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Finally Th

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1.

Into The New World


“Meu reflexo estava na janela do trem,
Enquanto eu embarcava numa nova cidade.”

— All My Love Is For You / Girls Generation



— Ah… — Dei um suspiro cansado assim que desembarcamos no Aeroporto Internacional de Incheon. Era visível minha insatisfação naquele momento.
— Pandinha, pare com essa cara. — Minha mãe se aproximou de mim e segurou em minha mão, me dando o braço para me apoiar nela. — Pense que será o ano mais divertido em sua vida.
— A senhora sabe que meu currículo acadêmico não fica nada divertido com essas mudanças. — A olhei contrariada.
— Aish, que menina mais nerd. — Ela riu de leve. — Eu deveria ser grata por isso, mas você está se sobrecarregando antecipadamente por causa dos seus estudos.
— Mesmo assim…
— Além do mais… — ela me interrompeu. — Olhe pelo lado bom, agora você vai estudar em um país onde alunos passam até dezesseis horas por dia com a cara nos livros, até sete dias por semana. — Mamãe me lançou um olhar de: te peguei. — Não deveria estar animada e contente por isso?!
— Omma?! — Suspirei novamente. — Eu sou nerd, não masoquista.

Ela soltou uma gargalhada alta, fazendo as pessoas que passavam perto olharem para nós.

— Agora te peguei, panda nerd. — Ela riu mais um pouco. — Tenho certeza de que minha filha querida vai sobreviver a isso, você tem um ponto positivo.
— Qual? — Agora estava curiosa.
— Seus pais não irão te crucificar se você não entrar no top10 dos melhores alunos. — Ela riu mais um pouco, parecia estar zoando com a minha cara, era típico da minha mãe.

Porém amava esse seu lado descontraído, já que meu pai era um pouco mais sério e fechado, isso era mais visível do que suas diferenças culturais.

— Está tudo bem? — perguntou papai, ao se aproximar de nós, empurrando o carrinho de bagagens.
— Sim. — Assentiu mamãe ao sorrir para ele, voltando sua face para meu irmão. — Jinho, largue esse game portátil. Acabamos de chegar e só pensa em jogos.
— Omma, estava entediado — resmungou ele, mantendo seu olhar para o jogo. — Passamos mais de doze horas em um avião.
— Por isso mesmo. Este primeiro momento é crucial para respirar ar puro e ver paisagens novas — retrucou ela.
— O que sua mãe disse?! — Meu pai, em seu tom reconhecível de autoridade, o olhou sério. — Precisarei guardar eu mesmo?
— Aniyo — disse ele, desligando o aparelho e guardando na mochila. Claro que sua cara estava emburrada.

Omma segurou o riso e deu uma piscada disfarçada para papai, que sorriu de canto. Meu pai era muito rigoroso quanto ao respeito que deveríamos ter com nossa mãe, isso me fazia admirá-lo ainda mais, o carinho que ele demonstrava de forma discreta por ela era fofo e, em alguns momentos, engraçado, o que me fazia ficar curiosa se todos os outros homens coreanos eram assim.

— Então, vamos? — disse minha mãe, continuando de braços dado comigo.
— Sim, vamos. — Meu pai ajeitou a bolsa transversal que estava em seu ombro e seguiu na frente.
— Vamos de táxi? — perguntei a minha mãe, enquanto seguíamos ele.
— Não, seu pai reservou um carro para irmos mais confortáveis.
— Quando foi isso? — indaguei, meu pai era sempre precavido.
— Pouco antes de embarcarmos de Lisboa — respondeu ela. — Ele ligou para a companhia e reservou um.
— Faz sentido. — Desviei meu olhar para as pessoas que passavam por nós, todas pareciam apressadas com sua vida.

Assim era a rotina coreana, as pessoas sempre estavam com pressa para fazer algo.

— Omma, estou com fome — reclamou Jinho, com uma voz desanimada.
— Você comeu no avião — disse minha mãe de forma despreocupada.
— Mas ainda estou com fome — reclamou ele novamente.
— Assim que entrarmos no carro, te dou algo. — Ela deu um suspiro fraco. — Esse menino só come e joga.
— Agradeça por ele ter o metabolismo acelerado — brinquei, rindo.
— Yah, isso é coisa que se brinca?! — Ela me olhou como se tivesse matado minha indireta. — Este ano, Jinho não me escapa. Colocarei ele em uma aula de natação, não o deixarei nessa vida sedentária. — Seu tom estava confiante.
— Está falando como uma mãe coreana. — Eu ri de leve.
— Sua boba. — Ela riu também. — Morreu aí, Jinho?
— Não, omma. — Ele se aproximou mais de nós. — Mas se não comer…
— Yah, deixe de ser manhoso, little Jini — disse, o chamando pelo apelido que minha mãe sempre lhe dava, assim como o meu era pandinha.
— Ahhh… Só a omma pode me chamar de little Jini — reclamou ele, assim que eu esfreguei minha mão em sua cabeça, bagunçando seu cabelo.
— Sou sua irmã mais velha, por isso vou te chamar assim, sim — retruquei.
— Jini e Pandinha… — Minha mãe nos olhou, como se dissesse que se aquela brincadeira rendesse, sairia briga.
— Omma, não nos olhe assim, não está vendo o amor exalando de nossos corações — brinquei, fazendo ela rir.
— Chegamos — disse papai, parando pouco mais à frente, diante de um carro que parecia ser da empresa. — Todos entrando, temos mais duas horas até Daejon.

Duas horas a mais…
Pelo menos teríamos paisagens pelo caminho.

Appa é um coreano que passou parte da sua juventude estudando nos Estados Unidos, já minha mãe, uma brasileira que, após lutar muito para conquistar seu sonho, conseguiu se graduar em gastronomia, tendo a chance de fazer MBA na França, o país onde se conheceram. E 18 anos após o casamento mais rápido do mundo, eles ainda são muito apaixonados um pelo outro, mesmo depois de tantos anos, muitas dificuldades e preconceitos de diversas pessoas. Algumas dessas pessoas eram meus avós, que não aceitaram muito essa mistura cultural, porém, mesmo assim, eles se casaram e, graças a isso, estou completando 16 anos nesta data.

Eu sou a mistura dos dois que nasceu quando eles tiveram que morar em Sydney, na Austrália, e meu irmão Jinho, de 10 anos, é a mistura que nasceu em Tóquio, no Japão. Deveria ser uma data alegre, já que era meu aniversário, mas, depois de 3 meses tentando me adaptar à nova rotina que tínhamos em Lisboa, mudar novamente fez meu dia ser esquecido por todos. Nossa nova localização seria Daejon, há 150km da capital Seoul.

— Estão muito calados, dormiram aí atrás? — perguntou minha mãe, rindo.
— Estou comendo — respondeu Jinho, após terminar de engolir. — Não posso jogar.
— Não mesmo. Aproveite a paisagem, tenho certeza de que sua imaginação te ajudará a não se entediar — sugeriu meu pai, que mantinha sua atenção na estrada.
— Appa deu uma boa sugestão. — Desviei meu olhar novamente para a janela do carro, ajeitando o fone direito que estava no ouvido. — Mas eu prefiro fazer isso com um fundo musical.
— O que está ouvindo? — perguntou minha mãe. — Música clássica?!
— Não. — Eu ri. — Estou ouvindo a ost de Boys Over Flowers.
— O primeiro dorama a gente nunca esquece — comentou ela, num tom saudoso. — Sempre me pego ouvindo a ost de Hana Kimi.
— Clássicos da vida. — Eu ri.

Tinha mesmo que distrair a minha mente, pois a cada vez que me lembrava da minha nova vida escolar, nesta altura do ano letivo europeu, eu teria que sobreviver o dobro e não me deixar ser prejudicada. Toda essa mudança veio através da multi-concessionária onde papai trabalhava. Sendo um membro da diretoria muito competente, o fazia ter que mudar com frequência. Sempre que surgia um problema em alguma filial era ele quem resolvia.

Enquanto meu irmão estudaria na Song Elementary School, que ficava perto de onde moraríamos, eu iria estudar na Daejon Cho High School, um colégio particular, onde o dono era amigo de infância do papai. Nem quero imaginar como será meu primeiro dia de aula. Quando appa estacionou o carro e nós descemos, não resisti em soltar um suspiro desmotivado. Depois de tantas casas lindas e espaçosas, moraríamos em um apartamento. Entramos no edifício, um rapaz que ficava na recepção nos cumprimentou e ajudou a carregar as bagagens, como sempre nos mudávamos, então não acumulávamos muita coisa além das roupas do corpo.

Sétimo andar, apartamento 702. Mantive meu olhar desinteressado no celular ao sair do elevador, aquela distração me fez derrubar minha pasta de desenhos, que estava carregando comigo.

— Eu te ajudo — disse um homem, ao se aproximar. Ele pegou a pasta e me entregou. — Aqui.
— Oh, obrigada. — Eu me curvei em agradecimento, meio sem graça, ainda não tinha me acostumado com o lado mais formal dos coreanos, pois sempre era tão informal com meus pais.
— Espero que se acomodem bem. — Ele deu um sorriso de boas-vindas que me fez ficar encantada.
— Obrigada — disse minha mãe, ao se posicionar ao meu lado. — O senhor mora aqui também?!
— Sim, sou o professor Han. — Ele abanou a cabeça. — Se precisarem de ajuda.
— Agradecemos, mas está tudo sob controle. — Minha mãe se curvou de leve. — Vamos, querida.

Nos despedimos dele e fomos até nossa porta.

Demorou em pouco para appa configurar o sistema de segurança e escolher a senha da fechadura. Quando entramos, me deparei com um apartamento todo decorado e mobiliado num estilo simples, porém a sofisticação básica da minha mãe exalava em cada um dos móveis. Me perguntava como aquele lugar tinha sido decorado e se ela realmente tinha parte nisso. Por mais que sua profissão fosse da gastronomia, mamãe amava assuntos referentes a decoração, era uma fã de Irmãos a Obra e jogava mais The Sims que eu se duvidar. Me pergunto o motivo dela não ter feito faculdade de arquitetura ou design de interiores.

Uma notícia boa?!
Três quartos, ou seja, eu teria minha privacidade.

Isso me deixou mais animada. Quando entrei no meu quarto, reconheci rapidamente a colcha de patchwork que a vovó Margarida tinha me dado de presente de aniversário. Senti que podia fazer daquele pequeno espaço o meu novo refúgio do mundo. Abri as malas e comecei a organizar minhas roupas no armário, ao final, olhei para meu amigo de infância, meu gato de pelúcia que eu chamava de Heebum, retirei da mala e o coloquei em cima da cama.

Abri as cortinas e deixei o vento entrar, ainda era dia, acho que estava quase na hora do almoço. Terminei minha arrumação e fui para cozinha. Omma estava preparando um lanche rápido para o nosso almoço.

— Veio me ajudar, pandinha? — perguntou ela, quando entrei.
— Sim, por onde começo? — Eu sorri.
— Pegue os pratos e os copos naquele armário. — Ela apontou para a minha esquerda. — Coloque na mesa de jantar para mim.
— Tudo bem! — Caminhei até o armário e abri a porta. — A senhora parece muito familiarizada com esse apartamento, além da decoração ser do seu gosto.
— Está se perguntando como fui capaz de fazer isso antes de nos mudarmos para Daejon? — Ela riu de leve.
— Basicamente. — Retirei primeiro os pratos para colocar na mesa.
— Estava fazendo isso desde as férias do Natal passado — explicou.
— Hum, por isso ficamos na casa da vovó Margarida.
— Exatamente — confirmou.
— O que estão fazendo? — perguntou Jinho, ao entrar na cozinha.
— O que mais gosta? — respondeu omma, com outra pergunta.
— Vocês não sabem fazer jogos — brincou ele, rindo. — Omma, o que vamos comer?

Não demorou muito e finalmente fizemos nossa primeira refeição na nova casa, e como não tínhamos muita coisa para fazer nesse primeiro dia, minha mãe nos fez ir às compras com ela no mercadinho que havia perto de casa. Logo à noite, me confinei em meu quarto para trocar algumas mensagens com minha única amiga real, Lira. Nos conhecemos de uma temporada que morei em Belo Horizonte, no Brasil, e continuamos a ser amigas, sempre mantendo contato através do whatsapp.

Quando o sol saiu, senti que meu corpo não queria se desfazer do conforto da nova cama, ainda estava com sono, tinha ido dormir tarde, após passar horas conversando com a Lira. Me levantei assim que o despertador tocou pela terceira vez. Me alonguei, espreguicei e até pensei em me deitar novamente, mas um toque na porta me alertava que era minha mãe garantindo que eu havia acordado.

— Estou me arrumando — eu disse.

Me arrumando?!

Nem consegui me arrumar direito, pois a troca de olhares que eu tinha com minha cama era tão intensa. Quando cheguei à cozinha, segurando a mochila, minha mãe me convenceu a acordar, me dando uma xícara de chocolate quente.

— Aqui, querida. — Ela esticou o copo e sorriu.
— Komaweyo, omma. — Eu peguei, estava meio quente.
— Hum, se quiser, posso levar você e seu irmão de carro — se ofereceu.
— Não! — Eu a olhei, tomei todo o chocolate e coloquei o copo em cima da mesa. — Prefiro ir sozinha.
— Como assim sozinha? É seu primeiro dia. — Ela me olhou espantada. — E se você se perder?
— Omma, passei a noite pesquisando no google maps. Eu ficarei bem — respondi, confiante em meu senso de direção.
— Então, vá em segurança. — Ela sorriu de leve. — E fighting!
— Fighting!

Não queria passar por algum constrangimento por causa da minha mãe.

Alunos coreanos não tinham boa fama.

Eu saí primeiro após mais algumas observações dela sobre a estação que deveria parar e como eu deveria me comportar no meu primeiro dia. Uma curiosidade: o sistema educacional coreano é um pouco diferente, as aulas começam em março e finalizam em fevereiro, tendo recesso em meados de julho e agosto por causa das férias de verão, e finais de dezembro para as férias de inverno, por causa do Natal e ano novo. Eu finalmente iria conhecer a linda rotina dos alunos asiáticos, que estudavam as vezes até quase 18 horas por dia. Minha aula seria das 7:30 da manhã até às 17hrs da tarde, seria um desafio passar mais de 9 horas estudando. Como não fazia amigos nos lugares que morava, meu passatempo era livros e estudo. No geral, não seria tão ruim assim!

Legal começar a estudar em plena segunda-feira.

Foi neste mesmo dia que minha vida entrou em um ritmo de adrenalina. Quando cheguei à escola, fui diretamente para secretaria, precisava assinar alguns documentos e pegar minha folha de horários. Foi um leve momento de distração, procurando meus documentos na mochila, que me fez trombar em uma pessoa, derrubando minhas coisas no chão.

— Yah! — disse o garoto, num tom alto e rude.
— Ah, me desculpa. — Eu olhei, me curvando, e logo abaixei para pegar tudo que tinha caído.
— Olha por onde anda, novata. — Ele se abaixou e pegou justo meu passaporte, já abrindo para ler meu nome. — .

Uma risada discreta e ele esticou a mão, me entregando com um sorriso prepotente.

— Obrigada. — Me curvei de novo e quando fui pegar, ele deixou cair de propósito.
— Ops. — Seu olhar continuou sério. — Acho que deixei cair.
… Yah, vamos — gritou um menino que estava perto da escadaria.
— Vou me lembrar disso, novata estrangeira. — Ele saiu tranquilamente. Reparei na sua mão direita, estava enfaixada e balançava uma corrente de prata.
— Belo primeiro dia — sussurrei para mim, enquanto pegava meu passaporte.

Após preencher o resto dos papéis que faltava, uma senhora muito simpática meu deu minha folha de horários e me disse onde era minha sala, a prestigiada 2-2. Ao chegar à porta, outra surpresa, mas esta era boa, o professor responsável era o senhor super legal que havia oferecido ajuda na noite anterior, professor Han.

— Miayeonghaseyo! — Eu sorri e entreguei o papel da minha transferência.

Ao ler o que estava escrito, ele caminhou até a frente da classe e anunciou a minha presenta. Segundo constrangimento:

Me apresentar para todos.

— Miayeonghaseyo, imnida. — Sorri de leve. — Cuidem bem de mim.
— Seja bem-vinda. — O professor Han sorriu com gentileza. — Novamente.
— Obrigada. — Me curvei em respeito novamente e caminhei até uma carteira ao lado da janela que estava vazia.

Aquela providencial janela dava vista para o pátio central e a quadra de esportes. Bem debaixo de uma árvore, deitado em um banco, estava o pesadelo de nome , com mais quatro garotos, incluindo o da escadaria.

— Aqueles são o Prince Line, se acham os donos da escola — disse o menino que estava sentado na minha frente.

Percebi seu tom amargo.

— Imagino. — Respirei fundo, desviando meu olhar para ele.
— Prazer, sou ! — Ele sorriu gentilmente. Seu olhar era sereno e ao mesmo tempo profundo.
— Prazer, pode me chamar de se quiser. — Sorri de volta.

Ele se virou para frente, o professor Han iria começar a falar sobre a importância da Literatura nos dias atuais, além de nos passar o primeiro trabalho do semestre. Mesmo tendo um professor tão lindo e gentil, eu não conseguia me concentrar, acho que meu cérebro estava meio travado por causa da recepção na secretaria. Sorte que percebeu e se ofereceu para me passar suas anotações.

No intervalo, eu e nos sentamos em uma mesinha perto do refeitório. Ele era realmente gentil e super educado, me contou um pouco como era a rotina de estudos no país e me deu algumas dicas para que eu pudesse me adaptar com facilidade. Nossa conversa estava interessante, até o grupinho se aproximar. Comecei a me controlar internamente, vendo aquele presunçoso vir em nossa direção.

— Novata estrangeira — disse , ao se aproximar, se sentando ao meu lado, ficando de costas para a mesa e se encostando à ela.
— O meu nome é… — Eu olhei, tentando manter minha educação.
. — Ele me interrompeu. — Eu sei.

Os amigos dele se encostaram na parede que tinha perto e ficaram nos olhando.

— Desculpe, mas está nos atrapalhando — disse , com uma voz séria.
— Ha...ha...ha… — deu uma gargalhada e se virou para ele. — Quem é você? Namorado dela?
— O quê? — Eu me levantei. — Ele é meu amigo e você está realmente nos atrapalhando.
— Não vou demorar. — Ele se levantou e me encarou. — Graças a você, me atrasei para aula e isso me custou uma punição.
— Eu já pedi desculpas. — Olhei, não demonstrando fraqueza.
— Suas desculpas não são suficientes. — Ele pegou a maçã que estava na minha bandeja. — Nos vemos na saída.

Ele deu uma leve piscada para mim antes de se afastar, me deixando paralisada por um momento.

— O que você fez? — perguntou .
— Eu trombei nele quando fui à secretaria, mas pedi desculpas. — Eu o olhei meio sem entender.
— Bem, ele não é muito de aceitar desculpas. — Ele suspirou fraco. — Como eu disse, Prince Line se acham os reis da escola.

Bufei de leve, tentando não ficar revoltada. Não podia criar problemas, não no primeiro dia, o que meus pais pensariam? Eu era o orgulho acadêmico deles. Voltamos para sala para mais uma jornada e exercícios. pediu dispensa mais cedo, ele tinha que ir ao médico pegar uns exames para sua mãe. Passei o resto da aula tentando me concentrar nas tarefas de geometria e como iria preencher os relatórios de literatura, porém a gentileza do professor Han me fazia perder um pouco a noção do tempo e espaço. Assim como todo o restante das meninas da sala!

Quando me dei conta, já era 17:15. Todos da sala já haviam ido, quando o professor veio me chamar para a realidade.

— Ah! — disse, ao acordar do transe.
— Estava me ouvindo? — perguntou ele.
— Oh, desculpa, o que disse?
— Está na hora de ir. — Ele deu um sorriso.
— Ah, sim. — Eu curvei a cabeça. — Obrigada!
— Até amanhã. — Ele se afastou, pegou sua pasta e saiu.

Eu me espreguicei e comecei a guardar minhas coisas, quando meu estojo de lápis caiu. Senti que alguém havia pegado e esticado para mim. Eu peguei, agradecendo de forma despreocupada, e o guardei.

Quando olhei de volta...

— Você?
— Eu disse que voltaria. — estava sentado na mesa da frente, me olhando.
— Veio sozinho? — Eu olhei para porta e um dos seus amigos estava lá. — Ah, claro que não. O que você quer?
— Cobrar sua dívida. — Seu olhar era sereno.
— Dívida? — Eu o olhei indignada. — Te conheci hoje de manhã e já tenho uma dívida?
— Como eu disse, levei punição por sua causa. Você tem uma dívida comigo. — Seu tom sereno me deixava perplexa.
— Foi um acidente. — Eu me levantei e o olhei sério. — Não pode me culpar.
— Posso, a culpa foi sua. — Ele se levantou, se mantendo parado em minha frente, seu olhar tranquilo já estava me irritando.
— Não mesmo. — Eu peguei minha mochila e coloquei nas costas. — Se continuar me perseguindo, eu delato ao diretor.
— Eu sou o melhor aluno desta escola, meu pai é o dono e o diretor é meu tio, em quem acha que vão acreditar? E pior, poderão te expulsar por tentar espalhar conflito e difamar um aluno que só foi prejudicado desde o primeiro momento que você chegou aqui.
— Não acredito. — Eu respirei fundo, queria poder jogar ele pela janela.
— Te vejo amanhã então. — Ele caminhou até a porta. — Ah, diga ao seu namorado para não interferir.
— Ele não é meu namorado — disse num tom mais alterado.
— Que seja. — Ele piscou de leve novamente e saiu rindo.

Eu engoli seco aquelas palavras, não iria me curvar a ele, jamais.

“Você está em perigo
Você mexeu com a pessoa errada, saia daqui
Porque eu, porque eu sou perigoso.”

— Badman / B.A.P

2.

Danger

“Apareço como o vento, desapareço como fumaça,
Enganando seus olhos
Me aproximo como uma pétala,
E desapareço como um espinho em direção ao seu coração.”

— Danger / Taemin

— Idiota — sussurrei, respirando fundo.

Como uma pessoa que eu conhecia a menos de um dia podia me deixar tão irritada com facilidade?

— Preciso ir para casa — disse, fechando minha mochila e ajeitando nas costas.

Peguei o celular e olhei novamente no aplicativo coreano de rotas e transportes que havia me passado, foi uma boa dica dele para que não me perdesse com tanta facilidade. A distância entre a escola e a estação não era tão grande assim, mas, para quem havia passado algumas horas sentada, seria uma bela caminhada.

— Boa noite, querida — disse mamãe da cozinha, ao ouvir o barulho da porta.
— Boa noite, omma! — Passei por Jini, que já estava com seus olhos pregados na televisão, jogando. — Você não cansa, garoto?!
— Não. — Ele riu.

Segui direto para o quarto, continuaria meus estudos por mais algum tempo revisando minhas anotações da aula e analisando as que havia me emprestado. Minha mãe veio até meu quarto com uma bandeja de lanche, estava tão concentrada em minha revisão que pensei em fugir das perguntas dela sobre o 1º dia de aula. E, como esperado, sua curiosidade sobre as novidades foram mais fortes.

— Trouxe seu lanche — disse, me fazendo parar de escrever, colocando a bandeja em cima de alguns papeis ao lado.
— Obrigada, omma. — Sorri de leve e olhei para o bolo de chocolate que me aguardava. — Foi ao mercado novamente?!
— Sim. — Deu alguns passos até a cama e se sentou. — Senti que faltava algumas coisas para comprar. Sabe como sou, não consigo me acostumar a comer fora.
— Mas aqui na Coreia é normal — comentei.
— Ahhh… E eu não sei?! — Me olhou com desapontamento. — Os preços são tão altos no mercado, mas eu gosto tanto de cozinhar.
— Então continue cozinhando. — Ri dela.
— Vamos mudar de assunto. — Sorriu com sutileza. — Estou curiosa sobre seu primeiro dia.
— Ai, mãe, não podemos deixar para depois? — indaguei. — Estava estudando.
— Pandinha. — Me olhou com carinho. — Me conte só as partes boas, então?!

Fiz alguns rodeios e tentei mudar de assunto novamente, porém acabei contando a parte sobre e o professor Han, que era o nosso vizinho. Assim que vi uma certa satisfação em sua face, pedi a ela para ficar sozinha, pois ainda tinha matérias para estudar. Consequentemente, passei o resto da noite colocando toda minha vida escolar no lugar. Percebi que nunca havia feito tanta anotação em um único dia de aula. A parte boa? O professor fofo e gentil. A parte má? Me peguei distraída com seu sorriso a aula toda.

Eu e todas as outras meninas da sala.

, se concentre — me repreendi, ao desviar meu foco das anotações para meus pensamentos sobre a vida do professor Han. — Onde parei mesmo?! Hum...

Tentei me concentrar em absorver tudo o que tinha aprendido, contudo, a imagem de invadiu minha mente de forma inesperada.

— Garoto pabo… — sussurrei, me lembrando das suas provocações. — Acha que sou culpada, eu me recuso a aceitar ter uma dívida com ele.

Mantive meu olhar para o livro por um tempo.

Relutante em pensar sobre isso. Quando terminei meus estudos, já era alta madrugada, completaria mais uma noite de 4 horas de sono. E foram as melhores quatro horas que eu poderia ter. Revigorante e confortável aquela cama. Acordei bem quando o celular tocou e, mesmo não dormindo muito tempo, senti meu corpo leve e descansado. Me levantei, troquei de roupa, colocando meu uniforme, e fui para a cozinha tomar café.

— Que milagre não estar atrasada — comentou minha mãe, ao servir Jini. — Vi quando apagou a luz do seu quarto.
— A senhora estava acordada àquela hora?! — perguntei, permanecendo de pé e pegando um biscoito para comer.
— Acha mesmo que conseguiria dormir sabendo que estava acordada estudando?! — Me olhou como se tivesse demonstrando que sempre estaria preocupada comigo em qualquer situação. — E você, Jinho, também vi quando desligou o tablet e foi para a cama.
— Eu estava sem sono, omma — explicou nosso caçula.
— Sem sono. E criança nessa idade não tem sono? — retrucou, colocando a mão na cintura. — Ainda chegará o dia em que ficará sem toda essa tecnologia.
— Eita. — Ri da cara dele. — Já até te vejo nesse jejum, farei questão de jogar na sua frente.
— Yah. — Ele me olhou emburrado. — Sua chata.

Ri um pouco mais e terminei meu café, era divertido nossos momentos no café da manhã. Já que appa havia saído primeiro para um brunch de negócios, minha omma levaria Jinho para a escola e passaria na casa de um amigo da empresa do papai. A esposa do senhor Ong iria apresentá-la a algumas amigas. Já eu, saí tranquilamente para ir ao colégio. De acordo com meu cronograma, chegaria na hora exata, porém, quando você pensa que seu dia não vai te surpreender…

Me perdi na estação e peguei o metrô na direção errada.

Tinha que acontecer isso justo hoje, teríamos teste de aptidão na aula de educação física logo no 1º horário.

— Oh, não! — disse para mim mesma, tentando não chorar.

Peguei o metrô na direção certa, depois de esperar por quase 30 minutos. Fui correndo até chegar ao portão da escola, que já estava fechado.

— Senhor, por favor, me deixe entrar — gritei em desespero.
— Me desculpe. — O homem com cabelos grisalhos se aproximou. — Mas não poderá entrar.
— Senhor, esse é meu segundo dia, não posso ficar fora da escola. — Quase em súplica.
— Não posso fazer nada, criança, esse portão não abrirá. Da próxima vez, chegue mais cedo — aconselhou.

Esse era o propósito quando saí mais cedo! — pensei comigo.

— Por favor. — Segurei na grade, estava mesmo desesperada. — Peguei o metrô errado.
— Senhor Kim — disse alguém se aproximando. — O que está acontecendo?!
— Ah, jovem príncipe. — O senhor se virou e eu pude ver o rosto da pessoa. — É uma aluna que chegou atrasada.
— Interessante — disse , ao se aproximar mais. — Novata estrangeira.
— Oh não, você não. — Suspirei fraco, era o que eu menos queria naquele momento.
— Senhor Kim, esta aluna deveria estar em um lugar muito importante — comentou, de forma sugestiva.
— Jovem príncipe?! — Seu olhar confuso, não entendendo.
— Pode abrir o portão para ela, por favor?! — pediu, desviando o olhar para mim, com um sorriso presunçoso de canto.
— Não — gritei no impulso. — Eu prefiro a suspensão.
— Acho que não tem escolha, sua turma já está na quadra, e se não chegar, terá um castigo e tanto. Quer mesmo isso? Logo no segundo dia?!
— Droga — sussurrei. — Não. — Concordei com ele. — Não quero.

O senhor Kim abriu o portão e eu entrei. Parei frente a , que mantinha o sorriso debochado no canto do rosto. Ficamos nos encarando por alguns instantes até que.

— Acho que ainda está atrasada — disse, apontando para a quadra.
— Por que fez isso? — perguntei.
— Te vejo na biblioteca no primeiro intervalo. — Ignorou a pergunta e saiu andando em direção ao prédio das salas. — Ah, agora você me deve duas vezes.
— Yah! — Um grito preso soltou da garganta.

Gostaria de ter dado uma boa resposta a ele, mas estava mesmo atrasada.

Saí correndo em direção à quadra, aquela aula era importante para mim. Quando cheguei, levei uma bronca do treinador Lee, que me mandou ir correndo trocar de roupa. Assim, me troquei o mais rápido que pude no vestiário e saí correndo de novo para a quadra.

— Como conseguiu entrar? — perguntou , ao chegar perto de mim.
— Se eu contar, não vai acreditar. — O olhei.
— Me surpreenda.
— Uma palavra, mil sentimentos raivosos. — Respirei fundo. — .
— Como?
— Digamos que ele tem influências pela escola.
— Típico, só porque é filho do dono. — bufou, deu pra perceber sua frustração.
— Mais uma coisa para ele dizer que eu devo. — Suspirei fraco.
— Idiota — sussurrou, parecia mais revoltado do que eu.

Acho que não vou aguentar isso...

O professor nos mandou formar duas filas, uma de meninas e uma de meninos. Ele iria testar nossas habilidades para separar os alunos por esportes. Eu fiquei na modalidade do basquete. Na teoria, eu realmente era boa isso, ainda mais porque tinha assistido muitos jogos com meu pai na temporada que morei em Chicago, nos Estados Unidos. Já na prática… Era outra história.

— Mal começamos e já está cansada? — comentou , ao se aproximar de mim, rindo.
— Meu forte nunca foi educação física — expliquei, permanecendo sentada no chão da quadra. — Não consigo mais sentir minhas pernas.
— Não acha exagero? — Ele sentou ao meu lado.
— O professor Lee nos colocou para dar cinquenta voltas pela quadra. Não que eu seja uma sedentária, mas… — Suspirei fraco. — Já tive que correr para chegar a tempo.
— Você é mesmo fraca. — Continuou rindo, o que me fez empurrá-lo de leve.
— E você um bobo — reclamei, virando meu rosto para a direção de onde estava um grupo de meninas. — O que tem de errado comigo?
— O quê? — Me olhou confuso.
— Me pergunto o que tem de errado comigo — repeti.
— Por que teria algo de errado com você?! — indagou.
— Todos os meninos me trataram super bem desde que cheguei, mas só agora percebi que ainda não sou bem vinda pelas meninas — disse, mantendo meu olhar na direção delas. — Por isso me pergunto se tenho algo de errado.
— Deixe elas. Garotas são mesmo estranhas. — Riu do próprio comentário. — Uma hora elas se cansam e te aceitam.
— Não sabia que existia tanta rejeição… Só porque sou estrangeira. — Cruzei os braços. — Nem sou tanto assim, meu pai é coreano.

Ele riu de novo.

— Não se sinta chateada. — Deu uma breve pausa e se levantou, esticando a mão para mim. — Você tem a mim.
— O quê?! — O olhei.
— Disse que você tem a mim. — repetiu, continuando com a mão esticada. — Podemos ser amigos?!
— Claro. — Segurei em sua mão e, apoiada nele, me levantei com facilidade — Só espero que ninguém fique com ciúmes disso, já percebi que você também é popular.
— Onde que sou?! — Fez uma careta.
— Existem meninas que gostam de nerds. Além do mais, você é o presidente da turma. — Ri e brinquei. — Poderia até se candidatar para ser um Prince Line.
— Yah, Deus me livre, não quero ser arrogante como eles — reclamou, fazendo outra careta engraçada — Prefiro permanecer como estou, no anonimato.

Ri um pouco mais dele.

— Posso tirar uma dúvida?!
— Claro. — Assentiu ele.
— Se você é o presidente, quem é o vice?! — perguntei.
— Kim Yuri — respondeu ele. — Nossa medalhista em redação.
— Uau. — Me impressionou.
— É aquela com o livro na mão e cabelo amarrado com uma presilha verde. — mostrou, discretamente.

Ah! Justo a garota que não olhava na minha cara sempre que eu estava perto de . Bem… Quando eu estava longe, também agia assim.

— E vocês dois são namorados? — perguntei curiosa.

Para agir assim comigo.

— Não, somos amigos de infância apenas. — Segurou o riso de nervoso. — Por que a pergunta?
— Nada, é que vocês parecem ser muito próximos. — Disfarcei, já entendendo qual era a da Yuri. — Como um casal.
— Ah, não… — Pareceu sem graça. — O que você vê é somente a nossa amizade e nossos pais, são amigos também.
— Ela parece ser um pouco tímida, mas se dá muito bem com as outras meninas — observei.
— Ela é um pouco silenciosa, realmente. Sempre que estudamos juntos, não perde o foco com facilidade. — Seu olhar voltou para mim. — Você já tem um clube?!
— O quê?! Clube?!
— É! Na escola tem muitos clubes. Eu participo de dois, o de estudos e o de xadrez. — Pareceu reflexivo. — Você pode se juntar a nós no grupo de estudos. Vai te ajudar muito agora. Estamos eu, a Yuri, o Chang e a Holly, eles participam do grupo de leitura também, ajudam na biblioteca.
— Grupo de estudos… Hum, geralmente gosto de estudar sozinha, de preferência com fones no ouvido.
— Sério?! — O espanto estava em seu olhar. — Como consegue estudar ouvindo música?
— Não sei, acho que é costume, faço tudo ouvindo músicas. — Ri de leve. — Desde bebê, minha mãe me colocava para dormir ouvindo música e cantava para mim o dia todo, cresci com a música.
— Que loucura. — impressionado — Eu preciso de silêncio para conseguir estudar, sem isso não dá.
— Cada um com sua loucura. — Desviei meu olhar para as meninas se alongando. — Sinto que devo disfarçar estar participando, se não ficarei sem nota.
— Concordo. — Segurou em minha mão com respeito e me puxou até o colchão que estava estendido. — Vamos alongar, enquanto o professor Lee não volta.

Passaram-se algumas horas e finalmente havia chegado a hora do intervalo, eu fiquei em dúvida se iria ou não me encontrar com . Decidi não ir para mostrá-lo que não cederia às suas chantagens e loucuras sobre dívidas. Me sentei no pátio embaixo de uma árvore, estava com meu sketchbook desenhando um pouco.

— Quem você pensa que é? — Soou uma voz conhecida, parando em minha frente.
— Quem eu penso que sou? — Me levantei e o olhei firme. — Quem você pensa que é? Não cederei às suas vontades.
— Ah!? — Ele se aproximou mais de mim, eu recuei um pouco até encostar na árvore, seu olhar era um parcialmente intimidador, pude ver que não estava satisfeito com que eu tinha feito. — Corajosa. — Se aproximou ainda mais de mim, e podia sentir sua respiração. Nossos olhos encontrados. Possuía um olhar profundo que me fazia perder o foco. — Mas eu não aceito não como resposta. — Ergueu sua mão direita e tocou de leve em meus cabelos. Lentamente foi percorrendo sua mão pelo meu ombro, braço, até que chegou até meu sketchbook. — Da próxima vez, não se faça de difícil.

Foi em um piscar de olhos que ele pegou meu sketchbook e se afastou.

— Te devolvo no final da aula — anunciou, me deixando perplexa.
— O quê?! — sussurrei, tentando raciocinar o que tinha acontecido.

Estava paralisada com aquilo tudo.

Respirei fundo e senti um cheiro suave e doce, era seu perfume que ainda havia permanecido no ar. De repente voltei à realidade. Aquele garoto sabia como me deixar revoltada, e pior, me fazia querer devolver na mesma moeda suas chantagens. Assim que o sinal tocou, voltei para a sala e me sentei ainda querendo arrancar o pescoço dele. , que estava na porta de trás da sala, conversando com uma menina, veio até mim e se sentou na sua habitual carteira que ficava na minha frente, virando para trás em seguida.

— Está tudo bem? — perguntou, com um olhar preocupado.
— Não. — Resposta curta e direta, ainda estava irritada.
— Até imagino o por quê. — Seu olhar para janela.

Segui seus movimentos e vi em sua aula de esportes na pista de corrida, com seus amigos.

— Não quero falar sobre isso. — Virei minha face para o quadro, nem percebi que o professor Han já estava na sala.
— Então respire fundo, teremos mais longas horas de estudo — sugeriu, se virando para frente.
— Farei isso — concordei exatamente, ao respirar fundo.

A aula seguiu com explicações sobre capitalismo e a economia atual coreana. Enquanto apontava para as anotações que fazia no quadro, eu escrevia e fazia minhas anotações como de costume. Seria mais uma aula em que teria que escolher entre estudar ou tentar me acalmar. O professor Han era tão simpático e atencioso com todos, eleito o melhor professor de história de Daejeon pela secretaria de educação e pelos pais. Aparentava seus 30 ou 35 anos. Quem me dera se eu tivesse pelo menos uns 23 ou 25, não teria dúvidas em demonstrar minha admiração por ele. Será que tinha namorada? Ou esposa? Não deveria pensar nisso, não deveria nem mesmo me deixar viajar naquele olhar gentil que ele tinha, era uma aluna que deveria me focar nos estudos, afinal, teríamos uma importante prova na próxima semana e muitas matérias para absorver.

No meio da aula, senti como se estivesse injetando o Google Academics no meu cérebro, e uma leve dor de cabeça começou a me atrapalhar. As horas se passaram e, ao final da aula, após todos se despedirem e irem, novamente ao recolher minhas coisas e ajeitar a mochila nas costas, percebi que fui a última a deixar a sala. Passei pelo corredor tranquilamente, porém, quando cheguei às escadas, estava lá me esperando.

Encostado na parede, de braços cruzados.

— Novata estrangeira. — Deu um sorriso de canto.
— Meu nome é….
— confirmou, me interrompendo. — Eu sei.
— Então por que insiste em me chamar assim? — O olhei meio furiosa. Detestava quando me chamavam de novata ou estrangeira.
— Porque gosto de ver você assim. Fica muito mais bonita quando está brava. — Deu um riso baixo. — Não diga isso ao seu namorado, ele pode ficar com ciúmes.
não é meu namorado. — Mantive minha voz nivelada.
— Que seja. — Deu de ombros e olhou para trás. Era seu amigo dando sinal para irem. — Bem, eu não posso demorar agora, toma isso.

Esticou um papel.

— O que é? — Peguei o papel e li. — Trabalho de francês? — Eu o olhei. — Você não quer que eu faça, né?!
— Que bom que entendeu sem que tivesse que explicar. — Sorriso de canto.
— O quô?! — Tom indignado. — Eu não vou fazer.
— Vai, sim. — Ele tocou em meus cabelos novamente e retirei sua mão. — Soube que é boa em francês e preciso de pontos extras em línguas estrangeiras para acrescentar no meu currículo acadêmico. Além do mais, você ainda me deve duas vezes.
— Ok. — Queria acabar com aquilo. Duas dívidas significava que eu teria que fazer duas coisas. Não queria fazer, mas queria me livrar rápido dele.
— Sério?! — Me olhou surpreso. — Concordando assim tão rápido?!
— Quero me livrar logo de você. — Fui sincera e direta.
— Se você diz. — Piscando de leve para mim, desceu as escadas na minha frente.
— Yah!? — gritei.
— O quê? — Se virou.
— Meu sketchbook!
— Eu o perdi. — Seu olhar estava tranquilo.
— O quê? — Fiquei em choque, meus desenhos perdidos.
— Até amanhã, e não se esqueça do meu trabalho.

Ele saiu rindo.

Tudo que mais queria era rasgar aquela folha, porém isso seria mais uma desculpa para me perseguir. Não acreditava que tinha perdido meu sketchbook, meus desenhos. Desejava matar ele. Como uma pessoa que conheci há dois dias podia me deixar com tanta irritação?

— Calma, . — Respirei fundo. — Yahhh… — Comecei a raciocinar. — Se ele realmente perdeu, alguém achará e levará para o achados e perdidos, é uma regra da escola.

Havia decorado todas as regras da escola.

Cheguei em casa transpirando revolta, até minha omma percebeu que meu bom humor estava inativo. Me tranquei no quarto, não estava para mais ninguém, tinha tanto o que estudar, o professor Han queria dar um teste antecipado para testar nossos conhecimentos antes da prova mensal. Além do trabalho daquele tirano, filho da mãe, que eu teria que fazer. Como será que tinha descoberto que eu sabia francês? Isso não importava naquele momento. A cada tópico do trabalho dele, minha raiva aumentava, ainda mais quando me lembrava da forma que se aproximou de mim na árvore.

Pior. Daquele perfume que tinha bambeado meus sentidos.

— Vou me livrar de você, — sussurrei, enquanto traduzia o segundo texto do trabalho dele.

No relógio bateu meia noite e eu estava quase caindo da cadeira, acho que tinha cochilado sentada. Foi neste momento que minha mãe bateu na porta. Eu levei um susto tão grande que realmente caí.

?! Está tudo bem? — perguntou, demonstrando preocupação.
— Estou! — gritei, me levantando. — Estou indo.

Caminhei com dificuldade até a porta, minha bunda estava doendo.

— Ah, querida — disse omma, quando abri. — Trouxe um lanche, você ficou trancada aqui desde que chegou.
— Muitos deveres. — Peguei a bandeja que estava na sua mão. — Mas komaweyo omma.

Dei um beijo em seu rosto e fechei a porta em seguida.

Com certeza minha omma não entendeu nada, mas eu tinha muitos problemas que não queria falar com ela. Comi aquele lanche gostoso, acho que a melhor hora do meu dia estava sendo aquela, o que a comida não faz com meu humor. E, com isso, concluí a terceira noite em claro, e eu tinha certeza de que isso iria me deixar de mau-humor e louca o dia todo.

Amanheceu e tomei um banho relaxante, coloquei meu uniforme e fui para a escola, minha sorte era que finalmente tinha decorado o caminho e as estações que desceria.

“Me apaixonei por você,
Mas gostaria de ter pelo menos metade da sua personalidade
Em outras palavras, você é uma menina má,
Mas eu me sinto atraído por você.”

— Yeowooya / Lunafly


3.

Bad

“Você é a garota que me deixa inquieto
sempre que te vejo.”
— Bad / Infinite

: on

Desci as escadas correndo, juntamente com Junhae, que não parava de me perguntar o que eu queria com a novata estrangeira. Assim que chegamos ao portão, os outros já haviam ido embora, cada um tinha seu compromisso naquela noite, e Junhae havia me convidado para jogar um pouco na casa dele, já que sua mãe estaria de plantão no hospital.

— Chegamos — disse ele, assim que entramos no pequeno apartamento onde moravam, e jogou a mochila no sofá. — Acho que a omma deixou alguma coisa pra comermos.
— Ajumma Nya é daebak.

Riu, caminhando até a cozinha para vasculhar a geladeira. Se deparou com um enorme bilhete na porta dizendo que o jantar estava no forno, era só esquentar. Enquanto Junhae preparava nossa refeição, me joguei no sofá e abri minha mochila. Meu olhos foram imediatamente ao sketchbook dela, que falsamente tinha desaparecido.

— Vejamos o que tem aqui dentro — sussurrei, o retirando da mochila e abrindo. — Interessante.

Havia vários desenhos espalhados em páginas alternadas. A novata estrangeira tinha muito talento para artes, conseguia notar isso só de olhar para seus traços, ora delicados e bem contornados, ora rabiscados, porém extremamente detalhados. Senti meus olhos encherem de fascínio por cada página que olhava, sua beleza não estava somente nela, mas também em seus desenhos escondidos naquele sketchbook.

— Vem comer — disse Junhae, em voz alta, da cozinha.
— Estou indo. — Fechei-o e guardei novamente na mochila, estava curioso para folhear mais quando chegasse em casa.
— Uahhhh… Que fome — disse, já sentado na banqueta em frente à bancada de refeição. — Nem parece que almocei.
— Confesso que também estou sentindo um fundo no estômago. — Me sentei de frente para ele. — Yah… Ela fez sopa de algas com broto de feijão e pasta de peixe, minha preferida.
— Disse a omma que viria para o jantar — comentou. — Ela disse que fez com muito carinho, mas recebeu a ligação para voltar ao hospital.
— Aish… — resmunguei. — Vida de médico é complicado.
— Ela não é médica — corrigiu. — É enfermeira.
— Dá no mesmo, ambos não têm vida depois do diploma. — Meu argumento era válido.
— Verdade. — Concordou.

Comemos com todo prazer e fome que tínhamos, a sopa estava mesmo muito boa, fazer minhas refeições na casa dos meus amigos era a melhor parte do meu dia, após o final das aulas. Era a volta para casa que se tornava a parte mais difícil e desprezível.

— Você vai se inscrever no concurso de artes?! — perguntou.
— Por que faria isso?! — Nunca tive muita aptidão.
— Mais prêmios, mais méritos para o currículo acadêmico — explicou.
— Como se ganhar um concurso de artes fosse influenciar no meu currículo. — Ri de forma descontraída. — Sabe que meu curso é de exatas, nada de humanas e nada de ciências sociais aplicadas.
— Verdade. — Respirou profundo. — Seu pai quer mesmo você fazendo administração?!
— Sim. — Dei um suspiro cansado. — Tenho que aprender a administrar os negócios da família.
— Ah… Família… Me pergunto se as aulas extras que Mijun está fazendo darão resultados — comentou Junhae. — Ele não para de falar da noona, que parece k-idol.
— Acho que não. — Ri de leve. — Será dinheiro jogado fora se ele continuar atento somente às curvas da Nara sunbae.
— Aquela criança travessa. — Junhae riu também. — Se não tirar boas notas na próxima prova de destaque, seus pais vão linchá-lo.
— Vamos torcer que não, o ajuhssi é militar, certamente tem muita força para bater — comentei, imaginando a cena.
— Verdade. — Concordou.

Estava um pouco preocupado com meu amigo. Além de ser o maknae do Prince Line, seus pais eram militares e sua vida era ainda mais disciplinada que a minha em casa. O que me levava a pensar que com certeza serviria as Forças Especiais, assim como o ajuhssi, ou seria oficial médico do exército, como sua mãe.

— Cada um com seus problemas paternos — sussurrei.
— Falando em problemas paternos… Por que não dorme aqui hoje? — sugeriu ele.
— Não dá — respondi. — Já dormi ontem na casa do Hwang, preciso voltar hoje.
— Aigoo. — Suspirou fraco. — E como estão indo as coisas com seu pai? Ele já se acalmou?
— Eu bati a moto há duas semanas, escondi dele sobre isso, acha mesmo que passaria assim tão rápido? — O olhei. — Isso foi mais uma coisa para aumentar o peso sobre mim.
— Yah!!! A culpa também foi sua — reclamou com razão. — Não deveria dirigir enquanto está com raiva, você sempre fica cego quando briga com ele.
— Não pensei nisso, só queria me distanciar o máximo que conseguiria — expliquei, em minha defesa.
— E acabou fazendo idiotices. — Bufou. — Não quero perder meu amigo tão jovem. Além do mais, você será meu padrinho de casamento.
— Hum.
— Não quero ficar sem aquele presente caro que você prometeu me dar — brincou, rindo.
— Yah, seu interesseiro. — Fiz um gesto rápido de que iria bater nele com o hashi que segurava. — Estou melhor agora, ficarei sem dirigir por um tempo.
— Isso porque ele confiscou sua carteira de habilitação — observou.
— Não precisava me lembrar deste detalhe. — Mantive meu olhar na tigela de sopa. — Mas fiz uma promessa à minha mãe.

Deixei o tempo passar e aproveitei meu momento de tranquilidade, jogando algumas partidas de Warcraft com ele. Próximo de dar meia noite, recebi uma mensagem me lembrando que havia ordenado que chegasse em casa antes do dia terminar. Me despedi do meu amigo e fui para onde morava com meu pai. O pior lugar do mundo para se estar.

— Eu disse para voltar antes do dia terminar. — Seu tom era o mesmo de sempre, rude e frio.
— São exatamente onze e cinquenta e oito. — O olhei, deixando minha face fria também. — O dia não terminou ainda.
— Criança arrogante. — Se levantou da sua poltrona de estimação. — Acha que pode falar comigo nesse tom?
— E como quer que eu fale?! — Juro que tentei, mas meu olhar de ironia foi mais forte.
— Continue agindo assim que outras pessoas sofrerão as consequências — ameaçou.

Respirei fundo e engoli seco. Simplesmente odiava quando ele achava que me ameaçando conseguiria respeito de mim. Ajeitei a mochila em minhas costas e me virei para a escada que dava para os quartos. O prédio onde morávamos era luxuoso, dois apartamentos por andar, e, como o nosso ficava na cobertura, tínhamos o privilégio de ter dois pavimentos no apartamento. Ao passar pelo corredor da área íntima, percebi que a porta do quarto dele estava entreaberta, ouvi o barulho do chuveiro ao longe, certamente uma de “suas amigas” estava aqui, só não imaginava qual delas. Respirei fundo e continuei seguindo até entrar em meu quarto. Joguei a mochila no chão e já entrei no banheiro, retirando a camisa da escola. Após um banho quente que serviu para mudar o rumo de meus pensamentos, me deitei na cama. Fiquei olhando o teto por um longo tempo. Pensava em minha vida acadêmica e tudo que havia acontecido nos últimos dois dias, a escola este ano aparentemente seria tão chata, até que ela apareceu. Confesso que foi proposital ter trombado nela na secretaria. Estava tão distraída mexendo na mochila que nem me viu me aproximar.

Aquela novata estrangeira.

— Meu nome é — disse, a imitando enquanto ria baixo. — Como uma garota pode ficar tão linda quando está brava?! Mas ela já é linda!

Era engraçado perturbá-la.

Seu rosto ficava mais iluminado quando deixava transparecer a raiva, e como ela ficava com raiva tão fácil perto de mim! Me espreguicei e levantei lentamente, pensando em seu rosto quando disse que tinha perdido seu objeto, então fui até minha mochila, abri e retirei o sketchbook dela.

— Então agora vamos ver o que mais tem aqui — disse, indo até minha cama novamente.

Me deitei meio inclinado, encostando minhas costas na almofada, comecei a folhear de onde parei. Nem mesmo senti sono olhando cada página desenhada, o que resultou em um longo tempo apreciando cada desenho dela. Ela tinha talento para desenho artístico. Fechei o sketchbook e o coloquei na mesa de cabeceira do lado. Peguei meu celular e abri o kakaotalk. Tinha algumas mensagens no grupo de conversa Prince Line. Ignorei um pouco os comentários do Junhae, contando aos outros sobre eu ter pedido a ela para fazer meu trabalho de francês.

Bem, eu já tinha feito aquele trabalho, porém fiquei curioso para saber como ela reagiria se eu pedisse, só não imaginava que ela faria, e isso me deixou impressionado, o que me levou a pensar no meu próximo pedido. Queria algo que me fizesse ficar mais tempo perto dela. Felizmente, essa ideia de dívidas foi genial da minha parte. Voltei para a página inicial do kakaotalk e fiquei olhando para o nome dela.

Será que eu deveria mandar uma mensagem de boa noite?

— Hum. — Me espreguicei um pouco. — Acho que vou dormir.

Coloquei o celular ao lado do meu travesseiro e me deitei direito, me cobrindo com o lençol. Fechei meus olhos, sorrindo um pouco, estava curioso pelo dia seguinte.

: off


“Meus pensamentos são muito para você, eu não sei o que fazer
O que eu vou fazer comigo mesmo?
Você tem que algo que eu preciso.”

— Seeing You Or Missing You / Lunafly

Primeira boa notícia do dia?

Consegui chegar cedo à escola!

Primeira má notícia do dia?

Quando cheguei à porta da sala, já estava me esperando.

Respirei fundo ao vê-lo, acho que em minha mente eu conseguia ver sua morte em 100 maneiras diferentes. Ele estava encostado na parede, de braços cruzados, me olhando.

— Aqui está, formatado e impresso. — Estiquei uma pasta para ele.
— Nossa. — Pegou, admirado. — Além das minhas expectativas.
, que bom que já chegou — disse , se aproximando com algumas folhas na mão. — Você me ajuda a colocá-las em cima das mesas?
— Claro. — O olhei, pegando as folhas. — Claro que ajudo, .
— Bom dia, — disse , com um tom irônico.
— Bom dia, . — A voz de se manteve firme, porém no seu tom baixo e habitual.
— Se nos dá licença, temos algo a fazer — disse ao indesejado.
— Hum... — deu uma risada debochada. — Vou deixar o casal a sós.
— Idiota — resmunguei meio estressada com ele. — Não somos um casal.
— Se você diz. — Ele se afastou da parede. — Te vejo na quadra no intervalo.

Saiu andando com tranquilidade. Respirei fundo, controlando minha raiva.

— Qual é a dele?! Idiota — murmurou .
— Ai, que raiva. — Eu bufei. — Me desculpe, .
— Não precisa se desculpar. — Segurou de leve em minha mão e sorriu. — Fique calma, ele não merece isso.
— Obrigada. — Dei um sorriso fraco. era tão gentil comigo, ao contrário do , me sentia bem ao lado dele.
— Então, me ajuda?! — Ergueu as folhas.
— Claro. — Assim que entramos, o ajudei a distribuir as folhas em cada carteira.
— O que está acontecendo? — perguntou Yuri, ao entrar na sala com mais uma menina, certamente do clube de estudos.
— Ah, Yuri, já chegou. — a olhou surpreso. — Disse que chegaria atrasada por causa da sua mãe.
— Consegui chegar na hora. — Pela primeira vez, ela desviou o olhar para mim. — O que ela está fazendo?
— Ah, pedi a para me ajudar a distribuir essas folhas antes de todos chegarem — explicou .
— Este é o meu dever. — Yuri veio até mim e pegou as folhas. — Agradeço, mas eu sou a vice da sala.
— Tudo bem, só estava ajudando um amigo — disse, recuando um pouco.

Aquilo confirmava minhas suspeitas.

Yuri gostava de e certamente tinha ciúmes de mim. Preferi não criar mais desconforto para mim, já estava cansada demais por causa da minha noite mal dormida. Assim que sentamos, o professor Han entrou na sala, juntamente aos outros alunos, nossa aula de história seria sobre a guerra do Vietnã. Após algum tempo, percebeu que eu estava passando mal e pediu ao professor para me levar à enfermaria. Andamos lentamente pelos corredores até chegar, realmente estava com a pressão baixa e meio zonza. Será que era estresse demais? Quando cheguei, só consegui ver a luz da enfermaria e logo tudo se apagou. Ao abrir meus olhos novamente, já estava deitada na maca que tinha lá, tomando soro na veia.

As coisas pareciam mesmo preocupantes.

— Você está melhor agora? — perguntou , sentando ao meu lado.
— Oh! — Eu o olhei. — Acho que sim, ainda estamos na escola?
— Sim, a enfermeira foi reportar ao diretor. — Estava segurando em minha mão, como era doce e gentil.
— Obrigada por ter ficado comigo. — Demonstrei gratidão.
— Eu até gostei de ficar aqui. — Manteve a ternura no olhar. — Você sorri enquanto dorme.

Senti minhas bochechas corarem de vergonha.

— Por quanto tempo fiquei apagada?
— Umas duas horas. — Levantou minha mochila. — Enquanto a enfermeira estava cuidando de você, peguei nossas coisas na sala.
— O que a enfermeira disse?
— Que talvez deva ser estresse ou exaustão por causa da sua nova rotina. Como é seu terceiro dia aqui, seu corpo ainda não se acostumou — explicou.
— Hum, pode ser mesmo. — Desviei meu olhar para a porta e lá estava ele, encostado na parede, de braços cruzados: a causa dos meus problemas. — !?
— Você está bem? — Entrou sem ser convidado, vindo em nossa direção. — A escola inteira está comentando.
— O que está fazendo aqui? — perguntei.
— Vim ver se estava bem. — Seu olhar estava mesmo de alguém preocupado.

Me impressionou.

, eu vou buscar algo para você comer. A enfermeira disse que precisaria se alimentar ao acordar. — soltou minha mão lentamente, era como se ele não quisesse se afastar. — Eu já volto.
— Espero que não fique com ciúmes se eu ficar aqui até voltar — disse , num tom de provocação.
— Nós somos amigos, mas isso não é da sua conta. — se afastou e saiu. Era impressionante, até mesmo uma resposta rude parecia tão sutil ao sair dele.
— Já disse, ele não é meu namorado. — O olhei séria.
— Se você diz. — permaneceu parado em minha frente. — O que aconteceu com você?
— Você aconteceu — sussurrei, olhando para a janela. Respirei fundo. — Estresse, meu corpo reagiu assim.
— Parece que não dorme há dias — comentou.
— Está tão visível? — O olhei.
— Sim — respondeu, e sorriu de canto. — Mas até que, mesmo com olheira, você continua bonita.
— Hum. — Tentei ignorar aquilo que parecia um elogio. — Acho que ainda não me adaptei ao ritmo escolar coreano.
— Tenho certeza de que seu namorado irá te ajudar.
— Já disse que ele não é meu namorado. — Elevei a voz involuntariamente.
— Não é o que parece, não da parte dele... Mas enfim, espero que melhore. — Um passo se afastando, caminhou até a porta. — Logo teremos um baile de primavera.

Baile de primavera? O que ele queria dizer com isso?

Assim que saiu, voltou com uma bandeja nas mãos, havia levado um sanduíche, suco de laranja e maçã. Eu comi meio que sendo incentivada por ele. Logo na hora de ir para casa, meus pais foram me buscar. Antes conversaram com o diretor, o professor Han e a enfermeira. Acho que tinha ganhado o direito de ficar em casa por dois dias. O lado bom era que o professor Han iria me explicar as matérias na minha casa à noite, e eu ficaria dois dias sem na minha vida. Me despedi de antes de entrar no carro do appa, minha omma o convidou para jantar em nossa casa no sábado e, mesmo ele ficando com vergonha pelo convite, percebi seus olhos brilharem um pouco. Comecei a me perguntar se estaria certo e estaria interessado em mim.

, por que, a cada 10 pensamentos, 9 envolviam ele?

“Agora na minha frente existem duas pessoas brilhantes
E eu que estou agindo pobremente
Embora eu tente me repreender por ser um idiota
Meu coração continua se curvando na sua direção.”

— Aside / SHINee


4.

Need U

“Eu preciso de você, garota
Por que eu me apaixono e
digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garota
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que vou me machucar?”

— I Need U / BTS

: on

Estava feliz por ter sido convidado pela mãe dela.

Nos conhecemos há três dias e não conseguia deixar de me sentir atraído pela sua simpatia e amizade. era uma garota que despertava muita curiosidade em mim e queria realmente conhecê-la mais, passar mais tempo mergulhado em nossas conversas descontraídas. Os intervalos no pátio eram tão cheios de assunto, ela falava sobre tudo, até mesmo a Champions League da UEFA, algo novo para mim, uma menina saber tanto sobre futebol. Confesso que me sentia irritado toda vez que se aproximava, ele e sua arrogância de sempre, principalmente hoje na enfermaria foi ainda pior.

Será que estaria interessado em ?

Não, ela era muito boa para ele!

— Espero que não fique com ciúmes se eu ficar aqui até voltar — disse, imitando a voz dele, fazendo uma careta. — Idiota.
— Falando sozinho, querido?! — perguntou minha mãe, ao adentrar a sala.
— Não, só estava pensando alto.
— Quer parar os estudos e ir comer alguma coisa? — sugeriu. — Com a barriga vazia a mente não funciona.
— Vou daqui a pouco, sem falta. — Assenti, abrindo mais uma vez o livro de física. — Só preciso terminar uma conta que comecei.
— Estou indo dormir primeiro. — Se aproximou e deu um beijo de leve em meu cabelo, de forma carinhosa. — Não faça muito barulho quando for comer e ir dormir, seu pai já está dormindo também.
— Sim, senhora. — Fiz um gesto de continência e sorri. — Serei silencioso.

Ela sorriu de forma gentil e seguiu pelo corredor dos quartos.

Voltei para a folha do caderno e logo me vieram algumas reflexões sobre falar que namorávamos desde o primeiro dia dela na escola. Isso me irritava um pouco, mas, olhando agora, não era um comentário ruim. era de uma beleza simples, mas um sorriso de gravar na memória, seu olhar profundo tinha uma ponta de brilho, sua voz doce, porém firme. Inacreditável uma garota gostar de games e mangás como gostava.

Única e especial.

: off

Quando chegamos em casa, seguimos para a cozinha.

Estava com muita sede. Foi neste momento que o sistema de interrogações da minha mãe ativou, parecia muito animada com a ideia de jantar em nossa casa. Mais ainda por sua filha ter encontrado um amigo legal que pudesse cuidar dela, o que a motivou a querer saber sobre tudo, como começamos a conversar, como ele era comigo, se ficávamos perto no intervalo...

, deixe se ser discreta e vai falando mais sobre seu amigo. — Insistiu novamente.
— Já disse, mãe, ele só é um garoto legal que está me ajudando nos estudos, um bom amigo — expliquei. — Além de ser o presidente da turma.
— Só amigo?
— Só amigo! — Ri, ajeitando minha mochila nas costas. — Vou descansar um pouco.
— Vá, sim, já que não quer me contar mais, ficarei aqui sozinha, sem assunto, preparando o nosso jantar. — Naquele tom dramático.
— Quanto drama. — Saí rindo em direção ao meu quarto.
— Não é drama, são sentimentos de uma mãe — retrucou, gritando da cozinha.

Curiosidade era o sobrenome da minha mãe.

O que me deixava impressionada com ela, mas eu havia dito realmente a verdade e o que importava, era sim um bom amigo para mim. Logo que entrei no quarto, coloquei a mochila nos pés da cama e me espreguicei, estava mesmo cansada. Após um banho quente, só conseguia pensar em me jogar na cama e dormir, mas a fome estava lá para me lembrar que deveria comer algo antes. O lado bom da minha família, eles respeitavam nosso espaço e silêncio. Mesmo com suas curiosidades, minha mãe nunca avançava o sinal e sempre me dava liberdade para falar com ela quando quisesse. Me respeitando, nem tocou mais no assunto do e nossa amizade. O jantar foi tranquilo e cheio de informações sobre o rendimento escolar de Jinho e sua futura excursão ao zoológico.

No dia seguinte, acordei na metade do dia.

Fazia tempos que isso não acontecia. Me levantei, espreguiçando. Uma esplêndida noite de sono, desfrutada com sucesso. Ao chegar à sala, vi um bilhete da omma deixado na mesa de centro, meu almoço se encontrava no microondas. Comi com deleite e voltei para o quarto. Peguei meu celular e notei uma mensagem de no kakaotalk, nós tínhamos trocado os contatos para nos comunicar melhor. Nossa sorte era que estava no horário do intervalo, trocamos algumas mensagens.

“como está tudo aí?” — perguntou ele.
“bem, acabei de acordar e fui comer.”
“sortuda.”
“e você?”
“aqui, eu estou fazendo cálculos de matemática.”
“que tristeza”
“o professor perguntou se estava melhor”
“que fofo da parte dele”
“ele ficou preocupado, todo mundo ficou”
“diga a todos que estou bem agora.”
“vou dizer, sim, estou fazendo muitas anotações para te emprestar”
“komawo *-*!”
“tenho que ir agora, se recupere bem!”
“vou, sim, só preciso dormir mais! kkkkkkkkk”

Ri de leve da última parte.

Deixei meu celular em cima da cama e liguei o meu notebook. Coloquei minha playlist do EXO para tocar enquanto desenhava um pouco em algumas folhas brancas soltas. Quando a noite chegou, appa e omma chegaram juntos com Jinho, não demorou muito e o professor Han tocou em nossa porta. Ele estava com sua maleta, sentamos na mesa do jantar, e ele começou a me passar toda a matéria dos dois dias, me explicando de forma rápida e superficial os pontos mais importantes. Como sempre, eu passei 50% do tempo admirando aquele sorriso tímido que ele tinha. Passou um tempo até que ele recebeu uma mensagem, tivemos que acelerar as últimas tarefas, e ele se foi. Após o jantar, ajudei omma com a louça suja, nós conversamos mais um pouco sobre minha saúde. Quando terminamos, voltei para meu quarto e fui dormir.

Amanheceu o dia, uma linda sexta-feira de chuva. Felizmente, eu amava o clima chuvoso e não iria à aula também. Isso, sim, era boa notícia. Ajudei omma a organizar a casa, meu appa traria um amigo de infância para o jantar de hoje. Já não bastava ela estar ansiosa pelo jantar com o , mais do que eu por sinal, graças ao appa, hoje também teríamos visitas. As horas se passaram, e à noite os convidados do appa chegaram com ele. Eu ainda estava no meu quarto me arrumando. Coloquei uma regata branca com uma camisa xadrez vermelha e um jeans surrado, aquele era meio que um estilo que eu vestia muito em Londres. Saí do quarto e, quando entrei na sala, meu corpo congelou na hora, havia um rosto conhecido sentado entre as almofadas com meu irmão, jogando Xbox.

Um rosto que não esperava ver tão cedo.

— Ah, aqui está minha princesa — disse meu pai, dando um largo sorriso. — DongHo, esta é minha filha, .
— Prazer, senhor. — Sorri de leve e me curvei em cumprimento.
— Que jovem simpática. — O homem me olhou com gentileza. — E bonita.
— E aquele é , seu filho. — Appa apontou para ele.
— Annyeonghaseyo. — Me curvei formalmente novamente, ainda não acreditando no que presenciava, mas iria agir como se nada tivesse acontecido entre nós.
— Boa noite. — Em cumprimento, se levantou e caminhou até nós. — Já nos vimos na escola uma vez.

Uma vez?!

Ok, segue o fluxo! Também iria ignorar brevemente o que estava rolando nos bastidores.

— Ah, então já se conhecem. — Minha omma me olhou sorrindo, seus olhos estavam felizes.
, vamos terminar nossa partida — protestou meu irmão, vendo que toda a atenção estava sendo voltada para mim.
— Claro. — sorriu de canto e voltou para onde estava sentado.
— Fiquem à vontade. — Minha omma pegou em minha mão. — Vem, querida, me ajude a colocar a mesa.

Eu segui minha omma até a cozinha, demoramos um pouco para colocar os pratos e as travessas com comidas, omma chamou eles e nos sentamos todos à mesa. Nossa mesa era redonda de vidro, sentou justamente de frente para mim.

Aquele idiota de sorriso nebuloso, notei que não parava de me olhar.

“Quanto mais você me perturba
Mais eu gosto de você
E eu não sei porquê.”

Yeowooya / Lunafly

Após o jantar, appa e o senhor Dongho foram para o escritório beber e meu irmão ficou na cozinha ajudando a omma, era a noite dele. Já eu, fui para a varanda tomar um ar, estava mesmo precisando.

— Bonita a decoração — disse , ao chegar à porta.
— Minha mãe tem bom gosto. — Mantive minha atenção nos prédios iluminados.
— Conseguiu voltar ao normal? — Caminhou até mim e debruçou um pouco no guarda-corpo que era de vidro.
— Longe de você — o olhei — tudo fica perfeito.
— Yah… Quanta sinceridade. — Seu olhar tinha traços de alguém meio ofendido. — E só temos três dias.
— Irônico, não é?

Ficamos parados nos olhando por um tempo, até que seu pai o chamou para ir.

— Nos vemos na segunda — disse, com um sorriso de canto. — Te desejo boa prova.
— Cínico — sussurrei.
— Ah! — Se virou. — Você ainda tem uma dívida.

Eu desviei meu olhar, engolindo seco.

Não queria mais olhar aquele sorriso pretensioso dele. Fui para meu quarto, troquei de roupa e me joguei na cama. O sono veio com a mesma rapidez que as horas se passaram. Eu mal comecei a sonhar e já estava na hora de levantar. Bem, aquilo não era um sonho, estava mais para pesadelo. Sonhei que estava fazendo uma prova para aquele idiota do , ainda não acreditava como uma pessoa conseguia me irritar tanto como ele.

Sábado à tarde, levei meu irmão ao parque, nunca o vi tão sociável quanto aquele dia com as crianças que estavam lá. Nos divertimos bastante, até que recebi uma mensagem da omma, nos mandando retornar. Quando chegamos em casa, Jinho foi correndo para o banho, e eu enviei o endereço do apartamento para , havia esquecido. Ele chegou sozinho, seus pais tinham viajado. estava tão diferente, bonito e descontraído sem o uniforme da escola. Vestia uma camisa do Hillsong United, uma calça jeans meio rasgada na região da coxa e all star preto.

O sorriso gentil e carismático era o mesmo.

— Que bom que não se perdeu. — Sorri para ele. — Fiquei preocupada, não sabia explicar direito o caminho.
— Não se preocupe, nada como o google maps para ajudar. — Riu e entrou.
— Omma! — Fechei a porta. — chegou.
— Oh! Que bom, bem na hora. — Minha omma o abraçou de leve. — Que bom que veio, fico feliz que tenha arrumado um amigo.
— Bem, é um pouco difícil não ser amigo da sua filha. — Ele me olhou, senti um certo carinho naquele olhar.
— Você que é muito gentil. — Sorri, devolvendo o elogio dele.
— Hum. — Meu pai tossiu de leve, se levantando do sofá. — Estamos mesmo felizes por ter vindo.

se curvou em agradecimento, sua educação era admirável.

O jantar foi tranquilo, appa sempre perguntando como eu me comportava em sala de aula, e me elogiando com um disfarçado sorriso. Omma tinha preparado um jantar meio italiano e muito saboroso. Depois que comemos, eu e juntamos os pratos e levamos para cozinha, ele se ofereceu para ajudar a lavar a louça. Fiquei admirada com isso. Conversamos sobre os acontecimentos na escola durante os dias que eu estive fora.

— Vou ser sincero, está meio chato sem você. — Sorriu timidamente. — Ainda mais as aulas de literatura.
— Sério? — O olhei chocada. — Agora me deixou surpresa.
— Claro, você disse que citaria alguns poemas para mim, fiquei cheio de expectativas para isso. — Fez cara de chateado.
— Que dó, me desculpe, , mas eu realmente precisava ficar em casa. Foram férias forçadas, porém merecidas.
— Te dou um desconto só se entrar no clube de leitura. — Em sua barganha.
— Ah, ainda estou pensando sobre os clubes. Eu vi que tem um de arte e desenho, me interessei um pouco — expliquei minha demora em decidir.
— Se é o que gosta, acho que deveria entrar nos dois. — Riu.
— Vamos ver, vou pensar direito. Não tem nem uma semana direito que cheguei, ainda me sinto meio perdida em tudo isso. — Suspirei fraco.
— Se precisar de um guia, estou aqui. — Se prontificou. — Amigos são para isso.
— Você é um amigo muito fofo! — Sorri com gentileza. — Obrigada pela ajuda, vou mesmo precisar!!!

Ele também me contou sobre os boatos que foi visto aos beijos atrás da quadra com uma menina do segundo ano, aposto que se eu tivesse lá, ele ficaria me perseguindo com a desculpa da dívida. retirou seu caderno na mochila e me emprestou para que eu pudesse colocar em dia tudo que tinha perdido. Antes de ele ir embora, minha omma entregou uma pequena vasilha com a sobremesa para que ele levasse para seus pais.

--
: on

Foi pura sorte tê-la visto naquele parque pela manhã.

Mesmo não a deixando me ver, fiquei de longe observando-a brincar com seu irmão. Aquele foi um momento raro em que pude vê-la sorrindo espontaneamente, e seu sorriso me encantava de uma forma inexplicável. Meu coração acelerou ainda mais. Naquela noite de sábado, me reuni com a Prince Line na casa de Junhae, estávamos fazendo nosso mensal campeonato de Starcraft. Mesmo sendo meu jogo favorito, havia algo me incomodando, eu estava sentindo falta de alguma coisa.

— Parece que alguém aqui não está entre nós de fato — comentou Hwang, jogando a almofada em mim.
— Está pensando na notava estrangeira?! — sugeriu MiJun.
— Yah!! — Peguei a almofada e joguei nele. — O nome dela é , e só eu posso chamá-la de novata estrangeira.
— Hummmm…. Estava pensando nela — constatou Junhae.
— YAHHHHH… Pare você também, não estava…
— Estava, sim, seus olhos estavam brilhando, mais ainda que no dia que comprou sua moto. — MinSoo riu de mim. — Confesse logo.
— Confessar o quê?! — O olhei confuso.
— Que foi amor à primeira vista e está apaixonado — explicou ele.
— Claro que não, não estou apaixonado por ela. Por que estaria?
— Negou demais. — Junhae soltou uma gargalhada estranha, fazendo os outros rirem.
— Não estou negando, só estou…
— Hyung, você está apaixonado, só não percebeu ainda. — MiJun me olhou, suas palavras pareciam sinceras.
— Desde quando você sabe sobre o amor?
— Desde que conheci a Nara noona, porém sei que nunca serei correspondido, então prefiro esquecê-la — respondeu.
— Aish, sua criança. — Joguei a outra almofada nele.

Voltei meu pensamento novamente para .

Logo me senti desanimado e sem vontade de fazer nada. Mesmo gostando de estar entre meus amigos, que considerava irmãos, não estava feliz naquele lugar. Certamente aquele sentimento era o fato de não vê-la na escola, um pouco de culpa interna por irritá-la demais. Pensar que teria ficado mal por minha causa me deixava ainda mais agoniado.

“Por que as pessoas que gosto se machucam comigo?!”

Pensei comigo mesmo. Talvez fosse aquilo que me impedia de querer assumir algum sentimento por ela, não queria machucá-la.

— Estou indo primeiro — disse, me levantando do sofá e pegando minha mochila.
— A omma está fazendo o jantar, não vai esperar? — perguntou MinSoo.
— Não, preciso chegar mais cedo hoje. Se divirtam por mim. — Me dirigi para a porta.

Meus amigos entendiam que quando eu precisava chegar mais cedo, realmente não podia me atrasar ou levantar a fúria do meu pai, tínhamos nos dado uma trégua por causa do jantar na casa de . Tive que dar meu braço a torcer só para poder ir lá. Que coisa mais boba da minha parte, mas vê-la naquele dia foi como recarregar minhas energias.

— Yahhh… Não posso me apaixonar por você — sussurrei, enquanto caminhava pela rua. — Você é boa demais para mim!

Sim, ela era!

Assim que cheguei ao apartamento na cobertura do meu pai, o encontrei conversando com uma “amiga” na sala. Virei meu rosto, não demonstrando interesse, subi as escadas e me tranquei em meu quarto. Definitivamente não queria sermões naquela hora, já estava antes das dez da noite em casa, então não haveria reclamações quanto a isso. Fiquei alguns minutos jogado na cama, olhando para o teto, pensando qual poderia ser minha próxima forma de cobrar a suposta dívida.

— Desta vez tem que ser alguma coisa mais demorada — sussurrei, ao olhar para o relógio na escrivaninha.

Havia passado mesmo muito tempo afogado em meus pensamentos, todos se resumindo a uma única pessoa. Era divertido fazer tudo aquilo.

: off

“Meu dia está cheio de você depois de conhecer você
Vendo você ou sentindo sua falta
Meus pensamentos são muito para você, eu não sei o que fazer.”

Seeing You Or Missing You / Lunafly


5.

Beautiful

“O curso de tudo se interrompe apenas com o tocar de seus dedos
Parece que eu vejo você por onde quer que eu passe
Você é a resposta,
E eu não consigo voltar atrás agora
Eu não consigo me parar,
Eu apostarei em você.”

— Bad / Infinite

Domingo de manhã, acordamos cedo para sair.

Visitamos a igreja J-US Ministry, onde um outro amigo do appa era pastor. O lugar era bonito e muito bem decorado, havia um jardim na lateral do templo que tinha alguns desenhos grafitados pelos jovens da igreja no muro, desenhos representando algumas histórias da Bíblia. Fiquei impressionada com a riqueza de detalhes nos desenhos. Na hora do almoço, fomos convidados por esse amigo para participar da refeição em sua casa. Ele tinha uma esposa super simpática e um filho de 9 anos. Passamos a tarde em sua casa. Como sempre, enquanto todos os adultos conversavam na sala, eu fiquei com meu irmão e o pequeno MiNam na sala de tv, jogando PS3. Voltamos ao final da tarde, afinal, a vida acadêmica não tirava férias e ainda tinha que estudar para a prova de segunda, e foi o que fiz, até que minha mãe me mandou ir dormir, ameaçando cortar a energia do meu quarto.

Assim terminou meu final de semana, mais ou menos divertido.

— 6 horas da manhã / segunda-feira

Acordei assustada com o despertador do celular tocando. Me veio um alívio por não estar atrasada, deu tempo até para o café da manhã. Quando cheguei à escola, fui direto para a sala. já estava na porta me esperando.

— Meus pais pediram para agradecer pela sobremesa.
— Ah, não foi nada. — Entramos e me sentei no meu lugar. — Minha omma adora sair distribuindo doces para os amigos.
— E como foi o domingo? — Ele se sentou de lado e ficou me olhando.
— Almoçamos na casa de um amigo do meu appa. Foi legal, estudei um pouco à noite.

Não demorou muito e o professor Siwon entrou na sala e com uma boa notícia, nossa prova de destaque havia sido adiada para terça-feira da próxima semana. Fiquei feliz, pois teria mais tempo para absorver aquela triste matéria de logaritmo, que estava me dando preocupações. Desta vez, a aula foi produtiva, acho que dois dias a mais em casa me descansaram muito e, mesmo que me distraísse imaginando como seria um encontro impossível com o professor Siwon, consegui entender tudo que ele havia anotado no quadro. E quanta matéria, cheguei até cogitar a ideia de fotografar em vez de escrever no caderno.

Finalmente o sinal tocou e fomos liberados para o intervalo.

— Vamos sentar no pátio hoje? — perguntou , colocando sua mochila nas costas.
— Ah, não. — Eu o olhei. — Eu vou à biblioteca primeiro, se não se importa, mas pode me esperar em alguma mesa.
— Se quiser, posso ir com você.
— Não precisa, sério. — Eu segurei firme os livros que estavam em minha mão e me aproximei dele, dando um beijo de leve em sua bochecha. — Te vejo daqui a pouco.

Eu o deixei sem reação, isso era um fato, mas tinha que passar na biblioteca sozinha, já que o idiota do tinha me mandando uma mensagem que estaria me esperando lá. Como será que ele descobriu meu id no kakaotalk? Até aquele momento, eu não tinha entrado na biblioteca. Fiquei surpresa com tamanha organização, meus olhos brilharam, até que uma certa pessoa se aproximou.

— Pensei que não viria — disse , parando ao meu lado.
— Se eu não viesse, me buscaria. — Eu o olhei. — Então, como vou quitar a última dívida?
— Hum. — Ele me olhou tranquilamente, aquele olhar era profundo e tinha um charme que me dava raiva. — Eu tenho um teste de francês e…
— Quer que eu faça pra você?
— Bem. — Ele sorriu de canto. — Eu não tinha pensado nisso. — E rindo. — Queria que me ajudasse a estudar.

Hum?! Fiquei sem reação em todos os sentidos. Achei mesmo que fosse uma pessoa que levasse vantagem sobre os outros, mas, olhando assim, ele parecia uma pessoa diferente do que aparentava, como se escondesse algo por trás do status de filho do dono da escola.

— Minha ajuda? — Ainda não conseguia digerir aquilo.
— Está surpresa? — Riu mais um pouco. — Não sou tão mercenário assim.
Ha...ha...ha… — Eu caminhei até uma estante e fiquei olhando entre os livros.
— Então podemos começar no final da aula. — Ele se aproximou de mim. — Prometo te levar para casa.
— Abusado — eu sussurrei. — Tenho outra escolha?
— Bem, se você quer saldar sua dívida! — reforçou ele.
— Tudo bem, no final da aula começamos. — Voltei minha atenção aos livros, guardando minha indignação para mim.

Não acreditava que iria passar alguns dias ensinando o básico de francês a ele. Durante aquela semana, todos os dias, no final da aula, eu e nos encontrávamos na biblioteca para estudar francês. Eu ainda achava aquilo tudo uma loucura, contudo, ele se mostrava atento a cada ensinamento e dica que eu dava.

“Quando eu me ver durante estes tempos
Eu sinto que eu realmente sou jovem
Mesmo com você na minha frente
Eu não sei o que fazer
Pessoas apaixonadas me digam por favor.”

— Hello / SHINee

No sábado, ele havia me mandado uma mensagem para ir de manhã à sua casa, junto a uma foto de um desenho meu que estava no meu sketchbook. A princípio, eu não ia, mas a curiosidade estava tomando conta de mim. Logo após tomar meu café da manhã, avisei minha omma que iria à casa de um amigo estudar. Primeiro ela pensou que poderia ser . Quem me dera! Expliquei que estava ajudando com a matéria de idiomas.

Quando cheguei à frente de sua casa, toquei a campainha e fiquei esperando no portão, que era de grade. Do lado de fora, dava para ver o pequeno jardim estilo oriental do lado de fora da casa. Havia um caminho de madeira no estilo de um deck até a porta da casa, eu reconheci algumas plantas e fiquei encantada com outras. Havia uma árvore bonsai dentro de um vaso de porcelana ao lado da porta e uma fileira de bambus plantados nas duas paredes laterais da casa, era um jardim muito harmônico, que me despertou um forte desejo de desenhá-lo. Não demorou muito e abriu a porta com um sorriso de canto no rosto. Vindo em minha direção, abriu o portão, me deixando entrar. Assim que eu entrei, me curvei um pouco, em cumprimento. Logo olhei disfarçadamente para uma das janelas do segundo andar, então vi uma mulher que aparentava ter seus quarenta anos.

Entramos em silêncio, e logo uma mulher desceu as escadas.

— Oh! Aqui está ela — disse a senhora, razoavelmente empolgada. — Que bom que pôde vir.
— Hum?! — Olhei para sem entender.
, esta é minha omma, Kim Seohyun — explicou ele, segurando o riso.
— É um prazer conhecer a senhora — disse, meio sem jeito, a olhando.
— Eu fico feliz em ter aceitado almoçar conosco hoje, eu estava mesmo muito curiosa para conhecer a garota que ajuda nosso nos estudos.
— Almoçar?! — Olhei para novamente, depois para ela, tentando disfarçar minha surpresa. — Ah, sim, eu que agradeço o convite.
— Vou deixar vocês estudando um pouco, preciso buscar sua irmã na casa do seu pai e voltar para preparar nosso almoço. — Ela saiu com um sorriso largo em seu rosto, demonstrando animação.
— Almoço? Irmã? — Olhei para ele. — Você poderia me explicar agora?
— Se eu te dissesse que minha omma estava te convidando, não viria, então.
— Então achou que deveria me forçar a vir sem saber o que estava acontecendo de fato? — Analisei os fatos.
— Nossa, você realmente acha que tenho uma mente tão calculista assim?!
— Não acho, tenho certeza. — Eu cruzei os braços, permanecendo séria. — E, por acaso, onde está meu sketchbook?
— Eu o perdi, já disse.
— Mas e a foto?
— Ah, eu tirei antes de perder. Agora venha, temos que estudar. — Ele pegou em meu braço de leve e me puxou para a sala de estudos, me explicando que aquele lugar era o antigo escritório do pai dele, antes dos seus pais se divorciarem.

O lugar era descontraído e muito confortável, deveria ser interessante estudar em um lugar tão legal como aquele. Minha concentração seria mais produtiva ali do que na escrivaninha do meu quarto. Nos sentamos no chão, em cima do carpete, e colocamos os livros e cadernos sob a mesa de centro. Apoiamos nossas costas no sofá e passamos os primeiros trinta minutos concentrados, até que sua omma e irmã chegaram.

— Oppa!!! — disse a garotinha, que aparentava ter seus 7 anos, ao entrar correndo na direção dele. — Senti sua falta.

Eu ainda tentava me acostumar com essas formas de tratamento. Era interessante e divertido aprender todas e conviver com elas no dia a dia, apesar dos meus pais sempre me ensinarem. Oppa era usado pelas garotas para chamar irmãos, namorados e amigos íntimos, e unnie para chamar as garotas mais velhas. Já os meninos, usavam hyung e noona.
— Eu também, princesinha! — Ele a abraçou e me olhou. — , esta é minha irmãzinha, Sunny. Ela tem oito anos.
— Annyeonghaseyo, unnie. — Ela me olhou e sorriu de leve. — Ela que é sua namorada, oppa?
— Não! — eu gritei. — Apenas… estudamos juntos.
— Ela já tem um namorado e não é o oppa — explicou do seu jeito, voltando o olhar para mim.
— Eu não tenho namorado. — Respirei fundo, tentando não ficar irritada. Ele virou o rosto, segurando o riso.
— Princesa, o oppa está estudando. Por que você não vai ficar com a omma? Prometo que depois do almoço te levo para comprar sorvete.
— Oba! — Ela se afastou dele com seus olhos brilhando e saiu da sala correndo.
— Muito fofa a sua irmã — comentei.
— Sim. — Ele me olhou. — Vocês não estão mesmo namorando?
— O quê?
— É que estão sempre juntos. — Ele desviou seu olhar para o livro tranquilamente.
— Não, não estamos. é meu amigo e, mesmo que fosse, minha vida pessoal não interessa a você.
— Hum. — Uma risada boba surgiu. — Você fica mais linda quando está assim.
— O quê? — O olhei confusa. — Assim como?
— Irritada. — Em seu rosto se formou um sorriso leve.

Impressionante.

Paralisei por segundos com aquele sorriso, mas logo voltei ao meu normal. Realmente ficava irritada com muita facilidade quando ele estava perto de mim. Sua omma terminou o almoço pontualmente ao meio-dia. Antes de me sentar à mesa, liguei para minha mãe, avisando que ficaria para o almoço e voltaria mais tarde para casa. A senhora Seohyun cozinhava muito bem, a comida estava muito deliciosa. Como prometido, foi com Sunny até a sorveteria, e eu fiquei ajudando a ajumma Seo a arrumar a cozinha. Ela me contou algumas histórias da infância de e de como ele era um menino muito agitado e comunicativo.

Após o retorno de , passamos a tarde estudando. Enquanto isso, a ajumma e Sunny ficaram brincando no jardim.

— Acho que com isso encerramos. Já te ensinei tudo que podia, você fará uma boa prova na segunda — disse, fechando um dos livros.
— Com certeza, tive uma boa professora. — Ele olhou para a janela meio desanimado.
— Bem, então encerramos minha dívida. — O olhei de forma séria.
— Sim, encerramos. Você está livre de mim agora. — Sua voz estava um pouco estranha.
— Hum, onde tem um banheiro aqui? — perguntei, me levantando.
— Ah. — Ele se levantou também. — Você pode subir as escadas, primeira porta à esquerda.
— Obrigada. — Me afastei dele, saindo da sala.

Subi as escadas. Ao entrar no segundo andar, tinha um hall um pouco amplo, com uma estante e duas poltronas na parede que ficava a janela. Percebi que aquela era a mesma janela que eu tinha visto a ajumma. Cada uma das paredes laterais tinha duas portas, com certeza três eram os quartos. Eu segui até a primeira porta à esquerda, como dito, e abri.

Era o banheiro.

Entrei, me trancando, e utilizei de acordo com minha necessidade. Quando saí, olhei rapidamente para a porta ao lado e vi que estava entreaberta. Tentei segurar minha curiosidade, mas não resisti à tentação e entrei. Era o quarto de . Na parede da porta, tinha algumas prateleiras com vários dvd’s de games e alguns carros clássicos em miniatura. Sua cama ficava do lado direito do quarto e o guarda-roupas do lado esquerdo. Eu olhei para a mesinha ao lado da cama, onde reconheci um objeto que me pertencia. Caminhei até lá e peguei meu sketchbook. O abracei automaticamente, dando um longo suspiro.

— Por que será que eu sabia que você não iria resistir? — disse, rindo, encostado na porta do quarto.
. — O olhei. — Você deixou a porta aberta de propósito, não foi?
— Talvez. — Riu mais um pouco.
— Por que mentiu? — Mostrei meu sketchbook.
— Queria ver sua reação. — Ele caminhou um pouco, adentrando o quarto. — Foi engraçado.
— Não vou nem comentar isso. — O olhei atravessado. — Felizmente, não teremos mais nenhum contato a partir de agora.
— Minha omma está chamando para o lanche. — Seu rosto ficou sério. — E acho melhor não recusar.

Eu assenti com a face.

Notória sua forma de reagir às minhas palavras. Descemos para a cozinha e nos sentamos à mesa, que estava convidativa. Ajumma tinha feito um bolo de cenoura com calda de chocolate e chá de camomila. Naquele momento, eu estava mesmo aceitando ficar mais calma, ainda mais depois dos olhares de ironia de para mim.

Depois do lanche, me levou para casa no carro da omma dele. Nem acreditava que ele já tinha carteira de motorista. Quando cheguei em casa, no relógio já marcava sete da noite. Minha omma não estava muito preocupada, pois eu havia mantido ela informada de todos os meus passos naquele dia, e meu pai estava tranquilo, porque eu estava na casa da mãe do filho do melhor amigo dele, ou seja, eu estava quase em família. Ficamos um bom tempo reunidos na sala, vendo alguns programas de entretenimento que estava passando na televisão, até que omma foi para cozinha preparar o jantar. Eu a acompanhei e fiquei ajudando. Após o jantar, brinquei um pouco com Jinho no seu xbox.

Fui vencida pelo cansaço assim que meu corpo se jogou na cama.

: on

Foi divertida aquela tarde, e ter ela em minha casa… Surpreendente.
Não imaginava que viria mesmo com a foto do seu desenho, mas descobri algo hoje, era muito curiosa e isso seria divertido no futuro.

— Ah…. Acho que desta vez acabou — sussurrei para mim, enquanto guardava os livros na estante. — Foi divertida essa tarde.
— Oppa!!! — disse Sunny, se aproximando.
— Sim, princesinha! — Eu a olhei. — O que deseja?
— Oppa gosta da unnie que veio aqui hoje? — Seu olhar curioso me cativava.
— Por que a pergunta?
— Porque você nunca trouxe uma unnie aqui — respondeu.
— A unnie que veio aqui hoje faz seu oppa se divertir bastante, por isso ela veio — expliquei.
— Eu gostei dela, vocês vão namorar?
— O oppa não sabe ainda.

Eu a abracei de leve, a pegando no colo, e a levei para o quarto. A coloquei na cama e cantei um pouco a música do pequeno urso para ela. Quando adormeceu, deixei seu abajur ligado e saí, fechando a porta do quarto. Me sentei na poltrona do hall e fiquei pensando em tudo que havia acontecido naquela tarde e como me diverti muito mais com ela naquele dia do que no sábado passado que estava na casa de Junhae.

— Ela é só uma garota, — disse para mim mesmo, mas era nítido que ela estava marcando presença na minha rotina.

Eu não imaginava que uma garota como ela iria despertar algum interesse em mim, principalmente sem querer. Mas, analisando meus pensamentos, eu sempre me pegava pensando nela e em seu sorriso, e como ela ficava mesmo muito mais linda quando estava irritada comigo.

— Aish, , como você conseguiu fazer isso? — Eu ri de leve. — Não acredito que estou mesmo interessado nela. Novata estrangeira, não quero te machucar.

Eu estava convencido de que não queria ficar afastado dela, mesmo meu lado racional não querendo, deixaria meu coração comandar isso, então definitivamente deveria fazer alguma coisa para que ela permanecesse em dívida comigo novamente.

Mas o que eu poderia fazer para trazê-la de volta?

:off

Acordei um pouco antes do despertador do celular tocar. Me espreguicei um pouco e me levantei, tomei um banho gelado para acordar mais rápido e coloquei o uniforme. Quando entrei na sala, meu pai já estava se despedindo da omma com um beijo para ir para o seu trabalho. Ele acenou rapidamente e saiu apressado. Saí um pouco mais adiantada que de costume. Após tomar meu café tranquilamente, segui para o metrô, o meio de transporte mais rápido para a escola. Quando cheguei à escola, o portão não tinha nem aberto ainda. Alguns alunos já estavam esperando na entrada também.

?! — disse , ao se aproximar de mim.
. — Eu o olhei e sorri.
— Não costuma chegar tão cedo assim! — disse ele, admirado.
— Tive uma boa noite de sono. — Eu me espreguicei de leve novamente.
— Estou vendo. Ao que se deve isso?
— Não tenho mais dívidas!!! — Eu sorri novamente. — Estou livre dele!!!
— E por falar nele. — virou sua face para o portão, evitando olhar para a direção onde o Prince Line estava.
— Que bom que logo iremos entrar.

Assim que o portão se abriu, fomos os primeiros a entrar.
Queria o máximo de distância de e seu grupo de amigos. Quando entrei na sala, uma garota que sentava no fundo caminhou em minha direção, com a cara séria e fechada. Ela esbarrou em mim como se não tivesse me visto no caminho. A reconheci como uma das poucas amigas de Yuri.

— Bom dia, alunos — disse o professor, ao entrar na sala.
— Bom dia, senhor Choi — dissemos todos em coral.
— Vamos continuar de onde paramos na revisão de ontem. Como amanhã teremos nossa prova de destaque, hoje vamos revisar algumas matérias mais complexas — disse ele, olhando para mim. Acho que ainda estava preocupado por eu ter passado dois dias em casa.
— E vamos para mais uma aula cheia de cálculos — brincou , ao olhar para mim.
— Good Luck! — Eu sorri de leve para ele.

As horas se passaram e meu caderno já estava transbordando de anotações. O sinal tocou para o intervalo, eu e juntamos nossas coisas e saímos da sala. Caminhamos um pouco pelo corredor. Estava feliz que finalmente a prova seria na quarta. De repente, senti alguém pegar em minha mão e me puxar para longe de , era , não entendia por que ele estava fazendo aquilo.

— Ei, me solta. — Eu tentei fazer com que ele me largasse, sem sucesso.
— Você reclama demais. — Ele riu de canto e me virou, fazendo com que eu encostasse na parede. — Está com medo?
— Não. — Eu o olhei séria. Não sabia se prendia minha respiração para não sentir aquele perfume maravilhoso que ele tinha passado, ou se respirava fundo, tentando não deixar me levar com aquele momento. — O que você quer agora?
— Agradecer. — Um olhar de gentileza. Aquilo me fez paralisar por uns instantes.
— Agradecer? — Estava surpresa com aquilo. No choque, deixei minha mochila cair. — Não podia fazer isso na frente do ?!
— Sim e não. — Riu ao se abaixar e pegar minha mochila. — Por que está surpresa? — Seu olhar fixou no meu, prendendo minha atenção. — Você estudou comigo. Graças a você, consegui fazer uma boa entrevista hoje mais cedo. Meu professor ficou admirado.
— Ah, isso. — Tentei manter minha respiração natural e controlada, mas olhar para aqueles olhos dele estava me deixando desnorteada. Ele tinha algo que me hipnotizava. — Que bom… que… conseguiu.
— Sim. — Ele se aproximou mais de mim e apoiou sua mão direita na parede, na altura do meu rosto.
— Se isso for tudo, eu… — Parei por um momento, sentindo meu coração acelerar. — , você está...
— Só queria que soubesse que minha irmãzinha quer te ver de novo. — Ele sorriu de canto, me entregando minha mochila, e se afastou de mim. — Até mais.

Uma piscada de leve e risadas de sua parte soaram enquanto se afastava.

“Eu não sei, meus amigos me dizem que eu sou louco
É a minha primeira vez se sentindo assim desde que nasci
Você não é completamente meu tipo ideal, nem o corpo
O que você fez para mim.”

— Seeing You Or Missing You / Lunafly


6.

Good Boy

“Quero ser como seu diário, para saber os segredos do seu coração,
Quero ser como seu gato por apenas um dia,
Você me alimenta com leite quente e o abraça ternamente.”

— Hug / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)

Fiquei por um tempo ali parada, olhando para o nada, tentando me recuperar. Como sempre, estava perplexa pelas atitudes dele. Minutos depois, se aproximou de mim e estava com um pacote em suas mãos.

. — Ele me olhou — O que aconteceu?
— Nada.
— Tem certeza? O que ele queria? — esticou o pacote. — Trouxe para você.
— Obrigada. — Eu peguei o pacote e sorri de leve. — Ele só queria me agradecer por ter estudado com ele.
— Hum. — disfarçou um pouco. — Pelo menos isso vindo dele.
— Sim. — Eu olhei para a escada. — Vamos, antes que o intervalo termine.
— O que tem nesse pacote? — perguntei curiosa.
— Aqueles mangás que fiquei de te emprestar — respondeu.
— Hum… Então é melhor eu guardar eles no armário antes de voltar para a sala.
— Se quiser, eu te acompanho — se ofereceu.
— Oh não, a última vez você chegou atrasado por minha causa. Deve dar exemplo, senhor presidente da classe. — Eu ri de leve e saí correndo na sua frente. Subi alguns lances de escadas até chegar ao corredor onde ficava meu armário.

Deixei minha mochila no chão e abri o armário tranquilamente. Enquanto estava ajeitando o pacote dentro, percebi que havia duas cartas que pareciam de declaração ali dentro, algo que não imaginava receber tão cedo. Do lado externo, nenhuma das duas tinha remetente, me deixando ainda mais intrigada para saber de quem era. A única coisa escrita era a data, uma escrita hoje e a outra escrita há três dias.

— Olha só quem está aqui… — disse uma voz feminina bem próxima.
— O quê?! — Eu fechei o armário e, me afastando, vi uma menina escorada nele. Parecia estar mascando chiclete.
— Eu te conheço?! — Não reconhecia seu rosto.
— Não, mas logo vai. — Ela endireitou seu corpo e chutou minha mochila para trás. — Novata estrangeira.
— Ah, não, mais uma com isso. — Eu me movi para cima dela, vendo que tinha mais duas garotas atrás acompanhando. — Me devolve a mochila.
— Acho que não. — A primeira garota se colocou na minha frente e me empurrou com força, me fazendo cair.
— Você é louca, o que acha que está fazendo?! — disse assustada.

Eu já havia pesquisado sobre bullyings nas escolas coreanas, não eram somente exageros o que tinha visto em alguns doramas colegiais, como The Heirs ou School 2013, era real que às vezes chegavam ao extremo da maldade de alguns alunos, mas nunca imaginaria que fosse sofrer isso, já que, aparentemente, gostavam de estudantes de outros países.

— Achou mesmo que seria amiga do Prince e sairia ilesa?! — perguntou ela.
— Eu não sei do que está falando. — Me levantei, sentindo uma leve dor em meu joelho, havia ralado quando caí. — Quem é prince?
— Não deveria estar em outro lugar? — Aquela, sim, era a voz que certamente não imaginava ouvir. — Você ainda está suspensa.
— Oppa. — A garota se virou, e lá estava ele.
… — sussurrei, me encolhendo um pouco. Ele as conhecia.
— Acho que isso não é seu. — Ele pegou minha mochila da mão da menina que tinha algumas fitas no cabelo e veio em minha direção. — Não posso te liberar nem um pouquinho que já arruma confusão. — Sorriu de canto. — Você está bem?!
— Acho que sim — disse, pegando a mochila de sua mão, ao mesmo tempo tentando esconder meu joelho machucado.
— Mente muito mal. — Seu olhar sério me estremeceu por dentro, então o desviou para as garotas. — Eu só vou dizer uma vez, então prestem atenção. Fiquem longe dela.

segurou em minha mão e me guiou até as escadas. Seguimos em silêncio até chegar à enfermaria. A porta estava trancada e, ao olhar pelo vidro da janela, constatou que estava vazia.

— Eu vou ficar bem, não se preocupe — disse, me afastando dele.
— Pare de dizer besteiras. — Ele pegou seu celular do bolso da calça e mandou mensagens para alguém. Se manteve sério o tempo todo, nem parecia aquele pesadelo que me irritava.

Eu tentei, mais uma vez, ir embora, sem sucesso.
me fez ficar sentada no banco ao lado da porta enquanto esperávamos. Foi quando uma garota veio correndo em nossa direção com uma caixinha nas mãos. Consegui reconhecê-la, era uma das líderes de torcida.

— Aqui está, Prince, oppa — disse, ao parar, esticando a mão com a caixinha para ele, tentando recuperar o fôlego. — Vim o mais rápido que pude.
— Komawo, Hari. — Ele sorriu, pegando a caixinha. — Pode ir agora.

Ela sorriu e, brincando, bateu continência, então se virou e saiu correndo de novo.

— Hari… — sussurrei.
— Vai perguntar se ela é minha namorada? — Ele riu baixo, se ajoelhando na minha frente. Colocou a caixinha ao lado, era branca e estava escrito primeiros socorros de rosa. — Não, ela já tem um namorado e não sou eu.
— Não era isso que ia perguntar. — Cruzei os braços.
— Tem certeza? — Me olhou confiante e sorriu de canto, então voltou a atenção para a caixinha e abriu.
— O que vai fazer?
— Não é óbvio?! — Ele riu, pegando um pedaço de algodão.
— Por que está fazendo isso?!
— Também não é óbvio?! — me olhou novamente. — Se quiser, pode segurar em minha camisa, vai arder um pouco.

Ele começou a limpar o arranhão no meu joelho. Me retraía a cada vez que sentia dor. Não me segurei e em um momento acabei segurando mesmo em sua camisa. Após limpar e desinfectar, colocou o band-aid de forma cautelosa, me deixando ainda mais impressionada.

— Pronto, pode ir agora — disse, fechando a caixinha e se levantando.
— Obrigada, doutor. — Eu ri de leve pela brincadeira. — Alguma recomendação médica?!
— Não arrume mais confusões — disse, com um tom de irritação.
— Como se fosse eu a culpada. — Peguei minha mochila que tinha deixado no banco e me levantei/ — Foram elas que começaram. Chegaram de repente, dizendo…
— Termine. — Ele se levantou também.
— Não importa agora. Tenho que ir para sala, o sinal já bateu. — Me afastei dele e segui para a direção do prédio da minha sala.

Me esforcei muito para não ficar mancando. Apesar de não doer mais, ainda sentia um formigamento e desconfortos no local. Assim que cheguei em frente à porta da frente da sala, o professor Siwon já estava à frente, com sua face séria e apreensiva, acompanhado do senhor Song, o supervisor e a pedagoga da escola.

O assunto parecia sério.

— Senhorita Kim. — O professor me olhou parada na porta. — Entre, por favor. Depois falaremos sobre seu atraso.

Eu assenti em silêncio e, entrando, corri para meu lugar. Olhei de relance para , ele parecia preocupado com minha demora.

— Alunos, serei direto — se pronunciou ao se levantar da cadeira e olhou para todos. — O gabarito das provas de amanhã foi roubado. — Respirou fundo. — E recebemos uma denúncia de que foi por um aluno do segundo ano.

Os alunos começaram a conversar entre si, perguntando quem poderia ter feito aquilo.

— Quem será que pode ter feito isso? — me olhou espantado.
— Não imagino. — Olhei para ele.
— Silêncio, juseyo — disse o professor Siwon. — O senhor Song está aqui para fazer uma revista geral nos pertences de todos os alunos.

Primeiro, o senhor Song fez um discurso longo sobre como era errado o que a pessoa tinha feito e que seria punida severamente. Assim, ele passou de carteira em carteira olhando todas as mochilas. Mesmo achando aquilo errado, não podíamos reclamar, era o supervisor e devíamos respeito.

— Nós iremos passar em todas as salas e iremos revistar a mochila de todos os alunos, sem restrições — disse senhor Song com firmeza, segurando firme aquela varinha de madeira que o fazia se sentir o rei da escoda.
— Mas isso não é justo — gritou Donghwa, se levantando. — E nossa privacidade?!
— Por acaso você está com algo na sua mochila que seja indevido? — perguntou Song, fazendo todo mundo rir de Donghwa.
— Não, senhor. — Ele se sentou novamente. — Não tenho nada para esconder.
— Então será a primeira que eu irei checar — disse indo, até sua carteira.

Não demorou muito até que chegou a minha vez.
Coloquei minha mochila em cima da mesa, ele pegou e a abriu. Passou alguns instantes revirando meus cadernos, até que retirou um papel azul dobrado. Eu nunca havia visto aquele papel e não tinha ideia de como havia parado ali. Pior ainda, era justo o que ele estava procurando.

— Aqui está. — Ele desdobrou o papel e verificou. — Encontramos o ladrão. — A sala toda me olhou surpresa. — Ou melhor, a ladra.
— Não. — Eu me levantei. — Não fui eu.
— Supervisor Song. — se levantou também. — Isto é um engano, ela não faria isso. Estive com ela desde o início da aula até o intervalo, nem passamos perto da sala dos professores.
— Sim — concordei com ele.
— Então explique o que o gabarito da prova está fazendo na sua mochila, mocinha? — retrucou ele. — Além do mais, este gabarito não foi roubado hoje pela manhã. Ao que tudo indica, foi roubado ontem.
— Eu não sei como foi para aí. Minha mochila sempre fica comigo o tempo inteiro. — Tentei explicar.
— E você sempre fica com o aluno o tempo todo na escola? — perguntou a pedagoga.
— Bem, não. — Eu olhei para ela. — Não o tempo todo, mas não fui eu, eu juro.
— Vamos à sala do diretor, você terá que nos explicar isso direitinho — disse o supervisor Song.

"Fique, tudo está seguindo de acordo com seus planos
A verdade está em suas mãos."

— Danger / Taemin

Mesmo não aceitando aquela acusação, eu segui para a diretoria em silêncio. Não sabia como explicar que aquilo não tinha sido feito por mim. queria ir junto, mas o professor Siwon achou melhor ele não se envolver naquilo, e eu também. A última coisa que eu queria era que se prejudicasse por minha causa. Fiquei alguns longos minutos esperando do lado de fora, enquanto o supervisor relatava tudo ao diretor Lee.

— Muito bem, senhorita Kim — disse o diretor, me chamando pelo sobrenome também assim que entrei em sua sala. — Agora se explique.
— Eu não sei como isso aconteceu. Eu juro que não fui eu. — Segurei as lágrimas que se formavam no canto dos meus olhos.
— Estava em sua mochila — ele insistiu. — Vai negar os relatos do supervisor Song?!
— Não, senhor. — Estava mesmo em minha mochila, só não sabia como havia chegado lá.
— Terei que notificar isso aos seus pais. O que fez foi muito grave, a suspensão não será o bastante — disse ele, mantendo seu tom moderado. — Talvez a senhorita tenha que ser expulsa da escola.
— Não. — Eu o olhei, deixando a primeira lágrima cair. — Diretor Lee, não fui eu.

Limpei minhas lágrimas rapidamente, não sabia como argumentar para convencê-lo de minha inocência.

— Lamento, mas a gravidade do delito me obriga a seguir as regras da escola.

Bateram na porta de repente.

— Entre — disse o diretor.
— Diretor Lee. — abriu a porta e nos olhou. — Preciso conversar com o senhor.

Ele respirou fundo, parecia ter corrido para chegar ali.

, o que faz aqui? Não posso ouvi-lo, estou ocupado.
— É sobre o roubo do gabarito. — Ele entrou na sala, fechando a porta. — Fui eu quem roubou.
— O quê? — Eu o olhei sem entender mais nada.
— Isso é muito grave. — O diretor se levantou de sua cadeira. — Está ciente de suas palavras?
— Sim. — Ele me olhou. — Eu roubei porque queria ajudar esta aluna, queria que ela tirasse uma boa nota. Assumo toda a responsabilidade. Ela não sabia de nada.
— eu sussurrei seu nome, o olhando, estava indignada com aquilo tudo.
, por que fez isso? Por que está ajudando esta aluna?
— Porque — ele me olhou — eu gosto dela.

O diretor suspirou fraco, parecia estar indignado como eu e ao mesmo tempo se controlando para não explodir de fúria.

— Muito bem, porque assumiu, irei ligar para seu pai. — Ele caminhou até sua mesa. — Não posso te expulsar, pois é o filho do dono da escola e meu sobrinho, mas não ficará impune o que fez.
— Tenho a plena consciência disso, diretor, e arcarei com as consequências dos meus atos. Só quero que o nome dessa garota continue limpo.
— Sim. — O diretor olhou para mim. — Senhorita Kim, pode retornar à sua sala. Se alguém perguntar, diga que está tudo resolvido e encontramos o verdadeiro culpado.
— Sim, senhor. — Caminhei até a porta e saí.

Ouvi alguns gritos do diretor até chegar ao corredor. Estava perplexa com aquilo tudo. havia roubado as provas, mas como tinha colocado na minha… Claro que ele havia me puxado para longe mais cedo para fazer isso, não acredito nisso. Quando cheguei à sala, disse exatamente o que o diretor havia mandado, o culpado havia confessado seu erro ao diretor e limpado meu nome.

— Obrigada por tentar me defender — disse ao , ao me sentar na minha carteira.
— Somos amigos, e amigos são para isso. — Ele sorriu de canto e virou para frente.
— Mas, me diga, quem foi? O verdadeiro culpado? — perguntou, curioso.
— Prefiro não comentar mais sobre isso. Daqui a pouco, todos saberão. — Me debrucei sobre a mesa e fechei os olhos, tentando descarregar toda a minha raiva de .

Minutos depois, o diretor começou a fazer um discurso pelo alto-falante, esclarecendo o aparecimento do culpado e informando que a prova seria dada no dia seguinte normalmente. Os suspiros de tristeza de alguns alunos puderam ser notados e o sorriso de alegria do professor Siwon também. Ao final da aula, fui a última a sair da sala, como sempre. tinha ido na frente, precisava ir à farmácia comprar algo para sua mãe. Saí da sala tranquilamente e, quando fui descer as escadas, dei de cara com . Ele estava encostado na parede, me esperando.

— Seu pabo. — O empurrei, estava com raiva. — Fez isso por quê? O que você tem contra mim? O que eu te fiz?
— Yah. — Ele segurou em meu braço, me fazendo parar de bater nele. — Eu te ajudo e é assim que retribui.
— Me ajuda?! Você colocou aquelas provas na minha mochila. — Tentei me soltar dele, sem sucesso. — Eu quase fui expulsa.
— Eu assumi no seu lugar e livrei seu pescoço. Deveria me agradecer. — Bufou, soltando meu braço, e se afastou. — Não fui eu que fiz aquilo. Jamais te prejudicaria assim.
— Eu me lembro do início da aula, você pegou minha mochila… Se não foi você, quem seria?! — Cruzei os braços, o olhando ainda com raiva.
— Essa é a questão… — Ele olhou para o teto, pensando. — Apesar da ideia ser boa, eu não sou tão mercenário assim… Mas…
— Mas o quê?
— Ah, não. — Ele se virou para parede e a socou. Parecia ter resolvido o mistério. — Droga.
— O que foi?! Dá pra me dizer? — Elevei meu tom para que sua atenção se voltasse para mim.
— Já sei quem foi, mas não podemos provar — disse, com uma pitada de frustração.
— Como assim, não podemos… — Minha mente já estava ficando ainda mais confusa. — , você pode, por favor, falar direito? Quem foi?
— Suas novas fãs. — Ele voltou seu olhar para mim de forma tranquila.
— Ah, não…

Logo me lembrei da pequena desavença que tive quando fui até meu armário. Aquelas três garotas tinham mexido com a minha mochila, claro que, enquanto a líder me distraía, as outras duas poderiam implantar o gabarito.

— Droga… — xingou ele, aumentando o tom. — Por que só agora eu pensei nisso?!
— Então a culpa é sua. — Eu o empurrei novamente.
— Yah, por quê?
— Porque elas vieram por sua causa — expliquei. — Nem as conheço e já estou sendo odiada, porque não me deixa em paz.
— Yoona me persegue há muito tempo, mas não imaginei que ela pudesse fazer isso com você. — Notei seu olhar descendo até meu joelho, sua voz estava amarga novamente.
— Mas… Não temos como provar?! A escola está cheia de câmeras de segurança — indaguei.
— Sim, exceto o corredor onde você escolheu ter um armário — retrucou, respirando fundo. — Com tantos armários, foi escolher justo aquele no corredor onde as câmeras não funcionam?
— Eu lá ia saber. — O olhei mais indignada ainda. — Está colocando a culpa em mim? A garota é uma sassaeng sua, não minha.

Ele encostou na parede e ficou me olhando com um sorriso malicioso no rosto.

— O que foi? Por que está me olhando assim?
— Já te falei que você fica mais linda ainda quando está com raiva? — Seu olhar era tão malicioso quanto o sorriso.
— Babaca. — Bufei de leve e ajeitei a mochila no ombro.
— Eu te levo.
— Não precisa — recusei, dando impulso para me retirar.
— Não me importo com a sua rejeição. Eu vou te levar — garantiu, ao retirar a chave do bolso. — Vamos chegar mais rápido.
— Pegou o carro da sua mãe de novo? — perguntei.
— Garota curiosa — comentou, ao rir. — Vamos logo.

“Fique, no momento a ponta dos meus dedos te seguem
Só você brilha no mundo todo.”

— Danger / Taemin


7.

Growl

“Meu dia está cheio de você depois de conhecer você
Vendo você ou sentindo sua falta
Meus pensamentos são muito para você, eu não sei o que fazer
O que eu vou fazer comigo mesmo?
Você tem que algo que eu preciso.”

— Seeing You Or Missing You / Lunafly

: on

Eu não conseguia parar de pensar naquele jeito fofo que ela tinha de me xingar, aquela garota estava mesmo monopolizando meus pensamentos para si. Permaneci por alguns minutos dentro do carro, olhando para a entrada do prédio onde morava, pensando se deveria ou não subir para fazer uma rápida visita aos seus pais. Seria engraçado se ela saísse do banho e me visse jogando com seu irmão, como da primeira vez.

Logo meu celular vibrou, era uma mensagem privada de Junhae.

“onde está?”
“o que foi agora?”
“estamos indo na casa do Hwang, vem também? ou vai pra casa ficar com seu pai?”


Fiquei pensando alguns instantes.

“????”

“Yah! Junhae, tenha paciência de me esperar responder”

“venha rápido, estamos curiosas para saber sobre o roubo do gabarito. tenho certeza de que não foi você”

“aish… vocês estão sendo muito curiosos, assim não ajudo ninguém com suas namoradas”

“yah, hyung, deixa de moleza e vem logo kkkkkkkkkkk”


Eu coloquei o celular dentro da mochila novamente e liguei o carro. O caminho foi curto até a casa de Hwang. Quando cheguei, sua mãe já estava preparando a mesa de centro da sala com alguns biscoitos que tinha feito e um bule de chá.

— Ajumma, não precisava — disse Junhae, largando sua mochila no chão, perto da porta, e se encostando na parede.
— Fale por você. — MinSoo caminhou até a mesa com seus olhos brilhando. — Precisava, sim.
— Yah, maknae. — Eu joguei minha mochila de leve nele. — Olha os modos na casa da ajumma.
— Oh!!! , não se preocupe. — Ela sorriu para mim, em seus olhos havia gentileza. — Se estão com fome, fiquem à vontade, mas antes lave as mãos. — Ela saiu sorrindo em direção à cozinha.
— Mais respeito em minha casa, MinSoo — disse Hwang, indo em direção ao banheiro.

Todos lavamos nossas mãos e voltamos para sala, nos sentamos no chão e começamos a devorar os biscoitos feitos pela ajumma.

— Pode ir desembuchando, hyung. Sabemos que não foi você o ladrão — disse MinSoo, com a boca cheia de biscoitos.
— Yah, já disse para ter modos aqui. — Hwang mandou a almofada nele.
— Vocês estão muito curiosos. — Tomei um gole de suco.
— Claro, se tem a envolvida, queremos saber — afirmou Junhae.
— Aish… — Eu o olhei, fazendo careta. — Foi a Yoona.
— O quê? — disseram em coral.
— Aquela louca não estava de suspensão? — perguntou MiJun.
— Ainda está, mas parece que teve tempo para fazer isso. — Bufei de novo, contrariado. — Tive que ficar no seu lugar, pois não tem como provar que foi a louca. — Me espreguicei um pouco. — Meu tio me deu algumas tarefas que vou adorar cumprir com meus fiéis amigos.
— A yahhhh… Você fica se fazendo de herói, e a gente tem que pagar junto.
— Claro. — Olhei sério para MinSoo por sua reclamação.
— Já entendi, hyung.
— Vamos mudar de assunto?! — sugeriu Junhae. — Depois descobrimos o que teremos de fazer.
— Que tal o baile de primavera? — disse MinJu, com animação. — Está se aproximando a data.
— Isso é bom. Este ano quem vocês levarão? — perguntou Junhae. — Lembrando que é o nosso último ano.
— Tem que ser a garota — enfatizou Hwang. — A minha já está escolhida.
— E quem pretende levar? — perguntou MinSoo.
— Vou levar a YeJin. — Ele tomou um pouco do chá que estava na sua xícara. — Ela me entregou uma carta de confissão na sexta, acho que devo dar uma chance.
— Ohhhhhh — dizemos todos juntos.
— Carta de confissão é legal. Ela já te chama de oppa? — perguntou MiJun.
— Sim. — Ele riu. — Ainda me sinto sem jeito quando ela diz.
— Está apaixonado — eu disse, fazendo todos rirem.
— Eu vou levar Hari. — Junhae me olhou. — Se o hyung me ajudar, ela ainda está brava comigo.
— É claro que vou. — Assenti, pegando mais um biscoito.
— Eu decidi levar Sooyong — disse MinSoo. — Ela é uma das garotas mais bonitas do segundo ano e entrou para o grupo das líderes de torcida.
— Não vai dar falsas esperanças para a garota — advertiu Junhae.
— É claro que não, hyung. — Ele fez cara de inocente, nos fazendo rir.
— A minha não é novidade — disse MiJun. — Vou levar minha namorada Chohee.
— E o pai dela vai deixar? — perguntou Hwang. — Sabemos que ele é muito bravo.
— Claro que vai, nada como uma garrafa de Soju para deixá-lo mais gentil. — Riu baixo, já pegando outro biscoito. — Estou descobrindo os pontos fracos dele aos poucos.
— Você é o único que não disse nada, hyung. — MinSoo me olhou curioso.
— Aposto que ele vai levar a estrangeira — comentou Junhae. — Com tantas garotas mais bonitas e que estão caindo por ele.
— Verdade. — MiJun pegou mais um biscoito.
— Yah, fique calado. — Eu olhei atravessado para Junhae. — Quem levarei não interessa. De qualquer forma, será a melhor garota da festa.
— É a estrangeira. — Concluiu MinSoo, fazendo todos rirem.
— Parem de falar dela — protestei. — Não sei se a levarei, e se for, quero que se comportem perto dela.
— Você que manda, hyung — brincou Junhae, batendo continência.
— Idiota. — Ri de leve, o olhando.

Passamos longas duas horas conversando e jogando um pouco no xbox de Hwang. Estávamos em uma competição de Mortal Kombat desta vez. Ao sairmos da casa de Hwang, eu convenci os outros a me acompanharem até a casa da minha mãe, eu tinha que devolver seu carro. Depois, fomos para o metrô. Entre risos e mais brincadeiras sobre o que faríamos no baile, tínhamos que deixar nossa marca do Prince Line. Aos poucos, cada um parou em sua estação. Quando cheguei em frente ao edifício do apartamento do meu pai, dei um suspiro cansado. A cada dia, estava ficando mais difícil morar com ele. Porém, não tinha escolha, só podia passar os finais de semana com minha linda omma.

Quando entrei no lugar, fui direto para meu quarto. Ouvi algumas vozes vindas do escritório do meu pai, com certeza ele estava com mais uma de suas “amigas”. Queria poder fugir dessa realidade.

— Que bom, pelo menos não terei que ouvir sermão hoje — sussurrei, ao chegar à porta do meu quarto.

Me tranquei, como de costume, joguei minha mochila no chão ao lado da cama e caminhei para o banheiro, já tirando minha camisa do uniforme. Tomei uma ducha quente e voltei para o quarto com a toalha enrolada em minha cintura. Caminhei até minha mochila e tirei meu celular dela. Fiquei olhando para a tela por um breve momento. Naquele instante, eu tinha reparado que havia colocado a foto de como protetor de tela, ainda não me lembrava em que momento e o motivo de ter feito isso.

Fiquei alguns minutos olhando aquela foto e resolvi mandar uma mensagem a ela pelo kakaotalk. Segurei o riso ao me lembrar dela gritando comigo no corredor, mas este pensamento me trouxe aquela afirmação da qual vinha fugindo, eu estava mesmo apaixonado por ela.

— Sim. — Caminhei até meu armário e abri a gaveta que ficava meus pijamas. — Agora irei te conquistar de verdade, novata estrangeira. — Eu ri de leve, pegando minha calça de um pijama que tinha ganhado de minha omma e imitando a voz dela. — Meu nome é !

: off

Não consegui dormir direito aquela noite, o que havia feito por mim havia me deixado sem reação e sem palavras. Por duas vezes, havia sido defendida por ele. Estranhamente, meu coração acelerou ao me lembrar dele cuidando do meu joelho machucado, apesar da culpa ser dele, inicialmente. Ainda assim, foi um estranho fofo ele cuidar de mim, com tanta atenção.

“O mundo inteiro tenta me agitar
Até mesmo meus amigos tentam animar as coisas
Dizendo que você e eu
Ficamos bem juntos.”

— How Nice Would It Be / Lunafly

Me levantei da cama, tomei minha ducha matinal e coloquei meu uniforme. Ouvi um barulho vindo do meu celular, era o despertador que não tinha desligado. Mexi um pouco nele e quando percebi que tinha uma mensagem no kakaotalk para mim, abri o aplicativo e olhei.

“Espero que seu joelho não esteja mais doendo, te espero no portão da escola.


Sorri de forma automática e meio boba. Era admirável ele ter me enviado uma mensagem àquela hora da noite. Guardei o celular na mochila, saí do quarto ainda meio sonolenta e fui para a cozinha.

— Querida, o que aconteceu? — Minha omma estava colocando a jarra de suco na mesa e me olhou preocupada. — Você nem quis jantar ontem.
— Desculpa, omma. — Me sentei na cadeira e coloquei uma fatia do bolo de chocolate no meu prato. — Estava sem fome, acho que é preocupação com a prova de hoje.
— Ah, sim, esta prova. — Ela sorriu para mim. — Espero que consiga fazê-la bem.
— Eu também, estudei muito. — Despejei um pouco de leite no meu copo e misturei açúcar mesmo. Comecei a comer, permanecendo em silêncio.
— E esse machucado aí? , o que aconteceu? — Ela veio toda preocupada olhar mais de perto.
— Eu caí, não prestei atenção. — Odiava mentir para a mamãe, mas não iria dizer que sofri uma tentativa de bullying na escola. — Não está mais doendo, está tudo bem.
— Tem certeza?! — Ela continuou me olhando desconfiada.
— Sim. — Assenti de imediato. Realmente não estava doendo mais.
— Bom dia, unnie. Bom dia, omma — disse Jinho, sorrindo.
— Nossa, que animação — disse minha mãe, servindo um chocolate quente para ele. — Bom dia para você, meu pequeno ninja.
— Omma, teremos uma excursão, eu poderei ir? — Ele pegou um pedaço do bolo e colocou no seu prato também e começou a comer.
— Claro, mas terei que saber mais sobre isto.
— Onde está o appa? — perguntou ele.
— Já saiu para o trabalho. — Ela se sentou na cadeira em frente a mim e me olhou. — Está muito calada hoje, . Isto é somente pela prova mesmo?
— Sim, omma, estou tentando me manter concentrada.
— Ah, então coma bem, assim sua mente funcionará direito. — Ela colocou alguns biscoitos no meu prato e no de Jinho. — E você também, pequeno ninja, comendo tudo para ir para a escola.

Eu sempre me sentia bem quando minha omma cuidava de mim daquela forma, ela me fazia sorrir mesmo quando queria chorar. Minutos depois de terminar meu café, voltei ao banheiro e escovei meus dentes, peguei minha mochila, me despedi dos dois e saí. Estações depois, cheguei à escola, e o portão já estava aberto. Poucos passos até o bloco onde ficava minha sala, me puxou pelo braço, me levando para trás da quadra de basquete. Tentei me soltar, mas era sempre sem sucesso. Ele estava com sua face séria, não me deixei intimidar, e ficamos nos olhando por alguns instantes.

— Seu joelho melhorou?! — perguntou, direto e sério.
— Sim, não está mais doendo.
— Te vejo depois da prova. — Ele se virou e seguiu em direção onde estavam seus amigos.

Eu fiquei paralisada com aquilo, ele havia me levado para longe só para perguntar como estava meu joelho, e foi assim, sem me irritar ou fazer onda com a minha cara? Nem de novata estrangeira me chamou.

— Aish, agora eu estou irritada. Não acredito que estou preocupada com a forma dele me tratar. — Respirei fundo e ouvi o sinal bater.

Tomei fôlego e corri até a sala. Quando entrei, felizmente o professor ainda não estava. Caminhei até minha carteira e me sentei, ficando em silêncio. se virou e ficou me olhando. Ele mexeu no meu cabelo, tentando chamar minha atenção para a realidade, mas eu não conseguia parar de pensar em tudo que tinha acontecido no dia anterior
.
? ? — disse ele.
— Hum?! — Eu o olhei.
— Está tudo bem? — Me olhou preocupado. — Eu vi quando te arrastou até os fundos da quadra de basquete.
— Sim, ele só queria saber como estava meu joelho.
— Verdade, você não me contou como se machucou. — Seu olhar curioso era engraçado.
— A história é longa e tem relação com o roubo de ontem.
— Sério?
— Sim.

Contei a em detalhes o que havia acontecido, desde a desavença no corredor dos armários, até quando eu e descobrimos quem de fato era o ladrão. Assim como nós, ele também ficou revoltado por não podermos provar, contudo ficou ainda mais surpreso por ter tomado a culpa para si para que eu não saísse prejudicada. Foram três horas de prova, 120 questões e muita concentração de minha parte. Quando terminei, já estava sentindo que minha coluna não existia mais de tanta dor e desconforto. Saí da sala pouco depois de . Ele estava no corredor, me esperando com sua mochila meio caída no ombro direito.

— Então, como foi? — perguntou.
— Acho que não passarei vergonha — eu brinquei um pouco, caminhando até a sacada, olhando o pátio. — Para a primeira vez, posso declarar que sobrevivi.
— Com certeza, todos somos sobreviventes. — Ele riu de mim, me seguindo. — Mas mesmo chegando depois, você estudou muito, trabalhou duro, então agora é esperar o resultado.
— Espero que seja um resultado positivo. — Eu ajeitei a mochila no meu ombro e o olhei de leve, sorrindo. — Conto com isso para pedir um tablet novo aos meus pais.
— Good luck. — Ele riu de leve, virando sua atenção para o corredor.
— Vou precisar. — Eu virei de costas para o pátio e encostei de leve na sacada.
— Hoje mais cedo ouvi alguns comentários sobre o baile de primavera.
— E pretende levar alguém? — Eu o olhei, ficando curiosa.
— Bem, eu estava pensando em convidar uma amiga, mas não sei se ela vai aceitar.
— Hum. — Eu imaginava que essa amiga fosse eu, mas não queria levantar falsas esperanças. era um amigo e nada mais que isso. — Mesmo não sabendo quem seja essa garota, eu te aconselho a convidar a Yuri. Eu vejo os olhares dela para você.
— Nunca percebi. — Ele desviou seu olhar para o chão.
— Mas deveria, acho que até sei por que ela não conversa comigo. Acho que Yuri gosta de você.
— E você? — Ele me olhou.
— Eu o quê? — Me senti um pouco intimidada com aquele olhar.
— Você vai ao baile? — ele reformulou a pergunta, acho que percebeu que eu havia entendido algo a mais.
— Não. — Eu desviei meu olhar para a escada. — Não gosto dessas coisas. Para dizer a verdade, nunca tive interesse em ir, nem quando eu morei na América.
— Que pena, seria legal se fosse — disse ele, num tom de frustração. — Geralmente os bailes promovidos pela escola são divertidos.

Meu celular tocou, era uma mensagem de . Olhei rapidamente e coloquei no bolso novamente.

— Preciso ir agora.
— Era o ? — Ele voltou sua atenção para o chão novamente, seu olhar estava triste.
— Sim. — Eu me afastei um pouco. — Mas pense no que te falei, Yuri gosta mesmo de você, deveria dar uma chance a ela.

Me virei e segui pelo corredor. Desci as escadas tranquilamente e caminhei em direção à quadra de basquete. Chegando à porta, abri um pouco e entrei. Os garotos do time estavam treinando, pois os jogos do campeonato intercolegial deste ano estavam próximos. Havia umas meninas sentadas na arquibancada, pareciam ser as líderes de torcida. Elas, além do professor de educação física/treinador Chang e sua auxiliar, eram as únicas que podiam ver o treino.

— Aluna Amélia, o que está fazendo aqui? — perguntou o treinador Chang. — Este treino é fechado.
— Ah, aqui está você — disse , se aproximando de nós. — Bem na hora.
— O que ela faz aqui? — O treinador o olhou sério.
— Então, treinador, o senhor disse que precisava de alguém para ser sua auxiliar nos treinos, aqui está ela. — me olhou com um sorriso nebuloso.
— O quê? — dissemos eu e o treinador juntos.
— Isso mesmo — confirmou, segurando o riso.
— Bem, contanto que esta aluna não atrapalhe. — O treinador se afastou, indo para o centro da quadra.
— Que história é essa de auxiliar? — Coloquei a mão na cintura, o olhando séria.
— Você novamente está se superando em ficar bonita. — Ele sorriu de canto.
— Não tem graça.
— Bem, eu te salvei, lembra? Voltou a ficar em dívida comigo.
— O quê? Preciso te lembrar que a culpa foi sua? Aquela louca fez isso por sua causa — argumentei.
— Não importa… — Ele continuou me olhando tranquilamente. — Você precisa participar de no mínimo dois clubes, até agora só entrou no grupo de estudos, que nem sei o motivo… E como só podia escolher o segundo até ontem, ou então levaria um demérito, achei que deveria te ajudar.

Oh, céus! Aconteceram tantas coisas na minha vida em pouco tempo que já estava me esquecendo dos pequenos detalhes daquela escola, além de suas chatas regras.

— Estou esperando.
— Esperando o quê? — perguntei confusa.
— Até se sentir confortável para me agradecer. — Ele piscou de leve. — Mais uma vez te salvei.

“Basta ficar como esta,
A medida que você só olha para mim,
Eu nunca vou deixar você ir,
Apenas observe.”

— Growl / EXO


8.

Colorful

“Eu quero dizer
Não sou um cara maneiro ou bonito
Eu sou apenas um honesto bad boy.”

— Ring Ding Dong / SHINee

Fiquei olhando sem reação, enquanto se afastava, indo em direção aos outros. Permaneci parada, ainda perto da porta, observando o treinador Chang orientar cada um deles. Após alguns minutos vendo-os trocando alguns passes dentro da quadra, o treinador se aproximou de mim com uma lista na mão.

— Aqui está. — Ele esticou a lista.
— O que é isso? — Peguei o papel, olhando assustada.
— Estes são os horários do treino e suas tarefas. No verso, tem um pedido meu para que você possa se ausentar das aulas que precisar, para acompanhar os treinos quando necessário.
— Ah. — Eu assenti meio sem reação novamente. Acho que não estava preparada psicologicamente para aquilo.

Eu olhei novamente para lista e comecei a ler:

“Horário:
9am — 10am — treino leve*
1pm — 1:30pm — prática de arremesso*
4pm — 6pm — treino intenso*

Tarefas:
— Manter toda a quadra limpa
— Manter as bolas guardadas
— Levar as toalhas para a lavanderia
— Auxiliar os jogadores com a hidratação, fazendo a manutenção das garrafas de água
— Manter sigilo quanto aos treinos

* indispensável a presença da assistente”


— Legal, por que o asterisco se já deu pra perceber que terei que estar aqui em todos os treinos? — sussurrei de leve, tentando absorver tudo aquilo.

Como aquele dia tinha sido reservado para a prova dos alunos do segundo ano, o time ficaria todo o horário dedicando-se aos treinos, e eu teria que ficar lá com eles. Dobrei o papel e guardei no bolso, coloquei minha mochila ao lado do armário das toalhas e fiquei olhando o treino mais um pouco. A cada cesta que eles faziam, as líderes de torcida gritavam um pouco mais alto.

— Ei, ajudante — disse Minsoo.
— Hum?! — Eu o olhei sem saber o que faria.
— Preciso de água. — Ele segurou o riso.
— Eu também — gritou Junhae, após dar uma enterrada na cesta.
— Ok. — Eu caminhei até a máquina de água, retirei duas garrafas e levei para eles. — Aqui está — disse, entregando.
— Preciso de outra toalha, ajudante — disse , ao chegar perto, dando um sorriso de canto.
— Mais alguém quer mais alguma coisa? — eu disse, segurando minha raiva.
— Precisamos comer alguma coisa, ajudante — disse Hwang, ao se aproximar. — Você terá que ir pegar comida para nós.
— O quê? — Eu o olhei.
— Não podemos parar o treino — explicou Hwang. — Se quiser, posso chamar o treinador.
— Não — eu disse, engolindo seco. — Eu vou.

Me afastei, indo em direção à porta.

— Minha toalha. — riu baixo.

Respirei fundo, indo até o armário. Peguei uma toalha, levei até ele e joguei em sua cara com toda raiva que consegui reunir. Fui até a cantina, estava tão afundada em minha revolta que me distraí e trombei em uma pessoa.

— Mianheyo — disse, quase em sussurro.
— Sem problema, — disse .
— Oh, você. — Eu sorri de leve.
— Sim. — Ele me olhou curioso. — O que estava fazendo na quadra?
— Hum. — Me encolhi um pouco. — Estou ajudando o time de basquete agora.
— Você gosta de basquete? — Estava surpreso.
— Digamos que sempre tive curiosidade — eu menti, mas por uma causa nobre, não queria dizer que era por causa de .
— Espero que consiga fazer um bom trabalho. — Ele sorriu de leve.
— Eu também! — O olhei curiosa. — E você? Não voltou para casa por quê?
— Me juntei ao clube de ciências — explicou ele. — Hoje foi nossa reunião sobre a feira de ciências que vamos organizar.
— Que legal. — O olhei admirada, até que me lembrei da minha missão. — , tenho que ir agora, nos vemos amanhã.

Me afastei dele e segui. Quando cheguei à cantina, pedi a ajumma super simpática que separasse o lanche do time de basquete. Ela havia preparado vários sanduíches para eles e me deu duas sacolas, uma com os sanduíches e a outra com as latas de suco.

— Aqui, querida, este é para você — disse ela, colocando um embrulho feito com papel de alumínio dentro da sacola dos sanduíches.
— O que é, ajumma? — perguntei a ela.
— Um bolo de cenoura, espero que goste.
— Oh, não precisava.
— Ah. — Ela sorriu para mim. — Você me parece ser uma menina muito especial, é para adoçar seu dia.
— Obrigada, ajumma, comerei feliz. — Eu sorri de volta e me afastei dela.

Retornando, andei um pouco devagar, olhando para o céu, estava um dia lindo e ensolarado. Ao chegar perto da quadra, ouvi alguns risos vindo de dentro e quando entrei, eles já estavam sentados no chão, no centro da quadra, com as líderes de torcida, comendo. Fiquei paralisada por um tempo. Meus olhos se encheram de lágrimas, deixei as sacolas caírem de repente, e eles olharam para mim.

Não consegui continuar ali, estava muito chateada com aquilo. Saí correndo da quadra antes mesmo que eles pudessem dizer alguma coisa.

: on

No momento que vi as lágrimas se formarem em seus olhos, senti meu coração apertar um pouco. Acho que havia exagerado demais naquela brincadeira, não sabia o que havia dado em mim. Eu era mesmo um babaca, sempre errando ao invés de acertar. Me levantei automaticamente e saí correndo atrás dela. Não sabia onde procurá-la primeiro, corri por toda a escola meio desesperado. Parei no meio do pátio para recuperar meu fôlego, sem saber o que fazer. Eu tinha magoado ela mais uma vez, e desta vez…

Não estava feliz com o resultado final.

, hyung — gritou Junhae, correndo até mim. — Encontrou ela?
— Não. — Eu desviei meus olhos para o chão.
— Não precisa se explicar, já entendemos o que sente por ela, hyung. — Ele colocou a mão direita no meu ombro. — Vamos procurar juntos de novo.
— Junhae?! — Eu o olhei surpreso.
— Prince Line toda. — Ele se afastou um pouco, e eu pude ver os outros de longe nos olhando. — A escola não é tão grande assim, vamos achá-la.
— Sim. — Eu assenti, agradecendo a ajuda.

Cada um correndo em uma direção, olhando de sala em sala. De repente eu me lembrei que não havia ido à biblioteca antes, estava tão desesperado que nem estava pensando direito. Quando entrei na biblioteca, a ajumma veio até mim em silêncio. Ela apontou para o fundo, e já estava entendendo o que ela queria me dizer. Aquela ajumma era muito gentil comigo e sempre me ajudava quando eu precisava. Pedi a ela para não deixar ninguém entrar e me afastei. Segui em silêncio até o fundo, ela estava sentada no chão, abraçada aos seus joelhos, chorando. Parei em sua frente e fiquei a olhando por um tempo. Estava pensando no que iria falar para ela, não sabia como me desculpar.

Nunca havia pedido desculpas a uma garota antes. Acho que este meu lado malvado estava entrando em conflito comigo, este era o lado do meu pai que eu odiava, mas havia herdado também.

.

: off

“Você é a garota que me deixa inquieto sempre que te vejo.”
— Bad / Infinite

Aquela era a primeira vez que ele falava meu nome. Senti meu corpo arrepiar quando ouvi sua voz. Mesmo chorando, chateada, aquela única palavra tinha me aquecido por dentro. Levantei minha face e o olhei, deixando algumas lágrimas caírem.

— O que está fazendo aqui? — Eu fixei meus olhos nos dele. — Veio rir de mim de novo?
— Não. — Ele pegou em minha mão e me puxou de repente.

Meu corpo se levantou com seu impulso, indo em direção ao corpo dele. Ao ficarmos bem próximos, me abraçou imediatamente, de forma suave. Eu não deveria demonstrar fraqueza, mas seu abraço era tão acolhedor que desabei em lágrimas novamente. Não acreditava naquilo, como ele conseguia fazer eu me sentir tão mal e depois tão bem? Não conseguia entender como ele tinha esse controle sobre mim, e isso me deixava ainda mais irritada e intrigada com ele. Ficamos por um tempo abraçados, até que ele se afastou um pouco e secou minhas lágrimas com sua mão suavemente.

Seu olhar era tão encantador que me fazia esquecer de tudo.

— Vamos, o treino ainda não terminou.
— Ah?! — Eu o olhei de novo, sem reação. Isso já estava virando um costume, ele fazia isso comigo.

Ele sorriu de canto. Que sorriso, vontade de matar ele de tão lindo. Segurou em minha mão e me guiou em direção à saída. Quando entramos na quadra, as sacolas não estavam mais no chão e os amigos dele estavam treinando naturalmente, como se nada tivesse acontecido. O treinador estava monitorando os passes deles atentamente. soltou minha mão de forma discreta e correu para o centro da quadra. Eu fiquei no canto olhando, até que o treinador se aproximou de mim, ainda atento aos meninos.

— Espero que não esteja muito cansada.
— Não, não estou. — Eu desviei meu olhar, colocando a mão na barriga, estava sentindo fome.
— Não comeu ainda, não é? — perguntou ele.
— Não.
— Vá se alimentar na minha sala, os meninos deixaram seu lanche lá.

Eu assenti meio admirada e corri até a sala dele. Ao entrar, perto da mesa da porta, estava meu bolo de cenoura, um sanduíche e uma lata de suco me esperando. Meus olhos brilharam de imediato. Puxei a cadeira e me sentei, nada como a comida para me fazer esquecer . Quando estava terminando, me virei para a porta e lá estava ele, encostado na porta, meu pesadelo.

— Gostoso o bolo? — perguntou.
— Sim. — Desviei meu olhar para a lata de suco na minha frente, não dando importância para ele.
— Que bom, fui eu quem pediu para ajumma fazer para você.
— Hum?! — O olhei novamente, meio surpresa. — Você?!
— Sim. — Ele sorriu de canto. — Disse a ela que uma garota especial iria buscar.
?! — sussurrei.
— Agora que já terminou seu lanche, ainda tem tarefas a cumprir — anunciou, ao se afastar da porta. — O treino acabou, e a quadra deve ficar organizada.

Ele saiu, mantendo aquele sorriso em sua face, e eu fiquei novamente indignada com seus atos. Como uma mãe tão simpática e fofa como a ajumma Seohyun podia ter um filho como ele? E como eu, depois de tudo, poderia ficar encantada com aquele sorriso? Comecei a ficar indignada comigo mesma.

— Babaca — eu sussurrei.

Ele era mesmo um pabo, que me fazia ficar maluca e irritada a todo momento. Joguei as embalagens do lanche no lixo e saí da sala do treinador, todos os jogadores e as líderes de torcida estavam sentados, conversando na arquibancada. Exceto MinSoo, que estava em pé, no canto, com uma menina também do segundo ano, chamada Sooyong, ela tinha entrado recentemente para o grupo das líderes de torcida. Eles ficaram em silêncio quando me viram. Respirei fundo e comecei a juntar as toalhas primeiro, andando de uma ponta a outra da quadra. Parecia que eles tinham espalhado as toalhas de propósito, e isso não era surpresa para mim. Depois que coloquei todas as toalhas no cesto, passei para as bolas, que também estavam espalhadas.

Permaneci em silêncio todo o tempo, com eles olhando para mim entre risos e cochichos. Aquilo me dava uma raiva, mas preferi manter minha tranquilidade mínima e continuar minha tarefa. Felizmente, a única coisa que não precisava fazer era varrer, ou limpar a quadra, isso o zelador faria com uma máquina apropriada. Voltei para a sala do treinador e comecei a organizá-la, o que me levou a pensar como ele conseguia se localizar no meio de tantos papeis soltos pela mesa. Assim que terminei, percebi um silêncio estranho do lado de fora. Saindo da sala, vi que todos já haviam ido embora. Peguei minha mochila e dei alguns passos em direção à porta, até que me pegou pela mão, me virando.

— Aonde está indo? — perguntou ele.
— Para casa.
— Você ainda não terminou. — Me mostrou a bola em sua mão.
— É sério isso? — O olhei, respirando fundo para não bater nele.
— Você quer? — Ele sorriu, esticando a bola.
— Não vou jogar seu jogo infantil. — Tentei pegar, mas ele fez um movimento de jogo, se desviando de mim.
— Assim você me ofende. — Ele se posicionou e lançou a bola, que caiu perfeitamente dentro da cesta. — Se tivesse pedido, eu te daria a bola.

Uma piscada de leve para mim e saiu rindo.

— Aish, babaca — eu gritei, extravasando minha raiva acumulada durante o dia todo.

Caminhei bufando até a bola e a peguei, segurei algumas palavras de xingamento e soltei outras, coloquei a bola no lugar e saí da quadra, fechando a porta. Eu o avistei de longe saindo pelo portão com seus amigos e aquelas garotas que me enojavam, acho que agora eu entendia o porquê de nunca gostar de líderes de torcida. Demorei para chegar ao metrô, meus passos estavam bem lentos e minha atenção bem longe dali. Pela primeira vez, não estava pensando em nada relacionado ao pesadelo. Assim que me sentei na cadeira do vagão que entrei, uma pessoa se sentou ao meu lado, olhei automaticamente.

— Aish — sussurrei.

Por que eu olhei?!

permaneceu em silêncio, estava com fone no ouvido e fechou seus olhos tranquilamente, agindo com naturalidade. Como ele conseguia fazer aquilo mesmo? Me deixava irritada com tanta facilidade e, odeio admitir, fascinada ao mesmo tempo, intrigada a todo momento. Quando chegou à minha estação, eu me levantei e ele também. Fiquei calada para ver o que ele iria fazer e, como eu previ, ele saiu atrás de mim e ficou me seguindo. Eu parei e me virei, o olhando. Ele parou e ficou me encarando, ainda com seus fones no ouvido. Seu rosto suave, seu olhar envolvente, um sorriso se formando no canto da boca. Respirei fundo e me aproximei dele, retirei seus fones.

— Está me seguindo?
— Não. — Pegou os fones e guardou na mochila, uma serenidade incomum no olhar que me impressionava. — Estou te acompanhando.
— Como?!
— Acha mesmo que te deixaria ir para casa sozinha? — Me olhou sério e pegou em minha mão. — Vamos antes que seus pais fiquem preocupados. Vou te levar até a porta.

Por essa eu não esperava mesmo, inacreditável seria a palavra certa. E, como dito, ele me acompanhou até a porta do apartamento. Quando eu abri, fiquei meio sem graça de não convidar ele para entrar. Mesmo me fazendo raiva, eu queria agradecer por ter me acompanhado, e meus pais iriam gostar de vê-lo.

— Omma, appa!? — eu disse, ao entrar.
— Ah, querida, que bom que chegou — disse minha mãe, vindo da cozinha com uma forma com biscoitos. — Oh, .
— Ele me acompanhou hoje — eu expliquei, meio com vergonha.
— Fico feliz por ter vindo. — Ela me olhou. — Mas por que ele te acompanhou?
— Sua filha se inscreveu para ser auxiliar do treinador no clube de basquete — ele respondeu tranquilamente, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Cínico.
— É! — Eu concordei meio que automaticamente.
— Que legal, seu pai vai ficar feliz. Ele jogou basquete nos tempos de colegial. — Ela sorriu animada. — Eu vou colocar os biscoitos em uma bandeja melhor. Você vai ficar para o jantar, não é, ?
— Não, não quero incomodar.
— Incômodo nenhum, faço questão. — Ela se virou, indo para a cozinha.
— Hyung — gritou meu irmão, correndo em direção a ele.
— Nada de correr — repreendeu minha mãe, do corredor.
— Desculpa, Omma. — Jinho riu. — Hyung, veio jogar comigo?
— Não exatamente, mas podemos fazer isso agora.
— Legal. — Jinho ligou seu xbox animado, e se sentou no chão, pegando uma almofada para apoiar suas costas melhor, no sofá.

Naquele momento, eu percebi que já estava totalmente fora de foco, e me virei em direção ao corredor dos quartos.

— Não demora — disse , com sua atenção na televisão.

Eu ri alto enquanto caminhava. Entrei no meu quarto, colocando minha mochila em cima da cama, peguei uma roupa aleatória e fui em direção ao banheiro. Tomei uma ducha rápida e coloquei a roupa no banheiro mesmo. Quando saí, estava na porta, de braços cruzados, me olhando.

Por causa de você, meu coração é colorido
No mundo em preto e escuro, no momento que tento fechar meus olhos
Você faz minha vida colorida.

— Colorful / SHINee


9.

Last Romeo

“Não ligo se é veneno, tomo tranquilamente
Nenhuma tentação pode ser mais doce ou forte que você.”

— Last Romeo / Infinite

— O que está fazendo parado aqui? — perguntei a ele.
— Você demorou. — Ele riu de canto. — Sua mãe está chamando para o jantar.

Eu segurei o riso para não dar motivos a ele. Fomos juntos para sala de jantar e nos sentamos à mesa. Omma tinha feito lasanha à bolonhesa, arroz branco e salada, bem simples para ela, que adorava caprichar quando o assunto era receber visitas para o jantar.

— Onde está meu appa? — perguntei.
— Ele teve que viajar de última hora para Busan. — Ela serviu o prato de primeiro e sorriu disfarçadamente. — Assuntos da empresa.

Aquele sorriso já me dizia que ela não estava gostando muito daquilo. Realmente, omma sempre detestava quando meu pai se ausentava pela empresa, principalmente por nossa causa. Esse era um dos principais motivos de nos mudarmos tanto. Ela queria que meu pai acompanhasse a todo custo nosso crescimento, mesmo que isso custasse um alto preço.

— Obrigado, ajumma. — Ele sorriu de leve, pegando o prato das mãos dela.
— Espero que goste. — Omma serviu o prato de Jinho em seguida, enquanto eu me servia.
— Tenho certeza de que vou. — a olhou. — O cheiro está maravilhoso.
— Omma é a melhor na cozinha — comentei, de forma espontânea.
— Não posso dizer isso. Tenho minha mãe… — sussurrou ele, rindo baixo.

Confesso, ele sabia ser fofo e gentil quando queria, somente com as outras pessoas, mas era legal ver como ele tratava minha omma. Após o jantar, o acompanhei até a portaria, a pedido da minha mãe.

— Obrigada — disse, ao sairmos do prédio.
— Por te acompanhar, ou por sua mãe ter ficado animada com sua entrada para o clube de basquete?
— Vamos fazer um pacote fechado para todos os obrigadas que ainda te devo — respondi.
— Pacote fechado — sussurrou, rindo, depois voltou a me olhar tranquilamente. — Então…
— Então?!
— Não está mais zangada?! Pelo clube?!
— Ainda estou, mas, de qualquer forma, teria que entrar em algum mesmo. — Cruzei meus braços, mantendo meu olhar nele, séria.

Me dei por vencida desta vez, mas a guerra não havia terminado. Eu ainda pensaria em como dar o troco nele, por tudo que estava me fazendo passar desde o início.

— Que bom. — Ele sorriu de uma forma fofa que não imaginava que pudesse. — Me desculpe…

O quê?! Ele pediu desculpas?

— Pelo quê? — O olhei surpresa.
— Pacote fechado. — Ele se virou e saiu sem dizer mais nada.

Permaneci mais alguns instantes o olhando ir, paralisada. Pacote fechado?! O que aquilo significava? Quando voltei para o apartamento, minha omma já estava terminando de arrumar a cozinha. Ela ficou me olhando de forma esquisita, segurando o riso.

— O que foi, omma? — Eu a olhei.
— Posso te fazer uma pergunta? — Ela guardou o último prato no armário e me olhou.
— Pode.
— Você está gostando do ?

Aquela pergunta tinha me pegado de surpresa, e eu não sabia o que responder a ela.

: on

Fiquei um tempo vagando pelas ruas, queria demorar o máximo possível até ir para casa. Eu já estava considerando menos aquele lugar, não era mais um lar, e agora se tornou menos ainda uma casa. Retirei o celular do bolso e enviei uma mensagem a Junhae. Pedi que me encontrasse na lojinha de games que descobrimos na quinta série, aquele havia se tornado nosso refúgio de todas as horas.

— Uahhh, pra me mandar uma mensagem a essa hora… — disse ele, ao chegar, já jogando sua mochila ao meu lado no sofá onde estava sentado — brigou de novo com seu pai?
— Não. — Me inclinei um pouco, encostando nas almofadas, e fechei meus olhos. — Nem fui pra casa ainda.
— Não foi pra casa? — Seu tom de surpresa era esperado. — Onde estava todo esse tempo? Na escola? Com sua mãe?
— Não — sussurrei desanimado. — Estava na casa dela.
— Notava estrangeira?
— O nome dela é — o corrigi, e levemente me lembrei dela dizendo essa frase, o que me fez soltar um sorriso espontâneo.
— Você está se tornando muito próximo dela — comentou ele, e senti seu movimento, parecia se sentar na poltrona ao lado. — Está ficando perigoso.
— E eu não sei. — Suspirei fraco. — Sinto que não sou capaz de me manter longe dela, mas não acho que…
— Vai quebrar aquela promessa? — perguntou.
— O que acha?! — Abri meus olhos e o olhei.
— Está no seu olhar, só não admitiu ainda. — Ele tentou não rir, sem sucesso. — Hyung, deixe de se torturar, não será como ele.
— Tento repetir isso todos os dias para mim mesmo. — Me espreguicei no sofá e olhei para a luminária do teto. — Não acredito que isso está acontecendo comigo.
— Acho que ainda demorou muito. — Ele riu.
— Aish… É doloroso confessar… Mas estou realmente apaixonado por ela.

Junhae permaneceu em silêncio, então se levantou e foi até a mesa de pebolim.

— Yah, levante daí e venha jogar — reclamou ele. — Não podemos perder a oportunidade de estar aqui e não rolar nem uma partida.

Eu ri dele e me levantei.
Meu amigo conseguia ser mais viciado em jogos do que eu. Seu sonho era se tornar um jogador profissional de League of Legends, mas seria difícil ajumma Nya permitir isso. Passamos mais alguns minutos jogando, até que Junhae me aconselhou a voltar para casa. Eu já estava acumulando muitos problemas com meu pai e certamente a notícia do roubo das provas havia chegado até ele. Senti meu corpo cansado assim que entrei no elevador. Ao entrar na cobertura, estranhei sua ausência, mas não me importei de imediato. Quanto mais longe, melhor para mim. Segui direto para meu quarto, joguei minha mochila em cima da cama e desci novamente, indo em direção à cozinha. Peguei uma lata de coca e fechei a geladeira, rindo da cara dela quando falei sobre o clube de basquete para sua mãe. Eram divertidas suas reações quando estava perto da família.

Ainda me lembro da sua cara quando fui à sua casa pela primeira vez.

— Por que tudo me faz pensar em você?! — sussurrei, ao caminhar até o armário. Peguei um pacote de salgadinho e me virei em direção à porta.

Meu sorriso se desfez na mesma hora, uma das muitas “amigas” do meu pai estava na porta, com uma garrafa de soju na mão direita e um sorriso meio sem graça. Meu pai entrou atrás dela rindo de alguma coisa, mas seu sorriso também se desfez ao me ver.

— Oh, filho, não sabia que ainda estava acordado. — Seu tom era um pouco desconcertado.
— DongHo, eu vou te esperar no escritório. — A mulher se curvou de leve e saiu.

Eu permaneci em silêncio, com minha face séria, olhando meu pai. Tentava não demonstrar em meu olhar a raiva que ainda sentia dele. Quando me movi para sair da cozinha, ele segurou em meu braço.

— Temos que conversar.
— Não tenho nada para falar — disse, mantendo meu olhar para frente.
— Seu tio me falou sobre o roubo das provas e sobre uma garota envolvida. — Ele começou, tentando manter sua voz baixa.
— Não falarei sobre isso com o senhor. — Me soltei e dei mais dois passos para frente. — Só estou aqui, porque minha irmã não merece viver nesta casa.
— Olha como fala comigo. — Ele alterou sua voz. — Sou seu pai e me deve respeito.
— O senhor também devia respeito à minha mãe. — Eu saí da cozinha, o deixando sozinho.

Não me importava se ele iria me tirar o pouco dinheiro que me dava mensalmente ou se iria me trancar em algum internato, eu não o tinha mais como meu pai. Entrei no meu quarto e tranquei a porta. Senti algumas lágrimas de raiva saírem de meus olhos. Coloquei a lata e o pacote em cima da escrivaninha e retirei meu celular que estava no bolso. Olhei para minha mão e ela estava tremendo. Respirei fundo. Sentia lá no fundo que as palavras que disse para meu pai eram as que eu queria dizer há muito tempo.

Desbloqueei a tela e olhei para a foto de no papel de parede, disquei o número dela e liguei.

— Yeobosseyo! — Sua voz continuava atraente ao telefone, era doce como a da minha mãe e delicada como a da minha irmã. Eu gostava disso, ela de alguma forma me lembrava as duas mulheres da minha vida.

Eu desliguei o telefone, respirei fundo e liguei novamente. Percebi um leve riso saindo espontaneamente de mim.

— Yeobosseyo!? — ela disse novamente. Eu permaneci em silêncio e senti mais algumas lágrimas caindo de meus olhos. — ?!

Ela sabia que era eu, tinha a opção de desligar, mas, mesmo assim, ela continuou na linha, mesmo sem eu dizer uma só palavra. Por quê? Por que ela continuava sendo tão boa para mim?!

: off

“Apenas deixe-me ficar ao seu lado
Não importa como você pense (é você).”

— My Answer / EXO

Eu me mantive meio sem reação à pergunta da minha mãe, desconversei no início e a deixei sem resposta, afinal, nem eu mesma sabia. A deixei na cozinha terminando de guardar os pratos e fui para meu quarto. Assim que abri a porta, meu celular tocou, o peguei no bolso de fora da mochila e olhei. Era ele. Será que queria dizer que tinha chegado em segurança?

— Yeobosseyo! — disse naturalmente.

Em menos de cinco segundos, ele desligou. Eu não entendi por quê, mas, se tratando de , certamente ele estava fazendo alguma brincadeira sem graça comigo. O celular tocou novamente, e outra vez era ele. Pensei em desligar na sua cara, mas resolvi atender, afinal, talvez a ligação pudesse ter caído. Ele ainda tinha o benefício da dúvida.

— Yeobosseyo?! — disse novamente, num tom calmo. Ele permaneceu em silêncio. Eu comecei a notar bem lá no fundo que alguma coisa estava errada, que ele não estava bem, como se estivesse precisando de companhia. — ?! — disse seu nome.

Poderia desligar, mas não, senti que não deveria. Talvez ele tivesse brigado com seu pai e quisesse desabafar com alguém que não fosse seus amigos, ou só precisava ouvir minha voz para se sentir mais confortável. Eu não sabia o que estava acontecendo com ele, mas não desligaria aquela ligação até que ele fizesse antes de mim.

, eu… — Nem sabia o que dizer. — Não sei por que me ligou, mas espero que tenha se divertido hoje no jantar, aqui.

Eu não sabia mesmo o que dizer. Ficamos longos minutos em silêncio, um ouvindo a respiração do outro, e parecia estar em sincronia.

— Hum, … — Hesitei um pouco, mas tinha que falar. Olhei para o relógio na cabeceira da minha cama e já passava de meia noite. — Ainda temos aula ao acordar, mas eu não irei desligar até você desligar.

Demorou mais alguns minutos, até que ele encerrou a ligação. Senti meu coração na mão. Queria entender o que ele estava passando, mas não sabia nem mesmo entender o que eu estava sentindo. A pergunta da minha mãe voltou à minha mente, o que eu sentia por ? Será que ficar mais de uma hora no telefone sem dizer uma só palavra poderia ser definido como amizade? Será que talvez ele quisesse bem mais que amizade?

— Não, não, não… — Balancei a cabeça, tentando me livrar de qualquer pensamento sobre ele e suas possíveis segundas intenções. — , hora de dormir, somente dormir e nada mais.

Troquei minha roupa e me deitei, fechei meus olhos uma vez e a imagem dele invadiu minha mente. Abri os olhos e respirei fundo. Estava com medo de dormir e acabar sonhando com ele.

, seu bobo, não posso me apaixonar por você — sussurrei, ao apagar a luz do meu abajur.

Dormi tranquilamente e, por ironia, não sonhei com ele. Não consegui definir se era alívio ou frustração, mas acordei descansada e preparada para mais um dia de aula. Me espreguicei de leve ao levantar da cama e fui direto para o banheiro, estava criando um leve hábito de tomar uma ducha quente antes de ir para aula quando acordava cedo. Por incrível que pareça, mesmo indo dormir tarde, eu havia acordado antes do despertador tocar. Ao retornar para o quarto, coloquei o uniforme e calcei meu inseparável all star. Verifiquei se tudo que precisava estava na mochila. Foi então que me lembrei das duas cartas que havia encontrado no meu armário. Eram tantos acontecimentos causados por que já estava me esquecendo daquilo. Pensei algum tempo em lê-las, mas, ao olhar para o celular, vi que não dava tempo para mais nada, então as coloquei de volta no fundo da mochila e saí do quarto.

Minha mãe já estava cantarolando na cozinha enquanto preparava o café. Jinho estava sentado à mesa, saboreando seu chocolate quente.

— Omma! — disse, meio empolgada, e peguei um cookie que estava no prato de Jinho. — Não ficarei para o café, tenho que chegar mais cedo hoje.
— Noona, pegue um que não seja meu — reclamou Jinho.
— O seu vem com amor dobrado — retruquei, dando um sorriso para ele.
— Está animada. Vai mais cedo por quê? Vai encontrar ? — Insinuou ela, com um sorriso malicioso no rosto.
— Omma?! Não. — Eu desviei meu olhar para meu celular, que estava na mão esquerda, e olhei a hora. —Tem reunião do clube de basquete e eu devo participar.
— Sei. — Ela me lançou um olhar desconfiada. — Vá em segurança.
— Até mais tarde. — Eu sorri e, pegando outro cookie do prato de Jinho, saí correndo.

Corri até a estação de metrô. Após esperar alguns minutos, entrei no segundo vagão e lá estavam os membros da Prince Line rindo de alguma coisa, exceto , que estava encostado na janela, em silêncio, com seu headphone no ouvido. Permaneci onde estava e fingi que não tinha visto eles. Quando parou na estação da escola, desci primeiro e tentei andar o mais rápido que pude. De repente, senti uma mão segurar a minha, olhei para o lado e era .

— Bom dia — disse, em um sussurro.
— Bom dia — disse, olhando para trás. Seus amigos já estavam se aproximando. — Espero que tenha dormido bem.

Ele sorriu de canto como se respondesse positivamente a minha pergunta, o que honestamente me deixou aliviada e feliz por aquilo. Caminhamos lentamente em silêncio o resto do caminho, deixando seus amigos nos ultrapassarem, permanecendo a alguns passos na nossa frente. Discretamente, eu olhava para ele, tentando decifrar aquele olhar sereno e concentrado que mantinha. Foi quando me dei conta de que ainda estávamos de mãos dadas.

Eu me soltei dele e cruzei os braços deliberadamente.

— Está com medo de que falem algo sobre nós?! — Riu baixo.
— Não é isso, ou melhor, não teriam nada para falar — respondi. — Não há nada entre nós.

Senti uma forte convicção em minha voz.

— Hum… — Ele virou a face para o lado. — Se você diz.
— Por que sempre diz essa frase? — O olhei curiosa.
— O que gostaria que eu dissesse? — Ele parou e me olhou. — Acaso quer ser minha namorada?! — Um sorriso de canto malicioso surgiu no seu rosto.
— O quê?! — Fiquei um tanto atordoada com aquilo, me voltei para frente e segui primeiro.

Estava um tanto perplexa com aquela pergunta cheia de suposições. Ele se manteve dois passos atrás de mim, entre risos baixos aleatórios. Assim que chegamos à quadra, o professor já estava à nossa espera. Os garotos se sentaram na arquibancada, e o treinador começou seu discurso sobre o primeiro jogo e o início do campeonato intercolegial. Fiquei encostada nos armários, ouvindo tudo aquilo também, até que deu a hora de eu ir para a sala e pedi para sair da quadra.

Quando entrei na sala, já estava sentado em sua carteira, escrevendo alguma coisa no caderno. Como sempre, suas anotações superavam as minhas. Caminhei até lá e me sentei atrás dele como sempre.

— Bom dia — disse, meio sem jeito.
— Bom dia. — Ele se virou para trás e sorriu de leve. — Então, como está indo com o clube de basquete?
— Comecei ontem, então não tem muita novidade, mas acho que vou sobreviver. — Eu ri, e ele riu também. — E você? Já convidou a garota que queria para o baile?
— Ainda não. — Ele desviou seu olhar para a mesa. — Ainda estou tomando coragem, não sei se ela vai querer ir comigo.
— Que garota seria louca de não querer ir com você? — Eu ri de leve. — Espero que ela aceite.
— E você?
— Eu o quê?
— Acha que alguém vai te convidar? — Ele respirou fundo, parecia ter medo da resposta.
— Não sei, mas eu não iria mesmo.
— E se te convidar? — Ele me olhou sério.
— Definitivamente, eu não iria.
— Bom dia, alunos — disse o professor Siwon, ao entrar na sala. — Quem está curioso para saber como foram as notas? — Ele deu um sorriso tão fofo que vários suspiros surgiram pela sala.

Eu também suspirei baixo. Vi rindo ao se virar para frente, tinha que admitir que o professor Siwon era mesmo de causar suspiros. A aula foi bem produtiva e engraçada, com vários comentários à parte de . No intervalo, eu e resolvemos ficar na biblioteca estudando juntos. Já que agora eu estava no clube de basquete, tinha que estudar dobrado nas horas vagas. E por falar em horas vagas, meu horário após este segundo intervalo seria na quadra.

— Podemos ter uma pausa, não aguento mais arquitetura barroca.
— Estamos estudando literatura clássica. — Ele riu.
— Viu, nem minha mente está sabendo mais o que eu estou lendo. — Eu ri junto.
— Ah, aqui está você — disse , ao se aproximar do sofá onde estávamos sentados.
— O que está fazendo aqui?
— Vim te buscar para o treino. — Ele parou na minha frente. — Ah, oi, .
— Oi. — o olhou sério.
— Hum, vai ao baile, ? — perguntou ele.
— Por que quer saber? — estava com um tom de voz áspero e frio. Eu já sabia que ele não gostava de .
— Por nada, é que eu vou com a , e certamente ela iria gostar de ter um amigo por lá, caso fique entediada com as líderes de torcida.
— Eu vou? — Olhei surpresa para . — Não, eu não vou.
— Vai, sim. — pegou minha mão e me puxou para perto dele. — Todos os integrantes do time de basquete estão convocados, e você vai comigo, o capitão do time.

O quê?!

Eu olhei para sem saber o que dizer. Vi uma certa decepção em seu olhar, mas, antes que pudesse dizer algo, me puxou para sair de lá. Fui um pouco contrariada, mas não tinha outra escolha. Fiquei sentada na arquibancada, os vendo treinando. estava tão disposto correndo de uma ponta da quadra a outra fazendo cestas. Nem parecia que tinha me ligado na noite anterior, com traços depressivos.

“Agora na minha frente existem duas pessoas brilhantes,
E eu que estou agindo pobremente,
Embora eu tente me repreender por ser um idiota,
Meu coração continua se curvando na sua direção.”

— Aside / SHINee


10.

My Little Princess

“Por favor, permita-me entrar
Em seu coração, a qualquer hora que eu quiser.”

— My little princess / TVXQ (DBSK)

— Que tédio — sussurrei os vendo fazendo uma sequência de cestas de três pontos. Respirei fundo, me lembrando vagamente das cartas que estavam na minha mochila.

Desci da arquibancada e caminhei até a sala do treinador. Assim que me sentei em sua cadeira, abri minha mochila e retirei as duas cartas. Já tinha visto em alguns doramas colegiais sobre essas cartas de confissão que os alunos entregavam, o que me deixou intrigada ao receber duas, que possivelmente poderiam ser da mesma pessoa. Um sorriso escapou dos meus lábios, era a primeira vez que teoricamente um garoto confessava pra mim, o que me levou a pensar que o remetente pudesse ser o .

— Hum… Que frio na barriga. — Ri baixo, já abrindo a primeira com escrita com a data da semana passada. — Vejamos…

Comecei a ler:

“Não sei como começar esta carta, mas sei que desde a primeira vez que a vi na secretaria, meu coração acelerou de forma inesperada. Gostaria de me confessar pessoalmente, mas não tenho coragem suficiente para isso…

Posso te chamar de ?

ass: PJM”


Eu ri de imediato, achei aquela confissão fofa. Dobrei a primeira carta e guardei na mochila novamente, então, assim que abri a segunda carta, a porta se abriu junto, então me levantei no susto e abaixei a mão.

— O treino já terminou? — O olhei.
— Sim — respondeu, encostando na porta e cruzando os braços. — O que estava fazendo aqui?
— Fiquei entediada de ver vocês jogando — respondi tranquilamente.
— Entediada? Que garota fica entediada de me ver jogando? — Ele me olhou confuso e meio indignado.
— Prazer, novata estrangeira — disse de forma irônica e pisquei de leve.

Ele começou a rir de imediato, uma risada espontânea.

— Se o treino já terminou, por que não foi embora? — perguntei curiosa.
— Já escureceu, não poderia te deixar ir embora sozinha. — Ele se afastou da porta e deu alguns passos até mim, me olhando de forma avaliativa.
— Está preocupado comigo? — Sorri de leve.
— Não. — Manteve seu olhar atento em mim. — Você faz parte do clube de basquete, eu sou o capitão do time. De certa forma, sou meio responsável por você.
— Meio?! — Não me contive em rir.
— O que está tentando me esconder? — se aproximou mais e, em instantes, pegou a carta da minha mão. — O que é isso?
— Me devolve — disse, tentando pegar sem sucesso.
— Não — deu alguns passos para trás — sem antes me dizer o que é isso.
— Não é da sua conta. — Permaneci séria.
— É uma carta de confissão? — Ele elevou a carta até a luz para conseguir ler.
— Ei. — Elevei minha voz. — Isso é invasão de privacidade.
— Quem é PJM? — Me olhou novamente, entregando a carta.
— Por que quer saber? — Peguei logo e guardei na mochila. — Está com ciúmes?
— Ciúmes? Eu? — Coçou a cabeça, me olhando meio desconsertado. — Por que teria ciúmes de você?

Eu ri, estava estampado no olhar dele.
Confesso que não havia nem sequer namorado antes, mas ver ali na minha frente, naquela situação, foi um tanto embaraçoso e engraçado para mim, porém, no fundo, achei estranhamente fofo.

— Sei. — Ajeitei a mochila nas costas. — Estou indo e não precisa me levar, não está tão tarde assim e não vou para casa agora.
— Como assim não vai para casa? — Ele cruzou os braços.
— Simplesmente não vou. — Sorri. — E como você não está com ciúmes de mim, não precisa saber o motivo.

Pisquei de leve e saí, segurando o riso.
Sim, eu realmente não voltaria para casa. Descobri recentemente que sábado seria o aniversário de , então compraria um presente para meu mais novo amigo, só não sabia o que comprar. Fui até o shopping mais famoso de Daejeon, e, após olhar algumas vitrines com a leve sensação de que estava sendo seguida, retirei o celular do bolso e conferi se Lira havia me respondido. Ela era ótima em me dar dicas para presentes, tinha certeza de que havia pensado em algo para me ajudar.

— Vejamos — sussurrei ao olhar. — Mangás... Livros… já tem tudo isso…

Continuei olhando a lista de sugestões dela, até que cheguei ao item “caneca personalizada”. Não era de todo uma má ideia. Me aproximei do segurança e perguntei se teria uma loja nessa especialidade, segui na direção indicada e adentrei na loja. Tinha várias canecas e outros objetos todos serigrafados e personalizados. Logo me lembrei que gostava de fotografia, então tive uma ideia legal.

— E vai demorar quanto tempo para ficar pronto? — perguntei, assim que expliquei à atendente o que eu queria.
— Sábado — respondeu ela, com segurança.
— Hum… Acho que terei que vir aqui antes de ir para a festa de . — Concluí. — Tudo bem, posso pegar após o almoço?
— Sim, ficará pronto pela manhã. — Assentiu ela, dando um sorriso cativante. — Mais alguma coisa?
— Não, só isso mesmo. Gostaria que não mudassem a embalagem que escolhi para embrulhar. — Assegurei, havia escolhido uma caixa de madeira serigrafada com o nome dele.

Ao voltar para a rua, parei em uma barraquinha de biscoitos caseiros e comprei um pacote. A ajumma vendia atenciosamente, sem desfazer o sorriso do rosto. Mantive meu ritmo lendo cantarolando pela rua, enquanto pensava na cara de ciúmes de , o que me fazia dar algumas gargalhadas. Foi quando esbarrei em alguém.

— Hum?! Junhae?! — disse surpresa.
— Ah, . — Ele me olhou confuso e curioso. — O que faz na rua a essa hora?
— Estava resolvendo assuntos pessoais. Acaso não está me seguindo, não é?! — O olhei desconfiada.
— Claro que não. — Ele riu. — Por que te seguiria?
— Você é amigo do .
— Ah… Fique tranquila, eu estava no hospital universitário que fica aqui perto, minha mãe trabalha lá. — explicou ele — Você parece um pouco longe de casa, estava no shopping?
— Como sabe?
— Pelo pacote de biscoitos, essa ajumma só fica na porta do shopping — respondeu, rindo da minha cara. — Você tem manias de perseguição mesmo? Ou é impressão minha?
— Nem um, nem outro. — Guardei o pacote na mochila e o olhei. — Você mora aqui perto?
— Não, tenho que pegar o metrô — respondeu. — E você?
— Acho que estou há duas quadras da minha rua — respondi tranquilamente.
— Uau, você realmente mora longe da escola. — Constatou ele.
— Sim. — Admiti, rindo. — Mas é legal o lugar onde moro.
— Quer companhia?
— Não precisa.
— Ah… Precisa, sim. Se souber que te deixei ir pra casa sozinha, ele me mata. — Ele se posicionou ao meu lado. — Vamos, senhorita, vou te acompanhar.
— Nossa. — Eu ri e brinquei. — Só vou aceitar, porque não quero vê-lo morrer.
— Agradeço. — Ele riu junto, caminhando ao meu lado. — Posso te fazer uma pergunta?!
— Sim. — Seguimos em direção à minha rua.
— Você e o hyung estão em algum relacionamento?
— O quê? — O olhei surpresa. — Por que estaríamos?
— Bem, vocês estão bem próximos agora — respondeu ponderadamente.
— Não temos nada, nem sei se posso dizer que somos amigos — expliquei. — implica comigo desde que cheguei na escola.
— Ele é assim desde sempre. Primeiro implica com todas as pessoas que acha que vão fazer parte da vida dele. — Junhae soltou uma gargalhada. — Foi assim no jardim de infância. Quando nos conhecemos, ele implicou comigo desde o primeiro dia. Um ano depois, já nos considerávamos irmãos.
— Por que ele é assim? — perguntei.
— Hum… Por causa do pai. É complicado explicar, sempre que o hyung tenta afastar as pessoas, acaba gostando delas. — Ele me olhou como se estivesse direcionando aquilo para mim.

O que me deixou ainda mais confusa e intrigada. Será que implicava comigo para me afastar dele? Mas no fundo ele gostava de mim?! Agradeci Junhae ao chegarmos em frente ao meu prédio, e logo entrei. Assim que o elevador abriu, o professor Siwon surgiu ao meu lado, entrando comigo, o que me deixou impressionada.

— Não está tarde para estar na rua, senhorita Kim? — disse ele, num tom de brincadeira.
— Hum… Estava comprando um presente para um amigo — expliquei. — Mas não vim para casa sozinha.
— Isso é bom. Por mais que este país seja tranquilo, devemos ser prudentes, você ainda é menor. — Atentou ele, de forma séria.
— Sim. — Assenti, mantendo meu olhar na porta. — Serei mais cuidadosa.

Quando entrei no apartamento, Jinho estava jogando xbox na tv e meus pais estavam na cozinha conversando.

— Boa noite, família.
— Boa noite, noona! — Jinho continuou com sua atenção para seu jogo.
— Querida, chegou um pouco mais tarde hoje. — disse minha mãe.
— Sim, o campeonato está perto, então os treinos estão demorando mais para acabar. — expliquei — E também tive que ir comprar o presente do .
está fazendo aniversário? — Minha mãe me olhou curiosa.
— Descobri que será no sábado — respondi. — Não posso deixar passar em branco.
— Fez muito bem. — Concordou ela, piscando de leve.
— Sua mãe me contou sobre o clube de basquete. Isso é legal, eu era o capitão na minha época — disse papai, com satisfação.
— Que bom que gostou. — Sorri.
— Até nisso sua filha é igual a mãe. — Minha mãe riu.
— Como assim? — Meu pai a olhou.
— Omma?! — Eu a olhei.
— Não disse nada. — Ela guardou o prato no armário. — Está com fomek filha?
— Um pouco, vou me trocar!

Após comermos o lanche que meus pais prepararam, ficamos um pouco na sala, vendo um dorama novo que tinha estreado. Resolvi ir para meu quarto antes de todos, estava com sono e sentindo um leve cansaço por aquele dia tumultuado. Era visível que o clube de basquete estava sugando 70% da minha energia diária. Além da parte em que minha mente lutava sem sucesso para não ficar pensando em , eu queria entender por que ele agia assim comigo, entender o que estava acontecendo de fato em sua vida.

— Como pode uma pessoa mudar de humor com tanta rapidez — comentei, assim que me deitei na cama. — Queria entender melhor seus problemas.

Somos amigos?!
Aquela indagação invadiu meus pensamentos. O barulho do meu celular tocando me despertou, era uma ligação dele, e pensei por um instante em não atender só para deixá-lo intrigado. Entretanto, me lembrei da noite em que havia me ligado pela primeira vez, então atendi.

?! — disse, num tom baixo.

"Eu não quero estar aqui,
E eu nem ao menos sei por que eu estou sozinho ou assustado."

— Hot times / SM The ballad

Ele permaneceu em silêncio, me levando a acreditar que não estava bem como na noite anterior. Respirei fundo e continuei mantendo a ligação. Queria que ele dissesse algo, desabafasse ou simplesmente me desse boa noite.

— Você não vai mesmo dizer nada? — perguntei, conseguia ouvir sua respiração, parecia raivosa. — Está tudo bem com você?

Logo um barulho veio do outro lado da linha, me deixando assustada. Então ouvi a voz do seu pai o chamando ao longe, pouco antes de encerrar a ligação.

— O que será que está acontecendo?! — Olhei para o celular e entrei no kakaotalk para mandar uma mensagem a ele.

Fiquei alguns minutos esperando pela resposta, porém nenhum sinal de vida. A preocupação tomou conta de mim e a consequência disso foi minha noite mal dormida, acordando de uma em uma hora para saber se já estava na hora de ir para a aula. A primeira coisa que fiz ao chegar à escola foi correr para a quadra, pois sabia que todos do time se reuniam para um treino rápido antes da aula.

— Oh, novata estrangeira — disse MiJun.
— Yah, devemos chamá-la pelo nome — Hwang o repreendeu, batendo de leve em sua cabeça.
— Não me importo mais com isso — disse, me aproximando deles.
— Mas o hyung, sim. — MinSoo, que estava jogado no chão, ergueu seu corpo. — O que a traz aqui? Não precisava chegar cedo hoje, só nos dias que o treinador vem.
— Queria falar com — respondi.
— Ele não vem hoje — respondeu Junhae.
— Não vem ao treino?! — Olhei para ele.
— Não vem à aula — explicou Junhae.
— Aconteceu alguma coisa? — Insisti. A mesma preocupação que me acompanhou pela madrugada retornou.
— Ele e o pai tiveram um desentendimento. — Junhae me olhou com tranquilidade, como se aquilo não fosse novidade para eles. — Não precisa se preocupar, ele está bem.

Não preciso me preocupar?!
Ora, essa, eu já estava assim. Me afastei deles um pouco contrariada e segui em direção à sala de aula. Sentei em minha cadeira e, no impulso, acabei enviando mais três mensagens para ele.

— Isso é que é uma surpresa — disse , ao aparecer ao meu lado. — Você chegou antes de mim.
— Ah. — Desviei o olhar para ele, guardando o celular no bolso. — Não dormi direito à noite, então resolvi vir cedo.
— Não me diga que está preocupada com a prova de classificação?! — Ele me olhou confuso. — Você ficou em segundo na nossa turma, suas notas estão ótimas.
— Não, não é isso, nem estava me lembrando dessa prova. — Soltei um suspiro fraco.
— O que foi?! — Ele se sentou em sua cadeira e ficou virado para mim. — Aconteceu algo?
— Ando preocupada com um certo pesadelo. — Desviei o olhar para a janela.
— Está falando de ?!

Assenti com a face.
Pensar nele durante a aula me fez perder toda a explicação do professor Siwon sobre geometria analítica. As horas se passaram, e, após o professor nos dispensar, me despedi rapidamente de e saí correndo em direção ao meu armário. Quando cheguei ao corredor, um menino encapuzado passou por mim. Não dei tanta importância assim e continuei, assim que abri meu armário para tirar o livro que deveria entregar na biblioteca, vi outra carta.

— Hum… — Virei minha face para o lado novamente, e a imagem do menino encapuzado veio. — Será?!

havia tomado tanto meus pensamentos que, por um momento, me esqueci que tinha um admirador secreto na escola. Guardei a carta na mochila e fechei o armário, após pegar o livro. Depois que entreguei o livro na biblioteca, passei rapidamente na sala do treinador aos fundos da quadra, precisava pegar os formulários do torneio do colegial para preencher e entregar à secretaria na segunda pela manhã. Estranhamente, o caminho de volta para casa estava muito monótono para mim, então coloquei meus fones no ouvido pouco antes de sair do metrô. Meu cérebro entrou no automático, não me deixando prestar atenção em mais nada. Em um piscar de olhos, quando fui atravessar a rua, vi uma luz forte se aproximando de mim. Meu corpo gelou no mesmo minuto e fiquei paralisada, fechei meus olhos e logo senti uma pessoa me puxar, fazendo meu corpo cair no chão.

Ao longe, o barulho de carros freando surgiu.

— Yah, sua louca — gritou um homem.
— Hum. — Eu abri meus olhos e encontrei o olhar de . Estávamos caídos no chão da rua.
— Ommo, vocês estão bem? — perguntou uma ajumma, ao se aproximar de nós.
— Sim, estamos — disse ele, num tom sério e baixo, se levantou e me ajudou a levantar também.

Olhei à minha volta e tinha algumas pessoas paradas olhando. segurou em minha mão, pegou minha mochila que estava no chão, em seguida me tirou dali. Continuou segurando em minha mão, não sabia para onde estava me levando, porém, lá no fundo, me senti segura de uma forma inexplicável. Logo paramos em frente a um edifício luxuoso. Imediatamente pensei que pudesse ser onde morava com seu pai e estava 100% certa. Assim que entramos na cobertura, me deparei com um lugar sofisticado e elegante, totalmente diferente da casa simples e aconchegante da mãe dele. colocou minha mochila no sofá, me levou até a cozinha e me colocou sentada em uma banqueta que havia em frente à bancada de refeições. Fiquei alguns instantes observando tudo ao meu redor, aquele lugar branco com alguns pontos de cor aleatórios, sem vida. Se minha mãe visse aquela cozinha, se sentiria desmotivada a cozinhar na nossa.

Ele voltou com uma caixinha de primeiros socorros na mão. Até então não havia percebido, mas meu braço estava com um pequeno arranhão proveniente de nossa queda.

— Komaweyo — sussurrei, o observando limpar mais um machucado meu.
— Não posso me afastar um dia que você provoca isso? — disse, num tom de repreensão, parecia bravo comigo. — Você deve ser mais atenta quando estiver na rua.
— Mianheyo. — Levantei minha face. Ele estava sério e concentrado. — A culpa é sua.
— Minha?! — Me olhou, desacreditado.
— Sim, se tivesse ido à escola, teria me acompanhado em casa — expliquei, tentando não me comprometer. — Não é você que diz ser responsável por mim?!
— Você quer isso? — Ele sorriu de canto. — Sentiu minha falta?!
— Estava preocupada com você...

Ele se virou, parecia ter ouvido um barulho vindo da sala.

— Já volto.

Ele saiu da cozinha e, em instantes, comecei a ouvir alguns gritos vindo da sala. Certamente era seu pai. Comecei a pensar no que poderia fazer para ajudar. Então tomei impulso e fui em direção à sala.

, eu preciso ir… — disse, ao adentrar e deixar o pai dele sem reação. — Boa noite, senhor Cho.
— Ah… . — Ele pareceu sem graça e meio desconfortável ao me ver, então desviou o olhar para .
— Ah, minha mochila. — Caminhei até e peguei minha mochila de suas mãos, seu olhar fixo em seu pai. — Eu realmente preciso ir.
— Ah, não, fique mais um pouco — disse Dongho. — Como está seu pai? Ando querendo visitá-lo.
— Está muito bem, acabou de chegar de uma viagem a Busan — respondi, voltando minha atenção para ele.
— Ah, sim. Meu amigo e sua vida de viagens. — Ele soltou uma gargalhada. — Janta conosco?!
— Não quero incomodar.
— Vou levá-la para casa — disse , voltando seu olhar para mim.
— Ah, que pena. Eu e cozinhamos muito bem — insistiu ele. — Mas atualmente não temos feito isso.
— Prometo que da próxima vez ficarei para o jantar — disse, pegando na mão de sem receio do seu pai ver. — Mas agora preciso mesmo ir.

ficou um pouco surpreso com minha atitude, porém um sorriso disfarçado surgiu em sua face. Antes de sairmos, seu pai jogou a chave do seu carro para que me levasse em casa em segurança. Assim que chegamos em frente ao meu prédio, ele saiu do carro junto comigo e me levou até a porta. Permanecendo em silêncio, ele se virou para sair, então peguei no seu braço, o fazendo parar, e me coloquei na sua frente.

— Você está bem?!
— Por que está perguntando? — Desviou seu olhar para a rua. — Está tarde, você precisa entrar.
— Não agora. — Respirei fundo. — Você me ligou duas noites seguidas, me deixou preocupada, e agora vejo-o brigar com seu pai...
— Eu estou bem. — Ele se aproximou de mim e me abraçou forte. Senti meu corpo se arrepiar. — Komawo, por se preocupar.

“Eu posso parecer forte, até mesmo sorrir,
Mas na verdade eu estou tão sozinho
Pode até parecer que eu não tenho nenhuma preocupação,
Mas na verdade eu tenho muito a dizer
A primeira vez que te vi, me senti tão atraído por você,
Andando sem rumo,
Não pude dizer uma palavra.”

— My Answer / EXO


11.

Stand by Me

“Quanto mais te vejo, mais fico feliz,
Às vezes até me pego cantarolando,
Repentinamente quero comprar uma rosa,
Este lado de mim nem mesmo eu conhecia.”

— Stand By Me / SHINee

Assim que me deitei na cama, eu finalmente consegui dormir tranquilamente.

Aquele abraço não tinha acalmado somente seu coração, mas também o meu. Assim como Junhae havia garantido, ficaria bem. Porém percebi que ele só estaria assim estando perto das pessoas que o amavam, mesmo ele tentando nos afastar. Desta vez, acordar cedo nem foi sacrifício, mas, ainda assim, saí correndo meio atrasada em direção à escola. O clube de basquete faria seu treinamento matinal de sábado. Um ponto positivo: sempre que mencionava sobre o clube, papai soltava um sorriso de satisfação, o que me motivava ainda mais a não decepcioná-lo. Ainda que tivesse meus sentimentos indefinidos sobre ficar perto de , já estava me acostumando a conviver com o Prince Line.

— Não está cedo demais para ir embora?! — disse , ao se aproximar de mim.
— Vocês não precisam de mim. — Fechei minha mochila e ajeitei nas costas. — Podem muito bem continuar sozinhos.
— Você é a assistente, deveria ficar até o final — questionou.
— O treinador disse que eu poderia ir embora mais cedo hoje — retruquei. — Além do mais, tenho outro compromisso agora.
— Que compromisso? — Cruzou os braços, notoriamente irritado.
— Eu não deveria te contar, mas hoje é aniversário do . Vou à sua festa mais tarde.
— Hum… — Ele tentou disfarçar o olhar de ciúmes.
— Até segunda.

Me afastei dele, indo até a saída da quadra e corri até a loja de canecas do shopping. Precisava pegar antes do almoço, assim conseguiria chegar em casa a tempo de escrever um cartão de felicitações e me arrumar a tempo.

— Como está linda! — disse minha mãe, assim que saí do quarto. — Este vestido cai bem em você.
— Obrigada, mãe. — Conferi de leve se meus documentos estavam na minha bolsa e peguei o pacote com o presente de . — Não irei voltar muito tarde.
— Se quiser, posso pedir ao seu pai para te buscar.
— Não precisa, vou voltar cedo. — Sorri de leve e segui para a porta.

Não demorou muito até que o ônibus passou. Assim que cheguei à casa de , sua mãe me recebeu com gentileza. Sua casa não era modesta no tamanho e já tinha algumas pessoas. Me senti meio deslocada, porém logo avistei meu amigo conversando com o pessoal da sala que também havia ido.

. — sorriu ao me ver. — Que bom que veio.
— Sua mãe me convidou, não pude recusar. — Sorri de volta. — Aqui seu presente.
— Hum… Sério, não precisava. — Ele pegou a sacola de minha mão.
— Claro que sim, meu mais novo amigo.
— Obrigado, vou guardar com muito carinho — disse ele, abrindo. — Uau, uma caneca personalizada.
— Gostou?
— Nossa, demais. Achei incrível. — Ele retirou a caneca em formato de lente, com seu nome serigrafado.
— Como você gosta muito de fotografia, achei que seria divertido ter uma caneca assim.
— Vou guardá-la com muito carinho. — Ele colocou de volta na sacola. — Obrigado.
— Fico feliz que tenha gostado.

Eu me juntei ao pessoal da sala. O assunto do momento era a prova de classificação que rolaria antes do baile de primavera. Eu não estava preocupada com a prova, minha preocupação era com o baile, mas não iria pensar sobre isso agora, era o aniversário do meu melhor amigo e queria aproveitar para me enturmar um pouco. Apesar da única curiosidade de todos em relação a mim fosse perguntar como havia me tornado próxima dos reis da escola. Depois de um tempo, meu celular tocou e me afastei de todos para atender. Era uma ligação de , daquelas que ele sempre ficava em silêncio. Isso me preocupava um pouco, principalmente por saber que a causa daquilo era seu relacionamento com o pai.

Estranhamente, senti de sair da casa de e ir para a rua. Minha intuição estava certa e permaneci na linha, falando sozinha para que ele não desligasse. Quando cheguei à rua, avistei ele do outro lado, parado, com o celular no ouvido.

— Deveria estar em casa — disse, parando em sua frente, já tirando o celular do ouvido e desligando.
— Como sabia que eu estava aqui? — perguntou, colocando seu celular no bolso.
— Não sabia — respondi sinceramente.
— Não deveria ter saído da festa do seu amigo. — Sua voz estava estranha, tinha traços de tristeza.
vai entender. E tem muitas pessoas lá, então… — Respirei fundo. — Quer sorvete?
— Sorvete? — Ele me olhou confuso.
— Sim.
— Está me convidando para um encontro? — Seu olhar sugestivo estava lá.
— Não. — O cortei. — Só estou com vontade de tomar sorvete.
— Sei. — Começou a rir de mim.

Seguimos caminhando em silêncio até chegarmos a uma loja de conveniência. Felizmente, vendiam sorvete lá.

— Matou a sua vontade? — perguntou.
— Sim. — Ri de leve, saboreando meu sorvete.
— Que bom. — Continuou seguindo, parecia uma pessoa sem direção.
— Está tudo bem? Você e seu pai? — perguntei.
— É complicado estarmos bem — respondeu, num tom baixo. — Não quero falar sobre isso com você… Não quero te preocupar.
— Você não está me preocupando.
— Então não se preocupa comigo? — Ele me olhou.
— Não foi isso que eu disse. — Fiquei séria. — Você me deixa preocupada quando me liga no meio da noite e não diz nada.
— Gosto de ouvir sua voz — disse ele, sorrindo maliciosamente.
— Pare com isso… — Desviei o olhar para a rua.
— Se quiser, não te ligo mais. — Sua voz ficou séria.

Eu poderia até concordar, mas…

— Você pode me ligar se quiser. — Sorri de canto também.

Mesmo não sabendo tudo sobre ele, eu já me sentia bem em ajudá-lo daquela forma. parou e, pegando em minha mão, me puxou para perto, me abraçando. Isso fez meu coração acelerar como das outras vezes. Passaram-se os dias, e sempre após o intervalo, eu era liberada para acompanhar os treinos intensos da semana. O campeonato já se aproximava, porém, naquela tarde de sexta, tiramos uma pausa no cronograma de treinos para festejar o aniversário da mãe de MinSoo, afinal, o clube todo tinha sido convidado para uma pequena comemoração, em sua casa.

— Onde pensa que vai? — perguntou .
— Para casa — respondi tranquilamente, seguindo minha direção.
— Não. — Ele segurou em minha mão e me virou para a outra direção — Quando MinSoo disse o clube, você está inclusa, então não seja mal-educada.
. — Tentei argumentar.
— O clube de basquete não é só treino, vamos para a diversão — afirmou, ao sorrir de canto. — Já liguei para sua mãe avisando.
— O quê?! — Por essa eu não esperava.

Quando chegamos, me senti meio deslocada, todos se conheciam e eu era a intrusa. Por mais que a ajumma, mãe de , estivesse lá com a irmãzinha dele, eu ainda assim não me sentia à vontade. Fiquei um tempo sentada na poltrona ao lado da porta. A mãe de MinSoo me ofereceu um copo de suco, sorri e me curvei um pouco em agradecimento ao pegar o copo. MiJun e Hwang estavam entre risos com as líderes de torcida, sentados entre as almofadas no chão. Junhae havia saído para a varanda da frente, acompanhado de Hari. Me levantei da cadeira e comecei a procurar por . como eu estava um pouco invisível naquele lugar, então não notariam minha ausência.

Entrei na cozinha e ouvi um barulho vindo do jardim que tinha nos fundos da casa. dei alguns passos silenciosos até a porta de saída, e meu coração parou por um momento com o que meus olhos viram.

, oppa — disse Taeyeong, a capitã das líderes de torcida. Ela estava parada frente a ele.
— O quê? — Ele estava encostado na parede com suas mãos no bolso da calça, seu rosto sério e sua atenção totalmente voltada para ela.
— Você não me respondeu. — Ela se aproximou mais um pouco dele e segurou de leve em sua blusa, dando um sorriso malicioso. — Vamos ao baile juntos?

Eu dei um passo para trás para sair dali, porém minha sorte me fez tropeçar em minha própria perna e cair. Consequentemente, um pouco do suco se derramou na minha blusa. Olhei para frente, e os dois estavam me olhando. Me levantei rápido e saí de lá correndo. Eu não deveria ficar triste, teoricamente não me importava com e quem ele levaria ao baile, mas percebi algumas lágrimas se formando em meus olhos.

Por que estava chorando?!

Pergunto-me como pude passar um dia sem você,
Fico curioso pensando o quanto você gosta de mim.

— Hug / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)

Parei no ponto de ônibus e me sentei no banco. Fiquei alguns minutos com a cabeça abaixada e percebi alguém se aproximando de mim. A pessoa pegou em minha mão e me puxou, me fazendo levantar.

— Hum!? — Eu o olhei, era . — O que está fazendo?
— Por que pergunta tanto? — Ele segurou em minha mão e me puxou. Percebi que minha mochila estava em seu ombro.

Alguns minutos a mais de caminhada, chegamos à escola. Estranhei aquilo.

— Deveria tirar essa blusa molhada — disse, ao retirar sua blusa de frio, então me entregou.
— Não precisa, logo vai secar — recusei.

Ele respirou fundo, mantendo a mão esticada. Peguei sem mais protestos, sabia que sua intenção era cuidar de mim. Caminhei até a sala do treinador e lá retirei aquela blusa molhada e coloquei a dele. Assim que retornei para a quadra, guardei minha blusa no bolso externo da mochila.

— Por que estamos aqui? — perguntei curiosa, tentando não me concentrar no perfume dele que estava naquela blusa.
— Semana que vem será o primeiro jogo. Como capitão do time, carrego toda a responsabilidade — explicou.

Já havia sido impressionante termos entrado com a permissão do porteiro ahjussi. Claro que, para o filho do dono, a escola sempre estaria aberta.

— Isso não é resposta — questionei, cruzando os braços.
— Você é a auxiliar do técnico. Seu trabalho é ajudar o time, então você vai treinar comigo.
— Mas eu não sei jogar. A teoria eu entendo, mas a prática... — expliquei, enquanto o observava ir buscar a bola.
— Apenas faça o que eu disser. — Ele me entregou a bola, dando um sorriso de canto.
— Vou tentar. — Assenti, pegando a bola. Estava com receio de atrapalhar ao invés de ajudar, porém animada com aquilo.

Ele me explicou o básico dos principais movimentos e passes entre os jogadores, foi mais uma aula misturada a um treino. A única coisa que eu teria que fazer era tentar bloqueá-lo e impedir que fizesse cestas. Era meio complicado isso. era um jogador excepcional e muito talentoso, tinha curiosidade em saber se como aluno ele também era assim, já que suas notas eram as mais altas do ranking geral da escola.

— Tive uma ideia — disse ele, ao se aproximar de mim.
— Qual? — Eu o olhei.
— Vou te ensinar a fazer uma cesta.
— Acho melhor não. — Eu me afastei um pouco, com receio.
— Deixe de ser medrosa. — Ele pegou em minha mão suavemente, me rodou de leve, e, segurando em minhas mãos, me forçou suavemente a me posicionar em frente à cesta. — Respira fundo e relaxe, você é quem controla o jogo.
— Controlo? — Eu o olhei, sua face estava bem perto da minha.

Parecia que o mundo havia parado naquele momento. Ele moveu minhas mãos, me fazendo arremessar a bola. Meus olhos continuaram o olhando fixamente. virou de leve sua face para ver a trajetória da bola.

— Viu. — Ele se virou para mim com um sorriso. — Você acabou de fazer sua primeira cesta.

Eu não conseguia reagir a nada, internamente estava lutando comigo mesma para não me deixar encantar por aquele olhar charmoso e sorriso fatal. Fechei meus olhos, tentando voltar à realidade e dei um passo para trás. Em segundos, senti sua mão tocar de leve meus cabelos, de forma a me acariciar singelamente.

. — Eu me afastei um pouco dele. — Você não pode ficar fazendo isso assim, tão repentinamente.
— Isso o quê? — Ele tombou um pouco a cabeça, dando um sorriso de canto malicioso.
— Quero ir para casa. — Eu me afastei mais, indo em direção a minha mochila.
—Tudo bem. — Ele me seguiu e, assim que peguei minha mochila, ele segurou em minha mão. — Já que você quer, vou te levar para casa.

Passei todo o caminho olhando para rua para não o encarar. Quando chegamos em frente ao meu prédio, ele parou em minha frente e ficou me olhando.

— Você está meio estranha — disse, tranquilamente. — Aconteceu algo?
— O quê? — Eu olhei. — Não estou estranha, boa noite.

Eu me afastei rapidamente dele e entrei. Quando cheguei ao apartamento, fui direto para meu quarto. Coloquei minha mochila na poltrona e peguei meu celular. Fiquei olhando para a tela por um tempo, e, em um piscar de olhos, uma mensagem chegou — era dele desejando boa noite. Um sorriso brotou espontaneamente do meu rosto. Quando percebi, fiquei séria.

— Yah, , não faça isso — disse comigo mesma. — Esse pabo implica com você desde o primeiro dia, pare de querer se apaixonar por ele.

:on

Eu não sabia por que ela tinha ficado meio estranha, mas já imaginava. Será que ela estava pensando que eu tinha algo com Taeyeong? Seria divertido ver ela com ciúmes de mim. Me virei rindo de tudo aquilo e voltei para casa de MinSoo para pegar minha mochila. No meio do caminho, enviei uma mensagem de boa noite para ela. Quando cheguei, os membros ainda estavam lá conversando sobre o primeiro jogo e o baile que seria duas semanas depois.

— Yah, . Pensamos que tinha ido embora — disse Junhae.
— Vocês não viram, mas ele saiu atrás da novata — comentou YeJin. — É o nome dela, não é?
— Ah, sim, é — confirmou Hwang.
— Agora que já sabem. — Eu encostei na parede e coloquei minhas mãos nos bolsos da calça.
— E ficou todo esse tempo com ela? — Minsoo riu de leve. — Hyung, temos um novo couple?
— Não. — Eu o olhei sério. — Estávamos treinando na quadra da escola.
— Jinja? — todos falaram em coral e me olharam surpresos.
— Sim. — Eu me afastei da parede e peguei minha mochila que estava no chão ao lado de Taeyeong. Olhei sério para ela e saí em direção à porta. — Espero vocês para o treino extra de amanhã. Sem atrasos, MinSoo.
— Sim, capitão — disseram todos eles em coral.

Como era final de semana, eu poderia ir para a casa da minha mãe, e foi o que eu fiz. Quando cheguei, fui recebido com um abraço de Sunny. Minha omma estava na cozinha, fazendo ramem para o jantar. Deixei minha mochila ao lado da porta do meu quarto e fui para cozinha. Fiquei um pouco encostado na porta da cozinha, a olhando preparar tudo.

— Filho. — Ela olhou para mim com um sorriso singelo no rosto. — Que olhar brilhoso é esse?
— Estou onde quero estar. — Senti Sunny parando ao meu lado e me abraçando.
— Oppa, senti sua falta. — Ela sorriu de leve.
— Eu também. — Eu a peguei no colo. — Uau, está pesada. Andou comendo muito essa semana?
— Oppa?! — Ela riu. — Estou crescendo.
— Estou vendo. — Eu a coloquei no chão. — E está ficando mais linda do que já é.
— Poderei ter namorado? — Ela me olhou séria.
— Vou pensar.
— O jantar está pronto. — Minha mãe segurou um pouco o riso e colocou a tigela em cima da mesa. — Pensei que demoraria mais na casa de MinSoo.
— Estou um pouco cansado dos treinos, resolvi vir mais cedo. — Me sentei na cadeira e ajudei Sunny a se sentar.
— Hum, quando voltamos para casa, não encontramos você. Onde estava? — Ela serviu minha tigela.
— Fui levar uma garota em casa — respondi, pegando minha tigela.
unnie? — Sunny me olhou.
— Sim. — Assenti, movendo a cabeça.
— Ela é uma garota adorável. Fico feliz que tenha convidado ela para o baile.
— Sim. — Eu assenti novamente.

Era legal que minha mãe a aprovasse, afinal, era a primeira garota das poucas que apresentei que tinha conquistado a simpatia da minha omma. Após o jantar, me ofereci para arrumar a cozinha, enquanto minha mãe foi assistir televisão com Sunny. Os dias que eu passava com elas eram os únicos que eu tinha motivos para sorrir, até que entrou na minha vida e, sem perceber, me deu ideias para melhorar meu dia. Mesmo que não conseguisse dizer a ela, eu já sabia que estava apaixonado pela novata estrangeira que me fazia sorrir sem nem saber. Terminei de arrumar tudo na cozinha e fui para meu quarto. Ao passar pela sala, vi as duas dormindo. Fui até o quarto da minha mãe e peguei uma manta do seu armário, voltei à sala, as cobri de leve e desliguei a televisão.

Me sentia bem quando via minha mãe dormir tão tranquilamente, após todo o sofrimento que ela passou pouco antes e depois do divórcio dela com aquele que devia chamar de pai. Apaguei as luzes, deixando somente a do corredor da cozinha acesa, e fui para meu quarto. Fechei a porta e troquei de roupa, peguei a mochila que estava no chão e coloquei na escrivaninha. Estava sem sono e mesmo sentindo meu corpo um pouco dolorido devido aos treinos excessivos, abri o caderno de anotações que Ha Ri tinha me emprestado e comecei a estudar. Eu ainda tinha que me preocupar com a prova para as universidades e, mesmo sendo um aluno destaque, não queria depender daquele homem ou da sua influência para nada em minha vida.

“Óh, você é diferente
Definitivamente você não é como as outras garotas
Quanto mais eu te vejo, estranhamente, mais eu me apaixono por você
Onde quer que eu olhe nesse mundo
Não há garota como você
Eu sei disso, baby
Você é a única que eu quero.”

— Need U / MONSTA X


12.

Dilema

"Quem foi que fez você trancar seus sentimentos,
Quando você era antes tão honesta e gentil?
Foi como se você tivesse construído uma muralha,
Para se trancar dentro dela e se proteger de seu coração fragilizado."

— Dilema / INFINITE

O professor havia me liberado do treino de sábado. Estava feliz por isso, assim teria meu primeiro fim de semana de descanso realmente. Fiz questão de acordar depois das dez da manhã e ver um pouco de anime na Netflix. Após o almoço, minha mãe me chamou para dar um passeio no parque com ela, papai e Jinho, porém meu corpo estava tão cansado que preferi ficar em casa dormindo.

Acordei já no final da tarde. Ainda sonolenta, peguei minha mochila e abri um dos bolsos menores, foi então que vi a terceira carta lá dentro, havia me esquecido totalmente dela.

— Aquele pesadelo toma tanto meu tempo que até me esqueço das coisas. — Peguei a carta e voltei para cama, me sentando. — O que será que ele escreveu desta vez… A primeira se confessou, a segunda foi um poema…

“Annyeonghaseyo ,
vejo você com muita frequência indo para a quadra. Soube que participa do clube de basquete, eu deveria fazer o mesmo para me aproximar de você? Se sim, me espere na porta da quadra na segunda após o treino, quero me declarar pessoalmente.

PJM”


Senti um breve frio na barriga, carregado de curiosidade.
Quem será meu admirador secreto?

Meu domingo se passou em um piscar de olhos. Segunda de manhã acordei mais cedo para não chegar atrasada. Assim que cheguei à escola, Prince Line já estava treinando na quadra antes das aulas, o que me levou a imaginar que horas teriam chegado. Não demorou muito até que apareceu, ele também havia chegado cedo para entregar alguns formulários do clube de leitura na secretaria.

— Então, como foi seu fim de semana? — perguntou, assim que entramos na sala.
— Foi tão bom. — Abri os braços em comemoração. — Dormi muito, pena que passou rápido.
— Uau, mas e os treinos, senhorita auxiliar?! — Me olhou curioso.
— O treinador me dispensou dos treinos dessa semana, já que semana que vem já teremos as provas do quadro de classificação. Ele disse que meu foco terá que ser nos estudos — expliquei contente. — Uma semana livre.
— Você está bastante contente por isso. — Ele riu de mim. — Uma semana sem .
— Bem… Difícil de acreditar, mas, de certa forma, ele não me incomoda mais — admiti, sem receio. — Acho que estou me acostumando com o Prince Line.
— Você gosta dele? — Senti uma preocupação vindo de sua voz.

Eu realmente não sabia o que responder. Ao mesmo tempo que tomava a maior parte dos meus pensamentos, fazendo meu coração acelerar, eu queria afastá-lo e não me preocupar com ele.

— Eu…
— Não precisa responder. — desviou o olhar. — Vejo que está confusa com seus sentimentos.
— Você me entende muito bem. — Sorri disfarçadamente. — É um bom amigo.
— Amigo… — Ele respirou fundo e se virou para frente, parecia frustrado.

Logo que os outros alunos começaram a entrar, permaneci toda a aula em silêncio, pensando em um assunto aleatório para falar com .

, espera — disse, assim que ele saiu da sala.
— O quê? — Ele se virou para mim.
— Podemos conversar?! — perguntei.
— Claro. — Assentiu, dando um sorriso fechado. — Vem comigo.

Assenti, o seguindo. me levou até o terraço do prédio onde estávamos. Havia muitas cadeiras quebradas entulhadas em um dos cantos, e dois bancos ao lado da porta. Demos alguns passos até o beiral e ficamos olhando o horizonte.

— Não precisa me explicar nada se não quiser. — Iniciou ele, como se soubesse o que eu estava pensando em dizer.
— Não quero que fique chateado comigo — expliquei. — Sei que não gosta do , vejo como fica incomodado com a presença dele.
— Não fico incomodado por causa dele, eu só… — Ele se calou, apoiando as mãos no beiral.
— Só?! — O olhei, insistindo.
— Fico triste que goste de alguém como ele. — manteve seu olhar para frente, parecia um desabafo.
— Eu não sei se gosto dele… Mas também não sei se não gosto… — Suspirei fraco. — Sinto que não sou capaz de responder sobre isso agora.
— É claro que gosta dele, só não percebeu ainda. — Ao abaixar as mãos, o percebi fechando os punhos.
— Como pode dizer isso — ri baixo — com tanta certeza.
— Porque vejo como fica quando ele está perto. — Se virou para mim. — Eu preciso ir.
. — Segurei em sua mão. — Ainda vamos ser amigos?!
— Eu jamais deixaria de ser seu amigo por causa disso. — Ele sorriu de forma fofa, então me puxou para perto e me abraçou forte. — Eu sempre estarei aqui.
— Obrigada — sussurrei, retribuindo o abraço.

se despediu de mim. Ele realmente tinha que ir, iria passar na farmácia novamente para sua mãe. Permaneci mais um tempo ali no terraço, olhando o movimento dos alunos no pátio, foi então que me lembrei da carta e do meu admirador secreto. Desci correndo para a quadra, a porta estava aberta e os membros do Prince Line estavam todos presentes reunidos perto do vestuário, o clima não parecia estar dos melhores.

— O que está acontecendo?! — perguntei, me aproximando.

Todos permaneceram em silêncio, então movi meu olhar para , que estava de costas, perto da parede. Notei que sua mão direita estava sangrando.

?! — Corri até ele e parei em sua frente. — O que está acontecendo?

Ele manteve seu olhar para o lado, parecia não querer me encarar.

— Não se preocupe, , ele está bem — disse Junhae. Pelo seu tom, já imaginava que fosse relacionado ao senhor Dongho.
— Não vai mesmo dizer? — insisti.
— Vai embora — disse , num tom firme, virando seu olhar para mim. — Não precisamos de você aqui hoje.

“Tenho medo de me ver arruinado por você,
Você acena para mim e então se vira.”

— Bad / Infinite

Senti uma breve chateação naquele momento. Queria entender o motivo dele estar tão frio comigo. Saí correndo da quadra, só queria realmente ir para mais longe possível dele. Entre o percurso até a estação de metrô, algumas lágrimas surgiram no canto dos olhos. Foi então que trombei em alguém.

— Me desculpe. — Mantive minha face baixa, não entendia por que estava triste com o tratamento de , eu nem queria gostar dele mesmo.
— Está tudo bem, ?! — disse a voz desconhecida.
— Hum?! — Ergui minha face e o olhei confusa. — Como sabe meu nome?!

O garoto sorriu de canto, era um pouco alto, usava uns óculos Bvlgari e vestia uma jaqueta preta de couro, aparentemente sintético.

— Estudamos na mesma escola, como não saberia? — respondeu entre linhas.
— Isso não é resposta.
— Me desculpe, é que sempre fico nervoso quando te vejo. — Ele riu meio tímido.
— PJM?! — perguntei instintivamente, cheia de teorias na minha mente.
— Prazer, pode me chamar de Joonseo, Park Joonseo — afirmou. — PJM é meu nome de gamer.
— Ah… — Limpei os vestígios das minhas lágrimas disfarçadamente.
— Você estava chorando?! — Observou ele. — Meu primo te incomodou novamente?!
— Seu primo? — Agora estava confusa.
— Sou enteado do diretor Lee — esclareceu, dando um sorriso leve.

Oh não…

é seu primo? — Por essa eu não esperava.
— Bem, curiosamente nossas mães são amigas desde o ensino médio. Eu tinha quatro anos quando o diretor Lee se casou com minha mãe — explicou. — Como o diretor se considera meu pai, nos consideramos primos, principalmente por nossas mães.
— Entendi. — Desviei o olhar para a rua.
— Quer dar uma volta?! — perguntou.

Pensei por alguns instantes. Ele me olhou esperançoso por uma resposta positiva, mas eu já estava tão cansada das alterações de humor de que não queria me aproximar de mais ninguém dessa família maluca.

— Joonseo, sobre aquelas cartas… — Iniciei.
— Calma, não estou pedindo para ser minha namorada e nem te chamando para um encontro, só quero ser seu amigo — disse, me interrompendo. — Sei que não posso competir com meu primo.
— Não acredito… — sussurrei. — Por que tiraram o dia para dizer que gosto daquele grosso?
— O que disse?! — perguntou confuso.
— Nada… Não disse nada.

Não havia como negar, estava chateada com , mas não deixaria que isso interferisse ainda mais em meus sentimentos. Acabei aceitando, ruim certamente não poderia ficar, ou pelo menos era o que eu imaginava...

— Chegamos — disse, parando em frente a uma cafeteria rosa e branco. — Bem-vinda a Rabbit House Coffee.
— O nome é bem interessante — comentei, o seguindo até a entrada.
— Minha mãe é a dona, ela gosta muito de coelhos — explicou, abrindo a porta para que eu entrasse primeiro. — Você vai gostar, as tortas daqui são as melhores.
— Preciso mesmo adoçar meu dia — sussurrei.

Infelizmente, sua mãe não estava naquele momento, mas Joonseo me contou a história de como sua mãe montou a cafeteria após ganhar alguns concursos de culinária. Ela ainda não havia se casado naquela época, tinha que se sustentar e cuidar do filho ainda recém-nascido. Ele contou que Seohyun ajumma a ajudou muito nessa época, foi assim que a senhora Sora conheceu o diretor Lee.

— Obrigada por hoje, não estava mesmo bem — agradeci, assim que chegamos em frente ao meu prédio. — Mas ainda não falamos das suas cartas…
— Não precisamos falar sobre isso agora, apenas saiba que eu gosto de você. — Seu olhar sincero me deixava estranhamente constrangida. — Apesar de nem me conhecer direito.
— Nem sei o que dizer. — Sorri sem graça. — Tenho que entrar agora.
— Espera. — Ele segurou em minha mão.
— O quê?
— Sei que não é da minha conta, mas…
— Mas?!
— Se você e meu primo estão próximos, quem é o garoto da foto?! — perguntou.
— Que foto?!

Joonseo respirou fundo e, retirando o celular do bolso da calça, me mostrou uma foto minha abraçada a . Notei que o lugar era o telhado. Alguém havia nos seguido e tirado aquela foto, depois espalhado para todos que éramos o novo casal da escola. Logo meus pensamentos foram até , na forma como ele me tratou na quadra.

Será que ele havia visto aquela foto também?

Não consegui raciocinar direito, somente senti meu corpo se mover na direção contrária e sair correndo. Mesmo que eu não soubesse meus reais sentimentos por , mesmo que eu não devesse nenhuma explicação para ele, neste momento, meu corpo não estava mais seguindo minha mente, mas talvez meu coração. Um coração confuso e atrapalhado!

?! — disse o senhor Dongho, ao abrir a porta do apartamento, com o olhar surpreso para mim. — Fiquei preocupado quando o recepcionista disse que estava aqui.
— Me desculpe pela hora, senhor Cho, mas… — Desviei o olhar para frente. estava descendo as escadas.
— Entendi. — Ele se virou e olhou para o filho.

se manteve em silêncio, certamente paralisado por me ver ali.

— Vou deixá-los a sós, estava mesmo de saída. — Seu olhar voltou para o filho e, retirando as chaves do bolso, jogou para ele. — Leve-a para casa quando terminarem.

Adentrei um pouco mais e esperei até que o senhor Dongho saísse.

— O que faz aqui?! — perguntou, sua voz continuava áspera.
— Sua mão está melhor?! — Devolvi a pergunta, vendo que estava enfaixada.
— Veio para me perguntar sobre minha mão? — Tombou a cabeça, tentando entender. Parecia confuso.
— Não… Vim porque tenho que te explicar sobre…
— Se for pela foto, não me importa. — Me interrompeu. — Não somos próximos, não deveria ter vindo.
— Você quer parar de agir assim e olhar para mim? — Alterei minha voz, já estava ficando irritada com ele.
— Como quer que eu haja?!
— Como alguém que não está com ciúmes — respondi.
— Quem disse que estou com ciúmes?! — Ele desviou o olhar, me fazendo rir.
— Pabo — sussurrei, fechando a cara.
— Vamos, vou te levar para casa. — Ele veio em minha direção para seguir até a porta.
. — Segurei em sua mão enfaixada. — O é somente meu amigo.
— Por que está me dizendo isso? — indagou, mantendo a atenção longe de mim.

Parecia não querer me encarar.

— Porque não quero que acredite em falsas informações — respondi. — Se for para acreditar em alguém, que seja em mim.
— Quem disse que não acredito em você?! — Seu olhar intenso estava ali, agora em minha direção. — Vocês realmente são amigos?

Eu comecei a rir, mas me controlei.

— Nada de ciúmes, não é?! — Ri mais um pouco.
— Yah, pare com isso. Já disse que não tenho ciúmes de você. — Ele olhou para o lado, inconformado.
— Eu acredito… E sim, eu e somos apenas amigos.

Apesar de ser engraçado… Quanto mais agia daquela forma, mais eu ficava confusa dentro de mim. Uma louca indecisão entre gostar ou não gostar dele.

Eu mudei depois que eu te conheci,
eu não me assusto ou me machuco mais,
Dia após dia eu vivo me antecipando, e está tudo bem, porque é você

— Hot times / SM The ballad


13.

Hug

Quero te dar todo o amor que há no mundo,
Ainda que isso esteja apenas nos meus sonhos,
Meu coração continua como antes.

— Hug / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)

: on

Ainda permaneci um tempo dentro do carro, do outro lado da rua, olhando para seu prédio depois que ela entrou. Estava me sentindo um babaca por ter agido daquela forma. Ela e eram próximos, então uma parte de mim acreditava na foto, o que me levou a querer afastá-la de imediato.

— O que você fez comigo?! — sussurrei. — Essa garota me deixa louco.

Assim que cheguei em casa, ouvi vozes vindas do escritório dele. Deixei as chaves em cima da mesa de centro e fui direto para meu quarto. Assim que entrei, meu celular vibrou no meu bolso, era uma mensagem do meu primo. Estranhei de início, já havia um certo tempo que não tinha notícias dele, pois havia se mudado há dois anos para Seoul, a pedido do pai biológico.

“Hello... querido primo, adivinha quem voltou?!
Saudades??!! kkkkk”


Olhei para aquela mensagem e ri, Joonseo costumava ser piadista e sarcástico em alguns momentos, principalmente quando se tratava de falar mal de Cho Dongho, mas era um cara legal. Tínhamos a mesma idade e crescemos juntos, lembro-me do seu grande apoio quando meus pais divorciaram. Já estava curioso para saber sobre sua volta.

“O que faz em Daejon?” — perguntei.

“Estava com saudade de casa”

“Diga a verdade”

“A verdade? Aquela casa é um tédio, minha madrasta é escandalosa e…”

“E?”

“Soube que anda brigando demais com seu pai,
Pq não me contou sobre seu acidente?”

“Não era importante”

“Como não? Meu primo favorito se acidenta e não é nada demais?”

“Sou seu único primo”

“Na verdade, não, mas isso não vem ao caso kkkkkkk”

“Aish… desde quando está em Daejon?”

“Já tem alguns dias”

“E não me contou? Cretino.”

“Queria fazer uma surpresa kkkk, mas acabei ficando interessado em outra coisa”

“Que coisa?”>

“Sua namorada”

“Namorada?”

“Ou devo chamá-la de novata estrangeira?”

“Como sabe sobre isso?”

“As paredes da escola têm ouvidos kkkkk”

“Yah, estou falando sério”

“Eu tbm”

“Eu te conheço muito bem. Fique longe dela”

“Yah, não vou fazer nada”

“Joonseo”

“Como poderia competir com você? Até o amigo da foto não consegue”

“Você também viu?”

“Fui eu quem mostrou pra ela”

“Como assim?” — Fixei ainda mais meu olhar na tela do celular.

“Prazer PJM”

“Era você?”

“Não acredito que não lembrou desse nickgamer,
você está ficando fora de forma”

“O que escreveu naquelas cartas?”

“Não vou contar, pergunte à sua namorada,
Isso se ela for a sua namorada”


Joguei o celular na cama, controlando minha raiva.

— Aish. — Me alterei, chutando a mochila no chão.

Meu primo sabia como me deixar nervoso. O que ele estaria aprontando? Joonseo era meu grande amigo, o considerava mais que primo, um irmão, porém ele tinha um leve costume de me pregar peças. O que me levou a não querer que ele se aproximasse de .

— x —

— Yah, vocês demoraram — reclamei assim que os membros da Prince Line apareceram.
— Hyung, por que nos fez vir aqui a esta hora? — reclamou MiJun.
— Deveríamos estar na aula, não aqui. — Completou Hwang. — Por que estamos em frente a cafeteria da sua tia?
— Nós vamos trabalhar aqui — respondi tranquilamente.
— O quê? — disseram eles em coral.
— Isso mesmo. — Sorri de canto.
— E de onde veio essa ideia? — perguntou Junhae, me olhando confuso.
— Vocês andam falando que estão sem dinheiro, eu não quero mais depender daquela pessoa, então tive essa brilhante ideia — expliquei. — Já falei com minha tia, vamos trabalhar aqui no turno da noite.
— Uahhh, já estou gostando. — MiJun se animou. — A noite sempre é movimentada pelas nonnas da universidade.
— Yah, MiJun, se contenha. Você está quase comprometido com a Chohee. — Hwang o repreendeu.
— E você, Minsoo? Qual sua opinião? — perguntou Junhae.
— Se o hyung disse, por mim tudo bem — respondeu ele, sempre no seu jeito tranquilo de receber notícias. — Só espero conseguirmos dar conta de tudo.
— Verdade. — Concordou Hwang. — Temos os treinos extras, os estudos, a preparação para as provas das universidades, agora a cafeteria.
— É impressão minha, ou você quer manter sua mente mais do que ocupada? — Junhae me olhou desconfiado.
— Já disse, não quero depender dele. — Dei o primeiro passo para entrar. — Vamos logo, antes que minha tia desista.

Ao entrarmos, logo avistei Joonseo conversando com a tia Sora em frente ao caixa.

— Olha só quem chegou. — Joonseo abriu um largo sorriso.
— Então realmente voltou. — Me aproximei dele.
— Claro que voltei, você não vive sem mim. — Ele começou a rir, me fazendo rir junto.
— Você é que não vive sem mim.

Ele me abraçou e olhou para meus amigos.

— E vocês? Sentiram minha falta? — perguntou.
— É claro que sim. Só você pra colocar o nos eixos — brincou Junhae.
— Yah, é assim a consideração que tem por mim? Vou pedir a Hari para terminar com você — ameacei, brincando.
— Hyung, de onde saiu tanto rancor? — Junhae me olhou com ar de ofendido, fazendo todos rirem.
— Yah, esse pabo é assim mesmo, mas agora tem uma garota que faz ele ficar derretido. — Joonseo riu de mim. — Não é, senhor raivoso?!
— Já falei para ficar longe dela. — Fechei a cara, fazendo eles rirem mais ainda.
— Eu disse que ele estava apaixonado — brincou Junhae.
— Ok, meninos. Vocês vieram para conversar ou se divertir?! — Minha tia nos interrompeu, cruzando os braços.
— Viemos tratar de negócios — respondi com segurança.
— Estão mesmo dispostos a trabalhar aqui no turno da noite?! — Ela nos olhou desconfiada.
— Sim — dissemos em coral.
— Muito bem. Joonseo irá acompanhá-los.

Meu primo me olhou e piscou de leve para mim.

— Por quê? Não vai voltar para Seoul? — perguntei.
— Não, não quero morar mais com meu pai, prefiro ficar aqui com vocês — respondeu ele.
— Eu disse a vocês que ele me ama — brinquei.

Nós rimos mais um pouco, até a tia Sora retornar com os contratos de trabalho de meio período. Ao mesmo tempo que seria cansativo e trabalhoso, também seria divertido. Eu queria aproveitar cada segundo que tinha deste último ano com meus amigos, afinal, não sabia que caminho meu futuro reservava para mim, já que o senhor Cho sempre mudava de pensamento sobre a universidade em que cursaria.

— Você não está zangado comigo, não é?! — perguntou Joonseo, ao pular em cima de mim, no sofá do escritório da tia Sora na cafeteria. — Pela brincadeira com a .
— Não é certo entregar cartas falsas de confissão. — O olhei com repreensão. — Você é mestre em fazer isso.

Sempre odiei esse tipo de comportamento dele.
Joonseo tinha fama de destruir corações apaixonados. Ele sempre fazia uma garota se apaixonar por ele e depois a rejeitava na frente de todos. Por mais que não admitisse, ele estava descontando em outras a rejeição que teve no passado, a garota que foi seu primeiro amor. Porém, ainda assim, eu não concordava.

— Já disse para ficar tranquilo, jamais me envolveria com a sua garota. — Ele riu. — Além do mais, quem sou eu para competir com você.
— Ainda não confio, conheço seu histórico. — O olhei sério. — Irá se desculpar com ela.
— Sim, senhor. — Ele bateu continência, brincando. — Ahhhh… Garotas como ela são fofas e boas demais para mim…
— Falou o destruidor de corações. — Desviei o olhar para a porta.
— Eu juro que mudei, agora sou um novo homem. — Ele segurou o riso.
— Sei, a que se deve isso? Foi rejeitado novamente?
— Jamais, jurei que nunca mais seria rejeitado de novo. — Ele se espreguiçou no sofá. — Por que não voltou para escola com os outros?
— Não estava afim. — Soltei um suspiro cansado. — Queria poder fazer algo errado pelo menos um dia.
— Que tal hoje? — Ele retirou as chaves do bolso. — Vai uma volta?
— Sério?
— Desde quando eu brinco com isso? — Ele se levantou do sofá. — Vem, você precisa extravasar um pouco.

Me levantei, ficando mais animado. Joonseo me deu a chave de sua moto e pegou a de um dos funcionários emprestado. Seguimos pela estrada até chegar ao Gyeryongsan National Park. Caminhamos mais alguns minutos a pé, até chegar a um dos mirantes no topo da colina. Ele começou a gritar como um louco, me instigando a fazer o mesmo.

— AAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!! — fiquei gritando até cansar e logo me sentei no chão.
— Já cansou?! — Ele riu, se sentando ao meu lado.
— Estou cansado há muito tempo — confessei. — Não sei como continuo de pé.
— Minha mãe me contou que não tem sido fácil nestes últimos meses — disse, mantendo seu olhar no horizonte, assim como eu.
— É como se ele quisesse controlar cem por cento de mim agora. — Suspirei fraco, o cansaço era mais mental que físico. — Isso está me deixando com mais raiva ainda.
— Aposto que começou depois do acidente do ano passado. — Observou ele. — Por que não me contou?
— Yah… Já disse que não foi nada demais. A única pessoa a se machucar foi eu. — Dei de ombros. — Além do mais, ele transformou o que sobrou da minha moto em sucata na minha frente.
— Que pesado… Mas onde você estava com a cabeça?
— Eu presenciei uma briga dele com minha mãe, tomei partido e defendi ela… Não quero mais lembrar disso. — Me espreguicei.
— Da próxima vez que tentar se matar, me avisa que eu mesmo te mato — repreendeu, de uma forma meio maluca.
— Eu não tentei me matar, só estava nervoso e fui louco o bastante para pilotar uma moto em alta velocidade — expliquei.
— Yah. — Ele me deu um soco de leve no ombro. — E ainda diz assim, nessa tranquilidade.
— Mas foi exatamente isso que aconteceu. — Ri dele.
— E quanto a ela?!
— Por que está mencionando a novamente? — O olhei meio enciumado.
— Está com ciúmes… — Ele caiu na gargalhada. — Essa garota realmente te dominou. Estou curioso para saber como.
— Nem eu sei... — sussurrei.
— Aposto que começou implicando com ela e, quando se deu conta, já estava pensando nela o dia todo. — Ele riu mais. — Você é sempre assim. Afasta as pessoas que quer estar perto… Desistiu mesmo daquela promessa?
— Estou pensando ainda. — Tombei meu corpo para trás, me deitando na grama. — Aquela garota é especial demais para mim.

Ficamos mais algum tempo ali, até voltarmos para a cafeteria para devolver a moto do funcionário, então Joonseo me deu uma carona até a escola. Mesmo que não tenha participado das aulas de manhã, não poderia faltar aos treinos, principalmente em consideração aos membros.

— Não vai mesmo ficar para treinar com a gente?! — perguntei.
— Sabe que não gosto muito de esportes, só pratico por causa do diretor Lee. — Ele sorriu de canto. — Meu lance é música.
— Exibido. — Dei de ombros.
?! — surgiu na porta da quadra. — Joonseo?!
— Oi, . — Joonseo sorriu para ela, como se fossem íntimos.
— Yah. — Engrossei minha voz e o empurrei.
— Aish. — Ele me olhou segurando o riso.
— Peça desculpas a ela. — O lembrei, então passei por ele para entrar na quadra.

não entendeu de início, mas, assim que passei por ela, sorri discretamente e arranquei outro sorriso dela. As horas foram passando, senti que o treino estava mais pesado e todos desatentos, então resolvi finalizar mais cedo, assim os outros foram pra casa antes, enquanto eu resolvi ficar sentado na quadra, olhando guardar os instrumentos.

— Não vai me ajudar?! — Ela parou e me olhou.
— Pensei que não precisasse. — Ri, me levantando. — O que deseja, senhorita?!
— Ainda falta recolher as bolas — respondeu, jogando em minha direção a que estava na mão dela.
— Tudo bem. — Peguei a bola no ar e terminei de descer, rindo.

Começamos a juntar as bolas e colocar na cesta. Naquele momento eu percebi quão trabalhosa era essa parte de ser assistente. tinha que fazer isso todos os dias e sempre mostrava dedicação. Quando estávamos no fim, peguei a última bola e comecei a brincar com ela, fingindo que guardaria, mas jogando na cesta.

, devolve… — disse ela, correndo atrás de mim.
— Vem buscar. — Ri mais um pouco, me desviando dela.

Deixei que ela se aproximasse mais um pouco, após um movimento meu que avançou para pegar a bola de mim. Ela pisou em falso, escorregando. No susto, eu larguei a bola e a puxei para mim, para que não caísse, porém o impacto do seu corpo contra o meu nos derrubou ao chão, a fazendo ficar sobre mim. Nossos olhares encontrados, fixos um no outro. Senti que sua respiração estava tão descoordenada quanto a minha, além do coração acelerado.

… Acho que devemos ir. — Ela desviou o olhar, envergonhada.
— Por quê?! — Intensifiquei meu olhar e sorri maliciosamente, mantendo minha mão apoiada em sua cintura de leve.

Ela ficou paralisada por um tempo.
Senti meu coração pulsar mais forte naquele momento. Não consegui entender o que estava acontecendo, como se minha razão estivesse saído de mim. Meu corpo se moveu no impulso do momento, e, quando dei por mim, meus lábios já estavam encostando nos dela.

Aquele beijo era como o fogo que fazia meu coração se aquecer.

Por favor, espero que você veja como eu cresci.
Quero ser um homem que combine com você.
Por favor permita-me entrar,
Em seu coração a qualquer hora que eu quiser.

— My little princess / TVXQ (DBSK)

14.

Ace

“Eu quero ser o seu único campeão.”
— Ace / Taemin

: on

Dois dias se passaram e finalmente chegamos ao nosso primeiro jogo do campeonato, era quinta-feira e, por causa do jogo, não haveria aula, mas os alunos tinham que assistir à partida. Eu tentei permanecer um pouco focado para a partida, mas sempre que olhava para , me lembrava daquele beijo. Ela continuava agindo como se não tivesse acontecido nada, isso me deixava ainda mais louco.

— Animado para começar a sequência de vitórias? — perguntou Joonseo, se colocando ao meu lado.
— Tentando. — Soltei um suspiro fraco, mantendo meu olhar em , que conversava com o treinador.
— É o seu último ano do colegial e está assim? — Ele parecia desacreditado.

Continuei em silêncio, até que vi a mão dele passando na frente do meu rosto, chamando minha atenção.

— Terra chamando — disse.
— O quê?! — Desviei meu olhar para ele. — Ah, por um instante, me perdi em meus pensamentos.
— Tem certeza que foi isso? — Ele riu. — Te desejo um bom jogo.
— Não vai ficar? — perguntei. vendo que ele segurava as chaves da moto.
— Não, tenho um encontro daqui a pouco. — Ele piscou de leve.
— Vai me trair assim? — brinquei.
— É só o primeiro jogo da temporada, e eu sei que vocês vão ganhar. — Ele sorriu de canto. — Te vejo na festa da vitória?
— Sim. — Assenti.

Logo Taeyeong se aproximou de nós. Ela esperou até que Joonseo se afastasse e me deu uma correntinha com um pingente com o nome dela.

— Oppa, para te dar sorte — disse, com seu sorriso tendencioso de sempre.
— Komawo, vou precisar. — Eu peguei o pingente das mãos dela e sorri de leve, por educação.
— Espero que marque muitos pontos. Vou comemorar em todos.
— Tenho que ir agora, trocar de roupa. Até após o jogo — disse, me afastando.
— Sim. — Ela sorriu. — A comemoração da vitória será na casa de Hwang.

Eu virei minha face e vi parada ao lado do vestiário nos olhando. Segurei o riso e segui em sua direção. Deixei minha blusa cair de propósito ao passar por ela e entrei. Os membros já estavam terminando de se vestirem, e os jogadores rivais já estavam em quadra, haviam chegado já uniformizados. Retirei minha calça e coloquei a bermuda, me encostei ao lado do meu armário e cruzei meus braços de leve, esperando. Hwang me olhou sem entender minhas ações.

— Por que está assim, hyung? Temos um jogo.
— Eu sei. — Olhei para a porta, e lá estava parada, me olhando. — Poderiam nos deixar sozinhos?

: off

Assim que os membros saíram, eu caminhei até ele e estiquei sua camisa que estava em minha mão.

— Deixou cair — disse, esticando para que pegasse.
— Sabia que viria me entregar. — Ele sorriu de canto e retirou sua camisa de uniforme na minha frente e jogou no seu armário.

Fiquei paralisada de início. Queria mover meus olhos, mas minha visão continuava fixa naquelas linhas do seu abdômen. Respirei fundo, enquanto ele pegou a camisa da minha mão e vestiu.

— Não vai me desejar sorte? — perguntou.
— Não. — Eu o olhei, tentando demonstrar desprezo. — Taeyeong já fez isso.

Me virei para sair.

— Vai, sim. — Ele segurou em minha mão de leve e me virou para ele. Antes mesmo que eu pudesse reagir, me abraçou com carinho. — Agora sim, terei sorte.
… — Fiquei com receio de ele me beijar de surpresa novamente.

Confesso que ainda não sabia lidar com o que havia acontecido. Aquele havia sido meu primeiro beijo e havia me feito sentir como se o mundo tivesse parado e só existisse nós dois, o gosto de uma mistura louca de doçura e rebeldia. Algo que, certamente, só ele poderia provocar.

— Feche meu armário para mim — pediu, ao se afastar, e saiu tranquilamente, como se nada tivesse acontecido.

Como sempre, estava em choque com tudo aquilo. Quanto mais tentava não gostar dele, mais ele me provocava com seus abraços quentes e confortáveis. Respirei fundo e me virei para seu armário. Quando fui tentar fechar, sua blusa estava travando a porta, a peguei para dobrar direito e percebi que algo tinha caído no chão, era a correntinha que a Taeyeong tinha dado a ele. Senti meus olhos brilharem, era ridículo da minha parte esse sentimento de venci, mas eu estava gostando de ser sua sorte.

— Seu mercenário — sussurrei. — Aposto que foi de propósito que me pediu para fechar o armário.

Quando finalmente retornei à quadra, o jogo já tinha começado. Tentei me lembrar das explicações de e entender os passes que eles tinham planejado. Demorei um pouco para relembrar o que era cada passe que ele trocava com Junhae, que era o ás do time. Era emocionante ver ele jogando, tão rápido e preciso em seus lances. O jogo foi equilibrado, e o time rival parecia animado também. Felizmente, vencemos com o placar de 97 x 94, a cesta final de três pontos havia sido feita por MinJu, e assim que o juiz apitou, todos os membros do time se abraçaram, e os alunos começaram a gritar de alegria. Olhei de relance para o diretor e vi um olhar de orgulho. Eu sabia que não era somente pelo time, mas também por seu sobrinho, . Voltei minha atenção para a arquibancada, e só naquele momento percebi que não estava presente. Achei estranho, ele não era de faltar na aula.

Será que era por causa do jogo?

Joonseo também não estava mais. O cumprimentei mais cedo quando cheguei à quadra antes dos times, pois o treinador havia me pedido para organizar tudo para o jogo. Realmente pensei que ele jogaria com a Prince Line, mas Junhae me contou que o primo de gostava mais de música que de esportes, e seu plano para o futuro era se tornar um dos maiores DJs da Coreia. Ele parecia mesmo ser uma pessoa descolada. Confesso que tinha ficado chateada pela brincadeira sem graça dele com as cartas falsas de confissão, mas prometi lhe dar uma segunda chance de ser meu amigo, já que me pediu desculpas sinceras. Saí da quadra sem que vissem e permaneci no refeitório por um tempo. Teria uma comemoração na casa de Hwang, mas eu não iria, não estava animada e já tinha tido experiências demais em ficar no mesmo ambiente com as líderes de torcida. As outras garotas eram legais, mas meu problema era Taeyeong, e eu nem queria admitir a causa.

Saí da escola antes que os membros do time, mais precisamente , saíssem da quadra. Certamente ele me obrigaria a comparecer à festa, e eu não queria mesmo ir.

— Não deveria estar em outro lugar? — disse uma pessoa, ao chegar ao meu lado, antes que eu atravessasse a rua, escorando seu braço sobre meu ombro.
— Hum?! — Olhei para o lado e era Joonseo, usando óculos escuros desta vez, com um largo sorriso. — Joonseo?!
— Está longe da escola garota — comentou.
— Digo o mesmo sobre você. — Retirei seu braço do meu ombro, o olhando desconfiada. — O que faz aqui?
— Estou com uma amiga — respondeu tranquilamente.
— Em um encontro?! — perguntei curiosa.
— Não, não saio em encontros — respondeu, desviando o olhar para os carros.
— Oppa. — Uma garota se aproximou de nós com duas sacolas na mão. Notei que vestia o uniforme da escola do time rival do jogo. — Espero não ter demorado muito.
— Não. — Ele me olhou. — Tenho que ir agora. Me desculpe por não poder te acompanhar.
— Não se preocupe comigo.

Ele piscou de leve e se afastou com a menina. Ouvi de relance ela perguntando quem eu era, mas não dei tanta importância assim. Minha mente estava em outro lugar, em outro tempo, mais precisamente naquele beijo. Fiquei caminhando pelos quarteirões, enrolando um pouco para ir para a estação. Desta vez, estava atenta e sem meus fones de ouvido. Me peguei cantarolando algumas vezes e sorrindo como uma boba de tempos em tempos. Parei em frente a uma cafeteria e fiquei olhando as tortas que estavam expostas na vidraçaria. Elevei a mão na barriga de leve e senti que não tinha comido nada até aquele momento, estava com fome e sem dinheiro, tinha esquecido minha carteira em casa e só estava com a grana da passagem no bolso.

De repente, senti uma mão segurar a minha e me puxar para a porta de entrada da cafeteria. Olhei para o lado, e era .

“Ele só vai aumentando,
Mesmo me censurando não adianta.
Continua fazendo o inverso, como uma criança,
E eu peço que pare,
Mesmo calando meu coração, eu penso somente em você,
Desde o começo até o fim, é você.”

— No Matter What / Master's Sun OST (Seo In Gook)

— O que está fazendo? — perguntei, ao entrarmos.
— Vou alimentar meu amuleto da sorte — respondeu tranquilamente, olhando as mesas. De certo estava escolhendo onde sentaríamos.
— Não é isso. — Me deixei ser guiada por ele até uma mesa que ficava mais aos fundos da cafeteria. — Estou perguntando o que está fazendo aqui?!
— Estou aqui, porque estou com fome, preciso recarregar as energias, e me parece que você também está com fome. — Ele se sentou e sorriu de leve.
— Não era para você estar em uma festa de comemoração? — Me sentei na cadeira de frente e o encarei.
— Este é só o primeiro jogo e não estava animado para a festa.

Ficamos nos olhando por um tempo.
Por um momento, senti que ele havia dito aquilo não por ele mesmo, mas que subjetivamente estava ali por minha causa. Meu coração acelerou um pouco naquela hora e deixei um sorriso transparecer de leve. A atendente se aproximou e pedimos chocolate quente, acompanhado de duas fatias de torta de morango. Foram momentos saborosos entre mim e aquela fatia de torta. Demoramos um pouco para terminar, pois ele havia pedido mais duas fatias de torta para ele. Fiquei impressionada com sua fome. pagou a conta e me levou para casa. Quando chegamos em frente ao prédio, ele segurou de leve em minha mão e me puxou, envolvendo seus braços em mim, me abraçando.

Não entendia o motivo, mas retribui o abraço de leve.

— Komawo — sussurrou em meu ouvido.
— Não fiz nada — sussurrei de volta.
— Você entrou em minha vida. — Ele se afastou alguns milímetros e me olhou com carinho. Tinha um sorriso de canto.
. — Me afastei um pouco mais dele. — Eu não quero.
— Não quer o quê? — Me olhou confuso.
— Entrar na sua vida. — Eu dei mais dois passos para trás. — Desde o primeiro dia que nos vimos, tivemos um certo conflito, e eu quero evitar muitas coisas entre eu e você, e vamos começar pelo baile.
— Por que está dizendo isso?
— Não tem um motivo, só não quero ser próxima de você. — Respirei fundo. — E acho que deveria levar Taeyeong ao baile. Certamente, você já tinha combinado com ela antes de dizer ao que me levaria. Não se preocupe, eu nunca quis ir ao baile.

Eu me virei e entrei no prédio, não daria a chance de dizer mais nada.

Assim que entrei no elevador, comecei a me sentir uma idiota e burra por ter dito aquelas palavras, talvez pela insegurança de estar gostando de um garoto pela primeira vez, ou por medo de me aprofundar neste sentimento e me machucar. Minha razão estava em conflitos com meu coração. Sentia que eu deveria me afastar agora que eu ainda estava inteira, ao mesmo tempo que meu coração acelerava assim que lembrava daquele beijo. Ao entrar no apartamento, disfarcei as lágrimas que caíram quando saí do elevador e fui para meu quarto. Me joguei na cama com aquela roupa mesmo e fiquei olhando para o teto, enquanto ouvia a música mais bad da minha playlist.

: on

Eu voltei para minha casa estático com suas palavras.
Não acreditava no que havia dito. Só havia um motivo para ela querer se afastar de mim, o motivo que eu tanto queria: tinha se apaixonado por mim e estava com medo daquele sentimento. Comecei a ficar um pouco mais empolgado com aquilo tudo, coloquei a mão em meu coração e ele estava acelerado.

— Ah! — Olhei para o céu e sorri. — Acho que entendi por que ela mencionou a Taeyeong. Não acredito que consegui duas coisas em um mesmo dia. — Eu soltei um riso ao me aproximar da rua onde minha mãe morava. — Ela está apaixonada e está com ciúmes. Não acredito que foi tão fácil assim fazer ela ficar com ciúmes.

Entrei em casa, elas não estavam, mas haviam deixado um bilhete na mesa de centro em frente o sofá, haviam ido a casa da vovó. Subi as escadas e entrei no quarto. Coloquei minha mochila na cadeira e retirei a blusa do uniforme. Peguei a toalha e fui para o banheiro.

— Hum. — Eu me olhei no espelho por um momento. — , acho que já sei o que vou fazer para que admita que está apaixonada por mim.

Sexta-feira à noite, o dia mais movimentado na cafeteria da tia Sora.
Lá estava eu e meus amigos, os melhores garçons de toda Daejeon. Joonseo também se apresentou naquele primeiro dia. Segundo ele, estava ali para nos dar apoio moral e físico, já que no futuro aquele lugar seria dele de certa forma. Meu primo era realmente muito bom em finanças e administração, mas já tinha metas para sua carreira na música e não deixaria de realizar por nada.
Sorte a dele.

— Nossa, nem começamos direito e já estou cansado — comentou Junhae, ao se aproximar de mim no balcão. — Sinto que tem mais pessoas que o normal. É o nosso primeiro dia, hyung.
— Quem disse que trabalhamos aqui? — perguntou Hwang, chegando com a bandeja vazia — Meu fã clube está ocupando duas mesas.
— Sério? — O olhei surpreso.
— Hum… Talvez eu tenha mencionado a Hari algo. — Junhae coçou a cabeça. — Mas pedi a ela para não contar às outras. Sabem como é a Hari quando está com ciúmes.
— E por falar nela. — Apontei para porta, a vendo entrar com as outras líderes de torcida.

Curiosamente, Taeyong não estava entre elas.

— Não disse — sussurrou Junhae. — Pode deixar que eu cuido delas.

Eu ri baixo.

— E agora, hyung?! — Hwang me olhou sério. — Os treinos estão puxados e se todos souberem da cafeteria, ficaremos mais cansados ainda.
— Hum… Fica tranquilo, trabalho em equipe. — Sorri de canto. — Estamos juntos, quer dizer que vamos nos divertir.

Assim que fechei minha boca, virei minha face para porta. Neste momento exato, adentrou na cafeteria com sua mãe e seu irmão. Senti um frio na barriga gelar meu corpo, porém meu coração se aqueceu no momento em que seu olhar veio de encontro ao meu.

: off

Eu me apaixonei,
Então por que você está fazendo isso comigo,
Não fuja de medo e tente confiar em mim,
Minha dama.

— Ring Ding Dong / SHINee


15.

Miracle

Desde a primeira vez que te vi
um milagre
Eu senti um milagre, era você.

— Miracle / Super Junior

Eu estava em choque por encontrar naquela cafeteria. Primeiro, por não lembrar que era da sua tia, e, segundo, por não saber que ele e os outros membros da Prince Line estavam trabalhando lá por meio período. Curiosamente, foi Joonseo que veio atender a nossa mesa, com seu sorriso chamativo e extrema educação.

— O que as belas damas e o pequeno cavalheiro desejam comer nesta noite? — perguntou, com seu bom-humor de sempre.
— Nossa quanta formalidade. — Brincou minha mãe. — Como está sua mãe? Não a vi ainda.
— Ela precisou sair e me deixou no comando — respondeu.
— Olhando assim, parece mesmo um profissional. — Brinquei, tentando não rir junto.
— Garota, eu sou um profissional. — Seo piscou de leve para mim.
— Ok, senhor profissional. O que nos sugere então? — Minha mãe entrou na brincadeira.
— Para as damas, sugiro torta holandesa e, para o pequeno, brownie recheado, acompanhado de iced latte de baunilha — sugeriu prontamente. — A noite está calorosa.
— O que você acha, Jini? — perguntei ao meu irmão.
— Eu gosto de chocolate, brownie é feito com chocolate — respondeu, abrindo um largo sorriso.
— Já entendemos que gostou. — Ri ao esfregar de leve a mão em sua cabeça, brincando.
— Para, unnie, vai estragar meu penteado — resmungou.
— Eu também gostei da sugestão. — Minha mãe me olhou. — O que acha?
— Pode ser, já que nosso atendente está sendo tão atencioso. — Ri novamente.
— Estará pronto em alguns minutos — disse, ao confirmar no pequeno tablet que segurava nosso pedido.

Assim que Joonseo se retirou, meu campo de visão se abriu mais um pouco e pude ver atendendo uma das mesas centrais que estava com algumas garotas da escola, certamente as que participavam do seu fã clube. E sim, ele e todos os outros tinham fã clubes espalhados não só na escola, mas pela cidade, não somente pelo time da escola, porém a fama do Prince Line corria longe. Lembro-me de uma vez comentar que algumas universitárias de Busan também se interessaram por eles, após participarem de um jogo contra o time da universidade.

— Vai continuar assim? Só olhando para ele? — perguntou minha mãe.
— O quê? — A olhei surpresa pela pergunta. — Do que está falando?
— Um jovem pesadelo. — Brincou ela, rindo de mim.
— Mãe? Como sabe sobre isso?
— Acha mesmo que pode esconder as coisas da sua mãe? — Ela me olhou como se soubesse de tudo, ou quase tudo. — Ouvi algumas de suas conversas com a Lira.
— Sabia que é feio ouvir a conversa dos outros? — Cruzei meus braços.
— Não me olhe assim. — Ela se fez de inocente. — Eu juro que foi intencionalmente, mas se quiser conversar sobre isso.
— Do que estão falando? — perguntou Jini.
— De nada — respondi.
— Se for do hyung, eu acho que ele também gosta de você, noona. — Meu irmão me olhou com tranquilidade.
— Jinho?! — Minha mãe tentou repreendê-lo.
— Espera aí, como assim? Também?!
— Ah, noona, todo mundo sabe que você gosta do hyung. — Ele riu baixo.
— Desde quando você se liga em coisas de adulto, e quem disse que gosto dele?! — O olhei indignada.
— Você não é adulto! — retrucou.
— E você não gosta dele? — perguntou minha mãe.
— Mãe?! — A olhei.
— Com licença. — Joonseo se aproximou novamente da nossa mesa com a bandeja nas mãos. — Aqui está.

Eu estava estática com as interpretações da minha família em relação ao que eu sentia por . Pedi para que não falassem mais sobre o assunto, naquele momento eu só queria aproveitar minha torta holandesa. Mesmo com a ausência do papai, foi divertido sairmos juntos e ter uma noite em família. Jini contou várias histórias da sua escola e de como tem se tornado um menino muito popular. Meu irmãozinho tinha mesmo um charme de personagem de anime shoujo, daqueles em que as meninas ficam todas derretidas que nem Irie de Itazura na Kiss.

Assim que mamãe pagou a conta, saímos da cafeteria, seguindo em direção ao táxi que nos aguardava. Antes que eu entrasse no carro, uma mão segurou a minha, o que fez meu coração acelerar instantaneamente.

! — A voz de estava baixa e um pouco falha.
— Hum?! — O olhei meio confusa. — O que está fazendo aqui?
— Eu… Podemos conversar? — Seu olhar estava triste.
— Vai com ele, filha. — Minha mãe me encorajou, do carro.

Assenti com a face.
me entregou um capacete e me guiou até a moto do seu primo. Seguimos pelas ruas, mas parecia que não tinha uma direção certa, até que chegamos a um mirante que dava vista para cidade. Ao descer da moto e retirar o capacete, senti meus olhos brilharem ao contemplar a paisagem, porém me desliguei disso e voltei minha atenção para , que me olhava com certo carinho. De triste, seu olhar estava mais sereno.

— Estamos aqui. O que você quer? — perguntei.
— Eu passei o dia pensando no que disse ontem… — Ele virou seu rosto para o lado, parecendo não querer me encarar no momento.
— Por que quer falar sobre isso novamente? Não pretendo mudar meus sentimentos sobre isso. — Me encolhi um pouco, mantendo meu olhar nele.
— Não te culpo por isso. — Um suspiro forte, voltando seu olhar para mim.

Um grande silêncio parou em nosso meio, por alguns minutos.

— Posso te fazer um pedido? Antes de voltarmos? — disse ele.
— Um pedido?

Ele assentiu.

— Sim, se estiver ao meu alcance.

Ele deu três passos e parou em minha frente, então pegou em minha mão.

— Eu deveria não me importar com suas palavras… — Seu olhar triste voltou. — Mas me importo, porém não forçaria minha presença. Então, a partir de amanhã, será como se não nos conhecêssemos.
— Você quer me pedir que finja que não te conheço?! — perguntei, talvez entendendo tudo errado.
— Não, quero pedir que não se afaste de mim, somente por hoje. — Havia sinceridade em seus olhos de uma forma surpreendente.

Eu não sabia o que dizer, apenas segui o impulso do meu coração, que me fez lhe abraçar de uma forma singela e carinhosa. Acho que eu poderia adiar por um dia e esquecer meu lado racional e medroso. Naquele momento, eu só queria abraçá-lo.

“Eu posso parecer forte, até mesmo sorrir, mas na verdade eu estou tão sozinho
Pode até parecer que eu não tenho nenhuma preocupação,
mas na verdade eu tenho muito a dizer
A primeira vez que te vi, me senti tão atraído por você
Andando sem rumo,
Não pude dizer uma palavra.”

— My Answer / EXO

Duas semanas se passaram, e estava cumprindo sua palavra.
Era estranho passar por ele nos corredores da escola e nada acontecer, cada um seguindo sua direção e nenhum olhar seu para mim. Não imaginava que seria assim e não estava me sentindo tão confortável com isso. Já não sabia nem o que estava sentindo, mas me convencia que era melhor assim.

Na sexta-feira de manhã.
Meus planos seriam dormir até mais tarde, ver animes após o café da manhã e curtir o feriado regional que me permitia não ter aula. Entretanto, mesmo com o afastamento de , ainda existiam três palavras em minha vida que estragaram todos os meus planos e me fizeram acordar cedo sem direito a reclamações: Clube de Basquete.

Sim, eu poderia ter saído do clube, já que não estava mais próxima dele, que nem mesmo me dirigia a palavra nos treinos, contudo, eu já estava mais do que afeiçoada ao time no geral e me divertia muito durante os treinos, mesmo com seus amigos sempre me fazendo brincadeiras bobas. Eram quatro crianças chatas que tinham bom coração e sempre me levavam pra casa todos os dias ao final dos treinos, certamente a pedido de . Agora que o campeonato intercolegial havia começado, o treinador estava mais inspirado ainda nos treinos. Senti o cansaço e a fadiga, vendo o rosto dos titulares e dos reservas, o nível de habilidades entre eles não era tão grande assim, porém Prince Line tinha experiência de sobra para deixar os reservas sem fôlego. E meu dia foi correndo de uma ponta a outra da quadra para levar toalhas, água, limpar o chão, onde caíam gotas de suor… E que gotas.

Era ridículo? Sim! Eu tentava controlar meus olhos, que a todo momento insistiam em olhar para . Sua camisa suada, que já colava em seu corpo, seu rosto escorrendo suor quando pausava para tomar água, até mesmo o modo que secava as gotas parecia ser uma técnica de sedução proposital, daquelas que só vemos em doramas colegiais. Minha felicidade era que ele não sabia o quanto aquilo estava mexendo comigo. Nem gosto de me lembrar das palavras que disse a ele, menos ainda das que ele me disse. Estava se tornando estranha e difícil essa distância, e, lá no fundo, eu ainda sentia que quanto mais longe dele ficasse, menos eu iria me machucar no futuro.

— Ajudante, precisamos comer agora — disse , após fazer sua décima segunda sexta no treino.

Aquela havia sido a primeira vez que ele falava comigo em duas semanas.

— Hum? — Eu o olhei surpresa. — Oh, eu vou ver se está pronto o almoço.
— Vê se não demora, a quadra está escorregadia — gritou Junhae, ao sentar no chão.

Eu respirei fundo e saí da quadra resmungando um pouco. Os amigos de estavam muito mandões ultimamente, quando se tratava de pedir que eu fizesse algo, e aquilo estava me deixando ainda mais irritada. Quando cheguei ao refeitório, avistei a ajumma cantarolando enquanto colocava algumas tigelas sobre a mesa onde o time comeria. Fiquei um tempo olhando-a sem fazer barulho, quando uma pessoa se aproximou de mim.

? O que faz aqui? — Era .
— Oh, você. Estou aqui com o time, treino extra pelo campeonato, mas e você? — contei.
— Clube de leitura, estamos catalogando todos os livros da biblioteca novamente. — Ele sorriu de leve.
— Oh, parece um pouco cansativo, mas legal — comentei.
— Sim, melhor que correr pela quadra. — Ele riu, me fazendo rir junto.
— Hum, aproveitando que está aqui, aquele livro que te emprestei, você trouxe hoje?
— Coincidentemente, sim. Eu terminei de ler ele no metrô. — Olhei de relance para a ajumma, que estava voltando para a cozinha. — , me espere só um momento, tenho que perguntar uma coisa para a ajumma.

Eu corri até ela e confirmei quando seria servido o almoço. Ela me pediu um espaço de dez minutos para terminar de colocar as tigelas na mesa, assenti com um sorriso e voltei para . O convenci a ir até a quadra para pegar o livro, com muita insistência. Quando chegamos, ele ficou me esperando na porta, enquanto corri até a sala do treinador, onde tinha deixado minha mochila. Não demorei nem dois minutos e, assim que retornei para a quadra, e estavam no que parecia uma discussão.

— Não deveria trazer terceiros para o treino, ajudante. — A voz de , estava um pouco amarga e rancorosa.
— Ele só veio pegar um livro que estava comigo, e também vocês não estão mais treinando. — Olhei para , irritada com sua falta de empatia. — A quadra está escorregadia, como reclamaram.
— Regras são regras. — Ele me olhou, visivelmente chateado por minha amizade com .
— Já estava de saída. — me olhou e sorriu com gentileza, não se importando com terceiros. — Espero que tenha gostado do livro.
— Sim, inspirador.

Eu o levei até a porta e trocamos mais algumas palavras.
Foi quando deixou uma bola rolar para nosso lado. Ele me gritou, pedindo que eu levasse a bola para ele. apenas pegou a bola em meu lugar e arremessou de leve. Uma surpresa? A bola caiu exatamente dentro da cesta onde estava perto. Todos ficaram surpresos com aquilo, já , parecia ainda mais raivoso. sorriu de leve para mim e, pegando seu livro, saiu da quadra. Estava em choque e sem saber como reagir àquilo, mas tinha que admitir que meu amigo tinha me impressionado.

— Assistente, quem é o menino que estava com você? — perguntou o treinador, ao se aproximar de mim.
— Hum?! Ah, ele é um amigo, estudamos na mesma turma.
— Diga a ele para fazer um teste para o time. Um arremesso daquele não pode ser desperdiçado.
— Já temos jogadores suficientes, treinador — retrucou .
— Sim, mas esse é o último ano do time titular e tenho que pensar nos próximos anos.
— Será um prazer dizer isso a ele, treinador. Agora eu vou limpar a quadra. — Olhei para , segurando o riso. — Ah, a ajumma disse que o almoço estará servido em dez minutos, então, contando com os minutos passados, acho que já podem ir.

Me afastei dele, indo em direção ao armário de limpeza e pegando o rodo. Comecei a secar todo o perímetro da quadra, ficou da porta me olhando, até que Taeyeong se aproximou dele e o puxou para ir comer. Respirei fundo ao ver aquela cena. Eu não deveria sentir nada a vendo perto dele, mas meu coração insistia em bater de frente com meu lado racional. Eu estava na sala do treinador, quando ouvi as vozes surgirem na quadra. Não demorou muito até que entrasse com uma tigela na mão e colocasse na mesa na minha frente. Será que ele havia se esquecido da sua promessa e resolveu ter algum tipo de lapso de bondade e fofura comigo, me deixando sem reação. Naquela altura do dia, já estava, sim, admitindo para mim que estava tendo algumas acelerações no coração devido aos seus olhares.

Terminando de comer, voltei para a quadra e acompanhei todo o restante do treino. O treinador reuniu todos no centro da quadra, incluindo eu para falar sobre o baile de primavera. Olhei no relógio do celular de relance e marcava quatro da tarde. Seria de responsabilidade do clube de basquete os preparativos do baile, e estava com um mau pressentimento com relação a isso, e certa. Quando o treinador perguntou quem seria o responsável geral, todos os dedos foram em minha direção. Engoli seco. O treinador me olhou como se estivesse confiando em minha capacidade de fazer aquilo dar certo, me entregou uma planilha com o orçamento inicial e o valor que a escola estava disposta a gastar. Era pouco, e eu teria que fazer milagre para dar certo. Na volta para casa, fiz questão de me perder dos olhos dos meninos do Prince Line, não queria mais um dia de escolta.

Encontrei dentro do metrô. Assim que contei que estaria responsável pelo baile, ele riu sem nenhum remorso.

— Não acredito que vai mesmo cuidar disso. — Respirou fundo, recuperando o fôlego após suas risadas.
— Pois é, tenho um investimento pequeno e um baile grande. — Dei um suspiro fraco e cansado. — O que fazer?!
— Se quiser, posso te ajudar. Meu pai é contador, e podemos ter a ajuda dele para separar o dinheiro de uma forma que dê para fazer tudo o que precisa.
— Não brinca. — Eu o olhei e senti meus olhos brilharem.
— Claro, venha à minha casa amanhã e conversamos sobre isso.
— Tudo bem. — Assenti rapidamente. Não acreditava que ele me ajudaria mesmo.

Cheguei em casa sentindo minhas costas doloridas e minhas vistas pesadas de sono. Olhei para o sofá da sala e eis que a pessoa mais inesperada no momento estava sentada no chão, jogando FIFA com meu irmão.

... — sussurrei, incrédula com a cena.
— Annyeong. — Ele largou o joystick e se levantou, me olhando sério.
— O que está fazendo aqui? — perguntei.

“Depois de passar duas semanas fingindo não me conhecer.” Pensei comigo.

— Vim para me certificar que chegou em segurança — explicou ele. — O treino acabou tarde, e você desapareceu.
— Não deveria. — Desviei meu olhar para a janela, não queria encará-lo.
— Sou o capitão do time, tenho que cuidar de todos que fazem parte, até mesmo quem não joga.
me acompanhou. Como vê, cheguei em segurança — retruquei. — Então pode ir embora.
— A mamãe o convidou para o jantar. — Jini interviu, com um olhar maldoso.

continuou com seu olhar fixo em mim em silêncio. Eu olhei para sua mão e seus punhos estavam fechados. Será que ele ainda sentia ciúmes de mim? Segurei um friso de sorriso que queria sair e me virei para meu quarto. Eu poderia até inventar uma linda e disfarçada desculpa para não jantar, mas minha mãe não aceitaria e me forçaria a jantar com a visita. passou a maior parte do jantar em silêncio, me olhando, e mantive minha face abaixada. Para meu pai, estava tudo normal, mas notei que minha mãe percebeu uma leve tensão entre mim e ele. Minutos depois que foi embora, entrei em meu quarto e me joguei na cama. Minha mãe entrou logo atrás e se sentou ao meu lado.

— Pode fazer cena para seu pai, mas, para mim, não.
— Não sei do que está falando. — Eu a olhei.
. — Assim como sua face preocupada, sua voz estava séria.
— Eu não quero me apaixonar por ele, omma. — Segurei as lágrimas no canto dos olhos.
— Por que está dizendo isso, querida? — Ela suavizou a face.
— Porque ele não me pediu para entrar, invadiu meu coração sem medo e agora não quer sair. — A primeira lágrima rolou na minha face. — Não sei se quero mesmo gostar dele.
— Mas está gostando?
— Acho que estou, mas não quero. — Desabei a chorar. — Não quero gostar dele.
— Oh, querida. — Ela me abraçou com carinho e mexeu de leve em meus cabelos. — Às vezes não mandamos no coração.

: on

Passei todo o caminho de volta para casa pensando nela e em como ela sorria quando estava ao lado do seu amiguinho. Não acreditava que depois de duas semanas tentando reprimir meus sentimentos, ainda permanecia com ciúmes de . O feitiço estava virando contra o feiticeiro. Pela primeira vez, me sentia vulnerável ao meu coração, ao amor. A novata estrangeira iria saber o que sinto, nem que para isso eu tivesse que me declarar para todo o colégio ouvir.

— Yah, o que está acontecendo com você, ? — me perguntei em um sussurro, ao entrar no meu quarto, trancando a porta. — Não acredito que uma garota tão diferente está mesmo mexendo assim comigo.

Fui para o banheiro, tirei a roupa e tomei uma ducha fria, tinha que manter o foco. Quando me dei conta, algumas lágrimas começaram a rolar junto às gotas de água do chuveiro. Soquei a parede, tentando aliviar meu estresse. Voltei para o quarto vestido somente com a calça do pijama e deitei na cama. Apesar do meu corpo estar totalmente dolorido por causa do treino, eu não me importava, pois a dor maior estava no meu coração.

Minhas próximas ações seriam definitivas para fazê-la gostar de mim, e, desta vez, eu não iria desistir dela.

: off

“Eu que era egoísta e só sabia de mim mesmo
Eu que era negligente e desconhecia os seus sentimentos
Eu não consigo acreditar que eu tenha mudado assim
O seu amor continua mexendo comigo assim.”

— Miracles in December / EXO


16.

Boy In Luv

“Porque é isso que eu estou implorando, baby.
Eu posso ser o único cara que estará de mãos dadas com você?
O mais importante para mim é você.
Eu tenho medo de que você vá embora.
Eu não deixaria você ir, como eu posso manter-te aqui?”

— All My heart / Super Junior

Me encontrei com na tarde de sábado.

Fomos até a casa dele para conversar com seu pai. Passamos umas duas horas aprendendo sobre planejamentos versus custos. A maioria das anotações que eu tinha estavam no meu bloco de notas em casa, então tive a ideia de convidá-lo para ir até lá e, caso ficasse meio tarde, jantaria com minha família e eu. Entramos no apartamento entre risos, até que olhei para e sua face ficou séria. Senti um frio na espinha e virei minha face. estava sentado no sofá, nos olhando. Tentei disfarçar, porém estava boquiaberta com a tranquilidade dele. Ele se levantou com um sorriso meio cínico de canto.

— Posso entender a sua presença aqui? — perguntei.
— Faltam duas semanas para o baile e vim te ajudar nos preparativos.
— Ela não precisa da sua ajuda, já estou ajudando-a.
— Precisando ou não, com ou sem você, sou o responsável por tudo que envolve o time de basquete, então minha presença é indispensável — ele retrucou, olhando diretamente para mim.
— Bem, três cabeças pensam melhor que duas. — Respirei fundo, tentando contornar a situação.
— Depende da cabeça — comentou .
— Está insinuando alguma coisa? — fitou seu olhar nele, parecia com raiva.
— Ok, vocês dois sentem aí no sofá que eu vou buscar minhas anotações. — Olhei para cada um deles como se quisesse falar para tentarem não se matar na minha ausência.

Para minha “felicidade”, eles ficaram silenciosos até meu retorno. Me sentei no meio e começamos a discutir, no bom sentido, todos os detalhes, desde a decoração e alimentos, até a playlist que tocaria no dia. Nosso maior desafio seria conseguir fazer algo legal com a pequena verba que a escola havia disponibilizado, então deu a ideia de pedirmos ajuda financeira dos alunos. Mesmo que pouca, nos daria oportunidade de realizar algo mais elaborado e completo.

— Ok, e supondo que concordamos com sua ideia, como iremos pedir dinheiro aos alunos?
— E o que garante que terão dinheiro para nos dar? Somos colegiais — disse, de forma racional.
— Simples, todos os treinos do time são fechados e muitos alunos sempre pediram para ver. Podemos promover um treino beneficente e vender ingressos vips para os alunos que quiserem ver. Não só os alunos, mas também pais e familiares.
— E isso vai funcionar? — perguntei desacreditada. — O treinador vai querer matar a gente.
— Claro que vai funcionar, principalmente com as garotas. — piscou maliciosamente para mim, me fazendo revirar os olhos. — E deixa que do treinador cuido eu.
— Se você diz. — deu de ombros, desviando seu olhar para as folhas que estavam em cima da mesa de centro.
— Então vamos promover esse treino especial para o próximo sábado, assim dá tempo de os alunos comprarem os ingressos até na sexta. — Finalizei o assunto, anotando alguns detalhes no meu bloco de notas.

Eles assentiram sem problema.

Minha mãe se empolgou um pouco nos preparativos do jantar, comemos tranquilamente e ambos foram no mesmo momento para casa. Minha mãe preferiu não me fazer mais perguntas sobre meus sentimentos por , mas me pediu para não tentar esquecer ele envolvendo uma terceira pessoa, pois eu faria mais duas pessoas sofrerem além de mim. Acordei pela manhã não acreditando no quanto tinha dormido bem naquela noite. Eu e minha família passamos o dia no parque, fazendo piquenique, um momento divertido e saudável que fazíamos com frequência e que, para a minha surpresa, me rendeu a oportunidade de esbarrar em , Sunny e sua mãe, também se divertindo naquele dia ensolarado.

— Surpreendente vê-los aqui — comentei, ao nos afastarmos um pouco da nossa família.
— Meu pai está viajando. Sempre que isso acontece, aproveitamos para passar mais tempo juntos — explicou, mantendo seu olhar para frente.
— Hum…
— Eu conversei com o treinador pelo celular — informou, tocando no assunto da nossa ideia.
— E o que ele disse?
— Concordou, desde que não usássemos nenhuma jogada secreta nos treinos. — Ele sorriu de canto. — E disse que conseguiria a autorização.
— Quem diz não para o capitão do time?! — Brinquei.
— A garota que está ao meu lado — respondeu, de forma serena.

Suspirei fraco.

… — eu sussurrei, parando.
— O quê? — Ele me olhou atento a mim.
— O que deu em você? Primeiro diz que vai se afastar de mim e passa duas semanas fingindo não me conhecer, e agora… — Olhei para o lado, me calando. Conseguia ver a emoção fluir forte em mim. — Eu realmente não consigo te entender.
— Acredite, eu realmente tentei fingir que você era somente alguém normal, mas não consegui. — Seu olhar sincero tentava esconder uma ponta de tristeza. — Me perdoe por ter feito o pior pedido da minha vida.
— Pabo. — Me afastei dele, seguindo em direção aos meus pais.

tinha umas variações de humor que me deixavam estática.

Não sabia se era consequência da sua relação conturbada com o pai, ou se ele era tão desnorteado quanto eu em relação a entender seus sentimentos. Na semana que seguiu, eu, e focamos na divulgação do treino especial. Até quarta-feira, nenhum aluno demonstrou interesse, porém na quinta-feira, após a aula, uma fila se formou na porta da minha sala de aula para a compra dos ingressos vips. me ajudou organizando a fila, enquanto eu ia arrecadando o dinheiro e passando os ingressos. Em menos de vinte minutos, todos que tínhamos feito numa estimativa de lugares na quadra haviam sido vendidos e ainda tinha pessoas querendo comprar.

Então teve a ideia de abrir um segundo dia de treino especial no domingo, assim poderíamos arrecadar ainda mais, e, em menos de dez minutos, a mesma quantia de ingressos se esgotou. O louco é que até os professores compraram. O treinador não havia gostado muito da ideia, pois os jogadores poderiam revelar seus movimentos, mas assentiu sem muito esforço, após se comprometer em fazer o teste para o time na próxima semana. Assim, se ele entrasse, seria nosso elemento surpresa, já que seus arremessos eram tão precisos quanto os de e Mijun. A quantia levantada tinha sido razoável e ajudaria muito em nosso orçamento. Era hora de começar a comprar o que precisava, e, para isso, tivemos a ajuda da ajumma Seohyun, mãe de .

Ela, nos seus tempos de escola, também tinha sido ajudante no time de basquete e sabia de várias lojas que poderia fazer preços bons e com qualidade nos produtos fornecidos.

— Obrigada, ajumma, por nos deixar guardar tudo aqui — disse, assim que empilhamos as poucas caixas na garagem da casa da mãe de .
— Não precisa agradecer. — Ela sorriu com gentileza. — É um prazer poder ajudá-la.
— Com isso, acabamos por hoje. Agora só esperar para poder fazer a decoração na quadra — disse .
— Eu vou indo então. — guardou o celular que estava em sua mão no bolso.
— Eu vou com você — disse, ao pegar minha mochila.
— Oh, não. Eu preparei um lanche para vocês. — Ajumma nos olhou de forma carinhosa que não tinha como resistir.

Assentimos e nos acomodamos na sala, enquanto ela trazia a bandeja de bolo e suco, com a ajuda de .

— Confesso que fiquei surpresa por ter sido você este ano — disse ajumma, ao colocar a bandeja em cima da mesa de centro. — Geralmente é a Taeyeong que organiza as festas da escola.
— Ah, é?! — Olhei para .
— A é a auxiliar do clube de basquete, o próprio treinador pediu para ela — explicou o capitão, demonstrando felicidade pelo fato.
— Pois é, não tive como dizer não. — Concluí. — Mas pelo menos arrumei dois ajudantes, então estou no lucro.
oppa é seu namorado? — perguntou Sunny, aleatoriamente.
— Não — dissemos eu, e em coral.

Então nos olhamos meio constrangidos.

— Sunny, de onde tirou isso?! — repreendeu-a a ajumma.
— Desculpa. — Sunny abaixou o olhar, de forma tímida.
— Está tudo bem. — Sorri de leve e segurei em sua mão. — e eu somos apenas amigos, bons amigos.
— Sim — confirmou .
— Então você pode namorar o oppa — disse ela, com empolgação.
— Sunny?! — Ajumma a repreendeu novamente.

Neste momento, nenhum de nós três teve ação, todos estáticos.

— x —

— Ok, todos com os ingressos para este primeiro dia, façam uma fila única e organizada — disse , na porta da quadra.
— Obrigada por ter vindo, estava com medo de não conseguir sozinha. — Eu sorri de leve em agradecimento.
— Amigos são para isso. — sorriu de volta. — Pode entrar que eu cuido da entrada.

Eu assenti com a face e entrei. A quadra já estava organizada somente esperando as pessoas se acomodarem para ver o treino. Assim que todos assentaram, eu chamei o time e os reservas que estavam no vestiário. Seria o mesmo treino de todos os dias, porém alguns passes secretos seriam omitidos, pois poderia ter rivais de outros times disfarçados de alunos. Foram os quarenta minutos mais demorados e acelerados que já vi de um treino deles. No final, todos estavam caídos no chão da quadra, pedindo água. Até me ajudou a entregar as garrafas.

— Não vai dizer nada? — me olhou meio presunçoso.
— Parabéns, funcionou. — Eu virei de costas, e ele pegou em minha mão. — O que foi agora?
— Não precisa ser tão agressiva assim. — Sorriu de canto. — Obrigado por me dar sorte até nos treinos. — Ele piscou de leve e saiu andando em direção aos membros da Prince Line.
— Disponha — sussurrei, respirando fundo, sem saber como reagir aquela piscada.
— Está tudo bem? — se aproximou.
— Sim, até que a ideia dele deu certo.
— É, só não contava comigo tendo que fazer o teste para entrar no time.
— Obrigada mais uma vez por nos ajudar a convencer o treinador.
— Amigos são para isso. — Ele sorriu.

O treino do domingo foi o mesmo sucesso e divertimento da plateia, e realmente, como disse, a maioria eram garotas que insistiam em gritar a cada cesta feita por ele. Uma semana para o baile, e eu estava ainda comprando algumas últimas coisas para a decoração. Já tinha acertado toda parte de alimentos com a ajumma do refeitório, que foi um amor de pessoa em se oferecer para ajudar em minha tarefa. Outro jogo realizado na quinta-feira, e, com algumas dificuldades à parte, pois MiJun, em uma trombada com o membro do time adversário, caiu e torceu o tornozelo, nosso time venceu por 70x47.

Sexta, após a aula, convoquei todos do clube de basquete para me ajudarem com a decoração da quadra. Eu havia preparado algo bem clássico, porém de impacto, como pedia meu tema escolhido: 007.

— Uma pena não termos comemorado a vitória — reclamou Hari, enquanto segurava um balão branco na mão direita, o balançando.
— Comemoramos no baile. — Junhae sorriu de leve para ela.
— O que importa é terminarmos a decoração da quadra a tempo para o baile amanhã. — MinSoo subiu na escada que estava escorada na cesta de pontos.
— Então, ajudante, está como imaginou? — perguntou Yejin, sentando no chão ao lado de Hwang.
— Hum?! — Eu, que estava com a cabeça baixa, olhando meu bloco, levantei e olhei a quadra. — Melhor do que imaginei.

Deixamos os balões todos monocromáticos, enfeitando o lugar junto a algumas fitas soltas prateadas. As duas mesas que ficariam com as comidas foram colocadas cada uma em lados opostos debaixo das cestas, todo o equipamento de som ficaria na sala do treinador com as caixas de som nos quatro cantos da quadra e uma pista de dança bem no centro. Enfim, estava tudo no seu lugar em tempo recorde. Os outros foram embora, e eu fiquei ajeitando os últimos detalhes na sala do treinador, quando ouvi uma pequena discussão vindo da quadra.

— Ninguém pediu sua ajuda aqui, você nem é do time — disse , com seus punhos já fechados.
— Não estou aqui por causa desse time, estou aqui pela . — o olhou diretamente. — Somos amigos, e amigos se ajudam.
— Amigos? — deu um riso sarcástico. — Não acho que seja isso.
— Yah! — eu gritei, indo em direção a eles. — Não podem nem um minuto trabalharem juntos e em paz? Se não for para ser assim e me ajudarem direito, prefiro fazer isso sozinha.

Eles assentiram em silêncio com a face, mesmo contrariados.

Respirei fundo e voltei para a sala do treinador para pegar minha mochila. Voltamos para casa em silêncio, ambos me deixaram na portaria do meu prédio e depois seguiram lados opostos. Eu estava exausta com toda aquela correria dividida entre estudos, treinos e preparativos do baile, mas no final tudo daria certo e eu ficaria em casa descansando. Minha mãe não estava satisfeita com minha decisão de não ir ao baile, mas não iria insistir ou me obrigar a ir, já que a escolha era minha.

Meu sábado foi tranquilo e cheio de maratonas de séries na netflix, somente isso para me fazer esquecer que não ia, me impedir de chorar, ou não me arrepender por não ir. Passei o dia trancada no quarto, jogada na cama com meu tablet e minhas séries atrasadas, era tudo que eu precisava para ocupar minha mente e minha noite também. Foi quando ouvi minha mãe me chamando da sala.

: on

Enfim era o dia do baile. Eu não tinha muito jeito para vestir roupas formais e quando me olhei no espelho, levei um susto com minha falta de conhecimento no assunto, eu estava um tanto desengonçado demais. Bufei um pouco, decepcionado comigo mesmo, até que ouvi uma risada feminina vinda da porta do quarto. Me virei, era uma das amigas do meu pai.

— Me desculpe, não pude evitar. Seu pai me disse que estava se arrumando para o baile da escola, e fiquei curiosa para ver como os jovens de hoje se vestem. — Segurou um pouco o riso.
— Pode ter certeza de que não é desta forma. — Desviei meu olhar para o chão, ainda chateado.
— Eu posso te ajudar? — Ela deu um passo, entrando no quarto.
— Acho que pior não fica. — Sempre tentei tratar as amigas do meu pai bem. Pelo menos elas não tinham culpa do meu rancor por ele e não mereciam pagar por isso, mas não conseguia ser tão gentil assim.
— Bem, vamos ver o que tem aqui. — Com ousadia, caminhou até meu guarda-roupa e abriu, observando atentamente o que tinha dentro. — Hum, você tem um estilo bem esportivo. Onde achou isso que está vestindo?
— Um amigo me emprestou — respondi, meio sem jeito. — O tema do baile é 007.
— Acho que pode ficar no estilo com o que tem aqui no armário. — Ela pegou algumas peças e me deu para que eu vestisse.

Mesmo com receio, peguei os cabides e fui para o banheiro. Quando voltei, ela já estava com um all star branco meu na mão, me mandando calçar. Quando me olhei no espelho, parecia mais eu. Da cabeça aos pés, aquela calça jeans preta com o paletó preto e a camisa de dentro branca estavam combinando com o all star branco que ela tinha me dado.

— Hum, obrigado. — Me curvei de leve, em respeito e gratidão.
— Agora, sim, está mais bonito do que já é. Espero que aproveite o baile com sua namorada.
— Vou, sim. Mais uma vez obrigado.

Aquela ajumma havia sido legal de verdade, e estava grato por ter me ajudado. Peguei minha carteira e coloquei no bolso. Antes de sair, meu pai se aproximou de mim e me deu as chaves do carro dele. Fiquei impressionado com aquele gesto, agradeci, me curvando, e saí. Antes de chegar ao baile, tinha que passar em um lugar importante, pois estava me sentindo um pouco incompleto naquela noite. Estacionei o carro em frente ao edifício que mais frequentava e toquei na porta. Assim que a ajumma abriu, entrei, cumprimentando. Ela já estava entendendo minha presença naquela noite, e não precisou que eu dissesse uma palavra para ela logo gritar.

!!!
— Me chamou… — Ela paralisou do corredor mesmo ao me ver. — ?!
— Vim te buscar. — Eu sorri de canto maliciosamente. — E você está atrasada.
— Mas eu disse que não iria. — Ela num tom baixo, quase em sussurro.
— Como assim não vai? O menino veio aqui te buscar. — Reforçou sua mãe.
— Te dou dez minutos para se arrumar. — Intimei, me sentando no sofá.
— Ela estará pronta em nove. — Sua mãe sorriu de leve e a puxou para dentro do quarto.

Parecia mesmo um desafio aceito pela ajumma. Nove minutos depois, apareceu na sala. Eu me levantei, a olhando de cima para baixo, estava mais linda ainda com aquele vestido azul marinho, tomara que caia, um pouco rodado. Eu não era de reparar em roupas femininas, mas aquele vestido parecia ter sido feito sob encomenda para ela. Senti meu coração acelerar na hora.

— Eu prometo não a trazer muito tarde, ajumma e ajusshi. — Me curvei em respeito a eles e segurei na mão dela.
— Assim espero — disse o pai dela, escondendo o sorriso.
— Espero que se divirtam. — Ajumma estava com um sorriso alegre e um brilho nos olhos.

estava sem palavras por eu ter feito aquilo, mas aquela noite só estava começando, e eu iria mostrar para todos que o coração dela possivelmente era meu, pois o meu já pertencia a ela.

“Por que eu me importo tanto com você?
Você me faz agir como uma criança,
Mas eu vou mudar as coisas, iremos de relação para relacionamento."

— Boy In Luv / BTS


17.

My Answer

“Quanto mais te vejo, mais fico feliz,
Às vezes até me pego cantarolando,
Repentinamente quero comprar uma rosa,
Este lado de mim nem mesmo eu conhecia.”

— Stand By Me / SHINee

Meu coração manteve acelerado todo o caminho até o colégio, porém ao entrarmos juntos na quadra ele parou de vez, meus olhos percorreram todo o lugar e todos nos olhavam, até que avistei com Yuri conversando com os membros do clube de leitura. Até aquele momento ele não tinha me visto, mas em um movimento involuntário olhou para a direção onde eu estava, ele logo desviou novamente para Yuri. Não sabia se podia ou não me sentir mal por ele, mas antes tinha que fazer meu coração voltar a bater novamente, ou pelo menos sentir ele batendo direito.

— Yah, finalmente chegaram — comentou Hwang, de mãos dadas a Yejin.
— Estávamos programando uma entrada triunfal. — me olhou com malícia.
— Bobo — sussurrei tentando soltar minha mão da dele, porém sem sucesso.
— Pensei que não viria ajudante. — Taeyeong se aproximou de nós com seu par, um garoto que era membro reserva do time.
— Eu também. — Concordei num tom baixo.
— Vamos dançar, olha a pista toda vazia. — MinSoo pegou na mão de Sooyong a levando para a pista de dança.
— Ele tem razão, Prince Line tem a missão de eternizar esse baile. — Junhae riu pegando Hari pela mão e levando ela também.

Os outros membros da Prince Line também foram com suas acompanhantes. ficou me olhando por um tempo até que soltou minha mão e pegou na mão de Taeyeong e a levou para a pista. Aquilo me deixou boquiaberta e sem reação. Já imaginava que ele faria algo para me deixar irritada, respirei fundo e caminhei até a mesa de guloseimas que estava no fundo da quadra, fiquei olhando para a parte dos doces tentava me decidir qual pegaria primeira, porém meus pensamentos estavam em outra parte daquela quadra.

— Indecisa? — perguntou , ao se aproximar de mim.
— Hum?! Ah, um pouco. — Eu sorri de leve. — Estou feliz que tenha convidado Yuri.
— Ah, acho que estava meio certa, Yuri me deu uma carta de confissão ontem. — Ele estava um pouco envergonhado. — Na verdade, foi ela quem me convidou.
— Sério? — por aquela eu não esperava.
— Sim, ainda não consegui absorver tudo que ela escreveu na carta — afirmou.
— Ela parece ser uma garota legal e interessante — reforcei.

Como minha mãe havia me aconselhado, não iria usar para afastar de mim, por mais que essa ideia fosse tentadora.

— Mas, surpreendente é você aqui, disse que não viria — comentou meu amigo.
— É, está sendo até para mim, foi me buscar e não tive como dizer não. — Desviei meu olhar para mesa e peguei um doce no formato de estrela que estava lá. — Minha mãe me arrastou para o quarto e me fez trocar de roupa.
— Imagino, sua mãe é bem animada.
— Sim, um dos motivos de eu ter vindo.
— Pelo menos hoje terá a chance de saber como é o baile de colegial.
— Verdade. — Eu ri de leve e olhei para o lado, Yuri estava se aproximando de nós.
— Oppa. — Ela me olhou meio tímida. — Annyeonghaseyo.
— Oi. — Suspirei meio fraco, pois já percebia que Yuri tinha ciúmes da minha amizade com .
— Estava te procurando, oppa — disse ela ao olhar para ele.
— Agora me encontrou. — Ele a olhou como aqueles crushs de dorama olham para as protagonistas. — Estava conversando com a .

era mesmo um cavalheiro. Ele deu um sorriso tímido para ela, fazendo seus olhos brilharem um pouco, ambos formavam um casal bonito e fofo. Eu me afastei um pouco deles indo para a outra ponta da mesa.

— Ora, ora, nossa ajudante veio — disse Joonseo, ao se aproximar de mim.
— O que faz aqui? me disse que não viria.
— Também achei que não viria — ele retrucou.
— Vim, pois não tive escolhas — respondi.
— Eu vim, pois queria ver se meu primo realmente te traria. — Ele riu. — Você já deve ter percebido que ele sente algo por você.
— Não sei do que está falando. — Desconversei, desviando o olhar para a direção de onde estava a cabine do dj.
— Sabe sim. — Ele riu. — Tem uma coisa sobre meu primo que você não sabe.
— O que?
— Quanto mais ele gosta de alguém, mais ele tenta afastar essa pessoa. — respondeu — Ele tem medo de magoar as pessoas como o pai dele.
não é o senhor Dongho — retruquei.
— Diz isso pra ele. — Joonseo sorriu de canto e apontou para seu primo que vinha em nossa direção. — Diga isso e confesse o que sente a ele.

Eu não queria concordar ou discordar de Joonseo, mas parecia que ele conhecia tanto eu como melhor que nós mesmos. Eu já havia provado do afastamento dele, mas não sabia que o motivo poderia ser… Será que ele realmente gostava de mim?

— Ah, aqui está você. — chegou e segurou em minha mão — Espero que não esteja implicando com minha acompanhante. — Ele se virou para o primo.
— Yah, quem pensa que eu sou? Eu gosto da minha futura cunhadinha. — brincou ele.
— Joonseo?! — o repreendi.
— Ele não está tão errado assim. — sorriu de canto.
?! — O olhei.
— Hum, acho que está na hora da nossa dança. — Ele segurou o riso e me olhou com intensidade.
— Dança? Ah, não, você não vai mudar de assunto e me arrastar para dançar em público. — Eu me encolhi toda.
— Não estou mudando de assunto, só estou dando uma pausa. — Ele sorriu de canto — Prometi sua mãe que iria se divertir hoje.

Ao afirmar, me puxou para a direção da pista.

, vem você e a Yuri também. — Eu o olhei para meu amigo que estava perto, como um pedido de ajuda para não passar vergonha sozinha. — Juseyo — gritei.

Ele assentiu rindo e segurando na mão de Yuri e nos seguiu.

Propositalmente ficamos no centro da pista, eu não era muito de me soltar em público e nunca havia ido a um baile em nenhum aspecto. E quando não dá pra “melhorar” a situação, de pura agitação, colocaram uma música mais lenta, tentei fugir daquilo, mas me pegou pela cintura e aproximou nossos corpos, tentei não o encarar para não piorar ainda mais meu estado interior, pernas meio bambas e coração acelerado. A cada respiração mais funda me deparava com o aroma do seu perfume que estava ali para me enfeitiçar ainda mais. Bem ao final da música e aos olhos de metade da quadra, me beijou, segurei forte no paletó dele, a primeiro momento só queria empurrá-lo para longe, mas não deu muito certo e me agarrei ainda mais.

Ficamos parados no meio da pista nos olhando, enquanto todos nos olhavam e cochichavam entre si, eu desviei meus olhos para que estava atrás de nós por um momento, vi um pouco de preocupação em seu olhar. Não conseguia distinguir se era aquilo ou não que eu esperava deste baile. Me afastei de e saí andando entre as pessoas até chegar na saída da quadra, muitos pensamentos invadiram minha cabeça e estava confusa com meus sentimentos, ou pelo menos não queria admitir que todos estavam voltados para . Me afastei o máximo que pude da escola, não queria voltar para casa pois teria que explicar por que havia me adiantado no horário, então fiquei vagando pelas ruas até que me sentei no ponto de ônibus qualquer. Fiquei ali, ao som de alguns carros passando pela rua, mantendo meu olhar no chão absorvendo tudo que tinha acontecido naquela noite. Estava feliz por ter finalmente se rendido aos sentimentos de Yuri, feliz por todos estarem se divertindo com o baile que eu organizei.

Apesar de eu estar em plena confusão.

— Espero que não tenha sido pelo beijo. — disse a voz, que fazia meu coração acelerar.
— Você. — eu o olhei me levantando — O que está fazendo aqui?
— Por que faz perguntas se sabe a resposta. — ele sorriu de canto.
— Pode ir embora, não quero sua companhia. — me virei de costas.
— Não me importo com suas palavras. — num tom suave, segurou em meu braço me virando para ele — Seus olhos dizem outra coisa, não vou mais deixar que essas palavras sejam pronunciadas novamente.
— Do que está falando? — perguntei um pouco assustada.
— A partir de hoje não irei mais esconder meus sentimentos por você…
, pare de brincar comigo. — o interrompi.
— Não estou brincando. — ele segurou em minha mão — Eu amo você, e não importa o que diga, eu sei que seu coração também bate por mim.

Ele me beijou novamente, era doce e suave com aquele toque de malícia que me fazia sentir um frio na barriga, depois do beijo me aninhei nos braços dele. Não acreditava que ele tinha conseguido, meu coração batia mesmo por ele mesmo com todas aquelas coisas que ele tinha feito para mim.

—Yah. — eu me afastei dele — Com que direito diz estas palavras para mim?
— Sinto muito por não tê-las dito antes. — ele acariciou meus cabelos — Quero te perguntar uma coisa.
— O que?! — o olhei.
— Acho que não preciso te perguntar, seu olhar para mim já responde. — ele sorriu tranquilamente e segurou em minha mão.
— O que você quer perguntar?! Diga logo.
— Quer ser minha namorada? — direto e preciso.

Eu não sabia o que responder, mas certamente meus olhos já estavam respondendo por mim.

— Viu, seus olhos já responderam.
— E como sabe que é positiva a resposta?
— Porque eles estão brilhando. — ele sorriu mantendo sua mão segurando a minha — Ainda temos tempo e certamente você não quer voltar para o baile.
— Não, não quero. Aonde vamos agora?

Ele me guiou até onde tinha estacionado seu carro e deu a partida, fomos até a casa da sua mãe. Ajumma Seohyun me recebeu gentilmente com um sorriso e a face surpresa por estarmos lá aquela hora da noite. Enquanto subiu para o quarto de Sunny para consertar algum brinquedo dela que havia quebrado, eu fiquei na cozinha com a ajumma a ajudando a arrumar a mesa, ela havia feito um bolo caseiro de milho, receita que aprendeu misteriosamente com minha mãe.

— Poderia, por favor, colocar os pratos na mesa para mim querida?
— Sim ajumma. — eu peguei os pratos que estavam no escorredor e secando acomodei na mesa — Não sabia que conhecia minha mãe com tanta intimidade.
— Ah, sim. — ela riu de leve — Conheci ela pouco depois que me casei com o pai de , nos tornamos amigas facilmente, sua mãe é muito simpática e adorável, herdou muita qualidade dela.
— Obrigada. — eu sorri sem jeito.
— E como foi o baile? — ela colocou a travessa de vidro com o bolo em cima da mesa — Não me surpreendeu o fato de ter te levado, vocês ficam bem juntos.
— Ah, eu não iria ao baile hoje, nem sei por que ele foi me buscar.
— Se ele te convidou, com certeza vocês iriam juntos. — ela me olhou — Apesar de não terem começado de uma forma suave, tenho certeza que são verdadeiros os sentimentos dele por você.
— Por que está me dizendo isso?
— Porque vejo nos seus olhos que ainda tem medo de tudo isso. — ela suspirou — tem algumas características que me fazem lembrar seu pai quando estávamos no colegial, mas também tem muitas qualidades que o pai não tem.
— Como o pai dele te conquistou?
— Não gosto muito de falar sobre isso, foi um passado bom e ruim ao mesmo tempo, o pai de tem o dobro do gênio dele. — ela riu de leve e suspirou como se estivesse se lembrando do passado — Apesar de tudo, foram bons momentos.
— Voltamos. — disse acompanhado de Sunny.
— E qual o estado do brinquedo? — perguntou ajumma.
— Vai sobreviver, era a pilha que estava fraca demais. — ele riu olhando para a irmã — Nada dura para sempre Sunny.
— O que importa é que meu ursinho vai viver. — ela sorriu espontaneamente.

Após comermos eu e nos oferecemos para lavar os pratos e os copos, enquanto eu secava tudo meio distraída ele se aproveitou jogando um pouco de água em mim, eu cheguei perto dele e joguei água de volta, brincamos um pouco até percebermos que o chão da cozinha estava molhado e escorregadio. fechou a torneira e foi buscar o rodo e um pano para secar tudo, quando estava voltando ele fingiu se desequilibrar e quando eu fui ajudá-lo inocentemente ele me derrubou me fazendo cair, ele caiu em cima de mim rindo da minha cara.

— Yah, assim não vale, agora meu vestido está todo molhado. — reclamei batendo no seu ombro.
— Continua linda, toda molhada. — ele riu ainda mais.

Ficamos nos olhando por um tempo, quando ele se aproximou um pouco mais para me beijar.

— Uau, o que aconteceu aqui? — perguntou ajumma aparecendo da porta.
— Tivemos um problema de percurso omma. — ele se levantou me ajudando a levantar também.
— Vão se trocar antes que fiquem resfriados, pode pegar uma roupa minha. — ela pegou o rodo que estava no chão — Eu vou limpar essa bagunça.
— Me desculpe por isso, ajumma. — eu me curvei de leve.
— Não se preocupe, agora vai se trocar.

pegou em minha mão segurando ainda mais o riso e me levou para o quarto da sua mãe. Ele me deu uma toalha seca antes de sair e me aconselhou a tomar um banho quente, assim iria prevenir ainda mais de pegar uma doença, assenti ao pegar a toalha de sua mão, e fechei a porta do quarto.

: on

Tomei uma ducha quente e coloquei roupas confortáveis que pudesse me manter aquecido, assim que saí do quarto também abriu a porta do quarto da minha mãe, ficamos nos olhando por um tempo, até que ela ficava atraente vestindo o casaco de moletom da omma. Sunny apareceu subindo as escadas enquanto cantarolava não sei que música.

— Oppa, unnie, começou a chover.
— O que? — se assustou — Como vou voltar para casa?
— Não vai. — minha mãe apareceu atrás de Sunny — Liguei para seus pais dizendo que estava aqui e eles assentiram em dormir aqui hoje, sair nessa chuva mesmo de carro é perigoso, amanhã cedo você volta para casa.

assentiu com a face, segurei minha cara de satisfação e meu sorriso malicioso, era interessante ter ela ali mesmo que não acontecesse nada naquela noite. Descemos para a sala de tv e ficamos vendo filmes, não demorou muito até que omma sentisse sono e subisse para seu quarto, porém antes de se deitar omma arrumou a cama de Sunny para , e minha irmãzinha dormiria com ela. Eu não estava com sono e fiquei vendo um filme atrás do outro, quando me dei conta e olhei para o lado, estava com sua face apoiada em meu ombro adormecida. Eu a peguei no colo e levei para o quarto de Sunny, coloquei na cama a cobrindo de leve para não acordá-la.

Assim que cheguei perto da porta ela se remexeu na cama, apaguei a luz e abri a porta.

— Boa noite. — sussurrou ela, de forma inocente.

Eu ri baixo, ela estava acordada aquele tempo todo fingindo. Entrei no meu quarto e me joguei na cama, seria complicado conseguir dormir, ainda mais sabendo que ela estava a um quarto de distância.

“A resposta é você
Minha resposta é você
Eu já abri o meu coração para você há muito tempo
Você é tudo para mim, esse é o meu jeito de confirmar.”

— My Answer / EXO


18.

Promise

“Épocas quentes, quando você abriu meus olhos,
Toda a minha vida, eu só preciso de você,
E eu preciso reconhecer,
Que mesmo se você disser que não me quer ou me fizer sofrer,
Você vai ser a única pessoa pra mim.”
— Hot times / SM The ballad

Na manhã seguinte após o café da manhã, me levou para casa, antes de entrar, me deu um cordão com um anel, segundo ele, aquele anel representava o seu coração. Era fofo, mas me mantive séria e desacreditada, por mais que soubesse que eu gostava dele, era divertido também não demonstrar assim o tempo todo. Quando cheguei em casa minha mãe estava em uma curiosidade fora do normal para saber como tinha sido o baile e em qual momento paramos na casa da mãe dele.

— Yah , deixe de ser sem graça e conte a sua mãe o que aconteceu. — reclamou ela andando atrás de mim pelo apartamento.
— Omma, não aconteceu nada de mais. — eu virei para ela.
— Esse brilho nos seus olhos não é nada de mais. — ela colocou a mão na cintura — Não acredito que não me considere sua melhor amiga para me contar essas coisas.

Minha mãe conseguia ser mais dramática do que eu quando queria.

— Omma, não pense assim, somos amigas, mas…
— Mas sua mãe não merece saber como foi seu primeiro baile. — reclamou.
— Merece sim. — eu abri a porta do meu quarto e segurando em sua mão a puxei para dentro.
— Quero que me conte tudo. — ela se sentou na minha cama com olhos brilhando — O que aconteceu entre você e o ? Como foi parar na casa da mãe dele?
— Calma mãe, uma coisa de cada vez.
— O baile foi bom, tudo saiu bem graças a Deus. — respondi — Todos se divertiram bastante.
— E o ?!
— Ele… — estava com certa vergonha de contar.
— Vocês dois se beijaram? — minha mãe parecia ainda mais empolgada do que eu.

Assenti não dando muitos detalhes, era meio vergonhoso falar sobre isso com ela, principalmente por ser minha primeira vez namorando. Ela parecia animada em ter sua filha namorando, descuidadamente meu pai ouviu essa parte da conversa. Fiquei com medo dele não aceitar, mas como se tratava do filho de seu melhor amigo, meu pai demonstrou satisfação de imediato. Passei o dia ajudando minha mãe a faxinar o apartamento, enquanto planejamos nossa viagem de férias de verão que teríamos em Okinawa no Japão, visitaríamos nossos avós paternos que moravam lá agora.

— Preciso me lembrar de comprar um vaso para sua avó. — disse omma ao terminar de limpar o banheiro.
— Ela ainda reluta em te aceitar omma?
— Sim… Mas finjo não perceber para não chatear seu pai. — respondeu, meio triste pelo fato — Ele já brigou muito com sua família por minha causa.
— É tão bonito o amor de vocês mesmo de culturas diferentes, conseguiram superar todos os desafios. — sorri de leve.
— Tenho certeza que você e também irão superar. — ela sorriu de volta — Eu percebi o olhar sincero dele por você, Pandinha.
— Mesmo sabendo que ele me ama, e que eu sinto o mesmo por ele, ainda tenho receios e preocupações. — confessei meus temores.
— Com o que?
— Joonseo, o primo dele… — iniciei.
— O menino da carta falsa?
— Ele mesmo…

Era incrível, que por mais que eu tivesse certa vergonha de contar as coisas para minha mãe, eu sempre acabava me desabafando com ela e com Lira no Brasil, ambas eram minhas confidentes melhores amigas.

— Ele me disse no baile que sempre afastava as pessoas que ele mais amava, por medo de magoá-las. — confessei a ela — Isso me preocupa, ele já me afastou uma vez, e se…
— Não pense bobagens. — ela me interrompeu — Apenas viva um dia de cada vez e aproveite seu amor da juventude.
— Omma…
— É a primeira vez que você se apaixona, Pandinha, é normal ficar com medo de se machucar, mas tenho certeza que vocês serão muito felizes.
— Komawo, omma. — eu a abracei.

Ela retribui o abraço.

— Agora, vamos continuar com o nosso plano de férias. — disse ela pegando o balde e o rodo para levar para a cozinha — Preciso pedir ao seu pai para comprar a camisa xadrez para seu avô, não me deixe esquecer.
— Não vou. — ri dela — Omma, onde está o Jini?
— Na casa de um amiguinho do prédio, ele pediu depois que terminou de arrumar as malas.
— Pra isso ele é rápido. — critiquei de leve.
— Deixe seu irmão, ele foi um bom aluno esse ano, e é muito popular entre as menininhas da escola.
— Vai ser conquistador que nem o papai?! — brinquei.
— Conquistando a garota certa. — ela riu.

Como sempre seria divertido passar as férias na casa dos nossos avós, para minha surpresa desta vez sem meus pais, pois papai já tinha planos de uma viagem de casal com nossa mãe para a ilha de Jeju. O lado ruim desta viagem para o Japão, é que ficaria todo aquele tempo longe de , não acreditava que já estava acostumada a ter ele me irritando todos os dias. Se aquela era uma forma do meu namorado mostrar que gostava de mim, era uma forma estranha, mas divertida em certos momentos.

As semanas passaram e para nossa surpresa passou no teste e foi aceito pelo time, com a condição de ser o capitão após a formatura da Prince Line. O treinador ficou empolgado com isso e fez o comunicado de imediato a todos. Quem não gostou muito foi , que mesmo disfarçando seu ciúme de mim, sempre implicava com usando seu poder de capitão. Os outros membros do time gostaram da ideia, principalmente porque MiJun não estava recuperado da torção no seu tornozelo e iria jogar em seu lugar nos próximos jogos. Estar no clube de basquete estava mais divertido e engraçado, eu tinha meu melhor amigo presente e sempre parávamos para conversar e arrancar alguns olhares enciumados de para nós.

— Ainda não acredito que vocês dois estão namorando. — comentou , ao se sentar ao meu lado na arquibancada.
— Nem eu. — ri de leve — Se me dissesse isso no meu primeiro dia de aula aqui, riria na sua cara.
— O que você viu naquele convencido? — perguntou.
— Não sei… Ele me irrita, sempre fico nervosa perto dele. — ri de novo — Mas, ao mesmo tempo, ele atrai minha atenção sem esforço.
— É difícil admitir, mas vocês ficam bem juntos.
— Assim como você e a Yuri. — eu o olhei — E por falar em Yuri… Quando vai pedir ela em namoro? Vai esperar ela fazer o pedido também?
— Não. — respondeu — Estou esperando pelo momento certo.
— Hum… Não deixe para a nossa formatura no ano que vem. — o alertei.
— Eu não vou deixar. — ele pegou a garrafinha de água em minha mão e tomou um gole.

Nós rimos.

— Yah, acabou os minutos de descanso. — disse , ao olhar para nós.
— Já estava voltando. — o olhou tranquilamente.
— Quer água? — estiquei a outra garrafa que estava em minha mão para , que se aproximava de mim.

Segurei o riso.

— Komawo. — ele pegou a garrafa mantendo seu olhar em mim — Sobre o que conversavam?
— Está com ciúmes? é meu amigo.
— Eu sei que ele é seu amigo. — ele colocou a garrafinha ao meu lado.
— Você tem jogado bem. — comentei.
— Está fugindo da minha pergunta.
— Você é meu namorado, mas ainda temos nossa privacidade, eu não fico perguntando o que você conversa com os meninos no grupo de vocês no kakaotalk. — retruquei cruzando os braços.
— Você quer entrar lá? — ele sorriu com malícia.
— Claro que não, não quero ver a conversa de vocês. — fiz uma careta.

Ele riu.

— Quem você pensa que somos? Pervertidos? — manteve seu olhar sereno — Noventa por cento de nossas conversas se resume a games e basquete.
— E os outros 10?
— Falamos de nossas namoradas.
— Hum… — desviei meu olhar fingindo o não interesse — Começamos a namorar a pouco tempo, sobre o que falava antes?
— Sempre falei de você. — ele se aproximou e me deu um beijo na bochecha rapidamente, depois se afastou voltando pra quadra.

Meu coração acelerou com aquilo.
Era fofo saber que sempre falava sobre mim. Eu me diverti um pouco mais com ele e disputando em quadra quem arremessa mais, estava na cara que minha amizade com era o ponto fraco dele, tirando essa pequena rivalidade entre eles, ambos tinham uma sincronia fora do comum quando jogavam juntos. Era estranho ver o como um aluno popular agora, e com algumas meninas se derretendo por ele. Não tinha ciúmes, mas não queria que ele ficasse com nenhuma garota interesseira, por isso resolvi me tornar amiga de Yuri e ajudá-lo a finalmente se declarar para ela também.

Isso ocasionou numa ideia genial, um encontro duplo de casais, dei a ideia de irmos assistir um filme de comédia romântica que estava em cartaz há alguns dias. ficou meio relutante a primeiro momento, mas logo o convenci a convidar Yuri pois seria sua chance de pedí-la em namoro. ficou entusiasmado com a ideia, pois eu havia contado que estava ajudando a descobrir seus sentimentos por Yuri.

— Uah, finalmente chegaram. — reclamou , do nosso atraso.
— Pensamos que vocês duas tinha nos dado um bolo. — concordou já pegando em minha mão.
— Me desculpa, mas garotas precisam de tempo para ficarem prontas. — expliquei olhando para Yuri.
— Concordo. — ela olhou para mim rindo — Agora podemos entrar, oppa, vocês já compraram os ingressos?
— Sim. — respondeu , levantando a mão esquerda com os ingressos.
— Não vamos comer nada? — reclamei — Quero pipoca.
— Eu também, oppa. — Yuri o olhou de forma meiga.
— Eu compro as pipocas. — soltou minha mão de leve e foi até o balcão de alimentos.

Logo retornou com dois baldes de pipoca e mais duas latas de coca, entramos rapidamente e nos acomodamos mais no fundo. e Yuri sentaram na poltrona da frente, eu queria que eles tivessem mais privacidade. O filme era legal e tinha partes engraçadas, os momentos mais românticos eram sempre interrompidos por algum beijo surpresa de . Aquilo me deixava com vergonha e sem jeito, mas era legal de qualquer forma, ao término do filme, saímos da sala e entramos em um fliperama que tinha dentro do shopping, aquele parecia o momento dos garotos.

— Parece que se esqueceram de nós Yuri. — comentei vendo eles se divertindo, enquanto jogava Mortal Kombat.
— Verdade unnie, vamos fazer alguma coisa que gostamos também? — sugeriu ela.
— Eu vi uma loja de álbuns de kpop, que tal irmos lá? — sugeri também.
— Seria legal.

Aproveitamos a distração momentânea deles e nos afastamos, ao entrarmos na loja de música meus olhos brilharam com a quantidade de álbuns espalhada por todo lugar. Eu a puxei para perto de uma banca que tinha álbuns clássicos de grupos antigos do kpop como o H.O.T.

— Nossa, isso é raridade. — comentei.
— Uau. — ela olhou admirada — Minha unnie tem a discografia completa deles.
— Sério? — eu peguei um álbum e fiquei olhando com mais atenção aos detalhes da arte da capa — Fantástico isso, eu admiro muito grupos como o deles.
— Unnie.
— Sim? — a olhei tranquilamente.
— Mianhaeyo.
— Pelo que?
— Por achar que você era chata. — ela abaixou a cabeça — Eu sempre gostei do oppa, mas nunca tive coragem de me declarar, e quando você entrou no Daejeon Cho High School e se tornou amiga dele tão facilmente, fiquei com raiva de você.
— Ah. — eu já sabia disso, ou melhor, suspeitava — Eu já imaginava, por isso você sempre evitava ficar perto de mim, quando eu me aproximava de vocês.
— Mianhae.
— Não precisa se desculpar, desde quando você me tratou mal pela primeira vez eu desconfiei que fosse por causa do . — eu ri de leve — Mas eu sempre vi ele como um amigo, que se tornou meu melhor amigo.
— Por me ajudar a conquistar ele, komaweyo unnie. — ela me abraçou de leve e eu retribui.

Depois que eu a conheci mais a fundo, descobri que Yuri era realmente fofa e meiga, não tinha como ficar com raiva dela por isso. Ficamos alguns minutos mais babando naqueles álbuns até os garotos nos encontrarem, eles pareciam um pouco mais amigáveis do que de costume.

— Finalmente achamos vocês. — disse .
— Oppa, achamos que tinham se esquecido de nós. — disse Yuri ao se aproximar de e segurar em sua mão.

Eles pareciam um casal saído de dorama de tão fofos.

— Verdade, ficaram tão empolgados no fliperama.
— Não foi proposital. — sorriu sem jeito.
— Vamos nos separar agora. — segurou minha mão — Quero te levar a outro lugar.
— Sim. — concordou — Vejo vocês na segunda.

Eu me despedi de Yuri e segui com em direção a saída do shopping, entramos no carro dele que estava estacionado próximo e seguimos em direção sabe onde. estacionou o carro perto do parque, descemos e pegando em minha mão ele me guiou até um pequeno mirante que tinha lá. Ficamos alguns minutos em silêncio olhando toda a paisagem da natureza sendo misturada a arquitetura da cidade, era uma vista linda e inspiradora.

— Por que me trouxe aqui? — perguntei curiosa.
— Porque queria eternizar um momento com você este ano. — ele me abraçou por trás mantendo seu olhar na paisagem.
— Está falando como se não fôssemos nos ver mais. — eu suspirei de leve.

Ele permaneceu em silêncio. O que me fez pensar que realmente era isso.

— Você vai se formar este ano. — continuei — Mas ainda assim manteremos contato, mesmo que mude para Seoul.
— Vamos deixar este assunto para outra hora, apenas vamos aproveitar este momento. — sussurrou ele.

Ele deu um suspiro meio fraco, ficamos em silêncio por um longo tempo, até que ele se afastou de leve e me virou para ele, seu olhar mesmo perto parecia um pouco distante.


— Não diga nada por alguns minutos, por favor. — ele pediu mantendo seu olhar fixo em mim.

Assenti com a face.
Estávamos sim chegando ao final do ano letivo e sua formatura estava próxima, mas não significava que nossos sentimentos um pelo outro também acabariam. Ele foi se aproximando lentamente até que seus lábios tocaram os meus suavemente, eu sempre sentia meu corpo arrepiar quando ele me beijava.

— Saranghae. — sussurrou ele.

Um singelo eu te amo.

— Eu também te amo. — sussurrei de volta — Me promete uma coisa?
— O que você quiser.
— Jamais pense que você será como seu pai. — o olhei com firmeza.
— Por que está falando isso? — ele parecia confuso com meu pedido.
— Sei que tem medo de me machucar como o seu pai fez com a ajumma…
. — tentou me interromper.
. — segurei em sua mão — Você não é ele. Me prometa.
— Eu prometo. — disse, dando um sorriso fofo.

Eu o abracei no impulso.

me levou para casa pouco antes do jantar, havia recebido uma mensagem do seu pai. Eu o convidei para subir e jantar com minha família, mas ele recusou, parecia meio estranho, mas resolvi não perguntar nada e após me despedi entrei no prédio. Quando entrei em meu quarto, peguei meu celular e conferi as mensagens do messenger do facebook, tinha muitas da Lira perguntando as novidades, para minha surpresa ela estava online e pudemos conversar muito sobre minha nova realidade em Daejeon.

: on

havia sido muito ousada e corajosa ao me fazer aquele pedido.

E por mais difícil que fosse eu me livrar dos maus pensamentos, lutaria para merecer o amor dela. Confesso que estava um pouco assustado com a ideia de me formar e ter que me mudar para Seoul, não queria deixar , nem minha mãe e minha irmã. Menos ainda me separar dos meus amigos, todos eles iriam cursar algo em Busan. Essa era mais uma das causas das frequentes discussões entre eu e aquele que eu deveria chamar de pai, eu queria uma coisa para minha vida e ele queria outra. A pior parte era ameaçar tirar a guarda de Sunny da minha mãe caso eu não concordasse, aquilo só me deixava ainda com mais raiva dele.

Assim que cheguei em casa, peguei meu celular, tinha uma mensagem de boa noite de , sorri instantaneamente ao ler. Me espreguicei um pouco e colocando o celular em cima da escrivaninha, saí do quarto indo para cozinha.

— Boa noite. — disse, num tom sério enquanto mantinha seu olhar na tigela.
— Boa noite. — mantive meu olhar na geladeira indo até ela.
— Precisamos conversar sobre a prova do vestibular, já está quase chegando a data.
— Não temos mais nada para conversar. — abri a geladeira e tirei uma garrafa pequena de suco.
— Pode achar que estou fazendo o errado, mas isso irá se refletir no seu futuro. — ouvi o som dele colocando o hashi sobre a mesa, parecia irritado — Não quero que vá para longe por que quero te afastar de sua mãe ou dos seus amigos, estou preocupado com seu futuro.
— Não deveria. — fechei a porta da geladeira bruscamente e fui até o armário.
— Você é meu filho, mesmo que não me trate como pai, cuidarei para que no futuro seja bem sucedido.
— Já disse que não quero falar sobre isso. — peguei um pacote de biscoitos no armário e o fechei.
— Te olhando agir assim, pode pensar que não, mas somos parecidos de alguma forma. — ele respirou fundo — Um dia irá me agradecer por isso.
— Espero que esse dia não chegue.

Saí da cozinha e me tranquei no quarto. Coloquei o pacote de biscoito e a garrafa de suco em cima da escrivaninha, havia perdido a fome, as palavras dele haviam ficado entaladas na minha garganta, passei a noite pensando sobre isso. Se eu realmente era tão parecido com ele, comecei a pensar que no futuro também poderia fazer sofrer como ele fez com minha mãe, esse pensamento me atormentava.

Mesmo com a promessa feita, precisava ser forte.

“Às vezes, eu fecho os meus olhos e penso em você
Seu habitual pensamento daquela imagem familiar de mim
Apesar da minha falta de jeito, você continua gostando de mim não importa o que
Mas eu mereço ser amado por você?”

— Promise / EXO


Continua…
Nota da autora
Primeira história colegial. Pode ser lida com qualquer coreano.

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