CAPÍTULO UM
As pernas de balançavam de forma rápida, as mãos estavam geladas e minutos atrás um frio correu por sua barriga. Ele não sabia o que responder ou fazer, estar frente a frente com Manuel Rivera era um sonho, mas acabara de se tornar um pesadelo.
Manuel Rivera, era dono da Rivera Records uma das maiores gravadoras da Califórnia, o sonho de qualquer banda ou artista. Conhecido por ter um “olhar clínico", o negócio que Manuel entrava dava sempre certo. Sendo assim, e seu seleto grupo de dois amigos sempre tiveram o sonho de serem “notados” pelo homem.
Então quando foi possível os três se juntaram, gravaram por horas e enviaram uma única demo para Rivera Record, e depois de dois meses, foi chamado para uma reunião. Ele tentou de todas as formas não criar nenhum tipo de expectativa, mas só de receber um e-mail deles, já fez com que seu amigo Adris saísse três dias seguidos para “comemorar.”
E agora ele estava ali vivendo o que sonhou…não exatamente. A reunião no primeiro momento foi amigável, Manuel era extremamente afetuoso e teceu elogios sobre cada integrante, fazendo questão de saber os nomes. Também admirou a coragem de de trabalhar com sua banda e em mais alguns empregos para ajudar sua família com os estudos do irmão.
Quando a conversa tomou um rumo em relação ao fechamento de contrato, o jovem jurou que poderia infartar naquele momento, mas de certa forma se conteve apenas balançando a cabeça afirmativamente. Rivera, ofereceu valores justos, explicou sobre as possíveis formas de contrato e deu de exemplo artistas que trabalhavam com ele há anos. Tudo caminhava de forma promissora até que…
— , mas preciso ser sincero com você. Sua banda é boa, você canta bem, mas ainda falta algo em vocês. Algo que os una, uma voz entende? — Se levantou e começou a caminhar na sala de um lado para o outro. — Pensei que poderíamos adicionar uma voz feminina, mas como você disse Kaira, a baterista, odeia cantar, certo? — viu o jovem concordar com a cabeça. — Então vamos ter que adicionar alguém de fora.
— Assim que assinarmos os contratos, me disponibilizo para fazer os testes para a vaga de uma nova integrante. — Esboçou um pequeno sorriso. — Isso não vai ser necessário, . Já temos uma integrante. — Pegou um porta-retrato que estava em cima de sua mesa e entregou para o jovem, que ficou confuso ao ver a foto de uma garotinha. — Essa é minha filha, mi pequena, se chama . Ela é uma ótima cantora, mas ultimamente se esqueceu disso e quando eu ouvi vocês, soube que era a coisa certa a se fazer.
— Você vai colocar a sua filha como integrante da minha banda? — se sentiu ofendido de certa forma pelo homem apenas informar a ele essa decisão.
— , sei que parece radical isso, mas trabalho nessa indústria há anos. Com a colocação de um novo timbre, podemos mesclar e criar algo novo…e isso é perfeito para uma banda jovem.
— Sim, eu concordo. Só não concordo de não haver nenhuma seleção.
— Não é necessário, dou minha palavra que é incrível cantando. Ela nasceu para isso.
— Desculpa, sr. Rivera, não quero de forma alguma te desrespeitar, mas é um pai falando da filha. E outra, sempre tomo decisões em conjunto com Adris e Kaira, caso eles aceitem tudo bem, do contrário, teremos que abrir uma seletiva.
— Caso eles não aceitem, não terá seletiva, sr. . Porque simplesmente não haverá contrato algum. — o homem se sentou na cadeira, parecendo irritado. — Entenda uma coisa, esse mundo que vocês estão entrando é uma grande via de mão dupla, de um devendo favor para o outro, e não me sinto confortável de ser eu a ensinar isso a você. Mas, essa é minha última cartada com , preciso que ela entenda e tenha noção do seu talento, se eu falhar com o talento da minha filha, falhei em tudo…
Manuel confessou como uma última forma de ceder. sempre havia sido um doce de menina, carinhosa, atenciosa e cantora. A casa se enchia quando a voz dela preenchia cada cômodo. Ele sempre tentou dar o máximo de carinho para filha, em uma tentativa de abafar a inexistência de sua mãe durante toda sua vida.
E isso funcionou por um tempo, não para sempre como ele esperava. Então quando descobriu a verdade sobre sua mãe, foi como se a voz dela fosse roubada, e depois disso ela se recusou a cantar e interagir como antes com seu pai. Eles agora, mal se falavam, apenas quando o necessário, quando ela ia a produtora fazer alguma aula, apenas isso….
Porém, na noite em que recebeu o e-mail da banda da garagem, ele pensou no mesmo momento que primeiro: tinha que mudar o nome da banda, segundo eles tinham talento, mas faltava amor e isso ele sabia que tinha de sobra pela música. Foi aí que surgiu a ideia, talvez integrando uma banda ela ressignifica-se as descobertas sobre sua mãe.
— Então eu peço para você, faça esse favor para mim, sei que é importante o contrato para todos vocês e para mim também é.
E assim se instaurou um dilema na cabeça de aceitar o contrato e de brinde ganhar uma vocalista que ele julgou ser mimada, já que pelo jeito Manuel fazia tudo para ela. Ou negar, negar e manter a moral e os seus valores acima de tudo. Até mesmo dos estudos do seu irmão mais velho e a confiança de seus dois colegas.
estendeu sua mão em direção ao homem. — Tudo bem, eu aceito esse acordo.
Manuel apertou forte a mão do jovem, abriu um largo sorriso, contornou a mesa e o abraçou pegando desprevenido.
— Obrigado, e saiba que os contratos são renovados de ano em ano, então se algo não der certo em relação a ela, pode ter certeza que eu serei o primeiro a desfazer isso.
O trajeto para casa foi barulhento, a mente de não parava de pensar nas possíveis merdas que poderiam acontecer, agora que a banda de garagem tinha um contrato e uma nova integrante.
Ele queria comemorar, queria contar a todos o que tinha conseguido, mas simplesmente se tornava impossível, ele não via a hora de chegar em casa e contar para os amigos o que tinha acontecido, e assim, vendo a reação deles saberia como agir.
Logo que chegou em casa, a figura de sua mãe tomou a sua frente, ela parecia ansiosa, suas mãos estavam trêmulas e ela falava com ele de forma rápida, com certa pressa de passar a informação. Quem dera essa ansiedade fosse em relação a ele e sua banda.
— , que bom que chegou! Eu precisava muito falar com você. — Encarou o jovem por alguns instantes. — Liam, Liam ligou. E sei que esse mês está puxado para você, e também sei que você já mandou a mesada deste mês, mas ele falou que tem livros, apostilas, impressões… — não permitiu que a mãe terminasse.
— Tá, mãe, eu mando mais dinheiro para ele, é isso? — Viu a mulher à sua frente apenas concordar com a cabeça. — Onde está o Adris e a Kaira?
— Estão na garagem. — passou por ela indo em direção a garagem, então ela o chamou. — , obrigada! — deu um sorriso de ternura para o filho.
Antes de abrir a porta que dava entrada para o cômodo que os amigos estavam, ele contemplou por um momento o silêncio, não havia barulho nem do lado de fora e nem do de dentro. Assim, ele entendeu que a tensão sobre seus ombros era a mesma dos amigos, que pela primeira vez estavam juntos em silêncio. Quando ele adentrou a garagem, os olhares recaíram sobre ele. Adris se levantou e Kaira continuou sentada, apenas o encarando.
— E aí, cara? — não respondeu. — Mano, fala, porra. — se sentou ao lado da amiga.
— Galera, é o seguinte, a gente fechou o contra… — O jovem não conseguiu nem terminar, pois os amigos iniciaram uma comemoração o abraçando e gritando. — Pessoal, galera, eiii…— Empurrou os amigos de forma brusca. — O contrato foi fechado, mas foi com uma condição.
— Qual condição? — Kaira se pronunciou pela primeira vez, assumindo uma postura rígida.
— O Manuel…ele quer que a filha dele seja vocalista da banda, junto comigo. — ao final da frase ele soltou o ar de seus pulmões.
Agora o jovem se sentia menos tenso por compartilhar isso com os amigos.
— Foda-se, a gente tem um contrato, mano. Vamos comemorar. — Adris deu de ombros.
— Nem pensar, , nossa banda é uma coisa íntima, a gente tá junto há tempos para chegar a filha dele e ser a estrelinha. — disse a última palavra com certo desdém.
— Kaira, para de ser chata, o que que tem ter mais uma mulher na banda? Você não canta mesmo, e pelo menos eu posso fazer casal com alguém.
— Deu um pequeno soco no ombro de Adris.
— Não estou sendo chata, estou sendo racional. E se essa garota chega e começa a mandar, mudar nosso repertório…e até fala que você tem que tocar menos, Adris?
— Aí também não né, Kaira, tudo vai ser conversado. E outra, eu prefiro ela e o contrato, do que a gente sem contrato.
O silêncio se instaurou por um instante, os três se entreolharam sem nada dizer. Então tomou a iniciativa de falar.
— Eu assinei o contrato! — após dizer isso encontrou os olhos de Kaira, queria saber o que amiga achava de sua decisão.
— Aehh caralho — Adris o abraçou enquanto pulava. Depois o soltou e foi até um canto da garagem.
— E você, Kaira?
— Tá, tá bom. Melhor ter um contrato do que nada, né. — esboçou um sorriso.
Um barulho de algo se abrindo ecoou e logo a rolha disparada no ar bateu na perna de . Quando ele procurou em volta, viu o amigo bebendo no gargalo de um champanhe e se aproximando deles.
— Onde você conseguiu isso?
— Eu meio que já sabia que a gente ia conseguir, então antes de vir para cá, eu comprei.
— Isso é super caro. — disse a jovem, quando um amigo passou a garrafa para ela.
— Relaxa, gatinha, eu dividi no meu cartão que daqui alguns meses será premium platina black.
e Kaira se entreolharam e iniciaram uma gargalhada da felicidade do amigo. A tensão estourou junto com as bolhas de champanhe e os três tiveram certeza de que nada seria como antes