A primeira informação que me chamou atenção quando peguei o jornal das mãos de Elise foi o ano da publicação. 1998. Como não pensei naquele fatídico ano? Se algo de ruim poderia acontecer seria naquele ano. Quando minha mãe nos deixou pela segunda vez e para valer. Eu nunca ignoraria uma notícia como a que eu segurava, mas, em 1998, tudo era diferente. Estava presa demais no meu próprio mundo. Só de ver o oito ao lado do nove, começava a brotar suor nas minhas mãos.
Elise tocou meu braço, sentindo toda a minha hesitação e me dando forças em silêncio. Eu jurei que trancaria esse sentimento no fundo da minha alma e nunca mais falaria sobre o tema. Ela e meu pai respeitavam muito essa decisão.
Quando a foto começou a ficar nítida abaixo do ano, eu arregalei os olhos. Lembrei daquela festa da fraternidade há quase dois anos, o gosto amargo da cerveja que um colega de turma havia enfiado na minha mão, eu me esgueirando pelas árvores perto da piscina para cuspir e o garoto com o cabelo esvoaçando pela brisa passando por mim.
.
Só podia ser ele. Era um dos populares que eu mantinha distância. Costumava reconhecer o sorriso convencido de um desses tubarões assim que botava os olhos, mas o dele me enganou direitinho.
A notícia era sobre um acidente de trânsito envolvendo um estudante da Universidade, sem citar nomes. Ele foi retirado do local em estado grave. Testemunhas disseram que o viram embriagado e transtornado antes de sair de uma festa de fraternidade.
— Elise, eu acho que vi o na noite desse acidente.
Ela arregalou os olhos.
— Você estava nessa festa?
— Estava. Eu o vi falando com outro garoto perto da saída.
— Se lembra de algo da conversa?
— Não, mas lembro que o outro garoto usava uma jaqueta do time e segurava uma das cervejas podres que me fizeram beber. Ele pegava duas aulas comigo na época.
— Então já sabemos onde procurar.
Elise abriu um dos anuários que eu guardava unicamente pela foto de formatura que dancei até o chão depois de beber Waldorf, um drink péssimo feito pelo barista bonitinho que ela beijou. Procuramos o jogador na página deles, mas nenhum me chamou atenção. Ela passou por uma página e segurei a sua mão. A banda destaque dos formandos de 1998.
— É ele. — Apontei para a foto com a mão tremendo. As letras embaixo diziam , guitarrista. — É ele que eu vejo.
Ela examinou a foto.
— Ok, ele é bonito. Bem bonito. — Arqueou as sobrancelhas. — Minha nossa. Quem é Clark Olsen comparado a este garoto aqui?
Fui obrigada a rir. Ela sabia como descontrair, tinha que dar os créditos.
— Deixa de ser boba, isso é sério — falei, mas ainda rindo. — Descobrimos que ele deveria se formar no mesmo ano que eu.
— É, o mais estranho é que vocês só se cruzaram nesse dia do acidente. Isso aconteceu porque você tinha que estar lá.
Revirei os olhos.
— Não é hora para superstições, Elise.
O rosto dela ficou vermelho.
— Estou falando sério! Deve ter algum detalhe que está passando batido.
Decidi não discutir e me esforçar para lembrar de algo, porém, aquela época era simplesmente um borrão.
— Só me lembro disso — disse, desanimada.
Ela dobrou a ponta da página que continha a foto dele.
— Conversa com ele, quem sabe falar sobre a festa traga alguma memória.
— É, quem sabe...
* * *
Mais dias se passaram sem ele. Nesse meio tempo, recebi meu rascunho cheio de correções, fiquei mais íntima de Bob e saí com Elise para o cinema depois que ela insistiu que eu não podia esperar para sempre. Bem, eu pensava o contrário. Também tirei aquele tempo para pensar na festa, porém sem sucesso.
No momento, Emil falava sobre a maioria dos seus amigos estarem se tornando pais e como os seus próprios pais o pressionavam para que ele se casasse e montasse uma família. Elise dedicava toda sua atenção, mas eu só pensava em voltar logo para casa, abrir uma garrafa de vinho e desfazer mais caixas da mudança. Meu carisma estava negativo, levei uma bronca de um professor logo cedo por ter deixado que um aluno entrasse na sala de reuniões enquanto ele conversava com outra aluna. A sorte deles era que estavam mesmo conversando, porque eu desconfiava que os dois se escondiam para se agarrar em dias alternados. Era proibido? Sim, mas eu não era dedo duro e não seria agora que eu denunciaria.
Bati nas teclas do computados com mais força que o necessário e só me dei conta quando dois pares de olhos me encararam.
— Desculpe. — Ofereci um sorriso amarelo.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou ele, preocupado.
— É a falta de sexo afetando o humor da — respondeu Elise.
Ela estava tentando desviar o assunto para que Emil não se aproximasse de um tópico sensível, mas dentro de mim aquilo só se juntou ao furacão que já estava acontecendo.
Fuzilei-a com o olhar. Ele riu.
— O encontro com o Clark não foi bom?
Por que todo mundo tinha que me perguntar sobre esse maldito encontro?!
— Ele nem a beijou, acredita?
— Acredito. Eu já tive a idade dele, passei por essa fase de não saber como agir perto de uma garota bonita. — Sorriu para mim.
Ela me fitou. Seu olhar falava por si só, um grandissíssimo “que diabos?”. Eu retribuí da mesma forma.
— Acho que ele queria era se ver livre o mais rápido possível de mim — falei antes que ele percebesse nossa comunicação não-verbal.
— Ele vacilou, então. Quem não quer ficar perto de você? — Ele se levantou. — Bom, meninas, deu a minha hora. Bom trabalho para vocês.
Emil saiu pela porta. Elise foi conferir se ele tinha mesmo descido as escadas e voltou com o cenho franzido e a boca aberta.
— É impressão minha ou ele estava flertando com você? — falou.
Isso era exagero.
— É impressão sua — garanti. — Só que foi bem estranho, ele geralmente não tem essa intimidade.
— Concordo. — Ela parecia pensativa.
— Você não ficou... você sabe...
Foi como se eu tivesse criado mais duas cabeças aos seus olhos.
— Claro que não. É você, . Minha melhor amiga.
Suspirei. É, eu não sabia o que tinha me dado para fazer essa pergunta. Não seria Emil a ficar no meio de nós duas, éramos irmãs de alma. Senti uma pontada de tristeza por ter escondido a minha curiosidade dela, logo ela que, ao saber, disse que não me julgaria e ajudou a encontrar uma solução.
— Tem razão, eu sou uma boba — concluí, sorrindo. Abracei-a de lado. — Quer ditar esse e-mail chato para mim?
Ela se espreguiçou, se soltando do abraço.
— Acabei de lembrar que tenho uma aula agora — brincou.
Passamos quase todo o resto da tarde juntas, até Elise ter que se despedir para ir assistir mesmo uma aula. Caminhei até o prédio vendo alunos arrumados para festas e pensando em como aquela festa de fraternidade foi a minha única da vida acadêmica inteira, meu pai tinha acabado de encontrar um bilhete da minha mãe em cima do travesseiro que dizia para que nunca mais a procurasse. Talvez Elise estivesse mesmo certa e era para eu estar lá.
O que eu estava deixando passar?
Fui recepcionada por Bob ao abrir a porta de casa. Minha bagunça estava intocada, como era para ser. Agora, a pontada que senti foi de solidão. Andei até a geladeira, peguei o vinho, removi a rolha e bebi um longo gole direto da garrafa. Se eu ia encarar tudo, que não fosse totalmente sóbria.
Cortei a fita adesiva que lacrava a quarta caixa que esvaziaria naquela noite. Eu já conseguia ver o rodapé da parede — o que era uma evolução enorme. A bagunça estava por toda a casa pela falta de armários para guardar, mas esse era um problema para a eu do dia seguinte. Quando afastei a caixa vazia, vi um pedaço da parede pintada em um tom de branco um pouco diferente do resto da casa, um tom de gelo, enquanto o resto era branco neve. Aquela parte era falsa, apostaria dinheiro nisso. Me esgueirei por trás de outras caixas para tentar alcançar. Poderia ser parte da calefação e eu estava fazendo muito caso por nada, mas continuei a me espremer até meus dedos tocarem o pedaço de madeira. Completamente falso. Empurrei até que cedesse, abrindo o compartimento.
Havia um molho de chaves ali dentro.
Um molho de chaves de um carro.
Analisei o chaveiro com um veículo esportivo em miniatura. Eu sabia que aquela chave pertencia ao dono do apartamento, mas por que guardar ali? Imediatamente fiz conexão com o carro abandonado na garagem na vaga que deveria ser da minha unidade. No dia de me apresentar todo o edifício, ele disse que não incluía vaga no estacionamento coberto. Porém eu vi um carro sob uma lona azul escuro e concluí que era por já estar ocupada.
escolheu o momento que eu quebrava minha cabeça com possibilidades para se materializar na minha frente.
— Você voltou! — exclamei. Larguei as chaves em qualquer lugar e dei um passo em sua direção, querendo o atacar com um abraço de urso, mas lembrei das palavras de Elise e estagnei.
— Eu voltei, — sorriu.
— Ah, ... — Minha voz vacilou. — Tanto aconteceu depois daquele dia. Nós não podemos mais nos tocar enquanto você e o Jeff não diminuírem seu tempo de descanso, você não pode mais sumir assim.
Ele franziu o cenho.
— O que houve?
— Eu e Elise podemos ter descoberto seu acidente. Foi em 1998. — Alcancei o jornal em cima do móvel da televisão e entreguei para ele. Seus olhos passearam ao longo da primeira página, mas se mantiveram neutros. — Você se lembra de algo?
— Não. — Ele me entregou o jornal de volta. — Nada me vem à mente. Por que vocês acham que é este?
— Foi o único acidente que encontramos envolvendo um aluno desde 1990 e suas roupas não parecem oitentistas. — Meu rosto se franziu numa careta de pena. — Na verdade, elas realmente não são. Era para você ter se formado comigo, em ’98.
Ele piscou, ainda sem entender como se sentir com aquela informação. Passei ao lado dele e fui pegar o anuário deixado por Elise na bancada da cozinha. Tive esperanças de que ver seus colegas de banda pudesse despertar uma memória nele. Entreguei o livro aberto na página.
— É você, . — Apontei para a foto de um garoto que sorria de lado, as mesmas mechas brilhavam.
— É... Sou eu, sem dúvida alguma.
— Você esteve em uma festa da fraternidade antes do acidente, eu te vi lá falando com um dos jogadores. Não se lembra mesmo? — falei, a esperança pingando da minha voz.
— Sinto muito, . — Ele me entregou o livro. — Eu não me lembro.
— Tudo bem.
Eu não podia deixar transparecer minha decepção. Ele não se lembrar com todas aquelas provas tornaria tudo mais difícil, mas não era sua culpa. Não sabia como funcionava esse negócio de pós vida, mas, às vezes deveria ser um mecanismo de defesa para protegê-los da dor.
Se era que eles poderiam sentir dor.
Pousei o anuário em cima do jornal e peguei as chaves do chão.
— Acabaram as perguntas sobre a sua vida. — Tentei estabelecer um clima melhor, mas saiu como ressentimento. Ele deu um passo em minha direção, eu vi que tinha intenções de me tocar em seu olhar. Levantei o indicador, parando-o. — Não podemos nos tocar, não quero que tenha que descansar por minha culpa.
— Eu tenho muita energia, um pouco não vai fazer falta — disse. Eu neguei com a cabeça. — Sei que está triste por eu não me lembrar e que veio se ocupando em descobrir o que aconteceu comigo. Me deixa te tocar, vai te fazer se sentir melhor, estou com muita energia boa no momento.
Negar o toque de alguém só me fazia ficar ainda mais triste. Eu precisava mudar de assunto.
— Está tudo bem — garanti. — Você sabe o motivo de ter um compartimento secreto na parede que guardava esta chave?
Mostrei o molho de chaves na minha mão.
— Não... Provavelmente alguém está tentando esconder isso.
É, foi o que imaginei também.
— Vou dar um pulo na garagem — avisei, indo em direção à porta.
— Espera... Você vai... assim? — perguntou, ainda olhando para o meu rosto. Foi quando percebi que ele estava se controlando para não deslizar os olhos pelo meu corpo, eu estava vestindo apenas uma camiseta larga e calcinha.
Ai, droga.
Enrubesci até a raiz do cabelo. Não estava esperando , não raciocinei que ele poderia aparecer a qualquer momento entre o dia atual e o próximo. Quis bater minha cabeça na parede até abrir um buraco que eu pudesse me esconder. Ele já teve uma dose de nudez minha e, agora, eu estava lhe dando o desprazer de relembrar, aparecendo seminua.
Puxei a camiseta para me esconder e andei feito uma bala até o quarto para vestir algo.
Quando voltei à sala, ele me esperava encostado ao lado da porta de braços cruzados. Destranquei a porta enquanto era observada.
— Sem comentários — falei.
— Só ia dizer que você não precisa se envergonhar de ficar com pouca ou nenhuma roupa, afinal, essa é a sua casa também.
Sua frase tinha uma conotação sexual altíssima, apesar de seu rosto mostrar inocência.
— Acho que você já teve uma dose de nudez suficiente.
— Suficiente? — riu. — Não estou nem um pouco perto de estar satisfeito, . Bonita tatuagem, aliás.
E passou pela porta, me deixando com cara de tacho.
Ele viu a ponta da tatuagem horrível que ia da lateral da minha coxa esquerda até a cintura. Céus, aquilo só decaía. Desci as escadas me amaldiçoando pela minha escolha de roupa para a noite. Não era para ele ver. Na verdade, era para ser uma tatuagem íntima, mas eu fui muito bundona para fazer em um lugar com menos chance de qualquer pessoa ver.
apareceu no andar inferior me analisando.
— E, então... Qual é a do desenho?
— Se eu falar “não te interessa” vai te fazer parar de falar sobre isso?
— Não — sorriu.
— Foi o que pensei — resmunguei, começando a descer outro lance de escada. — Eu fiz no meu último ano. Não tem nenhum significado para mim, fiz por tédio mesmo. É uma tribal que vem até aqui. — Apontei meu osso ílio.
— Que sexy.
Deixei uma gargalhada escapar com o comentário dele que ecoou por todo o vão entre as escadas. Acho que ninguém nunca usou essa palavra para se referir a qualquer parte do meu corpo. Nem mesmo Sam.
— Posso ver? — pediu com a maior cara de pau.
— É claro que não!
— Só uma espiadinha para matar a curiosidade de como ela começa.
— Não sabia que você se interessava tanto assim por tatuagens.
Ele abafou um sorriso, descendo os últimos degraus.
— É um interesse recente.
Engraçadinho.
— Tudo bem — falei, surpreendendo até a mim mesma. — Olhe rápido.
Ele se aproximou com um sorrisinho de lado estampado na cara, pura safadeza. Ergui a camiseta e desci um pouco a calça para que pudesse ver.
— Uau... — Arqueou as sobrancelhas.
— O quê?
— É bem sexy.
Minhas bochechas coraram e voltei a cobrir meu corpo por vergonha.
— Você cismou com essa palavra, hein?
— Qual o problema de dizer “sexy”? — Ajeitou meu cabelo atrás da orelha. — Aquele garoto não disse o quanto você é, ?
Engoli em seco. Meu coração ameaçou errar uma batida e depois bateu tão rápido que estava aos tropeços.
Lembre-se que ele não existe.
— Você não deu oportunidade nem para que ele me beijas-
A porta da garagem foi aberta de supetão em cima de mim e um homem entrou, olhando estranho.
— Desculpa — pediu. — Achei que a voz vinha do térreo.
— Tudo bem — sorri, morrendo de vergonha. Eu não sabia onde enfiar a cara, ele deveria achar que estava falando sozinha detrás da porta.
achava graça da situação pelo seu sorriso.
O homem se despediu e subiu as escadas. Abri a porta e fui embora, sem esperar pela minha companhia. Porém é claro que ele veio atrás.
— Você me coloca em situações constrangedoras — falei assim que ele chegou ao meu lado.
— Eu?! — Fez uma cara de inocente que, para ser sincera, era bem convincente. Ele era bem expressivo.
— Como se não bastasse tudo o que já fez, vai me fazer ter fama de maluca no prédio. Qual o próximo passo? Pintar a minha cara de pasta de dente enquanto eu durmo?
— Bom, até que não é má ideia... — disse, sorrindo. Olhei-o com raiva. — É brincadeira. Não estou mais canalizando minha energia negativa.
Era bom que fosse mesmo, se eu tivesse dado ideia para mais uma de suas artes nunca me perdoaria.
Alcançamos a última vaga, ali mal tinha iluminação e fedia a umidade. Analisei para descobrir se havia alguma câmera que pudesse me entregar para o proprietário e não vi nada. Não adiaria naquele momento, por isso arranquei logo a capa do carro. A primeira coisa que me chamou atenção foi o quanto ele estava disforme, parecia ter capotado várias vezes. O que era para ser o lindo carro vermelho da miniatura do chaveiro se assemelhava à sucata de ferro velho.
Quando olhei para o lado, tinha os olhos desfocados.
— ? — chamei-o.
Nada.
Passei a mão na frente dos seus olhos, ele nem piscou.
— Erik — murmurou.
— Quem?
— Esse carro é do Erik. Ele me emprestou para ir embora da festa da fraternidade depois que eu fui atrás da minha ex-namorada, Alex. — Seus olhos se focaram no carro. — Eu me lembro que ele disse para eu pegar o carro dele porque estacionei muito longe, depois joguei minhas chaves para ele e... acelerei muito na estrada.
— Céus, você está se lembrando... Está se lembrando da noite do seu acidente! — falei, chocada.
— Eu me lembro de você de costas perto da árvore, o seu cabelo ainda é igual.
Toquei algumas mechas. Sim, eu não mudava o corte do meu cabelo desde os dezoito anos. Sempre o mesmo cabelo ondulado cortado no ombro.
— Do que mais você se lembra? — Olhei-o com a esperança de que perdi momentos antes.
— Erik estava estranho há alguns dias. Não me lembro dos motivos que me levaram a pensar isso.
Eu só me perguntava: Por que diabos o carro do acidente estava ali?
deu os últimos passos que o separavam do carro, só aí que reparei que sua imagem estava com certa transparência.
— Você está ficando transparente — comentei.
Ele ergueu a mão esquerda e a analisou.
— Estou me sentindo ser puxado para o descanso, só que ainda tenho muita energia.
Aquilo não poderia estar fazendo bem a ele.
— Vamos voltar para cima.
Sua palma encostou na lataria.
— Eu estava sozinho na estrada, perdi o controle do carro e... começou a doer como o inferno respirar.
Ele ficou ainda mais transparente.
— Não conseguia me mexer, nem abrir os olhos, doía tudo. — A voz dele era pura angústia.
— — chamei-o. Ele nem sequer se moveu, estava preso no seu transe. — , tira a mão daí. — Minha voz ecoou pela garagem.
Ele puxou o braço de volta com tanta força que caiu aos meus pés. Me abaixei para ver seu rosto melhor, ele estava tão transparente que parecia que se desfaria a qualquer segundo.
— Você está bem? — perguntei.
Minha mão fechou em punho no ar em lembrete de não o tocar. Quase latejava não poder conferir como ele estava com o tato.
— Eu... me lembro daquele dia.
— Sim, você se lembrou. — Forcei um sorriso em meio à minha preocupação. Tudo nele parecia alarmante, os olhos e o cabelo que eram brilhantes tinham a opacidade da transparência e o sorriso não era esperto. — Vamos subir agora, ‘tá?
Ele assentiu. Levantei e enfiei a proteção no carro da forma que estava. já estava de pé quando me virei para ir até a porta.
Nós subimos em silêncio, ele parecia pensativo e eu estava atenta demais, como se o motivo para o acidente pulasse do vão da escada e me atacasse. Já no apartamento, se deitou no sofá, parecendo exausto. Me sentei aos pés dele.
— Vai precisar de mais alguns dias? — perguntei.
Negou.
— Por incrível que pareça, eu ainda tenho muita energia sobrando — disse. — Só foi incômodo lembrar.
Eu nem conseguia imaginar, isso só contribuía para o que pensei sobre não lembrar ser para protegê-los. Viver a eternidade só lembrando desse dia deveria ser um tormento.
— Apareceu alguma luz, nem que fosse distante?
— Não — sorriu, mas, logo em seguida, seu sorriso se desmanchou. — Eu acho que não morri aquela noite, .
Franzi o cenho, estranhando.
— Por que acha isso?
— Porque eu senti a dor, mas nunca o alívio que deveria ser morrer. — A voz dele estava embolada de tanto sono.
Ele poderia estar certo, e se ele tivesse morrido em algum hospital? Talvez se eu achasse o lugar que ele deu entrada, poderíamos saber o que aconteceu com ele e dar a oportunidade de ver a luz que nunca teve.
— Nós vamos te achar — prometi.
Porém ele já havia dormido.
* * *
— Eu preciso da sua ajuda — falei para Elise assim que o professor Granström deixou a sala.
— Manda.
Contei a ela sobre o compartimento, a chave do carro, o próprio carro, tocando na lataria, ele dizendo que não achava que tinha morrido na noite da festa... Quase tudo. Tinham coisas que não eram relevantes no momento, como o que senti nas duas vezes que ele usou aquela palavra para se referir a mim. Ou o arrepio que me subia pela espinha só de lembrar disso.
— Só conheço um jeito de descobrir — disse ela.
— Qual? — perguntei com curiosidade.
— Invadir os sistemas dos hospitais.
Coloquei a mão na testa.
— Elise, não seria melhor nós apenas perguntarmos?
— Isso é informação confidencial, eles não dariam para duas desconhecidas assim — falou como se fosse óbvio. — Me encontre na biblioteca depois do expediente, vamos nos organizar.
Foi um longo dia até chegar o momento de encontrar minha melhor amiga na biblioteca, parecia que as pessoas estavam decididas a me atrasar. Eu estava cada vez mais ansiosa, ajudar e corrigir meu rascunho tinham se tornado obsessões. Não escrevi uma palavra do meu artigo para a Haunted, mas as ideias se acumulavam na minha cabeça, esperando para serem colocadas no papel e contribuindo para a minha ansiedade.
Elise me esperava na área dos computadores. Larguei meu corpo em uma das cadeiras ao lado dela.
— O que estamos fazendo aqui? — resolvi perguntar após ela me ignorar por alguns minutos.
— Adquirindo conhecimento para invadir sistemas usados pelos hospitais — respondeu sem desgrudar os olhos da tela.
— Ok...
Na verdade, ela estava adquirindo o conhecimento e eu estava assistindo. Passei a cutucar minha cutícula, perdida em pensamentos, até que senti um vulto passar pelas minhas costas. Olhei para o lado e se sentava na cadeira livre. Pulei com o susto e a cadeira fez um barulho horrendo arrastando no chão, levando todos da biblioteca a me olhar.
— Olá, — disse enquanto colocava os pés em cima da mesa.
— O que foi isso? — Elise perguntou de cenho franzido.
— — expliquei. — O que você está fazendo aqui? — perguntei para ele.
— Estava com tédio e resolvi vim ver o que está fazendo, mas parece que você não está tão diferente.
— Achei que passaria o dia treinando o uso de energia com o Jeff. — Algumas pessoas me olharam feio por estar falando, então passei a sussurrar: — Você tem que ficar forte para não precisar descansar tanto.
— Eu e Jeff treinamos, mas ele precisava resolver algumas coisas. — Espreguiçou-se.
Elise estava me olhando com diversão, ao me ver questionar com o olhar, ela se explicou:
— Vocês estão mesmo se dando bem.
— Você disse para nós convivermos em harmonia — falei.
— Isso é mais do que conviver em harmonia, vocês estão se tornando amigos.
Olhei para ele e ele olhou para mim, ambos fizemos caretas de desgosto.
— Não, Elise.
— Você disse que estava gostando do...
Tapei a boca dela com a palma da mão antes que me matasse de vergonha.
Meus olhos diziam para ela: Não na frente dele.
— Do quê? — perguntou ele.
— Nada, acho que ela está sob muita pressão e está divagando — sussurrei.
— Pare de mentir ou eu vou falar — ameaçou ela, olhando para a tela.
Ele se endireitou na cadeira.
— O que ela quer falar?
— Deixa para lá. — Puxei a lista de telefone da minha bolsa, eu vinha ligando para telefones de hospitais durante a tarde para pegar os endereços.
— Está com medo de mentir e ela te entregar? — sorriu.
Sim!
— Não.
Sua risada alta fez a atmosfera mudar e meus poros arrepiaram. Elise e os demais continuaram alheios a tudo aquilo.
— Essa lista de hospitais é para o que estou pensando?
— Elise acha que devemos invadir os sistemas dos hospitais.
— Eu não vou perder isso por nada — sorriu de lado. — Então, vão fingir que são o quê? Médicas?
Não tínhamos chegado àquela parte do plano ainda, então falei o que me veio em mente:
— Podemos entrar escondidas e fingir que estamos lá dentro para ver alguém.
— É uma boa ideia — comentou ela, de sobrancelhas arqueadas.
— Olha — começou, agora sério —, eu agradeço o que vêm fazendo por mim, mas não quero que você e sua amiga se metam em confusão por minha causa. Não vale a pena.
Me inclinei e apoiei a mão no encosto de sua cadeira.
— Nós vamos descobrir o que aconteceu, — garanti. Eu havia feito uma promessa e não a quebraria. — Agora, é uma escolha sua vir junto ou não.
Ele sorriu de lado.
— Eu realmente não perderia isso por nada, .
* * *
No dia seguinte, Elise, e eu entramos no ônibus para invadir nosso primeiro hospital, o maior e principal da cidade. Participar de uma conversa entre os dois que não se viam era um tanto desafiador, parecia que duas conversas estavam rolando ali. Em certo ponto, ele se cansou de ficar de pé ao meu lado e se sentou no banco da frente, ela passou a tagarelar sobre algo e eu me peguei o observando. Virado para a janela, observando a paisagem, seu nariz era um pouco arrebitado na ponta, suas maçãs do rosto eram proeminentes e seus lábios... Eles me tiravam o sossego. Ainda tinha o cabelo com a parte da frente atrás das orelhas e o resto caindo em uma cascata. Eu me lembrava do quanto era macio e parecia que cada fio existia nas mãos. De repente, desejei sentir o cheiro dele.
— Por que você está olhando para o nada com essa cara? — Elise perguntou, me acordando do meu transe.
— Que cara? — Olhei nas lentes dos óculos escuros dela, tentando ver do que ela estava falando.
— Ele está ali, né? — falou baixinho, sua voz quase se misturando aos sons que o veículo fazia.
Eu não queria mentir para ela, então assenti, porém com certa relutância.
— Pois acho melhor você fechar a boca, antes que a baba escorra.
Semicerrei os olhos e cruzei os braços.
— Olha quem está falando, a que parece que está vendo um raio de sol quando o professor Emil entra na sala.
Ela também cruzou os braços.
— Pelo menos, eu admito que estou apaixonada por ele. Já você só fica olhando como se estivesse vendo uma miragem.
Abri minha boca em uma expressão ultrajada. Eu não olhava dessa forma. Definitivamente não.
— Se eu tivesse o que admitir, eu já teria admitido. Não sinto nada além do que já conversamos.
— Você sempre tem que ser a última a perceber? Foi assim com Sam, Josh, Clark e, agora, com ele.
Não gostei de imaginá-lo com os outros garotos que eu gostei. Não era o mesmo sentimento, era diferente.
— Você está enganada dessa vez.
Ele se levantou e percebi que o hospital estava logo à frente. Elise parecia querer esticar aquela conversa pelo caminho, mas apressei o passo e comecei a andar ao lado dele. Ela me mataria por não ouvir tudo o que tinha para dizer, mas eu não queria lidar com aquilo, só fugir. Tive medo de confrontar os meus sentimentos e perceber que ela estava nem que fosse um pouquinho certa, como costumava ser. Não, daquela vez, ela não teria como estar. Meu interesse em vinha de curiosidade, eu tinha dó dele por não ter a mesma oportunidade de seguir a luz e queria saber o que aconteceu com ele. Bem, ele era bonito; Elise estava certa nesse ponto, mas quantos rostos bonitos não me deparei ao longo dessa jornada acadêmica? Eu não estava encantada por mais um.
Se ele não pertencesse a , não teria graça.
Opa! Pensamento intrusivo!
O hospital era uma bagunça de pessoas indo e vindo na recepção. Nós nem precisamos nos identificar, apenas nos camuflamos em meio a um grupo grande que entrava no elevador. foi na frente para descobrir onde ficava a sala de controle. Demos algumas voltas lá dentro enquanto ele não reaparecia. Elise mal falou comigo, eu já previa que uma conversa bem longa me aguardava quando chegássemos ao dormitório. Vim bolando frases na minha mente para possíveis falas dela, como o fato de não conhecer para desenvolver qualquer outro tipo de vínculo, mas estar apreciando a companhia dele mesmo assim, porque eu não sabia o quanto me sentia solitária até ele aparecer. Talvez até concordasse que estávamos nos tornando amigos só para que ela colocasse um rótulo no que eu estava sentindo e ficasse quieta.
— ? — Ouvi uma voz me chamar nas minhas costas perto da cafeteria.
Me virei para ver quem era.
Clark.
Esperei sentir meu coração palpitar como era costume. Nada. Nem uma batidinha fora do comum.
Só me veio o encontro desastroso à mente.
— Oi! — falei com um sorriso amarelo. Elise parou no lugar, só se dando conta da presença dele por causa da minha fala.
Ela acenou para ele, que respondeu com um cumprimento com a cabeça. Eles se conheciam desde que ela falou com ele para arranjar o encontro.
— Tudo bem? Quer dizer... Não está tudo bem, você está em um hospital. — Ele olhou para os pés. — O que quero dizer é: como você está?
Sorri com a falta de jeito dele.
— Está tudo bem, não se preocupe. Estamos aqui para... — Olhei para Elise, procurando uma justificativa.
— Ver minha tia Susa. Pobrezinha, ela quebrou a bacia praticando snowboard no Chile e nunca mais foi a mesma.
Céus, a habilidade dela de inventar histórias era admirável.
— Nossa, desejo que sua tia melhore logo. — Ele parecia impressionado, não sabia dizer se era pela tal tia Susa ser radical ou por ter quebrado a bacia.
— Obrigada. Estamos apostando tudo nessa próxima cirurgia.
Olhei para ela em um pedido mudo para que parasse de mentir, já era o suficiente ou não conseguiríamos sustentar a história.
— Estou aqui para ver meu primo, ele está em coma.
— Sinto muito — falei.
— Obrigado, mas já tem alguns anos e cada vez mais perdemos as esperanças de que ele acorde.
— Ele vai acordar, Clark. — Elise ofereceu um de seus sorrisos gentis a ele. Aqueles que parecia que tudo ficaria realmente bem.
Ele retribuiu o sorriso.
— Foi legal encontrar vocês, mas tenho que ir. Meu irmão está esperando — disse. — , posso mesmo te ligar? Eu fiquei sem saber se era o que você queria.
Eu não sabia se queria continuar tendo contato com ele, afinal, era bem óbvio suas intenções de repetir a dose. Ele era uma boa pessoa, mas achava que não combinávamos. No fim, me vi assentindo. Ele saiu todo feliz e eu não soube dizer se tinha feito a coisa certa.
No corredor, ao lado de Clark, apareceu e veio andando até nós.
Meu coração escolheu aquele momento para acelerar.
Atrasado alguns minutos.
Era só o susto por ele ter aparecido de repente, repeti feito um mantra.
Elise me olhou de lado e abriu um sorriso metido irritante.
— Engraçado que eu sei exatamente quando ele chega pelas suas reações — disse ela.
Ele se aproximou, nem me dando chance de respondê-la.
— Não fica muito longe daqui. Vamos?
Anuí. Ele foi na frente, só o segui e Elise fez o mesmo comigo. A sala de controle era cheia de fios e máquinas, havia uma sala com computadores e foi onde ela entrou. Eu e ele ficamos de olho na porta enquanto ela fazia a sua mágica.
— Você não quer se sentar? — ofereceu ele. — Parece que vai vomitar a qualquer instante.
Acho que a adrenalina unida à conversa não estava me fazendo muito bem.
— Eu não lido bem com invasões — presumi, me sentando.
— É costume seu invadir os lugares? — sorriu.
— Só se o motivo valer a pena.
Me arrependi das palavras no mesmo segundo que elas deixaram minha boca. Parecia que eu estava flertando com ele! Ok, eu não me arrependia tanto assim quando fazia ele rir do jeito que riu. Baixo e sexy.
— Cuidado, . Esse lado não é o seguro.
— E qual é? — perguntei, curiosa.
— O que você não brinca com o meu pobre coração.
Meu queixo deve ter batido no chão. Eu não podia competir com aquilo nem se quisesse.
Calma, ele só flertou de volta.
— Achei! — exclamou Elise.
Nós dois nos levantamos de supetão, como se tivéssemos sido pegos no flagra.
— Eu esperava que a ficha dele estivesse só em um dos arquivos, como o dos outros pacientes de ‘98, mas está mostrando essa bolinha verde.
Olhei para a tela, tentando decifrar o que aquilo significava. Ele apontou para letrinhas na tela, mostrei com o cursor para ela a palavra “ativo”.
— Era aí que deveria estar a data do óbito — comentou ela. — A ficha dele está no arquivo 4J-1998.
Nós descemos as escadas em busca da sala do arquivo no andar debaixo. Nos esgueiramos entre paredes para nos escondermos dos funcionários que entravam e saíam com pastas na mão. nos guiou e mostrou onde podíamos entrar para não sermos vistas. Era até que útil ter um fantasma a tiracolo afinal de contas. Quando chegamos ao lugar, não pude conter a surpresa ao ver que o “4J-1998” era uma sala grande e cheia de arquivos do chão até quase o teto. Enquanto ele observava a porta, eu e Elise tentávamos desvendar a ordem de organização. Não demorou muito, não era tão difícil, só era um pouco complexo. Ao passar por todos os pacientes chamados daquele ano, foram os olhos em uma foto que me fizeram parar na ficha em questão. Meu corpo deve ter desligado e religado na potência máxima.
Sem esperar por nenhum dos dois, li com atenção o que estava escrito.
Ali dizia que não morreu.