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Revisada por: Júpiter

Última Atualização: 31/10/2025


“I saw your ghost tonight
The moment felt so real
If your eyes stay right on mine
My wounds would start to heal”
Ghost on the dance floor (Blink-182)


1998



— Aonde você vai? — Erik gritou, vindo atrás de mim com uma garrafa de cerveja na mão.
Meu melhor amigo era jogador de futebol da universidade; já eu, era o garoto problema. Talvez fosse o combo personalidade com o cabelo que já alcançava mais da metade de minhas costas, as roupas largadas ou a minha habilidade com a guitarra. De qualquer forma, eu estava acostumado com os burburinhos, principalmente quando Erik estava comigo. Provavelmente por sermos opostos, o bad boy e o jogador de futebol americano, dois malditos clichês.
Era por isso que a atenção dos presentes na festa estava quase toda em nós enquanto eu seguia até a saída.
— Estou indo embora, esta festa está uma merda — resmunguei de cara feia, me virando para ele.
— Tudo isso por causa da Alex?
Alex, a ex-namorada que tirava meu sono. A garota mais bonita de todo o campus e, infelizmente, a única imune aos encantos do meu clichê. Cabelos pintados cor de fogo para combinar com sua personalidade avassaladora, gostava de música dos anos 80 e de usar camisetas com mangas que ela mesma cortava. Linda, absurdamente linda. E nem um pouco minha desde anteontem. Alex terminou comigo apenas com um “não é você, sou eu”.
Reconheci que fui um otário em ter pensado em ficar a sós com ela no canto, assim que a vi nessa maldita festa. Só que eu precisava de respostas. Na segunda-feira, ela dizia que eu era o amor da sua vida; na quinta, um belíssimo pé na bunda. Eu só queria fazer uma pergunta: por quê?
Erik me parou no meio do caminho, com medo de que eu me humilhasse mais ainda. Bem, era o que eu achava. Ele não havia justificado sua atitude e andava bem estranho. Por isso a festa estava uma merda e, de repente, precisava ir embora.
— Não.
Mentira.
Ele soube no mesmo segundo pela expressão que fez.
— Cara, mais da metade das garotas dessa festa faria de tudo para dormir com você. Deixe a Alex para lá, só para variar.
Eu odiei como ele falou o nome dela, como se fossem mais íntimos do que eram. Erik mal conhecia Alex, só se viram algumas vezes e nem trocaram uma palavra sequer. Não havia motivos para falar dela daquele jeito, ele não sabia nada sobre ela.
Antes que eu pudesse dar qualquer resposta malcriada, continuei andando. Eu não queria “mais da metade das garotas dessa festa”; naquele momento, queria apenas escutar alguma música muito alta e esquecer até dos meus pensamentos.
— Você vai embora, então? — perguntou, vindo atrás de mim. Nós passamos pela piscina atraindo olhares, passamos pela entrada atraindo olhares... Sempre a mesma coisa. Estava cansado do mesmo.
— Vou. — Me limitei a responder apenas isso, acompanhando com os olhos as minhas próprias passadas no chão de pedrinhas do estacionamento.
— Você estacionou muito longe. Pega o meu carro.
Parei de andar para encará-lo.
— Não precisa, Erik.
— Eu insisto.
Ele jogou a chave em minha direção e a peguei antes que voasse pelos meus ombros.
O carro de Erik era rápido, mais rápido que o meu. O que era exatamente o que eu precisava. Rapidez para esquecer da Alex, do quão meu melhor amigo estava estranho, das pessoas me olhando, da prova que fiz no dia anterior, do meu nome.
Resolvi não retrucar o ato de bondade, apenas joguei de volta o meu molho de chaves para ele. Virei-me, logo em seguida, para ir até o carro.
— Ah, e ? — chamou, me fazendo virar de volta para encará-lo. — Tome cuidado.
— Pode deixar, cara. — Forcei um sorriso. Que tipo de babaquice era essa de “tome cuidado”?
Seu sorriso de lado foi minha última lembrança daquela noite. Depois disso, os dias iguais deram lugar a uma escuridão.




2000



— Ei, você aí! — Ouvi uma voz familiar me chamar e ecoar pelo corredor de salas de aula. Virei-me a ponto de ver minha melhor amiga correndo, esbaforida, com uma caixa de papelão na mão.
— Elise? — Franzi o cenho, estranhando. Era hora da sua aula de Álgebra Linear e ela nunca cabulava, não fazia parte da sua pose de boa aluna. — O que está fazendo aqui?
Ela percorreu o espaço que restava entre nós duas, com uma alça da mochila deslizando de forma incômoda pelo ombro que tentava ajeitar.
— Vim te entregar isso antes que entre no apartamento novo. — Me entregou a caixa de papelão que carregava.
Abri com cuidado para ver o conteúdo. Dentro havia um capacho com o tema de Matrix (o filme favorito dela) e um chaveiro com um dos personagens. Sorri com o significado que aquele presente possuía. Era meu primeiro presente para a casa nova e temático com o filme que Elise mais amava. Eu não gostava de Matrix tanto quanto ela, mas, ao ver o chaveiro e o capacho, foi como se compartilhássemos aquilo.
— Obrigada. É meu primeiro presente de casa nova.
Posicionei a caixa no antebraço e no meu quadril para dar um abraço de lado nela.
— Eu sei, por isso que ele tinha que ser genial — respondeu, me abraçando de volta. — Você está indo para lá agora?
Concordei com a cabeça. Seria a primeira vez que eu entraria no apartamento novo para morar. Minhas coisas já estavam todas lá e naquele dia, finalmente, acabara de deixar o meu quarto no dormitório feminino vazio para me mudar. Eu ainda tinha uma longa jornada para colocar tudo no lugar pela frente, mas já sentia os efeitos de casa nova me dominarem.
— Então eu vou com você.
— Você não tem aula agora?
— Tenho, mas minha melhor amiga está mudando do dormitório para um apartamento só dela, álgebra pode esperar. — Ela sorriu, me fazendo sorrir com ela. Me senti honrada por ser o motivo que fez a senhorita certinha cabular aula. — Vamos?
Passei o braço pelo que ela ofereceu.
— Vamos.
Deixamos o prédio do curso de História que me abrigava às vezes mais do que o meu quarto, devido a carga pesada de matérias dos últimos semestres. Estava perto de finalizar o mestrado em Estudos Medievais, naquele semestre apresentaria a dissertação. Andava uma pilha de nervos, mas a mudança estava sendo suficiente para me distrair um pouco do momento mais decisivo da minha vida em 24 anos. Mudar vinha sendo um alívio em meio ao mar de ansiedade que me consumia.
O prédio ficava a mais ou menos cinco minutos do campus, então não demoramos para alcançar a portaria. Subimos os degraus até o terceiro andar e destranquei a porta com minha chave que agora carregava o tal chaveiro — que, aliás, Elise passou o caminho se encarregando de colocá-lo para que eu abrisse já a porta com ele. O interior se revelou e eu arfei com a bagunça que fiz com as caixas que trouxe. Os poucos móveis que estavam no apartamento não seriam suficientes para abrigar a quantidade de coisas que acumulei nos últimos anos no meu quarto. Eu nem sabia que possuía todas aquelas coisas até precisar movê-las...
Elise assobiou.
— É um belo apartamento. — Ela andou pelo ambiente. — É mesmo de se admirar que tenha ficado vago.
Ah, esse era o mistério que várias pessoas procuravam respostas.
Ninguém ficava mais de uma semana, o proprietário não quis dizer o porquê, mas eu desconfiava que fosse a proximidade do campus que se tornaria um problema de noite por causa das festas. Eu soube pelo meu orientador dessa casa, ele que tratou de me colocar no topo da lista, então não poderia decepcioná-lo ficando uma semana. Além do mais, eu não me importava com festas. Não era uma frequentadora e não tinha nada contra quem gostava. Cada um com suas preferências.
— Acho que foi minha sorte — brinquei, colocando o molho de chaves em cima da bancada da cozinha americana. Ela tirou o lençol branco que cobria o sofá e se sentou, depois, pegou o controle da TV.
— Não tenha dúvidas quanto a isso, . — Me olhou de cara feia. Elise acreditava muito em energias que mandamos ao universo e meu pessimismo e minhas brincadeirinhas não combinavam com isso. — A televisão chegou ontem?
— Sim. Quase a derrubaram escada abaixo.
Ri ao lembrar dos trapalhões que a trouxeram.
— Credo — ela disse, os olhos arregalados para a TV ainda desligada. — Ela é bonita demais para morrer tão nova.
— Concordo.
Refleti sobre aquele aparelho ter me custado mais da metade de um mês de salário. Bom, pelo menos ela era mesmo bonita.
A geladeira também era nova e de lá tirei uma bandeja de frios que comprei para comemorar. Levei-a para comer com Elise enquanto assistíamos a uma fita cassete de Ghost que aluguei na locadora do campus. Já era tarde quando o filme terminou e ela saiu em direção ao dormitório feminino.

* * *


Eu era assistente na sala dos professores do curso de História, então chegar antes deles e sair depois eram minhas obrigações. Não era um emprego ruim, não pagava mal (se juntasse com a bolsa do mestrado), fazia meu nome junto aos professores e eu trabalhava quase meio período sem contar os dias que tinha que fazer horas extras. Porém o “, você viu professor tal?” ou “, onde anda o quadro de horários?” me irritavam profundamente em compensação. Se as pessoas começassem a olhar para a frente e enxergar o que estava escrito, eu responderia 95% a menos de perguntas por dia.
Naquele dia, eu estava com um mau humor do cão. Aparentemente, eu era sonâmbula ou algum rato entrou na minha casa com intuito de fazer bagunça. Quando acordei, todos os talheres estavam no chão e eu tive que lavar um por um para guardar de volta na gaveta. Então, quando escutei a pergunta número um, já fechei a cara antes mesmo de levantar o olhar do tampo da mesa de carvalho.
Surpreendi-me ao constatar que se tratava do garoto mais bonito e simpático do curso. Não havia um defeito em Clark Olsen, apenas a pergunta:
? Você viu o professor Granström? — repetiu, sorrindo.
— Ah! Oi, Clark. — Mudei minha careta de desgosto para um sorriso débil, que aparecia toda vez que ele estava perto, e conferi minha própria tabela para saber onde estava o senhor Granström naquela, de repente, bela manhã de terça-feira. — Ele está na sala 1720.
— Obrigado — ele disse, analisando os papéis grudados na parede ao lado de seu nariz. — Que cabeça a minha! Estava na minha cara esse tempo todo — riu.
Soltei uma risada também, como se esse não fosse o motivo da minha raiva diária. Porém aquele cabelo loiro e os olhos extremamente verdes tornavam aquilo apenas uma infeliz coincidência que o fez proferir meu nome duas vezes. Infelizmente, para meu pobre coração apaixonado, Clark Olsen era da graduação — ou seja, anos mais novo do que eu. Não que eu estivesse dando a entender que o abordaria se fôssemos da mesma idade, longe disso, nunca teria essa coragem. O que estava querendo dizer era que ele provavelmente me via como uma veterana que falhou em arranjar um emprego e tivera que voltar para a faculdade.
— Posso te ajudar em algo mais? — perguntei.
— Não, eu só preciso entregar meu artigo para o professor — comentou, analisando o bolo de papéis que segurava. — Fiquei sabendo do apartamento. Parabéns.
Algumas notícias corriam naquele lugar...
— Obrigada.
Senti minhas bochechas esquentarem por nenhum motivo aparente. Bochechas traidoras.
— Por nada.
Ele lançou um último sorriso e saiu.
Soltei todo o ar e repousei a cabeça no encosto da cadeira. Eu não fazia ideia de que ele sabia o meu nome até aquele momento. Deveria parecer uma tola que era toda sorrisos aos olhos dele, mas não conseguia me controlar. Eu estava mal-humorada e ele aparecia feito um raio de sol para esquentar meu coração. Um raio de sol lindo...
Controle-se, .
Enquanto eu exercitava minha respiração para esquecer o efeito do garoto em mim, Elise apareceu e me pegou no flagra. Ela me lançou um sorriso cúmplice ao passar pela porta.
— Clark Olsen? — chutou.
...e acertou na mosca.
— O próprio. — Cobri os olhos com as mãos. — Ele sabe o meu nome, dá para acreditar?
— Claro que ele sabe, assim como todo mundo no departamento de História. Até no meu devem te conhecer — ela disse e ouvi o barulho da cadeira se arrastando. — Você é boba por não dar em cima dele, com certeza ele te daria moral. Você é linda e ele é lindo...
Tirei minhas mãos do rosto e franzi o cenho.
— Eu sou a veterana dele, Elise — falei como se fosse óbvio.
— E daí? Não é como se ele tivesse na creche...
Fiz cara feia para ela e depois nós duas caímos na risada. Emil Åkerlund entrou na sala no exato momento em que gargalhávamos. Porém não paramos. O senhor Åkerlund era meu orientador e uma das pessoas com o melhor senso de humor que já conheci. Prova disso era que ele começou a rir conosco.
— Do que exatamente estamos rindo? — ele perguntou enquanto guardava a bolsa no armário reservado para os professores.
— A vai adotar um garoto da graduação — Elise comentou. Eu parei de rir para estapeá-la. — Ai!
— Não vou, não.
Me levantei para entregar um rascunho de um dos capítulos da minha dissertação que ele me pediu para corrigir.
O professor Emil era o único no corpo de professores do meu departamento que não tinha mais de cinquenta anos. Na verdade, ele estava lá para o meio dos seus trinta e só sabia disso porque ouvi outra professora comentando. Ele era bem conservado, seu cabelo era castanho escuro, os olhos cor de mel e algumas sardas estavam mais evidentes pelas férias de verão. Ah, e ele era a paixão secreta da Elise. Nós três sempre nos encontramos durante meu horário de trabalho e cada vez mais estávamos ficando mais próximas dele. Por exemplo, no dia anterior, descobrimos que ele tem uma gata chamada Pluma e foi a coisa mais adorável que já ouvimos — nós duas discutimos isso mais tarde e foi de comum acordo. Ele contou que se tratava de uma gatinha tricolor que tinha sido abandonada no campus dois anos atrás e ele a havia adotado. Não era um fofo?
— Você não acha que é muito nova para adotar um garoto? — perguntou ele, pegando a impressão da minha mão. — Eles podem ser bem trabalhosos.
Esquece o que eu disse sobre Åkerlund ser um fofo. Naquele momento, o estava fuzilando com os olhos enquanto Elise ria.
— Vocês dois são bem engraçadinhos. — Andei até minha mesa de volta. — Não estou adotando nem um bichinho.
— Deveria considerar adotar um agora que tem um apartamento só para si — comentou ele.
— Concordo — manifestou Elise.
— Quem sabe um dia.
— Bom, garotas, foi ótimo falar com vocês, mas preciso ir porque vou almoçar com minha mãe. — Ele trancou o armário e acenou para nós. Acenamos de volta. — Até amanhã.
— Até amanhã, senhor Åkerlund — falei.
— Ei. O que eu já te disse? — repreendeu com falso incômodo.
Droga, eu sempre me esquecia.
— Até amanhã, Emil — sorri.
Ele sorriu para mim, depois para Elise e então deixou a sala. Imediatamente, ela fez uma cara de sofrimento e fingiu chorar.
— Ele é perfeito — sussurrou. — Estou em apuros.
— Sim, você está — falei, me virando na cadeira para encará-la. — Ele é professor, Elise. Você sabe que isso é errado.
— Eu sei, mas não posso me controlar mais do que estou fazendo. Queria tanto chamá-lo para sair... — Ela escondeu o rosto com as mãos assim como fiz minutos antes.
Tinha dó dela? Sim. Porém, sempre fazia questão de lembrá-la que nossa universidade tinha regras muito claras e estritas quanto ao relacionamento entre aluno e professor. Eu gostava muito da minha melhor amiga e do meu orientador para perder os dois de uma vez só. Ela vinha se apaixonando por ele desde o semestre passado, mas a vontade de chamá-lo para sair ou fazer algo quanto a isso veio desde que ele começou a conversar mais com a gente na sala da coordenação.
Como entrei agora no último ano do mestrado, minha grade curricular se concentrava em trabalhar em cima da minha dissertação, então usávamos o espaço de tempo após as aulas para discutir alterações pequenas no trabalho final e marcávamos um horário toda vez que tínhamos uma alteração maior.
Acariciei o cabelo dela com a mão para mostrar que solidarizava com sua dor. Emil era bonito, inteligente, interessante e solteiro. Algumas mulheres da universidade estavam bem cientes desses fatores (principalmente do último). A pobre Elise sofria porque, em meio à tantas garotas que não tinham a mínima chance, ela ganhava um fio de atenção toda vez que estava aqui comigo na sala da coordenação. Apesar de ser uma aluna de Ciência da Computação, ele sabia o nome dela, fora os sorrisos que ele lançava quando ia se despedir que eram mais lenha na fogueira.
Eu fiquei consolando-a por um tempo até ela tirar as mãos do rosto e sua pele parar de adquirir um tom avermelhado. Sabia que cada vez estava mais difícil para ela lidar com esse sentimento porque ele vinha tomando proporções arrebatadoras, mas queria mostrá-la que sempre poderia contar comigo. Afinal, era o que melhores amigas faziam.
Elise vinha sendo minha melhor amiga desde a nossa infância, nos conhecemos quando tínhamos nove anos quando ela me salvou de levar uma surra. Era uma história ainda muito fresca nas minhas lembranças: Alicia, a menina mais popular da escola, gostava de Anders e ele gostava de mim; eu não sabia que alguém gostava de mim, mas ela acabou descobrindo quando ele a dispensou e simplesmente me encurralou com mais uma amiga. Elise foi ao meu resgate como se me conhecesse, afastou as duas meninas, mostrou o punho para Alicia e as ameaçou.
Desde então, nós somos inseparáveis. Combinamos de estudar na mesma escola de ensino médio e na mesma universidade, o mestrado dela estava até no mesmo patamar que o meu, com a diferença que ela era auxiliar do seu orientador e acabava tendo que frequentar algumas aulas para ter que complementar a sua renda mensal.
Durante o final da tarde, eu tranquei a porta da coordenação do curso, finalizando mais um dia de trabalho. Todos os professores já tinham ido embora e minha companhia partiu para mais uma de suas aulas. Os meus dias seguiam um padrão: acordar, tomar café, me arrumar, andar até a universidade, pegar a chave da coordenação na portaria, responder as mesmas perguntas de alunos ou professores enquanto trabalhava, receber visita da Elise para almoçarmos juntas, a conversa com o senhor Åkerlund, mais trabalho, voltar para casa, trabalhar na minha dissertação até a hora da janta e dormir. Eu estava perfeitamente satisfeita com minha rotina, me agradava e confortava. Por isso, coloquei a vasilha suja do almoço na pia e me sentei na cadeira para mexer na minha dissertação. Eu acrescentaria algumas citações de algumas fontes que andei lendo, então tinha um longo resto de dia pela frente.
Meu celular tocou e eu atendi sem tirar os olhos do computador.
— Alô?
— Oi, filha! Como você está?
Sorri ao ouvir a voz do meu pai do outro lado da linha. Fazia um tempo que não conversávamos porque eu andava ocupada daqui e ele andava ocupado de lá. Nós não morávamos na mesma cidade, então as ligações ocasionais eram nosso único jeito de matar a saudade.
— Estou bem, pai. E você? Como anda a oficina?
— Estou bem, mas ando tendo um probleminha com vazamentos por causa das chuvas. Está chovendo muito aí?
— Ainda não, mas creio que posso esperar essa chuva aí para essa ou a próxima semana.
Levantei os olhos depois de ter escutado um barulho vindo da cozinha.
Tome cuidado, se agasalhe certinho e nunca esqueça a capa de chuva. Se bem que uma capa de chuva nesse vento não faria a menor diferença. — Ele riu, mas eu estava ocupada demais encarando o garfo que coloquei quando cheguei dentro da pia, agora, no chão. — Está gostando do novo apartamento? Como ele é?
Estranho.
Balancei a cabeça, tentando espantar o pensamento.
— O apartamento é ótimo, ainda não tirei as coisas da caixa, estou postergando esse momento. Como ele tem algumas mobílias, cama, sofá e eu comprei a televisão, sobrevivi bem de ontem para hoje. Elise veio ontem e o aprovou — tagarelei para me distrair do objeto que com certeza não joguei no chão.
Se Elise o aprovou, então é realmente um bom apartamento. Nunca vi menina com gosto mais exigente.
Alterei uma vírgula que estava no lugar errado enquanto ouvia meu pai divagar sobre situações que minha melhor amiga o chamou de brega. Sorri de maneira triste, eu sentia falta de estar em casa com meu pai e recebendo visitas frequentes dela. Nós três éramos como uma família juntos.
Um novo barulho surgiu na cozinha, me fazendo pular de susto. A vasilha foi lançada no meio da sala quando desviei o olhar e o choque contra o chão de madeira foi o que atraiu minha atenção. Pisquei com descrença, sem saber o que pensar.
— Papai, vou ter que desligar — anunciei, me levantando de repente e surpreendendo a mim mesma pelo ato de coragem.
Sem problemas. Eu tenho mesmo que ir ver o Sam, ele anda mexendo em carburadores que estão em perfeito estado... Esse menino ainda vai me trazer problemas. — Ouvi um suspiro do outro lado da linha. — Até outro dia, minha filha.
— Até mais — falei com esforço para minha voz não soar esganiçada de medo.
Medo?
Era isso que eu estava sentindo?
Não sei.
Não sabia nem o que pensar.
Pousei o celular depois de finalizar a chamada na bancada e andei até a vasilha suja no meio da sala. Não era coisa da minha cabeça. Aquela era a hora que eu deveria começar a considerar seres de outros mundos. O que exatamente jogava louças no chão? Coisas sobrenaturais, ok. Duendes? Não, duendes roubavam e sumiam com as coisas.
Agachei e toquei a vasilha.
— Um poltergeist*? — verbalizei a primeira coisa que veio na minha cabeça depois de ver tantos filmes de terror.
— Bingo — alguém disse da cozinha em uma voz clara.
De repente, todos os talheres voaram do secador de louça.
Eu não consegui nem gritar de surpresa, minha boca apenas abriu sem emitir nenhum som e o frio no meu estômago parecia que engoli neve. Ouvi o barulho de panelas batendo uma contra a outra e depois caindo no chão. O que quer que fosse aquilo estava determinado a fazer barulho. A vontade era de correr para o quarto e me trancar lá dentro, mas reuni a coragem que eu não tinha e espiei por cima da bancada. Vi fios de cabelo que indicavam que uma pessoa estava agachada em frente ao armário de panelas e logo se provou um garoto que parecia concentrado em fazer toda aquela arruaça.
Suspirei. Era só um garoto, afinal.
— Que merda você acha que está fazendo? — perguntei com a voz, não esganiçada como queria sair quando estava falando com o meu pai, mas por um fio. Um invasor do sexo masculino não podia ser boa coisa e eu estava ciente disso, mas, sem saber como proceder, resolvi enfrentá-lo.
Ele se sobressaltou e largou uma última panela que estava ali dentro antes de me olhar. Seus olhos azuis fitaram os meus e percebi que sua silhueta adquiriu certa transparência que o deixava meio instável no chão — não como se flutuasse, mas como se pudesse sumir a qualquer segundo. Só com esse detalhe, eu tive certeza de que ele não era normal. Então fiz a única coisa aceitável no momento: saí correndo para o meu quarto sem olhar para trás.



*Poltergeist é traduzido literalmente como fantasma barulhento.



Ao fechar a porta, eu senti meu peito subindo e descendo em um ritmo frenético enquanto meus pulmões gritavam pela adrenalina.
Era por isso que todos os inquilinos sumiam?
Andei de costas até minha cama, como se tirar os olhos da porta fizesse com que ele aparecesse na minha frente de novo.
Não podia ser. Não tinha um fantasma na minha casa. Talvez eu estivesse vendo filmes de terror demais ou lendo muitos relatos em revistas sobrenaturais. Talvez eu devesse reconsiderar minha curiosidade pelo oculto porque, de repente, estava sendo perseguida por coisas que não existiam.
Senti como se atravessasse alguém, mas caí deitada no colchão com um calafrio terrível pelo corpo inteiro. Ele estava ali, ao pé da cama, me analisando. Um maldito fantasma. Eu gritei. É claro que gritei. Para o inferno com a multa de barulho! Se me perguntassem o que estava acontecendo, eu diria a verdade — estava sendo assombrada. Não deveria ser surpresa alguém gritando naquele apartamento, apostava que muitos antes de mim gritaram só de verem as louças voando, eu até que aguentei bem.
Tampei os olhos com esperança de que ele sumisse, mas o que aconteceu me surpreendeu mais ainda.
— Você me vê? — ele perguntou em um tom tão audível que parecia até que era humano.
Comecei a bater as pernas na cama para tentar despistá-lo.
— Ai, meu Deus! Estou ouvindo vozes também!
Senti uma brisa percorrer o quarto, com a janela fechada. Tirei as mãos dos olhos e analisei o ambiente para saber de onde veio a corrente de ar, mas não tinha mais ninguém. Sentei-me na cama e ele se materializou ao meu lado, me fazendo sobressaltar como eu fiz com ele poucos minutos atrás.
— Você me vê, não é? — perguntou perto do meu ouvido. Eu me tremia mais que vara verde olhando para a frente, abraçada no primeiro travesseiro que encontrei pela frente. — — chamou, fazendo sua voz soar fantasmagórica e me provocando mais calafrios.
— C-Como você sabe meu nome? — perguntei, tentando não desmaiar de nervosismo e pavor.
— Me responda que eu te respondo.
— Você não existe. — Fechei os olhos. — Eu preciso só começar a rezar e...
— Eu não sou uma entidade, rezar não vai me afastar e fazer sumir. — Senti-o se afastando. — Olhe para mim.
— Você não existe — choraminguei.
Eu sabia que tinha o dom de ver espíritos desde criança. Descobri isso quando meu pai teve que me levar a uma senhora porque eu dizia que via pessoas me olhando enquanto dormia. Porém, desde que ela me deu um bom banho de ervas aos oito anos de idade, sussurrando algumas orações, era algo que ficou completamente adormecido como se tivesse lacrado esse dom. Nunca mais vi alguém que não pertencia a esse mundo, até aquele momento.
Senti o colchão afundar ao meu lado, me chamando atenção no automático. Eu nem pensei muito antes de me virar, só que fantasmas não deveriam pesar mais do que uma pena. Lá estava ele, sentado ao meu lado — menos transparente, quase parecendo de verdade. Suas roupas eram simples: uma calça jeans escura, uma camiseta preta e um Converse vermelho. Ele era mesmo um garoto, devia ter no máximo uns 26 anos e, de repente, me senti triste por ele ter morrido com tão pouca idade.
Um sorriso brotou em seus lábios.
— É, você me vê.
— Você é um fantasma? — perguntei com receio, já sabendo da resposta.
— Achei que soubesse a resposta dessa pergunta.
Eu sabia e tive certeza ao ver sua transparência anterior. Olhei para o teto, senti que meus músculos tremiam e que eu estava apavorada, mas algo na voz dele fazia com que aquela conversa soasse casual, como se ele fosse mesmo real.
— Céus, eu estou falando com alguém que não existe mais — murmurei. — Só posso ter enlouquecido.
— Enlouquecido não, você só está descobrindo que é uma médium — ele riu, soprando uma lufada de ar desnecessária no meu cabelo.
— Só... Para de falar um segundo. — Pressionei a ponte do nariz e cerrei as pálpebras. Ao que tudo indicava, ele não ia me carregar diretamente para o inferno ou qualquer coisa que meu subconsciente estivesse pensando para estar fazendo meu corpo tremer daquele jeito. Eu deveria ter mais paciência, afinal, não era todo dia que eu via e ouvia um fantasma, então sentir medo era normal. Porém, de acordo com as revistas, nós deveríamos confrontá-los para saber de onde vinham, o que queriam e ajudá-los a seguir a luz.
Em resumo, eu precisava o conhecer para poder mandar embora.
— Está com medo, ? — ele perguntou perto demais do meu ouvido direito.
— Como você sabe meu nome? — perguntei outra vez, mas, agora, sem gaguejar, com uma coragem súbita para mandá-lo embora finalmente e continuar minha vida como se nada tivesse acontecido. Eu nem comentaria com Elise esse pequeno incidente para não correr o risco de invocar a criatura novamente.
— Está em todos os lugares, contas, faturas, trabalhos da faculdade. Senhorita , a nova moradora do apartamento 107. — Ele se deitou na cama e se esticou, o cúmulo da folga até mesmo para um ser do além.
— O que você quer comigo? — perguntei, observando-o minuciosamente. Era bizarro como ele parecia um ser humano agora, sem a transparência para entregá-lo. Eu tinha um monte de questionamentos, por exemplo: como conseguia fazer a transparência sumir, mas ficaria para depois. Quem sabe em um pós-vida?
— Não é nada pessoal. Só quero que você saia do meu apartamento.
Sem calcular, uma risada irrompeu da minha garganta, surpreendendo até meus músculos que pararam de tremer. Quem entrasse ali, naquele exato segundo, duvidaria seriamente da minha sanidade. Eu estava rindo sozinha.
— Você já morreu — falei, me virando para ele.
Ainda não sabia como me controlei sentada na cama e não saí correndo pedindo ajuda para o primeiro que aparecesse.
— E eu tenho um contrato que prova o contrário do que você está dizendo — continuei.
— Eu também tenho minha forma de garantir que moro aqui e sozinho, quer ver? — sorriu de lado e sumiu. Quando retornou, estava de frente para o guarda-roupa e começou a arrancar simplesmente tudo que estava à sua vista.
Eu não podia acreditar no que meus olhos estavam vendo. Tudo que eu me esforcei para organizar no guarda-roupa simplesmente sendo arremessado no chão e pelo quarto. Odiava arrumar o guarda-roupa, levava o dia inteiro, e aquele maldito fantasma não levava nem um minuto direito para arrancar tudo. Foi só quando uma calcinha voou pelo quarto e parou na minha cabeça que a reação veio.
— Chega! — gritei, arrancando o tecido e enrubescendo logo em seguida. Ele tinha jogado uma das minhas calcinhas superconfortáveis na minha cabeça. A ira me consumiu, mas respirei fundo enquanto ele se virava de volta e prendia a risada ao ver o que eu tinha nas mãos. Na certa, não tinha nem visto o que tinha jogado de tão rápido que foi.
Eu precisaria de paciência para lidar com isso. Ou eu iria simplesmente surtar.
— Por quê? Por que eu deveria parar? — perguntou com um tom cínico.
Paciência, . Paciência.
— Qual o seu nome? — perguntei, ignorando a pergunta dele ou eu correria o risco de dar outra resposta atravessada. Nós não podíamos ficar naquilo para sempre, tinha coisas melhores para fazer.
— Para que você quer saber?
Sua pose era totalmente como se pudesse me atacar a qualquer momento. Por um segundo, eu tive medo e me controlei para não engolir em seco. Ele disse que não era um espírito obsessor ou demônio. Então não havia o que temer, não era?
Não era?
— Quero saber com quem estou lidando. Se você sabe meu nome, nada mais justo que eu saiba o seu também.
— Não vejo sentido em te dizer meu nome, se você já está de saída. — Virou-se para continuar o que estava fazendo. — Além do mais, fantasmas não têm nomes para quem está vivo.
— Espera! — praticamente gritei antes que ele pudesse tirar o resto da minha roupa íntima da gaveta. — Só me fala o seu nome para podermos resolver isso como adultos. Afinal, você é um adulto, certo?
Ele se virou de novo.
— Acho que sim. Bem, eu pareço um. — Falou de cabeça baixa, analisando seu corpo. — Na teoria, devo ser mais velho que você.
Olhando melhor, ele parecia ter a minha idade e eu me senti ainda mais triste ao constatar isso. Deveria ser horrível saber que morreu tão jovem.
— Tem razão. — Larguei a calcinha na cama. — Nós parecemos ter a mesma idade atualmente, mas você já deve ter morrido há um tempo — meu tom de voz triste refletia meus pensamentos. Eu tinha vontade de chorar pela morte de alguém desconhecido...
Ele ficou pensativo por um momento, mas parecia ter se convencido de que eu valia um diálogo antes de me colocar para fora da minha própria casa com toda a sua revolta. Andou até a cama e se sentou na beira dela, depois se pôs a encarar seus próprios dedos. Aos poucos, ele foi ficando transparente de novo, como se sua presença tivesse se tornado sutil a ponto de desaparecer a qualquer segundo. Eu presenciei tudo, mas ainda assim duvidei do que meus olhos viram, não podia ser real, fantasmas não existiam desde aquele dia que eles pararam de aparecer em volta da minha cama.
‘Tá... E como eu explicaria um sentado ali mesmo na minha frente?
Foram alguns minutos até ele finalmente se pronunciar:
— Te darei três dias e é bom você ter ido embora quando eu voltar ou jogarei todas as suas roupas pela janela.
Dito isso, ele desapareceu.

* * *


Elise cutucou a porta com a ponta do pé, fazendo-a se abrir com um rangido macabro. Podia jurar de pés juntos que não era assim antes do dia anterior.
— Você tem certeza de que não estava sonhando, certo? — Encarou o interior da casa como se o tal do fantasma fosse invenção da minha cabeça e me fazendo duvidar seriamente da minha sanidade mental, como se eu mesma não tivesse duvidado pelas últimas horas que ela demorou para ir até ali.
— Tenho — falei, o medo pingando do tom de voz.
Passei o resto do dia e a noite no quarto dela com medo de vê-lo de novo, até que ela se cansou de me ver assustada com a memória e veio tirar a prova. Eu andava cansada, mas, ainda assim, lembrava de tudo bem demais para ter sido apenas um sonho. Ter assistido Ghost há pouco tempo pode ter contribuído um pouco para o olhar de descrença que ela estava me lançando, porém acho que não fui clara o suficiente que até mesmo conversei com o tal fantasma.
, eu sei da sua paixão pelo Patrick Swayze em Ghost e acho que sua cabeça pode ter te traído um pouco...
Bati a palma da mão na testa, fazendo-a se interromper.
— Só entra, tá? — pedi, ignorando que ela verbalizou o que tinha acabado de pensar. Nós nos conhecíamos há tanto tempo que pequenas coisas assim eram normais.
Eu sabia que estava tudo uma bagunça, praticamente toda a louça no chão da cozinha e da sala, as roupas jogadas pelo quarto... Porém, ao entrar novamente utilizando Elise como meu escudo humano, nós duas nos assustamos. O que ele causou só pode ser descrito como no mínimo assustador e selvagem. Não parecia em nada como algo feito pelas minhas mãos, a menos que eu odiasse a minha casa.
— Minha nossa — ela comentou, embasbacada, encarando a louça no chão da cozinha.
— Eu te disse que ele era arruaceiro. — Minha voz ecoou pela casa como um miado. Estava apavorada, meu corpo chacoalhava com o medo e o bolo na minha garganta não me deixa esquecer da vontade de chorar crescente por estar de volta àquela casa. Porém seguia com o tronco colado nas costas da minha melhor amiga que começava a caminhar a passos vagarosos para o meu quarto.
Ela ofegou quando viu as roupas espalhadas pelo ambiente, as portas e as gavetas pendendo.
— Ok, eu não estou completamente convencida de que você tenha visto e falado com um fantasma, mas definitivamente não foi você quem fez essa bagunça.
— Foi... — pigarreei, corrigindo a voz falha. — Foi ele.
Ela se virou para mim.
— E ele te deu três dias para sair daqui ou fará pior — relembrou o que gaguejei para ela enquanto estava presa entre contar o que tinha acontecido e chorar. Assenti. — Acha que devemos chamar um padre, então?
— Um padre?
— É, algo para espantá-lo. Você não pode sair da casa por causa do professor Emil, então precisamos de uma solução. — Seus olhos se arregalaram minimamente, esperando uma resposta. — Algo que te faça dormir de noite.
— Ele disse que não era um espírito obsessor para ser afetado por rezas, então acho que um padre não vai nem fazer cócegas nele. Não é como se o sermão de um padre fosse convencê-lo de seguir a luz — comentei, já querendo me esconder nas costas dela de novo.
— Ele está aqui agora?
Olhou para todos os cantos, fazendo minha pele se arrepiar com a imaginação.
— Não. Algo me diz que ele vai cumprir com a própria palavra e voltar em três dias. — Engoli em seco. — Você acredita em mim agora?
— Estou te dando o benefício da dúvida depois de ver isso. — Ela chutou algumas peças de roupa enquanto parecia ponderar as opções por alguns segundos. — Posso dormir aqui, se uma companhia te fizer se sentir melhor. Talvez eu o espante com meus cristais.
Fechei os olhos e sorri com alívio.
— Obrigada — falei, por fim. — Você é a melhor amiga do mundo.
— Eu sei — ela disse toda pomposa e saiu em direção à porta. Eu que não era boba, a segui.

* * *


Três dias e não tive nenhum sinal dele. A memória de o ter visto foi logo se esvaindo por causa do trauma de enxergar uma criatura sobrenatural. Agora, até eu duvidava do que vi. Talvez fosse mesmo um sonho, eu poderia ter dormido acordada e estava com um perigoso caso de sonambulismo... Qualquer coisa que explicasse o que aconteceu a mais de 72 horas atrás e, como Elise disse, me fizesse dormir de noite.
A dissertação estava me mantendo ocupada o suficiente para me distrair de tudo ultimamente e o senhor Åkerlund vinha exigindo muito de mim nas suas correções. A reta final do mestrado não andava sendo lá muito fácil, mas ter passado por maus bocados na graduação me blindou. Me sentia pronta para qualquer rasteira que a vida acadêmica pudesse me proporcionar. Tudo que sofri, eu levava como aprendizagem para o futuro, por isso decidi seguir com os estudos. O que poderia ser pior do que aqueles anos acordada para entregar um trabalho que deveria ser em grupo, mas que restou tudo para você?
Elise estava dormindo na sala nos últimos três dias, mas apesar de a TV ter mantido o interesse dela, suas costas pediram socorro e ela voltou para o dormitório no quarto dia. Não senti tanta falta dela, a minha rotina cansativa de casa e universidade me faziam cair no sono pela noite como um bebê.
Após alguns dias, eu concluí que minha vida andava um tédio. Eu não aguentava mais lidar só com pressão todos os dias, eu precisava de uma distração, uma distração das boas. Foi aí que tomei a atitude mais impensada da minha vida.
Sábado era o meu dia oficial de limpeza e eu tomava algumas taças de vinho durante o processo para me motivar. Após limpar tudo, eu estava levemente alterada e decidi tomar um banho para tentar baixar a bola. A verdade era que eu estava com muita energia acumulada e sentia que podia sair correndo pela rua a qualquer minuto. Depois de me secar com a toalha e me vestir, decidi que a melhor alternativa seria dar uma volta.
Passeei pelo parque do campus, me sentei de frente para uma banca de jornal e fiz uma análise minuciosa do que estava exposto. Revistas sobre finanças, carros, crianças e finalmente meus olhos pousaram nas que continham coisas sobrenaturais. Eu era um pouquinho viciada em relatos de revistas sobrenaturais, achava-os fascinante; meu lema era acreditar até que me provassem o contrário e, nessas revistas, nem o inferno era o limite. Peguei uma e folheei despretensiosamente, os mesmos relatos de sempre. Esse era o ruim desse vício, muitas se repetiam para chamar atenção de leitores novos. Peguei outra e, depois, outra. De repente, esperava encontrar alguma explicação do que tinha acontecido comigo em casa. Até que a solução caiu no meu colo — literalmente. Um tabuleiro que prometia ser o portal para falar com os mortos.
Eu estava curiosa, muito curiosa, depois que o incidente voltou à tona na minha mente. Quem era aquele fantasma e por que ele espantava todos os moradores? Por que ele dizia que a casa era dele? Por que ele não voltou em três dias?
Retornei após comprar a revista que vinha com o tabuleiro de brinde. Talvez Elise o tivesse mesmo espantado com seus cristais e eu estava prestes a reverter aquilo. Senti meu corpo ficar todo em alerta assim que me sentei no chão de frente para o objeto.
Desde quando minha vida tinha ficado tão tediosa a ponto de procurar diversão em coisas assim?
Eu nem ao menos entendia o motivo de querer contatá-lo ou ter respostas para perguntas que, de repente, ficaram tão urgentes.
Apoiei os indicadores no oráculo e o movi pelo tabuleiro formando um símbolo do infinito, esperando que aquilo começasse a sessão. Foram alguns minutos sem resposta, por isso larguei a peça e comecei a rir da minha ingenuidade. Claro que não seria fácil, nunca era quando se queria.
Fitei o nada por alguns minutos, me sentindo miserável por procurar logo isso como forma de me distrair. O medo que senti foi mesmo parcialmente apagado da minha mente para eu querer estabelecer contato com um fantasma. Talvez eu tenha voltado ao normal de novo, talvez os fantasmas tivessem sumido assim como sumiram quando eu era criança.
Talvez...
Quando ameacei me levantar, ouvi alguém dizer no meu ouvido:
— Estou vendo que sentiu minha falta.
Meus poros se arrepiaram, meus olhos se arregalaram e eu coloquei a mão na boca para impedir que meu queixo batesse no chão.
Era ele.
Vi sua figura se materializar na minha frente, depois do tabuleiro. Acho que era seguro dizer que até meu cabelo estava arrepiado nesse ponto do tamanho que foi meu susto.
— Nunca mais use isto — falou enquanto tocava o oráculo. — Isso daqui não é nada seguro.
— On-onde você estava? — arranjei coragem para perguntar, mas minha voz saiu completamente patética de tão dominada pelo medo. Pigarreei. Fui eu que o chamei, eu precisava ter o controle.
— Resolvendo problemas — respondeu. Eu fui obrigada a olhá-lo com descrença. — O que foi? Só vocês, humanos, têm direito de ter problemas?
Ele pareceu genuinamente ofendido e sua imagem ficou ainda mais nítida, ao contrário da transparência dos últimos segundos que o vi da outra vez.
O assombro corria pelas minhas veias, me fazendo ficar tonta por estar vendo um ser que não existia. Porém, em menor quantidade do que na primeira, quanto mais meus olhos o viam, mais minha mente trabalhava para aceitá-lo. E eu estava completamente intrigada com as reações do meu corpo, mas não mais do que com o ser à minha frente.
— Certo, digamos que fantasmas tenham “problemas”. — Fiz aspas com os dedos. — Achei que vocês precisassem pelo menos de um lugar para dormir às vezes e visto que você disse que essa era a sua casa...
— Esta é a minha casa — corrigiu e moveu a peça pelas letras do meu nome. Resolvi ignorar o quanto isso foi medonho. Tecnicamente, não tinha ninguém movendo aquele oráculo, mas eu estava vendo uma pessoa claramente o movimentando. Assustador.
— Ok, digamos também que essa seja sua “casa”. — Fiz mais aspas com os dedos. — Por que você não voltou?
Ele largou a peça e me olhou de cima a baixo. Senti minha pele corresponder ao seu olhar pinicando com desconforto.
— Por que o questionamento? Você não parecia querer muito a presença de um fantasma da última vez que nos falamos. O que mudou, hein?
— Eu te fiz uma pergunta, você responde e eu respondo — falei, firme.
Ele me analisou novamente e lá foi minha pele pinicar outra vez...
— Não preciso da sua resposta. Eu sei o que mudou — disse, desaparecendo em seguida. Procurei-o com os olhos pela casa, me sentindo frustrada pela falta de respostas. O que ele pensava que era? Eu o chamei, ele me devia algumas explicações por tê-lo invocado (seja lá como era o nome) de volta.
Senti uma presença atrás de mim, como se meu estômago estivesse flutuando, mas minhas costas carregassem o peso de alguém. Não me atrevi a olhá-lo pelo medo que ainda me consumia. Eu não tive essa sensação quando ele apareceu na minha frente, provavelmente ele estava utilizando toda a atmosfera para me causar mais medo com sua energia. Meu cabelo foi afastado e me sobressaltei, mas não saí do lugar, estava congelada pela expectativa.
— Você está precisando de emoção na sua vida — disse ao pé do meu ouvido, quase em um sussurro. Farejou minha pele e o contato pareceu o de uma pena fazendo cócegas, meus poros se eriçaram imediatamente. Poros traidores. — , ... Deixe-me adivinhar: você pensou que sua vida estava uma chatice, por isso tem uma garrafa vazia na pia que te deu coragem de me chamar utilizando um tabuleiro. Eu te fiz sentir mais emoção do que tudo na sua vidinha medíocre. Acertei?
Engoli em seco enquanto analisava suas palavras. Não sabia o motivo que me fez ter comprado o tabuleiro ou procurar por respostas, mas eu sabia que gostava do frio na barriga que ele estava me provocando... Fazia com que eu me sentisse viva. Tudo na minha vida reunido em uma grande bola de neve não me causava nem um por cento do que ele estava causando.
— N-não — arrisquei uma mentira que o fez rir e assoprar um vento frio na minha pele. Por que estava reagindo de maneira tão afetada perto dele?
— Péssima mentirosa — falou e desapareceu novamente, deixando uma sensação de vazio desesperadora. Não durou tanto para que eu me preocupasse, no entanto. Logo ele apareceu em pé na minha frente e empurrou o tabuleiro para longe, causando um estrondo quando foi de encontro com a parede. — Você é a primeira pessoa que, de fato, me vê, o que me surpreende por me querer de volta aqui. — Sentou-se de pernas cruzadas na minha frente.
Eu também estava surpresa, mas o que ele disse sobre a monotonia podia até ser verdade. Eu que sempre acreditei que gostava da minha rotina, precisava agora de um garoto fantasma para me tirar dela. Talvez eu devesse seguir com o conselho de Elise, criar coragem e investir no Clark; namorar alguém, nem que fosse da graduação, poderia me fazer bem.
— Eu só quero te ajudar — falei. — Você pode me dizer o seu nome e o que aconteceu para você querer tanto esse apartamento a ponto de espantar todos. Vou tentar te ajudar a encontrar a luz.
Ele olhou para o teto e gargalhou alto.
— Acha que se tivesse luz, eu já não teria encontrado sozinho? — perguntou. — E para que você precisa tanto saber o meu nome?
Porque lembrei de uma revista que dizia que saber o nome da criatura lhe dava poder sobre ela.
— Porque você sabe o meu, como eu te disse da outra vez — disfarcei. Ele não poderia saber que eu sabia disso ou poderia dar um jeito de usar contra mim.
— Eu sabia o nome dos outros também, o que te torna tão especial para que te conte o meu? — perguntou, me olhando de novo.
Percebi que seus olhos não eram de qualquer tom de azul, mas um diferente, que eu nunca vi antes. Só podia estar perdendo a sanidade por pensar isso dos olhos de um fantasma.
— Porque eu te vejo — falei, fitando o chão, que era mais seguro do que seus olhos. — E porque eu te chamei aqui de novo, para a minha casa, que você insiste tanto que é sua e eu devo sair.
Ele me analisou de novo, parecendo pensar. Só pude torcer para que funcionasse ou eu sofreria com o peso de ser negada por um fantasma e possivelmente assombrada pelo resto dos meus dias. Levantou um pouco e me mostrou um cartão da biblioteca da minha universidade. Tentei o pegar, mas minha mão atravessou o objeto. Ele riu e eu quis repetir só para arrancar aquele som dele outra vez.
— li em voz alta o conteúdo do cartão. — História? Você fazia História também? — Encarei-o, surpresa.
— Não me lembro, mas, pelo visto, sim. — Ele guardou o cartão no bolso da calça jeans. — Eu não me lembro de nada da minha vida. Só acordei aqui e deduzi que essa deveria ser minha casa e que estou morto.
— Engraçado... Nós deveríamos ter estudado juntos — comentei. — Mas não me lembro de você, provavelmente você deveria estar em algum semestre à frente. — Parei e pensei por um momento. Eu também não me lembrava de ter visto nenhuma notícia sobre morte de aluno na universidade ou qualquer outro acidente trágico...
Ao que tudo indicava, andei bastante ocupada com o que aconteceu debaixo do meu próprio nariz.
Ele deu de ombros.
— Também não me lembro de você, mas não lembro nem da minha própria mãe. Não que adiantasse muito, ela não me veria, seria a mesma coisa que nada. — Senti a tristeza pingando do seu tom de voz e imediatamente um pedaço do medo se esvaiu para dar lugar à empatia.
Deveria ser tão solitário não lembrar de nada e ninguém, andar por aí a esmo. Me imaginei no lugar dele, sem meu pai, Elise e até mesmo os poucos minutos diários com o senhor Åkerlund que me fazia rir. A melancolia me abraçou e senti um frio na barriga. A vida de fantasma deveria ser um tanto quanto triste e fui invadida por pena de .
Fantasmas realmente deveriam ter problemas.
— Acho que estou ficando com sono — declarei antes que pensasse demais e acabasse chorando. Eu não era muito confiável controlando minhas emoções, piorava ainda mais quando eu já tinha bebido. Na última vez, chorei assistindo o canal infantil quando o cachorro do desenho animado fugiu de casa e ficou perdido na rua por dias.
Olhei-o, esperando com que ele sumisse de novo para eu poder ir me deitar.
— O que foi? — ele perguntou com uma voz afetada. — Pode ir dormir, contanto que você e suas coisas estejam fora daqui amanhã cedo.
Franzi o cenho. Ele só poderia estar de brincadeira.
— Você não vai sumir de novo? Eu te chamei, estou te deixando ir agora.
Ele soltou uma risada de escárnio que foi tão irritante que eu poderia lhe dar um tapa pela ousadia.
— Acha que depois de me perturbar, pode me mandar embora a hora que quiser? — Eu assenti em resposta. — Errado, . Muito errado. Essa daqui é minha casa.
Fiquei sem palavras por um momento. A sensação de quando você se toca que fez uma merda gigante e tudo acabou de explodir na sua cara. Era claro que ele não iria embora... Eu o havia chamado. Agora ele não iria embora por culpa exclusivamente minha.
— Eu... — falei sem saber como prosseguir. — Eu não tenho para onde ir. Todas minhas economias estão aqui — admiti com o olhar fixo nele que ainda parecia tão real como uma pessoa qualquer. Minha voz era de alguém que iria se debulhar em lágrimas a qualquer segundo, não sei explicar o porquê.
Ele me analisou por uns segundos.
— Bem, nem eu — respondeu, se esticando para se levantar logo em seguida. — E esse papo também me causou sono. Com licença, mas vou me retirar.
Ele saiu andando para o quarto. Fiz uma análise mais meticulosa de suas roupas: a camiseta preta de alguma banda, para complementar uma calça jeans folgada e o Converse vermelho surrado. Elas ainda não estavam tão fora de moda assim para dizer que ele havia morrido há muitos anos. Devia ter sido uma morte relativamente recente.
Ele se deitou na minha cama e sua presença era tão real que senti o tênis surrado de encontro com a colcha creme. Não sabia dizer o que me irritou mais, ele estar na minha cama com toda sua folga ou estar calçado ali. Provavelmente os dois.
Me levantei e fiz o caminho para o quarto.
— Pode levantar, agora! — ordenei. Ele esticou as pernas, arrastando um pouco do lençol no caminho com o pé. — Ai! Eu não posso nem olhar esse tênis sujo em cima da minha colcha limpinha — resmunguei, olhando para o lado.
— Eu sou um fantasma, tudo em mim é espectro. Por isso meu tênis não vai sujar sua cama — ele comentou como se fosse óbvio. — Agora, com licença, preciso dormir.
— Fantasmas dormem? — perguntei, virando o rosto para fitá-lo. Por que tudo nele estava começando a me intrigar mais do que me assustar? Era para ser o contrário.
— É claro que dormimos — ele disse, ajeitando o travesseiro. — Cama fofinha, a propósito.
— Ahm... Obrigada. — Eu estava parada no batente da porta, o observando se aconchegar na minha cama e chocada com o nível de folga daquele garoto. — Você não vai embora mais, é isso?
— Não pretendo — respondeu de olhos fechados.
— Eu também não vou embora. — Pigarreei. — Sem ofensa, mas você não é mais tão medonho a ponto de me espantar.
— Eu ainda posso jogar suas roupas pela janela — lembrou. — Porém, você até que é tolerável e estou disposto a te dar até amanhã de manhã.
Então ele iria continuar com aquilo de me expulsar na manhã seguinte mesmo que eu tenha arrumado sua bagunça, chamado, conversado com ele e tentado ajudar?
Ah, mas ele estava enganado se achava que eu baixaria a cabeça de novo.
Eu ficaria com minha casa nem que tivesse que lutar por ela.


Continua...


Nota da autora: Essa história vem sendo um projeto meu desde 2023, eu chutei o balde em 2024 e, esse ano, busquei de volta. Ela é inspirada no k-drama Bring It On, Ghost (ou Hey Ghost, Let's Fight) e no filme E Se Fosse Verdade. Será um prazer compartilhar mais uma história que tenho aqui guardada, dessa vez, da Sunny e do Lars <3

Nota da beth: Eu AMEI a proposta da história e amei mais ainda as interações que a teve com o 💜

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