Capítulo 1
Eu poderia ficar olhando-o e ouvindo falar do quanto me amava por horas. Mas o meu coração estava apertado o suficiente para não conseguir verdadeiramente acreditar em suas palavras.
— Você tem que parar de falar essas coisas. — Então ele se calou e me olhou fixamente nos olhos.
Se alguns meses atrás me dissessem que eu receberia uma declaração de amor, com a luz da lua banhando nossas peles e a brisa cheirando a verbena, eu não acreditaria. E vivenciando isso agora, ainda custo a acreditar. Todos esses meses, eu trabalhei para ouvir isso, não foi? Eu não queria ser amada?
A próxima sensação que sinto depois desse momentâneo devaneio, é um líquido quente banhando meus pés e adentrando os meus dedos, levanto meu olhar e o vejo um pouco curvado, com uma mão sobre a barriga e a outra limpando a boca depois do breve vômito.
— Tá bom, hora de ir para casa. — Ele me olha de forma confusa, mas não diz nada, eu pego seu braço e passo pelo meu ombro, dentro de minutos ele adormece. Seria difícil de carregá-lo, mas hoje me dei o passe livre para utilizar meus dons, levanto meu dedo indicador e o movimento, fazendo-o levitar no ar atrás de mim.
Você deve estar se perguntando de que merda eu estou falando, quem eu sou, quem é esse vomitador de pés e porque caralhos tem uma pessoa levitando atrás de mim nessa história. O caminho vai ser longo até a minha casa, tempo suficiente para te explicar como eu vim parar aqui…
Bem vindos a Mount Desert, uma ilha da Nova Inglaterra, de paisagem deslumbrante e que, se caso você for uma pessoa interessada pelo mundo místico, já se tocou que aqui é o lar da lenda Maria Owens, que, no caso, é minha tataravó. Assim, dá para perceber que o poder está no sangue, tanto no meu, quanto nos das minhas outras cinco irmãs. Sou a sexta filha de Antonia Owens, conhecida como , a sorte da família.
Acordo no meio da noite e escuto a porta da varanda se abrir, e logo mais, um corpo iluminado apenas pela lua, adentra meu quarto, eu sorrio de canto… ele realmente veio. Jogo minhas cobertas no chão, me levanto e vou até ele. Passo meus braços em volta do seu pescoço e dou meu beijo mais apaixonado de todos. Porém, esse beijo é cortado quando ele me afasta de seu corpo, colocando as duas mãos em minha cintura e me afasta forçadamente.
Com esse movimento de Dylan, minha adrenalina e paixão se abaixam, e assim posso finalmente encarar o rosto do meu namorado. E me sinto confusa, porque diferente das outras vezes, eu não consigo decifrar o que há por trás da sua expressão, ele parece confuso, parece distante.
— Temos que conversar. —Ele é categórico, eu aceno com a cabeça e vou até a ponta da minha cama, me sento e bato com a mão sobre meu lençol para que ele também se sente. — , é jogo rápido. Eu gosto de você, mas acho que isso não tá rolando mais… eu não me sinto mais como antes.
— Como assim “isso”? Como “antes”? O que você tá querendo dizer, Dy?— Como ele tem coragem de chamar o nosso namoro de seis meses de “isso”, o que deu na cabeça dele? — Você está tentando terminar comigo?
— Entenda, querida… — Ele se senta ao meu lado, coloca o polegar sobre a minha bochecha e acaricia. — A gente tava se conhecendo e tava sendo muito legal. Mas agora não tá dando mais… deve ser alguma coisa comigo. — Eu desvio o olhar do dele, que merda, eu não posso estar passando por um término pela terceira vez só esse ano. — , eu te amo, não estou terminando com você por falta de sentimento. Estou terminando com você porque acho que não está funcionando como antes, não consigo me sentir conectado com você como antes, consegue entender?
Fico por um momento encarando-o, o quarto estaria em completo silêncio se não fosse por um besouro que chiava do lado de fora, em algum lugar. Meus olhos começam a arder e deixo que as minhas lágrimas escorram. Dylan desvia seu olhar de mim.
— Vai embora, ô babacão. — A voz de Nola se faz clara e firme. — Senão, eu juro para você que faço esse seu pinto murcho ficar menor do que já é, apenas com um estalar de dedos. — Então ela acende a luz do quarto e eu posso então ver o rosto do meu antigo namorado, sua feição é de medo/horror, mas nada de arrependimento ou tristeza. Definitivamente, o problema deve ser com ele, porque nesse momento, eu estou em prantos.
Ele se levanta, mas antes de sair por onde entrou, me olhou uma última vez e mandou um beijo pelo ar. Depois disso, escuto um estrondo e um pequeno grunhido, vejo Nola sorrir e sei que deve ser algum truque dela. Mas eu não me importo, ela então move sua mão e a porta da varanda fecha. Me encolho na cama e me deixo chorar.
— Ei, mana, não fica assim. — Sinto seu abraço caloroso sobre meu corpo, então ficamos nessa posição por um tempo. — Você sabe que sempre achei ele um chato né, fora que é super brega aquelas botas militar dele, isso só fica bom no Heath Ledger sendo o Patrick. — Eu rio dessa última frase, ela tinha razão, senso de moda era uma coisa que o Dylan não tinha.
O meu peito estava ardendo, por mais que uma coisa aconteça repetidamente na sua vida, isso não significa que você se acostume, crie uma casca ou se torne resistente. Porque, no final, toda a dor é única e nova, e me separar de Dylan era uma dor diferente das outras, isso eu não poderia negar. Ele era engraçado, tinha sido um grande amigo, para depois se tornar meu namorado. E, por fim, agora não era mais nada.
Sinto que, a cada término, eu vou deixando de existir um pouquinho, porque eu não entendo o que há de errado, será eu o problema? Será que a maldição sobre as Owens ainda perdura? Mas nada disso parece fazer sentido. Eu amei cada um deles, me doei, tentei ser a melhor… mas só isso não basta, ser eu não basta para que meus relacionamentos continuem. Gostaria de poder me congelar por um tempo e voltar só quando eu fosse madura, bem resolvida e amada por alguém.
Dylan Palasse e eu éramos amigos desde o maternal, era uma vida compartilhada. Mas foi apenas nesse último ano, depois do meu segundo namoro desfeito em abril, que ele resolveu se declarar. Me lembro que estávamos voltando para casa, eu chorava incessantemente por Kai, até que Dylan me beijou e todos meus caquinhos se colaram.
Em menos de uma semana, estávamos namorando. Ele era companheiro, compreensivo, eu me sentia feliz ao seu lado. Mas nada de coração disparado ou mãos geladas. Era apenas um conforto e agora eu estava desconfortável demais.
Escuto os barulhos matinais, torneiras abertas, a chaleira assobiando, minhas irmãs falando. Mas eu não quero me levantar, não quero fazer nada, quero apenas fugir de mim e de todos esses sentimentos. Nola pula na minha cama, finjo que não acordei, mas isso não é o suficiente para minha irmã.
— Hey, maninha, vamos levantar. Hoje tem prova e macarrão com queijo de almoço. — Ela me dá essas informações em uma tentativa de me animar. Se não fosse pela prova de biologia, eu me daria o direito de faltar. Saio debaixo das cobertas e encaro a menina à minha frente, que logo demonstra uma feição de estranhamento para mim.
— Meu Deus, você está péssima. — Ela se levanta e abre a porta, indo rumo ao banheiro. Antes de sair por completo do quarto, ela me advertiu. — Mais dois minutos nessa cama, você começa a fazer parte dela e vai se atrasar para a aula.
Pegamos uma carona com Olivia, minha outra irmã, durante o caminho, elas me informam sobre os preparativos do casamento de Astoria e Théa, minhas outras duas irmãs, que resolveram fazer seus respectivos casamentos juntas. O que me faz refletir o quanto elas são sortudas, porque Astoria e Théa vão casar com seus namorados de infância, Olivia está há dois anos com Charles e estão combinando de morarem juntos. E mesmo que Nola não fale, sei que deve estar com algum carinha lá do colégio.
E eu estou aqui, com o rosto colado no vidro do carro, passando pelo terceiro término esse ano. Acho que realmente eu vou ter que buscar a terapia, porque estou começando a crer que o problema de tudo isso sou eu. Eu sinto que algo dói dentro de mim, mas não sei se é necessariamente por ter terminado, ou por perceber que talvez eu consiga sobreviver sem ele e que ele não seja realmente alguém que eu amava de todo coração.
Será que para ficar com alguém, a gente tem que amar de todo o coração?
— O que ela tem? — Olivia pergunta para Nola, sobre mim. E sei que ela faz isso, porque sabe que ninguém me conhece mais que Nola.
— De forma simples — minha irmã informa — outro término. Mas ela vai ficar bem. Você tá me ouvindo? — Nola chama a minha atenção, se virando um pouco para me observar no banco de trás. — Tem como me emprestar uma grana?
— Você não recebeu sua mesada essa semana? —Meus pais sempre nos deram mesada, para que, de alguma forma, a gente criasse certo tipo de responsabilidade sobre o dinheiro… Bom, era o que eles esperavam, mas não o que Nola faz. Ela sempre acaba fazendo pequenos empréstimos, mas nunca tão no começo do mês assim.
— Vai me emprestar ou não? — Ela continua me olhando, mas agora de uma forma impaciente.
— Porque você precisa de tanto dinheiro assim? — Minha irmã, Olivia, indaga. Vejo Nola rolar os olhos, então ela se vira para frente e cruza os braços.
— Para nada, esquece. — Então ela se pronuncia de uma forma para que o assunto se encerre ali.
Eu passo pelas minhas primeiras aulas realmente focada. Durante meu breve intervalo, resolvi permanecer em sala e revisar alguns conceitos finais para a prova de biologia.
— Para que tantos filos? Fala sério, que merda. — Digo a mim mesma, por perceber pela quarta vez que sempre esqueço o nome de algum. Tento me concentrar mais uma vez para tentar decorar a sequência, mas se torna impossível quando tem um caso de família rolando do lado de fora.
Desisto, me levanto e me aproximo da porta da sala para ouvir a pequena discussão, que se torna cada vez mais calorosa do lado de fora. Não que seja novidade para mim, mas me surpreendo quando reconheço a voz de , por que merda eles estão brigando de novo?
— Eu não estou falando que não quero ir, só estou pedindo para que você espere eu sair do trabalho. — Ele gesticula de forma insistente com as mãos, sinal de que ele está a ponto de explodir. — Será que, pelo menos uma vez na vida, você consegue fazer alguma coisa sem ser do seu jeito, Di?
— Olha, se eu realmente fosse querer as coisas do meu jeito, você nem estaria trabalhando naquela porra. E segundo que eu não vou chegar atrasada de novo em uma festa para você chegar fedendo a gordura. — A garota se encosta em um armário. — O que custa você pedir para sair mais cedo? — Ela oferece uma solução simples e vejo revirar os olhos.
— Porque eu já pedi dispensa mais cedo nas últimas seis semanas que se passaram. Não sei se você se lembra. Fora que essas saídas mais cedo eles descontam do meu salário, Diana.
— Pede mais uma vez. — Ela dá de ombros para ele, então se endireita e fica frente a frente com o menino. Em uma passada rápida de olhos por cima do ombro do namorado, o meu olhar e do Diana se encontram. Merda! — Temos plateia. — Ela indica com a cabeça para ele que se vira e também me encara. Agora descoberta e sem graça, resolvo disfarçar. Abro a porta e finjo ir ao banheiro. —Não precisa disfarçar. Owens, que você é bruxa eu já sei, mas que é stalker é nova pra mim. — Ela esboça um sorriso cínico.
— Bom dia para vocês também, casal. — Enfatizo a palavra “casal” porque eles estão mais para inimigos em guerra.
— Bom dia, . — Ouço dizer de forma envergonhada antes que eu feche a porta do banheiro.
Inicio passos rápidos para o caminho de casa, preciso da minha cama e da minha manta conforto. Estou prestes a colocar meus fones, quando ouço alguém me chamando.
— , … — Chama quase sem fôlego, correndo em minha direção. Quando se aproxima de mim, coloca a mão sobre meu ombro e puxa um pouco de ar. — Primeiro, eu queria te pedir desculpas por hoje mais cedo, você sabe às vezes a Di é meio…
— Babaca. — Completo a frase de e inicio uma caminhada acompanhada por ele. — Relaxa, você sabe que eu não ligo para ela. Nem para as ironias de quinto ano dela. — Isso é verdade, a Diana não é uma patricinha chata de filme, ela só tem um ciúmes doentio do , que faz ela agir desse jeito babaca. Mas teve uma época caótica que a gente foi até parceira de grupo de laboratório. — Mas me diz: como foi na prova hoje? Aquele esquema que eu te passei ajudou?
— Sim, me ajudou muito, vim também te agradecer. — Ele me dá um abraço de lado, meio desajeitado. — Nem acredito que vou passar nessa matéria sem precisar fazer reavaliação. Ah… última coisa que eu queria te falar é que vamos ter que desmarcar nossa sessão de estudos de amanhã. — Ele diz de uma forma meio desanimada. — Acabou que depois do trabalho eu vou ter uma festa…
— Ela te convenceu mesmo, hein. —Se tinha uma pessoa que conseguia convencer o , era a Diana. Eu ainda ficava assustada do poder dela sobre ele. Eu quero um dia ser apaixonada, mas que não seja nesse nível, por favor. — Não tem problema, mas fica esperto para não acabar acumulando tudo como da última vez.
— Pode deixar, — diz, batendo uma continência, e eu solto um pequeno riso. — Diana me prometeu que vai ser mais compreensiva e essa será nossa última festa esse mês. — Ele parece realmente acreditar nessa promessa. Ainda há muita inocência neste mundo.
— Se você diz… — Dou de ombros e me despeço, seguindo meu caminho.
— Você tem que parar de falar essas coisas. — Então ele se calou e me olhou fixamente nos olhos.
Se alguns meses atrás me dissessem que eu receberia uma declaração de amor, com a luz da lua banhando nossas peles e a brisa cheirando a verbena, eu não acreditaria. E vivenciando isso agora, ainda custo a acreditar. Todos esses meses, eu trabalhei para ouvir isso, não foi? Eu não queria ser amada?
A próxima sensação que sinto depois desse momentâneo devaneio, é um líquido quente banhando meus pés e adentrando os meus dedos, levanto meu olhar e o vejo um pouco curvado, com uma mão sobre a barriga e a outra limpando a boca depois do breve vômito.
— Tá bom, hora de ir para casa. — Ele me olha de forma confusa, mas não diz nada, eu pego seu braço e passo pelo meu ombro, dentro de minutos ele adormece. Seria difícil de carregá-lo, mas hoje me dei o passe livre para utilizar meus dons, levanto meu dedo indicador e o movimento, fazendo-o levitar no ar atrás de mim.
Você deve estar se perguntando de que merda eu estou falando, quem eu sou, quem é esse vomitador de pés e porque caralhos tem uma pessoa levitando atrás de mim nessa história. O caminho vai ser longo até a minha casa, tempo suficiente para te explicar como eu vim parar aqui…
Bem vindos a Mount Desert, uma ilha da Nova Inglaterra, de paisagem deslumbrante e que, se caso você for uma pessoa interessada pelo mundo místico, já se tocou que aqui é o lar da lenda Maria Owens, que, no caso, é minha tataravó. Assim, dá para perceber que o poder está no sangue, tanto no meu, quanto nos das minhas outras cinco irmãs. Sou a sexta filha de Antonia Owens, conhecida como , a sorte da família.
Acordo no meio da noite e escuto a porta da varanda se abrir, e logo mais, um corpo iluminado apenas pela lua, adentra meu quarto, eu sorrio de canto… ele realmente veio. Jogo minhas cobertas no chão, me levanto e vou até ele. Passo meus braços em volta do seu pescoço e dou meu beijo mais apaixonado de todos. Porém, esse beijo é cortado quando ele me afasta de seu corpo, colocando as duas mãos em minha cintura e me afasta forçadamente.
Com esse movimento de Dylan, minha adrenalina e paixão se abaixam, e assim posso finalmente encarar o rosto do meu namorado. E me sinto confusa, porque diferente das outras vezes, eu não consigo decifrar o que há por trás da sua expressão, ele parece confuso, parece distante.
— Temos que conversar. —Ele é categórico, eu aceno com a cabeça e vou até a ponta da minha cama, me sento e bato com a mão sobre meu lençol para que ele também se sente. — , é jogo rápido. Eu gosto de você, mas acho que isso não tá rolando mais… eu não me sinto mais como antes.
— Como assim “isso”? Como “antes”? O que você tá querendo dizer, Dy?— Como ele tem coragem de chamar o nosso namoro de seis meses de “isso”, o que deu na cabeça dele? — Você está tentando terminar comigo?
— Entenda, querida… — Ele se senta ao meu lado, coloca o polegar sobre a minha bochecha e acaricia. — A gente tava se conhecendo e tava sendo muito legal. Mas agora não tá dando mais… deve ser alguma coisa comigo. — Eu desvio o olhar do dele, que merda, eu não posso estar passando por um término pela terceira vez só esse ano. — , eu te amo, não estou terminando com você por falta de sentimento. Estou terminando com você porque acho que não está funcionando como antes, não consigo me sentir conectado com você como antes, consegue entender?
Fico por um momento encarando-o, o quarto estaria em completo silêncio se não fosse por um besouro que chiava do lado de fora, em algum lugar. Meus olhos começam a arder e deixo que as minhas lágrimas escorram. Dylan desvia seu olhar de mim.
— Vai embora, ô babacão. — A voz de Nola se faz clara e firme. — Senão, eu juro para você que faço esse seu pinto murcho ficar menor do que já é, apenas com um estalar de dedos. — Então ela acende a luz do quarto e eu posso então ver o rosto do meu antigo namorado, sua feição é de medo/horror, mas nada de arrependimento ou tristeza. Definitivamente, o problema deve ser com ele, porque nesse momento, eu estou em prantos.
Ele se levanta, mas antes de sair por onde entrou, me olhou uma última vez e mandou um beijo pelo ar. Depois disso, escuto um estrondo e um pequeno grunhido, vejo Nola sorrir e sei que deve ser algum truque dela. Mas eu não me importo, ela então move sua mão e a porta da varanda fecha. Me encolho na cama e me deixo chorar.
— Ei, mana, não fica assim. — Sinto seu abraço caloroso sobre meu corpo, então ficamos nessa posição por um tempo. — Você sabe que sempre achei ele um chato né, fora que é super brega aquelas botas militar dele, isso só fica bom no Heath Ledger sendo o Patrick. — Eu rio dessa última frase, ela tinha razão, senso de moda era uma coisa que o Dylan não tinha.
O meu peito estava ardendo, por mais que uma coisa aconteça repetidamente na sua vida, isso não significa que você se acostume, crie uma casca ou se torne resistente. Porque, no final, toda a dor é única e nova, e me separar de Dylan era uma dor diferente das outras, isso eu não poderia negar. Ele era engraçado, tinha sido um grande amigo, para depois se tornar meu namorado. E, por fim, agora não era mais nada.
Sinto que, a cada término, eu vou deixando de existir um pouquinho, porque eu não entendo o que há de errado, será eu o problema? Será que a maldição sobre as Owens ainda perdura? Mas nada disso parece fazer sentido. Eu amei cada um deles, me doei, tentei ser a melhor… mas só isso não basta, ser eu não basta para que meus relacionamentos continuem. Gostaria de poder me congelar por um tempo e voltar só quando eu fosse madura, bem resolvida e amada por alguém.
Dylan Palasse e eu éramos amigos desde o maternal, era uma vida compartilhada. Mas foi apenas nesse último ano, depois do meu segundo namoro desfeito em abril, que ele resolveu se declarar. Me lembro que estávamos voltando para casa, eu chorava incessantemente por Kai, até que Dylan me beijou e todos meus caquinhos se colaram.
Em menos de uma semana, estávamos namorando. Ele era companheiro, compreensivo, eu me sentia feliz ao seu lado. Mas nada de coração disparado ou mãos geladas. Era apenas um conforto e agora eu estava desconfortável demais.
Escuto os barulhos matinais, torneiras abertas, a chaleira assobiando, minhas irmãs falando. Mas eu não quero me levantar, não quero fazer nada, quero apenas fugir de mim e de todos esses sentimentos. Nola pula na minha cama, finjo que não acordei, mas isso não é o suficiente para minha irmã.
— Hey, maninha, vamos levantar. Hoje tem prova e macarrão com queijo de almoço. — Ela me dá essas informações em uma tentativa de me animar. Se não fosse pela prova de biologia, eu me daria o direito de faltar. Saio debaixo das cobertas e encaro a menina à minha frente, que logo demonstra uma feição de estranhamento para mim.
— Meu Deus, você está péssima. — Ela se levanta e abre a porta, indo rumo ao banheiro. Antes de sair por completo do quarto, ela me advertiu. — Mais dois minutos nessa cama, você começa a fazer parte dela e vai se atrasar para a aula.
Pegamos uma carona com Olivia, minha outra irmã, durante o caminho, elas me informam sobre os preparativos do casamento de Astoria e Théa, minhas outras duas irmãs, que resolveram fazer seus respectivos casamentos juntas. O que me faz refletir o quanto elas são sortudas, porque Astoria e Théa vão casar com seus namorados de infância, Olivia está há dois anos com Charles e estão combinando de morarem juntos. E mesmo que Nola não fale, sei que deve estar com algum carinha lá do colégio.
E eu estou aqui, com o rosto colado no vidro do carro, passando pelo terceiro término esse ano. Acho que realmente eu vou ter que buscar a terapia, porque estou começando a crer que o problema de tudo isso sou eu. Eu sinto que algo dói dentro de mim, mas não sei se é necessariamente por ter terminado, ou por perceber que talvez eu consiga sobreviver sem ele e que ele não seja realmente alguém que eu amava de todo coração.
Será que para ficar com alguém, a gente tem que amar de todo o coração?
— O que ela tem? — Olivia pergunta para Nola, sobre mim. E sei que ela faz isso, porque sabe que ninguém me conhece mais que Nola.
— De forma simples — minha irmã informa — outro término. Mas ela vai ficar bem. Você tá me ouvindo? — Nola chama a minha atenção, se virando um pouco para me observar no banco de trás. — Tem como me emprestar uma grana?
— Você não recebeu sua mesada essa semana? —Meus pais sempre nos deram mesada, para que, de alguma forma, a gente criasse certo tipo de responsabilidade sobre o dinheiro… Bom, era o que eles esperavam, mas não o que Nola faz. Ela sempre acaba fazendo pequenos empréstimos, mas nunca tão no começo do mês assim.
— Vai me emprestar ou não? — Ela continua me olhando, mas agora de uma forma impaciente.
— Porque você precisa de tanto dinheiro assim? — Minha irmã, Olivia, indaga. Vejo Nola rolar os olhos, então ela se vira para frente e cruza os braços.
— Para nada, esquece. — Então ela se pronuncia de uma forma para que o assunto se encerre ali.
Eu passo pelas minhas primeiras aulas realmente focada. Durante meu breve intervalo, resolvi permanecer em sala e revisar alguns conceitos finais para a prova de biologia.
— Para que tantos filos? Fala sério, que merda. — Digo a mim mesma, por perceber pela quarta vez que sempre esqueço o nome de algum. Tento me concentrar mais uma vez para tentar decorar a sequência, mas se torna impossível quando tem um caso de família rolando do lado de fora.
Desisto, me levanto e me aproximo da porta da sala para ouvir a pequena discussão, que se torna cada vez mais calorosa do lado de fora. Não que seja novidade para mim, mas me surpreendo quando reconheço a voz de , por que merda eles estão brigando de novo?
— Eu não estou falando que não quero ir, só estou pedindo para que você espere eu sair do trabalho. — Ele gesticula de forma insistente com as mãos, sinal de que ele está a ponto de explodir. — Será que, pelo menos uma vez na vida, você consegue fazer alguma coisa sem ser do seu jeito, Di?
— Olha, se eu realmente fosse querer as coisas do meu jeito, você nem estaria trabalhando naquela porra. E segundo que eu não vou chegar atrasada de novo em uma festa para você chegar fedendo a gordura. — A garota se encosta em um armário. — O que custa você pedir para sair mais cedo? — Ela oferece uma solução simples e vejo revirar os olhos.
— Porque eu já pedi dispensa mais cedo nas últimas seis semanas que se passaram. Não sei se você se lembra. Fora que essas saídas mais cedo eles descontam do meu salário, Diana.
— Pede mais uma vez. — Ela dá de ombros para ele, então se endireita e fica frente a frente com o menino. Em uma passada rápida de olhos por cima do ombro do namorado, o meu olhar e do Diana se encontram. Merda! — Temos plateia. — Ela indica com a cabeça para ele que se vira e também me encara. Agora descoberta e sem graça, resolvo disfarçar. Abro a porta e finjo ir ao banheiro. —Não precisa disfarçar. Owens, que você é bruxa eu já sei, mas que é stalker é nova pra mim. — Ela esboça um sorriso cínico.
— Bom dia para vocês também, casal. — Enfatizo a palavra “casal” porque eles estão mais para inimigos em guerra.
— Bom dia, . — Ouço dizer de forma envergonhada antes que eu feche a porta do banheiro.
Inicio passos rápidos para o caminho de casa, preciso da minha cama e da minha manta conforto. Estou prestes a colocar meus fones, quando ouço alguém me chamando.
— , … — Chama quase sem fôlego, correndo em minha direção. Quando se aproxima de mim, coloca a mão sobre meu ombro e puxa um pouco de ar. — Primeiro, eu queria te pedir desculpas por hoje mais cedo, você sabe às vezes a Di é meio…
— Babaca. — Completo a frase de e inicio uma caminhada acompanhada por ele. — Relaxa, você sabe que eu não ligo para ela. Nem para as ironias de quinto ano dela. — Isso é verdade, a Diana não é uma patricinha chata de filme, ela só tem um ciúmes doentio do , que faz ela agir desse jeito babaca. Mas teve uma época caótica que a gente foi até parceira de grupo de laboratório. — Mas me diz: como foi na prova hoje? Aquele esquema que eu te passei ajudou?
— Sim, me ajudou muito, vim também te agradecer. — Ele me dá um abraço de lado, meio desajeitado. — Nem acredito que vou passar nessa matéria sem precisar fazer reavaliação. Ah… última coisa que eu queria te falar é que vamos ter que desmarcar nossa sessão de estudos de amanhã. — Ele diz de uma forma meio desanimada. — Acabou que depois do trabalho eu vou ter uma festa…
— Ela te convenceu mesmo, hein. —Se tinha uma pessoa que conseguia convencer o , era a Diana. Eu ainda ficava assustada do poder dela sobre ele. Eu quero um dia ser apaixonada, mas que não seja nesse nível, por favor. — Não tem problema, mas fica esperto para não acabar acumulando tudo como da última vez.
— Pode deixar, — diz, batendo uma continência, e eu solto um pequeno riso. — Diana me prometeu que vai ser mais compreensiva e essa será nossa última festa esse mês. — Ele parece realmente acreditar nessa promessa. Ainda há muita inocência neste mundo.
— Se você diz… — Dou de ombros e me despeço, seguindo meu caminho.