No dia seguinte, eu entreguei meu primeiro rascunho. Não estava nem perto do fim, mas aquele era o primeiro passo para trilhar o caminho que me levaria até ele. Pela tarde, enquanto eu estava passando as notas da matéria História Moderna para o sistema, Elise apareceu e, logo em seguida, o professor Emil. Os dois pareciam cúmplices de algo pelas suas feições, mas antes de questionar algo, preferi esperar para ver o que eles teriam para me dizer.
Ele começou a mexer no próprio armário enquanto ela vinha em minha direção.
— Oi! Como você está? — Ela se sentou na minha frente.
Minha atenção continuava no computador.
— Bem, finalmente entreguei o primeiro rascunho. E você? — respondi.
— Bem, também. Como vai aquele assunto de ontem?
Pensei em dormindo no sofá hoje de manhã, parecendo alheio a mim e ao fato de ser um ser sobrenatural. Até roncar, ele roncava! Cada vez mais ele se assemelhava a um humano. Era estranho e talvez fosse isso o que me intrigava. Poderia começar a escrever o artigo da Haunted sobre o quanto parecia humano, diferente de quando ele apareceu para mim pela primeira vez com a transparência. Seria um bom começo?
Parei de mexer no computador para cochichar para Elise:
— Ele não tentou mais falar comigo. Quando saí hoje, ele estava roncando no sofá.
— Então o lance das pedras funcionou mesmo para botar medo nele — ela cochichou de volta e fez uma dancinha. — Pensei que não usaria o conhecimento desse curso para nada.
— É, funcionou.
Ainda bem, acrescentei mentalmente. Eu ainda estava por um triz de desistir, mas mais esperançosa graças às pedras dela.
— O que vocês duas estão cochichando aí? — perguntou Emil, se sentando ao lado dela e fazendo suas bochechas corarem pela proximidade. Ela ficava toda boba perto dele, era bonitinho de se ver.
— Ah, nada. Estava apenas amaciando a fera para o que vem por aí — disse ela em tom de brincadeira, mas eu não entendi nada. Ao ver a interrogação gigante no meio da minha testa, ela continuou: — Diz logo para ela, senhor Akerlund.
— Emil. Para vocês, é apenas Emil. Não vão querer que eu as chame de senhoritas e Traum, não é?
— Não — respondemos juntas. A mera ideia de ser chamada de “senhorita ” por ele me causava calafrios. Emil aparentava e falava de um jeito que nos deixava com a impressão que tinha a mesma idade que a gente. Então, não. Não o via me chamando estilo professor Granström. E Elise... Bom, já estava explícito o motivo que ela não o via a chamando de “senhorita Traum”.
— Pois bem... — disse ele e pigarreou, deixando claro que estava nervoso. — , sei que você disse há pouco tempo que não queria nenhum animal de estimação, mas...
Ele não sabia como continuar. Arqueei uma sobrancelha. Emil sem saber o que falar era novo.
— Apareceu mais um gato abandonado no campus e queremos que você o acolha — Elise tomou as rédeas, falando como se tivesse arrancado um band-aid. Emil a olhou de lado, censurando-a, e ela deu um sorrisinho amarelo de volta. — É melhor ir direto ao ponto com ela, acredite em mim.
Pisquei uma... duas... três vezes. Sem entender nada.
— Por que eu? — perguntei no automático, por dentro continuava confusa.
— Você é a minha última esperança. Bob é um gato bobalhão que vai com todo mundo e estou com medo de que alguém faça alguma maldade com ele — explicou ele, seus olhos parecendo me implorar para ceder.
Mas...
Mais um ser naquela casa? Era para eu morar sozinha e, de repente, aparecia mais dois colegas de apartamento.
— E-Eu não posso — admiti, me sentindo mal por estar negando algo para ele. Eu me sentia em débito com ele, por isso não estava muito firme.
— Por favor, . Você pode conhecê-lo antes e decidir depois — interveio ela, percebendo logo de cara minha hesitação. Ela era minha melhor amiga, afinal.
— É, a gente pode ir até lá e te mostrar onde ele fica — disse Emil, com olhos esperançosos agora.
— Não posso agora. Estou passando as notas para o sistema e, como é final de bimestre, estarei ocupada com isso pelo resto do dia — expliquei.
— Não tem problema, podemos levar o Bob para sua casa e vemos se ele se adapta na prática — disse ela, tentando conter seu ânimo. Até parece que era ela que iria adotar um gato e não eu.
Uma parte de mim queria poder negar, mas Elise sabia exatamente como me encurralar e Emil com aqueles olhos tão emotivos eram a minha perdição.
— Se ele fizer muita bagunça, vocês dois vão me ajudar — resmunguei, voltando minha atenção para a tela do computador.
Ela deu um pulinho e depois se levantou para me abraçar.
— Obrigada! Você não vai se arrepender — disse enquanto me amassava em seu abraço.
— Bela cúmplice que você arrumou — falei em um tom sarcástico para Emil.
Sua risada masculina ecoou pela sala e Elise se enrijeceu e me soltou. Ela dizia que o som da risada dele era o mais bonito do mundo e ficava toda desconcertada quando isso acontecia. Logo ela, que enfrentou um fantasma ontem sem nem um pingo de medo, perdia toda a compostura por causa de uma risada. O amor era mesmo bem estranho.
Nós jogamos conversa fora por alguns minutos. Eles falaram mais sobre o gato que se chamava Bob do que qualquer outro tópico, eu apenas ouvi atentamente enquanto passava as notas para a planilha. A conversa durou até Emil ter que sair para dar aula para a graduação. Eu não via a hora de ficar sozinha com ela para poder desabafar o que acumulei.
— Graças a você, agora eu tenho um gato e um fantasma de estimação — censurei-a. — Você não pode ficar querendo que eu acolha todo mundo só porque moro sozinha.
Ela cruzou os braços, suas feições demonstrando surpresa pela censura. Não parecia nada satisfeita com o que ouviu.
— O fantasma já morava na sua casa, só propus uma solução amigável. Fora que eu perguntei se queria que ele fosse embora e foi você que disse não. — Ela se ajeitou na cadeira. — E sobre o gato: você não conseguiria dormir a noite sabendo que ele estaria por aqui, sujeito a qualquer coisa que quisessem fazer com ele.
— Sim, você está certa. Eu concordei em deixar o lá e realmente não me aquietaria até resgatar o gato. Só que o problema é que eu não posso abraçar o mundo só porque agora moro sozinha. Se aparecer outro ser, eu não quero nem ficar sabendo, entendeu? — Me virei para pegar os papéis na impressora.
— Tudo bem — ela disse, cortando o assunto, provavelmente antes que evoluísse para uma briga. — Sem mais seres vivos e não-vivos naquela casa, já entendi.
— Ótimo — falei, me virando e organizando os papéis no tampo da mesa.
— Você o ouviu rindo? — Ela fechou os olhos e franziu as sobrancelhas e a boca.
Repeli um sorriso com a mudança repentina de assunto, ela deveria estar se segurando para esperar ele sair e comentar isso comigo. Ao olhar sua expressão, só podia concluir novamente: o amor é mesmo estranho. Não que eu fosse a inimiga do amor, eu amei Sam — meu ex-namorado da época da escola e que trabalhava com meu pai agora —, mas agora acho isso uma bobagem. Eu até que gostava do Clark Olsen, ele era bonitinho, mas nem metade de um terço do amor de Elise pelo professor Emil. E a resposta para isso era simples: eu não queria correr o risco de me apaixonar por algo que não estava disposto a correr o risco para ter. Achava praticamente impossível um romance entre nós, os dois estavam em estágios diferentes da vida. O mesmo servia para Elise e Emil, a idade, o estilo de vida e as regras da Universidade são empecilhos grandes demais. Porém, aqui estava ela, diante de mim, toda derretida pela risada do meu orientador, como se eles pudessem ter algo qualquer dia desses. Ah, o amor...
Deixei com que levitasse em seus devaneios apaixonados enquanto marcava as notas acima da média com marca-texto verde e as abaixo de marca-texto vermelho. Elise era pura emoção, eu costumava ser a que a trazia de volta. Eu não fazia o tipo racional, mas eu era apenas para protegê-la. Emil não a correspondia e aquilo que ela sentia era perigoso, poderia afastá-lo de nós duas e não queria nem pensar no que poderia acontecer se ele viesse a descobrir.
Ela começou a divagar sobre as covinhas dele e como ele sorria com os olhos perto de nós. Quando comecei a passar as notas de Antropologia para o sistema, ela resolveu que estava na hora de ir participar da sua aula do dia. Tive medo de ter sido muito dura com ela sobre o gato e , mas eu ainda estava sobrecarregada pela decisão de deixá-lo ficar na minha casa depois de ter me visto pelada. Acho que, afinal, um gatinho seria bom para melhorar o humor merda que eu estava esses dias. Era um milagre aquele quartzo fumê não me repelir também, minha energia não deveria estar das melhores.
Ao anoitecer, Emil e Elise levaram uma bolsinha com um gato falante ao meu lado até o apartamento. Porém, ao chegar à portaria do prédio, cada um seguiu para um rumo porque tinham compromissos. Ou seja, sobrou para eu lidar sozinha com a adaptação do gato. Equilibrei a bolsa e uma sacola de itens que Emil comprou. Quando abri a porta, quase caí para trás com a TV em um volume ensurdecedor e a risada do meu fantasma particular vinda do sofá. Parecia que ele estava calculando meios de me fazer ser punida por excesso de barulho. Percebi que o som estava vindo de um videogame que eu não tinha e ele parecia muito entretido com o controle enquanto conversava sozinho.
— Meu Deus, abaixa isso! — gritei, deixando a bolsa e a sacola no chão para tapar as orelhas.
Ele nem pareceu ter notado minha presença.
Parei na frente da TV, finalmente atraindo sua atenção.
— ! — gritou de volta e apertou vários botões. — Eu estou quase ganhando do Jeff, saia daí!
— Não vou sair enquanto não diminuir o volume dessa televisão! — gritei de volta e cruzei os braços na frente do peito.
Ele tentou desviar o olhar pelo lado direito da minha cintura, depois, para o esquerdo. Atrapalhei em ambos. Apertou mais alguns botões e o barulho cessou. Olhei para a tela atrás de mim, ele havia pausado a partida.
— Pronto? Agora você pode sair? — perguntou, estressado.
— Não, só quando diminuir o volume — falei com firmeza. — E quem diabos é Jeff?
Ele olhou para o lugar vago no sofá e depois para mim.
— Jeff, . , Jeff. Agora abaixa a televisão para ela nos deixar em paz — continuou falando sozinho.
— Jeff é seu amigo imaginário? — falei com escárnio. — Você não está meio grandinho para isso?
Ele franziu o cenho e repetiu o gesto, olhou do lugar vazio para mim. Parecia totalmente confuso pelo seu semblante e o brilho nos seus lindos olhos.
Quê? Lindos olhos? De onde tinha vindo isso?
— Você não o vê? — ele apontou para o controle levitando, eu me sobressaltei a ponto de dar com a bunda na tela da televisão e desligar o videogame. — Ah, não! Eu estava quase ganhando...
— Tem... tem... um fantasma aqui? — perguntei com a mão no peito e encarando o controle que levitava sem ninguém o segurar. Engoli em seco, aquilo era bizarro.
sorriu de lado. Ok, não era esse meu ponto. Tinha um fantasma ali visivelmente, mas um invisível também. O maldito controle estava levitando! Comecei a escutar um miado e me lembrei que o gato ainda estava na bolsa. Fui andando a passos rápidos até a porta, tentando ignorar o que estava acontecendo para soltar o gato, e veio atrás.
— Você não vê o Jeff?
— Você trouxe outro fantasma para minha casa? — perguntei, soando um pouco indignada. Olhei para o balcão da cozinha e estava lotado de capas de videogames. O que era aquilo? Uma festa do clubinho deles? Tinha o Jeff e mais quantos fantasmas naquela casa?
Soltei o gato que miava de maneira escandalosa. Ele saiu da bolsa e deu de cara com , em seguida, chiou, se arrepiou e saiu correndo em direção ao sofá. Ao chegar ao estofado, olhou na direção que deveria estar o tal Jeff, chiou e correu para o quarto.
Aquilo só piorava.
— O que é isso? — perguntou, olhando para o caminho que o felino fez.
— Esse é o Bob, novo integrante da casa... — Botei a palma da mão na testa. — ...e que, pelo visto, não se dá bem com fantasmas.
Eu deveria ter me lembrado como animais reagiam mal às presenças sobrenaturais. Pobre Bob, essa foi uma péssima primeira impressão.
— Você arrumou um gato sem me perguntar antes? — ele parecia ultrajado, aquilo me irritou num nível estratosférico.
— Sua opinião não faz diferença, . Eu sou a dona dessa casa, então tenho a decisão final.
— É mesmo, Ann? — ele perguntou com sarcasmo.
— É mesmo — soltei.
Os olhos dele estavam em chamas. Só quando dei alguns passos para trás pela rajada de vento que me chicoteou e atingi a porta foi que percebi o quanto nos aproximamos. Ele me desafiava a continuar a pose firme que eu sustentava e eu lutava para corresponder, mas minha pele se arrepiou, meu coração começou a martelar meu peito, querendo sair, minhas mãos se fecharam em socos e minhas pernas tremeram.
Eu me senti viva.
E mal em estar tendo todas aquelas reações perto logo dele.
— Não acredita tanto assim nas suas palavras? — Tive a impressão de que, se ele estivesse vivo, seu hálito bateria no meu rosto. Porém tudo que eu senti foi a atmosfera mudando pelas suas palavras e pose ameaçadoras. Ele estava tentando fazer com que eu me intimidasse, mas eu continuei tentando me manter firme. Deveria o estar matando por dentro.
Eu não o sentia, mas estava presa entre ele e a porta. Foi somente quando ele deu mais um passo quase colando nossos corpos que suas mãos me tocaram na cintura. Todo meu corpo disparou.
Perigo, perigo, perigo!
Ele era gelado como um floco de neve. Seus dedos ao redor da minha pele eram firmes. Estava claro que ele queria me assustar e eu deveria estar seguindo com o protocolo, mas o jeito que meu corpo estava correspondendo era de alguém sedento pelo que estava por vir. Essa minha maldita curiosidade só me colocava em maus lençóis.
Mas cá estava eu, ainda curiosa.
— Cuidado, , ou os seus cristais não vão poder te salvar — murmurou. Seu nariz quase tocou o meu. Eu senti como se ele fosse humano, a não ser pelo calor que lhe faltava. Tê-lo perto era como uma brisa. Seus olhos me instigavam a continuar com aquela batalha.
— Quer testar? — Tirei forças para formular aquela frase não sabia de onde, mas parecia ter dado certo, sua boca se retorceu em um sorriso torto. — Você tem tanta energia negativa aí dentro que já podemos te considerar um espírito obsessor.
O sorriso sumiu rápido quanto surgiu e ele me fuzilou com seus olhos de gelo. A atmosfera ficou sombria, mudando de acordo com as emoções dele. Deveria ser agora a hora de sentir medo, se eu tivesse algum senso de preservação dentro do meu corpo, mas não senti nada. Eu só queria continuar. Eu só queria continuar sentindo algo no meio daquela piscina de vazio que estava submersa. Não importava que era que estava me causando todo aquele turbilhão de sensações, eu queria sentir de novo.
— Você está brincando com o perigo, .
— Que perigo? Você? — murmurei e meus olhos fitaram sua boca. O modo com que seus lábios se mexiam ao dizer “perigo” era hipnotizante.
Será que seus lábios eram frios assim como suas mãos e seus olhos?
Céus, eu estava pensando em como seria tocá-lo de volta.
Suas mãos me apertaram um pouco. Os olhos nem piscavam, travados nos meus.
O barulho de videogame ressoou alto pela casa, acordando-o do transe. Ele me soltou como se eu queimasse. Demorei para processar a falta que aquela atmosfera toda das emoções dele causava em mim. Fiquei lá, estatelada na porta, enquanto ele se virava e começava a falar com o Jeff — o culpado por ligar a TV de novo.
Como ele podia simplesmente virar e fingir que nada tinha acontecido?
Precisava recuperar meus sentidos ou faria papel de tola se arriscasse sair dali naquele momento.
Abaixei para pegar a sacola com as coisas do Bob e depois andei com as pernas feito gelatinas até meu quarto. Minha respiração indicava que eu corri, no mínimo, meia maratona. Nem me atrevi a lhe lançar um último olhar, apenas fechei a porta para ele não ver o estrago que fez em mim.
Eu não podia estar falando sério.
Não, não podia ser.
Eu pensei em como seria tocar seus lábios.
O fantasma que morava comigo, que assombrava minha casa.
Sem conseguir tirar o incidente da minha cabeça, despejei areia na caixa e a deixei debaixo da janela. Depois, coloquei um pouco de ração e água que estava em uma garrafa de plástico na mesa de cabeceira dentro dos potes que Emil havia enviado.
Por que ele despertava curiosidade em mim ao mesmo tempo em que fazia de tudo para parecer assustador?
Só conhecia o lado dele que no máximo jogava minhas roupas para o alto, mas ele poderia facilmente pegar uma das facas na cozinha e me matar enquanto eu ficava lá pensando em como seria incrivelmente novo tocá-lo.
Peguei o bloco de notas que estava em cima da cômoda. Podia descontar toda minha frustração escrevendo sobre ele, parecia a oportunidade que eu estava esperando para iniciar meu artigo para a Haunted.
“O fantasma que assombra minha casa”, título muito genérico.
“O fantasma que me deixava curiosa”, título pouco chamativo.
Ponderei por um segundo. O que fazia de novo que eu já não tivesse lido na Haunted e em outras revistas?
Revivi a memória de suas mãos me tocando, seu nariz perto do meu e seus olhos me desafiando. E então todas as reações que meu corpo tinha quando ele se aproximava muito, mas, em especial, as de hoje. Elas foram incrivelmente novas e uma parte minha queria muito ir à sala confrontá-lo mais uma vez. Eu estava ansiando para iniciar uma nova briga. Ele mexia comigo, de uma forma boa pela sensação que estava sentindo e má pela consequência que isso poderia causar.
“O fantasma que me atormenta”, meus dedos escreveram.
Era perfeito, descrevia a situação com precisão.
Escrevi sobre a primeira aparição dele, como eu identifiquei um poltergeist pela bagunça da minha casa. Porém, se era mesmo esse tipo de fantasma, por que agora ele parecia tão inocente? Ele não parecia mais movido pela raiva, só alguém vagando por aí. Imaginava que apenas os poltergeists tivessem a capacidade de tocar, então provavelmente ele se encaixava nesse termo. Se eu via poltergeists, por que não conseguia ver o tal Jeff? Ele estava tocando o controle de videogame, e ele existia, já que o Bob reagiu mal a ele também.
Os questionamentos pairavam ao redor de mim, me deixando confusa. Eu precisava começar a fazer perguntas para ele, não podia simplesmente conviver sem questionamentos. Eu necessitava de respostas. E, para isso, precisava saber mais sobre o que aconteceu com ele. Se eu ainda queria o ajudar a encontrar o descanso eterno, precisava começar a trabalhar em cima disso. Escolher as perguntas certas e instigar suas lembranças ao máximo para saber até onde sua memória ia.
Salvei o arquivo com poucas palavras e desliguei o computador.
Então estava decidido.
Amanhã, eu saberia mais sobre quem foi Johansson.
* * *
Eu estava esperando o professor Åkerlund logo na porta da sala. Ansiosa era pouco para descrever o estado em que ele me encontrou.
— Bom dia, . Caiu da cama? — ele disse, me analisando. — O Bob fez alguma coisa? Ou é por causa do trabalho? Ainda nem comecei a corri...
— Não — interrompi-o. — O Bob está bem e não é por causa do trabalho. Eu preciso falar com você urgentemente sobre outro assunto.
Ele concordou e se deixou conduzir para dentro da sala de reuniões que ficava ali dentro da coordenação. Eu tremia como se tivesse tomado café demais. Não era o caso, não havia uma gota de cafeína no meu sistema. Só mais uma noite mal dormida para a conta. Tranquei a sala. Não era um assunto confidencial, mas eu não queria correr o risco de ser interrompida por outro professor, já que eles continuariam a chegar por conta do horário.
Eu não havia pregado os olhos revivendo a cena na sala em looping infinito madrugada adentro. Então, isso explicava minha aparência. Eu estava um caco pela noite em claro, mas a minha mente estava com a corda toda, ansiosa para receber as respostas das suas perguntas. Eu decidi começar abordando Emil, já que ainda dormia. E, por mais que eu quisesse muito cutucá-lo e dar voz aos questionamentos que estive ensaiando durante a madrugada, decidi adiar ou me atrasaria para abordar Emil antes que se dirigisse para a sua primeira aula. Digamos que essa decisão de deveu mais a não saber como reagir depois de ter olhado para sua boca com curiosidade ontem.
— Antes de tudo, sei que deve estar preocupado, então vou falar sobre o Bob. Ele se enfiou debaixo da minha cama quando abri a bolsa, aparentemente odiou hm... — pigarreei — minhas visitas, mas saiu de lá para comer um pouco e beber água de madrugada. Hoje de manhã, quando eu estava saindo, ele usou a caixa de areia. Ainda não tenho certeza se poderei ficar com ele, mas até agora não me deu muito trabalho, o que é um ponto a favor para ele ficar.
Ele soltou uma lufada de ar com alívio e sorriu.
— Fico feliz — falou e lá estavam as famosas covinhas que Elise tanto divagava. Elas eram realmente fofas. — Obrigado de novo, . Eu pensei em colocá-lo junto com a Pluma, mas ela ainda não foi castrada porque está para entrar no cio. Fico louco só de imaginar essa situação...
— Por nada. — Sorri, totalmente absorta pelo sorriso gentil dele. Foco, . — Agora, eu também preciso da sua ajuda. — Me encostei no tampo da mesa e ele se sentou ao meu lado. Seu perfume amadeirado me abraçou e me deu mais força para continuar. — Eu... Hm... Queria saber se o sen... você... — Aquilo não estava indo nada bem. Pigarreei e ele me incentivou a continuar com um manear de cabeça. — Quero saber se você sabe de algum acidente grave envolvendo algum aluno do curso na última década.
Por que eu estava hesitando tanto em pedir algo para Emil? Nós éramos amigos. Ele me pediu um favor ontem mesmo. Talvez pelo medo de qual justificativa inventar quando ele me perguntasse...
— Por quê? — franziu o cenho.
Exatamente isso.
— Por nada! Só curiosidade... mórbida — me pus a me justificar com rapidez.
Como poderia explicar para o senhor que “minha visita” que o Bob reagiu mal era na verdade alguém que não existe mais e com quem eu dividia a casa? Fora que ele tinha um cartão da biblioteca que provava que estudou ali.
Ah, é. Eu não podia.
— Não que eu saiba — ele respondeu, me analisando. — Não trabalho aqui há muito tempo, mas sou aluno da Universidade desde antes dos vinte anos e se tivesse algum tipo de acidente que ameaçasse a vida de algum aluno, eu acho que as notícias voariam.
— Entendi... — falei enquanto pensava em como prosseguir com meu plano. Eu teria que ir mais afundo e, para isso, eu pediria ajuda de Elise. — O senhor se importa de avisar aos outros professores que eu dei um pulo na biblioteca?
— Não. — Deu de ombros. — O que foi? Você está estranha.
— Nada — respondi, dessa vez, rápido demais. — Não é nada, só a curiosidade mórbida que te falei. Acordei pensando nisso.
— Está bem... — Ele não parecia nada convencido. — Eu tenho o primeiro horário livre que vou usar para dar uma olhada em alguns trabalhos da graduação, então posso avisar a quem aparecer.
— Obrigada. — Sorri um sorriso forçado antes de destrancar a porta e sair.
Quando alcancei o exterior da sala dos professores, inspirei o ar para os meus pulmões necessitados. Tive que me controlar ao máximo para ele não descobrir o que vinha acontecendo comigo. Não era que eu não achasse que ele não pudesse saber disso, mas era a sua reação de quando soubesse que eu via e falava com um fantasma que me preocupava. Não era todo mundo que se convenceria fácil como Elise. As pessoas fariam chacota, então, para evitar, era melhor com que ele não soubesse.
Não havia ninguém conhecido no corredor. Agradeci mentalmente por isso. Eu sabia que Elise também tinha o primeiro horário livre porque ela o utilizava para ficar jogando conversa fora com o Emil enquanto eu estava trabalhando. Encontrei-a entrando no bloco e ela se assustou ao me ver.
— Passou um caminhão em cima de você? — ela perguntou logo de cara.
Sorri e senti minha pele repuxar.
— Quase.
Claro que eu não falaria a verdade sobre meu embate com . Eu ainda não estava pronta para ouvir um sermão do quanto aquilo foi perigoso ou que eu era carente demais a ponto de imaginar como seria tocá-lo. Não me imaginava descrevendo o quão seu toque na minha pele parecia real.
— Foi o Bob? Ele reagiu mal? — ela perguntou, os olhos me estudavam.
— O Bob está bem. Ele odiou o e o amigo fantasma dele, o Jeff. Porém está bem. — Suspirei. — Ontem, eu cheguei em casa e o estava com esse amigo no sofá jogando videogame. Eu achei estranho porque não tenho um videogame, mas me distraí com a TV que estava muito alta e porque ele parecia falar sozinho. Depois ele me apresentou a esse tal Jeff, mas tudo que eu vi foi um controle levitando.
A parte da briga, eu realmente ocultaria. Por agora.
— Levitando? — ela confirmou.
— Sim. Estava levitando e os botões sendo apertados como se alguém estivesse jogando com ele.
Ela arqueou as duas sobrancelhas.
— E tem mais: quando soltei o Bob, ele chiou tanto para o quanto para o Jeff. Então ele existe, não é invenção do — justifiquei.
— Você não pode ver outros fantasmas? Só ele?
Eu soube que era a hora de contar para Elise sobre o que aconteceu comigo quando era criança e via um monte de pessoas que já não existiam ao redor da minha cama ou eu explodiria com a quantidade de coisas que estava escondendo das pessoas que gostava. Era engraçado pensar que há poucos dias, eu era um livro aberto e bem fácil de desvendar, mas bastou me mudar para o apartamento que tudo estava ficando tão complexo. Agora, escolhia o que contar e o que não contar para minha melhor amiga.
— Sim. Vamos até a biblioteca, tenho algo para te contar no caminho. — Carreguei-a pelo braço. — Até ele aparecer, eu não podia ver nenhum.
Expliquei como meu dom foi lacrado, a preocupação do meu pai e como nunca mais tínhamos falado sobre isso desde que acontecera. Ele provavelmente achava que eu não me lembrava, mas eu lembrava muito bem.
— Então você é uma médium? — ela perguntou.
— Foi o que disse quando descobriu que eu podia vê-lo. Até ele aparecer, eu não podia ver ou ouvir nada, por isso foi um susto. Acho que a presença dele acabou por se tornar de certa forma normal porque eu o vejo e ouço com perfeição.
E sinto também.
— Que esquisito — ela disse enquanto nós entrávamos na biblioteca. — Mas, o que estamos fazendo aqui? Tem algum livro para pegar?
Neguei com a cabeça.
— Eu pensei que descobrindo o que aconteceu com ele pudéssemos encontrar a resposta para o que ele é — expliquei. — Ele me mostrou uma carteirinha da biblioteca que carrega no bolso e que prova que estudava nessa universidade no curso de história. — Ela franziu o cenho. — Por isso, perguntei ao Emil se ele sabia de algum acidente grave envolvendo um aluno e ele disse que não. Mas pensei em pegarmos jornais até 2000 para termos certeza. Às vezes o professor Åkerlund poderia estar afundado em algum trabalho...
— Ok, — interrompeu meu monólogo. — Só não ficou muito claro o motivo que você quer tanto saber dessas informações, o que você vai fazer com elas? — ela perguntou. Ela era muito sagaz, muito mesmo. Devia ter visto em meus olhos que tinha algo ali.
— Em primeiro lugar, eu quero muito que ele encontre o descanso eterno. Quando o chamei de novo, ele deu a entender que não havia luz para seguir, então quero tentar ajudá-lo nisso — falei com sinceridade. Parecia que eu estava me importando demais com da noite para o dia, por isso completei: — E, em segundo, porque estou escrevendo um artigo sobre ele para a Haunted, aquela revista sobrenatural que você sabe que eu gosto. Por isso, preciso saber onde estou me metendo.
Ela anuiu, não notando meu desconforto de estar escondendo algo embaixo de tudo isso. Algo que nem eu sabia dizer com precisão o que era.
— Depois de tanto tempo lendo esses relatos sobrenaturais, você finalmente vai poder escrever o seu, hein? — ela me cutucou com o cotovelo enquanto sorria. Sorri de volta, um pouco aliviada por ela não ter ido mais fundo e descoberto o que aconteceu no dia anterior. Se ela me pressionasse só um pouquinho, eu não aguentaria. Não com a privação de sono.
Era isso que dava passar a madrugada em claro sonhando acordada com o toque de alguém que nem existia mais. Eu bem que merecia mesmo ser descoberta e todo o combo que viria com isso.
— Por onde você quer começar? — ela perguntou ao alcançarmos a sessão de jornais da Universidade.
— Vamos começar com 1990, ele não parece vestir roupas dos anos 80 — respondi, alcançando alguns deles. — Na verdade, ele parece um tanto quanto estiloso.
Ela semicerrou os olhos.
— Está falando sobre o , o Gasparzinho? Porque isso foi estranho.
— Falar que ele é estiloso não é estranho, é só um elogio qualquer.
— É, sim. Você estava tremendo de medo atrás de mim até um dia desses e agora rasga elogios?
Abri as mãos em rendição.
— Não está mais aqui quem falou — eu disse. — Agora, vamos olhar isso logo, está bem? Tenho que ir trabalhar.
Nos debruçamos sobre os jornais pelos próximos cinquenta minutos. Depois peguei alguns, com a permissão da bibliotecária, para dar uma olhada na sala da coordenação. Elise seguiu seu caminho e Emil não estava mais quando cheguei. O jornal da faculdade era tão ativo a ponto de me dar trabalho pelo resto do dia e mesmo assim não concluir o ano.
No fim do expediente, Elise apareceu para saber se encontrei algo. Acabamos por dividir os jornais para procurarmos juntas, cada uma em sua casa, porque ela tinha algumas provas para corrigir.
Ao chegar à minha, destranquei a porta e me assustei ao ver catando as capas de videogame que estavam em cima da bancada da cozinha. Ele olhou para mim com desdém.
Como se nada tivesse acontecido, pensei.
E principalmente como se não quisesse, de forma alguma, conversar.
Larguei as chaves no aparador com um baque mais forte que o necessário e tirei os sapatos para guardar na sapateira ao lado da porta. Se ele queria agir como um imaturo, eu também sabia agir assim. Passei por ele sem nem o direcionar o olhar e fui ver o Bob. O gato continuava arisco embaixo da cama. Não o julgaria, eu também estava arisca ao ver . Limpei sua caixa de areia, coloquei mais ração e levei o pote de água para encher na pia da cozinha.
passou a arrumar o lixo abaixado enquanto eu enchia o pote. Notei que suas costas não estavam tão nítidas quanto ontem e ele parecia que ia desaparecer, como da primeira vez que nos vimos.
Me preocupei. É claro que me preocupei. Não mentiria para mim mesma. Antes que eu pudesse me conter, me ouvi perguntar:
— Você está bem?
Ele endireitou a postura, se virou para me olhar e simplesmente desapareceu.
Fiquei ali, estática, segurando o pote do gato.