. Mas ficou perto o suficiente para que Adris percebesse. E para que sentisse.
O ar ao redor deles ficou mais pesado. Mais carregado. estava tenso, ombros rígidos, mandíbula travada.
— Curtindo a festa? — ele disse, a voz baixa, mas não agressiva, apenas… quente.
piscou, surpresa.
— Tô. E você?
Ele não respondeu. Só olhou para Adris. E aquilo bastou para transformar o clima. Adris levantou as mãos, em sinal de paz.
— Calma, big boss. A gente só tá dançando.
deu um meio sorriso torto, o tipo que não chega nos olhos.
— Claro. Dança aí.
Só que ele não saiu. Nem recuou. Ficou ali. Observando. Sentindo cada célula do corpo arder por dentro. sentiu a tensão e virou para Adris, sem querer alimentar briga.
— Vamos pegar outro drink? — ela sugeriu.
— Vamos.
Eles saíram juntos.
Mas antes de sumir para o bar, ela olhou para trás…e encontrou os olhos de . Ele não desviou. Ela também não. Algo passou entre eles. Algo quente. Algo perigoso. Algo que nenhum dos dois admitiria.
e Adris esperavam os drinks, mas ela estava quieta demais. Ele percebeu.
— Você tá bem?
Ela abriu um sorriso fraco.
— Tô… só cansada, eu acho.
Adris encostou o cotovelo no balcão e a olhou com calma.
— Olha, se eu estiver passando do ponto… você me fala, tá?
mordeu o canto do lábio, surpresa com a maturidade dele.
— Você não tá. — Ela respondeu.
Ele sorriu… e passou o polegar de leve na maçã do rosto dela, tirando um borrado do rímel.
— Só tô me divertindo.
— Eu também.
E naquele segundo…pareceu que ele ia se aproximar.
Só um pouco. Só o suficiente. Mas antes que qualquer coisa acontecesse…Kaira apareceu.
— . — a voz de Kaira cortou o ar como uma lâmina fina. — Você pode vir aqui um minuto?
virou, estranhando o tom. Kaira parecia tensa, mas não com raiva, tensa por dentro.
— Claro… — disse.
Mas Kaira respirou fundo, como se estivesse tentando ser menos brusca, e acrescentou:
— Vem sentar um pouco. Você não parou um segundo desde o show.
Adris arqueou as sobrancelhas, divertido.
— Verdade. Senta aí, estrela. A gente ainda tem a noite toda.
Eles foram para um canto com sofás baixos, luz baixa e música grave vibrando no chão. , Adris, Kaira e sentaram-se juntos, os quatro pela primeira vez desde o show. ficou entre Adris e Kaira. sentou do outro lado, braços cruzados, postura rígida.
Adris, claro, não demorou a quebrar o silêncio:
— Galera… — ele ergueu o copo, o sorriso travesso — …uma tradição de banda.
Kaira revirou os olhos.
— Lá vem merda.
— Selinho de grupo. — Adris disse como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. — Pra selar de vez essa noite épica.
o fuzilou com os olhos.
— Isso é tão infantil. — ele disse, frio, direto.
Kaira completou:
— Concordo. É completamente desnecessário.
Os dois falaram quase ao mesmo tempo. Quase como um duo ciumento. Adris gargalhou.
— Ih, aí tem. — Ele levantou os braços. — Relaxem, gente. É só uma brincadeira.
tomou um gole do drink e apoiou o copo na mesa.
— Eu topo.
Os três viraram para ela.
— Como é? — perguntou, a voz baixa e tensa.
— Qual é — deu de ombros — banda de rock faz isso o tempo todo. Ao vivo, nos bastidores, nos clipes…E, sinceramente? — ela sorriu para Adris — Depois de hoje, a gente merecia um ritual.
Adris abriu um sorriso largo.
— Sabia que você ia ser a mais legal daqui.
respirou fundo, o maxilar travando. Ele queria falar alguma coisa, alguma coisa que provavelmente estragaria tudo, mas não queria parecer… afetado. Kaira apertou o copo com força. Adris virou para .
— Então…?
deu um meio sorriso. Inclinou-se. E o beijou. Mas no momento em que os lábios encostaram, ela sentiu.
Nada. Não era bom. Não era ruim. Não era nada. Não encaixava. O beijo era vazio, mecânico, sem alma, como se estivesse beijando alguém através de um vidro. Adris sorria, achando engraçado. Mas ela só queria que acabasse logo. Ela recuou, forçando um sorriso.
— Pronto. Ritual selado.
Mas … ficou branco. Ele desviou o olhar, levantando-se tão rápido que o sofá fez um rangido.
— Vou embora. — disse seco.
piscou.
— …
— Amanhã a gente tem trabalho. — Ele nem olhou para ela. — Vocês deveriam fazer o mesmo.
E saiu, sem esperar resposta. Kaira levantou logo depois.
— É. Eu também vou.
Ela olhou para Adris sem esconder o incômodo.
— Isso foi estúpido.
E antes que pudesse responder, Kaira também saiu, rápida, atravessando a multidão. ficou ali parada. Adris ao seu lado, sem entender o peso do que tinha acontecido. olhou para o drink. Depois para o chão. E pela primeira vez naquela noite…ela sentiu o vazio bater mais forte que o álcool.
— Ah, merda… — ela murmurou, apertando os olhos.
Quando tentou se sentar, quase caiu para trás de novo. A ressaca era tão violenta que parecia pessoal. Foi aí que a porta do quarto abriu. Manuel entrou. E ele não parecia nem um pouco feliz.
— Levanta. — ele disse, a voz tensa, sem gritar, porque ele não precisava gritar para ser assustador.
arregalou os olhos, tentando recobrar a dignidade.
— Pai… eu… tô passando mal.
— Eu imagino. — Manuel cruzou os braços. — Deve ser consequência de dançar até cinco da manhã enquanto metade das redes sociais te filmava.
congelou.
— O quê?
Manuel pegou o celular e passou para ela com um deslizar de dedo seco.
Vídeo 1: ela e Adris dançando colados.
Vídeo 2: o selinho.
Vídeo 3: levantando e indo embora.
Vídeo 4: uma montagem com o título:
“FIRST ART: clima tenso e casal da banda pegando geral?”
fechou os olhos, sentindo o estômago pular.
— Eu… eu não sabia que estavam filmando…
— É claro que estavam! — Manuel finalmente ergueu a voz. — Você é uma artista. Você é o centro das atenções. Você é selo de uma banda que está nascendo AGORA. Não existe “não saber”.
Ela ficou quieta. Ele continuou:
— E antes que diga qualquer coisa… você sabe que eu nunca fui o pai que te prende. Você sabe. Mas ontem… — ele passou a mão no rosto, cansado — …ontem você colocou em risco não só a banda. Você colocou em risco o SEU trabalho. E o meu.
As últimas palavras bateram mais forte. sentiu o golpe na alma.
— Pai…
— , você precisa entender que tudo o que você faz agora… tudo… reflete em mim também. — Ele respirou fundo. — Eu não sou só seu pai. Eu sou seu produtor. E se você cair, eu caio também.
Ela engoliu em seco. Não era só bronca. Era medo. Medo real. Medo de perder tudo.
— Eu sei… — ela murmurou, a voz baixa. — Me desculpa.
Manuel se aproximou e, pela primeira vez naquela manhã, a voz dele amoleceu.
— Só… cuida do que você construiu. — Ele disse, colocando a mão no ombro dela. — Você é maior do que isso. Muito maior.
assentiu, com os olhos ardendo.
— Agora vai se arrumar. — ele completou. — A banda te espera. E… — ele suspirou fundo — …prepare-se. Eles não estão felizes.
se arrumou quase no automático, lutando contra a náusea e a dor de cabeça mortal. O carro estava silencioso. Manuel dirigia sério, sem música, sem conversa. A tensão no ar era quase palpável.
Quando chegaram, Manuel só disse:
— Boa sorte.
E ela entendeu o que aquilo significava.
Adris foi o único que a cumprimentou.
— Bom dia, estrela. — ele disse, com um sorrisinho. — Tá com cara de quem brigou com o sol.
— Tô um pouco… — ela engoliu seco — …mal.
Adris riu.
— Ressaca lendária. Parabéns.
Ela não riu. mexeu o pé, irritado, como se o som da voz dela incomodasse.
— Podemos começar? — ele disse sem olhar para ela.
A voz cortou o ar. Kaira assentiu, seca. Adris ficou calado, algo no sorriso dele diminuindo. sentiu o estômago afundar. Respirou fundo. E entrou.
— Eu só queria dizer que… — ela começou.
finalmente levantou o rosto. E a forma como ele olhou para ela machucou mais do que a ressaca. Frio. Distante. Cortante.
— A gente não precisa falar sobre ontem. — ele disse. — A gente precisa trabalhar.
engoliu o resto da frase.
— Certo. — ela sussurrou.
Kaira deu as baquetas.
— Vamos.
E começaram a tocar. Só que algo estava errado. Eles tocavam juntos. Mas tudo soava…desalinhado. Frio. Desconectado. Como se cada um estivesse preso dentro da própria cabeça. Manuel entrou na metade da música, cruzou os braços e ficou observando.
Quando terminaram, ele disse:
— Isso foi horrível. — ele disse, com calma assustadora. — Horrível ao ponto de eu me perguntar se vocês entenderam o tamanho da oportunidade que receberam.
Silêncio absoluto. Manuel deu um passo à frente.
— Agora vocês vão me explicar o que está acontecendo. — Ele olhou para cada um, demorando mais nos olhos de . — Ou eu cancelo o dia inteiro.
Ninguém abriu a boca. Então Manuel continuou:
— Já que vocês não querem falar… eu falo. — A voz dele ficou mais baixa. Mais séria. — Na minha produtora existe uma regra clara, e eu vou repetir devagar pra ver se entra na cabeça de vocês: não existe relacionamento íntimo entre artistas contratados.
sentiu o corpo gelar. fechou o rosto por completo. Kaira prendeu a respiração. Adris engoliu seco. Manuel continuou:
— Essa regra existe por um motivo. Eu perdi talentos por causa disso. — Ele cruzou as mãos atrás das costas, lembrando. — Millicent Espinosa. Uma das melhores artistas que já passou por aqui. Responsável. Inteligente. Uma estrela. E jogou tudo fora porque se envolveu com um dos meus funcionários. Não quis terminar. Eu tive que dispensá-la. E a ele também.
ficou imóvel. Conhecia Millicent. Admirava Millicent. olhou para o chão, os punhos fechados. Adris soltou o ar devagar, arrependido pela primeira vez desde que aquela noite começou.
Manuel finalizou:
— Eu não vou perder vocês. Nenhum de vocês. Então, a partir de hoje… — Ele apontou para cada um. — …vocês vão parar com essa palhaçada imediatamente.
abriu a boca.
— Pai…
— Não. — Ele cortou. — Agora eu falo.
fechou a boca. Manuel respirou fundo, retomando o tom profissional.
— A equipe de crise já resolveu os vídeos. A partir de hoje, vocês vão participar das gravações de um seriado musical teen. Ótima vitrine. Ótima publicidade. E, … — ele a encarou — …você vai forçar o clima com um dos atores principais. Vai sorrir, vai aparecer em foto, vai dar entrevista junto. O público esquece rápido. Vamos dar a eles outra narrativa.
congelou. Forçar clima? De propósito? Com outra pessoa? Ela nem sabia como se sentia sobre isso. Mas sabia. O rosto dele pareceu trincar por dentro. Ele virou o rosto na hora, como se engolisse algo amargo.
Manuel continuou:
— E agora… — ele virou para Adris — …você. Que ideia idiota foi essa de beijo de grupo, Adris?
Adris abriu a boca.
— Eu…
— Não. — Manuel levantou a mão. — Cala a boca. Só cala a boca. Foi infantil, irresponsável e colocou sua vocalista no olho do furacão. Se repetir uma brincadeira idiota dessas, eu te coloco pra tocar triângulo no coro de Natal da produtora. Entendido?
Adris arregalou os olhos.
— Entendido.
murmurou, seco:
— Eu avisei que era uma ideia horrível.
Manuel apontou para .
— Você também não é santo, . Mas pelo menos tem neurônios.
deu de ombros, mas o canto da boca dele quase sorriu. Quase.
Manuel suspirou, exausto:
— Eu vou resolver o resto com a equipe de marketing. Vocês… tentem não destruir a banda enquanto eu saio pra respirar cinco minutos.
E ele saiu, fechando a porta com força. Foi nesse instante que Adris se virou lentamente para Kaira. Muito lentamente.
— Você contou pra ele. — Ele disse, com a voz baixa.
Kaira arregalou os olhos.
— O quê?
— Não se faz de sonsa. — Adris se levantou. — Só você sabia que fui eu quem sugeriu essa merda. E, do nada, Manuel vem direto em mim? É claro que você falou!
Kaira levantou-se também, ofendida.
— Sério? Você tá me acusando disso?
— Quem mais seria? — Adris rebateu, a voz subindo. — O não ia ter tempo. A não ia dedurar ninguém. Sobra quem?
Os olhos de Kaira se estreitaram.
— Eu não sou sua babá pra limpar suas cagadas! E não preciso dedurar você — ela bufou — você se entrega sozinho!
— Ah, vai se…
— CHEGA! — a voz de cortou os dois como uma chicotada.
Foi a primeira vez que ela gritou desde que entrou. Adris parou. Kaira parou. olhou para ela, surpreso.
— Vocês dois são incríveis. — disse, andando até eles. — Incríveis para arrumar confusão. Eu já estou sendo jogada nos sites de fofoca. O público acha que a banda é um reality show. E agora vocês querem se matar aqui dentro?
Adris abriu a boca, mas levantou a mão.
— Não. Agora é minha vez de falar.
Silêncio absoluto. Ela virou para Kaira.
— Você está com raiva dele, mas isso aqui não é culpa só dele. Todo mundo tem culpa.
Depois virou para Adris.
— E você precisa parar de agir como se tudo fosse diversão. A gente não tá brincando de ser banda. A gente é uma banda.
Adris abaixou a cabeça. Kaira cruzou os braços, mordendo o lábio. E então respirou fundo. percebeu que ela ia fraquejar e deu um passo para frente.
— Ela tem razão. — ele disse, firme.
Adris e Kaira olharam para ele.
— Ou a gente funciona — continuou — ou a FIRST ART acaba antes de começar.
Como se o universo estivesse esperando esse momento… os quatro ficaram ali, parados, encarando uns aos outros. Pela primeira vez desde a criação da banda… Eles pareciam um grupo. Não um grupo perfeito. Não um grupo unido. Mas um grupo que, pela primeira vez, estava lutando pela mesma coisa.
cruzou os braços.
— Então? A gente vai trabalhar juntos ou continuar se destruindo?
Adris suspirou.
— Juntos.
Kaira assentiu.
respirou fundo.
— Juntos.
também assentiu. E o círculo finalmente se fechou. Depois que o clima finalmente acalmou entre os quatro, Manuel voltou para o estúdio.
— Bom. — Ele bateu as mãos. — Agora que vocês pararam de latir uns para os outros, vamos trabalhar. Vocês têm uma reunião com a equipe da série às cinco. Não se atrasem. Eles são importantes demais pra vocês fazerem cerimônia.
engoliu seco. A ideia de conhecer o ator com quem ela teria que “forçar clima” deixava seu estômago revirando, parte ressaca, parte ansiedade. mexeu o pé. Só isso. Mas foi o suficiente para perceber que ele não estava gostando de nada daquilo. Kaira cruzou os braços, avaliando a situação como quem lê um jogo. Adris fez um joinha exagerado.
— Relaxa. Não deve ser tão ruim.
respondeu sem olhar para ele:
— Você não vai ter que beijar ninguém pra limpar merda alheia. Fácil falar.
Adris deu uma risada curta.
— Você tá com ciúme?
virou a cabeça devagar. Devagar demais.
— Não começa.
Kaira soltou um “ai, meu Deus…” baixinho e pegou a mochila.
— Vamos logo. Quanto mais rápido for, mais rápido acaba.
No carro, ninguém falou nada. encarava a janela. encarava o próprio colo. Kaira encarava o celular. Adris encarava todo mundo pelo reflexo. Quando chegaram ao estúdio de filmagem, uma equipe da produção estava esperando.
— FIRST ART? — perguntou uma mulher de blazer vermelho.
— Sim. — Manuel disse, firme. — Eles estão aqui.
A mulher sorriu para a banda, mas seus olhos analisavam tudo.
— Ótimo. Venham conhecer o elenco principal.
Eles seguiram pelos corredores até uma sala ampla com pufes, café, script espalhado… e gente bonita demais para ser coincidência. E foi quando ele se virou. O ator. Gael Monteiro Astro teen da maior série do momento. 22 anos. Magnético. Com aquele sorriso de “sou perigoso, mas não o suficiente para sua mãe desconfiar”.
Ele abriu um sorriso ao ver .
— Você deve ser a Rivera. — Ele estendeu a mão. — A estrela nova do pedaço.
ficou surpresa, não com a abordagem, mas com o fato dele ser…simpático. Carismático. E bonito de um jeito meio irritante. Ela apertou a mão dele.
— , sim.
tossiu. Aquele tipo de tossida que não era tossida. Todos olharam. fingiu que não era com ele. Manuel limpou a garganta.
— Vocês dois vão contracenar juntos. E, bem… a equipe de roteiro achou que vocês têm química para… situações futuras.
O subtexto estava óbvio. entendeu. Gael entendeu. entendeu mais que todo mundo.
Gael sorriu para ela.
— Eu topo. — Ele deu um meio sorriso. — Se você topar.
forçou um sorriso de volta.
— Claro.
respirou fundo, como se estivesse segurando o ar só para não explodir a sala inteira. Kaira observava o rosto dele cuidadosamente, arquivando cada microexpressão. Adris deu um tapinha no ombro de .
— Olha aí. Clima profissional. Nada demais.
afastou o ombro.
— Não me toca.
A cena que teria que gravar com Gael não era um beijo, ainda. Era uma troca de olhares. Uma briga que virava aproximação. Um quase-beijo que precisava parecer real. Eles treinaram a fala. Treinaram a postura. Treinaram o “olhar intenso”.
Gael era bom. Quase bom demais. E era atriz natural, ainda que não tivesse prática. observava cada detalhe, quieto. Mas sua perna balançava nervosamente. Seu maxilar travava. E seus dedos ficavam apertando o microfone do ensaio como se quisessem esmagá-lo.
Kaira percebeu.
— Você tá roendo a boca por dentro. — ela murmurou.
Ele não respondeu. Ela insistiu:
— Você tá com ciúme.
fechou o rosto.
— Não tô.
Kaira deu um sorriso de canto.
— Tá sim. E, pior, nem sabe o porquê.
a fuzilou com os olhos.
— Cuidado, Kaira.
Ela deu de ombros.
— Só tô dizendo o óbvio.
A equipe liberou a banda. Manuel ficou para trás resolvendo agenda. respirou fundo, tentando processar tudo. Adris esticou o corpo.
— Ufa.
— Isso foi muito — ela admitiu.
Gael se aproximou novamente.
— ? — Ele sorriu. — A gente tem química. Vai ser fácil.
se intrometeu no caminho sem perceber que estava fazendo isso.
— O trabalho dela é cantar — disse. — Não beijar ninguém pra gerar público.
Gael arqueou as sobrancelhas.
— Foi só um comentário, cara.
deu um passo. colocou a mão no braço dele.
— Já chega. — ela sussurrou. — Não vale a pena.
O toque fez congelar. Por um segundo. Depois ele se afastou.
— Vou pro carro.
Kaira o seguiu. Adris foi atrás. E ficou parada no corredor, respirando fundo. Gael sorriu para ela.
— Seu amigo precisa relaxar.
Ela soltou uma risada curta.
— Você não faz ideia. Ele sofre dos nervos. — ambos riram.
No carro, ninguém falou. Mas algo mudou. Uma faísca. Uma verdade incômoda: Eles perceberam que, pela primeira vez…se um caísse, todos caíam junto. E pela primeira vez… e estavam do mesmo lado. Mesmo que ainda não conseguissem admitir.


