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Codificada por: Sol ☀️

Última Atualização: 23/09/2025.

Lawrence, Kansas. 1999.

Os barulhos incessantes dos ponteiros no maldito relógio da parede não paravam de martelar em minha mente.
Tic, tac. Tic, tac.
As mãos, dentro dos bolsos do casaco. Os olhos, indo de um lado para o outro naquele cômodo. Era insuportável a dor que sentia ao ver meu irmão deitado naquele caixão. Esquife horroroso, ele teria odiado. Jake, agora, estava tão gelado como o cadáver que se tornou.
Meus olhos estavam mergulhados em lágrimas que não paravam de cair. Meu coração se inquietava diante da dor estridente da perda e de ver minha melhor amiga, , aos prantos, apoiada no corpo sem vida do namorado.
Meu irmão e minha melhor amiga namoravam desde o ensino médio e tinham quase a mesma idade. Jacob sempre foi popular, bonito e cheio de amigos, ao contrário de mim. Apesar de ser o irmão mais velho – Jake nasceu alguns minutos antes de mim, éramos gêmeos –, ele sempre me incluía em tudo: me arrastava para sentar na sua mesa durante o almoço, me ajudava nos estudos e estava sempre tentando me lembrar de controlar o meu costumeiro mau humor. Éramos muito próximos, gêmeos em tudo que nos propúnhamos a fazer.
Quando conheceu meu irmão, até eu fiquei surpresa. Jake não era exatamente mulherengo, mas também não costumava a entrar em relacionamentos fixos. Ele era do time do apego evitativo e dos medrosos quando o assunto era romance. Parece clichê, mas algo nele mudou quando apareceu naquele fim de mundo. Não tenho muito a dizer, a história realmente aconteceu como estou contando e se eu pudesse resumir os dois, seria com “pieguice extrema” ou o maior filme de romance clichê e super apaixonado de todos.
Isso era Jake e . O casal mais bonito da escola. Rei e rainha de todos os bailes de fim de ano seguintes do ensino médio até a formatura. Agora, perto dos vinte anos, ela foi obrigada a seguir sua vida sem seu grande amor. Minha melhor amiga soluçava de tanto chorar, inconformada com a morte do meu irmão tanto quanto eu.
Nós duas havíamos perdido uma parte importante de nós mesmas, e sabíamos que não tinha mais volta. sacudia os ombros em meio aos prantos, apertando o colar em seu pescoço e no pescoço de Jake. Era como a aliança deles, um relicário prateado e delicado. Meu irmão havia presenteado com essa joia quando completaram um ano juntos, e dentro do pingente guardavam uma foto deles dois. Como eu disse, clichê, mas tudo era feito de corpo, alma e coração entre eles.
Enquanto ela chorava, eu estava tentando manter meu navio inteiro no meio daquela tempestade de sentimentos. Sentia-me vazia, desolada e incapaz. Estava incapacitada de confortar minha própria amiga naquele estado.
Eu não acredito que você me deixou, seu idiota! Não acredito, você me prometeu que nunca faria isso, gritava minha mente, numa mistura de tristeza e raiva.
A morte de Jake foi súbita como um suspiro. Inesperada.
Ele sempre foi o centro das atenções, brilhante e sorridente. Jake era genuinamente feliz. Porém, perto de sua morte, ele se tornou um cara frio e distante. Seu olhar, que antes refletia uma galáxia, passou a ser como um iceberg capaz de congelar qualquer um que entrasse em contato direto. Ele evitava a namorada, me deixava em um abismo emocional escuro e solitário, sumindo por dias e quase nunca parando em casa. Até que, um dia, simplesmente desapareceu de vez. Espalhamos cartazes por toda cidade, procuramos até cansar e não obtivemos respostas.
A busca foi sem sucesso, porque procurávamos um Jake vivo, e o que encontramos foi o corpo sem vida do meu irmão perto do lago em Lawrence. O legista disse que a causa da morte foi suicídio, mas ele não deixou nada: nem bilhete, nem um “vai se foder, e família!”. Absolutamente nada. Depois disso, passamos os próximos momentos supondo os motivos que levaram Jacob a se matar.
– Ele nunca se mataria – Falei, claramente em negação.
Minha mãe, vestida totalmente de preto, bem como todos presentes na sala, suspirou como quem diz “de novo não” e esfregou o lencinho no nariz avermelhado de tanto chorar.
– Por favor, não vamos começar com isso novamente... – Respondeu ela, sendo abraçada pelo nosso pai.
pareceu entender o que eu havia dito. Parou de chorar alto e se manteve em soluços baixos como se esperasse que eu desse continuidade. Já minha mãe, rezava aos céus para que eu calasse a boca. Era assim, eu e Jake também éramos opostos: ele era o filho querido, o prodígio. Eu, “a rebelde indomável”, segundo minha mãe. Mas isso não tinha a ver com ser rebelde ou não. A morte do meu irmão gêmeo era suspeita e eu tinha a plena certeza que ele não faria aquilo.
Ele nunca me deixaria, nem abandonaria .
– Estou dizendo, isso é muito suspeito. Jake levava uma vida incrível... digo, você nem ao menos considera outra causa além de suicídio? – Questionei novamente.
Minha mãe suspirou mais uma vez, e então se levantou, voltando a chorar descontroladamente.
– Chega! – Exclamou ela. – Não vou ficar aqui ouvindo isso de você. É seu irmão, e ele se foi. Quanto antes nós aceitarmos, mais cedo ele poderá descansar e mais fácil serão as coisas agora que ele partiu.
E então, se retirou dali. Entretanto, Jake ainda era velado por , que havia parado de chorar e me olhava de relance. Seus olhos estavam vermelhos, carregando uma ira e uma tristeza indescritíveis.
– Você sabe que eu tenho razão. – Tentei novamente, mas dessa vez, com o tom de voz mais brando, suavizando a demonstração de injustiça que inundava meu coração. – Jake não se matou. Ele foi morto.
– Eu sei. – Respondeu ela. – Eu tenho tanta certeza que Jake não se mataria, como a que tenho de que vou morrer um dia.
Ela se levantou.
Uma faísca acendeu em meus olhos. Uma chance de buscar justiça por Jacob.
– E nós vamos descobrir quem foi. – Concluiu .

Sioux Falls, Dakota do Sul. 2006.

Eu definitivamente odiava o cheiro de fritura das lanchonetes em que parávamos nas estradas, mas era obrigada a aguentar isso por causa do paladar insaciável de . Enquanto a senhorita Come-Tudo não voltava com o seu hambúrguer maior que sua própria cabeça, eu estava sentada em uma mesa no canto do estabelecimento. O laptop estava ligado em uma página de notícias e eu estava verificando nossa situação financeira.
– Ah, veja só! Será que teremos que clonar mais cartões ou eu vou ter que flertar com o carinha esquisito da lanchonete para ele esquecer que minha irmã pegou dois sanduíches com mais calorias do que pode contar? – Resmunguei comigo mesma, revirando uma caixa pequena onde guardávamos tudo que precisávamos para nosso trabalho.
Sete anos se passaram desde o último acontecimento que mudou nossas vidas. Jake se foi, mas nós não desistimos de procurar quem o matou. Ou melhor, o que o matou. Logo depois que e eu decidimos que iríamos atrás de justiça, nossa vida virou de cabeça para baixo. Eu nem sei como falar sobre isso, porque o sobrenatural sempre vem de supetão. Ele está espreitando no escuro. Todas as noites, quando você vai dormir, o mal conta os seus batimentos cardíacos. Os monstros? Eles nunca descansam. Descobrimos isso da pior forma e, depois de anos, eu estive certa: o que matou Jake não pode ser chamado de humano.
Todavia, a nossa descoberta não começou pela criatura que matou meu irmão. Essa ainda é uma história delicada e que eu prefiro não comentar, mas um homem nos ajudou quando fomos vítimas de um fantasma. O espírito enraivecido de Jacob . Loucura, né? Ainda mais para mim e minha melhor amiga. Muita coisa havia mudado: nossos pais também morreram, mas de causas naturais. Eram idosos já quando Jake partiu e felizmente não sofreram a fúria do fantasma do meu irmão gêmeo. Nós presenciamos todos os sinais: luzes piscando, cheiros e barulhos estranhos. Até que um homem chamado Bobby Singer bateu em nossa porta, usando nome falso e mentindo sobre ser da polícia e estar investigando casos em aberto. Mentia tão mal quanto se vestia. Apesar disso, devíamos muito a ele, pois Bobby salvou nossas vidas.
Enfim, um dia eu conto essa história com mais detalhes. Perder o Jake foi algo que iria doer para sempre, e mencionar seu nome e tudo o que lhe aconteceu me causava desconforto. Não estava pronta para falar disso, e me respeitava. Ela sabia que meu irmão nunca mereceu nada daquilo; nem ser morto, nem sofrer no pós vida. Desde então, nós soubemos da existência do que se esconde debaixo de nossas camas.
Agora não mais das nossas, porque caçamos isso. Talvez se esconda debaixo da sua, mas se isso acontecer, nós cuidaremos disso.
– Saca só essa belezinha. – Disse , deixando dois pratos em cima da mesa e me tirando completamente dos pensamentos. – Um hambúrguer maior que minha cabeça e muitas fritas. Vou me acabar.
Viu? Eu disse.
– Queria saber seu segredo pra comer tanto e nunca engordar. – Balancei a cabeça, rindo.
Ela me olhou com a boca cheia de batatas fritas e deu de ombros.
– Tem algo pra nós?
– Nenhum sinal de Mnemosine. Mas eu tenho um caso. – Falei com entusiasmo, virando o laptop para ela com a página aberta na notícia. – Um cara foi morto em Ankeny, Iowa. Seu pescoço foi rasgado e... bem, o que restou do corpo está cheio de mordidas.
Tal qual o sanduíche de , completei em pensamento.
– E parece que não é o primeiro. – Continuei. – Quem tá fazendo isso também está deixando uma pilha de corpos para trás. A mesma criatura fez mais duas vítimas e outras três pessoas estão desaparecidas.
Ela parecia completamente concentrada na refeição, o que me fez suspirar, mas logo levantou o olhar.
– Vampiro? – Perguntou.
Quando eu estava prestes a responder, recebi uma ligação. Olhei para ela como quem diz “e por falar no diabo...” e atendi.
– Boooobby! – Falei com o mesmo entusiasmo de uma filha que passou o dia dormindo ao invés de fazer os serviços domésticos solicitados pelo pai enquanto ele estava no trabalho.
Os olhos de brilharam e ela largou o sanduíche tão rápido como quando o agarrou.
– Coloca no viva-voz. – Cochichou, e assim eu o fiz.
Eu espero que vocês duas tenham uma boa desculpa pra não ter acabado com o ninho de vampiros em Iowa ainda. – Resmungou o velhote no telefone.
pigarreou.
– É... estamos cuidando disso.
Andem logo. Não façam como aqueles dois idiotas... E por falar no diabo! Preciso desligar, falo com vocês depois. – Disse Bobby, e completou: – E meninas, se cuidem na caça.
– Tchau, Bobby! – Falamos em uníssono.
Minha melhor amiga ergueu a sobrancelha.
– Dois idiotas? – Perguntou mais para si mesma que para mim.
Dei de ombros, não sabia de quem Bobby estava falando.
– Vamos logo, não temos tempo a perder. – Falei, levantando-me da mesa.
segurou meu braço. Não com força ou com agressividade, mas com firmeza a ponto de me chamar a atenção.
– Não é isso que estamos caçando. Deixe o alerta para outros caçadores. Vampiros não são problema nosso. Mnemosine sim. – Disse .
Suspirei. Queria encontrar Mnemosine – a coisa que matou Jake – tanto quanto , mas ainda não era a hora. Bobby estava nos ajudando a rastrear a criatura, e estava sendo muito mais fácil com a ajuda dele. Entretanto, ainda não tínhamos muitas informações. Largar tudo e ir atrás de Mnemosine às cegas seria como dar um tiro no escuro e acertar o próprio pé.
– Sei que quer vingar seu namorado, e eu também quero justiça pelo meu irmão. – Comecei. – Mas sejamos mais espertas, estamos de mãos vazias agora.
Ela suspirou, soltando meu braço. Franzi os lábios e peguei o laptop e as coisas em cima da mesa.
– E você ouviu o Bobby! Hora de trabalhar, garota. Vamos nessa.

divisor

Iowa não parecia tão longe quanto achávamos, mas havíamos chegado exaustas. Nosso Camaro 69 correu ferozmente, como sempre fazia, mas ainda não foi páreo para a distância. Alugamos um quarto de hotel e tudo que conseguimos fazer naquela mesma noite foi arremessar nossos corpos contra as respectivas camas e dormir até o outro dia.
acordou animada, falando de uma lanchonete que tinha visto ao entrar em Ankeny e comparando sua fome com a de um leão. Eu não era uma pessoa matutina, então levantei a mão em sinal de pare para e me encaminhei ao banheiro antes de sairmos. Apesar da vida que levávamos, eu me considerava uma garota muito vaidosa, então não podia sair sem cuidar do meu cabelo, usar minha enorme variedade de hidratantes para a pele super cheirosos e escolher a melhor roupa para a ocasião – mesmo que a ocasião fosse o café da manhã com a senhorita Come-Tudo.
Depois da lanchonete, onde eu tenho certeza que acabou com o estoque de carne de hambúrguer, fomos ao trabalho. No porta malas do Camaro, nossos conjuntos de alfaiataria e armamento nos esperavam: ternos pretos e distintivos do FBI com credenciais falsas, além das pistolas que estavam prestes a fazer parte de nós de tanto que andavam penduradas entre nossa pele e o cós da calça.
– Parece que outra pessoa morreu enquanto dormíamos. – Comentei baixinho para .
– Vamos descobrir quem é.
O local estava cheio de civis curiosos, mas a cena de crime já havia se tornado perímetro fechado da polícia de Ankeny. O corpo morto no chão era de uma garota e estava tão feia quanto os cadáveres anteriores. A polícia local parecia confusa, sem saber por onde começar. É no olhar deles que temos a certeza que é nosso tipo de trabalho, quando suas íris entregam que a própria polícia não sabe mais o que fazer.
Exibi o distintivo e fez o mesmo.
– Agente Jones e essa é minha parceira, a agente Nicks. – nos apresentou, exibindo o documento falso com os nomes falsos.
O policial franziu a testa.
– Federais aqui? – Questionou, como se fosse uma grande surpresa. – Bom... Eu sou o xerife Winfield. Sejam bem-vindas à cidade.
Sorri brevemente em agradecimento, mas minha cara estava mais para “tá, chega de enrolação e vamos ao que interessa”. Entretanto, algo me chamou um pouco mais a atenção: o ranger de um motor potente se aproximando do local. Segurei meus impulsos para ver qual carro era, mas concentrei-me na cena do crime.
– O que tem para nós, xerife? – Perguntei.
O homem tirou seu chapéu de cowboy com identificação de xerife e o levou ao peito.
– Esta é Florence Smith. Aluna do último ano na escola pública. Era exemplar. – Comentou. – Estava fazendo um projeto de ciências e acabou ficando lá até tarde da noite. O professor foi o último a vê-la. Já falamos com o sujeito, mas ele não sabe de nada.
E então, para a minha surpresa, dois homens altos se intrometeram no nosso trabalho. Um deles era bem mais alto que o outro.
– Parecia conhece-la, xerife. – Comentou o mais baixo, que logo apresentou distintivos do FBI. – Eu sou o agente Hetfield e esse é o agente Ulrich, FBI.
O xerife pareceu confuso. Eu e erguemos uma sobrancelha e nos entreolhamos.
Federais de verdade? Ferrou!
– Caramba, mais de vocês? São como formigas em um formigueiro, se mexe com uma, aparecem várias! – Reclamou, erguendo as mãos como se desistisse da cena de crime e se afastou para conversar com outros policiais presentes no local.
Olhamos para eles.
– Desculpe, mas quem são vocês? – Questionei.
O mais baixo pareceu ofendido.
– Acabamos de nos apresentar. – Respondeu o mais alto, o suposto agente Ulrich.
Só idiota acreditaria nisso.
– E vocês? – Questionou Hetfield.
– Vão embora, esse caso é nosso. – respondeu com frieza.
– Não vamos a lugar nenhum. – Disseram.
Suspirei, me aproximando do mais alto e o encarando como se o desafiasse.
– Vocês estão atrapalhando nosso trabalho. Chegamos primeiro.
Ele não pareceu nada intimidado e, olhando de perto, era jovem demais para aquele emprego. Bem como eu e minha irmã. Todavia, seu rosto era encantadoramente bem desenhado. Balancei a cabeça para afastar o pensamento estranho e descabido.
– Solicito contato com o seu superior. – Devolveu o agente Ulrich.
Eu gelei. Não sabia como prosseguir daí em diante.
– Ótimo. – Disse , puxando o celular do bolso e ligando para Deus sabe quem. – Aqui quem fala é a agente Jones, peço que me transfira para o Agente Especial de Supervisão Haner.
Então veio a pausa. Esperamos um pouco para dar continuidade à mentira dela. Encarei os dois e o mais baixo fez careta, como uma criança prestes a perder um jogo. Revirei os olhos.
– Tem dois idiotas em campo alegando terem sido mandados para o caso de Ankeny, Iowa. Um deles solicitou contato com um superior, vou passar o telefone. – Falou minha melhor amiga, entregando o telefone ao mais alto.
Ele pareceu descrente, franzindo a testa por meio segundo e pegando o telefone.
– Alô?
De longe, ouvi o grito de Bobby na ligação e sorri em alívio.
Agente Especial de Supervisão Brian Haner, do escritório do FBI em Des Moines, Iowa. Estou ciente da operação em Ankeny. – Fez uma pausa, então continuou: – Escuta aqui, filho: ousa questionar minhas ordens e a presença das minhas agentes em campo?
O grandão pareceu surpreso, mas logo deu uma risada inaudível. Quando abriu a boca para falar, foi interrompido novamente:
Deixe as minhas agentes trabalharem ou, juro por Deus, mando alguém do quartel-general de Omaha pra enfiar uma papelada de suspensão no rabo de vocês.
Ele riu de novo, hesitando em falar como se estivesse muito surpreso para isso. Encarou o outro agente e levantou as sobrancelhas.
– Bobby?! – Indagou o mais alto.
Houve silêncio e mais surpresa ainda da parte de ambos os times. O loiro, agente Hetfield, riu como se já tivesse visto esse filme um milhão de vezes. A linha ficou muda por um momento, mas Bobby respondeu tão alto que, novamente, todo mundo escutou.
Droga, vocês são piores que amadores! – Reclamou o velhote. – Seus idiotas, eu mandei vocês pra Chicago!
Depois de alguns minutos ouvindo xingamentos e tentando se explicar, os dois se despediram de Bobby e nos entregaram o telefone.
– Tá, tudo bem. Nossos disfarces foram pro ralo, então... Eu sou Sam Winchester e esse é meu irmão, Dean.
O tal Dean abriu um sorriso sem graça, ainda tímido por ter sido escrachado por telefone. Arranquei o celular da mão do mais alto e suspirei, cansada daquela situação.
– Não sei se notou, mas temos uma trilha de cadáveres até Florence Smith e estamos ficando sem tempo contra esses sanguessugas malditos. – Vociferei e me afastei dos três.
reprimiu os lábios e olhou para ambos com culpa.
– Ela é a . Meu nome é . – Apresentou-se.
Então, para meu maior desgosto, ela trouxe os dois para perto de mim e da garota morta enquanto eu conversava com alguns civis que estavam por ali.
– Ela era uma boa garota, não entendo quem poderia ter feito isso...
– Nós iremos descobrir. – Afirmei e dispensei a senhora e voltei minha atenção para eles mais uma vez. – Se vão ficar pra encher o saco, é melhor ajudarem em alguma coisa.
Dean pareceu perder a paciência. Devia ter o mesmo temperamento que o meu.
– Escuta aqui, mocinha. Eu não vim empinar pipa ou ficar olhando o tempo passar sem fazer nada. Estamos aqui a trabalho. – Falou em um tom de repreensão.
Fiquei quieta. Parte do motivo de agir assim é porque odiava que as coisas não fossem levadas a sério como deveriam, e aquele momento de idiotice poderia ser o tempo em que os vampiros faziam outra vítima. Porém, Sam achou melhor mandar Dean falar com o xerife para conseguir os arquivos das vítimas e o seguiu, alegando ser boa em reconhecer padrões. Enquanto isso, eu encarava o corpo destroçado de Florence, contemplando o rápido flashback que minha mente reproduzia: o dia em que encontrei o corpo do meu irmão.
Suspirei, afastando o pensamento com a ajuda de Sam, que resolveu abrir a boca para me dirigir a palavra. Pensei que ele falaria algo ofensivo ou de forma bruta, como seu irmão. Mas para minha surpresa, Sam era gentil e parecia não querer me irritar ainda mais.
, não é?
Balancei a cabeça positivamente.
– Olha, nós viemos ajudar... – Disse em tom de voz brando e sutil, como se levantasse bandeira branca. – Queremos achar o ninho tanto quanto vocês, não temos dúvidas de que vampiros estão por trás disso.
Reprimi os lábios novamente.
– Eu não vou me desculpar por achar ruim perder tempo. – Respondi mais calmamente, mas com o tom de voz ainda áspero. – E quando nós acharmos esses vampiros, eu vou matar um por um.
Ele sorriu e baixou a cabeça.
– Certo, , respeito isso.
Meu olhar se voltou a ele novamente, curiosa com a forma de agir de Sam. Era completamente diferente do irmão. Pelo menos, naquele sentido.
– Então vamos à caça.

Lawrence, Kansas. 1997.

Jake conseguia ser extremamente irritante quando queria, até seu sorrisinho idiota me tirava do sério, pois era carregado de travessura e de avisos de irmão mais velho que dizia “eu te disse”. Meu irmão estava com as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. O cachecol escondia seus lábios, mas eu sabia que ele estava sorrindo, porque suas bochechas repuxavam sob o tecido de forma que entregavam o riso contido.
– Eu não conseguiria prever que o Simon é um babaca! – Fiz minha defesa, bufando.
Eu era uma adolescente idiota. Assim como Jake, já que éramos gêmeos. Mas ele parecia ter muito mais idade, era mais experiente. Ao contrário de mim, Jake saía de casa mais vezes para viver sua própria vida. Já eu, era só uma esquisitona que ia de casa para a escola e da escola para casa. Além disso, eu tinha uma única amiga, a Luoyna, que era tão esquisita quanto eu.
Um dia, eu decidi me aventurar pelas “empreitadas” da vida e acabei me apaixonando. Não saía muito, não tinha muitos amigos como Jake, mas o que eu fiz foi a decisão mais burra que eu poderia ter tomado: quando Luoyna disse “você deveria reparar mais nas pessoas ao seu redor”, eu instintivamente aderi ao seu conselho. Reparei no cara mais bonito que meus olhos já encontraram naquele fim de mundo de escola, bem no ano em que Jake e começaram a namorar. Foi a empreitada mais radical e cheia de adrenalina que eu tinha colocado no currículo até então.
Simon era amigo do meu irmão. Ele sempre almoçava com Jake e os outros caras do time de futebol. Dentro de campo, os dois eram como almas gêmeas: passavam a bola um para o outro como quem troca alianças, marcavam jogadas incríveis que dedicavam a eles como uma serenata e, acima de tudo, deixavam visível a paixão presente no modo como comemoravam as vitórias iminentes. Eu até sentia inveja dessa sinergia, pois o campo de futebol americano era o único lugar onde eu não era a gêmea de Jake e sim, outra pessoa. Apesar da minha descrição exagerada de sua dinâmica em campo, Jake e Simon eram grandes amigos.
Depois de acatar o conselho de Luoyna, para meu infortúnio, Simon me olhou de volta e sorriu. Desde então, nós nos aproximamos de forma gradual, sem pressa. Ele era gentil, me respeitava e elogiava minhas qualidades. Contrariando os clichês de filmes de romance, a péssima em matemática era eu. Simon, em seu tempo livre na escola, me ajudava com os deveres de casa na biblioteca. O garoto era extremamente inteligente. Todavia, quando Jake descobriu que estávamos passando mais tempo juntos do que deveríamos, e que eu estava tão caidinha por Simon quanto ele estava por mim, me deu o maior sermão que eu já levei na vida.
Jake parecia até furioso enquanto andava de um lado para o outro no quarto, como um pai preocupado. Ele adorava seu amigo, mas sabia do histórico de Simon. Meu irmão me avisou sobre a libertinagem do seu companheiro de campo, disse que Simon não era a tal da flor que se cheire, mesmo que me tratasse bem. Fiz meu drama sobre avisos, mas fui eu quem escolhi ignorar todos eles. Jake me mandou ficar longe do seu amigo pelo meu próprio bem. O que eu fiz em seguida foi óbvio: Não fui a gêmea dele mais uma vez quando decidi excluir seus conselhos e dar o benefício da dúvida a Simon.
Então, estávamos ali, pós baile de formatura, sentados nos balanços pendurados na maior árvore do campus e nos balançando calmamente para frente e para trás. Nós observávamos as pessoas indo para suas casas, sentindo o frio nos açoitando como se portasse um chicote. ainda não estava presente, pois fazia parte da equipe de organização do evento, então era somente eu e meu irmão.
Eu suspirava vendo Simon deixar o prédio de mãos dadas com Ophelia, a patricinha popular mais sem sal que qualquer escola do ensino médio poderia ter o desprazer de matricular. Simon me enganou todas as vezes que olhava em meus olhos e dizia que gostava de mim, e mentiu em muitas ocasiões, como quando escondeu que trocava cartas de amor com Ophelia. Sequer iniciamos um relacionamento, mas a responsabilidade afetiva já tinha passado bem longe desde o começo.
– Eu avisei a você, . – Falou, tão sereno quanto a noite.
Suspirei pesadamente. Ele estava certo.
– Mas você poderia ter me ensinado. – Insisti, intercalando o olhar entre meu irmão e a cena tenebrosa de Simon guiando loira oxigenada para a limousine que os esperavam. – Você e se amam de verdade, então...
Jake ergueu a sobrancelha, rindo.
– Então...? – Incentivou ele.
Reprimi os lábios antes de continuar. Não sabia ao certo o que estava fazendo, nunca tinha gostado de ninguém antes de Simon e nem sabia como lidar com um coração partido. Minha mãe sempre disse que eu era durona e agradeci por isso, porque não chorei quando a decepção me atingiu em cheio.
– Então como eu vou saber quando alguém verdadeiramente se apaixonar por mim? – Perguntei, na lata e sem escolher muito as palavras. Eu me sentia uma boba. – Como vou saber que não estou sendo enganada?
Jake pareceu surpreso com a minha pergunta e passou alguns minutos em silêncio, desviando o olhar e encarando os próprios sapatos. Parecia ter sido pego de surpresa pela primeira vez, quando ele era do tipo que sempre tinha resposta para tudo.
– O amor genuíno se enxerga no olhar. – Começou ele. – As pupilas dilatam, os olhos brilham. E então, você pode ouvir o pulsar do coração do outro a quilômetros de distância. É rápido e violento, enfurecido como se quisesse sair do peito.
Amar parecia ser algo visceral para Jake.
– O amor vai te fazer lutar pelo que é certo. É assim que você sabe quando passa a amar e ser amado de verdade. – Concluiu.
– Foi assim que descobriu que amaria ? – Indaguei.
Ele sorriu e assentiu.
– Sim, e acho que ela ouviu o pulsar do meu coração. Foi tão alto que fiquei com vergonha.
Nós rimos como se fosse uma piada vindo diretamente daquelas séries de comédia romântica. Jake passou o resto do breve momento contando as suas trapalhadas até chegar em , antes dela se encontrar conosco ali, e, de repente, a noite já não estava tão ruim. Eu havia esquecido que meu coração estava em pedaços. Tudo isso por causa do poder que meu irmão possuía de suavizar o clima, de puxar minha mão e me guiar para fora de uma neblina densa formada em minha mente.


Ankeny, Iowa. 2006.

Eu e escolhemos um bar qualquer da cidade para despistar a dupla de bonitões vinda diretamente de Hollywood. Era sujo, com cheiro de suor e álcool, muitas garçonetes mal-humoradas e uma variedade de jogos de azar espalhados pelo recinto. Em outras palavras, havíamos escolhido o lugar perfeito para relaxar e pensar sobre nosso próximo passo.
O sol já tinha nos deixado, permitindo que a noite caísse e o dia cansativo ficasse para trás. Quando resolveram nos ajudar, os Winchester fizeram sua hospedagem no mesmo hotel em que estávamos instaladas. Todavia, eu e minha amiga tínhamos assuntos pessoais a tratar e deixamos o plano de ataque ao ninho vampiresco por conta deles. Os rapazes foram buscar mais informações, fazer ligações e elaborar alguma estratégia. Ainda não tínhamos o endereço exato, mas Bobby disse que estava no encalço dos sanguessugas malditos.
– Eu vou querer uma cerveja, por favor. – Pediu , assim que uma moça se aproximou. Ela segurava um bloquinho de notas e uma expressão facial de desgosto. – Traz um hambúrguer também... O maior que vocês tiverem na casa, por gentileza!
O sorriso de se expandiu, exibindo os dentes alinhados e brancos. Meu laptop estava ligado, permitindo minha troca de e-mails com Bobby e Sam. O Winchester mais novo me escreveu mais cedo, dizendo que havia conseguido meu endereço eletrônico através de Bobby. Ele mandou uma pista importante sobre o caso. Entretanto, eu e minha amiga continuávamos uma pesquisa pessoal antiga sempre que tínhamos um tempinho sobrando.
– Aí, se liga. – Chamei , que estava descaradamente olhando para a bunda da garçonete do outro lado do salão. – Ô, presta atenção!
estava de pernas cruzadas, na pose mais sedutora que conseguia fazer. Ficava assim sempre quando encontrava alguém por quem se interessava. Apesar da garçonete ser mal-humorada, ela era dona de cabelos dourados de dar inveja e um par de olhos verdes hipnotizantes. Além disso, a sexualidade de minha amiga nunca foi mistério para ninguém. Nem para seus pais, nem seus amigos. Muito menos era problema para Jake, que sempre confiou e respeitou muito .
– Eu espero que você tenha uma pista muito boa para me tirar do foco assim! – Reclamou ela, voltando à posição de ombros caídos, como se tivesse sido derrotada.
Ela bufou, fazendo bico e apoiando os cotovelos na mesa.
– Você me detesta. – fez seu drama, como sempre fazia quando estava cansada demais para continuar o dia.
Revirei os olhos, contendo o riso.
– O Bobby mandou uma pista sobre Mnemosine. – Disparei, retendo toda a atenção da garota quase que de imediato.
Estávamos na cola dessa entidade por anos, pois tínhamos certeza de que Jake foi uma de suas vítimas. Até onde nós sabíamos, Mnemosine era uma deusa grega. Mais especificamente, uma titânide, filha de Urano e Gaia, personificação da memória e da lembrança, tanto individual quanto coletiva. Essa desgraçada se alimenta das memórias das pessoas e nossa teoria era de que ela faz isso se passando por um ente querido. Quando Mnemosine se alimenta, ela deixa para trás uma espécie de zumbi: a vítima passa a viver como uma sombra de quem costumava a ser; ou seja, a pessoa afetada não dorme, não come, não sente. Tornam-se como pacientes no pós-operatório de uma lobotomia.
Bobby folheou inúmeros livros antigos na biblioteca que chamava de casa, à procura de relatos e informações sobre Mnemosine. Em algumas literaturas, ela se alimenta até que não sobre nada e então, a vítima não encontra nenhum sentido na vida além de sua própria morte. O suicídio de Jake exemplificaria isso. Além do mais, a fonte de seu poder é contida em um rubi preso ao seu peito. Alguns livros de Bobby apontam o rubi como o coração da deusa, o que a tornaria diferente das outras divindades na hora de matá-la. A memórias ficam presas dentro da pedra preciosa e Bobby leu que existem duas hipóteses ao destruí-lo: 1) as vítimas nunca recuperam suas lembranças, tornando o efeito da deusa irreversível; 2) as memórias retornam aos respectivos donos, dando-nos o final feliz que merecíamos.
Mas de uma coisa tínhamos certeza: se o rubi fosse destruído, nós mataríamos a maldita para sempre. De qualquer forma, o final razoavelmente feliz seria alcançado. Mnemosine seria morta e Jake, vingado.
Porém, ela não era uma deusa fácil de rastrear, e é aí que vem o pulo do gato. Aparentemente, Bobby havia coletado mais informações enquanto estávamos em Iowa. Essa entidade atacava com um padrão que nós já tínhamos identificado, só nos restava especulações sobre o tempo exato em que Mnemosine daria seu primeiro passo depois de despertar. Ela tem seu tempo de dormência, onde hiberna por dois ou três anos, e o período ativo, que ainda era uma incógnita.
Virei o laptop para .
Bobby Singer bobbysinger@hotmail.com
7:54 PM (20 minutos atrás)
para

“Meninas, Mnemosine está desperta. É agora ou nunca. Mas não se desesperem, Rufus está nos ajudando no caso. Vamos pegá-la juntos. Não façam nenhuma besteira e venham para Sioux Falls o mais rápido possível depois de cuidar dos vampiros.”


Eu queria largar tudo e partir imediatamente para Sioux Falls e, pelo olhar de , ela pensava o mesmo. Não obstante, era de nosso conhecimento que querer não é poder, principalmente na situação atual em Ankeny.
– Como ele sabe que Mnemosine despertou? – Indagou ela. – Ou melhor: o que nós estamos esperando?
– Você está brincando? Não podemos deixar mais pessoas morrerem por causa de sanguessugas malditos! – Respondi, meio impaciente. – Acho que Bobby identificou os sinais do despertar da titânide.
Ela sabia que não podíamos deixar a situação como estava, mesmo com os Winchester ajudando. Entretanto, também não podia culpa-la. queria justiça por Jake tanto quanto eu, mas em sete anos caçando essas porcarias, estávamos começando a confundir justiça com vingança. Eu não me importava de ter tais propósitos corrompidos pela raiva, porque queria fazer o sobrenatural pagar de todas as formas que estivesse ao meu alcance. Matar Mnemosine era um bom começo.
Eu queria vingança. O plano não era só matar a titânide, mas fazê-la sentir toda a dor que causou a Jake e nossa família. Ela iria beber do próprio veneno. Mas não merecia ter o seu amor por Jake manchado pela raiva contagiosa que eu sentia de Mnemosine.
– Assim que resolvermos isso, nós vamos até o Bobby. – Determinou, logo dando continuidade: – Quanto aos vampiros, o que descobriu?
Suspirei, sem contestar.
– Sam me mandou algo. Ele disse que investigou os arquivos das vítimas e todas elas conheciam alguém em comum: o professor de ciências da escola de Florence, o sr. Walsh. – Expliquei, ao mesmo tempo que digitava outro e-mail para Sam.
A garçonete Odeio-Sorrir finalmente havia chegado com o pedido da senhorita Come-Tudo e o meu copo de água, fazendo minha amiga me olhar torto e balançar a cabeça.
– Fala sério... Água? Você nunca se diverte. – Bufou , jogando os fios de cabelo para trás e se preparando para dar uma mordida no lanche. Mas antes, retomou o assunto: – Devíamos falar com esse cara. O sr. Welsh.
Abri um sorriso.
– É sr. Walsh. E os Winchester já deram um jeito nele. Estão com o professor sob custódia em seu... – Estreitei as pálpebras para ler direito o que estava no e-mail de Sam. – Quarto de hotel? Uau, que amadores.
riu.
– Eles são idiotas ou o quê? Podem atrair os vampiros se esse cara estiver mesmo trabalhando para eles. – Pontuou minha amiga.
Isso é genial, na verdade.
Apressei os dedos para digitar uma resposta para Sam.
@hotmail.com
8:16 PM (1 minuto atrás)
para Sam Winchester

“Vocês idiotas estão tentando pegar os vampiros sem a gente? Estamos a caminho, não vamos deixar a diversão toda para os dois imbecis.”


Fechei o laptop de imediato, levantando da mesa e deixando uma faminta completamente confusa.
– Ei! Aonde você vai? – A garota se apressou para me acompanhar.
– Eles estão com o suspeito, precisamos ir. Temos trabalho a fazer.
bufou, suspirou, reclamou. Fez tudo que podia. Ela odiava ter que deixar comida para trás, mas sabia que era por uma boa causa. Entramos no Camaro em um pulo, abandonando o bar logo em seguida.
Enquanto não alcançava Mnemosine, outros monstros pagariam pelo seu terrível erro de ter matado meu irmão.

Ankeny, Iowa. 2006.

O quarto de hotel alugado por Sam e Dean parecia muito mais apertado com o suspeito amarrado à uma cadeira no meio do cômodo. Frederich Walsh estava com a cabeça baixa, preocupado demais com sua própria insignificância e se colocando em risco para salvar criaturas que não mereciam redenção.
Ele estava intocado: os óculos fundo de garrafa no lugar, alguns fios de cabelo bagunçados – mas isso parecia ser comum para ele –, e o terno e gravata em perfeitas condições. Sua cabeça estava vermelha e ele parecia não conseguir respirar direito com tanto medo. Eu podia jurar que o desgraçado iria urinar ali mesmo. Era patético de dar pena.
— Poderia mandar todas essas informações para mim no e-mail que deixei no departamento, por gentileza? — Perguntou ao telefone, andando pacientemente de um lado para o outro no quarto. — Muito obrigada, xerife!
Dean estava sentado na beirada da cama, encarando Sam, que estava em pé do outro lado do quarto e encostado na parede. Eu estava ao seu lado, aguardando executar o plano que havia dito que tinha em mente para fazer Frederich falar.
— Ele não disse nada ainda? — Perguntei, olhando para Sam, que só negou com a cabeça.
O mais velho dos Winchester se levantou, aproximou-se do suspeito e soltou um suspiro.
— Ô, rapaz, quanto mais cedo você falar, melhor vai ser pra todo mundo. — Pediu em um tom de voz descontraído. — Por que você não nos dá logo o endereço dos vampiros? Nós sabemos que você sabe.
Enquanto Dean tentava intimidar o sr. Walsh, Sam me entregara um arquivo com o mapeamento das vítimas, contendo datas e possíveis ligações com o suspeito. Sabíamos que ele não era vampiro, pois os Winchester o haviam testado antes de chegarmos lá. Ele era humano. O que não sabíamos é o motivo de um humano trabalhar para vampiros.
Eu me aproximei do indivíduo, com os olhos fixos na papelada em minhas mãos, enquanto ainda verificava seu celular e aguardava sabe-se-lá-o-que do xerife. Apesar disso, ela tinha uma carta na manga e talvez seu plano poderia ser mais eficiente que amedrontar um cara tão patético como o que estava sentado à minha frente. Dean se aproximou de e resolveu tomar conta da verificação e espera junto com ela, puxando assunto com minha amiga e deixando claro que desistiu de arrancar qualquer informação do cara. É quase como se declarasse que ele não iria falar.
Sam se aproximou de mim, e essa proximidade me causou uma sensação estranha, mas boa, evidenciando a força na sua presença e alimentando meu sangue com doses leves de adrenalina só pelo fato de estar ao meu lado. Aquilo era amedrontador, pois eu sequer o conhecia. Não havia me sentido assim nem com Simon, nem quando ele estava tão próximo de mim a ponto de tocar seus lábios nos meus — o que aconteceu muitas vezes, e nem uma delas me trouxe essa sensação intempestiva que Sam proporcionava sem nenhum esforço.
Tentei afastar o meu foco disso, voltando minha atenção para Frederich.
— Amy Kiev, Riley Santiago... — Li os nomes das vítimas, finalizando pela mais recente. — Florence Smith. Você consegue notar algum padrão ou ligação entre essas vítimas, Sam?
Minha indagação foi carregada de ironia. Era óbvio que eles conheciam Frederich Walsh e estiveram com ele antes de partirem dessa para a melhor. Sam cruzou os braços, fuzilando o suspeito com o olhar.
— A ligação aí é que Frederich Walsh foi a última pessoa que eles viram antes de morrer. — Respondeu o Winchester mais alto, em um tom de voz contido, mas cheio de rancor.
O homem não demonstrava nada além de medo. Nem remorso, nem arrependimento. Apenas temia por sua própria pele. Parecia que, se falasse algo, iria pagar por isso, então mantinha-se quieto.
— A pergunta é: o que um cara tão patético como você tem a ver com isso? Por que não quer nos contar?
Ele pareceu ofendido por um momento e, quando ia abrir a boca para me retrucar, pulou do outro lado da sala.
Yes, baby! Obrigada, xerife, você é demais! — Exclamou, deixando Dean com um sorriso bobo nos lábios. — Eu puxei a ficha de Frederich Walsh na polícia.
Eles se aproximaram novamente.
— Sabiam que o nosso cara tem uma filha pequena? O nome dela é Patricia Walsh. — Começou Dean, cruzando os braços. Parecia até mania de Winchester.
— E o mais curioso, é que a mãe de Patricia é dada como morta. Adivinhem como ela morreu... — continuou, não nos dando tempo para formular palpites: — O legista afirmou que Caroline Walsh foi morta em um incêndio doméstico, então eles não enterraram corpo nenhum.
Ainda não tínhamos entendido onde ela queria chegar, mas Frederich olhava para ela com desespero, como se estivesse destrinchando seu segredo mais sujo.
— Não, por favor... — Pediu ele.
Fui rápida em tapar a boca dele com um pedaço de fita.
Verme.
— Na noite em que Caroline morreu, ela supostamente descobriu a traição do marido com Amy Kiev, a secretária jovem e bonitinha do colégio em que ele trabalha — deu continuidade e Frederich se contorcia na cadeira, dando gritos abafados pela fita e tentando se soltar da corda.
Dean deu um passo à frente, abrindo um sorriso presunçoso para o culpado.
— Então, desolada e de coração partido, Caroline acidentalmente iniciou um incêndio na cozinha enquanto Frederich estava voltando para casa. — Disse o Winchester mais velho. — Essa foi a versão que ele contou para a polícia, mas não foi isso que aconteceu. Não é, sr. Walsh?
Uma lâmpada pareceu ter acendido na cabeça de Sam e na minha.
— Ela não ficou em casa, ela saiu e foi atacada. — Sugeri, e pela reação de Walsh, eu tive certeza.
— Então Caroline foi transformada? — Indagou Sam, ainda minimamente confuso.
Ele começou a chorar, abaixando a cabeça e sacudindo os ombros enquanto soluçava.
— Bingo! — Exclamou .
Dean arrancou a fita da boca do homem, dando-lhe oportunidade para se explicar e assim ele o fez, mesmo em prantos:
— Minha esposa viu meus e-mails com Amy... ela tinha problemas com álcool, estava tentando superar isso, mas eu estraguei tudo.
Ah, que bom que sabe, pensei.
— Caroline saiu de casa e foi para o Gary’s, que é o bar mais famoso da cidade. Me ligou depois de beber todas e foi assim que eu descobri que ela já sabia — Ele se explicou, olhando para nós. — Então, eu fui correndo até lá. Ela me disse para encontrá-la, disse que estava com fome. Muita fome.
Frederich deu uma pausa, mas logo continuou.
— Quando cheguei ao bar, não a vi. Perguntei das garçonetes e de quem estava lá, e disseram que ela havia saído. Então, eu saí pela porta dos fundos e ouvi um barulho estranho perto da caçamba de lixo... — O que viria a seguir o destruía, pois Frederich apertava as pálpebras uma na outra com força, como se negasse a dura verdade. — Era Caroline banhada pelo sangue de Amy, que estava morta embaixo dela.
Respirei fundo. Tudo parecia se encaixar na minha cabeça. Pelo menos, boa parte da história.
— Seus olhos e dentes estavam diferentes, não é? — Incentivou , com um tom de voz compadecido.
Ele assentiu, olhando para ela na tentativa de evidenciar ainda mais seu sofrimento com a situação da esposa. Dean e Sam desviaram o olhar brevemente, como quem perde uma batalha. Houve silêncio no cômodo, mas eu não permiti que durasse muito. Aquele homem definitivamente não era uma vítima, e eu não deixaria que o tratassem como uma.
— Desembucha. — Exigi, ignorando completamente o teatro dele e apoiando as duas mãos nos braços da cadeira de Frederich, que me olhou assustado. — Sua mulher está assim por sua culpa, você causou seu próprio sofrimento e o dela. Agora sua filha cresce sem saber o que aconteceu com a mãe e pessoas inocentes estão morrendo, droga!
Ele engoliu o choro. Seu olhar denunciava que Frederich nunca havia enxergado a partir desse ponto de vista. Sua voz pareceu mais centrada quando voltou a se pronunciar.
— Você tem razão.
Afastei-me dele, e foi a vez de Sam se aproximar com o seu jeito meigo e compreensivo como fez comigo daquela vez.
— Você pode fazer o que é certo, Frederich. Basta nos dizer onde podemos encontrar Caroline.
Ele assentiu e estava de prontidão a ajudar.
— Ela vive com outros... seja lá o que são essas coisas. Minha esposa disse que foi transformada por um homem que prometeu que cuidaria dela. Ele se chama Erick. — Comentou ele, suspirando. — Ele se aproveitou do coração partido de Caroline. Ela não gosta de matar, mas não consegue conter sua própria fome, então eu a ajudo a se alimentar. Sei que é errado, mas eu estava apavorado e com medo que ela chegasse em nossa filha também.
Ele deu uma pausa.
— Diante de tudo que eu fiz, também achei que era uma boa forma de me retratar com minha esposa. — Concluiu.
— Ótimo. Temos um vampiro melancólico formando uma família de corações partidos. Era tudo o que eu queria ouvir — reclamou , e com razão. — Preciso urgentemente de uma cerveja.
Houve uma pausa, então Dean continuou:
— E esse tal de Erick, onde podemos encontra-lo?
Frederich assentiu novamente e nos deu um endereço, afirmando que foi a última localização que sua esposa lhe deu. Larguei os arquivos sobre a cama, passando a mão na cabeça e me afastando um pouco da cena. Sam reparou meu desconforto e chegou mais perto.
— Você está bem?
— Eu não acredito que ele vai sair ileso no final. — Respondi, reclamando de dor de cabeça em seguida.
Sam negou imediatamente, como se aquela ideia fosse inadmissível.
— Isso não vai acontecer. Frederich está fazendo o que é certo, mas ainda vai pagar pela dor que causou.
Então, pela primeira vez, sorri para Sam. Alguns caçadores não ligavam quando o sobrenatural saía de cena, mas ele também fazia o que era certo, mesmo que restassem apenas humanos no desfecho daquela história trágica. Sam, então, sorriu de volta.
— Caroline só sai quando está com muita fome. — Pontuou Walsh. — Já Erick, mora neste endereço. Porém...
O homem criou um clima de expectativa com a pausa.
— Ele está sequestrando pessoas para aumentar sua família. Gosta desde meninas jovens até mulheres mais maduras. Então ele vai à procura no lugar mais movimentado da cidade. — Concluiu.
O Gary’s. É claro.
pegou as chaves do Camaro para reunir o armamento necessário no combate aos vampiros e Dean a seguiu, girando as chaves do seu belo Impala nos dedos. Eu me aproximei de Frederich, algemando o homem à cadeira para ter certeza que ele não escaparia, caso se soltasse da corda, e podendo contemplar a indignação em sua face.
— O quê?! O que é isso? Eu concordei em ajudar. — Reclamou ele.
Sam abriu o mesmo sorriso de quando falou com Bobby pelo telefone de minha amiga. Como se também já tivesse visto o mesmo filme inúmeras vezes.
— Você ajudou, mas também precisa pagar pelos mortos e pelos sequestrados, que provavelmente já viraram vampiros e terão que morrer. — Disse Sam, enfiando as mãos nos bolsos.
O canto dos meus lábios subiu em um sorriso breve de deleite ao saber que o culpado pagaria por seus crimes. Frederich se deu por vencido e aceitou os termos de condição.
Aquele breve momento me fez admirar ainda mais o Winchester em minha frente, que me olhou rapidamente com uma ternura um tanto descarada e tímida, porém breve. Ele se juntou a Dean e quando voltaram e logo traçaram um plano. Fiquei apenas escutando, já que eu era a parte da dupla com que executava e obedecia a comandos. Eu era o soldado perfeito, e era a estrategista impecável.

divisor

O plano foi elaborado, atacaríamos amanhã pela noite e nos dividimos em duas duplas mais óbvias possíveis: e Dean e eu e Sam. Eu e Dean éramos parecidos, do tipo que atira primeiro e faz perguntas depois, então Sam defendeu que era uma péssima ideia irmos juntos. Eu tive que concordar. Então, ficaria no bar do Gary tentando atrair Erick. Ela foi esperta: pegou as características do sujeito com Frederich e fez um retrato falado, pois o homem havia visto o vampiro deixar o bar na noite em que sua esposa foi transformada. Ela contou para Frederich o que Erick havia feito e confirmou quem era o sanguessuga. O sr. Walsh estava realmente disposto a pagar por seus pecados fazendo o que era certo.
Dean daria cobertura para e eles cuidariam do patriarca da família sugadora de sangue. Eu e Sam atacaríamos no endereço dado por Frederich. Esperávamos encontrar algum sequestrado ainda sem ter sofrido transformação, mas as expectativas estavam baixas. Quando tudo estava pronto para a execução, Sam e eu entregamos o sr. Walsh para a polícia, alegando que o homem tinha envolvimento com as mortes. Não precisamos de muitas provas, pois o próprio culpado confessou.
Quando tudo acabasse, ele ainda estaria mais seguro atrás das grades.
Ao cair da noite, achou uma boa ideia sair para comprar a janta. Ela e Dean foram à lanchonete em seu Impala, alegando que pediriam para a viagem e que comer juntos no quarto de hotel seria mais seguro naquele momento. Sam concordou e continuou limpando suas armas e eu, embebedando toda minha munição com sangue do homem morto, que é um veneno letal para os vampiros.
, me conta. — Começou Sam, sem parar o que estava fazendo, mas fixando seus olhos curiosos em mim. — Como começou a caçar?
Uma pontada gelada e estridente atingiu meu peito ao ouvir a pergunta, e estaria ferrada se já não estivesse pronta para falar sobre o assunto. Joguei a bolsa com o armamento para o canto do quarto e me deitei na cama que supostamente estava sendo usada por Dean. Soltei um suspiro fundo e olhei para ele.
— Meu irmão morreu quando eu tinha acabado de completar vinte anos. — Desabafei, voltando a encarar o teto quando Sam me lançou um olhar compadecido. — Ele foi dado como suicida, mas eu e nunca aceitamos isso. Ela amava muito meu irmão, eles namoravam desde o ensino médio e estavam planejando um casamento.
Podia ouvir o suspirar de Sam.
— Eu lamento, .
Abri um sorriso agradecido para ele, deitando-me de lado na cama e apoiando o cotovelo no travesseiro, bem como a cabeça na minha mão.
— Então, tivemos a nossa primeira experiência sobrenatural: o espírito furioso do meu próprio irmão, mas Bobby nos salvou. — Conclui, sem vontade alguma de me aprofundar naquele assunto. — Nós confiamos tanto nele que contamos tudo do começo ao fim. Quando Bobby deu a Jake o descanso que ele merecia, nós imploramos para que ele nos ajudasse a achar a coisa que o matou. Então, estamos aqui.
Sam soltou uma risada baixa e olhou para o revolver em mãos, terminando de montá-lo e o guardando.
— O Bobby é um baita figurão, mas... — Ele reprimiu os lábios por um breve momento, terminando de formular sua pergunta. — Conseguiram encontrar o que matou seu irmão?
Balancei a cabeça.
— É complicado. Caso a gente consiga sobreviver aos vampiros, eu te conto.
Sorri, logo me levantando e indo até ele. Sam afastou-se para que eu pudesse me sentar ao seu lado, e resolvi de prontidão ajuda-lo com a missão de limpar suas armas.
— Mas e você, Sam? Como entrou para essa vida?
Ele reprimiu os lábios momentaneamente, como se o assunto fosse tão delicado para ele quanto era para mim.
— Minha mãe morreu quando eu era um bebê. Desde então, meu pai nos criou como soldados à procura do demônio que a matou. — Comentou, um pouco triste.
— E onde ele está agora? Seu pai.
Sam suspirou.
— Ele morreu para salvar meu irmão. — Apesar da dor que carregava e tentava disfarçar, Sam sorriu. — O amor pela família sempre fez com que nós lutássemos pelo que é certo, e meu pai fez o que achou ser o certo.
As palavras dele me atingiram em cheio e trouxeram minha memória com Jake à tona. Pela primeira vez em anos, eu tive que reprimir os lábios com toda força para conter as lágrimas. Sam pareceu perceber, mas quando ia falar alguma coisa, a porta se abriu, revelando uma e um Dean engasgados de tanto rir um com o outro, ambos segurando muitas sacolas cheias de hambúrgueres, milk-shakes e batatas fritas.
Idiotas com o mesmo senso de humor.
Não deixei Sam se aproximar demais de minhas memórias e resolvi levantar no instante em que os outros dois chegaram. Ele entendeu que eu estava cortando o assunto e, pela expressão em seu rosto, parecia concordar que era o melhor para ambos. Sam também não queria que eu ultrapassasse os limites.
Combinávamos até nisso.

Era por volta de nove da noite. Sam dirigiu o Impala do irmão até o endereço dado por Frederich no dia anterior e estava no bar do Gary, cuidando das coisas por lá conforme o combinado. O caminho todo foi percorrido por mim e pelo Winchester mais novo em silêncio. Sam parecia tenso, como se temesse o que quer que fosse encontrar lá. Tinha quase certeza que ele havia perdido as esperanças de encontrar algum humano que não tivesse sido transformado ou servido de jantar de vampiro. Minha mente estava uma confusão e muitos pensamentos tomavam de conta: pensava em Caroline, ... Jake. No próprio Sam e na segurança de Dean. Todavia, não queria deixar a preocupação atrapalhar o trabalho. Tínhamos uma missão, e eu iria garantir que nenhum sanguessuga saísse vivo daquela casa.
— No que você está pensando, Sam? — Indaguei, na tentativa de amenizar o silêncio entre nós.
Ele havia estacionado em um lugar mais afastado da residência que era nosso alvo. A casa foi construída em uma espécie de quintal, algumas plantas estavam mortas e haviam poucos arbustos decorando o caminho de entrada até a porta. A trilha era feita com pedras gastas pelo tempo e eram quase sem cor, com exceção do lodo que se formava na ponta de algumas delas. Quase nada ali tinha cor. As luzes estavam acesas, apesar da iluminação ser fraca, e um balanço pendurado na árvore em frente ao local tornava o cenário ainda mais macabro. A brisa enraivecida açoitava minha pele com o frio descomunal. Parecia que ia chover, cair uma tempestade a qualquer momento. Meus cabelos eram lançados para trás com a fúria da ventania, bem como as folhas das árvores. O balanço ia junto. Nada muito significativo, aquela corrente de ar só queria denunciar o temporal que estava próximo.
Sam abriu o porta-malas, pegando a bolsa que havíamos separado no dia anterior e soltando um breve suspiro, enquanto verificava o armamento.
— Eu não sei o que iremos encontrar lá, . — Ele olhou para mim. — Não sei se vamos achar alguém que não tenha sido transformado ainda.
Reprimi os lábios em uma linha fina. Minha arma estava junto com a dele e não perdi tempo em me equipar. Era um revólver Taurus RT 889 prateado, meu favorito, e estava bêbado com sangue do homem morto, pronto para fazer qualquer vampiro passar mal.
Verifiquei a munição. A suavidade em minha expressão tornou-se rigidez.
— Nós vamos salvá-los, Sam. — Assegurei, voltando a olhar para ele. — E vamos matar todos os vampiros que encontrarmos.
Ele pareceu incomodado com o que eu disse.
— A questão não é essa, . — Rebateu Sam, fechando o porta-malas. — E se não houver mais ninguém para salvar?
Meu olho direito tremeu. Não gostava de pensar nessa possibilidade.
— Então iremos matá-los.
Ele franziu o cenho, como se não me reconhecesse. E precisava dessa confusão. O Winchester em minha frente não me conhecia, não tinha o direito de questionar-me implicitamente, com seus enormes olhos de cachorrinho perdido. Parecia implorar pelas vidas lá dentro como se eu fosse a grande vilã. Um passo para trás, revólver bem posicionado, e assim eu segui em direção ao nosso alvo.
— Espera! — Sam veio atrás, segurando meu braço de forma delicada e me fazendo olhar para si. — Mas e Caroline? Ela era inocente quando foi transformada.
Um riso de indignação escapou, me fazendo soltar o ar pelas narinas. Era inacreditável.
O Winchester mais novo é tão mole assim?
— Caroline deixou de ser inocente há uma, duas, três vítimas atrás, agente Ulrich. — Disparei em sarcasmo ao mencionar seu nome falso, soltando-me de sua pegada. — Vejo que não fez o dever de casa como achei que teria feito. Agora, se quiser, tente me acompanhar ou fique para trás. E se você atrapalhar minha missão, eu atiro no meio da sua cara.
Foi a vez de Sam expressar indignação. Parecia não acreditar no que ouvia, mas não retrucou. Não tínhamos tempo para isso. Ele resolveu me seguir em silêncio, enquanto nos esgueirávamos entre os arbustos a fim de alcançar a porta principal.
Quando Jake morreu e Bobby nos salvou, eu prometi a mim mesma que mataria Mnemosine e faria o mal pagar. Não só ela, mas qualquer criatura sobrenatural que cruzasse meu caminho. Eu não estava nem um pouco interessada em ouvir suas histórias tristes, sentir sua dor ou me compadecer por monstros. Nenhum deles merecia redenção. Nenhum. Monstros matam pessoas e minha missão é salvá-las. Todos eles pagariam pelo erro de Mnemosine e eu levaria o sangue de cada monstro comigo para meu túmulo quando morresse. Mataria o máximo que pudesse.
No entanto, ainda esperava poder salvar alguém naquela noite. A faca de lâmina afiada brilhava sob a luz da lua, presa em minha cintura. O dedo estava de prontidão no gatilho e eu, atenta a qualquer movimentação estranha ali. Sam e eu paramos um em cada lado da porta, encostando na parede e trocando olhares para verificar se ambos estavam prontos para entrar. Ele acenou com a cabeça e eu não me demorei em meter o pé na porta. O chute a escancarou e o revólver foi colocado na mira dos vampiros que estavam sentados no sofá, em frente à uma televisão. Eles se levantaram em um sobressalto, movidos pelo susto violento e pela adrenalina. Um deles era um homem alto, mostrava as presas como se tivesse orgulho delas. A outra, era uma mulher com fios de cabelo longos e escuros. Estava na defensiva, também mostrando as presas, mas eu conseguia ver o pânico em seu olhar. Seus olhos verdes brilhavam de medo e a ponta da minha arma estava bem na direção de um deles.
Sanguessuga.
O dedo afundou-se no gatilho, disparando em direção à vampira em minha frente, que se esquivou quase de imediato, com um movimento tão rápido que só a inquietação brusca causada pelo terror poderia tornar possível. O medo corria em seu sangue, eu podia sentir o cheiro. Ver um sanguessuga tão apavorado para salvar a própria pele quase me causava uma sensação de êxtase, como se enfiar a lâmina na jugular daqueles malditos fosse um movimento tão leve quanto o cair de uma pena. Ela não se defendia porque fez algo de errado e foi descoberta, mas sim porque estava assustada e não sabia como lidar com a própria natureza.
Ela era Caroline Walsh.
Meu coração pulsou mais rápido, mais forte. Fui tirada da realidade por um breve momento, onde tudo parecia orbitar somente ao nosso redor. Caroline me olhava com fúria, mas também com a súplica implícita nas íris brilhantes. Ela queria o próprio fim, porém, ainda tinha esperança de ser salva. Talvez não quisesse mais machucar pessoas.
Não, ela matou inocentes, minha mente contra-argumentou de imediato. Estava presenciando um conflito interno contra minha própria moral e meus princípios.
, cuidado! — Gritou Sam, usando sua pistola para disparar em minha direção.
Todavia, não era eu que estava sob a mira do Winchester. A bala foi alojada no ombro do outro vampiro que estava na sala, embebida de sangue o homem morto. Ele estava quase em cima de mim, mas o veneno o paralisou a tempo, antes que conseguisse me golpear com suas garras afiadas. Olhei para Sam um tanto assustada, e a respiração dele era ofegante.
Não perdi mais tempo.
Joguei o revólver para a canhota e, com a mão livre, puxei a faca da cintura. A lâmina foi rapidamente no pescoço do vampiro que tentou me atacar, separando a cabeça do corpo em um golpe fatal, carregado da força provida pela adrenalina. Foi um corte preciso, digno do melhor açougueiro da cidade. Em contrapartida, Caroline correu para os fundos. Eu e Sam nos apressamos para ir atrás dela, passando pela cozinha e seguindo os rastros e sons da vampira até uma escada mais escondida naquele local mal iluminado.
Tudo ali cheirava mal. A cozinha, pelo breve vislumbre que tive enquanto corria, estava revirada de cabeça para baixo. A pia já não conseguia mais abrigar louças novas, havia sangue no chão e o cheiro de cadáver e fluídos corporais era intenso, de fazer qualquer um desmaiar. Pelo corredor adentro, o piso era decorado pelo vermelho carmesim de mais sangue de algum coitado, e, novamente, uma pontada de preocupação me atingiu.
Assim que havíamos chegado às escadas que levavam ao subsolo da casa, eu e Sam nos entreolhamos novamente. Ele ainda estava ofegante, a testa estava franzida e ele parecia lamentar diante de tanto sangue.
, e se... — Começou ele, em um tom de voz baixo.
— Não perca as esperanças, Sam. — Eu o interrompi, com a mesma frieza apresentada na conversa anterior, fora da casa.
Ele abaixou a cabeça e reprimiu os lábios, logo desfazendo a expressão preocupada e se permitindo abrir um sorriso de canto. No entanto, não era um sorriso de quem estava alegre com a situação ou comigo. Era carregado de mais indignação, como se tudo aquilo fosse uma grande piada de mau gosto para ele.
— Eu estou realmente impressionado com a forma como você lida com as coisas. — Disse ele, não me dando espaço para responde-lo.
Sam seguiu escada abaixo, deixando nas entrelinhas que continuaríamos essa conversa em outro momento. Não dei margem para sentimentos negativos, pois, por algum motivo, a possível desaprovação de Sam me apavorava. Então, eu o segui. Era um porão igualmente mal iluminado, mas dessa vez, ao invés de lâmpadas baratas, era pelo esforço admirável de algumas velas espalhadas pelo local. O cheiro forte de sangue se misturava ao mofo agarrado nas paredes úmidas e, atrás da madeira, podíamos ouvir um choro baixo, lamúrias e murmúrios. Vozes diferentes.
— Eu estou aqui. — Disse uma voz feminina, trêmula e embargada, mas forte o suficiente para ecoar por todo o porão.
Sam e eu nos apressamos para ir de encontro à dona da voz. Era Caroline. Atrás dela, três pessoas estavam espalhadas pelos cantos do cômodo apertado, acorrentadas em estado precário. Eram as vítimas desaparecidas, um rapaz e duas mulheres. O garoto parecia ter entre quinze e dezessete anos, e as outras duas eram jovens adultas que pareciam estar na casa dos vinte. Ele tinha sangue na boca e, quando nos viu, mostrou as fileiras infinitas de dentes. Já havia sido transformado.
Eu e o Winchester mais novo imediatamente apontamos nossas armas para Caroline, que pareceu não se importar. Ela estava mergulhada em sua própria miséria.
— O que significa isso? Uma criança, sério? — Questionou Sam, apontando a pistola munida de sangue do homem morto na direção de Caroline.
Ela chorava a ponto de soluçar, sacudindo os ombros para cima e para baixo como se fosse réu em um julgamento. Parecia que isso era o que mais pesava para ela no momento.
— Ele é filho de Erick. Ainda está preso porque seu pai não tem certeza de sua lealdade. — Explicou ela.
— Mas e você? — Indaguei, ríspida. As linhas expressivas em meu rosto se contraíam em raiva e descontentamento. — Leal a Erick também?
O choro foi interrompido subitamente, restando apenas os soluços. Caroline não acreditava no que ouviu, arrancando de mim uma risada recheada de sarcasmo. A situação toda era, realmente, uma puta piada de mau gosto. Ali, eu quis dar razão à . Poderíamos simplesmente deixar os outros monstros sob custódia dos Winchester ou de outros caçadores e reservar meu tempo unicamente para Mnemosine. Não obstante, eu precisava constantemente me lembrar que a busca de vingança me deu outro propósito além de encontrar quem matou meu irmão.
Eu salvava pessoas também.
Ao mesmo tempo que a sede de retaliação à titânide me fazia uma caçadora implacável, ela me empurrava cada vez mais para uma iminente desumanização. Todavia, cada sorriso agradecido, olhar de alívio e ombros enfim relaxados me fazia lembrar de Jake me ensinando a lutar pelo que era certo. Eu via o sorriso orgulhoso dele através de cada agradecimento que ouvia e dos que não chegavam a ser ditos também.
Naquela noite, eu tinha mais uma chance de sentir o orgulho do meu irmão novamente, aonde quer que ele estivesse. Muito me entristecia o moleque tão novo ter sido transformado em um monstro, mas as outras duas ainda tinham chance de salvação.
— Espere. — Ela me tirou dos meus pensamentos. — Você acha mesmo que eu estou feliz com essa situação?
— Você matou pessoas inocentes. — Defendeu Sam, ainda mantendo Caroline sob sua mira.
Guardei o revólver e empunhei a faca, me preparando para o combate. Sam me olhou de canto de olho, franzindo os lábios em desconforto. Estava incomodado com a ideia de matar Caroline, pois sabia que ainda havia humanidade nela. De fato, Caroline foi transformada contra a própria vontade, estava de coração partido e foi uma vítima de Erick. Entretanto, eu não me apegaria nisso. Ela deixou de ser vítima quando fez uma trilha de cadáveres até chegar onde chegou.
Mesmo contra sua vontade, enfatizou minha mente confusa novamente. Parecia se contradizer a todo momento.
— Eu estava assustada, com fome e quebrada. — Ela rebateu, deixando a injustiça explícita na voz. — Eu nunca quis matar ninguém, sequer sabia que essas coisas existiam. Perguntei a Robert, o vampiro morto lá em cima, se existia alguma possibilidade de alimentação alternativa...
— Mentira. — Interrompi. — Você é um monstro e essa é sua natureza agora.
Caminhei em sua direção em passos pesados, deixando chamas de fúria invisíveis em cada pegada trilhada até ela, mas Caroline recuou e levantou as mãos em rendição.
, espera! — Pediu Sam, me segurando com a mesma delicadeza de antes.
Eu não relutei. Apesar do comportamento colérico, eu até que estava curiosa para saber qual desculpa Caroline iria usar.
— Eu estava buscando uma forma alternativa de saciar minha fome, sem precisar me alimentar de humanos. — Recomeçou sua fala. — Como por exemplo, roubar bolsas de sangue e até mesmo me alimentar de animais. Eu ouvi falar de um grupo de vampiros liderados por Lenore , uma de nós...
— Uma de nós? — Dei risada. Ela nem negava mais sua própria natureza de aberração.
— Escute. — Pediu ela, retomando a fala. — Eu entrei em contato com Lenore, mas ela lidera um grupo que foge de caçadores. Eles se recusam a alimentar-se de pessoas, e eu estava elaborando um plano para fugir de Erick e seu anseio doentio por sangue humano.
Olhei para Sam. Ele parecia estar buscando uma lembrança antiga, e, sem demora, seus olhos piscaram na confirmação de que se recordou de algo importante.
— Lenore! Eu lembro dela. Eu e Dean nos encontramos com Lenore e seu grupo há um tempo. Nós a deixamos livre depois de encontrar um caçador que queria matá-la a todo custo. — Contou Sam, olhando para mim.
Ergui uma sobrancelha.
— Mas Lenore não matava humanos, não é? Você matou. — Voltei ao ponto crucial da discussão, fuzilando Caroline com o olhar.
Eu enxergava a culpa dela, e podia vê-la a quilômetros de distância. No fundo, a senhora Walsh não conseguia conviver consigo mesma. Já nos olhos de Sam, eu conseguia ver sua inclinação às ideias de Caroline.
— Eu vou provar meu valor. — Disse ela.
Caroline se virou para as vítimas, que recuavam contra a parede na intenção de fugir dela. Mas a sra. Walsh não as machucou. Fez o imprevisível: retirou um molho de chaves do bolso e soltou as duas garotas, que não perderam tempo em correr para longe dali. Sam me olhou como se esperasse uma atitude, dividido entre me supervisionar com Caroline e ir socorrer as garotas.
— Vai. — Disse, soando como um comando. Totalmente robotizada.
Sam não hesitou e foi atrás das moças. Talvez uma parte dele ainda tinha esperança na minha humanidade. Assim como Jake também tinha. Não precisava nem me preocupar com alguma chance de desaprovação de . Sei que ela teria misericórdia de Caroline Walsh no primeiro instante, e eu tinha minhas suposições sobre Dean. O comportamento dele sempre se mostrou parecido com o meu, talvez compartilhasse do mesmo conflito interno se estivesse no meu lugar.
— Qual é seu nome? — Perguntou Caroline, delicadamente.
— Isso importa?
Ela sorriu, como se fosse acostumada com esse tipo de comportamento.
— Eu quero saber o nome da garota a quem vou agradecer se escolher me dar uma chance, ou acabar de vez com o meu sofrimento. — Explicou, me atingindo em cheio. — No fundo, eu não desejo morrer, mas também não quero mais matar. Não consigo viver com isso.
Minha respiração parecia pesar ainda mais. A faca era como um fardo em minha mão.
, e eu não confio em monstros. Nunca cogitei isso. Vocês matam a minha espécie, nos colocam em risco. — Vociferei, com a voz aumentando de tom a cada palavra proferida. — É por causa de aberrações como você que meu irmão está morto agora!
Avancei em Caroline, desferindo um golpe que julguei certeiro em sua direção. Ela desviou novamente, me fazendo ferir a parede de madeira. O garoto se agitou, querendo me atacar a todo custo como se não existissem correntes em seus pulsos e calcanhares. Caroline tentou me acalmar e não retribuiu os golpes em momento algum.
— Lenore pode me ajudar, se não confie em mim, ao menos confie na minha vontade de viver pacificamente entre os humanos. Eu não quero matá-los, e certamente não matei seu irmão, ! — Suplicou ela. — Além do mais, Lenore é a única esperança dessa criança. Se não quer me poupar, ao menos ajude ele.
Ela apontou para o menino preso, que era a única razão a qual me impedia de acabar com ela naquele instante. A raiva transbordou em mim, meus olhos lagrimavam ao lembrar de cada vítima, de cada garota mantida em cativeiro ali e do meu irmão morto. Além disso, uma criança. Erick transformou um menino com a vida inteira pela frente. Por que cabia a mim julgar esse caso? A vítimas iriam querer isso? Iriam concordar com a redenção desse monstro? Tudo poderia se resumir à amarga vingança disfarçada de doce justiça? Era justo colocar Jake nessa balança?
Eu me apoiei na parede, arrancando a faca que foi fincada na madeira levemente apodrecida. Olhei para Caroline.
— Você acha certo? — Questionei, mas não em tom de sarcasmo. Eu realmente buscava respostas.
Minha respiração estava ofegante somente pela raiva de criaturas como ela.
— Não foi certo o que eu fiz, mas eu fui tomada por uma realidade a qual nunca experienciei: a fome incontrolável por sangue. — Respondeu Caroline, de forma branda. — Eu era mãe de uma menina incrível, a qual nunca mais poderei ver na vida. Não irei mais à sua formatura, não a verei crescer. Minha vida foi tirada de mim.
— Você tirou vidas também.
— Eu não tive escolha, . — Suspirou, tentando uma aproximação cautelosa. — Eu nunca irei me perdoar, mas eu posso fazer o que é certo de agora em diante se você me der a chance. Eu não sei o que aconteceu com seu irmão, mas...
— Não fale dele, sua maldita. — Cortei, mas não foi o suficiente.
— Mas não deixe a sede de vingança ofuscar o seu bom coração. — Completou Caroline.
Aquilo era mesmo inacreditável. Nunca pensei que levaria uma lição de moral de monstro para casa. Não consegui sequer conter a risada que deixou Caroline confusa.
— O que você acha que sabe sobre mim? — Cuspi as palavras, completamente tomada pela amargura. — Você quer uma chance de redenção? Lute por ela, ou corra o mais rápido que puder.
Eu me aproximei da mulher, com o olhar sanguinário de um caçador indomável. Nenhum sentimentalismo poderia me parar. Eu me recusava a sentir qualquer dor que não fosse a das vítimas.
— Você é minha presa agora, Caroline.

Notas do capítulo: Para relembrar: Na segunda temporada e no terceiro episódio chamado "Bloodlust", Lenore lidera um grupo de vampiros que se recusa a se alimentar de humanos, vivendo de sangue de animais em um esforço para coexistir pacificamente com os humanos.

Jake, você se lembra de como passei uma vida inteira debaixo de suas asas?
Eu me lembro perfeitamente. Você me protegia dos valentões da escola, dos olhares de inveja e das más línguas. Estava sempre lá para me defender, decidir e julgar por mim. Eu nunca tive uma única experiência onde meus valores morais e meus princípios fossem colocados em jogo.
Não assim.
Você também se lembra da Justine? Aquela garota do primário que me odiava. Eu lembro que fomos alfabetizados juntos, na mesma sala, pela professora Angela. Justine puxou meu cabelo e quis enroscar a tesoura cega em meus fios. Lembro-me da sala pequena, com poucos alunos e muita iluminação natural. O sol era branco, parecia cenário de sonho ou até mesmo daquelas cenas de filmes quando um personagem relembrava algo do passado. A janela estava aberta, revelando as crianças brincando no pátio da escola. O gramado era muito verde e o clima era quente.
Eu me lembro de não ter feito nada além de chorar.
Você imediatamente tirou a tesoura da mão de Justine e a empurrou para longe de mim, com a fúria poderosa de um garotinho irritado porque mexeram com sua irmã. Lembro das suas mãos pequenas em meus ombros, tentando me acalmar. Você reclamou para a professora e ela me colocou em uma cadeira perto de Justine, forçando a menina maldosa a me pedir desculpas nada sinceras.
Eu me lembro de chorar mais. Meus olhos ardiam.
Desde criança, eu sentia o peso da injustiça. Caso nada acontecesse com Justine, suas desculpas — sinceras ou não — não valeriam de nada. Ela foi desrespeitosa e cortou metade do meu cabelo.
Você se lembra do quanto ele era cumprido, Jake?
Eu tive que pedir aos nossos pais que me deixassem ir ao salão de beleza cortar na altura dos ombros. Odiava meu cabelo curto, mas nunca mais consegui deixá-lo crescer. Acho que isso foi uma marca física da ferida necrosada de rancor pela Justine. Era minha forma de dizer que eu não havia perdoado a garota, e talvez nunca a perdoaria.
Nada aconteceu com ela. Justine nunca provou do próprio veneno. Entretanto, minha mente tem andado confusa, com pensamentos contraditórios e retrucando as declarações enraivecidas do meu coração obstinado. Meu estômago não aguenta mais abrigar tanto rancor, raiva e mágoa.
Eu perdi tudo, Jake. Perdi você e sinto, no fundo, que vou acabar perdendo ; talvez não para a morte, mas para o próprio monstro que eu estou perto de me tornar.
Eu sou tão diferente deles? Desde que você se foi, eu os matei sem hesitar, sem perguntar suas histórias, motivações e causas. Eu penso que não mereciam, e é aí que minha mente confusa me desafora. É justo dar aos outros o que eu acho que eles merecem? Ou devolver o mal que fizeram a mim?
Meu coração está mergulhado em um tipo de complexo de Deus.
Eu odeio lições de moral, e odeio essa mesma história de sempre: “Não pague o mal com o mal”. Achava que era besteira, até sangrar pela boca. Eu vomitava todo o meu rancor todo santo dia. Caroline não era o espelho de justiça que eu precisava, mas era quem me fazia enxergar que pagar o mal com o mal estava começando a me corroer por dentro.
Eu me recusava a acreditar que um monstro poderia ser uma aberração e uma vítima ao mesmo tempo.
Constantemente me pergunto se você se orgulharia de quem sou hoje, e tenho quase certeza de que a resposta não seria o que eu quero ouvir. Você se foi, mas sua desaprovação pesa em meus ombros.
Caroline é a tesoura cega de Justine.
Eu sou os fios de cabelo de clamando por justiça.
Você era meu espelho de equanimidade, e, agora que você se foi, ele está estilhaçado. Quando tento juntar os cacos, as pontas afiadas rasgam a pele dos meus dedos. Quanto mais tento consertá-lo, mais eu sujo tudo com meu próprio sangue. O reflexo está manchado em um vermelho seco, coagulado. Não há como remover. Eu não consigo me ver do outro lado, não consigo enxergar onde estou errando.
Como foi que me tornei tão amarga? O que foi que me puxou para tão longe da humanidade que eu sentia quando estava com você?
Jake, sua morte tirou tudo de mim.
Mnemosine precisa pagar por isso, pelo dano que me causou e, principalmente, pelo bem mais precioso que tomou de mim. Pelo seu sangue derramado. Eu preciso vingá-lo, mas sinto que não me entende quando lança esse olhar de decepção sobre mim.
Sei que está desapontado.
O ódio por Mnemosine e a obsessão em acabar com o sobrenatural têm me cegado. Os cacos estilhaçados em pedaços tão pequenos se agarraram em meus dedos. Eu chorei novamente e, quando sequei minhas lágrimas, o vidro cortou minhas córneas. Preciso de alguém para segurar minha mão e me levar para longe do vazio imensurável da desumanização. Eu preciso de outro espelho de justiça, porque já não enxergo mais. Sou guiada pelos meus sentimentos negativos.
Jake, você se lembra como eu era na adolescência?
Sempre muito radical, no sentido de estar sempre transitando entre as extremidades. Amar ou odiar, não existia meio termo. Agora, estou desequilibrada na linha tênue e bamba entre justiça e penitência.
E é por isso que eu preciso de um espelho.
Humana demais ou monstro demais.
Convicta demais, confusa demais.
Eu consigo ouvir sua voz me alertando sobre o limite da raiva e rancor. Sei o que vou me tornar caso eu ultrapasse essa linha, e também estou ciente que é um caminho sem volta.
Sua desaprovação pesa.
A de Sam também.
Posso ouvir você reclamando, aqui dentro da minha cabeça. Sei que está aí, falando do quanto sou tola por me recusar a enxergar a verdade que está bem na minha frente. Afinal, eu vou te usar como bússola para o resto da vida? Não é o que desejo, mas também não quero te deixar. Não quero falar sobre isso, sobre você. Eu me recuso a abrir mão do pouco que me resta do meu irmão.
A morte dói. Ela é esquecimento.
Eu não me lembraria mais da sua voz se eu não tivesse material guardado para assistir escondida nos hotéis baratos pelas estradas. Filmagens felizes em família, fotos e fitas que o tempo vai levar consigo. também guarda seus registros e é com isso que ela ainda mantém esse amor vivo. Eu a admiro. Ela foi a única de nós duas que não se deixou ser consumida pela amargura.
Você sabe que falar comigo nesse tom de voz me entristece. Sei que está desesperado para me fazer enxergar, mas também não entende que não quero fazer isso sozinha. Minha mente está abarrotada de questionamentos, e a maioria deles possuem suas próprias respostas.
Sam Winchester não era mole. Ele estava sendo humano, enxergando as feridas de Caroline além da fileira lotada de dentes afiados. Ela não escolheu aquilo, e com certeza sentia muito por ter matado pessoas inocentes. Era isso que ela tanto defendia em suas súplicas, e eu me recusava a escutar como se tivessem tampões em meus ouvidos.
Jake, você se lembra de Simon? Foi a primeira e única vez pelo qual me apaixonei. Caso você tivesse aqui, desaprovaria meus encontros casuais, tenho certeza. Do contrário, acho que você ficaria feliz se eu me apaixonasse por alguém que também luta pelo que é certo. Não quero acabar com a sua graça, mas isso está longe de acontecer. Sou emocionalmente indisponível. Mas eu preciso admitir isso aqui, algo que eu nunca falaria em voz alta.
Sam Winchester tem minha admiração, e eu devo a ele um pedido de desculpas.
Eu não queria perdoar Caroline, não parecia justo com as vítimas. Entretanto, matá-la seria uma punição cruel demais para alguém que não escolheu isso? Ela não sentiu prazer em tirar aquelas vidas.
Caroline queria sobreviver.
Não quero me gabar, mas acho que você sorriu para mim. Deve estar orgulhoso por saber que não estou completamente perdida.
Eu não quero te deixar agora. Preciso de você por mais um tempo, querido irmão.
Só mais essa vez.

A noite presenciava o confronto mortal contra os vampiros naquela casa. Eu corria atrás de Caroline como um caçador corre atrás de um veado ferido: havia acertado um golpe superficial no braço esquerdo da sanguessuga, com a lâmina embebida de sangue do homem morto. Ela estava fraca e o corte preciso ficou desenhado na diagonal em sua pele.
Caroline correu para longe.
Correu de mim em um combate unilateral. Foi para fora do porão, da casa e do cercado sem vida.
Ela continuava gritando que não queria me machucar e implorando por uma chance de recomeço.
Meu coração palpitava. Gotas de suor caíam de minha testa e eu podia sentir minha aorta pulsando fortemente. Caroline também conseguia ouvir. Minhas coxas e panturrilhas queimavam por causa da corrida intensa e sem pausa. Todos os meus músculos estavam tensionados.
Meus olhos não saíam da presa, mas minha mente não largava Jake.
, espera! — Ouvi uma voz familiar de longe.
Era Sam.
Sua voz enfraqueceu momentaneamente meus movimentos, me fazendo parar de correr e virar em direção a ele. Estava ofegante.
Sam também havia parado de correr e segurava uma arma na mão, mas não tinha ninguém sob sua mira. Ao longe, eu podia ver os faróis do Impala de Dean. O Winchester mais velho e minha irmã, , com certeza haviam acabado com a raça de Erick. Ela saiu do veículo e havia sangue em seu rosto, cabelo e roupas. Dean, por outro lado, parecia quase intacto, com exceção do cabelo loiro levemente bagunçado, o suor que fazia sua testa brilhar e o pequeno arranhão no canto da sobrancelha esquerda.
Eles quiseram se aproximar, mas Dean impediu e ela pareceu concordar.
Droga, que distração.
Caroline deveria estar longe àquela altura.
No entanto, me surpreendi ao virar para vê-la. Ela estava caída sobre o gramado cinzento no quintal da casa, com a mão tampando o corte que fiz e a sua respiração ofegante, descompassada. Era como se tivesse se rendido.
Podia sentir o frenesi tomando conta de mim novamente. Era como se eu estivesse viciada na adrenalina que corria em minhas veias.
Não obstante, a realidade cruel que não queria enfrentar era justamente a de que eu não era tão diferente dos monstros que caçava. Não se tratava apenas de salvar pessoas e vingar a morte de meu irmão.
Eu sentia prazer em vê-los morrendo, implorando por suas vidas. O sangue do sobrenatural, quando tocava em minhas mãos, podia me causar um êxtase que outra sensação nenhuma podia me proporcionar.
Jake sabia disso. Sam estava começando a notar. Eu podia ver a possível decepção em seu olhar. Ele ainda não tinha percebido minha satisfação em acabar com os monstros, mas certamente reparou que eu ignorava o fato de Caroline ter sido uma pessoa inocente até semanas atrás.
Eu escolhia não ouvir sua humanidade quando implorava pela vida e chance de redenção, e isso fazia de mim um monstro. Negar sua dor era tão terrível quanto todos os crimes que Caroline cometeu sendo movida pelo instinto, medo e necessidade de sobrevivência.
Mas lá estava ela.
Caída no chão, olhando-me com o mesmo olhar de súplica de antes. Patética.
Meu lábio superior repuxou-se em uma expressão de nojo, ao mesmo tempo que erguia a mão que portava a faca em sua direção, preparando-me para o golpe final. Aquele acerto crítico que tiraria a vida de Caroline para sempre.
Eu seria o seu carrasco.
Ela fechou os olhos e lágrimas caíram incessantemente. Os ombros dela se sacudiam em um choro desesperado, mas ao mesmo tempo conformado com minha decisão.
Aquela mesma faca que parecia leve como uma pena para decepá-los, agora pesava tanto quanto uma bigorna. Eu precisava fazer o dobro de força para erguê-la, como se todo meu corpo canalizasse sua força total para o que estava prestes a acontecer.
Então Sam interveio. Sua destra forte e firme segurou meu pulso no mesmo instante que a força canalizada começou a executar o golpe. Seus dedos pressionavam levemente minha pele, mostrando que ele não tinha intenção alguma de me machucar. Seu toque durou pouco, o suficiente para Caroline abrir os olhos e para me atordoar por breves segundos.
Meu olhar enraivecido se suavizou ao encontrar com o de Sam. Ele se colocou entre mim e Caroline.
— Se quiser matá-la, vai ter que me matar também. — Disse ele.
— Sam! — Repreendeu Dean, que desistiu da postura de observador e correu para perto.
Apesar da suavidade do meu olhar, a mão livre dirigia-se ao revólver em minha cintura. Eu o apontei para Dean imediatamente, fazendo-o parar e erguer as mãos, completamente surpreso com a cena.
Sam reprovou meu gesto e a aproximação do irmão mais velho, resmungando como sempre fazia, mas não abandonou sua posição. parecia não acreditar no que estava vendo.
Tão pouco eu acreditava.
Meu coração gritava por redenção, juntamente com Caroline. Entretanto, meu corpo ainda era movido pela raiva e sede de vingança. Meus músculos pareciam entender que nada daquilo parecia ser justo e agia de forma contrária a tudo que conversamos com Jake.
— Calma, mocinha — falou o mais velho, lentamente, como se eu fosse uma criança segurando uma arma.
Dean era esperto. Sua intenção não era de me acalmar ou de me fazer abaixar a arma, e sim de me distrair o suficiente para que pudesse sacar sua pistola contra mim também. Abri um sorriso desafiador com aquilo.
Ele era engraçado e eu gostava daquela qualidade no Winchester mais velho. Dean parecia ser um bom amigo, senão fosse aquela situação.
foi rápida e sacou sua pistola logo em seguida, mirando na cabeça de Dean.
— Mais devagar aí, cowboy — falou a garota, atraindo rapidamente a atenção do homem à sua frente.
— Ô, gata, achei que a gente tava se dando bem — comentou ele, notavelmente indignado.
deu risada, mas continuou com Dean sob sua mira.
vem acima de qualquer coisa. Atire nela e você vai ser um homem morto.
Pude ouvir o suspiro de Sam e o gemido de dor de Caroline. Ela ainda estava no chão, enfraquecida pelo sangue do homem morto em sua ferida. Caso quisesse correr, não iria muito longe.
, me escuta — pediu Sam.
— Manda ele se afastar — ordenei em resposta.
Sam reprimiu os lábios e lançou um olhar para Dean, pedindo implicitamente para que ele se afastasse. O irmão relutou, mas o fez: abaixou a arma e se afastou. guardou a pistola.
Aquilo era entre mim, Caroline e agora, infelizmente, Sam.
Deve ser mal de Winchester, pensei, bancar o herói e se meter em questões morais alheias.
Eu não culpava Sam, só não queria que ele ficasse no meio do fogo cruzado em minha mente. Não queria atirar na sua cara, como falei que faria. Todavia, ele parecia não me dar escolha.
Apontei a mira do revólver em direção a ele. Bem no meio do rosto majestosamente desenhado de Sam. O meu olhar caloroso se tornou distante e gelado.
Como os de Jake, perto de sua morte.
Sam não pareceu surpreso, mas eu queria ouvir o que ele tinha a dizer. Atrás de mim, podia ouvir os murmúrios de preocupação de Dean e tentando acalmá-lo com promessas falsas de que eu não atiraria em seu irmão.
— Por que isso, Sam? Se você não consegue terminar o trabalho, por que não me deixa fazê-lo? — Indaguei com a sinceridade na voz.
Ele soltou outro suspiro pesado.
— Há algo sobre mim que você não sabe — começou ele. — Quando eu era um bebê, um demônio de olhos amarelos apareceu no meu quarto...
— Sammy, não! — Gritou Dean, querendo proteger seu irmão.
Mas o Winchester mais novo ignorou, como se precisasse daquilo. Eu estava curiosa, assim como . Tínhamos nossa sinergia.
— Ele me fez provar do seu sangue e, com isso, eu ganhei poderes psíquicos — explicou Sam.
Ergui a sobrancelha, pois não sabia onde ele queria chegar. O dedo no gatilho já havia relaxado e eu com certeza não atiraria naquele homem.
— Meus poderes envolvem premonições e provavelmente outras coisas que eu ainda não sei. Eu me recusei a aprimorá-los, porque me sinto uma aberração, — continuou. — Eu tenho sangue de demônio em mim, e talvez eu esteja destinado a coisas não muito boas por causa disso.
Ele deu uma pausa, como se tudo aquilo fosse muito difícil para ele. E era mesmo, assim como era difícil de processar cada informação, cada palavra dita.
— Então se vai matá-la, mate a mim também.
Sam ergueu os braços, finalizando sua deixa.
Desgraçado.
— Muito bem — falei.
Destravei o gatilho do revólver.
— Você disse que ela não ia atirar nele! — Comentou Dean para , ainda indignado.
O Winchester mais novo olhou para mim, bem nos olhos. Meu coração disparou, o sangue parecia ferver e, novamente, me deparei com as questões acerca de um deus impiedoso e complexado que habitava em meu âmago.
Eu não queria ser isso, não o queria como inquilino em meu coração. Eu, , era tão humana quanto Sam Winchester. Quanto Caroline foi.
A adrenalina subiu na dosagem. O som do pulsar de meu coração era tão alto que Caroline tampou os ouvidos. Pareciam tambores incessantes para ela.
Tum, tum, tum, tum.
Abaixei a arma.
— Saia da minha frente, a briga não é com você — insisti, erguendo a faca novamente.
Avancei não para cima dele, mas para passar por ele.
Sem sucesso.
Sam me segurou enquanto eu tentava atingir Caroline atrás dele. O homem agarrou meu pulso mais uma vez, com delicadeza, enquanto me segurava nos braços para me conter. Apesar de seu toque ser carregado de ternura, Sam era forte e firme.
A raiva se transformou em lágrimas, soluços e ombros inquietos pelo desespero.
Estava cansada de ter o coração inundado de coisas ruins. Eu me sentia culpada, porque eu mesma alimentei sentimentos corrosivos.
— Não se culpe tanto, — sussurrou Sam, no timing perfeito. Como se pudesse ler minha mente.
Sua mão segurava meu pulso com tanta firmeza que acabei soltando a faca, podendo ouvir o barulho pesado contra o chão. Eu me debatia nos braços de Sam, que não perdeu a paciência nem por um segundo e, conforme eu perdia as forças, as dele faziam um esforço ainda maior para me segurar.
Ele se manteve firme. Como um refúgio.
Meu choro era dolorido, mas o perfume de Sam era suave.
Desisti de tentar me soltar, de lutar contra a redenção iminente. Eu queria abraçá-la.
Minhas mãos caíram sobre o peito de Sam, onde meu rosto se afundava nas roupas alheias. Ele apoiou o queixo sobre o topo da minha cabeça e, pela primeira vez em anos, eu me senti segura novamente.
Seu perfume era barato, sem dúvidas, porém, marcante. Ficaria na minha memória como o cheiro do Winchester mais novo pelo resto da vida. Gravado em meu coração como o aroma que o ajudou a se acalmar.
Eu podia visualizar o cheiro entrando em minha mente e dissipando a neblina densa do rancor e da raiva. Também podia ouvir os passos apressados para socorrer Caroline. Os passos de Dean e .
Eles entenderam que Sam queria perdoá-la.
Meu coração ainda estava inquieto com aquela ideia, ainda não parecia justo. Mas era o certo a se fazer.

divisor

me trouxe de volta para o quarto de hotel. Eu não troquei uma única palavra com ela ou com qualquer um dos Winchester. Ainda estava processando tudo que o aconteceu e lidando com a crise interna sem envolver ninguém.
Ela explicou aos rapazes sobre o meu comportamento de “bicho do mato”, como costumava falar, quando estávamos entrando no quarto, e eu pude ouvir a voz suave de Sam dizendo que esperava que eu ficasse bem.
Seu tom era carregado de preocupação e eu agradeci mentalmente por aquilo.
Tudo o que eu fiz pelo resto da noite foi tomar um bom banho e ponderar sobre o que aconteceu. Contudo, enquanto a água quente caía sobre meu corpo, aliviando a queimação da adrenalina e possível lesão nos músculos devido a força mal utilizada, eu pensei se era mesmo uma boa ideia continuar martelando as mesmas questões de novo e de novo durante quarenta minutos gastando água de hotel barato.
Eu me privei da própria maldade em minha mente, da tortura que me aguardava.
Hoje não, não mais. Nunca mais.
Sam foi gentil comigo e eu tinha muito pelo que me desculpar e agradecer. Seu gesto mostrou que eu poderia ser gentil comigo mesma e com os outros.
não forçou conversa durante o resto da noite, fez o que sempre fez: respeitou meu espaço e me deixou dormir, apesar da preocupação que atormentava sua mente. Ela sabia das minhas questões, dos conflitos internos. Presenciou crises de raiva movidas pela cegueira da vingança inúmeras vezes.
Quando me deitei, ela me cobriu com o lençol quente e pesado da cama. O colchão era macio e o travesseiro afundava quando deitei minha cabeça.
O mundo pareceu ficar em silêncio naquele momento.
colocou minhas madeixas loiras para trás.
— Está deixando-o crescer... — comentou ela sobre meu cabelo, o acariciando suavemente.
O carinho da minha melhor amiga me fez fechar os olhos e suspirar. Não havia notado que estava tão cansada.
Meu cabelo sempre foi curto, mas ela sabia o que significava o gesto de deixá-lo crescer. Eu queria redenção.
se permitiu descansar depois daquela noite e, no outro dia, o peso parecia ter ido embora. Pelo menos, metade dele. Ainda tinha muita coisa para resolver.
Nós nos levantamos e arrumamos tudo para deixar o quarto de hotel. Minha amiga saiu para convidar os Winchester para um café da manhã na lanchonete da esquina enquanto eu terminava de organizar tudo.
Afinal, teríamos que nos despedir e eu, me desculpar com Sam e Dean.
O meu celular tocou, exibindo uma mensagem do xerife Winfield e logo chamando minha atenção.

“Obrigado, agente Nicks e Jones, pela colaboração de vocês na resolução deste caso. O sr. Walsh teve seu julgamento finalizado e irá cumprir prisão perpétua na cadeia. Vocês ajudaram a tornar Ankeny mais segura novamente.”

Um sorriso se formou em meus lábios, bem na hora que apareceu no quarto.
— Vamos logo, ! Tô com uma fome de cinco leões — Resmungou ela.
Dei risada. Um sentimento de felicidade e gratidão repentino me inundou. Os olhos brilhavam e, de súbito, o dia pareceu mais bonito.
Jake sabia disso, porque foi a primeira vez em sete anos que me senti tão leve.

Ankeny, Iowa. 2006.

O sol parecia arder mais em minha pele naquele dia. Os raios quentes achavam repouso sobre mim, bem como os olhares de pena e até mesmo de desconfiança dos Winchester. Odiava aquilo, mas não estava em posição de reclamar.
Estávamos todos reunidos na lanchonete, em um clima de velório. Ninguém falou nada, a não ser por Sam e . Dean não parecia bravo, mas preocupado, e também não disse nada. Tampouco eu.
O lugar era aquecido, tinha cheiro de café e bacon. As atendentes estavam espalhadas pelo estabelecimento, recolhendo louças de mesas vazias ou prestando serviço aos pouquíssimos clientes presentes.
Havíamos escolhido uma mesa mais afastada e próxima de uma janela grande de vidro que se estendia na vertical. Eu e Dean permanecemos sentados, frente a frente, enquanto Sam dizia que era melhor ir diretamente ao balcão fazer o pedido. Claro que teve que segui-lo, ela odiava lidar com tensões ou, pelo menos, sentir que estava no meio de uma.
Suspirei, desviando o olhar para Dean. Para minha surpresa, ele já estava me encarando. Não com raiva ou pesar, mas seus olhos carregavam um carinho fraterno.
— Eu te devo um pedido de desculpas — comecei a falar, observando Dean levantar a mão e balançar a cabeça, mas insisti: — Não, Dean, é sério. Peço desculpas por apontar uma arma na sua cara, foi indelicado.
Ele continuou me encarando, processando o que eu dizia.
, escute — iniciou com um tom de voz cauteloso, mas ainda firme o suficiente para me manter atenta. — Eu não posso dizer que confio em você, porque apontou uma arma pra mim. Mas posso te dizer que eu entendo.
Assenti, reprimindo os lábios e sentindo a culpa me preencher.
Preencher, não consumir. Não mais.
— Eu sei como é ser tomado por pensamentos ruins, caminhar por uma corda bamba entre vida e morte...
Redenção e vilania.
— Não precisa se culpar tanto, menina — concluiu.
Respirei fundo, permitindo-me abrir um pequeno e breve sorriso. Dean sorriu de volta na mesma intensidade.
—Você é forte, acha que todo monstro merece uma bala no meio da cara — comentou o Winchester mais velho, se debruçando sobre a mesa. — Já vi caçador assim antes. Sabe o que aconteceu com ele? Tornou-se pior que os monstros que caçava.
Travei o maxilar com a tensão que me invadiu de súbito. Meu corpo parecia ter perdido a temperatura e o relato de Dean balançou meus tímpanos como se eu tivesse visto um fantasma. Pálida.
Olhei para Sam – na intenção de aliviar o peso –, que estava de costas conversando com e segurando o cardápio. Eles pareciam indecisos, o que me fez soltar uma risada baixa com a cara confusa que minha amiga estava fazendo. Ela me conhecia há anos e eu tinha certeza que estava em dúvida sobre o que eu gostaria de pedir para o café da manhã.
Voltei minha atenção a Dean.
— Essa vida é traiçoeira, . Um passo errado e não tem mais volta.
Eu sabia muito bem do que ele estava falando. Caso eu escolhesse matar Caroline, eu trilharia um caminho de ruína que não me permitiria voltar. Uma desumanização completa e irreversível e, consequentemente, uma iminente vilania.
Sam me salvou.
Naquele momento, minhas pálpebras relaxadas deram um salto, como se tivesse tido uma breve epifania. Um momento de súbita clareza. Ele me salvou do abismo de rancor e, o mais importante: eu me permiti ser salva.
Dean viu o brilho da compreensão em meus olhos e voltou a encostar-se na cadeira, com a expressão facial suave de quem cumpriu uma missão. Ele me fez entender o que eu não conseguia quando Sam me impediu.
Ele não queria salvar Caroline. Talvez quisesse, porque fazia parte de sua índole. Mas eu fui a maior preocupação dele.
— O que aconteceu com o tal caçador? Quem era ele? — Indaguei, com a curiosidade perceptível no tom de voz.
— Gordon Walker — respondeu todo despojado como se fosse uma história simples. — Ele era um caçador exímio. Rastreava e matava vampiros sem um pingo de hesitação.
Dean reprimiu os lábios em uma pausa, tornando visível certo arrependimento em seu olhar.
— O meu irmão foi sequestrado pelo grupo de Lenore, mas não pra servir de almoço. Eles pediram que Sam os ajudasse a escapar do maluco Walker. Então, ele me contou tudo.
Ele esperou, suspirou e retomou o fôlego. Dava para ver que ainda era difícil.
— Eu fui na onda do Gordon e fiquei contra o meu irmão. Foi como apontar uma arma na cara dele também — disse Dean enfim.
— Caroline mencionou essa tal de Lenore — comentei.
O Winchester assentiu e, antes que ele continuasse, olhei para Sam e mais uma vez. Estavam demorando. Quando meu olhar os encontrou, vi os dois conversando ainda perto do balcão. Sam estava com a cabeça baixa, os lábios em linha fina, como fazia quando estava compadecido de algo, e gesticulava exageradamente. Podia apostar que estavam tendo o mesmo tipo de conversa que eu e Dean.
— Exato. Lenore e cia não eram vampiros convencionais. Eles se recusavam a se alimentar de humanos — ele explicou, com as mãos inquietas em cima da mesa. — E eu me recusei a acreditar. Como a porra de um vampiro não vai beber sangue humano? Isso é impossível, eu pensava.
Naquele momento, eu percebi que era mais parecida com Dean do que imaginava.
— Gordon torturou Lenore quando tentou forçá-la a beber sangue humano — ele ergueu o olhar, abrindo um sorriso. — Aquela garota me impressionou. Conseguiu controlar os impulsos e, mesmo sentindo cada nervo do seu corpo implorando pelo sangue, ela não quebrou a promessa de que queria coexistir pacificamente com os humanos.
O que mais me intrigava não era a história em si, e sim não estar sendo tomada de sentimentos ruins ao ouvi-la. Sabia que não tinha encontrado totalmente minha paz, mas podia sentir seu cheiro. Estava mais próxima que nunca.
— Resumindo: raiva demais, e você acaba virando o monstro. Simples assim.
Balancei a perna embaixo da mesa. Queria ter ouvido aquilo antes. Sete anos atrás, talvez.
As coisas teriam sido diferentes, afinal?
— Mas Caroline... Ela ainda matou pessoas, por isso eu não queria deixá-la viva — protestei com cautela, sem fazer parecer que estava remoendo o assunto.
Tinha decidido deixar Caroline ir. Não do estado ou do país, mas do meu coração.
— Ela já estava quebrada. Álcool, marido babaca... Ainda teve que lidar com um sanguessuga maldito — ele começou a refletir. — Difícil não ceder.
Ele estava certo. Nunca saberíamos os mínimos detalhes da história, do quão manipulador Frederich Walsh conseguia ser diante de sua esposa fragilizada emocionalmente, da perversidade de Erick em se aproveitar da dor da mulher e do seu próprio coração pesado.
Todavia, uma coisa havia ficado clara: Caroline foi transformada em monstro, mas não era um monstro de fato. Sua parte humana sobreviveu, mesmo diante dos horrores que passou e causou.
Antes que eu pensasse em responder, Sam e chegaram com os pedidos em mãos. O básico do café da manhã para todos, mas para o Winchester mais velho, um hambúrguer duplo com muitas fritas. Tive que segurar a risada diante do olhar de inveja de sobre Dean.
— Achei que tinham ido matar a vaca com essa demora toda — reclamou ele.
Sam lhe lançou um olhar reprovativo ao sentar-se ao seu lado, que logo se suavizou ao direcioná-lo para mim. Abriu um pequeno sorriso e eu sorri de volta.
— A nossa sorte é que o lugar não está tão cheio hoje. A atendente falou que isso aqui costuma ficar lotado — comentou .
Peguei a salada que tinha sido feita para mim, com o olhar baixo e a pergunta que não queria calar.
— O que aconteceu com Caroline e o filho de Erick? — Enfim, me pronunciei, atraindo a atenção deles.
Sam manteve o olhar compadecido e um tanto carinhoso. Ele sabia que fez a coisa certa e eu queria que ele pudesse ver que eu já tinha enxergado isso.
— Caroline e Andrew, o rapaz de Erick, se encontraram com Lenore. Eu fiz a ponte entre eles ontem mesmo, depois que deixamos vocês no hotel — revelou Sam.
Dean não estava mais participando da conversa, parecia concentrado demais no seu hambúrguer.
Eu não senti nada. Nem raiva, nem intrepidez movida por sede de vingança, nem arrependimento. Pelo contrário, parecia um alívio. Um peso a menos em meus ombros cansados.
pareceu preocupada com o jeito que reagi, e pude ouvir um suspiro de alívio com a minha resposta.
— Ótimo — respondi finalmente, dando uma garfada nos ovos e bacon no meu prato.
Caroline teve seu desfecho, e a parte de mim que não concordava com isso já estava indo embora junto com ela. A que queria matá-la estava saindo de férias, levando consigo uma pequena bagagem de rancor e obstinação. Não sabia quando voltaria, mas queria aproveitar sua deixa.
O clima já não era mais de velório e todos nós já estávamos nos falando normalmente. Dean e trocavam piadas sem graça, mas que, para eles, era como se estivessem fazendo o maior show de comédia stand up da cidade.
Sam me lançou um olhar divertido diante do entretenimento dos dois, que me arrancou uma risada baixa.
Não contive os sorrisos para o Winchester mais novo. Jamais conteria novamente.
Afinal, era grata por ele ter me feito enxergar.

divisor

Do lado de fora da lanchonete, Sam e eu estávamos próximos ao Impala de seu irmão, enquanto Dean e cuidavam de pagar a conta dentro do estabelecimento. Minha amiga ia segurar o mais velho o tempo que podia, porque sabia que eu precisava pedir desculpas a Sam. Ela realmente me conhecia muito bem, porque talvez eu não conseguisse ter aquele momento com eles por perto.
Ele organizou alguns itens no porta malas do carro e eu o observei atentamente. Pude notar que minha respiração ficava pesada ao seu lado. Não porque sentia medo ou qualquer outra coisa negativa e sim porque... Talvez o admirasse mais do que devia.
Gostava de Sam Winchester mais do que me era permitido nessa vida que levávamos. Um apreço confuso, mas cheio de gratidão.
Ele deitou a espingarda que servia de apoio para manter o porta malas aberto e, então, o fechou, trancando-o com as chaves e virando-se para mim. Ele estava sempre com um sorriso caloroso nos lábios, com um olhar gentil e as mãos sem saber onde se esconder.
Um sorriso meu se abriu.
— Você lutou bem, — disse ele.
— Sam, olha... — comecei, mas não sabia ao certo como prosseguir. — Eu quero te pedir desculpas por ter apontado a arma para você. Eu queria que soubesse que a situação me deixou assustada, mas que eu nunca teria apertado aquele gatilho.
Reprimi os lábios. Todos os meus motivos pareciam extremamente patéticos.
— Eu nunca precisei lidar com uma ocasião onde achava necessário me questionar se era certo ou não meter bala em um monstro — me expliquei, começando a gesticular de forma um tanto desesperada.
Queria o seu perdão. Iria até o inferno por isso se precisasse.
— Isso nunca mais irá acontecer de novo, eu...
Sam pousou a mão direita em meu rosto e deixou um beijo afetuoso em minha bochecha, calando completamente a minha boca. O maior não se afastou muito, e meu olhar estava congelado sobre ele. Então, os olhos intercalaram entre as íris gentis e os lábios rosados.
Meu coração acelerou no exato instante que senti o calor da mão de Sam.
Tum, tum, tum, tum.
Qualquer vampiro, a quilômetros de distância, ouviria o pulsar desesperado e afoito de meu pobre coração.
Entretanto, nada fiz. Nada podia fazer. Não naquele momento.
Ele pareceu entender, e se afastou. Seu sorriso não deixou seus lábios em momento algum. Fizera aquilo para que eu me acalmasse.
— Está tudo bem, . Eu já passei por isso um milhão de vezes, não foi a primeira vez que alguém aponta uma arma para mim — ele respondeu, rindo.
Suspirei aliviada.
— Então... Nos vemos por aí, Sam Winchester?
Ele abaixou a cabeça por um breve momento, ainda sorrindo. Todavia, seu sorriso parecia triste. Ao menos, notei um vislumbre de tristeza no tom cor de rosa em seus lábios.
— Com certeza. Ainda existem muitos monstros por aí.
Assenti, carregando a mesma tristeza no sorriso.
Dean e saíram da lanchonete, me tirando completamente dos devaneios que inundaram minha mente e dos pensamentos ansiosos sobre Sam Winchester.
Quando o verei novamente? Eu terei essa chance?
Puxei as chaves do Camaro e ergui a mão, acenando para Sam e me afastando em direção ao meu carro.
— Espera — pediu ele.
Eu parei no meio do caminho, e, mais uma vez, fui agraciada com aquele sorriso.
— Por favor, , se cuide.
Desejei ter forças para lhe pedir o mesmo, mas tudo o que conseguia pensar era em ficar ali.
Nenhuma outra despedida, além do enterro de Jake, tinha me afetado tanto a ponto de pensar que eu preferia levar um disparo de bala de prata a ficar sem ver aquele sorriso novamente.
Entretanto, de uma coisa eu sabia: se encontrasse Sam Winchester mais uma vez, não deixaria que partisse de novo.

Continua...


Nota da autora: Escrita com carinho para as Sam girls como eu. <3


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