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Codificada por Lua ☾
Última Atualização: 12/11/25

O verão em Londres nunca pareceu tão cinzento para mim.

A princípio, pensei que fosse o céu carregado — aquela névoa teimosa que se pendura nas janelas e sufoca o horizonte. Ou talvez fosse só saudade das montanhas quentes de onde vim, onde o céu sempre parece mais próximo da terra. Mas, no fundo, eu sabia. O mundo bruxo estava mudando. E não era para melhor.

Minha vida mudou completamente quando fui transferida de Uagadou para Hogwarts no terceiro ano. A transferência foi parte de um acordo silencioso entre o Ministério da Magia britânico e o Conselho Mágico Africano — um esforço para fortalecer alianças e trocar conhecimentos diante do crescimento de forças sombrias na Europa.

Meu pai, Jabari , tem pais africanos, mas nasceu na Inglaterra, era ex-aluno de Hogwarts e integrante do Departamento de Execução das Leis da Magia. Durante uma conferência internacional sobre combate às Artes das Trevas, ele conheceu minha mãe, Thandiwe — uma bruxa poderosa e estrategista do Conselho Mágico Africano.

Eles se apaixonaram rápido. Tão rápido que, poucos meses depois, meu pai deixou tudo para trás e se mudou para o Malawi com ela. Lá, reconstruíram a vida, formaram família e se tornaram aurores altamente respeitados por toda a comunidade bruxa do sul da África.

Então, quando o acordo entre os dois ministérios foi firmado, eles aceitaram. E eu… bem, eu não tive muita escolha além de seguir com eles.

Lá em casa, sempre me ensinaram que magia era adaptação — movimento, escuta, resposta. Mesmo assim, nada me preparou para o frio das varinhas britânicas, tão frágeis diante da força ancestral que crescemos respeitando. Os uniformes pesavam nos ombros como se quisessem me dobrar. Os corredores de pedra pareciam desconfiar da minha presença.

E os alunos… Bem, muitos me olhavam como se uma bruxa africana, sangue puro, herdeira de uma das linhagens mágicas mais antigas do sul, não devesse estar ali. Como se minha existência fosse um detalhe fora do roteiro deles.

Mas tudo ficou mais suportável quando conheci Harry Potter.

Ou melhor — quando o reencontrei.

Eu o tinha visto quando tinha onze anos, acompanhado de Hagrid, em uma rápida visita ao Beco Diagonal com meus pais, durante uma temporada em Londres. Lembro da confusão de lojas, das vozes se sobrepondo, e então dele: um menino franzino, olhos arregalados, uma cicatriz inconfundível na testa. Na época, pensei que era só uma história andando entre as pessoas. E talvez fosse mesmo.

Hermione me observou com desconfiança por duas semanas inteiras. Rony me irritava diariamente com sua combinação infalível de piadas ruins e boca cheia de torta. Mas com o tempo... nós quatro nos tornamos um tipo estranho de família. Um quarteto improvável, costurado por feitiços, sarcasmos, segredos — e, agora, medo.

O retorno de Voldemort.

A morte de Sirius.

O mundo tremia, mesmo quando os jornais insistiam em negar. E eu sentia tudo isso no corpo. Nos sonhos. Como se os próprios ossos pressentissem tempestades.

— Vai ser um ano longo — murmurei para mim mesma, enquanto amarrava os últimos rolos de pergaminho com um feitiço simples e automático. A mala já estava quase pronta, os livros alinhados, o grimório bem guardado. — Tomara que pelo menos o Snape não esteja insuportável.

Mas no fundo, eu sabia.

O sexto ano traria mais do que trevas.

Traria também verdades enterradas, beijos inesperados e a dolorosa, inevitável certeza de que amar alguém durante uma guerra mágica pode ser o feitiço mais perigoso de todos.

O céu de Londres parecia mais baixo naquela tarde.

As nuvens se acumulavam no céu como se estivessem prestes a desabar a qualquer momento. Do segundo andar da casa, encostada no parapeito da janela, eu observava tudo em silêncio — os cotovelos apoiados na moldura fria, os olhos perdidos na paisagem cinzenta de Londres.

Já fazia dois dias desde que eu havia retornado de Malawi. Passei as férias de verão ao lado dos meus primos e amigos de infância, rindo alto sob o céu aberto, comendo frutas direto das árvores, estudando magia ancestral com minha tia mais velha, e fugindo do calor com feitiços de resfriamento ensinados por minha avó. Foram dias cheios — de sol, de barulho, de vida. E agora... tudo parecia suspenso. Como se o mundo estivesse apenas esperando algo ruim acontecer.

No andar de baixo, ouvia os passos dos meus pais, Thandiwe e Jabari , andando de um lado para o outro. Ser aurores nunca pareceu tão perigoso quanto agora. Desde que Voldemort voltara à ativa, nossa casa raramente passava um dia sem que alguém da Ordem da Fênix aparecesse. Mapas, recados cifrados, livros antigos e poções ficavam espalhados pela sala como se fizessem parte da decoração.

Meu pai estudou em Hogwarts na mesma época que Tiago Potter, Sirius Black e Remus Lupin. Eles não eram exatamente melhores amigos — segundo ele, ninguém era, a não ser entre si —, mas compartilhavam algumas aulas, partidas de Quadribol e uma certa rebeldia que vez ou outra o colocava em encrenca com Filch.

Foi essa conexão antiga que reacendeu os laços com Dumbledore anos depois, quando ele e minha mãe foram convidados a integrar a Ordem. De certa forma, era como se tudo estivesse conectado desde antes de eu nascer.

Suspirei, distraída, enquanto os dedos brincavam com o pingente em forma de lua pendurado no meu colar — um amuleto de proteção que herdei da minha avó materna. Era feito com magia antiga e tinha runas gravadas em um idioma que eu só começaria a entender anos depois de chegar a Hogwarts.

! — chamou minha mãe, batendo suavemente à porta. — Tonks acabou de aparatar no quintal.

— Já estou descendo.

Me afastei da janela com certa relutância e peguei o casaco jogado sobre a cama. A mala já estava pronta. Não que houvesse muita coisa a levar — sempre fui organizada — mas, naquele ano, até as coisas simples pareciam mais pesadas. E eu não sabia dizer se era o conteúdo da mala… ou o que eu mesma estava carregando por dentro.

Desci as escadas devagar. Encontrei meus pais na sala, os dois em trajes de missão: túnicas reforçadas, botas resistentes e varinhas sempre à vista.

— Se cuidem — pedi, abraçando os dois com força.

— Você também. E não baixe a guarda nem por um segundo — advertiu meu pai, ajeitando meu cachecol com um carinho contido. — As coisas estão piorando. Não sabemos exatamente o quê, mas... está se movendo.

— E confie no que sente — completou minha mãe. — A magia de Uagadou é ligada à intuição, você sabe disso. Seu corpo percebe antes da sua mente.

Assenti em silêncio. Às vezes, sentia que eles sabiam mais sobre mim do que deixavam transparecer.

Foi quando ouvimos o som de passos no quintal.

— Tá aberta! — gritou meu pai em direção à porta dos fundos.

Tonks entrou devagar, os ombros curvados e os cabelos em um tom castanho apagado, quase sem vida — bem diferente do rosa vibrante que eu sempre admirei nela. Ela sorriu, mas era um sorriso que não chegava aos olhos.

— Oi, pequena Corvinal — disse com a voz mais baixa que o normal. — Pronta pra mais um ano de confusão?

Hesitei um segundo antes de sorrir de volta.

— Se for menos confuso que o anterior, já estarei satisfeita.

Nos abraçamos, mas algo estava diferente. O corpo dela parecia mais rígido, menos caloroso. Notei. Era como se ela estivesse se segurando para não desmoronar.

— Você tá bem? — perguntei baixinho, ao me afastar. Ela riu, sem humor.

— Claro que tô. Só… cansada. Vida de auror, você sabe.

Assenti, mas continuei observando-a por um instante. Talvez fosse o modo como os olhos dela evitavam contato direto. Ou o fato de parecer menor dentro da própria capa.

Ainda assim, havia ali uma intimidade que o tempo não quebrava. Tonks sempre foi uma das poucas pessoas da Ordem que eu considerava amiga — e uma figura que, até pouco tempo, parecia inabalável.

Enquanto caminhávamos até a calçada, uma TV ligada na casa vizinha capturou minha atenção por um instante. O som escapava pela janela aberta:

“...estranhos desaparecimentos continuam a intrigar a polícia. Autoridades dizem não haver pistas, mas moradores relatam aparições estranhas, luzes no céu e sumiços repentinos...”

Tonks percebeu que eu tinha parado e olhou na mesma direção.

— Você sente também, né? — perguntou, com a voz baixa e rouca. Como se falar aquilo fosse difícil. Demorei alguns segundos para responder.

— Como se o mundo estivesse… se contorcendo por dentro. Sim. Sinto. — Ela soltou um suspiro pesado, olhando para o chão.

— Você tem o dom, . Nunca ignore isso.

Virei o rosto para ela, mas Tonks já tinha endireitado a postura, como se tentasse se recompor por fora para esconder o que se despedaçava por dentro.

E então, aparatamos.

Naquela fração de segundo entre sumir e reaparecer, senti algo gelado passar por dentro do peito. Não era só a mágica do transporte. Era uma sensação que vinha crescendo desde o fim do último ano. Como um aviso sussurrado em outra língua.

Reapareci na calçada de King's Cross. A chegada à estação foi menos caótica do que imaginei — considerando que Tonks quase tropeçou, mas não esboçou o costumeiro bom humor.

— Nada como começar o dia com elegância — provoquei, pegando minha mala. Ela forçou um sorrisinho.

— Pelo menos não apareci dentro do armário de vassouras como no ano passado… — ela tentou brincar — Agora vai. Seus amigos estão por ali — disse, apontando sem muito entusiasmo. — E… me manda uma coruja, tá?

Assenti, mas demorei um segundo a mais para me afastar. Algo nela estava quebrado. E por algum motivo, senti que aquilo ainda importaria.

Ajustei o colar sob o cachecol e segurei firme a alça da mala. Cruzei o saguão, desviando dos trouxas apressados com malas e cafés nas mãos. Eu sabia o caminho. Sabia o ritmo da respiração para atravessar a parede com naturalidade. Sabia até o ponto exato da plataforma onde o vapor do trem fazia redemoinhos no ar.

Mesmo assim, meu coração deu um salto quando vi uma mancha ruiva e um cabelo castanho familiar do outro lado.

! — Hermione acenou com entusiasmo. Rony, ao lado, parecia entediado, com a mala escancarada aos pés.

— Estavam planejando embarcar sem mim? — perguntei, sorrindo. — Que feio.

— A gente estava planejando, sim — disse Rony, já vindo para um abraço desajeitado. — Mas a Hermione achou que você ia aparecer e me obrigou a esperar. Como sempre.

— Que bom que ainda obedece, Rony. Um dia você vai ser um ótimo labrador — retruquei, erguendo a sobrancelha.

Hermione riu. Rony bufou.

— E você ainda com essa ironia matinal. Já posso sentir o cheiro de café e sarcasmo no ar.

— São os dois pilares da minha personalidade.

Hermione nos observava com carinho, e por um momento, a leveza parecia quase real.

Quase.

Porque no instante seguinte, senti aquele frio estranho de novo. Uma mudança no ar. Me virei antes mesmo de ouvir a voz.

— Oi. — disse Harry, se aproximando.

Ele estava diferente. Não exatamente no rosto, mas no jeito como caminhava, no peso nos ombros, nos olhos mais fundos do que no verão anterior. E quando nossos olhos se encontraram, senti como se o tempo tivesse desacelerado só o suficiente para que o silêncio dissesse tudo o que não conseguíamos.

— Harry — murmurei, com um aceno quase contido.

— respondeu ele, sem desviar o olhar.

Por um momento, ninguém disse nada. Hermione limpou a garganta, como se quisesse cortar o ar com alguma frase inteligente, mas só ajeitou a alça da bolsa.

— Vocês dois vão se encarar o ano todo? — perguntou Rony, impaciente.

Ri, embora meu coração ainda estivesse acelerado. Harry desviou o olhar com um sorriso contido, colocando a mala no chão.

— Vamos entrar? — sugeriu Hermione, já puxando a gente para o trem.

Enquanto caminhávamos até a porta do Expresso de Hogwarts, mantive os olhos fixos no chão de pedras.

Mas, no fundo, eu sabia.

Aquele olhar — aquele breve segundo a mais — ia ecoar por dias.

Ou meses.



O compartimento era pequeno demais para tanto silêncio.

Hermione fingia ler um livro. Digo fingia porque eu conheço aquele franzir de sobrancelha dela quando está distraída demais para absorver uma linha sequer. Rony mordiscava uma caixa de Sapos de Chocolate com a concentração de quem tenta decifrar um enigma bruxo. E eu… eu encarava a paisagem cinzenta pela janela, mas meus olhos não viam nada de fato. Harry estava sentado bem à minha frente. Quieto. Mais quieto do que o normal — e vindo dele, isso já era dizer muito.

O trem ganhava velocidade, serpenteando pelos campos como um bicho enorme, bufando vapor e estalos a cada curva. Estávamos, mais uma vez, a caminho de Hogwarts. Mas havia algo de diferente naquele retorno. Nem o som do trem parecia igual aos anos anteriores. E muito menos a forma como eu me sentia dentro dele.

Eu já não era a mesma.

— Vocês ouviram sobre o que aconteceu em Cardiff? — a voz de Hermione cortou o silêncio, firme, puxando-nos de volta à realidade.

Desviei o olhar da janela e ergui uma sobrancelha, tentando parecer menos inquieta do que realmente estava.

— Mais um ataque?

— Dois — ela respondeu, baixando o livro com a expressão fechada. — Uma família inteira desapareceu e uma loja de artigos mágicos foi completamente destruída. O Ministério diz que está “investigando”, mas ninguém acredita nisso.

Rony bufou, indignado.

— O Ministério não consegue investigar nem uma abóbora podre.

— Dumbledore está tentando agir por fora, com a Ordem — continuou Hermione, ignorando o comentário. — Mas está cada vez mais difícil. E, francamente, eu não entendo por quê.

Cruzei os braços e me recostei no banco, sentindo o balanço sutil do trem.

— Talvez porque Dumbledore tenha um plano maior. Minha mãe acha que ele está andando por uma linha muito fina.

— Sua mãe sempre acha que alguém está andando por uma linha fina — retrucou Rony, com uma careta.

— E, normalmente, ela está certa — murmurei, sem conter um sorriso.

O silêncio voltou a tomar conta do compartimento. Um daqueles silêncios densos, que ocupam espaço entre os corpos, como se os pensamentos ganhassem peso… Mas não durou.

— Ei, como foram as férias, ? — perguntou Rony, com a boca ainda parcialmente cheia de sapo de chocolate. — Em Malawi de novo, né? Aposto que lá não tinha um verão molhado igual ao nosso.

Sorri de canto, pousando o olhar na paisagem que deslizava pela janela.

— Tinha calor, sim. E muita poeira mágica no ar. Mas foi bom... Passei os dias com meus primos, minhas tias, treinei alguns feitiços ancestrais com a minha avó. Acordava com cheiro de chá de hibisco e adormecia ouvindo histórias de espíritos antigos. Nada de azarações em banheiros ou explosões em aulas de Poções. — Fiquei nostálgica ao recordar. — Foi... intenso. Mas tranquilo.

— Isso parece o oposto completo das nossas férias — murmurou Hermione, com um sorriso fraco. — Espera… você não sabe tudo o que aconteceu, né? Enquanto estava fora?

— Fora uma ou outra carta da minha mãe? Não. Por quê? — respondi, arqueando uma sobrancelha. — Inclusive... vocês não me escreveram.

Rony se ajeitou na poltrona, meio ofendido.

— Ei, você também não escreveu pra gente! Nós achamos que você queria sumir do mapa.

— Eu tava no interior do Malawi, Rony. Onde as corujas levavam três dias pra encontrar uma janela. E ainda assim, uma carta caberia, né?

— Tá bom, então a culpa é coletiva — retrucou ele, cruzando os braços. Hermione suspirou, já acostumada com os dois.

— Ok, ok... já deu. Vamos considerar que foi o caos do verão e seguir em frente, pode ser?

— Por mim, tudo bem — disse, ainda olhando de lado pra Rony.

— Ótimo — respondeu ele, mas o tom dele dizia nem tanto. Hermione rolou os olhos.

— Agora que o clima natalino passou... Rony, conta logo pra ela, porque eu sei que você quer contar as novidades — disse Hermione, cruzando os braços.

Rony se animou imediatamente, como se tivesse esquecido completamente da rusga anterior.

— O Harry agora é oficialmente um herdeiro. Herdou tudo do padrinho. O testamento saiu durante o verão. — Me virei para Harry, surpresa.

— Sério? — Ele assentiu, o olhar um pouco vago, claramente desconfortável com o assunto.

— O Grimmauld Place é meu agora. E o Monstro também… infelizmente.

— Harry… — minha voz saiu mais suave do que eu esperava. — Como você tá com isso? Porque... foi tudo tão recente. A morte do Sirius. A guerra espreitando. E agora isso? — Ele deu de ombros, sem muita vontade de elaborar.

— É estranho. Parece que... quanto mais as coisas mudam, mais tudo fica pesado.

— Rony — murmurou Hermione, com o cenho franzido —, você não podia ter contado isso de um jeito mais... gentil? Ele acabou de perder o padrinho, sabia? — Rony piscou, desconcertado.

— Eu só... achei que ela queria saber.

— Tô bem — disse, depois de um tempo. — Ou tentando estar.

Houve um breve silêncio, daqueles que não são constrangedores, mas que carregam peso. Aquele tipo de pausa que ninguém ousa quebrar com pressa.

Hermione foi quem retomou, com o olhar atento em mim.

— E isso não é tudo.

— Claro que não é — murmurou Rony, mexendo na embalagem de um sapo de chocolate. — Dumbledore levou o Harry pessoalmente para convencer um professor aposentado a voltar a dar aula. Um tal de Horácio Slughorn.

— Slughorn? — franzi o cenho. — Nome de poção ou de porco mimado?

Rony riu alto. Hermione reprimiu um sorriso, mas continuou.

— Ele foi professor em Hogwarts anos atrás. Tem uma certa obsessão por alunos “promissores”...

— “Promissores” como em talentosos ou... com sobrenomes importantes? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

Harry respondeu antes que Hermione pudesse defender.

— Os dois. Ele é... estranho.

— Vive colecionando pessoas — completou Rony. — Como se estivesse montando um álbum de figurinhas influentes.

Hermione suspirou.

— A verdade é que Dumbledore queria que o Harry se aproximasse dele por um motivo. E até agora, ninguém sabe exatamente qual.

Me recostei no assento, cruzando os braços.

— Então, o velho está jogando xadrez com peças vivas de novo.

— E, adivinha — disse Harry, com ironia seca. — Eu sou o peão de ouro da vez.

Meu olhar encontrou o dele por um instante, e não foi preciso dizer nada. A gente sabia como era. Ser puxado pra um jogo que ninguém explicou as regras.

Rony continuou:

— Ah, e também teve o lance do Draco — Rony continuou. — A gente o seguiu no Beco Diagonal. Ele entrou numa loja de magia das trevas, a Borgin & Burkes.

Minha expressão se fechou de imediato.

— Isso foi quando?

— Pouco depois do aniversário do Harry — disse Hermione. — Ele estava estranho. Parecia estar negociando alguma coisa.

Olhei para Harry, sentindo um aperto leve no peito. Tinha muita coisa acontecendo — mais do que eu podia imaginar quando ainda estava do outro lado do mundo. E a sensação de que algo importante estava escapando pelos dedos só aumentava.

De repente, a porta do compartimento se abriu com um baque leve.

— Harry? — era Gina.

Os cabelos presos em um coque bagunçado, os olhos brilhando com uma urgência que eu não sabia explicar. Só… senti.

— Me dá um minuto? — ela perguntou, encarando Harry.

Ele hesitou, mas assentiu. E se levantou.

Instintivamente, desviei o olhar. Rápido demais para parecer casual. Lento demais para passar despercebido por Hermione. A porta se fechou atrás dele, e eu fingi examinar a costura do meu casaco como se aquilo fosse a coisa mais fascinante do universo.

— Você está diferente com ele — disse Hermione, direta como sempre.

— Com quem?

— Harry. — Revirei os olhos.

— Ah, claro. Tô sim. Tô super diferente com o Harry. Comecei a usar o nome do meio dele em pensamentos dramáticos, inclusive. Tiago. Harry Tiago Potter. Soa muito mais intenso assim.

Rony riu alto, quase engasgando com o chocolate.

— Essa tensão dá pra cortar com uma varinha cega. Juro por Merlim.

— Vocês dois são insuportáveis — murmurei, já impaciente.

— E você é péssima mentirosa — devolveu Hermione, com aquele tom de quem já sabe a verdade.

Suspirei, ainda com os olhos na porta fechada.

A verdade? É que tudo começou no ano passado. Quando Harry se aproximou da Cho. E eu… eu não sabia o que doía mais: vê-lo tentando colar os cacos de uma garota em pedaços, ou perceber que eu também estava quebrando em silêncio.

E então veio Gina. Vibrante, valente, bonita de um jeito que não pedia licença para existir. Era impossível não gostar dela. E justamente por isso, tudo ficou ainda mais complicado.

Quanto mais eu gostava da Gina, mais doía ver os dois juntos. Porque cada toque de mãos, cada sorriso, cada olhar… era como um lembrete de que havia um feitiço agindo ali. Um feitiço que ninguém lançou — mas que, de algum jeito, agia toda vez que Harry e eu ficávamos sozinhos por mais de três segundos.

— Eu não estou preocupada com o Potter. Ele tá bem entregue — falei, tentando parecer firme.

Mas não consegui esconder o que veio depois: o olhar. Aquele maldito olhar cheio de perguntas não feitas.

A volta de Harry ao compartimento deveria ter me aliviado. Mas não foi. Foi como respirar dentro de um armário fechado.

Ele se sentou de volta, abaixou a cabeça e disse algo em voz baixa para Hermione. Rony estava entretido com um jogo de Snap Explosivo e nem percebeu. Mas eu ouvi. Não pelas palavras. Pelo tom.

— Ela só queria... entender — murmurou Harry, os olhos baixos.

— E você? Já entendeu? — respondeu Hermione, num sussurro cuidadoso.

— Não sei. Às vezes parece certo. Outras vezes... parece só errado no tempo errado.

— Você precisa ser honesto — disse ela. — Principalmente com você mesmo.

Harry soltou um suspiro contido, recostou a cabeça no vidro da janela, os olhos fixos do lado de fora. Mas eu sabia que ele não estava vendo nada além da própria confusão.

Fingi que estava muito ocupada ajeitando a manga do casaco. Não precisavam dizer o nome dela. Eu já sabia.

Sabia pelos olhos de Gina brilhando no corredor. Sabia pelo jeito que Harry hesitou antes de sair da cabine. Sabia pelo silêncio carregado que agora existia entre ele e Hermione.

— Estão falando em código de novo? — reclamou Rony. — É como conviver com dois trasgos acadêmicos.

Forcei um sorriso. Mas por dentro, algo em mim se contorcia devagar. Como se eu já soubesse que a batalha que estava por vir não seria só contra as sombras do mundo mágico. Mas também contra as que moravam dentro de mim.

— Vou… pegar um pouco de ar — anunciei, levantando de repente. — Tá meio abafado aqui.

Hermione me observou com atenção, mas não disse nada.

Saí para o corredor e respirei fundo, como quem tenta se manter inteira, mas já não tinha certeza se conseguiria.

Idiota.

Era a única palavra que ecoava na minha cabeça enquanto caminhava pelos corredores do Expresso de Hogwarts. Idiota. Repeti de novo, quase como um feitiço contra mim mesma. Você é uma bruxa treinada em Uagadou, conhece feitiços que esses britânicos nem sonham. E vai mesmo perder a cabeça por causa de Harry Potter… e um maldito minuto entre ele e Gina Weasley?

Ridículo.

Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos como se fossem fumaça incômoda. Eu precisava me recompor. Ignorar. Respirar. Passaria. Sempre passava. Mas o coração ainda martelava no peito com mais força do que eu gostaria de admitir, e era exatamente por isso que continuei andando, querendo deixar aquilo para trás — ou pelo menos, fingir que deixava.

Foi então que ouvi.

Vozes abafadas, urgentes, vindo de uma das cabines.

Eu ia passar direto — juro que ia. Mas algo naquela voz me fez parar no mesmo instante. Draco Malfoy.

Me aproximei sem pensar, os passos suaves sobre o carpete, o corpo se inclinando ligeiramente até o vão da porta entreaberta. Os sussurros escapavam aos pedaços, cortados pelo som constante do trem sobre os trilhos.

— …o plano está em andamento. — Era Draco. A voz baixa, tensa. Quase… assustada?

— E se falhar? — respondeu outra voz que reconheci de imediato: Blaise Zabini. — Você sabe o que ele faz com quem decepciona.

— Snape fez o voto. Ele vai manter a promessa. Só preciso que você…

A frase morreu no ar.

A porta se abriu de repente e Draco saiu. Me encarou.

Por um instante, ficamos parados. Eu, no corredor, com o sangue gelado; ele, com a surpresa mal disfarçada antes de vestir o velho manto do desdém. Aquela expressão vazia que usava como armadura sempre que se sentia ameaçado.

— Curiosa, ? — perguntou, cruzando os braços com teatralidade.

— Só estava andando — respondi, firme, mantendo o olhar nos olhos dele. — Não sabia que espiões usavam compartimentos comuns.

— E eu não sabia que corvinais gostavam de brincar com fogo.

— E eu achei que você estivesse ocupado demais tentando parecer perigoso pra ter tempo de sussurrar conspirações com o Zabini.

Ele deu um passo à frente. Eu não recuei.

— Não se meta com o que não entende — rosnou, a voz mais baixa agora. Gélida.

— Já entendi o suficiente pra saber que você está enfiado em alguma coisa. E se acha que eu vou ficar quieta...

— Você não vai fazer nada — cortou, seco. — Porque ninguém acredita em gente que vive no meio do caminho. Nem da Grifinória. Nem da Sonserina. Nem da África. Você não pertence a lugar nenhum.

Doeu. Não posso mentir. Aquelas palavras atingiram um lugar fundo, escuro. Mas eu me recusei a dar a ele o prazer de ver.

Atrás de Draco, Blaise me observava com um sorriso preguiçoso e condescendente, como se estivesse assistindo a uma peça muito boa. Eu o ignorei completamente.

— Pelo menos eu não preciso fingir coragem pra esconder medo.

Os olhos de Draco brilharam por um instante. Mas ele não respondeu. Apenas se virou e voltou para a cabine, batendo a porta com força suficiente para fazer o corredor tremer.

Fiquei ali. Parada. O corpo inteiro tenso.

Um arrepio percorreu minha espinha, mas não era só raiva. Era aquela sensação de novo. Aquilo que sussurrava pelas frestas do mundo, avisando que algo estava se movendo errado. Como se, naquele ano, ninguém estivesse realmente seguro. Nem mesmo dentro do trem.

Fechei os olhos por um segundo. Depois continuei andando. Mas cada palavra daquela conversa ficou gravada na minha mente. Cada expressão. Cada silêncio. E ali mesmo, naquele corredor, jurei a mim mesma: eu vou descobrir o que Draco Malfoy está escondendo.

⚡🧙


— Potter! Srta. !

A voz animada e arrastada de Horácio Slughorn atravessou o corredor feito um raio, me arrancando dos pensamentos enquanto Harry e eu deixávamos a cabine para esticar as pernas.

Nos viramos ao mesmo tempo, meio pegos de surpresa.

— Venham, venham! — insistiu ele, agitando os braços roliços cobertos de anéis. — Tenho um compartimento reservado só para alguns alunos… especiais. Uma pequena seleção informal, nada demais.

Olhei para Harry. Ele parecia já saber do convite.

— Vai ver você tá na lista agora também…

— Que honra — murmurei, sem conseguir esconder a ironia.

O compartimento do Clube do Slug era maior, mais ornamentado — se é que toalhas floridas improvisadas e uma bandeja com doces mágicos contavam como "decoração". Lá dentro, Neville tentava parecer confortável numa cadeira apertada; Ginny mordiscava uma bala saltitante; Blaise Zabini, claro, encostado no canto com cara de tédio superior; Marcus Belby suava como se estivesse numa sauna; e Cormac McLaggen… bom, ele falava alto demais sobre uma partida de quadribol que ninguém perguntou.

Slughorn nos apresentou com entusiasmo.

— Todos aqui têm algo em comum: conexões. Potencial. História! E nada melhor do que conhecer essas histórias logo no início do ano.

E ele começou com quem, é claro? Harry.

— O famoso Sr. Potter. Herdeiro de uma linhagem poderosa… James, Lily, e agora, veja só, o garoto que sobreviveu, estrela do time de quadribol, membro da Ordem da Fênix. Já pensou em diplomacia, Harry?

— Prefiro sobreviver à aula de poções — retrucou ele, seco. Algumas risadas ecoaram. Blaise, como sempre, revirou os olhos.

Slughorn continuou, perguntando coisas aos outros, até que seus olhos caíram sobre mim. E ali estava. O brilho de interesse que eu conhecia bem. O que vinha antes da pergunta que sempre vinha.

— E você, Srta. . De onde vem esse sobrenome maravilhoso?

Respirei fundo antes de responder.

— Minha família é do Malawi, professor. Mas moro em Londres. Estudei em Uagadou antes de vir para cá.

— Uagadou! — exclamou ele, como se tivesse encontrado uma relíquia. — Escola de magia africana, no alto das Montanhas da Lua. Fascinante! Poucos têm contato com sua magia ancestral. E sua família? Bruxos há muitas gerações?

O tom era de admiração. Mas por trás dele, eu sentia o peso. Como se ele estivesse medindo o meu valor antes de decidir o quanto de atenção mereço.

— Somos sangue puro, sim — respondi, firme, sem sorrir. — Mas minha família prefere ser lembrada pelas escolhas que faz, não pelas heranças que carrega.

Por um segundo, o silêncio reinou. McLaggen pareceu não entender nada. Blaise me olhava com aquele mesmo sorrisinho enviesado de antes. Como se estivesse me estudando.

— Admirável! — disse Slughorn, sorrindo largo. Talvez nem tivesse notado a crítica. — Precisamos conversar mais, Srta. . A senhorita parece ter muito a oferecer.

Oferecer. Que palavra.

Forcei um sorriso educado. Mas por dentro, queria sair dali o quanto antes.



Quando deixei o compartimento, meus passos estavam mais lentos do que eu queria admitir. Slughorn ainda ria alto de alguma piada imbecil do McLaggen, e Harry, logo depois, sumiu com a capa da invisibilidade escondida debaixo do braço. Nem me explicou. Só foi.

Neville caminhava ao meu lado, em silêncio, as bochechas ainda vermelhas — não sei se pelo calor da cabine ou pela pressão da conversa. Talvez pelos dois.

— Eu odeio essas coisas — murmurou, sem me olhar. Ergui uma sobrancelha, surpresa.

— Achei que você tivesse se saído bem.

— Só fiquei calado. Foi a melhor estratégia — respondeu, com um sorriso torto. — Melhor do que abrir a boca e deixar escapar que a única coisa que minha avó acha que herdei dela foi o talento para derrubar vasos.

Soltei uma risada curta e verdadeira. Depois suspirei.

— Achei que já estivesse acostumada com perguntas invasivas, mas... ele tem um jeito de transformar curiosidade em escaneamento. Me senti sendo classificada.

— Você foi incrível — disse Neville, sincero.

— Mas ele não se impressionou comigo. Só com o meu “potencial”. Com o nome da minha família. Com o fato de eu ter vindo de Uagadou. Ele queria me encaixar numa daquelas caixas brilhantes que pode exibir na estante e dizer: “vejam, essa aqui é promissora”.

Neville ficou em silêncio por alguns segundos.

— Ele faz o mesmo com o Harry — disse, baixo.

— Eu sei. Mas com o Harry… ele já espera algo. Comigo, parecia que ainda estava decidindo. Como se eu fosse um investimento.

Passei a mão no meu colar, inconscientemente. O gesto sempre vinha quando eu precisava me lembrar de quem eu era.

— Em Uagadou, ninguém precisava saber de onde sua família vinha pra te respeitar. Era o que você fazia com sua magia que contava. Aqui... às vezes parece que o valor das pessoas vem dos nomes que as precedem.

Não é que eu ainda não esteja acostumada. Já estou em Hogwarts há três anos, mas tem coisas que continuam cutucando do mesmo jeito.

Neville soltou um som de concordância, quase um suspiro.

— Acho que por isso a gente precisa estar aqui. Pra mudar esse tipo de pensamento.

Parei. Olhei pra ele, a calma na voz dele. A certeza. A gentileza.

— Obrigada, Neville.

— Por quê?

— Por não tentar diminuir o que eu senti. Por só… ouvir. — Ele sorriu de lado, modesto.

— Eu sou bom nisso. Crescer sendo “o neto da Augusta” me deu prática.

Seguimos em silêncio pelo corredor. E, pela primeira vez desde que o dia começou, senti o incômodo dar um passo para trás. Ele ainda estava lá. Mas agora… havia também algo mais.

O reconhecimento silencioso de que, mesmo num lugar onde o meu nome era uma lupa sobre quem eu sou, ainda existiam pessoas que me viam. De verdade.

⚡🧙


A movimentação nos corredores ia diminuindo à medida que os alunos se preparavam para descer do trem. A agitação se transformava em silêncio aos poucos, como se o Expresso de Hogwarts estivesse se esvaziando por dentro. Eu voltava para o compartimento depois de deixar um recado para a Luna com a monitora da Corvinal — nada demais, só combinando de encontrá-la depois da cerimônia. Mas, ao virar a última curva do corredor, um arrepio subiu pela minha espinha.

Parei no mesmo instante.

Algo estava errado.

Não era o silêncio, nem a ausência de passos, nem o som do trem rangendo. Era outra coisa. Um sussurro de magia no ar. Familiar. Abafada, mas viva. Meu corpo reconheceu antes mesmo que minha mente entendesse.

Me aproximei devagar de uma cabine com a porta entreaberta, os sentidos em alerta. Foi então que ouvi. Um som quase imperceptível — como se alguém ali dentro estivesse prendendo a respiração por tempo demais.

Empurrei a porta com cautela. E congelei.

— Merlim... — sussurrei. — Harry!

Ele estava caído no chão, completamente rígido. A mão ainda segurava a Capa da Invisibilidade, que escorregava pelo ombro. O rosto virado para o lado, o nariz sangrando, os olhos abertos e imóveis.

O mundo pareceu parar por um instante. Meu coração começou a martelar no peito.Me ajoelhei ao lado dele imediatamente, sentindo a adrenalina correr por cada músculo do meu corpo. Reconheci na hora o que era Petrificus Totalus. Mas quem...?

Não perdi tempo, eu sabia que não podia fazer feitiço sem varinha, mas foi mais forte do que eu.

Finite Incantatem.

O feitiço se desfez com um estalo leve, e o corpo de Harry relaxou de imediato. Ele arfou, puxando o ar com dificuldade, os olhos piscando em confusão.

...? — murmurou, a voz fraca e rouca.

— Shhh... não tenta falar ainda — respondi, puxando um lenço do bolso e pressionando com cuidado o sangue que escorria do nariz dele. — Quem fez isso? Foi o Malfoy, não foi?

Ele assentiu, tentando se sentar. Estava fraco. Atordoado.

— Aquele escroto… — sussurrei, sentindo a fúria subir como fogo sob a pele. Olhei ao redor rapidamente e fechei a porta da cabine com um gesto seco.

— Obrigado... — ele disse, ainda tonto. — Por me achar.

Respirei fundo. Tentei domar a tempestade dentro de mim. Mas então vi quando ele levou a mão ao rosto com uma careta. Notei o inchaço ao redor do nariz torto.

— Espera… não se mexe.

Com minha mão direita apontei em direção ao seu nariz. Ele me olhou de relance, como se estivesse se preparando para levar outro feitiço.

— Vai me enfeitiçar?

— Não — respondi, com uma pitada de ironia. — Só consertei seu rosto. Que, aliás, estava bem menos torto ontem.

— Muito gentil da sua parte — retrucou Harry, arqueando uma sobrancelha, enquanto eu sorria de canto, focando no feitiço.

Episkey.

Um estalo seco. Ele recuou levemente com um gemido abafado.

— Tá melhor?

— Ai… sim. Mas ainda lateja.

— Reclama mais um pouco e eu aplico de novo, com mais entusiasmo — provoquei, cruzando os braços.

Ele riu, sem muito convencimento, e me lançou aquele olhar que sempre vinha antes de dizer algo sincero demais.

— Depois de tanto tempo, ainda é estranho te ver lançar feitiços sem varinha.

— É o meu jeitinho — murmurei, sem tirar os olhos dele.

Ficamos nos encarando por um instante. A tensão entre nós era a mesma — ou talvez mais intensa. Como um feitiço silencioso, lançado há muito tempo e nunca desfeito.

E então, quase sem pensar, me inclinei e o abracei.

O gesto me pegou de surpresa tanto quanto o pegou. Seu corpo estava quente, ainda trêmulo. Por um segundo, ele hesitou. Mas depois, me envolveu com os braços, e ali eu senti.

O peso daquele momento.

Não era só um abraço. Era tudo que eu ainda não sabia dizer em voz alta. Tudo que estava se acumulando nos olhares longos demais, nos silêncios carregados. Quando me afastei, nossos olhos se encontraram. Por tempo demais.

— Isso foi...

— Só um abraço — falei, rápido demais.

Mas eu sabia. Não era só isso.

O ajudei a se levantar. Ignorei meu próprio cansaço. A adrenalina ainda me guiava. Mantive a mão firme nas costas dele enquanto caminhávamos pelos corredores quase vazios. O trem rangia nos trilhos, naquele passo preguiçoso de quem está prestes a parar por completo.

— Consegue andar sozinho? — perguntei, em um sussurro tenso.

— Consigo. Tá doendo, mas eu consigo.

O rosto dele ainda tinha uma leve mancha seca de sangue, mas o pior eu já havia limpado. Ele ajeitou a capa do uniforme com pressa, tentando parecer mais apresentável.

— Ninguém pode saber disso — murmurou.

Assenti com seriedade. Ele não precisava explicar.

A porta do trem se abriu com um rangido metálico, e uma rajada de ar frio cortou o corredor. O ar de Hogsmeade sempre parecia mais gélido no primeiro dia do ano. Como se a noite quisesse lembrar a todos que as férias tinham acabado.

A plataforma estava envolta por vapor espesso. Os sons se misturavam: passos apressados, alunos chamando uns aos outros, o bater de asas inquieto dos testrálios. Mesmo com o movimento, tudo me pareceu mais escuro do que deveria.

Harry caminhava ao meu lado. Um pouco mais firme agora, mas ainda visivelmente exausto. O guiei até uma carruagem vazia, afastada das demais. Nenhuma palavra entre nós. Mas havia um acordo silencioso no ar.

Quando a porta da carruagem se fechou, o mundo pareceu ficar mais distante. O som abafado das rodas na estrada, o sussurro das árvores ao redor. E nós dois ali. Só nós dois.

— Você não vai perguntar por que eu estava escondido? — ele quebrou o silêncio, a voz rouca.

— Eu já sei — respondi, sem desviar os olhos da janela. — Você seguiu o Malfoy.

Ele se ajeitou no assento, surpreso.

— Como? — Virei o rosto para ele, devagar.

— Porque eu também ouvi o Malfoy. No trem. Ele e o Zabini. — Harry ficou quieto por um instante, atento.

— O que você ouviu?

— Não muito. Mas o suficiente pra saber que ele está envolvido em algo grande. Ele disse que “o plano está em andamento”… e que “Snape fez o voto”.

Vi os punhos de Harry se fecharem sobre os joelhos.

— Então não é só paranoia minha.

— Nunca foi — falei, firme. — O problema é que ninguém quer ver. Ninguém quer acreditar que o Malfoy já foi tão longe.

Ele me olhou com mais atenção, como se estivesse tentando entender alguma coisa além das palavras.

— E você? Por que você acredita? — Hesitei por um segundo. Depois soltei devagar:

— Porque eu sei como é sentir quando a magia muda. Quando as intenções de alguém escurecem. Em Uagadou, a gente aprende a sentir antes de entender. E desde o início do verão… tudo tem me dito que algo está vindo. Algo que começa por ele.

Ele ficou em silêncio, absorvendo cada palavra. E quando falou, sua voz era mais suave.

— Obrigado… por isso. E por antes. — Dei um meio sorriso, puxando o humor de volta.

— Você vai me dever muitos favores depois disso, Potter.

— Que ótimo — ele resmungou, tentando sorrir também. — Porque não bastava ter que derrotar um Lorde das Trevas.

Rimos baixo. E o silêncio que se seguiu não era mais pesado. Nos olhamos por um instante. E ali, naquela penumbra, onde ninguém podia ver, algo mudou.

Não foi dito.

Mas estava lá.

Alguns feitiços não são lançados. Eles apenas… acontecem. E não podem ser desfeitos.

As velas flutuavam suavemente sobre as mesas do Salão Principal, lançando uma luz quente que parecia brigar com a frieza do céu noturno refletido no teto encantado. As nuvens pairavam pesadas lá em cima, cobrindo as estrelas com um manto espesso, como se até elas estivessem com medo de espiar o que estava por vir.

Parei na entrada do salão, ao lado de Harry. Tínhamos descido juntos da carruagem, mas o silêncio entre nós desde então parecia mais espesso que a neblina de Hogsmeade. Era um silêncio cheio. Carregado. Como se, se um de nós dissesse qualquer coisa, o que aconteceu no trem voltaria a nos engolir.

— Vai pra mesa da Corvinal agora? — ele perguntou, sem me encarar diretamente.

— Aham. E você, pra Grifinória. Como sempre. — Respondi com um sorriso pequeno, discreto demais pro que eu realmente queria mostrar.

Ele assentiu, os olhos me buscando por um segundo breve demais.

— Obrigado de novo… por hoje — disse ele, baixo, como se aquilo fosse segredo demais para ser dito em voz alta.

— Já perdi as contas do quanto me deve, Potter.

Dessa vez, ele riu. Riu de verdade. Não muito alto, mas o suficiente pra quebrar um pouco o peso entre nós. E então se afastou em direção à mesa da Grifinória.

Fiquei olhando até ele desaparecer no meio dos outros alunos. Só depois me juntei aos colegas da Corvinal, sentindo o ar do salão mais denso do que eu lembrava. As conversas entre os calouros soavam abafadas, misturadas ao som de capas roçando no chão e passos cuidadosos. O clima estava estranho, mas o ritual continuava — como se fingir normalidade fosse suficiente para segurar o mundo de pé.

Observei quando Hermione o viu. O jeito como os olhos dela se arregalaram sutilmente e ela se inclinou imediatamente na direção do Rony, sussurrando algo que fez ele erguer as sobrancelhas, confuso. Eu conhecia bem Hermione Granger. Ela notava tudo — especialmente quando se tratava de Harry.

E eu ali, na mesa da Corvinal, sem conseguir decidir o que me deixava mais inquieta: o fato de ele estar machucado… ou o fato de continuar fingindo que não estava.

Foi só quando a primeira nota mágica ecoou pelo salão que me obriguei a olhar pra frente. O Chapéu Seletor estava sobre o banquinho, imóvel, mas no segundo seguinte abriu sua fenda como boca e começou a cantar com aquela voz rouca que soava mais séria a cada ano.

“Nos tempos de união, a magia floresceu, Mas tempos sombrios chegam, e o medo renasceu. Não importa sua casa, nem linhagem ou sangue, O perigo não escolhe, apenas avança e expande. Corvinal, Sonserina, Lufa-Lufa e Grifinória, Sejam laços, não muros — ou perderemos a história. Escutem bem este velho chapéu, Pois até os mais valentes precisarão ser fiéis.”


O silêncio que veio depois foi diferente. Não reverente — pesado. Ninguém se atreveu a rir ou comentar. Até McGonagall parecia mais rígida que o normal ao começar a chamar os novos alunos para a seleção.

Observei com a mente longe. Ainda em Draco. Ainda em Harry. Ainda no que a noite tinha deixado no ar.

Só me reconectei quando senti um cutucão leve no ombro.

— Finalmente de volta — disse Miguel Corner, com aquele sorriso torto que era quase sempre bem-vindo. Do lado dele, Cho Chang acenou, os olhos brilhando com sinceridade.

— Achamos que você ia ficar em Malawi dessa vez — provocou Cho.

— Pensei nisso — respondi, me acomodando entre os dois. — Mas minha mãe disse que Hogwarts precisava de mim. Ainda não decidi se foi elogio ou ameaça.

Rimos. De verdade. Pela primeira vez no dia.

— E como foi lá? — Miguel perguntou, inclinando-se um pouco. Apoiei os cotovelos na mesa, encarando por um instante o brilho das velas acima.

— Quente. Intenso. A magia lá… pulsa diferente. As montanhas sentem quando a guerra se aproxima.

Eles trocaram olhares, fascinados. Era sempre assim quando eu falava da minha antiga escola — como se estivesse descrevendo um lugar mítico, distante, quase lenda.

— Isso é incrível — sussurrou Cho. — Aqui só temos o Snape andando pelos corredores com cara de quem quer lançar Avada em todo mundo.

Soltei uma risada, mas ela morreu rápido. Porque foi aí que meus olhos encontraram Harry.

Ele estava sentado na Grifinória, Gina agora ao seu lado. Os dois riam de algo que o Rony dizia, como se o mundo não estivesse desmoronando. Como se ninguém tivesse quase desmaiado num trem. Como se nada tivesse acontecido. E o olhar dele… aquele brilho leve nos olhos… aquilo me desmontava de um jeito que eu não sabia explicar.

Desviei rápido. Cho percebeu.

— Eles estão...? — perguntou, em voz baixa. Dei de ombros.

— Não sei. — Ela arqueou uma sobrancelha, mas não me olhou de imediato.

— Harry sempre foi intenso… mas parece que esquece fácil. — A voz dela não era amarga. Só carregava uma dor resignada, meio amarga nas bordas. — Um mês atrás, ele mal conseguia me encarar. Agora... olha só.

Mordi o lábio, hesitando.

— Talvez ele só esteja tentando seguir em frente — disse, tentando ser justa. Cho soltou um suspiro, como quem carregava algo entalado há tempo demais.

— É. Fácil pra ele. Difícil pra quem fica pra trás, né? — Fiquei em silêncio por um segundo, pesando minhas palavras.

— Você ficou ao lado da Miranda, Cho. — falei baixinho. — Mesmo depois de saber o que ela fez com a Armada. Você escolheu. — Ela virou o rosto para mim, os olhos faiscando.

— Eu só tentei proteger quem era minha amiga!

— E ele só tentou proteger todo mundo. — rebati, sem alterar a voz. — Ele se sentiu traído. E não foi culpa dele.

O silêncio entre nós ficou cortante. Cho mexeu na manga da túnica, apertando o tecido entre os dedos.

— Você sempre defende ele. Sempre foi assim. — disse, quase como uma constatação amarga. Cruzei os braços, sentindo o peso daquelas palavras.

— Não é defesa cega, Cho. — sussurrei. — É que, às vezes, você precisa escolher onde colocar a sua confiança. E eu escolhi ele.

Ela me encarou por um longo momento, depois desviou o olhar.

— Tomara que você nunca descubra o que é confiar em alguém… e mesmo assim acabar sozinha.

Antes que eu pudesse responder, Cho desviou o olhar, virando-se lentamente de volta para a mesa da Corvinal. Sentou-se mais distante, como se o próprio espaço fosse uma trincheira invisível entre nós.

Fiquei ali, imóvel, com a garganta apertada e uma vontade absurda de gritar para o teto de Hogwarts que nem sempre escolher certo fazia as coisas doerem menos.

Mas, como sempre, me calei. E carreguei o peso da escolha — em silêncio.

Dumbledore apareceu, atravessando o salão com a capa ondulando e aquele jeito de quem carregava o peso do mundo nas costas, interrompendo meus pensamentos. Estava mais curvado do que o normal. Mais velho. Mais cansado.

Ele ergueu as mãos, e o salão silenciou imediatamente.

— Bem-vindos a mais um ano em Hogwarts — começou, a voz firme, ainda que mais contida. — Quero dizer, antes de tudo, que este será um ano diferente. Não farei promessas doces, nem previsões otimistas. Estamos vivendo tempos sombrios, mas é justamente nesses tempos que descobrimos quem somos. União, coragem e verdade serão mais importantes do que nunca. Que este seja um ano de vigilância, mas também de esperança.

As palavras ficaram suspensas no ar por um momento, até que ele continuou:

— E agora, alguns anúncios importantes. Como sabem, tivemos uma mudança no corpo docente — anunciou Dumbledore, a voz ecoando por entre os candelabros flutuantes. — Este ano, a disciplina de Defesa Contra as Artes das Trevas será ministrada pelo professor Severo Snape.

Um burburinho percorreu o salão como uma onda mágica mal contida. Alguns alunos se entreolharam, confusos. Outros, como Harry, pareciam ter levado um tapa invisível no meio do peito.

— E Poções, por sua vez — continuou Dumbledore, sem dar tempo para reações —, será conduzida pelo professor Horácio Slughorn, que retorna ao castelo após uma ilustre aposentadoria. Tenho certeza de que ele trará uma perspectiva riquíssima à disciplina.

Slughorn ergueu uma taça em cumprimento, o sorriso satisfeito de quem já se sente em casa. Do meu lado, Miguel me lançou um olhar de descrença.

— Isso vai dar problema — murmurou.

Eu sabia que esse ano seria diferente, mas agora… agora eu sabia que seria também muito mais perigoso.

⚡🧙


O banquete tinha acabado, mas parecia que o peso da noite ainda pairava sobre meus ombros. As velas do Salão Principal foram se apagando uma a uma enquanto os alunos se dispersavam, e o burburinho das vozes cansadas ecoava pelos corredores de Hogwarts como se a escola inteira suspirasse de exaustão.

O caminho até a Torre da Corvinal parecia mais longo do que eu lembrava. Talvez fosse o peso do que eu estava sentindo desde o trem. O anúncio de Snape como professor de Defesa. O silêncio estranho de Harry. O olhar de Draco. Tudo isso girava dentro de mim como um redemoinho silencioso, impossível de nomear. Mas presente. Vivo.

A porta da torre só se abriu depois que respondi, no modo automático, à charada do dia — nem me lembro o que foi. Subi os degraus devagar, observando os vitrais tingirem o chão de pedra com tons frios e azulados. Tudo parecia mais quieto ali em cima. Quase onírico.

O dormitório já estava mergulhado em penumbra. Algumas colegas dormiam. Luna, como sempre, destoava — deitada de lado, folheava uma edição d’O Pasquim com os olhos semicerrados e uma serenidade que só ela conseguia manter.

Me sentei na beirada da cama, suspirando baixo, e comecei a desfazer a mala. Primeiro os livros. Depois os frascos de poções, um ou dois cadernos que eu mesma costurei nas férias. E então... um grimório, mas não era o meu grimório, era diferente.

Franzi o cenho.

Era de couro escurecido, com marcas de uso, mas sem título. O toque era quente, como se o livro tivesse absorvido o sol de algum lugar muito distante.

Minha mãe?, pensei. Mas quando abri e vi a contracapa, soube que havia algo além.

Um símbolo. Circular, com traços delicados e runas dispostas em padrões concêntricos. Só de encostar os dedos, senti um calor súbito subir pela pele. O símbolo brilhou sutilmente, respondendo ao meu toque como se… me reconhecesse.

Recuei a mão, o coração acelerado. Aquilo não era um simples adorno. Era mágico. Vivo. E — de algum jeito estranho — familiar. Como se o símbolo tivesse me chamado de volta. Fechei o livro com cuidado. Como quem sela algo que não está pronta para abrir.

Deitei, mas o sono não veio fácil. Fiquei ali por longos minutos, encarando o dossel da cama, tentando entender por que aquele símbolo me fazia sentir... observada. Escolhida. Havia algo pulsando nas entrelinhas daquela magia antiga. Algo que sussurrava, mesmo quando o mundo lá fora dormia.

E em algum momento, sem perceber, adormeci.

A Torre da Corvinal ainda dormia sob o manto azul da alvorada. O vento entrava pelas janelas arqueadas e balançava suavemente as cortinas finas, como se sussurrasse um segredo do lado de fora. E o som da floresta, distante, parecia vir de dentro de um sonho.

Acordei com um sobressalto.

Meu coração disparava. Minha respiração estava presa no peito. As imagens ainda queimavam por trás das pálpebras: serpentes entrelaçadas a símbolos flamejantes. O mesmo símbolo do grimório. Pedra negra. Fogo dançando. E alguém murmurando palavras em uma língua que eu não conhecia… mas que ecoava dentro de mim.

Me sentei na cama, levei as mãos ao rosto. Tentei me acalmar. Depois me estiquei até o criado-mudo e puxei meu diário — capa escura, sem título, trancado com um fecho de prata simples.

Abri o diário com agilidade, e sussurrei o feitiço:

Revelare — sussurrei.

As páginas se iluminaram suavemente. A superfície branca deu lugar a um véu de névoa líquida. Comecei a escrever com dedos trêmulos:

Serpentes. Fogo. Símbolo de novo. Sons antigos. Voz sem rosto. Medo que não é meu. Mas é como se fosse.


Assim que terminei a última palavra, as frases começaram a se apagar, sendo engolidas por uma fumaça invisível. Fechei o diário com um estalo suave e me encostei na cabeceira, tentando recuperar o fôlego.

— Você sonha acordada às vezes?

A voz veio à minha direita. Me virei. Era Luna. Ela estava ali, em pé, com os cabelos despenteados e os olhos mais arregalados do que o normal — como se já soubesse a resposta. Ou como se tivesse visto o sonho.

— Não... só pesadelos — respondi, ainda tentando processar. Luna assentiu, pensativa.

— O mundo anda mais barulhento nos sonhos ultimamente. Como se eles estivessem tentando se libertar da gente. — A encarei.

— Isso é coisa do Pasquim ou você realmente acredita nisso?

— Um pouco dos dois — disse ela, se sentando ao meu lado na cama. — Mas acho que alguns sonhos não pertencem a quem os tem.

— Como assim?

— Como se fossem... mensagens emprestadas. Ou memórias tentando encontrar uma nova casa.

Fiquei em silêncio. As palavras dela vibraram em mim de um jeito incômodo e íntimo. Pensei no símbolo. No fogo. Na serpente. No arrepio que ainda não tinha passado. A conversa ficou ali, suspensa no ar, como uma névoa que não sabia se deveria se dissipar ou se aprofundar. Me levantei devagar, o sonho ainda grudava na pele.

⚡🧙


O café da manhã passou como um borrão. Eu tinha me sentado na mesa da Grifinória, bem entre Hermione e Rony, com Harry do outro lado. Rony reclamava do pão, esfarelando a crosta como se fosse o culpado pelas férias terem acabado. Hermione falava sobre reorganizações na biblioteca com a animação de quem acabara de ganhar uma coleção nova de livros. E Harry... Harry parecia ausente. Como se o que aconteceu no trem tivesse deixado mais do que um nariz quebrado. Como se tivesse deixado um peso invisível sobre os ombros.

E Draco? Nem sinal dele naquela manhã. Nem uma sombra prateada cruzando o salão. Mas eu notei e não fui a única.

Depois do café, fomos liberados para as aulas. Mochilas pesadas, cadernos ainda limpos, caldeirões debaixo do braço — a coreografia habitual do primeiro dia de Hogwarts.

A primeira aula do ano era Poções. Claro.

O porão cheirava a raiz de valeriana antes mesmo de eu entrar. Os caldeirões já estavam sendo arrastados, frascos tilintando em mesas antigas. Me acomodei num dos bancos de madeira escura, com o jaleco por cima do uniforme e o cabelo preso num coque alto.

Slughorn estava lá, animado como quem preparava uma festa. Bigode espesso, rosto vermelho, e um entusiasmo quase constrangedor.

— Ué, vocês por aqui? — falei quando vi Harry e Rony entrarem.

— Pois é — disse Rony. — A gente achava que não continuaria em Poções. O Snape era exigente demais e nossos N.O.M.s foram… digamos, só “aceitáveis”.

— Mas o Slughorn resolveu mudar as regras — completou Harry. — E agora estamos aqui. Sem livros.

— O professor resolveu isso — disse Hermione, apontando para pilha de livros gastos.

Harry e Rony correram para pegar os seus. Eu já estava sentada ao lado da Hermione, observando os dois com um meio sorriso. Harry voltou com um exemplar gasto, todo rabiscado. O nome do antigo dono havia sido riscado com força. No lugar, em letras firmes e escuras:

Este livro pertence ao Príncipe Mestiço.


— “Príncipe Mestiço”? — repetiu Hermione, franzindo o cenho.

— Nome criativo, no mínimo — murmurei, me inclinando para olhar as margens cheias de anotações. — Olha isso... tem fórmulas alternativas. Runas, também.

— Runas? — Harry se aproximou.

— Do sul da África. Uagadou ensina a reconhecer algumas. Encantamentos ancestrais, ou só símbolos de proteção, mas são poderosas.

— Então o tal Príncipe era inteligente — disse Rony.

— Ou inconsequente — rebateu Hermione, desconfiada.

Slughorn bateu palmas, cortando a conversa.

— Hoje, turma, começaremos com estilo: Poção do Morto-Vivo!

A sala explodiu em murmúrios. Claro. A mais complexa de todas logo de cara. Slughorn explicou que a melhor poção da aula ganharia um frasco de Felix Felicis. Sorte líquida. Poderosa, instável e valiosa.

Hermione e eu nos entreolhamos, como quem aceita um desafio sem dizer uma palavra. Ela seguiu o livro com precisão. Eu fiz o mesmo, mas guiada mais pela intuição do que por medidas exatas — jeito de Uagadou. Sentir, antes de executar.

Mas Harry… Harry seguia outra receita. A do Príncipe.

— Você está cortando o beozar? — Hermione sussurrou, horrorizada.

— O Príncipe diz que triturar atrapalha.

— E você acredita nisso?

— Só tem um jeito de descobrir.

Hermione bufou. Eu só observava, alternando entre meu próprio caldeirão e a curiosidade crescente sobre aquele livro rabiscado. No fim da aula, a poção de Harry era perfeita. Vapor prateado. Espirais suaves. Tudo exatamente como Slughorn descreveu — ou como o Príncipe previu.

— Extraordinário, Sr. Potter! — exclamou o professor. — Sua recompensa: Felix Felicis.

Harry pegou o frasco dourado com um sorrisinho de vitória. Hermione estava com a expressão tensa.

— Isso foi sorte — disse ela, mas o tom era ácido.

— Ou foi o Príncipe — murmurei, ainda observando as runas desbotadas.

— Eu não confio nesse livro — declarou Hermione. — Feitiços desconhecidos. Poções alteradas…

— Pode ser perigoso — admiti. — Mas às vezes é justamente aí que os maiores segredos estão. Nas margens.

Hermione não respondeu. Apenas franziu ainda mais a testa, como se tentasse decidir se estava irritada comigo, com o livro ou com o mundo inteiro. A expressão dela permaneceu assim até o fim da aula, firme como uma advertência silenciosa.

O barulho de caldeirões sendo fechados, frascos recolhidos e bancos arrastando sobre o chão encerado começou a tomar conta do porão. O cheiro forte de raiz de valeriana ainda pairava no ar, impregnado como fumaça de uma magia que não queria ir embora.

Harry, de pé ao lado da mesa, guardava o livro com um cuidado quase ritualístico. Como se o objeto, agora, fosse mais do que um caderno de anotações antigas. Como se fosse... um talismã. Um presságio. Ou um aliado inesperado.

Esperei até ele terminar.

— Potter. — Ele se virou, a sobrancelha erguida. — Preciso olhar seu livro.

— Agora?

— Sim. Tem anotações nas margens que reconheci, quero comparar com meu grimório. Prometo devolver amanhã. — Ele hesitou.

— Esse livro deu sorte hoje… — Cruzei os braços e sorri de lado.

— Você me deve.

— Devo?

— Consertei seu nariz. Disfarcei seu ataque desastrado. E salvei sua reputação mais vezes do que você tem cicatrizes de batalha para contar. — Ele bufou uma risada, vencido.

— Você é bem convencida.

— Não. Eu só tenho memória boa. E um jeitinho excelente pra conseguir o que quero. — Ele me entregou o livro, com um último olhar quase cúmplice.

— Cuida bem. O Príncipe Mestiço pode ser maluco… mas parece saber das coisas.

Peguei o livro com cuidado. E pensei, enquanto sentia as runas sob meus dedos: talvez esteja mesmo na hora de começar a ler o que ninguém nunca teve coragem de entender.

⚡🧙


O Salão Principal estava mais barulhento do que nunca no almoço. Os corredores ecoavam comentários apressados sobre as primeiras aulas e os boatos mais frescos — como se o castelo inteiro precisasse se atualizar antes que a próxima ameaça batesse à porta. Sentei-me entre Miguel e Luna, que equilibrava com impressionante destreza um prato de purê e ervilhas de um lado e uma revista do O Pasquim do outro.

— Primeira aula do ano e o Slughorn já quer pôr a gente pra dormir de vez — Miguel resmungou, empurrando uma batata assada pelo prato. — Poção do Morto-Vivo no primeiro dia. Isso devia ser proibido.

— Ele só quer separar os brilhantes dos que vão explodir o caldeirão antes da terceira mexida — murmurei, mordendo uma fatia de pão.

— Pode ser uma metáfora — Luna disse, ainda folheando a revista. — Alguns professores gostam de ver o que emerge da fumaça.

Miguel parou de mastigar.

— Ahn… tá.

Sorri de canto. A presença dos dois era reconfortante à sua maneira — Miguel com seu sarcasmo constante, Luna com sua lucidez camuflada de loucura. Mas, mesmo ali no meio da conversa, meus olhos varriam o salão.

Procurando. Esperando.

Draco Malfoy não estava à mesa da Sonserina. E aquilo me incomodava mais do que eu gostaria de admitir. Tentei fingir distração, empurrando a comida sem muita vontade. Mas a inquietação se arrastava dentro de mim como uma sombra que sabia demais.

Assim que os pratos começaram a desaparecer magicamente, me despedi com uma desculpa qualquer. Nem deixei tempo pra Luna comentar sobre algum Narguilufo perdido nos telhados.

Os corredores estavam relativamente vazios, mas vivos — as armaduras sendo polidas sozinhas, os reflexos das janelas criando movimentos nas paredes que pareciam fantasmas distraídos. Foi perto da escadaria leste que eu o vi.

Draco.

Andava sozinho, os passos firmes, o rosto mais pálido do que o normal. Parecia evitar os salões principais como se estivesse em missão — ou fugindo de ser visto. Encostei-me na parede de pedra, o coração disparando como se antecipasse algo.

"Plano em andamento. Snape fez o voto."

As palavras que ouvi no trem voltaram com força, como se tivessem sido gravadas na minha pele.

Antes que pudesse pensar duas vezes, comecei a segui-lo.

Silenciosa. Cuidadosa. Como aprendi em Uagadou, e em Hogwarts também — onde andar sem ser vista era parte da minha sobrevivência. Aproveitei as sombras, os cantos, e até os feitiços disfarçadores que costumava usar para escapar de encontros indesejados com professores.

Draco seguiu até o sétimo andar. Um corredor que, àquela hora, estava estranhamente deserto. Parei ao vê-lo diante de uma parede vazia, me escondi atrás de uma armadura, observando.

Ele andou de um lado para o outro, três vezes, o olhar fixo na parede como se esperasse que ela falasse com ele.

Eu conhecia aquele lugar. Conhecia bem.

A Sala Precisa.

— Não pode ser... — murmurei para mim mesma.

E então, como se meus pensamentos tivessem sido ouvidos, uma porta surgiu. Sólida. Silenciosa. Onde antes só havia pedra.

Draco entrou.

A porta desapareceu.

Fiquei ali, o fôlego preso, sentindo a magia no ar — como se o castelo tivesse acabado de engolir um segredo. Dei um passo à frente, sem saber se deveria me aproximar, quando uma voz cortou o ar atrás de mim, fria e carregada de ironia:

— Curioso, não é, ?

Me virei rápido. Mas não surpresa.

Blaise Zabini estava encostado casualmente na parede oposta, os braços cruzados, expressão quase entediada. Mas os olhos... os olhos me analisavam com aquela calma de predador satisfeito — como se eu fosse uma relíquia valiosa que ele ainda não decidira se queria possuir ou destruir.

— Quanta gentileza em anunciar sua presença — retruquei, com um sorriso ladeado de veneno. — Achei que os espiões da Sonserina preferissem o silêncio.

— Não somos espiões. Só… observadores atentos. — Ele descruzou os braços e deu um passo em minha direção. — E alguns de nós têm o péssimo hábito de notar quando alguém resolve brincar com corredores proibidos.

Ergui o queixo, firme.

— Hogwarts tem mais corredores vazios do que alunos dispostos a se meter neles.

— Verdade. Mas nem todos deixam rastros interessantes.

Ele parou diante de mim. Perto demais. Suficientemente perto para que eu sentisse o perfume sutil dele — algo amadeirado, denso, com um fundo escuro e perigoso. A voz dele baixou, quase conspiratória.

— Sua apresentação no clube do Slughorn foi... instigante — disse. — Mas não foi isso que mais me chamou atenção.

— Minha habilidade em calar perguntas inconvenientes? — O sorriso dele surgiu de canto, preguiçoso e cheio de segundas intenções.

— Sua beleza e sarcasmo são bônus, claro. Mas não. O que mais me intriga… — ele inclinou o rosto só o bastante para a voz quase roçar minha pele — ...é o que você está tentando esconder de todo mundo. Igual no quarto ano.

Meus olhos estreitaram no ato.

— Você tem boa memória — rebati, seca. Ele riu, um som baixo e perigoso.

— Como poderia esquecer? — murmurou. — Você, os corredores da biblioteca… e aquele beijo que você finge até hoje que não aconteceu.

Cruzei os braços.

— Foi só um erro de cálculo. — retruquei, com desdém.

— Então me deixe repetir o erro. — Blaise sussurrou, a centímetros de distância.

Antes que eu pudesse pensar — e talvez porque parte de mim não quisesse pensar — Blaise se inclinou e me beijou.

Foi breve. Mas não inofensivo.

O calor dos lábios dele era urgente, quase insolente, e o toque inicial foi firme, como quem queria provar um ponto. A mão dele roçou de leve minha cintura, puxando-me num movimento instintivo, como se a familiaridade entre nós nunca tivesse se perdido.

Por um segundo, um único segundo, minha mão agarrou o tecido do uniforme dele, puxando-o mais para perto. Como se a memória daquele beijo antigo tivesse ficado guardada em alguma dobra esquecida do meu corpo. A sensação era quente, quase perigosa — e completamente errada.

Empurrei-o de leve, sentindo o coração disparado pelas razões erradas. Nossos rostos ficaram a poucos centímetros um do outro, o hálito dele ainda misturado ao meu.

— Isso fica entre nós — sussurrei, a voz rouca, tentando recuperar o controle.

Blaise sorriu devagar, aquele sorriso preguiçoso que dizia que ele sabia exatamente o que tinha feito comigo — e que, mesmo assim, não significava mais do que um segredo entre quatro paredes de pedra.

— Sempre — respondeu, antes de se afastar com a calma provocadora que era só dele.

Fiquei ali, sozinha no corredor vazio, tentando convencer a mim mesma que aquilo não significava nada. E, em algum nível, sabendo que o que realmente importava... era da Grifinória, e seus pensamentos estavam em outra pessoa.

⚡🧙


Menos de uma hora depois, me enfiei nos fundos da biblioteca. Determinada a ir mais fundo. A entender o símbolo do grimório, o dos sonhos, o que eu encontrara no livro do Príncipe Mestiço.

A biblioteca era um templo. Teto alto. Janelas arqueadas. O cheiro de pergaminho envelhecido me acalmava. Me instalei na mesa mais afastada, com livros espalhados em volta: Runas Antigas, Símbolos Mágicos e Suas Origens, Encantamentos Primordiais da África Ocidental. Nada trazia o que eu precisava.

Abri o grimório.

O símbolo na contracapa parecia brilhar por dentro. As linhas circulares, entrelaçadas como fogo em espiral. Aquilo não era só um desenho. Era um chamado, um convite.

Continuei pesquisando, anotando mentalmente qualquer semelhança. Mas tudo parecia... raso. Como se os livros comuns não tivessem permissão para tocar a magia real.

— Você parece obcecada com esse símbolo.

Ergui os olhos.

Hermione.

Ela estava ali com dois livros nos braços, cenho franzido, o olhar de quem já chegou pronta para um debate.

— Estou tentando entender — respondi, fechando um dos volumes com mais força do que queria.

— É só um símbolo, . Um enfeite de contracapa. Talvez nem tenha significado mágico real.

— Eu sonhei com ele hoje de manhã. — Ela se sentou, seu olhar mudou.

— Sonhou como?

Contei. Do fogo, das serpentes, da voz em uma língua antiga, do diário e de Luna dizendo que às vezes os sonhos não pertencem a quem os tem.

— Luna também acredita em cebolas cósmicas — murmurou Hermione. Sorri.

— Eu sei. Mas às vezes acho que ela vê coisas que a gente escolhe não ver.

Hermione me olhou de forma estranha. Como quem está prestes a dizer “cuidado” sem usar a palavra.

— Você acha mesmo que tudo isso está conectado?

— Acho que… algo está tentando me mostrar alguma coisa. E eu não sei se tô pronta pra ver.

Foi então que ela viu o livro em minha frente.

— Esse é o exemplar do Harry? — Assenti.

— Pedi emprestado. Disse que queria comparar umas runas com meu grimório.

— E ele te deu?

— Pedi com jeitinho. — Ela quase riu, mas disfarçou com um suspiro. Seguimos examinando o livro. Até que parei. — Aqui. Essa runa.

Pequena. Discreta. No canto de uma receita. Espiralada com um ponto no centro. Hermione achou que fosse um rabisco, mas eu não.

Abri o grimório.

Mostrei. A runa estava lá.

Runa de Escuta Ancestral: para ouvir o que ainda não foi dito. Para sentir o que está sendo escondido.

— Quem escreveu isso no livro do Harry sabia mais do que poções, Mione. Sabia de magia antiga, isso não é só uma correção de receita. É uma assinatura.

Hermione respirou fundo, como quem pondera um limite que não quer cruzar.

… magia poderosa demais sempre cobra um preço.

Não respondi de imediato. Mas meus dedos ainda estavam sobre a runa. E eu podia jurar… ela estava falando comigo.

Continuei investigando cada detalhe do livro. Passei um tempo cruzando símbolos com meu grimório, tentando decifrar os padrões escondidos nas margens. Algumas das anotações usavam variações de runas do sul da África — não apenas como adorno, mas como forma de canalizar intenção. Era como se cada página carregasse mais do que tinta. Carregasse história. Segredo.

⚡🧙


O Salão Principal estava... estranho.

As velas flutuavam sobre as mesas como sempre, mas suas chamas pareciam mais tímidas, como se até o fogo estivesse cauteloso. O teto encantado mostrava um céu encoberto, carregado, e havia algo no ar — uma quietude desconfortável. Hogwarts parecia respirar devagar, como se esperasse por um susto.

Entrei junto com os alunos da Corvinal, e mesmo sem querer, meus olhos varreram o salão. Um hábito, talvez. Ou instinto. Harry estava conversando com Rony e Hermione, e embora tentasse parecer relaxado, dava pra ver o maxilar tenso, os ombros um pouco mais rígidos do que deveriam. Gina estava ali também, próxima... mas não com ele. Havia um espaço entre os dois que parecia cheio de palavras não ditas.

Me forcei a continuar andando.

Na nossa mesa, Miguel Corner contava alguma história sobre um feitiço que deu errado em Herbologia — aparentemente, alguém acabou com raízes nas orelhas. Luna o ouvia com atenção genuína, enquanto enfileirava ervilhas no prato como se estivesse mapeando o céu.

Me sentei ao lado deles, tentando entrar no ritmo da conversa, mas minha cabeça estava... em outro lugar. Ou em vários ao mesmo tempo.

— Você está esquisita — Miguel disse, sem filtro, me cutucando com o cotovelo e aquele sorriso de quem acha que tá sendo sutil.

— Sou naturalmente esquisita — respondi, no automático.

— Não do seu jeito usual. Esquisita tipo... “vendo sombras em corredores proibidos” esquisita.

Fingi uma risada que provavelmente enganaria até um trasgo. Mas Miguel continuou comendo como se não tivesse acabado de encostar numa ferida. Luna, por outro lado, me observava com aquele olhar translúcido e misterioso, como se enxergasse por dentro da pele.

— Alguns dias são mais densos que os outros — ela murmurou, mais para o prato do que pra mim. — Como se o ar carregasse peso de profecia.

Fiquei parada por um segundo, o garfo suspenso no ar.

— E esse é um desses dias?

— Com certeza — ela respondeu, como se falasse da previsão do tempo.

Voltei a comer em silêncio, cada garfada mais por obrigação do que por vontade. A comida parecia insossa, distante. Os risos, os talheres, os murmúrios — tudo contrastava com o que eu sentia por dentro: uma tensão silenciosa. Como se algo estivesse ali, esperando o momento certo para se mostrar.

De volta ao dormitório, não disse nada. Só fechei a porta devagar, como se o silêncio pudesse me esconder do que estava sentindo. As outras meninas já estavam em seus cantos, algumas lendo, outras se preparando para dormir. Passei por elas como se fosse feita de neblina.

Guardei o grimório com cuidado, o livro do Harry, o diário. Tentei não fazer barulho. Tentei não pensar em nada. Mas antes que eu pudesse apagar a vela com um sopro, duas batidas suaves — e impacientes — na janela da Torre me fizeram virar.

Corujas.

— Já era hora — murmurei, abrindo o vidro.

A primeira pousou com um leve sacudir de penas, trazendo um envelope amassado, com a caligrafia torta e desleixada que eu reconheceria de longe: Tonks.

Pequena Corvinal,

Ainda inteira? Espero que sim. Aqui as coisas estão um caos — o que, francamente, é um bom sinal. Pelo menos não está tudo silencioso demais.

Me disseram que você andou sentindo... coisas. Confia nos instintos e confia em você. Qualquer coisa, manda uma coruja (ou um sinal místico ancestral, sei lá).

Ah, e por Merlin, tenta não se meter em encrenca. Mentira, se for inevitável, pelo menos ganha a briga.

Beijo,

Tonks (atualmente com cabelo azul. Longa história.)


Não consegui evitar. Sorri sozinha. Sacudi a cabeça, abraçada por aquele tipo de afeto que só a Tonks sabia escrever — meio sarcasmo, meio proteção, totalmente dela.

Mas então, a dúvida veio.

“Me disseram que você andou sentindo... coisas.”

Franzi o cenho.. Como Tonks sabia?

A sensação de calor da carta deu lugar a um arrepio sutil. Um fio de pensamento desconfortável. Porque, se Tonks sabia… talvez mais gente soubesse também. E, de repente, não parecia tão seguro carregar aquele segredo só comigo.

A segunda coruja chegou com mais estilo — explodiu uma pequena chuva de purpurina azul assim que o envelope se abriu. Pólvora mágica. Confetes no travesseiro. Só podia ser dos Weasley.

Prezada , a mais brilhante das corujinhas da Corvinal!

Está oficialmente convidada para conhecer a nova filial da loja de logros mais sensacional do século — Gemialidades Weasley, agora com 25% mais caos e o dobro de fogos!

Sabemos que seu gosto por confusão bem feita e feitiços não convencionais nos torna aliados naturais.

Traga bom humor, reflexos rápidos e disposição para rir até perder pontos da casa.

Com saudades,

Fred & George (os gênios — aceitamos elogios e visitas espontâneas)

Rangi os dentes para segurar uma risada mais alta. Era esse tipo de coisa que me lembrava que, mesmo no meio do caos, o mundo ainda tinha luz. Mesmo que em forma de glitter explosivo e cartas cheirando a travessuras.

Guardei as duas com cuidado, como quem guarda um lembrete de que existe vida fora das sombras. Depois apaguei a vela com um sopro.

Mas o sono... demorou a vir.

E quando veio, trouxe o que eu já esperava.

Sonhei de novo.

O símbolo estava lá — brilhando como fogo líquido, pulsando em espirais. Mas dessa vez, não estava sozinho.

Uma figura encapuzada surgiu no centro da luz. O rosto oculto por sombras, mas os olhos… dourados. Intensos. Quase humanos, mas não totalmente. Havia algo errado naqueles olhos. Como se me enxergassem por dentro, através do tempo e da carne.

A figura ergueu a mão, e no centro da palma… uma serpente. Gravada com perfeição. Igual à do símbolo do livro.

Tentei falar. Nada saiu.

Tentei correr. As pernas não se moveram.

Ela veio em minha direção. Devagar. Como quem sabe que não precisa correr pra alcançar. E quando estava perto o suficiente pra me tocar…

Acordei.

O corpo suado. O coração disparado. O peito arfando.

Fiquei ali, deitada, encarando o teto azul-acinzentado da torre, ouvindo o som da minha respiração tentando reencontrar o ritmo. A runa ainda queimava atrás dos olhos. O rosto, também.

Não sabia o que aquilo significava. Ainda.

Mas uma coisa era certa: algumas verdades não se escondem. Elas apenas esperam que você esteja pronta para vê-las.


A biblioteca estava quase vazia quando resolvi que já era o bastante. Os poucos alunos que ainda restavam pareciam ter se fundido às páginas dos livros, como se os próprios livros os tivessem engolido e digerido com silêncio e poeira antiga.

Eu folheava distraidamente um capítulo sobre ingredientes voláteis e suas propriedades instáveis, mas minha cabeça estava longe. Miguel, do meu lado, rabiscava num pergaminho que mais parecia um campo de batalha. A pena dele travava guerras contra o papel e vencia só pelo cansaço.

— Miguel — murmurei, sem tirar os olhos da ilustração da poção borbulhante —, você vai explodir esse dever se continuar escrevendo assim.

— Se explodir, viro exemplo para posteridade — respondeu, bocejando. — Slughorn vai me usar como aviso nas próximas décadas. “Vejam, jovens, a tragédia da mandrágora mal anotada.”

Ri baixo e fechei o livro com cuidado, como quem guarda um feitiço perigoso.

— Eu vou voltar pra torre. Já entendi mais do que precisava por hoje.

— Eu fico. Tô quase sacando a lógica das pétalas de mandrágora. “Quase”, tá? Não me julga.

— Boa sorte com isso.

Recolhi minha mochila e saí da biblioteca em silêncio. O castelo estava mergulhado naquela penumbra azulada que só Hogwarts tem à noite. As pedras começavam a gelar, e meus passos pareciam alto demais nos corredores vazios.

Peguei um atalho pelo terceiro andar, desviando da ala das armaduras — elas sempre reclamavam quando passava tarde por ali. Mas, na curva do corredor, algo mudou.

O ar... vibrou.

Não como um vento. Como uma presença.

Parei.

O corredor estava vazio. Mas eu não estava sozinha. Tinha certeza disso.

Mais três passos. E então vi.

A porta.

Madeira escura, entalhada com a fênix dourada — a entrada do escritório do diretor. Sempre selada e imponente. Mas agora... agora havia algo ao redor dela, no ar. Um calor silencioso, uma vibração sutil, mágica, quase viva.

Me aproximei devagar, como se o chão estivesse chamando meu nome.

Foi então que ouvi.

Sussurros.

Não era som, era uma sensação. Uma língua que eu não conhecia, mas que parecia me reconhecer. As palavras flutuavam como fumaça, e por um instante, juro, tive a impressão de que a própria pedra murmurava.

Estendi a mão e toquei a parede ao lado da porta. A imagem veio na hora, não sonho ou imaginação, era memória.

Uma casa. Ruínas. Paredes quebradas. Um campo seco. Árvores que pareciam mãos torcidas apontando para o céu. E no centro disso tudo, uma mulher. Em pé à porta.

Ela me olhou.

Cabelos soltos, olhos tristes, corpo curvado como se carregasse séculos de dor. E na maçaneta da porta, enrolada como um segredo: uma serpente. Viva? Símbolo? Maldição?

Não sei.

Afastei a mão num sobressalto. Meu peito doía. Olhei ao redor, esperando... alguma coisa. Um som, ou um aviso, mas nada.

Tudo imóvel de novo. Como se o corredor tivesse me devolvido ao tempo presente e fechado a cortina na minha cara. Respirei fundo e pressionei os dedos contra a palma da mão.

Aquilo não era imaginação. Mas também não tinha explicação. Ainda não.

Voltei a andar e guardei o que vi naquele canto da mente onde se escondem as perguntas que ninguém ainda teve coragem de fazer.

A Torre da Corvinal estava quieta quando entrei. Não troquei de roupa. Não falei com ninguém. Só deitei, olhando o teto encantado girar com as constelações azuis, e deixei os pensamentos se emaranharem com as estrelas.

Sussurros.

A mulher.

A serpente.

O castelo havia deixado um segredo cair no meu colo. E eu... ainda não sabia se queria carregá-lo.

Tentei dormir. Chá de menta. Feitiço de relaxamento… mas nada funcionou.

Quando o céu começou a clarear, eu ainda estava sentada na cama, abraçada ao grimório como se ele fosse um escudo contra o que não dava para nomear. Cho se mexeu na cama. Miranda também.

— Tá tudo bem? — perguntou Cho, ainda sonolenta.

— Você parece... estranha — disse Miranda, sentando-se. Me virei, prendendo o cabelo com calma.

— Tá tudo certo. Só não dormi o suficiente.

Elas trocaram olhares, mas não insistiram.

Peguei minha mochila e desci as escadas com passos leves.O Salão Principal estava barulhento, como sempre. Talheres, vozes, corujas, risadas, mas para mim, tudo parecia abafado, como se estivesse ouvindo o mundo debaixo d’água.

Parei em frente à mesa da Corvinal.

Luna lia O Pasquim de cabeça pra baixo. Miguel discutia com Cho sobre alguma teoria de poção que envolvia lesmas. Tudo ali parecia alto demais, colorido demais, distante demais.

Me virei para a mesa da Grifinória. Harry, Rony e Hermione estavam ali, os lugares ao redor ainda meio vazios. Um silêncio diferente pairava entre eles. Às vezes, quando precisava de silêncio... era ali que eu me sentava. E hoje, precisava mais do que nunca.

— Você tá com uma cara péssima — foi o que Rony disse quando me sentei. Delicado como uma vassoura no meio da cara. — Tipo “acabei de escapar de um dementador” péssima.

Hermione o fulminou com os olhos. Harry não disse nada, mas me olhou. Aquele tipo de olhar que escutava sem precisar de palavras. Passei a mão no rosto, peguei uma torrada, mas nem tentei comer.

— Eu não dormi. — Minha voz saiu crua. — Tive uma... experiência estranha ontem.

Eles se calaram.

Contei.

O corredor. A vibração. A parede. O toque. A visão da casa. A mulher. A serpente. Omiti o medo. A sensação de ser observada. O arrepio na espinha. Algumas coisas eram só minhas, ainda.

— Isso foi ontem à noite? — Harry perguntou, mais baixo. Assenti. — Depois a gente conversa. Com calma — foi tudo que respondeu.

Hermione tocou levemente no meu braço. A sineta tocou. Hora da primeira aula.

Transfiguração.

Fomos juntos, mas Harry ficou um pouco atrás. Andava em silêncio. Pensando. E mesmo com a cabeça pesada, percebi: tinha algo nele diferente. Algo que estava se movendo também.

Na sala de aula, McGonagall já nos esperava. Rígida. Impecável. As palavras no quadro negro já eram suficientes pra dar arrepios:

“Transfiguração Humana: modificação localizada e reversível de atributos corporais.”

Me sentei ao lado de Hermione. Rony bocejava. Harry tentava parecer normal, mas não conseguia.

— Hoje começamos o conteúdo mais delicado do ano — McGonagall anunciou. — Erros aqui são dolorosos. Ou embaraçosos. Ou ambos.

A turma riu, nervosa. Ela demonstrou. A mão virou uma pata felina em segundos. Elegante. Precisa.

— Agora é com vocês.

Varinhas em mãos, fechei os olhos, respirei e deixei fluir. Não forcei, ou controlei, só senti, como me ensinaram em Uagadou. Minhas pontas dos dedos se alongaram. Os ossos mudaram. E, quando abri os olhos, lá estava: pata felina perfeita, pelos macios, garras retraídas.

Silêncio absoluto na mesa.

— Impressionante, Srta. — disse McGonagall. — Elegância e controle. Uma combinação rara.

Assenti com um sorriso discreto. Nada de arrogância. Só... tranquilidade. Hermione sussurrou ao meu lado:

— Eu sabia que você era boa. Mas isso foi... uau.

— Lá em Uagadou a gente aprende Transfiguração antes de escrever o próprio nome — murmurei, dando de ombros.

Harry ainda me olhava. Não com surpresa, mas com... reconhecimento. Como se tivesse se lembrado, por um instante, de quem eu era. Do que eu carregava.

Desfiz o feitiço com facilidade. Voltei à normalidade, ou algo próximo disso. Quando a aula terminou, McGonagall passou pela minha mesa de novo. Abaixou o tom:

— Srta. , o professor Dumbledore gostaria de vê-la depois do almoço.

Parei. Assenti.

O mundo girava.

E alguma coisa, dentro de mim, estava começando a despertar.

— Ele disse o motivo? — perguntei, baixando a varinha e tentando manter o tom leve, mesmo com o coração já acelerado.

— Não. Mas o tom... não era de repreensão. — McGonagall arqueou uma sobrancelha, naquele jeito enigmático e só um pouco orgulhoso que ela dominava com perfeição. — E, se me permite dizer... há poucos alunos em Hogwarts que conseguem executar uma transfiguração como a sua. Especialmente num dia que, claramente, não começou fácil.

Senti o peito apertar, uma pontada silenciosa que não era exatamente medo — mas também não era só ansiedade. Era como se algo estivesse se preparando dentro de mim, tomando forma no escuro.

Assenti, engolindo em seco.

— Obrigada, professora.

Ela me lançou um pequeno sorriso e voltou ao centro da sala, encerrando a aula como se não tivesse acabado de soltar uma bomba em minhas costas.

Enquanto guardava o material, meus pensamentos já estavam longe dali. Muito antes de subir até o escritório do diretor, algo em mim já sabia: alguma coisa estava prestes a ser revelada. E eu não estava certa se estava pronta para ouvir.



O céu parecia mais pesado quando caminhei pelos corredores vazios que levavam à torre de Dumbledore. Nuvens densas se acumulavam do lado de fora, e uma brisa fria serpenteava pelas pedras do castelo. Tudo tinha um ar suspenso, como se até Hogwarts estivesse prendendo a respiração.

A gárgula girou devagar assim que murmurei a senha que McGonagall havia me dado: Sorvete de gengibre.

Clássico.

Subi os degraus em espiral sentindo o coração bater alto — não de medo, mas de... antecipação. Como quem entra em um lugar onde o tempo se dobra.

A porta se abriu com um rangido suave. Dumbledore estava de costas, em pé, observando a luz que filtrava pelas janelas arqueadas. Seu manto roxo roçava o chão com suavidade, e Fawkes soltava um canto baixo e melancólico, como se já soubesse o que estava por vir.

— Srta. — disse ele, sem se virar —, fico feliz por ter vindo.

— A professora McGonagall disse que o senhor queria falar comigo — respondi, mantendo a postura firme, mesmo com as mãos suando levemente.

— De fato. E a senhorita sabia, não sabia?

Ele se virou então, os olhos brilhando por trás dos óculos de meia-lua. Um brilho que eu não sabia dizer se era sabedoria, provocação ou apenas o reflexo de algo que eu ainda não conseguia enxergar.

— Sabia? — repeti, hesitante.

— Não exatamente. Mas... sentiu. — Ele sorriu, e aquele sorriso parecia conter mil respostas e nenhuma. — A magia antiga costuma sussurrar antes de falar alto. Nem todos conseguem ouvi-la. E menos ainda sabem escutá-la.

Dei um passo à frente, sentindo o corpo todo em alerta.

— O que o senhor quer dizer com... escutar?

Dumbledore apontou para uma poltrona diante de sua mesa. Sentei-me, tensa, ainda sem saber se estava ali para receber um segredo ou uma responsabilidade.

— Seu pai era muito parecido com você — comentou de repente, com a voz suave, como se puxasse um fio da memória. — Observador. Curioso. E dono de uma magia inquieta. Ele estudou em Hogwarts nos mesmos anos que Tiago Potter e Sirius Black, sabia?

Assenti, surpresa com a menção.

— Sabia que eles se conheciam, mas... meu pai nunca falou muito sobre isso.

— Ele foi um aluno brilhante. Teimoso, às vezes. — Um brilho leve atravessou os olhos de Dumbledore. — Conheceu sua mãe em uma conferência internacional sobre combate às Artes das Trevas. E simplesmente... decidiu que o lugar dele era ao lado dela. Foi um daqueles momentos raros em que até a magia pareceu dizer "é por aqui".

Sorri com a imagem que aquilo formava na minha cabeça. Foi então que ele colocou um pequeno frasco de vidro sobre a mesa. Dentro, rodopiava uma substância prateada. Uma memória.

— O que você viu na noite passada... não foi imaginação, . Foi um eco. — Minhas mãos se fecharam contra os braços da cadeira.

— Eu vi uma casa. Uma mulher. Uma serpente. — As palavras saíram num sussurro.

— Fragmentos de uma memória guardada com magia antiga. Tão poderosa que não conseguiu permanecer contida. E você a captou... porque há algo em você igualmente antigo. — Engoli em seco.

— Então... o senhor sabia?

— Suspeitava. Agora, tenho certeza.

Ele se aproximou com calma, os olhos suaves, mas firmes. Como se me enxergassem inteira.

— Meus pais sabem? — perguntei então, baixando a voz. Dumbledore assentiu, com uma expressão gentil.

— Sabem. Sempre souberam que havia algo especial, mas decidiram esperar que você mesma percebesse. Que sua relação com a magia crescesse de forma natural, não forçada. Eles confiaram que você saberia quando fosse a hora. E, … você soube.

— Eu… — as palavras fugiam da minha mente, era muito a assimilar.

— Em Uagadou, há registros de bruxos como você. Não são videntes. Nem legilimentes. Caminham na borda entre o mundo mágico e o invisível.

Eu me mantive em silêncio, mas por dentro... era como se todas as peças que eu fingia não ver estivessem começando a se encaixar.

— Seu dom é raro. E perigoso, se não compreendido. Mas também... precioso. Porque você pode ouvir o que mais ninguém ouve. E talvez, no tempo certo... ver o que mais ninguém vê.

O silêncio que se seguiu era denso. Quase ritualístico. Meus olhos foram até o frasco sobre a mesa.

— Aquela memória... é dela? A mulher que eu vi? — Dumbledore não respondeu direto.

— Digamos apenas que algumas histórias se repetem. E algumas marcas, como a serpente, voltam a aparecer onde há segredos antigos demais para ficarem enterrados.

Assenti devagar. A mente girava, como se procurasse onde encaixar tudo aquilo. Ele se afastou, como quem fecha um livro ainda pela metade.

— Obrigado por escutar, . E por não ignorar o que viu.

Me levantei, os joelhos ligeiramente trêmulos. E então ele acrescentou, com um meio sorriso:

— Ah, e diga ao Sr. Potter que estarei esperando por ele amanhã à noite.

Pisquei, surpresa. Mas não perguntei por quê. Apenas assenti. Enquanto saía, uma certeza crescia dentro de mim, quente e incômoda como uma tocha acesa no escuro:

A partir de agora, nada seria como antes.

⚡🧙


O castelo já dormia. Ou fingia. A maioria dos alunos havia se recolhido, e o som de passos apressados, risadas perdidas e feitiços sussurrados se dissolvera no silêncio espesso que só Hogwarts conhecia quando respirava sozinha.

Estávamos os quatro sentados nos degraus gastos do saguão de entrada, perto da escadaria de mármore. Rony arrumava o material de Herbologia com má vontade, Hermione revisava anotações com uma pena encantada que parecia mais viva do que ele, e eu... só observava.

Observava o modo como Harry mantinha o olhar abaixado desde que sentamos ali, como se cada pensamento pesasse nos ombros mais do que qualquer mochila de livros. Aquilo não era cansaço comum. Era o tipo de exaustão que só conhece quem já viu demais. Quem carrega segredos demais.

Esperei.

Ele soltou um suspiro curto, quase engolido pela noite.

— O Dumbledore me chamou ontem à noite... para uma lição — disse, com a voz contida, como se cada palavra precisasse ser escolhida com precisão cirúrgica. — Me mostrou uma memória. De um homem chamado Bob Ogden. Ele trabalhava no Ministério... e foi visitar uma família chamada Gaunt.

Vi os olhos de Hermione se erguerem na mesma hora.

— Gaunt? Nunca ouvi falar.

— Eles eram sangue-puros. Orgulhosos disso. Mas viviam isolados, no meio da sujeira e da loucura. O pai, Marvolo, era violento. O filho, Morfin, completamente perturbado. E a filha...

Ele fez uma pausa longa. O tipo de pausa que não é para lembrar, é para processar o que se lembra.

— Merope. Era tratada como nada. Invisível.

Meu estômago se revirou, a mulher da visão.

— Eles são parentes do Voldemort? — perguntou Rony, a testa franzida.

— Merope... era a mãe dele — Harry disse, quase sem voz. — Ela se apaixonou por um trouxa. Um homem bonito, rico, chamado Tom Riddle.

Um silêncio denso caiu sobre nós. Hermione parecia tomada por compaixão. Rony olhava para o chão, inquieto. E eu… eu fechei os olhos.

— Eu vi essa casa. — Minha própria voz me surpreendeu. Os três se viraram para mim. — Naquela noite, no corredor. Não sabia o que era. Mas vi uma mulher com olhos tristes... e uma serpente enrolada na maçaneta. Eu não entendi. Só... senti.

Harry prendeu a respiração. Como se uma peça tivesse acabado de se encaixar num quebra-cabeça antigo demais.

— Era a mesma casa. A mesma mulher. — Assenti devagar.

— E hoje à tarde... Dumbledore também me chamou. Ele queria falar sobre isso. Sobre mim. Sobre o que eu sou. — Rony arregalou os olhos.

— O que você é? — Respirei fundo antes de responder.

— Ele disse que eu tenho um dom. Um tipo de sensibilidade mágica. Eu escuto o que não foi dito. Vejo o que não é meu. Fragmentos. Ecos de coisas que aconteceram... ou que ainda estão acontecendo em outro plano. — Hermione estava completamente atenta, absorvendo cada palavra.

— Como uma... premonição?

— Não exatamente. É mais como... se a magia falasse. E eu escutasse, mesmo quando ninguém mais está ouvindo. Como se fosse uma antena para coisas que não querem ser encontradas.

— Isso é brilhante — sussurrou Hermione, encantada.

— Isso é assustador — disse Rony. Soltei uma risada baixa, sem humor.

— É as duas coisas.

Harry me encarou. E naquele olhar... havia algo novo. Como se estivéssemos finalmente no mesmo mapa, mesmo sem saber onde era o norte.

— Então estamos os dois vendo pedaços de algo que aconteceu antes... tentando entender o que isso significa agora.

— E ainda vamos precisar ver muito mais pra entender qualquer coisa.

O silêncio que veio depois não era desconfortável.

Era cheio.

Cheio de respeito, de compreensão... de uma confiança que vinha daquilo que ninguém mais via. As tochas do saguão oscilavam, projetando sombras vivas nas paredes de pedra. Quase como se o próprio castelo estivesse ouvindo, quieto, o que a gente dizia.

Rony, com os olhos ainda fixos nas mãos, murmurou:

— Então... se a mãe do Voldemort era uma bruxa sangue-puro, e o pai era trouxa... ele é mestiço? — Hermione assentiu, sem hesitar.

— Sim. E passou a vida inteira tentando apagar isso. É a grande ironia. — Rony franziu o cenho.

— Mas então... será que o sangue tem mesmo tanto peso? Será que alguém... já nasce ruim? — Fui eu quem respondeu. Sem hesitar.

— Não é o sangue. São as escolhas. — Olhei para eles, um a um. — A Merope podia ter sido outra pessoa se tivesse sido amada. O Tom Riddle podia ter feito outras escolhas. Mas ele escolheu o caminho mais escuro. E continuou escolhendo. Mesmo quando poderia ter voltado.

Hermione assentiu devagar, tocada. Rony ficou em silêncio. Processando.

Mas Harry… estava em outro lugar. Os olhos fixos em algo que só ele via.

— Ele nunca teve amor — disse, por fim. — Nem chance.

E naquele momento, eu vi. Não o “Eleito”. Não o “Menino que Sobreviveu”. Eu vi um garoto que, como o próprio Voldemort, cresceu órfão, mas que teve uma diferença crucial: ele teve pessoas. Teve apoio. Teve opção. Teve coragem de escolher diferente.

— E você escolheu diferente — murmurei. — Sempre escolheu.

Ele não respondeu, mas vi o músculo de sua mandíbula se contrair, como se estivesse engolindo algo maior do que palavras. Então, sem pensar muito, só deixei meu corpo agir. Me aproximei e o abracei. Foi um gesto simples. Sem cerimônia. Sem expectativa de retribuição.

Só... um abrigo. Silencioso.

Como quem diz, sem dizer: eu sei. E eu tô aqui.

Harry demorou um segundo. Mas então... afundou levemente o queixo no meu ombro. Como se, por um segundo, pudesse soltar o ar que estava preso há dias. Ninguém disse nada. E, naquele silêncio... tudo foi dito.

A conversa morreu ali. Não por falta de assunto, mas porque sabíamos que havíamos tocado em algo profundo demais para continuar naquela noite.

Nos levantamos juntos.

E enquanto subíamos de volta para nossas torres, senti a certeza de que, a partir dali, não estávamos mais sozinhos dentro desse mistério. Tínhamos uns aos outros e isso já era o começo de tudo.

A escadaria em espiral da Torre da Corvinal rangeu sob meus passos silenciosos.

Cheguei ao dormitório com os ombros pesados. Mas não era o tipo de peso que um banho quente ou uma noite de sono resolveriam. Era um cansaço que nascia por dentro — de sentir demais, saber demais... e ainda assim não saber o suficiente.

O céu além das janelas estava coberto por nuvens carregadas, mas uma luz azulada atravessava as pedras encantadas, filtrando-se até meu canto do quarto como se dissesse: você ainda está aqui. Acendi a vela com um estalar de dedos e sentei à escrivaninha. Os olhos ardiam, mas não chorei. Não tinha espaço nem pra isso.

Puxei dois pedaços de pergaminho.

O primeiro foi para Tonks.

Tonks,

Como você sabia?

Como conseguiu entender que eu estava sentindo essas coisas antes mesmo de eu perceber o que elas eram?

Dumbledore me contou. Sobre o dom. Sobre o que eu sou. Mas... saber não ajuda tanto quanto eu imaginava. Ainda me sinto perdida.

Você sempre teve esse jeito de rir do caos — então, por favor, se puder rir agora, talvez ele pareça menos aterrorizante. Talvez pareça só... um vento forte, e não um furacão.

Escreve de volta, tá? Acho que preciso mais de você do que imaginava.



Dobrei o pergaminho com cuidado, quase como se fosse frágil demais para o mundo. Deixei-o ao lado da coruja da casa, que dormia empoleirada, indiferente à tormenta mágica que crescia dentro de mim.

Respirei fundo. Puxei o segundo.

Era a vez dos Weasley.

Fred, George (ou os dois, porque é impossível separar vocês),

Acabei de presenciar mais um capítulo do drama mágico não autorizado de Hogwarts, e sinceramente? Acho que o castelo tá tentando superar vocês em espetáculo. Tá difícil competir.

Prometo passar na loja assim que conseguir uma brecha. Mas se eu sair de lá com uma sobrancelha roxa ou um feitiço de soluço eterno, a vingança vai ser criativa. Isso não é uma ameaça, é uma promessa.

As coisas por aqui... estão esquisitas. Comigo, principalmente. Mas juro que explico tudo pessoalmente.

Ah, e se tiverem lançado alguma coisa com glitter explosivo, mandem amostras. A torre da Corvinal anda precisando de uma revolução cintilante.

Com confusão no coração,



Ri baixinho ao terminar de escrever. Pela primeira vez naquele dia, senti o mundo recuar um pouquinho. Como se existisse um intervalo entre uma batida e outra do coração — só o suficiente pra respirar.

Fechei o pergaminho e o deixei sobre a mesa.

E então puxei o grimório.

A capa escura parecia mais viva do que deveria. As páginas, marcadas pelo tempo, ainda vibravam com aquela energia antiga que nunca se apagava. Folheei até a seção das runas. Parei quando encontrei a que estava desenhada no livro do Príncipe Mestiço: a da escuta ancestral.

“A escuta ancestral não é o ouvir comum. É o silêncio que se abre para além do som. Os antigos a usavam para capturar o eco da magia do mundo — viva, pulsante, e às vezes, profética.”

Passei os dedos sobre os traços finos e entrelaçados da runa. Um arrepio subiu pelo meu braço como se a marca reconhecesse meu toque — ou talvez estivesse me reconhecendo.

Fechei os olhos.

Pensei em Merope. Nos olhos vazios, na casa rachada.Na serpente enroscada na maçaneta. No que aquilo significava. No que estava por vir.

Fechei o grimório devagar, como quem sela um segredo. Soprei a vela e me deitei, puxando as cobertas até o queixo, mesmo sem frio. O sono veio devagar. Como maré estranha — calma por fora, inquieta por dentro.

E eu sabia: alguma coisa estava se movendo no mundo. E agora… ela também se movia em mim, o símbolo brilhou de novo.

No sonho, a casa apareceu de novo.

As ruínas estavam lá — fantasmagóricas, cobertas por poeira e silêncio. O céu, opaco como um espelho embaçado. O campo, estéril e deserto. Mas dessa vez… o rosto da mulher estava mais nítido.

E eu reconheci algo nela.

Não era exatamente como olhar para mim mesma. Mas havia traços meus. No contorno do queixo. Na sombra que caía nos olhos. Como se um eco tivesse atravessado o tempo, cruzando sangue, dor e silêncio até encontrar abrigo em mim.

Foi então que ouvi.

Um sussurro cortando o ar — vindo de todos os lados e, ao mesmo tempo, de lugar nenhum:

"O sangue carrega lembranças que não são suas."

Me virei no sonho, o coração disparado, como se eu estivesse acordada dentro dele. E então, do nada, como um corte na realidade, vi.

Um fragmento do futuro.

Duas varinhas erguidas.

Harry.

Voldemort.

Frente a frente. O ar estava suspenso, denso como veneno. A tensão entre eles era tão viva que parecia que o tempo segurava o próprio fôlego. A luz congelada. O mundo parado.

Meu coração quase saiu pela garganta, e antes que o feitiço fosse lançado... tudo desapareceu.

Acordei num salto. A respiração presa. Os olhos escancarados na escuridão do quarto. A runa da escuta ancestral queimava na minha memória como um ferro em brasa.

Não era só sobre o passado. Era sobre o que ainda estava por vir.

E, no fundo, eu sabia — algumas memórias não pertencem a quem viveu. Elas pertencem a quem escuta.

E eu... estava começando a escutar mais do que jamais deveria.

O céu ainda estava acinzentado quando desci para o café, mas a comida no salão parecia mais enfeite do que sustento. Mal toquei na torrada. Harry me olhou uma vez, de longe. Não trocamos palavras.

Meu corpo estava em Hogwarts, mas a minha mente… ainda estava naquela casa em ruínas. No campo vazio. Nos olhos dela. E depois — nas varinhas erguidas. Harry. Voldemort. O silêncio antes da destruição.

Eu não conseguia fingir que era só mais uma manhã qualquer.

Antes mesmo da aula começar, procurei a professora McGonagall. Pedi para ver o diretor. Ela não fez perguntas — só me olhou por um segundo mais longo do que o necessário, assentiu e deu passagem.

A senha era a mesma de ontem.

“Sorvete de gengibre.”

O gosto doce da ironia pairava na língua.

Subi pelas escadas espirais devagar, cada degrau reverberando com uma urgência que eu não sabia nomear. Quando cheguei ao topo, ele já estava lá. Dumbledore, de pé, diante da janela arqueada, como se já soubesse.

— Srta. — disse sem se virar, com a voz calma como água parada —, imaginava que voltaria.

— Eu sonhei de novo. — Minhas palavras saíram sem preâmbulo.

Ele se virou lentamente. Os olhos por trás dos óculos de meia-lua pareciam mais sérios dessa vez. Mais atentos. Não havia sorrisos enigmáticos, nem enigmas disfarçados de metáforas. Só escuta.

Sentei-me na poltrona à frente da mesa antes mesmo que ele oferecesse.

— A casa estava lá outra vez. Aquela... que eu vi no corredor. Mas agora... a mulher estava mais nítida. Eu vi o rosto dela. E era como se... — engoli em seco — como se ela fosse parte de mim. Ou eu, dela.

Ele se aproximou, os olhos fixos nos meus, sem pressa.

— Um reflexo na memória do sangue — murmurou.

— Então é isso? Eu estou conectada a ela? À Merope? — Minha voz saiu mais alta do que eu queria.

Ele não respondeu de imediato. Caminhou até a estante, pegou um pequeno frasco prateado — outro fragmento de memória —, e o colocou sobre a mesa sem dizer nada. Mas não era o momento de ver. Era o momento de contar.

— E depois — continuei — vi Harry. Vi Voldemort. Frente a frente. As varinhas erguidas. Tudo parado, como se o tempo tivesse medo de continuar. Mas antes do feitiço... acordei.

O silêncio entre nós foi quase físico.

— Às vezes — começou ele, por fim —, os dons mais antigos se manifestam com símbolos. Outras vezes... com visões. Mas, para alguns, eles tomam forma em ecos. Fragmentos do que o mundo ainda não viveu, mas já sussurrou para aqueles dispostos a ouvir.

— Por que eu? — perguntei. Não como quem reclama, mas como quem realmente precisa entender. — Por que eu vejo isso?

— Porque o mundo precisa de testemunhas. De quem olhe o que está escondido, não para ter poder sobre isso… mas para não deixar que se perca.

Ele se aproximou da minha cadeira, com a fênix cantando suavemente ao fundo.

, sua magia não é feita apenas de feitiços. Ela é feita de escuta. De vínculo. De pressentimento. E, por isso mesmo, ela exige coragem. Porque ver o futuro não é um dom fácil, é responsabilidade.

Minhas mãos estavam fechadas em punhos sobre o colo. Soltei-as devagar.

— E o que eu faço com isso?

— Por enquanto? Escute. Anote. E não fuja. — Ele me olhou com gentileza. — A hora de agir chega para todos. E quando chegar, você vai saber.

Fiquei em silêncio por um tempo. O peso do sonho ainda vibrava dentro de mim como um segundo coração. Mas ali, naquele escritório de luz filtrada e paredes vivas de história, não parecia que eu estava carregando isso sozinha.

Dumbledore caminhou de volta até a janela.

— Quando sonhos carregam o passado e o futuro ao mesmo tempo, é sinal de que o presente está prestes a mudar. — Assenti devagar.

— Obrigada… por ouvir.

— Obrigado por não ignorar — ele respondeu.

Saí do escritório sem pressa, mas com um novo tipo de silêncio me acompanhando. Não o silêncio que esconde, mas o que prepara.

E agora, eu estava ouvindo.

De verdade.

Setembro mergulhou Hogwarts numa espécie de silêncio espesso. Não o silêncio da calma — o outro. O que precede alguma coisa. O que paira no ar quando até o castelo parece respirar mais devagar, como se soubesse que aquele ano seria diferente.

As aulas estavam exigentes, sim. Mas o que me drenava não era o conteúdo — era a sensação de que qualquer vacilo agora custaria mais caro do que nunca.

Nem o quadribol escapava disso.

Ainda fazia parte do time da Corvinal como artilheira, e os treinos noturnos se tornaram meu único respiro. Voar alto, sentir o vento cortando meu rosto, mirar nos arcos adversários com precisão quase instintiva… era o mais próximo que eu chegava de meditação. Do tipo que exigia o corpo por inteiro — e, por isso, calava a cabeça por uns minutos.

Naquela noite, encontrei o time no vestiário, já meio disperso, cada um calçando as botas ou ajeitando as luvas.

— Tá todo mundo aqui? — perguntei, prendendo os cabelos num coque rápido enquanto me encostava na parede.

— Pirlo ainda tá discutindo com o Flitwick sobre a disponibilidade do campo — respondeu Helena, nossa goleira, revirando os olhos. — Ele disse que “precisa do campo limpo de interferências mágicas até quarta”. Como se o testrálio fosse conjuração.

— Isso porque o campo já é enfeitiçado até o pomo dar cambalhota — resmungou Leo, o batedor, girando o bastão como se estivesse entediado demais para segurar a crítica.

— Então a gente faz o quê? Treina no ar ou espera uma permissão por escrito do Ministro da Magia? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

— Eu topo treinar no ar — disse Helena, esticando os braços com um sorriso travesso. — Pelo menos o vento não atrasa.

— Tudo bem. — Suspirei. — A gente se encontra às oito no campo, com ou sem aprovação. Se alguém perguntar, foi “um treino improvisado de movimentação teórica”. — Fiz aspas com os dedos. — E se a gente levar bronca, eu assumo. Ou melhor, eu digo que foi ideia do Leo.

— Ei! — ele protestou, rindo.

— Sem reclamações. Quem errar mais gols hoje lavará os uniformes até a próxima lua cheia — avisei, já pegando a vassoura.

— A gente vai fazer tiro ao alvo ou você vai fazer mágica com a goles de novo e acabar com a moral de todo mundo? — Helena brincou.

— Depende. Vocês vão me acompanhar ou vão só me aplaudir?

— Metida — disse Leo.

— Artilheira, amor — retruquei, piscando.

No fundo, era isso que me mantinha ancorada. Aquele tipo de troca leve. As piadas. O ritmo do time. Ninguém ali queria respostas sobre o símbolo no meu grimório, sobre sonhos com serpentes ou premonições estranhas. Ali, bastava saber voar. E jogar.

E, por uma noite, isso era tudo o que eu precisava.

O campo de quadribol estava quase vazio quando chegamos, só o som do vento e a grama farfalhando sob nossas botas.

As arquibancadas se perdiam na escuridão, e o céu — um manto profundo salpicado de estrelas tímidas — parecia observar em silêncio. As tochas flutuantes ao redor do gramado piscavam em tons azulados, lançando sombras suaves nas arquibancadas e sobre nossos ombros.

— Cinco voltas de aquecimento e depois chute a gol, intercalando batidas e esquivas — gritei, montando na vassoura. — E por Merlin, não me deixem sozinha na defesa outra vez, senão eu feitiço vocês com soluços por uma semana.

Helena riu alto, já decolando, seguida por Leo e os outros. Em segundos, o campo ficou para trás, e a noite nos engoliu em sua vastidão.

Eu impulsionei minha vassoura e subi, deixando que o vento fizesse o resto.

No alto, Hogwarts parecia pequena. As torres com suas luzes acesas aqui e ali, os contornos do castelo banhados por sombras profundas. Lá de cima, o mundo fazia silêncio por dentro. E por um instante, tudo o que existia era o céu.

A goles foi lançada, e a primeira sequência começou.

— Vem comigo, ! — Leo gritou, mandando a goles em um passe alto demais.

Mas eu já estava lá antes de ele terminar a frase.

Estiquei o braço, peguei a goles com uma curva rápida e mergulhei, rasgando o céu em um arco elegante. Meus cabelos escapavam do coque, o ar gelado beliscando o rosto, mas eu não diminuí.

Abaixei o corpo na vassoura e fui serpenteando entre os companheiros, esquivando das simulações de batidas, até ver o arco.

Respirei fundo, mirei — e lancei.

A goles passou rente à trave esquerda, fazendo Helena xingar baixinho e rir ao mesmo tempo. Um feitiço disparou do bastão dela para rebater a bola, mas ela errou por centímetros.

— Essa passou tão perto que senti o vento do feitiço na orelha — gritou ela.

— Isso é porque eu sou gentil — respondi, girando a vassoura no ar com um movimento brusco e fluido.

Leo voou ao meu lado, ofegante.

— ‘Cê não joga... você dança nesse campo.

— É que vocês são lentos demais para acompanhar a coreografia — provoquei, ofegante, mas sorrindo.

A segunda rodada começou, dessa vez com mais marcação. Dois batedores vieram pra cima, fingindo um bloqueio. Eu girei, passei por baixo, dei meia-volta no ar e recebi a goles de Miguel como se fosse coreografado.

No meio do campo, parei por um instante. Flutuando.

O silêncio me alcançou ali. Só o som da minha respiração, o sangue batendo rápido nas têmporas e o campo sob meus pés, minúsculo e vivo.

Uma estrela cadente cruzou o céu lá em cima, rápida como um pensamento bom.

E eu pensei: “É isso.”

Era isso. Por mais segundos assim.

Então mergulhei de novo, rindo sozinha, porque ali em cima... eu não era o eco de nenhuma profecia, nem o reflexo de um dom que me confundia. Ali, eu era só . Rápida. Focada. Livre.

O treino durou mais do que o planejado.

Quando Helena finalmente apitou para encerrar, os corpos estavam suados, as bochechas vermelhas, e até as vassouras pareciam um pouco cansadas. Mas ninguém reclamou. A sensação que pairava no ar era boa — aquela exaustão que vinha do esforço certo.

Pousamos juntos, um por um, até todos estarmos novamente no centro do campo, com as vassouras apoiadas no ombro e o fôlego se ajeitando no peito.

— Ok… — começou Miguel, jogando o cabelo pra trás com um gesto dramático. — Se alguém ainda tiver dúvidas de que a está secretamente treinando com o time da Bulgária nas férias… favor levantar a mão.

— Cala a boca — respondi, rindo. — Você quase me acertou com aquela batida. Parecia um cometa desgovernado.

— A intenção era desviar sua atenção — disse ele, como se tivesse orquestrado aquilo. — Pena que você não tem uma distração funcional.

— Não quando tem um gol na minha frente — comentei, erguendo a sobrancelha. — E sinceramente, Leo, aquela defesa? Precisa treinar o tempo de resposta. Por pouco eu não te derrubei com a goles.

— Não derrubou porque eu fui generoso. Quis deixar você brilhar. — Ele sorriu, esfregando o ombro como quem tinha sentido o golpe mesmo assim.

Helena se jogou no chão de grama, de braços abertos.

— Eu só quero que alguém avise o Flitwick que esse time da Corvinal tá pronto pra ser idolatrado. Tô exausta, mas tô em paz. Isso aqui sim é terapia.

Todos riram, e por um tempo, só ficamos ali, jogados no meio do campo, olhando o céu já escuro como tinta, as estrelas pequenas piscando lá no alto.

— Esse treino foi diferente — murmurou Helena, depois de alguns minutos. — Sei lá... a energia tava outra.

— Talvez seja o clima estranho no castelo — comentou Leo, deitado ao lado dela. — Ou talvez a gente só precisava disso. Voar, rir, quase morrer…

— Me lembrar de que eu sou boa em alguma coisa que não envolva runas ancestrais — completei, em voz baixa.

— Você é boa em tudo, — disse Miguel, com um tom que não era piada. — Só esquece disso de vez em quando.

Fiquei quieta. Mas sorri.

Quando finalmente voltamos para a torre da Corvinal, os corredores estavam vazios. As escadas giratórias pareciam mais lentas, como se também estivessem cansadas. Subimos em silêncio, os passos ecoando suaves contra a pedra.

Na entrada do dormitório, Helena bocejou alto.

— Boa noite, campeões. Que a sorte esteja do lado de quem tiver dever pra entregar amanhã cedo.

— Ou de quem deixou a poção fermentar por engano e vai tentar dizer que era intencional — acrescentou Leo, fazendo Miguel rir.

Nos despedimos com acenos preguiçosos, e entre risos abafados e sussurros de “até amanhã”, cada um se enfiou no seu canto do castelo.

Eu entrei no dormitório com passos leves. As cortinas estavam fechadas, as camas já ocupadas por respirações lentas e tranquilas. Troquei de roupa no escuro, sem usar magia. Me deitei com o corpo ainda vibrando do treino, mas leve. Pela primeira vez em dias, minha mente não estava caçando símbolos, nem significados ocultos. Não havia serpentes, nem vozes, nem visões.

Só cansaço bom.

Puxei os lençóis até o queixo e fechei os olhos.

E, naquele instante raro, adormeci rápido. Sem sonhos, sem presságios.

Apenas silêncio.

E um céu estrelado guardando minha noite.

⚡🧙


Os dias começavam cedo. O castelo fervilhava com alunos exaustos e livros do tamanho de um elfo doméstico. E entre uma escada traiçoeira e outra, eu fui percebendo as rachaduras surgirem no quarteto de ouro.

Daquelas que só quem observa de verdade — ou se importa demais — consegue enxergar.

Hermione andava cada vez mais tensa, como se os pergaminhos tivessem ofendido a honra dela e agora precisassem ser derrotados com agressividade. Rony oscilava entre uma animação boba sobre qualquer assunto aleatório e um silêncio desconfortável toda vez que o nome "Lilá" surgia por perto. E Harry…

Harry fingia que não olhava para Gina.

Ou talvez fingisse muito bem que fingia.

E eu fingia que não percebia.

Mas percebia. Tudo. Principalmente a forma esquisita como meu coração reagia cada vez que o nome dela saía da boca de alguém. Especialmente da dele.

Na aula de Aritmancia, tentei focar nos padrões de conversão mágica. Números ancestrais, sequências encantadas, possibilidades infinitas... Mas bastou a voz da Parvati dois assentos atrás para desmontar tudo:

— Gina e Dino estão inseparáveis. Até ficaram depois do treino ontem!

Fechei os olhos por um segundo. Só um.

Respirei fundo, como quem tenta apagar um incêndio interno com ar frio, e voltei a encarar os cálculos.

Mas aquele monte de número mágico não levava a lugar nenhum.

Nem as contas.

Nem meu coração.

⚡🧙


A sala de Poções estava mergulhada em vapor e murmúrios abafados. Os caldeirões borbulhavam em tons de esmeralda, âmbar e lilás, e o Slughorn circulava entre os alunos como um colecionador orgulhoso, admirando suas preciosidades.

Do meu lado, Harry — mais uma vez — tinha a melhor poção da sala.

Hermione olhava para ele com a mandíbula travada, como se lutasse contra a vontade de arrancar o livro da mão dele e lançar dentro do caldeirão.

Mais tarde, enquanto Slughorn elogiava o “dom natural” do Potter como se ele fosse o próprio inventor das poções, eu me aproximei da bancada com os braços cruzados e um sorriso enviesado no canto da boca.

— Sabia que você ia usar aquela substituição com raiz de valeriana — comentei. — Tá anotado na página 197. Marca do Príncipe.

Harry olhou de lado, meio culpado, meio satisfeito.

— Funciona, né?

— Funciona bem demais — murmurei, lançando um olhar para o brilho da poção no caldeirão.

Hermione se aproximou, claramente incomodada.

— Ainda não acredito que você tá defendendo esse livro — disse, com a voz mais baixa, mas cheia de firmeza. — Você viu as alterações que ele fez? São perigosas.

— Eu vi o livro inteiro, na verdade — respondi, encarando-a com calma. — Estudei cada página no dia que o Harry me emprestou. A maioria das fórmulas não é só criativa... é fundamentada. E algumas vão além da alquimia moderna.

Ela franziu o cenho.

— Como assim?

Magia antiga. — Me inclinei um pouco, apontando para a margem de uma das páginas. — Essas runas aqui, por exemplo, são praticamente idênticas às usadas em Uagadou para escuta astral. Técnicas de extração energética, manipulação sensorial... Isso não é invenção de aluno gênio. É conhecimento ancestral.

Hermione me olhou com mais incômodo do que surpresa.

— Então você acha que isso tudo é... válido?

— Eu acho que alguém, em algum momento, misturou poções com práticas muito mais profundas do que parecem. E eu acho — falei baixinho — que o tal Príncipe sabia exatamente o que estava fazendo.

Ela cruzou os braços, desconfortável.

— Ou ele só copiou o que achou bonito e achou que podia brincar com isso.

— Ou ele estudou mais do que qualquer professor deu conta de reconhecer — rebati. — É fácil chamar de "brincadeira perigosa" quando a origem da magia não está nos livros tradicionais.

Hermione não respondeu. Mas o franzido entre as sobrancelhas dela não suavizou até o fim da aula.

Harry me olhou com uma mistura de fascínio e culpa. Antes que dissesse qualquer coisa, Slughorn apareceu atrás de nós, soltando seu riso grave e satisfeito.

— Srta. ! Estava comentando com o professor Flitwick ontem mesmo: você tem um estilo preciso com as poções, quase intuitivo. Muito raro. Você cresceu rodeada de alquimistas?

Nem levantei os olhos do caldeirão.

— Cresci rodeada de tias que sabiam queimar cabelo com pensamento. E avós que não desperdiçavam ingrediente. Talvez isso tenha ajudado.

Ele piscou, um tanto desconcertado.

— Ah… sim, sim! Fascinante, fascinante...

Repetiu a palavra umas três vezes enquanto se afastava, como se não tivesse entendido nada do que ouviu.

— Se ele me perguntar mais uma vez sobre minhas raízes como se eu fosse um baú de relíquias mágicas, juro que jogo um Fedorento no Clube do Slug — murmurei.

Harry riu atrás da mão.

— Seria... um grande espetáculo.

— Seria justiça — retruquei, erguendo o queixo com orgulho.

A aula terminou com Slughorn radiante como um porquinho satisfeito. Nós quatro saímos juntos, cruzando os corredores úmidos do subsolo.

— Lilá me chamou pra ir ao Salão Principal mais cedo amanhã — comentou Rony do nada, com aquele sorrisinho de quem acha que sabe o que está fazendo. — Disse que queria me mostrar umas novas técnicas de clarear pergaminhos com chá de bardana. Sei lá o que é isso, mas tô curioso.

Hermione parou de andar. Só olhou pra ele com a expressão de quem teve uma epifania... ou um colapso interno.

— Que bom pra você — disse ela, fria, antes de acelerar os passos. Mordi o lábio pra não rir. Rony me lançou um olhar confuso.

— O que foi?

— Nada. Só… cuidado com o chá de bardana. Às vezes causa alucinação de ego inflado.

Harry riu, mas o riso morreu quando subimos para a parte superior do castelo. O som de vozes conhecidas nos alcançou.

Gina e Dino Thomas estavam próximos a uma tapeçaria animada, rindo de algo que só eles sabiam. Ela jogou os cabelos para trás quando Dino passou a mão pela cintura dela com uma naturalidade que me revirou por dentro.

Harry parou. Só por um segundo.

Mas eu vi.

Vi o olhar preso. A tensão no maxilar. O jeito como ele desviou rápido demais, como se não fosse nada.

Mas era.

Senti algo estranho subindo pelo meu peito. Amargo. Silencioso.

Não era ciúmes de Harry.

Era ciúmes do ciúmes dele.

A sensação de perceber que a pessoa que você gosta... gosta de alguém que não é você. E que nem percebe o quanto isso te atravessa. Engoli seco e apertei o passo. Hermione notou. Não disse nada. Mas seus olhos diziam que entendeu.

— Que foi agora? — perguntou Rony, confuso como sempre.

— Nada — respondi, junto com Hermione.

E seguimos. Cada um, carregando seu próprio tipo de silêncio.

⚡🧙


O calor da tarde parecia se prender nas pedras antigas da sala de Feitiços quando nós, da Corvinal, e os alunos da Sonserina começaram a se acomodar. Me sentei ao lado de Miguel Corner, mas meus olhos escaneavam a sala com um cansaço atento.

Zabini já estava lá, recostado com descaso no banco ao fundo, mas atento a tudo ao redor. Mais à frente, Draco Malfoy parecia estranho — menos altivo do que o normal. Estava quieto, o cenho franzido e os dedos tamborilando na mesa com impaciência contida.

O professor Flitwick surgiu animado, flutuando com leveza em seu banquinho encantado.

— Boa tarde, turma! Hoje vamos trabalhar feitiços não verbais — anunciou, os olhos brilhando com entusiasmo. — Controle, foco e intenção pura! Sem palavras, sem truques. Apenas magia e mente.

Ajustei a varinha entre os dedos, firme, o olhar fixo à frente. Eu gostava desse tipo de desafio. Silêncio e poder. Muito do que aprendi em Uagadou girava em torno disso — da disciplina que vem de dentro, da magia que obedece à mente antes mesmo de obedecer à boca. E aquilo me fazia sentir em casa.

A aula começou em meio a tentativas frustradas. Faíscas irregulares, feitiços mal direcionados, intenções dispersas. Zabini foi um dos poucos que conseguiu algum resultado decente — conjurou um Expelliarmus não verbal com elegância suficiente para arrancar a varinha do colega da frente. Mas nem sorriu. Estava me observando.

Respirei fundo. Deixei o barulho ao redor sumir.

Harry até tinha falado sobre isso na época da Armada, mas aquilo era só o rascunho. Agora, era o teste real.

Fechei os olhos. Controle. Clareza. Intenção.

Protego.

O feitiço saiu sem som, apenas energia. Tão preciso que rebateu o feitiço do aluno ao lado, desviando-o para cima — onde acertou uma pena encantada flutuando no teto, que caiu rodopiando como se tivesse sido atingida por um raio de leveza.

A sala silenciou por um segundo.

— Magnífico, Srta. ! — exclamou Flitwick, batendo palmas curtas e encantadas. — Controle perfeito. A intenção estava clara, mesmo sem som. Brilhante!

Sorri de canto, sem esforço. Aplausos tímidos ecoaram em seguida — junto com alguns olhares que, se fossem feitiços, também teriam me acertado.

Zabini me lançou um sorriso enviesado, daquele tipo que nunca entrega tudo. Enigmático. Ambíguo.

Mas foi outro olhar que me prendeu.

Draco Malfoy.

Tentava conjurar o mesmo feitiço — Expelliarmus — sem dizer uma palavra. Falhou. Duas vezes. Na terceira, murmurou o feitiço de forma contida, só para manter as aparências. Ninguém pareceu notar. Mas eu notei.

Os ombros dele estavam tensos, quase duros demais. O olhar fixo, mas perdido. Como se a mente dele estivesse em outro lugar — longe dali. Não era só arrogância, era inquietação disfarçada. Ansiedade. Preocupação.

Anotei mentalmente. Como quem marca uma peça deslocada num tabuleiro.

— Você fez aquilo parecer fácil — comentou Miguel, baixinho, ao meu lado.

— Porque era — respondi, sem desviar os olhos de Draco.

E, pela primeira vez naquele dia, eu não estava pensando no Harry. Pensava em segredos.

⚡🧙


A biblioteca estava quase vazia no fim da tarde. Só o som suave das páginas sendo viradas preenchia o espaço, junto ao ranger ocasional das cadeiras antigas. Fechei o livro à minha frente com um suspiro — daquele tipo que carrega não só cansaço, mas excesso de pensamento.

— Isso aqui não tá entrando na minha cabeça hoje — murmurei, esfregando as têmporas.

Hermione continuava concentrada, copiando algo de um tomo enorme de Transfiguração Avançada.

— É só cansaço — respondeu, sem levantar os olhos. — E provavelmente frustração acumulada. — Soltei uma risada curta, seca.

— Você não faz ideia. — Ela levantou os olhos, tranquila.

— Faço, sim. Eu convivo com você há anos, .

Houve um silêncio breve. E então, sem muito planejar, abri a boca:

— Eu gosto do Harry.

Hermione parou. Só por um segundo.

— Quer dizer… gosto mesmo. Não sei quando começou. Talvez no ano passado... — vomitei as palavras — O gatilho foi quando eu o vi com a Cho aos beijos depois da aula da Armada, perto da estufa, estava voltando de um treino, sozinha. E doeu. Doeu mais do que achei que poderia.

Ela me olhou em silêncio, com aquele jeito cuidadoso dela.

— Eu não sabia que você tinha visto. Nem que fosse assim… tão forte.

Assenti, apoiando o queixo na mão.

— Pois é. Nem eu sabia. Achei que ia passar. Mas não passou. E agora tem a Gina.

Hermione franziu os lábios.

— E você acha que ele gosta dela?

— Acho que já gostou, ou gosta, eu já nem sei mais. E bom, se não gosta mais… ainda não me viu. Tipo, de verdade. — Ri, sem humor. — E quer saber? Cansei de gostar de alguém que nem sabe que eu existo desse jeito.

Ela fechou o livro devagar.

— O que vai fazer?

— Me forçar a olhar para outra direção — disse, com mais convicção do que realmente sentia. — Tem outros meninos por aí. Simas, talvez. Ou o Ian Caulfield da Lufa-Lufa. Ou até o Hugo Avery da minha casa. Ele tem um sorriso decente.

Hermione arqueou uma sobrancelha, meio rindo, meio preocupada.

— Isso parece um pouco precipitado.

— Talvez. Mas pelo menos me afasta do impossível. — Olhei para ela com mais firmeza. — A única de nós que tem uma chance real… é você. E você vive fingindo que não vê.

Ela corou, como eu sabia que coraria.

— Eu e o Rony? Não tem nada a ver… — Ergui uma sobrancelha com força dramática.

— Claro. Nada a ver. Por isso vocês brigam como casal e ele fica te observando sempre que acha que ninguém tá vendo.

Ela tentou rebater, mas eu continuei, com um sorriso triste:

— Se vocês se assumissem logo, metade das tensões de Hogwarts evaporariam. Pelo menos você tem chance. Eu… nem isso, só uma nota de rodapé.

Hermione ficou quieta. Tocou minha mão com delicadeza, cruzando o silêncio com carinho.

— Você nunca foi nota de rodapé, . — Sorri. Mas foi só por fora.

— Então por que eu me sinto como uma?

Ela não respondeu de imediato. Apenas se levantou da cadeira e veio até mim, me puxando para um abraço apertado — o tipo que não tenta consertar nada, só diz: “tô aqui”. E por um segundo, só por um, o peso no peito pareceu um pouco menor.



Quando nos separamos, trocamos aquele sorriso breve, cheio de tudo que não precisava ser dito. Eu agradeci, prometi que ia descansar… mas, na verdade, o que menos consegui fazer foi isso.

Era tarde. Tão tarde que o castelo parecia segurar o fôlego. A maioria dos alunos já havia subido para os dormitórios, mas eu ainda caminhava pelos corredores frios do segundo andar, tentando clarear a mente depois da conversa com Hermione. O eco dos meus próprios passos parecia mais alto do que deveria. E, de algum jeito estranho, fazia companhia para o turbilhão que insistia em não se calar dentro de mim.

Eu não gostava de dormir com o peito cheio.

O som dos meus próprios passos ecoava entre as colunas de pedra quando senti algo atrás de mim. Não era uma ameaça. Era… uma presença.

— Sabe que andar sozinha pelos corredores dá margem a boatos — disse uma voz suave, irônica, com aquele arrastar de sílaba que eu já reconhecia de longe.

Zabini.

Ele apareceu na curva da parede, encostado como se fizesse parte dela. Não me assustei. Só ergui uma sobrancelha, já exausta.

— Melhor sozinha do que mal acompanhada.

— Tão afiada assim a essa hora? — O sorriso dele era fácil, mas os olhos... os olhos carregavam algo mais. — Deve ser o treinamento africano. Ou só cansaço mesmo. — Cruzei os braços, fingindo indiferença.

— É o talento de quem tem que lidar com babacas em horário extra.

Ele se empurrou da parede e veio devagar, passos calculados, parando perto. Perto demais.

— Você se saiu bem hoje em Feitiços. Protego limpo, direto. Impressionante.

— Obrigada. Mas não preciso dos seus elogios pra saber do meu valor.

— Não elogiei por você. — Ele inclinou a cabeça, aquele sorriso torto crescendo. — Elogiei por mim. Gosto de reconhecer talentos... raros. — Revirei os olhos.

— E você é o tipo que coleciona coisas raras? — Ele deu um passo. E depois mais um.

— Sou o tipo que observa... E que sabe exatamente quando vale a pena... se aproximar.

O olhar dele desceu até minha boca. E, naquele segundo, a tensão virou uma linha fina, prestes a se partir.

— Tá tentando me intimidar, Zabini?

— Intimidar? — A risada foi baixa, grave, e vibrou direto no meu estômago. — Nem um pouco.

Dei um passo pra trás, mas ele já tinha avançado dois. E antes que eu soltasse qualquer resposta, a mão dele segurou minha cintura, firme, me puxando.

— Blaise— comecei, mas não deu tempo.

Os lábios dele tocaram os meus, primeiro num roçar lento, como se testasse. E, quando eu não recuei — talvez até tenha me inclinado sem perceber —, ele aprofundou o beijo. Era quente. Insolente. Exatamente do jeito que eu deveria odiar.

Mas não odiei.

Minhas mãos foram parar no peito dele, numa mistura de querer empurrar e querer puxar mais. E, Merlim, o cheiro dele... amadeirado, picante, com aquele fundo de menta fresca… Ele mordeu meu lábio inferior no fim, puxando de leve, como quem sabia exatamente o que estava fazendo.

— Você tá viciando demais nos meus beijos — murmurei, ainda sem conseguir regular a respiração. O sorriso dele foi criminoso.

— Você é viciante, . — Os olhos desceram, de novo, pros meus lábios. — E o problema é que você sabe disso.

Afastei, passando as mãos no cabelo pra tentar parecer mais no controle do que eu realmente estava.

— Boa noite, Zabini.

Ele deu um passo pra trás, com aquele jeito dele, preguiçoso e perigoso ao mesmo tempo.

— Boa noite... Por enquanto.

Me virei antes que meu corpo me traísse mais uma vez. Mas Merlim... se eu dissesse que não queria olhar pra trás, estaria mentindo.

⚡🧙


O dormitório da Corvinal estava mergulhado em silêncio. As velas já se apagaram há horas, e a brisa gelada vinda das janelas altas fazia as cortinas dançarem como espectros cansados.

Não sei quando adormeci. Só sei que estava sonhando, mas não era um sonho qualquer.

Eu estava de pé no meio de um campo seco e rachado, sob um céu negro como tinta, salpicado de símbolos dourados flutuando, girando, sussurrando em línguas que eu quase entendia.

E no horizonte... ele.

A figura encapuzada. Caminhando em minha direção. Tentei me mover, mas meus pés estavam presos à terra.

Ele parou diante de mim.

Dessa vez, eu vi um rosto. Parcialmente oculto, mas visível o suficiente. O mesmo homem da visão anterior. Pele pálida, olhos dourados demais, quase humanos. Uma serpente viva enroscada em seu braço.

Quando ele falou, sua voz ecoou por dentro de mim.

“Nem todo poder precisa ser invocado. Alguns nascem com você. E esperam.”

Tentei falar. Nada saiu. Tentei olhar para as mãos — e lá estava o símbolo. Brilhando na palma, dividido em dois: metade runa, metade serpente.

Ele ergueu a mão até o meu rosto.

“Há olhos que enxergam o passado. E olhos que escutam o que ainda não aconteceu.”

A paisagem mudou.

Harry.

Voldemort.

Duas varinhas erguidas. Um duelo. Luz, sombra e tensão congelada no ar.

Antes do feitiço ser lançado… acordei.

Ofegante. Suada. O coração batendo como se eu tivesse corrido os corredores inteiros de Hogwarts. Me sentei na cama, abraçando os joelhos. De novo eu via Voldemort e Harry prestes a duelar.

O céu lá fora começava a clarear, tingindo a torre de tons prateados. O mundo estava quieto. Mas dentro de mim, nada estava.

Eu não sabia o que aquilo significava, mas sabia que não era só um sonho.

Era um aviso.

“Algumas visões não são para ver. São para preparar.”

O sol já atravessava os vitrais da torre quando eu finalmente apaguei. O corpo cedeu, mas a mente… a mente continuava marcada. O símbolo da serpente. Os olhos dourados daquela figura. Ainda dançavam atrás das minhas pálpebras, como tinta fresca que não seca.

Sentei na cama, tentando lembrar onde acabava o sonho e começava o dia.

— Você dormiu tão quietinha que parecia uma pedra de quartzo — ouvi a voz da Luna do outro lado do dormitório. Ela penteava os cabelos longos, com uma calma que parecia não pertencer a esse plano.

— Me senti mais como um meteoro desgovernado, para ser sincera.

— Ah, esses têm bons sonhos — ela respondeu, como se tivesse acabado de citar um tratado de magia lunar. — E acordam com energia rara.

— Tomara… — murmurei, calçando os sapatos com a cabeça ainda meio nublada.

O Salão Principal já estava movimentado quando cheguei. Alunos riam, bocejavam, passavam livros de mão em mão enquanto tentavam morder torradas ao mesmo tempo. A mesa da Corvinal parecia mais viva do que eu conseguia acompanhar.

Me sentei, servi um pouco de suco de abóbora e fiquei observando as bandeiras penduradas. O céu encantado estava claro, limpo e calmo. Mas dentro do meu peito, nada disso se refletia.

Eu tentava me ancorar nos detalhes: a cesta de pães quentinhos, os potes de geleia abertos, o tilintar constante de talheres. Mas era como estar alguns segundos atrasada do resto do mundo — como se minha linha do tempo estivesse desalinhada com a de Hogwarts.

— Você parece ter dormido em cima de uma adivinhação ruim — disse Cho, surgindo ao meu lado com uma maçã na mão e um sorriso suave.

Forcei um sorriso de volta.

— Acho que sonhei em três idiomas diferentes. Nenhum deles fazia sentido.

— Isso explica o olhar perdido — comentou Miguel, se sentando do outro lado. — Se quiser companhia pra ignorar responsabilidades, tô disponível até a segunda aula.

Dessa vez, sorri de verdade.

— Tô tentando me concentrar em respirar primeiro. Depois eu penso nas responsabilidades.

Tomei um gole do suco, tentando acalmar o redemoinho. Lá fora, o mundo girava. As pessoas falavam de lições, de apostas de quadribol, de quem ia ficar com quem até o Natal. Tudo seguia como se nada estivesse prestes a desmoronar.

Mas dentro de mim?

Dentro de mim, já tinha começado e não tinha mais como fingir que não era real.

⚡🧙


O sol se filtrava por entre os galhos trançados das árvores ao redor das estufas de Herbologia, tingindo o chão de sombras douradas que se moviam com o vento. O cheiro de terra molhada e musgo misturava-se ao perfume adocicado de alguma planta exótica que liberava esporos cintilantes a cada intervalo irregular.

Avistei meus amigos num dos bancos de pedra, à sombra de uma árvore retorcida cuja casca parecia... respirar. Harry estava quase afundando o rosto em um pergaminho amarrotado, Rony rabiscava com a pena em um ângulo duvidoso, e Hermione parecia à beira de um colapso nervoso. Ou de fazer o trabalho inteiro sozinha.

Foi Hermione quem me viu primeiro. O aceno dela dizia tudo: vem logo, por Merlin.

— Eles estão prestes a se autodestruir tentando terminar esse resumo — sussurrou assim que me aproximei. — E já desisti de explicar que deixar tudo pra última hora nunca funciona.

— Isso é mentira. Eu só trabalho melhor sob pressão — protestou Rony, bufando.

— Preciso entender o tal do fungo luminescente até o almoço, ou vou ser expulso da vida acadêmica — resmungou Harry, os olhos vermelhos de sono.

Me sentei sobre uma raiz larga da árvore viva e cruzei os braços.

— O segredo dos fungos é que eles são temperamentais. Tipo o Rony. Mas com menos tendência a falar besteira.

Rony fingiu ofensa. Hermione suspirou alto e puxou outro livro da pilha que parecia ter surgido magicamente ao lado dela.

— Vamos revisar. Mas só porque eu não aguento ver uma caligrafia tão ruim sendo punida com uma nota péssima.

— E porque você não resiste a organizar o caos — acrescentei, abrindo meu exemplar de Tratado de Poções Ancestrais. — A propósito, Harry… na receita do feitiço adormecente, substituir erva de sombra por angélica é bem comum no sul da África. Estabiliza a essência, mas muda o tempo de preparo. Aposto que foi isso que o Príncipe fez.

— Claro que ele usou uma substituição arriscada. Mas genial. — Hermione me lançou um olhar que misturava julgamento e resignação.

— Você tá ajudando ou reclamando? — perguntou Rony.

— Os dois — Hermione e eu dissemos ao mesmo tempo. Rimos.

O grupo ainda estava ali, intacto em meio à confusão: Hermione reorganizava as anotações como se estivesse montando uma fortaleza, Rony fingia que seu pergaminho fazia sentido, e Harry folheava um livro com o olhar distante, como quem procura respostas onde nem perguntas existem.

Até que ele parou. O olhar fixo em algum ponto além das árvores.

— O Malfoy tá tramando alguma coisa — disse de repente. — Eu sei que tá.

Hermione soltou o ar bem devagar, já prevendo o rumo da conversa.

— Harry, você não tem nenhuma prova. Só… impressões.

— E às vezes, impressões são tudo o que a gente tem — ele rebateu, a voz firme.

Eu observava tudo em silêncio até ali. Mas naquele momento, apoiei os braços nos joelhos e falei:

— Eu vi. — Os três me encararam ao mesmo tempo.

— No começo da semana. No sétimo andar. O Malfoy entrou na Sala Precisa. Sumiu. Como se o castelo tivesse engolido ele. — Hermione arregalou os olhos, mas tentou manter a racionalidade.

— Talvez ele só quisesse ficar sozinho…

— Draco Malfoy nunca quis ficar sozinho, Mione — retruquei. — Ele sempre quis plateia.

Harry me encarou. E pela primeira vez, vi nos olhos dele algo diferente. Um reconhecimento silencioso. Ele não estava mais sozinho naquela paranoia.

— A gente precisa descobrir o que ele tá fazendo lá dentro. Antes que seja tarde — disse ele.

— Precisamos de provas — insistiu Hermione. Mas a voz dela não tinha tanta certeza agora.

— Então a gente encontra — falei.

Rony não respondeu, só coçou a cabeça com aquele jeito dele de “meu Deus, por que eu?”. Mas ele não discordou.

O silêncio que veio depois era tenso, como se tivesse peso próprio. E mesmo com o sol se pondo atrás das estufas, senti um arrepio estranho.

Hermione e Rony se levantaram e começaram a se afastar, ainda discutindo ingredientes de poções — o que, honestamente, soava como o início de mais uma briga afetuosa. Eu fiquei. E Harry também.

Fingi que organizava meus papéis, mas a verdade é que minha cabeça ainda girava com o que eu tinha dito — e com o que não disse.

— Tá tudo bem? — perguntei, sem encará-lo.

— Tá. Quer dizer… tão bem quanto pode estar, né?

Assenti. O silêncio entre a gente era estranho demais para ser casual.

— Harry… eu preciso te contar uma coisa. — Ele se virou um pouco mais, os olhos atentos.

— Eu tenho sonhado com você e com o Voldemort. Em duelo. Em ruínas, em lugares que eu nunca vi, mas sempre com o símbolo do meu grimório... brilhando no ar. Como se fosse parte do duelo.

Ele ficou quieto.

— Já aconteceu outras vezes? — perguntou, por fim.

— Sim. Mas agora é diferente. Não parecem fragmentos do passado. É como se eu estivesse espiando o que ainda vai acontecer.

Ele desviou o olhar, absorvendo. Quando voltou pra mim, era como se finalmente estivesse me enxergando de verdade.

— Por que você não me contou antes?

— Porque, assim que tive o primeiro sonho com você, eu contei ao Dumbledore. — A voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Ele me ouviu com calma, explicou algumas coisas… mas eu ainda estava tentando entender. Precisava absorver tudo antes de contar pra mais alguém. Não é fácil carregar algo assim sem saber o que significa.

Harry virou ligeiramente o rosto, surpreso.

— E o que ele disse?

— Que isso que eu vi… não é só uma premonição. — engoli em seco. — É um ponto de convergência. O Dumbledore disse que algumas visões carregam sinais do que está por vir. E que quando eu vejo você e o Voldemort juntos assim… é porque esse confronto está se aproximando. É inevitável. E a magia está tentando me preparar pra isso.

Harry balançou a cabeça devagar, absorvendo aquilo como quem junta peças de um quebra-cabeça que sempre soube que existia, mas nunca tinha conseguido montar.

— Não é errado. — A voz dele estava mais firme agora. — É importante. Talvez… mais do que a gente imagina.

Respirei fundo, olhando pro céu que já escurecia atrás das estufas.

— Às vezes, sinto que tem algo dentro de mim que não é só meu. Como se eu estivesse escutando um feitiço que começou muito antes de mim. E agora, é como se esse feitiço tivesse virado de direção.

Ele se aproximou. Só o bastante para que os ombros quase se encostassem.

— A gente vai descobrir o que é isso. Juntos.

Virei o rosto devagar. E então encontrei os olhos verdes dele — tão cheios de tudo o que não sabíamos como dizer, tão intensos que por um instante esqueci como se respirava direito.

Era nesses momentos que eu me odiava um pouco. Porque era impossível negar. Porque bastava ele me olhar assim pra que meu coração disparasse feito louco, como se fosse explodir de tudo o que eu ainda sentia. E quanto mais eu lutava contra isso, mais claro ficava: eu gostava dele. Mais do que queria. Mais do que podia.

— Obrigada… por acreditar.

Harry não respondeu de imediato. Apenas estendeu a mão, como se soubesse que palavras não bastavam. E eu, sem pensar muito, entrelacei meus dedos nos dele.

— Sempre acreditei — ele disse, enfim.

Simples. Verdadeiro.

E ali, com as mãos unidas no meio do silêncio que só nós dois entendíamos, eu soube: ele estava comigo. E pela primeira vez… eu acreditei também.

O céu amanhecia coberto por uma névoa fina, mas o campo de quadribol já começava a ganhar vida.

Prendi os cachos com um feitiço rápido, apertei as luvas e montei na vassoura com firmeza. Um impulso, e subi no ar com um giro certeiro, cortando o vento como se estivesse fugindo de tudo que me prendia ao chão.

O uniforme da Corvinal colava no corpo com a brisa gelada da manhã, e por alguns minutos, o mundo lá embaixo simplesmente sumiu. Os símbolos em chamas, os sonhos com serpentes, as sombras que me seguiam em silêncio — nada disso existia ali. No céu, só existia instinto.

— Vamos, ! — gritou Pirlo, lançando uma das goles com força.

Mergulhei sem hesitar, o corpo rente à vassoura, e rebati com precisão. A bola cortou o campo numa trajetória limpa, arrancando um murmúrio satisfeito de quem assistia.

— Isso! É assim que se joga! — vibrou uma voz das arquibancadas.

Nem precisei olhar pra saber quem era. O tom calmo, mais animado, só podia ser de Ian Caulfield — o aluno da Lufa-Lufa com quem eu vinha trocando algumas palavras pelos corredores, principalmente depois das aulas de Runas Antigas. Gentil, observador... e, se eu fosse honesta, uma das opções citadas naquela conversa com a Hermione. Aquela em que eu prometi a mim mesma que ia tentar olhar para outras direções.

Sorri. Um daqueles sorrisos curtos, quase privados. Só meus.

Nos treinos, eu me sentia mais eu do que em qualquer aula. Ali não havia pressões por respostas, nem visões inquietantes. Era só eu, a vassoura, o céu.

Quando o treino terminou, pousei com leveza. Meus colegas começaram a se dispersar entre risos e planos para o resto do dia. Ainda com as bochechas coradas do frio e o coração acelerado, fui até a arquibancada pegar minha capa. Foi aí que ouvi a voz de novo.

— chamou Ian, descendo os degraus com as mãos nos bolsos. — Foi incrível. Sua velocidade de reação no segundo lance... — ele fez um gesto no ar, imitando meu mergulho — ...foi coisa de profissional.

— Exagerado — respondi, rindo enquanto pegava a toalha para enxugar o rosto. — Mas obrigada.

— Não é exagero. Eu nunca teria conseguido fazer aquele desvio — ele disse, e hesitou por um segundo, como se estivesse escolhendo as palavras. — Escuta... eu sei que você anda meio ocupada, mas... ainda quer ajuda com Runas do Norte? E quem sabe... eu também poderia aprender um pouco sobre as do Sul?

Olhei pra ele por um momento. Os olhos de Ian eram gentis, atentos. Sem julgamento. Sem expectativa disfarçada.

Assenti, respirando fundo.

— Tudo bem. Vamos marcar. Depois do passeio, pode ser?

— Pode — ele sorriu. Um sorriso inteiro. — Te vejo no Salão.

Fiquei o observando se afastar, e por um instante... o peso da manhã pareceu recuar.

⚡🧙


O Salão Principal estava mais barulhento do que o habitual, com os alunos ansiosos pelo passeio a Hogsmeade trocando planos entre mordidas em torradas e goles apressados de suco de abóbora.

Me sentei na mesa da Corvinal ainda com o cabelo levemente úmido do banho pós-treino. O corpo estava relaxado, mas a mente... não. A sensação da névoa sobre o campo ainda pesava no fundo do estômago — uma premonição sem forma, mas teimosa.

Ao meu lado, Luna mastigava uma torrada com geleia de amora com aquela calma de quem nunca estava, de fato, inteiramente aqui.

— O ar hoje está estranho — ela disse, encarando o teto encantado com olhos mais arregalados que o normal. — Como se a magia do castelo estivesse... azeda.

Ergui uma sobrancelha, desconfiada.

— Azeda?

— É. Como leite deixado fora da geladeira — explicou, como se fosse a coisa mais natural do mundo. — Ácido e barulhento. Você não sente?

Hesitei. A verdade é que sentia algo, sim. Mas colocar aquilo em palavras era quase impossível.

— Eu... sinto que tem algo fora do lugar. Mas não sei se chamaria de leite ruim.

Luna sorriu, satisfeita por não ser a única desconfortável com o ar à nossa volta.

Foi quando Hermione apareceu com sua típica expressão determinada e uma pilha de pergaminhos meio desalinhados nos braços.

— disse, ajeitando a mochila no ombro. — A gente vai pra Hogsmeade logo depois do café. Você vem?

Pensei em recusar. Queria ficar na torre, estudar um pouco, talvez escrever no diário… ou só sentar em silêncio com aquele pressentimento até ele fazer sentido. Mas, no fundo, sabia que me isolar era exatamente o que esse tipo de sensação queria que eu fizesse.

— Tá bem — respondi por fim. — Eu vou com vocês.

Hermione assentiu, satisfeita, e foi atrás de Rony e Harry. Luna me observou por um segundo, depois murmurou:

— É bom ir. Coisas importantes sempre acontecem em Hogsmeade. Mesmo quando a gente não quer.

Tomei o restante do suco. A frase dela ficou martelando na minha cabeça.

Mesmo quando a gente não quer.

O vilarejo parecia mais acinzentado do que o normal — e não era só por causa da névoa.

À medida que descíamos a trilha de pedras, folhas secas se arrastando sob nossos pés, eu sentia o peso da magia pairando sobre as ruas. Portas protegidas com feitiços recém-lançados brilhavam discretamente. Algumas vitrines estavam rachadas, outras, cobertas com tábuas de madeira.

— Isso aqui tá com cara de lugar assombrado — murmurou Rony.

— Tá com cara de vila em alerta — corrigiu Hermione. — Li no Profeta que os aurores reforçaram a segurança. Aplicaram feitiços anti aparatação por todo o entorno.

Andava um pouco atrás deles, olhando para cada detalhe do vilarejo. Um homem de capa escura cruzou nosso caminho em silêncio. Um gato preto nos vigiava do alto de uma janela.

Quando entramos no Três Vassouras, o lugar não era o mesmo. O cheiro de manteiga amanteigada ainda estava lá, mas a luz parecia mais fria. A tensão pairava no ar como poeira encantada.

Madame Rosmerta nos cumprimentou sem o sorriso habitual. Franzi o cenho.

— Tem alguma coisa errada com ela — murmurei.

— Com quem? — perguntou Hermione.

— A Rosmerta. Ela tá... estranha.

Nos sentamos numa mesa de canto. As canecas chegaram, mas até a cerveja amanteigada parecia menos reconfortante. Observei as mãos dela. Levemente trêmulas. E o olhar… fugia sempre que passava pela janela dos fundos.

Harry estava alerta. Os olhos varrendo tudo. Até que ele congelou.

— Ele está aqui — disse.

— Quem? — perguntou Rony.

— Malfoy.

Segui o olhar dele. E vi. Quase escondido atrás de uma divisória, o cabelo prateado denunciava. E Rosmerta... estava com ele. Inclinada. Falando baixo. Segundos depois, os dois saíram às pressas.

— Não pode ser — disse Hermione, já entrando no modo negação. — Ele não viria aqui assim.

— Eu vi — insistiu Harry. — Ele tá tramando algo.

— A gente não pode ter certeza... — tentei dizer, mas parei.

Olhei pra ele. E vi, ele estava convicto. Hermione ainda resistia, mas a dúvida já começava a se formar. Do lado de fora, a névoa engrossava de novo. Hogsmeade parecia ser engolida.

Saímos do Três Vassouras em silêncio. Rony tentou puxar assunto, sugerindo a Dedosdemel.

— Preciso de feijõezinhos. Os últimos tinham gosto de remédio de trouxa.

— Isso porque você come tudo que brilha — provoquei.

— É uma política de vida. Brilhou, mastigou.

Sorri. Mas o sorriso morreu na boca quando viramos uma ruela menos movimentada. Katie Bell e Leanne vinham na direção contrária.

E eu senti.

Um calafrio me percorreu inteiro. Denso. Cortante.

Meus olhos foram direto para o pacote que Katie segurava — pequeno, envolto num tecido negro. A luz parecia fugir dele. Um brilho estranho escorria pelas costuras.

Franzi o cenho.

— Katie… — comecei, instintiva. Um passo à frente.

Tarde demais.

O grito cortou o ar. O embrulho explodiu em uma rajada invisível. Katie foi lançada para cima, o corpo convulsionando. Os dedos abertos, as veias saltadas, o rosto torcido de dor.

Corri junto com Harry. Rony e Hermione chegaram logo atrás.

— Afastem-se! — gritou uma auror, aparecendo do nada.

Rosmerta saiu da loja ao lado, pálida. Leanne chorava, em pânico.

— Eu disse pra ela não tocar! Eu disse! Ela disse que alguém mandou entregar! — Olhei pra Hermione.

— É uma maldição. Eu senti antes dela cair. Aquilo estava… vivo.

Hermione só assentiu, chocada. Os aurores baixaram Katie com feitiços de contenção. Um orbe mágico isolou os restos do embrulho.

— Leve-a para St. Mungus imediatamente. Isso é magia das trevas.

O grupo voltou em silêncio pela estrada. Eu ainda sentia a vibração do feitiço na pele. Harry quebrou o silêncio.

— Eu vi esse colar. No verão. Na Borgin & Burkes. Quando segui o Malfoy. — Hermione tentou argumentar. Mas eu sabia. Sabia demais.

— Não foi um acidente. Nem coincidência.

Harry me encarou.

— Você acha que foi ele? — Assenti, devagar.

— Eu acho que ele tá brincando com magia que não entende. E vai machucar muita gente até perceber.

Ninguém respondeu.

A névoa em Hogsmeade não se dissipou naquele dia, e algo me dizia que também não dissiparia tão cedo.

⚡🧙


Mais tarde, de volta a Hogwarts, os corredores fervilhavam de cochichos e teorias desencontradas. O ataque à Katie Bell se espalhava de boca em boca como fogo em feno seco — e, por mais que tentassem disfarçar, todo mundo estava assustado.

Segui pelo saguão principal em direção às escadas da torre, os passos firmes, o olhar distraído. Ainda tentava processar o que tinha sentido em Hogsmeade — o colar, a magia pulsante, aquela certeza incômoda de que o perigo agora tinha rosto. E cheiro.

Foi aí que vi a sombra perto de uma das colunas centrais. Zabini.

Estava recostado como se fizesse parte da arquitetura, mãos nos bolsos do manto e aquele sorriso preguiçoso que ele usava quando queria parecer inofensivo. Spoiler: nunca funcionava.

— Você sempre parece saber o que vai acontecer antes de todo mundo... — disse, casual, como quem comenta o tempo. — É seu talento natural ou tem a ver com aquele diário que você vive escondendo?

Parei. Cruzei os braços, erguendo uma sobrancelha.

— Talvez eu só saiba ler pessoas. Algumas são mais fáceis que outras.

Ele riu, e o som foi baixo, quase íntimo. Deu um passo à frente. Depois outro. A distância entre nós se encurtou.

— Anda comigo — disse, sem explicar, apenas fazendo um leve gesto com a cabeça em direção a um corredor lateral, meio apagado.

Hesitei por um segundo, mas segui.

Assim que entramos ali, Zabini me encostou delicadamente na parede de pedra fria, ficando à minha frente como se criasse um espaço fora do tempo.

— E o que você vê em mim, ? — A voz era baixa, carregada de algo entre provocação e desafio. — Vamos lá. Me surpreenda.

Sorri de lado.

— Um pavão com perfume de serpente. — Zabini gargalhou.

— Hum… criativo. Gosto disso.

Ele inclinou o rosto. E quando seus lábios estavam a milímetros dos meus, eu virei o rosto — deixando que sua boca tocasse apenas minha bochecha. Ele ficou parado por um segundo, depois riu baixinho contra minha pele. Afastei sua mão com leveza e ergui uma sobrancelha.

— Boa noite, Zabini.

— Até parece que você nunca me beijou, .

— Já beijei. Mas agora... não tô com vontade. — A resposta foi seca, mas ele não se ofendeu. Pelo contrário.

— Um dia você vai ceder de novo — disse ele, recuando com aquele sorrisinho presunçoso. — E quando acontecer... vou estar esperando.

Virei as costas, o coração batendo um pouco mais rápido do que eu queria admitir, e voltei ao corredor principal.

E foi então que o vi.

Harry.

Parado a poucos metros dali. O rosto tenso. O maxilar travado. Os olhos cravados em mim como se tivesse acabado de presenciar um crime.

— Então é isso agora? — a voz dele me cortou como uma lâmina.

— Isso o quê, Harry?

— Você está ficando com ele, com o Zabini? — Ele cuspiu o nome como se queimasse a língua. — Você sabe quem ele é. O que ele é. E mesmo assim...

— O que você está insinuando? — retruquei, cruzando os braços, tentando manter o tom calmo, mesmo com o sangue fervendo.

— Ele disse, . Disse que vocês já se beijaram. — Engoli em seco. Eu não tinha como negar. Não completamente.

— E o que exatamente você quer saber? Se é verdade?

— É! — a voz dele se ergueu. — É verdade?

— É. Aconteceu, sim. Uma vez, talvez duas, sei lá. — Segurei o olhar dele. — E daí?

Harry ficou em silêncio por um segundo. Mas o silêncio dele era barulhento. Estalava entre nós.

— Como você pôde... com ele?

— Eu não tô entendendo essa conversa — respondi, firme. — Desde quando você acha que tem o direito de questionar com quem eu fico?

— Ele é... o Zabini! Um cara que vive me provocando, que anda com o Malfoy, que...

— Que não te deve nada. Assim como eu. — Ele se calou por um instante, mas o olhar seguia queimando.

— É isso, então? Você gosta dele? — A pergunta me pegou de surpresa. Mais pela intensidade do que pelas palavras.

— E se eu gostasse? — rebati, o tom cortante. — Você vai fazer o quê?

Harry abriu a boca, mas nada saiu. O olhar dele parecia prestes a explodir em palavras que ele mesmo não conseguia organizar.

— Você sempre agiu como se minha vida não fosse da sua conta — continuei. — E, adivinha? Ainda não é. Eu nunca me meti nas suas escolhas, nunca questionei suas decisões. Então por que diabos você acha que pode fazer isso comigo?

— Porque ele é o Zabini, ! — ele disse, a voz erguida. — Você tem ideia do que ele é capaz?

— Tenho, sim. E ainda assim, não é da sua conta.

Harry passou a mão nos cabelos, visivelmente irritado. Parecia mais com ele mesmo quando enfrentava Comensais do que conversando comigo.

— É que... ver você com ele... — murmurou, a voz mais baixa agora, quase falhando. — Não parece certo.

— Não parece certo pra você, talvez. Mas eu não preciso da sua aprovação pra nada, Harry. Eu não sou sua aluna. Não sou sua irmã. E definitivamente não sou sua responsabilidade.

O silêncio que se instalou depois disso foi denso, quase sufocante.

— Nós somos amigos. E amigos não fazem esse tipo de cena — acrescentei, fria.

Ele me encarou, os olhos verdes intensos, como se quisesse entender o que estava sentindo e falhando miseravelmente.

Me virei, sem esperar resposta. Não olhei pra trás, mas senti. O olhar dele queimando minhas costas como se fosse um feitiço não lançado.

Subi os últimos degraus da Torre da Corvinal como quem carregava o próprio corpo no feitiço Levicorpus, pendurada de cabeça pra baixo pelas emoções.

O dormitório já estava mergulhado no silêncio das cortinas fechadas e da respiração calma das colegas dormindo. Mas minha cabeça… essa não fazia silêncio nenhum.

Troquei de roupa devagar, sentindo o tecido roçar na pele como se eu estivesse sensível demais até para o toque de algodão. Me joguei na cama e fiquei ali, encarando o teto azul-escuro que refletia o céu do lado de fora.

Harry.

O nome dele ecoava como uma palavra maldita dentro de mim.

Por que aquilo tudo tinha me afetado tanto? Por que ver aquele olhar nele — raiva, ciúme, frustração, tudo junto — mexeu comigo desse jeito?

Virei para o lado, puxando meu diário, mas acabei pegando apenas um pergaminho em branco. E, por algum motivo, em vez de escrever sobre tudo aquilo que me atravessava, comecei a rascunhar uma carta.

Ian,

Me desculpa por cancelar tão em cima da hora, mas hoje não vou conseguir estudar com você.

Minha cabeça está um caos e eu não quero ser uma companhia ruim e, honestamente, você merece mais do que isso.

A gente pode remarcar pra outro dia?

Com carinho,
.

Li uma, duas vezes. Não dizia muito, mas também… dizia tudo. Dobrei o pergaminho e o deixei separado perto da janela. Mandaria no primeiro horário com minha coruja.

Fechei os olhos. Tentei dormir, mas só conseguia ouvir a voz do Harry, presa entre raiva e alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.

“Não parece certo.”

Nem tudo que não parece certo… é errado. Às vezes, só é novo. Suspirei, hoje, eu só queria conseguir respirar sem sentir o peso de um olhar me seguindo.

⚡🧙


O Salão Principal ainda ecoava com risos, tilintar de talheres e conversas triviais sobre tarefas, quadribol e aulas. Na mesa da Corvinal, os colegas falavam animadamente sobre a última aula de Runas, mas minha cabeça estava longe demais para acompanhar debates sobre declinação mágica e estrutura simbólica.

Eu estava prestes a seguir direto para a torre quando ouvi a voz de Rony:

— Ei, ! — Ergui os olhos, surpresa.

Hermione deu um leve sorriso, empurrando um pouco a bancada para abrir espaço. Rony acenava com um pedaço de torta na mão. E Harry... Harry nem olhou.

Hesitei. Depois da nossa discussão, a última coisa que eu queria era ficar perto dele, ainda mais em público. Mas ignorar o convite também levantaria suspeitas, e eu já tinha olhos demais em cima de mim naquela semana.

Caminhei até a mesa com passos contidos e me sentei devagar, mantendo uma distância segura entre mim e o garoto que agora evitava qualquer contato visual comigo.

O silêncio entre mim e Harry dizia muito e nada ao mesmo tempo.

— Enfim, aquilo não foi um acidente — disse ele, com os olhos fixos no prato, mas a voz firme, como se minha chegada não mudasse nada. — O colar era uma armadilha.

Hermione soltou um suspiro longo, empurrando uma mecha de cabelo para trás.

— Harry, você já falou isso. E ninguém quer acreditar nisso mais do que a gente, mas ainda não há provas.

— Talvez porque o Malfoy seja esperto demais pra deixar rastros — ele rebateu, a mandíbula travada. — Desde a Borgin & Burkes eu venho falando.

Rony se remexeu no banco como quem queria estar longe daquela conversa.

— E se não for ele? — Foi minha vez de erguer os olhos.

— E se for? — O silêncio que se seguiu foi incômodo. Denso. — Vocês viram a Katie. Aquilo foi magia das trevas. Poderosa. Planejada. Quem mais teria acesso a esse tipo de objeto aqui dentro?

Hermione hesitou. Um segundo. Dois. O bastante para deixar escapar a dúvida por trás da lógica.

— Existem muitos bruxos com más intenções. Não podemos sair acusando alguém só porque é... Malfoy.

— Às vezes, a resposta mais óbvia é a certa — murmurei. — E algumas verdades estão mais perto do que a gente quer admitir.

Meus olhos encontraram os dele por um segundo. Rápido demais. Tenso demais. Harry desviou primeiro, mas não antes de perceber o desconforto no meu olhar também. Estávamos diferentes. E ninguém parecia mais consciente disso do que Hermione. Ela franziu levemente o cenho, observando a troca silenciosa entre nós dois.

— Está tudo bem com vocês? — perguntou devagar, com aquele tom suave que sempre precedia uma intervenção.

— Claro — falei ao mesmo tempo que Harry disse “sim”, ambos rápidos demais.

O constrangimento preencheu o espaço entre a gente como um feitiço mal executado. Hermione não insistiu. Mas o olhar dela… dizia que anotaria mentalmente para questionar depois.

Foi quando Rony, em sua falta de tato habitual, tentou mudar de assunto do jeito mais desastrado possível:

— Falando em gente com más intenções… e o Zabini… — Hermione arregalou os olhos. Eu, sinceramente, quis usar um Silencio nele.

— Sério, Rony? — rebati, sem paciência. — Essa é sua contribuição?

— Só comentei… — disse, dando de ombros. — Ele vive te encarando e aquela cena no corredor ontem… Eu espero que você não esteja ficando com ele. Ele é inimigo. — Bufei, sem esconder a irritação.

— Não tenho nada com Zabini. E nem vou ter.

Falei devagar, com firmeza, olhando diretamente para ele. Foi então que Harry finalmente reagiu.

— Isso não é verdade — disse, a voz baixa, mas clara o suficiente para fazer o garfo de Rony parar no meio do caminho até a boca.

Virei o rosto para ele, lentamente. O sangue gelando. Hermione também congelou, os olhos arregalados, alternando entre mim e Harry como se não soubesse se estava ouvindo certo.

— O quê? — perguntei, quase num sussurro.

— Eu os vi ontem, depois da ceninha pública — continuou ele, sem desviar o olhar. — E ele mesmo disse... que já a beijou e ela me confessou ontem também.

O silêncio caiu sobre a mesa como um feitiço de congelamento. Rony tossiu, engasgando com um pedaço de frango.

O quê?! — exclamou. — Você… ficou com aquele... aquele... sonserino nojento?!

— Não foi assim — rebati, a voz mais alta do que eu pretendia. — E ele não é o que vocês pensam.

— Não é o quê? Um completo imbecil com a cara de quem vai te amaldiçoar pelas costas? — retrucou Rony, indignado.

Hermione não disse nada no início. Só olhou para mim. E aquilo doeu mais que qualquer acusação.

— Por que você não me contou? — perguntou, baixo. Magoada.

— Porque não tinha o que contar. Foram só dois beijos, um no quarto ano e um recentemente. Um erro. E, sinceramente, nem sei por que isso está virando uma sessão do Wizengamot! — explodi, me levantando da mesa. — A vida amorosa de vocês não vira interrogatório público, então por que a minha vira?

— Porque não estamos nos pegando com os possíveis ajudantes do Malfoy! — gritou Rony, vermelho até a raiz dos cabelos.

— Eu não estou me pegando com ninguém! — gritei de volta. — Foi um beijo! E ele não me enfeitiçou, nem me manipulou, nem me obrigou a nada! Foi uma droga de momento de confusão, e eu não devia ter que me explicar por isso!

— Mas devia — disse Harry, finalmente se levantando também. — Porque isso muda tudo, . Ele não é confiável. E se ele usou você para conseguir informação?

Usou?! — arregalei os olhos, ofendida. — Você realmente acha que eu seria idiota a esse ponto?

— Não é isso que ele tá dizendo! — tentou Hermione, tensa, mas estava claro que ela mesma não sabia de que lado ficar.

— É exatamente isso que ele tá dizendo! — falei, encarando Harry. — Que eu sou tola. Que eu sou burra. Que eu não sei com quem me envolvo.

— Não é isso, … — Ele parecia sem ar. — É que... é Zabini.

— E você é o Harry Potter, o escolhido, o herói, o cara que acha que pode julgar todo mundo. Mas não pode. Não pode, Harry.

O silêncio voltou. Denso. Cortante.

E então eu me afastei, o peito arfando, os olhos ardendo, ignorando os olhares que agora vinham de outras mesas também. A escola toda adorava um espetáculo.

Mas eu não olhei pra trás, por um instante, não senti culpa.

Senti raiva.

Raiva de ter que justificar meus erros mais do que os acertos deles. Raiva de saber que, se fosse com qualquer outro, talvez ninguém se importasse.

Talvez ninguém notasse.

Mas comigo... sempre era diferente.

⚡🧙


A noite caiu pesada sobre Hogwarts. Do lado de fora da torre da Corvinal, o vento sussurrava entre as pedras, como se o castelo inteiro também guardasse seus próprios segredos. Subi os degraus em silêncio, cada passo ecoando fundo dentro da minha mente inquieta.

Na sala comunal, alguns alunos ainda conversavam em voz baixa, espalhados pelos sofás e poltronas. Mas bastou eu passar pelo arco para sentir os olhares deslizando na minha direção, não hostis, mas curiosos. Especulativos.

— Não foi ela que estavam dizendo que ficou com um sonserino? — uma menina do quarto ano murmurou, rindo baixo.

Fingi não ouvir. Fingi que não me importava.

Acenei de leve para a Cho, que estava recostada perto da lareira com um livro no colo e um olhar cauteloso, como quem não sabia se devia me chamar para conversar. Desviei da Miranda, adormecida sobre um livro de Feitiços Avançados, e segui direto para o dormitório.

Fechei a porta com cuidado, como se o som pudesse acordar algum feitiço adormecido.

Sentei-me na beira da cama, os dedos repousando sobre a capa do grimório. Ainda sentia no corpo a tensão do jantar. A certeza do Harry. O olhar da Hermione. A decepção que veio sem que ninguém dissesse nada em voz alta. O ciúme mal disfarçado de alguém que nunca dizia o que sentia, nunca dizia.

Respirei fundo.

Foi então que aconteceu.

Não era sonho. Nem sono.

Foi como um estalo — como se o tempo tivesse escorregado por entre as frestas do presente. O quarto escureceu por um instante. E então, diante dos meus olhos abertos, a imagem surgiu:

O colar amaldiçoado, flutuando, envolto por fios de luz negra que se entrelaçavam como serpentes. Uma mão estendida, mas o rosto, invisível. Vozes gritando. Uma mulher. Uma explosão de luz prateada. E uma porta. Fechando. Trancando algo por dentro.

Pisquei. E voltei.

Mas o ar parecia mais frio. A nuca suada. O coração batendo rápido demais pra quem não tinha nem saído do lugar.

Aquilo não era só uma premonição. Era um aviso.

Me levantei devagar, peguei a varinha e, com um toque leve, abri o grimório, procurando o símbolo. Ele não brilhava, mas estava mais fundo. Como se cada traço carregasse agora um peso que antes eu não sabia nomear.

Puxei um pedaço de pergaminho limpo, respirei fundo e comecei a escrever.

Mãe,

Dumbledore me contou que vocês sabem do meu dom, ele despertou. Sempre senti algo diferente, mas agora está ficando mais forte. Não são apenas sonhos. Nem apenas visões. É como se coisas que não são minhas estivessem tentando me alcançar.

Às vezes, vejo imagens, fragmentos de algo que ainda não aconteceu. Às vezes, ouço vozes que não pertencem a ninguém ao meu redor. E tudo parece real demais para ser só imaginação.

Não estou com medo, mas estou cansada. Confusa. Sinto como se estivesse carregando uma chave para algo que nem sei onde fica a porta.

Você sempre me disse para ouvir a magia. Mas, mãe, ela está gritando. E eu não sei mais como escutar sem me perder no meio.

Me ajuda. Por favor. Me ensina a entender isso. Eu preciso de você agora mais do que nunca.

Com amor,

.

Fechei os olhos por um segundo. Selar o pergaminho com um feitiço suave foi quase automático. Coloquei a carta sobre a escrivaninha, pronta para ser levada por uma coruja assim que amanhecesse.

Me deitei, mas deixei a vela acesa. E antes de fechar os olhos, pensei:

"Algumas maldições não são lançadas. Elas apenas... esperam o momento certo para se revelar."



O céu ainda estava em tons de cinza azulado quando deixei a Torre da Corvinal em silêncio, os corredores frios roçando nos meus tornozelos como véus encantados. A maioria dos alunos ainda dormia, e era assim que eu preferia. Sozinha. Em paz. Com o pergaminho dobrado com cuidado entre os dedos, caminhei até o corujal.

Subi os degraus de pedra da torre onde as corujas dormiam ou despertavam, sacudindo as asas sob o telhado aberto. Algumas me ignoraram por completo. Outras apenas me observaram, curiosas.

— Abeni — chamei baixinho.

Ela apareceu quase no mesmo instante, descendo com um voo leve e preciso. Suas penas tinham um brilho perolado, com manchas escuras nas pontas, e os olhos dourado-âmbar pareciam antigos demais para aquele corpo pequeno. Abeni sempre tivera esse ar de sabedoria silenciosa. Como se escutasse mais do que deveria. Como se entendesse coisas que nem eu conseguia nomear.

Ela pousou no corrimão de pedra à minha frente, erguendo a cabeça com dignidade.

— É pra minha mãe — sussurrei, amarrando o pergaminho à patinha dela com um feitiço leve de proteção. — E leva devagar, tá? Ela precisa de tempo pra ler. E eu preciso de tempo pra respirar.

Abeni bicou meu ombro com delicadeza. Depois, com um bater de asas quase cerimonial, levantou voo, sumindo entre as névoas das primeiras luzes do dia.

Fiquei ali por mais um momento, observando o céu mudar de cor. Do azul profundo para tons suaves de dourado.

“Escuta a magia, filha.”

Eu estava tentando, mãe. De verdade.

E agora, pelo menos, eu não estava mais em silêncio.

Desci os degraus de pedra em silêncio, o cheiro da manhã ainda grudado na pele. A carta já estava nas asas de Abeni, voando em direção à única pessoa que podia me oferecer respostas ou, pelo menos, me ensinar a não afundar nas perguntas.

O castelo começava a despertar. As armaduras cochichavam entre si, os retratos trocavam bocejos e acenos, e o Salão Principal já vibrava com o som abafado de talheres e conversas.

Depois de deixar a carta para minha mãe no corujal, desci para o Salão Principal. Ainda era cedo, mas o lugar já começava a se encher. Sentei perto da Luna, que comia fatias de pêssego em silêncio, como se estivesse em outro plano de existência — o que, com ela, nunca era surpresa.

— Dormiu melhor? — perguntou com a voz leve, sem me olhar diretamente.

Assenti com um meio sorriso, apesar da exaustão ainda colada no meu corpo. Ela apenas mastigou mais uma vez, como se entendesse tudo sem precisar de mais palavras. E eu agradeci, em silêncio, o fato de ela não tocar no que todos os outros provavelmente comentavam desde a noite anterior.

A discussão com Harry, os olhares no Salão, os sussurros nos corredores… Infelizmente, parecia que tínhamos entregado à escola inteira o espetáculo da semana. E Luna, com sua sensibilidade etérea, soube exatamente o que não dizer.

Quando o horário bateu, nos levantamos juntas para a primeira aula do dia: ela, Trato das Criaturas Mágicas; eu, Herbologia. Seguimos lado a lado pelos corredores abertos e pelas escadarias externas, o vento frio da manhã roçando o rosto. O castelo parecia respirar com um silêncio antigo, daqueles que precedem algo que ainda não tem nome.

— Hoje Hagrid disse que vai trazer pelúcios — comentou Luna com a mesma serenidade de quem fala sobre flores silvestres. — Eles adoram objetos brilhantes.

— Apesar de tudo, eles são fofinhos, né? — murmurei, ajeitando a mochila no ombro.

Quando estávamos quase chegando ao caminho que levava às estufas e ao campo de criaturas, uma voz conhecida me chamou:

?

Parei no mesmo instante. Gina vinha de uma trilha lateral, os cabelos soltos esvoaçando com o vento da manhã, a mochila pendurada de qualquer jeito.

— Oi — respondi, tentando soar natural, mesmo com o estômago virando.

Luna parou ao meu lado, observou a cena com seus olhos grandes e tranquilos, e depois disse com um sorrisinho misterioso:

— Acho que vou na frente. Os pelúcios me esperam.

Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela já tinha se afastado pelo caminho de terra, me deixando sozinha com Gina e com o peso do que eu não dizia. Gina se aproximou devagar.

— Eu estava te procurando. — Ela parou de frente pra mim, a voz mais baixa. — Você sumiu esses dias… e eu fiquei pensando se tinha feito algo errado.

— Não foi você — respondi depressa demais. — Juro que não.

Ela me olhou, o rosto impassível, mas os olhos… os olhos procuravam mais do que as palavras que eu estava dizendo.

— É só que... algumas coisas aconteceram. Eu tô tendo visões, Gina. Coisas que eu não entendo completamente, que me deixam esgotada. É como se eu estivesse presa entre dois mundos e...

— Isso começou agora? — Engoli em seco.

— O quê?

— As visões. Essa exaustão. Porque... se for só isso, por que você passou o começo do ano letivo inteiro me evitando?

O baque veio como um soco bem aplicado, certeiro, direto, e impossível de desviar.

— Não te evitei — disse rápido demais. Ela cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.

.

Soltei o ar com força, sentindo o peso da verdade que eu ainda não estava pronta para encarar, muito menos pra confessar. E tinha nome e sobrenome: Harry Potter.

— Eu juro que não foi por mal. Eu só... precisava de espaço. Pra lidar com tudo. Comigo.

Gina me estudou por um instante, depois assentiu, lentamente.

— Tudo bem. Mas não precisa se esconder de mim, sabe? Eu não sou seu inimigo.

— Eu sei — murmurei, sentindo uma pontada de culpa apertar meu peito. Ela me olhou por um momento que pareceu mais longo do que realmente foi. — Eu senti sua falta — disse, simples assim.

— Eu também. — Ela mordeu o canto do lábio, como se ponderasse se devia ou não continuar. — E, olha… só pra constar: não acho que você esteja errada. Sobre o Zabini, quero dizer.

Levantei uma sobrancelha, surpresa. Ela deu de ombros, com um sorriso pequeno.

— Ele é bonitinho. Arrogante, claro, mas bonitinho. Se eu tivesse um galeão pra cada vez que algum grifinório me julgou por dar uns beijos... bom, eu já teria meu próprio castelo.

Ri, aliviada pela leveza.

— Você é mais compreensiva do que muita gente.

— É que eu sei como é ser mal interpretada.

Gina ajeitou a alça da mochila e olhou para o céu, como se estivesse procurando coragem entre as nuvens.

— Você vai pra Herbologia agora? — Assenti. — Então… que tal almoçar comigo depois? Com a gente, quero dizer. Com o pessoal da Grifinória. Rony, Mione, Harry…

Hesitei. O nome dele ainda parecia latejar.

— Acho melhor não — murmurei. — Eu e eles… a gente não tá bem. — Gina franziu o cenho, mas não com julgamento. Apenas tristeza.

— Essa briga não vale a pena, .

— Talvez. Mas agora… eu só preciso de um pouco de espaço. — Ela assentiu devagar, aceitando.

— Então tudo bem. A gente almoça só nós duas. Os outros que se virem. — Dessa vez, meu sorriso saiu mais genuíno.

— Obrigada, Gina.

— Você não precisa se isolar, tá? Não de mim.

— Eu sei.

Ela me deu um aceno e se afastou pelo caminho oposto. Fiquei ali por um instante, respirando fundo. O vento continuava frio, mas... doía menos.

As estufas estavam envoltas por uma névoa suave quando cheguei, o vidro das paredes embaçado pelo contraste da manhã fria com o calor interno. Lá dentro, o ar era úmido e perfumado, uma mistura de terra molhada, raízes frescas e flores que exalavam magia mesmo sem desabrochar.

A turma se espalhava pelas bancadas, e logo percebi que todos os lugares já estavam praticamente ocupados. Andei até o fundo, varrendo os rostos com os olhos cansados, procurando onde me encaixar sem ter que falar muito com ninguém.

Foi aí que a vi.

Ela estava sozinha ao lado de uma das bancadas centrais — uma aluna da Lufa-Lufa que eu só conhecia de vista. Morena, de pele clara, usava tranças finas e delicadas presas até a metade das costas. O jeito como observava as plantas, com atenção tranquila, me chamou atenção. Tinha uma aura serena, quase... silenciosa.

Ela percebeu meu olhar antes que eu perguntasse.

— Pode sentar aqui, se quiser — disse, com um aceno de cabeça.

— Tem certeza? — perguntei, meio sem jeito.

— É isso ou você vai ter que dividir espaço com os tentáculos da bancada do fundo — respondeu, com um sorrisinho.

Sorri de leve, mais pelo alívio do que pela piada, e sentei ao lado dela. Pela primeira vez naquela manhã, o ar ao meu redor pareceu não pesar tanto.

— Saphira — disse ela, me oferecendo um par de luvas.

.

— Eu sei — respondeu com naturalidade, como se isso fosse óbvio. — A professora Sprout fala de você às vezes. E… bom, você não é exatamente invisível. — Franzi o cenho, surpresa.

— Isso era pra ser elogio?

— Só se você quiser. — E sorriu. Simples assim.

Antes que eu pudesse responder, a professora Sprout chamou a atenção da turma com seu entusiasmo de sempre:

— Hoje trabalharemos com a Língua-de-Sereia! Planta sensível ao humor do bruxo. Se estiverem nervosos… bem, ela morde.

Um burburinho correu pelas fileiras. Saphira me lançou um olhar leve.

— Então... melhor respirar fundo, né? — Assenti, calçando as luvas.

— É. Vamos manter nossos dedos inteiros hoje.

Ela riu, e voltamos nossa atenção para a planta. A Língua-de-Sereia balançava suavemente dentro do vaso, como se estivesse respirando. Suas folhas azuladas pareciam de cristal fino e, à medida que os alunos se aproximavam, emitiam pequenos sons, estalos, como bolhas estourando.

A professora Sprout caminhava entre as mesas, explicando:

— A planta é capaz de reconhecer alterações de humor. Se sentirem tristeza, ela fecha as folhas. Raiva? Espinhos. Ansiedade? Ela começa a emitir um som parecido com choro. Agora, se estiverem calmos… — ela sorriu — ela canta. Literalmente.

Uma das plantas emitiu uma nota suave. Miguel, aparentemente zen demais para o próprio bem, ganhou um “Muito bem!” animado da professora.

Saphira olhou para mim de canto.

— Já pensou? A planta cantar e alguém desafinar junto. Ia ser o caos. — Soltei uma risadinha abafada, o mais discreta possível.

— Do jeito que tô hoje, ela vai berrar.

— Então vamos tentar fazer ela cantar. Juntas.

Ela estendeu a mão devagar até a planta, sem tocá-la. Os dedos pairaram no ar, a poucos centímetros das folhas. Copiei o gesto, com menos leveza, mas tentando.

Ficamos assim por alguns segundos, concentradas. A planta balançou as folhas. Não cantou, mas também não mordeu.

— Isso é um bom começo — ela disse, olhando para mim com um sorriso leve. Assenti, ainda surpresa com a sensação de estar... em paz. Ou quase.

— Você sempre foi boa com plantas? — perguntei, sem pensar muito. Saphira deu de ombros.

— Talvez. Eu cresci com a minha avó. Ela dizia que a terra fala e que a gente tem que aprender a escutar. — Eu pisquei.

— Isso parece algo que a minha mãe diria.

— Ela também fala sobre escutar a magia?

— O tempo todo.

— Então talvez elas se conheçam, ou venham do mesmo tipo de sabedoria.

A planta, naquele momento, emitiu uma nota aguda. Nada demais, quase como um suspiro musical. Mas foi o suficiente para a professora Sprout sorrir ao longe e fazer um sinal de aprovação. Saphira me lançou um olhar satisfeito.

— Viu? A gente não é tão ruim assim juntas. — Sorri de volta.

— Fico feliz de não ter saído daqui com um espinho cravado no braço.

— Ainda dá tempo — ela brincou, mas o tom era gentil.

E ficamos assim. Trabalhando lado a lado. Sem perguntas demais, sem pressa. Só com aquela sensação estranha — e boa — de que, talvez, nem tudo estivesse fora do lugar. Quando a aula acabou, ela começou a guardar o material.

?

— Hm?

— Se quiser estudar alguma coisa junto depois… ou só não quiser ficar sozinha… — ela ajeitou uma das tranças com naturalidade — me encontra na biblioteca, depois do jantar.

Fiquei parada por um segundo.

— Tá bem — respondi, com um aceno. — Eu… vou.

Ela apenas sorriu de novo. Sem expectativa. Sem pressão.

E foi embora.

Mas deixou alguma coisa em mim que continuou vibrando, como uma nota que a Língua-de-Sereia não teve tempo de cantar completamente.


Os dois dias que se seguiram pareciam existir em outra dimensão do tempo, como se o castelo tivesse desacelerado só para me lembrar de cada escolha, cada silêncio, cada ausência.

Desde a briga no Salão Principal, eu evitava Hermione, Rony e Harry com a mesma precisão com que evitava meu reflexo. Nossos caminhos até se cruzavam, às vezes, mas os olhares desviados e as conversas interrompidas deixavam claro que o abismo entre nós só aumentava.

Foi Saphira quem preencheu o espaço, com palavras leves, risos inesperados e uma presença que, mesmo quando silenciosa, não exigia nada de mim além da verdade. Aos poucos, me vi ao lado dela nos intervalos, nos corredores, nas pausas entre aulas. E, estranhamente, aquilo era um alívio.

Mas as visões…

Essas, não davam trégua.

A cada noite, imagens surgiam com mais força. Símbolos flamejantes dançavam sob as pálpebras fechadas. Vozes sussurravam nomes que eu ainda não conhecia, e o peso do colar no meu pescoço parecia dobrar, como se algo, ou alguém, estivesse cada vez mais perto.

Naquela noite em especial, o céu estava costurado com nuvens densas, e os corredores de Hogwarts murmuravam os últimos ecos do jantar quando a professora McGonagall me encontrou nos andares superiores.

— O diretor gostaria que você fosse até o gabinete dele — disse ela com aquele tom que não deixava espaço para perguntas.

Mas não foi Dumbledore quem me esperava.

Quando a porta se abriu, foi minha mãe que eu vi — em pé, junto à estante de instrumentos encantados, com a expressão séria e os olhos brilhando demais para aquela luz baixa. Parei no mesmo instante. Por um segundo, o mundo parou comigo.

— Mãe?

Ela se aproximou devagar, e me envolveu num abraço que tinha cheiro de casa e calor de verdade. Um abraço que eu não sabia que precisava tanto.

— Vim porque achei que você merecia mais do que uma carta — disse, quando nos afastamos. — E porque o que você carrega... não pode mais ser ignorado.

Sentamos lado a lado, o gabinete silencioso como se escutasse.

— Dumbledore me contou que seus dons despertaram. Mas não era ele quem devia explicar. Era eu.

Esperei em silêncio.

— Sua avó materna também tinha esse dom, . O mesmo tipo de percepção. A mesma sensibilidade para ouvir o que os outros não escutam, ela chamava de escuta do véu. Dizia que entre o mundo visível e o invisível existe uma camada fina, e que alguns de nós nascem com a pele feita pra atravessar isso.

Senti a garganta apertar.

— E o colar? — perguntei. — Aquele que ela me deu…

— É um elo. Não é apenas um presente. É um artefato mágico da nossa linhagem, um canal. Protege, guia... e às vezes chama. E se você estiver escutando mais forte agora, pode ser porque ele está se ativando com você.

Ficamos em silêncio por um instante. Então falei:

— Tem algo mais. Um grimório. Eu venho usando desde o início do ano. Ele… responde a mim. As runas brilham. Ele revela coisas que ninguém mais vê. — Ela franziu o cenho.

— Que grimório?

Me levantei e fui até minha mochila. Tirei o grimório com cuidado e o coloquei entre nós. Minha mãe o encarou. Por um momento, não disse nada e então murmurou:

— Não pode ser…

— O que foi? — Ela deslizou os dedos pela capa.

— Esse grimório era da sua avó. Da nossa família. Ele desapareceu quando ela morreu. Achamos que tinha sido destruído ou… levado, mas parece que ele foi convocado. E por você.

O silêncio que seguiu foi denso como uma premonição.

— Isso significa que eu fui escolhida?

— Isso significa, filha... que você já era parte disso antes de entender o que era isso. O grimório voltou porque reconheceu em você a próxima guardiã da escuta.

Encostei as costas na poltrona, o coração batendo forte demais.

— E se eu não conseguir? E se for demais? — Minha mãe pegou minha mão com firmeza.

— Então você vai me ter aqui com você pra te ensinar e te ajudar a escutar sem se perder.

Minha mãe pegou minha mão com firmeza. Os olhos dela carregavam aquela ternura que não cedia espaço para dúvida, a mesma que me fazia sentir segura mesmo diante do que eu não entendia.

… você precisa parar de ter medo. O que você sente, o que você vê, não veio pra te destruir, e sim pra te guiar. — Ela apertou meus dedos, e a voz dela era firme, mas suave como quando me embalava nas noites de tempestade. — A magia sempre te reconheceu. Agora, é você quem precisa reconhecer a magia. Aceitá-la.

Baixei os olhos para o grimório entre nós. Ele ainda pulsava levemente, como se respirasse com a conversa. Como se escutasse.

— Mas às vezes parece que ela me engole — confessei. — Eu não consigo distinguir o que sou eu… e o que é dela.

Ela sorriu, e naquele sorriso havia uma sabedoria tranquila.

— É normal, no começo. A magia antiga se entrelaça com a alma. Mas, com o tempo, você vai aprender a escutar com calma. Vai entender que as visões não são ameaças. São caminhos. Que os símbolos não te assombram, te protegem. As coisas vão melhorar, filha. Você vai ter clareza. Vai ter paz.

As palavras dela ficaram suspensas no ar, como um feitiço que não precisava ser pronunciado para funcionar. Minhas mãos encontraram as dela, e ali ficamos, por um instante que parecia fora do tempo.

Depois, minha mãe me puxou para um abraço apertado, quente, tão familiar que senti meu peito aliviar só de existir naquele momento.

— Sempre que o mundo parecer pesado, pensa nisso — ela sussurrou. — Eu estou com você. Sempre estive. Sempre estarei.

Eu me permiti sorrir, mesmo com os olhos úmidos.

— Obrigada, mãe. Eu também sempre vou te encontrar. — Ela se afastou só o suficiente para me olhar nos olhos.

— Sempre conectadas, .

— Sempre — prometi.

E enquanto ela se virou e saiu pela porta do escritório de Dumbledore, com o manto leve flutuando atrás dela, uma certeza se fixou em mim como nunca antes: eu não estava sozinha. Nunca estive.

⚡🧙


O dormitório da Corvinal estava silencioso, banhado apenas pela luz pálida da lua atravessando a vidraça azulada. As outras meninas já dormiam, cobertas até o nariz, mas eu permanecia sentada à escrivaninha, os olhos fixos no pergaminho à minha frente.

As palavras da minha mãe ainda dançavam dentro de mim. O toque quente dos braços dela naquela visita inesperada, a voz firme e doce dizendo que eu não precisava mais temer. Que era hora de escutar. Fechei os olhos por um instante.

“Escuta a magia, filha. Ela sussurra onde os outros gritam.”

Levantei-me devagar, como se qualquer movimento pudesse desfazer aquela certeza nova que começava a nascer em mim. Fui até o grimório. Quando o abri, o símbolo marcado entre as páginas brilhou — não como antes, quando desaparecia como fumaça — mas com uma luz pulsante, quase viva. Pela primeira vez... ele não se apagava.

O coração acelerou.

Aproximei os dedos, mas dessa vez, eu não hesitei por muito tempo. Toquei o símbolo. E então, a visão me engoliu inteira.

O ar parecia mais denso, mais real do que nunca. Eu podia sentir o chão sob meus pés, ouvir o sussurro da névoa ao redor, como se o tempo respirasse devagar. As figuras estavam ali, mas agora, eram apenas duas. A mulher de tranças e eu.

— Onde estou? — perguntei. Minha voz soou clara, sem eco. — Quem é você?

A mulher não respondeu de imediato. Caminhou em minha direção, o manto feito de sombras ondulando como fumaça ao vento.

— Meu nome foi esquecido por muitos. Apagado dos livros, dos retratos, das histórias contadas pelos homens. Mas as mulheres… as mulheres ainda se lembram — disse, com um leve sorriso que não era afeto, mas respeito.

— Eu não entendo o que isso tem a ver comigo — falei, o coração martelando no peito. — Por que estou vendo essas coisas? Por que agora?

Ela estendeu a mão. Tocou levemente minha têmpora.

E imagens me atravessaram: uma casa decadente, uma mulher pálida deitada em uma cama, os olhos vítreos e desesperados. Uma criança chorando. Um nome sussurrado com dor.

Merope.

— Ela amou um homem que nunca a amou — disse a mulher, com pesar na voz. — Usou magia para segurá-lo, para fingir que era escolhida. Mas o preço do feitiço... foi alto. E quando a verdade caiu, ela caiu junto.

— A mãe do Voldemort — sussurrei, reconhecendo o nome e a história das aulas com Dumbledore que Harry contou.

A mulher assentiu lentamente.

— A linhagem de Salazar Slytherin corre nele. Pura, corrompida, isolada. Mas o sangue antigo… esse, ainda vive. Em outros ramos. Roubado de um lado. Honrado no outro.

— Você está dizendo que eu…?

— Não — ela interrompeu, firme. — Você não é dele. Mas você vê porque sua linhagem também escuta. A magia que você carrega não é a mesma. É mais antiga. Mais selvagem. Mais livre. É por isso que o símbolo veio a você. Porque o mundo vai gritar e poucos saberão escutar.

A névoa ao redor começou a girar, veloz, como se puxada por um redemoinho invisível.

— Espere! Ainda tem mais — tentei dizer. — Você não me disse seu nome!

A mulher me olhou, e seus olhos dourados arderam como o próprio símbolo:

— Morgana me chamaram, antes de me temerem.

E então, a névoa me engoliu de novo.

Quando acordei, o quarto estava escuro. O grimório aberto ainda brilhava fracamente sobre o colo, mas o símbolo finalmente havia se apagado.

E desta vez, eu sabia: aquilo era só o começo.

Deitei-me, com o corpo ainda tremendo. Os olhos fitando o teto abobadado da torre da Corvinal, tentando processar tudo. Pela primeira vez em muito tempo... não havia medo.

Só uma certeza incômoda e poderosa: aquela mulher... eu já a tinha visto. Em algum livro. Em alguma aula. Ou talvez... nas páginas que a história tentou apagar. No dia seguinte, eu começaria minha busca. Procuraria o rosto dela entre os retratos esquecidos da biblioteca. E descobriria, finalmente, quem era Morgana.

⚡🧙


A manhã seguinte chegou mais suave do que eu esperava. Pela primeira vez em dias, eu tinha dormido profundamente. A visita da minha mãe ainda estava em mim e tinha me feito muito bem. Levantei devagar, me arrumei no ritmo calmo de quem finalmente encontrava algum respiro, e desci para o Salão Principal antes da maioria dos alunos.

O céu encantado estava salpicado de nuvens douradas e cor-de-rosa, como se o próprio dia estivesse tentando me lembrar que ainda havia beleza no mundo. A mesa da Corvinal estava quase vazia, mas, claro, Luna Lovegood já ocupava seu lugar de sempre, com uma fatia de pão com geleia de framboesa flutuando na altura dos olhos, guiada por um feitiço discreto e gracioso.

— Bom dia — murmurei, me sentando ao lado dela. Ela me olhou com aquele jeito leve e certeiro que só a Luna tinha.

— Você está mais leve hoje. Como se tivesse deixado algo importante pra trás. Ou... pra alguém.

Sorri. Peguei o jarro de suco de abóbora e me servi, sentindo o calor subir pelas mãos.

— Recebi uma visita da minha mãe.

Não falei mais nada. Não precisava. Luna só assentiu, os olhos se perdendo lá no alto, nas bandeiras de Hogwarts que dançavam com a brisa encantada do teto.

— Os pais sabem mais do que dizem. Quase sempre estão guardando alguma magia silenciosa.

Ficamos em silêncio por alguns minutos. Um silêncio bom. Desses que abraçam em vez de afastar.

— Às vezes, os símbolos vêm antes das respostas — ela disse, tranquila. — Mas a gente sempre sabe quando é hora de olhar de novo.

Eu encarei o reflexo dourado da luz atravessando meu copo e respirei fundo.

— Hoje… eu acho que estou pronta pra olhar.

⚡🧙


Depois da aula de Herbologia, fui direto para a biblioteca.

Algo dentro de mim — mais forte do que uma simples curiosidade — me guiava pelos corredores como se eu soubesse exatamente onde procurar. O rosto da mulher da visão ainda estava fresco na minha mente. A forma como ela me olhou, a voz, a força nos olhos dourados… eu precisava encontrar aquela mulher.

Passei os dedos pelas lombadas dos livros de história da magia, até encontrar um tomo antigo, empoeirado, de capa azul-acinzentada, com letras quase apagadas: Feiticeiras Lendárias da Grã-Bretanha.

Sentei-me em uma mesa isolada e comecei a folhear. As páginas cheiravam a tempo, a segredo, a coisas que foram enterradas por medo, e não por esquecimento.

Então eu vi.

O retrato.

E congelei.

Tranças longas até a cintura. Traços firmes, pele negra como a minha. Um olhar intenso, como se atravessasse a alma da pessoa que se atrevesse a encará-la por tempo demais.

Morgana Le Fay.

Lia-se na legenda:

"Descendente das linhagens mais antigas, bruxa de poder intuitivo, dominadora das runas, da magia ancestral e dos encantamentos da escuta mágica. Seu nome foi apagado de muitos registros, mas seus feitos atravessam as eras em fragmentos. Era conhecida por aparecer àqueles que carregavam dons raros, principalmente mulheres de sangue antigo, quando estas se aproximavam do despertar completo de suas habilidades."

O coração acelerou, fechei o livro devagar. A mesa, os livros, o mundo ao redor pareciam distantes. Morgana Le Fay. Uma ancestral. Um eco do que eu podia ser... ou do que eu deveria despertar.

Saí da biblioteca com os dedos ainda trêmulos. Mas agora, diferente de antes, eu não tremia de medo e sim de saber. Porque agora, pela primeira vez, eu tinha uma pista concreta de que aquilo tudo era real mesmo.

⚡🧙


Não demorou muito para que a rotina de Hogwarts me puxasse de volta. Mais tarde, Slughorn nos convidou — uma seleção estratégica de alunos — para um almoço especial no escritório dele. Eu evitava o trio, e eles me evitavam com a mesma precisão. E foi com Gina e Neville que acabei subindo até o escritório, sem muita vontade, mas ciente de que faltar só reforçaria as suposições que já corriam pelos corredores.

A escada em espiral parecia mais longa do que de costume. O silêncio entre nós era denso. Só Neville arriscava um comentário ou outro sobre as ervas raras da aula de Herbologia. Gina respondia com frases curtas e sorrisos sem força. Eu apenas soltava ocasionais “hm”, mantendo a expressão serena, ou pelo menos tentando.

Ao chegarmos, Slughorn nos recebeu com seu sorriso empolado, os braços abertos como se estivéssemos entrando em um baile da alta sociedade bruxa. O escritório parecia ainda mais carregado: tapeçarias bordadas demais, frascos brilhantes e uma luz amarelada que não favorecia ninguém.

— Ah! Srta. ! Srta. Weasley! Sr. Longbottom! Entrem, entrem! — exclamou ele com sua voz untuosa. Seus olhos brilharam ainda mais quando avistou Harry, Hermione, Cormac McLaggen e Blaise Zabini, que já estavam acomodados. — E aqui estão os meus favoritos!

Harry manteve os olhos fixos em qualquer lugar que não fosse em mim. Hermione hesitou por um segundo, nossos olhares se cruzaram. Havia algo ali, talvez incômodo... ou saudade. Mas ela desviou rápido. Já Zabini ergueu uma sobrancelha ao me ver e deu um meio sorriso carregado de ironia.

— Pensava que Corvinais elegantes não se misturavam com bajuladores — murmurou ele assim que passei por sua cadeira.

— E eu pensava que Sonserinos sabiam disfarçar melhor suas intenções — rebati, sentando entre Neville e Gina, sem sequer lhe oferecer um olhar.

— Isso foi um elogio? — ele insistiu, divertido.

— Foi silêncio disfarçado — respondi, servindo-me de suco de groselha com toda a calma que não sentia.

Slughorn, claro, começou o espetáculo. Nada ali era espontâneo, tudo tinha propósito, brilho demais e um foco: Harry.

— Sabe, Sr. Potter… sua mãe era absolutamente brilhante em Poções — começou ele, já na terceira taça de suco. — Tinha um toque delicado, como se a magia a tivesse escolhido.

Harry tentou sorrir, mas havia dureza demais em seus olhos.

— É o que dizem — respondeu.

— Imagino que tenha ouvido muitas histórias sobre os amigos dela... Sirius, James... e aquele outro rapaz… ah, qual era mesmo?

O garfo de Harry parou no ar. Hermione abaixou os olhos. Cormac, distraído, servia-se pela terceira vez de carne de dragão em molho espesso.

— Não me lembro de muitas histórias — disse Harry, com frieza.

— Algumas memórias não querem ser desenterradas — murmurei, mais para o prato do que para a mesa.

Hermione olhou de relance para mim. Não foi um olhar carregado, apenas... humano. Um ponto de contato e isso bastou para que algo dentro de mim vacilasse.

Slughorn, é claro, seguiu falando como se nada tivesse acontecido. Cormac tentou se mostrar espirituoso contando que sua tia havia ganhado o Troféu de Poções de Ouro três vezes consecutivas, mas acabou confundindo “polissuco” com “polifônico”, e Slughorn mudou de assunto antes que alguém explodisse de riso.

— Diga-me, — continuou ele, já enchendo minha taça de suco de groselha. — É verdade que seu avô participou dos Rituais dos Quatro Ventos, no Malawi? Sempre achei fascinante a forma como eles canalizavam magia elemental...

— Meu avô canalizava a paciência com tolices, professor. Era um dom raro — respondi, sem sorrir. Gina soltou um risinho abafado.

Slughorn pigarreou, apanhando um guardanapo com certa pressa.

— Ah, claro! Brincadeiras espirituosas... gosto disso, gosto disso...

Zabini, entre uma provocação e outra, comentou com falsa inocência:

— Interessante como algumas pessoas aqui atraem muita atenção... mesmo sem querer.

— Interessante como outras acham que tudo gira em torno delas — respondi, sem tirar os olhos da sobremesa.

Gina quase engasgou tentando esconder o riso. Hermione soltou um suspiro disfarçado.

Ao final, quando nos despedimos, o grupo se dividiu naturalmente. Harry, Hermione, Neville e Zabini foram por um corredor. Cormac saiu antes mesmo da sobremesa terminar. Gina andava ao meu lado, quieta, mas despertou minha atenção com sua próxima fala:

— A Hermione parecia... hesitante. Vocês conversaram?

Assenti com um leve aceno, os olhos ainda presos em algum ponto à frente.

— Na verdade, não. Ela ficou magoada porque eu não contei sobre... o Zabini.

Gina soltou um som entre um suspiro e um riso baixo.

— Imagino. Ela detesta segredos — disse com um sorriso enviesado, antes de acrescentar: — Mas acho que ela ficou mais chateada por não ter sido você a contar. Vocês duas sempre foram muito próximas.

— Eu sei — murmurei. — E talvez tenha sido por isso que eu não contei. Porque ela me conhece demais. E eu não queria... ver o que ela pensaria estampado no rosto dela.

— Às vezes a gente protege as pessoas do jeito errado — comentou Gina, com a sabedoria tranquila de quem já aprendeu isso na prática.

Assenti, o peito apertado. Ela chutou de leve uma pedra invisível e, depois de alguns passos, perguntou como quem decidia arriscar:

— E o Harry? — Minha respiração vacilou por um instante.

— Não sei. A gente se afastou, ele ficou magoado, eu também. E... não sei se tem volta.

— Talvez tenha — disse ela com um encolher de ombros. — O Harry é... complicado. Às vezes ele se fecha e constrói muros até mesmo com quem quer deixar entrar.

Ela chutou uma pedra invisível no caminho, os olhos fixos no chão.

— Mas quando ele se importa, ele se importa. Mesmo que não saiba demonstrar.

Houve uma pausa que pesou mais do que eu esperava. E quando olhei de lado, encontrei aquele olhar da Gina, firme, vermelho-Weasley, cheio de camadas.

— Eu sei que você gosta dele — murmurei, sem conseguir segurar.

Ela demorou um segundo para responder. E quando o fez, não foi com palavras. Foi com um pequeno sorriso que não chegava aos olhos.

— Gosto — disse, por fim, sem se explicar, sem justificar. — Já faz um tempo.

A confissão pairou entre nós como uma folha que caía sem pressa, mas sabia exatamente onde queria pousar. O silêncio que veio depois não era desconfortável. Era cheio. Denso. Carregava tudo o que não sabíamos como dizer.

Então ela respirou fundo e me lançou um olhar de lado.

— E você?

— Eu... o quê?

— O que sente pelo Harry?

A pergunta veio simples, mas cortante. Não havia acusação no tom — só uma curiosidade crua demais para ser ignorada.

— Nada — respondi depressa, talvez rápido demais. — A gente é amigo, só isso. Ele é... ele é importante pra mim, mas não desse jeito.

Minha voz soou firme, mas havia um desconforto estranho se acomodando no fundo da garganta.

— É estranho você perguntar isso — acrescentei, franzindo levemente a testa. — Por você gostar dele e…

— Mas o que eu sinto não muda o que pode estar nascendo aí dentro de você. Eu só queria entender. Não pra julgar. Só pra saber se... bom, se eu precisava me preparar pra ver.

Aquilo ecoou dentro de mim de um jeito que me desconcertou mais do que eu gostaria de admitir. Mas ela não insistiu. E ela, com uma leveza quase mágica, mudou de assunto com maestria:

— E o Zabini? — perguntou com a sobrancelha arqueada e aquele brilho provocador nos olhos. — Vai me dizer que aquele drama todo hoje foi só implicância?

— Foi. Uma vez. Agora é só... sarcasmo acumulado com pitadas de arrependimento.

— Uhum — murmurou, meio rindo. — Então você jura solenemente que não vai se envolver com um sonserino instável de novo?

— Não posso prometer. Mas se ele me der um colar, eu juro que jogo no Lago Negro.

— Ainda bem. Se precisar, eu empurro junto.

A risada escapou das duas ao mesmo tempo. Cúmplice. Sincera. Como se, por um instante, fôssemos apenas duas garotas andando por corredores antigos, tentando não tropeçar nos próprios sentimentos.

Quando nos despedimos perto da Torre da Corvinal, ela me puxou num abraço breve, mas firme.

— Você não tá sozinha, mesmo que se sinta assim. A gente se encontra — disse, com aquela convicção silenciosa de quem já aprendeu a sobreviver aos próprios vendavais.

E quando me virei para subir as escadas, ouvi sua voz de novo:

— Mas se o Harry começar a agir como um idiota... avisa. Talvez eu ainda lembre do feitiço do nariz de porco.

Dessa vez, fui eu quem riu.

E percebi que, mesmo entre feridas e silêncios, ainda havia espaço para o cuidado.

⚡🧙


As aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas com o Snape pareciam testes disfarçados. Ele andava como se esperasse que a gente falhasse — e ficasse satisfeito quando isso acontecia.

Naquela manhã, o clima já estava denso antes mesmo da primeira palavra. O conteúdo: feitiços não-verbais. O tipo de magia que exigia domínio completo da mente e eu estava longe de conseguir silenciar a minha.

Sentei sozinha. Hermione, Harry e Rony estavam na frente, todos ocupados demais fingindo que eu não existia — ou talvez apenas tentando entender o que tinha acontecido entre nós. Zabini se sentou à esquerda, com o mesmo ar de predador entediado. E quando Snape entrou, com o manto negro deslizando atrás dele, o silêncio caiu como uma cortina.

— Hoje vamos praticar feitiços de desarme e bloqueio... sem verbalização — anunciou, cruzando os braços. — O primeiro a sussurrar uma sílaba será usado como exemplo do que não fazer.

Alguns alunos trocaram olhares apreensivos. Eu apenas respirei fundo.

— Srta. — chamou ele, os olhos escuros fixos nos meus —, já que se julga tão segura de suas capacidades, fará par com o Sr. Zabini.

Sério?

Caminhei até o centro da sala e me posicionei. Zabini sorriu como se tivesse ganhado uma aposta.

— Isso vai ser divertido.

— Para você, talvez — respondi, firme. — Eu pretendo vencer.

Do outro lado da sala, ouvi um resmungo. Rony. Só precisei de um segundo para ver o jeito como ele me olhava — entre confuso e levemente indignado.

— Expelliarmus. Não-verbal. Façam — ordenou Snape.

Zabini atacou primeiro, mas a magia falhou. Eu ergui minha varinha, canalizando toda a energia do incômodo que ele me causava… e a varinha dele voou longe.

— Muito bem — disse Snape, seco. — Finalmente, alguém com um mínimo de foco.

Zabini riu baixo enquanto pegava a varinha no chão.

— Impressionante. A frieza fica sexy em você, .

— A idiotice continua feia em você, Zabini.

Alguns alunos riram, mas Snape sequer piscou.

— Sr. Zabini, a senhorita venceu. Volte para o seu lugar. E controle sua... verborreia hormonal.

Quando voltei para o fundo da sala, Zabini sussurrou ao passar por mim:

— Você atrai tipos perigosos, . Potter parece prestes a explodir. — Virei o rosto na direção dele, lenta.

— Preocupado com os outros ou só tentando descobrir se ainda tem chance?

Ele sorriu. Mas antes que pudesse responder, Rony falou alto da primeira fileira:

— Dá pra calar a boca e prestar atenção, Zabini? Ninguém aqui quer ouvir suas cantadas fracassadas.

A sala inteira parou por um segundo. Snape girou nos calcanhares.

— Sr. Weasley — disse, a voz tão gélida quanto o lago negro —, se está entediado, posso encantá-lo para repetir o conteúdo da aula cinquenta vezes no teto da torre de Astronomia.

Rony ficou vermelho até as orelhas.

— Não precisa, professor — respondeu, engolindo seco.

Zabini, claro, estava radiante. Voltou para o lugar dele como quem ganhou a rodada. Mas o olhar que me lançou ainda carregava algo mais. Curiosidade. E um tipo de interesse perigoso.

A aula seguiu. Draco entrou com atraso, visivelmente abatido. Snape fez seu comentário mordaz, Draco apenas assentiu, e ocupou uma das cadeiras próximas ao fundo. Perto de mim.

Entre uma prática e outra, Zabini lançou um feitiço de Protego em mim com força demais, e minha varinha quase escapou dos dedos. Apontei de volta com frieza — e talvez um pouco mais de vontade do que devia.

Mas foi a presença do Harry que pairou mais que qualquer feitiço naquela sala. Toda vez que Zabini falava comigo, os olhos dele brilhavam com algo entre o incômodo e o ciúme. E eu… não sabia se me irritava ou se doía mais.

No fim da aula, Snape deu um último aviso:

— Semana que vem, duelos com análise tática. Preparem-se para pensar além dos feitiços. Isso… é guerra.

De alguma forma, eu já estava no meio de uma.

⚡🧙


Os corredores de Hogwarts sempre tinham essa mania irritante de parecerem mais longos à noite. As tochas lançavam sombras que dançavam nas paredes, e cada rangido do piso de pedra soava como um aviso. Suspirei, ajustando a alça da bolsa no ombro, quando uma voz conhecida me chamou.

!

Me virei e, por instinto, minha expressão de alerta suavizou. Saphira caminhava na minha direção, leve, como se o peso do mundo não a alcançasse ali dentro. Os cabelos negros presos em uma trança frouxa balançavam de leve sobre o ombro. Ela sempre parecia calma. Intocada. Uma parte de mim invejava aquilo.

— Estava te procurando — disse, sorrindo de um jeito fácil. — Vamos estudar juntas? Preciso revisar Herbologia antes da aula de amanhã.

— Herbologia nunca foi problema pra mim — respondi, com um sorriso discreto. — Mas não recuso boa companhia.

Seguimos lado a lado até uma das salas vazias perto da torre de Astronomia. O lugar era banhado pela luz pálida da lua, que filtrava através das janelas altas. Livros, pergaminhos e folhas secas de mandrágora logo nos cercaram. A calmaria era quase terapêutica. Por alguns minutos, o único som foi o arrastar das penas no pergaminho.

— As aulas estão pesadas esse ano... — Saphira comentou, quebrando o silêncio.

— Um pouco mais do que eu gostaria — murmurei, girando distraidamente a pena entre os dedos.

Ela me lançou um olhar de canto, hesitando.

— Ouvi uns boatos... sobre o que aconteceu com Katie Bell. Dizem que foi um feitiço proibido. Algo muito antigo. — Meu corpo enrijeceu, a pena parou no ar.

— E você acredita nisso? — perguntei com cuidado.

— Não sei. — Ela deu de ombros. — O castelo sempre parece seguro... até alguém trancar a porta por dentro.

As palavras ecoaram forte, muito além do que provavelmente ela pretendia. Ela percebendo o clima estranho que ficou, resolveu mudar o rumo da conversa, me lançou um olhar curioso.

— E você? Está interessada em alguém? — Levantei o olhar, arqueando uma sobrancelha.

— Hm... essa foi direta.

— Desculpa — ela sorriu, um pouco tímida. — Só... curiosidade mesmo.

Suspirei, apoiando o queixo na palma da mão.

— Na verdade... sim. Mas estou tentando esquecer.

— Porque não deu certo? — a voz dela saiu suave, sem nenhuma malícia, só genuína curiosidade. Fitei o céu escuro pela janela.

— Ele não gosta de mim do mesmo jeito. E eu cansei de me machucar esperando que ele veja. Preciso dar um basta antes de perder a cabeça de vez.

— Complicado — disse Saphira, balançando a cabeça devagar. — Mas corajoso da sua parte. — Eu sorri de canto.

— E você? Tem algum garoto da Lufa-Lufa sortudo que eu deva ficar de olho? — Saphira hesitou.

— Não exatamente. — De novo aquele rubor leve nas bochechas.

— Não? — franzi o cenho, divertida.

— Eu... gosto de meninas — disse ela, com um sorriso pequeno, mas cheio de segurança. — Sempre soube. Mas só aceitei mesmo no terceiro ano.

Pisquei, surpresa, mas sem desconforto. Só surpresa genuína.

— Nossa... e como você soube? — perguntei, a curiosidade vencendo minha hesitação. Saphira deu de ombros, jogando a pena de um lado para o outro entre os dedos.

— Acho que sempre esteve ali, sabe? Mas quando comecei a perceber que minhas amigas comentavam dos meninos e eu... não sentia nada, foi ficando bem claro. No terceiro ano, tive uma paixonite impossível por uma monitora da Corvinal. — Ela riu, quase envergonhada. — Aí tive certeza.

Dei uma risadinha junto.

— Ah. Achei que você fosse como eu… — Saphira arqueou a sobrancelha, divertida.

— Hetero?

— É.

Nós rimos juntas, e pela primeira vez em muito tempo, o peso constante que eu sentia parecia ter diminuído. Nos olhamos, e naquele instante o ar entre nós ficou um pouco mais denso. Não desconfortável, mas... diferente.

Um fio de algo indefinido passou ali, um pequeno choque, uma faísca suave que fez meu coração bater meio segundo mais rápido.

— Seja lá quem for esse cara... — Saphira disse, voltando a fitar o pergaminho. — Ele é um completo idiota por não enxergar o que tem bem na frente dele.

Sorri, sentindo o rosto aquecer um pouco mais do que eu gostaria de admitir.

— Você fala como se me enxergasse muito bem. — Saphira apenas sorriu, misteriosa, antes de voltar a escrever.

E eu fiquei ali, fingindo estudar, tentando ignorar aquela leve e incômoda consciência da proximidade dela. Algo me dizia que nem todos os feitiços de proteção de Hogwarts seriam suficientes para impedir certas confusões de acontecerem.

Quando o relógio da torre anunciou que já era tarde, começamos a guardar os livros e pergaminhos. Nossos dedos se tocaram brevemente ao tentar pegar a mesma pena. Foi só um segundo. Um toque leve. Mas senti um arrepio quase imperceptível subir pela espinha.

Levantei o olhar, surpresa. Saphira também congelou por um instante, antes de sorrir, como se nada tivesse acontecido.

— Boa sorte com a mandrágora amanhã — disse ela, já arrumando os livros.

— E você, tenta não deixar a professora Sprout te fazer de cobaia de novo — rebati, ainda sentindo o coração ligeiramente acelerado. Ela riu, e aquele som leve me deixou momentaneamente desarmada.

— A gente se vê, .

— A gente se vê, Saphira.

Fiquei parada mais tempo do que o necessário vendo-a se afastar pelo corredor iluminado apenas pelas chamas das tochas. Só quando a silhueta sumiu na curva, voltei para a realidade e ajeitei a alça da mochila nos ombros. E talvez por isso, ao virar o corredor e dar de cara com Hermione parada ali, sozinha, como se soubesse exatamente onde me encontrar… eu não fugi.

Ela estava com um livro contra o peito, os olhos indecisos entre altivos e inseguros. O tipo de olhar que você só dedica a quem já foi importante demais.

— Você tem um radar, por acaso? — perguntei, encostando na parede de pedra fria. — Ou a biblioteca sempre te entrega os fugitivos?

Hermione respirou fundo. Estava cansada de algo que não era físico. Era o peso das palavras não ditas.

— Eu... queria falar com você. Sem Harry. Sem Rony. Sem os outros.

Assenti. O coração deu um passo à frente. A mágoa ainda morava em mim, mas... algo nela dizia que também morava ali.

— Então fala, Hermione.

Ela apertou o livro contra o peito com mais força. Seus olhos estavam cheios de perguntas, mas ela escolheu uma só.

— Por que você não me contou?

Fiquei em silêncio por um segundo. Mas eu sabia exatamente do que ela estava falando.

— Eu não achei que fosse importante pra você — confessei. — Achei que, se eu contasse, ia virar sermão. Ou pior... julgamento.

— Não é sobre o Zabini, . — A voz dela era baixa, mas firme. — É sobre você ter passado por isso sozinha. Ter feito isso escondido. A gente sempre compartilhou tudo, até as coisas mais difíceis. E, de repente, você se fecha. Some. Beija alguém que a gente detestava até semana passada. E simplesmente... não diz nada?

Suspirei, deixando a cabeça bater levemente na parede atrás de mim.

— Eu me senti... confusa. E com vergonha. Porque nem eu entendi o que foi aquilo. Ele me irrita, Hermione. Me provoca. Me desafia. Mas quando ele me beijou… eu quis. E isso me assustou.

Hermione desviou o olhar por um instante. Quando voltou, estava menos dura.

— Você podia ter me dito isso. Não ia te julgar. Só ia... te ouvir.

— Eu sei. E eu sinto muito. De verdade — falei, a voz falhando um pouco. — Eu tava lidando com tanta coisa ao mesmo tempo. As visões. O grimório. O símbolo. E aí veio ele. Foi tudo demais.

Ela assentiu devagar. Não como quem perdoa de imediato, mas como quem entende o peso que eu carregava.

— Eu senti sua falta. Até mesmo quando estava com raiva. Não é a mesma coisa sem você.

— Também senti sua falta — respondi. — E talvez eu não mereça que tudo volte a ser como era, mas... se a gente puder tentar de novo... com mais sinceridade e menos medo...

Hermione deu um passo à frente. Depois outro. E antes que eu percebesse, estávamos de frente uma para a outra. Entre nós, apenas o peso da amizade ferida... mas viva.

— Não quero que volte a ser como era. Quero que seja melhor — ela disse, devolvendo minhas palavras.

Dessa vez, fui eu quem abriu os braços. E ela veio. Forte. De verdade. E pela primeira vez em semanas, o frio do castelo parecia menos cortante. Hermione ainda não havia se afastado. Ficamos ali, no corredor da biblioteca, no silêncio acolhedor que só se instalava entre duas pessoas que começaram a se reencontrar.

Eu respirei fundo. Tinha mais pra dizer. Muito mais.

— Tem outra coisa… algumas coisas, na verdade — falei, com a voz mais baixa. — Eu preciso te contar.

Hermione me olhou de lado, paciente.

— Minha mãe veio até Hogwarts. — A frase saiu mais baixa do que eu esperava, como se ainda fosse segredo até pra mim. — Ela falou comigo no gabinete do Dumbledore.

— Ela veio? — Hermione arregalou os olhos. — O que ela disse?

— Muita coisa. Sobre o dom que eu tenho... que não é novo. Que vem de muito antes de mim. Da minha avó, de outras mulheres antes dela. Ela falou sobre o eco que corre na minha linhagem e também sobre o colar, que ele é uma herança mágica. Um elo.

Hermione ficou em silêncio, absorvendo cada palavra como se fossem preciosas.

— E tem mais — continuei. — Eu comecei a pesquisar... sobre as visões. Sobre a mulher que aparece nelas. E encontrei uma pista nos registros da biblioteca antiga. Ela existiu. Morgana Le Fay. Ela era uma bruxa poderosa, ligada à magia ancestral. Tem textos que a descrevem como alguém que entendia os fluxos invisíveis da magia, que ouvia... como eu ouço.

Hermione levou a mão à boca, surpresa.

... isso é... é inacreditável.

— É real — respondi, firme. — E me assusta. Mas também me faz sentir menos sozinha.

Houve um silêncio breve, confortável, antes que eu continuasse:

— Ah, e conheci alguém. Uma garota da Lufa-Lufa. O nome dela é Saphira.

Hermione arqueou uma sobrancelha, curiosa.

— Aluna nova?

— Não exatamente. Ela só não se mistura muito, mas a gente se esbarrou numa aula de Herbologia, começamos a conversar… ela é diferente. Direta. Atenta. Tem um jeito de enxergar as coisas que me pegou de surpresa.

— E ela é legal? — perguntou Hermione, com um sorriso pequeno.

— Muito. E ela me contou que gosta de meninas. Tipo… foi muito natural, como se não fosse nada demais. Eu fiquei meio... sei lá, surpresa. Nunca tinha ouvido ninguém falar isso aqui em Hogwarts, pelo menos não abertamente. E ela… ela falou com tanta leveza que me fez pensar. Em tudo, sabe?

Hermione sorriu mais abertamente agora.

— É bom ter alguém assim por perto. Que te faça pensar.

Assenti, olhando para o chão de pedra por um segundo.

— Eu nunca pensei sobre isso antes. Sobre o que eu gosto ou deixo de gostar. Mas ouvir ela falar... me deixou com a cabeça cheia. Não porque eu senti algo por ela. Mas porque eu percebi que... talvez tenha muito mais em mim do que eu ainda não entendi. E pela primeira vez, isso não me parece errado. Só… em aberto.

Hermione se aproximou um passo e tocou levemente o meu braço.

— Tá tudo bem não ter todas as respostas agora. O que importa é você se permitir fazer essas perguntas. E seja o que for que você descobrir… eu tô aqui.

Sorri, pequena, mas genuinamente.

— Obrigada, Mione. — Ela sorriu de volta.

— Estou sempre aqui para você.

Ficamos ali em silêncio por alguns instantes, até que a curiosidade — ou a saudade, talvez — falou mais alto dentro de mim.

— Mione… e você e o Rony? — perguntei, com cuidado. — Tá tudo bem entre vocês?

Ela soltou uma risadinha amarga e olhou para o vitral mais próximo, onde a lua vazava seu brilho pálido no chão de pedra.

— Normal, . Mas ultimamente… ele tem estado muito próximo da Lilá Brown. E isso está me matando aos pouquinhos. Mas eu também tô cansada de ter que ser a que segura o mundo e ainda segura o coração de alguém que nem sabe o que sente.

Fiquei quieta. Eu entendia mais do que queria admitir.

— Eu fico me perguntando se ele gosta de mim, da Hermione que resolve tudo, que entende tudo, que ajuda todo mundo… mas que não pode ser frágil nem por um segundo.

— Talvez ele ainda não esteja pronto pra te ver por inteiro — comentei. — Mas isso não é culpa sua.

Ela assentiu, apertando o livro contra o peito com mais força. E então, fui eu quem hesitou um segundo antes de perguntar:

— E o Harry? — soltei, mais baixo do que pretendia.

Hermione me olhou com atenção. Não foi um olhar rápido ou curioso, foi o tipo de olhar que atravessava a pergunta e enxergava o que vinha por trás dela.

— Ele está… mais calado do que o normal. E, sim, ficou bem irritado com tudo o que aconteceu entre você e o Zabini, mas mais do que bravo… ele ficou confuso. Ferido, eu acho.

Uma pontada latejou no meu peito. Como se alguma coisa dentro de mim se encolhesse, tentando se proteger. Afastei o olhar, tentando disfarçar com um gesto leve da mão. Mas nada em mim era leve naquele momento.

— E... entre ele e a Gina? — perguntei, prendendo a respiração como se a resposta pudesse me despedaçar um pouco.

Hermione hesitou. Foi rápida, mas o suficiente pra eu perceber. Ela media as palavras com cuidado.

— Eles se aproximaram no começo do ano, você sabe disso. Mas agora... não sei. Tá morno. Ele parece distante, e a Gina anda com a cabeça em mil lugares. Quadribol, estudos, os irmãos... Você conhece ela.

Assenti, e um silêncio desconfortável se instalou. Não era culpa da Hermione. Era minha. Minha e de tudo que eu vinha guardando há meses.

— Ela me procurou — murmurei. — Uns dias atrás. Disse que notou meu afastamento desde o início do ano. Que sentiu minha falta e ficou se perguntando se tinha feito algo errado.

Hermione não disse nada. Só me olhava daquele jeito dela, silenciosa, firme, como quem esperava a verdade nascer sem pressa.

— E eu menti — confessei. — Disse que era por causa das visões, do dom, do grimório... E parte disso é verdade, mas não foi por isso que eu me afastei dela.

Engoli em seco. A garganta arranhava como se cada palavra estivesse escrita com espinhos.

— Eu me afastei porque... estava com ciúmes. Dela. Do Harry com ela. De como ele sorria quando falava com ela, de como ela parecia pertencer a um lugar ao lado dele que eu nunca tive certeza se poderia ocupar. E, em vez de lidar com isso… eu me escondi. Me fechei. Fugi.

Hermione continuou em silêncio, mas dessa vez havia emoção nos olhos dela. Não julgamento. Só empatia.

— E me odiei por isso — continuei, a voz falhando no fim. — Porque ela é minha amiga. E eu a amo. E não queria que o que sinto pelo Harry… estragasse isso. Não quero afastar as pessoas que amo por um sentimento que eu ainda nem sei como nomear direito.

... — Hermione sussurrou, com uma ternura úmida na voz — você é uma das pessoas mais corajosas que eu conheço. Ter coragem de olhar pro que sente, de dizer isso em voz alta... isso é força, não fraqueza.

Balancei a cabeça, apertando os olhos por um instante. Como se o mundo pesasse demais atrás das pálpebras.

— Eu só... preciso encontrar equilíbrio. Saber lidar com tudo isso sem machucar ninguém no caminho.

— E você vai conseguir — ela disse, com convicção. — Do seu jeito. No seu tempo. E o mais importante: você não precisa fazer isso sozinha.

Respirei fundo. A vergonha ainda pulsava, mas havia algo mais ali agora. Algo leve. Quase como alívio. Quase como paz.

— Eu não sei se tenho coragem de contar isso pra Gina — confessei. — Porque eu sei que ela também gosta dele. E eu não quero que ela pense que eu fui falsa... ou egoísta.

Hermione me encarou com aquele olhar que enxergava por dentro.

— Eu entendo. Mas você não foi falsa, . Só estava tentando entender o que sentia. E, às vezes, a gente só consegue entender depois que já se afastou. O importante é o que você faz agora.

— Ela me perguntou sobre, sabia? — acrescentei, num sussurro. — Se eu gostava dele.

— E o que você disse?

— Que não. Que somos só amigos.

— E ela acreditou? — Dei de ombros.

— Não sei. Talvez ela tenha percebido o que nem eu sei explicar ainda. Mas... mesmo assim, ela foi gentil. Verdadeira. Não me atacou, não me julgou. E isso... só me fez admirar ainda mais ela. — Hermione sorriu.

— A Gina tem esse dom. De lidar com a verdade sem fazer dela uma arma.

— É. E é por isso que dói mais. Porque ela é incrível. E eu não quero machucá-la, mesmo sem intenção.

— Dá um passo de cada vez — Hermione aconselhou, com doçura. — Às vezes, o silêncio protege, mas a verdade... reconstrói. E quando for a hora certa, você vai saber.

— Obrigada, amiga. Por estar aqui. Por sempre... ser você — disse, puxando-a para um abraço apertado.

Ela me envolveu com carinho. E naquele instante, com as pedras frias do castelo ao redor, meu coração encontrou um pedaço de casa. Minha melhor amiga de volta. E com ela, a coragem pra me reencontrar também.

O frio da manhã ainda pairava nos corredores quando ouvi meu nome ecoar com força demais para ser ignorado.

! — Hermione surgiu entre dois grupos de alunos, o passo decidido e o olhar firme. Antes que eu pudesse reagir, ela segurou meu braço e me arrastou pelo corredor.

— Hermione, o que…?

— Chega dessa palhaçada — cortou, sem sequer me encarar. — Vocês três estão se evitando como se isso fosse resolver alguma coisa.

Quando chegamos ao Salão Comunal, lá estavam Harry e Rony, encostados no sofá mais próximo da lareira. Os dois se endireitaram na hora, como se a presença dela fosse uma espécie de decreto de ordem.

— Olha só… — Rony começou, mas Hermione ergueu a mão.

— Não. Sem desculpas esfarrapadas. Não tem sentido essa briga idiota. Vocês são amigos. Se conseguiram sobreviver a um torneio de bruxos e a um ataque de dementadores, conseguem sobreviver ao orgulho de vocês.

Os dois desviaram o olhar, e eu me limitei a cruzar os braços. A tensão ainda estava ali, mas não tão afiada quanto antes.

— Pronto — disse ela, soltando meu braço. — Agora vocês vão sentar, tomar café e conversar como pessoas civilizadas.

Acabamos sentados na mesa da Grifinória minutos depois, Hermione estrategicamente no meio, como se fosse árbitra de um duelo prestes a acontecer.

— Então… — ela começou, tentando soar casual. — O que vocês vão fazer hoje?

Harry não esperou muito para responder, já inclinando-se para frente com aquele brilho determinado no olhar.

— Descobrir o que o Malfoy está aprontando.

— De novo isso, Harry? — Rony soltou um suspiro exagerado.

— Você não vê? Ele esteve envolvido no ataque à Katie. Eu tenho certeza.

Olhei para Hermione, que já preparava o discurso contra essa teoria, e senti que aquele “alívio” que ela tinha imposto ia durar pouco.

— Ele esteve no Beco Diagonal naquele dia, eu vi — Harry insistiu, cortando a torrada no prato como se estivesse dissecando provas de um crime. — Entrou na Borgin & Burkes. Isso não é coincidência.

— Harry — Hermione suspirou, já perdendo a paciência —, nós já falamos sobre isso. Você não tem provas. Não adianta construir um caso inteiro só porque o Malfoy respirou perto de algo suspeito.

Rony resmungou um “eu até acho que ele tá aprontando” por entre as garfadas, mas foi ignorado pelos dois.

Eu continuava em silêncio, mordendo um pedaço de pão como se ele tivesse respostas que eu não tinha.

— E você? — Harry me olhou de repente, o tom afiado. — Você sempre tem uma teoria, uma observação… mas agora fica calada?

— Talvez porque nem tudo precise da minha opinião — respondi, tentando manter o tom neutro.

— Ou porque você sabe de alguma coisa e não quer me contar.

A acusação ficou no ar, e antes que eu pudesse retrucar, o mundo ao meu redor se distorceu.

A claridade do Salão Principal sumiu, substituída por um breu cortado por tochas presas a paredes de pedra antiga. Eu estava em um corredor estreito, e na minha frente, Morgana Le Fay. O capuz não cobria o rosto dessa vez, revelando olhos que brilhavam como um lago sob a lua.

Ela não falou. Apenas ergueu a mão, e imagens começaram a se formar no espaço entre nós: um homem jovem, de cabelos negros e olhos escuros, conversando com um grupo em um salão imponente. Não precisei que ninguém me dissesse, mesmo mais novo, reconheci o traço frio do rosto: Tom Riddle. Ele sorria, mas havia algo predatório na forma como observava os outros.

A cena mudou, agora ele segurava um objeto pequeno e dourado, algo que parecia um medalhão antigo, girando-o nos dedos como se estivesse decidindo seu destino. Morgana me encarou, e por um instante, o medalhão brilhou com o mesmo símbolo flamejante que já tinha aparecido nas minhas visões.

Antes que eu pudesse perguntar, a imagem se fragmentou, e tudo voltou ao som de talheres, risadas e o cheiro de café.

? — Hermione estava inclinada para mim, os olhos arregalados. — Você ficou pálida. O que aconteceu? — Pisquei algumas vezes, tentando me situar.

— Eu… tive outra visão. — Harry se endireitou imediatamente.

— E não ia contar?

— Eu ia — respondi, respirando fundo. — Vi… Morgana. E ela me mostrou… o Tom Riddle. Mais novo. Ele estava com outras pessoas, parecia importante. Depois segurou um medalhão… e tinha o símbolo nas chamas. O mesmo que eu já vi antes.

Hermione ficou imóvel por alguns segundos, processando.

— Um medalhão? Isso… isso pode ser importante.

— Você lembra de mais alguma coisa? Alguma palavra, lugar? — Harry me encarava, curioso. Balancei a cabeça.

— Só… a sensação de que o que ela me mostrou já aconteceu. Mas também… que ainda não acabou.

— Espera — Rony se inclinou na mesa. — Quem é essa Morgana? — Hesitei, escolhendo as palavras.

— Morgana Le Fay — respondi sem hesitar.

— Quem? — Rony e Harry perguntaram quase ao mesmo tempo.

— Descendente das linhagens mais antigas — expliquei, mantendo a voz baixa. — Uma bruxa de poder intuitivo, dominadora das runas, da magia ancestral e dos encantamentos da escuta mágica. O nome dela foi apagado de muitos registros, mas seus feitos atravessam as eras em fragmentos. Ela era conhecida por aparecer àqueles que carregavam dons raros, principalmente mulheres de sangue antigo, quando estas se aproximavam do despertar completo de suas habilidades.

— E você acha que é por isso que ela está aparecendo pra você? — Rony perguntou, a voz baixa mas carregada de atenção.

Assenti, mas Mione não me deu tempo de responder mais nada.

— Eu pesquisei — disse, com aquele brilho no olhar que só ela tinha quando juntava peças. — Tanto nos livros de História da Magia quanto em alguns volumes trouxas que tenho comigo. Descobri que, nas lendas, Morgana também é chamada de sacerdotisa de Avalon, curandeira e, em certas versões, inimiga mortal do rei Artur. Em outras, é sua meia-irmã e protetora. E, em todas, ela domina a arte de manipular o destino daqueles que toca.

Senti um arrepio na nuca.

— Então não importa de onde vêm as histórias… ela sempre esteve ligada a guiar ou mudar o caminho de alguém. — Hermione assentiu, séria. — E agora ela está guiando você.

Foi só então que percebi o detalhe mais óbvio: nunca antes eu tinha tido uma visão em público. Sempre acontecia no silêncio do meu quarto, ou quando me permitia ficar vulnerável. Mas ali, no meio do Salão Principal, sem me preparar, ela simplesmente veio. Abaixei a voz, olhando de um para o outro.

— Acho que… desde que aceitei ter essas visões, elas ficaram mais fortes.

— Aceitou? — Rony perguntou, ainda parecendo digerir a primeira parte.

Hesitei por um instante, mas continuei:

— Minha mãe veio me visitar, no gabinete do Dumbledore. Ela me contou sobre a minha avó, sobre o colar, sobre o dom que corre na minha família. Disse que eu não deveria lutar contra isso… que eu precisava ouvir. E… eu decidi tentar.

Rony e Harry trocaram um olhar rápido.

— E o que isso significa pra você? — Harry perguntou, menos ríspido agora.

— Significa que eu não posso mais fingir que não acontece. Que talvez essas visões sejam mais do que fragmentos aleatórios. — Olhei para eles com seriedade. — E que, se Morgana está me mostrando o passado… talvez seja porque ele ainda tenha peso no que está por vir.

O silêncio que veio depois foi pesado, cheio de perguntas que ninguém sabia como fazer.

⚡🧙


O dia arrastou-se entre feitiços que exigiam mais concentração do que eu tinha para oferecer e anotações que já se misturavam às margens rabiscadas do meu diário. Entre uma aula e outra, cruzei com Saphira no corredor do segundo andar. Ela segurava um livro de Herbologia com as mãos ainda sujas de terra, o que me fez sorrir de imediato.

— Ou você estava na estufa, ou atacou alguém no pátio — comentei.

— Estufa — ela respondeu, com aquele sorriso calmo que parecia sempre guardar algo não dito. — E você? Cara de quem passou o dia ouvindo sermão de professor.

— Algo assim. — Encolhi os ombros, ajustando a alça da mochila. — Quer me acompanhar até o campo? Preciso pegar um pouco de ar fresco antes de enfiar a cara em mais pergaminhos.

Ela concordou, e fomos juntas, conversando sobre nada em particular. Saphira tinha essa habilidade rara de preencher o silêncio sem precisar de palavras.

Quando chegamos ao campo de Quadribol, o treino da Grifinória já estava em andamento. Harry voava como se estivesse perseguindo um inimigo invisível, o corpo inclinado para frente, cada movimento carregado de urgência. O apito pendurado no pescoço cortava o ar com um som agudo e impaciente, marcando o ritmo como se fosse um cronômetro prestes a estourar.

Do alto, ele lançava ordens rápidas, a voz alta o suficiente para ecoar pelas arquibancadas.

— Braços mais firmes, Dean! — gritou, quando a goles escapou por pouco das mãos do colega. — Katie faria esse passe de olhos fechados!

Em seguida, girou a vassoura num movimento brusco, apontando para o outro lado do campo.

— Rony, a defesa está lenta demais! Se esse fosse um jogo de verdade, já teria tomado três gols!

As palavras não vinham como simples instruções; eram afiadas, quase cortantes, e cada uma parecia acertar o alvo como um feitiço bem lançado. Ele não apenas corrigia, ele atacava as falhas como se fosse pessoal.

Gina passou voando pelo lado esquerdo e, antes que pudesse completar a manobra, Harry já estava atrás dela.

— Você está se adiantando demais, vai deixar o lado direito exposto! — Ela se virou, o cabelo ruivo chicoteando no vento.

— Eu estou cobrindo o espaço vazio!

— E deixando outro aberto! — ele rebateu sem hesitar.

Mesmo de onde eu estava, podia sentir a tensão se acumulando no ar, como se o campo inteiro estivesse preso numa teia de nervos à flor da pele. Não era só um treino, era quase uma batalha, e Harry parecia lutar contra algo que não estava ali.

— Ele é sempre assim? — Saphira perguntou, inclinando-se levemente para acompanhar o movimento dele no ar.

— Não — respondi, observando enquanto ele repreendia Rony pela terceira vez em menos de cinco minutos. — Hoje ele está… mais crítico.

— Crítico? — Ela arqueou uma sobrancelha. — Parece pronto pra começar uma guerra.

Sorri de canto, mas sem humor. Gina passou voando perto de Harry, e ele girou a vassoura para apontar na direção dela.

— Você precisa se posicionar melhor! Eu já falei! — gritou.

— Eu estou me posicionando! — Gina rebateu, claramente irritada.

— Não o suficiente! — ele devolveu, já mudando o foco para outro jogador.

Saphira cruzou os braços.

— É impressão minha, ou ele briga até com o vento?

— Não é impressão. — Mantive o olhar fixo nele, sentindo a velha mistura de irritação e outra coisa que eu não queria nomear.

Foi então que ele olhou na minha direção, como se tivesse sentido que eu estava observando. Nossos olhares se prenderam, e por alguns segundos, o treino, os gritos e o vento deixaram de existir. Aquele fio invisível que nos conectava — por mais que eu tentasse cortar — estava lá, firme.

— Ah… — Saphira soltou, com um sorriso enviesado. — Então é ele.

— Ele o quê? — perguntei, fingindo não entender.

— O menino que você gosta.

Soltei um riso curto, mais para quebrar o clima do que por achar graça.

— Não, Saphira. Nós não… é complicado.

— Complicado não é um “não” — ela retrucou, como se tivesse acabado de ganhar uma aposta.

Antes que eu pudesse responder, Harry corrigiu Gina novamente e quase esbarrou nela no ar. Algo dentro de mim se retesou. E, como se a língua tivesse vida própria, as palavras escaparam:

— Se você jogar contra o outro time como está jogando contra a sua própria equipe, vão ser expulsos antes de marcar um gol.

O silêncio foi imediato. Até o vento pareceu parar.

Harry travou o voo, virando-se lentamente para me encarar. Os olhos dele estavam estreitos, e havia ali mais do que simples irritação pelo treino, era a mesma faísca da nossa conversa mais cedo, raiva misturada a algo que queimava de outro jeito.

— Obrigado pela dica, treinadora — respondeu, o sarcasmo escorrendo de cada sílaba.

Mantive o olhar nele por alguns segundos, desafiando-o a continuar. Ele não o fez. Voltou a apitar e a gritar instruções, mas a tensão não saiu do ar. Ao meu lado, Saphira soltou um assobio baixo.

— Definitivamente, complicado. — Cruzei os braços e sorri de leve.

— Você não faz ideia.

Mas no fundo, eu sabia que ela tinha.

Quando o treino finalmente terminou, me despedi da Saphira na beira do campo, passei rapidamente na torre da Corvinal para pegar uma blusa e me arrumar, e segui para a sala de Aritmância. Ainda sentia o vento frio grudado na pele e, mais do que isso, a tensão do olhar do Harry queimando na memória.

Hermione já estava sentada quando entrei, o cabelo preso de qualquer jeito e um pergaminho meio preenchido à frente. Ela levantou os olhos assim que me viu.

— Você sabe que todo o time da Grifinória viu você chamar a atenção do Harry, certo? — perguntou, sem preâmbulos, enquanto eu me acomodava na carteira ao lado.

Revirei os olhos, tirando os livros da mochila.

— Ótimo. Meu momento de glória.

— Não é piada — insistiu. — Até o Dean comentou.

Parei de escrever por um instante.

— Comentou o quê? — Hermione fingiu voltar ao exercício, mas a voz estava carregada de significado.

— Que você tem coragem de falar com ele de um jeito que quase ninguém ousa.

— Isso não é coragem — retruquei. — É pura falta de paciência.

Ela abriu um meio sorriso, como se tivesse mais a dizer, mas naquele momento, uma coruja atravessou a janela aberta, pousando na mesa da professora. Uma fita dourada brilhava amarrada à perna.

A professora Vector pegou o embrulho e anunciou:

— Convites para o jantar do professor Slughorn.

Os nomes começaram a ser chamados, e logo o pergaminho dourado estava nas minhas mãos. Olhei para o convite: letras douradas e exageradas diziam “Sua presença é mais do que desejada para o próximo jantar do Clube do Slug.”

— Parece que o Slughorn quer um espetáculo hoje à noite — murmurei, guardando o convite no bolso. Hermione ergueu uma sobrancelha.

— E você sabe que espetáculos no Clube do Slug nunca são só jantares.

Eu sabia.

O resto das aulas passou em um ritmo arrastado, cada minuto mais longo que o anterior. Quando finalmente subi para o dormitório da Corvinal, o céu já estava pintado de um laranja suave, anunciando o fim do dia. O convite dourado do Slughorn continuava sobre minha mesa, refletindo a luz como se estivesse me lembrando de que não havia escapatória.

Escolhi uma túnica de um azul profundo, discreta, mas elegante o suficiente para não destoar do ambiente pomposo que sabia que me esperava. Soltei os cabelos, deixando-os cair naturalmente sobre os ombros, e prendi o colar que minha mãe me dera, frio contra a pele, mas carregando um peso que não era só físico.

Enquanto ajustava a gola no espelho, não consegui evitar a sensação de que estava me preparando menos para um jantar e mais para entrar em um tabuleiro, onde Slughorn movia suas peças com um sorriso satisfeito.

Desci as escadas em passos tranquilos, cruzando o corredor principal até o ponto de encontro marcado no convite. Hermione já estava ali, encostada na parede, ajeitando a manga da túnica.

— Pronta? — ela perguntou, me avaliando com um olhar rápido e aprovador.

— O mais pronta que se pode estar para ser exibida como um troféu acadêmico — respondi, com um meio sorriso. Ela riu baixinho.

— Pelo menos a comida é boa. Tenta aproveitar.

— Vou tentar não me distrair com as provocações — garanti, embora soubesse que certas presenças tornariam essa missão impossível.

Seguimos juntas pelos corredores, passando por tochas acesas e ecos de vozes distantes, até que uma porta ornamentada revelou o ambiente já tomado por risadas abafadas e o aroma rico do jantar.

A sala de Slughorn parecia mais uma vitrine de memórias e excessos. As paredes cobertas por retratos dourados e prateleiras abarrotadas de frascos curiosos refletiam o brilho quente das velas suspensas. O aroma de carne assada e especiarias preenchia o ar, misturado a um perfume adocicado que não consegui identificar.

Não deu tempo de dar dois passos para dentro antes que Blaise Zabini se aproximasse, sorriso fácil e olhar que sabia exatamente para onde queria ir.

… — disse, como se estivesse degustando o som do nome. — E eu achando que essa noite não teria nada que valesse a pena.

— Sempre tão sutil — respondi, arqueando uma sobrancelha.

Ele riu baixo e inclinou-se ligeiramente, a mão roçando no meu braço como se aquilo fosse perfeitamente natural.

— Só estou sendo honesto. Essa túnica te deixa… perigosa. — Antes que eu pudesse formular uma resposta afiada, uma voz cortou o ar.

— Zabini — Harry se aproximou, o tom carregando mais tensão do que educação. — Acha que pode dar um passo pra trás?

Blaise lançou um olhar lento e calculado para ele, um meio sorriso se formando.

— Potter. Sempre tão… protetor.

— Sempre tão inconveniente — Harry retrucou, o maxilar travado.

Slughorn, distraído com a própria empolgação, chamava os alunos para se acomodarem à mesa, elogiando genealogias e conquistas acadêmicas como se estivesse anunciando raridades de um leilão. Mas mesmo com a conversa e as risadas ao redor, era impossível não sentir o ar entre Harry e Blaise vibrando de hostilidade.

— Relaxa, Potter — Blaise falou, ainda me olhando. — A sabe se cuidar.

— É, mas você parece não saber respeitar limites — Harry rebateu, os olhos fixos nele.

Resolvi intervir antes que Slughorn percebesse o clima.

— Certo, meninos. Vamos fingir que sabemos conviver em sociedade? — disse, puxando minha cadeira e me sentando.

Blaise me acompanhou até o assento ao lado, ignorando o fato de que Harry agora parecia pronto para atravessar a mesa se fosse preciso.

O salão privativo de Slughorn tinha aquele ar aconchegante e sufocante ao mesmo tempo. A mesa comprida estava posta com talheres polidos e taças de cristal que captavam cada tremor de chamas. Slughorn, com as bochechas coradas e um sorriso largo demais para ser só simpatia, bateu palmas assim que nos acomodamos.

— Ah, senhorita … — ele disse, inclinando-se um pouco para me observar. — Tenho lido muito sobre a linhagem … pelo menos, o que se permite saber. — O olhar dele cintilou de curiosidade, como quem esperava que um segredo simplesmente escorregasse para fora.

Cruzei as mãos sobre o colo, sustentando o olhar dele com um meio sorriso.

— O que se permite saber geralmente é o suficiente. O resto… bom, o resto fica para quem tem direito.

Gina, sentada à minha direita, escondeu uma risadinha atrás da taça, mas o brilho malicioso nos olhos dela entregava o quanto estava se divertindo. Slughorn pareceu não notar a ironia.

— Ah, claro, claro… mas confesso que adoraria ouvir mais sobre…

— Professor — interrompi com um tom tão educado quanto afiado —, tenho certeza de que as histórias da minha família ficariam muito mais interessantes depois de umas duas taças de vinho. Quem sabe em outra ocasião?

Gina quase engasgou tentando conter outra risada, e Slughorn, após um pigarrear constrangido, desviou para Neville, que estava na outra ponta, como se tivesse lembrado de uma pergunta urgente sobre Herbologia.

Foi nesse momento que Blaise Zabini, sentado à minha esquerda, se inclinou levemente na minha direção. O perfume dele era discreto, mas marcante, e o sorriso… perigoso.

— Sempre tão rápida com as palavras, . — Ele apoiou o cotovelo na mesa, olhando-me como se estudasse cada detalhe. — Aposto que o Potter gosta disso mais do que admite.

Senti a pontada imediata de calor no rosto, mas mantive o olhar firme.

— Aposte menos, Zabini. Suas fichas parecem sempre cair no lugar errado.

Ele sorriu de lado, como se minha resposta tivesse apenas confirmado algo que ele já suspeitava. E foi aí que notei, do outro lado da mesa, Harry nos observando. Não estava nos encarando abertamente, o olhar ia e voltava, mas a tensão no maxilar dele era impossível de ignorar.

— Que foi, Potter? — Blaise provocou, sem sequer desviar os olhos de mim. — Está tudo bem aí?

Harry não respondeu. Apenas baixou o olhar para o prato e mexeu na comida com mais força do que o necessário, o talher raspando no fundo. A mandíbula ainda travada, mas o silêncio falava mais alto do que qualquer réplica.

Mione, percebendo a troca, me cutucou discretamente com o cotovelo, um sorriso sabendo demais no canto da boca. Eu respirei fundo, tentando ignorar o nó de tensão que se formava entre nós quatro, enquanto Slughorn retomava suas histórias sobre ex-alunos, completamente alheio à guerra fria acontecendo à mesa. Gina mordia o lábio para conter o riso, Neville fingia examinar o prato e Harry… Harry olhava como se pudesse decifrar todos os meus segredos só de me encarar.

Quando o jantar começou a se dispersar, Slughorn levantou-se para acompanhar alguns convidados até a porta. Foi nesse momento que Blaise se inclinou para mais perto, o braço encostando no meu de forma calculada.

— Eu gosto quando acontece isso aqui nas festas do Slug — murmurou, baixo o suficiente para que apenas eu ouvisse. — Dá para ver que o Potter fica… nervoso.

Revirei os olhos, pronta para responder, mas ele não se deu por satisfeito. Fingindo um cumprimento cordial, Blaise pegou minha mão — e, ao invés de soltar, passou o polegar lentamente pela minha pele, como se saboreasse a provocação.

— Sempre um prazer, .

Senti o calor do olhar de Harry antes mesmo de me virar. Ele estava de pé, o maxilar travado, e só não disse nada ali porque Slughorn reapareceu, chamando-o para se despedir. Aproveitei o momento para me levantar, agradecer o jantar e sair pela porta antes que a situação virasse um duelo.

Mas eu mal tinha andado por dois corredores quando ouvi passos rápidos atrás de mim.

— O que foi aquilo? — A voz de Harry cortou o silêncio, carregada de irritação. Virei-me devagar, erguendo uma sobrancelha.

— Boa noite pra você também, Potter. — Cruzei os braços, deixando o sarcasmo pingar de cada sílaba. O corredor estava silencioso, mas o ar entre nós vibrava de um jeito estranho.

— Não enrola. — Ele deu um passo à frente, os olhos estreitados. — O que o Zabini pensa que está fazendo?

— Talvez esteja apenas sendo… educado. — Falei lenta, deliberadamente, só para provocar. — Ou será que todo mundo que conversa comigo agora é suspeito?

— Ele não estava conversando, . — A voz dele saiu mais baixa, mas com uma tensão que me fez endireitar a postura. — Ele estava se exibindo. E você sabe.

— E desde quando isso é problema seu? — perguntei, erguendo o queixo. — Não lembro de ter assinado um contrato de “aprovação do Harry Potter” pra falar com quem eu quiser.

— Desde que ele não é confiável — rebateu de imediato, mas o olhar fixo dizia outra coisa.

— Ah, claro, isso é sobre segurança. — Dei um passo em direção a ele. — Nada a ver com o fato de você não gostar da ideia de me ver com outra pessoa.

O maxilar dele travou. Ele abriu a boca pra retrucar, mas parou, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado.

— Eu não gosto da ideia de te ver com ele. — Foi quase um sussurro, mas direto o suficiente para me fazer perder o ar por um instante. — Ele olha pra você… como se já tivesse ganho alguma coisa.

Meu coração disparou.

— E você? — perguntei, num tom mais desafiador do que eu pretendia. — Olha pra mim como, Potter?

Ele respirou fundo, e por um segundo, achei que fosse recuar. Mas ao invés disso, deu mais um passo na minha direção, diminuindo ainda mais a distância.

— Como se… — a voz dele falhou um pouco, e então endureceu — como se não conseguisse parar, mesmo quando deveria.

Senti o estômago revirar, não de raiva, mas daquele tipo de nervosismo que é perigoso admitir.

— Isso não muda o fato de que você está bancando o dono da minha vida. — A frase saiu mais baixa do que eu queria, e ele percebeu.

— Talvez porque eu… me importe. — A palavra ficou pesada no ar. Ele piscou, como se tivesse percebido que disse mais do que queria. — Mas você prefere fingir que não nota.

— Talvez eu só não queira me machucar — rebati, mas a força na voz já tinha diminuído.

O olhar dele suavizou por um instante, e a mão subiu como se fosse afastar um fio de cabelo do meu rosto. Ficamos assim, respirando o mesmo ar, o mundo inteiro reduzido àquela tensão perigosa.

— Potter… — minha voz soou mais como um aviso do que uma reclamação.

Ele inclinou o rosto, tão perto que eu podia sentir o calor da respiração dele, e por um segundo, eu quase fechei os olhos.

! — A voz de Hermione ecoou atrás de nós, quebrando o feitiço. — Estava te procurando…

Harry se afastou tão rápido quanto tinha se aproximado, o rosto fechado de novo, mas os olhos… eles diziam tudo. Eu respirei fundo, tentando recompor o semblante antes de virar para Hermione, que parecia alheia ao que quase tinha acontecido.

— Precisamos conversar sobre a visão — ela completou, séria.

Hermione me puxou pelo braço, completamente dispersa ao incêndio que tinha deixado para trás.

— Precisamos passar na biblioteca antes que feche. — disse, acelerando o passo.

Eu fui junto, ainda sentindo o coração martelando nas costelas. Harry ficou pra trás, mas eu podia jurar que sentia o peso do olhar dele cravado na minha nuca.

Quando entramos no corredor lateral, longe de qualquer ouvido curioso, Hermione finalmente me encarou.

, você tá… estranha. — Seus olhos percorreram meu rosto com aquele jeito clínico de quem detectava até piscada fora do lugar. — Aconteceu alguma coisa?

Mordi o lábio. Poderia inventar qualquer desculpa, mas a verdade já estava quase explodindo na ponta da língua.

— Digamos que… você apareceu na hora errada. — Ela franziu o cenho.

— Como assim?

— Eu e o Harry… — comecei, e o olhar dela já se arregalou antes mesmo de eu terminar. — Estávamos… discutindo, mas não daquele jeito de sempre. Foi… diferente. Ele disse umas coisas. Ficou perto. Muito perto.

Hermione piscou, assimilando, e então soltou um "Oh" tão baixinho que parecia um segredo por si só.

— Eu… — Ela passou a mão pelo rosto, claramente envergonhada. — , eu juro que não sabia. Se eu tivesse percebido, eu…

— Tá tudo bem — interrompi, apesar do nó de frustração no peito. — Só que foi a primeira vez que ele… deixou escapar que sente alguma coisa. — Ela me olhou como se pesasse as palavras.

— Então ele sente. — Suspirei, desviando o olhar para um vitral próximo.

— Ele não disse com todas as letras, mas… não precisava. Tava no jeito que ele falou. No jeito que ele olhou.

Hermione abriu a boca como se fosse comentar mais, mas se conteve.

— E você? — perguntou apenas. Demorei um pouco antes de responder.

— Eu… também não consigo parar de olhar pra ele. Mas admitir isso pro Harry é outra história.

Hermione soltou um suspiro cúmplice, um meio sorriso de quem entendia mais do que dizia.

— Bom… pelo menos agora eu sei que talvez tenha interrompido algo importante. Vou me sentir culpada por uma semana.

— Só uma? — provoquei, e nós duas acabamos rindo baixinho. Mas, por dentro, a cena de segundos atrás ainda queimava como se tivesse acontecido naquele exato instante. A lembrança insistia em se intrometer, mesmo enquanto eu tentava focar no que ela queria me mostrar.

O corredor até a biblioteca estava silencioso, exceto pelo eco suave dos nossos passos. Quando empurramos as portas pesadas, fomos recebidas pelo cheiro familiar de pergaminho antigo e madeira encerada. Escolhemos uma mesa próxima à janela, onde a luz do fim de tarde caía em feixes dourados sobre o tampo.

Mione largou a pilha de livros com cuidado, como quem depositava um tesouro, e sentou-se à minha frente. Aquele riso inicial que compartilhamos se dissolveu num olhar concentrado, quase hesitante. Sem dizer nada no começo, ela puxou um rolo de pergaminho amarelado de dentro da mochila, alisando-o com as mãos antes de desenrolá-lo.

Passou o dedo sobre um conjunto de runas dispostas em círculo, onde uma marca semelhante a chamas parecia gravada no pergaminho.

— Encontrei um trecho de um pergaminho muito antigo, parte de um acervo restrito. Não fala diretamente de Morgana, mas menciona uma linhagem de bruxas do interior da Inglaterra, que teria recebido a “bênção” dela séculos atrás. Essa linhagem se cruzou, mais tarde, com famílias que hoje são praticamente desconhecidas… uma delas é a Gaunt.

A palavra ficou suspensa no ar, pesada.

— Gaunt? — repeti, sentindo o estômago revirar.

— Sim. Não há provas sólidas, só fragmentos. Mas se for verdade, significa que, em algum ponto distante da árvore genealógica, a mãe de Você sabe quem pode ter descendido de alguém que Morgana tocou diretamente. — Hermione mordeu o lábio, mas não tirou os olhos do pergaminho. Tocou com a ponta da varinha uma runa mais desgastada, que brilhou por um instante, revelando um símbolo quase oculto. — Essa aqui… — murmurou — …significa “aquele que herda a escuta”. É usada para marcar pessoas que carregam dons raros, que podem ouvir o que outros não conseguem.

Suspirei fundo, tentando ritmar as batidas do meu coração.

… — a voz de Mione me puxou de volta. — Isso que aconteceu com você não foi coincidência. Talvez tenha sido… reconhecimento.

Engoli em seco, tentando não deixar transparecer o turbilhão que aquilo provocava.

— Então você acha que…? — deixei a pergunta no ar.

— Acho que Morgana deixou marcas que não se apagam. E que, de alguma forma, você faz parte disso. — Os olhos dela se ergueram para mim, sérios. — E isso pode explicar por que certos símbolos ou feitiços dela ainda ecoam nele… e talvez em você.

A revelação ficou queimando na minha mente como brasas. Eu não sabia se aquilo era uma conexão ou uma ameaça, ou as duas coisas.

⚡🧙


No dia seguinte, o céu sobre Hogwarts amanheceu coberto de nuvens pesadas, como se o castelo tivesse absorvido parte do peso que eu carregava. Depois da última conversa com Hermione e de todo o caos que parecia se acumular em volta de mim, eu precisava de ar.

Acabei escolhendo a estufa, onde o cheiro de terra úmida e o calor abafado sempre abafavam também o barulho da minha cabeça. Sentei-me num banco entre duas prateleiras altas de vasos, observando as folhas grandes de uma tentácula venenosa balançarem levemente com a corrente de ar que vinha das janelas abertas.

— Sua cara está gritando “discussão com um grifinório”. — A voz veio da minha esquerda, carregada de um tom leve, quase divertido.

Virei a cabeça e encontrei Saphira encostada na entrada, os cabelos presos num coque bagunçado e as mangas do uniforme dobradas até os cotovelos. Ela tinha aquele sorriso de quem não precisava de feitiço nenhum para ler uma pessoa.

— Achei que estava escondendo bem — murmurei, mas um canto da minha boca já cedia, traindo um quase sorriso.

Ela se aproximou devagar, pegando distraidamente uma folha caída de cima da mesa e girando-a entre os dedos.

— Talvez para os outros… mas não para mim. — Seus olhos verdes me examinaram por um segundo a mais do que o necessário. — Quer falar sobre isso?

— Não. — A resposta saiu rápida, mas não ríspida. — Pelo menos, não agora.

Saphira deu de ombros, como se não precisasse de mais para entender. Sentou-se ao meu lado, deixando um espaço confortável entre nós, e ficou ali, apenas acompanhando o silêncio. O som abafado da chuva batendo no vidro da estufa misturava-se à respiração tranquila dela, e por algum motivo, aquilo soava mais acolhedor do que qualquer conversa.

O cotovelo dela roçava levemente no meu braço sempre que se inclinava para examinar uma folha ou ajeitar um vaso. Um toque quase imperceptível… mas suficiente para me lembrar que ela estava ali, perto. Por mais que eu tentasse ignorar, a energia da presença dela me puxava para um lugar estranhamente seguro, como se fosse o único canto do castelo onde eu não precisava manter a guarda erguida.

— Você relaxa comigo de um jeito que não relaxa com quase ninguém — comentou, a voz carregando um tom que beirava o desafio. Ela continuou olhando para frente, como se não quisesse que eu visse o sorriso de canto que, mesmo disfarçado, estava ali.

Soltei um riso baixo, apoiando o queixo na mão.

— Talvez porque você não me trata como se eu estivesse sempre prestes a quebrar. — Ela finalmente virou o rosto, os olhos verdes me estudando com atenção.

— E você acha que eu devia?

— Acho que não — respondi, sustentando o olhar. — Mas já que estamos falando de gente… tem alguém que você gosta?

A pergunta não veio do nada. Já tínhamos tocado nesse assunto dias antes, quando eu, entre risos, perguntei se ela gostava de alguém. Naquela vez, ela tinha dito que só se interessava por garotas, mas o jeito como desviou do resto da conversa sempre me deixou com a sensação de que havia mais ali, algo que ela não estava pronta para contar.

Saphira piscou devagar, como se não esperasse que eu retomasse o assunto agora, e depois mordeu o lábio, segurando um sorriso que parecia conter mais respostas do que palavras jamais dariam.

— Tem.

— E vai me dizer quem é? — insisti, arqueando uma sobrancelha, tentando manter o tom leve mesmo com o coração acelerando um pouco sem motivo aparente.

Ela balançou a cabeça, o sorriso se abrindo num misto de provocação e segredo.

— Ainda não. É mais interessante quando fica no mistério.

— Você sabe que isso só vai me deixar mais curiosa, né? — reclamei, e ela deu um meio sorriso que parecia dizer exatamente essa é a ideia.

Tentei revirar os olhos, mas a verdade é que uma parte de mim odiou não saber a resposta — e outra parte… preferiu não perguntar de novo, com medo do que poderia ouvir. Principalmente se, por algum motivo, o nome que ela estivesse guardando fosse um que eu não sabia se queria escutar.

Saphira olhou para o relógio preso no pulso e suspirou.

— Acho melhor eu ir… tenho lição de Feitiços para preparar, e Flitwick já me deu um sermão ontem. — Ela se levantou devagar, ajeitando a alça da bolsa no ombro.

Antes de dar o primeiro passo, porém, inclinou-se levemente e deixou um beijo rápido na minha bochecha. O toque foi breve, mas quente o bastante para incendiar o ponto exato onde seus lábios encostaram.

— Até mais, — murmurou, com um sorriso que carregava mais coisas do que eu estava pronta para decifrar.

Fiquei apenas observando enquanto ela se afastava, o som suave dos passos misturando-se ao farfalhar das folhas. Quando a porta da estufa se fechou atrás dela, o silêncio voltou a ocupar o espaço, pesado e íntimo ao mesmo tempo.

Foi nesse instante que um arrepio subiu pela minha nuca. Não era o vento.

As cores ao meu redor começaram a perder a nitidez, como se alguém estivesse lavando a cena com pinceladas de neblina. Pisquei, e a estufa sumiu.

No lugar, um campo escuro, iluminado apenas pela luz prateada da lua. O ar estava pesado, e no centro, de costas para mim, havia uma figura que eu reconheceria mesmo que o mundo acabasse: Harry. Ele segurava algo na mão, parecia uma varinha, mas com um brilho que não era comum.

De repente, uma segunda figura surgiu. Alta, com o capuz caindo até cobrir metade do rosto, mas a energia dela era inconfundível. Morgana. Ela colocou uma das mãos sobre o ombro dele, e Harry não recuou. Pelo contrário, virou-se para encará-la… e o olhar dele passou direto por ela, até me encontrar.

— O destino é uma lâmina — a voz de Morgana soou em minha mente, cortante. — E vocês estão caminhando para a mesma ponta.

Antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, a lâmina imaginária brilhou, e tudo se partiu em mil fragmentos de luz.

Pisquei de novo e estava de volta à estufa, o coração martelando no peito, as mãos suadas. Não havia sinal de Harry, nem de Morgana… mas a sensação de que aquilo não era só uma visão continuava grudada em mim como sombra. E, pela primeira vez, eu me perguntei se o que nos unia era escolha… ou maldição.

O amanhecer não chegou de verdade — ele só se insinuou entre as torres, dissolvido em névoa. A luz que atravessava as janelas da torre da Corvinal parecia o resto de um sonho, não o começo de um dia. O ar estava frio o bastante pra embaçar o vidro, e o silêncio pesava no quarto como um feitiço inacabado.

Acordei antes do primeiro sino, com o colar grudado na pele — gelado, quase dolorido. Por um instante, pensei que fosse só o frio da pedra, mas logo percebi o motivo real: o grimório, aberto sobre a escrivaninha, estava... respirando.

Não era figura de linguagem. As páginas se moviam devagar, como se o pergaminho exalasse um ar próprio, um pulsar suave, quase vivo. Me aproximei, hesitante, e notei que as anotações da noite anterior — meus rabiscos sobre a visão da lâmina e o rosto do Harry diante de Morgana — não estavam mais onde eu as deixei.

As letras se moviam sozinhas, escorregando pela página como tinta líquida até se reorganizarem em um novo símbolo: duas linhas paralelas cruzadas por uma terceira. O elo.

Encostei o dedo no traço, sem pensar.

Um arrepio subiu pelo meu braço e se espalhou pela nuca.

Por um segundo, juro que ouvi uma respiração — não a minha, mas vinda de dentro do livro.

Foi quando bateram à porta. Uma, duas, três vezes.

— Tá acordada? — a voz suave da Luna atravessou o corredor, serena e sonhadora como sempre.

Respirei fundo antes de responder:

— Desde sempre. Ou pelo menos é o que parece.

A porta se abriu no mesmo instante. Luna apareceu com o cabelo despenteado, um colar de miçangas pendendo torto no pescoço e uma expressão de quem tinha acabado de conversar com alguma criatura invisível.

— Eu sabia — disse ela, com aquele tom tranquilo de quem nunca tinha pressa. — Senti uma energia estranha vindo daqui. As runas estavam agitadas.

— As runas e eu — respondi, meio rindo, meio cansada. — Tivemos uma noite... interessante.

Luna inclinou a cabeça, observando o grimório que eu fechara segundos antes.

— Ele está diferente. — Falou como se fosse óbvio. — Como se tivesse te reconhecido.

— Isso é uma coisa boa? — perguntei, desconfiada.

Ela pensou por um instante.

— Depende. Coisas antigas só reconhecem quem carrega o mesmo tipo de verdade. — Depois deu um pequeno sorriso. — Não parece algo ruim. Só... importante.

Suspirei, passando a mão no rosto.

— E você sempre aparece quando as coisas ficam confusas, né?

— Eu gosto de quando o mundo fica confuso — respondeu. — Significa que ele está mudando de forma.

Sorri, porque era impossível não sorrir com Luna.

— Você é impossível.

— Eu sei. — Ela esticou a mão e me puxou pelo braço, leve. — Anda, vamos descer. O café já esfriou e o professor Flitwick não gosta de alunos famintos tentando fazer feitiços.

Peguei a mochila, mas antes de sair, olhei pro grimório mais uma vez. O símbolo ainda estava lá, fraco, mas pulsante — como um lembrete.

O elo.

Enquanto descíamos as escadas, senti o colar vibrar de leve, um aviso quase imperceptível. E por um instante — só um — tive certeza de que não éramos apenas nós duas descendo juntas. Tinha algo mais conosco. Algo que respirava o mesmo ar.

⚡🧙


A última aula de Aritmância terminou com a professora Vector escrevendo fórmulas no quadro mais rápido do que qualquer aluno conseguia copiar. As linhas de números e runas brilhavam sob a luz das tochas, parecendo dançar quando o giz riscou o último traço.

Eu e Hermione fomos as últimas a sair. Nossos pergaminhos estavam cobertos de anotações — dela, perfeitamente alinhadas; minhas, uma mistura de cálculos e rabiscos de símbolos que o grimório parecia insistir em fazer reaparecer na minha cabeça.

Sentamos perto da janela, aproveitando os minutos de intervalo antes do almoço. O ar lá fora estava frio e leve, e Hogwarts parecia respirar num ritmo próprio.

— Você entendeu aquela parte da projeção energética? — perguntei, apontando pro canto do meu pergaminho. — Porque eu juro que essas variáveis mudam só pra me irritar.

— As variáveis não mudam, , você é que tenta sentir em vez de calcular — respondeu Hermione, mas o tom era mais de carinho do que de crítica. — O que, convenhamos, é muito você.

Sorri, mexendo na pena.

— E ainda assim, tirei nota igual à sua na última prova.

— Por pura sorte mágica — retrucou, rindo. — Mas admito: você tem uma intuição assustadora pra esse tipo de coisa.

Ficamos um tempo em silêncio, só o som do vento entrando pela janela. Então, como quem lançava uma pergunta sem muito aviso, ela disse:

— Você e o Harry estão brigados de novo? — Ergui o olhar devagar.

— Não estamos brigados.

— Só não se falam, não se encaram e fingem que o outro não existe — completou, cruzando os braços. — Claro, muito diferente de estar brigados. — Soltei um suspiro, rendida.

— Ele anda… impossível. Tudo é o Malfoy, o Slughorn, o Snape… e qualquer coisa que eu diga parece virar provocação. — Hermione fechou o pergaminho, apoiando o queixo nas mãos.

— Talvez porque ele escute você mais do que quer admitir.

— Escutar é diferente de gostar — respondi, tentando parecer despreocupada. Ela arqueou uma sobrancelha, o olhar cheio de significado.

— É, mas nem tanto.

— Mione… — comecei, mas ela ergueu a mão, interrompendo.

— Você conversou com ele depois daquela noite? — perguntou, firme.

O ar pareceu mudar de densidade. Pisquei, tentando manter a naturalidade.

— Não. — A resposta saiu mais curta do que eu pretendia. — E não vejo por que deveríamos.

— Porque vocês precisam — insistiu, baixando a voz. — Fingir que nada aconteceu não vai fazer desaparecer o que vocês sentem.

— “O que sentimos”? — repeti, tentando rir. — Você anda lendo demais romances.

Hermione não riu. Só me olhou com aquele olhar clínico de quem enxergava verdades que a gente preferia ignorar.

— Você pode negar pra mim, mas não pra ele. Nem pra si mesma.

Desviei o olhar para o pergaminho, rabiscando qualquer coisa só pra não ter que encará-la.

— Não é o momento pra… isso. Tem coisa demais acontecendo.

— Justamente por isso — rebateu, com calma. — Às vezes, é quando tudo parece desabar que a gente precisa admitir o que sente.

Suspirei, esfregando a têmpora.

— E se eu não quiser admitir? — Ela deu um sorrisinho pequeno, mas triste.

— Então vai continuar se perdendo cada vez que ele olhar pra você desse jeito. — Revirei os olhos, mais pra escapar do que por real impaciência.

— Você fala como se tivesse todas as respostas.

— Não tenho — respondeu, juntando os livros. — Mas aprendi a reconhecer quando alguém está se escondendo atrás das perguntas erradas.

Antes que eu pudesse responder, ela soltou um meio sorriso e disparou:

— Se vocês continuarem fingindo que não sentem nada, avisa pra eu parar de ser a vela desse drama intercasas.

Revirei os olhos outra vez, mas o calor subiu pelas bochechas antes mesmo que eu pudesse disfarçar.

— Drama? É assim que você chama guerra fria agora?

— Chamo de negação com potencial — rebateu, divertida. — E você sabe que eu estou certa.

Balancei a cabeça, rindo, mas a frase ficou ali, ecoando mais fundo do que eu gostaria de admitir.

Foi quando uma sombra atravessou o vidro. Uma coruja desceu em linha reta, imponente, e pousou sobre nossa mesa, derrubando alguns papéis. Um pergaminho selado com cera azul-escura pendia da perna dela.

— O que é isso? — Hermione perguntou, já se inclinando.

Tirei o bilhete e quebrei o selo com cuidado. A tinta prateada das letras mudava de tom conforme a luz das tochas.

“A Srta. é convidada a comparecer ao gabinete do diretor,
junto ao Sr. Potter, às seis da tarde.”
— Alvo Dumbledore


Hermione piscou, surpresa.

— Uau, as aulas era só com o Harry, estou surpresa por ele ter te incluído nessa.

Fiquei olhando o bilhete, a tinta ainda viva na superfície. O colar vibrou de leve contra minha pele — quente, pulsante — como se reconhecesse o nome.

— Acho que ele tem um bom motivo — murmurei.

Hermione mordeu o lábio, pensativa.

— Se o Dumbledore está juntando você e o Harry nessas lições, é porque o que vem pela frente não é pouca coisa.

Assenti, dobrando o bilhete e guardando no bolso interno da túnica.

— Nada em Hogwarts é pouca coisa, Mione. — Sorri de leve, mas o arrepio que subiu pela minha nuca contradizia o tom calmo.

As horas seguintes arrastaram-se em um emaranhado de aulas e pensamentos. Mesmo mergulhada em fórmulas de Aritmância e exercícios de Feitiços, minha mente insistia em voltar para o bilhete de Dumbledore — e para o nome que o acompanhava.

Harry Potter.

Era como se cada vez que eu tentasse focar no presente, o colar esquentasse em aviso, lembrando-me de que havia algo prestes a acontecer.

Durante o intervalo, encontrei Hermione rapidamente na escadaria. Ela tentou disfarçar o nervosismo com comentários sobre a tarefa de Transfiguração, mas seus olhos diziam o que a boca não precisava: “toma cuidado.”

O restante do dia passou num ritmo estranho, com o castelo parecendo respirar junto a mim — as paredes pulsando de magia contida, as sombras mais longas do que de costume. Quando o final das aulas ecoou pelos corredores, senti o estômago se contrair.

Agora não havia mais adiamento possível.

Guardei os livros, ajeitei a túnica e segui para o corredor principal. O entardecer entrava pelas janelas em feixes dourados e alaranjados, tingindo as pedras antigas com luz morna. O ar tinha cheiro de poeira e expectativa.

Foi ali que o vi.

Harry já me esperava no pé da escada em espiral que levava ao gabinete do diretor. A postura dele era a de sempre — mãos nos bolsos, olhar baixo —, mas havia algo tenso no ar, um fio invisível que me puxava em direção a ele.

— Achei que o Dumbledore fosse me chamar sozinho — disse, sem me encarar.

Cruzei os braços, tentando soar mais leve do que me sentia.

— Talvez o destino tenha outros planos pra nós dois.

Ele ergueu o olhar, rápido, e por um instante, aquele mesmo silêncio de antes — o do quase beijo — se estendeu entre nós. Nenhum de nós mencionou o que aconteceu. Fingimos, como sempre, que nada existia além do que podíamos controlar.

— Pronta? — perguntou, com a voz mais baixa.

— Nunca — respondi, mas comecei a subir mesmo assim.

Eu e Harry subimos os degraus que levavam ao gabinete do diretor lado a lado, não próximos o bastante para parecerem aliados, nem distantes o suficiente para serem estranhos. A tensão flutuava entre nós como uma corda esticada prestes a arrebentar.

A cada passo, o som dos sapatos no chão ecoava mais alto do que qualquer palavra que não estávamos dizendo. Por um instante, pensei em quebrar o silêncio, dizer qualquer coisa, mas quando olhei para o lado, vi que ele já fazia o mesmo esforço para fingir normalidade.

— Você acha que o Dumbledore vai mostrar outra memória? — perguntei, apenas para ocupar o espaço.

— Provavelmente — respondeu, sem olhar para mim. — Ele sempre tem um motivo.

— Ele sempre tem muitos. — Cruzei os braços. — A diferença é que só revela um de cada vez.

Um canto do lábio dele se curvou, quase um sorriso, mas o som do quadro de pedra se movendo interrompeu o momento.

A escada em espiral surgiu, e subimos em silêncio.

O gabinete do diretor era exatamente como eu lembrava: o ar perfumado por livros antigos e magia densa, as prateleiras cobertas de instrumentos cintilantes, e o retrato de antigos diretores fingindo não escutar. No centro, Dumbledore nos esperava, sereno, com as mãos cruzadas sobre a mesa e o olhar azul fixo em nós, não julgando, mas avaliando.

— Srta. , Sr. Potter — disse, com aquele tom calmo que conseguia impor respeito sem esforço. — Que bom que vieram.

Harry assentiu em silêncio. Eu fiz o mesmo. Dumbledore levantou-se, caminhando lentamente até a penseira prateada que repousava sobre um suporte de mármore. O líquido no interior ondulava suavemente, como se respirasse.

— Hoje — começou, com a voz grave e pausada — veremos a origem de algo que mudou o curso da nossa história.

O colar no meu pescoço vibrou, quente. Olhei para ele sem entender, mas Dumbledore já se inclinava sobre a penseira, tocando a superfície prateada com a varinha.

— Toquem aqui — disse. — E mantenham os olhos abertos.

Troquei um breve olhar com Harry. Ele hesitou, mas foi o primeiro a encostar os dedos na borda líquida. Fiz o mesmo logo em seguida.

O mundo girou.

Quando abri os olhos, o ar cheirava a mofo e ferro.

O teto era baixo, as paredes descascadas, e as janelas deixavam entrar um fio de luz acinzentada. Reconheci o lugar antes mesmo que Dumbledore surgisse à frente, mais jovem, batendo à porta de um orfanato de aparência miserável.

O chiado de dobradiças ecoou, e uma mulher magra, de olhar cansado, o conduziu até uma sala onde algumas crianças brincavam em silêncio. No canto, isolado, estava ele: Tom Riddle.

Pequeno, com os olhos sombrios demais para a idade. A presença dele era fria, quase palpável. Quando Dumbledore se aproximou, o garoto levantou o olhar e, pela primeira vez, eu entendi que o medo e o fascínio podiam ser a mesma coisa.

As vozes ecoavam ao redor — o diálogo igual ao que eu lembrava dos relatos de Hermione —, mas havia algo que ninguém mais via.

No canto da sala, uma sombra se movia.

Morgana.

A figura dela se formava entre a penumbra e o pó. O capuz baixado, os olhos brilhando como prata líquida. Ela observava o menino com um misto de curiosidade e tristeza — como quem reconhecia algo que não queria ver.

Quando Tom mostrou a Dumbledore a caixa com seus “troféus”, vi o brilho metálico do medalhão. O mesmo das minhas visões. O mesmo símbolo que queimava nas páginas do grimório.

Meu colar esquentou de novo, e a voz de Morgana atravessou minha mente, suave e cortante ao mesmo tempo:

“O mal e o dom nascem do mesmo ventre. Cabe ao portador decidir o que cultiva.”

As palavras vibraram dentro de mim. Olhei em volta, mas ninguém parecia notar a presença dela — nem Harry, nem Dumbledore.

Somente eu.

Quando Riddle sorriu para o diretor, orgulhoso do próprio segredo, senti uma onda de frio me atravessar. A sala começou a se desfazer, os rostos se dissolvendo em névoa.

Voltei à realidade com um sobressalto.

O gabinete de Dumbledore estava exatamente igual, exceto pela sensação de que o ar pesava mais. O líquido na penseira tremulava, refletindo fragmentos do que havíamos visto.

Dumbledore nos observava, a expressão serena, mas os olhos… curiosos.

— Curioso… — disse, mais para si do que para nós. — A penseira reagiu à sua presença, Srta. . Isso não é comum.

Senti o colar latejar sob o tecido da túnica, como se confirmasse o que ele dizia.

Harry me olhou, ainda processando.

— Reagiu como?

— Como se algo dentro dela reconhecesse outra força — respondeu Dumbledore, os dedos tocando o queixo. — E, de certa forma, talvez reconheça mesmo.

Eu segurei o colar com os dedos, tentando estabilizar a respiração. Ainda podia ouvir o eco da voz de Morgana, distante, mas viva: “Cabe ao portador decidir o que cultiva.”

Dumbledore se virou lentamente para nós.

— As escolhas, meus caros, são sementes. Algumas florescem… outras envenenam o solo onde caem.

Ele sorriu, breve, mas o olhar pairou em mim por tempo demais. E eu soube — antes mesmo que ele dissesse — que aquilo estava longe de ser a última vez que veríamos o passado.

Dumbledore nos observava em silêncio por um momento, as mãos cruzadas às costas. O brilho das velas refletia nos óculos meia-lua, e o rosto dele era um retrato de calma estudada.

— Creio que por hoje já basta, Harry — disse por fim, num tom gentil, mas definitivo. — Pode ir. Gostaria de conversar com a Srta. por um instante.

Harry me olhou rapidamente, como se quisesse protestar, mas o olhar de Dumbledore não deixava espaço para isso.

— Tudo bem — respondeu, a contragosto. — Te espero lá fora.

Quando a porta se fechou atrás dele, o gabinete pareceu crescer em silêncio. O som dos retratos cochichando ao fundo se dissolveu, e o ar se tornou quase sagrado.

Dumbledore se aproximou da penseira e tocou levemente a superfície prateada, que ainda ondulava com ecos da memória recém-visitada.

— O medalhão — começou, a voz baixa, quase um pensamento dito em voz alta. — Já foi tema de investigações antigas. E, curiosamente, sempre parece retornar para aqueles que não deveriam tê-lo.

Fiquei imóvel, acompanhando o movimento do líquido na bacia.

— Ele pertencia aos Gaunt, não?

— Sim. — Dumbledore assentiu, sem tirar os olhos da penseira. — Uma família que carrega em si um ramo de magias mais antigas do que o próprio nome de Salazar Slytherin. Laços que não se apagam, mesmo depois de séculos.

As palavras dele pareciam vibrar junto com o colar no meu pescoço. Respirei fundo.

— Professor… o senhor acredita em Morgana?

O silêncio durou um segundo, dois, três, e então ele sorriu, suave, como quem já havia previsto a pergunta.

— Acredito em forças antigas demais para duvidar delas — respondeu, virando-se para mim. — Morgana foi uma delas. E talvez ainda seja.

O coração deu um salto.

Ele sabia.

Ou, pelo menos, intuía.

— Ela… apareceu pra mim — confessei, a voz saindo mais fraca do que eu pretendia. — Nas visões. E agora, na penseira.

— As forças que nos escolhem raramente pedem permissão — disse Dumbledore, com uma serenidade que parecia abranger todos os séculos da história. — Elas apenas se manifestam quando o mundo precisa ouvir algo que esqueceu.

— E se eu não quiser ser o eco disso? — perguntei, num fio de voz.

O olhar dele se suavizou.

— Não querer não muda o chamado, minha cara. Mas compreender… pode mudar o destino.

Por um instante, ninguém falou. O fogo da lareira estalou, e eu juro que ouvi o colar pulsar em resposta. Dumbledore caminhou até a mesa e, com um gesto leve, indicou a porta.

— Vá. É tarde. E eu imagino que o Sr. Potter ainda esteja esperando.

Assenti, com o coração pesado. Quando alcancei a maçaneta, ouvi sua voz uma última vez, quase um sussurro:

— Tome cuidado, . Há poder demais em quem escuta o que o tempo tentou silenciar.

O corredor estava vazio, exceto por ele. Harry estava encostado na parede de pedra, os braços cruzados, a expressão indecifrável. Quando me viu, endireitou-se, mas não disse nada.

— Ele te prendeu lá dentro um tempão — comentou, tentando soar casual, mas o tom traía curiosidade. — O que ele queria?

— Conversar. — respondi simples, passando por ele.

Ele deu alguns passos ao meu lado.

— Sobre o quê?

— O medalhão. As memórias. Essas coisas que você adora decifrar.

— E o que ele disse?

Parei no meio do corredor. A luz das tochas tremulava, lançando sombras longas no chão.

— Que o medalhão está ligado a algo muito mais antigo. Que as famílias que o tocaram guardam segredos que vão além da magia comum.

— E você acredita nisso? — Olhei para ele, hesitando.

— Eu vi coisas, Harry. Não só na penseira. — Toquei o colar. — A Morgana… ela estava lá. Na mesma memória que a gente viu. — Ele franziu o cenho.

— A Morgana… Le Fay que você comentou dos livros? — Assenti.

— Ela observava o Tom Riddle. Como se o conhecesse. Como se… visse nele algo que eu não sei nomear.

Harry deu um passo mais perto, a voz baixa:

— E o que mais ela disse?

— Que o mal e o dom nascem do mesmo ventre — murmurei. — E que cabe ao portador decidir o que cultiva.

Ficamos em silêncio. O corredor parecia respirar junto com a gente. A expressão dele suavizou.

— Isso te assusta? — Soltei um riso fraco.

— Tudo me assusta ultimamente.

— Você não devia carregar isso sozinha, . — Ele se aproximou mais um pouco. — Se ela está te mostrando essas coisas, se o Dumbledore confia em você pra ver as memórias… é porque você tem algo que a gente não entende ainda.

— “Algo” é uma palavra perigosa — respondi, num murmúrio. — Principalmente quando nem eu sei o que significa.

Harry hesitou, depois estendeu a mão, como se fosse tocar meu braço, mas parou no meio do gesto.

— Então deixa eu tentar entender junto.

A frase ficou suspensa no ar, quente e sincera. Por um instante, pensei em recuar, mas não consegui. Os olhos dele estavam diferentes. Não o olhar do garoto teimoso que caçava respostas, mas de alguém que começava a enxergar algo além das perguntas.

Respirei fundo.

— Eu não sei o que vem pela frente.

— Ninguém sabe — respondeu, num sussurro. — Mas você não precisa andar sozinha.

Antes que eu pudesse responder, o colar vibrou com força — um pulso quente que me fez estremecer. Uma voz ecoou na minha mente, suave e cortante:

.”

O nome soou como um feitiço, seguido pelo estalo de uma lâmina atravessando o ar. A visão da lâmina cintilou, o mesmo brilho prateado das chamas que cercavam o medalhão.

? — Harry me segurou pelos ombros. — O que foi?

Pisquei, voltando a mim, o coração descompassado.

— Nada… — menti, ainda ouvindo o eco do meu nome. — Só… um arrepio.

Ele me olhou por um segundo a mais, como se soubesse que eu não estava dizendo toda a verdade, mas não insistiu. Apenas assentiu e caminhou ao meu lado pelo corredor vazio.

E enquanto o som dos passos se misturava ao farfalhar das tochas, percebi que algo dentro de mim tinha mudado. Não apenas o elo com Morgana, mas com ele.

Porque, de alguma forma, eu sabia: nossas histórias estavam presas ao mesmo fio, e ele já começava a se tensionar.

⚡🧙


O amanhecer chegou tímido, dissolvendo a noite como quem apagava um feitiço. A primeira luz atravessou as janelas altas da torre da Corvinal, pintando o chão com tons de prata e ouro pálido. Eu ainda estava desperta quando o sino das seis soou — não que tivesse realmente dormido.

O colar repousava sobre o travesseiro, frio outra vez, como se a energia da noite anterior tivesse se esgotado junto comigo. A imagem da lâmina ainda vinha em flashes — o brilho cortante, o sussurro do meu nome, a voz de Morgana se misturando à lembrança do olhar do Harry.

Tentei afastar aquilo com gestos automáticos: vesti a túnica azul e bronze, prendi os cachos, calcei as botas. A rotina era o único tipo de feitiço que funcionava contra o caos.

O colar parecia inerte agora, mas eu sabia que não estava. Era como uma fera adormecida: silenciosa, mas atenta.

Peguei a mochila e desci a longa escadaria em espiral que levava até os corredores principais. O castelo ainda despertava — sons de passos apressados, o ranger das portas, o cheiro familiar de torradas e chá quente vindo do Salão Principal. Passei por um grupo de alunos sonolentos, todos com o brasão da Lufa-Lufa, e entrei no Salão, que ainda estava meio vazio.

Foi então que vi Gina, perto das janelas que davam para o campo de Quadribol. Os cabelos ruivos capturavam cada traço de luz, como se ela mesma tivesse guardado um pedaço do sol. A caneca fumegante nas mãos, o olhar distante — parecia em paz, mas havia algo pensativo em sua expressão.

— Acordou cedo — comentei, me aproximando com um sorriso discreto. Ela virou o rosto, correspondendo o gesto.

— E você também. — Bateu de leve na cadeira ao lado, num convite. — Senta.

Obedeci, apoiando os cotovelos na mesa.

— Dormi pouco. Fiquei revisando os cálculos de Aritmancia… ou tentando.

— Ah, sim, vi Mione falando do exercício impossível da professora Vector — resmungou Gina. — Vocês são corajosas de cursarem essa disciplina.

Rimos juntas, cúmplices no caos estudantil.

— Você pelo menos tem o Quadribol pra extravasar — comentei, pegando uma torrada. — Ontem o treino da Corvinal quase me matou.

Gina riu baixo.

— Você fala como se o nosso estivesse melhor. — Girou a caneca nas mãos, pensativa. — O Harry anda com os nervos à flor da pele, o Rony distraído, e eu tentando manter o time inteiro concentrado sem perder a cabeça.

— Imagino. — Apoiei o queixo na mão, cansada só de lembrar. — O nosso capitão está obcecado com táticas novas. Jurou que, se não vencermos a Grifinória no próximo jogo, vai nos fazer treinar até de madrugada.

Ela sorriu de leve.

— Ah, o clássico desespero antes da temporada. — Deu um gole no café, suspirando. — Às vezes, eu acho que o Quadribol é só uma metáfora disfarçada pra vida em Hogwarts: caos, competição e gente voando pra todos os lados.

Ri, concordando.

— E, no meio disso tudo, o Rony parece… distante.

— É. — O sorriso dela diminuiu um pouco. — E não sei se é o Quadribol, a Hermione ou ele mesmo que não sabe o que quer.

— Aposto nos três — comentei, e ela soltou um riso cúmplice.

Ficamos em silêncio por um instante, o tipo de pausa confortável que só existe entre pessoas que não precisam se provar. O campo lá fora ainda estava coberto de névoa, e por um momento, apenas o som dos talheres e do fogo nas tochas nos envolveu.

— Às vezes eu penso que todo mundo aqui anda meio perdido — disse ela, olhando pro horizonte. — A gente tenta fingir normalidade, mas o ar parece pesado, sabe? — Assenti.

— Como se tivesse uma tempestade vindo, mas ninguém quisesse admitir.

Ela virou o rosto pra mim e, por um instante, o silêncio bastou. Era fácil conversar com Gina. Havia nela uma calma que equilibrava a minha mente sempre em alerta.

— E você? — perguntou de repente. — Tá bem mesmo?

Demorei um pouco antes de responder.

— Tentando entender as coisas. — Sorri de leve. — Algumas visões, algumas verdades, alguns silêncios.

— Entender as coisas — repetiu ela, pensativa. — Essa é a missão de todo mundo aqui, eu acho.

O Salão começava a encher, o barulho crescendo em ondas. Gina observou os alunos chegando, o olhar sereno.

— Sabe, o Harry fica diferente perto de você — disse, quase num sussurro, sem qualquer malícia. — Não sei se ele percebe, mas eu percebo.

Ergui uma sobrancelha, tentando conter o sorriso.

— Lá vem.

— Não é uma crítica nem um elogio — explicou. — É só um fato. Ele tenta disfarçar, mas… é meio impossível não notar.

Fiquei quieta, sem negar nem confirmar. Ela me olhou, e seu sorriso ganhou uma ponta de ternura.

— As pessoas são mais complicadas do que a gente quer que sejam. E gostar de alguém não precisa virar uma guerra.

Soltei o ar devagar, o peito apertado e calmo ao mesmo tempo.

— Isso é bem sábio. — Gina deu de ombros, sorrindo.

— Acho que o caos do Quadribol me ensinou a escolher minhas batalhas.

Rimos juntas, duas jogadoras, duas garotas tentando navegar entre o dever, o coração e as expectativas. Ela terminou o café, batendo o fundo da caneca na mesa.

Gina terminou o café, batendo o fundo da caneca na mesa.

— Agora vai, antes que o café esfrie e a manhã acabe te engolindo.

— Você fala como se as manhãs daqui fossem inofensivas — retruquei, rindo.

Ela se levantou, ajeitando o cachecol da Grifinória e olhando mais uma vez para o campo encoberto de névoa.

— Nada em Hogwarts é inofensivo — disse, com um meio sorriso. — Mas tem coisa que vale a pena enfrentar… mesmo quando a gente sabe que vai se machucar um pouco no processo.

Sorri, sem saber se ela falava do Quadribol, do Rony, do Harry — ou de nós mesmas. Ela apenas deu de ombros, voltando o olhar pro horizonte.

— Eu gosto de ver as coisas se revelando aos poucos. É o único jeito de entender o que é real.

Fiquei alguns segundos ali, em silêncio, antes de me despedir com um aceno discreto. Quando olhei pra trás, Gina ainda estava lá — firme, calma, com o vento bagunçando os cabelos e o sol iluminando as bordas da névoa. Forte, serena e, de algum modo, em paz com o que sentia.

E por um instante, percebi que talvez eu também pudesse aprender isso com ela.

⚡🧙


O sol já se punha quando deixei o Salão. O dia inteiro parecia ter passado em um borrão — aulas, deveres, olhares que eu evitava e pensamentos que se recusavam a se calar. Meu corpo doía de tensão, e minha cabeça girava entre lembranças, visões e tudo o que ainda não fazia sentido. Foi o cheiro de terra molhada que me fez mudar o caminho.

A estufa estava quase vazia, exceto por uma figura curvada sobre uma mesa, limpando instrumentos de medição mágica.

Saphira.

O uniforme dela tinha manchas de terra nas mangas, o cabelo preso de qualquer jeito, e algumas mechas rebeldes escapavam, contornando o rosto iluminado pelo tom âmbar do fim de tarde. Ela levantou os olhos quando me viu — e aquele sorriso calmo apareceu, o tipo de sorriso que parecia dizer eu já sabia que você viria.

— Você tá com aquela cara de quem viu coisa demais e falou de menos — disse, pousando o pano sobre a mesa. Soltei uma risada curta, mais cansaço do que humor.

— Aparentemente, isso anda sendo meu novo talento. — Ela inclinou a cabeça, me observando com atenção.

— E o ombro tensionado é consequência, imagino.

Antes que eu entendesse o que ela queria dizer, Saphira deu dois passos à frente e, com a delicadeza de quem avisa antes de tocar, colocou as mãos sobre meus ombros. A pele dela estava quente, contrastando com o frio que vinha do vidro das estufas.

— Posso? — perguntou, a voz baixa, quase um sussurro.

Assenti, sem confiar na minha própria voz.

Os dedos dela começaram a pressionar de leve, em círculos lentos, firmes o bastante pra aliviar, suaves o suficiente pra confundir. O cheiro de ervas e terra fresca misturava-se ao perfume leve que vinha do pescoço dela. Meu corpo reagiu antes da mente: os músculos cederam, a respiração desacelerou.

— Viu? — murmurou Saphira, com um meio sorriso. — Às vezes, fugir da própria cabeça começa por aqui. — E apertou mais uma vez, de leve, bem na base do pescoço.

Um arrepio me atravessou inteira.

— Se quiser fugir da sua própria cabeça, você sabe onde me encontrar — completou, e o tom era tão simples… mas carregava algo que eu não conseguia decifrar.

O toque dela permaneceu por um segundo a mais do que o necessário. Quando suas mãos deslizaram, deixando meus ombros, senti falta do calor quase de imediato.

Virei-me devagar, sem planejar. Nossos rostos ficaram a poucos centímetros de distância.

O ar entre nós pareceu mudar de densidade. O coração batia alto demais. Saphira me olhava como quem reconhecia um segredo — e esperava que o outro tivesse coragem de admiti-lo também.

— Você devia descansar — ela disse, mas o tom traía a intenção.

— E você devia parar de me olhar assim — rebati, baixinho, sem conseguir sustentar o olhar por muito tempo.

Ela deu um passo à frente, o suficiente para que o perfume dela me envolvesse por completo.

— E se eu não quiser? — perguntou, a voz ainda suave, mas com uma firmeza que fazia o chão parecer menor.

Engoli em seco, o ar preso na garganta.

— Isso… pode estragar o que a gente tem. — As palavras saíram frágeis, como se pedissem pra serem desmentidas.

Saphira inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus.

— E o que a gente tem, ? — perguntou Saphira, a voz firme, mas suave. — Amizade? Ou algo que você tem medo de admitir?

O ar ficou pesado, quente. Engoli em seco.

— Eu gosto do Harry — confessei, num fio de voz. — Gosto dele, mesmo quando não quero.

Ela assentiu devagar, sem surpresa.

— Eu sei. — O olhar dela era doce, mas cheio de uma dor quieta. — Mas não é só ele, é?

Fiquei sem resposta. O silêncio era a confissão que eu não sabia dar.

— Eu nunca… — comecei, hesitando. — Eu nunca me interessei por meninas. Nunca pensei nisso. — A respiração dela ficou mais leve.

— Até eu aparecer. — Não era uma pergunta. Era constatação.

Meu coração disparou.

— Sim — admiti, baixinho.

Saphira deu um passo à frente, e o espaço entre nós desapareceu como se o ar tivesse decidido nos empurrar uma pra outra. Por um instante, não houve som. Nem folhas, nem vento, nem pensamento.

Os olhos dela buscaram os meus com cuidado — pedindo permissão, não perdão. E quando nossas testas se tocaram, a hesitação simplesmente cedeu.

O beijo aconteceu como um feitiço silencioso. Lento. Incerto. Real. O tipo de toque que mais parece descoberta do que resposta.

Quando nos afastamos, ainda podíamos sentir a respiração uma da outra, presa no mesmo ar. O mundo parecia menor — e, ao mesmo tempo, muito mais perigoso.

— Viu? — murmurou Saphira, com um sorriso quase triste. — Às vezes, não é preciso dizer nada.

Mas antes que eu pudesse responder, um barulho seco ecoou pela estufa. Viramos ao mesmo tempo.

Harry estava parado na entrada.

Imóvel.

Os olhos arregalados, o rosto pálido — e um silêncio tão afiado que parecia cortar o ar. Saphira deu um passo para trás. Eu fiquei sem ar.

— Harry… — tentei dizer, mas ele já se virava, rápido demais.

A porta bateu com força, e o som ecoou entre as plantas, como um trovão preso.

Fiquei ali, parada, o coração martelando no peito. O colar vibrou contra a pele, frio. E, por um instante, uma voz ecoou na minha mente — clara como uma lâmina:

“O coração dividido abre caminhos perigosos.”

O silêncio caiu outra vez. E eu soube que nada, depois daquilo, voltaria a ser igual.

Corri pelos corredores, o som dos meus passos ecoando contra as paredes de pedra. A respiração saía curta, o coração batendo alto demais, não sabia se era pela corrida ou por tudo que tinha acabado de acontecer.

Virei a esquina e o vi: Harry, atravessando o corredor com passos duros, como se fugisse de algo que o perseguia por dentro.

— Harry! — chamei, mas ele continuou andando. — Harry, me escuta!

Ele parou de repente, girando pra me encarar. O olhar dele estava aceso, mas não era o tipo de brilho que eu queria ver. Era raiva, e dor.

— Escutar o quê, ? Que você tava ocupada demais pra lembrar que quase beijou alguém há dois dias?

As palavras cortaram o ar como uma lâmina.

— Não é isso.

— Ah, não? Porque, sinceramente, eu já perdi a conta de quantas vezes te vi assim. Um dia é com Zabini, outro com alguém novo, e agora, aparentemente, meninas também entram na lista.

— Para! — rebati, o sangue fervendo. — Eu sou solteira, Harry! Posso beijar quem eu quiser, sem precisar justificar pra você!

Ele deu um passo à frente, a voz subindo junto com o tom.

— É, claro que pode. E eu posso não aguentar mais ver isso! — O silêncio que veio depois foi quase ensurdecedor.

— O que você quer dizer com isso? — perguntei, a garganta apertada.

Harry passou a mão pelo cabelo, nervoso.

— Eu tô cansado, . Cansado de fingir que não me importo. Cansado de ver você se aproximar de alguém e fingir que não me atinge. E agora, além de tudo, eu tenho que lidar com ciúmes de meninas também?

A confissão pegou o ar de surpresa. Fiquei imóvel, o coração batendo descompassado.

— Ciúmes? — repeti, quase num sussurro.

— É, ciúmes! — Ele explodiu. — Porque por mais que eu tente negar, eu sinto. Sinto raiva, sinto medo, sinto... você. O tempo todo.

Dei um passo à frente, o ar entre nós quase elétrico.

— Então diz, Harry. Diz de uma vez o que você sente por mim.

Ele hesitou — por um segundo apenas — antes de soltar o ar, vencido.

— Eu gosto de você, . Gosto de um jeito que me deixa louco. Mas eu também gosto da Gina. E isso me mata.

A dor que atravessou meu peito foi quase física. Engoli em seco, lutando contra a vontade de chorar.

O silêncio caiu como uma sentença. Ele virou os ombros como se fosse embora, e eu poderia ter corrido atrás, poderia ter implorado; a teimosia antiga, o medo de perder, tudo gritava pra eu ficar. Mas algo dentro de mim, mais pesado e mais claro do que qualquer medo, me empurrou para frente.

Respirei fundo, e pela primeira vez em dias deixei a voz sair com a precisão de quem não quer deixar margem pra mais meias-verdades.

— Escuta — disse, e a calma da minha voz encobriu a raiva por um segundo. — Eu gosto de você. Gosto de verdade. Mas eu não vou esperar pelo teu princípio de homem indeciso passear de um lado pro outro como se fosse entretenimento.

Ele me olhou como se as palavras fossem pedras. Senti o peito doer por um segundo — porque eu sabia que ferir também dói quem causa — e continuei, sem suavizar.

— Nem eu, nem a Gina, merecemos viver numa porra de triângulo emocional porque você não quer nomear o que sente. Não merecemos ser a opção de ninguém. Não vou aceitar encaixar a minha vida na tua indecisão.

As palavras saíram rápidas, afiadas. Havia verdade demais nelas pra voltar atrás. Harry mordeu o lábio, os olhos tremendo com uma mistura que não era só raiva — era também reconhecimento, culpa, e algo como perda.

— Você tá sendo injusta — tentou falar ele, mas eu já não podia mais conter o resto.

— Injusta? — repeti, rindo, sem humor. — Não. Eu tô sendo honesta. E honestidade dói. Se você quer ter ciúmes e se confundir entre duas pessoas que se importam contigo, faça isso sozinho. Eu não vou pagar o preço das suas dúvidas.

Ele abriu a boca. Fechou. As palavras queriam sair, mas o próprio peito dele parecia uma cela onde as emoções batiam, presas.

— Então o que você quer que eu faça? — saiu dele, pequeno, quase quebrado.

Olhei pra ele por um segundo que pareceu eternidade. Podia sentir as coisas pendendo — a velha cumplicidade, as lembranças, o peso das noites — e também aquilo novo, indecifrável, que tinha acendido comigo e com Saphira.

— Quero que você escolha — respondi, direto. — Escolha com coragem. Escolha agora. Ou não escolha nada e deixa a vida seguir sem me usar como lição. Eu não vou esperar. Nem pela sua coragem, nem pela sua confusão.

Harry recuou. Não foi um tropeço; foi um movimento lento, de alguém ferido que aprende naquele instante que perdeu algo importante. Ele deixou escapar um som que poderia ser qualquer coisa — um pedido, um lamento — e virou, caminhando pelo corredor com passos que soavam muito mais distantes do que quando chegara.

Fiquei ali, parada, vendo as sombras engolirem as costas dele. O colar no meu peito pulsou, frio contra a pele, marcando cada batida do meu coração. Morgana, por algum motivo que eu ainda não sabia decifrar, parecia ter dito algo que agora sabia significar outra coisa: não apenas aviso, mas convocação.

O vento no corredor trouxe o cheiro das tochas e o som remoto de vozes, a vida continuando, indiferente, salvadora. Eu respirei, larga e profunda, e pela primeira vez desde que as visões começaram senti uma clareza cortante.

Não era o fim de nada; era a minha escolha, crua e inteira. Levantei o queixo. Pisei uma vez no chão frio do castelo, e a decisão não pesou mais, era leve como verdade.

— Vai — disse em voz baixa, para ninguém além de mim mesma. — Vai descobrir o que quer. Porque eu já decidi o que não quero ser.

E com isso, saí do corredor. A porta rangeu atrás de mim como um ponto final.



Continua...


Nota da autora: Eu chegando depois de três meses kkkkk, perdão a quem acompanha, mas essa história me demanda bastante atenção porque é cânone, nenéns, prometo não demorar tanto.
Primeiro: a cena do Dumbledore. Eu AMEI escrever esse momento, foi uma das passagens mais intensas até agora. Colocar e Harry lado a lado dentro da penseira, vendo o passado de Tom Riddle e o eco de Morgana ali, foi algo que me arrepiou até a alma. É o tipo de cena que muda tudo, porque mistura o passado, o destino e o medo de repetir histórias.
Depois, claro, veio o primeiro beijo da com a Saphira, um momento terno, confuso e poderoso. Não é só sobre romance, é sobre autodescoberta, sobre ela se permitir sentir sem entender completamente, e perceber que há mais de uma forma de se encontrar em alguém.

E então… o confronto com o Harry.
O ULTIMATO.
Foi catártico.
finalmente disse o que precisava ser dito. Chega de triângulos, de silêncios, de ser metade de uma escolha. Ela se impôs, com toda a força e dor de quem ama, mas também de quem se ama o suficiente pra não aceitar menos do que merece.
Esse foi o capítulo em que deixou de ser só uma peça nas profecias, e começou a ser a própria força do destino. 💙
Nos vemos no próximo!

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