“Foda comigo, como se estivéssemos no nosso leito de morte, Eu posso sentir esse vazio repentino.
Não sei quando estarei de volta na cidade. Minha garota mantém os dez dedos no chão, por mim.
Eu posso sentir você me olhando por trás, segurando minha respiração, se apaixone, se apaixone agora! Continuo sentindo sua pele toda sobre mim”
Sex with my ex — Lil Peep
ANOS ATRÁS…
EMPOLGANTE FORA O SHOW COVER DE ROCK NA SUA CIDADE PEQUENA, retirando vezes que apertava nervosismo e trancava-se na cabine do banheiro insalubre, tomando seis copos de refrigerante e pulando no solo, luzes ultravioletas e vermelhas colorindo o palco. Os sucessos genéricos: Pink Floyd, Nirvana, Capital Inicial, Legião Urbana, Slipknot e AC/DC. Bandas que a ruiva enjoava parcialmente:
mas quem me dera acrescentar canções menos conhecidas na setlist do palco, a jovem dizia consigo própria, baixinho e cochichando.
Uma das maiores vantagens foi saber que eram magníficos cantores, participando desse evento — decepcionada com a falta de dinheiro no bolso, só babando por uma saia xadrez e bolsinha de caveira —, a família Ribeiro superou uma belíssima noite estrelada. Agachada, procurando sentar-se plenamente no gramado, Lily obtusa repercutia cuidadosamente os sons graves dos instrumentos; próximos a ela, existiam grupos de motoqueiros e velhotes barbudos soltando gritos e empolgados dançavam segurando um copo imenso de chopp enfeitado por casca de limão.
Cecília, acompanhada pelo marido, observava a filha estilosa num estado recaído: jeans escuros soturnos, rasgos nos joelhos e coxas, encobrindo suas costas, jaqueta xadrez verde-azul, camisa larga acinzentada irradiando os detalhes prateados da caveira. Lydia amostrada com seus ombros nus e maquiagem exuberante, perfeitamente vinda em lábios avermelhados escuros, sombra azul-marinho.
Os coturnos longos, subindo até o final dos joelhos, grande rockstar daquele interior, apartando o sol de Itapecerica e superando o céu repleto de estrelinhas complementado por nuvens incolores.
A mulher escutava os bocejos do homem, reparando no horário quando desbloqueou seu telefone — indicando 20:35 em ponto —, precisaram retornar para o chatíssimo lar. Oras, mas tão cedo? Pois é! Eles, segundo a primogênita, eram caretas e velhos demais; forçando a ruiva a perder novamente boas diversões em madrugadas… saudades quando eles permitiam ir às festas com suas primas.
Gravando o quinto vídeo com sua câmera filtrada dos stories do Instagram, cutuques no seu braço foram marcados. Salvando a gravação editada na galeria, Lydia revirava os olhos para sua mãe, nada satisfeita por saber que iriam embora tão cedo. Sempre assim… insistiam na socialização dela, porém ninguém estava ligando para sua aparição. Nunca visível, mas certamente invisível.
— Seu pai está precisando dormir, ele trabalha amanhã no domingo. — Tinha propositalmente o costume de abordar a filha mais velha, querendo tirar sua liberdade, submersa por quimeras de pouca duração. A Ribeiro mais nova soprou nervosa, obrigada a entrar no carro e pisotear no barro molhado da chuva e novamente ficar no cubículo que denominava como quarto — Nem pense retrucar, Lydia, ficamos aqui o dia inteiro!
— Perambular no parque do Rizzo e tomar dois copos de açaí pra você é dia inteiro também? — Duas horas atrás, eles não fizeram absolutamente nada, circulando nas trilhas e pegando sol sentados próximo ao quiosque de sorvete. Confessou mentalmente que o passeio com os pais nunca acabavam legais, saindo de uma terra longe da civilização para ingressar em mais outro espaço com planta e mato! — Qual é, mãe? Vamos ficar mais um pouquinho. Deixa o André para lá!
— Ele é o seu pai, nem venha chamá-lo pelo nome, mocinha! — Impediu a opinião da filha, bloqueando sua versão do assunto. — Anda logo, precisamos ir embora, diferente de você, temos convivência social e trabalhamos.
As diminuições habituais sobre a pobre ruiva sempre eram visíveis, alguns parentes, quando se juntavam no enterro, fofocavam entre si o quanto Cecília não levava jeito para ser uma genitora decente.
— Eu posso ouvir a última música que eles tão cantando e andar? — Sugeriu, limpando as calças de grama e falando alto, porém longe devido ao barulho dos equipamentos vibrando, tremedeira perturbadora. — Por favor, diz que sim.
Cecília bufou, acenando com as mãos que ela podia realizar isso, no entanto, sendo rápida. O telefone dela acendendo notificações, agarrado na destra. Assim como qualquer celular de adulto ultrapassando meia-idade, repentino era o toque de WhatsApp, capinha rosa cobrindo o Samsung. Autorizando Lydia, ordenou o seguinte:
— Só mais dez minutos!
— Beleza — respondendo em amargura, preferiu assistir o vocalista terminar sua canção e muitos gritarem elogiando ele. Batendo palmas, chacoalhando latinhas. Esse povo sabia mesmo ter amor pela vida… Já o casal Ribeiro, sequer tinha a mesma convicção. — Merda, lá vamos nós… tadinho do Vito, melhor eu responder as mensagens dele! — murmurou pisoteando suas botas, erguendo o cenho.
“O que esse moleque idêntico ao Murilo quer tanto comigo? Desde quando cheguei, não para de me secar!” Outro detalhe insignificante mostrado no evento agitado sem cessar, um protótipo de doppelganger encantado nela desviou, mas logo prosseguiu sorrindo atrevido para a ruiva. Esquentando sua cabeça, sentindo-se oprimida e assediada por um rapaz tímido.
Fatigada com a sombra circulando, decidiu enfim mandar o papo no desconhecido, querendo não estar afim porque não passava de esquisito desesperado! Ninguém merece também ser cobiçado, ainda mais por um maluco idêntico ao desgraçado que fodeu com seu psicológico.
A mulher, fingindo correr para o banheiro, fechava os botões de sua jaqueta, amarrando o laço da camiseta curta. Podia até lidar com os seios pequenos e aquela cinturinha de boneca, contudo queria ser mais atraente. Era ruim o fato de nos alimentarmos e não chegarmos à mudança desejada, né? Sim, Lydia pensava isso, pena que continuava mais insatisfeita com seu corpo.
O decote era muito explícito e, sem querer, mostrava o sutiã roxo, quando agachava. Porém, era uma das roupas favoritas dela, mesmo que a matriarca reclamasse sobre o estilo desajeitado, nomeando como “indecente”.
A figura cabeluda, de blusa de frio, calças jeans e franjona cobrindo metade da testa — como de praxe, era um emo 2006 retirado do baú —, encostou suas costas na parede cor de areia. Um semblante perverso abordou Lydia, impaciente, ela mostrou seu dedo médio para ele, o que o fez grunhir. Dava pra finalmente aceitar que não queria nada? Bom… ela esperou que sim, entretanto, se não tivesse prometido que viveria até o fim com seu web-namorado, daria uma chance.
Ribeiro então dissera ao homem de cabelos negros — bancando o Peter Steele com aquela pinta sem-vergonha — que ela não fazia o tipo dele, mas, abrindo a boca pra falar, deixou a moça incrédula:
“Como é?! Toda essa merda de troca de olhares e flerte implícito foi só pra fumar um Beck comigo? Ah, vai tomar no cu, não fode!” Roeu uma das unhas de nervoso.
— …Oras, gata, fiquei muito na sua e só queria uma companheira pra bater papo enquanto a gente fuma! — Uma voz inconfundível e linda, chegava a arrepiar os cabelos de cada parte do corpo. Ela falhava em ser uma garota difícil de conquistar, mas aquele rapaz sabia despertar chame. — Foi mal, nem notei que me paguei de estranhão.
— Hum… vou acreditar. — Lydia não era de fumar e nem muito de beber. O rosto verificando se alguém chegava, notando um isqueiro acendido na mão de veias grossas adornadas por anéis prateados, unhas tingidas de preto. — Qual seu nome?
— Matheus Lucas — respondeu encaixando o cigarro sem filtro, bloqueando a chama com a palma da canhota. Esperando acender aquela maconha fedorenta. Levitando o pescoço soltando a fumaça para o alto. — E qual é o seu, linda?
— Lydia.
— Daora, cê tem mesmo nome de ruiva! — elogiou desengonçado. — Topa ficar comigo? Relaxa, vou te tocar não! — Nesse mundo vivemos uma vez, resta pouco tempo… mas e o namorado? Ela não iria mandar fotos do lugar e outros áudios relatando quais músicas a empolgaram mais? — Estou dando minha palavra.
Pescando dos bolsos de trás da calça que usava mais outro cigarro, Ribeiro introduziu de sua boca. Matheus dividia a fumaça com o dele, admirado com seu rosto descontraído, dando a entender que Lily de bom grado aceitou o convite do homem trevoso.
Tossindo por vezes, apesar de não ser a maior fã de maconha, iriam fumar e puxarem assuntos, certo? Não rolaria nada? Pensando dessa forma, era satisfatório curtir unzinho… A opção mais justa para encerrar a noite era dormir chapada do que ser atormentada pela insônia.
— Eita, primeira vez fumando? — perguntou ele.
— Não… nem sempre tenho vontade mesmo — proclamou sinceramente. — Ok, bora! Meu tempo é curto, mas não quero ficar sozinha no meio daqueles coroas nem fodendo!
— Heh, os abutres sendo os abutres! — Seus dentes esfregando e luzeiros azuis conduzindo os amendoados. A mão gigante posando nas costas da mais baixa, ficando apartada da direção de seus pais. — Legal, chega aí, só vem comigo!
•••
Noite deliberada, em conversa afiada e fumaça, ela apoiava sua cabeça na perna do homem que dissecou a erva do produto ilícito, enquanto instigava perdidamente estrelas no céu violeta. Lydia e Matheus compartilhavam o mesmo fone vagabundo de fios vermelhos do camelô. O gótico mostrava para a garota álbuns de Escape the fate — não ironicamente, uma das bandas que Murilo era super fascinado. Realmente tinham muita igualdade e gostos semelhantes; não obstante, a mulher gostou do final daquele passeio, no fim das contas, era bom curtir.
Lily mudava sua posição, atrevidamente chegava entre as pernas abertas de Matheus, sentada no colo dele. Totalmente chapada, dando quatro puxadas na chupeta do diabo, erguendo o pescoço em conjunto com o rapaz de longa juba alisada. Será que o Matuê havia estado certo? Afinal, eram anos-luz e ela se achava gata e muito chata pra qualquer um! As mãos dele entrelaçadas nas suas… escalavam muito alto.
Espera, mas e o Victor? Caiu na ficha da paulista por uns cinco segundos que tinha um relacionamento vibrando o smartphone implorando por novas mensagens; arregalando pupilas em desespero, Lydia decidiu colocar o fone no ouvido direito de Matheus, retirando-se nos braços do gótico — antes massageando-a, abençoadas foram suas belas mãos, descansando a tensão — o garoto estranhou reagindo desconfiado… Ué, ela não era solteira! Vindo um adendo conscientizando racionalmente: Lydia era solteira na realidade, ademais comprometida na internet.
Abandonado o colo e ficando de costas, pegou sua jaqueta, novamente usando. Admitiu mentalmente que havia adorado mãos lhe massageando e um companheiro para dividir a verdinha, no entanto, procurava-se em situações complicadas… Ela não cometeria erros de possível traição — vocês acham isso? Porque ninguém com maior histórico de web-namoro saiu ileso ou fez crescer a galhada. Todavia, aconteceriam num piscar de olhos, quando seu relacionamento é na casa do caralho! Sua gigantesca esperteza posteriormente estaria buscando alguma lógica, demasiada quebrável.
A jovial mulher esquivou lentamente da distância do companheiro de tempo rápido, até que ele fizera uma pergunta bastante reflexiva, boquiaberta sem resposta concreta… Como memorizou os detalhes daquela merda inteira!
— Ei, que foi? O seu namorado vai estar por aqui? — Dobrava as pernas, encaixando uma na outra. Os braços colados na barriga e o semblante curioso. Lydia comentou que manteve num irreal relacionamento, mas quem disse ter falado os detalhes? — Pode crer, deve ser um lerdão… nem percebeu que a gente tá na brisa, não é?
— Cara… ele nunca vai aparecer. — No fundo, ela infelizmente sabia dessa verdade. Geralmente, as camadas de seus cabelos vermelho-cereja ondulavam e nenhuma chapinha resolvia. Efeitos do youtuber transformaram o interior dela, bem maluco, não acham? Mal conhecer alguém e já causar inúmeras mudanças. — Então foda-se.
— Quê? Como assim, ele não vai aparecer? — Ficou preocupado com a belíssima donzela ruiva esmagando o cigarro na sola de suas botas no gramado. — Tu namora um fantasma por acaso?
— Promete não rir?
— Claro, manda aí!
“Não vai adiantar nada ocultar essa informação. Ele nunca estará comigo… Pedro já aconselhou que deveria largar essa vida. Enquanto o restante exibiu a verdade na minha cara. O Victor é mesmo um sinal de red flag? Deveria seguir e perdoar Murilo?”
Expirou, mexendo nos fios cerejas, ante em intrusivos desejos. O ex-namorado daquela metade do ano… poder ser abraçada nas tóxicas falsidades de um amor movido a sexo, fotos, retrocessos e confusões.
Lydia era uma bailarina equilibrando em uma corda bamba prestes a romper, optando cair nas labaredas ou canteiro repleto de flores mortas, assim como num deprimente outono congelante. Meio irônico porque ela continuava em pedaços, então qual motivo pra se apaixonar? Só por ele ser um homem distante? Enfim, nem si mesma lidava. O amor que sentia mal passava de realidade paralela, contatando por telepatia.
Dias atrás, foi pesquisando por uma oração para Santo Antônio e assistindo transmissões de mulheres revelando o futuro; desandava suas expectativas. Ele atenderia seu pedido, mas qualquer idiota compreende que Deus não é mágico! No entanto, levaria muito tempo para que eles, em outra vida, fariam todas as loucuras possíveis. Schiavon tinha condições de viajar, mas sequer fora o momento certo. A prece seria realmente atendida, embora não pertencesse a religiões, pessoas como Lily não desistem da fé.
Virando para Matheus, disse por fim:
— Ele é um namorado virtual.
— Você é tipo aquelas véias desesperadas do Facebook que procuram qualquer homem disponível, então? — O gótico sarcasticamente gargalhou, vamos ser sinceros, ele não tinha culpa. Web-namoro é uma parada engraçada. — Enfim, gata, brincadeiras à parte, isso não dá certo… quer dizer, se ele for do mesmo lugar que você ou se a cidade dele é aproximada.
— Queria muito — Cruzou os braços, encostando nas costas. — Ele é de outro estado… então, sim, você tá certo. — Anuiu simplória, porém insatisfeita. — Acontece que meus sentimentos por ele são muito vívidos. Eu realmente o amo. — Uma lágrima descendo de modo proposital, limpando o pranto. — Aff…
— Puta merda — exclamou o mais alto. — Olha, isso é um evento canônico na vida de qualquer ser humano! — Aconselhava o simpático e questionável, chegando próximo à ruiva de olhos marejados, desprovida de sua altura. — Você precisa largar esse peso morto! Se ele nunca te visitou ou mediu esforços pra te ver… não te ama! Aliás, deve ser um pobretão! Porque eu juro, se morasse longe de mim, iria atrás de você.
— Ah, nem vem! — repreendeu, batendo em seu ombro. — Bela cantada, mas cê tá ligado que não vai rolar! Tenho que já vazar, minha mãe tá me chamando — Sim, relembrou que tinha uma velha histérica pra xingá-la por atrasos. E, durante reclamações e conversas fora, fumando um baseado… recebeu conselhos de graça.
— Ok, boa sorte nessa vida amorosa. — Matheus depositou um beijo em sua testa. — Se quiser me ver e fumar comigo… ‘tamo aí! — Uma pena não ter investido em Matheus quando teve chance.
— Certo… até outra vida. — Acenou para o gótico, caminhando para a direção em que sua família se encontrara. — No fim das contas, esse maluco é foda! Agora é melhor esquecer dessa merda.
Cecília abordava sua primogênita com uma cara nada boa, reclamando da demora e, porquê estava cheirando a drogas. Lily apenas soprou nada estimada, posicionando-se para dentro do carro de seu pai. Os fones ligados no volume máximo, apoiando uma grande pedra nunca contada por eles.
André guiava a esposa num momento cansado. A senhora de juba curta ilustrada por fios brancos, trincando os dentes. Enquanto a filha do casal… querendo apagar e dormir, nenhuma mensagem era plausível, iluminada sua tela por várias notificações gritando, estourando seu 4G, dando atenção em coletâneas de playlists shoegaze.
Droga, ouviria uma seleção de broncas premeditadas. Lydia nem era corajosa o suficiente pra enfrentar, o certo era tacar o foda-se pelas discussões repentinas.
•••
Categoricamente, nenhum respeito e consideração mútua pela filha eram válidos. Só definição de gritos e grosseria, querendo explicações plausíveis por bálsamo ilícito impregnado na roupa. Tomando vergonha na cara, a jovem desculpou-se após esse teatro infame repentino de Cecília. Uma mente turbulenta, soltando demônios internos, provocando agressão constante.
Lydia hesitando respirar, entregou-se na beira do mundo cronicamente online — única válvula de escape ao contrário dos falsos sonhos — acessando seu computador, tava pouco se fodendo para merda do horário!
“Que se foda tudo”, ela sussurrou rosnando, impedindo engasgo devido à água deslizando por sua garganta. Sua mãe iria berrar por falação alta ou seu pai invadiria o quarto, independente do que ocorreria… ela sequer se importava, regredir era saudável na sua cabeça — dito isso, um incidente aconteceu, movendo-se no ápice de loucuras.
Apontando o mouse na ligação do servidor que era participante, escutava calada de microfone desativado por alguns instantes recortes de uma conversa falada. Restando 4 participantes na call privada — os ex-amigos Antônio, Pedro, Jorge e David —, ela configurava o áudio de seu equipamento, slhe dando voz. O gif da Heather do jogo Silent Hill 3 de seu perfil, mexendo a cabeça, enquanto ela vai botando os lábios para falar.
“Devo estar chapada e alucinada, mas sinceramente não me importa!”, murmurou, batendo o punho moderadamente na cabeça. Lily contava sobre o rapaz que encontrou no show de sua humilde cidade; sabendo histórias onde Jorge havia novamente pegado ônibus e jogado D&D com seus amigos em Brasília, David transmitia sua tela desenhando esboços de uma comissão e Pedro ficava orgulhoso de saber que finalmente Lydia arranjou um “homem de verdade.”
— ...Vocês só fumaram unzinho e nada rolou? — indagou o rapaz de dezoito anos, meramente desapontado. — Poxa, garota… vacilou feião!
— Ele é gente fina, mas sabem que tenho namorado. — Uma voz seca e amena, ofuscando a lâmpada de seu dormitório — Peguei o WhatsApp dele e tal, mas não… não quero transar com esse cara! Prometi ser fiel, quero amar o Victor.
David e Antônio riram. Pedro se aproveitava da situação da garota, mostrando nenhuma alegria. E que porra de orgulho é esse? Se fossem mesmo os amigos dela, respeitariam seu namoro! Pois é, a sabotagem e a incompetência vinham dela. Ribeiro, num profundo desdém, rosnou agressivamente, grande tremenda vontade de socar seu monitor sacudindo o corpo trêmulo.
— Ué? Cê também não ficou de papinho com o Murilo? — Semanas atrás, ela havia comentado que Aranda mandava mensagens sexuais e fotografias íntimas em visualização única. Porém, aterrorizou-se quando o homem pediu pra que ambos fizessem as “pazes” na cama. — Vai por mim, minha filha, vocês só vão trepar, acabou! — David deu a cartilha, embora seja escrota. — Nem precisam conversar, seus quadris larguinhos já respondem!
— Eu namoro outra pessoa, porra! — berrou novamente. — Vou me foder dez vezes mais, e não será justo com Victor, ele não merece isso.
— Claro que merece — Jorge ressaltou, ela se irritava do fato de ele usar fotos de perfil do Homem-Aranha, pois sempre mostrava denominações inteligentes. Típico nerdola babaca. — O Victor é um maluco de YouTube, vocês nunca irão dar certo! Ele provavelmente deve estar comendo outra e, além disso, ‘cê é nova demais para esse cara. Se liga, Lydia!
— Tá, mas…
— Veja por outro ângulo: a distância é gigantesca, estão ambos grudados na tela e isso vai te matar ainda mais! —
“Na verdade, a distância não passa de uma vadia!” Ela soprava com a frase ressoando subconscientemente, naquele lugar… tudo era distante. — Estamos dizendo como seus verdadeiros amigos! A relação que você tem é mentirosa, existem outros caras melhores que ele na sua cidade. Só não quer procurar, por preguiça — O nerd proclamou, denunciando, sem censura alguma em sua fala, basicamente tudo que concluía da mulher mais nova.
Viver no mato fechado era distante, aguentar a chuva e não ver o sol era distante, buscar sonhos e um amor genuíno era distante. Até mesmo entrar num buraco no meio da floresta teria uma saída distante! Quinhentas iniciativas que esgotaram para sair daquela casa aloucada, quanto ao sensível corpo de Lydia, ressuscitado na fisionomia de um zumbi, comendo porcaria e bebendo água — batendo a erva que conduziu a fumar amalgamada no comprido… morreu esquecendo de sepultar.
A paulista não teve embasamentos convincentes, fracassou, retrógrada, quebrada e fadada, linhas de sua mandíbula, caracterizando-se na morta face sobrecarregada, na busca de sermões, quase alcançando enlouquecer brutalmente. O Schiavon nunca a teria na realidade, pensara, condensando frio na barriga e garganta rachada, inteiramente seca; o remédio amargava um elemento composto por substância fodida! Posteriormente, dopando os sentidos e razões.
Semicerrando os globos oculares manchados pelo lápis preto derramando sob lágrimas, semblante destacando padecimento, secando lágrimas em vigores limitados — nenhuma porra de dignidade pra livrar da merda. É, acabou ultrapassando e desabafando gravada, porque Leandro — criando uma conta alternativa, atentando a conversa no servidor público, onde a panelinha relatando fofocas hediondas que Lydia era membro. Sabia onde aquilo iria dar; todos falaram… O web namoro do casal nunca seria real!
— Vocês estão certos, nada que vem da minha cabeça é real. Nenhum cara me ama, e não existe! Nunca vai existir alguém que faça isso! — Onde estava a cabeça? Victor podia ser de estado distinto, mas ele a amava, contudo, era um amor que existe? Na perspectiva de Lydia, significava mais nada. Ela perdeu-se nas palavras, contradizendo e querendo mudar de opinião. — Mas o Victor… ele… bom…
— Garota? Acabou de dizer que ele e mais ninguém vão te amar porque essa merda não existe! — David dava uma pausa no desenho que editava no Photoshop, ligando sua webcam, mostrando o aspecto pálido e cabelos volumosos. Sua clássica blusa de frio do Flamengo. — Na moral, o que caralhos tu quer? Faça o que eu digo: dê um gelo no Murilo! Fica lá com ele, que se foda o Victor! — Os outros concordaram, enfatizando sua “amiga”, sair com outros homens e largar o gaúcho.
Essas manipulações, seriam eles nesse longo tempo de amizade
enablers — indivíduos que se aproveitam de situações autodestrutivas e delírios de alguém com divergência grave — na vida da ruiva? Apresentando contradições atrás de contradições, omissões, tudo depravando sua lucidez. Eles, atrás das ligações, ficavam satisfeitos com essas confusões, mostrando nenhuma importância para a amiga!
A língua entortando dentro da boca; Lily embora seus dezenove anos em ilusões fantasiosas deliberantes na solidão, praticava vícios por um relacionamento que só evoluía por touches na tela e menos contato físico, e refletia… o essencial provavelmente seria dar atenção para quem era perto e respirar seu ar. Ribeiro viveu em sua própria falsidade — dessa vez quem causou foi a jovem. Ela nunca chegou a ter outro amor depois de Aranda e, quando teve… percebeu que era apenas um sentimento florescendo sem toques.
Namorar à distância era como ser adolescente de 11 anos, gostando de um personagem fictício, amando o que nunca existirá, não obstante, segurando ele em suas mãos num aparelho celular ou eternamente preso numa tela de computador, demasiadamente separado. Entretanto, quem explicaria o atestamento nirvana? Um amor pragma sem os beijinhos molhados e queimação na roupa.
Nunca foi anunciado por seus amigos esse detalhe: o Victor acabou sendo o segundo e melhor cara a lhe dar um orgasmo real — tudo bem que era sozinha e com suas palavras e vozes na beira do microfone —, mas olha que interessante, ele a faz gozar de verdade! Ainda esse sentimento é dela mesma? Esse youtuber, no entanto, está sendo um alívio? Para ela consistia muito mais!
Lydia aventurou-se nele e lembrava bem que, na canção Mania de Você, existia o trecho:
“A gente faz amor por telepatia”. No caso daquele casal, eram quase destinados a moverem passos para outra vida. Demoraria e valeria a cada momento… Eles atravessariam barreiras, as fantasias não seriam meras fantasias, seriam reais; será que esses anseios da paulista eram também similares aos do gaúcho?
O funcionamento de uma tecnologia liberando ocitocina, fervorosos desejos por expansão geográfica — além disso, quando se tratava de uma garota conversando e tendo atenção das paredes e familiares rigorosos — navegando subitamente na imaginação, todas as noites repentinas e desanimadoras sem horários para teclar seleções de palavras amarguradas.
Conviver inserido numa escapatória em distintos tamanhos de telas era a melhor saída, porém ceifava as janelas da alma, apodrece o cérebro e batalhas contra os males viciavam de formatos inconfundíveis. Ela só existia na internet; ninguém de verdade queria conhecê-la! Os únicos amigos dela eram os vizinhos e animais selvagens no fundo da reserva.
Tossindo, embora cobrisse o som, a paulistana arranhava sua coxa desnuda, tendo a proeza de manifestar em voz gritante as seguintes palavras dolorosas:
“Para mim, o Victor deveria morrer!”
Assim foi dito num tom enfaixado e tenebroso. Ela havia explodido e livrando-se das garras de um demônio abrigado em seus lábios. Possuída por risadas e zombarias daqueles ex-amigos arrombados, celebrando.
— Isso mesmo, Lily! Ele tá comendo outra agora, deixa de tomar chifre, menina — Antônio proclamava exaltado. Jorge e os outros rapazes ficavam de acordo, porém o carioca de cabelos cacheados volumosos… queria tentar conversar com ela e saber o que realmente estava acontecendo. — Nenhum cara te merece, poxa, ele também não! Ficar com o Murilo vai te fazer bem. — novamente uma das táticas comuns de um enabler: “eles não são dignos e fazem bem humilhar e largar, afinal, nenhum te merece.”
“Essa mina tá falando isso sem perceber a merda? Caralho, eu preciso avisar o Vito!” Uma reação composta em incredulidade, gritava o OBS memorizando e captando aquela ligação tempestuosa. A ruiva estava fora de controle e histérica… Leandro atento e coçando-se para não ativar o microfone, porque ele mandaria aqueles vermes tomarem no cu! O timbre rouco e deveras molenga, análoga a um mendigo bêbado de esquina; Lydia contrariava, recusava o ícone do namorado e suas 18 mensagens alarmantes.
O carioca de madeixas encaracoladas se retirou da ligação. Aquele final de noite prometeria uma consequência nunca mais esquecida pelo gaúcho. Schiavon decidiu enfim que essa relação distante… machucaria se não tivesse um fim, portanto, nunca em anos de experiências recebeu tamanhas mentiras e quebras de confiança! Ele naquela fatídica noite havia pedalado de bicicleta com Arthur envolta da praça e uma leve passadinha na igreja cabeluda — nomeada assim por conta das plantas que circulavam na estrutura gótica.
A última mensagem da Ribeiro fora dizendo que tocaram no show de Itapecerica, poucas canções que curtia… depois daquilo, uma ansiedade mais apertava o coração do youtuber, porém quando as horas ultrapassaram e voltou para seu lar. Ela havia quebrado seu coração em pedaços.
Retirou os óculos e conduziu desesperadamente a chorar. Victor não suportou revelações tão problemáticas vindas da mulher que tanto amava, desejando sua morte; falando que não era apaixonado e que grande parte do tempo online fora ilusão. Quem era Murilo? Ele não sabia e mal tinha interesse… Lily agora estava sem chances para redimir, podia ser dois anos mais nova, no entanto, não era justificativa. Ela o magoou!
•••
Estava tão chapada e fora da casinha que mal forçava sair de sua cama, o corpo dormente e maldita enxaqueca. Lydia alongava os braços, portanto bocejava em dificuldade, enojada pelo mau hálito. A tela de seu notebook ligada e a outra tela do monitor, aparecendo sua área de trabalho composta por um wallpaper Indiecore, cores saturadas e vibrantes, incomodando a vista. Ela nem queria suspender ou desligar.
Adentrando na suíte do quarto, sentou-se na privada e foi abaixando suas calças largas para cumprir necessidades que ardiam sua bexiga, depois fazendo rotinas matinais — escovou os dentes, usou enxaguante bucal, depois arrumou os cabelos e fora ensaboando o rosto de peixe morto. Lustrosa água que ajeitava sua cara, querendo acordar para a vida. Finalmente, o banheiro colorido em azulejos branco-azuis.
Diferente das residências comuns, a filha dos Ribeiro acabou morando num espaço separado — privilegiada com direito a cozinha, quintal, um quarto e uma suíte — disponível para si própria. Quando completou seus dezessete anos e sua avó materna obrigou-se a habitar na cidade grande em um condomínio suburbano no bairro da Kizaemon (Taboão da Serra), Cecília acabou ensinando a filha ser independente, cozinhando, varrendo o chão, tirando poeira do quarto e sustentar os bens sem ajuda, embora tivesse mal saído da adolescência, desde quando há lógica, naquela família né? Vai entender a cabeça deles.
A ruiva esticou os músculos e buscou ver o céu acinzentado encoberto nas névoas, destrancando sua janela, cotovelos e barriga no parapeito. Os velhos insuportáveis fofocavam e gargalhavam por meio de um assunto relacionado aos vizinhos. Lily afundava seus joelhos no colchão, desconfiada e trêmula, restava cumprimentar sua vizinha. Rotina desgastante, habitualmente acerca de grunhidos e sonolência, esperando o céu trazer vislumbre ensolarado, que domingo merda!
Batidas na porta que chegava no espaço de André e Cecília, vestindo um moletom confortável, marchava rapidamente para destrancar com sua chave, sentada na cama em um semblante preguiçoso. A Ribeiro mais velha, dando um genuíno
“bom dia, princesa”, para a garota, respondendo amargo sem energias — pela experiência dela consistia em nenhuma boa relação materna. Fazia anos que as duas não tinham ótimos momentos entre mãe e filha, cessando desde os quatorze anos da jovem ruiva.
— O que você tem, menina? — Chamava a atenção de Lydia, suas delicadas mãos afagando seu couro cabeludo. Uma expressão neutra, paladar sem gosto. — Não cansa de ficar berrando pela madrugada?! Ouvi seus gritos e conversando com esses machos da internet.
“Esse assunto agora? Por favor, não”, resmungava a paulista, nunca mais fumaria maconha depois do surto anterior.
— Ah, sei lá, pareço melhor? — retrucou ácida em negação. Odiava quando a matriarca chegava nessa petulância de tirar palavras da boca forçadamente. — O problema sempre ficará sendo eu mesma… então conversar não ajuda.
Cecília sequer esboçou sua opinião, mas liberava inesperadamente o histerismo — forma radicalista e todos sabiam que, no fundo, era despretensiosamente —, por não aguentar o jeito indiferente de Lydia. Queria vê-la se abrir e parar com a depressão. Na adolescência de Cecília, o remédio de gente melancólica era cinta e uma pia entupida com louça suja. No entanto, lamentar-se por nada não tinha significado, o importante para ela seria a pobre filha sair de casa.
— Já disse que está cada dia se autodestruindo? Porque ninguém vive assim sem trabalhar e estudar. — Viu a garota anuir, feição entortando juntamente com um sorriso mínimo. — Essa preguiça sua é tão…
— Sim, mãe! Você me disse essa porra quando terminei o colegial, também acabou dizendo na época que o Murilo namorava comigo e tá dizendo justamente agora, porque nesse mundo todo mundo diz que sou uma vagabunda! — Após cortar a fala da mais velha, Lydia surtava sem interrupções. Uma voz áspera, barulhenta e cada vez mais se transformando em protestos, o semblante horrendo da matriarca prestes dar um tapão na cara dela. — Não estou com preguiça, eu só estou cansada de fazer nada! Estudar, conversar e ter mais nenhum amigo, porque ninguém mora na mesma distância geográfica que eu!
— Esse “todo mundo” quer abrir seu olho — disse cutucando sua testa, enquanto mudava de posição, se arrastando de costas para longe da mulher. — Menina, vê se me escuta! Não quero saber e nem importa o que esteja passando. Largue seu celular e computador, saia da internet e pegue o ônibus, é tão simples viver.
— Simplicidade aqui é como matar um diabo por dia — Lydia refutou, tremendo raivosa, aqueles chiliques de arrancar o próprio rosto. — Beleza, se acha fácil, vou de jegue buscar um emprego, ficaria satisfeita?!
— Olha, Lydia, me trate com respeito! — Impaciente e ríspida, saiu de onde estava sentada, andando de um lado para o outro. A forma agressiva de Cecília fez sua primogênita manter uma reação chocante. — A Sabrina já conseguiu um emprego e está casada, um de seus tios já está viajando para a Europa e é capaz de os amiguinhos da internet estarem prestando o vestibular! Quanto a você? Mofando.
— Mãe, soube finalmente que entendi como essa inveja doentia pelos outros te afeta? — O casamento de André e Cecília não era mais harmonioso e apaixonado. Quando a garota virou adolescente, sempre eram desastres atrás de desastres. Ela ficou incapaz após mudanças, agressões, intrigas e bullying. A grande culpa é deles também por não saberem confiar ou lidar. — É… parece que sim.
“Gostaria que ela me ouvisse e aconselhasse, porém, habitar-se no inferno onde sempre você repete os ciclos — primeiro dorme, acorda e não vê cores alegres no céu, somente chuva. Segundo, você come e toma banho — tampouco há perspectivas de um futuro. Mãe, no meu último dia na terra, ninguém presenciará meu enterro, porque quem tem carinho por mim… nunca vi na realidade. Nesse mundo deplorável, escolhi inspirar e evaporar!
Acha que é bom ter dependência na internet? Acha que é leve e fácil namorar uma pessoa que nunca vai ter, conhecer e tocar? Não é! Contudo, você me tirou quem se importava comigo, nos afastamos de muitos parentes queridos. Nossos Natais estão vazios, meus aniversários agora são compostos em um bolinho pequeno com velinhas faiscando. E o meu primeiro namorado foi canalha, usando táticas de manipulação em troca de sexo barato. Ninguém no universo parece decente e cada peça movida… decai! Por isso, escapar e ter uma vida emocionante é dentro do computador, assim conto meus desabafos presos em cada parte, porque nela sou visível!
E cada vez em que saio, choramingo e grito internamente. Porque nada existe, lugares onde posso buscar independência não existem, amigos de longas datas não existem! Os rapazes daqui nunca se apaixonaram por mim… e quando aconteceu, eles não tiveram chance, porque não existem fórmulas de impedir essa distância do caralho! Uma jovem mulher que não sabe mais viver prefere acreditar que seus sonhos são falácias, essa porra de mundo é uma farsa!”
Impregnadas palavras aborrecidas só ficaram ditas subliminarmente. Lydia abriu minimamente seus lábios, mas o que recebeu de sua mãe foi um rosto debochado completado por um riso encurtado. Adiantava sequer proferir essa verdade, onde só gostariam que a jovem ruiva comparecesse em fulanos alheios por vidas fúteis e infelizes! Soprando e engolindo choro, buscando ocultar um desespero. Um desesperado e intocável raciocínio, considerando-a justo, manter um espaço num veneno digital.
Cecília e Lydia, por uns 5 minutos caladas e sem argumentos para discutir fielmente com a filha, a mulher engoliu em seco, indagando a frase mais seca e insensível dita por alguém que lhe gerou:
— Você tem problemas mentais ou esses remédios comeram o cérebro?
A paulista sacudiu sua cabeça em negação, madeixas escorridas pela bochecha e o corpo fraquejando. Pobre garota!
— É… nunca vamos querer te ajudar se não permite obedecer — manifestou prepotente, em contrapartida, dera uma sugestão, não ia gostar de ver Lydia enchendo o saco ou entupindo-se de comprimidos. Estava parecendo um zumbi. — O assunto encerra por aqui, enfim, quer dormir na casa da sua avó? Você, nesse estado, se a gente vira as costas, já está querendo se cortar ou espernear por tédio, estou certa?
— Ir na minha vó? — Levitou uma das sobrancelhas interrogada. O condomínio era divertido: pistas de skate, balanços, quadra de futebol e gatinhos de rua passeando. Seria uma boa para afogar essa tristeza, no entanto… Murilo também habitava o mesmo local. — Até que dá para gastar, arrumarei minhas coisas aqui.
A frase que um dos amigos anunciou naquela noite,
“Nenhum cara te merece, poxa, ele também não! Ficar com o Murilo vai te fazer bem”, ressoava novamente, coçava os dedos para não dizer que aceitaria visitá-lo, porém, naquela exata hora, recusou mexer no smartphone e correu para desligar o computador. Cecília percebeu a reação da menina de maneira positiva.
— Tome um banho e faça sua mochila, irei ligar para a Caroline — avisou a matriarca. — Só vou aquecer o motor do carro. E venha na minha casa, te darei um melhor café da manhã.
— Beleza. Vou tomar o meu remédio e já ‘tô indo.
•••
Deitado em uma posição bagunçada no colchão, visualizava mensagens não respondidas de sua namorada virtual — 6 áudios escutados e 10 mensagens parecendo estarem lidas. O gaúcho recebeu notícias de que Polaroid estava sendo bem famigerada pelos internautas que acompanhavam o seu canal. Quem foi inspiração nessa música? Bom… uma ex-namorada que mal gostava de mencionar o nome, prometeram se casar e terem filhos, porém lhe fez sofrer, agora memórias eram só memórias! Os óculos acima do criado-mudo, Victor, limpou ambas as lentes quadradas com o tecido da camisa larga. Colocando em seu rosto.
Schiavon dificilmente mostrava sensibilidade, portanto era imperdoável descobrir quanto sua namorada de São Paulo havia lhe apunhalado e desejando sua morte em uma ligação de Discord numa panelinha de arrombados que nunca foram seus verdadeiros amigos! Minucioso, recebera uma ligação via WhatsApp de Bife e Carteiro, para conversarem sobre o incidente da ruiva e o nojento grupo, fazendo-a ovacionar inúmeros absurdos.
Balançando os ombros e respirando profundamente — exercício de soldados navais —, quatro vezes. O youtuber coçava a barba, nervoso e fadigado após ludibriar contra sua vontade, manifestações de ódio. Ele não queria xingar sua namorada num modo pejorativo, odiava desrespeito por mulheres, embora ações inevitáveis. Seus luzeiros rodopiavam e fechavam sem nenhuma pausa; o dedo indicador atendia a chamada do trio, reconectando.
Victor, calado, escutava os amigos por uns instantes.
— Mano? Como essa porra rolou do nada? — Dias de Paula exclamou surpreso com toda a situação no outro lado da linha. Jean conhecia bem Lily, nunca imaginava vê-la bostejar como Leandro estava alegando. — Cê escutou tudo isso? — Perguntava ao carioca, positivamente anuindo.
— Ela no servidor começou: simplesmente desejando a morte do Vito, acreditando nas mentiras dos amigos dela, falando que seria “decente” procurar um homem de verdade. — Alegava o carioca, impressionado relembrando do contexto da call, ele nunca chegou querendo vir em uma intenção onde fofocasse tanto. — Cara, ultrapassou na minha cabeça que essa porra toda só acabou chegando nesse ponto, porque a Lily anda mentalmente fodida demais! ‘Tamo ligado que ela mora num buraco vazio onde nem tem possibilidade de fazer novos amigos, então assim? Ela surtaria e certamente na proposta de causar merda. — O mais novo apoiava o celular, mostrando sua feição preguiçosa e voz embargada.
— Nossa, que bagulho sinistro — comentou sensibilizado, reparando que o gaúcho havia ligado o microfone do aplicativo. Foram escutados soníferos decepcionantes ao mencionarem o assunto que o fizera ter uma péssima noite de sono — Oh, bom dia, Vito! Tá melhor?
— Oi, bom dia — murmurou, demonstrando que brevemente uma onda acerca da hostilidade viveria em si. Porque mesmo não sendo traído e observado, Lydia, nas mãos de outro cara… ainda era ceifador, toda essa putaria acontecendo — Fala sério, Jean? É lógico que não estou bem, né? Caralho, por que ela fez isso? — Esbravejou num rosnado. Atitude que ninguém que o conhecia imaginava possuir, sempre era tranquilo, alguém muito bem-humorado.
“Lydia, você sempre disse em nunca estar bem, mas quando falávamos por mensagens de texto, áudio e ligações… sempre riu e disse quanto me amava. Para essa mina fazer o que comigo? Dizer que mereço um tiro na cabeça e arranjar o ex-namorado — nunca imaginei que houvesse outro na sua vida — justamente para transar e ir embora!” Essas frases nada amorosas e honestas atormentavam o homem.
Pensando bem, Victor naquela época, animou-se com seu canal reclamando de jogos, todavia sua vida fora das câmeras… Insistia no segundo período da faculdade, desavenças entre uma mulher que arruinou sua vida, sofrendo por mais uma ferida, merecendo nenhum tipo de perdão.
O semblante desapontado e tristonho do homem de vinte e um anos, tremendo os cinco dedos de cada mão. Bem que dizem: a verdade vai doer e quando ela for esfregada na sua cara… você mais se fode, reprimindo, querendo desistir de tudo! Exatamente dessa forma que o gaúcho contribuiu para o fim de outro relacionamento — mesmo sendo um imenso adendo que era na internet, continuava solteiro e fodido, não tinha significado — estragado de ações repentinas.
— Relaxa, cara! Nós dois estamos aqui por você, saiba o quão alertei sobre isso ser a maior furada.
De fato, ele havia frequentemente avisado que relacionamentos virtuais não aconteciam. Lydia nunca sairia do inferno e daquelas garras mortíferas dos pais narcisistas. Victor não era amado e veementemente o bastante nesse longínquo ano.
Tinha uma vida universitária, musical e agitada!
— Diz aí, com toda a sua sinceridade: os dois vão mover o rabo da cadeira e tomar iniciativa? — A pergunta ácida de Leandro era mais dolorosa que um soco na costela. Seu belíssimo sotaque arrastado e o cenho franzido. — Viu só onde estou querendo ir?
— Entendi — manifestou o homem mais velho, de ombros encolhidos e coluna torta. — Ficar me humilhando por boceta virtual é querer ir ser burro e mais ficar pra merda. — Ele praguejava, arrependendo-se do modo pelo qual expressava. — Nossa, o que estou dizendo? Puta que pariu!
— Qual é! Ela é uma pessoa, isso que acabou de falar, não curti — reclamou o outro homem de expressão arregalada. — Nem venha com essa desculpinha de estar sem dinheiro, Vito! Os dois lados querem porra nenhuma, essa é a verdade.
— Ah, pronto! — rebateu com ingratidão, erguendo os braços desdenhados. Se outros podiam opinar de forma grosseira e hostil, por que não tinha esse direito? — A culpa é toda minha, então? Sendo o fato de ter namorado uma guria responsável em mentir? Sei que os projetos ‘tão começando, que a faculdade anda comendo meu rabo o tempo todo! Mas isso nunca significou más condições financeiras.
— Exato, combina justamente com isso que falei agora — voltava o youtuber paulista novamente defender sua melhor amiga. — Todos aqui são amigos da Lily, ela é guerreira, determinada e maneira! Cheia de problemas? Sim, o que realmente é foda nos dois lados é vocês parecerem estar mais carentes que apaixonados.
— Caraca, mó, bizarro ver o Jean argumentando sério. — Gargalhava Bife, seus longos e delgados dados bagunçando a juba volumosa. Limpando sua garganta e encaixando posteriormente o headfone arqueando o cabelo para trás. — Não vi o maluco ter falha na dicção! Porra, moleque é brabo! — Elogiou o amigo, que fazia careta na câmera.
— Parem de zoeira, o assunto não é para isso!
— Ué, tem como levar a sério uma marmelada dessas aí? — Foi a vez do Leandro entrar em conflito, o gaúcho desesperado. — O relacionamento de vocês foi evoluindo, normal acontecer de se apaixonar, só que mano, pensa no seguinte: ‘ceis podiam ter um amorzinho saudável e menos viável! Esperaria no máximo quatro meses para se encontrarem, tá ligado? Viramos as costas e fizeram o quê?
— 7 horas de call, dois meses de muito fogo no cu e nenhum planejamento, passou já um ano e foram se ver? Não! — o Dias de Paula acrescentou. — Qual o resultado? Um chifre aumentando na testa! — Assim encerrava um web-namoro clássico. — Parabéns, vocês merecem se odiar.
— Que se foda. — Victor, sem estribeiras para um método daquela porcaria de fofoca citada, o negócio mais propenso era terminar. — Ademais, quem disse que seria amigável? Sabemos qual será sua verdadeira reação. — Ocupar sua cabeça nos fundamentos principais de sua vida e o canal do “Yung Li”. — Ela e eu? Foda-se!
— O que a gente não concorda é você dizer: “ai, caras, essa daí não passou de uma boceta virtual”. — Bom, que frase também foi essa, não é? Conhecendo o melhor amigo, sabiam que em nenhuma sã consciência falaria algo tão podre como revelara. — Te darei um conselho agora e preste bem atenção! — Bife franziu o cenho, enquanto o mais velho gesticulava e posicionava asseverando sinais positivos com a cabeça. No entanto, aquela pressão e raiva lhe deixaram apagar o conselho — Sejam adultos. Resolvam a situação, decidam se querem terminar e cada um fica no seu canto! Aí né? Pronto! Bloqueia e acabou! — Disse por encerrado.
— Ok, entendi — Suspirou. — Não estou disposto ainda.
— Diga logo e siga sua vida, irmão.
Victor desligou a chamada com os amigos, explorando uns afazeres num objetivo de calma. No entanto, faltavam-lhe restantes surtos agressivos que lhe pipocassem novamente, seus punhos machucados e um ensurdecedor grito que saltava pela garganta. O gaúcho tossiu e falharam uma parcela das cordas vocais; e agora? Como ele cantaria? Mal começava o último final de semana e já estava um inferno!
“Preciso fazer essa porra de uma vez só! Senão, acabarei louco”, Schiavon, descompassado, caminhou de um lado para o outro. Indignado, hostil, oprimido e extremamente fora do corpo! Funestamente traído, num remorso deveras redundante. Qual seria o futuro deles? Não existia naquele longínquo ano. Iriam durar vários séculos e décadas para essa ferida perecer; enfim, cresceriam inúmeras rachaduras. Diversas delas!
•••
Farfalhante era a preta e branca saia xadrez, batendo em joelhos rosados, ocultados por atraentes meiões finos enfeitados em rendas. Lentamente subindo o tecido no turbulento vendaval, reinado no bairro humilde e construído por vizinhos encrenqueiros, motocicletas velozes.
Os automóveis de som são elevados, geralmente variando para malditos funk ou sertanejos universitários. Isso quando os jukebox de insalubres barzinhos não estavam ligados, se chegava meia-noite, era ruim dormir naquele prédio. Ah, sim, os moleques corriam e brincavam o dia inteiro, gritando e enchendo saco!
A estressante e queridíssima morada da avó Caroline. Ela foi tocando as sapatilhas no chão da rua acinzentada. Lily fungou com o cheiro poluente, típico da cultura taboense, nada surpreendente. Quando Ribeiro tombava na casa da avó, consequentemente crianças menores iam para abraçá-la e animadamente recebiam ela.
Cecília despediu-se da filha, movimentando o veículo. Lydia iniciava subindo os degraus, os brincos de pressão destacando rebeldia e fones decorando com sua camisa da banda Sepultura.
Liberando automaticamente a entrada do portão, a paulista conduzia até o apartamento minúsculo — estante dedicada a um oratório religioso, composto por Nossa Senhora Aparecida, iluminada nas velas, um rosário azul-marinho protegendo-a —, infestado nos cômodos, um viciante aroma de canela.
Ela ajeitou os cabelos encobertos por sua touca preta, na mesma intensidade dos castanhos olhos, atentando o visor do smartphone outrora modelo Samsung Galaxy.
Caroline, maravilhada pela visita de sua querida rebelde netinha, beijava-lhe suas graciosas maçãs do rosto. A ruiva sorriu ladino, permitindo sua entrada no apartamento, cabisbaixa e faminta, pois estava quase no meio-dia.
O estômago borbulhando, querendo degustar um hambúrguer com batatas fritas, acompanhado por coquinha gelada. Lily sentou no confortável sofá. Notando televisão ligada no canal TNT, passando qualquer filme genérico do Adam Sandler.
A outra Ribeiro era dona de um cabelo loiro-escuro, próximo à casa dos 63 anos. Seu aspecto enevoado ostentava linhas grossas, pares de olhos esverdeados, lábios ressecados. Um físico não tão redondo, usando vestidos floridos e óculos de hastes marrons e lentes quadradas.
Sua avó, Caroline, quem olhava, confundia-se com a mãe de Lydia, devido à pele hidratada. Cecília era mais como uma irmã, nem parecia muito com a própria filha, nem mesmo André. Os genes de Lily eram todos daquela senhora, olha que maluco!
— Quanto tempo hein! — abordava a menina distraída. — Não queria mofar naquela casa, por isso o motivo da visita? — Perguntou seguidamente intrigada. Lydia desconectou os fones.
— Pois é, vovó — respondeu sem nenhum entusiasmo, jogando a cabeça no meio do grande sofá. — Qual a senha do wi-fi mesmo? — Na última vez, esqueceu de salvar no bloco de notas. Evitando puxar mais assuntos com ela.
— Não sei, é só olhar no roteador. — Também era péssima com números e senhas. Ela apontava na televisão, curiosamente a neta ergueu o olhar, percebendo embaixo do oratório fios embolados. — Sua mãe disse precisar se distrair, então fique bem. Preparei o quartinho, comprei uns lanches para você comer e deixei um dinheiro em cima da geladeira, caso queira solicitar iFood.
— Valeu.
— O seu skate tá guardado na lavanderia — continuou a falar, beijando sua testa. — Terei que ficar no bazar da paróquia e auxiliar o Liomar, mais tarde apareço — Caroline odiava ter vida parada. E frequentemente atrasava-se, porque conversava demais com os irmãos da igreja, principalmente o Liomar. — Se cuida!
— Ficarei bem, não se preocupe — A ruiva afirmou, novamente abraçando a senhora. — Até mais tarde, vovó! Qualquer coisa te mando mensagem ou ligo. — Chegava perto do roteador digitando a senha da rede, vendo ela sair até a porta. — É, enfim solitária! — Seus ombros relaxados. Por uns três segundos visualizando a janela e andando para seu quarto destrancado.
Paredes salmão e cortinas brancas rendadas sobrevoam através do brutal cortante zéfiro. Um lustre redondo composto por lâmpada meio enfraquecida, pés colados nos pisos brancos gelo. Ela retirava a touca calorenta, jogando a cabeleira cereja ondulada, a testa visível separando os fios da franja. Jogando-a num espaço longe — em cima da arara de roupas coloridas da avó —, caindo debruçada em uma caminha aconchegante, completamente macia.
O controle remoto que apertava ligando a televisão na Netflix, buscando terminar de assistir Neon Genesis Evangelion, trocando o idioma para japonês ativando legendas no episódio que Shinji descobre sobre Kaworu ser anjo — o tal episódio sendo um dos mais injustos do anime inteiro —, ao mesmo tempo, invertendo para uma posição torta, desbloqueando o celular, acessando o WhatsApp com 14 mensagens não lidas.
Lydia reconheceu o contato de Victor ignorado, que grande otária! Ela grunhiu consigo, vendo um áudio de 9 segundos, acompanhado por um:
“Bom dia, nós precisamos conversar muito sério”.
A mulher, digitando nervosamente no teclado, então lhe perguntou no seguinte texto:
“Do que cê tá falando, amor? Algum problema?”
Ribeiro clicou no áudio, fechando os olhos, mordiscando a boca porque haveria bomba:
—
Que história é essa de você ter falado para aqueles doentes sobre eu merecer realmente falecer? Falando também que vai dar atenção pra um ex-namorado que ‘cê ficou de papinho? Cara… Por que mentiu? Onde tava com a cabeça, mano? Sério, esses malucos tão só influenciando o pior e fazendo sua cabeça! Caralho, garota, realmente vou desistir de você!
Ele gravava mais outro, enviado mais rápido como um raio:
—
Você é uma filha da puta, Lily! Não consigo perdoar e sequer ser a merda do seu namorado. Apesar de nossas promessas, nossos grandes futuros e conversinhas onde seríamos marido e mulher não foram mais que falsidades. Então, o amor é carência mesmo? Tu só queria alguém para fazer companhia no meio do mato, vir com desculpas para trepar com outro cara? Quem é Murilo? Nunca me falou dele…
A paulista tacava o smartphone para longe no colchão, ficando demasiada vulnerável e abominada, com tamanha hostilidade mostrada na voz do gaúcho; compreensível aparentava ser sua fúria pela garota. Ela puxava os fios cerejas da cabeça rangendo os dentes, como descobriu? Quem anunciou a notícia para o youtuber? Ribeiro faltava arranhar sua pele, novamente um trauma na lista. Outra coisa que nunca gostaria de conversar… Schiavon hostilizado era insano!
“Sou uma filha da puta? E por quê?” Digitava, escrevendo e apagando. Não sabendo o que diria, pareceria ser ameaçado por forças malignas, onde vários demônios corriam em volta dele, achando ter sido um dos amigos que espalharam o ocorrido da noite anterior. Esforçava futuramente e o cérebro apagou. Lydia queria reviver essa memória para consertar. Mas estamos revelando uma recordação da jovial ruiva nos seus dezenove anos, voltaria para rebobinar a fita, aquela dos vinte e quatro anos?
Sem opções, preferiu gravar um áudio. A voz doendo e lágrimas salgadas correndo no rosto cor-de-mel, o polegar apertando no microfone.
— Vito, por favor, não grite comigo! — implorou choramingando, soube quanto fora errônea suas palavras, contudo que a desculpa era propensa? Nenhuma! — A madrugada foi intensa e acabei chapada por fumar um pouco de maconha no show, daí a minha mãe gritou e xingou como de praxe na hora que voltei! Estou cansada… não sei resolver metade dos problemas. — Pretextos que dependiam de si própria. — É foda… mas ‘tamo aí, enlouquecemos. — Seu corpo vibrava, apertado, era o coração batucando velozmente.
Atendendo à última ligação entre eles, Victor e Lydia naquela dimensão foram condenados. Ninguém surpreenderia o fato moderno sobre namoros virtuais serem escangalhados! Pois amores desses tipos eram oito ou oitenta para darem certo! Todos alertaram a ruiva: quando um relacionamento é totalmente escasso ou distante — aproximadamente uma passagem de ônibus é 428 reais, dando 23 horas e 15 minutos o percurso inteiro — não significa nada, tampouco há resquícios de um amor verdadeiro.
Schiavon chorava de ódio numa alarmante raiva hedionda em sua casa, recusando o conselho dos melhores amigos, fazendo tudo ao contrário, parecendo dar olhares de mil jardas, cuspindo fatos na cara de sua amada que o esfaqueou por trás. Lydia poderia somente desligar na sua cara e vida que segue, entendem? Mas não! Ela atendeu, descendo no rosto sonolento, horrorizadas lágrimas, sabendo onde iria acabar.
Quebra de confiança também afetaria pessoas nunca vistas? Sim, apesar de gentilmente acharem reconfortante, a maioria dos sujeitos não cronicamente online pensará: “Se brigas, ressentimentos e polêmicas afetam na internet, tornam-se menos compatíveis com alguma diferença em realidades humanas, o mundo da internet não passará de sentimentos utópicos. Porque sequer se distinguiram realmente, tudo está preso num universo infinito digital.” Na verdade, continuamos seres humanos — nós sempre mentimos, criamos outras personalidades para escapar de quem somos — imemoráveis.
Lily esqueceu de raciocinar, deslizando o indicador, conectando perfeitamente a ligação.
— Se acalme, por favor. Vamos resolver essa situação melhor, vai? O que aconteceu? — ela balbuciava após muitas perguntas. — Desse jeito não ‘tô entendendo, quem falou isso pra você?
— Você mesma que falou merda pra caralho, andando com esses nojentos brincando com a sua cabeça e nem vendo! — esbravejava ríspido o gaúcho, batendo os tênis no assoalho da sala. Levantado, remexendo totalmente a cabeça, agitado — Quero explicações de tudo isso! É verdade que nesse tempo inteiro você tava falando com seu ex? Mandou mensagem?
Não era justo ocultar isso do homem, precisou revelar:
— Ele insistiu pra falarmos, daí começamos nisso.
— Jura? E até quando resolveu me fazer de trouxa? — indagou em contragosto. — Na moral, estamos há um ano juntos. Cara, sabe o quanto, pensei mesmo no fato de realmente me amar! — A ruiva ficou sem resposta após ouvir essa frase.
Lydia rosnou e berrou, a voz agressiva do youtuber machucando os ouvidos dela, ficando biruta e agitada. Ele dissera que acreditou verdadeiramente em seu amor, em contrapartida, a garota, por sua vez, emergiu raiva queimando suas veias, protestando um desabafo inusitado:
— Acontece que nós dois estamos nessa merda e sequer tomamos esforços para um relacionamento fora da internet! — Cansada de segurar o telefone, havia apoiado no travesseiro. Observando seu contato. Ela parecia estar discutindo com as paredes, fechando seus amendoados orbes, imaginando Victor em sua frente — Quero te beijar, mas não posso, quero tocar e abraçar, mas não posso. Eu te quero dormindo comigo na mesma cama! Só que depois de um ano juntos… isso só ficou em achismos! Nem viajou para cá, seu canal tá dando certo e quanto a mim? Nada parece ser satisfatório. Você quer o meu amor, mas e o seu? Por acaso tenho? — Um cenário vazio escuro, de Ribeiro abraçando o homem de joelhos pressionados sob a cama. — Devolvo também essa lucidez: tu sabe o quanto penso em te amar? — Lágrimas e garganta áspera, voz perdendo som.
— Esse discursinho não me convenceu — falou totalmente amargo, ignorando o desabafo da mulher — Você cobra mas também não corre atrás. Se tiver facilidade no impossível, prefere dar chance.
— Quê?
— Você está apaixonada por outro! Quem está querendo ficar é o Murilo. Por isso inventa essas justificativas. — Vamos combinar que Lily nunca havia tocado no assunto de seu primeiro relacionamento. — Não aceita que é uma carente buscando atenção de qualquer babaca, só humilhando a si mesma e lamentando por merda nenhuma!
Era compreensível aquela razão de finalizar o ensino médio e isolar-se do mundo. Mas afetaria demais a relação que eles tinham se falasse cada minuto do Murilo. Ela não estava gostando ou amando seu primeiro ex-namorado. Lydia estava se autossabotando, precisando logo sair do quarto, retirar-se das garras de pais traumatizados, contudo tratava-se de um clássico estereótipo jovem-adulto fraco, confuso e inquieto. Pairava sob a cabeça dela: “Como é possível amar quem nunca vi em carne e osso? O real desamparo é mim mesma?” Saiu ganhando coleções de lembranças como destrutiva experiência e caótico resultado.
— O assunto é jogar na minha cara quanto sou babaca, então? — contrapôs. Se eles fossem presentes no mesmo espaço, discutiriam correndo pelo apartamento inteiro. Lily reproduzia essa imaginação, quase um filme dramático — Em partes devo concordar, essa culpa é minha, mas é foda quando o namorado, quem amo, também não me ama de verdade! Ele nem se arriscou a pegar o ônibus pra me encontrar!
— Daí a queridinha chegou em outro esquisito e mais prejudicou.
— Você não respondeu a minha pergunta!
— Já respondi o bastante, mas tu só quer escutar na sua interpretação — alfinetando novamente a garota. — Olha, acho que não vamos dar certo. Nenhum dos dois está bem, principalmente eu! — Seu pomo de Adão descendo e subindo na garganta. A chamada acelera os minutos — Melhor terminamos, afinal estamos sozinhos, né? Que sentido acaba ocorrendo quando um namoro é distante? Você nem sabe quem sou fora da internet e, pra felicidade de uns arrombados, descobri quem é a verdadeira Lydia!
— Ah, tá, foda-se! — praguejou impaciente. Retornando à terra, olhando para a parede. Era isso, melhor acabarem — Estavam certos quando falam que ninguém é verdadeiro na internet! — a paulista argumentou pretensiosa e rebelde. Fora de seu corpo. — Beleza, acabou!
— Arruma o Murilo lá, e se fode sozinha! Não fala mais comigo — Esse final acabara sendo a gota d’água. Victor desligou o celular e naquele mês inteiro, nenhum deles mais era amoroso ou respeitoso. Schiavon, magoado e imaturo com as emoções, descontava ódio nela, sendo assim um vínculo doloroso para superar. O 2018 de Ribeiro era um começo de péssima vida adulta!
•••
Choramingou. Botava para fora os ressentimentos. E naquela hora fragilizada, uma figura de juba cereja tomou medidas cabíveis para autocríticas no espelho do banheiro; apertos estressantes inseridos num coração, alfinetes de um terrível final, perfurando sem piedade. Lily conversa sozinha, ouvindo suas vozes na mente:
“Chega! Pare de chorar por quem nunca te viu. Ele nunca amou você e nem você o ama! Tudo é carência acumulada, Lydia!”
Nossa, ninguém merece sofrer justo no último dia da semana, não é? Deveria extravasar e ir ao shopping — viver gastando em porcarias ou assistindo filmes no cinema — invés dessa escolha normal, Ribeiro devorava salgadinho na cozinha, encarando o telefone iluminando as mensagens finais que Victor e Lydia trocaram desde o primeiro dia. O estranho certamente foi que, quando ficaram brigados por 2 meses, tinham se acertado, porém depois da revelação… ele nunca mais a perdoaria! Verdade que o tempo cura? Não! O tempo cura é o caralho, ele só marca!
Entretanto, desistiu de mastigar e destruir o precioso e amarelado sorriso. A boca do estômago fechava dentro dela e não entrava nada além de água. O grupo de amigos que frequentava queria ouvi-la desabafar, mas os áudios dela chorando embaralhando falas acabaram inaudíveis! Antônio e Pedro quiseram saber; Lydia somente disse que sairia para andar com seu skate no condomínio. Ela queria desligar-se, trazer o interior na própria imensidão cinza análoga como fumaça de cigarro podre.
Guardava o frasco de vidro na geladeira após beber um quinto copo cheio de água. Prometendo que daria um rolê nos espaços do condomínio humilde suburbano. A garota caçou o skate — pescando embaixo do tanque —, segurando no braço. Calçou os tênis, foi dobrando os cadarços no sapato, antes de sair conferiu se havia recebido outra mensagem, esperançosa de que Victor iria se desculpar, mas é… isso nunca ajudaria, nem é saudável, burrice válida provavelmente seria mesmo correr atrás daquilo!
“Oh… pequena, vem aqui na minha casa. Sabe que ainda gosto de você, né?” Argh, honestamente, querer dar atenção pra essas mensagens do Murilo era padecer no inferno, puta que pariu! Detalhe: Aranda brincava demais com o mental de Lydia. Ribeiro gesticulava palavrões e, num repleto descaso, continuava dando palco pra maluco. Mal tiveram diálogo, pois trocaram vídeos e fotos, por qual razão faria dela alguém gostável? Vai entender o maldito século da putaria, na moral!
A ruiva, enquanto namorava o homem de acastanhados longos cabelos ondulados, tratava-o maravilhosamente bem. Recebia flores e cartinhas perfumadas — um modus operandi nada familiar. Dignas de namorinhos clichês onde o mocinho era carinhoso, fazendo tudo para a amada dele, no entanto, inverdades surgem. Murilo considerava Lily favorita na sua cama, só queria transar e levar para o quarto; usá-la e vazar!
Portanto, naquela demasiada fúria, transformava-se completamente num presságio arriscado. Ela seguiria, de fato, esses horríveis conselhos prejudiciais dos amiguinhos:
“arruma um homem de verdade pra trepar! Use-o e fique com ele, é só isso!”
Que vontade de esganar meu pescoço e rasgar toda a pele do rosto, Lydia expressou, em voz alta, pensando se aceitaria ou não, querer embarcar no convite sexual de quem aproveita a trouxa.
Adivinha só? Ela respondeu!
Lydia:
Pq quer tanto isso cara?
Vc sumiu por uns 4 meses, estamos já em maio!
Murilo:
Ué, diferente de vc trabalho…
A vida tá complicada, queria te ter…
Lydia:
Me, ter? Ata, sei!
Conheço seus joguinhos, promete, some e faz porra nenhuma.
Sempre foi dessa forma, desde que namoramos.
Murilo:
Éramos muito novos…
Vc tbm quis e na vdd tá querendo.
mto estressadinha hein? rs
Lydia:
Sonso
Murilo:
Hm, vai pequena.
Fica cmg, prometo cuidar direitinho.
Lydia:
Vsfd!
Olha, quer saber? Acaba logo com isso.
Murilo:
ent é um sim?
Lydia:
Talvez!
tô fodida de qqlr maneira.
Murilo:
entendi
Lydia:
ficarei na pista de skate do bloco 5
antes quero conversar
sobre td
Murilo:
peraí? c tá aqui msm?
Lydia:
sim
Murilo:
blz.
vou te esperar
•••
Twisted Transistor de Korn estourava em seus fones, enquanto manobrava descendo a rampa. Segurando firme na ponta e completando com um flip, revelando o short embaixo da saia — na medida que acelerava o cronômetro — pulando sobre ares. Ventania, levando madeixas brutalmente, Lydia encarou a desejada altura e, num semblante cabisbaixo, posicionou o pé direito remando o esquerdo. Igualzinho um surfista achando uma onda perfeita para fazer história; dessa vez, no entanto, era uma pista radical! A ruiva sábia aperfeiçoou a vibe urbana.
Porém, quando de repente rodopiava a cabeça, deparou-se com um indesejado andando pleno no corredor; ele tinha claramente saído do elevador orgulhoso, droga! Mas por que razão aquele cabeludo vestia-se, bonito ainda? Agora ilustrado por brincos de pressão em ambas as orelhas, sobrancelhas grossas numa feição de grande testa, repartido ao meio estava sua cabeleira — cobrindo metade das costas —, ondulada nas pontas.
Murilo vestindo regata preta e calças de moletom, não combinava ironicamente com o bracelete marrom e piercing adornado no septo, destacando a suposta cornice dele; já que sempre metia o papo de sicrana traindo o rapaz — ele também fazendo o mesmo com todas as namoradas —, no qual Ribeiro estudou tecnicamente o conhecimento.
Ela, tentando não tropeçar e cair, levantou o skate fazendo barulho no solo. O homem de altíssima estatura sinalizava com a canhota para a mulher sentar-se com ele no muro áspero, cravando olhares no gramado que pinçava muito. Isso quando Ribeiro alongava frequentemente suas pernas, deitada de cabeça para baixo. Bons tempos, admitia com grandeza, era divertido até.
No início daquela bizarra e indiferente forma dialogada que Murilo começava, somente o cumprimentou sem rodeios, focando nos tênis e quadra, a voz ressentida explicitamente amarga:
— Oi.
— Oi, garota. Quanto tempo, né? Então… O que gostaria de falar? — Murilo sorriu descaradamente para sua queridíssima ruiva, nada contente. Óbvio que nenhuma informação que Lydia guardava, não interessava nem um pouco, sempre cagava e andava para seus sentimentos. — Fica muda não, diz aí, pode falar.
— Heh, importando com meus sentimentos? Que fofo! — replicou sarcástica. Um riso sôfrego e gentilmente bufava, odiando tamanha falsidade. — Acha que sou burra por não saber que tá zoando com minha cara?
— Não — Fez-se de sonso. — ‘Tô aqui pra ouvir.
— É mesmo?
Murilo disse positivamente com a cabeça.
— Prepare-se, então, desde que nos conhecemos, me odiava ser tagarela! — Esse tópico sensível: era mesmo insolente na relação do casal. Lily adorava papear com ele, porém não conversava e mal abria a boca pra falar. Na cabeça do Aranda, ela ficava dez vezes melhor calada. — Olha, sabe quanto cê estragou a porra da minha vida? Eu infelizmente perdi outra pessoa, essa que nunca conheci de verdade. Porque não tenho objetivo, quase metade dos fodidos que estudaram comigo estão felizes e eu na merda!
— Nossa… sou ruim assim? — Cruzava os braços sem nenhum entusiasmo. Afinal, era nítido que ouviria uma resposta dessas. — Eu também andei sentindo o mesmo! Cê tá ligada que meus pais nem moram mais juntos, acabei desistindo do treino militar e sobrevivo trampando meio período. Tá fácil pra ninguém, princesa, ninguém.
— Qualé, tá melhor que eu.
— Será?
— Lógico. Os seus pais divorciaram e ligou desesperado pra Bianca dizendo que iria se matar. — Ah, relembrar da irmã mais nova dele também era um peso morto. Bianca conviveu nisso e alertou incessantemente a paulista que não deveriam ser nada. — Eu querendo te ajudar e você fez o quê? Ficou calado! É, inventou que precisava ficar sozinho e mandou foto do seu pau, 3 da manhã, dizendo que sentiu minha falta e precisava de mim. — Caramba, mas que patada bem dada! — Nesse joguinho consigo vencer, sei diversas estratégias. Sem contar o fato de ter sumido!
— Er, pra ser honesto, fui babaca contigo. — Cara, onde Murilo queria chegar? Ah, nem precisamos deduzir! — Garanto que sobre minha vida também não é fácil. Se não quiser acreditar, tudo bem — Mordiscou o lábio. — Tá magoada?
— Me sinto um lixo humano. — Os olhos de ambos fixamente perdidos em seus rostos. Ela colando os braços em volta do corpo, meio torta. Lydia desejava ser Victor no lugar dele. — Já se apaixonou por alguém de outro estado, namorou por 1 ano e daí… percebe que também não deu certo?
— Claro. — Mas que belo mentiroso do caralho, nem disfarçava. — Você lembra da Nayara? Ela morava na Barra Funda e acabei descobrindo que voltou com o ex. — Talvez porque nesse arco de suposta traição, Murilo pessoalmente namorava Adrielle. Bianca invadiu o WhatsApp do irmão e enviou diversos prints para ela. A coitadinha ficou chorando — Ela me traiu, Adrielle me traiu…
— Você nos traiu! Você! — Interrompendo o monólogo do dramático metaleiro, apontou o indicador em seu nariz. — Faz parte do seu fetiche: gosta de querer muitas, gosta de trair elas, recebe o troco e fica de bunda dolorida. — Contando nos dedos aqueles tópicos, ela em seguida debochou rindo para não chorar. — Só que… brigar estranhamente com alguém fora da internet, dá muita saudade — Suspirou.
— Como assim?
— Você é tão cínico que escuta e não rebate — resmungou aflita. — Não sei se devo voltar e choramingar ou estar com… — A sombra do homem encobria Ribeiro quando o viu levantar. — O que tá fazendo, cara? Por que não grita e manda calar a boca? Só tô dizendo que você não presta e te humilhando. — Chegando e notando o calor acumulado nela. Todo esse ódio era uma forma amorosa de matar saudades. Ficar sufocada nele, Aranda tirava lágrimas do rosto dela sem remorso. Ele a queria ver xingando e entregando-se. — Murilo… eu não posso fazer…
— Fazer o quê?
— Acabei de terminar um relacionamento.
— Lydia, olhe pra mim — ordenou.
— Sai, me deixa em paz, vai embora.
— Você está confusa, relaxa.
Murilo foi dançando o polegar no queixo da ruiva.
— Não faça isso comigo! — gaguejava, franzindo sobrancelhas, fechando os olhos e batendo na própria cabeça, separando o campo de visão do ex-namorado tóxico. — Para, ninguém te merece! Eu não sou feita pra amar… — Numa fraqueza, o viu sussurrar, lhe silenciando. Suas retinas avermelhadas. Lily mal podia enxergar cores no céu, ademais, o impiedoso dono de traumas regressou!
Daí chorou, gemendo e tremendo. Aranda lhe puxou nos cotovelos, chocando o seu corpo no dele — a ruiva ergueu os joelhos num pulo — fora recebendo um abraço caloroso, este só Murilo sabia como gostava; miseravelmente querendo possibilitar a nostalgia de 2016 acerca de dois anos atrás, querendo Murilo para si, invejando outras no círculo dele; antes de conhecer o disfarçado monstro inserido em sua alma grotesca, libertina e relativamente depravada.
— Não, de novo, não… — Os punhos lentamente batem em seu tórax, impedindo seus toques físicos. O rapaz ficou paralisado, aguentando os socos, embora uma careta de desgosto aparecesse na face. — Quero ser feliz, mas odeio tudo! Esse mundo é o próprio inferno. Nada faz sentido, nada mais!
— Chore, querida, chore pra mim. Gata, taque o foda-se no passado. Tudo bem, entendo sua raiva, me desculpe. — Um homem daqueles sabia conter imponência no vozeirão dominante. Aranda esboçou um riso objetificado, não obstante, prantos mancharam o tecido de sua regata. Braços fortes agarrando forte uma donzela afetada, ignorando críticas e xingamentos contra ele — Já reparou que, com o passar dos meses, aguardei sua volta? — Outra mentira.
“Sei que está mentindo, nunca veio me procurar” Como analisar essa manipulação onde drasticamente montava intervenções, batucando intrusivos desejos subliminares e venenosos numa cansada vítima? Qualquer ser humano normal recusaria e afastaria os males, todavia, assim como Murilo queria somente um corpo, ela queria ser acolhida por Victor. Sentir-se harmoniosa e usada — amada — pelo gaúcho.
Ecoando no seu ouvido, simultaneamente as frases iam sendo compatíveis. Farta com os sentimentos e mandamentos de outros amigos, a ruiva encarou o metaleiro, borrando o delineado e rímel, tornando bochechas e pálpebras sujas através da maquiagem; Murilo, numa fração de segundos, afagou suas orelhas, tateando nariz, orelhas, boca, ombros e pescoço. A larga camiseta dela começava esquentando, droga!
Piscando incomodada após desmanchar sua belíssima dedicação habitual na maquiagem, Lily infelizmente voltou na imensidão de sonhar em ambientes falsos, conduzindo cega e delicadamente marchas para um abismo, todavia Murilo deixou de existir. Transformando as cores daquele azul para o esmeralda, baixando sua estatura, desaparecendo os cabelos castanhos e surgindo os ébanos — manifestando seu amado de outra realidade —, tocando no rosto dele. Sim, fantasiando loucamente o youtuber em Aranda.
— É, reparei. — Puta merda, Lydia se entregou! — Você pode cuidar de mim, Murilo. Eu quero!
— Hm, quer mesmo pequena? — Rindo mansinho e finalmente orgulhoso por novamente vencer, soube que transaria com ela após anos. — Assim tão rápido? Depois de tudo?
— Uhum. — Deitou o rosto em seu ombro, mas que porra estava fazendo? — A única coisa que te interessa sou eu. Então, me use e nunca mais pense em mim. — Os sapatos foram apoiando no chinelo do homem, circulando sua cintura por mãos úmidas, descendo em suas costas e indo ao começo das nádegas. — Me beije e foda comigo!
Inclinando seus lábios nos do ex-namorado, a paulista deu mordiscadas no meio, unhas deslizando pela garganta, selando beijos intensos. O metaleiro respondeu seu convite voluptuoso, arfando e puxando sua nuca, colando sua boca na dela. Agressivo e impiedoso, Murilo devorava porções de beijos selvagens.
Lydia agarrou seu rosto, ponderando em sentido anti-horário. Abrindo e fechando os olhos, retornava em beijos, mordiscadas, parecia que os arredores giravam entre eles, nada bagunçou.
Mãos subindo embaixo da camisa e fortemente deslocadas, coçando o rosto do mais alto. A deixando vibrar internamente, enquanto línguas se entrelaçam; mais os beijos do casal intensificaram na erótica tristeza, desmanchando o batom rosado, provando, depois de 2 anos afastados, seu gostinho doce, ele matando saudades de gemidos baixinhos e roucos. O peito direito da garota é macio, circulando no eriçado rosado biquinho, querendo pular do sutiã.
Pausando devido às faltas de ar e excitação, Lydia e Murilo recomporam-se por uns instantes.
— Vem comigo! — Brutalmente sussurrou em seu ouvido, mordendo seu pescoço e o beijando. Algo que a excitou, portanto, respondeu sorrindo torto, perdidamente na imaginação. Vendo Schiavon em sua frente. — Deixa o skate na minha porta. — Voltava para seu campo de visão.
— Tá. — Falou com dificuldade, guiada por suas mãos. Correndo apressados no elevador.
•••
Pérolas visuais amendoadas mesclando no profundo oceânico luzeiro, cruzando em um amplo quarto. Batente e maçaneta quase rompida devido à resistência de um empurrão, não obstante abrangente, corrompendo ilusão buscada na terra, evaporando atmosferas; trancafiada apaixonadamente numa garota jovial, sonhando. Espontânea desfrutando provocativa, muito sexualmente, um rapaz sequer merecendo ela.
Ribeiro, estimulando Aranda, pôde liberar ocitocina e hormônios nunca mais ativos tornaram-se fervorosos — durante anos sem contato. Beijando-lhe vários centímetros, impossível raciocinar porque soube da merda, ficando bem feita, causando veneno denso no âmago.
Em contrapartida, algo inevitável, afinal, nessas horas funcionavam quando o cérebro parava de compartilhar dopamina. Começando um fogo prazeroso alastrar no molhado íntimo feminino, queimando Lydia, era veementemente linda, embora magricela, conseguia ser pesadíssima.
Murilo selou o lábio nela, beijando rapidamente a ruiva em seu colo. Jogando os tons cerejas para lá e para cá.
Encarando sua alinhada cama extensa, levava a donzela. Murilo soltava Lydia, permanecendo em frente ao homem, estática, aterrissou os sapatos na área de um felpudo tapete branco comprido.
Ajoelhado-se justamente querendo explorar nela, aquilo no qual nunca foi mais explorado, nem mesmo aproveitado; desenhado um semblante cruel e malicioso! Mãos viajando nas canelas e panturrilhas, ultrapassando na saia que a paulista combinava — arrumada e enfeitada como o habitual —, alcançando o cós do short e levemente abaixado, parando nos joelhos e caindo.
Tirando seus tênis, deixando a peça em qualquer cantinho irrelevante da alcova.
Brincando com a polpa de sua bunda redondinha e os ladinhos do tecido da calcinha roxa e atraente — no universo dos homens, secretamente acham mulheres em lingeries rendadas uma perdição. Mas né? Aranda tava nem aí — os dedos acariciando as laterais de sua boceta, enfiando devagar em certas partes.
Que surpresa, Lily nunca mudou fisicamente, naquelas áreas era desde que ele conhece, sensível! A mulher ergueu o pescoço, vendo o teto iluminado em seleções de luzes coloridas, madeixas escorridas nas costas e barriga estufada.
Perdendo sua calcinha, deu uma hedionda visão, deixando Murilo orgulhosamente satisfeito pelo estrago causado. O quão inocente e tola é essa chorona esquisita do colégio, que ele considerava nada mais que alguém fácil e inútil!
Afundando o rosto na intimidade rosada — felizmente, nenhuma presença de pelos —, Murilo chegou lambendo o clitóris de Lydia sem hesitar. Ouvindo-a estremecer e arfar, puxando mais sua cabeça, ela implorando pra que não parasse — nossa fala, sério? Que menina trouxa! — com o vaivém, carinhosamente afagando sua juba.
Na medida que ele chupava, também apertava e remexia suas nádegas. No instante em que ele avistava a expressão de tesão, Lydia enxergou Victor pela segunda vez, empalidecia ocasionalmente! Apesar das suaves preliminares, resultava num caminho relativamente sem voltas. Realmente era gostoso ser chupada nas partes íntimas, portanto nitidamente excitação e prazer momentâneo. Sabia desligar a cabeça, né? Faz a burrice reinar e nada parece divertido, além disso.
O contexto que trouxera era certamente demasiado imperdoável. Porra, ela ficou transando com um babaca que nunca gostou dela, obedecendo a conselhos de grupo onde ninguém no mundo chamaria de melhores amigos — haverá consequências? O futuro dirá! — Chamariam de pura decadência, teve ainda que se foder muito nesta vida para aprender, porém, nada importava por enquanto.
Voltando ao casal: rapidamente, Lily, indo para trás e escorando no colchão, observou o metaleiro engatinhar por alguns segundos, ela mantendo-se educadamente sentada no colchão, percebendo retirar sua cabeça de sua vagina num estado deplorável, após vários squirts. Ele beijou a ruiva e, de súbito, empurrou seu corpo deitado verticalmente.
Lydia ajeitou-se no confortável travesseiro, jogando ondulados fios cerejas; travessa, pegando a barra da camisa, arqueou suas costelas e retirou, levantando os braços.
Murilo segurava-os e subitamente ela circulou suas delicadas pernas nos quadris dele. Seu sexo vibrante na ereção — claramente no mesmo estado: latejando e quente dentro da calça.
— Tire o sutiã! — Tentava querer mandar na garota, ela não esperava, mas o homem acabou subindo as pernas dela. Descendo ambas as meias com os pés descalços. Lydia aceitou e obedeceu ao devido mandato, desbloqueando a entrada do fecho de um sutiã preto. Admirado pela visão. — Oh… que perfeição! Ainda são empinados e lindos — Sôfrego elogiou, descendo e jogando mais outra peça para longe. Perdido na ruiva.
— Jura? — murmurava rodopiando os orbes, sentindo o zíper da saia abrir e inteiramente nua. Agora, tampouco daria razões para parar aquilo. — Ok, se você acha… — A paulista deu de ombros.
— Conheço esse corpinho, não esqueço da forma que você ficava quando elogiava.
— Verdade, eu ficava — anuiu com a concordância do verbo na frase dele. Zombando.
Ficando por cima de Ribeiro, lençóis repletos com tons marrons e vermelhos dos fios de cabelos sedosos. Recebendo outros beijos e lambidas na cara. Suas pequenas mãozinhas despindo a regata do canalha, repensando no gaúcho e fantasiando como ele ficaria bonito vestindo os trajes, permitindo-o fazer o que quisesse.
Consequentemente, Aranda segurou os ombros da mulher deitada, o metal do piercing chocando em seu nariz. Mordendo seu lábio inferior, entrelaçando o casal de acumulado tesão — a sombra do Schiavon fundindo no corpo de Murilo — os cinco dedos na canhota, tatuagens da pessoa que ela anseia surgindo nos braços do parceiro.
Lydia navegando nos seus bíceps, abdômen, peitoral; apertando sutilmente o pau rijo e pulsante na boxer, importando-se nem um pouco com o tamanho. Melhor parte de transas insignificantes: querer sua pessoa amada na sua mente e deixar acontecer naturalmente no controle de outra! Claro que apenas na visão dela, porque era impossível não ficar sabendo que continuaria na mesma merda.
— Posso brincar mais uma vez? — Queria a permissão da jovem. Indicando os seios enquanto apontava. Caralho, era só piscar e o Victor de sua imaginação ficava justamente na mesma posição. — Hm, deixa? — Soprava em seu ouvido, um hálito gelado. Porém, negou com a cabeça, dando uma risadinha travessa, testando-o o suficiente — Ah, por quê? Deixa vai! — Coçava sua barriga. A barba do fantasma gaúcho espetava. — Fica nervosinha comigo não!
“Oh, se ele ficasse no seu lugar, puta que pariu! Essas palavras seriam tão maravilhosas na boca dele” Gemeu em conjunto de gargalhadas baixas, segurando o rosto do metaleiro e introduzindo o polegar em sua boca meio aberta, apenas os cabelinhos pretos e as íris esmeraldas no subconsciente, mas que sonhadora aparência!
— Eu deixo, mas sou eu quem ficará no comando! — Pervertida atreveu-se a empurrar o parceiro. Invertendo suas posições, era vez de Lydia estar sentada nele. — Me toque — suplicou. Não mais abrindo os olhos, iluminados por amareladas e azuladas luzes, trocando cores.
Ela acabou novamente recordando daquele riso baixinho arrastado, sempre ouvido nas ligações.
— Acha que dá conta?
— Tenho certeza!
Roçando no órgão, embora não liberto, Lily forçava os toques do parceiro — virando uma cobaia —, massageando o peito esquerdo. No mesmo segundo em que abria suas pernas, inerte na textura rosada e aveludada da intimidade. Gostou de presenciar o homem surtando e expandiu, abocanhando moderadamente seu peito direito, em seguida lambidas direcionadas no bico pontudo; gemidos e jocosos risos, atingindo o clímax do casal.
Unhas, divertindo-se nas linhas tênues da curva ampulheta da ruiva, Murilo agarrou sua cintura: afastada um pouco de sua virilha, fora arrastando seus pulsos. Lydia apertou seu pau, no decorrer levou suas peças íntimas para baixo dos joelhos. Impressionada, quão diferente era seu tamanho que mal lembrava nas fotografias, pois eram outra coisa, enfim, deveras ereto.
Ruídos profundamente memoráveis e ambos nus, ela retornava em cima do metaleiro, os joelhos posicionados no colchão afundado, introduzindo na entrada íntima, delgados dedos só metendo fundo! Enquanto começava movimentos na glande rosada, apertando e indo nele sem pressa.
Eles masturbando reciprocamente submersos nos encantos, Lydia parou e correu ajoelhada, esfregando zonas erógenas e grandes lábios no rosto do homem, oferecendo outra chupada. Olhando a expressão cômica dela, abrindo a boca e gargalhando maliciosamente.
A ruiva sistematicamente cintilava sua visão fictícia onde reinava seu ex-namorado virtual simplesmente nu deitado na cama, Victor faltando o ar e declamando sacanagem, homem este responsável por múltiplos orgasmos que lhe ganharam vida. Intensificando agora um dormitório calorento; molhados de suor, de tanto se beijarem. Seus corpos remexem sem pausa.
Andando de costas para trás, notando o íntimo protegido chocando-se em sua entrada, vendo o sexo dele no seu — retornando a atenção nos quadris e cintura — coagindo a ruiva sentar nele. Assim ela começou, sustentando os punhos. Foi entrando e saindo lentamente, depois envolvendo sua juba aos lados, favorecendo um semblante ardiloso. A velocidade deles é tensa, insana.
“Victor, Victor, Victor”, enunciou mentalmente o gritante nome, agravando no subconsciente enquanto se quicava em outro corpo, ambos os seios chacoalhados. Murilo profetizando essa cena para sempre, escapando gemidos e palavras sujas em sua voz grosseira, Lydia com um fogo repletamente em erupção. Oh, tão brutal!
As paredes da paixão deliciosamente ardem, cavalgando, sentindo lubrificar ainda mais a intimidade, entrando, saindo, saindo, saindo. Finalizando o contato de Murilo e Lydia, quando o metaleiro ergueu-se, batendo em seu rosto, debatendo o peso contra o da ruiva. Dando um estrondo no colchão, assustado pelas garras de Ribeiro cravarem seus ombros, marcando violentos arranhões. Contínua em sua quimera.
— Eu te amo… — excitada, sem querer, anunciou, contudo, em outra dimensão. Que ela inventou, beijando o nariz do gaúcho, sorrindo para ela. — Me perdoe, por favor, me perdoe e me ame! — respirava ofegante, sentindo a canhota no pescoço. Um dos dígitos massageia a pele.
— Sim, perdoo você, querida! — cochichava docemente o homem musculoso e cabeludo, rindo pela tolice da garota. Beijando uma das bochechas. — Prometo não a fazer sofrer, agora.
Finalmente, impedindo toques nele, Murilo ergueu violentamente os braços de Lydia para cima. A destra, pressionando seu delicado pescoço e chegando próximo à entrada super exposta, segurou suas coxas e agressivamente enfiou seu pau dentro daquela boceta avermelhada, tirando um grito prazeroso da paulista, desconexa. De fato, era fascinante pagar esse preço? Ou não?
Eles choraram, arfando, respirando e queimando. Lydia trepidava loucamente, suas reações corporais tampouco respondiam melhor à sensação, evitando mexer e aguentar o máximo.
Porém, sem querer… cometeu a gafe:
— V-Victor… não pare, não pare e acabe comigo.
Balbuciando mediante murmúrios baixinhos, escolhendo por vezes mordiscar a boca e dividir pré-gozo e saliva, contatando perversidade. Aranda ignorou que havia gemido outro nome e continuava suas estocadas, terminando o serviço.
— Continue, me faça esquecer… — a face escondendo em seu pescoço. — Isso! — gemeu.
— Já estamos quase, minha pequena — Ultrapassando o seio acendido eriçado. Mordendo seus módulos da orelha. — Caralho!
— Ah, nossa…
O orgasmo que nunca havia recebido foi manifesto, gozando, sentindo suas pernas tortas e sujas. Quando acabaram as horas de sexo, acordou na realidade atual, Lydia pingava e Murilo retirava o membro de seu canal vaginal, terminando em sua barriga. Revirando o corpo para o outro lado, tentando processar a cena.
Corpos exaustos e suados e assim foi.
A notícia se espalhou no grupo de quem ela considerava seus amigos da época, obviamente não detalhou o que aconteceu. Lily saiu, não dando uma boa despedida para Murilo, vestindo as roupas e notando estrelas. Ela tomou banho em seu apartamento, agradeceu e não tiveram mais conversas — já era o esperado.
Saiu e continuou seguindo sua vida, no entanto, machucada e arrependida, porque Murilo era um cuzão. Pegando o skate e a bolsa, cabisbaixa.
Sentimentos vazios e carregados de feridas.