Codificada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 16/02/2026
Os olhos do grandão sentado no estofado já batiam recorde de quanto tempo estavam abertos. Parecia até aquele jogo do “serinho”. Ele tinha pelo menos mais de 1,85 enquanto o outro nem chegava a 1,80, e mesmo assim, conseguia intimidá-lo como se estivesse na frente do guardinha noturno que tinha descoberto que ele tinha ligado um refrigerador no banheiro do andar de cima do shopping.
Longa história.
Era assim que ele estava vendo Hansol: como se tivesse que pedir para ele para usar a privada no meio da entrevista.
Não acredito que tô tentando morar com esse cara, pensou.
A verdade era que Hansol não tava pensando em nada. Já era a terceira semana que ele sentava ali, na poltrona de um pé só da sala e olhava para um bando de garotos sentados no meio do sofá, tentando decidir primeiro se eles tinham cara de quem era alérgico a limpar banheiro ou se pareciam com alguém que mataria as suas plantas.
Ele olhou para a sua agendinha, verificando o nome. Mingyu.
— O que você disse que faz mesmo? — perguntou, dando uma folga para a caneta. O grandão (Mingyu), finalmente piscou.
— Acabei de entrar em Educação Física.
— Ah. — Hansol assentiu devagar. — Tu disse que tem parente aqui, né?
— Meu tio. Ele é professor de Português no colégio do Centro.
— Literatura ou Gramática?
— Hã… Português.
Hansol comprimiu os lábios e segurou a vontade de não começar a fazer anotações. “Não sabe o que o tio faz. Existe mesmo um tio?”
Não que ele se importasse com a árvore genealógica alheia, mas se o cara mente sobre um parente, poderia mentir também sobre, sei lá, deixar a luz ligada da sala a noite inteira.
— Você se importa com o barulho da rua?
— Não.
— Com regar as plantas quando ninguém estiver em casa?
— Não…
— Com sol da tarde batendo no seu quarto?
— Não.
— Tem certeza? A gente tá em Caratilândia.
— Eu sou de Cuiabá.
— Ah. Faz sentido. — Hansol rabiscou a palavra “Rio de Janeiro” na aba escrita “parece vir de…” — Tem algum problema com cronograma?
— Cronograma? — o cara passou a mão no cabelo involuntariamente. Com certeza devia tá pensando em cronograma capilar.
— Nosso cronograma de limpeza da casa. A cozinha é limpa todo dia num rodízio, a casa inteira é uma vez por semana pra cada um. Na quarta semana do mês, a gente chama a dona Graça pra dar uma força pra ela. Fica 30 reais pra cada. Se não limpar a cozinha ou a casa na sua vez, ganha multa de 5 reais. A gente reabastece o estoque de Limpol e água sanitária com o dinheiro. E se sobrar, com cerveja.
Mingyu assentia com a cabeça. O cara pontuava tudo com uma seriedade que não combinava com o seu rosto, e conquanto, ainda conseguia acanhá-lo. E porra, 5 reais? Era muita pressão. E se ele esquecesse o dia de limpar? Se chegasse muito tarde do seu turno da escolinha de futebol? Ia perder o dinheiro da Guaravita do almoço.
— As contas vencem todo dia 8, nosso plano de internet vai aumentar mês que vem, e tudo fica em torno aí de uns 200 reais pra cada, fora o aluguel. No banheiro, tem espaço pro seu shampoo e sabonete na parte debaixo e sua prateleira da despensa fica na parte de cima. Máquina de lavar a gente só usa uma vez na semana, pra economizar. A não ser que tu seja da atlética e apareça aqui com a chuteira cheia de lama da quadra. — ele rabiscou mais alguma coisa. Percebendo o silêncio, Hansol ergueu os olhos. — Você é da atlética?
Mingyu expirou. Pelo visto, o cara já tava passando da fase do intimidante e começando a entrar no irritante.
— Eu acabei de chegar.
Hansol repuxou os lábios para baixo, olhando para o tórax dele.
— Acho que você se daria bem no vôlei.
— Eles usam chuteira no futebol.
— É tudo a mesma coisa pra mim. — Hansol deu de ombros. Mingyu enrugou toda a testa. — Tá legal, sobre a comida…
— Já sei. Cada um com seu cada um.
— Menos o café. O Cheol conhece o seu Lúcio do mercadinho Guanabara, e ele separa um lote pra gente todo mês de Três Corações. Só tem extra forte, se você não ligar. 40 conto todo dia 15.
— Tudo bem. — Mingyu hesitou um pouco. Tava tentando diminuir o café (atrapalhava a rotina do sono e a absorção de creatina, segundo o influencer fit que ele seguia no Instagram), mas ser universitário e dizer que não queria café era quase a mesma coisa que falar que votou no Bolsonaro, então ele calou a boca.
Hansol foi riscando ou anotando mais algumas coisas, vendo que talvez não fizesse muito sentido perguntar se um cara daquele tamanho tinha chulé, ou se tinha um gatinho que queria trazer escondido (‘não deixar trazer pet escondido’), ou se ele gostava de jogar LOL até de madrugada (‘lembrar que as paredes são finas’), ou se ele era da galera e não ligava para maconha, ou se tinha namorada e ia trepar com ela altas horas da noite e performar um episódio inédito das Brasileirinhas (‘lembrar de novo que as paredes são finas!’).
Ele olhou para Mingyu através dos cílios. De todo mundo que tinha pisado ali na casa de número 17 da Rua São Sebastião, ele era o único que foi de calça jeans. E com o cabelo penteado. E não tava cheirando a desodorante Rexona passado em cima do suor (mesmo que estivesse usando tênis academia em um calor de 32 graus lá fora).
E principalmente: ele tinha visto a imagem da Nossa Senhora de Fátima em cima do sofá de palete da sala e nem fez cara feia.
Parecia um cara bacana. Mas que se foda isso, ele parecia alguém que dava para morar junto. Alguém que lavaria os próprios cadarços, guardaria a louça e escutaria Sorriso Maroto das antigas enquanto esfregava o box do banheiro.
E sinceramente, Hansol não aguentava mais fazer entrevista.
Ele suspirou, fechando a agendinha.
— Beleza. A gente gostou de você.
Mingyu olhou para os lados automaticamente.
— A gente?
— O Wonwoo deve tá por aí, a gente nunca sabe e nem pergunta, mas ele tem o próprio banheiro e vive de delivery, então tanto faz. E o Seungcheol tá em aula agora, mas ele é bem simples, só quer alguém que não exploda a panela de pressão e nem use as Tupperware da mãe dele pra guardar glitter.
— Alguém fez isso com uma Tupperware?
— Não. Mais ou menos. Você já tem o dinheiro do aluguel aí?
Mingyu assentiu.
— Só me falar o pix…
— Não, você tem o dinheiro? Na mão?
— Dinheiro de papel? Ah, tá. — Mingyu abriu o primeiro sorrisinho fácil, mas Hansol continuou sério. — Tá de brincadeira, né?
— A dona Neiva não gosta de pix. Diz que é coisa do diabo.
— Tecnicamente, novela também é.
— Ela já tem 67 anos, tem coisa que não vale mais a pena explicar. E então?
Mingyu bufou e se empertigou no sofá, puxando a mochila para o colo.
— Posso dar um pulo ali na Caixa rapidão e já volto.
Hansol balançou a cabeça.
— Se for a da Avenida Ipê, o caixa eletrônico tá com defeito.
— Então vou na agência.
— Já são 16:30, eles fecharam.
Mingyu piscou várias vezes, tentando achar solução.
Hansol suspirou de novo. A primeira coisa que Mingyu tinha enviado para ele no WhatsApp no dia anterior foi a foto do flyer de anúncio da vaga junto com a mensagem: “Ei, vi teu anúncio, já alugaram? Tô procurando uma república com urgência.” E depois: “O nome é mesmo Vira-Latas?”. Hansol respondeu pacientemente: o nome já estava aqui antes da gente.
Então, de novo: o cara parecia legal, não era nenhum babaca de atlética, procurava casa com urgência (e nem ligava para o nome dela), enquanto Hansol queria dar fim àquele processo seletivo e começar a montar sua grade.
— Beleza, tu me manda no pix e eu dou a sua parte no dinheiro. Quer ir ver o quarto?
Hansol já estava levantando, sem olhar para a expressão de Mingyu, mas conseguiu ouvir os passos pesados do seu novo colega de quarto marchando atrás dele pelo corredor.
Mingyu se mudou para lá no dia seguinte, sem nenhum pet a tiracolo e com um estoque de shampoo e condicionador Clear 2 em 1 do Cristiano Ronaldo preenchendo o espaço vazio do banheiro.
"Eu detesto o jeito dela, mas pensando bem
Ela fecha com meus sonhos como ninguém."
Garota Nacional – Skank
Ela fecha com meus sonhos como ninguém."
Garota Nacional – Skank
O sol já tinha nascido há muito tempo quando o despertador de tocou no volume máximo embaixo do travesseiro.
Era daqueles toques padrões do iPhone, muito fácil de ignorar, mas o que não dava para ignorar mesmo era o sol forte de março entrando pela janela do seu quarto. Ali não era igual o quarto de , cheio de árvore na frente e com boa vista para a rua, um prato cheio para espiar fofoca de vizinho e pegar em primeira mão os acidentes de trânsito — que em Caratilândia, não passava de gente perdendo o equilíbrio na bicicleta e idoso tropeçando no ressalto da calçada.
Mesmo assim, ela tinha que levantar. Não porque já eram 11 da manhã (ela já acordava essa hora todo dia), mas porque era quarta-feira, dia 17 de março. Não qualquer quarta-feira, e nem qualquer 17 de março.
Tropeçando, agarrou a câmera em cima da escrivaninha de MDF, uma Sony ZV-1 compacta, toda mergulhada em cabos e bateria solta. Apertou no botão da lateral, viu a luz vermelha piscar e coçou o olho.
— E aí… bom dia, vó. Primeiro dia de aula de novo. Depois de… há quantos semestres eu tô aqui mesmo? — ela se jogou na cadeira de rodinhas, fazendo aquele barulho de “nheeec”. — Ah, uns quatro, ou cinco, não tô me lembrando agora. E não, isso não é Alzheimer precoce. Já basta nossa família ter que conviver com essa coisa nos genes, seria uma sacanagem se ela desse as caras pra mim agora, na juventude dos meus 21, tá louca, bate na madeira. É que já faz um tempo que eu tô aqui, tendo que dizer “primeiro dia de aula” duas vezes por ano. — revirou os olhos cansados. Apoiou a câmera na mesa, a tela flip virada para o seu rosto, mostrando nitidamente sua cara amassada. E a remela no olho. — São 11:00 já, o que significa que eu perdi a primeira aula. Mas não tem problema, porque só quem liga pro primeiro dia é calouro, coisa que eu não sou e me mataria se tivesse que voltar a ser. Quer dizer, não se eu fosse caloura do curso de Cinema da USP, mas isso é papo pra outro dia. Bora ir tomar café? Acho que a ficou de comprar dessa vez, mas o seu Lúcio tá sempre em falta de produto. Vê se pode? Até parece que tem alguém comprando tudo.
bufou e manteve seu rosto cansado na panorâmica da tela, empurrando a porta com o ombro e saindo para a área ampla do cômodo central que poderia ser chamado de sala, caso tivesse coisas que uma sala normalmente tem — sofá, TV, tapete ou alguma planta. Mas tudo que tinha ali, no centro da república Só Fadinhas, eram uns colchões empilhados no canto, uns livros do Nietzsche da pegando poeira em um caixote e um cacho de banana verde que trouxe do sítio e disse que iria guardar (há 3 dias).
As outras portas espalhadas estavam todas abertas, e a movimentação devia ter acordado há horas se ela já não estivesse tão acostumada a dormir como um paciente em coma. A primeira que passou na frente foi , trotando até a cozinha com uma ruga na testa.
— Aqui! Aqui, lembra dela, vovó? — a câmera agora estava apontando para a lateral do rosto da garota de cabelo curto. — A mulher que argumentou que você poderia melhorar com hipnose profissional. É, eu ainda moro com ela. Bom dia, .
— O bom dia só é coerente até as 10:00, .
— Eu já falei que você não pode mudar as regras de um sistema UTC milenar, amiga.
— As principais notícias do mundo já aconteceram antes das 10:00, o resto que sobra são só nossos cérebros ambulantes ardendo no sol finito do nosso universo que está prestes a explodir a qualquer momento. Quer café?
piscou várias vezes. Amava muito essa garota, mesmo sem saber honestamente porquê.
— Er… Não, valeu. Seja o que for, hoje é o primeiro de aula, então é sua obrigação dizer alguma coisa legal pra iniciar o semestre. — a câmera agora estava quase no nariz de , enquanto ela abria e fechava a tampa do ketchup.
respirou fundo. Depois, olhou para o bocal da lente sob os cílios e soltou:
— Kierkegaard considerava que a existência humana é marcada por angústia, desespero e paradoxo, pois o indivíduo tem diante de si um conjunto de realidades possíveis e precisa eternamente fazer escolhas. A angústia é o cerne da existência e a realidade é angústia.
E voltou a se concentrar nas suas duas fatias de pão de forma esticadas na mesa, prontas para serem pintadas de vermelho com o ketchup e se transformarem em uma refeição ao estilo de Cardoso. sorriu hesitante, virando a câmera para o seu rosto novamente.
— E essa foi a . Não se assusta, vovó, você sabe que ela não faz de propósito. Ela é dessa gente que pensa muito, saca? Às vezes até exagera nessa maestria, mas- ! — apressou o passou e virou o lado da câmera rápido para a garota que estava saindo do banheiro, com o zíper da calça ainda aberto.
— Ai, caramba. Esqueci que as aulas voltavam hoje. — estalou a língua. — Eu sou a primeira?
— Já falei com a .
— O que ela disse?
— Filosoficamente, que o ser humano é fodido da cabeça.
— E o que você quer que eu fale? Que falésia é um acidente geográfico? Facilita, ! — ela gritou na direção da cozinha.
— Você podia só enfatizar que tá indo fazer o de sempre.
— Matar galinhas pretas pro meu ritual de purificação da semana?
— Eu quis dizer indo pra biblioteca, mas isso também serve. Essa daqui também não mudou nadinha, vovó. Ainda numa dificuldade danada de deixar o cabelo numa cor só…
puxou a câmera até a boca.
— Se a senhora estiver precisando de ajuda, pisque duas vezes. Fui.
E saiu para o quarto da esquerda, que ficava em um corredor enorme com o bocal queimado desde o último ano bissexto.
— Eu não tô mais conseguindo controlar essas cadelas semidesenvolvidas, me desculpa por isso, vó. — murmurou, virando o rosto para o outro lado: — !
A terceira moradora estava no quarto ainda, olhando para uma pilha de tênis no chão, aparentemente sem conseguir escolher nenhum deles. Quando viu a câmera, sua primeira reação foi revirar os olhos levemente.
— De novo você com essa atração especificamente lésbica por mim.
— Eu não tenho uma atração especificamente lésbica por você.
— Quando eu cheguei, você não parou de olhar pra mim.
— Porque você estava usando um chapéu de cowboy.
— E você me achou sexy por isso.
— Achei você uma caipira.
— Caipira sexy.
— Caipira do tipo: “tomo banho ouvindo O Menino da Porteira”.
— Eu escuto Taylor Swift.
— Ela também teve uma fase caipira.
— Aff. — bufou, puxando um dos pares e os apresentando na câmera. — E aí, vovó? Pode me ajudar? All star das antigas ou Adidas de menina fofa?
— Você sabe que não é assim que funciona o vlog da vovó. — levantou o queixo e franziu o cenho. — Mas acho que ela responderia o All star.
— O único que a minha mãe não escolheu. Você é esperta, amiga. E isso não é uma abertura pra um flerte.
— Pode ficar bem fechadinha pra mim, gata. — piscou e saiu do batente do quarto de , a última integrante das Só Fadinhas que tinha se mudado só no semestre passado, trazendo seu sertanejo universitário, suas bananas e maçãs fresquinhas do sítio e pais superprotetores a tiracolo. Mal dava para acreditar que aquela garota ali dentro usando baby doll com estampa de cachorrinho era a mesma que chegou com uma saia muitos metros abaixo do joelho e blusinha polo da Abercrombie. E claro, com seu chapéu de cowboy. era uma garota muito peculiar.
— Então, vovó, agora que você se inteirou da mesmice desse teto, tá na hora de eu ir comer a gororoba do RU. Sem chance de eu perder o fricassê, só servem isso pra deslumbrar calouro. — ela voltou para o próprio quarto, apoiou a Sony na escrivaninha e se inclinou, aproximando o rosto. — Vou levar aquele temperinho de hortelã que você me deu no Natal. Aquele que você disse que era maconha. Eu ainda não abri, mas tenho quase certeza de que não é maconha. Quase. Vou ver se eu acho um especialista pra me ajudar nisso. — olhou o relógio no celular. 11:30. — Tenho que ir. Me deseje sorte.
— Você tá na merda. — Débora misturou a farofa com uma rodela de tomate na boca, falando de boca cheia: — Quero dizer, fazer Cálculo B de novo? Onde você tava com a cabeça?
— Provavelmente no lançamento de Duna e Aftersun no mesmo mês, e maratonando todos os indicados de Cannes. — deu de ombros, separando a própria comida em quatro partes: arroz de um lado, feijão do outro, carne e salada nas outras extremidades.
Ela nem se daria ao trabalho de levantar a cabeça e pescar a expressão horrorizada e até desprezível de Débora.
— Você ainda tá nisso? — perguntou mesmo assim.
— Bom, o Lu de Cinema não vai se tocar sozinho.
— A faculdade também não.
— Eu consigo dar um jeito.
— Eu sei, você sempre consegue. Mesmo eu nunca tendo entendido como. — Débora tomou um longo gole de água, arqueando as sobrancelhas. — Ah, é, eu consigo sim. Eu.
— Não é só você…
— Você colou de mim em todas as provas desde o primeiro semestre.
— E estamos no sexto agora, você não devia estar me parabenizando pelas minhas habilidades?
— Colar é habilidade pra quem, ?
— Isso mostra que eu sou ágil e esperta, consegui chegar no Cálculo B sem nem saber fazer uma derivada direito.
— É, mas agora tu reprovou. Alguma hora essa coisa toda de canal e federal ia se encontrar, e você teria que escolher.
— Eu não escolhi. — levantou a cabeça rápido, sentindo aquele gelo no estômago desagradável. — Quer dizer, sim, escolhi, escolhi a UFSC, escolhi a Engenharia Química, é isso que escolhi.
Débora semicerrou os olhos, desconfiada.
— Aham. Tu ia mesmo escolher fazer Cálculo B, essa matéria difícil do cacete, justo com o Rodolfo? E ainda mais no barra-1, que junta aquela cabeçada toda da Computação e da Matemática. Qualquer um iria preferir um afogamento.
— Pode ser interessante. — insistiu, dando de ombros, tentando convencer mais a si mesma do que a amiga. — Gente diferente, sala diferente, prédio diferente. Só o material que não vai ser diferente, já que é o Rodolfo.
— Você ainda não vai conhecer ninguém, .
— E daí?
— Daí que se você não conhece ninguém, você não consegue colar. E vamos combinar que se você não colar…
— Eu consigo! — pareceu indignada. Débora não estava com ela nos últimos três anos? — Tipo, não é um sistema de passo a passo, é só uma habilidade intuitiva. Você conhece alguém, transparece confiança, deixa a pessoa à vontade com a sua presença atrás dela, vai tornando aquilo um lugar fixo e pronto, o ombro dela fica na elevação perfeita no dia da prova, sempre bem abaixado em um ângulo de 60º na altura do meu olho. E graças a Deus não tenho um grauzinho de miopia.
Débora piscou várias vezes, mastigando mais devagar enquanto as conversas altas ao redor do RU quase faziam com que ela tivesse que se inclinar para falar com .
— É sério, tu é meio bizarra. Eu pagaria pra saber o que acontece no seu cérebro.
— Não precisa perder essa grana, é só assistir uns três episódios de Chaves.
— Onde você é o Chaves, vivendo no seu barril de lixo, convivendo com suas outras personalidades ao redor. A que finge gostar de EQ, a que finge gostar da iniciação científica que te colocaram obrigada, a que finge interesse no formulário da La Roche que teu pai te arrumou, a que finge não gostar tanto do Rodrigo Santoro…
— Credo, você me conhece tanto assim?
— Acho que só você não se conhece mesmo, amiga.
Era verdade. Se tinha algo que fugia bem mais do que os projetos de extensão infinitos da EQ, era de uma terapia. Porque, por mais que pudesse fingir numa consulta também e dizer que sua vida era perfeita e maravilhosa, composta por pais incríveis, uma família unida, amigas amorosas e sem dificuldade nenhuma em estar sempre sorrindo, mesmo assim, ainda existia aquele ruído expiatório no seu cérebro que parecia o barulhinho da panela pegando pressão. E essa panela não estava fechada com a tampa direito. Essa panela ia explodir a qualquer momento, rasgando o ar e espalhando fumaça preta no teto de lado a lado.
Mas, felizmente (ou infelizmente), dava para ignorar isso a maior parte do tempo.
— Bom, tanto faz. Preciso ir. — ela arrastou a cadeira para trás e colocou seu docinho de amendoim da sobremesa na bolsa. — Tenho que fazer o primeiro reconhecimento de campo. Achar o cérebro mais brilhante antes da primeira prova.
— Um cérebro que você não vai conhecer e que provavelmente nem vai responder um boa tarde.
— Acha que alguém é capaz de não me responder? — colocou para jogo sua melhor carinha de poodle abandonado. Ou aquela coisa que ela fazia com os olhos que as meninas diziam que a deixava parecida com um Beagle fofo; qualquer coisa fofa. Mas Débora era imune a isso, aquela calota de gelo polar humana. — Ai, tá bom, qualquer coisa posso oferecer de pagar uma cerveja. Te comprei várias vezes assim já.
— Eu odeio quando você fala comprar. — Débora lançou um olhar fulminante.
— E eu odeio quem não é comprável. Agora fui, me deseja sorte.
— Que sorte o quê, tu precisa é de vergonha na cara.
sorriu para ela, tirando uma mecha caída no olho com o dedo do meio. Débora riu e revirou os olhos.
— Só por isso, sua mensagem pra vovó vai ser adiada pra amanhã. Tchau, ridícula.
A primeira coisa que pensou assim que passou pelo batente da porta da sala 15 do Prédio das Exatas foi: tô no lugar errado. Mas foi só piscar o olho por mais duas vezes para saber que não, nenhuma outra sala de nenhum outro prédio de nenhuma outra universidade do resto do Brasil seria louca e retardada o suficiente para juntar 70 alunos em um quadrado largo, com só um ar-condicionado funcionando e gente apertada igual numa prisão colombiana.
Ela nem estava tão atrasada assim, entretanto, só conseguiu visualizar uma única carteira dura na primeira fileira da lateral, longe demais da lousa e da mesa do professor, mas talvez fosse uma vantagem. Quando Rodolfo começasse a falar, aconteceria em um piscar de olhos: olá, Lu de Cinema! Olá, Instagram. Olá, comentários do canal. Olá, bloco de notas aberto no roteiro da próxima crítica de O Lobo de Wall Street.
Depois de quase tropeçar em uns dois pares de pés esticados para o corredor apertado entre uma fileira e outra, finalmente conseguiu se acomodar, e tentou dar uma olhada ao redor para captar… o que disse para Débora que captaria.
Cérebros brilhantes. Crianças superdotadas. A sósia do Sheldon Cooper.
Mas só tinha uma variedade grotesca de estudantes de todo tipo, raça, cor, credo. Gente que já tava dormindo, ou fazendo unha, ou jogando Free Fire com o celular tombado e alguns enfiando a mão por baixo da mesa vizinha para agarrar… tomara que a coxa de outro alguém.
afundou na cadeira. Odiava dar razão para Débora, mas agora estava pensando a sério no que ela disse: onde estava com a cabeça? Como não colou direito no semestre passado? Ela não tinha que estar ali agora!
Mas a razão disso já estava mais do que óbvia, e não queria meditar nela. Não queria lembrar que sua avó teve uma das piores crises da doença no semestre passado, quando sua tia se descuidou por um minuto, apenas um minuto, e a perdeu de vista, mobilizando a casa inteira em Porto Alegre para procurá-la pela vizinhança. pegou o primeiro ônibus para casa e, quando chegou, passou o próximo mês inteiro chorando em momentos aleatórios (no quarto, no banheiro, caminhando na rua) só de recordar aquela cena padrão e cruel que o Alzheimer te obrigava a viver: “Quem é você, menina? Por que tá usando os olhos da minha filha? Ô, Cristiana! Cristiana, tira ela daqui! Cristianaaaa!”
não compreendia esse processo muito bem, mas daria uma perna para esquecer essa cena para sempre.
Lá na frente, o homem de 1,70 com entradas na cabeça e blusa xadrez de flanela finalmente abriu a boca para falar. Rodolfo Prado, o professor mais casca grossa de todo o departamento da Engenharia Geral. Amava o número zero, dias cinzas e feios, tristeza e dor estampadas no rosto de pobres coitados que dependiam exclusivamente dele para conseguir um diploma. Com certeza, o cara deve ter sido muito humilhado no mundo acadêmico na sua época, e como isso provavelmente afetou o seu sono por anos (ele parecia mesmo alguém que não dormia direito), se viu no direito de fazer a mesma coisa com os vermes em forma de alunos que passaram de raspão pela nota de corte no Sisu.
Mas Rodolfo tinha um calcanhar de Aquiles: puxa saquismo. Caso alguém estivesse disposto a passar essa vergonha, ele gostaria de recebê-lo, e quando gostasse, você não precisaria se preocupar com mais nada. Nem mesmo com aprender a matéria, já que ele tinha esse ponto positivo de sempre usar os mesmos materiais, não importava para qual curso estivesse ministrando. E também ficava extremamente mais dócil quando bebia na noite anterior, mas essa informação já era secreta.
O professor deu boa tarde, apresentou a disciplina e o plano de ensino, a ementa, deixou claro que os trabalhos eram para ser entregues na data marcada e, se não, forneceu o horário que o carro do lixo passava na frente do portão do campus junto com o sorriso que devia dar ao doar mais pedaços de papel para reciclagem.
Escroto. Não era à toa que se parecia com o Fofão, pensou .
— Vou começar chamando o nome de vocês pra verificar a pauta. Viviane, Danton, Nathália… — sua voz encharcada de tédio foi recitando conforme os nomes apareciam, desembaralhados, até finalmente: — Matarazzo…
— ! Eu, presente. — ela levantou o braço, emendando na fala dele antes mesmo que o professor chegasse na última letra do nome. Um nome que ela preferia que não fosse dito assim, abertamente.
Mas, pelo visto, o grito foi alto demais, porque vários pares de olhos se viraram na direção de , tanto os lá da frente quanto os de trás. Só que nenhum deles foi mais feroz do que o olhar do próprio Rodolfo, que parou com a caneta apoiada no papel e a encarou por cima das lentes quadradas do óculos Aviador dos anos 80.
Aquele olhar sem acompanhamento de um sorrisinho só significava uma coisa: você de novo. Não de um jeito agradável ou simpático. Era apenas: ah, você de novo. Que decepção.
Rolava um burburinho por aí que o Rodolfo não curtia muito repetentes (mesmo que mandasse todo mundo para a prova final sem dó). Mas repetir a matéria na mesma sala que a dele, e não com qualquer outro professor do departamento que lecionasse alguma das dezenas de disciplinas de Cálculo, deixava o cara frustrado; era o tipo de gente que ele não tinha conseguido converter, ensinar, fazer gostar nem que fosse um pouquinho do diagrama bem desenhado de uma série de Taylor e Fourier, e nem ia conseguir isso agora, em uma turma de 70 cabeças.
Ele continuou com a aula, agora falando sobre o cronograma de provas e trabalhos. Estava tudo bem nos primeiros minutos, nada novo sob o sol; até mesmo se lembrava daquela dinâmica: três provas valendo 10, duas listas de exercício, justificativas nas respostas. Débora tinha tudo isso no computador. Até que alguém rasgou o silêncio parcial da sala para dizer:
— Professor, você acha uma boa ter só um trabalho pro semestre?
Rodolfo estava quase terminando o seu discurso de abertura quando foi interrompido pelo novato. Agora todos os olhos estavam nele.
— Como? — Rodolfo perguntou, os olhos com cílios finos batendo rápidos.
— O seu plano de ensino. Ele é ótimo, mas sua distribuição de notas poderia ser um pouco melhor. Se vamos ter um momento pra aprender equações diferenciais, seria interessante uma prova só sobre esse conteúdo ou mais um trabalho sobre elas, com listas discursivas e até um simulado. Como elas são as derivadas bases do cálculo, provavelmente precisam de mais atenção, e entre as de primeira e segunda ordem…
mal ouviu o resto. Só ficou paralisada, assim como o restante das pessoas, com bocas entreabertas e cenhos franzidos enquanto o bocudo lá na frente não parava de… acabar com a vida deles.
“Professor, você poderia complicar mais as coisas? O seu conteúdo tá parecendo coisa da 5º série”, ele estava quase dizendo isso!
E no início, provavelmente, Rodolfo estava sendo uma imitação clara do restante da sala, olhando para o desconhecido como se ele fosse um camundongo que de repente começou a falar. Mas depois, quando ouviu todas as sugestões, o que saiu de sua boca foi:
— De qual curso você é mesmo?
— Sou da Matemática. 6º período.
— Ah. — e o rosto de Rodolfo de repente relaxou, perdendo todos os traços duros que o resto da sala ainda tinha. — Lembrei. Você é o que mandou o formulário? — o garoto assentiu. — Agora sei do que está falando. Conheço um pouco da bibliografia de vocês.
— A maior parte deles são ótimos.
— Na maioria das vezes eles são em alemão ou inglês. Essa metodologia que você acabou de sugerir…
— É uma proposta pedagógica, senhor. O mesmo sistema de médias ponderadas, só que mais eficiente. É a melhor forma de unir o útil ao agradável.
— Certo, certo… — e então, Rodolfo fez uma coisa que nenhum calouro, veterano, egresso ou muito provavelmente sua própria família nunca via: ele sorriu. Pelo menos, aquela elevação no canto dos lábios cheios de rugas se parecia muito com um sorriso. — Bom, eu vou considerar essas coisas. Mais alguém quer dar uma sugestão sobre o nosso cronograma?
A sala permaneceu em silêncio fúnebre. Como era de se esperar depois de um dos pobres mortais sem diploma praticamente levantou uma faca e ameaçou a todos pelo pescoço ao mesmo tempo.
automaticamente já não gostou dele. As aulas de Rodolfo Prado eram e sempre foram padronizadas, sem fru-frus modernos que se preocupam com o aprendizado do aluno. Aquele cara não estava nem aí para isso, e honestamente, nem o julgava por isso; tinha estudado para caramba para ser doutor e passar naquele concurso para ter um trabalho razoavelmente confortável ganhando seus cinco dígitos por mês para passar o mesmo slide e os mesmos exercícios todos os anos, ajudando pobres estudantes a conseguir um dos certificados mais difíceis da UFSC, que era qualquer um da área de exatas (e que, com certeza, chegam lá sem saber o que é um cálculo vetorial até baterem 20 anos de carreira e serem obrigados a fazer um curso de atualização).
Não havia razão para Rodolfo dar ouvidos a isso. Mesmo que ele tenha exibido aquele sorriso humano e satisfeito, não importa: a zona de conforto dele era quentinha e conveniente. Que permanecesse nela até aquele semestre acabar.
As próximas duas horas se passaram com números inteiros e quebrados, frações, desenhos difíceis de integrais múltiplas e coordenadas polares. Débora tinha sido severa quando disse para que colar não era uma habilidade, mas agora, talvez estivesse um pouco certa: a pessoa que sabia resolver todas aquelas coisas é que tinha um talento, algo diferente do restante da população. Eram muitos números, muitos símbolos entre eles, muito raciocínio pesado que deixava com vontade de jogar o livro do James Stewart no chão e pisar em cima.
No fim da aula, ela esperou que todas as fileiras da frente se levantasse e saísse para que pudesse pentear a franja com os dedos e ficar de pé num pulinho, indo direto para a mesa de Rodolfo, que arrumava o notebook e seus um milhão de arquivos encadernados dentro de sua bolsa pasta.
— E aí, Rodolfo. — ela disse com descontração, o sorriso de quem era minimamente íntima dele. — Mais um semestre, hein… Como que vai ser dar aula pra quem não é da EQ?
Ele parou de ajeitar as folhas e a encarou.
— Vai ser a mesma coisa de sempre, . Um pouco melhor, até. Sem alunos que acabaram de sair das fraldas pensando que descobriram a América porque o Teorema de Gauss deu certo.
torceu a boca. Não só porque ele insistia em chamá-la de , mas também porque o pessoal da EQ realmente não tinha a melhor fama. Até o próprio Sherlock Holmes os odiaria.
— E é um prazer vê-la aqui de novo. — ele abriu um sorrisinho fraco, mostrando que ver outra vez era tudo, menos um prazer. — Ano novo, vida nova?
— Nova só a minha franja, Rodolfo. E com quem mais eu poderia fazer essa matéria de novo? É claro que tinha que ser com você. Com a sua presença marcante e o seu material maravilhoso, que é sempre uma alegria estudar mais uma vez. — porque é o mesmo e eu tenho várias cópias.
— Se você não se esforçar, pode ver as mesmas coisas pra sempre que vai continuar reprovando. — ele retrucou, fechando o notebook. A sala estava quase vazia agora.
— Mas as coisas vão continuar as mesmas, né? O resto eu me viro. Esse negócio do pra sempre aí.
Ele soltou um suspiro cansado.
— Tá muito nova pra ficar na universidade pra sempre.
— Eu não vou ficar se o seu material for o mesmo.
— Mas por que esse papo? Por que tá ciscando em cima do material, ?
— Nada, Rodolfo, é um elogio. Você tem palavra, tem rotina, não é só porque um novato qualquer te diz pra mudar o material que você vai fazer isso.
A voz de saiu com confiança, mas geralmente esse tipo de coisa não funcionava tão bem quanto quando ela estava de frente para uma câmera. Pessoas de carne e osso fora de telas geralmente a deixavam nervosa. Era errado e talvez um pouco esquizofrênico, mas era assim que seu cérebro funcionava.
Rodolfo fez a mesma careta confusa e projetou o queixo para a frente.
— Tá falando do Hansol?
— Não conheço esse nome. Seja lá quem for. Como eu disse, tô elogiando.
— Você acha que me engana, ?
Ela segurou a vontade de dar um tapa naquele bigode dele que se emaranhava junto com costeletas horríveis perto das orelhas.
— Ah, não. Eu não engano nem a Cornélia da padaria, e olha que ela tem 89 anos, mal enxerga as moedas mais. O que eu quero dizer…
— Acha que eu não sei que vocês dão um jeito de guardar o material do semestre passado porque acham que se usar ele de novo vão conseguir passar?
Hã… sim?
— Eu nunca disse isso…
— Nem deveria. Isso não é garantia de nada.
— Eu sei, mas se, e isso é um imenso SE, eu os tivesse, eles me ajudariam um pouco mais, assim como todo mundo aqui. Essa coisa de integral é muito difícil, Rodolfo, qualquer ajudinha vale a pena. É por isso que os veteranos agem e montam uma máfia da matéria de Cálculo, reunindo o material e passando de geração em geração, ou desde o tempo em que o senhor está…
parou. Seu cérebro tinha aberto os portões do porão de novo.
— O quê?
— Eu… não disse nada.
— Disse que os alunos vão passando os trabalhos.
— Não exatamente passam.
— .
— É que tudo é muito parecido, Rodolfo. — ela gesticulou com as mãos. estava percebendo, muito lentamente, que não tinha um jeito exatamente legal e agradável de dizer aquela verdade. Percebeu também que seus pensamentos estavam começando a ficar em francês, coisa que eles faziam quando ela estava nervosa. — Você fala de equações diferenciais parciais e as pessoas não entendem, os monitores se acham no direito de faltar os horários de monitoria, não existe diálogo entre as suas questões da prova e nem todo mundo é apaixonado por integral! A maioria das pessoas fala isso pra te impressionar, e porque precisam passar nessa matéria obrigatória pra conseguir vestir uma beca e segurar um canudo vazio no auditório! — arfou. Os olhos dele estavam completamente parados e inexpressivos. — I-isso… Tipo, é por isso que seria bom se os seus materiais continuassem os mesmos. Ou os mais parecidos possíveis.
A voz dela foi abaixando nas últimas linhas, e se sentiu sufocada com tanta humilhação. Rodolfo continuou ali, encarando, o semblante indecifrável, sem demonstrar raiva ou sequer a possibilidade mais do que óbvia de jogar a garota para fora daquela sala.
Com certeza, a partir daquele dia, aquele rosto apareceria nos sonhos dela, como um despertador obrigatório antes do meio-dia: você acha que enquanto não ir até a administração abrir o processo de trancamento, vai conseguir se livrar de mim?
Por fim, ele finalmente se mexeu para soltar um suspiro fundo, ajeitando os óculos cafonas.
— Eu tenho que ir. Obrigado pela informação. Teremos um bom semestre.
— Ah, qual é, Rodolfo. — entrou na frente dele antes que ele saísse. — Vai deixar um novato chato te fazer mudar de ideia? Tava na cara que ele tava puxando seu saco.
— Ah, é mesmo? Pois você sabia que os professores amam puxa sacos, ? Só que esse não é o caso do garoto Hansol. Ele estava interessado na matéria de verdade, diferentemente de 97% dos seus colegas estavam no semestre passado.
— Ok, já deu pra entender que o senhor pegou ranço da turma da EQ, e até consigo imaginar porque. — era uma lista tão imensa. A começar pelo Bernardo chamando-o de baby toda vez que Rodolfo dizia “é isso aí”; os vários debates com Fernanda, que jurava que os cálculos dele estavam errados e que “não tinha nenhum problema nisso, afinal, Rodolfo, você já saiu da facul há um tempão”; ou até mesmo de , que fui reprovada por falta (a aula era 8 da manhã) e, quando ia, ou estava de ressaca e dormia ou estava apenas com sono e… dormia do mesmo jeito. — Mas a turma era participativa, não era? O senhor não pode dizer que não. A Fernanda, eu lembro dela te dando um monte de dicas, respondendo os cálculos no quadro, de todo mundo fazendo abaixo assinado pra P2 não ser na época da festa de Halloween do Vanguarda, e daí o senhor vai e dá a prova um dia antes. Por que o protótipo do Isaac Newton vai conseguir mexer no seu cronograma?
— Eu não disse que ele vai coisa nenhuma, .
— É que do jeito que ele disse, parecia que ele estava se divertindo, Rodolfo. Se divertindo em dizer que você deveria alguma coisa. Olha, nem a Fernanda fazia isso, viu? Ela ficava com dor no coração de apontar algum erro seu, eu garanto isso. Agora esse cara… quem é ele mesmo? Nem é da engenharia. Qual o curso que ele…
— Matemática. — a voz soou das costas de , e ela demorou até que muito para virar a cabeça. — E nem é o bacharelado. Achei que você tivesse prestado atenção quando eu falei na aula.
O… quê?
De perto, o cara era bem maior do que , não que isso fosse difícil com seus 1,60, mas de alguma forma, a postura e o jeito de falar o deixavam com quase dois metros de altura. Seus olhos cravaram nela de um jeito fuzilante, e diferente de Rodolfo, dava para saber exatamente o que ele estava pensando.
E não era como se fosse um: “nossa, que garota legal e interessante.”
— Aqui, Rodolfo, meus horários. — ele desviou os olhos dela e estendeu um pedaço de folha A4 para o professor. — Posso passar na sua sala amanhã? Tenho monitoria agora e uma aula mais tarde.
— Claro, Hansol, amanhã 13h. Tenho 40 minutos antes de uma reunião do comitê. Te vejo lá.
— Beleza. Até mais. — Hansol a encarou com uma última carga de Raio-X vermelho dos X-Men e saiu em disparada.
ficou encarando suas costas até desaparecerem e a voz agora mais energizada de Rodolfo surgiu:
— Uma atitude essencial pra se passar em Cálculo, senhorita , é fortalecer a ação e não a conversa fiada. — comentou, juntando suas coisas agora em todos os braços e lhe dando um sorrisinho de canto que soou maléfico e provocador. — Espero que a senhorita tenha um ótimo semestre, cheio de novidades. Porque o meu será.
Se não estivesse maluca, podia jurar que ouviu uma risadinha escapando da garganta dele quando deixou a sala. Ah, Rodolfo com certeza iria rir tanto quando se sentasse na sua poltrona presidente e se lembrasse da cara que ela estava fazendo naquela hora.
Porque estava paralisada, sentindo que tinha feito um estrago mil vezes maior do que o cabeçudo da Matemática teria feito.
E agora só conseguia pensar:
— Tô fodida.
20:00 era o horário que normalmente Hansol cruzava a avenida e chegava em casa, sentindo o cheiro do frango do Mingyu cozinhando e ouvindo a música alta de Cheol do quarto.
Mas antes de passar para dentro do portão baixo de grade da casa de dois andares da dona Neiva, ele viu o que já tava esperando ver: aquela gatinha manchada brincando com alguma coisa embaixo da árvore do quintal. Ele chegou mais perto dela. Parecia uma batalha sanguinária contra um pedaço de papel rasgado de picolé de abacaxi. O negócio tava tão violento que o papel parecia estar ganhando do bicho; ela estava grunhindo como se ele estivesse tentando matá-la.
Vernon suspirou e se abaixou, segurando a alça da mochila no ombro.
— Ei. Ei, Baguete. — ele falou baixo, para sua voz não alcançar a janela baixa da dona Neiva. — Eu já falei pra você me esperar lá fora, na calçada. Você não pode entrar aqui dentro, sabe o que a dona Neiva faria com você se te visse?
A gatinha parou de espernear quando ele disse, como se realmente soubesse. Quer dizer, ela sabia mesmo. Todo mundo sabia. Se não visse Baguete um dia por aí, ele nunca mais comeria churrasquinho na vida.
Ele puxou a embalagem do picolé, amassou e colocou no bolso, sem se importar com a lambança. No outro bolso, pegou um pedaço de guardanapo embrulhado e abriu na palma da mão, estendendo os pedacinhos minúsculos de carne e abóbora cozida picada que tinha separado do RU. Baguete (que parecia mesmo um pãozinho de baguete) atacou o jantar, e Hansol esperou, sempre olhando sobre o ombro para não ser pego.
— É sério, tu precisa me escutar, tô tentando garantir tua sobrevivência. — ela miou. — Dá pra sobreviver na rua também, garota, larga de ser mimada. Você sabe que não posso te levar pra casa. — mais um miado. Vernon bufou. — Você não aceitou o abrigo de animais, não aceitou adoção de ninguém, e não arreda o pé daqui desde que eu cheguei, vai ter que viver sob as minhas condições. Agora chega? Não me estressa hoje não, Baguete. Já basta o dia que eu tive na faculdade.
A gata lambeu o restante da comida na palma da mão dele, sem mais miados de curiosidade sobre qualquer merda que estivesse afligindo Vernon. Gato era assim mesmo; só queria saber da refeição, de um carinho rápido diário, exercer seu controle sobre os humanos e depois seguir sua vida. Hansol nem sabia como tinha chegado aquele ponto: ter encontrinhos secretos com uma gata de rua que ele conheceu assim que se mudou para a casa de número 17, e que tentava, até hoje, forçar a adoção, sonhando com uma caminha aconchegante em uma sala que não batesse sol 18 horas por dia, mas não tinha o que fazer quando a dona das condições se chamava Neiva Damasceno (com seus vestidos sempre floridos, alpargatas marrom, cabelo ralo preso em um coque e expressão perpetuamente taciturna). A não ser quando…
— Oh! Hansol!
Vernon viu a pequena faixa estreita de luz invadindo o quintal na mesma hora que a voz da mulher escapava para fora. Já esperto, ele pulou para ficar de pé, limpando a mão que serviu de prato de comida para Baguete e vendo, com alívio, a gata vazar para a escuridão das árvores, direto para o muro que dava para o condomínio da vizinhança, com muitos gatos, papagaios, cachorros e um zoológico inteiro de amiguinhos e possíveis lares, mas ela ainda continuava voltando ali.
— Dona Neiva! — ele abriu um sorriso impressionado, parecido com o dela. Segundo os seus cálculos, aquele era o único sorriso que a velha era capaz de dar (e para a única pessoa). — E aí, como vai a senhora?
— Ah, meu filho, bem, bem, só esse calor que tá difícil, né? Não tá sentindo calor com essa roupa, não?
— Eu tava no ar-condicionado. — ele apontou para a jaqueta levinha de tecido. — Nessa época, ninguém desliga lá, daí nem dá pra sentir.
— Ah é, é, mas toma cuidado, viu? Essa coisa de ar-condicionado é um perigo. Eu fiquei sabendo que a radiação pode causar câncer na gente. E um monte de pessoas aí dormindo com isso ligado a noite inteira, Jesus amado…
Vernon sorriu de forma elegante e compreensiva. Só Deus sabia a lista de argumentos, provocações e gritos consternados que queriam disparar da sua boca, mas sua razão estava empurrando-as para bem, bem baixo da sua garganta. Hoje, especificamente, estavam tendo que agir com mais força do que o normal.
— É verdade, dona Neiva, é por isso que eu não deixo colocarem ar-condicionado lá em casa. Já viu o quanto um troço desse gasta de energia? Mas o que é a conta de energia perto da nossa vida, né?
— É isso mesmo, querido. Você é um jovem tão sensato. Quer entrar e tomar um chá? Eu tenho um daqueles de camomila que é ótimo pro sono.
Normalmente, Vernon aceitaria o convite. Não porque amasse a companhia da velha, não porque sentia prazer em ser sufocado por suas próprias palavras diante das besteiras por segundo que escapuliam dela, não porque tinha um plano em mente de sempre ser simpático para que ela nunca aumentasse o aluguel, não porque queria sondá-la sobre o que achava de seus colegas de quarto e depois instaurar novas regras para que eles “não chamassem a porra da atenção da dona Neiva”, não porque gostava de ouvir os hinos da harpa cristã que tinha decorado especificamente para acalmá-la, não…
Ele aceitaria porque gostava mesmo de chá. E porque precisava, mais do que nunca, de uma boa noite de sono. E porque, no fundo, ele sabia que ela só era uma senhora sozinha que precisava conversar, e ele era bom com idosos.
Mas hoje, Vernon estava muito estressado. Com tudo.
— Hoje eu vou ter que recusar, dona Neiva, preciso ir estudar. O semestre já começou com tudo.
— Ah, é verdade, bem que eu vi a cidade cheia hoje quando fui na feira. Os meninos voltaram também?
— Aham, tem uma semana já. O nosso novo colega se mudou também.
— Como é o nome dele?
— Mingyu.
— Ahh. Quando vou conhecer o Mingyu?
— Hum… talvez no fim de semana, quando eu for pagar o aluguel.
Nota mental: adestrar Mingyu até o próximo fim de semana.
A velha deu mais um sorrisinho simpático.
— Tudo bem, rapaz, conhecendo você, sei que é um menino de bem. Pode ir, vá, você precisa descansar.
— Obrigado, dona Neiva, fica com Deus, viu?
— Amém, querido. Durma bem. E ah… — ela disse antes que ele pisasse no primeiro degrau. — Eu andei escutando uma música alta aí de cima. Avisa pro menino de cabelo grande que ruídos são só até 16:30, e como aqui é uma casa de família, não escutamos… esse tipo de coisa.
Um leve rubor se espalhou pela bochecha enrugada da dona Neiva, que tirou o sorriso e fez um bico de autoridade. Vernon repassou rápido na mente do que ela poderia estar falando (ou quem), mas nem precisava pensar muito.
— Claro, pode deixar que eu falo, dona Neiva. Ele devia estar com visita, sabe como é as más companhias. — ele projetou os ombros para baixo, intensificando a voz. — Peço mil perdões, mesmo. A letra da música…
— Coisas obscenas, vergonhosas. Alguma coisa de tacacá, queimar no fogo do amor, coisas que as pessoas não deveriam comunicar em voz alta desse jeito. Vê se pode, esse mundo tá perdido…
Ainda bem que não era a playlist de funk.
— É uma lástima da humanidade. Se a senhora me der licença, eu vou agora mesmo…
— Claro, claro, vai sim. Não precisa se preocupar com isso agora. Descansa, meu filho, e tenta tomar uma água com limão, viu?
— Vou fazer isso, dona Neiva. Boa noite.
Vernon estava sorrindo assim que se virou e pisou na escada que levava ao segundo andar. No meio dos degraus, já tinha trocado o sorriso para uma linha fina e dura dos lábios, subindo mais rápido e soltando um bufo tão forte como se tivesse tirado um lutador de sumô do ombro.
Como era cansativo engolir um grito. Caralho, era tudo que ele queria agora: soltar a merda de um palavrão em alto e bom som, alguma coisa que faria a proprietária lá embaixo mandá-los embora na mesma hora.
Quando entrou em casa, não tinha mais o som de Cheol, mas o cheiro do frango ocupava a casa inteira. Era quarta-feira, dia do preparo das marmitas do Mingyu, o que significava que todas as bocas do fogão estavam ocupadas e as bancadas também.
Que se dane, ele já tinha desistido de tomar chá mesmo.
Vernon foi direto para a porta mais perto da sala, batendo duas vezes. Ouviu um “entra” e agarrou a maçaneta, colocando só a cabeça para dentro:
— Maneira no Calypso que eu acabei de sair de uma sessão da terapia da dona Neiva reclamando do barulho. A gente já não falou sobre isso?
Cheol franziu o cenho, o console na mão e o olho na partida de FIFA.
— Eu só liguei o som umas 15:30 pra varrer o quarto.
— Mas você tava ouvindo o tacacá.
— O que tem o tacacá?
— Tem que ela não gosta. Porra, Cheol, quer mesmo lembrar do que aconteceu quando você escutou Mc Livinho aqui?
— Não fui eu, foi o Felipe. — Cheol desviou o olho da tela por um instante. Pescou as sobrancelhas levantadas de Vernon. — Tá bom, vou controlar o volume da JBL na próxima. Se bem que do jeito que ela é, é capaz de ouvir a música saindo do meu fone de ouvido.
— Então que tal começar a colocar o padre Marcelo Rossi na sua playlist pra iniciar? — Vernon disse em seu tom fluentemente desdenhoso. Cheol levantou o dedo do meio. — Que bom que entendeu. Fui.
Ele fechou a porta e jogou a mochila no sofá quebrado, indo até a cozinha esfumaçada de frango. Viu Mingyu tirando a casca de umas batatas doces e Wonwoo passando requeijão em uns biscoitinhos cream cracker, grudando um no outro para fazer um sanduíche. Coitado, mais um dia sem jantar.
— Eu tenho um miojo ali, se você quiser. — Vernon disse para o amigo de óculos, roubando um dos seus sanduíches de biscoito.
— De legumes ou de galinha caipira? — perguntou Wonwoo, mastigando.
— Tomate da turma da Mônica.
Wonwoo assentiu.
— Tu não tava guardando esse?
— Eu jantei no RU. Mas nada pra se gabar, com certeza o miojo vai ser melhor.
Ele riu com Wonwoo. Do outro lado da cozinha, Mingyu olhou para eles com a cara torcida. O cara odiava miojo (e tudo que era industrializado).
— Vou pegar, então, depois te pago.
— Não precisa. Eu não chuto cachorro morto. — Vernon catou mais um biscoito. Wonwoo revirou os olhos e foi para a despensa. Na parte de baixo da dele, na prateleira de Cheol, ele viu um fardinho de Brahma, as cervejas que o amigo mais gostava, dentro de um plástico muito fácil de abrir. Ainda era quarta-feira, mas os olhos de Hansol pararam ali, namorando o metal, imaginando o líquido descendo pela garganta, mandando a ideia da água com limão pra casa do caralho.
— Você tá legal? — Mingyu perguntou, jogando os pedaços grossos de batata doce na panela com água.
Vernon olhou para ele.
— Aham, tô sim.
— Tem certeza?
— Tenho. — Vernon franziu o cenho. Ele mal o conhecia e já sabia que ele não tava normal?
Mingyu não pareceu convencido.
— Eu tenho uma latinha de Itaipava ali dentro, se você quiser.
— Hansol não bebe durante a semana. — Wonwoo disse, quebrando o miojo de embalagem verde por dentro. — Só na semana de prova.
— É o quê?
— Tem umas provas que precisam que a gente saia dela direto pro Betinho lá no fim da rua. Você já conheceu o Betinho?
— O barzinho pé sujo com sinuca cheio de vovô jogando baralho?
— Isso. — Vernon e Wonwoo responderam juntos.
— Eles quase nunca deixam a gente jogar. — Vernon resmungou.
— O Cheol já insistiu uma vez, e eles ameaçaram ele com um isqueiro.
— O Cheol nem sabe jogar.
— Ué, os velhos não sabiam disso. E uma garota que ele conhece tava lá.
— Que garota?
— A que trabalha com ele na biblioteca.
— A que ele quer pegar?
Wonwoo riu alto e olhou disfarçadamente para a porta de Cheol ainda fechada.
— Ele nunca falou isso.
— E precisa falar? — Vernon ergueu uma sobrancelha e olhou de novo para a despensa, como se aquele negócio estivesse chamando por ele. — Mas tô quase aceitando tua oferta, Mingyu. Hoje o dia foi foda.
— Que foi?
— Eu me candidatei pra monitoria de um professor da Engenharia Química, o mesmo que vai me dar aula esse semestre, e tinha que levar uns documentos pra ele. Só que aí, tinha uma guria lá falando nada com nada no fim da aula sobre os materiais, querendo que continuasse os mesmos pra ela poder mamar no resumo dos outros e passar com decoreba. — Vernon contorceu o lábio. Só de lembrar da cena já dava raiva de novo. — Eu dei uma dica pro cara, falei pra ele melhorar as paradas do cronograma, otimizar o serviço dele e tal…
— Você é consultor de professor? — Mingyu perguntou, recostado na bancada. Wonwoo riu da pergunta, mas Hansol balançou a cabeça.
— Eu só acho que se tu ganha 20 mil conto todo mês pra passar um slide e mudar uns valores da mesma prova, tem alguma coisa errada, essa porra de país tem que perder o medo de falar com quem é rico, ainda mais se for rico do dinheiro público. No fim, tá todo mundo no mesmo barco.
— E é assim que ele um dia vai virar deputado. — Wonwoo brincou, mas a piada saiu como areia na boca. Vernon negou com a cabeça.
— Deus me livre, prefiro ir morar com a dona Neiva. — ele riu. — Mas o lance é que essa menina aí falou um monte de merda, disse pro Rodolfo não me escutar porque eu era novato e chato. Mal sabe ela que eu já tinha dito tudo isso no meu formulário e ele me aceitou na seleção.
— A mina falou mal de você na sua frente, então? — Mingyu perguntou, apagando o fogo do frango.
— Basicamente, ela não tava me vendo, mas falou, sim. E foi tão escroto, ela me julgando sem nem me conhecer. Esse povo tá perdendo a noção.
— Mas ela era bonita? — Mingyu perguntou, com um sorriso sugestivo e estranhamente animado. Vernon franziu o cenho.
— Quê?
— É, essa guria aí que te detonou, era bonita?
— Bonita? Sei lá. — ele coçou a cabeça, repentinamente com vontade de encerrar a conversa e sair decidido daquela cozinha, que tinha ficado muito apertada. — Eu nem reparei nisso.
Era verdade, mas nem tão verdade assim. Na vida real, Vernon achava muitas garotas bonitas, e todas elas vinham de conclusões depois de uma olhada, e ficava por isso mesmo. A cabeça dele vivia tão cheia de provas, aulas, estudos, matrizes, integrais e derivadas, se suas irmãs Mariana e Amanda estavam se dando bem na escola, se seu pai tava conseguindo tocar a oficina sem ele, se a avó tinha parado de ficar tentando subir no telhado para limpar as calhas depois da cirurgia na coluna, que não sobrava tempo para meter outra coisa ali no meio (só nas calouradas ou nos rocks de integração do começo de semestre, que aí sim, ele largava as fórmulas de lado e pensava nas cantadas horríveis e nos beijos na boca aleatórios que poderia dar numa festa que terminava 6 da manhã).
Só que usar tudo isso não era uma boa comparação quando se lembrava da menina maluca lá. Ele não tinha mesmo reparado direito nela, mas ainda estava pensando nela. Com ranço, com aquela vontade de nunca mais vê-la na vida.
— Então, provavelmente era feia. — Wonwoo disse, já enchendo a panela com água para ferver. — Não esquenta a cabeça com isso, não. Pelo visto, você deu um fecho nela e agora ela nem abre mais a boca pra falar de você.
— Pode ser. — Vernon disse distraído. O que mais queria era esquecer das besteiras da repetente e ir para cama. — Vou aceitar tua cerveja, Mingyu. Amanhã passo no Betinho e te pago.
— Tá bom. Pode ser até sábado, esquenta não.
Vernon se virou para a geladeira, ao mesmo tempo que Wonwoo perguntava em voz amena:
— Tem como vagar um boquinha aí pra eu fazer meu miojo?
Com barulhada de panela e tampa caindo, Vernon deixou o cômodo e foi para o quarto, se enfiando no seu minimalismo aconchegante e se esquecendo da menina sem noção da sua turma de Cálculo B antes mesmo de deitar.
Mas ele não esqueceu que mentiu um pouco para os amigos.
Talvez ele tenha reparado nela, sim.
E infelizmente, ela era bonita.
Um rosto lindo e um sorriso encantador
E um jeitinho de falar que me pirou
Que me pirou o cabeção
(O Surto - A Cera)
E um jeitinho de falar que me pirou
Que me pirou o cabeção
(O Surto - A Cera)
Um apito estridente e desafinado ecoou pelo campinho.
— Tavinhô! Ow! Luís Otávio! — Mingyu gritou de fora da linha de escanteio. — Tá subindo muito cedo, chapa! A bola nem cantou e tu já quer cabecear?
O Tavinho reclamou de volta, que subiu adiantado porque o Guga empurrou ele e não marcaram falta (ele e o Guga no mesmo time). No meio disso, o Nelson, moleque com a mesma integridade física de uma placa de isopor, ameaçou chorar de novo quando pisaram no pé dele. O Juquinha, no banco, se levantava de 2 em 2 minutos pra limpar o nariz na barra do blusão e perguntar que horas o pai ia chegar para buscá-lo, enquanto o Dudu girava de um lado para o outro entre as traves do gol parecendo uma beyblade.
Ou seja, mais um dia normal na Escolinha de Futebol Carartilheiros.
O fato de o nome do estabelecimento ser a junção de “Caratilândia” com “artilheiro” era infame, mas também era, sem dúvida, uma escolha muito melhor que o nome anterior (o nome anterior era Chute nas Bolas). E o fato de Mingyu ter que “treinar” aqueles rascunhos do capeta em troca de um salário era também muito melhor que não receber um.
Rascunho do capeta era um termo carinhoso, é claro. Assim como pokémon, cabeça de caixa-d’água, cara de fuinha, sementinha do mal e outros xingamentos inocentes que Mingyu inventava para a garotada não ferir os princípios do fair play. A verdade era que gostava muito dos seus alunos, e os alunos gostavam dele de volta, chamavam ele de tio e lhe davam abraços e apertos de mão secretos, ficavam fissurados vendo ele fazer firula, embaixadinha, achavam ele o tio mais legal do mundo. E as mães de alguns alunos achavam ele o tio mais bonito do mundo, apesar da lambança que ele tinha feito no cabelo no trote da matrícula. Em sua defesa, foi promessa para nossa senhora de Fátima, que se fosse aprovado em Educação Física, ia descolorir os fios.
É claro que nossa senhora de Fátima não iria sair de sua santa assunção para conferir se ele cumpriu mesmo a penitência de lançar o “nevou” e ficar com aquele loiro platinado contrastando com a pele morena, mas foi a única coisa em que ele conseguiu pensar quando a mãe o levou à missa para benzer o escapulário. Ele ainda beijava o colar antes de sair de casa, não porque fosse devoto do catolicismo (na real, ele só ia na igreja de vez em quando pra dar uma moral pra velha), mas porque era devoto da própria mãe e carecia dos cuidados e das rezas da doce senhora, agora que se via longe do abraço e do tempero de casa mais do que nunca. O pai, cozinheiro de mão cheia de quem herdou o talento, conseguiu botar uma barraquinha de comida na feira lá onde moravam para vender japchae e dakgangjeong, mas como o interior de Cuiabá não tinha nada de cosmopolita, as pessoas pediam pelo “frango com macarrão” do seu Kim e assim eles levaram a vida e criaram seu filho único de 1,87 de altura e 80 kg de músculo.
A vida não era exatamente um morango, mas nunca lhe faltou nada, e foi por isso que botou na cabeça que precisava passar numa universidade pública e dar o mínimo de despesa possível para os coroas. Até que estava indo bem, o salário da escolinha dava para cobrir o aluguel e as contas lá do Vira-Latas, e como podia usar a academia parceira do society de graça por ser professor estagiário, sobravam uns cascalhos pra comprar seu Whey Protein concentrado e umas Itaipavas, das quais Vernon precisava mais do que ele.
Ele era o “novato” da casa, queria se enturmar. E a rapaziada do Vira-Latas era gente boa.
O Vernon era meio metódico demais e dava pra ver a fumaça saindo das orelhas dele quando as coisas não seguiam um protocolo — outro dia, Mingyu assistiu ele queimar uns nuggets na frigideira porque, mesmo vendo que o negócio tinha passado do ponto e estava ficando preto de tão torrado, a embalagem dizia especificamente para “assar por 10 minutos”. Fora a sua necessidade quase patológica de cumprir instruções à risca, era só um cara legal sob muita pressão. Mingyu tinha uma certa facilidade de ler as pessoas, então sacou logo que o colega de quarto estava mais atolado que o Tavinho ali naquela zaga: a dona Neiva, a caralhada de matéria difícil que ele pegava, as dúvidas ao se deparar com a realidade da futura profissão (ser professor era uma tarefa ingrata e mal paga, Mingyu sabia bem), e ainda por cima apareceu aquela menina da EQ que deixou ele bolado. Merecia a cortesia de uma latinha.
O Cheol também era da hora. Tinha o joelho de paçoca e precisava racionar o Torsilax, guardando só para quando a dor beirasse o insuportável, dizendo coisas como “minha lesão de futebol tá atacada”. Depois foi que o Vernon contou a história verdadeira, que ele caiu de bunda num racha e que deveria ter deixado a bunda amortecer a queda mesmo, já que bunda era o que não faltava nele. Mingyu até perguntou qual treino de agachamento ele fazia e a resposta foi “genética”, seguida de uma pausa, um sorriso e um “a me fazendo abaixar e levantar pra arrumar livro”. E assim que ele falou o nome “”, Mingyu percebeu que ele se derreteu todo e que ela podia ser mais que a moça que estagiava junto com ele na biblioteca da universidade.
Já o Wonwoo, coitado, apertava o coração só de lembrar. Em alguns dias ele precisava escolher entre tirar xerox do material do doutorado ou comprar um salgado na cantina, e o óculos estava com o grau vencido, já na terceira camada de super bonder. Mingyu só via o cara ralando, brigando com o projeto de notebook que pifava mais do que o cérebro do Vernon assando os nuggets, e ele chegou a cogitar fazer mais comida quando fosse preparar as marmitas da semana para separar umas pra ele com a desculpa de que “calculei errado e sobrou, pegaí, guri, se não comer vai estragar…”.
O problema era que ele recebia por quinzena lá na escolinha e a dele estava atrasada, então em vez de sobrar comida, faltou. Na verdade, só deu para as marmitas do almoço ou do jantar, e ele teve que escolher quando faria as refeições que conseguiu cozinhar. Escolheu o jantar. A canja e a água de chuchu que serviam no restaurante universitário à noite não davam conta de matar a fome do marombeiro (sopa não é janta, ainda mais de um brucutu que é capaz de comer um frango inteiro no pós-treino), mas pelo menos o almoço do RU não era caldo, assim, ele decidiu se virar por lá até o da quinzena cair de novo.
O que fez ele lembrar de perguntar ao Cheol o horário certinho do RU. A UFSC estava recheada de aluno desprovido de dinheiro, as fichas acabavam rapidinho. Foi quando ele olhou no cronômetro pendurado no pescoço e viu que a aula dos pivetes estava acabando também.
— Tem-po! — reforçou a última sílaba e apitou. — Fim de jogo, cambada! Todo mundo pega as mochilas e vai esperar na recepção.
As praguinhas foram deixando o campinho, tropeçando nas chuteiras e indo em busca das suas coisas, não sem antes cumprimentar Mingyu, cada um do seu jeito. Até mesmo o Juquinha, que não tinha jogado nada, pegou a bolsa de rodinha do Homem-Aranha, disse “boa partida, treinador!” e saiu arrastando como se tivesse corrido meia maratona. O Tavinho ficou por último, um projetinho de gente de seis anos, só tinha cabeça e às vezes ela pendia para o lado de tão grande. Andava todo vaidoso com o anel de doutor do ABC, que Mingyu fazia ele tirar ao entrar em campo para não machucar os outros nem ele mesmo, um cuidado que dona Valéria, mãe do moleque, elogiava muito porque “o outro professor não tava nem aí”.
Estando ou não estando aí, o fato era que o outro professor foi demitido e Mingyu era grato pelo surgimento da vaga, porque era isso ou ser instrutor de academia, e ser instrutor de academia ele não queria. Não que não gostasse de academia, mas exatamente pelo contrário. Era a sua higiene mental, seu luxo diário, a única regalia que se dava. Não queria transformar isso em trabalho. Preferia ser recreador, o tio da Educação Física, preferia que seus alunos fossem do tamanho de um tamborete e preferia também o Tavinho aos outros, mas essa parte era segredo.
— Tio, o senhor viu o drible que eu dei no Dudu? — Luís Otávio chegou se gabando.
Mingyu riu. “O senhor”…
— Se vi! — o professor tirou o anel do bolso e devolveu ao aluno. — Ele vai ficar tonto a semana todinha! Tomou um chocolate!
— Tio, eu quero pintar meu cabelo igual do senhor. — ele botou o anel de volta no dedo.
— Ih, rapaz, tá copiando meu estilo?
Tavinho deu uma risada sapeca quando Mingyu ameaçou fazer cócegas. Algo meio “estou velho demais pra essas brincadeiras de criança, mas por que é tão divertido quando o tio faz?”. Depois, ele soltou a frase que professor nenhum gosta de ouvir:
— A minha mãe mandou dizer que quer falar com o senhor.
O grandalhão ficou bege e o coração palpitou tão alto que ele mesmo escutou. Tentou se acalmar, pensando que dona Valéria era bem tranquila, pois na vez em que o Tavinho arrancou sangue do nariz ela foi compreensiva até demais, falou que “essas coisas acontecem, menino é assim mesmo”. Realmente, o Luís Otávio já era o terceiro filho, a canela vivia cheia de hematoma e ele perdeu os dentes de leite antes da hora por causa de danação, a dona não ia processar a Carartilheiros (nem ele) por uma hemorragia nasal. E, na certa, não ia reclamar de nada agora. Vai ver ela só queria avisar que o Tavinho não vinha na próxima aula e ele lá, passando nervoso à toa.
— Pois bora.
A recepção estava com os quatro gatos pingados de sempre e, entre eles, a dona Valéria, com uma bolsa enorme e umas unhas vermelhas maiores ainda. A calça embalada à vácuo mal deixava a coroa respirar e o decote estava quase pulando para fora da blusa de tanto que ela espremeu para deixá-lo em evidência. O perfume Charisma ofendeu o olfato do professor de longe e ele segurou a respiração antes de cumprimentá-la.
— Oi, dona Valéria! Posso ajudar?
A dona ficou desapontada com a falta de contato físico, pois o que ela esperava que fosse um aperto de mão virou um aceno e Mingyu colocou as duas para trás logo em seguida.
— Tio Mingyu, o Tavinho não para de falar seu nome lá em casa!
“Tomara que ele não fale na frente do pai dele…”, pensou, recuando mais um passo só por garantia.
— Nós fizemos uma viagem de férias pros Estados Unidos, foi bárbara! Tudo o Tavinho lembrava do tio Mingyu! Você quer ver as fotos? — e sacou do bolso um Samsung Galaxy S24 Ultra com uma case de oncinha.
— Ô, dona Valéria, eu adoraria, mas a outra turma já vai começar.
Era mentira, a turma do Tavinho era a última, mas ele não estava nem um pouco afim de aturar as investidas da perua do interior ou de ouvir as peripécias dela sobre a viagem internacional que fez com o dinheiro do marido empresário. O Tavinho, por sua vez, impaciente, cutucava as gordurinhas da mãe e fazia a madame pular no lugar dela, prometendo cascudos no grande vão entre as orelhas do menino.
— Manhê, entrega logo o presente dele!
Mingyu quase fez uma oração na hora, alguns dólares seriam mais que bem-vindos, porém, para sua leve decepção, o que dona Valéria lhe entregou numa sacola de duty free foi uma caixa de chocolates importados que custavam uma fortuna.
Porra, chocolate. Logo agora que ele estava tentando cortar o açúcar e o percentual de carboidratos diários…
— Opa, que maravilha! Muito obrigado! — ele agradeceu e a mulher abriu os braços. — Tu que escolheu, Tavinho? — Mingyu agachou-se e deu um soquinho no pequeno, desviando-se do ataque da adúltera em potencial.
O Tavinho mostrou a banguela e fez que sim, tímido. Ganhou o abraço que a dona Valéria estava esperando e os dois foram embora, liberando Mingyu para fazer o mesmo. Bateu o ponto, pegou a bolsa da academia e fez um cardio até a parada da esquina. Veio o ônibus dele. Muito cheio, esperou o próximo. Esse deu certo, mas ainda foi em pé, ouvindo as antigas do KLB (todas). Fez outro cardio da parada em que descia até a República e era assim, depois de dois trechos de caminhada e uma condução, que Mingyu voltava para casa todos os dias, por volta das 21h.
Já na frente do Vira-Latas, meteu a mão no bolso e não encontrou o chaveiro do Luverdense, seu time do coração. Antes que pudesse se desesperar com a ideia de ter perdido a cópia da chave e tomar um apavoro do Vernon por isso, lembrou-se que guardou na bolsa justamente para evitar esse acidente. Abaixou no batente e colocou a mochila no chão para procurar, enfiando o braço lá dentro e cascavilhando entre barras de proteína, roupas, perfume, desodorante e umas camisinhas perdidas porque, afinal de contas, nunca se sabe. Nesse meio-tempo, alguém veio lá de dentro e abriu a porta, dando de cara com ele de joelhos e segurando uma caixa de bombons finos.
Era o Wonwoo.
— Fico lisonjeado, cara, mas eu sou hétero. — foi a reação dele à cena.
— Tu nem faz o meu tipo. — Mingyu levantou-se, olhando o magrinho de cima a baixo. — Tá de saída? — perguntou, notando um cartão na mão dele. E uma sacola da farmácia vazia.
Foda. O míope andava tão quebrado que usava um saco plástico como carteira.
— Hã, vou usar o computador lá do núcleo pra escrever um trabalho, o meu não quis ligar hoje.
— Hum. Ganhei isso aqui da mãe de um aluno, mas não vou comer tudo. — o maior sacudiu a caixa. — Posso deixar uns no teu quarto. Sabe como é, uma novidade importada dessa, o Vernon e o Cheol vão cair em cima.
— Não, valeu. É que pessoas não entram no meu quarto.
— Então onde é que tu dorme? — Mingyu imitou uma bateria fazendo “ba dum tz”.
Wonwoo piscou por trás dos óculos remendados.
— Eu tava brincando. — o sorriso dele diminuiu, escondendo as presas. — Tu disse que pessoas não entram no teu quarto e tu é uma pessoa. Tu é uma pessoa, certo?
— Eu entendi, só não achei engraçado.
A seriedade do Wonwoo poderia ser confundida com indiferença às vezes, felizmente, Mingyu já estava habituado ao humor seco do colega. Ele era mais velho, deveria ser por isso. Exalava uma aura de sabedoria que vinha com a idade, um olhar mais maduro sobre as coisas. E o Mingyu tinha cara de quem mandava “gemidão do zap” e batia na coxa gritando “Antônio Nunes!” em 2009, no auge do Pânico na TV.
— Falou o comediante. Tomara que comam todos os bombons.
— Valeu por lembrar de mim. — ele atravessou a porta e os dois trocaram de lugar, um entrando e o outro saindo. — Se alguma dessas mães dos teus alunos por acaso te presentear com um notebook zerado, lembra de mim de novo, ok?
Mingyu deu uma piscadinha, uma espécie de tique quando não queria responder nada, mas também não queria ficar quieto. Caminhou até o primeiro quarto que viu de porta aberta e luz acesa e se anunciou com um assobio, escorando-se na soleira.
— E aí, tá melhor?
— Mais ou menos. Meu remédio acabou, tá foda. — Cheol respondeu da cama, com uma sacola de mercado cheia de gelo amarrada na perna. — Que é isso?
— Chocolate granfino. Quer provar?
— Deixa aí em cima do móvel.
— Me diz uma coisa, qual o horário do RU? — Mingyu abriu a caixa e colocou a primeira fila de bombons em cima da cômoda.
— O bandejão chega umas 11, 11:30, mas as fichas só vendem até 10 horas. — ele dobrou o braço atrás da cabeça, usando como travesseiro. — É disputado, tem que correr.
— Que nem tu correu pra cair de bunda e arrebentar o joelho? Como que tu conseguiu isso mesmo?
— Cala a boca!
— Foi mal, foi mal, dei mancada.
Cheol procurou alguma coisa para poder atirar e Mingyu saiu rindo da cara dele.
abriu a geladeira sem muita vontade. Viu uma penca de banana em cima da bancada, mas não se animou. Na verdade, desde que tinha chegado do sítio com a novidade estava sem entender a celebração toda em cima do cacho, já que tanto a como a fizeram festa — e panqueca, e bolo, e bananada… De uma forma ou de outra, o evento fez a moça se perguntar qual a última vez que ela tinha colocado uma fruta na boca e ela não lembrava da última vez. Talvez isso significasse que deveria se alimentar com um pouco mais de dignidade, ou pelo menos começar a almoçar comida de verdade em vez de pipoca Luiza e cajuína São Geraldo.
— Eita que se a dona Guidinha sonha com um negócio desse…
Teve medo porque os sonhos da mãe eram premonitórios. Aliás, proféticos, como a própria gostava de chamar. tentou explicar que os sonhos eram apenas substratos do nosso subconsciente, mas dona Guida seguia irredutível. Dizia: “fia, o que tu não me conta, Deus me revela quando eu durmo!”, depois abria uma manga rosa, botava a carreira de sal em cima e emendava a história num causo de uma irmã do círculo de oração que ela sonhou que tava grávida e depois apareceu grávida mesmo. A conversa toda durava o tempo certinho de reduzir a manga aos fiapos e um caroço, e se arrepiava com o jeito como a mãe narrava as coisas que via na igreja e fora dela, com as lembranças que ela costurava no meio da história, no modo encantador como ela misturava a vida dela com a dos outros e deixava escapar risadas que recebia e guardava direto no coração para reviver quando estivesse longe. De Fortaleza até Caratilândia tinha muito chão, a distância era dolorida.
Era doida pela mãe. Parida, literalmente. Era a sua eudaimonia, e lembrava-se com carinho do dia em que explicou que, ao contrário do que o nome sugeria, eudaimonia não tinha nada a ver com o demônio (entidade a quem a mãe, da Assembleia de Deus, atribuía vários males e até a autoria de alguns livros que lia). Com paciência, contou que eudaimonia significava o maior bem que se pode alcançar, a verdadeira felicidade, o bem-estar real e genuíno, e era assim que a enxergava. Para ela, dona Guida era inefável. Um poço de conforto e amor altruísta.
Essa boa temperança e eterna compreensão maternas eram uma das razões pelas quais sentia-se culpada às vezes. Os seus demônios internos eram mais cruéis do que aqueles que a mãe dizia estar por trás do enredo de Harry Potter, e não só porque eles diziam “você é retardada? Largar Direito no terceiro semestre pra fazer Filosofia?”, mas porque eles envolviam a pessoa que ela mais amava no mundo e faziam ela acreditar que estava sendo a pior filha da humanidade ao escolher uma profissão que não lhe daria rios de dinheiro e a capacidade de prover a velhice da dona Guida com conforto.
Mas a terceira idade da mãe era uma preocupação adiantada e incômoda, como toda preocupação. Não valia a pena se angustiar com aquilo agora, dona Guida estava nos trinques, longe de ser uma idosa, ia durar muito tempo. Além disso, gostava de trabalhar como costureira, pois as linhas e as agulhas ajudavam-na a manter a mente funcionando, ou, em termos cearenses, “o quengo matutando”. Já , por sua vez, conseguia se sustentar e ainda enviar um troco para casa com seu bico de fotógrafa, o que não era muito, definitivamente não o suficiente para um plano de aposentadoria, mas nessas horas ela se esforçava ao máximo para crer que, de alguma maneira, tudo se arranjaria.
Dona Guida chamava de fé. acreditava nela.
Como não acreditaria? Fé é a certeza das coisas que se não vêem. Não havia explicação filosófica ou racional para isso. Foi esse fenômeno de depositar a esperança no invisível e imaterial que motivou a estudar sobre, a buscar em vários teóricos e correntes de pensamento as respostas para os reveses da vida, e assim ela se encantou pela área e tomou a decisão de seguir seu sonho de estudar Filosofia. O plano era trilhar uma carreira acadêmica nesse meio, se fosse muito boa e tivesse a orientação certa, faria dessa sua paixão um ofício rentável. E não precisaria mais ser fotógrafa amadora.
Sacudiu a cabeça e ficou tonta. Mal tinha acordado e já estava dando asas a dilemas existenciais sem solução. Como a costumava dizer, ela era dessas pessoas que pensavam demais, porém, antes de resolver qualquer questão profunda sobre o propósito da vida, precisava forrar a barriga que já estava cantando meio alto.
— Vou passar um café. — era a resposta dela para tudo, como o número 42 no Guia do Mochileiro das Galáxias que fez ela assistir.
As opções de acompanhamento para o pretinho de lei eram pão com maionese, bolacha com maionese ou pão com bolacha e maionese. encarou suas escolhas com uma epifania, mas não as epifanias de sempre, tipo a teoria da realidade alternativa de Heidegger que dizia que, ao decidir uma coisa pela outra, uma ramificação surgiria no universo e partiria o seu “eu” em dois, um para cada destino. Nesse caso, em vez de pensar que em algum buraco no cosmos haveria uma comendo pão, outra comendo bolacha e uma terceira comendo os dois, ela pensou que precisava se alimentar direito antes que o próprio Jesus Cristo aparecesse num sonho da dona Guida para dedurá-la.
— Deus, tem muita coisa sobre mim que a minha mãe nem imagina e ia matar a coitada de desgosto, o Senhor sabe bem. — pegou o pote de maionese, o pó e o coador. — Por favor, vamos manter esses segredos, tá? — falou sozinha, decidindo pelas bolachas e colocando a água para esquentar.
— Não me diz que entrou pra turma do Café com Deus Pai. — surgiu na cozinha. — Filósofa fazendo oração? Essa é nova.
— Muitos filósofos acreditam em Deus. São Tomás de Aquino era cristão e é um dos principais teóricos da Filosofia. — o primeiro casadinho de bolacha fez “creck” nos dentes dela enquanto vigiava a fervura. — De fato, ele elaborou cinco vias para provar a existência divina-
A morena que chegou depois fez um gesto de pausa.
— Tá muito cedo, .
— Desculpa. — despejou o café na água. — Cadê a ?
— Como eu disse, tá muito cedo.
— E a nossa Mia Colucci?
— ? — girou o dedo na cabeça. — Levantou meio perdida, acho que tá em jet lag da roça. Depois foi lá fora tentar escutar uma briga do vizinho.
— O seu Neto da casa aí do lado? Ele voltou de viagem? — quase derrubou sua xícara de estimação, uma duralex âmbar. — Será que ele pegou a mulher dele com o homem do gás?
— A mulher do seu Neto tem um caso com o homem do gás?
— Só pode, quem que compra gás duas vezes por semana?
O cheiro de café coado subiu no cômodo. não esperou esfriar ou colocou açúcar antes de dar o primeiro e grande gole.
— Ave Maria, pelando e puro, até o diabo treme lá do inferno, viu, ? — arrepiou-se.
— O inferno são os outros! — citou Sartre, entornou mais um pouco da bebida na tonalidade preto absoluto Suvinil e arrastou a amiga pelo braço. — Mas os outros de vez em quando têm ótimas fofocas, bora!
As duas correram. já estava lá fora, em mais uma minissaia jeans e roendo a unha de nervoso.
— Ai, que na hora de brigar ela resolve levar o marido lá pra dentro e falar baixo! — estalou a língua. — Mas na hora de fazer atos pecaminosos a mulher grita igual uma bezerra!
— Pois! — zangou. — Eu ouvi o pornô inteiro do meu quarto quando o Cornélio aí tava viajando, mereço saber o desfecho!
— Aquele matagal que tem na frente da tua janela não abafa o barulho?
— O tesão da vizinha atravessa árvores e paredes. A única coisa que o carvalho faz por mim é sombra.
“E esconder o fato de que minha janela não tem grade”, quase falou, mas não achou seguro dizer em voz alta no meio da rua.
— Num dá pra escutar é nada. — disse, impaciente, decidindo-se por entrar de volta. — E eu tenho que economizar meu ouvido porque o estagiário novo não cala a boca.
— Pensei que não podia falar na biblioteca. — acompanhou, aceitando a derrota.
— Não pode, mas a língua dele coça.
— Eu acho que a língua dele quer é dar uma volta e conhecer outras…
— A minha que não vai ser. — a morena cortou mais rápido que uma faca Tramontina. — Tenho que dar um jeito de fazer ele ficar quieto.
— Tu pode propor uma sessão de meditação e silêncio contemplativo. — foi a sugestão de . — Ou tu pode tacar logo um beijo na boca dele.
— Ou então… — mexeu as mãos e os berloques da pulseira fizeram um barulhinho. — Lá no sítio a gente tem um sedativo que derruba até cavalo. Se quiser…
parou no meio da escada e apontou .
— Eu gosto dessa opção.
— Só não manda o rapaz pro hospital, tá? — brincou com o cabelo da amiga e seguiu para o seu quarto.
entrou atrás sem cerimônia, esgueirando-se no parapeito de mármore da janela que dava para uma árvore frondosa.
— Ó a lasca quebrada aí pra tu não se cortar. — advertiu. — Tem que ficar inteira pra fazer caridade pra aquele teu boy lá.
— Não é caridade, eu tô afim dele. Ele é meu… — procurou a palavra no ar.
— Ficante premium? Tem todos os benefícios de um namorado, mas tem que pagar a assinatura.
— Eu pago só algumas coisas pra ele quando a gente sai, tá? — ela enrolou a ponta do cabelo. — E ele faz coisas por mim também.
— As mesmas coisas que o homem do gás faz pela vizinha, né, safada?
— Digamos que ele apaga o meu fogo.
— Desde que ele te faça gritar como a vizinha grita, quem sou eu pra te julgar.
— Ela só grita na hora de furunfar mesmo, porque ainda não dá pra ouvir nadica de nada. — ficou na ponta dos pés. — Mas a acústica daqui é bem melhor. Posso correr pra cá no próximo barraco?
— Só se tu prometer falar mal deles comigo depois. — piscou e escolheu um lip balm de dentro de uma latinha que ficava em cima de uma cadeira preta de MDF.
— Cê é das minhas. Que cor que é essa? — carregou o “r”.
— Red Velvet? — a outra leu, aplicando o batom nos dedos. — Mas eu misturo com esse outro aqui e fica meio vinho, eu prefiro.
— Cê é meio vampirona, né, os moços devem pirar o cabeção.
deu uma gargalhada e levou como elogio. Ela tinha mesmo cara de alternativa, franja reta um pouco acima da sobrancelha, um cabelo curtinho e descolado, as roupas pretas ou em cores neutras, sem estampa nenhuma no guarda-roupa (que na verdade era uma arara com as peças todas expostas e outras em caixas craft) exceto pelo pijama do Pernalonga. Gostava de se arrumar para ir para a aula, nada muito elaborado, mas definitivamente melhor do que o figurino oficial do pessoal da Filosofia: uma blusa da UFSC ou qualquer uma que fosse autossutentável e tivesse uma crítica ao capitalismo.
Pra dizer a verdade, até que gostava do capitalismo. Ou melhor, de dinheiro, mais ainda do fácil. Mas essa era uma das coisas controversas que jamais poderiam ser ditas abertamente no seu nicho predominantemente comunista e esquerdomacho, então, nas aulas, ela se limitava a fazer suas anotações e pensar sobre elas depois, sozinha com seus dois ou três neurônios funcionais e mais um copinho de café cheio até a tampa.
Estar sozinha era familiar para , confortável, até. Preferia assim, a solitude do seu quarto com sua parede preta, seu colchão no chão, seu vaso de galhos secos e seu aquário. As únicas companhias possíveis eram as de , e , com quem mais do que aprendeu a conviver, aprendeu a amar. Havia algo de quentinho e gostoso em morar com amigas, em compartilhar roupas, maquiagens, confissões, segredos...
Olhou a caixa craft de soslaio. Quase todos os segredos.
— Chibata. — murmurou para si mesma, olhando a hora no celular. — A fofoca pela metade me tirou de tempo, vou me atrasar. Fecha aqui.
— Se tiver alguma atualização, eu te aviso. — atendeu o favor de subir o zíper do vestido.
— Tá. Fica à vontade, só não-
— “Não tira foto no meu espelho”, eu sei. — repetiu a única regra que tinha, mesmo sem entender o motivo dela. — Boa aula!
arrumou a franja e deixou o quarto. Só deu tempo de tirar um Nescau da geladeira e um dos últimos salgadinhos da despensa para enfiar na bolsa e tomar o caminho do Centro de Humanidades da Universidade. Pegou o celular para mandar a mensagem matinal para a mãe, pedindo a benção e avisando para onde estava indo, e quando abriu o status da dona Guida deu de cara com uma foto das duas seguida da legenda: “Deus, olha pelos meus filhos quando eu não posso olhar”.
— Misericórdia. — pediu baixinho, ouvindo o barulho do pacote de Fandangos se remexendo na bolsa conforme ela caminhava. — Parece que tá é adivinhando que eu vou almoçar porcaria.
A resposta da mãe veio, abençoando o dia dela e perguntando se ela estava comendo direitinho.
olhou para o céu.
— Vocês dois se juntaram nesse negócio de onisciência pra me vigiar, só pode. Mas vocês venceram, tá? Hoje eu vou comer no RU.
E, assim que pôs os pés no prédio velho do CH, desviou a rota para a secretaria e a fila que se formava na frente dela, cheia de pessoas disputando uma ficha do restaurante universitário e sendo obrigadas a encarar a carranca do funcionário atrás do guichê, com três ventiladores ligados na careca.
A vez dela até que chegou rápido.
— Quantas? — o careca falou sem olhar para ela.
— Só uma.
— Só tem uma mesmo.
“Oxe, e pra que tu perguntou, catrevagem?”, pensou em lutar no seu dialeto nativo, mas aí o funcionário ia querer saber o que era catrevagem e, como ela não estava a fim de explicar (e como o significado não era bom), ela deu a batalha por perdida.
Pelo menos tinha conseguido a última ficha.
— São dois e cinquenta.
apontou o celular para o PIX desgastado, impresso na folha grudada no balcão, e recebeu a ficha de mãos suadas, pedindo aos céus que as mãos que preparassem o almoço fossem mais higiênicas que aquelas. Girou o corpo para sair do buraco abafado que era a antessala da secretaria, mas deu com o nariz no meio de um negócio macio e quentinho.
Dois negócios macios e quentinhos, adornados por uma fina corrente de escapulário e um perfume que parecia o Kayak Aventura que ela sentiu na revista da . Só então ela percebeu que estava com a cara enfiada num par de peitos do tamanho de uma placa tectônica.
E ela lá, bem no meio da Pangeia.
— Foi mal. — o dono do peito tinha uma voz sibilada. — Machucou?
— Não. Mas respeite a barruada. Ia dando certo.
— Hein?
— Nada não. — soprou, cansada. Deveria ter falado “a gente quase se bateu” como uma pessoa normal.
Nesse momento, o careca de dentro do guichê gritou pela abertura do vidro:
— Pessoal, as fichas acabaram. Não insistam, por favor, não tem mais.
Por causa da diferença de altura, estava sendo obrigada a olhar para cima e por isso pôde ver direitinho quando o rapaz peitudo estalou a língua presa e fez uma cara de choro, lamentando a notícia com um bico que dobrava a esquina. Parecia até que ele tinha visto a menina que ele gostava beijando outro cara de tanta decepção, mas era só uma ficha que não custava nem três reais. Ainda assim, se comoveu com a expressão de cachorro que caiu do caminhão da mudança e fez uma coisa que nem ela mesma entendeu:
— Tu quer dividir o prato comigo?
— Jura? — o peitudo olhou para baixo, sorrindo com dois caninos afiados. — Mas falaram que não podia mais fazer isso.
— Dá em nada não. E se der, é pouca coisa.
— Tu acha?
— Acho. Eu como miúdo igual passarinho, é só encher o prato e a gente divide.
— Porra, tu salvou minha vida!
Mingyu se insinuou para um abraço, mas lembrou no meio do caminho que não sabia sequer o nome da sua benfeitora e que sua falta de noção de espaço pessoal poderia ser mal interpretada, então recolheu os braços que, em volta daquela menina tão magrinha, eram capazes de parti-la ao meio.
— Eu sou o Mingyu. — estendeu a mão. — Educação Física.
“Tá explicado”, ela pensou, aceitando o cumprimento.
— . É uma homenagem pra minha avó. — ela antecipou a justificativa do nome, que sempre arrancava uma careta dos outros. Mingyu, no entanto, não estranhou; pelo contrário, achou muito bonito. E achou a bonita também. — Sou da Filosofia.
“Tá explicado”, foi a vez dele de pensar. Ela passava toda a vibe daquela galera que posta trecho de música meio cool, meio deprê e meio reflexiva ao mesmo tempo na bio do Instagram e só publica uma foto enigmática a cada dois ciclos da lua, no mercúrio retrógrado. Quando ela pôs o cabelo para trás, deu para ver os piercings na orelha, além dos que já eram visíveis, como o da sobrancelha e o do nariz, e aí Mingyu coçou o dele sem querer e deu vontade de espirrar.
— Me dá teu telefone, que aí quando eu for pro bandejão eu te aviso. — ofereceu o celular para Mingyu registrar o número. — Tu tem aula até que horas?
— Meio-dia, mas eu sempre saio uns minutinhos mais cedo pra não atrasar no trabalho. — ele salvou o contato como “Mingyu K”. — Na hora que tu me chamar, eu vou correndo.
“Pois. Um galalau desse tamanho correndo pela UFSC, capaz de causar um terremoto.”, avaliou a altura e a largura dele em silêncio, tentando calcular o peso que teria o prato que ela se voluntariou a compartilhar. Que surto de bondade repentina tinha sido aquele? Na certa, a culpa por estar enganando a mãe a moveu para o bem, esperando que sua caridade anulasse a mentira e que contasse a seu favor no dia do juízo final, quando todos os seus pecados seriam exibidos no telão do Apocalipse.
Não, todos não, pelo amor de Deus.
— Ok, Mingyu K. — pegou o celular de volta. — Te vejo na fila.
afastou-se depressa para não ter tempo de se arrepender da oferta, deixando Mingyu meio sem rumo depois de ter o seu dia salvo pelo cosplay da Ada Wong de Resident Evil. Sentiu saudade de quando sua única preocupação era jogar videogame, pois agora, além dos boletos e dos trabalhos da faculdade, ainda tinha mais essa para a lista: madrugar na fila do RU para não depender apenas da generosidade de uma moça lindinha da Filosofia.
Então teve a ideia que prenuncia 80% das amizades entre dois jovens universitários: procurar numa rede social. O perfil da Universidade serviria de alguma coisa, assim, iniciou a busca por lá, certo de que ela seria a única pessoa com o user “” na aba dos seguidores da UFSC. Acertou em cheio, e acertou também que a bio dela teria uma letra de música misteriosamente tenebrosa e poética quando leu “so much for stardust” seguido de um emoji de lua. O perfil era trancado, mas a cara de pau dele superou essa pequena barreira rapidamente, enviando a solicitação 5 minutos depois de terem se conhecido. Aproveitou para checar a sua caixa de mensagens, cheia de moças loiras com fotos muito parecidas reagindo ao seu último post na academia, e foi andando sem tirar os olhos da tela para respondê-las.
A mesma mensagem para todas, copiada e colada.
Por mais divertido que fosse escolher uma ficante entre as belíssimas alunas da Odonto para a próxima calourada, chegava uma hora em que o sistema ficava um tanto cansativo — foi aí que ele resolveu automatizar o processo e responder todo mundo com o mesmo “eaí, gatinha, tá por onde, bb?”. Depois, era só esperar qual alvo ele acertaria, e, na maioria das vezes, ele acertava mais de um. Tudo bem, podia administrar mais de uma loira, afinal de contas, não tinha muita diferença de uma para a outra e fazia tempo que alguém não despertava sua curiosidade.
Pronto, era isso. Estava curioso pela , a personificação ambulante das famosas suicide girls que bombaram no Tumblr no século passado. O que ela fazia quando não estava no bandejão ou filosofando por aí? Do que ela gostava? A boca vermelha dela era propositalmente borrada daquele jeito porque antes de sair de casa ela sugava o sangue de algum homem em retaliação ao patriarcado opressor? E o delineado puxado num único traço fino e preciso? Era o AB, pombas. Quem passava delineador pra aula de sete horas da manhã?
Com ou sem delineador, parecia bem… interessante. Mas só porque tinha umas pernas compridas e uns peitos legais, o que deixou Mingyu cheio das ideias. Apesar disso, achou que era melhor não mexer com a garota da Filosofia e seus conceitos de liberdade e relacionamento aberto, tinha jeito de coisa complicada. Era melhor se ater ao que ele já sabia, e o que ele sabia estava ali ao alcance de alguns cliques no seu celular, onde a cara dele continuou enterrada até bater em alguém.
— Cheol? — Mingyu levantou a vista.
— Que foi? — Seungcheol respondeu, totalmente renovado e claramente sem dor. — Nunca me viu não?
— Andando assim desentrevado, poucas vezes.
— Achei uma cartela de Torsilax dentro da minha mochila, tu acredita? — ele esticou o joelho novinho em folha. — Devo ter comprado e esquecido.
Mingyu deu de ombros, lembrando-se num lapso de memória da sacola de farmácia na mão do Wonwoo na véspera, sem dar muita importância ao ocorrido. Os dois se separaram, um em direção ao prédio da Educação Física e o outro no caminho da Biblioteca, e ao passar pelo bosque do campus, Mingyu avistou de longe a sua comparsa no caixa 2 do restaurante universitário, esperando junto com aproximadamente 18 caras (que precisavam de banho e tosa) que o professor chegasse para destrancar a sala de aula.
Ele teria seguido seu rumo indiferente à cena, mas o pacote de Fandangos que ela abriu junto com uma caixinha de Nescau arranharam o cérebro do marombeiro de um jeito que ele cogitou enfiar a caneta bic no ouvido e coçar os miolos que nem uma raspadinha até jogar a visão fora.
— Se ela bebesse sangue de homens seria menos pior que esse veneno aí que ela tá comendo… — resmungou sozinho e seguiu para a primeira aula do dia.
batucou os dedos na bandeja com dois pratos, um em cima do outro, para se distrair da sua falta de resposta e do comichão da culpa por furar o sistema. Se bem que, se ela fosse comparar seu pequeno desfalque no RU com os prejuízos que seus colegas de curso cometiam nos protestos contra o governador de Caratilândia, sua rebeldia não faria nem cócegas no bolso do órgão público. E outra, ela tinha avisado Mingyu que estava na fila conforme o combinado, mas ele não tinha dado as caras ainda. Provavelmente nem fosse.
O problema era que a cara dele era bem bonita e por isso tinha ficado levemente animada para vê-la de novo (tanto que estava disposta a ferir seu código moral de conduta e se envolver na falcatrua da marmita). Porém, não sabendo que horas seu cúmplice chegaria, ou se chegaria, encarou suas opções sem mais questões morais a resolver e decidiu montar seu prato sozinha.
— Dane-se. — ela acompanhou quando a linha andou. — Vai ficar com fome.
Seu rosto se iluminou quando ela se aproximou da ilha de serviço e viu o amarelo da farofa de cuscuz lá de longe. Foi direto, cega, com água na boca e saudade de casa no coração, despejando duas conchas generosas no prato e ajustando a mira para a carne do sol desfiada, mas antes que completasse o movimento, uma mão se encaixou na sua cintura e uma voz atravessada sussurrou no seu ouvido:
— Bota mais frango.
— Sangue de Cristo! — soltou a colher (ou potencial objeto de agressão) no susto quando viu que era o Mingyu. — De onde tu saiu, criatura?
— Aquele ali, mó pedação de peito, pega! — ele cutucou as costelas da moça, empolgado e ignorando a pergunta. — Pega aquele outro peito ali também.
— Falando em peito, desgruda o teu das minhas costas, tá me dando aflição.
Estava dando muita coisa, mas aflição não era uma delas.
— Tá apertado. — Mingyu rebateu, tentando se afastar sem sucesso e apontando outra peça.
— É porque tu tem 2 de altura por 2 de envergadura. — ela pegou o terceiro pedaço de frango que ele indicou. — O prato já tá pesado aqui.
— Ah, começou, agora vai ter que ir até o fim. — o empurra empurra fez Mingyu segurar a cintura da com as duas mãos dessa vez. — Bota feijão, bota feijão!
O sibilado no ouvido dela chegou bem perto de irritar, mas era mais fofo que qualquer outra coisa. nunca tinha visto alguém tão feliz vendo comida.
— O arroz tá bem soltinho! Bota! Bota! — ele seguia com uma necessidade inexplicável de falar tudo duas vezes. — Verdura, verdura!
— Não cabe mais uma folha de alface aqui, homem!
— Encalca no cantinho, vai!
arfou, o braço já doendo e a orelha quente de tanto cochicho. Ela só queria comer o cuscuz dela em paz, mas depois da avalanche do esgalamido da Educação Física, nem conseguia mais vê-lo no prato.
O esgalamido em questão, a propósito, estava radiante de satisfação.
— Vou te esperar lá fora pra não dar na vista. — ele avisou, de saída.
— Como se tu num tivesse dando na vista até agora. — desdenhou enquanto ele se afastava e ficou para trás esperando os talheres.
Saiu do sufoco que era a ilha reclamando. Mingyu poderia ter se oferecido pelo menos para carregar a bandeja com a granja inteira que ele fez colocar no prato, mas não, estava bem sentado a uma das mesas com uma lancheira térmica do lado, de onde saíram um guaraná, um garfo e uma faca que ele batia na mesa animosamente porque, ao que tudo indicava, ele morreria se ficasse parado.
— Frivião. — soltou baixinho e foi andando até o lugar escolhido. — Vai, pega aí teus 6 kg de comida. — colocou a bandeja na mesa.
Mingyu disse “oba” e raspou o prato. Teria balançado o rabinho se tivesse um.
— Tu vai comer só cuscuz? — ele descobriu o almoço da embaixo do seu e ela fez que sim com a cabeça. — Ah, não, bota um pouquinho do meu feijão aí. E verdura também.
Era inútil lutar, Mingyu claramente era um entusiasta da nutrição. E a faca dele já estava empurrando mais porções para o prato dela, só restava se render, colocar o fone e escolher a playlist para embalar o almoço com seu mais novo fiscal de comida.
— E tu almoça de fone? — Mingyu, que tinha uma certa tendência a invadir o perímetro dos outros, viu o negócio branco na orelha da e afastou o cabelo dela para conferir.
— Só quando eu como aqui no RU. — a garota encolheu-se, reivindicando o seu espaço, e cogitou aumentar o volume da faixa Agora Estou Sofrendo só pra não ter que ouvir o aspirante a fisiculturista naquele nível de energia em plena manhã. — Esse povo fala mais alto que umas maritaca, zuada medonha no meusouvido.
Mingyu riu pelo nariz.
— Tu né daqui não, né?
— Fortaleza.
— E tu curte o quê? — ele inclinou-se outra vez, pegando um dos fones.
suspirou. “Diabo de cabra entrão da porra, eu, hein.”
— Calcinha Preta.
— Ah. Eu gosto de cueca preta também, só uso elas, aquelas tipo shortinh-
— A banda, homem. — o suspiro foi mais alto. — Tem uma banda de forró chamada Calcinha Preta. Tu sempre emenda um assunto no outro assim mesmo ou é só efeito colateral desse Guaravita?
Mingyu queria pensar numa resposta legal, que soasse engraçada e inteligente ao mesmo tempo e não fizesse ele parecer um cara maluco que sai por aí contando sobre as suas roupas íntimas, mas o fato de catar todas as verduras do prato roubava sua pouca capacidade de foco no momento.
— Faz isso não, pô, se não vai comer, bota pra cá. — o rapaz enfiou o garfo no pedaço de tomate que arrastou até a borda. — Tem que se alimentar bem, sabia? Ainda mais tu que come salgadinho com achocolatado no café.
— Que diabo é isso, tá me vigiando agora?
— Não, só te vi hoje de manhã esperando a sala abrir com um pacote de Fandangos na mão. Tu come isso todo dia?
Outro suspiro para a contagem. Acompanhado de um um discreto rolar de olhos que dizia “ótimo, fui adotada por um marombeiro”. Mingyu, por sua vez, parou de mastigar depois que o modo aleatório na playlist da começou a tocar Destruiu Nosso Amor, do Conde do Forró.
— Onde foi que eu já ouvi essa música?
— Pode ter sido em qualquer canto, é minha playlist de forró “traduzido”. — ela sinalizou as aspas. — Essa é How You Remind Me, do Nickelback.
— Não fode!
— Never made it as wiseman, I couldn’t cut it as a poor man stealing… — batucou o tempo da canção na mesa e cantou no lugar do “às vezes procuro entender por que você me faz sofrer” que saía no fone, provando seu ponto. — Tired of living like a blind man, I’m sick of a sight without a sense of feeling… — foi a parte da original que equivalia ao “desculpas já não curam mais um coração que vive a sofrer”.
O rapaz esqueceu da comida pela primeira vez, acompanhado a versão “inspirada” e a voz da fazendo o Chad Kroeger por cima. Foi balançando a cabeça e reconhecendo a letra cantarolada pela garota com cara de emo que ouvia forró, incrédulo. Aliás, ele não sabia o que lhe surpreendia mais, se era aquela menina de argola no septo curtir outro gênero musical, se era o fato de ela saber cantar bem ou se era a frase “this is how you remind me” ter virado um “me esqueça, não ligue mais pra mim” com um sample de pisadinha.
— Conde do Forró, hein? — ele riu.
— Maltratando os corações. — ela piscou, já nas últimas garfadas. — E o docinho depois do almoço?
Mingyu mexeu na bolsa térmica.
— Eu tenho maçã, banana, e-
— Shhh. — colocou o indicador nos lábios dele, pausando-lhe a fala e o movimento. — Olha a blasfêmia, menino. Eu tô falando de doce.
— Mas fruta é doce, ué. — Mingyu rebateu, apesar do dedo da partindo a boca dele.
— Não na minha religião. A gente almoçou do teu jeito, a sobremesa vai ser do meu. — e levantou-se, ultrajada, puxando o rapaz pelo braço e fazendo ele derrubar os três últimos caroços de arroz que ele juntou no garfo. — Anda, eu vou mudar tua vida agora.
— Onde a gente vai? — ele saiu catando as coisas e enfiando dentro da bolsa, enganchando na cadeira na saída.
— Pra minha igreja. Vou te apresentar ao meu culto.
liderou o caminho e Mingyu ficou meio assustado, mas seguiu mesmo assim, pois a moça o puxava impetuosamente, deixando-o sem escolha. Aliás, ele tinha escolha, era o dobro do tamanho dela, podia simplesmente bater o pé e não ir, mas ela estava tão empolgada com a ideia que ele era incapaz de lhe negar qualquer coisa.
— Contemple, mero mortal. As portas do paraíso.
Então, ela fez uma pausa dramática e apontou um… carrinho de churros. E Mingyu soltou uma gargalhada.
— Ok, nós temos definições diferentes de doce.
— Isso não é doce, isso é felicidade. — se aproximou do carrinho e foi logo reconhecida pelo dono.
— Doutora ! — o vendedor recebeu sua cliente fiel. — Já sei, doce de leite com farofa de castanha! — adiantou-se, passando a massa no açúcar com canela e abrindo o saquinho.
— E um cafezinho pra acompanhar. — ela completou.
— Como sempre! Todo dia, a mesma coisa…
— Eu já falei, seu Wellington, nada nunca a mesma coisa. Não se entra duas vezes no mesmo rio.
— Que rio? — Mingyu procurou em volta.
— O rio de Heráclito, o filósofo. — explicou, olhando fixamente para o churros sendo preparado. — É impossível mergulhar no mesmo rio porque as águas mudam e nós também. A permanência é uma ilusão. Eu não sou a mesma de ontem, e esse churros também não é o mesmo que eu comi…
Claro, agora tinha um rio na história. A menina já estava pegando viagem sem usar droga nenhuma (além das coisas que ela comia), enquanto a única coisa na cabeça do Mingyu era a música do Gabriel Valim: “piripipiripiri-piradinha, ela tá maluca, fora da casinha”.
— Tem razão, não é o mesmo de ontem, ele é ainda melhor! — Wellington encheu de recheio até transbordar, finalizando com a farofa e entregando o churros para . — E o amigo aí, vai querer o quê?
— Não, obrigado, eu não-
— Ele quer igual ao meu. — apertou os lábios de Mingyu novamente, dessa vez, com o dedo doce de açúcar e canela.
Mingyu achou bom.
E quando ele recebeu o churros da mão do Wellington e arriscou a primeira mordida, ele achou melhor ainda.
era doida, mas tinha razão. Aquilo era felicidade purinha.
— E então? — ela ficou na ponta dos pés de tanta expectativa.
— Oh… — Mingyu gemeu.
— Bom assim, né?
— Ah! — foi tudo que ele conseguiu dizer.
— Mudei tua vida ou não mudei?
— Eu quero me casar com esse churros.
— Entra na fila.
— Nem lembro qual foi a última vez que eu comi tanto açúcar.
— Sério? Como tu consegue viver?
— Se tu me viciar nisso aqui, eu não vou viver muito tempo. — Mingyu sentenciou a si mesmo, de boca cheia. — Isso é tudo que faz mal, fritura, açúcar e uma pasta ultraprocessad-
— Na-na-não. Não falamos desses assuntos no culto. É pecado.
O rapaz ficou com um riso preso na garganta, que só não saiu porque ele tinha certeza que estava com todos os dentes manchados de doce de leite. era meio maluquinha, no melhor sentido que poderia haver para a palavra, e mesmo coagindo ele a fugir da dieta restrita e lhe custando mais meia hora de esteira pra queimar tudo, não se arrependeu do convite aceito, especialmente quando enfiou a cara no churros e acabou com um pinguinho de recheio marcando a pontinha do nariz, que se mexeu na hora que ela riu da própria falta de jeito.
E alguma coisa mexeu dentro do Mingyu também.
Ele bem que precisava de um pouquinho de doce na vida dele.
rezava todo dia para que ele faltasse, tivesse uma dor de barriga que o impedisse de sair, mas ele era religioso com o trabalho e não faltava. Às vezes chegava um pouco atrasado, às 9:99, como ela gostava de falar, mas Seungcheol nunca faltava.
— Já é seguro falar ou tu ainda não tomou café? — perguntou quando a encontrou na cozinha.
— Já tomei. — a morena suspirou e passou a mão nos cabelos azuis. Quase enfartou a mãe quando abriu uma chamada de vídeo e a mulher a viu com os fios coloridos. E o problema nem era a cor. Era que tinha feito sozinha, sem a ajuda de um profissional, fato que poderia tê-la deixado careca. Dona Maria prezava muito pelos fios que fez quando a gerou, não queria ver a filha sem eles.
— Controlou a rinite? — quis saber e pegou uma xícara de café preto.
— Meu nariz já acostumou. — a morena deu de ombros. — Vou lá. Aguentar o bonito que não para de falar.
— Beija ele. — ouviu falar enquanto descia as escadas.
— Mais fácil eu dar um murro na boca dele. — retrucou. Levantou e foi catar a mochila. Escovaria os dentes quando chegasse à universidade. Mataria um pouco do tempo que ficaria cercada de livros cheirando a mofo.
Queria mesmo viajar, trabalhar com o que gostava: bater perna pelo mundo. Tanto que tinha saído do Ceará e tinha ido parar ali, em Caratilandia, em um dos melhores cursos de Turismo reconhecidos pelo MEC. Dona Maria chorou copiosamente quando ela foi embora, mas entendia que a filha estava garantindo seu futuro.
Nem viu o tempo passar. Estava tão no automático que nem se deu conta de que realmente tinha chegado.
— Bom dia, . — alguém desejou. Ela se limitou a responder um bom-dia tímido, com um sorrisinho sem graça.
— Quero ver se vai ser um bom dia mesmo. — resmungou. Tinha que restaurar umas capas de livro naquele dia. Restaurar era legal, quando fazia sozinha. Não com Seungcheol em seu ouvido. Seungcheol esse que não tinha chegado ainda. Daqui a pouco seria o intervalo da manhã e alguns alunos sempre aproveitavam o tempinho para passar ali. — Bom dia o cara…
— Cheguei! — um Seungcheol esbaforido abriu a porta. — Você dorme aqui, ?
— Não, eu só organizo meu tempo. Sei que horas preciso acordar e que horas… — ela se interrompeu e franziu a testa. — Não preciso te explicar nada. Por que eu tô falando?
— Porque você é uma boa estagiária sênior que precisa me ajudar. — ele deu o que achou ser o seu melhor sorriso.
— Ninguém me ajudou. Dê seus pulos. — pegou a nécessaire com os itens de higiene na bolsa. — Vou escovar os dentes, já volto.
— Vai matar 10 minutos, né? — Seungcheol quase sussurrou.
— Eu mataria você, mas não posso. Então vou matar tempo sim. Não deixa ninguém sair com livro sem registar. Eu já volto. — e deu as costas para o estagiário.
Seungcheol a viu sair. E suspirou. Não deveria, mas suspirou. era bonita. O cabelo azul combinado com a pele morena chamava a atenção por onde passava. Não deveria suspirar, lembrou. Não gostava dela de fato. Ela o pisava e o ignorava como se ele fosse nada. E ele não gostava disso, não é? É.
— Inferno de banheiro lotado. — voltou reclamando. Seungcheol até checou o relógio na parede para ver que só tinham se passado quatro minutos desde que ela tinha saído. — Sabe se tá tendo algum evento da Educação Física hoje? Tá cheio de menina de chuteira no banheiro.
— Não. — o rapaz vasculhou a mente. Não lembrava de Mingyu mencionar nada sobre meninas de minishort e meião. respirou fundo. Teria que começar o dia sem perder seus 10 minutos preciosos.
— Começar, né? Eu vou restaurar os livros e tu fica aí no balcão. Pode ser ou vai ser difícil? — ela franziu as sobrancelhas em uma expressão de deboche.
— Eu não sou burro, . Consigo ficar no balcão. — ele cruzou os braços fortes sobre o peito que estava mais que avantajado na camisa branca de tecido fino. Fato que não passou despercebido pelos olhos de .
— Eu nem disse nada. — a morena se defendeu.
— Tá agindo como se eu fosse um idiota.
não respondeu. Era melhor pra todo mundo.
— Eu vou ficar bem ali. Se precisar, me chama. — ela apontou para a portinha que dava para a área restrita da biblioteca.
— Não vou precisar. — ouviu Seungcheol dizer antes de fechar a porta.
Dentro da sala, cercada por capas de livros que teria que refazer, se perdeu no tempo. Só despertou do transe quando Seungcheol entrou de fininho.
— Não vai fechar pro almoço? — ele perguntou em um sussurro.
— E já tá hora? — a moça checou o celular. Já era quase meio-dia. — Ainda bem que eu comprei a ficha do almoço antes. Será que ainda tem comida?
— Comida de verdade nunca teve, né? É o R.U. — Cheol deu de ombros.
— Eu também acho que merecemos mais. — ela caminhou até ele e espalmou as mãos nos braços do rapaz, puramente para saber se eles eram tão fortes como pareciam. — Bora.
E saiu sem esperar que o rapaz a seguisse.
— , eu… — Seungcheol demorou para completar a frase, o que fez parar e olhar para trás.
— Vai ficar com fome. Eu não divido prato. — ela decretou.
— O cara da secretaria guardou minha ficha. Eu só preciso passar lá pra pegar. — Seungcheol informou com um bico.
— E tá esperando o que pra ir? — a morena cruzou os braços. — Anda, homem.
— Tá com fome, né? Já tá irritada. — ele negou com a cabeça e quase correu até a secretaria, de onde o cara que vendia as fichas já ia saindo.
— Pensei que nem vinha almoçar, rapaz. — ele meteu a mão no bolso da camisa e entregou a ficha suja para Seungcheol.
— Chico, sabe quem é a , né? A do cabelo azul? — Seungcheol quis saber e controlou a vontade de sorrir.
— A grandona? — ele perguntou. E Seungcheol fechou a cara. parecia ter no máximo 1,60 de altura. Mas não era à altura que Chico se referia. Certamente era aos quadris largos que de vez em quando ela metia em um short que era prenúncio de confusão.
— É, Chico. — suspirou desgostoso. — Se ela passar aqui antes de mim, pode entregar minha ficha a ela. Eu vou fazer o Pix todo dia de manhã e te enviar o comprovante. Deixar pago. Daí evita de eu ter que vir aqui.
— Tão namorando? — Chico perguntou com um sorriso de canto que parecia malicioso. — Tu dá conta…
— Dou, Chico. Dou conta da sim. — respondeu sem pensar. Envolver num boato de namoro era melhor que tê-la que defender de comentários ruins depois. — Escolhe as palavras pra falar dela.
— De repente virou o Karatê Kid. — ouviu Chico rir antes de dar as costas.
E voltou correndo para que olhava para um relógio imaginário, já que a única coisa que ela carregava nos pulsos era uma pulseira vermelha sempre no braço esquerdo. Ainda ia descobrir que significado tinha. E assim que chegou perto dela, tomou a mão esquerda na sua e começou a arrastar a colega de estágio para o R.U.
— Como é que diz “quer morrer” em coreano? — ela olhou para as mãos juntas.
— Chico te chamou de grandona. — e ele não evitou o olhar para a bunda grande desenhada na calça de tecido fino que ela usava para trabalhar.
— E? O que isso tem a ver com tu tá segurando minha mão? Que diabo tu fez, Seungcheol? — ela quase arregalou os olhos para ele.
— Fiz ele pensar que a gente namora. — ele respondeu sério.
— O Chico, o maior fofoqueiro desse campus. E quando eu beijar outra boca que não é a tua na calourada da semana que vem? Tu vai aguentar a fama de corno? — soltou a mão que a segurava e cruzou os braços. E Seungcheol sorriu. E entendeu o sorriso. E a voz de quase sussurrou em seu ouvido. — Não.
— Pega a bandeja, . Você tá com fome. — ele ousou tocar a cintura alheia.
— Eu vou tacar essa bandeja na tua cabeça, coreano sem futuro. — ela suspirou e pegou a bandeja. Encheu com a comida de sempre: muita salada e pouco carboidrato, o orgulho dos nutris.
— Tá de dieta? — Seungcheol perguntou e ela o encarou sem dizer nada. Não estava de dieta, só costumava comer assim. — Nem precisa. — ele a mediu. E sentiu um ardor leve nas bochechas.
— Para de olhar pra minha bunda, Seungcheol. — ralhou de levinho. Ainda estava sentindo as bochechas quentes, não sabia se queria mesmo brigar. — Me prometeram doce de banana. — reclamou quando chegou ao final das comidas, olhando pra fruta que era a sobremesa do dia.
— Tinha banana no cardápio. — Seungcheol comentou atrás. — Nunca disseram que era doce, disseram?
— Tá querendo um murro na boca, num tá, Seungcheol? — ameaçou, mas sabia que na hora que esticasse o braço, Seungcheol a seguraria entre os músculos. E estava pensando demais naquilo.
— Eu te compro um chocolate depois. — ele suspirou.
— Eu sou intolerante, porra. — ela reclamou. Lembrava de já ter citado aquilo, mas Seungcheol parecia esquecer sempre.
— Eu tenho uma paçoca na minha bolsa. — Seungcheol bateu o peito em suas costas e a obrigou a andar. deu um passo e parou de repente, sentindo o peito de encontro às suas costas de novo.
— Tu num acha que tá muito perto não? — ela o olhou por cima do ombro, encontrando os olhos divertidos a encarando.
— A gente namora. — ele rebateu baixinho. Quase se podiam ver estrelinhas brilhantes como fazia na conversa com suas amigas quando queria dar ênfase a alguma coisa. A forma como ele falou ✨namora✨ soava… quase convidativa.
— Você vai desfazer isso, Seungcheol.
— Não soou como uma ameaça. — ele riu.
— Porque tu não tá me levando a sério. — ela bufou. Achou uma mesa livre e sentou para comer a salada, o arroz duro, o frango que não era filé, mas estava servindo, e a banana que julgaram ser uma sobremesa. Seungcheol comeu calado, observando o movimento das pessoas ao redor e ouvindo reclamar baixo enquanto observava as notícias do jornal da cidade na TV que tinha no refeitório. Tirou a bandeja da colega quando ela acabou e a seguiu para a biblioteca trancada, para que eles pudessem descansar.
fez o rito de sempre: pegou a bolsinha e rumou para o banheiro. Ia escovar os dentes e arrumar o cabelo. Sabia que encontraria Seungcheol escorado em algum canto da biblioteca tirando um cochilo, ele fazia aquilo com frequência. Mas nada a preparou para encontrá-lo deitado, de bruços, a camisa que vestia servindo como travesseiro junto a um livro que parecia mais novo.
O dia estava particularmente quente, não podia negar, mas Seungcheol não podia tirar a blusa na biblioteca, podia?
— Num é possível que ele já tenha dormido. — ela quase sussurrou. Seungcheol parecia tão sereno dormindo, exceto, claro, pelos músculos tensionados pela posição. nem sabia que existiam tantos músculos nas costas. De forma inconsciente, sacou o celular do cós da calça e abriu a câmera. — precisa ver pelo que eu passo.
E à menção do nome da amiga, Seungcheol se remexeu no lugar.
— Credo, . — ele ralhou e fez um bico. Ela se aproximou devagar, precisava passar por ele para ir para a salinha reservada à restauração. Sempre ficava por lá, longe dos perigos. Assim que chegou perto o suficiente, Seungcheol agarrou sua canela.
— Deita. — ele murmurou de olhos fechados.
— Vai levar uma bicuda na costela. Solta. — murmurou igualmente baixo.
— Deita aqui. — ele girou o corpo com a cabeça ainda apoiada no livro e bateu no próprio peito. — Melhor que dormir sentada com a cabeça na mesa. — ele rebateu.
— Você tá dormindo ou não tá? — a morena cruzou os braços sobre o peito.
— Tô. — ele subiu a mão pela canela alheia, por dentro da calça.
— Pois acorde do seu sonho e me solte. — ela remexeu a canela e ganhou um bufar de Cheol, que voltou a deitar de bruços e parou de responder.
Ela passou por ele e sentou em sua cadeira de lei. Fechou os olhos, mas ainda via o abdômen de Seungcheol, a imagem tinha se cravado em sua mente. Desbloqueou o celular e a foto que tirou estava aberta. Suspirou, apertou o botão do início e bloqueou a tela. Precisava descansar. Ainda tinha meio turno e três aulas.
— Será que se eu pegasse… Não, ideia ridícula, . — murmurou sozinha e riu. Escorou a cabeça, abriu um livro de filosofia e, no segundo parágrafo, já estava dormindo. Com Seungcheol ainda sua mente sorrindo para si.
— Hoje tem calourada. — fitou a amiga com um olhar curioso.
— Vou não, ó. — entortou a boca. — Ninguém merece ficar cercada de pivete querendo encher a cara como se o amanhã não fosse existir.
— Vai perder o Johnny Be? — quis saber. À menção do nome, se endireitou no sofá.
— Por que tu não começou dizendo que o DJ era o Johnny? — ela esticou as pernas e se preparou para levantar. — Já vai sair?
— Não, tô esperando a terminar de se arrumar. — esclareceu.
— É tempo suficiente. Me espera. — e a morena correu para a escada.
— E tu vai só pelo DJ? — a mais alta quase riu. parou no pé da escada.
— Meu sonho de infância é pegar aquele homem. Então a resposta é sim. — e subiu quase correndo. — Me espera! — gritou lá de cima. Precisava pensar rápido numa roupa confortável e que chamasse a atenção do DJ.
Johnny era um local, tinha estudado arquitetura na mesma faculdade que ela. Então tinha saído para um intercâmbio nos Estados Unidos, onde tinha aprendido a ser DJ. Às vezes ele aparecia ali para alguma festa. Todos o conheciam. Ele era filho de um velho importante da cidade. queria há muito tempo colocar as mãos nos braços fortes dele.
Ela optou por vestir um short jeans que tinha mais tecido para o cós que para baixo e uma blusa de mangas e decote quadrado que deixava seus seios bonitos. Calçou os Vans falsos que agora já desbotavam e foi fazer o que chamava de “maquiagem de preguiçosa”: um disfarce nas olheiras, sombra marrom, delineador, máscara de cílios, blush e pó. Ficou pronta em poucos minutos. Aproveitou para arrumar o cabelo azul meio trançado que Sam, seu colega de curso, tinha brincado de trançar naquele dia. Pendurou argolas de coração nas orelhas e colocou o cordão de aço fininho que ia com ela para todos os lugares. Passou o perfume caro que ganhara e usava apenas em ocasiões especiais e desceu as escadas.
— tá indo arrumar confusão? — foi o que perguntou assim que a viu.
— Em minha defesa, eu nunca vou atrás da confusão. Ela que vem atrás de mim. — deu de ombros.
— Ela tá indo ver o DJ. — esclareceu.
— Ele num é mais velho que você? — quis rir.
— Ele é experiente. — a morena tentou contornar.
— E o estagiário? — franziu as sobrancelhas.
— O que tem o estagiário? — cruzou os braços.
— Tu não tá pegando o estagiário? — parecia realmente confusa.
— Eita que foi pra roça e perdeu a noção do tempo. — riu. — Isso foi dois semestres atrás, . O estagiário da vez é o coreano e eu não tô pegando ele. — ela se adiantou para a saída da república.
— Eu ouvi que sim. — a cutucou. Pelo visto, Chico estava fazendo o que fazia de melhor: fofoca.
— Eu achei ele uma gracinha. Vi quando passei em frente à biblioteca essa semana. — a seguiu, obrigando a fazer o mesmo. — Devia pegar ele.
— Não. — foi só o que a morena de cabelo azuis respondeu ao sair de casa em direção à festa.
Na outra república, Seungcheol estava andando de um lado para o outro no meio da sala.
— E a festa? Não vai? — Hansol perguntou ao colega de casa.
— Tô reunindo coragem. E você? — Seungcheol quis saber.
— Não tô animado. — Hansol deu de ombros. — Mas você tava. O que aconteceu?
— Eu só conheço você, a e umas poucas pessoas. Não tem muita gente que me faria companhia.
— Mas você e a não são amigos? — Hansol sentou no sofá e abriu um livro.
— Amigos é meio forte, né? A gente trabalha junto. — Seungcheol coçou a cabeça.
— Já é alguma coisa. — Hansol deu de ombros. — Mingyu já está por lá. Todas as garotas estavam comentando sobre o DJ ser filho de um fulano aí.
— Eu ouvi alguma coisa sobre isso nos corredores. — Seungcheol suspirou. — Eu vou antes que eu perca a coragem.
— Boa festa. — o amigo desejou.
Seungcheol saiu da república e acompanhou algumas pessoas na caminhada de 15 minutos que separava a casa do campus. Olhou ao redor a festa inteira, mas não viu um sinal de , Mingyu ou outro conhecido. O DJ até que era bom, animou bastante a galera. Seungcheol até tinha dançado com um grupo de pessoas que diziam o reconhecer da biblioteca, mas ele não sabia o nome de ninguém.
Quando o DJ desceu, formou-se um pequeno aglomerado ao redor dele. Seungcheol então viu os cabelos azuis de e se aproximou.
— Gostei do colar. — a morena brincava com o pingente de cruz que pendia sobre o peito forte do DJ Johnny Be.
— Quer pra você? — o mais alto sorriu em flerte.
— Você vem junto? — arriscou e puxou levemente o pingente.
— Você me quer junto? — Johnny brincou com a ponta do cabelo azul. sorriu com todos os dentes. Era exatamente o que queria.
— . — seguindo uma loucura de sua cabeça, Seungcheol a segurou pelo braço.
— Ele é alguma coisa sua, morena? — Johnny quis saber.
— Sim. — Seungcheol respondeu firme no momento em que disse não.
— Tu é o que meu, Seungcheol? — quis saber. Teria cruzado os braços se Seungcheol não a estivesse segurando.
— A gente namora? — ele perguntou meio incerto. riu.
— Num sei. Namora? — ela perguntou com um olhar desafiador. Vendo que Seungcheol não ia responder, emendou as palavras. — A gente num tinha combinado de abrir o relacionamento? — e puxou o braço do domínio alheio.
— Olha, eu não me importo de dividir você com ele. — Johnny sussurrou no ouvido de . Ela quase sorriu, a ideia lhe pareceu tentadora por um momento até que ela voltou a sentir a mão de Seungcheol em seu braço.
Seungcheol não disse nada. Apenas encarou Johnny com as sobrancelhas franzidas e os olhos estreitos. Os olhos também puxados de Johnny voltaram a fitar , desconfiados demais de toda a situação.
— Eu acho melhor vocês conversarem, morena. Quando ele te liberar, você me manda uma mensagem no Instagram. Vou ficar na cidade por um tempo. — e piscou. Então se foi, deixando olhando suas costas largas enquanto ele se afastava.
Seungcheol soltou o braço de de repente, sem dizer mais nada. O som da música pareceu voltar alto aos ouvidos da morena. Ela respirou fundo e olhou ao redor: parecia ter gente demais, risos demais. Ela ajeitou o short em um gesto quase nervoso, ainda sentindo o calor do toque que tinha acabado de perder, e encarou Seungcheol por alguns segundos, esperando qualquer coisa — uma bronca, uma piada, um sorrisinho torto. Nada veio. Nenhuma reação. Ele apenas passou por ela, sério, os ombros tensos, e sumiu entre os corpos que dançavam. ficou ali, parada no meio dos calouros, com uma sensação esquisita: não sabia se ia atrás de Johnny ou se ia atrás de Seungcheol. Por fim, decidiu voltar para casa, com o sentimento de que tinha começado uma briga que talvez não acabasse bem.
Continua...
Nota da autora: Olá! Essa história está sendo escrita por quatro autoras e as atualizações podem demorar um pouco. Esperamos que você goste e comente sempre que possível. Com carinho e com loucura, Daphne M, Ilane CS, M-Hobi e Sial.
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