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Codificada por Lua ☾
Última Atualização: 26/09/25

Sabe aquele momento em que toda a sua vida pode mudar?

Segurando aquele objeto duvidoso em mãos, eu compreendi que estava vivendo aquilo a virada de chave, o detalhe que poderia transformar um dia comum em uma data para ser lembrada e circulada com canetinha vermelha no calendário da minha mente.

O plano, apesar de absurdo, havia sido meticuloso. Um grito de desespero com um toque de maestria. Agora, apenas a alguns passos de distância de , parte de mim estava eufórica por ter seguido com aquela loucura.

Uma parte mais racional do meu cérebro, no entanto, reverberava as palavras preocupadas (e, honestamente, julgadoras) da minha melhor amiga, ecoado-as dentro da minha cabeça como uma música chiclete.

Você está maluca, isso vai dar errado! Ele vai pensar que você é doida!

Talvez ele achasse. Até eu mesma considerava seriamente ir até um psiquiatra para checar se estava tudo bem com a minha cachola.

Olhei ao redor. Um monte de mulheres, alguns homens, agarradas aos seus próprios exemplares, sorrindo sem preocupação alguma.

— A minha Emily é assim. Chora toda noite! — uma das moças comentou. Ela tinha cabelos loiros, cerca de 40 anos, e segurava aquilo como se fosse alguém e não algo.

A ruiva ao seu lado bufou e assentiu com a cabeça, parecendo entender o cansaço imaginário da outra: — O Josh também era assim. Ele só parou depois de dois meses.

Ok, eu com certeza não estava louca ainda. Pelo menos, não naquele nível. Mas que porra?

Balancei a cabeça, tentando espantar a descrença por aquela conversa sequer existir. Esperava que minha cara não denunciasse o quão ridículo eu achava tudo aquilo: um monte de adultos empilhados no parque, brincando de Alice no País das Maravilhas e acreditando fielmente que uma versão Baby Alive de Toy Story estava tomando conta do país.

Tinha que continuar com meu disfarce por ele.

. O cara gostoso de TI que consertava as monstruosidades extremamente realistas dos doidos de plantão.

Apertei o brinquedo entre as mãos enquanto me aproximava do stand dele, tentando empurrar o nervosismo para debaixo do tapete. Um homem me deu um olhar sério, irritado pela minha falta de jeito com minha filha temporária.

Dei um sorriso irônico, resguardando a vontade de mostrar o dedo do meio para ele. Sério mesmo que, até com um objeto, os homens se sentiam no direito de julgar a maternidade das mulheres?

Bufei. O deleite da irritação momentânea sendo o suficiente para distrair meus pensamentos de . Ao chegar na autointitulado Tenda de Primeiros Socorros, senti minhas unhas furando o plástico da minha companhia de colo.

Lá estava eu: 20 anos, em um evento absurdo, frente a frente com o garoto que eu era afim desde o início da faculdade.

E não estava sozinha.

Chucky era o brinquedo assassino.

Annabelle era a boneca demoníaca.

E Glaubson era o meu bebê reborn.


Essa história começa como qualquer outro grande conto de amor entre jovens em 2025:

No Tinder.

Certo, eu não diria que esse é o início propriamente dito. Mas Peter Parker era um adolescente desajeitado antes de ser picado pela aranha radioativa. Blue era uma garota sonhadora antes de descobrir que podia voar. A situação faz o herói, o ladrão e o vilão. Nesse caso, o antes também importa.

No meu contexto, estou deitada na minha cama. Acabei de (re)baixar o aplicativo de namoro pela centésima vez só esse ano. Era uma sexta-feira atípica: sem festas no campus, sem saída marcada com as meninas. Só eu, meu perfil falso e Jorge Cabral, um estudante de administração que tinha 90% das fotos sem camisa.

Bufei, deslizando para o lado direito. Deslike, obrigada.

Presa no marasmo do declínio amoroso que os jovens de vinte e poucos anos enfrentam diariamente, passei para o próximo homem da lista. Kleber Machado. Todas as fotos eram em grupo é, claro, ele era o mais anatomicamente calejado de todos os amigos.

— Será que pega mal eu dar match e pedir o número do amigo dele?

Perguntei a mim mesma, encarando a tela por mais alguns segundos, meu dedo flutuando, indeciso entre os botões do aplicativo.

Antes que eu pudesse escolher entre ser uma babaca total e ter o mínimo de senso, meu celular começou a tocar. A foto de Creuza tomou conta da tela e sorri animada, torcendo internamente para que ela estivesse prestes a me chamar para qualquer coisa que me tirasse do tédio de uma sexta livre. Apertei no botão verde para atender a chamada e, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a voz da minha amiga reverberou.

— Pare o que você estiver fazendo e vamos para o Rezo!

A animação transbordava a cada palavra, não duvidaria dela já estar bêbada.

— Oi, boa noite. Estou bem, e você? — respondi com ironia.

— Estaria ótima se a minha melhor amiga abrisse a porta.

Pisquei. Como assim?! Ela sempre mandava mensagem bem antes de vir aqui em casa. Levantei da cama apressada, embaralhando minhas pernas e quase caindo enquanto ia até a porta.

— Você já está aqui?! — Perguntei, alcançando as chaves na escrivaninha e abrindo a fechadura. Ao empurrar a porta, fui agraciada com o vazio. — Espera.. Creuza, não tem ninguém na porta.

— É o único jeito de te fazer se levantar e ir se arrumar logo. — Respirei fundo, pronta para mandá-la ir tomar uma no lugar onde o sol não bate, mas a arrombada foi mais rápida que eu. — Te pego daqui uma hora!

Ela realmente tinha me deixado plantada na frente da minha própria casa? Bufei, inacreditável.

— Uma hora?! Como eu vou.. — A linha ficou muda e eu gemi em frustração. Nem estava com o cabelo lavado ainda, 60 minutos para ficar pronta era uma prova de habilidade que não sabia como passar. Porém, precisava tentar. Respirei fundo, eu conseguiria. Só precisava ser direta e rápida. — Certo, uma hora. Eu consigo me arrumar em uma hora.

Fechei a porta e andei até o banheiro, tentando escolher uma música para iniciar meu banho.

O que demorou 15 minutos, mas quem está contando além do relógio?

💃👓


As pessoas são um quebra cabeça. Algumas se encaixam tão facilmente; tem gente que parece ser perfeita para preencher as lacunas uma das outras, até você perceber que é uma ilusão bem arquitetada pelo destino com um fundo de lição moral. Outras vezes, é tão óbvio que aquelas peças não deviam estar juntas que nem tentamos juntá-las.

E tem os piores casos: quando queremos tanto caber em alguém, ou que alguém caiba na gente, que forçamos, rasgamos, diminuímos e aumentamos o que for preciso para o encaixe dar certo. Nunca permanece assim. Pode até aparentar completitude e simetria por um tempo, mas, uma hora ou outra, uma das peças vai ser arrancada. O lado bom é que abre espaço para o molde perfeito — mas não nos torna menos vazios durante a espera.

Sempre soube que Creuza era meu encaixe. A gente se entendia como duas gêmeas siamesas. Um olhar e pronto. Éramos amigas desde o ensino médio e escolhemos a mesma faculdade, apesar dos cursos distintos. Éramos veia e sangue, como ela costuma dizer. Diferentes e sempre trabalhando juntas.

Então, quando ela chegou não uma, mas duas horas depois para me apanhar em casa, foi um alívio. Creuza ainda esperou um tempinho para que eu colocasse os acessórios, bebericando sua garrafa de beats vermelha.

Agora, quase quarenta minutos após nossos embarque em um uber que sintonizou o rádio em uma estação de músicas paquistanesas, eu começava a cogitar o fato de ter me enganado e da minha melhor amiga não saber nada sobre mim.

Porque, de repente, não estávamos na Rezo, uma das melhores baladas do estado. Ao invés disso, o motorista estacionou em frente a Rexa, um hotel de luxo onde até respirar custava algo.

— Moço, acho que o você errou o destino. — Avisei, optando por dar crédito a minha amiga semi-sóbria. O senhor encarou o GPS e virou o rosto para mim, uma carranca óbvia em sua expressão.

— Rexa Hotel. O destino é esse.

Respirei fundo. Não queria brigar às 21h com um uber, mas ele era grosso e me encarava com julgamento desde que sentamos no banco do seu carro. Só tem um certo limite que conseguia aguentar.

— Na verdade, o destino é o Rezo Bar. — Teimei e virei o rosto, esperando algum apoio de Creuza.

— Rexa Hotel. — O motorista repetiu, voltando o olhar para frente. — Saíam do meu carro.

— Escuta aqui, seu grosso…

— Ops. — Ela me interrompeu, com o mesmo tom que usou quando quebrou meu sapato no ano passado. Olhei para Creuza, que me dava um sorrisinho envergonhado, enquanto balavaca o celular perto do rosto. — Eu digitei errado.

— É sério?!

— Eu já tinha tomado uma beats inteira sozinha! — bufou. — Não me julgue.

— Ninguém fica bêbado com uma beats. — Revirei os olhos, sentindo um pouco de vergonha ao reparar que o uber estava certo.

— Eu tenho uma condição. — Pestanejou e eu quis jogá-la no porta-malas e pedir para o apreciador de músicas paquistanesas levá-la para longe, mas apenas respirei fundo. O senhor fez um barulho com o carro, como se fosse dar partida. Se aquilo não era uma deixa nada educada para darmos o fora, eu não sabia o que era.

— Desculpa pelo incômodo. — Murmurei a contragosto e abri a porta, praticamente pulando para fora do carro e sendo seguida por Creuza, que digitava algo ferozmente. — O que merda vamos fazer aqui?

— Calma, vou pedir um Uber. — Sua expressão logo mudou ao ler algo no celular. Está dando cinqüenta reais, nossa. Prefiro dormir aqui.

— Eu não acredito nisso. — Me lamentei, colocando o rosto entre as mãos.

Essa tinha que ser a maneira sádica do universo dizer que eu devia ter ficado em casa ao invés de reclamar da monotonia. Algum deus devia estar rindo de mim agora.

— Calma, eu vou achar uma solução!

— Se você disser calma de novo, eu vou te matar.

Creuza apenas fez um gesto com a mão, sem levar a minha ameaça a sério.

— Tem um evento aí hoje. — declarou com um sorriso.

— Nesse hotel? — Franzi o cenho, alternando o olhar entre ela e o estabelecimento. A entrada era toda revestida em madeira, com janelas enormes e um balcão de vidro que dava para ver até mesmo da calçada. — Deve ser um baile de gala.

— É da Universidade. — Explicou, me entregando o celular que exibia a postagem no instagram. Uma collab entre a conta da atlética e o perfil oficial da instituição.

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A Universidade Winstevia e a Atlética Conquistamos convidam discentes e discentes para participarem do evento “Online na Vida Real”, que acontece nesta sexta-feira, a partir das 19h, no Hotel Reza.

😏 Não perca a oportunidade de conhecer pessoas e compartilhar seu conhecimento!

— Como a gente não soube disso? — Perguntei, entregando o aparelho de volta.— E por que usaram o emoji safado? Sério, eles precisam de um social media.

— O que importa é que a entrada é gratuita para alunos do campus! — Respondeu animada. — Você tem o comprovante de matrícula aí?

Assenti, tirando o meu celular do bolso com uma careta.

— Você quer entrar assim? — perguntei, entrava no site da faculdade. — Estamos parecendo prostitutas.

— Prostitutas gostosas! — Deu de ombros, sem a mínima preocupação.

Como eu queria ficar assim só com uma beats.

— Vamos logo. — revirei os olhos, puxando-a pelo braço.

Assim que chegamos na entrada do hotel, mostramos os comprovantes de matrícula. Não demorou muito para que estivéssemos dentro do evento.

A reunião das grandes mentes não era algo chique, entretanto, também não era informal. Com certeza, as roupas de balada que eu e Creuza estávamos usando não eram ideias para a ocasião — os olhos arregalados e encaradas descaradas deixam isso claro como o dia.

— Só tem nerds por aqui. — Minha amiga reclamou e eu ri.

— É um evento de inovação tecnológica, o que você esperava? — Semicerrei os olhos, aguardando uma resposta. Ela apenas suspirou dramaticamente e pegou dois salgadinhos na bandeja de um garçom.

— É por isso que concentro meus esforços no bom e velho campus de educação física. — Disse, me entregando um dos petiscos. Dei de ombros e assento em concordância

— Vem, vamos ver se tem alguma coisa com álcool aqui.

👗📱


Uma hora depois, nós duas estávamos bêbadas, conversando com uma menina da engenharia química e um menino de ciências sociais. A garota tinha ido em busca de um orientador e parceiros para um projeto industrial. Já o garoto havia ouvido sobre a comida de graça e trouxe alguns amigos.

Eles eram divertidos, apesar de eu não conseguir lembrar os seus nomes. Estava rindo, com a cabeça um pouco zonza, e bebia do meu copo de vinho com calma. Não para saborear, mas porque sabia que tinha que me controlar para não ficar realmente bêbada como Creuza, que estava trocando olhares com um cara bonitinho.

— Vai falar com ele! — Disse, batendo meu ombro no dela. Nossos amigos temporários haviam ido buscar mais uma dose e eu apostaria uma coxinha que iam demorar um pouco demais. — Ele é bonito.

O alvo em questão tinha, no mínimo, 1,90 de altura, cabelos loiros curtos e olhos azuis. Exatamente o tipo que fazia Creuza babar e dar suspiros apaixonados no meu pé de ouvido por semanas.

— Ele que tem que vir!

— É 2025. Uma garota pode chegar em um cara. — A repreendi, todavia, entendia o lado dela. Era bem mais divertido quando o menino tomava iniciativa. Pelo menos, para nós. Outras mulheres mais desprendidas não pareciam ter problema em tomar a iniciativa. Queria saber o segredo delas. Encarei o pretendente da minha amiga; ele estava conversando com outro rapaz que eu não conseguia ver o rosto, pois ele estava de costas. Vestia um blazer, também era alto, mas os cabelos eram castanhos e longos. Por trás, ele parecia bem interessante. — Eu vou com você!

Segurei a mão dela e cortei o caminho pelo mar de cérebros. Dava para sentir os olhares queimando em minha pele como balas a sangue frio; alguns irritados, outros apreciativos. Não me importei, eu era uma mulher em uma missão e nada me pararia.

Até eu chegar nele.

De repente, o copo na minha mão estava quente demais na minha palma, meu corpo parecia querer ceder ao próprio peso e tive que lutar para me equilibrar em cima dos salto alto.

O garoto com quem o loiro conversava era ele. O menino em que eu tinha colocado os olhos no dia da recepção dos calouros, no início da faculdade, mais de um ano atrás. O cabelo estava mais longo, mas ele ainda usava óculos de grau com haste preta, ainda tinha os mesmos olhos castanhos lindos e o sorriso tímido.

Dessa vez, não estava roubando olhares dele em um lugar que cuspia gente. Não estava, por uma coincidência gentil, esbarrando nele no meio do campus, entre passos apressados e pedidos de desculpas. Conseguia contar nos dedos quantas vezes havia o encontrado. Essa era a primeira, desde a festa, que eu tinha a chance de falar com ele.

Ele vestia um blazer, calças jeans e uma camisa preta com estampa de códigos. A minha primeira impressão de meses atrás estava certa, então. Ele era um nerd. E um dos adoráveis.

Em sua blusa, havia um crachá que exibia o obstáculo que me impediu de encontrá-lo na internet. . Esse era o seu nome.

Minha boca ficou seca e eu quis me chutar. Desde quando me sentia envergonhada perto de meninos? Era só um homem, qual é! Mas algo em me atraiu desde o primeiro momento. E eu só queria chamar a sua atenção e me esconder dele ao mesmo tempo.

Como uma adolescente no ensino médio.

Creuza me deu solavanco e eu pisquei, voltando a realidade. Eu sorri, o mesmo sorriso que me rendia drinks de graça em bares de homens menos inteligentes.

— Oi, eu sou .

O loiro se virou para nós dois, acompanhado do seu amigo.

Assim que colocou os olhos em mim, o reconhecimento pintou o seu rosto em tons de vermelho. Meu coração acelerou, mas escondi isso na manga. Destrinchei uma risada dócil. Essa noite seria divertida.


Sauron, o Senhor do Escuro, era um ser de poder inestimável com um exército inigualável. Quase nada poderia vendê-lo, ninguém ousaria tentar por anos. O tipo de criatura que causa medo nas pessoas, mas não sente pavor. O que ele teria a temer, afinal?

Ainda assim, o grande Sauron se encontrou em uma situação que nunca esperaria: de cara a cara com sua própria ruína, causada por um pequeno Hobbit com um anel.

Enquanto mexia no anel prateado com uma pedra roxa em seu dedo anelar, essa era a única coisa que eu conseguia pensar. Não que ela tivesse pés peludos e orelhas de elfo. Eu com certeza também não era um ser místico dono de reinos.

Mas , com seus 1,60 disfarçados pelo salto alto e aquele anel que ela nunca tirava do dedo, me fazia entender como Sauron havia se sentindo. Excluindo a parte em que ele aterrorizava pobres cidadãos e matava quem quer que estivesse em seu caminho.

— Terra para ? – chamou. Foquei meu olhar nela, ajustando o óculos. estava com as mãos na cintura e uma cara de poucos amigos, provavelmente frustrada pela minha falta de atenção. Ela parecia linda como sempre, só que mais irritada. — Você está me ouvindo?

Droga, o que tinha de errado comigo? A garota mais bonita da faculdade estava (tentando) conversar comigo e eu não conseguia parar de pensar no filme do Hobbit.

— Estou sim, desculpa. – Balancei a cabeça. Enfiei o dedo no óculos mais uma vez, empurrando a armação pelo nariz. Rick arqueou a sobrancelha, um sorriso ladino surgindo em seu rosto em reconhecimento ao meu nervosismo, o que só fez meu rosto esquentar ainda mais. Se ele estava notando, ela também estava?

Claro que não. Rick me conhecia desde o ensino médio. Na época, ele era um dos populares: saia todo final de semana, fazia parte da equipe de natação e estava sempre conversando com alunos mais velhos. E eu? Bom, eu fundei o clube de xadrez da escola. Porém, curtia esportes. Os sem contato físico, pelo menos. E foi assim que acabei parando na piscina às segundas, quartas e sextas. Não demorou muito até que virássemos amigos.

Hoje em dia, ele cursava engenharia química e eu havia optado por tecnologia da informação. No meu caso, não foi surpresa nenhuma. Meus planos de sexta sempre envolviam uma pizza, videogame e tentativas (com muitos erros) de brincar com a ideia de fazer códigos.

A linguagem binária era fácil. 01. Sem ambiguidade. Nada que te deixe nervoso, que te faça sentir as bochechas ficando quentes e que te olhe como se fosse te bater porque você não escutou o que ela estava dizendo.

Que droga. Como o Rick conseguia conversar com garotas? Ele tinha algum truque? Eu sentia que estava suando. Será que eu estava suando? notou? Estava fedendo?

— Eu.. preciso ir ao banheiro. — Disse. O que rendeu olhares do meu amigo e da acompanhante de . Eu tinha falado alto? Minha vida seria mais fácil se eu conseguisse me comunicar em código binário com as pessoas.

A morena me encarou com uma sobrancelha arqueada, parecendo desconfiada. Ela sempre aparentou mais esperta do que as pessoas davam crédito. Virou o rosto para a amiga, que deu de ombros, e voltou o olhar para mim, assentindo como se me desse permissão para sair da conversa.

Aquilo me fez respirar aliviado. Ao menos ela não iria me achar mal educado. Estranho? Provavelmente. Mas não um babaca.

Levantei a mão e dei um aceno rápido, me afastando o mais rápido que consegui do grupo. Se minha mãe estivesse aqui, com certeza diria que eu parecia o diabo fugindo da cruz.

Enquanto escapava, consegui ver a expressão do meu amigo pelo canto de olho. Rick franziu o cenho, como se perguntasse o que está fazendo?A verdade é que nem eu sabia.

tinha o poder de me desestabilizar, não importa o quão breve a nossa interação seja. Ela me dá bom dia e meu coração parece sair pela boca. Ela sorri para mim e meu rosto arde. Ela me olha e eu sinto o nervosismo subir pelo meu pescoço.

é linda. Ela tem olhos redondos, um sorriso fácil e cabelos longos. Mas esse não é o problema. Ela também é legal. Genuinamente legal. Conversa com todo mundo, até quem nunca conheceu antes, como se fossem melhores amigos. Nada parece abalar ela, nunca. sempre está em uma festa ou cercada de gente. Não tem um pingo de vergonha no corpo daquela mulher.

Ela não é o tipo de garota que conversa com nerds. Ela é o tipo que namora o Rick, um cara que vive na academia e consegue manter uma conversa de dois minutos sem divagar. Eu sei disso, todo mundo sabe.

Eu não gostava dela. Não estava apaixonado. Só era impossível não se sentir nervoso quando alguém como está conversando com você.

Entrei no banheiro, soltando a respiração que estava prendendo desde que as duas se aproximaram e interromperam nossa conversa sobre nanobots. Suspirei aliviado ao notar que o lugar está vazio e ando até as pias, apertando uma delas e enfiando minhas mãos na água.

Não tem motivo para isso. Ela é só uma pessoa. Repito para mim mesmo como um mantra, que logo é varrido para debaixo do tapete como a sujeira de uma criança arteira. Assim como o-ring era só um micro anel de vedação de borracha que causou a explosão de um ônibus espacial e a morte da tripulação em 86’.

De um anel para o outro. Sério, qual era o meu problema?

Grunhi, jogando um pouco de água no meu rosto. É claro que eu havia esquecido que ainda estava de óculos. Soltei um gemido frustrado ao ver as gotas na minha lente e tirei a armação, começando a secá-la na minha cabeça.

— Cara, é por isso que você não tem uma namorada.

Rick falou assim que passou pela porta do banheiro. Revirei os olhos, decidido a ignorar o meu amigo e fechar a torneira. Ele, é claro, continuou irreverente:

— Como você quer transformar a figurinha do Sonic grávido em realidade se você não coloca a cabeça no jogo?

Me virei de imediato, encarando o borrão do mais velho como se ele tivesse três cabeças - e até isso seria menos estranho do que o comentário dele. Eu tinha que pegar o seu celular e apagar aquelas figurinhas malucas que ele vivia mandando, já estavam afetando o seu cérebro.

— Em primeiro lugar, eu não quero transformar a figurinha do Sonic em realidade. – disse, cortando o mal pela raiz e gesticulando exasperado. Coloquei os óculos de volta e a imagem embaçada de Rick se tornou nítida, infelizmente. — Que porra é essa?

— No pelo é mais diver–

O barulho de algum vomitando reverberou pelo banheiro. Eu e Rick movemos o pescoço em uma tentava de identificar de onde vinha o barulho. O mais provável era a última cabine. Voltei meu olhar para o meu amigo, dando de ombros.

— Concordo com ele. — disse, me referindo ao pobre coitado que vomitava suas estranhas.

— Tá vendo o que você está fazendo aqui? — mudou de assunto, apontado para mim e para si mesmo repetidamente. — Isso, meu amigo, se chama uma conversa.

Balancei a cabeça de um lado para o outro. Sabia que ele estava falando sobre a tentativa de manter um diálogo com .

— É diferente.

— Claro que é, você quer comer ela.

Senti meu pescoço esquentar. Balancei a cabeça, empurrando os óculos para o topo de nariz

— Não tem necessidade de falar desse jeito.

— Você acha que eu não vi como você ficou nervoso? — soltou um riso analasado, encontando-se na parede. — Cara, ela perguntou se o garçom com salgadinho de queijo já tinha passado. Essa pergunta não dá medo nem em ladrão.

— Onde você quer chegar com isso? — questionou aborrecido com o rumo que aquela conversa estava tomando.

— Ela é a garota que você conheceu no Dia dos Calouros, né?

Desviei o olhar, optando por observar meus pés. Eu havia comentado com Rick, talvez mais de uma vez, sobre a menina que sentou do meu lado naquele evento. Eu estava tão.. apavorado com a mudança, começar de novo, conhecer novas pessoas. Nunca fui bom nisso.

Porém, sentou do meu lado e conversou comigo durante todas as palestras. Inclusive painéis que eu provavelmente deveria ter prestado atenção. Eu só estava focado nela e no anel que não parava de mexer no dedo, o mesmo de hoje. Continuamos assim até ela pedir licença e subir no palco como se não fosse nada, porque ela era do comitê de organização.

Depois disso, a encontrei poucas vezes pelo campus. Um bom dia rápidos aqui, um desculpa depois de um esbarrão ali.

Não tínhamos o mesmo ciclo social, e nunca nos encontrávamos em lugares fora da universidade, apesar da cidade ser relativamente pequena. Eu sabia o nome dela, podia procurar seu Instagram ou coisa do tipo, mas não queria que ela me achasse estranho. Sem contar que as chances dela não se lembrar de mim eram altas. Eu era só um novato que ela teve pena e decidiu ajudar no primeiro dia.

Por fim, respondi: — Sim. Mas isso não quer dizer nada.

— Isso quer dizer que você está desperdiçando a chance de ter uma conversa real com a garota por quem você é obcecado há um ano.

— Eu não sou obcecado por ela! — retruquei, ajustando meus óculos. — Nunca rolaria nada entre a gente.

— Tanto faz. Só conversa com ela como um cara normal. — Rick deu de ombros, empurrando a parede com o pé para ficar ereto. — Quem sabe você não ganha uma amiga?

Ele não estava errado. Qualquer coisa a mais estava fora de cogitação, um raciocínio lógico. era areia demais para mim. Mas podíamos ser.. amigos. Ou ter um papo legal de novo.

— É, eu posso fazer isso. — assenti, me sentindo confiante.

Já tínhamos conversado uma vez e tinha dado certo. Que perigo havia em conversar?




Continua...


Nota da autora: A figurinha do Sonic grávido me assombra todas as noites, mas não é pior do que a figurinha do Mario. Esse é tão otário que eu só quero apertar ele até esmagar (e a me entende).


Se você encontrou algum erro de codificação, entre em contato por aqui.


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