Revisada/Codificada por: Gemini ♊
Última Atualização: 19/04/2026Ele nunca deixava ninguém saber que falava com aquela lápide. Era o único lugar onde podia ser simplesmente Tony, e não um herói.
Sempre trazia consigo um girassol. Não porque acreditasse no simbolismo da flor — a esperança, a luz —, mas talvez porque fosse a única coisa que ainda conseguia carregar consigo sem ferir demais. A positividade, ele há muito tempo tinha abandonado.
Ao olhar para o nome gravado no mármore frio, uma sensação visceral de fracasso o consumia — uma culpa esmagadora que jamais sairia dos seus ombros.
1991 — ?
O vazio que ela deixara ainda era um abismo que ele tentava, sem sucesso, atravessar.
Desde a batalha em Sokovia, Tony evitava discussões sobre propósito ou consequência. Deixava isso para Steve, que sempre tinha uma fala ensaiada sobre liberdade e responsabilidade. Ele preferia cálculos. Microestruturas vibráteis. Ajustes finos em armaduras que nunca pareciam suficientes. Se não estivesse revisando a compressão das novas botas do modelo Mark XLVII, estava testando um campo de contenção de energia que pudesse proteger civis caso, mais uma vez, as coisas saíssem do controle, porque elas sempre saíam.
Rhodey tinha dito, algumas noites antes, que ele precisava dormir. Visão sugeriu meditação — como se uma mente como a de Tony Stark pudesse ser calada com respiração nasal e mantras. Steve, como sempre, não disse nada diretamente, mas o olhar dele carregava aquela cobrança disfarçada, aquele incômodo que ele fazia questão de não verbalizar. Tony conhecia esse jogo. E, como um bom jogador, escolhia o próprio campo de batalha. A oficina, com suas mesas cobertas por componentes e impressoras 3D rugindo baixinho ao fundo, era o único lugar onde ele ainda sentia que tinha algum senso de controle.
A ideia de reviver a Stark Expo surgiu como um lampejo no meio de uma madrugada insone. Ele estava mexendo em um protótipo de implante neural — que, se desse certo, jamais veria a luz do dia fora daquele laboratório, obviamente — quando se deu conta de que o mundo precisava de outra coisa. Esperança. Inovação. Uma pausa no ciclo interminável de destruição e reconstrução. A Expo seria um símbolo. Não dele, mas do que poderia ser feito quando cérebros brilhantes não fossem usados para criar armas, mas soluções. O legado dele precisava de algo novo. Algo que não envolvesse destruição ou justificativas.
Claro, a ideia foi recebida com ceticismo. Sam disse que era um risco expor tecnologia num evento público. Natasha permaneceu em silêncio, mas Tony percebeu o franzir sutil da testa dela. O único que pareceu genuinamente interessado fora o Clint, que soltou um “Isso seria muito interessante!” quando ouviu falar do projeto — mesmo que só tivesse entendido metade da explicação. Isso já bastava.
Ele deslizou o dedo sobre o painel da mesa, ativando a maquete digital do pavilhão central. A nova Stark Expo aconteceria em Nova York. Uma escolha estratégica, segundo Sexta-Feira — distante do centro das atenções em Washington, mas ainda suficientemente simbólica para causar impacto. Tony havia projetado a entrada principal com curvas futuristas e revestimento reflexivo, com painéis solares integrados e sistemas inteligentes de refrigeração. Tecnologia limpa e completamente sustentável. O tipo de coisa que Howard Stark, em sua visão antiquada de progresso, provavelmente teria considerado se não fosse as limitações da sua época. E talvez fosse essa a verdadeira motivação por trás de tudo: provar que era possível fazer diferente e que ele era diferente.
A projeção se expandiu. Salas de demonstração, painéis para jovens cientistas, áreas interativas para crianças. Um museu dedicado à história da engenharia — com destaque não para ele, mas para nomes esquecidos, mentes brilhantes que haviam contribuído anonimamente para avanços significativos. Tony deixou a própria figura como uma nota de rodapé. “Fundador da Nova Era”, talvez. Soava pretensioso, o que significava que era exatamente o tom certo.
Ele se recostou na cadeira, apoiando os cotovelos nos braços de metal e entrelaçando as mãos diante do rosto. Tinha esse hábito quando se perdia em pensamentos — um gesto quase inconsciente, como se estivesse se preparando para ouvir uma pergunta difícil. E ela sempre vinha. Não em palavras, mas no olhar de uma criança em Sokovia. No sangue escorrendo do canto da boca de Pietro Maximoff. No olhar devastado de Wanda. No jeito como Steve o evitava nos corredores. Em tudo que ele tentou consertar — e acabou quebrando ainda mais.
Mas agora, talvez, pudesse fazer algo diferente. Não para apagar o que houve. Isso era impossível. Mas para oferecer alguma espécie de balanço. A Stark Expo seria isso. Um novo começo, ou, no mínimo, uma distração convincente.
Sexta-Feira interrompeu o fluxo dos pensamentos com sua voz gentil, mas sempre direta:
— Senhor Stark, o diretor Fury está na entrada do hangar principal. Disse que é importante.
Tony suspirou. Claro que era. Com Fury, sempre era.
Ele se levantou, estalando os dedos e alongando as costas como um homem que havia passado horas demais mergulhado em algo maior do que ele podia admitir. Talvez fosse isso que o mantinha de pé: a ilusão de que, se construísse o suficiente, se inventasse o suficiente, poderia um dia corrigir o desequilíbrio que ajudou a causar. Ou, no mínimo, fazer o mundo acreditar que ele ainda estava tentando.
— Manda ele entrar — disse, ajustando o relógio no pulso e olhando para a projeção diante de si. O pavilhão central ainda brilhava com seus planos. — Mas avisa que se ele vier com papo de “estamos todos em perigo”, vou cobrar ingresso para a entrada na Expo.
Tony não olhou imediatamente quando a porta do laboratório se abriu. Ele pensou que fosse outra pessoa voltando com algum comentário atrasado ou sugestão logística enfadonha, mas o som dos passos — pausados, seguros, mais pesados que o usual — o fez erguer os olhos com uma expressão já meio irritada. Assim que viu o sobretudo escuro, o andar quase militar e o tapa-olho inconfundível, soltou um suspiro, como quem finalmente se rende ao inevitável.
— E eu achando que o laboratório estava livre de visitas teatrais hoje — comentou, sem disfarçar o sarcasmo. — A Sexta já tinha me avisado, não se preocupe com entradas teatrais.
Nick Fury parou no meio do cômodo, como se o ambiente todo já estivesse sob sua leitura. A forma como ele se movia nunca era só deslocamento — era avaliação. Olho varrendo cada canto, cada detalhe, como se procurasse sinais de algo escondido até mesmo em cabos desconectados.
— Não vim atrás de teatro, Stark. Vim atrás de bom senso.
Tony cruzou os braços e se encostou na bancada mais próxima, ainda segurando uma peça metálica manchada de graxa. A expressão em seu rosto oscilava entre o desinteresse e o cansaço mal disfarçado. Ele já tinha ouvido esse tom antes. Quando Fury usava palavras como "bom senso", era sinal de que algo muito ruim estava em andamento — ou prestes a cair no colo de alguém, preferencialmente o dele. Ainda que não fosse mais um Vingador, ainda prestava consultoria.
— Você sempre aparece quando tem alguma tragédia no forno. Qual é a da vez? Invasão alienígena? Inteligência artificial rebelde? Um clone malvado do Capitão América?
— Você anda lendo relatórios da S.H.I.E.L.D.? — Fury rebateu, seco.
— Não desde que descobri que a maioria deles envolvia gente tentando me matar ou usar meu DNA para fabricar armas — Tony respondeu, largando a peça na bancada com mais força do que o necessário.
Fury avançou alguns passos, tirou um tablet de dentro do casaco e colocou sobre a mesa. A tela já exibia imagens perturbadoras: corpos, relatórios preliminares, fotos desfocadas de cenas de crime com padrões de ataque semelhantes. Tony não precisou tocar o dispositivo para entender o que Fury estava trazendo — ele conhecia aquele tipo de organização. Mortes aparentemente desconectadas, espalhadas por lugares diferentes da Europa e dos Estados Unidos, mas unidas por um tipo de brutalidade que não era algo visto todo dia.
— Isso não é coisa da S.H.I.E.L.D. — Tony disse após alguns segundos. — Não é operação, nem contraespionagem. Isso me parece o tipo de coisa que a Hydra faria.
— É, quase isso — Fury respondeu, sem rodeios. — Alguém está limpando o tabuleiro. Nove mortes confirmadas, todas ligadas direta ou indiretamente a células remanescentes da Hydra. Todos mortos em circunstâncias... consistentes. E a cada cena, a mesma assinatura dos assassinatos anteriores. Sem câmeras, sem testemunhas e zero rastros.
Tony analisou as imagens por mais um momento em silêncio. Os olhos passeando pelos rostos congelados nas telas, tentando puxar memórias, conexões, qualquer coisa que fizesse sentido. Mas o padrão era claro: alguém com treinamento avançado, acesso à informação sigilosa e, mais importante, uma motivação que ia muito além de ordens recebidas.
— E o que exatamente você quer de mim, Fury?
— Eu quero saber se tem alguma coisa nos seus arquivos, na sua cabeça, ou nas suas culpas que possa me dizer quem está fazendo isso.
Tony riu com uma nota amarga. Caminhou até a outra ponta da bancada, esfregando as mãos.
— Não sou mais parte da S.H.I.E.L.D., se é que algum dia fui. Eu me recusei a participar da nova divisão que vocês estão montando. E se alguém aí fora decidiu fazer justiça com as próprias mãos contra a Hydra, honestamente? Não me surpreende. Mas não é meu rastro que você tá seguindo.
Fury ficou em silêncio por um momento. Seu olhar não desviava.
— E se esse alguém não estiver só se vingando? E se estiver construindo algo em cima desses corpos? Uma rede ou um novo jogo. Uma nova Hydra, talvez. Ou algo pior?
Tony girou lentamente de volta para encará-lo. As olheiras estavam mais fundas do que de costume. O cansaço se manifestava em detalhes: no desalinho da barba, nos dedos sempre inquietos, nas respostas que pareciam vir com atraso. Mas os olhos ainda ardiam com aquela centelha antiga — a que acendia quando alguma coisa ameaçava escapar do controle dele.
— Se for isso, você não devia estar falando comigo. Deveria estar ativando a equipe.
— Eu estou tentando — Fury rebateu. — Mas metade da equipe está desmantelada, em suas casas ou ocupada limpando a bagunça de Sokovia. E a outra metade está... bem, você sabe. Pensando se vale a pena continuar chamando isso aqui de "time".
Tony abaixou os olhos para o tablet novamente. Um dos rostos na tela o fez franzir o cenho. Não porque conhecia a pessoa, mas pela sensação incômoda de familiaridade com o modo como havia morrido. Tinha algo naquela morte — não no corpo, mas no jeito como foi deixado — que o incomodava mais do que ele gostaria de admitir.
— Quer que eu entre nesse jogo, Fury? — perguntou, a voz mais baixa. — Vai ter que ser sincero comigo. Você sabe alguma coisa que não tá me dizendo?
Fury hesitou por uma fração de segundo apenas, mas Tony percebeu.
— Ainda não. Mas estou começando a suspeitar que isso aqui é mais do que parece. Alguém está apagando nomes da Hydra, mas também está deixando um rastro para nós. É como se quisesse que notássemos, mas só depois da última peça cair.
Tony encostou-se à bancada de novo e cruzou os braços. O olhar perdido em algum ponto indefinido do laboratório. Havia algo no ar, algo que se movia entre os ruídos abafados do passado recente e o peso dos escombros deixados pela guerra com Ultron. Algo que ainda não tinha nome, mas que já estava em ação.
— Então é melhor você correr, Nick — murmurou. — Porque seja lá quem está fazendo isso... não quer ser encontrado.
Fury assentiu uma vez. Em silêncio, recolheu o tablet, virou-se e foi embora, deixando apenas a porta se fechando atrás dele e o som abafado dos motores da mesa reativando os hologramas.
Tony ficou ali, sozinho. Como sempre.
Em algum lugar da Áustria
O quarto cheirava a mofo e vício. Cortinas esfiapadas bloqueavam a luz da rua, mas deixavam passar o brilho alaranjado de um letreiro apagando e reacendendo ritmadamente, projetando sombras vacilantes nas paredes manchadas. Havia garrafas vazias espalhadas pelo chão, um cinzeiro transbordando de bitucas e jornais antigos empilhados em uma poltrona encardida. O único som audível era o ronco entrecortado do homem deitado na cama — corpulento, suando mesmo com o frio cortante do lado de fora.
Quando os olhos dele se abriram, não foi porque o sono terminara. Foi instinto. Medo. A sensação repentina de que algo estava errado.
A lâmpada da sala oscilou uma vez antes de se apagar completamente. Ele se ergueu com dificuldade, resmungando em alemão, olhos vasculhando o breu. Pegou o revólver que estava escondido sob o travesseiro, carregado com pressa e mantido ali como um escudo inútil contra os fantasmas que sabia que um dia viriam. Sempre vêm.
— Quem tá aí? — a voz saiu pastosa, tensa. — Se veio me roubar, vai sair daqui com chumbo no peito.
Nada responde, mas o silêncio já não era o mesmo de antes. Ele sabia. Não era mais o silêncio de um quarto vazio, mas sim o de uma presença que não viera ali por acaso. A pausa no ar antes do colapso.
Um passo.
Ele girou o corpo para a esquerda, apontando a arma em direção à porta do banheiro — mas ela já estava escancarada. Um segundo passo, desta vez, à direita. Mas não vinha de onde esperava. A respiração acelerou, os dedos suavam contra a coronha da arma e o batimento cardíaco se tornou o som mais alto do cômodo.
Então, a voz veio.
— Está na hora, Herr Kraus.
Ele congelou.
Não porque não reconhecesse a voz — pelo contrário. Reconhecia. Mas o que paralisou seu corpo foi o fato de que ela pertencia a alguém que deveria estar morto há mais de vinte anos. Ou nunca ter sobrevivido à primeira missão. A arma caiu com um baque surdo no chão.
— Isso não é possível…
— E ainda assim, aqui estou.
Foi então que a figura surgiu atrás dele, como se tivesse se materializado da própria escuridão. Não havia máscara, mas o rosto permanecia na sombra. O que se via era o brilho nos olhos — algo entre ódio e controle absoluto. Uma raiva fria, afiada, mantida viva tempo demais para que perdesse a força.
Kraus tentou recuar, mas o corpo não respondeu. Os joelhos tremeram, o peito arfava. Não era um homem inocente, jamais fora. Carregava nas costas uma lista extensa de ordens dadas, execuções encobertas e crianças transformadas em armas. Sabia que morreria assim, mas não esperava que o fim chegasse com tanta teatralidade.
Ou tanta crueldade.
— Você não entende… nós fizemos o que precisávamos fazer. Era guerra. Guerra fria, guerra quente, guerra contra o tempo. Contra o futuro. Eu… eu só cumpri ordens.
A figura se aproximou devagar e sem pressa, exatamente como quem saboreia o medo da presa antes de matá-la.
— Não faz diferença. Não vim aqui para ouvir você se lamentar.
O primeiro golpe veio com uma faca curva, curta, embebida em ferrugem. Rasgou o ombro de Kraus em um movimento seco, que o fez soltar um grito agudo, quase infantil. Tentou lutar, empurrar, mas foi derrubado contra a parede com força brutal. O corpo do homem se chocou contra o reboco podre e tombou de lado, engasgando com o próprio sangue.
A lâmina dançou pelo torso dele com crueldade. Rasgou pele, músculos, costelas. Cada corte era deliberado, infligido não para matar, mas para ferir e fazer arder. As mãos de Kraus se ergueram em vão, tentando conter a hemorragia que jorrava em pulsos vermelhos escuros.
— Por favor… por favor…
— Pediu piedade? Quantas vezes eu pedi e você não ouviu?
Um novo corte, agora no rosto. Uma linha diagonal que dividiu a bochecha de cima a baixo, expondo dentes e ossos. Kraus gritava, engasgava-se, implorava por algo que nunca havia dado a ninguém.
A figura ajoelhou-se diante dele, com o rosto ainda fora da luz. Sangue respingava no chão, formando poças espessas que corriam para os cantos do quarto. Um som úmido e viscoso ecoava cada vez que a lâmina saía da carne. E, mesmo assim, havia conhecimento. Havia controle. Não era loucura, era cálculo.
— Você lembra da unidade de Kiev? — a voz dela soou mais baixa. — Lembra das meninas levadas? Lembra do que fez com elas?
Kraus chorava. O rosto inchado, o olho esquerdo virado para cima, a língua tentando formar palavras.
— Eu… eu… não fui eu. Foram os superiores. Eu só cuidava da triagem.
A resposta veio como um sussurro colérico:
— Mentir não vai te poupar da morte, Kraus. Você é um covarde até na hora de morrer... tão patético.
O último golpe foi direto no estômago, uma perfuração certeira e funda, feita com força e intenção. Ela empurrou a lâmina até o cabo, torceu levemente e o deixou ali, pendurado, enquanto ele convulsionava.
Ela observou o corpo até os espasmos cessarem. Até que o sangue se tornasse poça e o ar no quarto cheirasse a ferro oxidado e fezes. Então se ergueu, passou os dedos enluvados pelo queixo, limpou o rosto com um lenço de tecido branco — que logo ficou manchado de vermelho. Antes de sair, olhou para o cadáver e murmurou com desdém:
— O décimo foi pro inferno. Faltam quantos, mesmo?
A porta rangeu ao se fechar atrás dela. E mais uma vez, ela desapareceu sem deixar rastros.
Bucareste, Romênia – Dois dias depois
O rádio da padaria na esquina chiava em volume baixo, transmitindo uma estação de notícias local em romeno com sotaque carregado. O padeiro nem prestava atenção — os dedos cobertos de farinha seguiam moldando a massa como fazia todas as manhãs. Mas do outro lado da rua, em uma pequena pensão de fachada esverdeada e goteiras reincidentes, uma televisão antiga transmitia a mesma notícia, só que desta vez com imagens. Estavam em todos os canais, em todos os idiomas.
Um homem aparecia deitado em um chão sujo, com o rosto borrado, mas o cenário era inconfundível. Sangue. Sangue em abundância, escorrendo pelas juntas do piso como tinta viva. Um repórter em voz alta e apressada falava em "execução cruel", “ligação com casos anteriores”, "modus operandi perturbador".
Sentado à mesa com uma tigela de mingau frio pela metade, Bucky Barnes observava. O vapor já havia desaparecido da comida havia tempo, mas ele não havia se dado ao trabalho de terminar. Os olhos estavam fixos no aparelho de tubo, emoldurados por olhares atentos e a barba por fazer. O cabelo, preso de qualquer jeito, pingava levemente da água do banho recente. Mas o olhar — o olhar estava seco e alerta. Parado como uma armadilha prestes a se fechar.
A câmera mostrava imagens do prédio em Linz, cercado por fitas amarelas e carros da polícia. Um policial, visivelmente abalado, dava uma declaração curta. “Nunca vi nada assim, nem em guerras. Nem em livros de horror.” As legendas passavam devagar, como se quisessem garantir que ninguém perdesse o impacto do que estava sendo dito.
“É o décimo caso desde Praga.”
Bucky inclinou-se para a frente, a mandíbula tensa. Ele não precisava que dissessem em voz alta — ele sabia o que aquilo significava. Cada nova vítima era um uma pecinha removida. O tipo de morte… as marcas… a violência implacável — ele conhecia esse estilo. Conhecia bem demais.
A repórter continuava: “As autoridades suspeitam de um assassino com treinamento militar avançado, possivelmente ex-KGB, dada a natureza ritualizada das execuções e o histórico das vítimas, todas ligadas a atividades clandestinas durante a Guerra Fria.”
Ele não reagiu de imediato, mas a mão esquerda tremia levemente sobre a mesa, a de carne e osso. A outra — fria, metálica, imóvel como uma estátua — repousava sobre a coxa, coberta pela luva que sempre usava. Sua respiração se tornou irregular, mas o rosto permaneceu impassível, como se toda a tempestade estivesse trancada por trás de um vidro grosso.
Uma última imagem surgiu na tela: a ficha de Franz Kraus, ex-diretor de operações logísticas da Stasi, suspeito de colaborar com células da Hydra antes do colapso da União Soviética. "Considerado morto para o mundo desde 1993." Agora, literalmente.
— Quem está fazendo isso…? — ele murmurou para si mesmo, sem esperar resposta.
Porque parte dele já sabia.
Havia um padrão nos alvos. Nomes que ele reconhecia, ou cujas histórias eram sussurradas pelos cantos escuros da Hydra. Gente que deveria estar enterrada no esquecimento, vivendo com nomes falsos, protegidos por anos de acordos sujos e corrupção internacional. Agora todos estavam sendo varridos, um a um.
Mas o que Bucky não compreendia, o que o corroía por dentro, era o porquê.
Não era a S.H.I.E.L.D. — não operavam assim. Não era Fury. Ele era impiedoso, mas não sádico. Também não era a Natasha. Ela matava por necessidade, não por espetáculo. E, acima de tudo, havia algo nos detalhes — nos pequenos rituais ao redor das mortes — que trazia à tona memórias antigas. Treinamento. Tortura. Controle.
Armas fabricadas, como ele fora um dia.
Desligou a televisão com um estalo seco do controle remoto. A tela ficou preta, refletindo seu rosto cansado de forma distorcida. Ele se levantou, passou as mãos pelos cabelos e encarou a janela. A rua seguia tranquila, o sol filtrado pelas nuvens cinzentas. Mas havia uma urgência no ar, algo invisível se acumulando. Como eletricidade estática antes do trovão.
Se aquilo estava acontecendo, ele precisava descobrir quem era. E mais importante: o que essa pessoa queria, porque algo lhe dizia que, mesmo não sendo o alvo agora… poderia ser em breve. E, de algum modo, aquele massacre em série já tinha tudo a ver com ele.
Ela o lia em manchetes impressas e digitais, escutava em programas de rádio, via em placas reluzentes erguidas por operários de uniforme laranja nos arredores de Seattle. Não era mais apenas um nome — era um símbolo, uma ideia em constante reinvenção. Tony Stark apresenta: A Nova Stark Expo. O mundo mal havia terminado de limpar os escombros de Sokovia e lá estava ele, com holofotes, promessas e bilhões em contratos circulando como sangue fresco por artérias de aço e fibra óptica. O espetáculo não parava. Nunca parava.
Do alto de um prédio incompleto perto do parque, ela observava com binóculos compactos a entrada principal do novo complexo. A arquitetura seguia a assinatura dele — moderna, arrojada, egocêntrica em sua essência. Painéis solares refletiam a luz do início da tarde, quase ofuscando o emaranhado de andaimes e guindastes que ainda finalizavam detalhes da estrutura principal. Havia movimento constante: engenheiros entrando e saindo, caminhões trazendo materiais, drones sobrevoando com sensores ligados, buscando falhas e potenciais ameaças. A maior ironia era usar o mesmo local onde Ivan Vanko havia o atacado em 2010.
Mas ela não se interessava pela engenharia.
Seus olhos seguiam um homem em particular. Terno escuro, óculos com tecnologia de ponta acoplada, uma prancheta digital na mão e a postura inquieta de quem precisava estar em cinco lugares ao mesmo tempo. Ela estudava cada passo dele, cada gesto, cada pausa entre os comandos que dava aos subordinados. À distância, parecia uma dança solitária, cega à presença de qualquer coisa além de sua própria ambição. Aquela obsessão por controle era quase patética — mas fascinante, do mesmo modo que um animal enjaulado roendo as grades até sangrar.
Tony Stark não tinha ideia de que estava sendo vigiado.
Nos últimos dois dias, ela havia mapeado sua agenda com uma lista enorme de tudo o que Tony fazia. Sabia em quais horários ele dormia — ou fingia dormir —, quando ele sumia dentro dos laboratórios do novo complexo dos Vingadores e quando reaparecia, sempre rodeado por telas e esquemas, tentando fazer o mundo girar mais rápido ao redor do próprio eixo. Havia anotações espalhadas por seu quarto improvisado no Queens: padrões de comportamento, registros de entrevistas, esboços de suas armaduras mais recentes, hipóteses sobre novos sistemas de segurança.
Nada escapava à sua análise.
E o mais curioso era como tudo nele parecia uma tentativa desesperada de se redimir de algo. Ela reconhecia o padrão, o mesmo impulso que leva alguém a construir armaduras também pode levá-lo a erguer paredes invisíveis ao redor de si mesmo — paredes que não seguram o medo, mas os amplificam. Ele tentava reescrever o próprio legado, enterrar o que veio antes sob luzes de LED e slogans otimistas, mas não havia parede que contivesse o que ele carregava.
Porque ela sabia de coisas que ele ignorava. Sabia do rastro que ele deixara ao longo dos anos, dos corpos que passaram despercebidos entre contratos militares, festas filantrópicas e vitórias contra vilões mais óbvios. Ela não queria atenção e não buscava reconhecimento. A vingança que a movia era feita de ódio, de abandono e de justiça à sua própria maneira.
Na tela do tablet à sua frente, rolavam arquivos sobre os expositores da Stark Expo. Alguns nomes conhecidos e outros irrelevantes, mas todos cuidadosamente selecionados para mostrar o melhor da “inovação em prol da humanidade”. Havia uma ironia perversa em assistir aquilo tudo de longe, como se estivesse diante de uma farsa elaborada. E enquanto o mundo aplaudia, ela alinhava os próximos passos.
A Expo seria apenas uma mera visita.
Não necessariamente o lugar do ataque — talvez não fosse nem mesmo um ataque. Mas algo ali serviria como chave, um ponto de virada. O espetáculo estava montado, e ela precisava entender cada mecanismo, cada luz, cada momento em que Tony Stark baixava a guarda, mesmo que fosse por uma fração de segundo.
O vento soprou forte no topo do prédio, fazendo suas roupas pretas esvoaçarem como uma extensão do concreto inacabado. Ela não se moveu. Mantinha os olhos fixos na figura dele lá embaixo, indiferente ao ruído de Nova York, à vida que acontecia sob seus pés. Nada daquilo importava, não enquanto sua missão não estivesse completa. Ela pegou o caderno surrado ao seu lado e rabiscou com letra firme uma frase que não queria esquecer:
“A queda não começa com o impacto. Ela começa no impulso.”
Fechou o caderno e guardou o binóculo, já havia visto o suficiente por hoje. O plano seguia em marcha e Tony Stark — o herói, o gênio, o arquiteto de seu próprio império — mal começava a perceber que, em algum lugar entre os escombros de sua glória passada e as luzes da nova Expo, alguém o observava com olhos de julgamento. Alguém que queria apenas o acerto de contas.
A antiga Torre dos Vingadores pulsava com a energia típica dos dias que antecedem um grande evento, uma mistura elétrica de ansiedade, pressa e aquele senso agudo de que tudo precisava sair perfeito — ou o mais próximo disso que Tony Stark conseguia alcançar. Ele estava no centro do furacão, rodeado por telas que projetavam mapas, fluxogramas, cronogramas e simulações em três dimensões que giravam e se transformavam sob o toque rápido dos dedos dele. Cada detalhe da Stark Expo era um desafio, uma peça de um quebra-cabeça gigantesco que ele próprio arquitetava.
Para Tony, a Expo não era apenas mais uma feira tecnológica ou mais um desfile de inovações para impressionar a imprensa e investidores. Era uma declaração de poder, uma reafirmação da sua capacidade de transformar o caos do mundo em algo palpável, visível e, acima de tudo, controlável. Depois dos meses turbulentos que haviam seguido a batalha de Sokovia, ele queria que aquele evento mostrasse algo além das armas e das batalhas — queria que mostrasse esperança, progresso, a promessa de que a ciência e a tecnologia ainda podiam ser forças para o bem.
Ele passava os dedos pelo queixo, franzindo levemente a testa enquanto observava a última simulação da área central, onde as novas armaduras de resgate e proteção seriam apresentadas. Cada módulo, cada robô, cada sistema de segurança parecia impecável no modelo digital, mas Tony sabia que no mundo real, imperfeito e cheio de variáveis, o risco era uma constante variável. Por isso, as reuniões com a equipe de segurança aconteciam quase diariamente, repletas de debates sobre contingências, protocolos de evacuação e planos de resposta a ameaças — mesmo assim, ele insistia que a Expo deveria ser um momento de otimismo, não de medo.
Enquanto determinava as últimas decisões, as lembranças de um passado não tão distante insistiam em surgir, invadindo a clareza da sua mente. Ele não podia evitar pensar na última Stark Expo, aquela que havia sido palco de confrontos inesperados, quando Ivan Vanko quase destruiu tudo com um exército de drones gentilmente fornecidos por Justin Hammer. As imagens daquela noite ainda estavam vivas na sua memória — os alarmes disparando, os gritos, as explosões, o som do metal retorcido se chocando, a urgência de salvar vidas. E, claro, o rosto de sua própria vulnerabilidade exposta no momento em que teve que enfrentar Vanko com Rhodes e salvar Pepper de uma morte eminente.
Aquelas lembranças, em vez de enfraquecê-lo, alimentavam um fogo interno. Era como se cada cicatriz deixada por aquele evento fosse um combustível para seu próximo avanço. A nova Expo seria diferente, ele prometia a si mesmo. Mais segura, mais impressionante, mais preparada. Nada de erros amadores e nenhuma surpresa desconcertante. Ele havia aprendido demais naquela noite para permitir que qualquer coisa similar acontecesse novamente.
A complexidade do evento também refletia sua própria evolução. O mundo não era mais o mesmo, e ele também não. Os tempos haviam mudado, e ele precisava estar à frente, mesmo quando os outros preferissem se agarrar ao que conheciam. Por isso, a Expo reunia não só suas invenções pessoais, mas também colaborações com os Vingadores restantes, empresas de ponta e até iniciativas governamentais para promover avanços em segurança e energia limpa — temas que ele sabia que poderiam construir pontes, mesmo em um mundo à beira do caos político.
Enquanto analisava os detalhes do cronograma, um de seus engenheiros mais confiáveis entrou na sala com um tablet nas mãos, interrompendo brevemente seu fluxo de pensamento.
— Senhor Stark, os testes dos drones de segurança terminaram com sucesso. A resposta deles aos comandos foi instantânea, e o sistema de defesa adaptativa está funcionando dentro dos parâmetros esperados.
Tony levantou o olhar, oferecendo um sorriso rápido que misturava satisfação e uma pitada daquela arrogância que tanto irritava seus críticos.
— Perfeito. Agora, certifique-se de que eles estejam sincronizados com os sistemas de inteligência artificial do complexo, quero cada centímetro coberto. Não podemos repetir os erros de antes.
Ele sabia que essa determinação vinha do lugar certo — não de simples teimosia, mas da compreensão amarga de que o mundo que ele ajudara a proteger ainda não estava livre dos riscos que o atormentavam. A ameaça não vinha apenas de invasores visíveis, mas também daquelas forças invisíveis que se moviam nas frestas do poder e da política.
Por isso, além dos preparativos técnicos, Tony também precisava lidar com a diplomacia de gente que detestava. Vários aliados — e inimigos em potencial — estariam presentes. O sucesso da Expo poderia significar uma mudança nas alianças, abrir novas portas ou fechar outras. Ele tinha a responsabilidade de garantir que tudo fluísse sem incidentes, que a imagem dos Vingadores continuasse intacta, e que as velhas rivalidades não se tornassem combustíveis para um novo conflito.
Ele pegou um copo de café quente e deu um longo gole, o amargor fazendo seu cérebro despertar ainda mais. No silêncio momentâneo, ele refletiu sobre a complexidade do papel que desempenhava. Não era mais apenas o homem por trás da armadura; ele era um símbolo. Um símbolo que carregava mais do que tecnologia — carregava expectativas, medo, esperança e, claro, inimigos que ainda se escondiam, aguardando pela oportunidade perfeita para atacar.
Por um instante, fechou os olhos e deixou as imagens da Expo se misturarem com os ecos daqueles eventos que jamais poderiam ser apagados. Cada vitória tinha um preço, e ele sabia que o próximo capítulo estava prestes a começar. Ali, naquela sala imensa e vibrante, enquanto a cidade respirava sob seu comando, Tony Stark preparava o palco para algo maior do que qualquer um poderia imaginar.
Ele abriu os olhos, focado. A Stark Expo seria seu melhor espetáculo até então — e ele estava determinado a não deixar que nada o destruísse antes do grand finale.
Os dias passavam em um fluxo contínuo de reuniões, testes de segurança, simulações e ajustes de última hora. A torre fervilhava em um ritmo quase frenético, e no centro de tudo — como um núcleo que mantinha a engrenagem girando — estava ele. Tony Stark.
Aos olhos de quem o visse de longe, talvez ele parecesse concentrado demais, engajado demais, produtivo demais. Para quem o conhecia de perto — e a essa altura, quase ninguém podia dizer que conhecia — o excesso de empenho era um sintoma, não uma virtude. Havia algo incômodo na forma como Tony se atirava de cabeça em cada nova etapa da Stark Expo, deixando claro que ele não tinha mais tempo para distrações e que seu único foco era o que estava fazendo.
Funcionava como uma âncora, uma maneira de manter a mente longe das espirais perigosas de culpa e paranoia que sussurravam sempre que o silêncio se aproximava.
Na ala leste da torre, um holograma em escala da feira se projetava acima de uma imensa mesa de vidro temperado, revelando pavilhões interativos, zonas de teste, exposições sobre energia limpa, inteligência artificial, próteses militares de última geração e, claro, o palco central — onde ele mesmo abriria o evento com um discurso meticulosamente ensaiado. Tony girava com os dedos um módulo flutuante da planta, ajustando ângulos, reconfigurando o posicionamento de torres de segurança e redes de vigilância autônoma. Sua voz ditava comandos curtos, e a interface obedecia sem hesitar.
— Sexta, reforce o bloqueio de sinal naquela área ali, entre os quiosques de tecnologia doméstica e o setor aeroespacial. Quero bloqueadores em nível militar. Nada de drones, celulares ou olhares curiosos.
A inteligência artificial — agora integrada ao antigo programa do Jarvis, mas ainda operando como suporte nos sistemas antigos — confirmou de imediato. Tony não confiava em quase ninguém mais. Desde Sokovia, desde Ultron, desde que percebeu que boas intenções eram um campo minado onde vidas podiam explodir a qualquer instante. A Expo, então, se tornou não apenas uma vitrine para o progresso, mas uma fortaleza camuflada, uma espécie de redoma sob controle absoluto.
Ele caminhava de um lado para o outro no laboratório improvisado, vestindo uma camisa preta de manga dobrada até os cotovelos, os olhos cobertos por óculos transparentes de projeção aumentada. O cabelo arrumado no topete de sempre e a barba crescendo aos poucos demonstravam o cansaço, mas ele não se permitia parar. Nem por um segundo.
— Lembrou de incluir os sistemas de evacuação automatizada? — murmurou, como se Sexta-Feira fosse uma extensão de sua consciência. — Nada daquela burocracia de emergência. Se der ruim, quero que o chão abra e jogue todo mundo nos túneis de fuga sem precisar de protocolo.
— Confirmado, senhor. Mas vale lembrar que a instalação dos sistemas de ejetores subterrâneos ainda está a 42% da execução.
Tony resmungou algo ininteligível e socou o painel mais próximo. As luzes do projeto tremeram, e um arquivo sobre a segurança do evento se projetou à esquerda, com notificações piscando em vermelho.
— Então agiliza. Compra quem precisar comprar, ameaça quem precisar ameaçar. Eu não vou repetir Nova York, nem Washington e nem Sokovia. Essa droga vai acontecer direito, ou não vai acontecer.
Sua voz subiu um tom que fez até os autômatos de manutenção pararem momentaneamente. Mas, em seguida, tudo voltou ao normal. O mundo ao redor parecia acostumado aos acessos momentâneos de raiva de Stark — ou fingia muito bem que estava.
Entre relatórios e projeções, uma pequena tela piscou no canto inferior da mesa. Era um vídeo amador, provavelmente viralizado, com o logo de um canal europeu. O título em letras garrafais o fez franzir o cenho: “Homem encontrado esquartejado em hotel de luxo na Suíça. Ligação com ex-agente da Hydra é investigada.” Ele passou os dedos rapidamente e ignorou. Notícias sobre a Hydra estavam mais cada mais frequentes, e ainda mais depois do colapso interno da organização, mas Stark não queria mais saber daquilo. Não agora. Não enquanto havia cabos para conectar, sistemas para testar e sensores para calibrar.
— Foco. — murmurou para si mesmo.
A lembrança dos drones de Ultron derrubando prédios, das mãos ensanguentadas no pedaço flutuante de Sokovia, da explosão no palco da antiga Expo... tudo isso ainda morava ali, rente à pele. Mas ele enterrava fundo, onde nem mesmo o espelho do banheiro conseguia enxergar. A Stark Expo era sua penitência e seu orgulho. Um tributo ao que ainda podia ser salvo, ou ao menos uma tentativa de provar — para os vivos e para os mortos — que ele ainda estava tentando.
E ele precisava que fosse perfeita.
O corpo só foi encontrado no fim da tarde, mas a execução começou muito antes, nas horas em que a cidade ainda acordava preguiçosa sob o céu cinzento de Zurique. Um quarto de luxo, paredes pintadas de tons claros, cortinas leves demais para o pouco sol que passava. O homem estava ali há alguns dias. Ex-agente da Hydra, oficialmente morto havia sete anos, mas respirando bem demais sob uma nova identidade comprada a preço de ouro... até aquela manhã.
Ele acordou com a sensação de que algo estava errado. Não com o ambiente — esse permanecia intacto, como todos os dias anteriores. Mas havia um desconforto profundo, como se os órgãos em seu corpo já soubessem o destino e sussurrassem isso a cada batida de coração. Levantou da cama e seguiu o ritual de sempre: mijou de porta aberta, acendeu um cigarro, ligou a chaleira elétrica. Os olhos fundos vasculharam o quarto pela janela entreaberta, como se esperassem algum movimento, mas não aconteceu nada. E foi aí que ele sentiu.
O primeiro golpe veio pelas costas — algo metálico e pesado que se chocou contra a base do crânio. Ele caiu com um baque abafado, cuspindo sangue e dentes no carpete. Tentou se virar, mas os joelhos falharam e a respiração já vinha entrecortada. No instante seguinte, mãos envoltas por luvas de couro o agarraram pelo colarinho e o arrastaram até o meio do quarto. Sem uma palavra. Sem hesitação.
A dor veio como uma onda suja e incessante. Costelas sendo esmagadas por chutes secos, dedos quebrados um por um, a mandíbula deslocada com um estalo que o fez perder parte da consciência. Mas o pior ainda estava por vir. A figura sobre ele — alta, rápida, cruel — não buscava eficiência, buscava sofrimento.
Ela tirou a faca nada militar da bota. Uma lâmina curva, suja, com serrilhado de açougueiro. Cravou a ponta no abdômen e puxou para o lado, como quem abre uma caixa de presente. As vísceras tombaram para fora com um ruído molhado e quente. Ele tentou gritar, mas a garganta não obedeceu. O ar saía em guinchos sufocados e o sangue formava poças entre os tacos gastos.
— Você se lembra de mim? — a voz dela finalmente soou, baixa e rígida. Sem raiva, sem emoção. — Eu tinha sete anos. Usava um laço azul no cabelo. Você me levou para o quarto da desobediência.
O homem tremia, as pupilas dilataram. Um filete de espuma escorria pelos lábios. Ele tentou articular algo, um pedido de clemência, talvez, ou uma negação covarde. Mas a mão dela pressionou o rosto dele contra o chão, girando com força até que o maxilar rangesse.
— Você não vai dizer nada? — ela perguntou, inclinando-se sobre ele. — Nenhuma desculpa esfarrapada? Nenhum "eu só seguia ordens"?
Ele gemeu. O som mais patético que já saíra da boca de um assassino. Ela apenas observou por um instante, os olhos sem piscar. Então, ergueu a lâmina uma última vez e fincou-a entre as costelas, direto no coração. Não com pressa, apenas firmeza. O corpo estremeceu e parou.
Quando a polícia chegou, horas depois, alertada por hóspedes por conta do cheiro forte e moscas acumuladas na janela, a cena parecia saída de um pesadelo digno de filme de terror. O corpo jazia aberto no meio do quarto, empalhado com seus próprios órgãos. No chão, escritas com o sangue dele, três palavras em alemão: “VOCÊS NÃO ESCAPAM”.
Nenhum sinal de arrombamento e nenhuma digital. Apenas uma câmera de segurança no corredor que, inexplicavelmente, havia queimado sua placa-mãe dois dias antes. A assinatura era sutil para quem não sabia o que procurar, mas Fury já começava a juntar as peças.
Ela estava caçando. E mais um nome havia sido riscado da lista.
Aquela frase o perturbava há dias. Nick Fury não operava mais como antes. Desde a queda da S.H.I.E.L.D., seu nome fora varrido das planilhas oficiais. O mundo o considerava morto desde 2014, enterrado junto com os segredos da agência que ele mesmo comandava em sigilo. E, no entanto, ali estava ele, escondido nas margens do sistema, colhendo informações como um velho corvo que sobrevive de restos em meio aos escombros.
Seu esconderijo atual era um abrigo subterrâneo na costa de Baltimore, camuflado sob um antigo farol desativado. Não havia tecnologia de ponta nem painéis reluzentes. Apenas caixas de arquivos, rastreadores analógicos e um terminal criptografado — suficiente para um homem como ele operar sem ser notado. Fury nunca precisou de muito. Bastava uma pista, um fio solto que ele puxava até o novelo inteiro cair no chão.
Na tela diante dele, três nomes estavam destacados em vermelho, todos com histórico sujo. Todos ex-Hydra e todos mortos com uma brutalidade que ultrapassava o pragmatismo de um acerto de contas comum. Não eram execuções simples, eram punições. Castigos.
A pasta de investigação — que ele não compartilhara nem com a Hill — já somava mais de duzentas páginas. Mapas com rotas de fuga, identidades falsas desmascaradas, hábitos diários das vítimas, e o mais importante: datas. Cada assassinato fora calculado com semanas de distância. Havia método, isso era inegável. Mas também havia algo impulsivo. Os corpos não pareciam ter sido deixados com intenção de esconder, pelo contrário — cada cena parecia feita para ser encontrada, para ser estudada e lida como uma carta.
Fury se recostou na cadeira, os olhos desconfiados fixos numa imagem ampliada na tela. A vítima da Áustria, com parte do rosto arrancado, com perfurações por todo o corpo. A perícia local achou que era coisa de máfia. Eles não sabiam de nada.
Aquela não era uma mensagem para os mortos, era um aviso para os vivos. E Fury sabia o suficiente sobre vingança para reconhecer quando ela ultrapassava os limites da lógica. Ele já havia conversado com Tony, semanas antes, quando os corpos começaram a aparecer. Stark, como sempre, estava ocupado demais com holofotes, suas criações e a mais nova edição da Expo Stark, mas Fury conhecia aquele olhar — mesmo sob a armadura, o gênio bilionário carregava culpa demais para ignorar completamente o que estava acontecendo. E a verdade era: eles não sabiam o tamanho daquilo ainda.
Desde então, Fury permaneceu nas sombras, cavando. Não era a primeira vez que via um padrão assim emergir, mas sempre havia um nome, um rosto, um motivo evidente. Aqui, o rastro era mais profundo. Detalhes sutis que indicavam o nível daquela atrocidade toda. Um indicativo claro que o autor daqueles crimes ainda não estava pronto para se revelar.
Atravessou o bunker até um arquivo metálico e puxou uma gaveta com documentos classificados da antiga S.H.I.E.L.D. A maioria fora resgatada nos dias finais da agência, pouco antes do colapso completo. Fury os manteve longe de qualquer rede digital. Só papel, tinta e sua própria assinatura.
Puxou uma pasta marcada com o selo da Hydra. Nome do arquivo: FUGITIVOS CLASSIFICADOS – CASOS DORMENTES.
Folheou até encontrar uma página em específico. Anotou mentalmente o nome riscado ali. Mais um morto recentemente e mais um nome que era impossível de localizar. Ele conhecia aquela rede de proteção — era impossível alguém encontrar esses ex-agentes sem acesso direto aos arquivos internos da Hydra ou da S.H.I.E.L.D.
— Isso aqui não é trabalho de amador — murmurou, encostando os dedos no queixo. — E não é por dinheiro.
O rádio chiou baixinho atrás dele. Era um dos contatos na Suíça.
— Outro corpo. Zurique, ontem à noite. Ex-agente da Hydra, retirado da ativa desde 1994 e declarado morto há 7 anos. Foi encontrado com os olhos aberto, alguns dentes faltando, costelas quebradas, abdômen brutalmente rasgado e vários dedos quebrados. Nenhum sinal de arrombamento.
Fury não respondeu de imediato. A caneta em sua mão batia contra o tampo da mesa. Uma batida. Duas. Três. Parou e então falou, firme:
— Vê se algum nome nos registros de proteção cruzada bate com ele. Quero saber quem sabia que esse desgraçado ainda estava vivo e rastreie qualquer pessoa que entrou no país nos últimos sete dias com passaporte limpo demais.
— Entendido, senhor.
O rádio ficou mudo outra vez.
Fury cruzou os braços, encostando-se no canto do cômodo. Na parede, um quadro improvisado com os rostos das vítimas começava a formar um padrão conectados por linhas vermelhas. Cada foto representava uma execução. E no centro... um espaço vazio, aguardando pelo preenchimento.
Ele sabia que estava lidando com algo grande, mas também sabia que não podia agir cedo demais, não tão precipitado. Era um jogo de espera e Nick Fury era muito bom em esperar.
O metal gemeu sob o impacto do cotovelo. Mais uma vez. Outra. O saco de pancadas balançava pendurado por correntes presas ao teto de concreto, e a mulher diante dele não demonstrava cansaço. O corpo suado, o cabelo grudado à nuca, os nós dos dedos marcados de vermelho escuro — ela seguia em silêncio, soco após soco, chute após chute, com um foco que não aceitava hesitação ou falhas. Cada movimento era seco, violento. Não havia música e não havia distração. Apenas o som abafado de golpes pesados contra o couro grosso.
Ela girou o corpo, aplicou uma joelhada que estalou o saco contra as correntes, depois caiu em posição baixa, com a perna estendida. Uma varredura completa, um inimigo imaginário. Uma lembrança muito real.
A lâmpada pendurada no teto tremeluzia. O esconderijo era apertado, com paredes descascadas e cheiro de mofo antigo. O chão era sujo de poeira e marcas de sangue seco — não dela, mas dos testes anteriores. Havia armas empilhadas num canto: facas, pistolas desmontadas, cordas de aço, frascos. Cada objeto ali tinha uma história e todas terminavam em morte.
Ela voltou à posição ereta, respirando pela boca, os olhos fixos no vazio. Um pensamento atravessou o presente. E, como uma lâmina, o passado abriu caminho.
“— Malyshka, a postura está frouxa. Mantenha o calcanhar baixo. — Sim, instrutora. — De novo.
A menina tinha apenas nove anos. Os pés descalços tremiam sobre o cimento gelado. Os ossos doíam, e o sangue seco na camiseta deixava a pele grudenta, mas não era permitido descansar. Cada erro era corrigido com dor e cada falha era uma sentença.
— Você quer viver? — Anya perguntava, a voz fina como uma navalha. — Quero. — Então aja como se quisesse. De novo.”
Ela sacudiu a cabeça com um leve movimento, afastando a lembrança como quem escorraça um pensamento indesejado. Caminhou até a parede, onde havia desenhado linhas com carvão e tinta vermelha. Um percurso de treino — obstáculos improvisados, marcações no chão. Era ali que ela praticava as fugas, os giros, as escaladas. Cada trajeto era decorado e podia ser feito até mesmo se estivesse de olhos fechados, uma dádiva forçada depois de tê-lo feito por tantos anos.
Começou a correr em linha reta, os pés ritmados contra o chão, o corpo abaixando, rolando, erguendo-se com a facilidade de quem já havia feito esse tipo de coisa antes. Subiu pelas prateleiras, saltou entre colunas de concreto como uma criatura moldada para sobreviver. E, no meio do trajeto, outra lembrança cravou-se:
“— Mais rápido, Malyshka. Você morreu três vezes antes de terminar o percurso. — Sim, instrutora. — De novo.
Uma queda que resultou em um corte na testa. Sangue escorrendo nos olhos.
— Você não está aqui para brincar de amadora. — Entendido. — De novo.”
Ela caiu no chão do presente com os joelhos juntos e as mãos abertas, como se tivesse preparado um golpe que não aconteceu. O peito arfava, mas não pelo esforço. Era raiva. Uma raiva enraizada, morna, constante.
Levantou-se devagar, caminhando até o espelho rachado na parede. Encostou os dedos nos próprios ombros, depois deslizou as mãos até o pescoço. O olhar não era vaidoso — era cético e tático. Observava cada veia saltada, cada músculo tensionado, cada centímetro do próprio reflexo como se esperasse encontrar fraquezas. E então sussurrou, sem emoção:
— De novo.
Fechou os punhos e começou tudo outra vez. Golpes. Sequências. Derrubadas. O corpo agia, mas a mente voltava para aquele mesmo lugar, grudado nela de uma forma permanente.
“Havia outras garotas na Sala Vermelha. Meninas com olhos vidrados, pequenas demais para segurar uma arma, mas perigosas e letais como serpentes. Algumas choravam à noite, quando os instrutores sumiam. Outras apenas olhavam para o teto, em silêncio, como se já estivessem mortas. Ela aprendeu cedo que emoção era fraqueza. Chorou apenas uma vez, e pagou o preço.
— Você não é filha de ninguém. — Eu sei. — Você é um produto. — Sim, instrutora.
Os nomes foram retirados, as lembranças também. O que restava era o que se podia usar. Matar. Envenenar. Desaparecer.”
No presente, ela se agachou no canto do abrigo e puxou uma caixa metálica. Lá dentro, pastas com anotações, esboços de plantas de edifícios, registros de vigilância e… uma nova foto. Um novo rosto.
Mas ela não olhou de imediato.
Sentou-se no chão de concreto, limpando o suor com a manga da blusa escura e respirou fundo. Estava em paz — uma paz disfuncional, cruel, mas sua. Aquela quietude depois de matar alguém, ou antes de matar alguém. Havia pouca diferença.
Pegou a foto e observou-a. O próximo da lista estava ali, mas ela ainda não decidiu se merecia uma faca, uma bala, ou veneno. Levantou-se, caminhando de volta ao centro do abrigo.
— De novo.
E começou a treinar outra vez.
O som seco dos impactos preenchia o galpão abandonado. A cada soco no saco de areia, os nós dos dedos dela se tingiam de vermelho. Luvas? Não. Ela queria sentir a carne rachar, queria a dor como uma velha amiga. Cada golpe era como um grito sufocado — e nenhum deles escapava dos lábios. O ar estava pesado, úmido, cheirando a ferrugem, suor e um leve traço de sangue. A luz tremeluzente da lâmpada pendurada acima dela balançava ao ritmo dos golpes, lançando sombras tortas nas paredes grafitadas do esconderijo.
Ela parou. O peito arfava, a cabeça latejava. E então, como um gatilho automático, a lembrança se impôs.
“— Malyshka — a voz sibilante atravessou o silêncio como um chicote. A garota - ainda jovem, magra demais, os olhos grandes como faróis no escuro - manteve a postura reta. — Você hesitou de novo. Na vida real, isso te mata.
A instrutora avançou, os saltos firmes contra o piso metálico da sala de treinamento. Anya. A mulher que cheirava a perfume caro e pólvora, seus dedos frios tocaram o queixo da garota, forçando-a a erguer o rosto.
— Olhe pra mim, Malyshka. Você acha que vai ter tempo de pensar antes de matar alguém?
A garota permaneceu em silêncio.
— O inimigo não espera. O mundo não espera. Então por que diabos você ainda espera?
E com um gesto brusco, a instrutora girou o rosto dela com um tapa rápido. Sem força o suficiente para ferir de verdade. Mas era o suficiente para marcar. Para humilhar.
— De novo — disse Anya, recuando. — Até que não pense mais. Só aja.”
De volta ao presente, a mulher deixou o saco de areia balançar como um cadáver suspenso. Os dedos latejavam. Ela os flexionou com lentidão, o sangue escorrendo entre as juntas abertas. Sujou o chão, mas ela ignorou.
Respirou fundo, indo até a mesa improvisada no canto do galpão. Mapas, foto, códigos riscados à caneta vermelha. O mural já não existia mais — destruído antes que pudesse se tornar prova —, mas o plano ainda vivia ali, em fragmentos, em instinto e em um ódio perigosamente mortal.
Acima de tudo, ela precisava estar pronta, porque Natasha Romanoff ainda respirava e isso a incomodava mais do que qualquer um dos dez cadáveres que deixou para trás.
Ela pegou a faca de treinamento. O peso era familiar, quase reconfortante. No canto da sala, um boneco de teste improvisado esperava por ela. A mulher se moveu, os pés descalços silenciosos no chão frio. Um passo. Dois. Giro. A lâmina cortou o ar, enterrando-se na “garganta” do boneco com força suficiente para derrubar a estrutura.
Ela ficou ali, encarando a figura caída. E mais uma vez, a lembrança veio.
“— Malyshka, qual é o seu propósito?
A resposta saiu sem hesitação, como o esperado.
— Obedecer. Eliminar. Sobreviver.
A instrutora sorriu. Era algo entre o frio e o mecânico.
— E quem você é?
— Sou um instrumento. Ninguém além disso.
— Boa garota.”
Mas agora, sozinha naquele galpão, cercada por memórias que fediam a pólvora e submissão, ela apertou os dedos ao redor do cabo da faca. O suficiente para que os nós ficassem brancos. Aquela resposta já não servia, não depois de tudo.
Ela havia sido nada além de um instrumento. Agora, era a mão que a empunhava a faca e, pela primeira vez, estava prestes a escolher o próximo alvo não por ordens — mas por vontade própria. Ela puxou o mapa, olhou as rotas, os horários. O plano de segurança, os compromissos da Expo.
O próximo movimento precisava ser calculado. Mas o fim… o fim sempre seria pessoal. E ela ainda não tinha terminado com Tony Stark.
O céu estava opaco, de um cinza que parecia permanente, como se o mundo inteiro estivesse preso num filtro melancólico. Todas as vezes era assim, como se fosse um sinal divino. Tony não se importava. Havia algo de reconfortante na falta de cor — fazia o girassol em sua mão parecer ainda mais deslocado. Ele o observou por um momento, os dedos girando o caule com lentidão, como se o próprio ato de segurá-lo fosse uma afronta à lógica.
Ele caminhava devagar entre as fileiras alinhadas do cemitério particular, os passos afundando levemente na grama úmida. O vento balançava as folhas com indiferença, e cada ruído parecia mais alto do que deveria. Quando chegou ao túmulo, parou. Não havia ninguém por perto — não havia há anos. Era um dos poucos lugares onde ele conseguia respirar… mesmo que doesse.
A lápide era simples, feita de mármore claro, sem adornos. Apenas um nome gravado com firmeza: Rose Stark. Abaixo, uma data de nascimento e uma data de morte. Duas datas separadas por menos de dois meses. Tony permaneceu ali, parado, encarando o nome que quase ninguém jamais conheceu. Nem a imprensa, nem os Vingadores e nem o mundo.
Ele havia feito questão disso.
Tony se agachou com certa dificuldade. O joelho doía de um antigo impacto que ele nunca tratou direito. Deixou o girassol repousar na base da lápide, o caule cruzado sobre a terra limpa.
— Eu sei, não é exatamente a flor mais comum pra um túmulo — murmurou, ajustando o casaco contra o vento. — Mas dizem que girassóis seguem a luz, mesmo quando ela se apaga.
Ficou em silêncio por alguns segundos. Os olhos fixos no nome gravado, o nome que ele mal teve tempo de pronunciar em voz alta.
— A Expo ‘tá quase pronta — disse enfim. — Mais moderna, mais limpa, mais... Stark. Mas, se você visse, provavelmente acharia brega, se fosse adulta hoje. Ou chamaria de “desespero capitalista travestido de filantropia”, igual sua mãe fazia. A Elena nunca tinha papas na língua. E, honestamente? Foi uma das coisas que eu mais admirei nela.
O nome da mulher pesou no ar. Elena. Tony quase não falava sobre ela — nem com Pepper, nem com ninguém. Mas ali, com , ele se permitia.
— Ela era afiada e inteligente pra caramba. E te amava de um jeito que eu nunca entendi até tarde demais. Às vezes eu penso se eu teria conseguido te proteger melhor. E se tivesse ficado viva, talvez... talvez tudo fosse diferente.
O vento soprou com mais força. Um pássaro atravessou o céu sem pressa.
— Você teria odiado Ultron, só pra constar. Toda aquela coisa de inteligência artificial e controle global? Se você estivesse aqui, talvez teria sido um prato cheio pro seu sarcasmo. — Ele soltou um suspiro, e depois um sorriso curto. Triste. — Mas sei que teria resolvido metade das falhas do sistema em uma madrugada, se me desse uma chance.
Tony passou a mão pelo rosto, cansado. Os olhos não estavam vermelhos — não havia lágrimas. Estavam secos demais pra isso. Havia anos demais pra isso.
— Os Vingadores estão… diferentes. — A voz saiu baixa, arrastada. — A equipe ‘tá meio quebrada. Steve e eu… bom, teve uma época que a gente foi exatamente melhores amigos, mas agora parece que estamos jogando em lados opostos e ainda nem teve uma partida.
Ele ficou em silêncio, apenas encarando o túmulo.
— Às vezes eu tento lembrar do seu rosto, mas era tão pequeno. Tão... indefeso. Dois meses, foi tudo o que tive. Dois meses. — Fez uma pausa. — E o resto foi só ausência. O berço vazio, o seu quarto vazio e as perguntas que eu não podia responder nem pra mim mesmo.
Ele inspirou fundo.
— A culpa é minha. Se eu tivesse descoberto antes, se tivesse prestado atenção… mas não. Eu tava ocupado demais sendo o bilionário, o gênio, o cara que tinha acabado de perder os pais e tinha uma empresa pra assumir. Enquanto isso, você foi... o que, hein? Escondida. Queimada das fotos. Ocultada até do luto.
O som do vento voltou a preencher o silêncio.
— Eu ainda sonho com você, às vezes. Não com você crescida, mas com o bebê. O que eu nunca segurei nos braços por tempo suficiente. — Ele passou a mão pelos cabelos. — E aí eu acordo com a sensação de que alguma coisa tá errada, como se você nunca tivesse ido embora de verdade. Será que eu ‘tô ficando louco?
Ficou de pé, respirando devagar. O girassol tremia levemente com a brisa.
— Eu não vim buscar perdão e nem dar desculpas. Só queria que você soubesse que... — engoliu seco. — Que eu tento... todos os dias. Tento fazer valer alguma coisa.
Olhou uma última vez para a lápide.
— Onde quer que esteja... se estiver... espero que saiba disso.
Deu meia-volta e começou a andar. O girassol permaneceu ali, vivo e amarelo, contrastando contra o mármore frio. E quando Tony já estava longe demais para ouvir, uma leve batida soou entre as árvores. Um som quase humano.
Mas não havia ninguém lá.
Dias se passaram.
O frio crescente do outono se mesclava ao ruído metálico das estruturas sendo erguidas ao redor do novo pavilhão da Stark Expo. Caminhões passavam, guindastes giravam em seus eixos, e hologramas temporários tremeluziam no céu ainda nublado do estado de Nova York. No centro do caos produtivo, Tony caminhava com um tablet em mãos, concentrado demais para ouvir qualquer coisa além do próprio cérebro cuspindo ideias a mil por hora. Sua barba por fazer era a prova de que havia esquecido mais uma vez de parar por um espelho. Estava exausto, mas em movimento — e isso era tudo o que ele precisava.
— Eu disse que queria painéis solares no telhado, não uma estação de recarga do Tesla! — disparou, erguendo a voz para um engenheiro que o seguia, nervoso. — Eu sou o Stark. Eu penso grande e bonito.
Ele digitava algo frenético quando notou a figura parada na sombra de uma estrutura metálica incompleta. O sobretudo escuro, os óculos, o leve inclinar de cabeça. Tony respirou fundo, já esperando o sermão.
— De novo não, Fury… — disse, sem sequer parar de caminhar. — Se for mais uma bronca por causa da Expo, você pode deixar na caixa de sugestões. Eu ignoro todas elas.
Nick Fury caminhou ao lado dele, ignorando o tom ácido.
— O que você faria se eu dissesse que mais um corpo apareceu ontem à noite, em Zurique?
Tony parou por um instante. O tablet caiu ao lado da perna, como se o peso da notícia tivesse feito seus braços cederem. Ele ergueu os olhos para Fury com um cansaço genuíno, mas também com algo mais próximo da preocupação.
— Isso ainda tem a ver com aquela… sequência? — perguntou, escolhendo as palavras como quem anda sobre cacos de vidro.
— Mesmo modus operandi de antes: rápido e violento. Sem testemunhas, é claro. — Fury olhou ao redor, como se esperasse alguém escutando. — Estamos lidando com alguém treinado, Stark. Muito bem treinado e diria até... condicionado. Eu suponho que é pessoal. É sistemático e tem método... cada uma dessas mortes fazia parte de uma lista da Hydra.
Tony se virou, caminhando lentamente para longe da construção e puxando o agente com ele.
— ‘Tá, digamos que essa pessoa tenha um plano. Que tipo de plano envolve estraçalhar meia dúzia de ex-agentes da Hydra na surdina, em três países diferentes, sem reivindicar nada? Não tem manifesto, não tem assinatura, não tem símbolozinho bonito na parede.
— Tem silêncio e tem eficiência, o que é pior.
Fury parou e encarou Tony por um momento, como se ainda estivesse escolhendo se devia ou não contar a próxima parte. Então soltou:
— A mais recente foi diferente. O corpo foi encontrado envenenado, não despedaçado, completamente imóvel, dentro da própria casa. Dessa vez, foi uma mulher. Alta patente dentro da antiga Sala Vermelha. Usava o nome falso de Anna Volkov.
Tony ergueu uma sobrancelha, lentamente.
— Sala Vermelha? Você ‘tá dizendo que alguém ‘tá caçando viúvas agora?
— Não qualquer viúva. Essa mulher treinava viúvas, aquelas das antigas. Dessas que você não encontra nem no fundo de arquivo morto da KGB. E foi encontrada morta com um sorrisinho amargo nos lábios. Literalmente.
Tony esfregou o rosto, exausto. Não havia dormido direito havia dias. A construção da Expo, os novos protocolos de segurança, as apresentações. Agora isso. O velho aperto no peito, embora sem reator, ainda sabia muito bem como voltar.
— Tá. O que você quer, Fury?
— Quero que você pare de fingir que esse problema não é seu. — O tom do diretor endureceu, mesmo sem elevar a voz. — Porque eu sei que você tem rastros, alguma coisa ou algum sinal. E mesmo que não tenha... essa Expo que você tanto adora vai estar cheia de nomes importantes, gente visada. Você não acha que isso pode virar o próximo alvo?
Tony suspirou. Encarou o céu cinzento por um instante antes de responder:
— Eu não sou mais o mesmo cara de anos atrás. Eu não tenho mais o reator, não tenho armaduras empilhadas em galpões como brinquedo. Eu tô tentando… fazer certo agora. Criar algo positivo, algo que inspire.
— E por isso mesmo é que você tem que abrir os olhos. — Fury deu um passo à frente. — Porque você acha que ‘tá construindo um monumento, mas talvez esteja construindo um palco.
O silêncio que se seguiu foi denso. Tony não respondeu, apenas se virou, voltando para o canteiro de obras. Mas seus passos não tinham mais a mesma convicção de antes. E, pela primeira vez em dias, ele olhou para os andaimes altos da nova Stark Expo com um quê de desconfiança.
Fury não se moveu. Observava Stark de costas, como quem analisa o momento certo de dizer aquilo que vai doer. A hesitação não era típica dele, mas havia um tipo de cuidado específico quando se tratava de Tony. Não porque ele não pudesse suportar — mas porque, quando suportava, fazia isso da forma mais autodestrutiva possível.
— Você tem ido ao cemitério. — As palavras vieram em peso, ou uma constatação.
Tony parou, como se tivesse escutado algo que não queria, mas não se virou.
— Manhattan é cheia de túmulos. Qual deles exatamente você quer discutir?
— Stark.
Tony fechou os olhos. O maxilar travado e a mão direita se apertou ao redor do tablet até os nós dos dedos ficarem brancos.
— Você anda bem-informado.
— Eu ando informado o bastante pra saber que a Stark Expo não é sobre legado, é uma cortina de fumaça. Você faz isso todo ano. Mergulha em trabalho, se cerca de brilho, de metal, de esperança de um futuro melhor... justo na época do aniversário dela.
Tony se virou devagar. O olhar não tinha raiva, era bem pior do que isso: estava vazio.
— Você ‘tá se escondendo — disse, direto, a voz firme como uma porta sendo trancada. — Debaixo de bilhões em tecnologia, luzes de palco e discursos inspiradores, mas não vai funcionar pra sempre.
— Fury, se isso for mais uma tentativa de me convencer a largar tudo pra resolver o mistério do psicopata europeu, economiza o fôlego. Eu ‘tô ocupado tentando manter o mundo inteiro de pé com fita adesiva e sarcasmo. Do jeito que eu sei fazer.
Fury se aproximou. Um, dois passos. Depois falou com um tom que rareava o ar ao redor.
— Eu sei do que você ‘tá tentando fugir.
Tony se virou devagar, os olhos cerrados em desconfiança.
— Ah, é? Ilumina meu dia.
— Eu sei que daqui a poucos dias é o aniversário dela e sei que, todo maldito ano, você arranja um jeito de não pensar nisso fingindo que tá salvando o mundo com um show de fogos.
Tony não respondeu de imediato. O peito inflava devagar, como se estivesse processando cada palavra com cuidado, mas sem conseguir evitar a pontada que atravessava sua garganta.
— Cuidado com o que você diz — murmurou, com os olhos fixos nele.
Fury continuou, implacável:
— Você acha que foi só você que perdeu, Stark? Eu estava lá. Fui o primeiro a chegar depois do enterro da . E fui o único que ficou ao seu lado quando você tomou a decisão mais difícil da sua vida.
Tony cerrou os punhos, mas não falou. O nome da menina, mesmo tantos anos depois, ainda tinha o poder de arrancar o ar de seus pulmões.
— Você lembra? — continuou Fury, a voz agora mais baixa. — Quando você olhou pra mim e disse: “Ela não vai ter nome, nem história. Quero que o mundo pense que ela nunca existiu.” E eu obedeci, fiz o que você pediu... apaguei cada traço da existência daquela criança dos registros, desde o nascimento até o desaparecimento. Só eu fiquei sabendo. Nem a S.H.I.E.L.D. inteira sabia o que aconteceu de verdade.
Tony virou o rosto, como se estivesse levando um soco. Os olhos marejados, mas firmes. A mandíbula travada, o orgulho ferido e a dor antiga convivendo no mesmo espaço apertado dentro do peito.
— Você não tinha o direito de trazer isso à tona — rosnou.
— Talvez não, mas a maneira como você ‘tá agindo? Como anda distraído, irritado, dormindo menos ainda do que o habitual? Me diz que ‘tá tudo bem. Vai. Olha na minha cara e me convence de que essa expo não é uma desculpa pra enterrar outra vez aquilo que nunca deixou de doer.
Tony mordeu a parte interna da bochecha, os olhos cravados no chão. Uma fissura atravessava o verniz da sua armadura emocional. Ele respirou fundo. Quando falou, foi num tom mais baixo:
— Ela teria vinte e quatro anos agora.
Fury assentiu. Um gesto sutil, mas pesado.
— E você ainda conversa com a lápide dela como se ela pudesse ouvir. Leva um girassol, fala da Expo, do que deu errado em Sokovia, do que você faria diferente se tivesse tido tempo. Eu sei disso porque mandei alguém te acompanhar. Discretamente.
Tony ergueu o olhar com um misto de raiva e surpresa.
— Você me seguiu?
— Eu te protegi, Stark. Do mundo, de você mesmo e de qualquer filho da puta que tentasse usar a existência da sua filha como arma contra você.
Houve um silêncio denso. Tony deu um passo atrás, passando a mão pelos cabelos com impaciência.
— E por que agora? Por que ‘tá me falando isso tudo agora?
Fury estreitou os olhos.
— Porque esses assassinatos estão me tirando o sono. E porque, mesmo sem conexão clara, tem algo neles que me faz lembrar de você. De tudo que você perdeu e de tudo que poderia ter tido.
Tony ficou quieto por longos segundos, depois voltou os olhos para a projeção da Stark Expo, que ainda girava lentamente sobre a mesa. Tão cheio de promessas e tão irônico.
— A Expo é tudo que eu tenho — disse, por fim. — Se eu perder isso… não sobra mais nada.
Fury respirou fundo. Depois assentiu.
— Então não perca. Mas se algo… alguém… vier à tona nesse meio tempo, você vai precisar ser forte o bastante pra olhar no espelho e aguentar o que vir.
Tony encarou o amigo com uma expressão dura, mas derrotada.
— Ela era só um bebê. — murmurou. — Não sabia andar, não sabia falar.
Um silêncio que durou longos segundos, quase sufocante. Tony finalmente falou, a voz embargada:
— Eu fui ao cemitério porque não sei mais como fazer isso sem ela, sem esquecer dela. Porque todo ano, no dia do aniversário dela, eu fico imaginando quem ela teria se tornado. Uma cientista, uma engenheira. Talvez ela odiasse tecnologia ou talvez fosse parecida com a mãe. Elena era boa com gente.
Fury abaixou a cabeça por um instante, respeitoso, mas precisava trazê-lo de volta. Tony olhou para o chão, o mundo parecia ter se tornado menor, mais estreito.
— Eu não sei o que é pior. — disse, com a voz baixa. — Pensar que ela morreu…
Fury assentiu uma única vez.
— O aniversário dela é semana que vem, não é?
Tony apenas assentiu de volta.
— E mesmo assim, ela mudou tudo.
E com isso, Fury se virou e saiu, deixando Tony sozinho com seus projetos, sua culpa — e a ausência de uma menina que nunca teve chance de crescer.

