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Folklore: Dynasty

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CAPÍTULO UM


rode up on the afternoon train, it was sunny”

A mulher de cabelos ruivos parecia meio dispersa em meio à multidão. Guardou alguns papéis na primeira divisão de sua bolsa. Papéis esses que mais cedo, tinham tirado boas lágrimas dela.
Alison Fitiz agora assinaria apenas com o seu nome “Alison”, porque tinha acabado de assinar os papéis de seu divórcio, com seu ex-marido, Louis Fitiz. Assinar apenas foi o ponto final de uma história que já tinha acabado há mais de dois anos.
e Louis foram casados por 6 anos, e durante esse tempo a mulher aprendeu que amar não era o suficiente para seu marido, que para ele doar todo seu ser, tudo que lhe era valioso nunca seria o suficiente.
Mas agora, tudo isso acabou. A ruiva esperava no portão de embarque ansiosamente, não via a hora de se despedir daquele local e iniciar um novo rumo para sua história. E para esse recomeço tinha escolhido a tão “conhecida” cidade de Folk.
Folk era a cidade natal de sua mãe e durante toda a sua infância escutou histórias mágicas e deslumbrantes sobre o local. Sua mãe contou sobre como o mar se quebrava nas rochas do local, como lá todo dia parecia ensolarado, mesmo naqueles nublados, foi lá que sua mãe deu seu primeiro beijo embaixo de um salgueiro com seu pai. E assim toda uma história de amor e companheirismo desenrolou.
Essa era uma das justificativas para pensar tanto na cidade com tanto afeto. Sempre que sua vida parecia sem sentido, sem rumo, ela pensava que talvez se refugiar em Folk fosse a solução. E agora esse desejo se concretizava.
Ela abriu os olhos vagarosamente, se acostumando com o sol que adentrava a janela do avião. A aeromoça tocou no seu ombro de forma gentil avisando que eles já haviam chegado ao destino final.
Dentro do táxi, , se sentia um pouco confusa, não tinha feito reserva em nenhum hotel ou coisa do tipo, não conhecia ninguém, apenas tinha suas malas e uma vontade de viver imensamente. Ao passar rapidamente pelas ruas da cidade pode vislumbrar pequenas lojinhas locais, pessoas sentadas em mesas adornadas em cafés, gente caminhando, coisas típicas de uma pequena cidade como aquela.
Influenciada pelo pessoal local, a mulher pediu para descer do automóvel e parou em frente a uma aconchegante cafeteria, antes de resolver qualquer coisa era necessária uma boa xícara de café. Ao adentrar o local, sua presença foi pronunciada pelo som de uma sineta em cima da porta, algumas pessoas se viraram instintivamente para encarar quem estava no local, mas logo retornaram às suas conversas corriqueiras.
Ao notar que todas as mesas estavam lotadas, a mulher resolveu se sentar no balcão disponível no local, apoiou suas malas perto do seu banco e pegou o cardápio à sua frente. Havia inúmeras opções de cafés e guloseimas, e todas pareciam ótimas, o que fazia com que ela ficasse mais indecisa no que pedir.
A garçonete parada em sua frente, segurando um pequeno bloco de papel, parecia impaciente, pois rolava os olhos e mascava de forma alta um chiclete. baixou o cardápio para dar um pequeno sorriso simpático à mulher a sua frente, de forma a amenizar aquela situação. Foi neste momento que sua atenção foi tomada por um homem que sentou ao seu lado.
O homem usava uma camisa de linho branco, com as mangas dobradas até o cotovelo, seus cabelos pretos estavam penteados para trás e seu olhar tinha uma certa vividez, que com certeza chamou a atenção de .

— Se eu tivesse que pedir algo pela primeira vez aqui, seria os cinnamon roll. — Deu um sorriso galanteador.
— São bons?
— O quê? São incríveis. Você tem que experimentar. Ah, também temos o nosso típico café com canela, é uma ótima bebida para acompanhar.
— Então vai ser isso, pode me trazer cinnamon roll e uma xícara média de café com canela. — disse de forma decidida. Assim que a garçonete se afastou, a mulher voltou a atenção para o homem ao seu lado. — Prazer, meu nome é , mas pode me chamar de .
— Muito prazer, , me chamo … apenas mesmo. — Deu de ombros. — Posso chutar que você não é daqui.
sentia que o homem do seu lado parecia ser uma boa pessoa, mas todo cuidado era pouco, então resolveu não entregar tantas informações assim de uma vez só.
— Eu vim visitar alguns parentes, coisa rápida. E você é daqui?
— Moro aqui desde que nasci, sendo assim, já faz uns 30 anos. Quando você entrou, eu logo percebi que não era daqui… — fez uma breve pausa para escolher as palavras certas, sem parecer atrevido — E-eu nunca tinha te visto pela cidade, então achei que seria interessante ser receptivo.
— Você é sempre tão receptivo com todo mundo?
— Às vezes.
Nesse momento, houve um silêncio, mas era um silêncio diferente daquele que conhecia, ele não era incômodo ou ensurdecedor. Era um silêncio de contemplação. Ela encarou cada detalhe da feição do homem à sua frente, era de uma beleza que ela julgou nunca ter visto antes.
Havia alguma coisa nele, que penetrava nela e era capaz de chegar até a sua alma. Mas, ela logo tratou de espantar esse tipo de pensamento, era arriscado demais ter intimidade com alguém que ela mal conhecia, ainda por cima sendo um homem.
— Aqui está!
A garçonete interrompeu a troca de olhares servindo o pedido de . Quando experimentou o doce, teve certeza que tinha ótimo gosto para comida, porque realmente era delicioso. O pequeno pão doce derretia na boca e deixava um gosto de açúcar com canela no final, o que acabava por combinar totalmente com o café.
Ela gostaria de repetir isso mais vezes.
Em meio a goles de café, e prolongaram sua conversa, e ela acabou contando que sua mãe morou ali por boa parte da infância e adolescência. O que mais chamou a atenção da mulher foi a forma com que a escutava, sem interromper, prestando atenção a cada palavra ou gesto que eram emitidos por ela. E ao final, ele fazia algum comentário. E poderia ser a grande carência de sua parte falando aqui, mas se Louis ao menos uma vez a escutasse...
Nesse momento, recordou as inúmeras vezes que iniciaram uma briga, porque ela “falava demais.” Uma coisa nisso tudo era certa, Louis nunca encostou a mão sobre ela, mas, mesmo assim, ele estraçalhou o coração de da pior forma que uma pessoa pode fazer.
A tristeza e o desânimo dominaram o corpo da mulher, então ela decidiu que já era o momento de ir embora. Ao olhar pelos vidros do local, notou que já estava entardecendo e ela nem havia percebido.
— Bom, foi um prazer te conhecer. Acho melhor eu já ir indo — Se levantou e buscou por suas malas ao redor de seu banco, nesse momento também se levantou.
— Se quiser, posso esperar junto com você o táxi chegar. — Pegou uma mala que estava próximo a ele. — Deixa que eu te ajudo.
— Ah, não tem necessidade disso… — Agora não tinha como voltar atrás de sua mentira — É-é que bom, eu decidi não ficar na casa da minha família, para não incomodar, entende? — concordou.
— Então você vai ficar no único hotel que tem na cidade, no Standard, é um ótimo lugar, eu posso te levar até lá. — falou com certa suavidade, mas logo se arrependeu. — Desculpa me intrometer assim, caso você quiser, eu posso te levar até lá.
— Olha, , muito obrigada, mas realmente não precisa se preocupar. — Pegou delicadamente a mala que estava na mão dele.
— Tudo bem, nos vemos por aí então. — Engoliu seco. Ele realmente queria vê-la de novo, para garantir isso, pegou um pequeno papel em seu bolso e pediu uma caneta emprestada a garçonete. — Se precisar de qualquer coisa, seja o que for mesmo, pode me ligar, aqui esse é o meu número. — Deu um pequeno sorriso de canto.
— Muito obrigada, — Depositou um rápido beijo na bochecha do homem e partiu rumo ao hotel.
concluiu que sua mãe estava certa, a cidade era encantadora, aconchegante e acima de tudo, gentil. E ela estava certa de que era isso o que ela queria para sua “nova” vida. Além, é claro de um bom banho neste momento.
Então ela chamou um táxi e pediu para que ele a levasse ao hotel que seu mais novo amigo havia comentado. Se tinha bom gosto para comida, deveria ter para conforto, não?

CAPÍTULO DOIS

was the heir to the Standard Oil name and money”

Isso parecia loucura, não, isso era loucura. considerava que agora estava definitivamente louco, como conseguiria explicar às pessoas que havia se apaixonado por uma estranha em um café da cidade
Não era qualquer café, era o café da sua família e já não era mais uma estranha, era , seu nome parecia produzir um certo gosto doce em seus lábios e saia de forma suave da sua garganta.
Ele não conseguia parar de pensar nela, e em comum ela era bonita, não apenas em sua aparência, mas na forma que falava sobre si, sobre os outros, sobre aquela cidade que era acreditava ser “boa”.
Mas se necessário, ele faria aquela cidade toda se tornar boa, só para que o desejo do coração de fosse cumprido. Quando ela disse que teria que ir, ele quis implorar para ela ficar mais um instante, mas isso pareceria muito desesperado. Porém, no caso dele, não havia tempo a perder.
Após se desvencilhar de um noivado de mais de 5 anos, se sentia pronto para amar de verdade. Não que nunca tivesse amado Catarina, no começo ele a amou demais, porém com toda a pressão de sua mãe sobre o seu relacionamento, tudo foi se acabando.
Ele considerou que o seu relacionamento com Catarina incluía mais do que eles dois, incluía, Eugênia sua mãe, quem sempre incentivou que se relacionasse com Catarina, uma vez que, a moça era de boa família e não teria “risco” de uma tentativa de golpe em sua fortuna.
Em algum momento da história desse casal, , sabia que os dois tinham tentado fazer dar certo, mas não tem como colocar amor, onde ele não nasceu de forma natural. E foi por isso, que após um jantar com a sua ex-noiva, ele acabou descobrindo que ela o traia.
Não houve briga, nem estilhaço, havia só dois corações machucados pelas consequências da escolha de terceiros. Eugênia ficou furiosa e fez questão de difamar Catarina para todas as pessoas possíveis da cidade, a perseguição foi tão grande que a família da moça resolveu se mudar.
E após dois anos de toda essa história, ainda pedia perdão mentalmente para Catarina, por tudo o que sua mãe havia a feito passar.
O seu celular tocou e ele pode visualizar que era um de seus funcionários do hotel, prontamente ele atendeu e passou as informações necessárias.
Quando conheceu no café optou por não dizer seu sobrenome para que não houvesse nenhum tipo de julgamento prévio dela sobre ele. Por mais que o rapaz não levasse em conta o que a mãe dizia, ele tinha certo receio das pessoas apenas se aproximarem dele pela grande influência e fortuna da família.
Então naquele dia ele achou melhor não ser ninguém além do moço do café para , mas ele queria agradecer a boa companhia dela de alguma forma, e a única que passou por sua mente foi garantindo o seu conforto durante a sua estadia.
Por isso, incentivou para que ela fosse para o Hotel que levava seu sobrenome e agora instruía ao seu funcionário para que não cobrasse as duas primeiras semanas de diárias dela e que sempre oferecesse a ela as melhores refeições ao longo do dia, isso tudo, sem mencionar quem estava proporcionando às regalias.
Se sua mãe soubesse disso, ele teria certeza de que ela odiaria e acharia ele um grande bosta. Mas, saber que aquela mulher estava sendo tratada como merecia, era suficiente para ele.


CAPÍTULO TRÊS

“And the town said, "How did a middle-class divorcée do it?"

Após quatro dias seguidos procurando, havia encontrado um emprego. Era muito difícil ser admitida em uma cidade que todos se conheciam, porque as perguntas giravam em torno de “quem é sua família”, “qual seu sobrenome”, “onde você mora”. E assim, quando a mulher iniciava a explicação de que sua mãe morou em Folk, mas ela era de Rhode Island, pronto as caras já se fechavam, e tchau oportunidade.
Então foi dobrando uma esquina movimentada que ela acabou conhecendo uma casa de shows chamada “Oil”, ela era moderna, mas, ao mesmo tempo, tinha um aspecto vintage em sua aparência.
A entrada era uma pequena porta de esquina, estendia-se um longo salão com inúmeras luzes, um balcão que era do tamanho do local todo iluminado e atrás dele uma imensa parede de garrafas de bebida. A vaga era para um “barman ou barwoman”. Ela não sabia fazer uma limonada sem amargar, mas era sua chance de aprender algo.
Foi sincera na entrevista, explicou que não tinha experiência na área, na verdade não tinha experiência em qualquer área que fosse. Logo que tinha se formado, seu ex-marido, Louis, insistiu para que eles se casassem, e assim ocorreu. De repente se viu com serviço demais dentro de casa para continuar fazendo faculdade, e apenas deixou isso de lado.
Agora lá estava ela com seus 27 anos, começando a experienciar a vida. E foi assim que a contrataram, foi orientada a chegar mais cedo no próximo dia para que seu companheiro de trabalho explicasse algumas coisas. Ela trabalharia das 19h às 3h da manhã, de sexta a segunda, parecia exaustivo, mas a ruiva garantia que iria se acostumar rapidamente. Ainda mais que agora seu objetivo era conseguir alugar um apartamento ou algo assim.
O nome do homem loiro ao seu lado era Frances, seu mais novo companheiro de trabalho. Ele tinha um certo sotaque na fala o que mais tarde foi explicado quando ele mencionou que vinha do Brasil. Ele era direto, sem muita enrolação, explicou os drinks mais pedidos da casa e também deu alguns toques para agilizar o serviço.
Para facilitar, ele preferiu que ficasse à frente do balcão e ele fazendo as bebidas, assim ela teria que levar o pedido até ele e depois a bebida ao cliente, e logo que a casa se abriu, o movimento começou. As mãos estendidas com comandas começaram a circular todo o bar, mas manteve a calma, ela teria que dar conta.
Quando todo pessoal voltou para a pista, uma bela mulher, que julgou ter mais ou menos a mesma idade que a dela, se aproximou do bar e se sentou em uma das poucas banquetas disponíveis ali. Ela se direcionou direto a Frances com um papel na mão, e ele apenas concordou com a cabeça e foi preparar seja lá o que for que ela pediu.
Passaram se horas e mais hora, e a morena sentada no bar continuou a beber, bebeu de forma tão descontrolada que os copos começaram a fazer uma barreira em volta dela.
— Frances. — chamou o mais novo conhecido. — Acho melhor servir uma água para ela. — Indicou com a cabeça a morena deitada sobre a bancada.
— É, também acho. — Pegou uma garrafa em uma das geladeiras. — Leva para ela, diz que é por conta da casa.
— Olá. — Se aproximou da mulher. — Olha, o que você acha de tomar uma água agora, essa é por conta da casa. — disse em um tom animador.
— Eu pedi água? — A morena lançou um olhar fatal sobre a ruiva — EU NÃO PEDI A PORRA DESSA ÁGUA. — Quando tentou ficar em pé sobre a banqueta, sentiu uma forte tontura e logo se sentou novamente. — Eu estou pagando pelaass minhas bebidas. — Falava de forma arrastada, que julgou ser pelo álcool. — Então não se intromete, tá!
Então a cliente se sentou e iniciou um choro silencioso, com um olhar fixo para o nada. resolveu não se intrometer, devolveu a garrafa de água para a geladeira e trocou um rápido olhar com Frances, que disse um breve “Deixa para lá” e foi isso que ela fez.
A noite passou de forma movimentada, clientes iam e voltavam de forma rápida elogiando as bebidas de Frances e pronunciando algumas cantadas para . Porém, a morena bêbada continuava sentada, chorando sem emitir som, e quando encarou ela por alguns minutos sentiu uma angústia, por ver alguém tão só e vulnerável daquela forma.
se sentia exausta, os seus cabelos que antes estavam em um coque alinhado, agora estavam desgrenhados e o penteado estava quase se desfazendo. Retirou seu avental, colocou um casaco, pois a noite estava mais fria do que de costume. Estava em dúvida de como voltar para casa, as ruas estavam desertas naquele horário.
Quando saiu na porta do estabelecimento que ela notou, que a mulher de mais cedo do bar, estava sentada, para ser mais honesta largada sobre a calçada, encostada em um poste qualquer. A mulher ruiva olhou para os lados buscando ver se havia alguém a acompanhando ou por ali que pudesse ajudar, como não obteve sucesso resolveu se aproximar.
— Oi…olá tudo bem? — Abaixou-se para ficar na mesma altura dela e tirou uma mecha de frente do seu rosto. — Ei, você está bem? — Fez uma pausa esperando algum tipo de resposta. — Moça, acorda. — Cutucou a mulher.
Sem obter nenhum tipo de resposta, concluiu que não conseguiria deixar ela ali, então com certa dificuldade levantou a mulher e passou um de seus braços sobre seus ombros e encaminhou-se para a porta do seu trabalho.
tentava pensar de forma prática o que fazer, como faria para voltar para o hotel? Quem era ela? Quem poderia ajudá-la? Foi aí que a ideia surgiu de forma instantânea em sua cabeça: .
Não tinha o que ser feito, duas mulheres, uma delas bêbada pegando um táxi era perigoso, ir caminhando também e ao observar ao redor e perceber que nenhum outro funcionário se ofereceu para ajudá-la. Ela teve que ser prática, poderia ser perigoso, mas ela tinha que confiar em alguma coisa.
— Alô, ? Sou eu, a , a garota do café. Eu sei que isso pode parecer estranho, mas você me deu esse número para usar quando precisasse, e agora estou precisando. Pode me pegar em um bar chamado “Oil”...
Quando iria dar as instruções de onde era o local, a interrompeu com um “Estou indo” e desligou. Foram exatos dez minutos para que um belo carro esportivo estivesse parando em sua frente.
desceu de forma rápida, sem aos menos desligar o carro, seus olhos percorreram de forma rápida e depois se encontram com o olhar dela, foi assim que ele notou a mulher morena apoiada nela.
— Quem…é — disse se aproximando das duas.
— Eu não sabia quem é, ela estava no bar e depois estava aqui largada. Eu fiquei preocupada e pensei de levá-la para o hotel. — Então passou o braço da mulher para seus ombros.
— Peraí…ela é Dalí, Dalí Eloide. — Colocou a mulher no banco de trás.
Ele a conhecia de onde? Foi o primeiro pensamento de , depois que já estava no banco de trás com a cabeça da tal Dalí sobre seu colo. O caminho todo foi em silêncio, com algumas trocas de olhares entre os dois pelo retrovisor.
Quando a fachada do seu hotel surgiu na janela do carro, rapidamente abriu a porta para que descesse e depois sem muito esforço pegou Dalí no colo e se encaminhou para dentro do hotel.
entendeu que a cena era dramática o suficiente, porque diferente das outras vezes que tinha que se identificar na recepção e esperar para que o secretário conferisse se ela era hóspede, hoje foi apenas necessário que passasse na frente com a mulher em seus braços para que a porta fosse aberta e houvesse auxílio para segurar o elevador.
Já na porta de seu quarto a ruiva observou o moreno alto colocar Dalí na cama de forma delicada e garantir algum tipo de conforto a rodeando de travesseiros. Quando ele iniciou uma caminhada em sua direção, um leve formigamento surgiu em sua espinha.
— Acho que ela vai ficar bem. — garantiu.
— Sim, bom eu espero. Você falou que ela chama Di…di…Dalí, né? Vocês se conhecem?
— Sim. — Uma careta surgiu no rosto de . Então ele continuou — É uma cidade pequena, eu estudei com ela, a família dela tem proximidade com a minha também, mas nada demais. Bom, se era apenas isso que precisava, eu já vou. — Passou por ela.
— Espera, eu queria te agradecer por hoje. Na verdade, eu nem sei como agradecer, você foi incrível.
— Você que foi incrível, , tem um coração bom de verdade. — Deu um sorriso para ela. — Mas, pensando aqui, tem uma forma de me agradecer.
— Tem? Como?
— Se aceitar jantar comigo um dia desses, aceita?
— S-sim. — Esboçou um pequeno sorriso.
— Sério? Ah, combinado então, você tem meu número, é só chamar. — A abraçou de repente e a soltou de forma abrupta. Pode observar seu rosto se avermelhar.

Então se despediu e sumiu no final do corredor quando entrou no elevador. depois de garantir que o homem não estava mais presente, soltou sua postura e deixou um suspiro escapar. Ele era cavalheiro o suficiente para existir na realidade dela.


CAPÍTULO QUATRO

“Free of women with madness, their men and bad habits”

A luz da manhã atravessava as cortinas como uma intrusa. Dalí piscou os olhos lentamente, ainda confusa com a cena da noite anterior. Ao virar o rosto, viu uma mulher deitada de lado, os cabelos ruivos espalhados sobre o travesseiro, como um quadro inacabado. Por um instante, parecia dormir em paz. Mas, ao reparar melhor, percebeu os olhos entreabertos.
— Ei… você acordou — disse a ruiva, num tom cuidadoso.
Dalí respirou fundo, sem encarar.
— Me desculpa por ontem. Eu não costumo… — interrompeu-se, mordeu o lábio, e apenas completou: — não costumo me perder assim.
hesitou. Quis perguntar o motivo da bebedeira, daquelas lágrimas silenciosas no balcão, mas percebeu que era cedo demais. Apenas deu de ombros.
— Todos nós temos noites ruins.
Dalí riu sem humor.
— Algumas pessoas têm noites ruins… eu tenho anos ruins.
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas íntimo. não sabia explicar por que, mas sentia que aquela mulher não era apenas um acaso da noite anterior. Era como se a vida tivesse empurrado as duas para o mesmo caminho.
— Espera — Dalí virou-se de repente para ela, arregalando os olhos. — Nós… a gente… — fez um gesto vago entre as duas, como se tentasse costurar a memória. — Nós dormimos juntas?
arregalou os olhos, tossiu, quase riu.
— O quê? Não! — cobriu o rosto com a mão, sem acreditar no rumo da conversa. — Você desmaiou no bar. Eu te trouxe pro hotel.
— Ah… — Dalí caiu de costas na cama, dramaticamente. — Então eu não tive uma noite selvagem com uma ruiva misteriosa… que decepção.
não resistiu e riu.
— Sinto desapontar, mas tudo o que você ganhou foi um travesseiro extra e uma garrafa de água na cabeceira.
Dalí virou o rosto para ela, finalmente sorrindo.
— Bom… já é mais do que eu costumo conseguir nas minhas noites ruins.
— Prazer, meu nome é , mas pode me chamar de — estendeu a mão para a morena à sua frente. — E você é a Dalí, certo?
— Sim. Como sabe meu nome?
— Um amigo meu, que nos trouxe ontem, te conhecia.
— Merda — praguejou, suspirando. — Agora a cidade inteira deve saber. — Jogou a cabeça para trás.
— Acho que não é de fofoca. Eu te garanto.
? Quem é?
Por um instante, notou que, nos últimos dois encontros com , nunca perguntara seu sobrenome ou mais detalhes sobre ele. Ele a deixava tão à vontade para falar sobre si mesma, como nunca ninguém antes fizera, que ela até se esquecera de perguntar sobre ele.
ajeitou os cabelos atrás da orelha antes de começar:
— Ontem à noite… você estava no bar, sozinha. Eu só… achei que não deveria te deixar lá. Então pedi ajuda a e trouxe você para cá.
Dalí suspirou, apertando os lençóis entre os dedos.
— Ótimo. Então, além de bêbada, também virei peso morto. — Tentou rir, mas a voz saiu embargada. — Belo espetáculo.
— Ei — se aproximou um pouco, o tom suave. — Todo mundo tem momentos assim.
— Todo mundo, menos eu. — Dalí desviou o olhar, mordendo o lábio como se quisesse conter o que vinha à tona. — Eu não posso me dar ao luxo de… perder o controle. — A frase morreu no ar, meio cortada, como se escondesse mais do que revelava.
não insistiu. Apenas assentiu, respeitando o silêncio. Dalí ergueu os olhos e encontrou aquele par de íris claras, sem julgamento. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se… segura. Deu-se conta também de que estava no fundo do poço como nunca antes. Sentia-se mais à vontade com uma completa estranha do que em sua própria cidade ou casa.
— Você é estranha — disse Dalí, arqueando uma sobrancelha, mas sorrindo. — Estranha no bom sentido. Não é daqui, né?
— Vim morar aqui recentemente. Ainda estou me adaptando. Mas a cidade é acolhedora demais.
Houve um momento de pausa, quase confortável. Dalí respirou fundo, como quem tomava coragem.
— Acho que você precisa andar mais comigo e conhecer realmente Folks. — Ajeitou-se na cama. — Quer saber? Eu tenho uma galeria de arte aqui na cidade. É o único lugar onde eu realmente me sinto… eu. — Seus olhos brilharam por um instante. — Você devia passar lá um dia.
abriu um sorriso, leve e genuíno.
— Vou adorar.
Dalí assentiu, tentando disfarçar o alívio que sentia. Era como se tivesse dado um passo arriscado, mas necessário: abrir a porta para que alguém a enxergasse de verdade. Levantou-se da cama ainda meio atordoada, mas com um sorriso cansado.
— Obrigada por ontem… e por hoje também. — Fez uma pausa, ajeitando a bolsa no ombro. — A gente se vê na minha galeria.
apenas assentiu e a acompanhou até a porta do quarto. Antes de partir, Dalí deu um abraço forte, entregou-lhe um cartão da galeria e sorriu.
— Te vejo em breve, ruiva. — Mandou um beijo no ar e desapareceu.
Assim que a porta se fechou, o silêncio foi interrompido pelo telefone do quarto tocando. estranhou e esperou o toque mais uma vez. Após o terceiro toque, resolveu atender.
— Oi, ? — a voz dele soou quente, quase tímida. — Eu estive pensando… sobre aquele jantar. Que tal a gente marcar?
sentiu o sorriso nascer antes mesmo de responder. causava nela uma sensação estranha na barriga, daquelas que surgiam quando o carro passava rápido por um morro ou quando a montanha-russa despencava. Um frio repentino, mas acompanhado de uma felicidade genuína.


CAPÍTULO CINCO

“I had a marvelous time”

As semanas que se seguiram passaram com uma delicadeza que não sabia que ainda existia. Folk deixou de ser apenas o lugar onde ela havia aterrissado por falta de opção e começou, aos poucos, a se tornar um espaço de permanência. Talvez porque Dalí a tivesse tomado pela mão, não de forma literal, mas simbólica e a conduzido por uma cidade que, vista pelos olhos certos, podia ser menos cruel.
Dalí conhecia Folk como quem conhecia uma história mal contada. Apontava casas antigas com ironia, mencionava sobrenomes como se fossem personagens de um romance cansado e ria da própria familiaridade com tudo aquilo. Na galeria, porém, ela se transformava: ali não era herdeira, nem promessa, nem decepção. Era artista. Era centro. Era inteira.
gostava de observá-la nesses momentos. Havia algo de magnético na forma como Dalí ocupava o espaço, como se o mundo precisasse se ajustar à presença dela e não o contrário. Talvez fosse por isso que a amizade entre as duas tivesse se formado tão rápido: Dalí não perguntava demais, e não precisava se explicar.
Naquela noite, o quarto do hotel parecia pequeno demais para tantas possibilidades. Vestidos estavam espalhados pela cama, pela cadeira, pelo chão. Dalí sentava-se na beirada, avaliando cada opção com uma severidade quase artística.
— Esse faz você parecer educada demais — decretou, jogando um vestido para longe. — E ninguém merece ser lembrada como “a educada”.
riu, nervosa, sentindo o peso do encontro se acomodar em seu peito.
— Eu só não quero parecer… deslocada.
Dalí se levantou, caminhando até ela com um olhar mais sério do que o habitual.
— Você já é deslocada. E isso é exatamente o que torna tudo interessante.
Enquanto se arrumava, Dalí ajustava pequenos detalhes, um colar, uma dobra no tecido, um comentário ácido aqui e ali. Havia um cuidado silencioso naquele gesto, como se estivesse preparando não apenas uma amiga, mas alguém que merecia ser vista sem defesas.
— Você gosta dele — disse Dalí, sem olhar, como se comentasse sobre o clima.
demorou alguns segundos para responder. Observou o próprio reflexo, tentando reconhecer a mulher que se tornara desde que chegara a Folk.
— Eu gosto de como ele me faz sentir… calma.
Dalí sorriu de canto. Sabia o peso disso. E não disse mais nada.
O restaurante estava fechado quando chegou. As luzes baixas criavam uma atmosfera quase clandestina, como se aquele jantar não devesse existir para mais ninguém além deles dois. a esperava de pé, elegante, sem esforço, com um sorriso que parecia sempre chegar antes das palavras.
— Achei que seria melhor assim — disse ele, puxando a cadeira para ela. — Folk observa demais. E eu queria essa noite só pra você.
Havia algo profundamente romântico naquele gesto, não pela grandiosidade, mas pela intenção. falava pouco, mas cada escolha parecia carregada de significado. percebeu que ele a observava como quem tentava memorizar detalhes, o jeito de segurar a taça, a pausa antes de responder, o sorriso que surgia quando ela relaxava.
— Essa cidade gosta de histórias — comentou ela, em determinado momento. — Mas prefere inventá-las.
assentiu, apoiando o cotovelo na mesa.
— É por isso que eu aprendi cedo a proteger o que importa. Algumas coisas não pertencem à curiosidade alheia.
sentiu o estômago revirar com aquela velha sensação, uma mistura de frio e entusiasmo, como se estivesse prestes a despencar de um lugar alto e, ainda assim, não quisesse segurar no corrimão. tinha esse efeito estranho e gentil: fazia o futuro parecer menos ameaçador.
Quando brindaram, não foi apenas a um jantar, nem a um possível romance. Foi a algo maior, ainda sem nome, mas já inevitável. pensou em Dalí, pensou em si mesma, pensou em como certos encontros mudam o curso de uma vida sem fazer barulho.
Naquela noite, Folk continuou sendo uma cidade pequena e fofoqueira. Mas, à mesa, tudo parecia grande demais para caber em rumores.
foi o primeiro a quebrar o silêncio confortável que se instalara entre eles. Falou sobre a escolha do vinho, sobre o chef que havia insistido em permanecer apenas para aquela reserva tardia, sobre como o restaurante costumava fechar cedo, não por falta de clientes, mas por tradição. Cada detalhe parecia pensado para que se sentisse escolhida, não exibida.
Ela percebeu, com um leve espanto, que ele não a interrompia. Escutava com atenção quase cerimonial, como se cada palavra dela fosse um fio que ele não queria perder. Quando comentou sobre o bar, sobre francês, sobre a rotina exaustiva das madrugadas, inclinou-se um pouco mais para frente, os olhos atentos, o sorriso discreto.
— Eu gosto de ouvir você falar — disse, simples. — É como se você desse outro ritmo às coisas.
sentiu o comentário pousar devagar dentro dela. Não era elogio ensaiado, nem galanteria vazia. Era constatação. E isso a desarmou mais do que qualquer gesto grandioso poderia.
Os pratos chegaram, e com eles uma nova camada de intimidade. fez questão de servir o vinho novamente, com um cuidado quase antiquado. Em determinado momento, falou de Folk com um misto de carinho e cansaço, como quem amava um lugar, mas conhecia suas falhas de perto.
— Aqui, todo mundo acha que te conhece só porque sabe de onde você veio — comentou. — Mas raramente alguém pergunta quem você é agora.
assentiu devagar. Aquela frase parecia ter sido dita diretamente para ela, como se tivesse lido seus pensamentos desde o primeiro encontro no café. Contou, então, sobre Rhode Island, sobre o casamento cedo demais, sobre a sensação de ter vivido muito tempo para os outros. Falou sem pressa, sem medo de parecer frágil.
não tentou consertar nada. Apenas ouviu. E, quando tocou a mão dela por um breve instante, foi como se dissesse: eu estou aqui.
— Você não parece alguém em fuga — disse ele, por fim. — Parece alguém em reconstrução.
sentiu os olhos arderem levemente, mas sorriu. Era raro ser vista daquela forma, não como uma mulher quebrada, mas como alguém em processo de renascimento. O jantar seguiu entre risos baixos, confidências contidas e silêncios que não pediam explicação.
Quando se levantaram para ir embora, o restaurante ainda estava mergulhado na mesma luz morna. ofereceu o braço, e aceitou sem pensar. Não havia pressa, nem promessas. Apenas a certeza de que algo havia sido cuidadosamente colocado em movimento.
Do lado de fora, a noite de Folk parecia a mesma de sempre. Mas, para , algo tinha mudado de eixo. E, enquanto caminhava ao lado de , soube com aquela clareza silenciosa que só chegava depois de grandes viradas, que aquela história estava apenas começando.
Do lado de fora do restaurante, o ar da noite estava mais frio do que esperava. Folk parecia silenciosa demais, como se a cidade inteira estivesse contendo a respiração junto com ela. caminhou alguns passos ao seu lado antes de parar, virando-se de frente, como quem ainda não estava pronto para encerrar nada.
A luz do poste recortava o rosto dele com suavidade. Havia algo contido em seu olhar, uma vontade que não pedia pressa. levou a mão até o rosto de , não tocando de imediato, apenas pairando, como se perguntasse em silêncio se podia.
Ela sentiu o corpo responder antes da mente. O coração acelerou, a respiração ficou curta. se aproximou devagar, o suficiente para que ela sentisse o perfume dele, para que o mundo se reduzisse àquela mínima distância entre bocas que ainda não se encontravam.
Por um segundo, parecia inevitável.
Mas parou.
Encostou a testa na dela, os olhos fechados, como quem escolhia o cuidado em vez do impulso.
— Eu não quero apressar nada — murmurou. — Gosto demais de como isso está acontecendo.
sorriu, os olhos marejados, sentindo uma mistura doce de frustração e alívio. Aquilo não era rejeição. Era promessa.
Eles se despediram com um abraço longo demais para ser casual, curto demais para ser definitivo.
No quarto do hotel, a luz estava acesa.
Dalí estava sentada na beira da cama, descalça, usando uma camiseta larga, uma taça de vinho esquecida na mão. Ao ouvir a porta se abrir, ergueu o olhar imediatamente, avaliando da cabeça aos pés com atenção quase teatral.
— Pelo jeito que você entrou… — disse, arqueando uma sobrancelha. — Ou foi um encontro maravilhoso ou um desastre histórico.
largou a bolsa na cadeira e se deixou cair na cama ao lado dela, soltando um suspiro longo, quase risonho.
— Foi um quase.
Dalí sorriu de lado, satisfeita.
— Quases são perigosíssimos — comentou. — Eles ficam na cabeça.
virou o rosto para o teto, ainda sentindo o calor do momento. Pensou no quase-beijo, no cuidado de , na sensação estranha e boa de não estar sendo puxada para nada, apenas convidada.
— Acho que eu gosto disso — confessou, baixo. — De ir devagar.
Dalí brindou sozinha, encostando a taça no ar.
— Então você está exatamente onde deveria estar.
As duas ficaram ali, em silêncio confortável, dividindo a noite, como se o mundo tivesse se reorganizado ao redor daquela amizade recém-nascida, uma que não competia com o romance, mas o sustentava.
E, sem saber, tinha acabado de dar mais um passo dentro da dinastia que estava prestes a construir.


CAPÍTULO SEIS

“There goes the loudest woman this town has ever seen”

A galeria de Dalí era tudo o que imaginava que a amiga fosse por dentro e ainda mais. O espaço respirava arte em camadas: telas grandes apoiadas no chão, pinceladas inacabadas como confissões interrompidas, esculturas que pareciam existir entre o impulso e o controle. Havia algo cru ali, algo que não pedia permissão para ocupar espaço.
caminhava devagar, como quem temia tocar em algo sagrado. Dalí observava de longe, encostada em uma coluna, braços cruzados, o olhar atento não às obras, mas à reação da amiga. Para ela, aquele momento importava mais do que qualquer crítica ou elogio da cidade.
— Aqui é onde eu não preciso fingir — disse Dalí, quebrando o silêncio. — Nem ser quem esperam. Só… existir.
assentiu, sentindo o peito apertar. Era estranho como aquela mulher, tão diferente dela, parecia compreender exatamente o que significava precisar recomeçar. Havia uma liberdade ali que invejava e admirava.
— Isso tudo é incrível — murmurou. — Dá pra sentir você em cada canto.
Dalí sorriu, satisfeita, mas antes que respondesse, seu olhar desviou para a porta de vidro da galeria. O sorriso mudou. Não desapareceu, apenas ganhou outra intenção.
— Interessante… — disse, em tom quase divertido.
se virou, seguindo o olhar dela.
estava do lado de fora.
Ele conversava com alguém rapidamente antes de entrar, elegante como sempre, casual demais para quem carregava tanto peso sem parecer notar. Quando seus olhos encontraram os de , o sorriso surgiu imediato, genuíno, como se o resto do mundo tivesse perdido importância.
— Oi — disse ele, aproximando-se. — Eu não sabia que a galeria ficava aberta hoje.
— Normalmente não fica — respondeu Dalí antes que pudesse dizer qualquer coisa. — Mas regras são meio… flexíveis aqui.
sorriu para Dalí, educado, mas havia algo ali — um reconhecimento antigo, silencioso, carregado de histórias não ditas.
— Dalí — disse ele, com naturalidade demais. — Faz tempo.
Foi o suficiente para sentir o corpo enrijecer, como se algo invisível tivesse se deslocado dentro dela. Não era ciúme. Era instinto. A sensação incômoda de ter perdido uma informação importante sem perceber.
Dalí respondeu com um sorriso lento, quase preguiçoso, desses que dizem mais do que palavras.
— Faz, sim — devolveu. — Folk continua pequena demais pra fingir que o passado não existe.
lançou um olhar rápido para , como se avaliasse o peso daquela conversa diante dela.
— Eu só passei pra ver se estava tudo bem — disse, já dando um passo para trás. — Te ligo mais tarde, .
Ela assentiu, automática, observando enquanto ele se afastava, a presença dele deixando um rastro estranho no ambiente. Quando a porta de vidro se fechou atrás dele, o silêncio caiu de um jeito diferente, mais íntimo, mais cúmplice.
Dalí soltou o ar devagar, descruzou os braços e se virou para com um brilho divertido no olhar, como quem finalmente ia contar uma fofoca boa.
— Tá — começou, apoiando-se em uma mesa, teatral. — Antes que você descubra isso da pior forma possível… precisamos conversar.
franziu o cenho.
— Sobre o quê?
Dalí inclinou a cabeça, analisando a amiga por um segundo a mais do que o necessário.
— Sobre o fato de você ter escolhido, sem saber, o homem mais improvável dessa cidade pra se apaixonar.
— Dalí…
— Calma, ruiva — interrompeu, erguendo as mãos. — Não é um julgamento. É quase um talento, na verdade.
Ela respirou fundo, o sorriso ainda ali, mas agora com uma camada de cuidado.
não é só o cara educado que fecha restaurante e finge normalidade. Ele é Folk, em forma de sobrenome, patrimônio.
sentiu o estômago revirar.
— Ele é dono do bar onde você trabalha. Do hotel onde você dorme. De metade das construções que você atravessa quando anda distraída pela cidade — continuou Dalí, num tom leve demais para o conteúdo pesado. — E da outra metade… ele provavelmente conhece quem manda.
Houve um instante em que não disse nada. Apenas olhou para o chão da galeria, tentando reorganizar a imagem que tinha construído dele com tanto cuidado.
Dalí percebeu. O humor deu lugar à atenção real.
— Ei — disse, mais suave agora. — Ele não parece o tipo de homem que usa isso pra ferir alguém. Mas… — fez uma pausa. — Ele escolheu não te contar.
E aquilo doeu mais do que qualquer número, qualquer mansão, qualquer título.
engoliu em seco.
— Eu odeio esse tipo de coisa — murmurou. — Quando alguém decide o que eu posso ou não saber.
Dalí assentiu, compreendendo mais do que perguntava.
— Eu imaginei. Por isso esperei ele ir embora. Algumas verdades só fazem sentido quando ditas no lugar certo e por quem não ganha nada com elas.
Ela sorriu de leve, tentando aliviar a tensão.
— Além do mais, se fosse pra estragar sua visão romântica… eu preferi fazer isso com charme.
soltou um riso curto, quebrado, mas sincero.
— Você é impossível.
— Eu sei — respondeu Dalí, dando de ombros. — Mas agora você sabe onde está pisando.
E, pela primeira vez desde que chegara a Folk, sentiu que o chão sob seus pés tinha rachaduras visíveis e que ignorá-las não era mais uma opção.
piscou, uma vez. Depois outra.
O ar pareceu rarefeito.
E foi isso que doeu.
Não a fortuna.
Não o poder.
Não a influência.
Foi a escolha. A escolha de não contar. Algo dentro de quebrou sem fazer barulho. Não houve cena, nem lágrimas imediatas. Apenas aquela sensação conhecida, antiga, de estar novamente em um lugar onde a verdade era parcial. Onde alguém decidia por ela o que ela podia ou não saber.
Ela respirou fundo, tentando se recompor, quando percebeu que Dalí havia empalidecido. O brilho irônico nos olhos da amiga vacilou por um segundo. Depois outro. Dalí levou a mão ao balcão da galeria, como quem buscava apoio sem querer chamar atenção.
— Dalí? — perguntou, distraindo-se da própria dor ao notar o corpo dela inclinar levemente para frente.
— Tô ótima — respondeu rápido demais, forçando um sorriso torto. — Só… preciso sentar.
Mas não sentou. Ficou parada, respirando fundo, como se o ar também tivesse ficado escasso para ela. Passou a mão pelo estômago de forma quase distraída, um gesto automático, e fechou os olhos por um segundo longo demais.
— Você tá suando — observou, já se aproximando.
— Deve ser pressão baixa. Ou fome. Ou… Folk — brincou, mas a voz saiu um tom abaixo do habitual. — Essa cidade me dá enjoo.
franziu o cenho. Havia algo diferente ali. Dalí sempre foi intensa, dramática até, mas aquele mal-estar era silencioso, contido, como se ela estivesse tentando negociar com o próprio corpo para não entregar nada.
— Quer água?
Dalí assentiu, aliviada demais para quem só “não se sentia bem”. Enquanto se afastava para buscar um copo, Dalí inspirou fundo outra vez, pousando a mão no ventre como quem tentava acalmar um segredo que ainda não ganhou nome.
Quando voltou, Dalí já estava sentada, o rosto um pouco mais corado, o humor reaparecendo aos poucos, uma armadura conhecida.
— Viu só? — disse, pegando o copo. — Drama controlado. Nada que estrague o dia.
Mas a observou com atenção nova. Entre verdades ocultas e corpos que avisam antes da mente aceitar, ela teve a estranha sensação de que aquela amizade também estava prestes a entrar em um território desconhecido. E, pela primeira vez desde que chegara a Folk, percebeu que nem toda quebra vinha do passado, algumas anunciavam futuros que ainda insistiam em permanecer em silêncio.


CAPÍTULO SETE

“Who knows, if she never showed up, what could've been”


Eugenia sempre ocupou os espaços antes mesmo de entrar neles. A casa parecia encolher quando ela caminhava pelos corredores, o salto firme marcando presença como um lembrete constante de quem mandava, não só ali, mas em grande parte de Folk.
a observava da soleira da porta do escritório, braços cruzados, o corpo inteiro em estado de alerta. A mãe folheava alguns papéis sobre a mesa como se procurasse um erro que ainda não existia, mas que ela tinha certeza de que ele cometeria.
— Você está se envolvendo demais — disse, sem levantar os olhos. — Pessoas confundem gentileza com fraqueza. E você sempre teve esse problema.
respirou fundo. Já conhecia aquele tom. Não era preocupação, era controle disfarçado de conselho.
— Não é um envolvimento estratégico, mãe — respondeu, calmo. — É só… uma pessoa.
Eugenia ergueu o olhar então, fria e precisa.
— Nada é “só” quando carrega o seu sobrenome.
Foi ali que decidiu sair. Não discutiu. Não explicou. Apenas pegou o casaco e foi embora, com a sensação incômoda de que, pela primeira vez, estava escolhendo algo sem pedir permissão.
O bar estava cheio quando ele chegou.
o viu do outro lado do salão quase imediatamente. O coração acelerou, não de alegria, mas de alerta. estava ali, parado perto da entrada, educado demais para interrompê-la, paciente demais para ir embora. Ela sustentou o olhar por um segundo, depois virou-se e voltou ao trabalho, como se não o tivesse visto.
deu um passo à frente quando percebeu que ela o havia visto. Chamou seu nome, baixo, quase respeitoso demais para um lugar tão cheio.
.
Ela não respondeu.
Continuou anotando pedidos, equilibrando pratos, sorrindo para clientes como se o nome dele não tivesse atravessado o ar segundos antes. Não era indiferença completa, era escolha. E sentiu o peso disso com clareza desconfortável.
Ele se aproximou do balcão quando teve uma brecha, apoiando a mão na madeira polida.
, eu… — começou, mas foi interrompido.
— Agora não — disse ela, sem levantar os olhos do bloco de notas. A voz era firme, profissional, quase neutra demais para quem havia passado noites dividindo confidências com ele. — Estou trabalhando.
Houve um silêncio breve, constrangedor. Uma cliente pigarreou ao lado, alheia à tensão que se armava ali.
— Eu tentei te ligar — insistiu ele, mais baixo. — Você não atendeu. Faz dois dias.
finalmente ergueu o olhar. Por um segundo apenas. O suficiente para deixá-lo claro que ela ouvira tudo e escolhera não responder.
— Se você quer conversar — disse, aproximando-se um pouco, o tom ainda controlado — espera o expediente acabar.
Ela puxou o bloco contra o peito e completou, sem agressividade, mas sem margem para negociação:
— Aqui não é o lugar. E agora não é o momento.
assentiu devagar. Não havia ressentimento no gesto, apenas compreensão. Recuou um passo, voltou para a mesa próxima à janela e se sentou. Ficou ali. Esperando.
Enquanto isso, sentia o corpo inteiro em alerta. Cada pedido anotado vinha acompanhado do peso daquela presença silenciosa. Ela o ignorava por fora, mas por dentro tudo estava atento demais: o modo como ele não foi embora, como não a pressionou, como aceitou o limite sem tentar dobrá-lo.
Quando o relógio finalmente marcou o fim do expediente, o bar começou a esvaziar. respirou fundo, retirou o avental e caminhou até ele.
se levantou no mesmo instante.
E, ali, frente a frente, sem a proteção do barulho e das mesas, ela soube que não teria mais para onde fugir, nem queria.
— Você pode esperar lá fora — disse, tirando o avental. Não era um pedido.
— Claro — respondeu ele, sem hesitar.
Do lado de fora, o ar estava mais frio. A rua vazia parecia amplificar tudo o que não tinha sido dito ainda. cruzou os braços, mais por defesa do que por frio.
— Eu odeio mentiras — disse, direta, sem rodeios. — Não me importa o motivo. Não me importa a intenção. Mentiras me colocam em lugares que eu prometi a mim mesma não voltar.
assentiu devagar. Não tentou se justificar. Não tentou suavizar.
— Eu errei — disse. — Não porque quis esconder quem eu sou, mas porque tive medo de que isso fosse tudo o que você enxergasse. E ainda assim… foi uma escolha minha não contar. Você tem razão em estar magoada.
Ela o observou com atenção. Não havia pressa nele. Nem desespero. Apenas uma honestidade quase desconfortável.
— Eu não quero ser protegida da verdade — completou ela, a voz um pouco mais baixa. — Já fizeram isso antes. E sempre me custou caro.
— Eu não quero ser mais uma pessoa a te colocar nesse lugar — respondeu ele, aproximando-se um passo, respeitoso. — Nem quero perder você por algo que eu poderia ter feito diferente.
O silêncio que se seguiu não era pesado. Era expectante.
percebeu, com uma clareza assustadora, que não estava diante de alguém tentando convencê-la, mas de alguém disposto a esperar. E talvez fosse isso que a fizesse baixar a guarda.
Quando se inclinou, foi devagar. Como se desse a ela todo o tempo do mundo para recuar. Ela não recuou.
O beijo foi contido, cuidadoso, quase tímido. Não havia urgência, nem promessa explícita. Apenas a confirmação silenciosa de que algo verdadeiro começava ali, não apesar das falhas, mas atravessando elas.
Quando se afastaram, ainda sentia o coração acelerado. Não de medo dessa vez, mas de algo perigosamente parecido com esperança.
E, pela primeira vez desde que chegara a Folk, ela pensou que talvez algumas verdades não viessem para quebrar, mas para ficar.


CAPÍTULO OITO

“A marvelous time ruining everything”

Havia algo de diferente na forma como caminhava ao lado de agora. Não era pressa, nem ansiedade, era cuidado. Como se cada passo fosse uma escolha consciente de permanecer. Ele não tocava sua mão o tempo todo, mas quando o fazia, era firme o bastante para dizer estou aqui, e leve o suficiente para não aprisionar.
A cidade de Folk percebeu antes mesmo que eles dissessem qualquer coisa.
No restaurante, os olhares demoravam um segundo a mais. As conversas baixavam de tom quando passava. Nada explícito, nada cruel, apenas aquele jeito típico de cidades pequenas de registrar tudo como se fosse um capítulo coletivo. notava, claro. Mas, diferente de outras vezes, não parecia incomodado. Pela primeira vez, não tentava controlar a narrativa.
, por sua vez, sentia-se suspensa entre dois mundos. Ainda havia um desconforto silencioso dentro dela, uma memória recente da mentira que quase se tornara distância. Mas não tentou justificar, nem minimizar. Ele apenas permaneceu. E isso, para ela, era novo. As pessoas costumavam explicar demais quando erravam. Ele escolheu ouvir.
Dalí observava tudo à distância, sentada no banco alto da galeria, com um café que esfriava entre as mãos. Via os dois como quem assistia a algo que poderia dar certo e isso a deixava feliz de um jeito estranho, quase melancólico. Havia dias em que seu corpo parecia mais lento, outros em que um enjoo súbito a obrigava a se sentar. Ela ainda não dizia nada. Nem a si mesma.
— Vocês dois estão… alinhados — comentou Dalí certa tarde, enquanto organizava alguns catálogos esquecidos sobre a mesa. — É raro.
sorriu, mas não respondeu de imediato. Alinhamento exigia confiança. E confiança, ela aprendera, era construída nos detalhes.
começou a aparecer com mais frequência. Às vezes apenas para buscá-la no fim do expediente, outras para deixar um bilhete dobrado no balcão. Pequenos gestos, sem espetáculo. Ele falava pouco da família, quase nada da mãe. Quando o nome de Eugenia surgia, era sempre envolto em cautela, como se fosse uma ferida antiga que ainda não sabia como tocar.
Foi Dalí quem percebeu primeiro que algo estava fora do ritmo.
— Ele anda cansado — disse, casualmente, enquanto fechava a galeria. — Não é só trabalho.
assentiu. Também havia notado. respirava fundo com mais frequência, sentava-se antes do habitual. Às vezes, o silêncio dele parecia pesado demais. Mas quando ela perguntava, ele sorria daquele jeito gentil e desviava o assunto. E ela, talvez por medo, talvez por respeito, deixava passar.
Naquela noite, caminharam juntos até a beira do lago. As luzes refletidas na água pareciam fios invisíveis conectando tudo, o passado que trouxera até ali, os encontros improváveis, as escolhas que não gritavam, mas mudavam destinos.
— Eu gosto de quem sou quando estou com você — disse , de repente, sem olhar para ela.
parou. O vento frio tocou seu rosto, mas ela não sentiu. Aquela frase não era promessa. Era verdade. E verdades, ela sabia, tinham peso.
— Eu também — respondeu, depois de um instante. — E isso me assusta um pouco.
sorriu, finalmente virando-se para ela. Aproximou-se devagar, como quem pedia permissão mesmo quando ela já foi dada. Os rostos ficaram próximos demais para fingir neutralidade. O beijo aconteceu sem urgência, sem plateia, um encontro consciente, firme, real.


CAPÍTULO NOVE

“The doctor had told him to settle down”

percebeu que algo estava errado antes mesmo de dizer qualquer coisa.
Ele estava sentado à mesa da cozinha da casa que ainda não era deles, nem oficialmente dela, mas onde já deixava livros, casacos e silêncios. Havia duas xícaras de café entre eles, intactas. girava o anel antigo no dedo, um hábito que só surgia quando ele precisava de coragem.
— Você está quieto demais — disse ela, apoiando os cotovelos na mesa. — Isso nunca é um bom sinal.
sorriu de lado, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Eu estava tentando descobrir como começar.
— Então começa errado — respondeu . — Sempre funciona melhor.
Ele respirou fundo, finalmente encarando-a.
— Você confia em mim?
A pergunta a fez franzir a testa.
— Eu estou aqui, . Isso não responde por si só?
— Responde — ele assentiu. — Mas eu preciso ouvir mesmo assim.
Ela se recostou na cadeira.
— Eu confio. Não cegamente. Mas… confio.
Houve um silêncio breve, tenso.
— Eu não tenho muito tempo — disse ele, de uma vez, como quem arrancava um curativo.
piscou.
— Como assim?
— Não do jeito dramático que você está pensando — apressou-se. — Ainda. Mas… o suficiente pra eu não querer adiar certas coisas.
Ela se inclinou para frente.
, você não pode soltar algo assim e esperar que eu não pergunte.
Ele passou a mão pelo rosto.
— Eu descobri há alguns meses. Antes de te conhecer. Uma condição degenerativa. Não é imediata. Não é amanhã. Mas também não é algo que melhora.
— E você ia me contar quando? — perguntou ela, a voz mais baixa do que esperava.
— Quando tivesse certeza de que você não estava aqui só pela versão fácil de mim.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos.
— Isso soa terrivelmente injusto.
— Eu sei.
— Porque você escolheu de novo — ela continuou. — Escolheu o que eu podia ou não saber.
não tentou se defender.
— Você tem razão.
— Eu odeio isso — disse ela, respirando fundo. — Eu odeio mentiras, omissões, silêncios estratégicos. Eu já vivi uma vida inteira sendo conduzida sem consentimento.
Ele ergueu o olhar, atento.
— Eu nunca faria isso com você.
— Mas fez — ela respondeu, sem raiva. Apenas constatação.
O silêncio que se instalou foi pesado, mas não hostil.
— Eu não quero pressa — disse , depois. — Não quero decisões tomadas por medo.
— Eu também não — respondeu . — Quero escolhas feitas por amor. Mesmo que sejam difíceis.
Ela o observou com cuidado, como se estivesse enxergando camadas novas.
— Então não me poupe. Me inclua.
assentiu lentamente.
— É tudo o que eu quero.

***

Dalí chegou naquela noite sem avisar, como sempre fazia quando algo dentro dela não se acomodava.
— Vocês estão com cara de conversa séria — disse, largando a bolsa no sofá. — Perdi alguma coisa?
trocou um olhar rápido com .
— Ele está doente — disse ela, direta. — Não agora. Mas um dia.
Dalí congelou por um instante.
— Ah.
— Eu sei — disse. — Não é exatamente algo fácil de digerir.
Dalí sentou-se devagar.
— Você sabe que isso muda tudo, né?
— Eu sei — respondeu . — E mesmo assim… não muda.
Dalí observou os dois em silêncio por alguns segundos.
— Vocês são estranhamente adultos — comentou, por fim. — Irritante, até.
sorriu de leve.
— E você? Está bem?
Dalí hesitou.
— Mais ou menos.
— Isso é um “sim” ou um “não”?
— É um “ainda não sei”.
levantou-se.
— Vou deixar vocês duas — disse, pegando o casaco. — Acho que esse é um espaço que eu ainda não entendo.
Quando a porta se fechou, Dalí soltou o ar.
— Eu estou atrasada — disse, quase num sussurro.
franziu a testa.
— Atrasada como…
— Atrasada como em dias. Como em não é normal. Como em meu corpo não costuma errar.
O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Cheio de possibilidades.
— Você não precisa lidar com isso sozinha — disse .
Dalí riu, nervosa.
— Engraçado. Passei a vida inteira sozinha. E agora… isso.
segurou a mão dela.
— Agora você tem a mim.
Dalí assentiu, os olhos marejados.
— Parece que Folk gosta mesmo de mudar destinos — murmurou.
Do lado de fora, a cidade permanecia pequena, curiosa, observadora. Mas dentro daquela casa, algo maior estava sendo construído, não uma dinastia de poder, mas de escolhas conscientes E, pela primeira vez, ninguém estava fugindo do futuro.


CAPÍTULO DEZ

“She had a marvelous time ruining everything”

A chuva caía fina sobre Folk naquela manhã, insistente o suficiente para borrar a paisagem, mas não para afastar as pessoas das ruas. observava a água escorrer pela janela da cozinha enquanto segurava a xícara de chá entre as mãos. Não bebia. Apenas aquecia os dedos.
estava sentado à mesa, lendo o jornal pela terceira vez sem virar a página.
— Você não vai terminar essa matéria — ela disse, sem olhá-lo.
Ele sorriu, fechado.
— Não mesmo.
Houve um silêncio confortável, desses que só existem quando o incômodo já foi exposto e não precisa mais gritar.
— Eu pensei em você ontem à noite — disse , por fim.
— Pensar em mim costuma ser perigoso — respondeu ela.
— Eu pensei em como você reage quando sente que algo está fora do seu controle. Não com raiva. Mas com essa… retirada silenciosa.
respirou fundo.
— É sobrevivência. Quando a gente não pode escolher, a gente se protege.
— Eu sei — ele assentiu. — E é por isso que eu não quero te pedir nada que soe como urgência. Mas também não posso fingir que o tempo não importa.
Ela se virou para ele.
— Você está com medo.
— Estou — admitiu. — Não da doença. Mas de perder a chance de viver algo inteiro por hesitação.
caminhou até a mesa e se sentou à frente dele.
… eu não vou correr só porque você tem medo. Mas também não vou fingir que não sinto vontade de ficar.
Ele a encarou com atenção.
— Então o que a gente faz?
Ela pensou por alguns segundos.
— A gente decide juntos. Sem pressa falsa. Sem silêncio conveniente.
— Isso soa perigosamente maduro.
— Eu cansei de histórias interrompidas — disse ela. — Se for pra amar, que seja de frente.
segurou a mão dela.
— Eu não sei quanto tempo eu tenho. Mas sei que não quero passar nenhum dia fingindo que você não é o centro das minhas escolhas.
Ela engoliu em seco.
— Você está me pedindo em casamento?
— Estou te perguntando se você conseguiria imaginar uma vida comigo agora. Não depois. Não quando tudo estiver resolvido.
sentiu algo se acomodar dentro do peito. Não era euforia. Era clareza.
— Eu imagino — respondeu. — Com medo. Mas imagino.
Ele sorriu, emocionado.
— Isso é um sim?
— É um “vamos tentar do jeito certo”.
levantou-se e a abraçou com força, como se o mundo pudesse escorregar se soltasse.

***

Dalí descobriu naquela mesma noite. entrou no quarto e a encontrou sentada na cama, com uma caixa pequena nas mãos.
— Você está com essa cara há quanto tempo? — perguntou.
Dalí ergueu o olhar.
— Tempo demais pra negar. Pouco demais pra aceitar.
sentou-se ao lado dela.
— Confirmou?
Dalí assentiu.
— Três testes. Um médico. Um silêncio enorme depois.
— E o Connor?
— Não sabe — respondeu. — E não vai saber.
— Você está com medo?
— Não — Dalí sorriu triste. — Estou furiosa. Porque eu nunca planejei nada direito. E agora meu corpo resolveu planejar por mim.
segurou sua mão.
— Você não está sozinha.
— Eu sei — respondeu Dalí. — E isso muda tudo.
Ela respirou fundo.
— Você vai casar, né?
— Vou — disse . — Em breve.
Dalí riu.
— Folk vai surtar.
— Eugenia vai tentar me destruir.
— Você vai ganhar — Dalí disse, com convicção. — Você sempre ganha quando não pede permissão.

***

O pedido oficial veio dias depois, sem plateia. ajoelhou-se na sala vazia da casa antiga da família, sob o olhar silencioso dos retratos nas paredes.
— Eu sei que isso não é romântico — disse ele. — Mas é honesto. Eu quero construir algo com você enquanto posso estar inteiro.
sentiu os olhos marejarem.
— Inteiro não é ausência de falhas — respondeu. — É presença.
— Então fica.
Ela assentiu.
— Eu fico.
Do lado de fora, Folk já começava a sussurrar. Mas, pela primeira vez, não se importava com o que a cidade diria. Ela estava ocupada demais escolhendo a própria vida.


CAPÍTULO ONZE

“The wedding was charming, if a little gauche”

O casamento não aconteceu porque era o momento ideal. Aconteceu porque o tempo, para , havia se tornado um conceito frágil.
Não houve anúncio nos jornais locais, nem flores exageradas, nem curiosos reunidos do lado de fora. Apenas um jardim discreto, nos fundos da antiga propriedade da família, onde o verde parecia sempre um pouco mais escuro, como se a casa carregasse memórias demais para refletir luz com facilidade.
chegou primeiro. Usava um vestido simples, de tecido leve, que não parecia ter sido escolhido para impressionar ninguém além dela mesma. O cabelo estava solto, indomado como sempre, e havia algo em seu rosto que misturava serenidade e desafio. Não era a noiva perfeita. Era a mulher que havia escolhido ficar.
Dalí veio logo depois, silenciosa, usando um vestido claro que disfarçava, ainda, qualquer evidência do que crescia dentro dela. Trocaram um olhar longo, cúmplice. Não precisavam dizer nada. Havia promessas ali que não pertenciam à cerimônia.
apareceu por último.
Vestia um terno escuro, clássico demais para alguém que, naquele momento, só queria parecer humano. Quando encontrou com os olhos, sorriu de um jeito que não escondia o cansaço, mas também não escondia a decisão. Ele estava ali porque queria. Porque escolheu. Porque, pela primeira vez, não havia pedido autorização.
Eugenia assistia a tudo a alguns metros de distância.
Sentada, ereta, com um chapéu elegante demais para a ocasião, observava como quem avalia um erro histórico. Não chorou. Não sorriu. Apenas manteve aquele olhar afiado, como se a felicidade dos dois fosse algo provisório — uma falha que o tempo corrigiria.
sentiu o peso daquele olhar, mas não se moveu. Já tinha vivido sob sombras piores. Já havia aprendido que algumas mulheres confundem controle com amor.
Quando chegou a sua vez de falar, não pegou nenhum papel. Não havia discurso ensaiado, nem frases decoradas. Apenas respirou fundo, como quem organizava o que realmente importava.
— Eu não sei prometer calma — começou, a voz baixa, mas firme. — Nem dias fáceis, nem uma vida sem ruídos.
ergueu o olhar, atenta. Ele sorriu, pequeno, quase inseguro.
— O que eu posso prometer é presença. Mesmo quando eu estiver cansado. Mesmo quando eu errar. Mesmo quando o mundo parecer maior do que a gente. — Fez uma pausa curta. — Especialmente nesses dias.
Alguns segundos de silêncio passaram, como se ele precisasse de coragem para continuar.
— Passei a vida inteira sendo preparado para herdar coisas. Nome, casas, decisões. Mas ninguém me ensinou a escolher. — Seus olhos brilharam, mas não chegaram a marejar. — Você me ensinou isso sem perceber.
Ele segurou as mãos dela com mais firmeza.
— Eu te escolho sem pressa, mesmo vivendo com urgência. Te escolho sem garantias, sem controle, sem pedir permissão a ninguém. — A voz falhou por um instante, e ele sorriu de novo. — Te escolho porque, com você, eu posso ser verdadeiro. E isso, pra mim, é amor.
respirou fundo uma última vez.
— Se o tempo for curto, que seja honesto. Se for longo, que seja seu. Eu prometo estar aqui enquanto houver aqui pra estar.
— Ninguém nunca me teve, não como você, Standard.
Quando se beijaram, não houve aplausos exagerados. Apenas um silêncio respeitoso, quase reverente. Como se todos ali entendessem que aquilo não era um começo comum, era um acordo íntimo contra o tempo.
Mais tarde, já longe dos olhares curiosos e da tensão contida, encontrou encostado na varanda lateral da casa. Ele observava o jardim com atenção demais, como se tentasse memorizar cada detalhe.
— Você está pensando em ir embora de novo? — ela perguntou, sem acusação.
sorriu de lado.
— Não. Só estou tentando aprender a ficar.
Ela se aproximou, apoiando o ombro no dele.
— Eu não preciso que você seja forte o tempo todo.
— Eu sei — respondeu. — Mas preciso ser honesto.
Houve um silêncio curto, cheio de coisas não ditas. respirou fundo antes de continuar:
— Tem dias em que eu sinto o corpo me pedir pressa. E eu odeio isso. Odeio sentir que estou empurrando você para uma vida que talvez não tivesse escolhido agora.
ergueu o rosto para ele, firme.
— Você não me empurrou. Eu vim andando.
Ele fechou os olhos por um instante, como quem aceitava algo difícil. Depois a beijou na testa, com cuidado demais para alguém que sabia que o tempo era curto.
Do outro lado do jardim, Dalí observava os dois. Uma mão repousava distraída sobre o ventre, o gesto ainda inconsciente, ainda secreto. Pensou em Connor. Pensou em tudo o que não foi. Pensou em como a vida parecia insistir em continuar, mesmo quando ninguém tinha certeza se estava pronto.
Ela sorriu.
Talvez aquela fosse a verdadeira herança daquela família: não o dinheiro, não os sobrenomes, não as casas antigas. Mas a estranha capacidade de seguir em frente mesmo quando tudo parecia prestes a ruir.
Naquela noite, dormiu na casa que, oficialmente, agora também era sua. Não se sentiu dona. Não se sentiu hóspede. Sentiu-se em observação, como se cada parede aguardasse para ver quem ela seria ali dentro.
Ela e decidiram chamá-la de Casa de férias, como se o nome pudesse suavizar o peso das heranças e das expectativas. Dali, o mar parecia mais antigo do que qualquer sobrenome, batendo contra as rochas com uma paciência quase didática, como se ensinasse que tudo insistia, mas nada permanecia intacto.
À noite, riram de uma ideia absurda que carregava desde menino, encher a fonte do jardim com champanhe e nadar ali, só uma vez, como quem risca um item secreto de uma lista invisível. Fizeram isso de roupa, sob o céu aberto, o riso ecoando leve demais para aquela casa que ainda os observava.
Quando se deitaram, molhados, exaustos e felizes, encostou a testa na dela.
— Se tudo acabar cedo — murmurou — eu quero que você se lembre disso. Que fomos livres.
fechou os olhos, segurando aquele momento com força suficiente para atravessar o futuro.
Ela não sabia quanto tempo teria. Mas sabia que aquele amor já tinha valido uma vida inteira.

Do outro lado, na casa vizinha, Eugenia assistiu à cena em silêncio, a desaprovação firme no rosto. a sentiu antes mesmo de ver. E, pela primeira vez, não se importou.
Do lado de fora, a casa permanecia imponente, silenciosa, cheia de histórias mal resolvidas. Mas, dentro dela, algo havia mudado. Não de forma espetacular. Apenas o suficiente para que o futuro começasse a se mover.
E isso, para Folk, já era mais do que suficiente para virar lenda.


CAPÍTULO DOZE

“And in a feud with her neighbor
She stole his dog and dyed it key lime green”

A casa começou a reconhecer aos poucos.
Não foi imediato, nem gentil. As paredes rangiam de forma diferente à noite, os corredores pareciam longos demais quando ela caminhava sozinha, e havia sempre a sensação de que alguém já tinha vivido ali com mais autoridade do que ela jamais teria.
Ainda assim, não recuou. Organizou livros que não eram seus, abriu janelas que ninguém abria, mudou flores de lugar. Pequenos gestos. Permanência discreta.
Eugenia observava tudo.
Da varanda da casa vizinha, ela via atravessar o jardim com passos firmes demais para quem deveria ser provisória. Via o jeito como sorria quando a via chegar. Via, sobretudo, o que não podia controlar. Isso a incomodava mais do que qualquer afronta direta.
Eugenia não levantou a voz. Nunca precisou.
Ela apareceu no jardim no fim da tarde, vestida como se fosse receber visitas importantes, mesmo sabendo que não haveria ninguém além de . Os sapatos caros não tocavam a grama, paravam antes, como se o chão também tivesse hierarquia.
estava sentada perto da fonte, com um livro fechado no colo. Levantou-se ao vê-la. Não por respeito. Por instinto.
— Você anda muito confortável aqui — Eugenia disse, o olhar percorrendo a casa atrás de . — Para alguém que ainda não entende onde está pisando.
respirou fundo.
— Estou na minha casa.
Eugenia sorriu. Um sorriso pequeno. Controlado.
— Não. — aproximou-se um passo. — Você está na casa do meu filho. Isso é diferente. Sempre foi.
O vento trouxe o cheiro do mar. sentiu o coração acelerar, mas manteve o queixo erguido.
me quis aqui.
sempre quis muitas coisas — Eugenia respondeu, como quem falava de um menino teimoso. — Mulheres incluídas.
O golpe veio rápido. Preciso.
— Você acha que é a primeira que confunde gentileza com permanência?
sentiu o estômago revirar. Não respondeu de imediato. Eugenia percebeu — e avançou.
— Você chegou com sua história mal contada, seu passado conveniente, seu jeito de quem observa antes de ocupar. — inclinou a cabeça. — Isso costuma funcionar em cidades pequenas. Mas não aqui. Não comigo.
— O que exatamente a senhora quer dizer? — perguntou, a voz baixa, firme demais para quem estava sendo atacada.
Eugenia a olhou de cima a baixo. Sem pressa. Avaliando.
— Quero dizer que mulheres como você gostam de chamar isso de amor quando, na verdade, é sobrevivência. — Fez uma pausa calculada. — E sobreviventes fazem qualquer coisa para não voltar de onde vieram.
Aquilo doeu. Porque era inteligente demais para ser um ataque vazio.
— A senhora não me conhece — respondeu.
— Conheço o suficiente. — Eugenia cruzou os braços. — Sei reconhecer quando alguém está tentando se inserir numa história que não lhe pertence.
sentiu algo antigo subir à garganta. Aquela sensação conhecida de ter que se explicar para continuar existindo.
— Eu não pedi nada aqui.
— Pediu tudo no momento em que aceitou ficar — Eugenia rebateu. — O nome. A casa. O futuro. — inclinou-se um pouco, como se compartilhasse um segredo. — Você acha mesmo que construiu tudo isso para dividir com alguém que pode ir embora a qualquer momento?
Foi aí que entendeu.
Não era sobre dinheiro.
Nem sobre status.
Era sobre posse.
— Eu não vou embora — disse, antes de pensar.
Eugenia arqueou a sobrancelha.
— Vai. — afirmou. — Todas vão. Algumas com dignidade. Outras… — deixou a frase morrer, olhando ao redor. — Desgastadas demais para perceber quando perderam.
Silêncio.
sentiu os olhos arderem. Não chorou. Não ali.
— A senhora acha que me diminui falando assim — disse, com cuidado. — Mas só está me dizendo exatamente quem a senhora é.
O sorriso de Eugenia desapareceu.
— E você — respondeu, fria — ainda não é ninguém.
Ela se virou, caminhando de volta para sua casa, certa de que tinha vencido. ficou parada por alguns segundos. O corpo inteiro tenso. As mãos tremiam levemente.

***

encontrou a mãe na varanda no início da noite. Eugenia estava sentada, como sempre, com a postura impecável de quem acreditava que o mundo ainda lhe devia reverência.
me contou o que você disse a ela — começou.
Eugenia não se virou.
— Eu imaginei.
— Não — ele corrigiu, calmo demais. — Você não imaginou. Porque, se tivesse imaginado, não teria dito.
Ela cruzou as pernas, finalmente olhando para ele.
— Eu só fiz o que sempre fiz. Protegi você.
respirou fundo. O silêncio entre eles era antigo, construído ao longo de anos de frases cortadas e afeto condicional.
— Não. Você protegeu a sua versão de mim.
Eugenia sorriu, como quem encara uma birra passageira.
— Ela vai embora, . Elas sempre vão. E quando isso acontecer, eu vou estar aqui para recolher os pedaços.
Foi ali que algo se rompeu.
— Você não vai — ele disse. — Porque eu não vou deixar.
Ela franziu a testa.
— Como é que é?
— Você não fala mais com a minha esposa daquele jeito. — Ele não levantou a voz. Não precisava. — Você não decide mais quem fica ou quem vai na minha vida. E, se isso significa que eu precise escolher…
Fez uma pausa curta. Definitiva.
— Então eu escolho .
O nome caiu como um objeto pesado entre eles.
— Você está me ameaçando? — Eugenia perguntou, baixa.
— Não. — colocou o casaco. — Estou me despedindo de uma versão sua que eu já cansei de defender.
Ela ficou em silêncio. Orgulho demais para implorar. Cruel demais para pedir desculpas.
— Você vai se arrepender — disse, por fim.
sorriu triste.
— Eu me arrependi por anos de não ter feito isso antes.
Ele foi embora sem olhar para trás.

***

estava sentada na cama quando Dalí entrou no quarto com duas taças e um sorriso perigosamente animado.
— Então… — Dalí começou, sentando-se ao lado dela. — Ele brigou com a mãe.
— Brigou — confirmou. — De verdade.
Dalí brindou sozinha.
— Adoro quando homens ricos finalmente criam caráter.
riu, pela primeira vez em dias. Depois suspirou.
— Ela me odeia.
— Eugenia odeia tudo o que não controla. — Dalí inclinou a cabeça. — O que, convenhamos, torna ela muito fácil de provocar.
ergueu uma sobrancelha.
— Dalí…
— Eu só estou dizendo — continuou, animada — que existe uma diferença enorme entre vingança e arte performática.
— Estou com medo — murmurou.
— Ótimo. — Dalí sorriu mais ainda. — As melhores ideias vêm com um pouco de medo.
Ela se levantou, começou a andar pelo quarto, gesticulando.
— E se a gente fizesse algo absolutamente inofensivo… porém profundamente irritante?
— Tipo?
— Tipo ocupar espaços que ela considera intocáveis. — Dalí parou diante dela. — Com elegância. Com classe. Com sorriso.
inclinou a cabeça, curiosa.
— Eu sinto que isso vem acompanhado de um plano criminosamente específico.
Dalí sorriu daquele jeito que sempre antecedia uma decisão ruim e maravilhosa.
— Você já reparou no poodle da Eugenia?
piscou.
— O… cachorro?
— Aquele poodle branco, perfeitamente escovado, que parece mais caro do que metade das casas de Folk — Dalí continuou, animada. — Ela trata aquele animal como se fosse uma extensão do próprio sobrenome.
— Dalí… — começou a rir, já desconfiando.
— E se — Dalí ergueu um dedo, teatral — a gente fizesse uma intervenção artística temporária?
— Intervenção artística.
— Exato. Nada permanente. Nada cruel. Só… cor.
cruzou os braços.
— Que tipo de cor?
Dalí se aproximou, baixando a voz como quem conta um segredo sagrado.
— Verde-limão.
O silêncio caiu pesado. Depois, absurdo. Depois, inevitável.
— Você está falando sério — disse, entre o choque e o riso.
— Totalmente. — Dalí já gesticulava, empolgada. — Tinta vegetal, própria pra pelo, lavável. Segura. Eugenia acordaria e encontraria o símbolo máximo do controle dela… verde-limão. Como uma piada que só a gente entende.
levou a mão à boca, rindo.
— Ela vai surtar.
— Não. — Dalí corrigiu. — Ela vai fingir que não surtou. O que é infinitamente melhor.
vai morrer — murmurou.
vai rir escondido — Dalí respondeu, com convicção. — E depois vai fingir que não sabe de nada. Homens fazem isso quando finalmente escolhem o lado certo.
respirou fundo. Pensou em todas as vezes que abaixou a cabeça. Em todas as verdades engolidas. Em todas as casas onde nunca foi realmente dona.
— É errado? — perguntou.
Dalí sorriu, doce.
— É simbólico.
— É infantil?
— Completamente.
— É… libertador?
Dalí estendeu a mão.
— Absolutamente.
segurou a mão dela, sentindo o riso escapar antes da culpa.
— O poodle da Eugenia vai virar uma obra de arte.
Dalí piscou.
— A última grande dinastia americana… em verde-limão.


CAPÍTULO TREZE

“Free of women with madness, their men and bad habits”

O caos começou às oito e dez da manhã.
Eugenia abriu a porta de casa com a xícara de porcelana ainda quente entre os dedos, pronta para o ritual diário de observar o jardim como quem fiscaliza um território conquistado. O sol batia perfeito, o mar estava calmo, e por um breve segundo tudo parecia sob controle.
Até o poodle atravessar o gramado.
Verde-limão.
Não um verde discreto.
Não um verde acidental.
Mas um verde vivo, insolente, impossível de ignorar, quase fluorescente sob a luz da manhã.
Eugenia congelou. O cachorro correu em círculos, feliz, completamente alheio ao colapso simbólico que carregava no próprio pelo. Parecia sorrir. Parecia orgulhoso. Parecia… livre.
— O QUE É ISSO?! — a voz de Eugenia atravessou o jardim como um tiro.
Na casa ao lado, estava na varanda, de robe, fingindo ler um livro que não absorvia nenhuma palavra. Dalí, sentada no degrau, tomava café como se estivesse em uma exposição particular.
— Bom dia, Eugenia — Dalí disse, doce demais. — O sol está lindo hoje.
Eugenia virou-se devagar. O sorriso que tentou sustentar morreu antes de nascer.
— O que vocês fizeram com o meu cachorro?
fechou o livro com calma.
— Nada que não possa ser resolvido com água e sabão.
— Isso é um ataque — Eugenia cuspiu. — Um desrespeito. Uma afronta.
Dalí inclinou a cabeça, estudando o poodle como se fosse uma obra pendurada torta.
— Eu chamaria de intervenção artística temporária.
— Você enlouqueceu — Eugenia apontou para . — Eu sabia que você era um erro. Uma inconveniência passageira que meu filho se recusa a enxergar.
se levantou. Não rápido. Não defensiva. Com a serenidade perigosa de quem já foi quebrada antes e não pretendia repetir o processo.
— Engraçado — disse ela, com voz firme. — Porque eu passei muito tempo achando que precisava da sua aprovação. Hoje, acordei percebendo que não preciso nem da sua atenção.
Eugenia riu. Um riso seco.
— Você acha que ganhou alguma coisa?
— Não — respondeu. — Eu parei de competir.
O poodle latiu, como se concordasse. Dalí se levantou também, limpando as mãos na calça.
— Sabe o que mais deve te incomodar? — disse, casual. — Não é a cor. É o fato de que você não mandou. Não autorizou. Não controlou.
— Vocês duas são ridículas — Eugenia sibilou.
— Talvez — concordou. — Mas somos ridículas juntas. E isso muda tudo.
A porta da casa ao fundo se abriu.
observava a cena em silêncio, o rosto sério, os olhos cansados. Não disse nada por alguns segundos. Depois, desceu os degraus.
— Mãe — chamou.
Eugenia virou-se imediatamente, aliviada demais.
, finalmente. Olha o que fizeram. Isso é um escândalo.
Ele olhou para o cachorro.
Depois para .
Depois para Dalí.
E suspirou.
— É só um cachorro verde.
— É humilhação pública!
— Não — disse, com calma. — É consequência.
Eugenia empalideceu.
— Você está escolhendo elas.
— Não — ele respondeu. — Estou escolhendo não ser você.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
— Eu te dei tudo — ela sussurrou.
— E tentou decidir quem eu deveria amar em troca — respondeu. — Isso não é amor. É posse.
Ele se aproximou de , tocando sua mão. Um gesto simples. Definitivo.
— Vamos embora.
Dalí pegou a bolsa, satisfeita.
— Depois a gente manda as instruções de lavagem, Eugenia — disse, educada. — A tinta sai fácil. O efeito… não promete.
Enquanto se afastavam, o poodle correu atrás deles por alguns metros, alegre, verde, impossível de ignorar. Eugenia ficou sozinha no jardim perfeito, cercada por silêncio, controle quebrado e uma cor que não escolheu.
Naquele dia, Folk ganhou uma nova história para contar.
E, pela primeira vez, as mulheres não se importaram com a versão que seria espalhada.

***

O carro seguia pela estrada costeira em silêncio, as janelas abertas deixando o cheiro de sal entrar como um pedido de trégua. O mar à direita parecia eterno, indiferente a poodles verdes, heranças familiares e rupturas definitivas.
apoiou a testa no vidro por um instante, observando as rochas desaparecerem e reaparecerem conforme o carro avançava. dirigia com as duas mãos no volante, mas a rigidez dos ombros denunciava que ainda estava preso ao jardim da mãe.
— Você está bem? — ela perguntou, sem virar o rosto.
Ele demorou a responder.
— Não sei — admitiu. — Mas estou em paz com a escolha.
assentiu. Aquilo era novo para ele. Escolher sem pedir desculpas. Escolher sem negociar.
Alguns minutos depois, estacionou perto do mar. Não disse nada, apenas desligou o carro. O som das ondas ocupou o espaço que antes era tensão.
Eles caminharam até uma área de pedras, sentando lado a lado, os pés quase tocando a água fria. puxou o robe em torno do corpo, sentindo o vento brincar com seus cabelos.
— Quando eu era criança — começou, olhando para o horizonte — eu achava que tudo na vida era sobre herdar coisas. Casas. Terras. Um nome. Um jeito certo de existir.
Ele fez uma pausa curta, engolindo em seco.
— Hoje percebo que nada disso me interessa tanto quanto… construir algo que não exista ainda.
virou-se para ele.
— O quê, por exemplo?
sorriu de leve, mas havia um peso bonito ali.
— Uma família. — Ele disse a palavra como quem testa o som. — Não do jeito que eu conheci. Sem medo. Sem barganhas emocionais. Um lugar onde alguém possa errar e ainda ser amado.
sentiu o coração apertar de um jeito conhecido. Não dolorido. Vulnerável.
— Eu sempre quis ser pai — ele continuou. — Mas não como obrigação. Como escolha. Como presença. Ensinar alguém a andar de bicicleta. A não ter medo do escuro. A saber que pode voltar para casa, mesmo depois de falhar.
Ele respirou fundo, finalmente encarando-a.
— Eu sei que isso é grande. E eu sei que você carrega coisas que eu ainda não conheço completamente. Mas eu quero dividir isso com você. Se… um dia você quiser.
não respondeu de imediato. Olhou para o mar, para o movimento constante que nunca pedia permissão para continuar.
— Eu tenho medo — confessou. — Não de você. Mas de desejar algo que já me foi tirado sem aviso.
franziu a testa, atento.
— Então a gente vai devagar — disse. — Ou rápido. Ou tropeçando. Mas juntos. Sem segredos. Sem decisões tomadas no escuro.
Ele estendeu a mão, aberta, sem exigir nada. a segurou.
— Eu não sei ainda como — ela disse. — Mas eu sei que quero tentar.
sorriu, daquele jeito inteiro que raramente mostrava. O mar bateu contra as pedras com mais força, como se aprovasse.
A maré estava baixa, deixando faixas de areia úmida que refletiam o céu como espelhos imperfeitos. e caminharam devagar, sem pressa de voltar para lugar nenhum. Ele tirou os sapatos, enrolou a barra da calça, e estendeu a mão para ela, como se aquilo fosse o gesto mais natural do mundo.
aceitou.
O vento bagunçou os cabelos dela, e se aproximou apenas para ajeitar uma mecha atrás de sua orelha. Não foi um beijo imediato. Foi antes disso, o espaço suspenso entre dois corpos que já sabem, mas ainda respeitam o peso do que sentem.
— Se um dia a gente tiver uma criança — disse, quase num sussurro — quero que ela corra aqui. Que saiba que o mundo começa grande, não apertado.
sorriu, os olhos marejados.
— Então promete que não vai ensiná-la a ter medo — respondeu.
— Prometo — ele disse. — Nem dela mesma.
O beijo veio lento, sem urgência, como se o tempo tivesse sido dobrado ali. Sal, vento e riso contido. Nada performático. Apenas verdadeiro. Quando voltaram para casa, o céu já havia fechado de vez. A chuva começou sem aviso, grossa, pesada, transformando o caminho em um borrão de luz e água.
Foi então que viram.
Dalí estava sentada no chão, encostada no portão, o vestido colado ao corpo, os cabelos escuros grudados no rosto. Não chorava. Apenas respirava com dificuldade, como quem tinha corrido muito ou sido empurrada para fora de algum lugar que chamava de lar.
foi a primeira a sair do carro.
— Dalí?
Ela levantou o rosto devagar.
— Eu não sabia pra onde ir — disse, a voz falha. — Então vim pra onde eu sabia que não iam me mandar embora.
sentiu o estômago revirar.
— O que aconteceu?
Dalí respirou fundo, como se organizar a dor fosse um esforço físico.
— Meus pais descobriram. — Engoliu em seco. — Que eu estou grávida. De um homem casado. — Uma pausa curta, amarga. — Eles disseram que eu envergonhei o nome da família. Que não podiam permitir isso sob o mesmo teto.
ajoelhou diante dela, sem se importar com a chuva.
— Você não fez nada de errado.
Dalí riu sem humor.
— Tenta explicar isso pra quem sempre tratou amor como falha de caráter.
Foi quem percebeu primeiro.
— Eles… como descobriram?
Dalí ergueu o olhar, o entendimento se formando lentamente.
— Não fui eu. — Ela disse.
O silêncio que se seguiu foi pesado demais para ser coincidência. fechou os olhos por um segundo. Eugenia. A palavra não precisou ser dita. passou a mão pelos cabelos, o maxilar tenso.
— Ela ultrapassou um limite — disse, baixo. — Um que eu não vou fingir que não vi.
Ele abriu o portão e estendeu a mão para Dalí.
— Vem pra dentro.
Dalí hesitou.
— Eu não quero causar problema.
— Você não é o problema — respondeu. — Nunca foi.
Dentro da casa, toalhas secas, chá quente, silêncio respeitoso. Dalí sentou no sofá, ainda tremendo, enquanto a chuva batia contra as janelas como uma acusação.
observou a cena por um instante. cuidando de Dalí com a mesma naturalidade com que cuidaria de alguém da família. Talvez porque já fosse.
— Fica — ele disse, por fim. — O tempo que precisar. A casa é grande demais pra ficar vazia… e pequena demais pra ignorar quem precisa.
Dalí levantou o rosto, surpresa.
— Tem certeza?
assentiu.
— Absoluta.
segurou a mão de Dalí.
— A gente não escolhe de onde vem — disse. — Mas escolhe com quem fica.
Dalí chorou então. Não de desespero. De alívio. E naquela noite, enquanto a chuva limpava o chão do lado de fora, três pessoas começaram a formar algo que Eugenia jamais conseguiria controlar: uma família sem sobrenome, sem aprovação, mas cheia de escolha.

CAPÍTULO CATORZE

“They say she was seen on occasion”

Eugenia não apareceu.
O que, para quem a conhecia, era sempre sinal de movimento.
Naquela semana, contratos foram atrasados sem explicação, fornecedores antigos “repentinamente” recuaram, convites sociais deixaram de chegar. Pequenas violências bem-vestidas. Daquelas que não deixam marcas visíveis, mas tentam dobrar uma rotina pelo cansaço.
percebeu antes de comentar.
— Ela está tentando nos cansar — disse, certa noite, enquanto fechava as cortinas da sala. — Não é sobre nos destruir. É sobre nos fazer desistir.
assentiu, sem raiva. Apenas com clareza.
— Ela sempre acreditou que resistência é uma questão de tempo. — Aproximou-se dela. — Só esqueceu que eu aprendi a esperar… longe dela.
A casa, curiosamente, florescia.
Dalí passou a ocupar espaços como se sempre tivesse pertencido ali. Pintava no ateliê improvisado no antigo quarto de hóspedes, caminhava pela praia de manhã cedo, ria alto demais para os padrões de Folk. A barriga começava a despontar, discreta, mas impossível de ignorar.
E a cidade ignorava menos ainda.
Os comentários começaram suaves, quase poéticos:
“Você viu como elas vivem?”
“Parece um filme.”
“Me lembra aquele livro… da atriz.”
Logo alguém disse em voz alta: Evelyn Hugo.
Duas mulheres. Um homem. Uma casa grande demais para caber em explicações simples. O imaginário coletivo fez o resto. Folk adorava uma história quando podia moldá-la à própria curiosidade.
ouviu tudo com um silêncio calculado. Dalí achava graça. … observava. Foi numa manhã comum, enquanto Dalí tentava alcançar algo no alto do armário e reclamava da própria barriga, que ele falou.
— Eu quero isso — disse, sem rodeios.
virou-se.
— O quê?
apontou com o queixo, quase tímido.
— Essa bagunça. — Sorriu de leve. — Essa vida crescendo no meio da sala. Essa coisa sem manual.
Ele se aproximou dela.
— Eu sei que já falamos disso antes. Mas agora… agora parece real.
sentiu o chão se mover sob os pés. Não dramaticamente. De forma sutil. Como quando uma lembrança antiga encontra o presente sem pedir licença.
… — começou, mas parou.
Ele percebeu.
— Ei. — Tocou o rosto dela com cuidado. — Se for difícil, a gente não precisa falar agora.
Mas sabia: se não falasse agora, nunca falaria. Ela se sentou no sofá. Respirou fundo. Olhou para Dalí, que observava da porta, em silêncio respeitoso.
— Eu quero — disse, por fim. — Eu sempre quis.
sorriu, aliviado.
Então ela continuou:
— Mas eu não posso.
O sorriso dele vacilou, não por frustração, mas por atenção.
— Meu ex-marido… Louis.
O nome saiu como algo esquecido no fundo da garganta, sem raiva, sem saudade. Apenas peso. respirou fundo, os dedos entrelaçados com força demais.
— Ele fez uma laqueadura em mim. — Disse de uma vez, como quem atravessa um abismo correndo. — Não perguntou. Não avisou. Não deixou margem.
A voz vacilou, mas não quebrou. Ainda. Ela engoliu em seco, os olhos fixos em algum ponto invisível do chão.
— Eu achava que… que o tempo era meu. Que a decisão era minha. — Um sorriso curto, amargo. — Descobri anos depois. Numa consulta banal. Um médico lendo meu corpo como se fosse um arquivo antigo.
O ar pareceu faltar.
— Eu saí de lá sem entender direito. Liguei pra ele. — Uma pausa longa. — E ele confirmou. Como se estivesse falando de trocar uma lâmpada. Disse que era melhor assim. Que eu não tinha estrutura. Que ele sabia o que fazia.
fechou os olhos.
— Foi aí que eu entendi que o casamento já tinha acabado muito antes. — A voz finalmente falhou. — Porque ele não só decidiu por mim… ele me apagou da própria vida que eu ainda nem tinha vivido.
Ela respirou fundo, tentando se recompor.
— Eu não chorei na hora. — Admitiu. — Chorei meses depois. Quando percebi que não era só sobre filhos. Era sobre escolha. Sobre autonomia. Sobre nunca mais confiar totalmente em ninguém que diz que sabe o que é melhor pra você.
Um silêncio pesado se instalou.
— Então quando você fala em família… — ergueu os olhos, marejados. — Não é o sonho que dói. É a lembrança de ter sido roubada dele.
A frase ficou suspensa no ar.
E ninguém ousou quebrá-la.
O silêncio foi absoluto.
Dalí levou a mão à boca. não disse nada de imediato. Apenas se ajoelhou diante de , segurando suas mãos.
— Ele tirou isso de você — disse, com a voz firme, mas baixa. — Não o desejo. A escolha.
assentiu, os olhos marejados.
— É por isso que eu odeio mentiras — sussurrou. — Não as grandes. As silenciosas. As que decidem a sua vida enquanto você acha que ainda está no controle.
encostou a testa na dela.
— Então a gente escolhe agora — disse. — Do nosso jeito.
Ela franziu o cenho.
— Como?
— Adotando. — Ele sorriu, simples. — Ou sendo só o que já somos. Ou inventando uma terceira coisa que ainda não tem nome. — Uma pausa. — Mas nunca mais deixando ninguém decidir por você.
chorou então. Não de dor. De reconhecimento.
Dalí se aproximou, colocando a mão sobre a barriga.
— Se serve de consolo — disse, suave —, famílias raramente nascem do jeito que planejam. Mas quase sempre do jeito que precisam.
Lá fora, Folk continuava comentando. Eugenia continuava atacando. A cidade ainda tentava entender, mas dentro daquela casa, algo tinha se firmado.
Não era um escândalo.
Não era uma dinastia.

Continua…
Nota da autora
Finalmente vocês podem compreender porque a Bekah odiou que o Bill mentiu para ela no início. Tenho que confessar que sou viciada na dinâmica de fidelidade desses três e assim, não é por nada não, mas esse é um dos meus capítulos preferidos, porque pude citar um dos meus livros preferidos. Vocês pegaram a referência?
Se você encontrou algum erro de codificação, entre em contato por aqui.

Não se esqueça de deixar um comentário para a autora!