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Codificada por: Sol ☀️

Finalizada: 25/06/2026.

Para a Val,


Você sabe muito bem o que fez. Espero que seja lento, doloroso e que te traumatize para sempre, mwah! ♥️

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PARTE UM • BROTHERHOOD


“Se desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua”.


BAUMAN, Z. Amor Líquido: A Fragilidade dos Laços Humanos.

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“Tentei de novo me curar da dor da solidão,
E me perdi pelos atalhos do meu coração”

ATALHOS.



MESES ANTES


ESTÁ ME ESPERANDO DO LADO DE FORA DO RESTAURANTE, para minha surpresa. O celular em mãos, os nós dos dedos esbranquiçados com tamanha força impunha no objeto, a mandíbula trincada, revelava um pequeno músculo ali, explicitando sua tentativa de controlar-se — suspeito que esteja falhando. Sei que ele está me ligando; desliguei meu celular por causa disso. Sei que quando eu o ligasse novamente teria pelo menos umas vinte ligações consecutivas dele. é assim, não aceita não, ao menos, não quando se tratava de mim. Sei também que cancelar aquilo iria ser minha pior ideia, então apenas certifiquei-me de que, se vou ser torturada pelo resto da noite, obrigada a sentar em uma mesa e observar a família perfeita de fora, como sempre acontecia, então terei ao menos uma pequena compaixão comigo mesma ao deliberar ao máximo que conseguisse tal desolada situação. Certifiquei-me de escolher o caminho mais longo, peguei o ônibus e caminhei pelo resto do trajeto até o lugar. Não posso faltar, mas iria protelar o máximo que conseguisse. Já é uma grande surpresa para mim que estivessem fazendo tamanha questão de minha presença em um de seus jantares elegantes em restaurantes de cinco estrelas — especialmente quando sequer lembravam-se de mim em datas comemorativas em geral —, então não é atoa que estou estupefata com o fato de que está sentindo minha falta ali. Que todos devem estar me esperando.
Teria rido, se pudesse. Tamanha irônia, no fim, é apenas amarga, quase vazia. Deprimente. Não é uma surpresa para ninguém de minha família que minha presença fosse tão imperceptível que não fosse sequer sentida; é devido a isso que havia parado de fazer aquilo. Quando completei idade o suficiente para conseguir escapar do grande casarão dos s, o fiz como se tivesse acabado de receber minha liberação após anos pagando por um crime do qual não lembrava-me de ter cometido, mas cuja sentença, cruel e precisa, nunca havia deixado de pairar sob minha cabeça. Minha família não se importou — não perceberam até cinco meses terem passado. Então, tornei-me a filha ingrata, a ovelha negra que escapara das garras de Étienne, que agora ousava renegar a família como uma cruel e abusiva parasita que usufruía apenas do melhor para então culpá-los por tudo. Uma garota mimada, insensível e vil. Posso conviver com isso; posso conviver com a ideia de que as pessoas rejeitam-me, e que não há ninguém neste mundo esperando por mim. Posso aceitar que, embora acredite piamente no amor, a ele, sou tão repulsiva quanto o óleo para a água. Para mim, a situação era mais simples: se não fazia diferença em um lugar, porque diabos iria permanecer ali? Mas isso nunca havia importado de qualquer forma. Normalmente, o caminho levaria duas horas e alguns minutos entre os dormitórios no campus norte, até Clair De Lune — um restaurante chique que Celeste adorava frequentar pelo ambiente requintado e a severidade com que aceitavam seus clientes —, fiz em três horas naquele dia. Acabei chegando ao restaurante com uma hora de atraso, mas para mim? Parece muito pouco.
, é claro, está furioso. Bochechas coradas, olhos vidrados, movendo-se pelos carros nas ruas com impaciência típica de quem estava muito perto de explodir — que irônico ele acreditar que Étienne poderia ter me dado um carro. Nosso pai havia sempre sido bem claro com relação aos filhos dele: e Brielle ganhavam tudo o que desejavam, o privilégio, o carinho, a atenção e o afeto paterno. Estava vestido com um terno elegante esta noite, alfaiataria sob medida, feito para ele, tecido caro, macio e que, evidentemente, deveria ter sido apenas mais um dos inúmeros presentes de Étienne para seu garoto de ouro.
Era estranho, mas Étienne e eram muito parecidos quando se vestiam daquela forma.
Quando era pequena, costumava a questionar-me como deveria ser a sensação. Acho que cheguei a me ressentir por um breve período de tempo, questionando porque Brielle e recebiam tudo, e porque para Étienne sequer era uma sombra no canto das salas, uma mancha inesperada e nojenta a qual ele estava sempre determinado a apagar. Que o enjoava com tamanha intensidade que o tornava vil e cruel sempre que direcionava seu olhar para mim.
Étienne me contou, a voz fria e distante, indiferente a pequena alma que destruía. Indiferente às lágrimas que com tamanha força lutava para não deixar cair. era seu orgulho, seu filho brilhante e o homem que Étienne sempre havia desejado se tornar; seria melhor. Brielle era sua princesinha, a filha doce e meiga que viera como um bálsamo para o casamento em frangalhos de Étienne e Celeste, a certeza de que haviam feito algo certo em forma de garotinha, voz suave, jeito de princesa que demandava igual ou mais atenção de todos. Brielle tinha Étienne na palma de sua mão, e, assim como Celeste, não hesitava em usá-lo para o que bem queria; bolsas de grife, viagens caras, e Étienne? A ela só não lhe entregava a lua ainda porque não soubera como trazê-la para cá. Questionei então quem eu era para ele, e de forma indiferente, quase divertida como se tivesse acabado de lhe perguntar algo absurdo em sua obviedade, disse simplesmente: “apenas o lembrete das falhas de sua mãe” . Não me chamou de filha, não me disse que amava — nunca o fez, e havia desistido de esperar por tais palavras a um bom tempo já. Então, levantou-se com a graça de um rei, e não me disse mais nada. Depois disso, ao menos, ele havia parado de tentar fingir ser meu pai. Tornou-se apenas o familiar carrasco, corrigindo-me e criticando-me de forma afiada, como um treinador com seu cão. Parei de respondê-lo durante essa época; tentar ganhar a atenção que não me era oferecida era apenas aprofundar uma ferida continuamente aberta que, não mais possuía sentido.
Foi somente dois anos depois que entendi suas palavras realmente. Era natal, e, enquanto a família inteira aproveitava a manhã para abrir os presentes, fui deixada para minha própria companhia com o rosnado furioso de Étienne, que ficara muito desapontado, embora não surpreso, quando descobriu que havia me desleixado em minhas notas e tirado apenas 90% nos testes finais ao em vez de 100% — , todavia, ainda ganhara seu computador tão desejado mesmo tendo tirado 62% de média final, acho que ele só não me queria por perto aquele dia —, vaguei por horas no sótão, distraindo-me com roupas antigas, e discos de vinil bem cuidados de nosso avô, quando encontrei um dos diários antigos de minha mãe.
Minha mãe havia traído Étienne com seu melhor amigo, Armand, mais ou menos durante a época de meu nascimento. Não era preciso muito para concluir o que Étienne provavelmente havia concluído. Dos três filhos que ele tinha, era muito provável que eu fosse a única que não possuía seu sangue. Por isso a indiferença com que me tratava, por isso a crueldade velada e a distância gélida.
Nunca revelei que sabia para Celeste. Não fiz perguntas, pois sabia que não receberia as respostas. Em um silêncio sepulcral, apeguei-me, sozinha, à possibilidade de investigar um pouco mais a fundo quem poderia de fato ser meu pai. Se eu o encontrasse, e lhe contasse toda a história, talvez, porventura, ele pudesse me aceitar, talvez pudesse oferecer-me um espaço ao seu lado e eu pudesse deixar para trás o inferno daquele museu pessoal de Étienne para ao menos começar a entender o que poderia significar não ser uma sombra, apenas uma pessoa qualquer. Era jovem e estúpida, ainda tinha esperanças. Armand Dumas era um homem de olhos intensos, sorriso marcante, e uma postura imponente, não era frio como Étienne, que sempre havia se parecido em demasia com uma estátua de mármore, observando a todos de cima de seu pedestal, julgando-os severamente.
Quando completei quinze anos, movida pelo desespero e solidão, decidi arriscar; matei aula para ir atrás de Armand e confrontá-lo. Para ser sincera, era apenas uma criança, desesperada por um pouco de atenção, desesperada por uma palavra gentil que pudesse acalentar o vazio existencial que consumira meu espírito por completo. Não tinha plano. Não tinha provas, apenas as páginas dos diários de Celeste e uma vã esperança que não tardou a morrer rapidamente. Não passei da porta. Armand Dumas não se importava comigo. Ele não se importava com a possibilidade de ter tido algum filho com Celeste, embora admitisse sem pudor algum que foram inúmeras vezes descuidados para que a possibilidade não fosse assim tão impensável. Não desejava um herdeiro, já o tinha com a própria esposa, e mesmo se o tivesse com Celeste, teria feito-se de cego e indiferente convenientemente.
Foi quando entendi, com clareza de detalhes, que estava completamente sozinha. Ninguém me queria. Como poderiam? Passei a me questionar o que deveria haver de tão errado comigo. O que estava assim tão quebrando dentro de mim que a todos repudiavam? Concluí que a traição de minha mãe havia me tornado impossível de ser amada. Resignei-me a tão conclusão, o que mais poderia fazer? Jamais poderia mudar quem de fato sou, restava-me apenas aceitar a situação como ela é, por mais amarga que fosse. Depois disso passei a observar de longe, mais como uma espectadora do que uma presença na família — não sei se Étienne ou Celeste perceberam ou não, mas certamente notaram a mudança, porque as coisas se acalmaram em casa. Étienne até mesmo iria oferecer pequenos elogios que não faziam mais a menor diferença. Tornei-me uma espectadora de sua família, com a completa ciência de que não possuía um lugar ali para mim; aceitei-o com graça. Passei a não esperar mais pelo reconhecimento de meu pai, ou o afeto de minha mãe, não questionei-me mais sobre como deveria ser a sensação ao assistir receber o carinho e o orgulho de Étienne. Acho que foi nesse momento que sucumbi a depressão e tornei-me suicida.
Não daquele tipo que realmente faz alguma coisa, tornei-me o pior, pois sou covarde demais: tornei-me aquele tipo de pessoa que assiste os carros na rua, esperando o momento certo para atravessar, mas que, em seu íntimo, implora silenciosamente para que um deles dê um problema no freio e não pare. Tornei-me a pessoa que observa a faca com desesperado saudosismo quase de uma amante; que mal haveria se, acidentalmente, escorregasse com uma em mãos? Era um inferno pessoal a qual habituei-me a viver. Nunca disse nada a ninguém, porque o faria? Esperava encontrar uma família por escolha na escola, mas as pessoas admiravam demais para que fossem minhas amigas, mesmo Margot havia se aproximado de mim por causa de seu interesse por .
Péssima ideia pensar em Margot agora. Chacoalho a cabeça, desalinhando um pouco mais meus cabelos. Estavam cuidadosamente feitos em um penteado meio preso, os cachos pesados definidos, pendendo por meus ombros, enquanto algumas mechas rebeldes adornavam meu rosto. Foi Sophia que fez o penteado, minha nova colega de quarto havia se dado ao trabalho de passar duas horas tentando me ajudar com meus cabelos, e quando conseguiu, perguntou-me com que roupa diabos eu iria para este restaurante se era um dos mais elegantes e requisitados de Paris. Disse a ela que usaria um vestido velho que meu avô havia me presenteado, um verde escuro, que havia usado em seu funeral como um tributo silencioso — e que meus pais odiavam ver-me nele. Sophia suspirou, aqueles olhos castanhos intensos como chocolate suavizaram ao encarar-me e então, de seu baú ao pé da cama, retirou um vestido de cetim azul claro, com um xale igual.
Sophia era uma garota linda, com seios fartos e cintura fina, o tipo de corpo que eu adoraria ter — continuar usando sutiãs de tamanho médio quando quase todas as mulheres ao meu redor usavam maiores, fazia-me sentir estranhamente como uma adolescente. Seu vestido, embora coubesse em mim, havia ficado terrivelmente largo ao redor do busto, e extremamente apertado ao redor dos quadris. Apontamos o quanto o tecido havia permitido fazer, mas ainda assim, estava estranhamente folgado, o suficiente para me fazer tensionar a cada mísero movimento considerando se iriam cair completamente de meu corpo e humilhar-me na frente de meus pais, ou se sobreviveria a noite. Era o contraste perfeito para assegurar meu pai de suas opiniões sobre mim; é elegante, inteligente, seguro e confiante. O filho perfeito. O cara perfeito. Então, havia eu. Que possuía a mesma coloração de Celeste, que possuía a mesma aparência que ela, com exceção dos olhos, e que deveria ser o que é; e não poderia estar mais longe disso. Nunca vou ser como , e isso me frustrava. Porque eu nunca teria aquilo, teria? A admiração de Étienne, ou o respeito que naturalmente parecia conquistar com um sorriso torto e um olhar intenso. Ficaria feliz em ser invisível ali, com eles. Ficaria feliz em ser esquecida, mas de alguma forma, mesmo que não fosse o suficiente em nenhum dos padrões deles, eles não esquecem. Porque para os s não havia nada mais importante do que o sangue.
Tinha o mesmo sobrenome, mas uma vida diferente, propósitos e pesadelos diferentes, ainda assim parte do meu sangue ainda era de Celeste e para Étienne, isso bastava. Bastava para me conferir a sorte de ser uma filha bastarda e um lembrete severo para Celeste de suas falhas e transgressões. Ele usava-me para punir ela, e punia-me pela minha própria existência. Por vezes, questiono-me se ele na verdade não gostava da sensação de sentimento de justiça própria que oferecia-lhe o direito de vingar-se pela traição percebida.
viu-me algum tempo depois de ter chegado ao restaurante. Os olhos se estreitaram, movendo-se cuidadosamente pela rua, em busca de meu rosto, as faces tingidas pelo desdém que ele reservava somente a mim — não sei se ele sabe a verdade sobre o porque seu pai é tão cruel comigo, ou porque nossa mãe me trata como se eu fosse apenas um pensamento secundário, mas tenho certeza de que ele entende, e talvez goste da sensação de ser o filho preferido. Seu desdém ensaiado não era uma máscara para ocultar suas emoções, era um colete de espinhos programado para machucar qualquer um que chegasse perto. era um excelente irmão para Brielle, carinhoso e atencioso, mas para mim, era a cópia de Étienne. As mesmas cobranças, em tons diferentes, como se fosse apenas um problema em sua vida. Aperto meus lábios sem conseguir conter o impulso. Se sou tamanho problema para eles, porque ainda me arrastam para incluir-me naquele teatro?
A resposta é simples, quase óbvia: não incluir-me geraria perguntas, e eles teriam que admitir o quão crueis eram por tratar um de seus “filhos” com tamanha indiferença. E mais do que a crueldade, eles valorizam demais o próprio nome para querer que tal atenção recaía sobre eles. Se alguém precisava ser o vilão daquela história, seria eu. Uma parte de minha mente entra em estado de alerta no segundo que o olhar de repousa em mim, espero pelas palavras crueis e pelos gritos de inadequação. Espero pelas acusações e pelos comentários enviesados, mas pela primeira vez, em todos esses anos que nos conhecemos, não os recebi. era bom em reconhecer erros. Abaixou lentamente o celular, os olhos estreitando-se um pouco mais, indo em direção ao aparelho em minha mão esquerda, e então se fixar em meu rosto, antes de soltar um pequeno estalo com sua língua em desaprovação. Deve ter entendido que estou propositalmente evitando suas chamadas, que escolhi andar até o restaurante, mesmo usando saltos que vão causar bolhas em meus pés amanhã.
— Atrasada — apontou, passando a mão esquerda por seus cabelos lisos e elegantes, escuros como a noite. Estavam um pouco maiores do que o normal, enrolando-se um pouco para dentro de suas orelhas, desalinhados pelo vento que soprava ao nosso redor, fazendo suas bochechas e nariz ficarem coradas. O contraste preto e branco de seu terno e sua pele lhe deixavam estranhamente mais misterioso do que de fato era, como se sua competência não se restringisse somente aos campos e ao ambiente atlético, mas como se fosse um homem completo. Exatamente como Étienne. Sinto o gosto amargo da bile inundar minha língua, o peso em meu estômago o faz se contorcer, mas engulo em seco, apenas encarando-o em silêncio ponderando o que poderia dizer que de fato fosse fazer alguma diferença. Poderia tentar me justificar, implorar por sua compreensão, mas havia feito aquela dança demais com nossos pais para saber que tentar replicá-la com seria uma perda de tempo, ou poderia dizer algo amargo, afiado e verdadeiro que lhe atacasse o ego. Poderia dizer-lhe exatamente o que desejava, e começar uma briga. Se começasse uma briga, ao menos teria a desculpa de ser enviada de volta para os dormitórios. Ninguém iria me incomodar pelos próximos três meses inteiros. Mas se havia aprendido algo com eles, era que sua melhor escolha sempre seria ficar apenas em silêncio. É o que faço.
Mas não quer isso de mim. Quando volto a caminhar para entrar no restaurante de uma vez, sinto-o segurar meu braço, e a sua maneira, empurrar para trás. Poderia tê-lo impedido, mas não queria. Sabia que me custaria se caso tentasse, e estava cansada demais para me sentir tentada a iniciar uma briga que tinha certeza que não ganharia. Não era que eu não soubesse me defender contra os ataques, é que, haviam sido tantos que simplesmente cansei de lutar por uma causa perdida. Às vezes, a melhor coisa que você pode fazer por si mesmo é apenas aceitar que não há mais nada pelo que lutar e assistir a outra pessoa se desfazer em sua própria frustração.
— Está drogada?
— Não — mentir nunca havia sido mais fácil. O sorriso, o queixo erguido, a confiança nas palavras e o olhar fixo no dele era convincente o bastante. A verdade era que havia tomado mais Lexapro do que deveria. Mas não o suficiente que iria me fazer ter uma overdose tão desejada.
— Corta a baboseira — havia sido ríspido, mas seu olhar o traiu. Estava hesitante, as sobrancelhas unidas, buscando alguma coisa em meu rosto que pudesse oferecer a ele as respostas que desejava encontrar. Deve tê-las encontrado porque seu semblante esclarecesse um pouco mais. Vejo-o contrair o lábio inferior, a maneira com que a mandíbula se tenciona um pouco mais e uma ruga surge em seu cenho perfeito. Sinto o riso borbulhar pela minha garganta, assim como a pressão das lágrimas ao fundo de meus olhos, mas mais do que isso, percebi, somente agora, que fazem exatos sete meses que ninguém havia me abraçado. — Olha, eu não me importo com o que você faz ou deixa de fazer,
, sorri. Porque ele sempre sorria quando estava magoado ou quando conseguia atingir um ponto de fragilidade meu. Para mim, o apelido era uma lembrança de tudo o que desejava esquecer, de tudo o que sempre quis e que era usado como uma arma para me manipular. Mas para ele, era um aviso. Não importava o quanto tentasse fingir ou fugir do passado, não poderia, porque todos ao meu redor faziam questão de lembrar-me. Era como ser uma prisioneira, e desejar pela ideia de não saber que o era, apenas pelo alívio do desalento que se formava, quando você sabia que estaria, para sempre, condenada. — Prefiro que me chame de , só isso.
— Vou esclarecer uma coisa para você, , hoje você atende pelo apelido, ok? Se existe uma mísera possibilidade de algo dar errado essa noite, é por sua culpa, então você vai fazer exatamente o que eu disser, entendeu? — rosna com uma autoridade que espelha Étienne, e sinto o impulso desesperado de puxar meu braço para longe de seu toque. Odiava quando ele se tornava aquela pessoa, e odiava ainda mais a mim, por ter me dado ao luxo de comparecer a minha própria torutra de tão bom grado. Outras pessoas teriam lutado mais para ignorá-los, teriam encontrado desculpas, como posso fazer isso comigo quando sei o resultado? E todavia, aquela parte insuportável de meu cérebro, carente e desesperada, parecia apegar-se a consciência de que, se ainda machucada tivesse pessoas ao meu redor, era melhor do que ficar sozinha. Não importa o quanto tente me convencer de que amo minha solidão, a verdade é que é solitário demais.
Desvio meu olhar para a rua, apertando os lábios, e tomando cuidado para não começar a chorar logo agora. Quero pelo menos dar alguns minutos até me permitir-me sentir a primeira lágrima cair. Sei o que ouviria quando acontecesse: “dramática demais” ou “está exagerando” , e sabia que não haveria consolo depois disso. As pessoas gritavam tanto que era dramática, que exagerava as situações para proporções imagináveis apenas pelo desespero de ter a atenção de alguém, que, para ser sincera, acho que realmente tem razão. Não pode ser mentira, pode? Quer dizer, quando uma pessoa lhe diz algo ruim sobre você, você compreende que essa pessoa possa estar equivocada em suas suposições, mas quando muitas pessoas repetem a mesma coisa para você, como você poderia dizer que estão erradas? Mais de uma ocorrência é padrão…
— Ele já está aí, caso queira saber — quando voltou a falar, desta vez, sua voz era mais baixa, cautelosa e até mesmo gentil, reconhecia-a de quando éramos crianças. O aviso, quase silencioso, não deveria fazer minhas mãos tremerem ou minha mente repetir em loop para que saísse correndo dali o quanto antes. Deveria ser apenas um alerta normal, algo que estava esperando receber. Sinto-me como um maldito cordeiro, encurralado pelos fazendeiros, arrastado para o abate não importa o quão forte tente fincar minhas patas na terra. Desfaz-se como areia por meus dedos. Um tremor involuntário percorre meu corpo, e sinto quando minha garganta se contraí, algo em meu peito parece dolorido, como se estivesse em carne viva. — Se serve de consolo, eu também acho que isso é estupidez.
São esses pequenos momentos que machucam mais. Volto a encarar e sinto meus olhos se embaçar, seu rosto fica distorcido enquanto pisco para longe as lágrimas que marejam meus olhos. É agridoce, o entendimento, a possibilidade do que nós poderíamos ter sido se nossos pais não tivessem se colocado no meio. É claro, ainda tem Brielle como irmã mais nova, ele sabe o que é ser um irmão mais velho, mas eu nunca irei entender essa conexão. Tento forçar um sorriso mas sinto como se meu rosto estivesse emplastificado, como se a mera tentativa fosse tão artificial que se estendia por meu rosto como uma máscara de polipropileno alterando os músculos de meu rosto. Era de se esperar que veremos aquela situação sob a mesma perspectiva; nós crescemos juntos, fomos criados na mesma casa, embora não pelas mesmas pessoas. Mas naquela altura, já éramos velhos demais o suficiente para compreender que, mesmo que houvesse concordância entre nós, as perspectivas estavam em pólos diferentes demais para encontrar um ponto de trégua. Uma parte de minha mente, mísera e frustrante, gostava de pensar que isso era alguma forma de reconhecimento. Uma validação. Não há coisa mais perigosa do que isso para nós dois.
— Poderia ser pior — sussurro com uma voz fina e quebradiça. franze o cenho, mas não diz nada. Posso ver que há uma ponta de pesar em seu olhar, mas aparece e some tão rápido que tenho quase certeza de que estava imaginando coisas. Engoli em seco, esperando que ele me soltasse para então segui-lo para dentro do restaurante.

•••

Étienne e Celeste formam o tipo de casal que as pessoas costumam querer ser. Lógico, por trás da aparência impecável que era refletida nas fotografias e câmeras que fazia todos acharem mesmo que eles eram perfeitos, havia inúmeros defeitos. O tipo de casamento tradicional que se esperava de pessoas com os status deles. Celeste sempre havia sido muito bonita, uma socialite elegante e de olhar aguçado, sensual o suficiente para poder ter sido uma modelo da Victoria’s Secret, mas elegante demais para se expor por aí apenas de calcinha e sutiã. Os cabelos eram tão cacheados quanto os meus, mas havia um certo cuidado a mais que os deixavam parecendo como minimamente projetados, como se seu penteado não fosse uma mera influência dos caracois, mas sim, ela tivesse planejado-os para parecerem daquela forma. Usava maquiagens suaves, discretas que sempre destacavam seus olhos ou lábios, e suas roupas eram sempre elegantes. Estava deslumbrante com um vestido vermelho escuro, acentuando suas curvas, de seda e cetim, as mangas finas adornavam seus ombros esbeltos, expondo um decote em V que em qualquer outra pessoa teria parecido impróprio mas nela, parecia apenas uma escolha ousada para exibir o colar de diamantes que Étienne deveria ter lhe dado de presente recentemente.
Brielle por sua vez, sentada ao lado de Étienne era uma visão delicada de perfeição; parecia-se com uma boneca de porcelana, os cabelos lisos, como os de , estavam cuidadosamente cortados em um penteado jovem e elegante, as franjas adornando seu rostinho enojado e entediado. Os olhos grandes e expressivos fixam-se em mim, e percebo de imediato o humor; está comparando nossas roupas, e concluindo rapidamente que as delas são melhores. Era algo a qual já havia me acostumado, a competição invisível que Étienne havia instalado sobre nossas cabeças, que, de certa forma, afagava ambos os egos, com exceção do meu. Tenho vontade de rir, um riso desolado e desconsolado que teria feito alguém olhar-me com pena, mas mais do que estar na presença de minha família, odiava a ideia de que se sentissem com pena de mim. Não quero ser vista como uma pobre coitada, não sou, sou mais que isso, então faço o que sempre fiz, suporto a mágoa e a dor em silêncio.
Sento-me de frente para Celeste, a fim de evitar a atenção de Étienne que está observando o vestido que Sophia havia me emprestado com tamanha gentileza, os olhos afiados encontrando os pequenos pontos que demos para fazê-lo mais justo ao meu corpo — pela segurança de não deixá-lo deslizar por meu tronco —, e pela maneira com que a cor parece empalidecer minha pele, como se estivesse doente, e não adequada para o espaço. Posso ver a torção exasperada no canto de seus lábios, posso ver a pequena curvatura de desprezo e nojo que surge por seu nariz, os olhos frios estreitando-se. Quero perguntar como consegui aquelas roupas, a quem devo ter recorrido, mas não o faz. Questionar-me seria dizer que se importava, e ele não poderia dar tamanha falsa impressão. Agradeço com um gesto discreto, quando , sempre o cavalheiro, puxa a cadeira para mim — uma performance perfeita que mantém seu título como garoto de ouro de Étienne — e então senta-se ao meu lado. Um grande bloco de músculos em preto e branco que, pela primeira vez, serve-me de consolo, quase alívio por bloquear o sorrisinho presunçoso de Brielle. A garota não era assim tão cruel, apenas mimada o suficiente para querer sempre ser o ponto focal das situações; não a culpo por ser quem é, culpo a Étienne e Celeste por terem me usado como bode expiatório para criar o monstrinho que Brielle era agora.
Étienne não olha mais em minha direção. Já percebeu que cheguei, que o ato está pronto, agora podem fingir ser a família perfeita sem a interferência da estrangeira enquanto assisto a eles agirem como se não estivesse lá. Algumas perguntas educadas são feitas em minha direção: se já me adaptei ao novo dormitório depois de toda a situação com Margot, se estou pronta para parar de agir como a vítima e levar as coisas a sério, Étienne avisa que não irá mais ajudar-me com as minhas despesas com a Universidade — o que quase me faz rir, pois ele nunca havia ajudado-me com nada —, e que estaria por minha própria conta, já que “se você insiste em agir como uma garota de menos valor, que se divirta sozinha”. Brielle não hesita em entrar em meio a conversa, tentando convencer Étienne a dar a ela o dinheiro que deveria servir para me ajudar a custear algumas coisas que a bolsa de estudos não auxiliava. Consegue ser tão encantadora, que, mesmo contra gosto, Étienne concorda, como sempre. encara-me, como se fosse compartilhar de alguma opinião mas não volto meu olhar para ele, abaixo meu olhar para meu prato vazio, considerando o que deveria fazer. Poderia trancar a faculdade, e me mudar de cidade sem que eles soubessem. Poderia seguir para Uzês, a cidadezinha medieval minúscula seria o suficiente para servir como esconderijo, poderia mudar de nome e fingir que nunca havia existido. Que fora apenas o fruto de uma imaginação punitiva de um homem cruel, e finalmente sentir-me livre de suas garras. Ou poderia simplesmente voltar para o dormitório, trancar a porta e finalmente ser corajosa o suficiente para executar…
, querida? — Celeste chama meu nome, despertando-me de meus próprios pensamentos, e obrigando-me a piscar para longe as lágrimas que acumulam-se no canto dos meus olhos. Praguejo mentalmente quando uma gota escapa e caí bem no porcelanato de meu prato, torcendo para que consiga limpá-la antes que Étienne perceba. Solto um pigarro baixo, voltando a encarar Celeste com uma pergunta confusa ao observá-la. Celeste nunca se direcionava a mim nos jantares, como se fosse feita de algo contagioso que poderia contaminá-los apenas de olhar em minha direção. Havia me habituado com silêncio, então, era realmente confuso tê-la chamando-me pelo meu apelido esta noite. Espero pelo próximo golpe, pelo momento que ela dizer que meu humor está estragando o jantar e que deveria me retirar, mas ela está observando meus olhos com muita atenção. Mais atenção do que gostaria que estivesse. Por um momento horrendo, questiono-me se murmurei em voz alta meus planos para depois do jantar, começo a sentir minhas mãos tremerem e o impulso de levantar-me e correr é maior do que o que me obriga a permanecer ali. Volto meu olhar rapidamente na direção de Brielle, completamente contente em sua ideia de superioridade sobre mim, como qualquer garota de 15 anos teria para esconder suas próprias inseguranças, ou o semblante silencioso e impossível de sondar de Étienne, seus olhos não estão presos em meu rosto, mas sim em seu prato, cortando um pedaço de carne avermelhado de forma deliberada. encara-me com olhos estreitados, seu semblante difícil de ser lido, mas há mais atenção do que gostaria de receber.
Tenciono-me, obrigando-me a oferecer um sorriso doce e educado, implorando para qualquer divindade real que ninguém tivesse notado para onde meus pensamentos estavam lentamente se arrastando.
— Sim, mãe?
— Querida, não se curve, não é apropriado — ela corrigiu minha postura, como sempre fazia. Trato de me ajeitar outra vez, sentindo a vergonha manchar meu rosto embora não exista cor que revele isso. Quase suspiro em alívio, assumindo que era somente isso, mas então ela continua a falar. — O seu pai estava fazendo uma pergunta, querida. Por favor, não nos ignore somente porque estamos tentando lhe educar. Suas ações possuem consequências, precisa parar de agir como uma criança e enfrentá-las como tal.
Penso em dizer-lhe que não tinha culpa, que foi Margot quem roubou meu projeto e apresentou como o dela, que não havia roubado suas joias, nem tentando acertá-la com um tapa, mas percebo o quão em vão tal coisa seria. Tentar implorar por piedade e compreensão, para defender que estava dizendo a verdade diante de pessoas que já acreditavam que você era condenado. Era apenas gastar saliva à toa. Não nos levaria a lugar nenhum. Penso em corrigir Étienne, em dizer-lhe que de todos os seus filhos, sou a única que não teve uma conta em meu nome para auxiliar-me em meus estudos, que trabalho meio período em uma escola infantil para conseguir manter minhas despesas, que nenhum deles sabia disso porque simplesmente não se importam, mas quando encaro Étienne, percebo, pela primeira vez em minha vida, que não vejo o homem cruel e assustador que sempre estive aterrorizada demais para sequer enfrentar temendo sua fúria. É só um homem desconhecido, um rosto que meu cérebro nunca fez muita questão de decorar e pelo qual não há afeto algum.
Parece envelhecido, há cabelos grisalhos nas laterais de seus cabelos, e alguns fios misturando-se com as mechas elegantes penteadas para trás. A barba cuidadosamente feita também revela algumas partes esbranquiçadas, rugas se formam ao redor de seus lábios e um vinco novo havia surgido por seu cenho. Não digo nada, espero que a pergunta seja refeita para que possa respondê-la, mas acho que, a essa altura, já sabemos qual será a resposta. O que quer que seja perguntado receberá resposta afirmativa, não por concordância, mas por mero desejo de encerrar logo a conversa.
… — começa a dizer, tentando interferir, mas apenas aceno com a cabeça na direção de Étienne concordando. Ele estreita os olhos, finalmente encarando-me com uma expressão irritadiça.
Por um longo momento, apenas encara-me. Desvio meu olhar para as outras mesas.
— Sugiro que pare com o ato de martírio, . Minha decisão é final, e você pode concordar ou discordar, mas seu antigo quarto irá para as roupas de Brielle, afinal, bom comportamento deve ser recompensado. Não ouse pensar que isso irá me manipular a considerar porque…
— Não me importo — finalmente quebro o silêncio, minha voz rouca e falha, não menos afiada. Dou de ombros, voltando a linha de meu olhar para Étienne, enxergando-o como de fato era: um homem pequeno, movido pelo ego. Pela primeira vez, pareço tê-lo surpreendido. Não apenas por respondê-lo de volta, sem lágrimas, ofertando-lhe a mesma indiferença que ele sempre me ofereceu, como por igual também havia o interrompido em sua fala. Celeste empalidece um pouco, lançando-me um olhar severo. Brielle desinfla como um pequeno balãozinho, confusa com o porque eu não estava chorando e implorando para que Étienne considerasse seu pedido cruel, mas é que surpreende-me. me encara com surpresa, mas os olhos parecem adquirir algo estranho, uma urgência que nunca esteve ali. De repente é como se estivesse me vendo, realmente me vendo, e isso é ridículo. Volto meu olhar para Étienne, tentando manter-me o mais firme que consigo. — Aquele nunca foi meu quarto de qualquer forma, nem minha casa, e uma vez que terminar a faculdade, não planejo voltar — Dou de ombros, desdenhosamente. Não me sinto desdenhosa, me sinto rejeitada e acuada, se um deles estendesse suas mãos em minha direção, acho que os morderia com toda força em minha mandíbula.
Tenho quase certeza de que era o que Étienne realmente queria de qualquer forma, porque diabos fingir que, agora, era algo surpreendente ao ouvir-me apenas dizer em voz alta as palavras que ele provavelmente estava tão ansioso para ouvir? De repente tudo se torna insuportavelmente alto. Há estímulos demais, fico consciente não somente do que está acontecendo em nossa mesa, mas nas outras. Os talheres que se encontram com o porcelanato, as conversas e risos destoantes, a maneira com que Celeste parece querer iniciar um discurso sobre minha postura mais do que inadequada, a maneira com que Étienne me encara, olhos estreitados, parecendo tentar categorizar-me. Encaro-o por um momento em silêncio questionando-me porque diabos ainda fazia isso. A troco do que? Era como insistir em acertar uma faca e dizer a todos que a faca estava sendo ferida, enquanto meus braços, cortados e sangrando, permaneciam intactos. Quando o encaro, realmente o vejo. Questiono-me porque sua aprovação, seu afeto significa tanto para mim? Se sequer valor possuía? Não sei o que se passa em sua mente, mas ele parece surpreso.
Tenciono minha mandíbula, tentando não soltar um riso baixo. Porque diabos ele estaria surpreso com minha indiferença se ele nunca tivesse ensinado nada além disso? Talvez porque pela primeira vez, durante toda minha vida, eu tenha tomado coragem o suficiente para respondê-lo à altura. Brielle parece extremamente ofendida por não poder me ferir, e Celeste parece desconfortável o suficiente para mover-se em sua cadeira, tentando manter a postura elegante de realeza — mesmo que ela estivesse longe disso.
Ficamos em silêncio por um longo momento.
É quem quebra o desconforto com um pigarro baixo, voltando sua atenção para Étienne. Vejo meu irmão mais velho, oferecer um de seus sorrisos mais charmosos, o tipo de sorriso que ele oferecia sempre que queria apaziguar alguma situação ou então encantar seu caminho para longe de algum problema. Sempre funcionou com mamãe; volto minha atenção para o meu prato vazio, pegando uma talher de prata e girando-a sem interesse algum, quando ouço o celular vibrar. Erroneamente acredito que tenha sido o meu, e puxo-o para verificar, mas a tela está apagada. Tirando pelas notificações de redes sociais, dois pop-ups de um jogo idiota de restaurante avisando que minha energia havia sido restaurada por completo e um aviso de que minha mestruação estava próxima, não há nada. Sophia me mandou duas mensagens: “Como estão as coisas aí?” seguida de “Precisa de uma carona? Vem pra cá quando terminar! A gente tá no Le Petit”. Uma mensagem de Solène, a coordenadora do jornal cobrando Marcelle e Piette dos projetos atrasados, e uma mensagem seguida de um áudio de quase sete minutos de Anaïs Durant com os dizeres: “Precisamos conversar!” , o que me faz ter um momento completo de confusão. Porque diabos a melhor amiga de Margot estava tentando entrar em contato comigo em plena sexta-feira à noite? Pisco, afastando a imagem mental do que poderia me aguardar se de fato respondesse aquela maldita mensagem quando algo chama minha atenção.
Ninguém está conversando. O silêncio estende-se, pesado como ferro em brasas sobre os membros que compõem a mesa, com exceção de mim. Pauso no movimento de perguntar o que diabos havia acabado de acontecer quando meus olhos encontram-se com os de Celeste. Ela está pálida como giz, os olhos arregalados embora sua postura permaneça a elegante de uma verdadeira princesa. Brielle está franzindo o cenho, confusa, e sinto o impulso familiar de puxá-la em minha direção e abraçá-la; os olhos estão arregalados, terrivelmente confusos enquanto se inclina em direção aos papéis espalhados sobre a mesa, e então voltam-se para Étienne, buscando por clareza. está congelado no lugar, a confusão misturando-se com uma expressão tensa enquanto parece absorver o pedaço de informação que acabei de perder. E então, há Étienne. Sua expressão é impossível de ser lida, o rosto severo permanece inexpressivo enquanto encara os papéis, mas a mandíbula está tão tensa que não apenas um pequeno músculo salta com o gesto, como igualmente parece estar doendo, uma veia em sua tempora começa a se projetar, pulsando. Seus olhos estão fixos em mim.
Puta merda, o que eu fiz agora…
Sinto a ansiedade que permeia por meu corpo como uma pequena camada de estática, agitar-se ainda mais. Minha garganta fica terrivelmente seca enquanto tento controlar minha respiração, tentando lembrar-me do que diabos poderia ter feito agora que poderia tê-lo deixado em tamanho estado de cólera. Considero que foi minha reação ao quarto, talvez se eu tivesse chorado, me encolhido e expressar a tristeza que a ideia de perder meu quarto para os caprichos de Brielle, talvez eles estivessem rindo agora, podendo usar-me como bode expiatório para suas regalias. Talvez devesse apenas aceitar as facadas em silêncio para tentar recuar, mesmo que por uma vez. Talvez fosse melhor do que estragar tudo! Estou estragando tudo! Sempre estrago tudo! Por que sempre estrago tudo?!
— O que aconteceu? — Sussurro para , apavorada demais para direcionar-me a Celeste. — Se for sobre o quarto, eu não quis…
— Os resultados de compatibilidade, para a operação do pai… — sussurra, mas não volta o olhar em minha direção. Franzi o cenho, voltando-me na direção de Étienne que ainda me encara. Não faço ideia do porque, mas sinto-me pior com o olhar dele em mim do que quando apenas me ignorava. Ser ignorada era a segurança de que poderia fazer qualquer coisa que desejasse e não seria percebida; ter olhos sobre mim é o suficiente para me fazer querer cavar um buraco no chão e esconder-me ali para nunca mais sair.
— O que há de errado com isso? Não é apenas para doar um pedaço do estômago? Finalmente vai poder… — começo a dizer, mas sou interrompida quando toma os papeis das mãos de Étienne e joga em minha direção. Arregalo os olhos, surpresa demais para comentar sua atitude pouco característica. era carismático, e elegante, o filho perfeito de Étienne, tê-lo empurrando os papeis em minha direção é o suficiente para me silenciar abruptamente. Seguro os papéis, estranhamente amortecida para que meus dedos tremer; agradeço-me mentalmente por ter tido a brilhante ideia de ter tomado mais Lexapro do que deveria, é a única coisa que me impede de reagir com uma risada de pura incredulidade enquanto observo os papeis de compatibilidade.
Sempre achei, desde que Étienne havia recebido o diagnóstico, que seria neste momento que finalmente as coisas iriam se encerrar. O momento crucial que toda a verdade sobre mim viria à tona e Étienne poderia finalmente lavar as mãos e expulsar-me de vez de sua vida — não que eu tenha estado em algum momento de verdade. O momento em que poderia finalmente encarar os olhos de Celeste e questionar porque ela havia feito isso? O momento que poderia limpar minhas mãos e nunca mais dar-me ao trabalho de entrar em contato com qualquer um deles. Mas o resultado é a última coisa que eu poderia dizer que esperava. Posso sentir meu rosto se empalidecer igualmente enquanto meus olhos acompanham os resultados de compatibilidade. Inúmeros dos jargões, sequer posso compreender. É evidente que os resultados dos exames não são para isso, e todavia, é a evidência científica da infidelidade de Celeste. Exceto por um detalhe:
Sou a única compatível com Étienne. O que significa que, dentre os três filhos dele sentados a essa mesa, sou a única que é sua filha biológica.



“J’étais prêt à graver ton image à l’encre noire sous mes paupières
Afin de te voir même dans un sommeil éternel”

EST-CE QUE TU M’AIMES



AGORA.


NASCI EM UMA FAMÍLIA REPLETA DE PESSOAS EXTRAORDINÁRIAS
, mas não havia nada de especial em mim. É claro que nem minha mãe ou meu pai disseram alguma coisa sobre isso, pelo contrário, na visão deles, todos nós éramos perfeitos. Mas era inegável a verdade sobre mim. Frey é o músico perfeito, o cara que sabia como tocar e encantar multidões, que tinha uma voz de veludo e o charme capaz de roubar quaisquer corações que encontrassem pelo caminho. Aurora, bem, a gente pode ter dividido o mesmo útero por nove meses, mas era ela que havia herdado o talento do nosso pai, a artista perfeita que não parecia precisar se esforçar para conseguir o que desejava — e isso já era suficientemente irritante de ter que lidar; adicione ao fato de que sou sua versão masculina e bom, você têm exatamente o lembrete de minha insignificância. Rika é o cérebro da família — e ninguém questiona isso. E Yule? Bem, a alma sensível, capaz de ver beleza nos lugares mais improváveis. Era como se ele enxergasse de maneira própria, e de alguma forma, tornar tudo mais bonito — ajudava também que ele fosse o mais novo entre nós, com 8 anos, mas quem quer ser comparado com um garoto de 14 anos talentoso?
No meio de tudo isso, então, havia eu: um desastre completo com qualquer instrumento que já tentei tocar, não consigo nem convencer meu próprio reflexo do que quer que tente estar fingindo. Definitivamente não sou o cérebro da família, e Frey sempre fez questão de me lembrar disso todos os dias, e minha fotografias só são interessantes apenas para quem gosta de abstracionismo e psicodelismo porque ainda não dominei a habilidade de segurar uma câmera sem tremer como um pinscher. Sou péssimo, e sei que sou péssimo. No meio de tantas pessoas talentosas, não é uma surpresa que sinta-me de fora. Tento não revirar os olhos quando Aurora finalmente perde a paciência quando com minha tentativa de passar o roteiro com ela e toma os papéis de minha mão; não antes de acertar-me com um tapa dolorido na cabeça. Engasgo-me com um riso nasalado, fingindo que estou mais irritado do que divertido — ela teve que ficar na ponta do pé para conseguir me atingir, e estou sentado diante do balcão da cozinha, isso nunca vai parar de ser engraçado para mim.
— Você só pode estar de brincadeira! — A voz indignada de Frey finalmente corta a provocação entre mim e minha irmã gêmea, ecoando ao mesmo tempo que a de Aurora com a mesma quantidade de indignação. Tento revirar os olhos, mas é difícil não demonstrar impaciência quando sua vida amorsa está sendo debatida por seus irmãos como a porra de um drama mexicano.
Inclino-me na direção da tábua de madeira que Frey está picando os legumes e alcanço metade de um limão, antes de levá-lo à boca. O suco azedo é um curioso consolo para meu próprio desespero. Rika solta um grunhido acertando minha mão, avisando silenciosamente que é para eu parar de beliscar as comidas e ajudá-la com a lasanha, mas não vou, porquê da última vez que tentei ajudá-la na cozinha, ela me chamou de “energúmeno” vezes o suficiente para ter atingido meu ego — e isso era algo difícil de acontecer porque tenho um ego muito seguro, além disso, não faço ideia do que a palavra poderia significar, mas a condescendência no tom dela havia deixado claro que era uma ofensa. Puta merda, era por isso que não gostava de falar muito sobre o que acontecia em minha vida. Toda vez que fazia, virava um motivo de debate entre os três. Pior, como Aurora era a gêmea mais velha, tendo nascido com uma diferença de apenas três minutos e meio de mim, era ela que decidia quando eu tinha direito de me defender e quando o que estava fazendo era indefensável.
— E ela não disse nada? Só te contou tudo, pegou as coisas dela e não falou mais nada? — Meu irmão mais velho ecoa, como se eu não tivesse confirmado aquela maldita afirmação mais de vinte vezes nos últimos cinco minutos. Considero arrotar em seu ouvido para ver se vai fazer eco.
— E com quem ela te traiu? Aquilo traiu você? Aquele do moicano? — Aurora ecoa mais indignada com a percepção de que alguém usaria um moicano por vontade própria do que a traição de Margot. Abro minha boca para respondê-la e corrigi-la, mas sou silenciado com um dedo imperioso da minha gêmea, avisando que eu havia perdido o direito de falar a trinta minutos atrás, quando tentei fingir que estava tudo bem e que não me ressentia com tudo o que havia acontecido. Reviro meus olhos, exasperado.
Verdade seja dita, não acho que estou tão chateado com tudo o que havia acontecido nessas últimas férias. Quer dizer, estava em um relacionamento sério com Margot já fazia quase uns dois anos, não era muito, mas era o suficiente para começar as conversas mais sérias: eventos familiares e fotografias, planos para o futuro, esse tipo de baboseira que se espera de um namoro sério — ou ao menos, que meu pai ensinou esperar. Não era mentira que uma parte de mim tivesse começado a considerar juntar dinheiro para um futuro que desejava compartilhar com ela. Gostava da ideia de casamento, de construir uma família e todos os enfeites possíveis, mas mais do que isso, queria realmente assegurá-la de que levava a sério nós dois. Mas então, desbloquei o ligamento no início da temporada no ano passado, entre inúmeras sessões de fisioterapia, dolorosos, consultas médicas e exames, Margot se tornou um segundo plano. Não era minha intenção deixá-la de lado, havia tentado compensá-la das formas que conseguia imaginar: viagens, presentes caros, afeto, o que quer que ela pedisse, ela conseguia, mas então voltei para o apartamento compartilhado com e na Douai em Paris um dia e tudo se estilhaçou por completo. Não a peguei com ninguém, isso seria exagero — embora uma parte de mim desejasse ter a flagrado com outra pessoa apenas pela confirmação —, mas havia me encarado no fundo dos olhos e dito com um tom severo, quase piedoso tudo o que havia acontecido. Não apontou nomes, apenas foi sucinto nas informações.
— Vi sua garota com outro — havia dito com uma mistura de pesar e exasperação, não pela situação, nunca havia gostado muito de Margot, e mesmo que não tenha me dito o motivo, parecia fazer questão de lembrá-la de seu desprezo pessoal sempre que estava por perto. Era por isso que acabamos nos afastando nos últimos meses, embora a situação agora seja outra. O encarei confuso por mais tempo do que queria, dando de ombros. Achei que ele estava dizendo algo comum, apenas com um demasiado exagero movido pelo desprezo pessoal; não é que não sinta ciúmes, simplesmente sou seguro o suficiente para saber que não precisava me preocupar com uma competição, ou ao menos, era o que eu achava na época. Quando questionei como ele havia visto minha namorada, grunhiu, jogou-se no sofá, e abraçou a maldita almofada com a cara do Nicholas Cage de . — Montada no pau de um cara do time, igual uma desesperada.
Acho que comecei a rir mais ou menos depois dessa parte. A história era tão surreal que simplesmente não parecia fazer o menor sentido. Quando questionei o nome da pessoa com que Margot havia me traído, se recusou a dizer. A situação se tornou séria quando confrontei Margot, duas noites depois, sobre isso. Achei que se aproximasse da situação com calma e até bom humor, ela simplesmente iria me encarar, bufar e dizer que estava sendo outra vez; não era uma novidade tentar vilanizar Margot. Mas ao invés de revirar os olhos, ou ficar furiosa com as atitudes de , Margot empalideceu. Os olhos se desviaram para o chão, e ficaram por lá por um longo tempo. Foi quando soube que na verdade, estava certo — algo que ele não me deixa esquecer. Margot admitiu tudo, datas, encontros, sentimentos, como ela não queria me machucar e que não queria terminar mas estava apaixonada pelo outro cara; estranhamente, não me senti injuriado ou furioso, para ser honesto, me senti aliviado. É claro, ainda houve uma briga, ainda houve choro e pedidos de desculpas ignorados, mas por uma fração de segundos, ao fundo de minha mente, quase considerei agradecer ao amante de Margot por ter tirado aquele fardo pesado dos meus ombros.
Levanto-me do banco alto da bancada da cozinha, caminhando descalço até o lixo antes de descartar não apenas o limão que estava chupando, como igualmente as folhas estragadas do alface que Frey estava picando. O cheiro do molho bolonhesa que Rika estava fazendo é quase tão bom quanto o do nosso pai, o que me faz questionar se Rainer havia lhe passado a receita ou se ela simplesmente havia aprendido aquilo por simplesmente olhar; Rika tinha esse tipo de habilidade. Minha mãe chama de autodidata, eu, já estou inclinado a acreditar que não passava de mais uma grande comprovação de minha longa lista de evidências de que ela, na verdade, era um ET.
— Não, espera, um minuto, o do moicano não é o bonitinho que sempre aparecia aqui nos fins de semana quando ele estava no primeiro ano de faculdade? O bonitinho com sotaque cajun? — Rika acrescenta seus cinquenta centavos de ajuda, e fecho meus olhos negando com a cabeça. Puta merda, porque diabos voltei mesmo para casa neste aniversário? Ah, sim porque da última vez que havia escolhido passar um aniversário com os caras, minha mãe ficou extremamente ofendida por não ter arrastado e os outros juntos. Se o tivesse feito, tenho quase certeza que iriam adotar eles também, e a última coisa que preciso é que meus pais acrescentem mais pessoas nessa família. Já sou invisível o suficiente para começar a ser comparado com meus amigos também. Pisco por um segundo, voltando meu olhar na direção de Rika quando percebo a quem se refere.
? ‘Cê tá falando do ? — Minha voz soa um pouco mais alta do que o normal, mas é completamente devido ao tamanho do absurdo que acabei de ouvir. É um completo absurdo, impossível de ser aceito ou engolido, perceber que minha irmã mais nova está descrevendo como a porra de um cara bonito. Rika abre um sorriso, dando-me o dedo do meio, e levanto-me no mesmo segundo, pronto para correr atrás dela até que a ideia tenha sumido de sua cabeça. — Não. Definitivamente não. Nunca. Jamais. Para você ele é senhor , e ele é fora dos limites — a última coisa que preciso é que se envolva com uma das minhas irmãs. Aurora, esta desgraçada traiçoeira, abre um sorriso largo, os olhos brilhando como os de um gato que acabou de achar a melhor caixa para se entreter. O faz por ser contraditória, por querer sempre irritar e é boa nisso, igualmente o faz porque ela tem um maldito dedo podre sem comparações. Arranco o pano de prato do ombro de Frey, que resmunga um sonoro “ei”, e então arremesso à minha gêmea, mirando sua cabeça. — Você também, Rory, é sério. Não.
Diferente de Rika, que normalmente só falava sobre meus amigos para me irritar, Aurora, realmente tinha o costume de se envolver com as mesmas pessoas que eu. Tínhamos o mesmo tipo, tanto para mulheres quanto para homens, e estranhamente havia aquela pequena competição entre nós dois sobre quem conseguiria conquistar a pessoa — na maioria das vezes, era Aurora quem saia ganhando. Não gosto de relacionamentos casuais e certamente não sou o tipo que se diverte com uma noite, como Aurora faz; se me envolver com alguém, quero conhecer essa pessoa, quero olhar para sua alma e consumi-la até que seja uma parte incontestável de mim — não a toa, são raras as garotas que ficam. A diferença entre mim e Rory, todavia, é que Aurora tem uma péssima sorte para encontrar relacionamentos. De alguma forma, não faço ideia de como, Rory sempre consegue encontrar a pior pessoa possível para se relacionar, acaba com um coração partido todas vezes, e a beira da loucura. São inúmeras situações que questiono-me como ela não havia surtado ainda. Isso a impedia de se relacionar? Não, pelo contrário, mas nos colocava em um ciclo infinito onde continuava a assistir seu coração ser quebrado por filhos da puta que nunca, em milhões de anos, iriam merecer sequer a sujeira de seu sapato, quiçá seu coração. E definitivamente não era o tipo de cara para um relacionamento.
— Esse nome está banido nesta casa, a partir de hoje, amém — digo batendo com o punho da faca na tábua de cortar e então viro meu rosto na direção da tigela de vidro que Frey estava fazendo a salada. Solto um gemido, irritado. — Por que você tá colocando maçã na salada, cara?! Qual é o seu problema com maçãs?!
Na casa dos havia apenas duas regras: sempre haveria mais uma cadeira na mesa para quem quer que se interessasse em chegar, e nunca, absolutamente nunca, aceitar quando minha mãe se voluntariava para cozinhar — e ela fazia isso com mais frequência do que deveria. Você pode ter certeza de que seria um desastre e acabaríamos tendo que chamar os bombeiros para nos resgatar — ou com uma intoxicação alimentar que levaria semanas para ser curada, no melhor das hipóteses —, agora, questiono-me se essa regra deveria se estender a Frey também, porque simplesmente tudo o que ele fazia sempre acabava com um pedaço de maçã dentro. Solto um chiado entre dentes, negando com a cabeça, devolvendo a tábua de cortar para ele e então caminho em direção aos armários para procurar pela travessa de vidro que Rika iria precisar para fazer a lasanha antes que ela possa cobrar.
— Tá, mas o do moicano, qual é o nome dele então? — Aurora importuna, dando-me um tapa dolorido nas costas que tenho certeza, irá ficar vermelho com o formato da mão dela. Obriga-me a dar espaço para quando fica nas pontas dos pés para me entregar a travessa de vidro certa. Não a redonda, porque a redonda era dela para fazer sobremesas, e ela detestava que usássemos para fazer outra coisa se não doces ali porque dizia ficar com o gosto do sal; lanço um olhar cúmplice para Rika, considerando o quanto da lasanha conseguimos transferir mais tarde para a bendita travessa de vidro de Aurora, apenas para irritá-la. Coloco-me ao lado da minha irmã mais nova, focando em abrir os pacotes com as folhas de massa pronta de lasanha e organizá-las na travessa.
— Você não tem literalmente uma criança de seis anos para ficar de olho, cara? Que tal a gente só… encerrar esse assunto? Eu realmente gosto muito mais dessa ideia, vocês não? — tento barganhar, mas como sempre sou completamente ignorado pela minha gêmea. Rika bufa com um risinho irritante, despejando uma concha bem cheia de molho à bolonhesa sobre a massa, antes de me comandar com o olhar para passar o queijo mussarela picado por Frey, que está grotesco.
Shiu. Você ainda está em time out por causa daquela baboseira, e a Elo tá bem tranquila assistindo os desenhos dela com a Charlie — Tento não sorrir, porque isso não poderia estar mais longe da verdade. Estou ciente de que as duas garotinhas, uma de seis anos e a outra de quatro, poderiam estar fazendo tudo, menos assistindo desenhos na televisão ligada na sala; tenho quase certeza de que estavam explorando as maquiagens caras de Aurora de novo, especialmente porque vi pequenos vislumbres de pezinhos coloridos desaparecendo escada acima a dez minutos. Posso imaginar a destruição em massa que uma hora deve ter proporcionado para Da Vinci e Picasso no segundo andar da cobertura de Rika. Marcas como Dior, Yves Saint-Laurent e Channel destruídas e manchando as paredes.
Não será eu que vai entregar as meninas.
Charlie é filha de seis anos de Frey, com uma ex-namorada que acabou bem mal no ensino médio; Sarah era uma das filhas de George Lancaster, uma antiga família esnobe mas que ainda assim tinha os como amigos. As conexões entre nossos mundos nunca foram distantes e por tempo o suficiente convivemos uns com os outros sem preocupações maiores, mesmo que discordassem profundamente de certas posturas. Para os Lancasters a ideia de status era muito mais importante do que qualquer outra coisa, havia uma tentativa desesperada de escolher exatamente com quem se passava o tempo, e evitar que pessoas menos dignas de dinheiro — se que você me entende — acabasse entrando para família. A tipicidade esperada para uma família Old Money, que meus pais sempre desprezaram. Os poderiam ser muitas coisas, mas não éramos conservadores, sequer tínhamos uma religião em si, e tampouco gostamos de seguir os costumes antigos que outras famílias como as nossas faziam. Roubo um pouco de queijo da vasilha, esperando Rika terminar de praguejar enquanto organiza-o na travessa, apenas para levar mais um tapa — é incrível como sou o saco de pancadas deles. Sarah nunca gostou de nós, sei que detestava Aurora por sua habilidade de falar exatamente o que estava pensando sem pedir desculpas por isso; me tolerava porque sempre fui quieto, e gostava de Frey porque, bem, Frey era exatamente o tipo de cara que encantava multidões e oferecia pequenos respiros de rebeldia sem muito risco para jovens de classe alta passando por uma fase. Acontece que Sarah engravidou, e o caminho se tornou óbvio para Frey. Os dois se casaram antes que a barriga dela pudesse crescer, mas não duraram nem um ano depois do nascimento da menina. Sarah pediu o divórcio de supetão, renunciou os direitos legais da menina, e Frey se tornou, aos 19 anos, um pai solo, com uma carreira promissora na música e responsável por cuidar e educar uma criança que não estava pronto para ter.
A pior parte disso? Ele tá fazendo um puta de um trabalho bom. Pode ser frustrante vê-lo se tornar o músico que é, cantar para plateias lotadas, mas ainda mais irritante é saber que Frey não perde um evento na escola de Charlie, nem mesmo uma história de dormir. Seria de se esperar que a primeira coisa que Frey tivesse feito, após o divórcio com Sarah, era deixar a menina para nossa mãe criar — não que Amélia fosse detestar a ideia, na verdade, vive incentivando isso, já que adora ser mãe, mesmo que não tenha lá muito tempo para isso; seria nosso pai responsável pela vida diária da menina —, e seguir em frente, ou no mínimo saltar para um novo relacionamento apenas para se certificar que a menina fosse minimamente cuidada por alguém que não fosse ele mesmo. Mas Frey é apaixonado por ser pai. Não sei como ele faz, mas é foda para caralho, observá-lo dedicar-se a filha que não esperava ter, mas que agora tinha, não iria abandonar nem mesmo se um poder divino lhe comandasse.
Já Elowen está com Aurora há mais ou menos dois anos, quando Rory foi visitar um orfanato e praticamente se apaixonou pela garotinha. Meu pai tentou dissuadi-la da decisão, mas ele bem sabia o que era visitar um orfanato e sair com um filho de lá; com Rika havia sido assim, com Elowen não seria diferente, especialmente quando Aurora é bem mais próxima de nosso pai em temperamento do que os outros. Aurora herdou os traços de personalidade positivos de meu pai, eu, os negativos, era por isso que as coisas ganham uma conotação um tanto mais complexas comigo e com Rainer. Acho que fico com inveja dos dois, de certa forma, tem mais do que um motivo para voltar para casa; não que eu queira um filho. Céus sou novo demais para isso. Talvez em uns dez ou vinte anos, aí sim.
— Nome, anda, eu quero saber o nome para stalkear o idiota.
— O do moicano não se chama ? O francês? — Frey opinou, e Rika revirou os olhos.
De novo a menção de , considero arremessar um por um deles pela janela. Em comparação, sou mais atlético e mais forte que eles, o que poderia fazer? Me chantagear emocionalmente para não fazer isso? Bem… se fizessem, daria muito certo na verdade, é uma vergonha ter que admitir isso.
— Não esse é o gostosão de cabelo longo, Maël é o namoradinho daquela garota esquisita que a Rory não gosta, a que o quase apresentou pra família antes da Margot, e é o que cheira a amaciante de bebê — Quase solto um riso com o comentário, anotando mentalmente para usar com mais tarde. Solto um grunhido baixo, exasperado. Quando minha vida havia se tornado tópico de discussão? Tenho vontade de me jogar da janela, mas Aurora irá me arrastar de volta no segundo que tentar. Tudo o que farei é apenas ganhar mais um tapa dolorido na cabeça e um time out mais longo. Aurora retira o celular do bolso de sua calça de moletom pink com strass escrito: “Drama Queen” na parte traseira, a coisa mais horrenda que havia visto hoje, e então franze o cenho, compenetrada.
— Não acredito que vou ter que usar o perfil da Margot para descobrir com quem ela traiu você. Sério , isso é ridículo. Nunca fui com a cara dessa garota, mas você tinha que ir atrás dela não é? Ugh, porque você não pode ser igual a um jogador de futebol normal? Sabe? Trai as namoradas, não consegue ter um relacionamento sério, e tá ocupado demais suando para pensar em qualquer outra coisa na vida — Encaro o vazio à minha frente, e imagino-me, feliz, saltando no meio dos carros em movimento até ser atingido por um. Bem, pelo menos a situação não poderia ser mais humilhante, quer dizer, meus pais não haviam chegado ainda para presenciar o debate em questão, então já era alguma coisa. Frey solta um ruído inteligível, como o bom fofoqueiro que é, inclina-se na direção de Aurora para espiar sobre seu ombro. Acho que posso entender porque Sarah fugiu de nossa família, não é como se nós fossemos apegados a qualquer ideia de etiqueta. — Ainda não consigo acreditar que ela teve a coragem de fazer isso, sério! Já viu o rosto dela? Sinceramente você estava fazendo caridade, de novo!
Nego com a cabeça, exasperado. Pego das mãos de Rika a concha, porque ela claramente está colocando pouco molho na estrutura da lasanha, e se continuar assim, a massa nunca vai ficar cozida de fato. Rika cruza os braços caminhando em direção a Aurora também com o intuito de ver a imagem de minha ex, buscando por quaisquer informações sobre o cara com quem ela havia me traído. Pela quinta vez, hoje, me arrependo perdidamente por ter voltado para casa. Era tradição, o aniversário de casamento dos meus pais não era apenas uma comemoração somente para eles, como para a família inteira, nós costumávamos nos reunir para comemorar não importava o que acontecesse; aniversários, feriados e momentos especiais eram todos passados em família, obrigatoriamente. E como toda tradição na família , é levada muito a sério, mas a verdade é que se tivesse ficado em Paris, focado simplesmente em treinar com e , nada disso estaria acontecendo. Mas não, eu precisava volta para casa, para comemorar o aniversário de casamento dos meus pais como um completo imbecil, não precisava?
— Não fale assim, Rory! Cara que saco! — Praguejo exasperado, negando com a cabeça e quase derrubo a panela com o molho. Frey, me xingando entre dentes, empurra-me para o lado. Reviro os olhos quando ele toma da minha mão a maldita concha, e então, me limito a roubar mais um pouco de queijo ralado, jogando em minha boca. Limpo os dedos com o pano de prato ainda enroscado na cabeça de Aurora, antes de exalar, frustrado. Passo minha mão esquerda por meus cabelos, as unhas arranhando o couro cabeludo, impaciente. — As coisas já não estavam legais com Marge, e sinceramente, estamos na Universidade, não faço ideia do porque eu insisti em manter essa merda, mas acabou. E é isso aí. Não interessa como, não me importo. Podemos finalmente mudar de assunto agora, porra?
Você insistiu em continuar com esse relacionamento?
— Olha, para ser sincera, é bem a cara dele ter feito isso. não tem relacionamentos casuais, ele é o irmão carente, lembra? — Rika acusa com um sorrisinho e o fuzilo com o olhar. Pego o pano de prato enroscado na cabeça de Aurora e então jogo na direção da outra garota. Para minha frustração, minha irmã mais nova solta uma gargalhada gostosa, alta, desviando com facilidade da minha mira terrível antes de correr para a dispensa.
— Para sua informação eu tenho muitos relacionamentos casuais — retruco e Frey caí na gargalhada. Suspiro pesado, massageando a ponte do meu nariz. Desmoralizado tanto no meu grupo de amigos quanto por meus irmãos, é incrível como eu ainda não havia considerado desaparecer. — Só não sou de contar vantagem — minto.
— Por favor, a última coisa que quero saber é da sua vida sexual — Aurora resmunga com uma expressão de nojo e deixo um sorriso travesso e muito satisfeito comigo mesmo surgir por meus lábios.
— Ah, não, quer ouvir sobre esse truque com a corda… — Aurora me interrompe com mais um tapa na cabeça antes que possa continuar. Frey sorri me lançando um olhar quase impressionado. Dou de ombros, evitando encarar meu irmão mais velho. — Restrição é legal se você souber como fazer. E to falando sério, cara, se você enfiar maçã na porra da lasanha, eu vou te matar. Eu realmente vou te matar.
Frey me dá o dedo do meio, mas fico aliviado ao ver que ele colocou a cesta de frutas de Rainer de volta no lugar e não tem nenhuma maçã perto de suas mãos.
Empolero-me no mesmo banco que Aurora encontra-se sentada, usando meu quadril para empurrá-la mais para o lado e encontrar uma forma mais confortável de apoiar minha perna esquerda antes de alçar o meu próprio celular. Desbloqueio a tela apertando os lábios em uma linha rígida. Há algumas notificações de redes sociais que não faço questão de verificar, dois e-mails da universidade sobre as eletivas que ainda não escolhi, e pelo menos 120 mensagens no grupo dos caras, dos planos para essa noite, aos avisos do Treinador Lamar sendo repassados com memes idiotas — a maioria vem de —, e é claro, os planos para essa noite; a maioria das mensagens são atualizações idiotas de , que estava tirando o dia inteiro fotografias a cada segundo, contando o que estava fazendo. Acho que Maël ficou puto com , porque há pelo menos um scroll inteiro de “Maël retirou do grupo” e “ colocou no grupo” seguidos até enviar uma foto com a jaqueta de couro preferida de Maël. O assunto foi abruptamente interrompido por algumas perguntas dos outros membros do time questionando o que iríamos fazer nessa noite, já que os treinos voltariam mais intensos do que nunca após esse fim de semana. Então há inúmeras mensagens de tentando convencer a ir a algum tipo de festa em Bas-fonds. O pub era conhecido por fazer jus ao nome que levava, mas era divertido, pelo menos, assistir tentar a sorte com qualquer mulher bonita apenas para terminar com uma mancha vermelha no rosto e uma expressão de poucos amigos pelo resto da noite. Era uma concepção geral de que era um grande mulherengo — que de alguma forma, não conquistava as mulheres, era apenas escolhido por elas para um momento de descontração antes de ser deixado para trás.
Aurora apoia o queixo dela em meu ombro, o peso familiar é reconfortante apesar de tudo, encarando meu celular. Não faço questão de ocultar dela a tela, apenas verifico se algum idiota mandou uma foto do pau perguntando se estava boa ou se precisava tirar outra em uma luz melhor. Somos gêmeos, afinal, não há um mundo que eu conheça em que ela não esteja, e certamente não existe um mundo em que ela não esteja que queira estar. Sabe de todos os meus segredos desde que éramos pequenininhos; nunca quis esconder nada dela, ou tive motivos para o fazer. Somos dois corpos diferentes, compartilhando a mesma alma — temos até tatuagem, a dela é no pulso, a minha acima do coração, piegas, mas éramos adolescentes e sempre pareceu certo. Não digo nada quando ela vê as 40 chamadas perdidas de Margot em meu celular, apenas puxo para o lado a fim de limpar a barra de notificações. Há mais: notificações de mensagens nas minhas redes sociais, mensagens de voz, até a porra de um SMS e uma transferência bancaria de 0,50 com o pedido de Margot para conversar. Ignoro todas; não porque não queira vê-la ou por estar magoado com ela pela traição, só não quero conversar com ela sobre.
É uma dança familiar entre nós dois. Desde que havia me declarado durante uma apresentação idiota de Shakespeare durante as aulas de teatro de Aurora, nunca fomos o exemplo de estável. Era intenso, é claro, e ela sempre havia me deixado louco, mas igualmente as brigas eram intensas, os gritos e de alguma forma sempre era eu voltar me arrastando para ela. Implorando por desculpas, reconhecendo que havia cometido um grave erro quando na verdade não tinha culpa de nada; então fomos para a faculdade e acreditei que talvez fosse o momento em que finalmente iríamos amadurecer. Incrível que não foi esse o caso, não? As brigas ficaram mais frequentes, as demandas maiores, de repente Margot estava com ciúmes até mesmo de Avery, a assistente do treinador que tinha uma esposa e um filho em casa. Qualquer garota que se aproximasse de mim já era um motivo plausível para que ela automaticamente assumisse que a estava traindo — agora imagino que era apenas autoprojeção. Torna-se desgastante ter que ficar me explicando toda vez que estava com os caras ou mandando foto de onde estava quando não recebia nada em troca dela. A traição não é o problema; o problema é que ainda assim, uma parte de mim, considera voltar com ela. Talvez ela esteja certa, talvez eu tenha exagerado, quer dizer, não havia significado nada, certo? Ela estava sozinha, nós estávamos brigando direto, ela encontrou o consolo que precisava no momento de desespero. Se fosse um pouco melhor, se fosse um pouco mais como Aurora ou Frey talvez pudesse entender. Talvez tudo isso seja apenas meu ego entrando no caminho. Tínhamos uma história. O gosto amargo atinge a ponta da minha língua quando Aurora toma da minha mão o celular e desliga, virando a tela para baixo.
— Você é um idiota, — sussurra ao meu lado, parecendo realmente estar considerando me acertar com um soco, mas sua voz é doce e suave, daquele jeito que ficava quando ela estava agindo como Aurora, a garotinha que entrava na minha frente para me proteger de qualquer machucado que fizesse. A garotinha que me emprestava o coelhinho esfarrapado dela para me fazer dormir durante a noite. Olho para minha irmã gêmea; fico extremamente consciente do quanto amo essa garota. Não é apenas pela obrigação familiar, é o reconhecimento que ela possuí o mesmo sangue que o meu, que faria tudo por mim como eu faria por ela. Apenas a encaro-a, amando-a em silêncio, sem ousar imaginar o que seria de mim se ela não estivesse ali. Se não fosse minha gêmea. — Para de fingir que está tudo bem, não está! E por favor, para de pensar em voltar com essa idiota, é a seunda vez que ela faz isso…
Passo meu braço esquerdo sobre o ombro dela, esfregando seu braço esquerdo, mas não a encaro. Aurora pode me ler melhor do que a si mesma, se encará-la, irá enxergar a mim como um espelho.
— Não estou considerando voltar com ela — Mentir nunca soou tão desnecessário, é tão nítido que estou mentido que desisto no segundo que a primeira palavra deixa meus lábios. Sinto o olhar de Aurora, fixo em meu rosto, há uma ponta de julgamento ali, mas não do tipo agressivo que poderia me censurar. É o julgamento que ela oferece-me toda vez que faço algo estúpido conscientemente, aquele pesar de ver alguém que você ama tomando uma escolha errada, e a resignação de esperar até que tudo tenha explodido para ajudar a recuperar os pedaços estilhaçados que ficaram pelo caminho. — Rory, por favor, não começa…
— Você tá sim — Aurora murmura baixo, exasperada, antes de suspirar pesado, inclinando-se para frente no balcão. — E sabe como eu sei? Porque foi exatamente isso que você fez nas últimas seis vezes! — Contra fatos, não tenho argumentos. Repouso meu cotovelo direito dobrado sobre o balcão da cozinha e então enterro meu queixo em minha mão voltando a encará-la com uma ponta intensa de culpa. Ela está me julgando, mas há também aquela compreensão insuportável que é puramente Aurora, que sempre exibia quando realmente queria ajudar. Era teimosa, insuportável, desnecessária e um desastre em qualquer âmbito de sua vida que não fosse profissional ou parental, mas ainda assim, é a pessoa que mais tenta acertar as coisas. Não importa o que seja, Aurora nunca desistia, amo-a mais por isso.
Odeio-me por a fazer se preocupar comigo, não é assim que funcionamos. Ela é a impulsiva, a cabeça quente, o coração e a emoção que sempre pulsou dentro de nossa família e em nossa dinâmica; sou a sombra, o escudo que refreia o impacto e tenta ter certeza de que as merdas que ela faz não a destruam por completo — e sempre parecia estar a beira da autodestruição. Sou o responsável por ela, por protegê-la, por apoiá-la independentemente do que ela faça, não o contrário.
— Amo ela, Rory — sussurro baixo apenas para que minha gêmea escute. A confissão carrega mais peso do que deveria. Quer dizer, havia planejado um futuro com Margot, não? As viagens, a gente havia visto casas e potenciais lugares para se mudar quando a faculdade acabasse e as seletivas para o Arsenal tivessem sido completadas, talvez Manchester fosse um bom lugar, para além do time. Até cheguei a ir em uma ou outra joalheria para ver algum anel que pudesse agradá-la. Realmente achei que tinha encontrado a mulher da minha vida, a mulher com quem queria passar o resto da minha vida , não por obrigação, mas porque queria viver com ela. Agora já não sei mais o que deveria sentir. Uma parte de mim deseja simplesmente ceder aos pedidos de desculpas de Margot e voltar com ela como se nada tivesse acontecido; como se os dois últimos meses não tivessem sido mais nada do que apenas um pesadelo insuportável, mas nebuloso o suficiente para não me lembrar de nada. Já a outra estava aterrorizada pela possibilidade de retornar àquele mesmo ritmo: nós fazemos as pazes, tudo parece ótimo, ela começa a ficar estranha, discutimos, terminamos e então volto rastejando implorando por mais uma chance porque minha vida não parece fazer sentido sem Margot. Mesmo com todos os defeitos, mesmo com todos os problemas, mesmo com todas as falhas e erros, não quero querer mais ninguém. — Relacionamentos são complexos, a gente não cai fora na primeira chance que aparece… acho que amo ela o suficiente ainda para sei lá…
— Ama mesmo? Ou isso é só você com medo de ficar sozinho? — pontua e tento não revirar os olhos. Não quero admitir, mas as palavras doem mais do que deveriam. — Eu sei que eu tenho um dedo podre, mas você? , você nunca ficou solteiro na sua vida toda. Tem sempre uma garota, tem sempre um relacionamento. Você sequer sabe como é quando não tem ninguém?
Solto um riso nasalado, desdenhoso.
— Não é todo mundo que consegue ter a história de amor de Amélia e Rainer . Infelizmente, os filhos estão fadados ao fracasso de viver sempre à sombra da grande história de amor do casal — murmuro mais amargo do que deveria sentir-me, e Aurora me dá um soco dolorido no braço. Estou me ressentindo com algo que sequer deveria; era uma maravilha que meus pais fossem o ápice do que deveria ser um relacionamento, anos juntos, anos escolhendo um ao outro, mesmo com todos os defeitos, anos em que as brigas eram altas, mas que nunca tornavam-se justificativas, meros pontos a serem tratados e curados. Para meu pai não havia outra mulher se não minha mãe, e para minha mãe, havia apenas meu pai. Eles se amavam, e de alguma forma fazia dar certo, não apenas com os filhos que tinham, mas com o amadurecimento de seu próprio amor e perspectivas. Ter pais estáveis e maduros, que valorizavam um ao outro ao em vez de usarem-se como amar para se machucar, que genuinamente faziam de tudo um para o outro, havia estabelecido uma meta muito alta para qualquer um de nós acreditar realmente que terá algo parecido. Invejo-os por isso, porque fizeram parecer que valia tanto a pena amar que nos ensinaram a amar sem limites e precauções, a entregar nossos corações sem segundos pensamentos de cautela esquecendo-se que o que eles tinham era algo raro. Fizeram-nos acreditar que era possível, e não uma exceção. Faço uma careta, frustrado, mas não digo nada dessa vez. Para alguém do tamanho de Aurora, ela tinha uma mão pesada do caralho. E não tinha medo de usá-la. — O que você recomenda então, Cérebro?
Aurora revira os olhos, mas posso ver o canto de seus lábios se curvar para cima em um quase sorriso. Tento não rir e falho miseravelmente, aí estava, a prova viva que Aurora estava prestes a planejar a coisa mais estúpida que poderia competir diretamente com ; tenho a sensação de que serei o único a me ferrar.
— Pegar geral, Pink — ela pontua com uma piscadela, alçando meu celular outra vez, e desbloqueando com minha senha o aparelho sem dificuldade alguma. Vejo-a abrir a conversa com meus colegas de time e amigos. Estreito meus olhos, questionando-me se este é o momento certo para interrompê-la e avisá-la para parar de mexer no meu celular antes que ela visse alguma coisa que a traumatize pelo resto do mesmo, mas no fim ela apenas digita alguma coisa antes de devolver o aparelho para mim; concordou com as mais de dez mensagens de . Suspiro pesado, negando com a cabeça, mas não escondendo o sorriso que sinto crescer. Há uma sensação calorosa pulsando por meu peito, algo que sempre se segue quando Aurora é simplesmente Aurora. — Vai, se arruma, você vai para essa festa, nem que tenha que pagar a passagem de avião de volta. Agora, com licença, alguém precisa ajudar o Frey com a merda da lasanha que ele tá montando como a cara dele — acusa, lançando um olhar enviesado para Frey.
Frey, para seu mérito, retorna o olhar com uma expressão cínica.
— Tá ficando linda então — Frey diz. Encaro-o como se ele fosse um maluco, o que, de certa forma, era meio que requisito básico para receber o sobrenome .
— Vocês três são idiotas demais, honestamente — Rika, a voz da razão, retorna da dispensa carregando um pacote de batatas chips, e abrindo-a para esmagá-las com a mão. Vejo-a revirar os olhos, antes de colocar o pacote sobre o balcão. Alcanço-o para roubar um pouco, mas Rika, que segue os passos de Aurora como uma discípula dedicada, me acerta um tapa na orelha. O pacote, todavia, é roubado de volta por um Yule irritado, e com um amontoado terrível de maquiagem no rosto. Batom vermelho delineando os lábios de forma torta, quase fazendo-o parecer que tem o dobro de lábios, e eles são como os da Princesa Caroço de Hora de Aventura. Glitter de todas as cores possíveis se espalham por suas pálpebras e bochechas, e uma das meninas teve a brilhante ideia de colocar dois elásticos coloridos, um de cada lado da testa dele o fazendo parecer uma barata muito, muito irritada e com uma maquiagem horrível.
— Isso? É por ter deixado elas entrarem no meu quarto! — O garoto pragueja apontando acusadoramente na direção de Aurora e Frey, que congelam no ato de finalizar a lasanha. Encaram o mais novo com expressões que variam entre a surpresa e a exasperação parental, e uma necessidade de rir alto da bagunça que seu rosto se tornou como um bom irmão mais velho faria. Yule é o único de nossa família que possuí um quarto em todas as casas; quando visito Frey ou Rika, preciso dormir no sofá ou no quarto de hóspedes. Aurora praticamente divide a cama comigo, porque fazíamos isso quando éramos crianças, e o apartamento na Douais com e é o apartamento com e . Não contenho um sorriso, indicando com meu queixo na direção do garoto. Os risinhos de Elowen e os ruídos de Charlie tentando silenciá-la ecoam pelas escadas em direção a sala de estar com aquela inocência programada. Porra, como eu amo tanto elas… — Não se atreva,
— Rosa é totalmente sua cor, cara — Caí na gargalhada no segundo que o garoto me acerta na costela. Golpe baixo, mas era um sacrifício necessário. Rika solta um muxoxo ao ver o pacote de batatas roubado, e então, decide apenas retirar o sorvete do congelador, sentando-se ao meu lado. Oferece-me uma colher, por instinto, e então quebra o caramelo salgado que cobre a superfície do pote.
— A gente finalmente vai deixar o Teco em paz e se concentrar em terminar essa porcaria de jantar antes que a mãe e o pai retornem? — ela indica para a lasanha precária que Aurora segura, empurrando em direção ao forno ligado antes de revirar os olhos. — Sério, gente, porque tudo nessa família vira debate?
— Porque, tirando por mim, vocês não sabem fazer nada sozinhos! — Aurora retruca roubando da minha mão minha colher cheia de sorvete e comendo como se fosse dela. Solto um grunhido em protesto, mas antes que ela possa me dar outro soco, ergo as mãos em rendição.
— Aham, aham, a gente finge que é verdade, Rory — Frey acusou com um olhar retirando os potes sujos e a tábua de corte da bancada para colocar na pia. Tenho a terrível certeza de que eu serei o responsável por lavar a louça suja. Filho da puta, ele sabia exatamente o que estava fazendo. — Além disso, o Teco nunca fala o que tá acontecendo na vida dele, se a gente não ajudar agora, ele provavelmente vai fazer uma merda colossal da própria vida, como casar com a primeira coitada que aparecer no caminho dele!
— Tinha me ganhado no argumento, Frey, mas você tinha que endossar esse apelido ridículo, não é? — Acuso e Frey solta um gritinho indignado, apontando na direção de Rika, com um claro “ela que começou”, mas ignoro, saltando do banco e espreguiçando-me. Meus músculos estão travados pela viagem de avião até a Inglaterra, onde Rika estava morando por causa da universidade que começaria mês que vem. Londres era, igualmente, o lugar favorito de nossos pais; minha mãe era de SoHo, o bairro boêmio, e meu pai só precisava de uma desculpa para escapar de Oslo sempre que tinha chance. Depois de quase duas horas debatendo minha vida amorosa por um bando de idiotas que compartilham o DNA comigo, considero que meu turno está encerrado. Solto um suspiro satisfeito quando minhas juntas começam a estalar.
— Ah, eu acho um apelido muito bom — Aurora ressalta, dedo em riste, com uma careta, roubando mais uma colherada do sorvete; ela poderia fingir que não gostava, mas o sorrisinho preso no canto de sua boca lhe entrega com facilidade. Sei que minha outra metade estava com saudades de casa, e que usaria qualquer desculpa para aproveitar esse aniversário ao nosso lado. De todos nós, era a única com talento o suficiente e coragem o suficiente para mudar para outro continente para estudar na Julliard. Não posso negar que uma parte de mim, também estava desesperado para vê-la; mas agora que a vi, acho que posso sobreviver por mais seis meses sem ter que lidar com ela. Detesto quando ela está por perto, mas odeio ainda mais quando ela está longe.
— Cala boca, Tico, que eu ainda nem comecei a estudar psiquiatria e já tenho certeza que você tem sequelas demais para uma pessoa normal. Sem estabilidade emocional, sem opinião — Rika diz, roubando da colher de Aurora outra lascada de caramelo salgado. Aurora solta um grunhido fingindo surpresa. Solto uma gargalhada alta, sem ocultar que havia gostado do comentário; realmente, se eu iria ser chamado de Teco, que pelo menos Aurora fosse Tico. Sem negociações.
— E é por isso que a mamãe e o papai não te amam, Rika! — Aurora acusa, e Rika cai na gargalhada.
Ela joga o cabelo crespo, agora, cuidadosamente trançado em longas tranças finas, com fios coloridos de rosa choque para trás de seu ombro, e então, da maneira mais possível, vejo-a lançar uma piscadela para minha irmã gêmea com um sorrisinho insuportável. É inegável, Rika é nossa; sempre foi e sempre vai ser.
— Até parece! Eu sou a preferida deles, é comprovado! Eles me escolheram, vocês só foram os diagnósticos que eles tiveram que aceitar pelo caminho — Rika abre um sorriso largo, gargalhando, enquanto, eu, Frey e Aurora soltamos exclamações indignadas. Apesar disso, era um fato comum na família , àquela altura: ninguém ganhava uma discussão com Rika .

•••

— Então esse é o plano agora? — ecoa com uma nota nítida de descrença em seu tom de voz enquanto solta um arfar meio risonho, empurrando Maël para o lado. Ele chuta a bola de volta para o zagueiro do time, e Maël direciona-a para mim. Corro em direção a bola, para impedi-la de seguir em direção aos pés de Javier. — Você, , vai se tornar o garanhão da universidade? Olha, sinceramente, isso não é algo que eu estava imaginando que veria.
— Eu consigo ver — acrescenta, mais solícito do que deveria. Tenho vontade de acertá-lo com um tapa, mas se o fizer, vai apenas rir alto e me dar mais uma rasteira. — Norueguês, alto, com uma coisa de príncipe encantado, se ele se dedicar direito, vai ser insuportável.
— Aposto dez que a primeira garota que ele se envolver, ele vai se apaixonar — Maël, idiota que só, aposta, e dessa vez abaixo-me para pegar a bola de futebol. Com toda minha força, arremesso no desgraçado de sorriso torto e risada alta; erro miseravelmente quando a bola passa ao lado da cabeça dele, e acerta em cheio o rosto de Javier.
— Foi mal! — Grito erguendo a mão na direção de Javier, que arremessa a bola de volta com tanta força que quase desconfio que ele levou para o pessoal. Aponto de novo na direção de Maël com um aviso silencioso. — Se for fazer essa merda, eu quero metade do dinheiro.
— 20%.
— 60 e juros! — Maël solta um grunhido arrancando um punhado de grama do chão e jogando em minha direção. Acaba acertando , que permanece imóvel como se nada tivesse acontecido. Posso sentir o olhar do meu melhor amigo preso em meu rosto, julgando-me silenciosamente. Tento não rir, não porque sua expressão é divertida, mas porque é minha primeira reação. Sempre que estou em uma situação que deixa-me nervoso, a minha primeira reação é começar a rir como um belo idiota, antes de concentrar-me no problema em mãos. Aperto os cantos dos meus lábios, focando na bola. ajeita-a com uma embaixadinha, e então, toca em direção a mim; um toque rápido e deliberado. Corro um pouco para a direita para impedir que ela vá para longe, e chuto de volta, com um pouco mais de força.
A dor é imediata. Posso sentir a maneira com que os músculos em minha coxa se retêm, estendendo-se sobre meus ossos, a maneira com que meu joelho parece vacilar, e um pequeno tremor se instala onde o nervo foi pressionado. Trinco meus dentes com força, tentando conter um grunhido de dor, sentindo o olhar de Lamar voltar em minha direção. Paro por um momento, apoiando minhas mãos em meus quadris, chacoalhando minha perna, tentando aliviar não apenas a dor, mas a dor aguda e rápida que havia se apossado do membro. A frustração crescente. Estou a quase seis meses neste maldito limbo, talvez mais, e a sensação de que tenho é que não estou movendo-me para lugar algum — pior, parece que estou afundando-me outra vez. Exalo com força, obrigando-me a caminhar de volta na direção de onde estava esperando-me com uma expressão cínica, tentando disfarçar a preocupação crescente. Quero rosnar que estou bem, mas a culpa pela ideia de magoar meu melhor amigo é maior então apenas nego com a cabeça para ele, desconsiderando seu “tudo certo aí campeão?”. Sim, está tudo certo, tudo incrível nessa merda.
O olhar de pesa mais do que o de Lamar; de não consigo escapar.
— Não começa cara…
— Porque? Você saiu daqui numa merda de humor, aí você volta e de repente quer ser o garanhão deste campus. Agir como Margot nunca aconteceu. Além disso tá claro que essa porra ainda tá afetando você — resmunga cruzando os braços sobre o peito largo, negando com a cabeça. Lanço um olhar na direção dele, exasperado. — Se vai mentir, , pelo menos tenta fazer direito. Eu estou cansado de lidar com mentirosos. — Sua voz é amarga, o que me faz pausar por um momento e encará-lo em silêncio.
Há alguns meses atrás, algo aconteceu com . Algo que o fez desaparecer por uma semana inteira. e eu procuramos por todos os cantos de Paris, mas não havia pista alguma de onde ele poderia ter ido parar. Foi somente quando fomos atrás da irmã mais nova de que descobrimos uma pista de onde ele poderia estar. possuía duas irmãs mais novas, Brielle, uma adolescente irritante, mas que costumava deixar notas fofinhas nas nossas coisas toda vez que ia visitar em nosso apartamento. Falava muito sobre tópicos dos quais não tinha ideia sobre, mas lembrava-me vagamente de como Rika era quando tinha aquela idade, e então a mais próxima de nossa idade que era, para ser sincero, um completo mistério.
. Dois anos mais nova, e estudava na mesma universidade que nós, mas diferente de Brielle, nunca sequer pisou no mesmo prédio onde vivíamos, nem mesmo quando ficou três dias de cama, ou quando fizemos uma festa surpresa de aniversário para ele. , a garota de aparência frágil, quase quebradiça, do departamento de artes, que, aparentemente, era a única criatura legalmente autorizada pela reitoria para usar a Canon Profissional para ajudar o jornal com as fotografias. , a figura distante e de olhos tristes que se esgueirava pelos corredores como uma sombra, e que sempre estava por perto do campo para fotografar os jogos oficiais. A garota que nunca havia pedido para que sorrisse quando fotografa, ou que nunca reclamou as inúmeras vezes que teve que refazer a fotografias oficiais porque Maël não havia gostado de como seu cabelo havia ficado ou do ângulo da luz havia feito seu nariz parecer maior do que era. Acho que nunca sequer troquei mais de duas palavras com ela. tinha uma regra rígida sobre sua presença na universidade — muito porque tiveram a brilhante ideia de brincar, um dia, que a irmã de deveria ser durinha, já que era uma bailarina e surtou —, de que era fora dos limites para qualquer cara ali. , melancólica e silenciosa a quem sempre reclamou: “Como se ela estivesse se quebrando por tanto tempo que até mesmo respirar a faz se encolher de dor” e que mesmo assim estava no contato de emergência de . não falou nada, sequer foi cruel ou expulso para fora do estúdio de ballet da Universidade quando se distraiu observando os alongamentos das outras bailarinas, ela apenas suspirou pesado, murmurando que não sabia onde estava, mas que poderia pelo menos ajudar a começar a procurar por ele — não era uma novidade para ela os desaparecimentos de , só para nós. Anotou o endereço em um papel que ainda devo ter guardado em algum canto do meu quarto.
A letra tão pequena e curvilínea que era fofa — como um pouco da garota em si. O endereço levava a um chalé ao norte de Lyon, um antigo casarão da era renascentista que apenas mencionou uma vez de passagem como o lugar que a família dele frequentava nas férias. recusou-se a ir, disse que era o cenário ideal para um assassinato em série, mas como estava assutado demais com a ideia de , vulnerável, sequer ciente de que ele estava vivo ou morto, em pleno colapso do que segurança de fato, fui sozinho.
Encontrei em um estado lamentoso. Desidratado, deitado em uma poça de vômito e bebida alcoólica, chorando como uma criança. Pela maneira com que soluçava, acho que estava assim há bastante tempo. Já vi Frey chorar, já vi meu pai chorar, por Deus até mesmo eu já chorei por vezes na privacidade do banheiro ou no escuro enquanto Aurora me segurava em silêncio, esperando a tempestade passar. Mas nunca vi ninguém ficar no estado que ficou.
Não faço ideia do que aconteceu, ou porque ele ficou daquele jeito, mas não é o tipo de coisa que se cura com o tempo. Porra, não acho que sequer exista alguma cura a essa altura; algo aconteceu que mudou sua estrutura por completo, uma ferida tão profunda em sua alma que deve ter alterado a química de seu cérebro. Que havia virado do avesso abruptamente. Nós tínhamos nossos próprios métodos para lidar com nossas emoções, alguns nem tão saudáveis, mas ainda assim, quase três anos dividindo o mesmo apartamento devido à Universidade, nós acabamos aprendendo muito sobre um ao outro, sabíamos exatamente o que entrava por baixo de nossa pele, e o que atordoa, como também temos perfeita consciência de onde estava nosso limite — mesmo que tentasse ultrapassá-los às vezes. não me disse nada, não explicou e justificou; também não perguntei. Ajudei ele a se limpar, emprestei algumas roupas que tinha em minha mochila do treino, e dois dias depois, quando estava pronto para voltar à sociedade, o arrastei comigo de volta para o apartamento — o que não foi uma boa ideia porque apenas prolongou um pouco mais minha recuperação com a fisioterapia, rendeu-me pelo menos mais dois meses afastado do campo. Ainda estou tentando recuperar o estrago que, conscientemente, causei durante esse período. É por isso que meu joelho ainda parece sensível demais, errático, mas não me importo.
teria feito o mesmo por mim.
Tenciono a mandíbula, exalando pelo nariz.
— Não estou mentindo, , só acho estranho que você esteja inclinado a defender Margot e não a mim — reviro meus olhos, estou dizendo por falar, sei que não tem nada haver, mas a defensividade é quase impossível de evitar. — Sou seu amigo a mais tempo do que ela.
lança-me um olhar esquisito, por um momento os olhos se arregalam, e ele parece se tencionar como se estivesse prestes a avançar em direção ao meu pescoço, ou sair correndo, mas surge tão rápido e desaparece tão quanto, que por uma fração de segundos, acredito ter enxergado coisas. Movi a mandíbula, tentando conter uma careta, enquanto volto para minha posição. Indico com o queixo na direção de .
— Não é isso, irmão — murmura depois de um tempo em silêncio. — Só não parece algo que você faria. Você não é esse tipo…
Putain! — Oliver, um dos volantes do time, exclama abruptamente, chamando nossa atenção no mesmo segundo que a voz ecoa. O sotaque pesado do sul francês faz com que leve alguns minutos para compreender o palavrão. Ele indica com o queixo na direção dos nossos celulares no banco a pelo menos consideráveis metros de distância de onde estamos, e então corre em nossa direção estendendo o aparelho dele. e eu nos entreolhamos, para imediatamente de fazer embaixadinhas, mas não antes de passar o pé na frente de Maël e o fazer de cara no chão. Aglomeramo-nos ao redor de Oliver, sério, como sempre, contendo o riso, Maël cuspindo grama e eu, confuso. — Après Nuf postou coisa nova — faço uma careta no segundo que escuto o nome. Merda, que porra deve ser agora? Desde que entrei na faculdade, esse maldito podcast tem um costume de postar um episódio por dia com os mais baixos segredos revelados. Semestre passado, conseguiu expulsar um dos bolsistas após ser revelado o caso dele com um dos professores; o professor desapareceu, suspeita que simplesmente mudou de estado para lecionar em outra universidade, já que, considerando o prestígio dele, não demoraria muito para que o corpo docente ocultasse o que havia acontecido. Dois dos jogadores de basquete acabaram parando na Emergência depois de um episódio que revelou sua homoxesualidade, e tenho quase certeza que tem um cara de Publicidade que está obcecado em descobrir quem é a pessoa por trás do podcast, especialmente porque não há uma voz em si, apenas um ruído meio robótico anônimo que anuncia, com mais entusiasmo do que deveria, sobre o que é o episódio de hoje.
! — A voz robótica pulsa pelos alto-falantes do celular de Oliver.
Sinto quando o olhar de meus colegas de time e amigos se voltam para meu rosto. Tenciono a mandíbula com força, sentindo a tensão crescente apenas aumentar enquanto cruzo os braços sobre meu peito, preparando-me para quaisquer merda que sejam jogadas em minha direção. Considero o que diabos possa ter feito; não sou um santo, fiz muita merda ao longo desses três anos, mas a maioria não me levaria para a cadeia. Acordar no telhado do Departamento de Ciências Humanas sem camisa depois de uma festa, não era exagerado, só descuido. Reprovar em quatro matérias de uma vez depois do acidente, já era esperado. E bem, minha performance de Céline Dion é patética e meu espanhol ridículo, bem, isso era de se esperar. Quase posso sentir-me tranquilo, não tem absolutamente nada que possa ser dito que vá me fazer…
Me diz aí , agora que você se recuperou da queda que levou na última temporada, o machucado já deixou você pensar ou ainda é o mesmo lerdo de sempre? Já tá sabendo que a sua namorada… ou bem, sua ex-namorada ainda se diverte bastante com o seu melhor amigo? Não acredita? Dá uma olhadinha no vídeo aqui! — Tudo parece congelar. Não consigo respirar quando tomo o celular das mãos de Oliver, sentindo meus ouvidos de repente ficar abafados. Há inúmeras provocações que a voz faz, piadas as minhas custas sobre o quão cego ou o quão idiota sou por ter confiado cegamente. Há comentários que realmente acertam o ponto baixo em meu ego, colocando-me como um idiota em frente a todos da Universidade, mas não é isso que me prende no lugar ou no momento. À minha esquerda, posso sentir quando congela no lugar. Como ele para de respirar por uma fração de segundos, como não move um músculo sequer, os olhos arregalados, fixos em meu rosto.
Porque em minhas mãos, a imagem nítida e incontestável que tenho dele o incrimina com precisão; sinto-me estúpido por não ter enxergado isso antes, sinto-me idiota o suficiente para querer largar tudo e voltar para casa, mesmo que vá apenas piorar a situação se fugir. Sinto-me estúpido por ter confiado nele. Ao em vez disso, apenas fico parado no lugar, amortecido, assistindo o vídeo em que beija uma Margot seminua como se não houvesse amanhã. Como se nunca tivesse existido ninguém.
Como se nossa amizade não tivesse sido nada. E porventura, talvez nunca tenha sido mesmo.


Continua...


Nota da autora: - minhas considerações finais meritíssimo? Eu não me arrependo de nada 🖕😔🖕 (dúvido que tu tenha lido, Val, mas fica aí, minha contribuição com sua psicóloga).


☀️


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