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Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 27/02/2026

Eu poderia ficar olhando-o e ouvindo falar do quanto me amava por horas. Mas o meu coração estava apertado o suficiente para não conseguir verdadeiramente acreditar em suas palavras.
— Você tem que parar de falar essas coisas. — Então ele se calou e me olhou fixamente nos olhos.
Se alguns meses atrás me dissessem que eu receberia uma declaração de amor, com a luz da lua banhando nossas peles e a brisa cheirando a verbena, eu não acreditaria. E vivenciando isso agora, ainda custo a acreditar. Todos esses meses, eu trabalhei para ouvir isso, não foi? Eu não queria ser amada?
A próxima sensação que sinto depois desse momentâneo devaneio, é um líquido quente banhando meus pés e adentrando os meus dedos, levanto meu olhar e o vejo um pouco curvado, com uma mão sobre a barriga e a outra limpando a boca depois do breve vômito.
— Tá bom, hora de ir para casa. — Ele me olha de forma confusa, mas não diz nada, eu pego seu braço e passo pelo meu ombro, dentro de minutos ele adormece. Seria difícil de carregá-lo, mas hoje me dei o passe livre para utilizar meus dons, levanto meu dedo indicador e o movimento, fazendo-o levitar no ar atrás de mim.
Você deve estar se perguntando de que merda eu estou falando, quem eu sou, quem é esse vomitador de pés e porque caralhos tem uma pessoa levitando atrás de mim nessa história. O caminho vai ser longo até a minha casa, tempo suficiente para te explicar como eu vim parar aqui…
Bem vindos a Mount Desert, uma ilha da Nova Inglaterra, de paisagem deslumbrante e que, se caso você for uma pessoa interessada pelo mundo místico, já se tocou que aqui é o lar da lenda Maria Owens, que, no caso, é minha tataravó. Assim, dá para perceber que o poder está no sangue, tanto no meu, quanto nos das minhas outras cinco irmãs. Sou a sexta filha de Antonia Owens, conhecida como , a sorte da família.
Acordo no meio da noite e escuto a porta da varanda se abrir, e logo mais, um corpo iluminado apenas pela lua, adentra meu quarto, eu sorrio de canto… ele realmente veio. Jogo minhas cobertas no chão, me levanto e vou até ele. Passo meus braços em volta do seu pescoço e dou meu beijo mais apaixonado de todos. Porém, esse beijo é cortado quando ele me afasta de seu corpo, colocando as duas mãos em minha cintura e me afasta forçadamente.
Com esse movimento de Dylan, minha adrenalina e paixão se abaixam, e assim posso finalmente encarar o rosto do meu namorado. E me sinto confusa, porque diferente das outras vezes, eu não consigo decifrar o que há por trás da sua expressão, ele parece confuso, parece distante.
— Temos que conversar. —Ele é categórico, eu aceno com a cabeça e vou até a ponta da minha cama, me sento e bato com a mão sobre meu lençol para que ele também se sente. — , é jogo rápido. Eu gosto de você, mas acho que isso não tá rolando mais… eu não me sinto mais como antes.
— Como assim “isso”? Como “antes”? O que você tá querendo dizer, Dy?— Como ele tem coragem de chamar o nosso namoro de seis meses de “isso”, o que deu na cabeça dele? — Você está tentando terminar comigo?
— Entenda, querida… — Ele se senta ao meu lado, coloca o polegar sobre a minha bochecha e acaricia. — A gente tava se conhecendo e tava sendo muito legal. Mas agora não tá dando mais… deve ser alguma coisa comigo. — Eu desvio o olhar do dele, que merda, eu não posso estar passando por um término pela terceira vez só esse ano. — , eu te amo, não estou terminando com você por falta de sentimento. Estou terminando com você porque acho que não está funcionando como antes, não consigo me sentir conectado com você como antes, consegue entender?
Fico por um momento encarando-o, o quarto estaria em completo silêncio se não fosse por um besouro que chiava do lado de fora, em algum lugar. Meus olhos começam a arder e deixo que as minhas lágrimas escorram. Dylan desvia seu olhar de mim.
— Vai embora, ô babacão. — A voz de Nola se faz clara e firme. — Senão, eu juro para você que faço esse seu pinto murcho ficar menor do que já é, apenas com um estalar de dedos. — Então ela acende a luz do quarto e eu posso então ver o rosto do meu antigo namorado, sua feição é de medo/horror, mas nada de arrependimento ou tristeza. Definitivamente, o problema deve ser com ele, porque nesse momento, eu estou em prantos.
Ele se levanta, mas antes de sair por onde entrou, me olhou uma última vez e mandou um beijo pelo ar. Depois disso, escuto um estrondo e um pequeno grunhido, vejo Nola sorrir e sei que deve ser algum truque dela. Mas eu não me importo, ela então move sua mão e a porta da varanda fecha. Me encolho na cama e me deixo chorar.
— Ei, mana, não fica assim. — Sinto seu abraço caloroso sobre meu corpo, então ficamos nessa posição por um tempo. — Você sabe que sempre achei ele um chato né, fora que é super brega aquelas botas militar dele, isso só fica bom no Heath Ledger sendo o Patrick. — Eu rio dessa última frase, ela tinha razão, senso de moda era uma coisa que o Dylan não tinha.
O meu peito estava ardendo, por mais que uma coisa aconteça repetidamente na sua vida, isso não significa que você se acostume, crie uma casca ou se torne resistente. Porque, no final, toda a dor é única e nova, e me separar de Dylan era uma dor diferente das outras, isso eu não poderia negar. Ele era engraçado, tinha sido um grande amigo, para depois se tornar meu namorado. E, por fim, agora não era mais nada.
Sinto que, a cada término, eu vou deixando de existir um pouquinho, porque eu não entendo o que há de errado, será eu o problema? Será que a maldição sobre as Owens ainda perdura? Mas nada disso parece fazer sentido. Eu amei cada um deles, me doei, tentei ser a melhor… mas só isso não basta, ser eu não basta para que meus relacionamentos continuem. Gostaria de poder me congelar por um tempo e voltar só quando eu fosse madura, bem resolvida e amada por alguém.
Dylan Palasse e eu éramos amigos desde o maternal, era uma vida compartilhada. Mas foi apenas nesse último ano, depois do meu segundo namoro desfeito em abril, que ele resolveu se declarar. Me lembro que estávamos voltando para casa, eu chorava incessantemente por Kai, até que Dylan me beijou e todos meus caquinhos se colaram.
Em menos de uma semana, estávamos namorando. Ele era companheiro, compreensivo, eu me sentia feliz ao seu lado. Mas nada de coração disparado ou mãos geladas. Era apenas um conforto e agora eu estava desconfortável demais.
Escuto os barulhos matinais, torneiras abertas, a chaleira assobiando, minhas irmãs falando. Mas eu não quero me levantar, não quero fazer nada, quero apenas fugir de mim e de todos esses sentimentos. Nola pula na minha cama, finjo que não acordei, mas isso não é o suficiente para minha irmã.
— Hey, maninha, vamos levantar. Hoje tem prova e macarrão com queijo de almoço. — Ela me dá essas informações em uma tentativa de me animar. Se não fosse pela prova de biologia, eu me daria o direito de faltar. Saio debaixo das cobertas e encaro a menina à minha frente, que logo demonstra uma feição de estranhamento para mim.
— Meu Deus, você está péssima. — Ela se levanta e abre a porta, indo rumo ao banheiro. Antes de sair por completo do quarto, ela me advertiu. — Mais dois minutos nessa cama, você começa a fazer parte dela e vai se atrasar para a aula.
Pegamos uma carona com Olivia, minha outra irmã, durante o caminho, elas me informam sobre os preparativos do casamento de Astoria e Théa, minhas outras duas irmãs, que resolveram fazer seus respectivos casamentos juntas. O que me faz refletir o quanto elas são sortudas, porque Astoria e Théa vão casar com seus namorados de infância, Olivia está há dois anos com Charles e estão combinando de morarem juntos. E mesmo que Nola não fale, sei que deve estar com algum carinha lá do colégio.
E eu estou aqui, com o rosto colado no vidro do carro, passando pelo terceiro término esse ano. Acho que realmente eu vou ter que buscar a terapia, porque estou começando a crer que o problema de tudo isso sou eu. Eu sinto que algo dói dentro de mim, mas não sei se é necessariamente por ter terminado, ou por perceber que talvez eu consiga sobreviver sem ele e que ele não seja realmente alguém que eu amava de todo coração.
Será que para ficar com alguém, a gente tem que amar de todo o coração?
— O que ela tem? — Olivia pergunta para Nola, sobre mim. E sei que ela faz isso, porque sabe que ninguém me conhece mais que Nola.
— De forma simples — minha irmã informa — outro término. Mas ela vai ficar bem. Você tá me ouvindo? — Nola chama a minha atenção, se virando um pouco para me observar no banco de trás. — Tem como me emprestar uma grana?
— Você não recebeu sua mesada essa semana? —Meus pais sempre nos deram mesada, para que, de alguma forma, a gente criasse certo tipo de responsabilidade sobre o dinheiro… Bom, era o que eles esperavam, mas não o que Nola faz. Ela sempre acaba fazendo pequenos empréstimos, mas nunca tão no começo do mês assim.
— Vai me emprestar ou não? — Ela continua me olhando, mas agora de uma forma impaciente.
— Porque você precisa de tanto dinheiro assim? — Minha irmã, Olivia, indaga. Vejo Nola rolar os olhos, então ela se vira para frente e cruza os braços.
— Para nada, esquece. — Então ela se pronuncia de uma forma para que o assunto se encerre ali.
Eu passo pelas minhas primeiras aulas realmente focada. Durante meu breve intervalo, resolvi permanecer em sala e revisar alguns conceitos finais para a prova de biologia.
— Para que tantos filos? Fala sério, que merda. — Digo a mim mesma, por perceber pela quarta vez que sempre esqueço o nome de algum. Tento me concentrar mais uma vez para tentar decorar a sequência, mas se torna impossível quando tem um caso de família rolando do lado de fora.
Desisto, me levanto e me aproximo da porta da sala para ouvir a pequena discussão, que se torna cada vez mais calorosa do lado de fora. Não que seja novidade para mim, mas me surpreendo quando reconheço a voz de , por que merda eles estão brigando de novo?
— Eu não estou falando que não quero ir, só estou pedindo para que você espere eu sair do trabalho. — Ele gesticula de forma insistente com as mãos, sinal de que ele está a ponto de explodir. — Será que, pelo menos uma vez na vida, você consegue fazer alguma coisa sem ser do seu jeito, Di?
— Olha, se eu realmente fosse querer as coisas do meu jeito, você nem estaria trabalhando naquela porra. E segundo que eu não vou chegar atrasada de novo em uma festa para você chegar fedendo a gordura. — A garota se encosta em um armário. — O que custa você pedir para sair mais cedo? — Ela oferece uma solução simples e vejo revirar os olhos.
— Porque eu já pedi dispensa mais cedo nas últimas seis semanas que se passaram. Não sei se você se lembra. Fora que essas saídas mais cedo eles descontam do meu salário, Diana.
— Pede mais uma vez. — Ela dá de ombros para ele, então se endireita e fica frente a frente com o menino. Em uma passada rápida de olhos por cima do ombro do namorado, o meu olhar e do Diana se encontram. Merda! — Temos plateia. — Ela indica com a cabeça para ele que se vira e também me encara. Agora descoberta e sem graça, resolvo disfarçar. Abro a porta e finjo ir ao banheiro. —Não precisa disfarçar. Owens, que você é bruxa eu já sei, mas que é stalker é nova pra mim. — Ela esboça um sorriso cínico.
— Bom dia para vocês também, casal. — Enfatizo a palavra “casal” porque eles estão mais para inimigos em guerra.
— Bom dia, . — Ouço dizer de forma envergonhada antes que eu feche a porta do banheiro.
Inicio passos rápidos para o caminho de casa, preciso da minha cama e da minha manta conforto. Estou prestes a colocar meus fones, quando ouço alguém me chamando.
, … — Chama quase sem fôlego, correndo em minha direção. Quando se aproxima de mim, coloca a mão sobre meu ombro e puxa um pouco de ar. — Primeiro, eu queria te pedir desculpas por hoje mais cedo, você sabe às vezes a Di é meio…
— Babaca. — Completo a frase de e inicio uma caminhada acompanhada por ele. — Relaxa, você sabe que eu não ligo para ela. Nem para as ironias de quinto ano dela. — Isso é verdade, a Diana não é uma patricinha chata de filme, ela só tem um ciúmes doentio do , que faz ela agir desse jeito babaca. Mas teve uma época caótica que a gente foi até parceira de grupo de laboratório. — Mas me diz: como foi na prova hoje? Aquele esquema que eu te passei ajudou?
— Sim, me ajudou muito, vim também te agradecer. — Ele me dá um abraço de lado, meio desajeitado. — Nem acredito que vou passar nessa matéria sem precisar fazer reavaliação. Ah… última coisa que eu queria te falar é que vamos ter que desmarcar nossa sessão de estudos de amanhã. — Ele diz de uma forma meio desanimada. — Acabou que depois do trabalho eu vou ter uma festa…
— Ela te convenceu mesmo, hein. —Se tinha uma pessoa que conseguia convencer o , era a Diana. Eu ainda ficava assustada do poder dela sobre ele. Eu quero um dia ser apaixonada, mas que não seja nesse nível, por favor. — Não tem problema, mas fica esperto para não acabar acumulando tudo como da última vez.
— Pode deixar, — diz, batendo uma continência, e eu solto um pequeno riso. — Diana me prometeu que vai ser mais compreensiva e essa será nossa última festa esse mês. — Ele parece realmente acreditar nessa promessa. Ainda há muita inocência neste mundo.
— Se você diz… — Dou de ombros e me despeço, seguindo meu caminho.


Era sábado e meus únicos planos eram dormir, dormir e maratonar filmes de romance clichê. Porém, os meus planos foram interrompidos no primeiro item da lista. Eu me viro de um lado, viro para outro, tentando me concentrar no sono, mas minha concentração sempre é interrompida por barulhos vindo do sótão.
O que é estranho, porque ainda não estamos trocando de estação para minha mãe querer fazer esse tipo de faxina… então porque caralhos estão mexendo no sótão? Por que o sótão tinha que estar bem acima do meu quarto?
Me dou por vencida e me levanto, encaro a cama ao meu lado e percebo que ela já está feita. O que é estranho, porque Nola nunca levanta cedo aos finais de semana. Caminho pelo corredor, subo uma pequena escada, e dos degraus finais já avisto algumas coisas jogadas na porta do local, algumas caixas, roupas, brinquedos.
Quando enfim adentro o cômodo, vejo suas janelas todas abertas e minha irmã, Nola, enfiada em meio a bagunça. Ela percebe minha presença, levanta a cabeça e me dá um sorriso sapeca.
— Bom dia. — A pouca atenção que recebo já se volta novamente para a caixa à sua frente. — Tá afim de me ajudar?
— O que te deu, para vir mexer aqui em pleno sábado? — Eu me aproximo, observando as coisas envolta dela, o que evidencia que ela começou muito mais cedo do que eu imaginava.
— Estou procurando um caderno… — Nola observa atentamente uma caderneta em sua mão, folheia rapidamente e a joga do meu lado. — É um caderno antigo da mamãe, preciso dele. — Me agacho junto a ela e começo a procurar em uma caixa que antes estava fechada. — Ele é de tamanho médio, tem uns detalhes azuis na capa. — Ela continua vasculhando, enquanto me dá algumas informações. — Você vai no ensaio de casamento hoje à tarde, né? — Nesse momento, sinto que ela apenas está afirmando e não me consultando. O problema é que eu nem lembrava desse ensaio. — A gente falou sobre isso a semana toda com você.
— Será que eu preciso mesmo ir? — Era bom estar reunida com todas as minhas irmãs juntas, mas o fato agora era que eu não tinha mais parceiro, quem ia aos ensaios comigo era Dylan e isso ainda me incomoda.
— Claro que precisa, são as suas irmãs que vão casar.
— O Dylan vai estar lá? — Minha pergunta é feita em tom de receio, porque ao mesmo tempo, eu quero que ele esteja. Sei que quero sua presença para confirmar, que ele também está mal com o término e caso eu perceba que ele não está mal, eu vou ficar ainda mais arrasada.
— Você é engraçada, né… Há seis meses atrás, você literalmente implorou para que Astória e Thea chamasse esse cara. E agora está evitando suas irmãs, porque esse cara vai estar lá. — Nola me encara de forma repreensiva, e sei bem o motivo. — Como boa irmã, liguei para o Dylan educadamente e informei que ele poderia ir, mas não era mais padrinho pelos motivos certos. — Concordo com a cabeça, porque mesmo dentro de suas broncas, Nola de alguma forma sempre me conforta. — ACHEI. — Nola dá um salto, mostrando sua empolgação. A vejo sair correndo do cômodo, com o tal caderninho da mamãe.
Astória e Thea estão cada dia mais ansiosas e mais lindas. Eu adoro estar na presença delas, porque de alguma forma, me transmite uma paz avassaladora, uma esperança de que tudo vai dar certo. Após uma pequena conversa e algumas fofocas entre eu e minhas outras cinco irmãs, dou a notícia do fim do meu namoro. Cada uma decide me consolar de sua forma.
— Olha… — Thea toca minha mão de forma gentil e me olha nos olhos. — Talvez fosse melhor assim, para que daqui algum tempo você possa verdadeiramente encontrar quem você ama. — Vejo Astória encarar Thea e depois concordar com a cabeça.
— Agradeça pelo o que vocês viveram, talvez possam se tornar bons amigos. — Astoria acrescenta.
— Não, nada disso. Você sempre vai ficar remoendo o que aconteceu quando se encontrar com ele, o melhor é se afastar. Deixei que o tempo cure. — Agora quem fala é minha irmã mais velha, Indiga. Todas as outras a encaram em forma de repreensão. — Que foi, gente? Falo isso por experiência própria, , quando mais nova eu ia na conversa dessas duas aí e acabava que eu sempre acompanhava meus ex’s iniciando outros relacionamentos. Enquanto eu pagava de boa amiga. — Por fim, toma um gole do seu café.
— Por que você não tenta com aquele loirinho? — Olivia sugere de forma simples.
E já sei de quem ela está falando, sei que tá falando do .
— Manas, vamos parar de falar dos fracassos amorosos da e vamos focar na temporada de festas da Nola. — Nola chama a atenção de minhas irmãs. — Eu percebi que nos Owens há tempos não damos nossa festa de halloween foda, e por quê?
— Porque a gente gastava demais com uma cidade que só critica a gente? — Minha irmã Indiga informa. Eu sabia dessa festa desde quando era pequena, costumava ser grande e reunia todo mundo, duravam até dois finais de semana. Todo mundo ajudava, participava e festejava. Porém, conforme fui crescendo, isso foi se acabando.
Essa tradição começou com a minha avó e minha tia-avó, Sally e Gillian, depois passou para minha mãe e minha tia, e quando chegou em mim e nas minhas irmãs, morreu. Mas conhecendo bem a Nola, sabia que tinha algo, além de reacender uma tradição familiar.
— E aí, o que acham? — Nola irradiava excitação em sua voz.
— Não sei… — Eu achava uma ideia legal quando criança. Mas depois de crescer e entender que representava que finalmente Sally e Gillian fizeram isso porque aceitaram seu título de “bruxas na vizinhança”, não me parecia mais tão genial assim. — Eu acho meio nada a ver recuperar essa tradição, o pessoal já acha a gente macabra. Se começarmos a festejar o halloween, vão, sei lá… querer queimar a gente em uma fogueira.
— Acham a gente macabra? — Astória me pergunta, com certo receio.
— Eles têm inveja que a gente sabe ler e usar o que a gente lê. Não nos acham macabras. — Olivia explica à Astória e vejo Indiga concordar com ela. Acho que, de todas as irmãs, a que não utilizava nenhum tipo de magia era eu. E era apenas nisso que Nola e eu nos distanciamos.
— Pensamento ansioso esse seu, hein, , ninguém mais queima bruxa ou falam de nós. — Nola me encara com desdém. Sei que ela odeia ser contrariada. — E outra, eu achei o livro de feitiços da mamãe e acabei encontrando alguns encantamentos para aumentar o dinheiro, ou arrumar um armário novinho em menos de meia hora.
Eu fugia do estereótipo Owen Bruxa de todo o jeito, eu evitava ficar lendo, eu evitava ter plantinhas, evitava até a usar chapéu. Queria que as pessoas soubessem que tudo que eu tenho é por meu mérito, não por três palavras ditas com a mão estendida. Mas era difícil,porque minhas irmãs, minha mãe, ninguém pensava assim em casa.
Elas passaram boa parte da minha vida me presenteando com livros de magia, me fazendo assistir Sabrina ou pelo menos tentando me fazer entender como funcionava as cartas de tarô. E era nesses momentos que eu fugia disso, que me fazia me sentir solitária.
Acho que eu também corria dessas coisas de magia, porque de alguma forma, me afastava da lenda de que todo amor verdadeiro de uma Owen em algum momento morria, sendo assim, a gente era destinada a viver sozinha.
Mas então eu olhava para minha mãe e via a linda família que ela construiu, via o amor dela e do papai e tudo parecia possível, até mesmo para mim. Porque quando duas pessoas verdadeiramente se amam, elas simplesmente se destinam a viver esse amor.
Nola me encara e se pronuncia.
— Okay, não precisa ficar emburrada. Estamos no século da democracia, vamos iniciar uma votação. Quem acha que devemos voltar com a festa de halloween levanta a mão. — E nesse momento, eu percebo que perdi. Porque a única irmã que não levanta a mão sou eu. — Mana, você pode ficar responsável pela sobremesa, docinho. — Nola me informa e solta um pequeno riso.


Os meus olhos estavam fechados enquanto eu respirava e inspirava calmamente aquele cheiro de alecrim, que vinha direto da pequena horta da minha mãe. A noite estava silenciosa e quente, e eu estava à espera de para revisar toda a matéria de química que ele tinha perdido essa semana, e que, por sinal, cai na prova de amanhã.
— A noite tá linda, né. — Nola diz, se sentando do outro lado da mesinha. — Eu queria conversar com você.
— Sobre? — Eu mantenho meus olhos fechados. E confesso que estou surpresa com a aparição de Nola, porque essa semana, depois do nosso pequeno embate no jantar de ensaio de casamento, acabamos um pouco distantes.
— Queria te pedir desculpas por ter sido um pouco incisiva no último final de semana. — Eu abro meus olhos e viro meu rosto para encará-la. — É só que, às vezes, eu não te entendo, . Não entendo porque você detesta tanto a nossa história, nossa tradição. — Ela pende a cabeça.
— Eu não detesto, eu só acho que… — Quero usar as palavras certas, porque eu já conheço essa cena e sei que, se eu não me expressar bem, isso vai se tornar uma grande discussão. Eu me endireito na cadeira para ficar totalmente de frente com a minha irmã. — É só que… isso já faz tanto tempo. Porque a gente tem que morar nessa casa? Porque temos que ficar utilizando magia, para quê toda essa encenação?
— Encenação? Quando eu e nossas outras irmãs nos reunimos, tomamos absinto, você acha que encenamos nossos dons, ? Não! A gente está apenas leve e despreocupadas, vivendo o que nossa tataravó não pôde viver, porque o mundo que ela vivia era uma merda.
— Tá, pode ser. Mas a gente realmente quer se destacar na multidão? Eu quero que me vejam pelo que eu sou, não pelas lendas da família… — Nola se levanta e bufa de forma indignada.
— Lenda da família? A gente não é folclore, . Nós estamos falando aqui sobre tradição, sobre cultura, sobre o que foi nossa família, o que ainda é e o que será. Se não fosse pela mamãe, a gente nem saberia quem era Maria e porque tentaram matar ela grávida. — Minha irmã fecha os olhos e inspira profundamente. — Nós não fazemos maldade, fazemos magia, quantas pessoas não podemos ajudar com nossos dons. Lembra quando a gente era mais nova e nossa vizinha idosa perdeu sua gatinha e ninguém achava? E lembra que ela veio até a mamãe e ela fez um encanto de rastreamento e assim a gente conseguiu achar a gatinha dela? , nós ajudamos as pessoas de uma forma que ninguém mais pode ajudar.
— Tá, eu concordo, mas eu não quero isso para mim. — E essa era a verdade, eu não estava impedindo elas de nada, estava apenas impedindo a mim mesma.
— Só que você não entende que um clã só é forte o suficiente quando todas estão juntas. Se você participasse mais, seria melhor. Por exemplo, você agora poderia estar em qualquer lugar aproveitando essa noite incrível. Mas está aqui ajudando o , você sabe que se usasse seus dons poderia ajudar ainda mais ele, de forma mais eficiente.
— Eu.não.quero. — Encaro minha irmã fixamente, para que ela entenda que esse é meu posicionamento final.
— Sabia que esse seu posicionamento me dá medo? Porque você parece uma preconceituosa e isso sim me assusta. — Nola sai pisando fundo e a acompanho até entrar em casa.
Alguns minutos se passam e chega.
— Boa noite, . Acabou o combustível da minha moto bem em frente à lanchonete e acabei tendo que vir de pé, por isso demorei. — Ele explica enquanto coloca sua mochila sobre a mesa e retira alguns livros.
Estou ainda muito perdida na última discussão que tive com a minha irmã, com isso, não formulo nenhuma resposta para ele, apenas aceno com a cabeça, concordando. Quando olho para , posso ver que a lateral do seu rosto está um pouco esfolada.
— O que aconteceu? Seu rosto… — Me levanto e toco no ferimento. Vejo sua feição mudar para dor e seus olhos ficarem um pouco avermelhados.
— Eu acabei discutindo com a Diana… e… terminamos. — Ele levanta a cabeça e encara fixamente o nada. — Quando contei para o meu pai, ele não gostou muito. — Ele nega com a cabeça algumas vezes e continua vasculhando sua mochila.
— Peraí, , seu pai te bateu porque você terminou com a sua namorada? — Eu me recuso a acreditar que exista pais babacas a esse ponto.
Vejo uma careta surgir em , ele pressiona um pouco os lábios e se senta na cadeira. Me posicionei entre suas pernas e cruzo meus braços esperando uma explicação.
— Lá em casa as coisas não são fáceis. Depois que eu comecei a namorar a Diana, milagrosamente, as coisas começaram a se acertar. Por coincidência, meu pai, que era faxineiro do escritório do senhor Montgromy, pai dela, do dia para noite subiu de cargo e ganhou um escritório só para ele. Assim, toda vez que eu tento o término com a Diana, meu pai tem o emprego ameaçado e tudo em casa vira um caos.
E tudo começa a fazer sentido, toda essa obediência do e toda a autoridade da Diana sobre ele não passa de um jogo de poder entre famílias. É como se o próprio pai do vendesse ele por um “bem maior”.
— Todo dia eu tento trabalhar o dobro do anterior, para conseguir juntar um dinheiro e poder finalmente viver. Mas está muito difícil, porque aí eu começo a ir mal nas aulas e fico prestes a perder o ano, mas chega a Diana e me salva. E aí eu penso que talvez vale a pena ficar com ela. — Nessa última parte o seu tom de voz fica mais baixo, como se fosse uma afirmação para si próprio. Ele abraça a minha cintura a coloca a cabeça sobre a minha barriga e eu inicio um pequeno carinho sobre seus cabelos macios e dourados.
— É… somos dois fudidos. — Eu concluo e levanta a cabeça para me encarar.
— Ué, por quê?
— Eu também terminei com Dylan… Na verdade, ele quem terminou comigo. — Me desvencilho de e sento na cadeira à sua frente.
— Por que aquele idiota terminou com você? Quero dizer… ele era legal com você né, mas era um idiota com o resto.
— Ele invadiu meu quarto no meio da noite e me informou que não tava “rolando” mais.
— Que cara escroto. — fechou sua expressão.
— Mas mesmo assim, eu espero voltar com ele. — Dou de ombros. — Eu gostava de estar na companhia dele.
, é sério isso? Gostar de estar na companhia de algo, a gente gosta até de estar na companhia de um ventilador. Agora amar uma pessoa é mais que companhia, é coração. E se você não sente… algo relacionado aqui. — Ele aponta para o próprio peito. — Quer dizer que tá na hora dele sair daqui. — Agora ele aponta para sua cabeça.
Eu fico um pouco irritada com o comentário dele e o confronto.
— E você sente algo no coração, além do bolso, claro, pela Diana?
— Verdadeiramente? — Eu afirmo com a cabeça que sim. — Nunca senti por ninguém. Mas eu estou em uma situação que não posso escolher me apaixonar. Por exemplo, eu faria de tudo para voltar com a Diana e melhorar as coisas lá em casa.
— Se a gente não tem tempo agora que é jovem para se apaixonar, quando a gente vai ter, ?
— Você quer realmente me ajudar, ? Me faz uma poção para que a Diana se torne mais gentil e para que volte comigo. Porque assim eu vou conseguir ficar com ela e manter um relacionamento estável com os meus pais.
Eu rolo os olhos, não é possível que em menos de uma hora vamos retornar ao assunto de magia. Então uma ideia surge…
— Olha, eu posso te ajudar… não com uma poção. — Faço uma expressão de nojo. — Mas o que percebi é que você quer a Diana de volta e eu quero o Dylan. Sem discutir nossos motivos pessoais. E se a gente desse um jeito deles virem até nós?
Ele cerrou um pouco os olhos e apoiou os cotovelos na mesa.
— A Diana só viria atrás de mim se se sentisse ameaçada por outra pessoa… e a única pessoa que ela sente medo é você — conclui.
— Eu? — Okay, isso me pega um pouco desprevenida.
— Sim, ela acredita fielmente que você é uma bruxa e morria de medo de um dia eu tomar um copo de água enquanto estudava com você e acabasse me apaixonando perdidamente. — Eu não aguento e começo a gargalhar, como as pessoas podem ser inventivas. — E o Dylan voltaria se percebesse a gostosa que perdeu. — fala e fica um pouco vermelho.
— Temos uma ideia, e se começarmos um namoro falso?
— Isso parece interessante. — Ele estende a mão em minha direção. — Eu topo, parceira.
Eu aperto a mão do , confirmando nosso “acordo”. Agora sim, estou decidida que Dylan Palasse voltará a ser meu namorado.


A conversa que tive com Nola, e depois com , ecoam na minha cabeça. Eu não sou preconceituosa, não tenho vergonha da minha família, da minha origem, nada disso. O que eu realmente queria que minhas irmãs entendessem é que eu quero que a minha história seja interpretada pelos meus feitos, meus passos, nada além de mim… e para mim, se eu usar magia, as pessoas não vão me ver, vão ver apenas os meus dons. E eu sou mais que isso, né?
E sobre o que o falou… talvez ele tenha razão, é… ele tem razão. Acho que o que eu sinto pelo Dylan não é amor, mas eu quero estar pelo menos mais uma vez na presença desse sentimento que ele me desperta para então poder responder ao meu amigo, se eu amo meu ex namorado ou se quero ficar com ele apenas pelo conforto.
Me viro na cama e encaro a cama ao meu lado, com minha irmã dormindo tranquilamente. Espero que a gente se resolva logo, para que assim eu possa contar a ideia louca que eu e vamos colocar em prática, e sei que no fundo, ela vai surtar. Olho na mesinha ao lado da cama dela e vejo o caderninho da mamãe aberto.
A curiosidade fala mais alto e resolvo ver o que há de tão interessante nele. Me encosto na cabeceira da minha cama e pego o caderno, começo a folhear ele, há algumas flores secas grudadas nas páginas e, em outras, pequenas pedrinhas. Simplesmente minha mãe inventou todo tipo de encantamento possível, até para o cabelo se manter hidratado por toda uma vida e isso me tira um pequeno riso.
Estou prestes a fechá-lo quando noto que há mais uma folha a ser lida. Essa é uma folha mais amarelada que as outras e tem grudada nela uma rosa branca. O feitiço que está nesta página leva o nome de “amas veritas II”. Quando inicio a leitura, a porta de varanda se abre de forma estrondosa e um vento gelado golpeia o meu rosto, mas me sinto tentada a continuar a leitura.
Recito as palavras escritas naquela folha de forma baixa:

A mãe ao ver o pequeno coração que bate fora de si, se preocupa
A busca da defesa dele, é sua maior cura
E se o amor ele conhecer? O que ela poderá fazer?
Para que a tristeza não preencha esse coração
haverá uma nova maldição

As seis pétalas de rosa branca eu coloco e a última eu convoco
peço para que todas elas sejam felizes, e caso houver uma última
que haja para as cinco primeiras felicidade, amor, sem sofrimento
e a última que recaia a maldição da primeira geração.
Porque ela saberá repartir seu coração

Caso a rosa não seja contemplada de seis pétalas, que nenhuma delas
encontre o amor em questão, para que nunca sofram com a rejeição.


Essa merda é sobre mim?
Leio novamente a página e sinto que minha testa até se franze com tanta concentração. Não quero me precipitar, porém, acho que já é tarde demais para isso, porque meu coração está ardendo e minha mãos estão geladas. Eu estou sentindo um misto de ansiedade e medo nesse momento.
O vento se intensifica e folhas começam a entrar no meu quarto, retiro aquela página e corro para minha varanda para fechar a janela. Volto para cama, com minha respiração irregular, meus olhos ardem e eu começo a chorar.
Aquele encantamento foi feito para minha mãe em relação a mim, a sexta pétala da rosa, é a sexta filha dela. Eu sou a sexta filha e ela pede para que a maldição das Owens recaia sobre a última. Deixo minhas lágrimas caírem e molhar a folha nas minhas mãos, o pouco que entendo sobre esse feitiço faz o meu estômago revirar.
Então em todo esse tempo, eu nunca dei certo com ninguém não por minha causa, por faltar algo em mim, mas porque a minha mãe, desde meu nascimento, me predestinou essa maldição.
Os meus olhos estão fixados no vaso que está no centro da mesa, nesse momento estou em uma sala de jantar “secreta” que fica embaixo da escada principal da minha casa. É uma mesa grande de madeira preta, contém exatamente sete cadeiras, eu confesso que pouquíssimas vezes sentei nela. Mas hoje eu não me dou ao luxo de não estar aqui.
Vejo uma por uma das minhas irmãs chegarem, e quando Indiga e depois Olivia chegam, sinto suas feições demonstrarem um pouco de surpresa por eu estar presente. Elas conversam entre si sobre vários assuntos, especulam quem convocou uma reunião, porque a única informação que tinham era a que estava em um pequeno convite, que marcava o horário.
Nola toca a minha mão, e quando eu pisco, uma lágrima escorre, solitária.
— Tá tudo bem, mana? — Eu encaro os olhos dela, eu estou com tanta raiva e ao mesmo tempo tão desapontada com ela, que nem ao menos uma resposta eu consigo formular.
Todas direcionam sua atenção para a porta, quando pela última vez ela se abre, o corpo de minha mãe adentra o lugar, cumprimenta cada uma de nós e se senta na ponta, no local de costume. Minhas irmãs se agitam um pouco, porque começam a perguntar o que aconteceu, mas minha mãe também não sabe responder a essa pergunta. Porque, no caso, quem convocou essa reunião do “clã” foi eu.
— Quem convocou? Já podemos começar né, porque eu to cheia de coisa para passar plástico bolha — Olívia diz.
— E eu tenho que buscar os meninos no judô, então se puder ser rápido aqui, eu agradeço — Indiga também informa.
— Meninas, se eu soubesse do que essa reunião se trata, eu poderia dizer que seria rápida. Mas não fui eu que a convoquei — minha mãe explicou às minhas irmãs, que agora voltaram seu olhar para Nola, que encarava as pontas de seus cabelos.
Nola, ao perceber, soltou a mecha de cabelo.
— Que foi, gente? Nem me olhem com essa cara, não fui eu que convo… — Resolvi cortar, porque todo aquele burburinho só estava me deixando mais estressada com elas.
Dei uma bufada e me levantei.
— Fui eu quem convocou isso. — Agora todas me olhavam de forma curiosa e até um pouco surpresas.
— Aconteceu alguma coisa? — O olhar de Olívia sobre mim era de certa preocupação e seu tom de voz era cauteloso, mas eu apenas a encarei com indiferença.
— Quero que mamãe me explique o que isso significa? — Peguei o pequeno papel amarelado no bolso de trás da minha calça jeans, desfiz a dobra e coloquei sobre a mesa. Todas juntamente se inclinaram sobre a mesa para observar o papel, mas foi Astoria quem o pegou em mãos para ler em voz alta.
Com os olhos concentrados, ela começou a recitar e, nesse momento, minha mamãe apenas abaixou a cabeça.
A mãe, ao ver o pequeno coração que bate fora de si, se preocupa. A busca da defesa dele, é sua maior cura. E se o amor ele conhecer? O que ela poderá fazer?
Astoria parou de ler quando mamãe a interrompeu, empurrando sua cadeira para trás abruptamente e se levantando.
— Onde você achou isso, ? — Ela me encarava de forma receosa e meus olhos já estavam começando a arder de novo, eu definitivamente não queria chorar na frente delas.
— Isso é do caderninho que eu achei, não é? — Nola agora parecia entender. — Você tirou essa folha?
— Eu falei que não queria você com esse caderninho, Nola. Quantas vezes que eu tenho que repetir para vocês… — interrompi, porque sinceramente, sei que ela está apenas querendo fugir do real assunto aqui.
— Realmente você só está preocupada que Nola mexeu em suas coisas sem permissão? — falei, a desafiando.
— Olha, acho que isso não tem nada a ver comigo. — Indiga passou a alça de sua bolsa sobre o ombro e fez menção em se levantar. — Vocês estão tensas entre si, então estou…
— Senta agora. — Bati a mão sobre a mesa e algumas velas espalhadas, que antes estavam acesas, agora apenas soltavam uma pequena fumaça, por terem se apagado. — Vou terminar de ler esse querido poema da nossa mãe. — Pego o papel que ainda está na frente de Astoria e continuou recitando, mas agora de forma alta e irritada. — Para que a tristeza não preencha esse coração, haverá uma nova maldição. As seis pétalas de rosa branca eu coloco e a última eu convoco, peço para que todas elas sejam felizes, e caso houver uma última, que haja para as cinco primeiras felicidade, amor, sem sofrimento, e a última que recaia a maldição da primeira geração. Porque ela saberá repartir seu coração. Caso a rosa não seja contemplada de seis pétalas, que nenhuma delas encontre o amor em questão, para que nunca sofram com a rejeição — falei a última palavra encarando minha mãe, que me olhava fixamente. Depois revezei meu olhar sobre minhas irmãs e notei que Indiga e Olívia haviam entendido do que tudo se tratava. Elas se encaravam de forma cúmplice. — Então, mãe, vai me explicar por que isso se parece com a nossa vida, ou eu terei que fazer um feitiço para saber?
Era amargo falar com a pessoa que eu tanto amo dessa forma. Mas quando se é enganado por quem se ama, é esse o gosto na boca, inicia-se de forma doce, mas depois o que resta é um amargor incurável.
Todas continuaram me encarando.
— Vocês sabiam, né? Sabiam sobre isso, sabiam sobre essa merda de maldição. E todas as vezes que me viram chorando pelo fim de um relacionamento, todas as vezes que me viram tentando uma coisa nova, todas essas vezes vocês sabiam que não iria dar certo… — A minha voz estava embargada, mas eu ainda queria continuar dissipando tudo que estava pesando em mim. — …Vocês acham isso justo? — Levanto o papel em minhas mãos.
— Filha, me deixe explicar. — Nesse momento minha, mãe parecia escolher as palavras. — Eu sempre tive medo da história de Maria Owens, e depois quando presenciei sua avó Sally quase morrer junto com a partida do meu pai, eu jurei para mim mesma que faria de tudo ao meu alcance para proteger quem eu amasse… — Minha mãe estava chorando. — Foi quando conheci Cyrus, o pai de vocês, e tudo sobre isso mudou. Eu só pensava em amá-lo e ser amada, quando nos formamos, acabei descobrindo que estava grávida, optei por não saber o sexo do bebe até o dia do parto… — Ela limpou sua bochechas, que estavam molhadas, e direcionou seu olhar para minha irmã Indiga, que entrelaçou os dedos com ela. Minha mãe deu um pequeno sorriso de canto. — Então a Indiga chegou, era tão pequena e frágil, e olhando para aqueles pequenos olhinhos… eu apenas queria o melhor para ela, por isso, recorri ao feitiço que sua avó Sally já havia feito uma vez, mas ele não daria certo. Por isso, fiz o meu próprio, não pensava em ter outra filha, quanto mais cinco, após a Indiga. Por isso, na última parte, ainda coloco que se eu não tivesse outras filhas, que a primeira não encontrasse o amor, para nunca sofrer. Tenta entender, que nunca foi uma maldição para você ou para a Indiga, foi uma proteção, eu queria e quero proteger todas vocês sempre. No começo, eu pensava que isso nem tinha dado certo…
Umedeço um pouco meus lábios antes de completar a fala dela.
— Até que eu nasci, não é? — Seus olhos se fecharam e mais lágrimas caíram, junto das minhas lágrimas. — Tanta coisa faz sentido agora. — Olho para minhas irmãs. — Por exemplo, vocês me chamarem de “, a sorte da casa” — digo de forma irônica. — A sorte de vocês, né? — Nego com a cabeça, porque ainda custo a acreditar em como elas puderam ser tão egoístas. — Me consolaram, mandaram eu sempre seguir em frente, porque no final do dia, vocês estavam vivendo os amores de vocês, vocês são muito egoístas.
Olívia se levantou, e em sua face, eu podia perceber um pouco de indignação.
— Epa, peraí, , okay que o feitiço da mamãe acabou acontecendo, mas não era você que não acreditava em magia? — s Sério que nesse momento, a coisa mais sensata que minha irmã estava fazendo era me desafiar? Eu desviei o olhar do dela, porque o que eu queria fazer era bater na cara dela. — , sério, ninguém aqui queria isso, somos suas irmãs, não suas rivais de vida. Estamos aqui para ajudar umas as outras, se os seus relacionamentos não deram certo, é porque de alguma forma estavam fadados ao fracasso e isso é normal.
— Normal? Por quantos relacionamentos eu já passei? E não digo só os amorosos, falo de amizades. A única amiga que eu tinha era a Nola. E o .
— Como assim tinha? — Nola me pergunta, de forma incrédula.
– Sim, t.i.n.h.a. Porque, de verdade, eu não sinto a menor vontade de continuar confiando em alguém que me esconde uma coisa tão particular sobre mim, na verdade, eu não tenho vontade de continuar nenhum tipo de contato com nenhuma de vocês. E Olívia, para sua informação, é fácil falar que algo está destinado a fracassar quando você está no topo da escada e chegou aí em cima de elevador.
— O que você quis dizer com isso, irmã? — Théa se pronunciou pela primeira vez.
— Que todas vocês se conformaram e guardaram isso. E agora querem que EU me conforme, porque é isso que mantém a vidinha de vocês estável e feliz —explico com puro amargor. — Vocês só são felizes porque eu estou infeliz, vocês têm alguém, porque eu estou destinada a ficar sem ninguém.
— Eu não concordo muito com isso. — Astoria resolveu se pronunciar, mas sua voz ainda era serena.
— Pois você não deve achar nada, isso não é sobre você. — O vidro de um pequeno vitral se quebra da mesma forma que minha alma está neste momento. — Eu quero que vocês se fodam! — Dito isso, eu saio rasgando aquela sala, que consome meu ar a cada minuto.
Eu estou dolorida, quebrada, raivosa, porque as pessoas que eu sempre confiei, as pessoas com quem eu sempre contei nesse momento, não ligavam para o que eu sentia e isso dói. O contrário do amor não é o ódio, é a indiferença, ela sim te corta e te dilacera.
Agora o que me restava era falar com e terminar o que nem havíamos começado, nosso plano idiota para mim já estava fracassado.


Assim que avistei no corredor, aumentei meu passo. Necessitava conversar com ele e desfazer toda aquela tolice de plano, eu já sabia que Dylan nunca voltaria para mim e, se caso voltasse, não dariamos certo.
Eu toco no ombro do meu amigo para que ele se vire para mim, então quando ele se vira, posso analisar seu rosto. Ele abre um sorriso quando me vê, mas logo o sorriso se desfaz, está com olheiras fundas e um pequeno corte no lábio inferior.
Em uma troca de olhares rápida, eu já imagino o que aconteceu. Ele apenas abaixou um pouco o olhar e encolheu os ombros, e nesse momento, eu desejo mentalmente que o pai dele tenha um ataque de hemorroida.
— Precisamos conversar, — eu apenas o informo e começo a caminhar.
— Tá bom. — Ele me segue.
Vamos até o fundo do pátio da escola e nos sentamos em um banco de madeira. se senta na ponta do banco, o conheço o suficiente para saber que ele está envergonhado, por ter me deixado ver novamente seu machucado. Deslizo sentada sobre o banco e me aproximo dele. — Vai me contar o que rolou? — Toco sua mão de forma carinhosa e o observo levantar a cabeça e encarar de forma fixa algo que eu desconheço. — Eu tenho um kit na bolsa, posso pegar uma pomada e passar um corretivo, se você quiser… — Ele fica apenas em silêncio. — foi ele, né? O seu pai fez isso.
Seus olhos se enchem de lágrimas, mas elas não caem.
— Eu pensei por um momento que a Diana talvez tivesse realmente superado. Porque ela não tava me ligando, ou me seguindo… até hoje de manhã, quando meu pai recebeu o depósito do pagamento e percebeu que alguns “benefícios” — fez aspas com os dedos — foram cortados. Ele me perguntou se eu já tinha ido me desculpar com ela, e eu disse que não, e então rolou isso. — Apontou para o corte no lábio.
Pego na minha bolsa uma pomada e começo a passar de forma delicada sobre o seu lábio, que mesmo machucado ainda continua macio.
— Você sabia que ele não pode fazer esse tipo de coisa, né? Por mais que ele seja seu pai, não tem direito de ficar te espancando. Se você quiser eu posso ir com você fazer uma denúncia…
Ele retira minha mão do seu rosto.
— Não, . Eu não quero denunciar meu pai. Por mais que agora ele esteja sendo um babaca, antes de tudo isso, ele era legal. E outra, quando a gente botar nosso plano em prática e a Diana perceber que pode me perder, ela vai voltar comigo, e de quebra, me tratar melhor. E tudo vai se resolver. — A esperança na sua voz fez todo meu coração se apertar, eu não queria ser mais uma pessoa a quebrar as expectativas dele.
— Então, era sobre isso que eu queria falar com você… — Eu começo a brincar com meus dedos, enquanto, procuro as palavras certas para explicar para que nosso plano já não iria funcionar para um de nós. — Acho melhor a gente… — Minhas palavras são interrompidas por .
— Ok, é agora, olha para mim como se fosse me beijar. — Ele coloca rapidamente uma mecha do meu cabelo para trás e encaixa seu polegar sobre a minha bochecha. Seus olhos estão fixos nos meus, porém estou confusa com essa mudança abrupta dele.
Tento olhar em volta, mas ele segura de forma mais firme o meu rosto.
— O que foi?
Ele rola os olhos.
— Apenas me segue, ok. — E então ele se aproxima e encaixa suavemente os seus lábios nos meus, nos primeiros instantes, eu me mantenho com os olhos abertos, é estranho beijar seu amigo?
Eu fecho os olhos e coloco minhas mãos de forma automática em seu peitoral, quando me sinto pronta para prosseguir, ele se afasta com um pequeno sorriso nos lábios.
— Acho que o nosso plano está começando muito bem. — Indica com a cabeça algo atrás de mim, então vagarosamente eu me viro e vejo Dylan acompanhado de alguns amigos, me encarando. Meu ex acena com a cabeça para mim, e eu o conheço o suficiente para perceber que ele não está nada à vontade com o que viu.
Porque Dylan, o mesmo cara que terminou comigo, agora poderia estar incomodado em me ver dando um selinho em outro cara, ainda mais esse cara sendo o . Será que era ciúmes? Será que ainda ele sentia algo por mim?
Não, não e não. Eu sabia que nada disso era possível, por mais que eu desejasse. Por causa daquele pedaço de papel enfeitiçado, nunca ninguém seria capaz de me amar… então não adiantava eu ficar me iludindo que com o Dylan seria diferente.
Balanço minha cabeça, tentando afastar esses pensamentos irritantes.
— Da próxima vez que for me beijar, me avise, ok? — Me levanto e saio pisando fundo. Não porque estou com raiva de , mas porque estou com raiva de mim mesma.
Eu só tinha apenas uma missão: acabar com o namoro falso que não tinha se iniciado. E no final, acabei iniciando a porcaria desse plano, legal, parabéns, !
Me pego passando a mão sobre meus lábios, durante a aula de álgebra, estou perdida em pensamentos que até eu mesma desconheço. Sou retirada do meu devaneio com meu celular vibrando sobre a mesa, a notificação indica que há três mensagens do “”.
“Me desculpa por hoje mais cedo”
“na real só queria tentar te ajudar com o Dylan, não costumo ser babaca assim”
“Tá sabendo da festa que vai rolar amanhã?”
Dou um pequeno sorriso com as mensagens que recebo, porque ninguém no mundo se preocupa mais comigo como , e eu tinha certeza que quando ele viu a forma que eu reagi ao seu beijo, ele iria se desculpar. E de alguma forma, isso me conforta, porque é bom saber que alguém se preocupa com a forma que você se sente, ou pensa. E essa pessoa na minha vida era o , às vezes, ele se importava mais com o que eu estava sentindo do que com o que tava rolando com ele.
“Ei, relaxa, eu não vou contar para ninguém que você beija mal”

“Beijo mal? Você mirou na crítica e acertou na autocrítica né”

“Querido, quem teve apenas uma namorada aqui foi você. A coitada com certeza se acostumou com esse beijo seco”

“Coitada??”
“Beijo seco?? Dá próxima vez eu vou te dar uma coisa bem molhada”

“Eca, eu agradeço, mas não. É de quem é essa festa?”

“É de uma menina nova no colégio, chama Cyra verão, alguma coisa assim.”
“Acho que estuda com a Nola”

“Entendi, você vai?”

“Corrigindo nós vamos*. Agora você e eu estamos ficando sério, precisamos ser vistos juntos. E tenho uma informação de que D² vai estar lá”

“O que é isso D² ?”

“Nossos ex futuros namorados, Dylan e Diana”

“MDS! Você realmente não tem o que fazer né, ok você passa para me pegar então!”

Até que não era um apelido ruim esse, tinha bom gosto para codinomes. Lembro que a primeira vez que conversamos, ele falou que me identificava em meio a uma multidão pelos meus olhos de “jabuticaba” por serem grandes, pretos, densos e deliciosos. Se fosse qualquer outra pessoa falando algo desse tipo, eu me sentiria desconfortável, mas sendo ele, eu sabia que era sua forma de dizer que prestava atenção em mim.
Talvez não fosse tão ruim ir a essa festa e me distrair um pouco. Muito me admirava que Dylan fosse, porque durante todo nosso namoro, foram raras as vezes que saímos juntos. Quando pensei sobre isso, um frio no pé da barriga me subiu, e eu percebi que não seria nada fácil me desconectar do meu ex namorado, mas pelo menos eu não estava sozinha nessa, né.


Após traçar um delineado simétrico em meus olhos, me observo em frente ao espelho e posso concluir que tudo está definitivamente perfeito no meu look. Meu celular, que está sobre minha penteadeira, se ilumina, é uma mensagem do .

“Rolou alguns imprevistos aqui no bar”
“não vou conseguir passar para te pegar”
“será que teria como você passar em casa para pegar uma troca de roupa para mim?”

Afirmo que passo na casa dele e depois vou para o bar o encontrar, pego minha bolsa sobre a cama e quando estou prestes a sair do quarto, a porta se abre e dou de cara com minha irmã, Nola. Por não estarmos nos falando, resolvi desviar meu olhar do dela.
— Ei, espera. — Nola coloca de forma suave a mão sobre o meu braço. — Você também vai na festa hoje?
Ainda sem encará-la, eu respondo.
— Sim. — Ameaço de iniciar uma caminhada.
— Você poderia me ajudar com o delineado? — Então resolvo encarar Nola e posso ver em seus olhos o fundo de esperança desse pequeno contato que tanto eu quanto ela deseja.
Mas não, eu ainda estou magoada demais para passar por cima dos meus sentimentos, me desagradar para desagradar minha irmã.
— Não vai rolar, tô atrasada — eu falo rápido, porque tenho medo de voltar atrás, fecho a porta do quarto com certa força.
O caminho até a casa do é silencioso e solitário. É nesse momento que começo a refletir, que não é só o caminho que é solitário, de certa forma, eu me sinto solitária também. Minha família sempre foi um dos pedaços mais importantes do meu coração, mas minhas irmãs talvez sejam meus pulmões.
Quando eu precisava respirar ar novo, eu corria para elas, quando precisava dar uma longa bufada, eu corria para elas, quando eu queria fungar em meio às lágrimas, eu recorria a elas. Eu respirava elas e seus conselhos, e agora, acho que apenas respiro por aparelhos. Eu gostaria de estar junto delas, mas nada é como antes, acho que o ar que busco, elas não podem mais me proporcionar.
No começo, eu fiquei magoada sim, por conta daquela profecia de não ter amor, mas acho que eu teria encarado de uma “melhor” forma se soubesse que eu ainda as tinha comigo. Porém, saber que elas tinham conhecimento e nunca me falaram disso… isso sim, doeu, rasgou e me afogou. Então agora queria que elas sentissem um pouco do que eu estava sentindo, queria que de alguma forma elas quisessem recuperar o “fôlego” e eu estava lá não com a boia, mas com o balde de água.
Isso soa egoísta e maldoso, mas quando a ferida está aberta qualquer coisa pode virar um remédio.
Volto a realidade quando percebo o Sr. Malle me encarando de forma impaciente. Epa!
— Ah, boa noite… o pediu para eu passar para pegar uma roupa para ele. — Vejo o homem à minha frente abrir passagem para que eu entre.
Ouço ao fundo a mãe de me desejar boas vindas. Porém, o seu pai ainda continua me encarando de forma impaciente, ele parece incomodado com a minha presença. Ele sai do meu campo de visão e pega sobre a mesa uma sacola, me entrega. Eu confiro e lá estão as roupas do meu amigo.
Caminho para a saída da casa, agradecendo por sair daquele clima “esquisito”.
! — O pai dele me chama e isso me faz parar naquele mesmo momento. — Podíamos conversar um pouco? — Concordo com a cabeça enquanto me viro para encará-lo.
Eu o sigo até a sala da casa, ele se senta no sofá e eu me sento em uma poltrona à sua frente.
, pode parecer estranho essa conversa para você… mas é que comenta muito sobre você… — Ele retira os os óculos e se indireta, que diabos ele quer comigo? — Bom, ele comenta como você é inteligente, estudiosa e todas essas coisas. E pensando sobre isso e você ter aparecido aqui na minha porta, foi como um sinal para mim.
— Eu ainda não entendi sobre o que é o assunto. — É a verdade, mas também há um pouco de rispidez na minha voz, porque na minha mente, vem apenas as vezes que apareceu todo machucado por causa do homem à minha frente.
— O assunto no caso é o , , como amiga dele, eu presumo que, assim como eu, você quer o melhor para ele. E nesse momento, o meu filho só está tomando decisões precipitadas, uma delas, sendo romper com a doce Diana, você sabia? — Aceno, confirmando que sim. — Eu e você sabemos que ele não é nada sem ela, que ele é muito mais feliz quando está com ela. Mas percebo que talvez agora ele não consiga ter essa visão. E como pai, eu quero o melhor para mim e para meu filho, e nós sabemos que o melhor é estar com a Diana.
Dou um riso seco e arqueio uma das minhas sobrancelhas.
— Você acha? Que o melhor para o é estar com a Diana?
— E você não? Por exemplo, se estivesse com ela, essas horas os dois estariam em alguma festa e ele não estaria trabalhando tanto por uma merreca de hora extra. O negócio é que o pensa pequeno, e a Diana seria essa pessoa que vem para mostrar que o mundo é mais que isso. — Aponta para as paredes da casa.
— Eu entendo a sua preocupação, Sr. Malle, mas eu acredito que por si só, o tem grandes projetos, ele pensa além do futuro dele, pensa muito no senhor, sabia? — O encaro fixamente. — Pensa em mim? — Ele diariamente se preocupa no que é melhor para o senhor, para sua esposa. É por isso que continuou nesse relacionamento… falido. Diana pode parecer doce para senhor… não, quero dizer, o dinheiro de Diana pode parecer doce, mas saiba que ele é o veneno que mata a sua relação e a de . Você não percebe, não é? — Ele solta uma risada pelo nariz.
— Você acha que sabe muito sobre a vida e relacionamentos, mas é a filha descendente de bruxas abandonadas. Não me parece a melhor pessoa para se tirar conselho sobre relacionamento. Acho que me precipitei pensando que você era inteligente. — Ele faz uma breve pausa, parece pensar sobre algo. — Quer dizer, eu não me precipitei, sim. Ele acha você inteligente, esperta, mas esquece de ver que você é só uma mulher rodeada por uma lenda que traz privilégios para a própria família. Fora isso, , você é o que?
As palavras do homem reverberam na minha cabeça mais do que eu esperava, toda a coragem para dar respostas certeiras para ele some e a única coisa que faço é levantar e fugir daquela casa.
Como pode ser tão gentil e doce, quando é rodeado por um homem horrível e medíocre desses? Acho que depois dessa conversa, fico cega pelos meus sentimentos, só me dou conta do quanto andei quando vejo a imagem de abrindo a porta dos fundos, com um avental sujo de gordura.
É involuntário o que faço a seguir, mas para mim, é o necessário. Eu abraço Malle com a maior força que tenho, fecho os olhos e deixo uma lágrima escorrer. Eu quero o proteger, não quero deixar nada de mal acontecer com meu amigo.


Estávamos há um tempo assim, meus olhos fechados, meu ouvido direito encostado no peito de , escutando as batidas do seu coração. No começo, as batidas estavam leves, mas depois iniciaram uma crescente disparada, minha cabeça se levantava junto com o peito dele quando ele respirava.
Eu nunca tinha tido um momento tão calmo assim, nem um contato tão próximo com ele. Isso é muito bom, de repente, notei que estávamos respirando no mesmo ritmo. Pela primeira vez, eu havia sincronizado minha respiração com .
, tá tudo bem?
— Tá. — Eu desfiz o abraço e mantive minha cabeça baixa por um tempo. — Tá tudo bem, sim. Eu trouxe as suas coisas.
Observei retirar as peças de roupa de dentro da sacola, ele me mostrou e pediu minha opinião, eu disse que estava bom, mas na verdade, eu nem tinha prestado atenção.
Tinha alguma coisa estranha acontecendo comigo…
Eu queria apenas observar meu amigo, seus cabelos penteados e um pouco oleosos por conta da touca de proteção, seus olhos brilhantes e a sua boca…bem desenhada com os cantinhos levemente para cima, era um charme dele.
— Obrigado por ter passado em casa…sabe o que é, , eu acabei atrasando as coisas por aqui. — Deu um leve olhar sobre a cozinha bagunçada: com louças na pia, um fogão com gordura e um chão com inúmeros condimentos derrubados. — Acho que não vou conseguir ir à festa.
Eu olhei em volta e constatei que sim, era um grande serviço e que realmente não daria tempo de ir à festa se ele fosse limpar tudo aquilo. A não ser que…
— Bom, se você for limpar tudo isso — apontei para a cozinha — não vai rolar festa mesmo, mas se tiver uma ajudinha, acho que conseguimos. — Sorrio de forma travessa para ele.
— Ajudinha? Owens fazendo magia?
Dou um leve tapa em seu ombro.
— Não, nada disso, eu — aponto com o dedo para mim — vou ajudar você a limpar tudo.
Vejo meu amigo fazer uma careta de confusão.
, que isso, não precisa me esperar.
Não ligo para o que ele fala, porque meu olhar percorre o local e acha o que procurava, um avental!
— É sério, você não precisa fazer isso, pode ir.
— Me ajuda, por favor — digo, me virando de costas para que ele faça uma amarração. — Você não tem escolha, se a gente fizer isso juntos, conseguimos terminar e ir à festa juntos! — Soltei uma piscadela no final e fui rumo à pia. — Que foi? — Encarei , que estava parado apenas observando o que eu estava fazendo.
Gastamos 1h e meia para terminar, mas enfim, havíamos acabado. estava no pequeno banheiro do local, enquanto eu conferia pela câmera do celular se estava com uma aparência agradável para uma festa
!
Após esse grito, saí em disparada rumo ao banheiro, com a respiração um pouco ofegante por conta do susto. Quando chego em frente à porta e pergunto o que havia acontecido, informa que tinha SÓ ESQUECIDO UMA TOALHA, e se eu poderia pegar.
Eu hein, alguém precisava ensinar esse menino ser menos escandaloso.
Pego a toalha e aviso que vou entrar para entregar, mas claro, com os olhos fechados, porque ninguém merece ver o melhor amigo pelado, né.
Com os olhos fechados e uma mão sobre eles, adentrei o banheiro.
— Tô entrando, tô entrando. Aqui está… — falo isso, quando bato em algo, pensando ser .
— Essa é a pia, , você tem que vir para frente para que eu consiga pegar.
— Tá bom. — Paro de caminhar quando sinto o pano ser puxado da minha mão, me viro e começo a caminhar para fora.
, obrigado! — respondo rápido com um “que isso”, mas sou puxada pelo braço.
está com a toalha envolta na cintura, ao me puxar, eu acabo me chocando com ele e ficamos com alguns centímetros de distância. Levanto o meu olhar e encontro ele me encarando de uma forma estranha.
— Tudo isso por causa de uma toalha? — Solto uma pequena risada. — Você tá carente mesmo.
— Não pela toalha… quer dizer, por ela também, mas obrigado por ter me ajudado hoje. E também pelo abraço, por ser minha amiga, bo-bom, por ser assim. — O que tem nos olhos deles, que estão tão brilhantes.
Dou alguns tapinhas no seu ombro.
— Tá bom, entendi. Mas, precisava me dizer justo dentro de um banheiro abafado, só de toalha. — Rio e me desvencilho de seus braços. — Agora vamos, se não a gente se atrasa.
Puta merda! É só isso que consigo pensar quando me afasto do banheiro, minha boca está seca, meu estômago está embrulhado, uma sensação de frio na barriga. Coloco a mão sobre o peito, mas não é uma crise ansiosa, é como se eu estivesse co-com…deixa para lá!
Já no gramado da casa. podíamos ouvir a música, tinham pessoas se pegando para todos os lados, havia copos jogados na grama e, de relance, pude ver minha irmã, Nola, conversando com outra garota de cabelo ruivo, ela acenou para mim e eu apenas retribui com um sorriso.
se ofereceu para entrar dentro da casa e pegar alguma coisa para gente beber, e eu concordei. Eu fiquei ao lado da piscina, tentando entender qual música tocava, até perceber que tinha mais de uma música ecoando da casa para o lado de fora
Sinto alguém se aproximar, e quando me viro, posso encarar minha irmã, ela está com um olhar pidoncho e começa a falar de forma disparada, sem que eu nem consiga processar uma resposta, acho que ela já está bêbada.
— Sei que você me odeia, mas eu gostaria muito do fundo do meu coração que isso acabasse. — Ela desvia seu olhar de mim, e isso faz que as lágrimas se iniciem. — Se eu pudesse…eu pegava toda essa maldição para mim, eu seria infeliz por toda uma vida, só para que você fosse feliz, . Porque eu te amo, amo tanto, que essa distância — ela aponta para mim e depois para ela — entre a gente, está me cortando ao meio…eu preciso de você, eu preciso tanto da minha irmã agora. — Quando completa, ela começa a chorar de forma descontrolada, sua maquiagem começa a borrar e eu me sinto o pior ser humano do mundo.
Ouvindo isso e analisando toda a situação, percebo a minha grande pontada de egoísmo em toda essa história. Eu sempre amei imensamente Nola, e ela a mim, e do dia para noite, eu cortei isso. Por mais que eu não tivesse os meninos, ou meus relacionamentos, eu tinha minha irmã e isso era uma coisa que se comprova, maldição nenhuma poderia tirar o amor de irmãs.
Eu a abraço, e sinto que viajei por dias a fim, sem dormir, comer ou descansar, e de repente….de repente, eu estava em casa novamente, deixo uma lágrima solitária escorrer, inalo o perfume de Nola e tudo parece nunca ter mudado.
Desfaço nosso abraço.
— Desculpa… desculpa se fiz você se sentir assim, eu nunca quis causar esse sentimento em você. Confesso que estava com raiva, mas não o suficiente para te partir. — O alívio me domina.
Dá um sorriso largo.
— Bom, acho que as quatro caipirinhas que a Cyra me deu me ajudaram.
— Quem é Cyra?
— Ah, é minha nova amiga de sala, e dona desta festa. — Aponta para o nosso redor.
— Ahh, a tal Verão que o comentou.
— Sommers — me corrigiu. — O sobrenome dela é Sommers, você tem que a conhecer, ela é engraçada, encantadora. — Sorri. — Ah, agora que voltamos a paz, fiquei sabendo de um boato, você beijou o ?
Essa era o momento, talvez eu devesse contar para ela, mas eu ainda me sentia meio ridícula por tentar reconquistar um ex com um namoro falso com meu amigo, mesmo sabendo que isso nunca aconteceria, porque tem uma maldição de décadas sobre mim.
Então mentir, por enquanto, se torna a melhor saída.
— É…eu e ele meio que nos beijamos. — Dou de ombros. — Estamos tentando. — Então vejo uma faísca nos olhos da minha irmã.
— Tá mentindo. — Merda de telepatia, ela podia saber quando alguém mentia, mas não conseguia decifrar a mentira e isso me salvava por enquanto. — Bom, mas isso não importa, só quero deixar claro que eu sempre torci por esse casal, sempre fui team ok?
— Ai, Nola, de onde você tirou isso, a gente só tá se dando uma chance, nem sabe se vai dar certo. — Novamente aquela faísca surge.
— É claro que vai. — Então ela pisca algumas vezes e inicia um novo assunto. — Tenho algo que quero te contar… — Somos interrompidas por uma voz feminina conhecida.
— Então você teve coragem de aparecer em uma festa com o m.e.u namorado, sua bruxa. — Me viro para encarar Diana, que merda. — Sua mãe não te deu vergonha na cara não? — Cruza os braços.
— Aí, Diana, me erra. — Tento passar por ela, mas ela se coloca na minha frente. — Sai da frente. — Nesse momento, algumas pessoas da festa começam a prestar a atenção.
— Viu? Estou te atrapalhando da mesma forma que você está me atrapalhando.
— Eu não estou no seu caminho, Diana. Sabe por quê? Porque o não tem mais nada com você, então eu e você não estamos no mesmo caminho. — As palavras só saem. Sinto Nola se posicionar ao meu lado.
— Porque você não cala a sua boca, Diana, e deixa a minha irmã em paz.
— Ah que ótimo, não é apenas a bruxa, mas o clã dela aqui. ESCUTEM, PESSOAL. — Então os babacas se aproximam com certa curiosidade. — ESSA GAROTA AQUI, ELA FEZ UM FEITIÇO PRO MEU NAMORADO PRECISAR DA AJUDA DELA, E DEPOIS SEDUZIU ELE… — Eu estava com meu olhar fixado sobre ela, o ódio se esvair pelos poros da minha pele. — ESSA… ESSA BRUXINHA DE MERDA.
Ok, eu não iria me orgulhar disso, vejo Nola avançar por cima dela, mas recito um feitiço baixo para que minha irmã congele no seu lugar. Faço um movimento suave com meu indicador e passo por Diana.
— Ah…ah…ah meu, Deus. — Sai correndo com a mão sobre a barriga e posso escutar algumas risadas do grupo que nos observava.
Nola caminha para o meu lado e fala em um tom para que apenas eu escute.
— O que você fez?
— Nada, apenas achei que ela estava muito enfezada e ajudei a flora intestinal dela. — Dou um sorriso confidente.
— Puta merda, você fez a Diana se cagar.
— Quem se cagar? — surge com nossas bebidas.
— Ahh, ninguém importante — Nola diz com desdém e sorri para mim. — Vou deixar os pombinhos a sós.
— A Nola tá levando mais a sério que eu e você — confessa.
— É…ela é assim. Hum, parece que eu estou com vontade de dançar.
— Isso para mim é novidade.
— Ah, vamos, só um pouquinho — digo, com uma voz manhosa, sei que isso convence ele.
— Tá, tá bom, vamos! — Pega na minha mão e caminhamos para dentro da casa.
A música começa com batidas suaves, eu e estamos um de frente para o outro, espremidos em algum cômodo. Então de repente, quando começa a melodia, vejo um largo sorriso surgir em seus lábios, é lindo, e eu sorrio também.
— Eu amo essa música — ele confessa, fecha os olhos e começa a cantar.
Eu balanço meu corpo no ritmo da música e o observo, que ainda está com os olhos fechados para curtir o som. Nunca tinha o visto tão leve, tão feliz talvez…então o refrão começa, alguém passa por mim e me empurra. Assim, eu acabo ficando colada em , não me importo. Nós balançamos no ritmo da música.
A música começa ficar mais suave e lenta e ele começa a recitar a letra e eu não consigo parar de olhar para seus lábios.
— You float like a feather…I wish I was special, You're so fucking special. — Ele coloca suas mãos na minha cintura e eu coloco as minhas no seu pescoço. — I'm a weirdo…You're so fucking special.
A música acaba, mas nós nos mantemos juntos, eu não quero sair disso, não quero perder nenhum pedaço disso, seja lá o que for isso, é precioso demais e agora eu quero ser caprichosa de menos e ter isso.
Após um tempo, mesmo que eu relute, acho que está esquisito? Ficar assim com meu amigo, eu desfaço nosso abraço e começo a caminhar em meio as pessoas, está tarde e eu preciso ir. Quando saí no jardim, respiro fundo, me sinto estranha, não me reconheço.
— Tá tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — Ele coloca a mão sobre as minhas costas para chamar minha atenção, quando eu o encaro, posso ver certa confusão em seu semblante.
— Tá sim, eu estou bem. Acho que só tô cansada, vamos? — Ele concorda com a cabeça e caminhamos em silêncio até a sua moto.
Percebo que pega o caminho mais longo para minha casa, ele dirige de forma calma, e eu me sinto segura com ele na direção, mas hoje passo meus braços com mais força na cintura dele e em “resposta”, ele encosta mais suas costas no meu peito. E eu não ligo, eu gosto.
Eu olho para cima e posso ver o céu estrelado, a lua parece mais brilhante e o ar tem cheiro de verbena… eu fecho os olhos. De repente, o meu capacete bate com força no de , ele freia de forma brusca na estrada.
— O que aconteceu? — Ele tira seu capacete e desliga a moto. — O que foi? — Faço o mesmo.
— Tem alguma coisa na estrada. — Ele caminha até uma sacola na estrada, a levanta e…
Desço da moto e me junto a ele.
— É um gatinho.
Dentro da sacola tem um filhote de gato preto, ele corre para nós tentando brincar.
— Quem pode ter deixado ele aqui? — olha em volta. — Dentro de uma sacola ainda.
Pego ele no colo.
— Algum babaca. — Ele dá um pequeno miado. — É, foi um babaca, né.
— A gente não pode deixar ele aqui. — coça a cabeça.
— Ah, , você sabe, eu ter um gato preto vai ser meio clichê, né? — Ele não entende. — Filha de bruxa, gato preto — falo isso, fazendo ele chegar à conclusão.
— Ah, que isso, , e outra, lá em casa não rola, meu pai colocaria eu e ele para fora.
É bem a cara do pai dele mesmo.
— Tá, tá bom. Eu levo ele comigo, mas você vai ter que me ajudar a cuidar — intimo ele.
— Pode deixar, vai ser como se a gente tivesse guarda compartilhada e ele é nosso filho. — Caminhamos rumo a moto. — Mas, temos que entrar em acordo para nomear ele. — Mais um miado o felino dá.
— Hum… não tinha pensado nisso. Qualquer um, menos Salém, que é muito clichê.
— Bom, já que ele é seu gato…ele vai acabar sendo meio mimado…
— Eiii. — Acomodo o gato no meu coloco e subo na moto.
— Eu quis dizer como um elogio tá… humm... que tal Hans. — Ele se vira para me encarar. — Combina com ele.
— O que você acha de Hans? — falo com o gato, que por incrível que parece me encara e mia. Tomo isso como um “sim”.


Acordar com um gato em cima de você é poético só nos filmes. Na vida real, significa que você perdeu a hora.
— Hans! — Empurrei o gato preto do meu peito, enquanto ele bocejava como se não tivesse culpa de absolutamente nada. O celular estava embaixo dele, desligado, o carregador arrancado da tomada. — Você que fez isso, né? Sabotadorzinho peludo.
Destravei a tela. 07:43. O ônibus da excursão saía às 07:30.
— Mas que merda!
Corri pelo quarto feito um furacão, vesti a primeira calça que encontrei e um moletom com cheiro de lavanda, que provavelmente tinha vindo do armário da Olivia por engano. O caos tinha forma: era eu, Owens.
No meio do desespero, lembrei de quem nunca falhava comigo. Mandei mensagem para minhas irmãs. E como sempre, Indiga respondeu primeiro.

“Estou com Nola. Chegamos aí em 5.”

Quando o carro parou em frente de casa, Indiga me lançou aquele olhar de “precisamos conversar”. Nola estava no banco de trás com um copo de chá de hibisco nas mãos. Entrei no carro e senti aquele conforto que só irmãs sabem dar: o silêncio certo, o chá na temperatura ideal e a música de fundo Florence + The Machine tocando "Shake It Out".
— Eu tô tentando, tentando assimilar tudo que aconteceu… desde… você sabe. — Olhei para Indiga, que apenas acenou positivamente com a cabeça. — Sei que não fui muito boa com você, com nenhuma de vocês — disse, olhando Nola pelo retrovisor, que me deu um sorriso terno. — Mas vocês sempre estão aqui por mim, e eu não posso negar que amo isso e amo vocês. — Após dizer isso, o carro freou bruscamente e isso fez o chá de Nola voar no banco de trás.
Indiga me encarou por alguns instantes, um cheiro amadeirado surge forte no ar, seus olhos cintilam vermelho e ela me abraça de um modo que quase não consigo respirar.
— Eu sempre, sempre, sempre estarei aqui para você. Eu te amo, , minha pequena irmãzinha.
Era muito difícil ver minha irmã mais velha chorando, mas juro ter visto uma lágrima solitária cortando sua bochecha.
— Muito fofo esse momento, mas está me devendo um chá, Indiga — confessou Nola, tirando uma risada da minha irmã.
A excursão não era nenhuma maravilha, era apenas uma viagem para o pico mais alto da ilha, passar a noite lá, observar a natureza e voltar no dia seguinte. Seria interessante, se não rolasse quase todo ano isso.
Chegando lá, cada grupo se acomodou nos quartos. A programação era uma mistura de atividades bestas com momentos de folga. Me vi dividindo o quarto com duas garotas do segundo ano que só falavam de como iam “bombar nas fotos da balada”.
Além disso, o pico era famoso pela balada com teto de vidro, que à noite o povo jurava ver a Aurora Boreal. A tal balada era a cereja do bolo da excursão: luz negra, DJ contratado, comida liberada, pista com luzes que piscavam como ataques epiléticos chiques. Todo mundo estava animado. Até , que veio me encontrar depois da dinâmica de “perguntas reveladoras” que quase me fez confessar meu signo em voz alta.
— Você vai na festa hoje? — perguntei, me jogando em um banco de madeira perto da área comum.
— Acho que não — respondeu ele, mexendo no celular.
— Por quê?
Ele hesitou, deu de ombros.
— Tô sem grana, . Vim para excursão com um adiantamento do meu trabalho.
Fiquei quieta por alguns segundos. Olhei em volta: todos empolgados, arrumando o cabelo, trocando dicas de maquiagem, e ali, sendo ele. Com honestidade. Sem firula.
— Então eu também não vou.
Ele levantou os olhos.
— Como assim?
— Como assim você acha que eu vou me meter num lugar lotado, com luz piscando, música alta e um monte de gente suando perto de mim… se eu posso ficar sentada aqui com você?
Ele deu um sorrisinho pequeno, quase tímido.
— Você odeia balada desde quando?
— Desde sempre odeio. Mas nunca admiti porque achava que era coisa de gente "pouco divertida".
— E agora?
— Agora eu só quero estar com alguém que me faz sentir bem. E hoje… é você.
não disse nada. Só me ofereceu o último bombom que tinha guardado no bolso da jaqueta, e a gente ficou ali, dividindo o silêncio, o chocolate e a certeza de que pela primeira vez eu estava escolhendo alguém e sendo escolhida de volta. E dessa vez, não tive medo.
Assim que todo mundo saiu do hotel, eu tive certeza que não tinha mais ninguém nos quartos. Fiz uma pequena corrida e bati freneticamente na porta do quarto de , que atendeu a porta com uma cara amassada e me deixou eu entrar.
— Você realmente não foi?
— Não. — Dei de ombros e deitei na sua cama com uma garrafa de vidro vazia. — Estava no meu quarto e acabei tendo uma ideia.
— Fala — disse, se sentando no sofá em frente a cama.
— Enquanto o povo de embebeda lá, a gente pode se embebedar aqui. — Mostrei a garrafa vazia e vi fazer uma careta.
, não sei se você sabe, mas para ficar bêbado você tem que ter uma garrafa cheia e aí beber o que tem nela.
— Eu sei. — Mostrei a língua. — Mas, você esqueceu que aqui corre o sangue de uma bruxinha e a gente só fica bêbada com absinto, então eu ainda tenho que fazer, tá. E aí, vai tomar ou não?
— Eu tenho escolha?
— Não.
Após isso, pedi para que ele segurasse as palavras e recitei algumas palavras e a cor verde esmeralda começou a cintilar no vidro que se preencheu do líquido:
“Herba sagrada, fel do desejo, Licor das fadas, verde lampejo.
No toque do éter, em chama e vapor, Surge absinto, em brilho e sabor.
Verte Spiritus Viridis.”

Vi os olhos de fascinado com o que via em sua mão.
— Vamos começar. — Mas, meu amigo não prestava atenção em mim. — Ei…vamos?
— Sim, vamos.
Começamos com pequenos goles em uma partida sueca. Após o gosto de anis e gengibre sair do paladar, a bebida começou adquirir um gosto de bala de menta com um leve defumado no fundo, eu e começamos a rir um do outro.
— Verdade ou desafio com isso aqui — disse o jovem, levantando o copo — vai ser legal.
— Vamos lá, então. — Ele tinha razão, seria interessante. — Você começa, já que inventou.
Nós sentamos próximos, nossas pernas quase se tocando, e o jogo começou. Meus reflexos estavam mais lentos e eu via pequenos filetes dourados e verdes em volta do rosto do meu amigo.
— Verdade ou desafio? — perguntou.
— Verdade. — Dei de ombros, e me dei conta só depois que deu um gole na bebida, que ele não havia feito a pergunta. Esse ato arrancou uma gargalhada alta de nós dois.
— Qual a coisa mais louca que já fez?
— Entrar nesse jogo com você. — Me dei conta que não me referia a esse jogo.
apenas sorriu para mim, e eu mordi meu lábio inferior, que porra é essa, ?
— Verdade ou desafio? — perguntei, tentando afastar meus pensamentos.
— Verdade. — A voz de soou mais rouca do que o de costume, meu pelos se arrepiaram juntamente com o som.
— Qual o seu maior desejo que ainda não contou a ninguém?
— Que alguém realmente me veja, sabe? — Deu um riso pelo nariz. — Veja o fracasso que eu sou. — Bebeu em apenas um gole todo do líquido verde. — Acho que meu pai já viu isso. — Ele encarava algo no quarto que eu desconhecia.
Fui até ele de gatinho, coloquei minha mão sobre seu rosto o forçando a me olhar.
— Ei… ei, eu te vejo, e vejo um cara incrível. — Encarei seus olhos e depois seus lábios.
— Verdade ou desafio? — ele disse, sem parar de me encarar, mas agora acariciava de leve minha mão que estava no seu rosto.
Eu estava decidida.
— Desafio. — Ele inalou o meu hálito, que era alcoólico e refrescante ao mesmo tempo, e isso fez meu coração acelerar.
— Te desafio a me contar uma coisa que você faria se não houvesse regras.
Fechei meus olhos e me imaginei o beijando e isso não me assustou, mas me fez sentir um formigamento no pé da barriga. Eu não conseguiria confessar isso a ele, e se ele não tivesse com essa vontade? Isso seria vergonhoso demais para mim. Como sempre, me conhecendo melhor do que eu queria, percebeu que eu não iria responder, então perguntou novamente:
— Verdade ou desafio?
— Desafio.
— Então me beije. — Sem pensar duas vezes, eu sentei em seu colo e abri meus olhos para encará-lo.
O mundo pareceu silenciar. avançou lentamente, os dedos deslizando pelas curvas do meu rosto, parando para acariciar a minha nuca. O beijo começou suave, exploratório, mas logo se tornou urgente, carregado de uma necessidade contida. Senti o peito acelerar, o calor do corpo dele contrastando com o frio da noite.
Minha mão encontrou a camisa dele, segurando firme, puxando-o para mais perto, o cheiro dele invadindo meus sentidos. O toque das línguas, a respiração pesada, o calor crescendo em nossos corpos.
— Você está tremendo — ele sussurrou, com a voz rouca.
— Não é frio — respondi, me arrepiando.
Entre nosso beijo, sussurrei em seu ouvido:
— Outro desafio. — me encarou de uma forma feroz eu pude ver seu olhar incendiando.
— Me beije de novo, . Sem recuar. — Como uma ordem, um feitiço sobre mim, e o obedeci.
Eu não hesitei, me aproximei dele como se fosse a coisa mais natural do mundo. O beijo desta vez foi mais profundo, mais cheio de promessas não ditas. Os corpos se encontraram, a pele roçando, o calor subindo rápido.
Senti as mãos de deslizando pelas costas, puxando-me para um abraço apertado. Meus dedos, trêmulos, passearam pela nuca dele, pelos cabelos. Cada toque fazia o desejo pulsar mais forte, quase insuportável. Por um instante, parecia que tudo vai acontecer, que nada ia nos parar.
— disse, e logo após me deu um empurro e correu para o banheiro.
Fiquei sentada na cama escutando-o vomitar, aos poucos meus sentidos e vergonha foram voltando. A chama que ardia dentro de mim se tornou apenas uma brasa, que eu fiz questão de afogar. Saí dos meus pensamentos quando vi com os olhos marejados e um semblante pálido na minha frente.
, me desculpa… eu… eu realmente tava gostando muito, mas eu sou fraco para…
— Shiuuu. — Coloquei meu dedo indicador sobre seu lábio. — Vamos só dormir, tá bom. — Sorri, tentando passar certa naturalidade para ele.
deitou sobre meu peito e logo adormeceu, mas mesmo assim, eu continuei acariciando seus cabelos. Meu coração disparava toda vez que eu revisitava a recente memória de beijar meu amigo, parecia errado, parecia certo, era excitante, sensual. Era totalmente diferente de tudo que eu já havia experimentado.
Na manhã seguinte, os olhares fugiram do que aconteceu, os sorrisos disfarçando a chama que continuava acesa, enquanto retornávamos para a cidade, guardando para nós aquele segredo silencioso que nenhum dos dois ousou comentar.


Voltar da excursão deveria ter me dado alguma sensação de normalidade, mas desde o momento em que coloquei os pés em casa senti um peso estranho repousando sobre os meus ombros. Dormi mal, mesmo exausta, e acordei com a impressão de que meus sonhos tinham passado a noite inteira rondando algo que eu não queria encarar.
Hans estava enroscado nas minhas costas, ronronando com aquela vibração que me acalmava, mas hoje ela parecia me atravessar como um alerta. Quando tentei me levantar, um arrepio quente percorreu meu corpo, um calor súbito subindo pela espinha como uma faísca prestes a virar incêndio.
Desci para a cozinha tentando ignorar a sensação, mas o cheiro suave de verbena que escapava de mim denunciava a magia à flor da pele. Nola estava sentada à mesa com cara de sono, mexendo preguiçosamente o chá, e quando levantou os olhos para mim senti minha garganta secar.
Ela sorriu com aquela gentileza familiar, mas havia algo nos seus olhos, uma atenção maior, como se estivesse farejando uma mudança. Eu devolvi um sorriso rápido demais, daqueles que machucam as bochechas, e me servi de chá como se fosse a coisa mais urgente do mundo.
— Você tá estranha — ela comentou, quase rindo, mas seu tom carregava preocupação.
— Só cansada — respondi, bebendo antes que ela pudesse insistir.
Mas eu estava longe de estar só cansada. Meu corpo parecia vibrar com cada lembrança da noite anterior, especialmente do toque, do beijo, da respiração quente de contra a minha boca. Eu tentava afastar essas imagens, mas quanto mais empurrava, mais forte elas voltavam, como um eco que se recusa a morrer. E junto delas, a magia pulsava, um brilho invisível sob a pele, uma ameaça silenciosa.
Saí de casa mais cedo para evitar cruzar com ele no caminho até a escola, mas ao virar a esquina cometi o erro de olhar para trás e lá estava ele, descendo da moto, tirando o capacete com aquele gesto despreocupado que sempre me desmontava. Ele sorriu quando me viu, não um sorriso grande, mas aquele pequeno, torto, que dobra só um lado da boca e que eu agora entendia que era especial. Meu coração disparou. Minha magia também.
! — ele chamou, apressando o passo.
Quis fingir que não ouvi, mas minhas pernas decidiram travar, como se parte de mim estivesse dividida entre fugir e correr na direção dele. Ele parou ao meu lado, e o simples fato de chegar tão perto fez o ar ao redor esquentar.
— Você tá bem? — perguntou, inclinando o rosto como se tentasse decifrar algo que eu não estava conseguindo esconder.
— Tô — respondi, rápido demais, olhando para frente.
— Você tem certeza? Desde ontem… — Ele hesitou, coçando a nuca. — Você tá estranha comigo. Eu fiz alguma coisa?
O nó que se formou no meu estômago doeu. Ele não tinha feito absolutamente nada. Esse era o problema.
, eu só… — Dei um passo para trás, sem perceber que fazia isso. — Preciso de um tempo.
A expressão dele mudou sutilmente, como se alguém tivesse apagado uma luz dentro dele. Ele franziu o cenho, inseguro, confuso, mas não insistiu. nunca insistia onde achava que não era bem-vindo.
Entramos na escola, cada um em seu corredor, e eu tentei respirar fundo, mas a respiração saía curta, como se algo me apertasse por dentro. Eu estava fazendo a coisa certa, certo? Afastar ele era o certo. Era seguro. Era o responsável. Então por que doía tanto?
No intervalo, fui para o pátio mais afastado para tentar me acalmar, mas a magia vibrava nas pontas dos meus dedos como um segredo sussurrado demais. O ar ao meu redor parecia mais denso, e Hans, a quilômetros de distância, provavelmente estava sentindo isso. Sentei-me na sombra de uma árvore e fechei os olhos, tentando puxar o controle para mim, como minhas irmãs sempre diziam. Mas toda vez que o rosto dele surgia na minha mente, e surgia a cada dois segundos, o calor voltava.
Quando abri os olhos, dei de cara com Nola parada à minha frente.
— Eu sabia — ela disse, cruzando os braços. — Você tá evitando todo mundo, principalmente o . Tem magia no ar, . Dá pra sentir.
— Não é nada — murmurei, desviando.
— Não mente pra mim. — Ela abaixou o tom, mais suave. — O que aconteceu?
Respirei fundo, quase contando. Mas se eu contasse, se eu deixasse sair… eu ia desabar. Então balancei a cabeça.
— Só estou… confusa.
Ela me encarou por longos segundos, como se tentasse invadir minha mente, mas por respeito ou medo de mim, desistiu. Apenas suspirou e passou a mão no meu cabelo.
— Quando você quiser falar, eu tô aqui. — E depois se afastou.
Poucos minutos depois, ouvi passos acelerados atrás de mim. Antes que pudesse fugir, senti uma mão tocar meu braço, a mão dele. E então tudo aconteceu rápido demais. Um calor brutal subiu pelo meu braço como fogo líquido, fazendo minha pele formigar. O chão vibrou levemente sob meus pés, e uma luminária do pátio estalou, soltando uma faísca que fez duas pessoas olharem para trás assustadas. Eu congelei. Ele também.
…? — A voz dele saiu baixa, cuidadosa, como se estivesse com medo de quebrar alguma coisa. — Você tá queimando. Você tá com febre?
Tirei o braço num movimento brusco, meu coração batendo tão rápido que parecia tentar escapar.
— Não encosta em mim — sussurrei, quase sem voz.
— O que eu fiz? — Ele deu um passo à frente, vulnerável. — Me diz. Por favor.
— Nada! — quase gritei, e algumas pessoas olharam. Baixei o tom. — Não é sobre você, . É sobre mim. Eu… só preciso ficar longe.
Os olhos dele se estreitaram como se uma peça do quebra-cabeça tivesse acabado de cair do lugar errado. Ele deu mais um passo.
— Eu não quero ficar longe de você.
E aquilo foi como uma facada, porque eu queria isso mais do que tudo.
, por favor… — Minha voz quebrou. — Me deixa.
Virei e saí quase correndo, sem olhar para trás, porque se olhasse talvez virasse fumaça e confessasse tudo, a maldição, o medo, o beijo, o inferno que estava virando minha cabeça quando o assunto era ele.
Cheguei em casa antes do horário e me tranquei no quarto. Hans miou preocupado, mas eu estava em outra dimensão, com a sensação de que algo vivo pulsava debaixo da minha pele, como se minha magia estivesse acordando faminta. Sentei no chão, abraçando as pernas, tremendo.
Eu amava minha família. Amava meu mundo. Amava a segurança que tinha. E agora eu estava apaixonada. Minha magia reagia ao como fogo reage ao vento, crescendo, se espalhando, perdendo controle.
Eu não podia deixar isso acontecer. Não podia perder ele. Mas para salvar ele… eu precisava exatamente disso. Ficar longe. E enquanto Hans se enroscava no meu pé e o mundo lá fora seguia normal, eu senti a verdade se assentar no fundo da minha garganta como uma sentença:
Ele é a única pessoa que eu não posso perder. Então é justamente dele que eu preciso fugir.


Passei o dia inteiro tentando me convencer de que evitar o era a ideia certa, que eu estava protegendo ele, protegendo a mim mesma, protegendo todo mundo. Mas cada vez que eu repetia isso mentalmente, sentia como se estivesse engolindo vidro. A verdade doía, queimava, latejava em algum lugar profundo dentro de mim e a magia acompanhava, pulsando como um coração extra que não me pertencia.
Quando cheguei à escola naquela manhã, tentei manter a cabeça baixa e a respiração estável, mas bastou virar o corredor principal para sentir o ar mudar. Ele estava lá. Encostado no armário, braços cruzados, me esperando. Droga.
Dei meia volta na hora, mas ouvi sua voz me chamar antes mesmo de conseguir fugir: — . A gente precisa conversar.
A palavra “conversar” era exatamente o que eu mais temia naquele momento, mais até do que perder o controle da magia. Porque conversar significava olhar para ele, e olhar para ele era sentir tudo de novo, o calor, o tremor, o desespero doce que só o conseguia causar. Apertei os olhos, respirei fundo e tentei parecer firme.
, não hoje.
— Então quando? — Ele veio atrás de mim, passos rápidos, determinados, como se eu fosse a única coisa no mundo que ele precisava alcançar. — Faz três dias que você tá fugindo de mim.
— Eu não estou fugindo.
— Você corre quando me vê.
— Coincidência.
— Coincidência com direção contrária.
Eu quase ri. Quase. Mas o som morreu preso na garganta quando ele segurou meu pulso, com cuidado, como se tivesse medo e virou meu corpo para encará-lo. E ali, tão perto, eu senti de novo.
A fagulha. O calor subindo. A magia acordando como um animal inquieto.
Puxei o braço devagar, tentando evitar que ele percebesse o tremor. — … me solta.
Ele soltou. Mas não recuou.
— O que eu fiz? — perguntou num sussurro que parecia mais uma ferida do que uma frase.
Afastei o olhar, porque encarar ele era perigoso.
— Não é sobre você.
— Então me explica.
— Eu não posso.
— Pode sim. Você só não quer.
Fechei os olhos. O ar ao redor esquentou um pouco mais. Eu sabia que se ficasse ali por mais cinco minutos ia fazer alguma lâmpada explodir, ou lançar faísca da ponta dos dedos, ou, pior, ia querer encostar nele.
… é melhor você ficar longe de mim.
Ele riu, um riso seco, machucado, quase incrédulo. — Eu tentei ficar longe. Você sabe que eu tentei. Mas eu não consigo, . Além disso, somos namorados.
Aquilo fez algo dentro de mim quebrar. — Não fala assim. — Mas é a verdade.
Ele deu um passo para mim. Eu recuei. Ele deu outro. Eu recuei de novo, mas bati as costas na parede gelada do corredor lateral. Ótimo. Encurralada. ficou a poucos centímetros, com o rosto próximo o suficiente para que eu sentisse sua respiração. Seus olhos buscavam os meus com uma força que me deixava sem chão.
— Eu sinto sua falta — disse baixinho.
Meu corpo inteiro reagiu. A magia subiu pelo peito como uma onda verde, quente e pulsante.
Tentei desviar.
— Não fala isso.
— Por quê?
— Porque eu não posso… — engoli seco — eu não posso sentir isso agora.
— Sentir o quê? — Ele deu outro passo, o último, e a distância entre nós se tornou inexistente.
Virei o rosto, mas ele segurou meu queixo, suave, cuidadoso, como se tivesse medo de que eu desmanchasse. O toque foi o bastante para acender tudo.
… olha pra mim.
Eu não queria. Eu queria. Eu estava implodindo. Me forcei a encará-lo, mesmo sabendo que aquilo seria minha ruína. E foi. Havia algo novo nos olhos dele. Não era só preocupação, não era só carinho. Era fome misturada com medo, desejo misturado com coragem. Um tipo de coragem que eu nunca tinha visto nele, mas que ele guardava só para mim.
— Eu não consigo mais fingir que tá tudo igual — sussurrou. — Eu não consigo mais fazer de conta que não senti nada naquela noite.
Meu coração deu um salto. A magia respondeu com um estalo invisível, fazendo o ar vibrar entre nós.
… — Não foge de mim de novo.
Ele ergueu a mão e tocou meu rosto, o polegar roçando minha bochecha. O calor se espalhou pelo meu corpo inteiro, como se minha magia tivesse esperado exatamente esse toque para acordar de verdade. Eu tentei dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas ele não me deixou.
aproximou o rosto devagar, como se estivesse me dando tempo para recuar. Eu não recuei. E então ele me beijou.
Foi um beijo firme, decidido, mas não brusco, como se ele tivesse finalmente encontrado coragem para fazer o que queria desde a noite do absinto. Meus lábios se abriram sem resistência, e eu senti as mãos dele segurarem meu rosto, me puxando para mais perto, como se ele tivesse medo de que eu escapasse de novo.
A magia explodiu dentro de mim. Uma onda de calor subiu da minha coluna até a nuca, deixando meus dedos formigando. Eu senti o chão tremer levemente ou talvez fosse só meu corpo. O ar ao nosso redor ficou denso, mais quente, mais vivo.
Eu deveria ter parado. Eu deveria ter afastado ele. Eu deveria ter protegido ele de mim. Mas eu o beijei de volta. Beijei como alguém que segurou a respiração por meses e finalmente pôde respirar. Beijei com medo e desejo e confusão, com a certeza de que aquilo nunca deveria acontecer, e a certeza ainda maior de que era inevitável.
Quando ele se afastou por um segundo, a testa colada na minha, o coração dele batia tão rápido quanto o meu.
— Me diz pra parar — ele pediu, ofegante. — Se você disser, eu paro.
Eu abri a boca… mas nenhuma palavra saiu. A única coisa que saiu foi mais um beijo. E aquilo foi a resposta que ele queria.
Quando o beijo finalmente terminou, eu senti como se tivesse atravessado um portal invisível, uma fronteira que sempre existiu entre eu e , mas que agora simplesmente não estava mais lá. A respiração dele encostava na minha, quente, trêmula, e eu percebi que não era só eu que estava perdida. Ele também estava. Perdido em mim.
E pela primeira vez, eu senti…desejada de um jeito que nenhum dos meus namorados anteriores sequer chegou perto. O tipo de desejo que não tem nada a ver com corpo, ou aparência, ou status. Era como se ele quisesse tudo de mim, cada parte boa e cada desastre que eu era.
Eu nunca tinha sentido isso. Nunca. E talvez fosse exatamente esse o problema.
… — Ele sussurrou, como se meu nome tivesse virado algo precioso demais para ser dito em voz alta. — Eu não devia ter feito isso… mas também não conseguia não fazer.
Eu ri baixinho, com um tipo de coragem que não era minha. — Eu também não.
Ficamos assim por alguns instantes, como se o mundo tivesse encolhido até caber no espaço entre nossas bocas. Então deu um sorriso torto, aquele que sempre denunciava que ele estava prestes a fazer algo impulsivo.
— Tem uma festa hoje. A Cyra me chamou ontem. — Ele passou a mão pelos meus cabelos de forma distraída, quase reverente. — Vai comigo?
Uma festa. Com ele. Eu e ele juntos. Na frente de todo mundo.
Meu estômago se revirou, não de medo, mas de expectativa.
— Eu vou — respondi, sem hesitar.

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O lugar era quase uma versão melhorada da casa da Sommers: luzes baixas, música alta, jovens se espalhando por todos os cantos, mas havia algo no ar além de álcool e perfume, algo elétrico. Algo que vinha de mim. Eu sentia a magia se mexendo por baixo da pele, como se estivesse dançando antes mesmo de eu ouvir a primeira batida da música. Talvez estivesse. Talvez ela soubesse que essa noite seria perigosa.
Quando segurou minha mão, senti uma onda de calma tão profunda que poderia jurar que alguém tinha colocado um feitiço de proteção em volta de nós dois. Eu olhei para nossas mãos entrelaçadas e, pela primeira vez desde que a maldição foi revelada, não senti medo. Senti pertencimento.
— Vem. — Ele puxou minha mão, sorrindo com aquele brilho que só aparecia quando ele estava realmente feliz.
Entramos no meio da pista, e a música mudou para uma batida forte, daquela que faz o chão vibrar. As luzes refletiam nos olhos dele, deixando-os mais claros, quase dourados. Ele colocou as mãos na minha cintura, firme, seguro, e eu passei meus braços por cima dos ombros dele, aproximando nossos corpos até que não sobrasse nenhum espaço.
Foi ali que começou. O tipo de dança que só se vê em filmes. Aquela energia meio suja, meio doce, totalmente inevitável. Corpos colados, respirações entrecortadas, uma tensão que parecia fabricar calor entre nós dois. A magia reagiu. E pela primeira vez na vida…eu deixei.
As luzes perto de nós começaram a piscar num ritmo que combinava com os nossos corpos, como se cada passo fosse um comando. O ar ficou mais quente, não desconfortável, mas ardente. A música parecia mover meus quadris sem que eu precisasse pensar. E … Deus. O corpo dele encaixava no meu como se nossos movimentos tivessem sido ensaiados por uma vida inteira.
— Eu não sabia que você dançava assim. — Ele riu contra o meu pescoço, a voz rouca, quente, deliciosa.
— Eu também não sabia — respondi, arfando.
Ele segurou minha cintura com mais firmeza, me girou com um puxão suave, e quando eu virei de volta, seu peito estava colado ao meu, seu nariz a centímetros do meu. A música vibrou entre nós, e de repente eu senti. Não era só atração. Era algo maior. Algo que queimava sem destruir. Algo que eu nunca tinha permitido sentir antes, porque era grande demais, perigoso demais.
Eu estava me apaixonando. E, pior: estava sendo correspondida. me olhava como se eu fosse o centro do universo dele.
Foi nesse momento, exatamente nesse, que Dylan apareceu. Ele surgiu entre as pessoas como quem chega sem intenção de interromper, mas só a presença dele foi o bastante para minha respiração travar. Dylan sempre teve um jeito delicado, leve, como se tudo nele fosse feito de cuidado. Um cuidado que ele tirou de mim quando terminou comigo, com aquela frase que eu ainda ouvia às vezes antes de dormir:
, eu te amo, não estou terminando com você por falta de sentimento. Estou terminando com você porque acho que não está funcionando como antes, não consigo me sentir conectado com você como antes, consegue entender?”
Passei meses tentando curar o rombo que ele deixou. E honestamente? Quando eu e inventamos essa história de namoro fake, foi por causa dele. Para que Dylan olhasse para mim de novo. Para que sentisse a minha falta. Para que percebesse o que perdeu. Mas quando os olhos dele encontraram os meus naquela pista de dança… eu percebi algo que doeu de um jeito novo.
Eu não queria que ele voltasse.
Não mais. Não depois de .
Dylan parou alguns passos à nossa frente. O rosto dele estava iluminado pelas luzes coloridas, mas eu juro que vi um sobressalto passar por sua expressão ao nos encontrar daquele jeito, colados, envolvidos um no outro, brilhando com algo que não existia quando eu estava com ele.
— ele disse meu nome com aquela calma habitual, mas não consegui ignorar o tremor escondido ali. — Você… veio.
Eu abri a boca para responder, mas foi quem recuou um passo, não para me soltar, mas para ajustar a mão na minha cintura, como se deixasse claro que eu não estava sozinha. Que ele me tinha. Que me queria ali.
— Dylan — cumprimentou sem hostilidade, mas com firmeza.
E ver os dois assim, meu ex e meu… algo, me deixou tonta. Não de ansiedade. Mas de uma verdade que finalmente se encaixou. Dylan olhou para mim mais demoradamente. Ele não parecia irritado, nem com ciúmes. Parecia… perdido. Como se algo no mundo tivesse mudado sem que ele percebesse.
— Eu achei que… — Ele pigarreou, desviando um segundo. — Que você estivesse só… de brincadeira com isso. Com vocês dois.
Meu peito apertou. Dylan sabia. Ou suspeitava. Todo mundo sabia, na verdade. O namoro fake nunca foi exatamente discreto. Mas agora…agora não era fake. E percebeu isso antes de mim.
— Não é brincadeira — ele disse. A mão dele apertou levemente minha cintura, como se confirmasse as próprias palavras.
Meu coração disparou. A magia subiu pelas minhas costas como uma onda quente, e uma luz ao nosso lado piscou. Baixinho, ainda controlada, ainda tímida. Dylan reparou. Seus olhos desceram para nossas mãos entrelaçadas, depois voltaram para meu rosto.
— Você parece… feliz — ele disse com um meio sorriso triste.
E eu não consegui negar. Não consegui mentir para ele. Para mim mesma.
— Eu estou — respondi, minha voz falhando no começo, mas firme ao final. — Estou mesmo, Dylan.
Ele assentiu, respirando pelo nariz, fundo, como quem aceita algo que não esperava aceitar tão cedo. Então seu olhar pousou em , e pela primeira vez eu vi respeito ali, uma espécie de reconhecimento silencioso.
— Cuida dela, tá? — Dylan disse, sincero. — Ela sente tudo muito forte. Mais do que mostra.
respirou fundo, como se tivesse recebido um pedido de confiança. Ou uma promessa.
— Sempre — respondeu.
Dylan sorriu de leve, o tipo de sorriso que não machuca, mas fecha portas. Ele tocou meu braço de forma leve, carinhosa, sem segundas intenções.
— Eu gosto muito de você, . Sempre vou gostar. Mas… — Ele olhou para novamente. — Acho que agora você tá exatamente onde devia estar.
E assim, com uma última troca de olhares, ele se afastou entre as pessoas, desaparecendo de volta para dentro da festa. Fiquei parada alguns segundos, com o coração entalado na garganta. se aproximou devagar.
— Você tá bem? — ele murmurou contra minha têmpora.
— Eu… tô. — Minha voz saiu baixa, honesta. — Eu achei que ia doer mais.
— E doeu?
— Só um pouco. — Eu ri soprado. — Mas eu acho que… eu acho que já doeu o que tinha pra doer.
sorriu devagar, como quem entende mais do que eu digo.
Owens… — Ele deslizou os dedos pelo meu rosto, tocando minha pele como se fosse frágil demais. — Eu queria te beijar de novo desde o segundo que parei.
— Então beija — respondi, sem coragem suficiente para mentir.
inclinou o rosto na minha direção, e eu senti a respiração dele tocar minha boca, quente, urgente, certeira. A música parecia pulsar ao nosso redor, e minha magia acompanhou o ritmo, subindo pela minha pele como luz dourada em um vitral. Era impossível ignorar. Impossível conter.
E então ele me beijou. Um beijo firme, decidido, como se ele tivesse segurado esse desejo por tempo demais. Eu correspondi imediatamente, puxando sua jaqueta, segurando-o como se o mundo tivesse finalmente encontrado seu ponto de equilíbrio ali, entre nós dois.
Foi exatamente nesse instante que Diana apareceu.
— Vocês só podem estar de brincadeira comigo.
A voz dela cortou o ar como uma lâmina fria. Eu e nos afastamos o suficiente para olhar, mas não o bastante para dar espaço. Ele ficou entre mim e ela por puro reflexo, o maxilar travado, a mão ainda na minha cintura. Eu senti a tensão escorrer pelo corpo dele como eletricidade.
Diana estava linda, óbvio. Sempre estava. Mas linda de um jeito perigoso, com os olhos brilhando de raiva e o sorriso quase irônico, quase prestes a quebrar.
. — Ela disse devagar, como se saboreasse o nome. — Então é isso? O namoro…é real?
soltou um suspiro curto. — Diana, não começa.
“Não começa”? — Ela riu, mas não era humor. Era incredulidade. — Você me encheu o saco por meses por causa do nosso término. Ficou me perseguindo pelos corredores querendo “resolver”.
Ela levantou o dedo indicador, apontando para ele como se estivesse listando provas num tribunal.
— Aí, do nada, você aparece assim — ela fez um gesto amplo, indicando nós dois — com a .
Meu estômago virou. Não por vergonha, mas por algo mais bruto. Ciúme, talvez. Ou medo de que ela soubesse mais do que devia.
— E você — ela virou o rosto para mim, e aquele olhar poderia incendiar a madeira —, você realmente caiu nessa, né? não sente de verdade. Ele só quer ser o primeiro a deixar alguém antes de ser deixado.
deu um passo à frente antes que eu pudesse abrir a boca.
— Chega, Diana. Você não tem esse direito.
— Tenho sim — ela retrucou, com a voz afiada. — Porque vocês dois usaram eu e Dylan como joguinho. Vocês acham que não dá pra perceber? Vocês acham que ninguém viu vocês ensaiando esse teatrinho por semanas?
Eu senti meu coração acelerar. Não porque ela estivesse errada. Mas porque, agora, aquilo não era mais teatro.
— Você tá apaixonado por ela. — A frase não foi uma pergunta.
respirou fundo.
— Tô.
O impacto fez Diana vacilar um passo. Eu vi. não viu, porque estava olhando para mim. Meu coração parou. Diana, não.
— Que lindo — Diana murmurou, a voz trêmula de ódio. — Que romântico. A bruxinha finalmente conseguiu o que queria.
Houve um brilho nos olhos dela, não mágico, mas humano. Frustração. Dor. Orgulho ferido. Ela deu um passo para trás, ajustando o cabelo com um gesto brusco.
— Isso não vai durar. Vocês sabem disso, né? Vocês dois são uma bomba-relógio.
O olhar dela percorreu meu corpo como se descobrisse cada camada de mim. — E quando explodir… eu quero estar lá para ver.
E então ela saiu, empurrando quem estivesse no caminho, desaparecendo entre as luzes. ficou parado, respirando rápido, o peito subindo e descendo.
… — ele começou, inseguro, quase assustado.
Mas eu não deixei. Segurei o rosto dele com as duas mãos, puxando-o para mim.
— Eu também tô — sussurrei. — Apaixonada.
A magia acendeu ao redor dos nossos pés, fraca e bonita, como vaga-lumes verdes dançando ao som da música. sorriu, não aquele sorriso tímido. O verdadeiro. O que ele guardava só para mim.
E então ele me beijou de novo. Dessa vez sem interrupções. Sem dúvidas. Sem ninguém para impedir.


O dia seguinte à festa parecia um borrão feito de música, suor, magia e o toque quente das mãos de . Eu acordei com a sensação de que a noite anterior tinha sido apenas um sonho maluco, mas o gosto doce e fresco do beijo dele permaneceu na minha boca como um lembrete cruel de que aquilo foi real. E perigoso. Muito perigoso.
Passei a manhã inteira evitando meu próprio reflexo, porque eu sabia que, se olhasse fundo demais, encontraria ali a verdade que venho tentando sufocar desde o primeiro gole do absinto mágico: eu estou, completamente, inexoravelmente, me apaixonando por Malle. E isso não era o combinado. Não era o plano. Não era seguro.
Hans dormia entre os meus pés quando o celular vibrou.

:
“Quer passar aqui mais tarde? A gente precisa conversar.”

Meu coração bateu duzentas vezes seguidas antes de eu responder qualquer coisa. A palavra “precisa” ficou martelando na minha cabeça como se fosse a batida de um feitiço proibido. Respirei fundo, tentei racionalizar, mas meus dedos tremiam demais.

Eu:
“Mais tarde eu te aviso.”

Não avisei. Óbvio que não avisei. Passei o dia inteiro fugindo dele como se fugir fosse possível quando a magia dentro de mim se acende toda vez que eu penso no jeito que ele segurou meu rosto…ou no jeito que me beijou como se estivesse me descobrindo. Como se estivesse me escolhendo.
E eu estava escolhendo ele também. E esse era o problema.
Por volta das sete da noite, quando o sol finalmente se escondia atrás das árvores, ouvi batidas insistentes na porta da sala. Meu estômago despencou. Hans ergueu a cabeça e miou como se dissesse “não adianta correr”.
Abri a porta com uma fresta. estava ali, com uma expressão que eu nunca tinha visto: uma mistura de preocupação e irritação, as duas voltadas para mim.
, dá pra gente conversar? — a voz dele saiu baixa, mas firme. Não era um pedido; era um convite que não deixava espaço para recusa.
Eu poderia ter inventado qualquer desculpa. Mas ele me olhava daquele jeito… como se enxergasse até o que eu tentava enterrar.
— Claro — menti, abrindo a porta. Ele entrou, passou a mão pelos cabelos e respirou fundo, como se organizasse palavras difíceis.
— Você está estranha comigo — disse de repente, direto, sem rodeios. — Não finge que não tá. Você sumiu o dia inteiro. Nem me respondeu. E ontem… ontem foi importante pra gente.
Meu peito apertou com força. A magia, que já andava inquieta, formigou nas pontas dos meus dedos.
… — comecei, mas não consegui terminar.
— Não me empurra pra longe, . — Ele deu um passo na minha direção, e eu dei um passo atrás como reflexo. — Você pode me dizer qualquer coisa. Você sabe disso. Eu tô aqui. Eu tô tentando.
— É esse o problema — respondi rápido demais, a voz falhando. — Você está tentando demais.
Ele franziu a testa.
— E desde quando isso é ruim?
Engoli seco. Eu não podia contar sobre a magia fora de controle, sobre a profecia, sobre o fato de que quanto mais forte eu sentia por ele, mais perigosa eu me tornava. Não podia dizer que, quando ele me toca, meu corpo inteiro reage com uma energia que ameaça romper a casa inteira. Não podia dizer que eu estava me apaixonando e que isso poderia destruí-lo.
— Eu só… — Respirei fundo. — Acho que a gente está indo rápido demais.
riu pelo nariz. Não um riso divertido, mas um riso machucado.
, você está com medo de mim?
A pergunta me atingiu como uma flecha. Me aproximei da porta, colocando uma barreira invisível entre nós.
— Eu só preciso de um tempo — sussurrei.
Ele balançou a cabeça, negando devagar.
— Eu não acredito nisso. — Deu mais um passo, e eu pude sentir o calor da proximidade dele. — , olha pra mim.
Olhei. E me arrependi na mesma hora. Ele me encarava como se estivesse tentando decifrar uma verdade escrita na minha pele. Os olhos dele brilhavam de um jeito intenso, vulnerável. Um jeito que eu já tinha aprendido a amar.
— Ontem… — ele murmurou, a voz quase quebrando. — Ontem você me beijou como se quisesse o mundo inteiro comigo. E hoje você não consegue nem ficar no mesmo cômodo. Eu fiz alguma coisa?
A dor que atravessou o rosto dele era tão real que minha magia tremeu dentro de mim como um animal preso.
— Você não fez nada — consegui dizer, com a voz fraca. — É por isso que…é por isso que eu preciso me afastar.
demorou exatamente um segundo para processar. E então tomou a decisão mais ousada que já vi ele tomar desde que nos conhecemos. Ele me segurou o rosto com as duas mãos e me beijou. Não foi um beijo calmo. Não foi um pedido. Foi um beijo desesperado, urgente, como se ele estivesse dizendo tudo o que eu não deixei ele falar.
Meu corpo inteiro respondeu num estalo, uma explosão quente subindo pela espinha, um feitiço selvagem prestes a escapar. A magia se agitava, brilhava sob minha pele, queria se expandir com a intensidade daquele toque. E ainda assim… eu não recuei.
Eu beijei ele de volta. Com fome. Com medo. Com desejo. Com tudo que eu era e tudo que eu temia. Quando ele afastou a boca da minha, ofegante, sua testa encostou na minha.
— Eu não vou recuar — ele sussurrou, firme. — Você pode fugir o quanto quiser. Eu não vou desistir de você, .
Fechei os olhos, sentindo o mundo girar, sentindo a magia pulsar como um coração extra dentro do meu peito. Eu estava em queda livre. E ele estava pulando junto.
Eu ainda sentia o gosto do na boca quando percebi que o beijo não tinha acabado ali, o corpo dele se inclinou de novo, e o meu respondeu antes mesmo que eu pensasse. Era como se tudo que eu vinha reprimindo há meses finalmente tivesse encontrado uma brecha, um convite, um “vem” sussurrando na minha pele. Quando ele me segurou pela cintura, puxando meu quadril contra o dele, senti meu coração bater tão forte que minhas costelas vibraram.
Ele riu baixinho, aquele riso rouco, torto, que sempre me desmonta e encostou a boca no meu pescoço. Foi tão rápido, tão suave e tão quente que minhas pernas perderam metade da função.
… você tem noção do que está fazendo comigo? — ele murmurou contra minha pele, e aquilo não ajudou. Nem um pouco.
Minhas mãos subiram pelo peito dele por puro reflexo, guiadas mais pelo desejo do que por qualquer racionalidade, e quando percebi já estava puxando a camisa dele para cima, revelando um pedaço da barriga quente, firme… meu Deus. Eu não tinha autocontrole o suficiente para o Malle.
— Se você continuar assim — ele disse entre um beijo e outro na minha mandíbula —, eu vou acabar tirando essa sua blusa sem nem pensar duas vezes.
Meu corpo inteiro acendeu. Literalmente. Uma prateleira atrás de nós tremeu, tão forte que uma caneca caiu no chão e fez um tlec dramático. congelou. Eu congelei. E a lâmpada do teto piscou como se estivesse tentando acompanhar meu ataque hormonal.
— O que… foi isso? — ele perguntou, mas não se afastou. Na verdade, ele me segurou mais firme, como se temesse que eu fosse cair, o que, honestamente, era uma possibilidade real.
— Isso? — Tentei parecer calma, mas o toque da boca dele ainda queimava na minha pele. — Só… só o ambiente reagindo. Sei lá. Clima. Temperatura. Fricção. Física.
Outra caneca caiu. Eu quase gritei de nervoso.
mordeu o lábio. Aquele maldito lábio.
… — ele disse, e a mão dele desceu pela minha coluna devagar demais para alguém que queria que eu me acalmasse. — Acho que a física tá brava com você.
— A física pode ir se foder — respondi sem pensar, porque ele estava beijando meu ombro, e eu perdi a dignidade inteira por alguns segundos.
A luz piscou mais forte, uma rajada de ar quente passou pela sala como se alguém tivesse aberto o forno, e uma vela acendeu sozinha na prateleira. Uma vela. afastou o rosto dois centímetros, só dois, com os olhos arregalados — mas não de medo. De curiosidade. De espanto. De… fascínio.
— Isso é… você? — ele perguntou num sussurro, como se estivesse testemunhando o nascer de um sol.
Senti minha garganta secar. Eu sabia que precisava recuar, explicar, pedir desculpas, fugir para o Alasca. Mas aí ele passou o polegar na minha boca, bem no canto, e eu parei de respirar por um instante que durou uma eternidade.
… — ele disse, olhando para mim como se eu fosse o centro gravitacional de tudo. — Se isso é você perdendo o controle… eu juro por tudo que existe que não estou com medo. Nem um pouco.
Eu ri nervosa, porque meu corpo estava prestes a explodir. — Ótimo. Porque eu estou — confessei.
— Então deixa eu te ajudar. — aproximou a testa da minha. — Não precisa fugir de mim, . Eu aguento você. Até a parte que brilha e derruba canecas.
E como se minha magia tivesse ouvido, claro que ouviu, desgraçada curiosa, as luzes pararam de piscar. A sala ficou quente, mas calma. E eu senti algo que nunca tinha sentido antes quando perdia o controle. Não medo. Não vergonha. Não culpa.
Mas… aconchego.
Minha magia, pela primeira vez, não parecia um monstro. Parecia uma extensão minha, respondendo a alguém que eu finalmente confiava. E me segurava como se aquilo tudo, o calor, o tremor, a intensidade, fosse bonito de verdade.
Eu respirei fundo, tentando achar alguma sanidade dentro de mim, provavelmente escondida embaixo do sofá, tremendo junto com minha dignidade.
… calma. — Minha voz saiu trêmula, quase um pedido urgente. — Eu preciso… de um segundo. Um segundo sem você me olhando desse jeito, por favor.
Ele riu baixo, e aquele riso fez minha espinha arrepiar do mesmo jeito. — Claro, . Calma. Eu consigo calma. — Levantou as mãos como quem se rende. — Tá vendo? Olha eu calmo. Super calmo. A pessoa mais calma da ilha.
Uma terceira caneca ameaçou chacoalhar na prateleira e eu apontei um dedo para ela como se fosse uma ameaça silenciosa.
— Nem pense nisso — murmurei. A caneca parou.
Respirei fundo outra vez e puxei a barra da camisa dele para baixo, um gesto menos sensual do que eu gostaria, mais desesperado pela paz mental.
— Vamos… subir. Para o meu quarto. — Dei dois passos para trás, recuperando o ar. — Mais… seguro. Menos… destruição de propriedade.
— E menos tentações? — Ele ergueu a sobrancelha, claramente se divertindo às minhas custas.
— Principalmente isso — respondi, mesmo sabendo que estava mentindo descaradamente.
Subimos a escada em silêncio, o tipo de silêncio que pulsava entre nós, quente, apertado, cheio de tudo que não dissemos e tudo que já estava dito demais. Quando chegamos ao meu quarto, Hans estava dormindo no canto da cama, embolado num cobertor que ele tinha roubado de mim. Pelo menos alguém naquela casa tinha paz.
entrou devagar, olhando tudo com uma expressão estranha, quase nostálgica, quase séria. Ele se sentou no tapete, encostando as costas na minha cama, enquanto eu me sentava ao lado dele, abraçando as pernas contra o peito. Senti meu corpo finalmente desacelerar, como se a presença dele surtisse efeito calmante.
— Sabe… — ele começou, mexendo numa penugem que tinha grudado na calça —, quando eu era pequeno, eu morria de medo da sua família.
Eu virei o rosto rápido.
— É sério?
— Não de vocês — ele disse, sorrindo de canto. — De como as pessoas falavam de vocês.
Aquilo fez meu peito apertar de um jeito estranho. Eu cresci ouvindo histórias, metade verdade, metade exagero, metade pura inveja, mas ouvir isso da boca do …machucou um pouquinho mais fundo.
— Tipo o quê?
Ele respirou fundo, olhando para as próprias mãos.
— Diziam que vocês amaldiçoavam quem falava mal. Que vocês conseguiam fazer gente sumir. Que eram perigosas. Que sua mãe tinha um livro proibido trancado no porão…e que vocês tinham um pacto com alguma coisa da floresta.
Meu Deus. — Eu coloquei a mão na testa. — As pessoas são idiotas.
— São. — Ele riu baixinho. — Mas sabe qual era a parte mais idiota de todas?
— Qual?
Ele me olhou de lado, aquele olhar torto, doce, um pouco vulnerável. — Que mesmo ouvindo tudo isso… eu queria ser seu amigo. Desde sempre.
Eu senti minha garganta fechar.

— Eu via você passando na rua com suas irmãs, toda confiante, toda… você — ele continuou, quase sem respirar. — E eu ficava pensando: “Como deve ser legal ser amigo da Owens. Aposto que ela não tem medo de nada.”
Ri baixinho, porque a ironia da vida às vezes vem com um tapa.
— Eu sempre tive medo de tudo, . Até de mim mesma.
— Eu sei — ele disse, e o modo como ele disse me desmontou por dentro. — Mas você tenta. Você enfrenta. Eu sempre admirei isso.
O quarto ficou silencioso por alguns segundos, silencioso de um jeito bom, que preenche. Eu encostei minha cabeça no ombro dele, quase sem perceber, e ele inclinou um pouco o corpo para que ficasse mais confortável para mim. Não precisava dizer nada. Ele nunca precisou.
Pela primeira vez na minha vida, minha magia não parecia um monstro preso na minha pele. Parecia…viva. Respirando com a gente. Em paz. E eu percebi que, talvez, parte dessa paz tinha o nome dele.
Ficamos ali por um tempo que não sei medir, minha cabeça apoiada no ombro dele e o mundo finalmente desacelerando. O calor que antes parecia me consumir agora era só… conforto. Um conforto que eu não lembrava de ter sentido em ninguém. Nem nos meus namoros. Nem nos meus quase-amores. Nem nos meus sonhos. Só nele.
— Sabe… — eu disse num quase sussurro, apenas para quebrar o silêncio antes que ele quebrasse a mim —, se você tivesse chegado perto de mim quando era criança, teria descoberto rápido que eu não fazia ninguém sumir.
— Eu sei. — sorriu. — Mas eu também era uma criança com zero coragem e um pai que vivia dizendo pra eu não chegar perto da “casa das Owens”.
— Ah. — Fiz uma careta. — Então era isso. Um medo hereditário.
— Um medo burro — ele corrigiu, tocando de leve minha mão. — O único medo que eu realmente devia ter… era de como eu me sentiria agora.
Meu coração deu um salto tão alto que minha magia vibrou junto. A luz da luminária piscou de leve, mas dessa vez não caiu nada, não quebrou nada, não explodiu nada. Só brilhou. Eu estava prestes a dizer algo igualmente bonito, ou idiota, ou perigoso, quando senti uma coisa fofinha e pesada subindo no meu colo sem permissão.
Hans.
O gato se acomodou como se fosse um príncipe reivindicando o trono, miou olhando diretamente para e depois para mim, como se estivesse julgando cada centímetro de parecermos emocionalmente incompetentes.
— Hans, sério? — resmunguei, tentando afastá-lo. Ele ronronou e se deitou ainda mais em cima de mim, espalhando pelo e impondo sua presença felina como se fosse um aviso.
riu, aquele riso que eu sabia que guardaria em algum canto do peito.
— Acho que ele tá com ciúmes.
— Ele nem sabe o que é ciúmes — falei, mas o gato levantou a patinha e deu um tapinha no braço do , bem de leve, como se dissesse “afaste-se da minha bruxa…humana favorita”.
A gargalhada do ecoou pelo quarto, quente, leve, e eu não consegui evitar o sorriso.
— Hans… — se aproximou para fazer carinho, mas o gato virou a cara com o maior desdém que já vi num animal. — Ele realmente não gosta de mim.
— Não é isso… — tentei defender, mas Hans bufou. Bufou. — Ok, talvez um pouco.
inclinou o rosto na minha direção, ainda rindo. — Tudo bem. Eu conquisto ele depois. — Fez um carinho rápido na minha mão, o mais gentil do mundo. — Primeiro… eu conquisto você.
Meu coração deu outro salto, e antes que qualquer coisa mágica em mim resolvesse incendiar o quarto inteiro, Hans colocou as duas patas na minha barriga e me empurrou para trás, como se decretasse oficialmente o fim da noite.
— Ok, ok, seu ciumento — murmurei, deitando enquanto Hans se acomodava exatamente onde queria, como se tivesse vencido uma batalha territorial.
se levantou devagar, e antes de ir, olhou para mim com aquele olhar que me desmonta inteira. — Boa noite, .
— Boa noite, — respondi, acariciando Hans, que miou baixinho como se tivesse certeza de que era o protagonista.
saiu do meu quarto com um sorriso que poderia facilmente virar feitiço, e eu fiquei ali, deitada, com um gato roncando no meu peito e uma magia tranquila pulsando sob minha pele pela primeira vez na vida.


Acordei com Hans dormindo exatamente em cima do meu estômago, como se fosse um pequeno demônio de quatro quilos tentando impedir que eu tivesse qualquer mobilidade humana antes das nove da manhã. Pisquei algumas vezes, sentindo a luz suave entrar pelo quarto, e a primeira coisa que me veio à cabeça não foi a magia, nem o surto, nem as canecas caindo…
Foi .
O jeito que ele disse “primeiro eu conquisto você”. O jeito que ele segurou meu rosto como se eu fosse algo precioso. O jeito que a minha magia, pela primeira vez, não tentou destruir nada, só… brilhar.
Eu virei o rosto no travesseiro, quente demais, irritada comigo mesma e com o fato de que um simples pensamento sobre ele fazia meu corpo inteiro reagir de um jeito que eu nem sabia nomear direito. Hans se espreguiçou, colocou a pata na minha bochecha e soltou um miado irritado, provavelmente pedindo comida ou atenção. Ou ambos.
— Eu sei, eu sei — murmurei, fazendo carinho nele. — A mamãe tá surtando em silêncio, desculpa.
Levantei devagar, tentando não acordar o dragão peludo, mas ele decidiu se agarrar à minha blusa como se fosse uma âncora de segurança emocional. Arrastei-o até a cozinha com a dignidade reduzida a zero. Enquanto colocava ração no potinho, o celular vibrou em cima do balcão. Meu coração disparou, porque claro, eu só poderia ser ridícula o suficiente para desejar que fosse ele.
Era.

:
“Você dormiu bem?”

Respirei fundo, tentando não analisar cada byte da mensagem. Respondi:

Eu:
“Sim. Você?”

A resposta veio em três segundos, o que já me fez sentir algo quente no peito.

:
“Mais ou menos.
Hans me bateu no sonho.”

Eu ri sozinha, tão alto que Hans me olhou como se estivesse julgando minhas escolhas românticas.

Eu:
“Ele faria isso acordado também.”

Mais três segundos.

:
“Pode me culpar?
Pelo menos no sonho eu tava perto.”

Pronto. Eu morri. Eu oficialmente morri. Enterrem meu corpo e deixem a magia brilhar no funeral. Encostei as costas na pia e fechei os olhos por um segundo, tentando me convencer de que eu ainda conseguia pensar com coerência. Mas não conseguia. Porque havia algo novo dentro de mim, uma coisa que crescia no peito e se espalhava devagar, como calor depois de entrar num banho quente. Uma coisa que eu conhecia de longe, mas nunca assim.
Não desse jeito. Não tão… correspondida.
Hans subiu no balcão e enfiou a cabeça na porta do armário aberta, derrubando uma caixa de cereal no chão.
— Perfeito, obrigada, filho. — Suspirei.
Enquanto recolhia os flocos espalhados, algo dentro de mim começou a fremir. Uma vibração baixa, quase imperceptível, como se minha magia estivesse acordando junto comigo, mas agora não era descontrole. Era outra coisa. Um reflexo. Um aviso. Uma vontade.
E então percebi: Eu estava com saudade do .
Saudade dele no meu quarto. Saudade dele rindo do Hans. Saudade da mão dele na minha cintura, da testa dele na minha. Saudade da calma que ele me trouxe quando eu achei que ia desabar.
E isso… era perigoso. E lindo. E totalmente novo.
O celular vibrou de novo.

:
“Posso passar aí?
Prometo que não faço canecas caírem.”

Meu estômago deu um salto tão alto que Hans levou um susto e pulou dentro do saco de ração. Eu respirei fundo, sentindo a magia aquecer a ponta dos meus dedos, como se dissesse vai.
E então escrevi:

Eu:
“Pode.”

Enviei antes que a covardia falasse mais alto. Hans saiu da sacola com os bigodes cheios de ração e me encarou com a expressão de alguém que sabe exatamente o que está acontecendo.
— Não começa, Hans — murmurei, mas ele já tinha virado o rosto como um crítico de cinema insatisfeito.
Eu sabia que, quando entrasse por aquela porta, tudo o que estava entre nós, o beijo, a magia, o medo, a vontade, se tornaria real demais. E, pela primeira vez, eu não quis fugir disso.
Não deu nem tempo de eu arrumar a cozinha, muito menos arrumar o meu cabelo, que estava na fase “vassoura emotiva”. Quando a campainha tocou, Hans correu para debaixo da mesa como se estivesse se preparando para uma inspeção militar. Eu respirei fundo, passei a mão no rosto e abri a porta tentando parecer natural, como se eu não tivesse passado a manhã inteira surtando por causa dele.
estava ali, com a jaqueta jeans, o cabelo bagunçado de um jeito propositalmente perfeito e aquele sorriso que sempre parece metade tímido, metade atrevido.
— Oi — ele disse, e o jeito como disse fez meu estômago virar uma pequena constelação.
— Oi — respondi, percebendo tarde demais que minha voz saiu baixa demais, doce demais. Entregue demais.
— O Hans já me odeia ou eu tenho tempo de fazer uma boa primeira impressão hoje? — ele perguntou, entrando devagar. Olhou em volta, como se a casa inteira tivesse um significado novo pra ele agora.
— Depende. — Fechei a porta. — Você trouxe comida?
— Sim. — Ele levantou uma sacola. — Panquecas. Com gotas de chocolate. Compradas. Não feitas, porque eu me importo com a sua saúde.
Eu ri e senti meu corpo relaxar de um jeito que só acontecia com ele por perto. se sentou no chão da sala, perto do tapete, e fez um gesto com a cabeça para eu sentar também. Sentei ao lado dele, as pernas cruzadas, como se aquilo fosse nosso ritual desde sempre.
Ele abriu a caixa das panquecas, colocou uma no meu prato e me olhou com aquele brilho no olhar, o mesmo brilho de ontem, o mesmo brilho do beijo.
— Você tá diferente hoje — ele disse, sem rodeios.
Eu respirei devagar, sentindo a magia pulsar fraca na ponta dos dedos, como se esticasse o corpo depois de uma noite longa. — É… acho que tô.
— É por causa de ontem? — ele perguntou, mas sem pressionar. Era só uma curiosidade gentil, um espaço aberto para verdade.
— Um pouco — admiti. — E… por causa de você.
Ele desviou o olhar, como se tentasse esconder um sorriso idiota e falhou miseravelmente.
, ontem… — Ele coçou a nuca, nervoso de um jeito fofo demais pro meu sistema nervoso. — Aquilo que rolou no quarto… eu não quero que você se sinta culpada ou com medo ou... sei lá. Você sabe que eu não tenho medo da sua magia, né?
Eu não precisava da magia para sentir que ele estava dizendo a verdade. Eu simplesmente sabia.
— Eu sei — respondi, com um sorriso pequeno e sincero. — E isso assusta.
— Assusta porque…? — ele inclinou a cabeça.
Pronto. Eu estava presa. Entre o olhar dele e o sentimento crescendo no meu peito. Sem saída.
— Porque ninguém nunca… ficou — confessei, baixinho. — Com tudo de mim. Nem eu mesma fico às vezes.
respirou fundo, aproximou um pouco o joelho do meu e apoiou o queixo na mão, como se estivesse analisando algo importante.
— Então deixa eu ficar — disse, simples assim.
A frase bateu em mim com tanta força que minha magia deu um pequeno estalo no ar, uma faísca quase invisível, mas perceptível o suficiente para Hans, que saiu debaixo da mesa e veio se esfregar na minha perna como se fosse apoio emocional.
olhou para o gato e riu. — Agora sim. O Hans aprovando. Acho que tô fazendo progresso.
Eu me inclinei um pouco para frente, só um pouco, como se meu corpo estivesse sendo puxado pelo dele. Ele percebeu. Eu percebi que ele percebeu. E o ar ficou quente de novo.
… — Minha voz falhou bem no meio, como sempre que ele me olhava assim.
— Hm? — Ele se aproximou mais, quase encostando a testa na minha, como se estivesse esperando o meu próximo movimento. Antes que eu tivesse coragem de fazer qualquer coisa, Hans subiu no meu colo, me empurrando para trás e miando alto.
caiu na risada tão forte que quase derrubou a caixa de panquecas. E eu… eu simplesmente deixei o gato se deitar e aceitei que talvez meu destino fosse ser sabotada pelo meu próprio filho felino.
Mas mesmo assim, mesmo com o Hans entre nós, ainda tocou minha mão por baixo do gato, discreto, suave e quente. E aquilo…aquilo valeu mais do que qualquer beijo interrompido.
Hans acabou dormindo no meu colo como se tivesse trabalhado a noite inteira salvando o mundo felino. , ainda sentado ao meu lado, observava o gato com um carinho silencioso e, ao mesmo tempo, um brilho divertido no olhar, como se estivesse aceitando que a concorrência felina era parte do pacote Owens”.
— Ele realmente gosta de você — murmurei, fazendo carinho nas orelhas de Hans.
— Claro que gosta. — sorriu. — Eu sou irresistível.
Revirei os olhos, mas senti meu peito esquentar. Ele encostou as costas no sofá e soltou um suspiro profundo, daqueles que abrem espaços dentro da gente.
— Sabe… eu sempre tive um pouco de inveja disso — disse ele, olhando para o chão.
— Inveja de quê?
— Da sua casa. Do jeito que vocês são. — mexeu no zíper da jaqueta, nervoso. — Mesmo quando a cidade olhava torto para a família de vocês, vocês nunca deixavam de ser…vocês.
Meu estômago apertou de um jeito estranho. Ele continuou:
— Quando eu era pequeno, minha mãe falava que as Owens tinham magia no sangue. — Ele riu, mas havia uma dor fina ali. — E não do jeito bonito… sabe? Era mais “não chega perto, , você não sabe o que essas meninas podem fazer”.
Meu coração afundou um pouco.
— Seus pais achavam a gente… perigosas?
— A cidade achava — respondeu, ainda sem olhar pra mim. — E meu pai… bom, ele achava que qualquer coisa que fosse diferente era ameaça. Eu cresci ouvindo coisas sobre vocês que… — ele respirou, lento. — Que nunca bateram com o que eu via.
Fiquei quieta, ouvindo. Às vezes, ouvir era mais íntimo do que qualquer toque.
— Eu lembro da primeira vez que te vi na escola — ele disse, com um sorriso nostálgico. — Você tava no jardim, com aquela trança esquisita que ficava caindo e comendo uma maçã como se estivesse fazendo um ritual secreto.
Eu ri. Hein?
— Eu só tava com fome, .
— Eu sei. — Ele riu também. — Mas pra mim, na época, parecia alguém… inatingível. Tipo… você era diferente. Brilhava de um jeito que eu não entendia.
A magia dentro de mim deu um pulso pequeno na minha garganta. Ele finalmente levantou os olhos e me encarou.
— Eu queria ser seu amigo desde aquele dia — ele confessou. — Só não tive coragem. E eu acho que… eu nunca tive. Até agora.
O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era carregado. Bonito. Cheio de coisas que ainda não tinham sido ditas. Hans se remexeu no meu colo e soltou um miado preguiçoso, mas não acordou. olhou para ele, depois para mim.
— Você quer ir pro seu quarto? — perguntou, baixinho. — A gente pode continuar conversando lá. Se quiser.
Assenti, mas meu coração batia rápido demais. Fomos devagar até meu quarto, sem fazer barulho, como se qualquer movimento mais brusco pudesse quebrar o clima. Entrei primeiro, coloquei Hans no pé da cama e me virei para , que parou na porta como se estivesse esperando permissão para entrar.
— Pode vir — murmurei.
Ele entrou. O quarto estava meio bagunçado, cheio de velas, livros, canecas de café e um casaco meu jogado em cima da escrivaninha. olhou tudo com um carinho quase reverente, como se estivesse entrando num lugar que sempre quis conhecer.
— Eu gosto daqui — ele disse.
— Da bagunça? — Ergui a sobrancelha.
— De você — respondeu, simples, honesto.
Eu senti o chão desaparecer um pouco. Ele se aproximou devagar, com aquele cuidado de quem tem medo de assustar uma borboleta pousada na palma da mão. Ficou de frente pra mim, tão perto que meu corpo inteiro ficou consciente de cada respiração dele.
… — ele disse, numa voz mais baixa do que eu já tinha ouvido. — Eu posso…?
Ele não terminou a frase. Não precisava. Meu corpo respondeu antes da minha boca. Inclinei um pouco o rosto, uma entrega mínima, um convite silencioso. O coração dele disparou. Eu ouvi. Eu senti.
levantou a mão e encostou os dedos no meu rosto, devagar, como se me tocasse fosse um privilégio que ele não queria estragar.
Lento. Puxado. Frágil e intenso ao mesmo tempo.
Nosso nariz quase se tocou, nossos lábios ficaram a menos de um suspiro de distância, a respiração dele bateu quente na minha boca…e por um segundo eu achei que o mundo inteiro tivesse parado só pra esperar que aquele momento finalmente acontecesse.
Eu fechei os olhos. Ele também. E então…Hans espirrou. Alto. Muito alto.
Eu dei um pulo. riu baixinho, encostando a testa na minha como se tentasse segurar a gargalhada.
— Eu juro que esse gato tem contrato com o destino — ele sussurrou.
Eu ri, senti minhas bochechas queimarem, mas não recuei. Pela primeira vez… eu não recuei. E ele percebeu. deslizou o polegar pela minha bochecha e, ainda bem perto, disse:
— Quando for a hora… eu vou saber. Você também vai. E vai ser perfeito.
Meu coração derreteu. E a magia? A magia ficou tão quieta quanto um lago no amanhecer.
Hans subiu na cama, se aninhou entre nós e fechou os olhos. suspirou.
— Ele realmente me adotou, né?
— É. — Sorri. — Parece que sim.


O cheiro de canela foi a primeira coisa que senti quando acordei forte, quente, familiar. A casa inteira parecia acordada antes de mim. Vozes no andar de baixo, passos, música… e o cheiro de canela e maçã. Halloween sempre deixava as Owens mais sentimentais, mais agitadas e, de algum modo, mais mágicas.
Desci as escadas devagar, ainda tentando entender porque meu coração parecia pesar e flutuar ao mesmo tempo, possivelmente culpa de um certo garoto de olhos brilhantes, mas eu preferi não pensar nisso.
Quando cheguei na sala, quase voltei correndo para o quarto. Estava um caos organizado: caixas abertas, teias falsas espalhadas, laços de fita roxa, mini abóboras encantadas que se moviam sozinhas como insetos curiosos. E no meio de tudo, minhas irmãs, todas elas, como se alguém tivesse convocado uma reunião familiar de emergência.
— Ah, a Bela Adormecida resolveu aparecer. — Astoria jogou uma abóbora para cima e ela aterrissou flutuando no lugar certo, projetando uma luz alaranjada na parede.
Indiga olhou por cima do ombro, o cabelo preso, a camiseta largona, a aura quente que sempre me dava vontade de chorar sem motivo. As velas próximas a ela se intensificaram só porque ela respirou mais fundo.
— Bom dia, — disse, com aquele sorriso que parecia um abraço. — Vem ajudar. Você sempre foi boa com as coisas da escada.
Théa estava concentrada em montar uma guirlanda com ossos falsos e folhas secas. Assim que ela deu um último toque com os dedos, a guirlanda se ajeitou sozinha na moldura da porta, como se tivesse esperado por aquela permissão silenciosa. Olivia estava dobrando toalhas antigas que, conforme ela passava a mão, pareciam se reconstruir, como se lembrassem do que eram antes do tempo desgastá-las.
E Nola… bem, Nola me olhava pelo reflexo do espelho de parede, sorrindo daquele jeito meio telepático, meio te-amando-sempre.
— Estávamos falando de você agora — ela confessou sem nem pedir desculpas.
— Olha só que surpresa — respondi, tentando não corar.
Mas elas sabiam. Todas sabiam. Era impossível esconder qualquer emoção naquela casa, ainda mais quando as paredes praticamente vibravam com nossa magia coletiva.
Peguei uma caixa e comecei a separar algumas lanternas de papel que, por algum motivo, tinham cheiro de hortelã. Talvez Olivia tivesse guardado ervas junto delas no ano passado. Talvez…magia. Quem sabe? Ser Owens era aceitar pequenas coisas inexplicáveis como parte do cotidiano.
— Lembra quando a mamãe usava essas lanternas para pregar susto na vizinhança? — Olivia comentou, rindo. — Ela dizia que Halloween era o único dia do ano em que a gente podia ser “um pouco mais estranha em público”.
Astoria deu uma gargalhada que fez as luzes piscarem duas vezes.
— Um pouco? Eu já acordei um dia com um esqueleto dançando do lado da cama porque ela achou que seria “educativo”.
— Educativo como? — perguntei, rindo.
— Sei lá! Talvez ela quisesse ensinar que a vida é curta. Ou que todo mundo vira osso. — Astoria deu de ombros e as mini abóboras começaram a rodopiar em volta dela como se estivessem rindo também.
Enquanto pendurava as lanternas, senti algo puxar inesperadamente meu cabelo. Olhei para trás e vi Nola com o dedo levantado.
— Foi a energia — disse ela. — Você tá… brilhando.
— Eu estou suada, é diferente.
— Não. — Ela sorriu com aquela certeza irritante. — Você está brilhando. Feliz. Confusa. Assustada. É uma mistura bonita.
Olivia desviou o olhar com um sorriso leve, Indiga suspirou como se entendesse algo profundo sem precisar de palavras, e até Théa, que nunca comenta nada emocional, ergueu uma sobrancelha como se dissesse “interessante”.
E então, como se o universo tivesse decidido me entregar, pensei, só por um segundo, em . E as velas ao meu lado ficaram lilás. Lilás.
As cinco viraram ao mesmo tempo. Ninguém falou nada. Ninguém riu. Só me encararam com um carinho tão grande que doeu.
— Isso foi… — Astoria começou.
— Nada — interrompi rápido demais.
— Foi bonito — disse Indiga com calma, e as velas diminuíram o brilho como se concordassem.
Seguimos a arrumação: Théa ajeitou os quadros que se alinharam sozinhos na parede, Olivia pendurou ramos de arruda que liberavam um cheiro de esperança, Astoria testou as luzes, que piscaram de acordo com o ritmo da risada dela, e Nola tocava músicas antigas enquanto murmurava cantigas para manter a energia da casa “leve”.
Eu queria guardar aquele momento num frasco. Todas elas ali, vivas, mágicas, imperfeitas e absolutamente essenciais. Uma família que o mundo julgava estranha, mas que sempre foi o meu lugar de retorno, mesmo quando eu tentava me afastar.
Quando terminamos, a casa estava… linda. Mas não linda comum. Linda Owens. O tipo de beleza que só existe quando a magia encontra o amor.
Foi nesse instante que Hans surgiu descendo as escadas, caminhando com um ar de rei medieval. Só percebi depois que ele estava… fantasiado. Nola tinha colocado nele uma capa roxa minúscula e um chapéu pontudo que provavelmente vinha de um conjunto de bruxa de brinquedo.
— Olha o nosso familiar oficial. — Astoria riu, pegando-o no colo.
Hans miou como se estivesse ofendido, mas depois ronronou quando Olivia fez um carinho atrás da orelha. O chapéu caiu para o lado, e Théa ajeitou com cuidado, murmurando um “pronto, majestade”.
Eu me aproximei dele, e Hans, num raro momento de carinho, encostou a cabeça no meu peito. Eu o abracei e respirei fundo. Talvez fosse a capa ridícula, talvez fosse o clima da casa, talvez fosse o fato de eu estar cercada por quem me amava… mas senti algo esquentar dentro de mim de um jeito confortável.
A magia parecia respirar junto comigo. E pela primeira vez em muito tempo, eu me senti inteira.


A semana inteira parecia ter um gosto estranho, meio amargo, como se a cidade estivesse mastigando o nome Owens e adorando o sabor da fofoca. Não era novidade alguém sussurrar sobre a minha família, mas agora, com o Halloween chegando e a tradição anual das irmãs decorando a casa, tudo parecia potencializado, como se o ar tivesse ganhado olhos e ouvidos.
Acordei com notificação atrás de notificação no celular, mas nenhuma delas era boa. Todas envolviam boatos. Comentários. Brincadeiras de mau gosto. A parte ruim? Começava na cidade… e terminava dentro da escola.
No caminho para o colégio, eu e Nola paramos na cafeteria da Sra. Maguire para comprar algo quente, o outono estava jogando vento na nossa cara com força e bastaram dois passos dentro do local para eu sentir a mudança na temperatura social. A mulher do caixa, sempre doce, hoje apenas assentiu com a cabeça, fria, enquanto duas senhoras na mesa do canto falavam baixinho demais para ser conversa inocente.
…elas estão preparando aquela casa de novo. Sempre igual.
É tradição delas, Mabel.
Tradição? Parece mais um chamado pra espíritos.
Minha vizinha disse que no ano passado a abóbora delas mexeu sozinha.
Nola apertou minha mão, e eu senti aquela dorzinha familiar no peito, aquela que só aparece quando você sabe que algo é injusto e não pode fazer absolutamente nada a respeito. Fizemos o pedido, tentando ignorar, mas comentários assim sempre grudam.
Quando chegamos à escola, parecia que as paredes tinham ouvido tudo e multiplicado. O clima estava ainda pior. No corredor principal, alguém tinha colocado um desenho ridículo no quadro de avisos: uma caricatura de uma bruxa montada num gato preto gigante, com “Owens Halloween Party — CUIDADO COM O FEITIÇO” escrito embaixo.
Eu nunca desejei tanto apagar alguém da existência como naquele instante.
— Eu vou arrancar isso — murmurei, já estendendo a mão.
— Não. — Nola segurou meu braço com força. — É exatamente isso que eles querem. Mostrar que a gente se afeta.
— Mas afeta, Nola — retruquei, e minha voz saiu mais quebrada do que eu queria.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, um grupo de colegas do segundo ano passou por nós cochichando alto demais.
Falam que a casa delas é cheia de símbolos estranhos.
Minha prima jura que viu uma coruja gigante parada no telhado uma vez.
Vai ser uma festa ou um ritual satânico?
Eles riram. Riram como se fosse engraçado.
— Vocês são realmente criativos — provoquei, cruzando os braços. — Só esqueceram que ritual satânico não é nem da nossa cultura. Pelo menos estudem antes de falar merda.
Os garotos pararam de rir, mas não recuaram. Não ainda.
— Tá nervosa por quê? — disse Dylan. Dylan.
Última pessoa que eu esperava, ou queria, ver nessa situação. — Ou isso foi um feitiço pra cima da gente?
Aquilo queimou. A forma cínica como ele disse, como se me conhecesse demais pra não acreditar na própria piada. Nola respirou fundo, visivelmente pronta para responder no meu lugar. Mas foi outra pessoa que chegou primeiro.
— Desculpa, tem fila pra falar besteira ou vocês só funcionam em bando? — Cyra Sommers atravessou o corredor como um furacão de batom escuro e sarcasmo. — Porque se for pra dar opinião idiota, pelo menos organiza uma planilha. Facilita pra geral.
Ela se apoiou na lateral do bebedouro, olhando os garotos com um tédio tão real que quase deu pena.
— Cyra… — Dylan rebateu, irritado. — Não se mete.
— Tarde demais. — Ela estalou a língua. — O dia que eu deixar de defender alguém só porque meia dúzia de marmanjo inseguro tá falando merda é o dia que eu morro.
Eu teria gargalhado, se não estivesse tão tensa. E então, como se a cena estivesse esperando por ele… entrou no corredor. Ele parou ao ver o desenho no quadro, o grupinho, eu e Nola no meio. A expressão dele mudou instantaneamente. Ele arrancou o papel com um movimento só, amassou e jogou no lixo.
— Qual de vocês fez isso? — A voz de soou baixa, mas carregada, firme o bastante para calar metade do andar.
Ninguém respondeu.
— Que coisa patética — ele continuou. — Vocês vivem numa ilha sem nada pra fazer e ainda gastam tempo tentando humilhar a ? A Nola? As Owens? Sério? Vocês são tão irrelevantes assim?
O silêncio foi tão grande que eu ouvi alguém engolir seco. se aproximou de mim. Não tocou. Mas ficou perto o suficiente pra eu sentir que tinha alguém ao meu lado. De verdade.
— Vocês sabem que nada disso é real. — Ele encarou Dylan diretamente dessa vez. — Ou você prefere acreditar em fofoca só pra justificar o fato de ter sido babaca?
Dylan desviou o olhar. E pela primeira vez, eu o vi… envergonhado.
Cyra bateu palmas devagar, debochada.
— Isso, gente. Aplausos pro único homem desse corredor que ainda usa o cérebro.
O grupo se dispersou quase rápido demais, como se o corredor tivesse ficado quente demais pra eles. Nola soltou o ar num suspiro longo. finalmente virou pra mim.
— Você tá bem?
E eu…eu não tava. Mas quando ele perguntou daquele jeito, com aquela preocupação sincera, aquela luz nos olhos que parecia dizer eu tô aqui, parecia que alguma coisa dentro de mim se realinhava.
— Vou ficar — respondi, mais honesta do que queria.
Ele assentiu, dando aquele meio sorriso que sempre me desmontava.
E Cyra completou:
— Eles que se preparem. Se tão com tanto medo da festa das Owens, imagina quando vocês realmente fizerem. Eu mal posso esperar.
Eu também não. Porque, pela primeira vez, a magia parecia estar do meu lado e não contra mim. Eu mal tinha respondido quando senti Nola dar um passo à frente. E não foi um passo tímido, cuidadoso, daqueles que ela costumava dar. Foi firme. Decidido. Meio suicida também.
Ela ficou no centro do corredor, ergueu o queixo e bateu palmas, forte o bastante pra ecoar.
— ATENÇÃO! — ela gritou.
Todo mundo virou. E quando eu digo todo mundo, é realmente todo mundo: alunos, professores, o zelador passando com o carrinho de produtos, até o diretor abrindo a porta da sala dele pra entender que caos era aquele. Eu congelei. arregalou os olhos.
Cyra sorriu como quem assiste um incêndio comendo pipoca.
— Já que vocês querem falar da minha família — Nola continuou, com a voz firme e vibrante —, então falem com conhecimento. Se é pra inventar história, se é pra rir, se é pra apontar dedo… que seja olhando na nossa cara. E mais: olhando nossa casa. Nossa festa.
Ela respirou fundo, e eu reconheci aquela faísca: era o mesmo brilho que ela tinha quando defendia uma de nós, mesmo tremendo por dentro.
— Todos vocês estão convidados para o Halloween das Owens.
Pausa dramática.
Todos. Mesmo os idiotas que colaram aquele desenho patético no quadro.
Um burburinho atravessou o corredor como um vento de tempestade.
— Nola… — murmurei, sem saber se queria abraçar ou sacudir ela.
— Não. — Ela levantou a mão, ainda olhando a multidão. — Se eles querem assistir a um show, então que seja um bom show. A gente passa a vida ouvindo que somos bruxas, esquisitas, amaldiçoadas…então, beleza. Venham ver. Venham sentir o cheiro da casa. Venham provar as comidas. Venham dançar na varanda. Venham ver com os próprios olhos o que vocês acham que é “sobrenatural”.
Ela sorriu, aquele sorriso bonito e teimoso que ela tem.
— E se não gostarem, aí sim vocês podem falar. Com fatos. Não com fofoca.
soltou um “caralho…” baixinho. Cyra deu um assovio de respeito. Eu respirei fundo, ainda processando o tamanho da coragem que minha irmã tinha acabado de despejar no meio do colégio.
— E aí? — Nola cruzou os braços. — Vão ou vão continuar falando pelas costas?
Os alunos começaram a reagir aos poucos, alguns murmurando que sempre quiseram ver a famosa festa, outros fazendo piada nervosa, alguns genuinamente empolgados. E no meio de tudo isso, Cyra ergueu o braço como se estivesse em um leilão:
— Eu vou.
Depois apontou para .
— Ele também.
não hesitou.
— Óbvio que vou — disse, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Olhei para minha irmã, para minha pequena Nola, que até outro dia chorava comigo por medo da distância entre nós, agora se transformando na Owens mais valente da sala.
— Você acabou de convidar a escola inteira pra dentro da nossa casa — murmurei.
— Eu sei. — Ela sorriu, apertando minha mão. — Mas acho que tá na hora da gente parar de ter medo de existir. Se vão falar, que falem vendo. Pelo menos agora… a verdade vai ser nossa.
E foi nesse momento que percebi algo: pela primeira vez desde que a maldição invadiu minha vida, não era a magia que estava me protegendo. Era Nola. E isso brilhou dentro de mim como uma fagulha quente.
Quando o sinal tocou, as pessoas foram se dispersando, já conversando sobre a “festa das Owens”, alguns animados, outros curiosos demais, alguns ainda com medo, mas ninguém saiu sem ouvir a voz da minha irmã ecoando no ar.
se aproximou e murmurou, com um sorriso torto:
— Sua família vai mudar o mundo um dia.
— Ou incendiar ele — respondi.
— O que der primeiro. — Ele riu.
Cyra jogou o cabelo pra trás como se estivesse encerrando um número musical.
— Bom, se vocês vão fazer uma festa que vai entrar pra história, posso ajudar com a decoração. Eu tenho glitter suficiente pra cobrir uma cidade pequena.
Eu e Nola rimos na mesma hora. Juntas. Sem ruído entre nós pela primeira vez em muito tempo. E então percebi: o Halloween ainda nem tinha chegado…e já estava começando a queimar.


A noite sempre teve um jeito estranho de deixar a cidade menor, mais íntima, como se todas as pessoas estivessem respirando o mesmo ar. Quando cheguei na lanchonete onde trabalhava, o cheiro de alho frito, massa fresca e música baixa parecia me abraçar como um cobertor quente e eu precisava disso mais do que admitia.
O turno dele ia até tarde, e depois de tudo o que aconteceu na escola, eu só queria ficar perto dele. Perto de algo que me lembrasse que nem tudo era hostilidade, julgamento ou superstição idiota. me viu pela janela e abriu um sorriso cansado, mas sincero, daquele tipo que vale mais que qualquer elogio.
— Pensei que você fosse dormir cedo hoje — ele comentou quando entrei pela porta lateral, onde só funcionários passavam.
— Não dorme bem quem vira meme no corredor da escola — respondi com ironia, jogando a mochila num canto.
Ele riu e entregou um pano para eu segurar, como se aquilo fosse um convite formal.
— Quer ajudar ou só vai ficar me observando trabalhar igual fã de reality show?
— Depende. — Dei ombros. — Ajudo se você prometer não reclamar da minha técnica impecável de secar pratos.
— Técnica essa que envolveu quebrar dois copos da última vez.
— Eles se suicidaram — rebati, segurando o pano contra o peito. — Não tinha nada a ver comigo.
Ele sacudiu a cabeça, divertido, e voltou para a pia. Eu fiquei ao lado, secando os pratos limpos enquanto, no salão, dois casais conversavam alto demais. Não demorou para o nome da minha família surgir entre os pedidos de porção de batata e vinho barato.
Você viu? A festa das Owens vai acontecer mesmo este ano..
Eu não deixo meus filhos passarem nem na calçada daquela casa..
Ah, eu acho bonito elas manterem tradição.
Tradição? Parece coisa de bruxa mesmo.
Meu peito apertou. Eu não queria ligar, mas as palavras vinham batendo na minha cabeça como gotas geladas. percebeu na hora.
— Ei. — Ele cutucou meu ombro com o braço molhado de espuma. — Não absorve tudo isso, . Essas pessoas falam pra ter o que falar. Daqui a duas semanas vão estar reclamando do preço do peixe no mercado de novo.
— Mas não é sobre mim — respondi, baixinho. — É sobre a gente. Minha família. Minha casa. Como se a gente fosse um espetáculo.
— Vocês são um espetáculo — ele disse. — No melhor sentido possível.
Aquilo fez um calor subir pelo meu rosto, mas eu disfarcei secando um prato com mais força do que o necessário. Ele tirou o prato da minha mão.
— Você não precisa ser forte o tempo todo, sabia? — murmurou.
Eu quis responder; algo bonito, talvez algo ácido, talvez uma piada. Mas antes que encontrasse palavras, um dos garçons passou por nós comentando:
— Eu ouvi dizer que a decoração vai ser toda temática de magia este ano. Dizem que as Owens fazem poções e colocam no ponche.
bufou.
— Poção meu ovo — resmungou. — Se eles soubessem o quanto a não consegue nem manter um vaso de flor vivo, iam parar com essa ficção.
— Ei! — Dei um tapa leve no braço dele. — Eu sei manter vasos vivos! O Hans derrubou os últimos três, é diferente.
Ele gargalhou alto, e só esse som já melhorou a minha noite. Depois de um tempo, quando a cozinha estava quase fechada, limpou as mãos no avental, pensou por alguns segundos e disse, meio do nada:
— Sobre a festa….
— O que tem? — perguntei.
Ele coçou a nuca, um pouco envergonhado.
— Eu estava pensando em ir fantasiado.
— Ué, claro. Todo mundo vai fantasiado.
— Sim, mas… — Ele mordeu a bochecha por dentro. — Eu queria ir combinando com você.
Meu coração deu um salto tão inesperado que eu perdi o ar por um instante.
— Comigo?
— É. — Ele desviou o olhar, como se aquilo fosse óbvio e absurdamente constrangedor ao mesmo tempo. — Só pensei que… não sei. Talvez você ficasse menos tensa com tudo se soubesse que eu tô lá. Tipo… oficialmente. Ao seu lado.
Fiquei olhando para ele. Para os olhos cansados, mas brilhantes. Para o jeito dele de falar sempre tentando parecer casual quando, na verdade, estava entregando o coração nas mãos da pessoa.
— E que fantasia você estava pensando? — perguntei, tentando não sorrir demais.
Ele ergueu os ombros.
— Eu topo qualquer coisa. Desde que combine com a sua.
— Qualquer coisa mesmo?
— Qualquer coisa — ele confirmou, firme. — Se você quiser ir de fantasma, eu vou de lençol também. Se quiser ir de vampira, eu sou seu minion vampírico. Se quiser ir de fada, eu coloco asas. Juro por Deus.
Uma risada escapou de mim, leve, verdadeira.
, você ficaria ridículo de fada.
— E daí? — Ele sorriu. — Ridículo ao seu lado ainda é vantagem.
Eu encostei o pano na boca para esconder o sorriso, mas ele viu mesmo assim.
— Ok — falei. — Vamos combinar.
— É sério?
— É.
— Então… — Ele deu um passo mais perto. — Já tem ideia do que quer ser?
Eu o encarei. E dentro de mim, a magia pulsou, mas diferente, suave, como se aproximasse o rosto de uma chama só pra sentir o calor.
— Tenho — respondi. — Mas você só vai descobrir amanhã, quando for comigo escolher os tecidos. .
— Tecidos?
— Sim. — Dei um empurrão leve no ombro dele. — Eu não vou numa festa importante usando fantasia comprada pronta.
Ele fez cara de quem estava prestes a cometer um erro fatal.
— Eu vou ter que… costurar?
— Não — respondi. — Só experimentar. .
— Ah, bom. — Ele colocou a mão no peito. — Por um segundo achei que você ia me obrigar a virar estilista.
, você mal sabe combinar meia com tênis.
— Ei! Eu melhorei.
Ele riu, e eu senti algo doce crescer entre nós, algo que tinha nascido naquela excursão, ganhado forma na festa e agora, ali naquela cozinha apertada, parecia encontrar um lugar para repousar. Quando finalmente saímos, já passava da meia-noite. A cidade estava silenciosa, e o ar carregava um cheiro frio de chuva distante. caminhou ao meu lado até a moto, e antes de colocar o capacete, ele disse:
… obrigado por ficar comigo hoje.
— Eu precisava.
— Eu também.
Eu coloquei o capacete, mas por dentro, uma ideia já tinha se formado: A fantasia dele combinaria com a minha. Mas mais do que isso…nós dois, juntos, combinaríamos com a noite inteira.
E talvez , só talvez, isso fosse mais mágico do que qualquer feitiço.

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No dia seguinte, me encontrou na frente da loja de tecidos cinco minutos antes do horário combinado, o que já era estranho, considerando que ele costuma se atrasar até para respirar. Ele estava lá, encostado na moto, com aquela jaqueta surrada e o cabelo bagunçado pelo vento, e eu senti um frio na barriga tão besta que precisei fingir que estava procurando algo na bolsa só para disfarçar.
— Achei que ia te esperar — ele comentou, com um sorriso pequeno.
— Achei que ia te buscar — retruquei.
Entramos na loja, que era um caos organizado de cores, texturas e cheiros de tinta e tecido. Eu já sabia o que queria, mas deixei ele andar perdido pelos corredores como se estivesse em missão especial.
— Isso aqui é… veludo? — ele perguntou, passando a mão.
— Não, , isso é couro sintético.
— Ah. — Ele recuou a mão. — Ok, não vou tocar mais em nada.
Ri baixinho, e acho que isso o fez relaxar um pouco. Eu caminhei até a sessão específica e puxei dois rolos: um azul profundo, quase cerúleo, e outro em preto com textura fosca. me olhou, confuso.
— Então... o que a gente vai ser? — ele perguntou. — Porque eu tô confiando cem por cento no seu gosto e zero no meu.
Segurei os tecidos contra o peito e respirei fundo.
— Sally e Jack. .
— Do filme? Estranho Mundo de Jack?
— É — confirmei. — Acho que combina.
Ele ficou quieto. Quieto demais. nunca fica quieto.
?
— Desculpa. — Ele sorriu, mas era um sorriso diferente. — Eu só… gostei muito.
— Gostou muito por quê? — perguntei, estreitando os olhos.
Ele desviou o olhar para os rolos de tecido na minha mão como se fossem a coisa mais importante do mundo.
— Porque… Jack sempre achou que era estranho demais pra alguém amar — começou, com a voz baixa. — Que nada nele combinava com nada. Que ele não pertencia… em lugar nenhum.
Meu peito apertou. Ele esfregou a nuca, sem coragem de olhar pra mim ainda:
— E Sally… sempre viu ele como ele realmente era. Não como o mundo dizia. Ela enxergava o melhor dele, mesmo quando ele achava que não tinha. E, sei lá… isso parece… — Ele respirou fundo. — Parece muito a gente.
A magia dentro de mim pulsou como se alguém tivesse acendido uma vela no meu estômago.
… — comecei, mas ele ergueu os olhos, finalmente encarando os meus.
— E tem outra coisa — ele continuou, ainda mais silencioso. — Jack e Sally se encontram de verdade na música. Sempre. E quando você disse as fantasias…eu lembrei daquela noite. Da gente dançando. Da música que tava tocando.
Meu coração travou. Eu sabia exatamente qual era. A música que tinha marcado tudo sem que nenhum de nós percebesse na hora.
Creep — falei.
— É. — Ele assentiu devagar. — Aquela música… ela descreve exatamente como eu me sinto perto de você às vezes. Como se eu fosse inadequado, esquisito, deslocado. E você… — ele tocou o tecido azul, sem tocar minha mão, mas quase — você me olha e faz tudo isso parecer pequeno. Insignificante. Como se ser estranho não fosse um defeito… só fosse parte de mim.
Eu fiquei sem respirar por alguns segundos. Não de susto. De reconhecimento.
continuou:
— E agora você me chama pra ser o Jack do seu Halloween… então sei lá. — Ele sorriu, tímido, vulnerável, lindo. — Isso significa alguma coisa. Pra mim, pelo menos.
Eu poderia ter dito mil coisas. Poderia ter feito uma piada. Poderia ter jogado o tecido nele para aliviar a tensão. Poderia ter fugido. Mas eu só disse a única coisa que minha boca encontrou sozinha:
— Também significa pra mim.
Aconteceu algo estranho depois disso. A energia na loja ficou mais quente. A luz pareceu tremer. E eu senti minha magia puxar o ar ao redor como se estivesse prestes a fazer algo. percebeu. Ele sempre percebe. Colocou a mão na minha, devagar, dando tempo para eu recuar… mas eu não recuei.
— Ei — ele murmurou, com aquele tom que só ele tem. — Calma. Não tem pressa pra nada, tá?
Eu respirei fundo, sentindo a magia se acalmar com o toque dele. Não acabar, nunca acaba, mas suavizar. Abaixar o tom. Como se a minha magia, pela primeira vez, não estivesse lutando para explodir… e sim para existir ao lado dele.
— Vamos fazer essas fantasias ficarem absurdamente boas? — ele perguntou, tentando tirar a intensidade do ar.
— Absurdamente — respondi.
Pegamos os tecidos, aviamentos e tinta para detalhes. Quando fomos pagar, insistiu em dividir a conta comigo, e eu deixei, o que, vindo de mim, já era sinal de confiança absoluta.
Quando saímos da loja, o céu estava roxo, aquele roxo que anuncia noite, mudança e um certo tipo de expectativa. Ele colocou o capacete na minha cabeça com cuidado exagerado.
… — ele murmurou antes de subir na moto.
— Hm?
— Mesmo que todo mundo na cidade fale merda… eu não ligo. Porque, pra mim, você ser bruxa ou não é só um detalhe. O resto é… você.
Meu coração falhou uma batida. A magia acendeu. E eu sabia, ali, que o Halloween ia ser muito mais do que uma festa.
— Vem — ele disse, dando um tapinha no banco da moto. — Jack nunca deixa Sally esperando.




Continua...


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Nota da autora: Se você lê Even You, se você ama as Owens. Eu criei um lugar pra gente ficar juntos.
Um grupo no WhatsApp pra: comentar os capítulos, surtar com cenas, defender o Hans, falar de Magnus, receber spoilers, trechos e avisos antes de todo mundo. É tipo entrar na sala das Owens e sentar no tapete com a gente. Se você quer fazer parte desse cantinho mágico, vem. A casa tá aberta. 🖤
— Nadia

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