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Revisada por Nyx 🌙

Finalizada em: 28/06/2025

girou o pulso direito que segurava firmemente a espada, a lâmina refletiu as tochas que iluminavam o salão. Cortou o ar através de movimentos habilidosos, o corpo seguindo o ritmo tão familiar e que acalmava os seus nervos, a mente tranquila o suficiente para analisar a melhor forma de acabar com o oponente. Manteve-se no seu treino diário, alternando os golpes com as pernas e a espada, até os membros queimarem.
Ouviu uma batida na pesada porta de madeira e alguém entrou. Ignorou-o, permanecendo concentrada.
— Com licença, Alteza.
Reconheceu a voz de Alaunus. O homem estava acostumado a lidar com a sua rainha e por isso, continuou.
— O Rei deseja um minuto de seu tempo. — O tom soou de deboche.
Ela grunhiu irritada e continuou alternando os golpes com a pesada espada, repetindo mentalmente “esquerda, direita, esquerda…”. Não queria se permitir pensar no homem que abandonou cinco anos atrás e que, mais uma vez, ousou procurá-la.
— Mande-o embora, Alaunus. — Lançou um rápido olhar para o serviçal, mas o suficiente para soar ameaçador e em seguida, fez um rolamento e ergueu-se num pulo.
Sentia muito calor, o ambiente estava abafado e o suor escorria por seu corpo, empapando suas roupas. O longo cabelo estava trançado e balançava com os movimentos. Vestia uma camisa e calças largas, roupas geralmente usadas pelos guerreiros do reino, mas escolheu por ser confortável.
— Como quiser, Alteza. — Fez uma mesura e saiu, fechando a porta atrás de si.
Finalmente, parou. O coração batia agitado e a respiração ofegante. Olhou para a única e pequena janela que permitia a entrada de luz e ar no quarto de pedras acinzentadas. Percebeu que o sol havia nascido e milagrosamente, o céu estava livre das nuvens carregadas de chuva. Puxou a barra da camisa e secou o suor da testa, a boca seca e sedenta por água. Guardou a espada e mexeu os braços, sentindo-os doloridos.
Havia passado do limite, treinado umas boas horas numa tentativa de esquecer o pesadelo que a acordou no meio da noite e lhe roubou o sono. Lutava para não o relembrar, mas se ousasse fechar os olhos, surgia em sua mente. Sabia que não era fruto de sua imaginação, mas uma visão e isso a assustava profundamente. Deveria seguir até Kassi para contar, mas não conseguia. Tinha esperanças de que continuar fingindo ser apenas um sonho, impediria-o de se tornar realidade, uma realidade muito, muito sangrenta.
— Não…
— Sai da frente!
Vozes masculinas soaram abafadas pela porta e ela virou-se, viu abri-la com violência, a expressão obstinada.
Launus veio em seguida, indignado.
— Quando vai parar de me ignorar? — O homem parou a poucos metros de distância, os braços cruzados na frente do corpo.
— Desculpe, Alteza. — O serviçal cruzou as mãos na frente do corpo e inclinou a cabeça, um gesto de pesar.
— Tudo bem, a culpa não é sua, e sim desse idiota. — Falou, irritada, mas manteve uma expressão doce direcionada ao criado.
Viu-o erguer novamente a cabeça ao ouvir as palavras da rainha, a expressão tranquila, mas os olhos revelavam a raiva direcionada ao guerreiro.
— Não me olhe assim, eu teria sido o seu rei. — soltou num tom ofendido e fez um gesto com a cabeça em direção à rainha. — Se ela não tivesse me chutado feito um saco de lixo.
A mulher encarou-o diretamente, atenta feito um falcão prestes a abocanhar a sua presa e viu o homem imitá-la, uma guerra silenciosa. A tensão era palpável o suficiente para que o serviçal saísse dali sem qualquer ordem imediata, deixando-os a sós.
— Se eu te chutei feito um saco de lixo — deu ênfase debochadamente —, por que está aqui? — A voz fria, esforçando-se para manter a aparência inabalável, livre de qualquer ressentimento.
Observou-o apertar os dentes tão forte que a linha do maxilar se destacou. Mantinha-se na posição de braços cruzados, os pés separados. Ela não queria se permitir olhá-lo tão abertamente, pois sabia que o sentimento estava bem escondido dentro do seu coração. O homem estava guardado dentro da sua própria caixa de Pandora junto com o seu passado. Quando decidiu terminar o relacionamento, jurou para si mesma que iria esquecê-lo e vinha lutando bravamente para tornar realidade, mas o problema é que ele reaparecia sempre que a fogueira estava transformando-se em brasa e com isso, parecia jogar combustível e explodia tudo novamente.
Ele tinha trinta e cinco sóis de vida, mas os problemas pareciam pesar em seus ombros. O cabelo estava muito maior, alcançando os ombros e menos brilhosos do que se recordava. Marcas escuras estavam presentes abaixo dos seus olhos, linhas de expressão desenhavam em sua testa e bochechas. O rei forte e guerreiro parecia ter perdido o seu brilho, aparentava ser um homem repleto de problemas e que parecia não ter os resolvidos. E foi o que a assustou, pois o mesmo homem por quem era apaixonada havia desaparecido. Ou teria sido sua mente apaixonada que o salpicou de brilho e o esculpiu em perfeição? Tornando-o forte e destemido guerreiro , filho de da terra de Kadinah, a quem foi prometida no nascimento e que amou desde a infância, até que o rejeitou horas antes do casamento que selaria a união de ambos os reinos.
— Porque eu preciso da sua ajuda. — Deu de ombros e deixou os braços musculosos descansarem ao lado do corpo, a postura mais relaxada.
— Você sabe que não posso. — Xingou mentalmente por ter soado sentimental, esforçou-se para manter a indiferença em seu rosto. Cruzou os braços nas costas numa tentativa de esconder as mãos e não revelar o quanto estava agitada. Começou a abrir e fechá-las de forma repetitiva, ainda escondendo-as ou o homem reconheceria o gesto de nervosismo.

O ouviu pronunciar o seu nome num tom carregado de intensidade e que a atingiu, trazendo à tona o desejo de seguir até ele para envolvê-lo em seus braços. Sentiu-se arrepiar por completo e o coração bateu mais forte. Molhou os lábios com a língua, a sensação esquisita subindo através do estômago.
— Não. — Soltou firme ao vê-lo dar um passo em sua direção.
Deixou os braços caírem ao lado do corpo.
Ela não queria imaginar a expressão de seu próprio rosto, pois sabia que tinha deixado a máscara de indiferença escorregar. Tinha que recuperar o controle das suas emoções. Respirou fundo e ficou com a postura reta, o queixo levemente elevado, a rainha em pessoa. Havia aprendido na infância e fazia uso quando era necessário.
— Não ouse dar mais um passo.
O guerreiro a menos de um metro de distância.
— Ou o quê? — Ele desafiou num sussurro, parou a um braço de distância da mulher.
— Ou serei obrigada a enxotá-lo junto com o lixo. — Ameaçou friamente.
Manteve a postura imponente e que havia sido ensinada por seu pai, sacou sua espada e ergueu a sua frente, a ponta afiada tocando a parte de baixo do pescoço do homem.
Estava empenhada em vencer os próprios sentimentos e não ceder às sensações de tê-lo tão próximo. Frente à frente, um obstinado a vencer o outro, o desafio escapando pelos poros e tornando aquela cena comum. Uma fisgada conhecida atingiu o seu coração ao reconhecer o quanto fez falta estar com ele. E lamentava saber que seria por poucos minutos, pois precisavam se afastar e seguirem suas vidas. Não eram mais crianças ou jovens apaixonados repletos de sonhos. Ela não era a mesma de cinco anos atrás, assim como ele. Havia feito sua escolha e carregava o fardo todos os segundos de sua vida. Continuar ali, significaria sofrer e não poderia se dar ao luxo de pensar em si mesma. Ela tinha um reino para cuidar e proteger, esse era o seu papel.
Continuou a encará-lo obstinadamente.
O movimento foi mínimo, mas a rainha viu o canto da boca dele mexer e dar lugar a um sorriso provocante.
Ela prendeu a respiração para controlar os batimentos e a raiva que começava a deslizar por sua pele. Esforçou-se para permanecer com a espada no lugar, sem ousar desviar ou demonstrar fraqueza. Ele tinha uma escolha, mas sempre foi cabeça-dura e gostava de provocá-la até o limite. Jamais iria machucá-lo, mas não poderia recuar e mostrar o quanto ele a afetava.
O observou levantar a perna esquerda e dar um passo à frente, pressionando a pele abaixo do queixo na ponta afiada da espada. Ele não ousou desviar o olhar provocativo.
Logo, um fio de sangue escorreu pelo pescoço e desapareceu na gola da camisa.
Ambos encarando-se, um confronto onde ninguém queria ceder. A rainha sabia que o rei não tinha fama de ser paciente e por isso, apostou com todas as forças nesse traço da personalidade. Pareceram horas, mas deveriam ter sido minutos até que finalmente, ele se deu por vencido.
— Você é muito teimosa, mulher! — Resmungou e agarrou a lâmina com uma das mãos, afastou-a gentilmente.
— E você continua o mesmo idiota impaciente. — Sorriu debochada e abaixou a espada, fez um gesto com a cabeça indicando o pequeno corte. — Melhor estancar o sangramento ou vai morrer seco.
Ele revirou os olhos e puxou a gola esfarrapada da roupa em direção ao corte, apertando.
— Parece que a minha morte está sempre em seus pensamentos. — Provocou e largou a camisa, um sorriso atrevido enquanto cruzava os braços na frente do corpo.
A rainha revirou os olhos, descansou a lâmina da espada em cima do seu ombro direito.
— Quer que eu torne realidade? — Imitou o sorriso do outro.
Ele mordeu o lábio inferior, a expressão de divertimento e fez um gesto de pouco caso com as mãos, mesmo que sua atenção estivesse focada nela.

And weightless, breathless, restitute
E sem peso, sem fôlego, restituído
Motionless and absolute
Imóvel e absoluto
You cut me open and sucked the poison from an aging wound
Você me abriu e sugou o veneno de uma antiga ferida

— Não precisa se dar ao trabalho, Urd o fará em breve. — A diversão sumiu, a postura tensa.
Os olhos dela arregalaram-se, a boca abriu levemente e a sua pulsação acelerou, as mãos suaram frio. Todos os moradores de seu reino consideravam esse nome um insulto, algo proibido e sujo, por isso escolhiam perder a língua ao invés de pronunciá-lo. sentiu o medo penetrando em suas veias, o pesadelo criando forma em sua mente. A guerra, a morte de seu pai, um reino destruído e a promessa de não se vingar, tudo a atingindo feito um soco no estômago.
— Saia daqui. — Ordenou lutando para manter o tom controlado, a espada erguida em direção à saída, a mão tremendo levemente.
— Nós podemos destruí-lo e vingar a morte de seu pai. — Olhou-a determinado, tentou tocá-la no ombro, mas afastou a mão quando ela colocou a lâmina trêmula na lateral do pescoço dele.
Sentia-se prestes a perder o controle.
— Vá embora, . — Insistiu com a voz trêmula, a visão tornando-se borrada.
Não iria perder o controle bem ali, diante do homem que amava e que havia abandonado por acreditar em seus próprios ideais.
— Ele está ameaçando o meu povo e a mim. — Evidenciou o desespero em sua voz. — Morreremos em uma semana.
Lutou para permanecer com as pernas firmes ao ouvir as palavras do homem, o seu pesadelo tornou-se realidade. Ela sonhou com , o campo de batalha sangrento e Urd gargalhando com sua taça de vinho. Ela viu o sangue, a destruição.
— Eu preciso de você. — Insistiu, o tom baixo. — O meu povo precisa de você. — Ele tocou a mão que segurava a espada, sem afastá-la de si.
Sentir o contato da mão quente na sua foi como o paraíso, uma sensação há muito tempo esquecida. Prendeu a respiração, lutando contra a avalanche de sentimentos que queria enterrá-la a todo custo.
Afastou a espada e sentiu tristeza quando a mão largou a sua.
— Eu sinto muito. — Sussurrou com intensidade, depositando todo o seu sofrimento e pesar e em seguida, esforçou-se para levantar as barreiras, o rosto frio.
— Até quando vai continuar sofrendo dentro das paredes geladas desse castelo?
— Isso não te interessa. — Rebateu friamente e largou a espada no chão. A pulsação continuava acelerada, as mãos suando frio e toda a agonia embrulhando o seu estômago.
— Você me rejeitou e eu me conformei, mas não aceito vê-la sofrendo sem fazer nada.
— Deveria estar preocupado com as vidas do seu reino. — Engoliu em seco enquanto mantinha a voz fria. — E a sua. — Doeu com todas as forças o golpe ao pronunciar aquelas palavras.
— Estamos sentenciados sem a sua ajuda, então prefiro cuidar da sua vida. — Deu de ombros, mas era palpável a tensão em seu corpo.
O tsunami de sentimentos, a noite mal dormida, a concretização do pesadelo e as horas de treinos estavam cobrando o seu preço, sentiu a necessidade de sentar-se, mas não queria ceder e mostrar o quanto estava vulnerável com a situação. Eram apenas os dois naquele quarto vazio, iluminado pelas tochas penduradas nas paredes de pedras cinzas e nada além disso.
— Eu fiz uma promessa.
— Promessas podem ser quebradas.
— E o que seria de um homem sem a sua palavra? — Perguntou, abalada.
O homem aproximou-se novamente e segurou-a pelos ombros.
Ela tremeu ao toque inesperado, encarou-o muito próximo. Sentiu a respiração quente atingir sua boca, a expressão no rosto dele era determinada.
— Ele se foi.
Ela permaneceu em silêncio, sentia-se prestes a desmoronar. Falar sobre o pai e a morte dele era tocar em uma ferida que jamais cicatrizará.

— Jure, . — O homem estava em pé na porta do quarto da filha, vestindo a sua armadura prateada.
— Você não vai morrer. — Falou num tom determinado.
— Jure que não irá vingar a minha morte e protegerá o nosso povo. — Insistiu, a expressão séria.
A jovem suspirou resignada, fechou as mãos em punho.
Sabia que o pai não sairia até ouvir a promessa, mas prometer só tornava o medo da morte ainda mais palpável. Não queria e não iria cogitar a hipótese de perde-lo.
— Eu posso te ajudar, papai.
Viu o olhar carinhoso do homem.
— Você é a minha única herdeira. E se morrermos, o que será de nosso povo? — Abriu a porta, a mão descansando na maçaneta, a sobrancelha erguida em sua melhor expressão de sabedoria.
— Terão que aceitar o próprio destino. — Deu de ombros. — Apenas não quero viver em uma realidade em que você não esteja, papai. — Confessou com a voz embargada, as mãos fechadas em punho ao lado do corpo.
O mais velho, falou alguma coisa para um dos guardas e entrou novamente, aproximou-se da jovem e abraçou-a o melhor que a armadura fria permitiu.
— Eu te amo.
— Eu também te amo, pai. — Ela escondeu o rosto no ombro do homem, a voz embargada.
— Agora, jure.
Ela soltou um suspiro derrotado.
— Eu juro.
Soltou-a e lançou um último sorriso que evidenciou as marcas de expressão em seu rosto. Acenou para a filha e partiu, fechando a porta atrás de si.
A jovem caiu sentada na cama, o rosto molhado pelas lágrimas e horas depois, chegou a notícia da morte do pai.


— Eu sei que dói. — Ele colocou ambas as mãos no rosto da mulher, acariciou as bochechas com os polegares. — E nunca vai parar.
As lágrimas venceram a batalha e jorraram. Ela afastou as mãos do homem e virou-se de costas, secando o rosto com as palmas das mãos, mas o choro não parava.
— Ele amava você e o povo, deu a vida para protegê-los, fez o que julgava ser certo.
O ouviu soltar um suspiro de cansaço.
— Urd virá atrás de destruição e eu sei que não estarei aqui para ajudá-la. — Suspirou novamente. — Eu sonhei e sei que estou fadado à morte.
Ela ofegou e virou-se, o rosto vermelho pelo choro.
— Você também sonhou?
Ele confirmou com um gesto de cabeça.
— Eu pensei que tivéssemos quebrado a conexão. — Sussurrou e secou mais uma lágrima.
Viu-o passar as mãos no cabelo e encará-la, a expressão entristecida.
— Estamos conectados desde o nascimento e o amor ainda existe. — Apontou para o próprio peito em direção ao coração. — Você me rejeitou, mas não arrancou o que eu sinto. — Sorriu tristemente.
— O meu reino está em suas mãos, .
— Não. — Sussurrou e cobriu o rosto com as mãos.
— Eu sonhei.
Ele virou-se e partiu, deixando-a sozinha, mergulhada em seu próprio sofrimento.





— O que eu faço, papai? — A mulher sussurrou enquanto encarava a pintura de seu pai que estava posicionada na galeria dos ancestrais da família.
O lugar era um corredor iluminado por tochas e várias pinturas penduradas retratavam os seus antepassados.
Depois da visita de e a conversa que tiveram, passou os dias refletindo e avaliando os seus sentimentos. Passou horas encarando o retrato do pai e andando de uma ponta a outra da galeria. Momentos antes, foi informada que os guerreiros de Urd estavam marchando para Kadinah e eram centenas, muito mais do que tinha reunido. Não tinha entrado em contato com ele, mas não conseguia afastá-lo de sua mente. Amava-o com todas as forças, mas a promessa que fez ao seu pai tinha um peso maior para si mesma.
Ouviu passos apressados ecoando pelas pedras e virou-se, viu a conhecida senhora aproximar-se.
— Me dói vê-la sofrer, minha criança. — A voz carinhosa de Kassi soou através do capuz. Ela tocou o antebraço da jovem e olhou-a preocupada.
— Eu dei minha palavra. — Contou com a voz embargada.
Ambas voltaram a atenção para a pintura de moldura dourada, as expressões angustiadas.
— Pregam que a vingança não traz felicidade, mas existem aqueles que encontram conforto nela. — Apertou num gesto de conforto o antebraço da mais jovem.
— Se eu tivesse matado aquele infeliz, não estaria destinado à morte e seu povo à destruição. — Colocou a mão livre sobre o toque da senhora e suspirou. — Todos esses anos, eu tenho cuidado do meu povo e sei que meu pai estaria orgulhoso, mas dói acordar todos os dias e não o ver. — A voz tornou-se embargada, o olhar preso ao quadro.
— Essa dor nunca vai sumir.
— Eu sei. — Abriu um pequeno sorriso. — Me disseram a mesma coisa.
— Tive a visão dessa batalha e eles precisam de você.
— Nós sonhamos. — A jovem suspirou e sabia que não precisaria especificar de quem estava falando.
— Eu sei, minha criança. A ligação entre vocês continua forte e ainda é o destino estarem juntos.
— Mas ele vai morrer.
Ela confirmou com o gesto de cabeça e abriu um sorriso bondoso.
— As visões não são o futuro definitivo e sim, possibilidades que podem ser alteradas, caso mude alguma coisa.
franziu a testa pensativa, a boca levemente aberta.
A senhora afastou as mãos quentes e deu alguns passos, distanciando-se.
— O seu pai está morto e isso não vai mudar. Promessas podem ser quebradas e devem, quando motivos nobres estão em jogo. — Suspirou. — O amor da sua vida está prestes a sofrer o mesmo destino de seu pai. Até quando vai aceitar que Urd lhe tire o que você ama? — Olhou-a uma última vez e saiu.

But love built, God built provinces
Mas o amor construiu, Deus construiu províncias
Build calluses, break promises
Crie calos, quebre promessas
'Cause I could never hold a perfect thing and not demolish it
Porque eu nunca poderia segurar uma coisa perfeita e não destruí-la

encarou o chão e em seguida, o quadro novamente. Descansou a palma da mão na pintura, acreditando que o toque poderia acalmá-la com a sensação da presença do pai, mas o que sentiu foi o gelado de algo sem vida. O seu pai não estava ali, a alma dele não estava ali e jamais se encontrariam em vida. Ele criou-a para ocupar o seu trono e cuidar do seu povo e ela o fez, mesmo que sofrendo em silêncio.
Jurou não vingar a morte do pai e realmente, não faria aquilo. Lutar ao lado de significava defender o povo e derrotar de uma vez por todas, um inimigo. Não estava indo atrás de Urd querendo vingança, ele estava vindo até um de seus aliados e queria destruição. Defendê-los não era vingança. E com esse pensamento tardio, mas melhor que nunca, percebeu que não estaria quebrando um juramento feito para o seu pai.
Soltou um suspiro de alívio e sentiu como se um peso tivesse sido arrancado de suas costas.
Ouviu passos novamente e virou-se, um Alaunus esbaforido aproximou-se.
— As tropas e os cavalos estão preparados, Alteza. — Fez uma mesura.
Ela franziu a testa em confusão e afastou-se da pintura, logo compreendeu o que Kassi havia feito.
No final das contas, ela foi empurrada para uma única escolha.
Aguente firme, .





A batalha do reino de Urd e Kadinah estava acontecendo em um campo aberto que ficava vários quilômetros de distância de cada reino, uma espécie de zona neutra. Quem ganhasse a batalha, poderia seguir viagem e tomar o restante dos inimigos.
Quando a rainha se aproximou com a sua tropa, era uma confusão de guerreiros feridos e mortos, muitos esforçaram-se para manter-se de pé, mas a tropa de Urd tinha a maior parte intacta.
Passou os comandos para os líderes de cada batalhão e deixou-os agir, o objetivo era derrotar o inimigo e salvar o máximo de aliados possível. Em cima da colina, viu os seus guerreiros atirando flechas, golpeando com espadas e entrando em combates corpo-a-corpo. Forçou a visão em busca de e torcia para que não fosse tarde demais.
Agitou as rédeas de seu cavalo e galopou a todo vapor, colina abaixo com uma pequena escolta. Quando pisou no campo de batalha, o mensageiro aproximou-se correndo enquanto desviava de corpos e golpes, falou algo para um dos membros de sua guarda e partiu para fora do confronto.
Viu o homem apontar para o lado esquerdo do campo e ela forçou a visão, mas a confusão de corpos se estendia a tantos metros que tornava difícil enxergar. Seguiria a direção até que o encontrasse.
— Não venham atrás de mim, ajudem os outros. — Ordenou, a expressão séria.
— Mas, Alteza…
— É uma ordem.
Desembainhou sua espada e encarou o céu de nuvens acinzentadas, uma chuva estava próxima. A batalha deveria ser encerrada o quanto antes, pois o lugar ficaria cheio de lama e tornaria as coisas mais difíceis. Respirou fundo e agitou as rédeas com uma das mãos, o cavalo galopou à toda velocidade.





Ela puxou a espada de um corpo morto e respirou fundo, tentando recuperar o fôlego. Havia sido derrubada do seu cavalo e o viu ser morto, mas também havia feito estrago em muitos. Estava coberta de suor e sangue, alguns cortes em seu corpo, mas seguia focada em alcançar . O jogo havia virado e agora, Kadinah com Dhrid estavam massacrando Urd.
Forçou a visão enquanto lutava com outros guerreiros, golpeando fortemente com sua espada e também, ferindo-se. Avistou os reis num duelo e correu o máximo que conseguia, aliados ajudando-a a alcançá-los.
Quando se aproximou, o desespero a atingiu friamente. estava caído ao chão, a espada longe de suas mãos e Urd, o enorme e musculoso, estava prestes a atingi-lo no peito com seu machado. Vermelho tingiu a sua visão e agarrou a sua espada com força, um grito escapou de sua boca e chamou a atenção de ambos.
O inimigo gargalhou e afastou-se de que esforçava-se para se levantar. A rainha ignorou e focou em Urd. Atacava e defendia-se dos golpes de machado, concentrada em acabar com aquilo. Esqueceu-se de todos e manteve-se compenetrada no duelo, qualquer deslize e estaria morta.
— O seu reinado acaba hoje. — Ela falou com a voz firme e alta, tentando vencer os ruídos da batalha atrás deles.
Ouviu-o gargalhar, arrepiando-a da cabeça aos pés.
Firmou o corpo novamente e partiu para cima, desferindo golpes.

XXX

A espada da rainha atravessou o peito de Urd e o rei caiu de joelho, depois o corpo tombou no chão. Ela estava ofegante, os braços trêmulos pela força desferida em seus golpes e por empunhar o peso da espada, o corpo coberto de sangue. Desviou o olhar do cadáver de seu inimigo à sua frente e encarou o campo de batalha, ergueu a espada para o alto, a expressão fria. Um sinal de que o inimigo havia caído. Urros em comemoração foram ouvidos e em seguida, o restante do exército inimigo foi dizimado.
Urd estava morto.





ocupava a cadeira ao lado da cama de , o homem continuava desacordado desde a luta que havia sido vencida três dias antes. Haviam trazido-o para o castelo e desde então, não havia saído do seu lado. Acariciava os cabelos dele e passou o dedo indicador levemente nas feridas que estavam cicatrizando em seu rosto.
— Nós vencemos, . — Sussurrou mais uma vez, assim como nos outros dias. Acreditava que de alguma forma, ele podia ouvi-la.
Bocejou pelo cansaço e acomodou-se melhor na poltrona, fechou os olhos.

Ela abriu os olhos, o coração aos pulos e viu o homem de olhos abertos, a expressão sonolenta. Debruçou-se sobre ele e escondeu o rosto no pescoço, as lágrimas de alívio escaparam, molhando-o.
— Nós vencemos, . — Repetiu diversas vezes.
— Obrigado. — Ele sussurrou e adormeceu novamente.





— Eu vos declaro marido e mulher, rei e rainha de Dhrid e Kadinah. — O bispo finalizou com um sorriso.
Gritos em comemoração ecoaram pelo enorme salão.
sorriu para e uniram os seus lábios em um beijo apaixonado.




Fim.


Nota da autora:

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