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Codificada por: Sol ☀️

Última Atualização: 16/07/2025.

A noite caía devagar sobre a cidade, trazendo um frescor que fazia o ar parecer mais nítido. Na pista de patinação do ginásio municipal, as luzes amarelas lançavam sombras longas e suaves, e o som dos rolamentos no asfalto ecoava como um sussurro ritmado.

estava ali, deslizando com a precisão de quem já decorou cada centímetro daquele chão. Seu corpo se movia em harmonia com o ritmo interno, uma coreografia silenciosa e exata que a acompanhava desde menina. Os patins quase não faziam barulho, e ela se sentia como se flutuasse, cada passo um pequeno triunfo contra a gravidade e o tempo.

Seu olhar, focado e sereno, não permitia distrações. A respiração controlada, o coração batendo em um compasso tranquilo, como um relógio antigo que nunca falha. Ao redor, o silêncio parecia cúmplice daquele momento só dela.

Ela sabia que a mãe estaria ali em breve, a observando do canto da arquibancada, avaliando cada movimento com um olhar crítico, buscando a perfeição que sempre lhe foi exigida. sentia o peso dessa expectativa, mas ali, naquele instante, só queria esquecer o resto do mundo e existir naquele deslizar puro e sem falhas.

Lá longe, em um outro ponto da cidade, a realidade era diferente. acelerava pelas ruas escuras, sentindo o vento bater forte no rosto enquanto suas rodas raspavam o concreto irregular.

Ele não buscava perfeição — buscava liberdade. Cada corrida era uma fuga, uma resposta silenciosa para a bagunça que carregava dentro de casa, para as cobranças invisíveis da vida difícil que o cercava.

Um apito soou ao longe, mas ele riu, impetuoso, acelerando ainda mais para escapar daquele som autoritário. A adrenalina fazia o coração disparar, cada batida vibrava nas veias. Não havia regras, nem juízes, só a cidade, ele e a velocidade.

Naquela mesma semana, o inesperado aconteceu. Um cartaz colorido e despretensioso surgiu pregado na porta do ginásio onde treinava: “Competição de Patinação de Velocidade — Aberta a todos os estilos”.

Era um convite para quebrar barreiras, juntar mundos diferentes que quase nunca se cruzavam.

Para , foi a mãe que tomou a decisão — inscrevê-la para provar que a técnica e a disciplina ainda eram superiores. Para , foi , seu melhor amigo, que o desafiou com um sorriso torto: “Vai encarar a bailarina de pista, ou vai ficar só no blá-blá-blá?”

Na tarde seguinte, durante os treinos, o encontro foi inevitável.

estava concentrada, os cabelos presos em um coque impecável, o uniforme que cheirava a novo e disciplina. Ela observava a pista com a mesma atenção de quem estudava uma partitura, preparando-se para executar cada curva com perfeição.

chegou atrasado, o cabelo ainda um pouco bagunçado, a camiseta preta meio suada, os fones de ouvido pendurados no pescoço como um amuleto de coragem. O olhar dele era aberto, meio desafiador, meio curioso — um contraste gritante com a serenidade de .

Ele percebeu nela algo diferente de todas as outras pessoas que cruzavam seu caminho: uma dança silenciosa, mesmo quando ela apenas caminhava, um ritmo próprio que escapava à primeira vista.

Ela, por sua vez, não pôde deixar de reparar nos patins dele — longe dos modelos caros que ela conhecia, eles eram marcados pelas histórias do asfalto, pelas corridas improvisadas e pelos desvios da cidade.

Por um momento, os olhares se encontraram. Nenhuma palavra foi dita, mas uma centelha invisível acendeu entre os dois.

O sol estava descendo lentamente no horizonte, pintando o céu com tons de laranja que invadiam as janelas do ginásio. Eu estava ajoelhada no canto da pista, ajustando os cadarços dos meus patins. Aquelas fitas azuis, alinhadas e perfeitas, eram parte da minha armadura invisível. Meu uniforme azul-escuro brilhava sob as luzes e meu coque estava impecável — não admito nada fora do lugar quando estou em um treino.

Senti o olhar da minha mãe, Vera, em mim, mesmo sem precisar olhar para o lado. Ela estava lá, na arquibancada, observando cada movimento, cada gesto, pronta para corrigir, para cobrar. Isso sempre me acompanhou, essa pressão silenciosa, esse peso de corresponder a expectativas que nem sempre entendo.

Ao meu redor, os outros patinadores conversavam, riam, se preparavam. Mas meu foco era absoluto. Eu precisava estar perfeita, cada curva, cada deslizar, milimetricamente calculado. Foi quando ouvi uma voz áspera, uma provocação cortando o ar.

— Então essa é a tal bailarina de pista?

Olhei para o lado e vi dois garotos. Um deles, o que tinha falado, era alto, com camiseta preta e um sorriso desafiador. O outro parecia esperar pela reação dele.

Não sabia quem eram, mas senti o desafio, direto para mim. Sem pensar, respondi, firme:

— Ritmo se aprende. Mas estilo... estilo é outra coisa.

O garoto sorriu, quase zombeteiro, e se aproximou com uma confiança que me irritou e ao mesmo tempo me intrigou.

— Estilo? — Ele deu uma volta rápida ao meu redor, os patins dele raspando o asfalto com uma facilidade que eu não conhecia. — Isso aqui é rua, garota. Não pista. Aqui, vale a coragem, a adrenalina, a velocidade de pensar rápido.

Eu cruzei os braços, sentindo uma vontade estranha de mostrar para ele que aquela “coreografia” que eu dominava valia muito mais.

— Coreografia? — respondi, sem desviar o olhar. — Técnica é o que faz a gente ser respeitado. Sem técnica, sobra só barulho e queda.

Ele parou na minha frente, a expressão divertida, um pouco desafiadora.

— Vamos ver quem cai primeiro, então.

Sem esperar resposta, ele disparou pela pista, deixando um rastro de poeira e atitude. Meu coração acelerou, não só pelo desafio, mas porque pela primeira vez senti aquela pontada de adrenalina que não era só da competição — era algo novo, confuso, mas real.

Ajustei meus patins, respirei fundo, e segui.

O ginásio estava cheio, cheio de sons, vozes e movimentos. O cheiro do asfalto quente se misturava ao suor, criando um ambiente denso, quase sufocante, que parecia apertar meu peito.

Enquanto os outros riam, conversavam e se aqueciam, eu me mantinha no meu mundo. O barulho ao redor se transformava numa espécie de ruído branco, algo que eu podia desligar com esforço suficiente.

Meus patins estavam firmes nos pés, os cadarços apertados até o limite, quase como se amarrar aquilo fosse segurar também o meu controle sobre tudo. Eu deslizei para o centro da pista, sentindo o toque frio e áspero do concreto sob as rodas. Cada movimento precisava ser perfeito — não podia deixar escapar nada.

A pressão da minha mãe era uma presença constante na minha cabeça, uma voz que não precisava ser ouvida para que eu sentisse seu peso. "Perfeição", dizia ela, mesmo quando não pronunciava uma palavra. Eu sentia seus olhos, mesmo que ela estivesse a metros de distância, avaliando, julgando, esperando.

Eu precisava provar que era digna, que merecia tudo aquilo. Mas, no fundo, havia um medo que eu não conseguia afastar — medo de decepcionar, de falhar.

Enquanto me concentrava na próxima curva, tentando bloquear a ansiedade que me apertava a garganta, meus olhos passaram por cima da pista e encontraram algo — ou alguém.

Ele estava ali, do outro lado, com um jeito diferente de estar no mundo. Rosto iluminado pela luz morna, cabelo bagunçado e um sorriso que parecia desafiar tudo e todos.

Os olhos dele cruzaram os meus por um instante, e naquele segundo tudo pareceu mais intenso — o ruído ao redor se tornou silêncio, a pressão virou curiosidade, o medo um fio tênue.

O encontro dos nossos olhares foi rápido — talvez um segundo, talvez menos — mas teve o peso de um trovão silencioso. Por um instante, a concentração que eu lutava para manter se quebrou, e senti um calor estranho se espalhar pelo peito, misturado com um frio que parecia dizer: “preste atenção”.

Ele sorriu, não de forma gentil ou amigável, mas com uma provocação que parecia desafiar tudo que eu acreditava saber sobre a patinação — sobre mim mesma.

Fiquei imóvel por um momento, os patins presos no chão, como se o tempo tivesse parado para observar aquela pequena faísca que havia surgido.

Respirei fundo, tentando puxar o foco de volta para a pista, para a técnica, para a perfeição. Porque era nisso que eu acreditava — na ordem, na disciplina, na certeza de cada movimento.

Mas, ainda assim, uma parte minha queria saber mais sobre aquele garoto que ria da minha rigidez, que parecia viver em outro ritmo, em outro mundo.

Enquanto eu me preparava para a próxima volta, senti os olhos dele ainda sobre mim, estudando, como se também tentasse entender quem eu realmente era por trás daquela fachada tão controlada.

Naquele instante, algo mudou. Não era apenas um desafio entre estilos — era uma tensão viva, carregada de expectativas não ditas, de possibilidades que ainda não sabíamos nomear.

Eu não podia admitir — nem para mim mesma — que aquele olhar havia mexido comigo.

Voltei a patinar, deixando que a música silenciosa da pista tomasse conta de mim, mas com uma certeza nova: aquela competição seria muito mais do que um simples teste de velocidade.

Continua...

Nota da autora:

☀️

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