0%
Topo ↑
Longfic

Golden Boys

por

Tamanho da fonte

PARTE UM • BROTHERHOOD
PARTE UM • BROTHERHOOD


“Se desejo quer consumir, o amor quer possuir. Enquanto a realização do desejo coincide com a aniquilação de seu objeto, o amor cresce com a aquisição deste e se realiza na sua durabilidade. Se o desejo se autodestrói, o amor se autoperpetua”.


BAUMAN, Z. Amor Líquido: A Fragilidade dos Laços Humanos.

________________________________________
00


“Tentei de novo me curar da dor da solidão,
E me perdi pelos atalhos do meu coração”

ATALHOS.



MESES ANTES


ESTÁ ME ESPERANDO DO LADO DE FORA DO RESTAURANTE, para minha surpresa. O celular em mãos, os nós dos dedos esbranquiçados com tamanha força impunha no objeto, a mandíbula trincada, revelava um pequeno músculo ali, explicitando sua tentativa de controlar-se — suspeito que esteja falhando. Sei que ele está me ligando; desliguei meu celular por causa disso. Sei que quando eu o ligasse novamente teria pelo menos umas vinte ligações consecutivas dele. é assim, não aceita não, ao menos, não quando se tratava de mim. Sei também que cancelar aquilo iria ser minha pior ideia, então apenas certifiquei-me de que, se vou ser torturada pelo resto da noite, obrigada a sentar em uma mesa e observar a família perfeita de fora, como sempre acontecia, então terei ao menos uma pequena compaixão comigo mesma ao deliberar ao máximo que conseguisse tal desolada situação. Certifiquei-me de escolher o caminho mais longo, peguei o ônibus e caminhei pelo resto do trajeto até o lugar. Não posso faltar, mas iria protelar o máximo que conseguisse. Já é uma grande surpresa para mim que estivessem fazendo tamanha questão de minha presença em um de seus jantares elegantes em restaurantes de cinco estrelas — especialmente quando sequer lembravam-se de mim em datas comemorativas em geral —, então não é atoa que estou estupefata com o fato de que está sentindo minha falta ali. Que todos devem estar me esperando.
Teria rido, se pudesse. Tamanha irônia, no fim, é apenas amarga, quase vazia. Deprimente. Não é uma surpresa para ninguém de minha família que minha presença fosse tão imperceptível que não fosse sequer sentida; é devido a isso que havia parado de fazer aquilo. Quando completei idade o suficiente para conseguir escapar do grande casarão dos s, o fiz como se tivesse acabado de receber minha liberação após anos pagando por um crime do qual não lembrava-me de ter cometido, mas cuja sentença, cruel e precisa, nunca havia deixado de pairar sob minha cabeça. Minha família não se importou — não perceberam até cinco meses terem passado. Então, tornei-me a filha ingrata, a ovelha negra que escapara das garras de Étienne, que agora ousava renegar a família como uma cruel e abusiva parasita que usufruía apenas do melhor para então culpá-los por tudo. Uma garota mimada, insensível e vil. Posso conviver com isso; posso conviver com a ideia de que as pessoas rejeitam-me, e que não há ninguém neste mundo esperando por mim. Posso aceitar que, embora acredite piamente no amor, a ele, sou tão repulsiva quanto o óleo para a água. Para mim, a situação era mais simples: se não fazia diferença em um lugar, porque diabos iria permanecer ali? Mas isso nunca havia importado de qualquer forma. Normalmente, o caminho levaria duas horas e alguns minutos entre os dormitórios no campus norte, até Clair De Lune — um restaurante chique que Celeste adorava frequentar pelo ambiente requintado e a severidade com que aceitavam seus clientes —, fiz em três horas naquele dia. Acabei chegando ao restaurante com uma hora de atraso, mas para mim? Parece muito pouco.
, é claro, está furioso. Bochechas coradas, olhos vidrados, movendo-se pelos carros nas ruas com impaciência típica de quem estava muito perto de explodir — que irônico ele acreditar que Étienne poderia ter me dado um carro. Nosso pai havia sempre sido bem claro com relação aos filhos dele: e Brielle ganhavam tudo o que desejavam, o privilégio, o carinho, a atenção e o afeto paterno. Estava vestido com um terno elegante esta noite, alfaiataria sob medida, feito para ele, tecido caro, macio e que, evidentemente, deveria ter sido apenas mais um dos inúmeros presentes de Étienne para seu garoto de ouro.
Era estranho, mas Étienne e eram muito parecidos quando se vestiam daquela forma.
Quando era pequena, costumava a questionar-me como deveria ser a sensação. Acho que cheguei a me ressentir por um breve período de tempo, questionando porque Brielle e recebiam tudo, e porque para Étienne sequer era uma sombra no canto das salas, uma mancha inesperada e nojenta a qual ele estava sempre determinado a apagar. Que o enjoava com tamanha intensidade que o tornava vil e cruel sempre que direcionava seu olhar para mim.
Étienne me contou, a voz fria e distante, indiferente a pequena alma que destruía. Indiferente às lágrimas que com tamanha força lutava para não deixar cair. era seu orgulho, seu filho brilhante e o homem que Étienne sempre havia desejado se tornar; seria melhor. Brielle era sua princesinha, a filha doce e meiga que viera como um bálsamo para o casamento em frangalhos de Étienne e Celeste, a certeza de que haviam feito algo certo em forma de garotinha, voz suave, jeito de princesa que demandava igual ou mais atenção de todos. Brielle tinha Étienne na palma de sua mão, e, assim como Celeste, não hesitava em usá-lo para o que bem queria; bolsas de grife, viagens caras, e Étienne? A ela só não lhe entregava a lua ainda porque não soubera como trazê-la para cá. Questionei então quem eu era para ele, e de forma indiferente, quase divertida como se tivesse acabado de lhe perguntar algo absurdo em sua obviedade, disse simplesmente: “apenas o lembrete das falhas de sua mãe” . Não me chamou de filha, não me disse que amava — nunca o fez, e havia desistido de esperar por tais palavras a um bom tempo já. Então, levantou-se com a graça de um rei, e não me disse mais nada. Depois disso, ao menos, ele havia parado de tentar fingir ser meu pai. Tornou-se apenas o familiar carrasco, corrigindo-me e criticando-me de forma afiada, como um treinador com seu cão. Parei de respondê-lo durante essa época; tentar ganhar a atenção que não me era oferecida era apenas aprofundar uma ferida continuamente aberta que, não mais possuía sentido.
Foi somente dois anos depois que entendi suas palavras realmente. Era natal, e, enquanto a família inteira aproveitava a manhã para abrir os presentes, fui deixada para minha própria companhia com o rosnado furioso de Étienne, que ficara muito desapontado, embora não surpreso, quando descobriu que havia me desleixado em minhas notas e tirado apenas 90% nos testes finais ao em vez de 100% — , todavia, ainda ganhara seu computador tão desejado mesmo tendo tirado 62% de média final, acho que ele só não me queria por perto aquele dia —, vaguei por horas no sótão, distraindo-me com roupas antigas, e discos de vinil bem cuidados de nosso avô, quando encontrei um dos diários antigos de minha mãe.
Minha mãe havia traído Étienne com seu melhor amigo, Armand, mais ou menos durante a época de meu nascimento. Não era preciso muito para concluir o que Étienne provavelmente havia concluído. Dos três filhos que ele tinha, era muito provável que eu fosse a única que não possuía seu sangue. Por isso a indiferença com que me tratava, por isso a crueldade velada e a distância gélida.
Nunca revelei que sabia para Celeste. Não fiz perguntas, pois sabia que não receberia as respostas. Em um silêncio sepulcral, apeguei-me, sozinha, à possibilidade de investigar um pouco mais a fundo quem poderia de fato ser meu pai. Se eu o encontrasse, e lhe contasse toda a história, talvez, porventura, ele pudesse me aceitar, talvez pudesse oferecer-me um espaço ao seu lado e eu pudesse deixar para trás o inferno daquele museu pessoal de Étienne para ao menos começar a entender o que poderia significar não ser uma sombra, apenas uma pessoa qualquer. Era jovem e estúpida, ainda tinha esperanças. Armand Dumas era um homem de olhos intensos, sorriso marcante, e uma postura imponente, não era frio como Étienne, que sempre havia se parecido em demasia com uma estátua de mármore, observando a todos de cima de seu pedestal, julgando-os severamente.
Quando completei quinze anos, movida pelo desespero e solidão, decidi arriscar; matei aula para ir atrás de Armand e confrontá-lo. Para ser sincera, era apenas uma criança, desesperada por um pouco de atenção, desesperada por uma palavra gentil que pudesse acalentar o vazio existencial que consumira meu espírito por completo. Não tinha plano. Não tinha provas, apenas as páginas dos diários de Celeste e uma vã esperança que não tardou a morrer rapidamente. Não passei da porta. Armand Dumas não se importava comigo. Ele não se importava com a possibilidade de ter tido algum filho com Celeste, embora admitisse sem pudor algum que foram inúmeras vezes descuidados para que a possibilidade não fosse assim tão impensável. Não desejava um herdeiro, já o tinha com a própria esposa, e mesmo se o tivesse com Celeste, teria feito-se de cego e indiferente convenientemente.
Foi quando entendi, com clareza de detalhes, que estava completamente sozinha. Ninguém me queria. Como poderiam? Passei a me questionar o que deveria haver de tão errado comigo. O que estava assim tão quebrando dentro de mim que a todos repudiavam? Concluí que a traição de minha mãe havia me tornado impossível de ser amada. Resignei-me a tão conclusão, o que mais poderia fazer? Jamais poderia mudar quem de fato sou, restava-me apenas aceitar a situação como ela é, por mais amarga que fosse. Depois disso passei a observar de longe, mais como uma espectadora do que uma presença na família — não sei se Étienne ou Celeste perceberam ou não, mas certamente notaram a mudança, porque as coisas se acalmaram em casa. Étienne até mesmo iria oferecer pequenos elogios que não faziam mais a menor diferença. Tornei-me uma espectadora de sua família, com a completa ciência de que não possuía um lugar ali para mim; aceitei-o com graça. Passei a não esperar mais pelo reconhecimento de meu pai, ou o afeto de minha mãe, não questionei-me mais sobre como deveria ser a sensação ao assistir receber o carinho e o orgulho de Étienne. Acho que foi nesse momento que sucumbi a depressão e tornei-me suicida.
Não daquele tipo que realmente faz alguma coisa, tornei-me o pior, pois sou covarde demais: tornei-me aquele tipo de pessoa que assiste os carros na rua, esperando o momento certo para atravessar, mas que, em seu íntimo, implora silenciosamente para que um deles dê um problema no freio e não pare. Tornei-me a pessoa que observa a faca com desesperado saudosismo quase de uma amante; que mal haveria se, acidentalmente, escorregasse com uma em mãos? Era um inferno pessoal a qual habituei-me a viver. Nunca disse nada a ninguém, porque o faria? Esperava encontrar uma família por escolha na escola, mas as pessoas admiravam demais para que fossem minhas amigas, mesmo Margot havia se aproximado de mim por causa de seu interesse por .
Péssima ideia pensar em Margot agora. Chacoalho a cabeça, desalinhando um pouco mais meus cabelos. Estavam cuidadosamente feitos em um penteado meio preso, os cachos pesados definidos, pendendo por meus ombros, enquanto algumas mechas rebeldes adornavam meu rosto. Foi Sophia que fez o penteado, minha nova colega de quarto havia se dado ao trabalho de passar duas horas tentando me ajudar com meus cabelos, e quando conseguiu, perguntou-me com que roupa diabos eu iria para este restaurante se era um dos mais elegantes e requisitados de Paris. Disse a ela que usaria um vestido velho que meu avô havia me presenteado, um verde escuro, que havia usado em seu funeral como um tributo silencioso — e que meus pais odiavam ver-me nele. Sophia suspirou, aqueles olhos castanhos intensos como chocolate suavizaram ao encarar-me e então, de seu baú ao pé da cama, retirou um vestido de cetim azul claro, com um xale igual.
Sophia era uma garota linda, com seios fartos e cintura fina, o tipo de corpo que eu adoraria ter — continuar usando sutiãs de tamanho médio quando quase todas as mulheres ao meu redor usavam maiores, fazia-me sentir estranhamente como uma adolescente. Seu vestido, embora coubesse em mim, havia ficado terrivelmente largo ao redor do busto, e extremamente apertado ao redor dos quadris. Apontamos o quanto o tecido havia permitido fazer, mas ainda assim, estava estranhamente folgado, o suficiente para me fazer tensionar a cada mísero movimento considerando se iriam cair completamente de meu corpo e humilhar-me na frente de meus pais, ou se sobreviveria a noite. Era o contraste perfeito para assegurar meu pai de suas opiniões sobre mim; é elegante, inteligente, seguro e confiante. O filho perfeito. O cara perfeito. Então, havia eu. Que possuía a mesma coloração de Celeste, que possuía a mesma aparência que ela, com exceção dos olhos, e que deveria ser o que é; e não poderia estar mais longe disso. Nunca vou ser como , e isso me frustrava. Porque eu nunca teria aquilo, teria? A admiração de Étienne, ou o respeito que naturalmente parecia conquistar com um sorriso torto e um olhar intenso. Ficaria feliz em ser invisível ali, com eles. Ficaria feliz em ser esquecida, mas de alguma forma, mesmo que não fosse o suficiente em nenhum dos padrões deles, eles não esquecem. Porque para os s não havia nada mais importante do que o sangue.
Tinha o mesmo sobrenome, mas uma vida diferente, propósitos e pesadelos diferentes, ainda assim parte do meu sangue ainda era de Celeste e para Étienne, isso bastava. Bastava para me conferir a sorte de ser uma filha bastarda e um lembrete severo para Celeste de suas falhas e transgressões. Ele usava-me para punir ela, e punia-me pela minha própria existência. Por vezes, questiono-me se ele na verdade não gostava da sensação de sentimento de justiça própria que oferecia-lhe o direito de vingar-se pela traição percebida.
viu-me algum tempo depois de ter chegado ao restaurante. Os olhos se estreitaram, movendo-se cuidadosamente pela rua, em busca de meu rosto, as faces tingidas pelo desdém que ele reservava somente a mim — não sei se ele sabe a verdade sobre o porque seu pai é tão cruel comigo, ou porque nossa mãe me trata como se eu fosse apenas um pensamento secundário, mas tenho certeza de que ele entende, e talvez goste da sensação de ser o filho preferido. Seu desdém ensaiado não era uma máscara para ocultar suas emoções, era um colete de espinhos programado para machucar qualquer um que chegasse perto. era um excelente irmão para Brielle, carinhoso e atencioso, mas para mim, era a cópia de Étienne. As mesmas cobranças, em tons diferentes, como se fosse apenas um problema em sua vida. Aperto meus lábios sem conseguir conter o impulso. Se sou tamanho problema para eles, porque ainda me arrastam para incluir-me naquele teatro?
A resposta é simples, quase óbvia: não incluir-me geraria perguntas, e eles teriam que admitir o quão crueis eram por tratar um de seus “filhos” com tamanha indiferença. E mais do que a crueldade, eles valorizam demais o próprio nome para querer que tal atenção recaía sobre eles. Se alguém precisava ser o vilão daquela história, seria eu. Uma parte de minha mente entra em estado de alerta no segundo que o olhar de repousa em mim, espero pelas palavras crueis e pelos gritos de inadequação. Espero pelas acusações e pelos comentários enviesados, mas pela primeira vez, em todos esses anos que nos conhecemos, não os recebi. era bom em reconhecer erros. Abaixou lentamente o celular, os olhos estreitando-se um pouco mais, indo em direção ao aparelho em minha mão esquerda, e então se fixar em meu rosto, antes de soltar um pequeno estalo com sua língua em desaprovação. Deve ter entendido que estou propositalmente evitando suas chamadas, que escolhi andar até o restaurante, mesmo usando saltos que vão causar bolhas em meus pés amanhã.
— Atrasada — apontou, passando a mão esquerda por seus cabelos lisos e elegantes, escuros como a noite. Estavam um pouco maiores do que o normal, enrolando-se um pouco para dentro de suas orelhas, desalinhados pelo vento que soprava ao nosso redor, fazendo suas bochechas e nariz ficarem coradas. O contraste preto e branco de seu terno e sua pele lhe deixavam estranhamente mais misterioso do que de fato era, como se sua competência não se restringisse somente aos campos e ao ambiente atlético, mas como se fosse um homem completo. Exatamente como Étienne. Sinto o gosto amargo da bile inundar minha língua, o peso em meu estômago o faz se contorcer, mas engulo em seco, apenas encarando-o em silêncio ponderando o que poderia dizer que de fato fosse fazer alguma diferença. Poderia tentar me justificar, implorar por sua compreensão, mas havia feito aquela dança demais com nossos pais para saber que tentar replicá-la com seria uma perda de tempo, ou poderia dizer algo amargo, afiado e verdadeiro que lhe atacasse o ego. Poderia dizer-lhe exatamente o que desejava, e começar uma briga. Se começasse uma briga, ao menos teria a desculpa de ser enviada de volta para os dormitórios. Ninguém iria me incomodar pelos próximos três meses inteiros. Mas se havia aprendido algo com eles, era que sua melhor escolha sempre seria ficar apenas em silêncio. É o que faço.
Mas não quer isso de mim. Quando volto a caminhar para entrar no restaurante de uma vez, sinto-o segurar meu braço, e a sua maneira, empurrar para trás. Poderia tê-lo impedido, mas não queria. Sabia que me custaria se caso tentasse, e estava cansada demais para me sentir tentada a iniciar uma briga que tinha certeza que não ganharia. Não era que eu não soubesse me defender contra os ataques, é que, haviam sido tantos que simplesmente cansei de lutar por uma causa perdida. Às vezes, a melhor coisa que você pode fazer por si mesmo é apenas aceitar que não há mais nada pelo que lutar e assistir a outra pessoa se desfazer em sua própria frustração.
— Está drogada?
— Não — mentir nunca havia sido mais fácil. O sorriso, o queixo erguido, a confiança nas palavras e o olhar fixo no dele era convincente o bastante. A verdade era que havia tomado mais Lexapro do que deveria. Mas não o suficiente que iria me fazer ter uma overdose tão desejada.
— Corta a baboseira — havia sido ríspido, mas seu olhar o traiu. Estava hesitante, as sobrancelhas unidas, buscando alguma coisa em meu rosto que pudesse oferecer a ele as respostas que desejava encontrar. Deve tê-las encontrado porque seu semblante esclarecesse um pouco mais. Vejo-o contrair o lábio inferior, a maneira com que a mandíbula se tenciona um pouco mais e uma ruga surge em seu cenho perfeito. Sinto o riso borbulhar pela minha garganta, assim como a pressão das lágrimas ao fundo de meus olhos, mas mais do que isso, percebi, somente agora, que fazem exatos sete meses que ninguém havia me abraçado. — Olha, eu não me importo com o que você faz ou deixa de fazer,
, sorri. Porque ele sempre sorria quando estava magoado ou quando conseguia atingir um ponto de fragilidade meu. Para mim, o apelido era uma lembrança de tudo o que desejava esquecer, de tudo o que sempre quis e que era usado como uma arma para me manipular. Mas para ele, era um aviso. Não importava o quanto tentasse fingir ou fugir do passado, não poderia, porque todos ao meu redor faziam questão de lembrar-me. Era como ser uma prisioneira, e desejar pela ideia de não saber que o era, apenas pelo alívio do desalento que se formava, quando você sabia que estaria, para sempre, condenada. — Prefiro que me chame de , só isso.
— Vou esclarecer uma coisa para você, , hoje você atende pelo apelido, ok? Se existe uma mísera possibilidade de algo dar errado essa noite, é por sua culpa, então você vai fazer exatamente o que eu disser, entendeu? — rosna com uma autoridade que espelha Étienne, e sinto o impulso desesperado de puxar meu braço para longe de seu toque. Odiava quando ele se tornava aquela pessoa, e odiava ainda mais a mim, por ter me dado ao luxo de comparecer a minha própria torutra de tão bom grado. Outras pessoas teriam lutado mais para ignorá-los, teriam encontrado desculpas, como posso fazer isso comigo quando sei o resultado? E todavia, aquela parte insuportável de meu cérebro, carente e desesperada, parecia apegar-se a consciência de que, se ainda machucada tivesse pessoas ao meu redor, era melhor do que ficar sozinha. Não importa o quanto tente me convencer de que amo minha solidão, a verdade é que é solitário demais.
Desvio meu olhar para a rua, apertando os lábios, e tomando cuidado para não começar a chorar logo agora. Quero pelo menos dar alguns minutos até me permitir-me sentir a primeira lágrima cair. Sei o que ouviria quando acontecesse: “dramática demais” ou “está exagerando” , e sabia que não haveria consolo depois disso. As pessoas gritavam tanto que era dramática, que exagerava as situações para proporções imagináveis apenas pelo desespero de ter a atenção de alguém, que, para ser sincera, acho que realmente tem razão. Não pode ser mentira, pode? Quer dizer, quando uma pessoa lhe diz algo ruim sobre você, você compreende que essa pessoa possa estar equivocada em suas suposições, mas quando muitas pessoas repetem a mesma coisa para você, como você poderia dizer que estão erradas? Mais de uma ocorrência é padrão…
— Ele já está aí, caso queira saber — quando voltou a falar, desta vez, sua voz era mais baixa, cautelosa e até mesmo gentil, reconhecia-a de quando éramos crianças. O aviso, quase silencioso, não deveria fazer minhas mãos tremerem ou minha mente repetir em loop para que saísse correndo dali o quanto antes. Deveria ser apenas um alerta normal, algo que estava esperando receber. Sinto-me como um maldito cordeiro, encurralado pelos fazendeiros, arrastado para o abate não importa o quão forte tente fincar minhas patas na terra. Desfaz-se como areia por meus dedos. Um tremor involuntário percorre meu corpo, e sinto quando minha garganta se contraí, algo em meu peito parece dolorido, como se estivesse em carne viva. — Se serve de consolo, eu também acho que isso é estupidez.
São esses pequenos momentos que machucam mais. Volto a encarar e sinto meus olhos se embaçar, seu rosto fica distorcido enquanto pisco para longe as lágrimas que marejam meus olhos. É agridoce, o entendimento, a possibilidade do que nós poderíamos ter sido se nossos pais não tivessem se colocado no meio. É claro, ainda tem Brielle como irmã mais nova, ele sabe o que é ser um irmão mais velho, mas eu nunca irei entender essa conexão. Tento forçar um sorriso mas sinto como se meu rosto estivesse emplastificado, como se a mera tentativa fosse tão artificial que se estendia por meu rosto como uma máscara de polipropileno alterando os músculos de meu rosto. Era de se esperar que veremos aquela situação sob a mesma perspectiva; nós crescemos juntos, fomos criados na mesma casa, embora não pelas mesmas pessoas. Mas naquela altura, já éramos velhos demais o suficiente para compreender que, mesmo que houvesse concordância entre nós, as perspectivas estavam em pólos diferentes demais para encontrar um ponto de trégua. Uma parte de minha mente, mísera e frustrante, gostava de pensar que isso era alguma forma de reconhecimento. Uma validação. Não há coisa mais perigosa do que isso para nós dois.
— Poderia ser pior — sussurro com uma voz fina e quebradiça. franze o cenho, mas não diz nada. Posso ver que há uma ponta de pesar em seu olhar, mas aparece e some tão rápido que tenho quase certeza de que estava imaginando coisas. Engoli em seco, esperando que ele me soltasse para então segui-lo para dentro do restaurante.

•••

Étienne e Celeste formam o tipo de casal que as pessoas costumam querer ser. Lógico, por trás da aparência impecável que era refletida nas fotografias e câmeras que fazia todos acharem mesmo que eles eram perfeitos, havia inúmeros defeitos. O tipo de casamento tradicional que se esperava de pessoas com os status deles. Celeste sempre havia sido muito bonita, uma socialite elegante e de olhar aguçado, sensual o suficiente para poder ter sido uma modelo da Victoria’s Secret, mas elegante demais para se expor por aí apenas de calcinha e sutiã. Os cabelos eram tão cacheados quanto os meus, mas havia um certo cuidado a mais que os deixavam parecendo como minimamente projetados, como se seu penteado não fosse uma mera influência dos caracois, mas sim, ela tivesse planejado-os para parecerem daquela forma. Usava maquiagens suaves, discretas que sempre destacavam seus olhos ou lábios, e suas roupas eram sempre elegantes. Estava deslumbrante com um vestido vermelho escuro, acentuando suas curvas, de seda e cetim, as mangas finas adornavam seus ombros esbeltos, expondo um decote em V que em qualquer outra pessoa teria parecido impróprio mas nela, parecia apenas uma escolha ousada para exibir o colar de diamantes que Étienne deveria ter lhe dado de presente recentemente.
Brielle por sua vez, sentada ao lado de Étienne era uma visão delicada de perfeição; parecia-se com uma boneca de porcelana, os cabelos lisos, como os de , estavam cuidadosamente cortados em um penteado jovem e elegante, as franjas adornando seu rostinho enojado e entediado. Os olhos grandes e expressivos fixam-se em mim, e percebo de imediato o humor; está comparando nossas roupas, e concluindo rapidamente que as delas são melhores. Era algo a qual já havia me acostumado, a competição invisível que Étienne havia instalado sobre nossas cabeças, que, de certa forma, afagava ambos os egos, com exceção do meu. Tenho vontade de rir, um riso desolado e desconsolado que teria feito alguém olhar-me com pena, mas mais do que estar na presença de minha família, odiava a ideia de que se sentissem com pena de mim. Não quero ser vista como uma pobre coitada, não sou, sou mais que isso, então faço o que sempre fiz, suporto a mágoa e a dor em silêncio.
Sento-me de frente para Celeste, a fim de evitar a atenção de Étienne que está observando o vestido que Sophia havia me emprestado com tamanha gentileza, os olhos afiados encontrando os pequenos pontos que demos para fazê-lo mais justo ao meu corpo — pela segurança de não deixá-lo deslizar por meu tronco —, e pela maneira com que a cor parece empalidecer minha pele, como se estivesse doente, e não adequada para o espaço. Posso ver a torção exasperada no canto de seus lábios, posso ver a pequena curvatura de desprezo e nojo que surge por seu nariz, os olhos frios estreitando-se. Quero perguntar como consegui aquelas roupas, a quem devo ter recorrido, mas não o faz. Questionar-me seria dizer que se importava, e ele não poderia dar tamanha falsa impressão. Agradeço com um gesto discreto, quando , sempre o cavalheiro, puxa a cadeira para mim — uma performance perfeita que mantém seu título como garoto de ouro de Étienne — e então senta-se ao meu lado. Um grande bloco de músculos em preto e branco que, pela primeira vez, serve-me de consolo, quase alívio por bloquear o sorrisinho presunçoso de Brielle. A garota não era assim tão cruel, apenas mimada o suficiente para querer sempre ser o ponto focal das situações; não a culpo por ser quem é, culpo a Étienne e Celeste por terem me usado como bode expiatório para criar o monstrinho que Brielle era agora.
Étienne não olha mais em minha direção. Já percebeu que cheguei, que o ato está pronto, agora podem fingir ser a família perfeita sem a interferência da estrangeira enquanto assisto a eles agirem como se não estivesse lá. Algumas perguntas educadas são feitas em minha direção: se já me adaptei ao novo dormitório depois de toda a situação com Margot, se estou pronta para parar de agir como a vítima e levar as coisas a sério, Étienne avisa que não irá mais ajudar-me com as minhas despesas com a Universidade — o que quase me faz rir, pois ele nunca havia ajudado-me com nada —, e que estaria por minha própria conta, já que “se você insiste em agir como uma garota de menos valor, que se divirta sozinha”. Brielle não hesita em entrar em meio a conversa, tentando convencer Étienne a dar a ela o dinheiro que deveria servir para me ajudar a custear algumas coisas que a bolsa de estudos não auxiliava. Consegue ser tão encantadora, que, mesmo contra gosto, Étienne concorda, como sempre. encara-me, como se fosse compartilhar de alguma opinião mas não volto meu olhar para ele, abaixo meu olhar para meu prato vazio, considerando o que deveria fazer. Poderia trancar a faculdade, e me mudar de cidade sem que eles soubessem. Poderia seguir para Uzês, a cidadezinha medieval minúscula seria o suficiente para servir como esconderijo, poderia mudar de nome e fingir que nunca havia existido. Que fora apenas o fruto de uma imaginação punitiva de um homem cruel, e finalmente sentir-me livre de suas garras. Ou poderia simplesmente voltar para o dormitório, trancar a porta e finalmente ser corajosa o suficiente para executar…
, querida? — Celeste chama meu nome, despertando-me de meus próprios pensamentos, e obrigando-me a piscar para longe as lágrimas que acumulam-se no canto dos meus olhos. Praguejo mentalmente quando uma gota escapa e caí bem no porcelanato de meu prato, torcendo para que consiga limpá-la antes que Étienne perceba. Solto um pigarro baixo, voltando a encarar Celeste com uma pergunta confusa ao observá-la. Celeste nunca se direcionava a mim nos jantares, como se fosse feita de algo contagioso que poderia contaminá-los apenas de olhar em minha direção. Havia me habituado com silêncio, então, era realmente confuso tê-la chamando-me pelo meu apelido esta noite. Espero pelo próximo golpe, pelo momento que ela dizer que meu humor está estragando o jantar e que deveria me retirar, mas ela está observando meus olhos com muita atenção. Mais atenção do que gostaria que estivesse. Por um momento horrendo, questiono-me se murmurei em voz alta meus planos para depois do jantar, começo a sentir minhas mãos tremerem e o impulso de levantar-me e correr é maior do que o que me obriga a permanecer ali. Volto meu olhar rapidamente na direção de Brielle, completamente contente em sua ideia de superioridade sobre mim, como qualquer garota de 15 anos teria para esconder suas próprias inseguranças, ou o semblante silencioso e impossível de sondar de Étienne, seus olhos não estão presos em meu rosto, mas sim em seu prato, cortando um pedaço de carne avermelhado de forma deliberada. encara-me com olhos estreitados, seu semblante difícil de ser lido, mas há mais atenção do que gostaria de receber.
Tenciono-me, obrigando-me a oferecer um sorriso doce e educado, implorando para qualquer divindade real que ninguém tivesse notado para onde meus pensamentos estavam lentamente se arrastando.
— Sim, mãe?
— Querida, não se curve, não é apropriado — ela corrigiu minha postura, como sempre fazia. Trato de me ajeitar outra vez, sentindo a vergonha manchar meu rosto embora não exista cor que revele isso. Quase suspiro em alívio, assumindo que era somente isso, mas então ela continua a falar. — O seu pai estava fazendo uma pergunta, querida. Por favor, não nos ignore somente porque estamos tentando lhe educar. Suas ações possuem consequências, precisa parar de agir como uma criança e enfrentá-las como tal.
Penso em dizer-lhe que não tinha culpa, que foi Margot quem roubou meu projeto e apresentou como o dela, que não havia roubado suas joias, nem tentando acertá-la com um tapa, mas percebo o quão em vão tal coisa seria. Tentar implorar por piedade e compreensão, para defender que estava dizendo a verdade diante de pessoas que já acreditavam que você era condenado. Era apenas gastar saliva à toa. Não nos levaria a lugar nenhum. Penso em corrigir Étienne, em dizer-lhe que de todos os seus filhos, sou a única que não teve uma conta em meu nome para auxiliar-me em meus estudos, que trabalho meio período em uma escola infantil para conseguir manter minhas despesas, que nenhum deles sabia disso porque simplesmente não se importam, mas quando encaro Étienne, percebo, pela primeira vez em minha vida, que não vejo o homem cruel e assustador que sempre estive aterrorizada demais para sequer enfrentar temendo sua fúria. É só um homem desconhecido, um rosto que meu cérebro nunca fez muita questão de decorar e pelo qual não há afeto algum.
Parece envelhecido, há cabelos grisalhos nas laterais de seus cabelos, e alguns fios misturando-se com as mechas elegantes penteadas para trás. A barba cuidadosamente feita também revela algumas partes esbranquiçadas, rugas se formam ao redor de seus lábios e um vinco novo havia surgido por seu cenho. Não digo nada, espero que a pergunta seja refeita para que possa respondê-la, mas acho que, a essa altura, já sabemos qual será a resposta. O que quer que seja perguntado receberá resposta afirmativa, não por concordância, mas por mero desejo de encerrar logo a conversa.
… — começa a dizer, tentando interferir, mas apenas aceno com a cabeça na direção de Étienne concordando. Ele estreita os olhos, finalmente encarando-me com uma expressão irritadiça.
Por um longo momento, apenas encara-me. Desvio meu olhar para as outras mesas.
— Sugiro que pare com o ato de martírio, . Minha decisão é final, e você pode concordar ou discordar, mas seu antigo quarto irá para as roupas de Brielle, afinal, bom comportamento deve ser recompensado. Não ouse pensar que isso irá me manipular a considerar porque…
— Não me importo — finalmente quebro o silêncio, minha voz rouca e falha, não menos afiada. Dou de ombros, voltando a linha de meu olhar para Étienne, enxergando-o como de fato era: um homem pequeno, movido pelo ego. Pela primeira vez, pareço tê-lo surpreendido. Não apenas por respondê-lo de volta, sem lágrimas, ofertando-lhe a mesma indiferença que ele sempre me ofereceu, como por igual também havia o interrompido em sua fala. Celeste empalidece um pouco, lançando-me um olhar severo. Brielle desinfla como um pequeno balãozinho, confusa com o porque eu não estava chorando e implorando para que Étienne considerasse seu pedido cruel, mas é que surpreende-me. me encara com surpresa, mas os olhos parecem adquirir algo estranho, uma urgência que nunca esteve ali. De repente é como se estivesse me vendo, realmente me vendo, e isso é ridículo. Volto meu olhar para Étienne, tentando manter-me o mais firme que consigo. — Aquele nunca foi meu quarto de qualquer forma, nem minha casa, e uma vez que terminar a faculdade, não planejo voltar — Dou de ombros, desdenhosamente. Não me sinto desdenhosa, me sinto rejeitada e acuada, se um deles estendesse suas mãos em minha direção, acho que os morderia com toda força em minha mandíbula.
Tenho quase certeza de que era o que Étienne realmente queria de qualquer forma, porque diabos fingir que, agora, era algo surpreendente ao ouvir-me apenas dizer em voz alta as palavras que ele provavelmente estava tão ansioso para ouvir? De repente tudo se torna insuportavelmente alto. Há estímulos demais, fico consciente não somente do que está acontecendo em nossa mesa, mas nas outras. Os talheres que se encontram com o porcelanato, as conversas e risos destoantes, a maneira com que Celeste parece querer iniciar um discurso sobre minha postura mais do que inadequada, a maneira com que Étienne me encara, olhos estreitados, parecendo tentar categorizar-me. Encaro-o por um momento em silêncio questionando-me porque diabos ainda fazia isso. A troco do que? Era como insistir em acertar uma faca e dizer a todos que a faca estava sendo ferida, enquanto meus braços, cortados e sangrando, permaneciam intactos. Quando o encaro, realmente o vejo. Questiono-me porque sua aprovação, seu afeto significa tanto para mim? Se sequer valor possuía? Não sei o que se passa em sua mente, mas ele parece surpreso.
Tenciono minha mandíbula, tentando não soltar um riso baixo. Porque diabos ele estaria surpreso com minha indiferença se ele nunca tivesse ensinado nada além disso? Talvez porque pela primeira vez, durante toda minha vida, eu tenha tomado coragem o suficiente para respondê-lo à altura. Brielle parece extremamente ofendida por não poder me ferir, e Celeste parece desconfortável o suficiente para mover-se em sua cadeira, tentando manter a postura elegante de realeza — mesmo que ela estivesse longe disso.
Ficamos em silêncio por um longo momento.
É quem quebra o desconforto com um pigarro baixo, voltando sua atenção para Étienne. Vejo meu irmão mais velho, oferecer um de seus sorrisos mais charmosos, o tipo de sorriso que ele oferecia sempre que queria apaziguar alguma situação ou então encantar seu caminho para longe de algum problema. Sempre funcionou com mamãe; volto minha atenção para o meu prato vazio, pegando uma talher de prata e girando-a sem interesse algum, quando ouço o celular vibrar. Erroneamente acredito que tenha sido o meu, e puxo-o para verificar, mas a tela está apagada. Tirando pelas notificações de redes sociais, dois pop-ups de um jogo idiota de restaurante avisando que minha energia havia sido restaurada por completo e um aviso de que minha mestruação estava próxima, não há nada. Sophia me mandou duas mensagens: “Como estão as coisas aí?” seguida de “Precisa de uma carona? Vem pra cá quando terminar! A gente tá no Le Petit”. Uma mensagem de Solène, a coordenadora do jornal cobrando Marcelle e Piette dos projetos atrasados, e uma mensagem seguida de um áudio de quase sete minutos de Anaïs Durant com os dizeres: “Precisamos conversar!” , o que me faz ter um momento completo de confusão. Porque diabos a melhor amiga de Margot estava tentando entrar em contato comigo em plena sexta-feira à noite? Pisco, afastando a imagem mental do que poderia me aguardar se de fato respondesse aquela maldita mensagem quando algo chama minha atenção.
Ninguém está conversando. O silêncio estende-se, pesado como ferro em brasas sobre os membros que compõem a mesa, com exceção de mim. Pauso no movimento de perguntar o que diabos havia acabado de acontecer quando meus olhos encontram-se com os de Celeste. Ela está pálida como giz, os olhos arregalados embora sua postura permaneça a elegante de uma verdadeira princesa. Brielle está franzindo o cenho, confusa, e sinto o impulso familiar de puxá-la em minha direção e abraçá-la; os olhos estão arregalados, terrivelmente confusos enquanto se inclina em direção aos papéis espalhados sobre a mesa, e então voltam-se para Étienne, buscando por clareza. está congelado no lugar, a confusão misturando-se com uma expressão tensa enquanto parece absorver o pedaço de informação que acabei de perder. E então, há Étienne. Sua expressão é impossível de ser lida, o rosto severo permanece inexpressivo enquanto encara os papéis, mas a mandíbula está tão tensa que não apenas um pequeno músculo salta com o gesto, como igualmente parece estar doendo, uma veia em sua tempora começa a se projetar, pulsando. Seus olhos estão fixos em mim.
Puta merda, o que eu fiz agora…
Sinto a ansiedade que permeia por meu corpo como uma pequena camada de estática, agitar-se ainda mais. Minha garganta fica terrivelmente seca enquanto tento controlar minha respiração, tentando lembrar-me do que diabos poderia ter feito agora que poderia tê-lo deixado em tamanho estado de cólera. Considero que foi minha reação ao quarto, talvez se eu tivesse chorado, me encolhido e expressar a tristeza que a ideia de perder meu quarto para os caprichos de Brielle, talvez eles estivessem rindo agora, podendo usar-me como bode expiatório para suas regalias. Talvez devesse apenas aceitar as facadas em silêncio para tentar recuar, mesmo que por uma vez. Talvez fosse melhor do que estragar tudo! Estou estragando tudo! Sempre estrago tudo! Por que sempre estrago tudo?!
— O que aconteceu? — Sussurro para , apavorada demais para direcionar-me a Celeste. — Se for sobre o quarto, eu não quis…
— Os resultados de compatibilidade, para a operação do pai… — sussurra, mas não volta o olhar em minha direção. Franzi o cenho, voltando-me na direção de Étienne que ainda me encara. Não faço ideia do porque, mas sinto-me pior com o olhar dele em mim do que quando apenas me ignorava. Ser ignorada era a segurança de que poderia fazer qualquer coisa que desejasse e não seria percebida; ter olhos sobre mim é o suficiente para me fazer querer cavar um buraco no chão e esconder-me ali para nunca mais sair.
— O que há de errado com isso? Não é apenas para doar um pedaço do estômago? Finalmente vai poder… — começo a dizer, mas sou interrompida quando toma os papeis das mãos de Étienne e joga em minha direção. Arregalo os olhos, surpresa demais para comentar sua atitude pouco característica. era carismático, e elegante, o filho perfeito de Étienne, tê-lo empurrando os papeis em minha direção é o suficiente para me silenciar abruptamente. Seguro os papéis, estranhamente amortecida para que meus dedos tremer; agradeço-me mentalmente por ter tido a brilhante ideia de ter tomado mais Lexapro do que deveria, é a única coisa que me impede de reagir com uma risada de pura incredulidade enquanto observo os papeis de compatibilidade.
Sempre achei, desde que Étienne havia recebido o diagnóstico, que seria neste momento que finalmente as coisas iriam se encerrar. O momento crucial que toda a verdade sobre mim viria à tona e Étienne poderia finalmente lavar as mãos e expulsar-me de vez de sua vida — não que eu tenha estado em algum momento de verdade. O momento em que poderia finalmente encarar os olhos de Celeste e questionar porque ela havia feito isso? O momento que poderia limpar minhas mãos e nunca mais dar-me ao trabalho de entrar em contato com qualquer um deles. Mas o resultado é a última coisa que eu poderia dizer que esperava. Posso sentir meu rosto se empalidecer igualmente enquanto meus olhos acompanham os resultados de compatibilidade. Inúmeros dos jargões, sequer posso compreender. É evidente que os resultados dos exames não são para isso, e todavia, é a evidência científica da infidelidade de Celeste. Exceto por um detalhe:
Sou a única compatível com Étienne. O que significa que, dentre os três filhos dele sentados a essa mesa, sou a única que é sua filha biológica.
01


“J’étais prêt à graver ton image à l’encre noire sous mes paupières
Afin de te voir même dans un sommeil éternel”

EST-CE QUE TU M’AIMES



AGORA.


NASCI EM UMA FAMÍLIA REPLETA DE PESSOAS EXTRAORDINÁRIAS
, mas não havia nada de especial em mim. É claro que nem minha mãe ou meu pai disseram alguma coisa sobre isso, pelo contrário, na visão deles, todos nós éramos perfeitos. Mas era inegável a verdade sobre mim. Frey é o músico perfeito, o cara que sabia como tocar e encantar multidões, que tinha uma voz de veludo e o charme capaz de roubar quaisquer corações que encontrassem pelo caminho. Aurora, bem, a gente pode ter dividido o mesmo útero por nove meses, mas era ela que havia herdado o talento do nosso pai, a artista perfeita que não parecia precisar se esforçar para conseguir o que desejava — e isso já era suficientemente irritante de ter que lidar; adicione ao fato de que sou sua versão masculina e bom, você têm exatamente o lembrete de minha insignificância. Rika é o cérebro da família — e ninguém questiona isso. E Yule? Bem, a alma sensível, capaz de ver beleza nos lugares mais improváveis. Era como se ele enxergasse de maneira própria, e de alguma forma, tornar tudo mais bonito — ajudava também que ele fosse o mais novo entre nós, com 8 anos, mas quem quer ser comparado com um garoto de 14 anos talentoso?
No meio de tudo isso, então, havia eu: um desastre completo com qualquer instrumento que já tentei tocar, não consigo nem convencer meu próprio reflexo do que quer que tente estar fingindo. Definitivamente não sou o cérebro da família, e Frey sempre fez questão de me lembrar disso todos os dias, e minha fotografias só são interessantes apenas para quem gosta de abstracionismo e psicodelismo porque ainda não dominei a habilidade de segurar uma câmera sem tremer como um pinscher. Sou péssimo, e sei que sou péssimo. No meio de tantas pessoas talentosas, não é uma surpresa que sinta-me de fora. Tento não revirar os olhos quando Aurora finalmente perde a paciência quando com minha tentativa de passar o roteiro com ela e toma os papéis de minha mão; não antes de acertar-me com um tapa dolorido na cabeça. Engasgo-me com um riso nasalado, fingindo que estou mais irritado do que divertido — ela teve que ficar na ponta do pé para conseguir me atingir, e estou sentado diante do balcão da cozinha, isso nunca vai parar de ser engraçado para mim.
— Você só pode estar de brincadeira! — A voz indignada de Frey finalmente corta a provocação entre mim e minha irmã gêmea, ecoando ao mesmo tempo que a de Aurora com a mesma quantidade de indignação. Tento revirar os olhos, mas é difícil não demonstrar impaciência quando sua vida amorsa está sendo debatida por seus irmãos como a porra de um drama mexicano.
Inclino-me na direção da tábua de madeira que Frey está picando os legumes e alcanço metade de um limão, antes de levá-lo à boca. O suco azedo é um curioso consolo para meu próprio desespero. Rika solta um grunhido acertando minha mão, avisando silenciosamente que é para eu parar de beliscar as comidas e ajudá-la com a lasanha, mas não vou, porquê da última vez que tentei ajudá-la na cozinha, ela me chamou de “energúmeno” vezes o suficiente para ter atingido meu ego — e isso era algo difícil de acontecer porque tenho um ego muito seguro, além disso, não faço ideia do que a palavra poderia significar, mas a condescendência no tom dela havia deixado claro que era uma ofensa. Puta merda, era por isso que não gostava de falar muito sobre o que acontecia em minha vida. Toda vez que fazia, virava um motivo de debate entre os três. Pior, como Aurora era a gêmea mais velha, tendo nascido com uma diferença de apenas três minutos e meio de mim, era ela que decidia quando eu tinha direito de me defender e quando o que estava fazendo era indefensável.
— E ela não disse nada? Só te contou tudo, pegou as coisas dela e não falou mais nada? — Meu irmão mais velho ecoa, como se eu não tivesse confirmado aquela maldita afirmação mais de vinte vezes nos últimos cinco minutos. Considero arrotar em seu ouvido para ver se vai fazer eco.
— E com quem ela te traiu? Aquilo traiu você? Aquele do moicano? — Aurora ecoa mais indignada com a percepção de que alguém usaria um moicano por vontade própria do que a traição de Margot. Abro minha boca para respondê-la e corrigi-la, mas sou silenciado com um dedo imperioso da minha gêmea, avisando que eu havia perdido o direito de falar a trinta minutos atrás, quando tentei fingir que estava tudo bem e que não me ressentia com tudo o que havia acontecido. Reviro meus olhos, exasperado.
Verdade seja dita, não acho que estou tão chateado com tudo o que havia acontecido nessas últimas férias. Quer dizer, estava em um relacionamento sério com Margot já fazia quase uns dois anos, não era muito, mas era o suficiente para começar as conversas mais sérias: eventos familiares e fotografias, planos para o futuro, esse tipo de baboseira que se espera de um namoro sério — ou ao menos, que meu pai ensinou esperar. Não era mentira que uma parte de mim tivesse começado a considerar juntar dinheiro para um futuro que desejava compartilhar com ela. Gostava da ideia de casamento, de construir uma família e todos os enfeites possíveis, mas mais do que isso, queria realmente assegurá-la de que levava a sério nós dois. Mas então, desbloquei o ligamento no início da temporada no ano passado, entre inúmeras sessões de fisioterapia, dolorosos, consultas médicas e exames, Margot se tornou um segundo plano. Não era minha intenção deixá-la de lado, havia tentado compensá-la das formas que conseguia imaginar: viagens, presentes caros, afeto, o que quer que ela pedisse, ela conseguia, mas então voltei para o apartamento compartilhado com e na Douai em Paris um dia e tudo se estilhaçou por completo. Não a peguei com ninguém, isso seria exagero — embora uma parte de mim desejasse ter a flagrado com outra pessoa apenas pela confirmação —, mas havia me encarado no fundo dos olhos e dito com um tom severo, quase piedoso tudo o que havia acontecido. Não apontou nomes, apenas foi sucinto nas informações.
— Vi sua garota com outro — havia dito com uma mistura de pesar e exasperação, não pela situação, nunca havia gostado muito de Margot, e mesmo que não tenha me dito o motivo, parecia fazer questão de lembrá-la de seu desprezo pessoal sempre que estava por perto. Era por isso que acabamos nos afastando nos últimos meses, embora a situação agora seja outra. O encarei confuso por mais tempo do que queria, dando de ombros. Achei que ele estava dizendo algo comum, apenas com um demasiado exagero movido pelo desprezo pessoal; não é que não sinta ciúmes, simplesmente sou seguro o suficiente para saber que não precisava me preocupar com uma competição, ou ao menos, era o que eu achava na época. Quando questionei como ele havia visto minha namorada, grunhiu, jogou-se no sofá, e abraçou a maldita almofada com a cara do Nicholas Cage de . — Montada no pau de um cara do time, igual uma desesperada.
Acho que comecei a rir mais ou menos depois dessa parte. A história era tão surreal que simplesmente não parecia fazer o menor sentido. Quando questionei o nome da pessoa com que Margot havia me traído, se recusou a dizer. A situação se tornou séria quando confrontei Margot, duas noites depois, sobre isso. Achei que se aproximasse da situação com calma e até bom humor, ela simplesmente iria me encarar, bufar e dizer que estava sendo outra vez; não era uma novidade tentar vilanizar Margot. Mas ao invés de revirar os olhos, ou ficar furiosa com as atitudes de , Margot empalideceu. Os olhos se desviaram para o chão, e ficaram por lá por um longo tempo. Foi quando soube que na verdade, estava certo — algo que ele não me deixa esquecer. Margot admitiu tudo, datas, encontros, sentimentos, como ela não queria me machucar e que não queria terminar mas estava apaixonada pelo outro cara; estranhamente, não me senti injuriado ou furioso, para ser honesto, me senti aliviado. É claro, ainda houve uma briga, ainda houve choro e pedidos de desculpas ignorados, mas por uma fração de segundos, ao fundo de minha mente, quase considerei agradecer ao amante de Margot por ter tirado aquele fardo pesado dos meus ombros.
Levanto-me do banco alto da bancada da cozinha, caminhando descalço até o lixo antes de descartar não apenas o limão que estava chupando, como igualmente as folhas estragadas do alface que Frey estava picando. O cheiro do molho bolonhesa que Rika estava fazendo é quase tão bom quanto o do nosso pai, o que me faz questionar se Rainer havia lhe passado a receita ou se ela simplesmente havia aprendido aquilo por simplesmente olhar; Rika tinha esse tipo de habilidade. Minha mãe chama de autodidata, eu, já estou inclinado a acreditar que não passava de mais uma grande comprovação de minha longa lista de evidências de que ela, na verdade, era um ET.
— Não, espera, um minuto, o do moicano não é o bonitinho que sempre aparecia aqui nos fins de semana quando ele estava no primeiro ano de faculdade? O bonitinho com sotaque cajun? — Rika acrescenta seus cinquenta centavos de ajuda, e fecho meus olhos negando com a cabeça. Puta merda, porque diabos voltei mesmo para casa neste aniversário? Ah, sim porque da última vez que havia escolhido passar um aniversário com os caras, minha mãe ficou extremamente ofendida por não ter arrastado e os outros juntos. Se o tivesse feito, tenho quase certeza que iriam adotar eles também, e a última coisa que preciso é que meus pais acrescentem mais pessoas nessa família. Já sou invisível o suficiente para começar a ser comparado com meus amigos também. Pisco por um segundo, voltando meu olhar na direção de Rika quando percebo a quem se refere.
? ‘Cê tá falando do ? — Minha voz soa um pouco mais alta do que o normal, mas é completamente devido ao tamanho do absurdo que acabei de ouvir. É um completo absurdo, impossível de ser aceito ou engolido, perceber que minha irmã mais nova está descrevendo como a porra de um cara bonito. Rika abre um sorriso, dando-me o dedo do meio, e levanto-me no mesmo segundo, pronto para correr atrás dela até que a ideia tenha sumido de sua cabeça. — Não. Definitivamente não. Nunca. Jamais. Para você ele é senhor , e ele é fora dos limites — a última coisa que preciso é que se envolva com uma das minhas irmãs. Aurora, esta desgraçada traiçoeira, abre um sorriso largo, os olhos brilhando como os de um gato que acabou de achar a melhor caixa para se entreter. O faz por ser contraditória, por querer sempre irritar e é boa nisso, igualmente o faz porque ela tem um maldito dedo podre sem comparações. Arranco o pano de prato do ombro de Frey, que resmunga um sonoro “ei”, e então arremesso à minha gêmea, mirando sua cabeça. — Você também, Rory, é sério. Não.
Diferente de Rika, que normalmente só falava sobre meus amigos para me irritar, Aurora, realmente tinha o costume de se envolver com as mesmas pessoas que eu. Tínhamos o mesmo tipo, tanto para mulheres quanto para homens, e estranhamente havia aquela pequena competição entre nós dois sobre quem conseguiria conquistar a pessoa — na maioria das vezes, era Aurora quem saia ganhando. Não gosto de relacionamentos casuais e certamente não sou o tipo que se diverte com uma noite, como Aurora faz; se me envolver com alguém, quero conhecer essa pessoa, quero olhar para sua alma e consumi-la até que seja uma parte incontestável de mim — não a toa, são raras as garotas que ficam. A diferença entre mim e Rory, todavia, é que Aurora tem uma péssima sorte para encontrar relacionamentos. De alguma forma, não faço ideia de como, Rory sempre consegue encontrar a pior pessoa possível para se relacionar, acaba com um coração partido todas vezes, e a beira da loucura. São inúmeras situações que questiono-me como ela não havia surtado ainda. Isso a impedia de se relacionar? Não, pelo contrário, mas nos colocava em um ciclo infinito onde continuava a assistir seu coração ser quebrado por filhos da puta que nunca, em milhões de anos, iriam merecer sequer a sujeira de seu sapato, quiçá seu coração. E definitivamente não era o tipo de cara para um relacionamento.
— Esse nome está banido nesta casa, a partir de hoje, amém — digo batendo com o punho da faca na tábua de cortar e então viro meu rosto na direção da tigela de vidro que Frey estava fazendo a salada. Solto um gemido, irritado. — Por que você tá colocando maçã na salada, cara?! Qual é o seu problema com maçãs?!
Na casa dos havia apenas duas regras: sempre haveria mais uma cadeira na mesa para quem quer que se interessasse em chegar, e nunca, absolutamente nunca, aceitar quando minha mãe se voluntariava para cozinhar — e ela fazia isso com mais frequência do que deveria. Você pode ter certeza de que seria um desastre e acabaríamos tendo que chamar os bombeiros para nos resgatar — ou com uma intoxicação alimentar que levaria semanas para ser curada, no melhor das hipóteses —, agora, questiono-me se essa regra deveria se estender a Frey também, porque simplesmente tudo o que ele fazia sempre acabava com um pedaço de maçã dentro. Solto um chiado entre dentes, negando com a cabeça, devolvendo a tábua de cortar para ele e então caminho em direção aos armários para procurar pela travessa de vidro que Rika iria precisar para fazer a lasanha antes que ela possa cobrar.
— Tá, mas o do moicano, qual é o nome dele então? — Aurora importuna, dando-me um tapa dolorido nas costas que tenho certeza, irá ficar vermelho com o formato da mão dela. Obriga-me a dar espaço para quando fica nas pontas dos pés para me entregar a travessa de vidro certa. Não a redonda, porque a redonda era dela para fazer sobremesas, e ela detestava que usássemos para fazer outra coisa se não doces ali porque dizia ficar com o gosto do sal; lanço um olhar cúmplice para Rika, considerando o quanto da lasanha conseguimos transferir mais tarde para a bendita travessa de vidro de Aurora, apenas para irritá-la. Coloco-me ao lado da minha irmã mais nova, focando em abrir os pacotes com as folhas de massa pronta de lasanha e organizá-las na travessa.
— Você não tem literalmente uma criança de seis anos para ficar de olho, cara? Que tal a gente só… encerrar esse assunto? Eu realmente gosto muito mais dessa ideia, vocês não? — tento barganhar, mas como sempre sou completamente ignorado pela minha gêmea. Rika bufa com um risinho irritante, despejando uma concha bem cheia de molho à bolonhesa sobre a massa, antes de me comandar com o olhar para passar o queijo mussarela picado por Frey, que está grotesco.
Shiu. Você ainda está em time out por causa daquela baboseira, e a Elo tá bem tranquila assistindo os desenhos dela com a Charlie — Tento não sorrir, porque isso não poderia estar mais longe da verdade. Estou ciente de que as duas garotinhas, uma de seis anos e a outra de quatro, poderiam estar fazendo tudo, menos assistindo desenhos na televisão ligada na sala; tenho quase certeza de que estavam explorando as maquiagens caras de Aurora de novo, especialmente porque vi pequenos vislumbres de pezinhos coloridos desaparecendo escada acima a dez minutos. Posso imaginar a destruição em massa que uma hora deve ter proporcionado para Da Vinci e Picasso no segundo andar da cobertura de Rika. Marcas como Dior, Yves Saint-Laurent e Channel destruídas e manchando as paredes.
Não será eu que vai entregar as meninas.
Charlie é filha de seis anos de Frey, com uma ex-namorada que acabou bem mal no ensino médio; Sarah era uma das filhas de George Lancaster, uma antiga família esnobe mas que ainda assim tinha os como amigos. As conexões entre nossos mundos nunca foram distantes e por tempo o suficiente convivemos uns com os outros sem preocupações maiores, mesmo que discordassem profundamente de certas posturas. Para os Lancasters a ideia de status era muito mais importante do que qualquer outra coisa, havia uma tentativa desesperada de escolher exatamente com quem se passava o tempo, e evitar que pessoas menos dignas de dinheiro — se que você me entende — acabasse entrando para família. A tipicidade esperada para uma família Old Money, que meus pais sempre desprezaram. Os poderiam ser muitas coisas, mas não éramos conservadores, sequer tínhamos uma religião em si, e tampouco gostamos de seguir os costumes antigos que outras famílias como as nossas faziam. Roubo um pouco de queijo da vasilha, esperando Rika terminar de praguejar enquanto organiza-o na travessa, apenas para levar mais um tapa — é incrível como sou o saco de pancadas deles. Sarah nunca gostou de nós, sei que detestava Aurora por sua habilidade de falar exatamente o que estava pensando sem pedir desculpas por isso; me tolerava porque sempre fui quieto, e gostava de Frey porque, bem, Frey era exatamente o tipo de cara que encantava multidões e oferecia pequenos respiros de rebeldia sem muito risco para jovens de classe alta passando por uma fase. Acontece que Sarah engravidou, e o caminho se tornou óbvio para Frey. Os dois se casaram antes que a barriga dela pudesse crescer, mas não duraram nem um ano depois do nascimento da menina. Sarah pediu o divórcio de supetão, renunciou os direitos legais da menina, e Frey se tornou, aos 19 anos, um pai solo, com uma carreira promissora na música e responsável por cuidar e educar uma criança que não estava pronto para ter.
A pior parte disso? Ele tá fazendo um puta de um trabalho bom. Pode ser frustrante vê-lo se tornar o músico que é, cantar para plateias lotadas, mas ainda mais irritante é saber que Frey não perde um evento na escola de Charlie, nem mesmo uma história de dormir. Seria de se esperar que a primeira coisa que Frey tivesse feito, após o divórcio com Sarah, era deixar a menina para nossa mãe criar — não que Amélia fosse detestar a ideia, na verdade, vive incentivando isso, já que adora ser mãe, mesmo que não tenha lá muito tempo para isso; seria nosso pai responsável pela vida diária da menina —, e seguir em frente, ou no mínimo saltar para um novo relacionamento apenas para se certificar que a menina fosse minimamente cuidada por alguém que não fosse ele mesmo. Mas Frey é apaixonado por ser pai. Não sei como ele faz, mas é foda para caralho, observá-lo dedicar-se a filha que não esperava ter, mas que agora tinha, não iria abandonar nem mesmo se um poder divino lhe comandasse.
Já Elowen está com Aurora há mais ou menos dois anos, quando Rory foi visitar um orfanato e praticamente se apaixonou pela garotinha. Meu pai tentou dissuadi-la da decisão, mas ele bem sabia o que era visitar um orfanato e sair com um filho de lá; com Rika havia sido assim, com Elowen não seria diferente, especialmente quando Aurora é bem mais próxima de nosso pai em temperamento do que os outros. Aurora herdou os traços de personalidade positivos de meu pai, eu, os negativos, era por isso que as coisas ganham uma conotação um tanto mais complexas comigo e com Rainer. Acho que fico com inveja dos dois, de certa forma, tem mais do que um motivo para voltar para casa; não que eu queira um filho. Céus sou novo demais para isso. Talvez em uns dez ou vinte anos, aí sim.
— Nome, anda, eu quero saber o nome para stalkear o idiota.
— O do moicano não se chama ? O francês? — Frey opinou, e Rika revirou os olhos.
De novo a menção de , considero arremessar um por um deles pela janela. Em comparação, sou mais atlético e mais forte que eles, o que poderia fazer? Me chantagear emocionalmente para não fazer isso? Bem… se fizessem, daria muito certo na verdade, é uma vergonha ter que admitir isso.
— Não esse é o gostosão de cabelo longo, Maël é o namoradinho daquela garota esquisita que a Rory não gosta, a que o quase apresentou pra família antes da Margot, e é o que cheira a amaciante de bebê — Quase solto um riso com o comentário, anotando mentalmente para usar com mais tarde. Solto um grunhido baixo, exasperado. Quando minha vida havia se tornado tópico de discussão? Tenho vontade de me jogar da janela, mas Aurora irá me arrastar de volta no segundo que tentar. Tudo o que farei é apenas ganhar mais um tapa dolorido na cabeça e um time out mais longo. Aurora retira o celular do bolso de sua calça de moletom pink com strass escrito: “Drama Queen” na parte traseira, a coisa mais horrenda que havia visto hoje, e então franze o cenho, compenetrada.
— Não acredito que vou ter que usar o perfil da Margot para descobrir com quem ela traiu você. Sério , isso é ridículo. Nunca fui com a cara dessa garota, mas você tinha que ir atrás dela não é? Ugh, porque você não pode ser igual a um jogador de futebol normal? Sabe? Trai as namoradas, não consegue ter um relacionamento sério, e tá ocupado demais suando para pensar em qualquer outra coisa na vida — Encaro o vazio à minha frente, e imagino-me, feliz, saltando no meio dos carros em movimento até ser atingido por um. Bem, pelo menos a situação não poderia ser mais humilhante, quer dizer, meus pais não haviam chegado ainda para presenciar o debate em questão, então já era alguma coisa. Frey solta um ruído inteligível, como o bom fofoqueiro que é, inclina-se na direção de Aurora para espiar sobre seu ombro. Acho que posso entender porque Sarah fugiu de nossa família, não é como se nós fossemos apegados a qualquer ideia de etiqueta. — Ainda não consigo acreditar que ela teve a coragem de fazer isso, sério! Já viu o rosto dela? Sinceramente você estava fazendo caridade, de novo!
Nego com a cabeça, exasperado. Pego das mãos de Rika a concha, porque ela claramente está colocando pouco molho na estrutura da lasanha, e se continuar assim, a massa nunca vai ficar cozida de fato. Rika cruza os braços caminhando em direção a Aurora também com o intuito de ver a imagem de minha ex, buscando por quaisquer informações sobre o cara com quem ela havia me traído. Pela quinta vez, hoje, me arrependo perdidamente por ter voltado para casa. Era tradição, o aniversário de casamento dos meus pais não era apenas uma comemoração somente para eles, como para a família inteira, nós costumávamos nos reunir para comemorar não importava o que acontecesse; aniversários, feriados e momentos especiais eram todos passados em família, obrigatoriamente. E como toda tradição na família , é levada muito a sério, mas a verdade é que se tivesse ficado em Paris, focado simplesmente em treinar com e , nada disso estaria acontecendo. Mas não, eu precisava volta para casa, para comemorar o aniversário de casamento dos meus pais como um completo imbecil, não precisava?
— Não fale assim, Rory! Cara que saco! — Praguejo exasperado, negando com a cabeça e quase derrubo a panela com o molho. Frey, me xingando entre dentes, empurra-me para o lado. Reviro os olhos quando ele toma da minha mão a maldita concha, e então, me limito a roubar mais um pouco de queijo ralado, jogando em minha boca. Limpo os dedos com o pano de prato ainda enroscado na cabeça de Aurora, antes de exalar, frustrado. Passo minha mão esquerda por meus cabelos, as unhas arranhando o couro cabeludo, impaciente. — As coisas já não estavam legais com Marge, e sinceramente, estamos na Universidade, não faço ideia do porque eu insisti em manter essa merda, mas acabou. E é isso aí. Não interessa como, não me importo. Podemos finalmente mudar de assunto agora, porra?
Você insistiu em continuar com esse relacionamento?
— Olha, para ser sincera, é bem a cara dele ter feito isso. não tem relacionamentos casuais, ele é o irmão carente, lembra? — Rika acusa com um sorrisinho e o fuzilo com o olhar. Pego o pano de prato enroscado na cabeça de Aurora e então jogo na direção da outra garota. Para minha frustração, minha irmã mais nova solta uma gargalhada gostosa, alta, desviando com facilidade da minha mira terrível antes de correr para a dispensa.
— Para sua informação eu tenho muitos relacionamentos casuais — retruco e Frey caí na gargalhada. Suspiro pesado, massageando a ponte do meu nariz. Desmoralizado tanto no meu grupo de amigos quanto por meus irmãos, é incrível como eu ainda não havia considerado desaparecer. — Só não sou de contar vantagem — minto.
— Por favor, a última coisa que quero saber é da sua vida sexual — Aurora resmunga com uma expressão de nojo e deixo um sorriso travesso e muito satisfeito comigo mesmo surgir por meus lábios.
— Ah, não, quer ouvir sobre esse truque com a corda… — Aurora me interrompe com mais um tapa na cabeça antes que possa continuar. Frey sorri me lançando um olhar quase impressionado. Dou de ombros, evitando encarar meu irmão mais velho. — Restrição é legal se você souber como fazer. E to falando sério, cara, se você enfiar maçã na porra da lasanha, eu vou te matar. Eu realmente vou te matar.
Frey me dá o dedo do meio, mas fico aliviado ao ver que ele colocou a cesta de frutas de Rainer de volta no lugar e não tem nenhuma maçã perto de suas mãos.
Empolero-me no mesmo banco que Aurora encontra-se sentada, usando meu quadril para empurrá-la mais para o lado e encontrar uma forma mais confortável de apoiar minha perna esquerda antes de alçar o meu próprio celular. Desbloqueio a tela apertando os lábios em uma linha rígida. Há algumas notificações de redes sociais que não faço questão de verificar, dois e-mails da universidade sobre as eletivas que ainda não escolhi, e pelo menos 120 mensagens no grupo dos caras, dos planos para essa noite, aos avisos do Treinador Lamar sendo repassados com memes idiotas — a maioria vem de —, e é claro, os planos para essa noite; a maioria das mensagens são atualizações idiotas de , que estava tirando o dia inteiro fotografias a cada segundo, contando o que estava fazendo. Acho que Maël ficou puto com , porque há pelo menos um scroll inteiro de “Maël retirou do grupo” e “ colocou no grupo” seguidos até enviar uma foto com a jaqueta de couro preferida de Maël. O assunto foi abruptamente interrompido por algumas perguntas dos outros membros do time questionando o que iríamos fazer nessa noite, já que os treinos voltariam mais intensos do que nunca após esse fim de semana. Então há inúmeras mensagens de tentando convencer a ir a algum tipo de festa em Bas-fonds. O pub era conhecido por fazer jus ao nome que levava, mas era divertido, pelo menos, assistir tentar a sorte com qualquer mulher bonita apenas para terminar com uma mancha vermelha no rosto e uma expressão de poucos amigos pelo resto da noite. Era uma concepção geral de que era um grande mulherengo — que de alguma forma, não conquistava as mulheres, era apenas escolhido por elas para um momento de descontração antes de ser deixado para trás.
Aurora apoia o queixo dela em meu ombro, o peso familiar é reconfortante apesar de tudo, encarando meu celular. Não faço questão de ocultar dela a tela, apenas verifico se algum idiota mandou uma foto do pau perguntando se estava boa ou se precisava tirar outra em uma luz melhor. Somos gêmeos, afinal, não há um mundo que eu conheça em que ela não esteja, e certamente não existe um mundo em que ela não esteja que queira estar. Sabe de todos os meus segredos desde que éramos pequenininhos; nunca quis esconder nada dela, ou tive motivos para o fazer. Somos dois corpos diferentes, compartilhando a mesma alma — temos até tatuagem, a dela é no pulso, a minha acima do coração, piegas, mas éramos adolescentes e sempre pareceu certo. Não digo nada quando ela vê as 40 chamadas perdidas de Margot em meu celular, apenas puxo para o lado a fim de limpar a barra de notificações. Há mais: notificações de mensagens nas minhas redes sociais, mensagens de voz, até a porra de um SMS e uma transferência bancaria de 0,50 com o pedido de Margot para conversar. Ignoro todas; não porque não queira vê-la ou por estar magoado com ela pela traição, só não quero conversar com ela sobre.
É uma dança familiar entre nós dois. Desde que havia me declarado durante uma apresentação idiota de Shakespeare durante as aulas de teatro de Aurora, nunca fomos o exemplo de estável. Era intenso, é claro, e ela sempre havia me deixado louco, mas igualmente as brigas eram intensas, os gritos e de alguma forma sempre era eu voltar me arrastando para ela. Implorando por desculpas, reconhecendo que havia cometido um grave erro quando na verdade não tinha culpa de nada; então fomos para a faculdade e acreditei que talvez fosse o momento em que finalmente iríamos amadurecer. Incrível que não foi esse o caso, não? As brigas ficaram mais frequentes, as demandas maiores, de repente Margot estava com ciúmes até mesmo de Avery, a assistente do treinador que tinha uma esposa e um filho em casa. Qualquer garota que se aproximasse de mim já era um motivo plausível para que ela automaticamente assumisse que a estava traindo — agora imagino que era apenas autoprojeção. Torna-se desgastante ter que ficar me explicando toda vez que estava com os caras ou mandando foto de onde estava quando não recebia nada em troca dela. A traição não é o problema; o problema é que ainda assim, uma parte de mim, considera voltar com ela. Talvez ela esteja certa, talvez eu tenha exagerado, quer dizer, não havia significado nada, certo? Ela estava sozinha, nós estávamos brigando direto, ela encontrou o consolo que precisava no momento de desespero. Se fosse um pouco melhor, se fosse um pouco mais como Aurora ou Frey talvez pudesse entender. Talvez tudo isso seja apenas meu ego entrando no caminho. Tínhamos uma história. O gosto amargo atinge a ponta da minha língua quando Aurora toma da minha mão o celular e desliga, virando a tela para baixo.
— Você é um idiota, — sussurra ao meu lado, parecendo realmente estar considerando me acertar com um soco, mas sua voz é doce e suave, daquele jeito que ficava quando ela estava agindo como Aurora, a garotinha que entrava na minha frente para me proteger de qualquer machucado que fizesse. A garotinha que me emprestava o coelhinho esfarrapado dela para me fazer dormir durante a noite. Olho para minha irmã gêmea; fico extremamente consciente do quanto amo essa garota. Não é apenas pela obrigação familiar, é o reconhecimento que ela possuí o mesmo sangue que o meu, que faria tudo por mim como eu faria por ela. Apenas a encaro-a, amando-a em silêncio, sem ousar imaginar o que seria de mim se ela não estivesse ali. Se não fosse minha gêmea. — Para de fingir que está tudo bem, não está! E por favor, para de pensar em voltar com essa idiota, é a seunda vez que ela faz isso…
Passo meu braço esquerdo sobre o ombro dela, esfregando seu braço esquerdo, mas não a encaro. Aurora pode me ler melhor do que a si mesma, se encará-la, irá enxergar a mim como um espelho.
— Não estou considerando voltar com ela — Mentir nunca soou tão desnecessário, é tão nítido que estou mentido que desisto no segundo que a primeira palavra deixa meus lábios. Sinto o olhar de Aurora, fixo em meu rosto, há uma ponta de julgamento ali, mas não do tipo agressivo que poderia me censurar. É o julgamento que ela oferece-me toda vez que faço algo estúpido conscientemente, aquele pesar de ver alguém que você ama tomando uma escolha errada, e a resignação de esperar até que tudo tenha explodido para ajudar a recuperar os pedaços estilhaçados que ficaram pelo caminho. — Rory, por favor, não começa…
— Você tá sim — Aurora murmura baixo, exasperada, antes de suspirar pesado, inclinando-se para frente no balcão. — E sabe como eu sei? Porque foi exatamente isso que você fez nas últimas seis vezes! — Contra fatos, não tenho argumentos. Repouso meu cotovelo direito dobrado sobre o balcão da cozinha e então enterro meu queixo em minha mão voltando a encará-la com uma ponta intensa de culpa. Ela está me julgando, mas há também aquela compreensão insuportável que é puramente Aurora, que sempre exibia quando realmente queria ajudar. Era teimosa, insuportável, desnecessária e um desastre em qualquer âmbito de sua vida que não fosse profissional ou parental, mas ainda assim, é a pessoa que mais tenta acertar as coisas. Não importa o que seja, Aurora nunca desistia, amo-a mais por isso.
Odeio-me por a fazer se preocupar comigo, não é assim que funcionamos. Ela é a impulsiva, a cabeça quente, o coração e a emoção que sempre pulsou dentro de nossa família e em nossa dinâmica; sou a sombra, o escudo que refreia o impacto e tenta ter certeza de que as merdas que ela faz não a destruam por completo — e sempre parecia estar a beira da autodestruição. Sou o responsável por ela, por protegê-la, por apoiá-la independentemente do que ela faça, não o contrário.
— Amo ela, Rory — sussurro baixo apenas para que minha gêmea escute. A confissão carrega mais peso do que deveria. Quer dizer, havia planejado um futuro com Margot, não? As viagens, a gente havia visto casas e potenciais lugares para se mudar quando a faculdade acabasse e as seletivas para o Arsenal tivessem sido completadas, talvez Manchester fosse um bom lugar, para além do time. Até cheguei a ir em uma ou outra joalheria para ver algum anel que pudesse agradá-la. Realmente achei que tinha encontrado a mulher da minha vida, a mulher com quem queria passar o resto da minha vida , não por obrigação, mas porque queria viver com ela. Agora já não sei mais o que deveria sentir. Uma parte de mim deseja simplesmente ceder aos pedidos de desculpas de Margot e voltar com ela como se nada tivesse acontecido; como se os dois últimos meses não tivessem sido mais nada do que apenas um pesadelo insuportável, mas nebuloso o suficiente para não me lembrar de nada. Já a outra estava aterrorizada pela possibilidade de retornar àquele mesmo ritmo: nós fazemos as pazes, tudo parece ótimo, ela começa a ficar estranha, discutimos, terminamos e então volto rastejando implorando por mais uma chance porque minha vida não parece fazer sentido sem Margot. Mesmo com todos os defeitos, mesmo com todos os problemas, mesmo com todas as falhas e erros, não quero querer mais ninguém. — Relacionamentos são complexos, a gente não cai fora na primeira chance que aparece… acho que amo ela o suficiente ainda para sei lá…
— Ama mesmo? Ou isso é só você com medo de ficar sozinho? — pontua e tento não revirar os olhos. Não quero admitir, mas as palavras doem mais do que deveriam. — Eu sei que eu tenho um dedo podre, mas você? , você nunca ficou solteiro na sua vida toda. Tem sempre uma garota, tem sempre um relacionamento. Você sequer sabe como é quando não tem ninguém?
Solto um riso nasalado, desdenhoso.
— Não é todo mundo que consegue ter a história de amor de Amélia e Rainer . Infelizmente, os filhos estão fadados ao fracasso de viver sempre à sombra da grande história de amor do casal — murmuro mais amargo do que deveria sentir-me, e Aurora me dá um soco dolorido no braço. Estou me ressentindo com algo que sequer deveria; era uma maravilha que meus pais fossem o ápice do que deveria ser um relacionamento, anos juntos, anos escolhendo um ao outro, mesmo com todos os defeitos, anos em que as brigas eram altas, mas que nunca tornavam-se justificativas, meros pontos a serem tratados e curados. Para meu pai não havia outra mulher se não minha mãe, e para minha mãe, havia apenas meu pai. Eles se amavam, e de alguma forma fazia dar certo, não apenas com os filhos que tinham, mas com o amadurecimento de seu próprio amor e perspectivas. Ter pais estáveis e maduros, que valorizavam um ao outro ao em vez de usarem-se como amar para se machucar, que genuinamente faziam de tudo um para o outro, havia estabelecido uma meta muito alta para qualquer um de nós acreditar realmente que terá algo parecido. Invejo-os por isso, porque fizeram parecer que valia tanto a pena amar que nos ensinaram a amar sem limites e precauções, a entregar nossos corações sem segundos pensamentos de cautela esquecendo-se que o que eles tinham era algo raro. Fizeram-nos acreditar que era possível, e não uma exceção. Faço uma careta, frustrado, mas não digo nada dessa vez. Para alguém do tamanho de Aurora, ela tinha uma mão pesada do caralho. E não tinha medo de usá-la. — O que você recomenda então, Cérebro?
Aurora revira os olhos, mas posso ver o canto de seus lábios se curvar para cima em um quase sorriso. Tento não rir e falho miseravelmente, aí estava, a prova viva que Aurora estava prestes a planejar a coisa mais estúpida que poderia competir diretamente com ; tenho a sensação de que serei o único a me ferrar.
— Pegar geral, Pink — ela pontua com uma piscadela, alçando meu celular outra vez, e desbloqueando com minha senha o aparelho sem dificuldade alguma. Vejo-a abrir a conversa com meus colegas de time e amigos. Estreito meus olhos, questionando-me se este é o momento certo para interrompê-la e avisá-la para parar de mexer no meu celular antes que ela visse alguma coisa que a traumatize pelo resto do mesmo, mas no fim ela apenas digita alguma coisa antes de devolver o aparelho para mim; concordou com as mais de dez mensagens de . Suspiro pesado, negando com a cabeça, mas não escondendo o sorriso que sinto crescer. Há uma sensação calorosa pulsando por meu peito, algo que sempre se segue quando Aurora é simplesmente Aurora. — Vai, se arruma, você vai para essa festa, nem que tenha que pagar a passagem de avião de volta. Agora, com licença, alguém precisa ajudar o Frey com a merda da lasanha que ele tá montando como a cara dele — acusa, lançando um olhar enviesado para Frey.
Frey, para seu mérito, retorna o olhar com uma expressão cínica.
— Tá ficando linda então — Frey diz. Encaro-o como se ele fosse um maluco, o que, de certa forma, era meio que requisito básico para receber o sobrenome .
— Vocês três são idiotas demais, honestamente — Rika, a voz da razão, retorna da dispensa carregando um pacote de batatas chips, e abrindo-a para esmagá-las com a mão. Vejo-a revirar os olhos, antes de colocar o pacote sobre o balcão. Alcanço-o para roubar um pouco, mas Rika, que segue os passos de Aurora como uma discípula dedicada, me acerta um tapa na orelha. O pacote, todavia, é roubado de volta por um Yule irritado, e com um amontoado terrível de maquiagem no rosto. Batom vermelho delineando os lábios de forma torta, quase fazendo-o parecer que tem o dobro de lábios, e eles são como os da Princesa Caroço de Hora de Aventura. Glitter de todas as cores possíveis se espalham por suas pálpebras e bochechas, e uma das meninas teve a brilhante ideia de colocar dois elásticos coloridos, um de cada lado da testa dele o fazendo parecer uma barata muito, muito irritada e com uma maquiagem horrível.
— Isso? É por ter deixado elas entrarem no meu quarto! — O garoto pragueja apontando acusadoramente na direção de Aurora e Frey, que congelam no ato de finalizar a lasanha. Encaram o mais novo com expressões que variam entre a surpresa e a exasperação parental, e uma necessidade de rir alto da bagunça que seu rosto se tornou como um bom irmão mais velho faria. Yule é o único de nossa família que possuí um quarto em todas as casas; quando visito Frey ou Rika, preciso dormir no sofá ou no quarto de hóspedes. Aurora praticamente divide a cama comigo, porque fazíamos isso quando éramos crianças, e o apartamento na Douais com e é o apartamento com e . Não contenho um sorriso, indicando com meu queixo na direção do garoto. Os risinhos de Elowen e os ruídos de Charlie tentando silenciá-la ecoam pelas escadas em direção a sala de estar com aquela inocência programada. Porra, como eu amo tanto elas… — Não se atreva,
— Rosa é totalmente sua cor, cara — Caí na gargalhada no segundo que o garoto me acerta na costela. Golpe baixo, mas era um sacrifício necessário. Rika solta um muxoxo ao ver o pacote de batatas roubado, e então, decide apenas retirar o sorvete do congelador, sentando-se ao meu lado. Oferece-me uma colher, por instinto, e então quebra o caramelo salgado que cobre a superfície do pote.
— A gente finalmente vai deixar o Teco em paz e se concentrar em terminar essa porcaria de jantar antes que a mãe e o pai retornem? — ela indica para a lasanha precária que Aurora segura, empurrando em direção ao forno ligado antes de revirar os olhos. — Sério, gente, porque tudo nessa família vira debate?
— Porque, tirando por mim, vocês não sabem fazer nada sozinhos! — Aurora retruca roubando da minha mão minha colher cheia de sorvete e comendo como se fosse dela. Solto um grunhido em protesto, mas antes que ela possa me dar outro soco, ergo as mãos em rendição.
— Aham, aham, a gente finge que é verdade, Rory — Frey acusou com um olhar retirando os potes sujos e a tábua de corte da bancada para colocar na pia. Tenho a terrível certeza de que eu serei o responsável por lavar a louça suja. Filho da puta, ele sabia exatamente o que estava fazendo. — Além disso, o Teco nunca fala o que tá acontecendo na vida dele, se a gente não ajudar agora, ele provavelmente vai fazer uma merda colossal da própria vida, como casar com a primeira coitada que aparecer no caminho dele!
— Tinha me ganhado no argumento, Frey, mas você tinha que endossar esse apelido ridículo, não é? — Acuso e Frey solta um gritinho indignado, apontando na direção de Rika, com um claro “ela que começou”, mas ignoro, saltando do banco e espreguiçando-me. Meus músculos estão travados pela viagem de avião até a Inglaterra, onde Rika estava morando por causa da universidade que começaria mês que vem. Londres era, igualmente, o lugar favorito de nossos pais; minha mãe era de SoHo, o bairro boêmio, e meu pai só precisava de uma desculpa para escapar de Oslo sempre que tinha chance. Depois de quase duas horas debatendo minha vida amorosa por um bando de idiotas que compartilham o DNA comigo, considero que meu turno está encerrado. Solto um suspiro satisfeito quando minhas juntas começam a estalar.
— Ah, eu acho um apelido muito bom — Aurora ressalta, dedo em riste, com uma careta, roubando mais uma colherada do sorvete; ela poderia fingir que não gostava, mas o sorrisinho preso no canto de sua boca lhe entrega com facilidade. Sei que minha outra metade estava com saudades de casa, e que usaria qualquer desculpa para aproveitar esse aniversário ao nosso lado. De todos nós, era a única com talento o suficiente e coragem o suficiente para mudar para outro continente para estudar na Julliard. Não posso negar que uma parte de mim, também estava desesperado para vê-la; mas agora que a vi, acho que posso sobreviver por mais seis meses sem ter que lidar com ela. Detesto quando ela está por perto, mas odeio ainda mais quando ela está longe.
— Cala boca, Tico, que eu ainda nem comecei a estudar psiquiatria e já tenho certeza que você tem sequelas demais para uma pessoa normal. Sem estabilidade emocional, sem opinião — Rika diz, roubando da colher de Aurora outra lascada de caramelo salgado. Aurora solta um grunhido fingindo surpresa. Solto uma gargalhada alta, sem ocultar que havia gostado do comentário; realmente, se eu iria ser chamado de Teco, que pelo menos Aurora fosse Tico. Sem negociações.
— E é por isso que a mamãe e o papai não te amam, Rika! — Aurora acusa, e Rika cai na gargalhada.
Ela joga o cabelo crespo, agora, cuidadosamente trançado em longas tranças finas, com fios coloridos de rosa choque para trás de seu ombro, e então, da maneira mais possível, vejo-a lançar uma piscadela para minha irmã gêmea com um sorrisinho insuportável. É inegável, Rika é nossa; sempre foi e sempre vai ser.
— Até parece! Eu sou a preferida deles, é comprovado! Eles me escolheram, vocês só foram os diagnósticos que eles tiveram que aceitar pelo caminho — Rika abre um sorriso largo, gargalhando, enquanto, eu, Frey e Aurora soltamos exclamações indignadas. Apesar disso, era um fato comum na família , àquela altura: ninguém ganhava uma discussão com Rika .

•••

— Então esse é o plano agora? — ecoa com uma nota nítida de descrença em seu tom de voz enquanto solta um arfar meio risonho, empurrando Maël para o lado. Ele chuta a bola de volta para o zagueiro do time, e Maël direciona-a para mim. Corro em direção a bola, para impedi-la de seguir em direção aos pés de Javier. — Você, , vai se tornar o garanhão da universidade? Olha, sinceramente, isso não é algo que eu estava imaginando que veria.
— Eu consigo ver — acrescenta, mais solícito do que deveria. Tenho vontade de acertá-lo com um tapa, mas se o fizer, vai apenas rir alto e me dar mais uma rasteira. — Norueguês, alto, com uma coisa de príncipe encantado, se ele se dedicar direito, vai ser insuportável.
— Aposto dez que a primeira garota que ele se envolver, ele vai se apaixonar — Maël, idiota que só, aposta, e dessa vez abaixo-me para pegar a bola de futebol. Com toda minha força, arremesso no desgraçado de sorriso torto e risada alta; erro miseravelmente quando a bola passa ao lado da cabeça dele, e acerta em cheio o rosto de Javier.
— Foi mal! — Grito erguendo a mão na direção de Javier, que arremessa a bola de volta com tanta força que quase desconfio que ele levou para o pessoal. Aponto de novo na direção de Maël com um aviso silencioso. — Se for fazer essa merda, eu quero metade do dinheiro.
— 20%.
— 60 e juros! — Maël solta um grunhido arrancando um punhado de grama do chão e jogando em minha direção. Acaba acertando , que permanece imóvel como se nada tivesse acontecido. Posso sentir o olhar do meu melhor amigo preso em meu rosto, julgando-me silenciosamente. Tento não rir, não porque sua expressão é divertida, mas porque é minha primeira reação. Sempre que estou em uma situação que deixa-me nervoso, a minha primeira reação é começar a rir como um belo idiota, antes de concentrar-me no problema em mãos. Aperto os cantos dos meus lábios, focando na bola. ajeita-a com uma embaixadinha, e então, toca em direção a mim; um toque rápido e deliberado. Corro um pouco para a direita para impedir que ela vá para longe, e chuto de volta, com um pouco mais de força.
A dor é imediata. Posso sentir a maneira com que os músculos em minha coxa se retêm, estendendo-se sobre meus ossos, a maneira com que meu joelho parece vacilar, e um pequeno tremor se instala onde o nervo foi pressionado. Trinco meus dentes com força, tentando conter um grunhido de dor, sentindo o olhar de Lamar voltar em minha direção. Paro por um momento, apoiando minhas mãos em meus quadris, chacoalhando minha perna, tentando aliviar não apenas a dor, mas a dor aguda e rápida que havia se apossado do membro. A frustração crescente. Estou a quase seis meses neste maldito limbo, talvez mais, e a sensação de que tenho é que não estou movendo-me para lugar algum — pior, parece que estou afundando-me outra vez. Exalo com força, obrigando-me a caminhar de volta na direção de onde estava esperando-me com uma expressão cínica, tentando disfarçar a preocupação crescente. Quero rosnar que estou bem, mas a culpa pela ideia de magoar meu melhor amigo é maior então apenas nego com a cabeça para ele, desconsiderando seu “tudo certo aí campeão?”. Sim, está tudo certo, tudo incrível nessa merda.
O olhar de pesa mais do que o de Lamar; de não consigo escapar.
— Não começa cara…
— Porque? Você saiu daqui numa merda de humor, aí você volta e de repente quer ser o garanhão deste campus. Agir como Margot nunca aconteceu. Além disso tá claro que essa porra ainda tá afetando você — resmunga cruzando os braços sobre o peito largo, negando com a cabeça. Lanço um olhar na direção dele, exasperado. — Se vai mentir, , pelo menos tenta fazer direito. Eu estou cansado de lidar com mentirosos. — Sua voz é amarga, o que me faz pausar por um momento e encará-lo em silêncio.
Há alguns meses atrás, algo aconteceu com . Algo que o fez desaparecer por uma semana inteira. e eu procuramos por todos os cantos de Paris, mas não havia pista alguma de onde ele poderia ter ido parar. Foi somente quando fomos atrás da irmã mais nova de que descobrimos uma pista de onde ele poderia estar. possuía duas irmãs mais novas, Brielle, uma adolescente irritante, mas que costumava deixar notas fofinhas nas nossas coisas toda vez que ia visitar em nosso apartamento. Falava muito sobre tópicos dos quais não tinha ideia sobre, mas lembrava-me vagamente de como Rika era quando tinha aquela idade, e então a mais próxima de nossa idade que era, para ser sincero, um completo mistério.
. Dois anos mais nova, e estudava na mesma universidade que nós, mas diferente de Brielle, nunca sequer pisou no mesmo prédio onde vivíamos, nem mesmo quando ficou três dias de cama, ou quando fizemos uma festa surpresa de aniversário para ele. , a garota de aparência frágil, quase quebradiça, do departamento de artes, que, aparentemente, era a única criatura legalmente autorizada pela reitoria para usar a Canon Profissional para ajudar o jornal com as fotografias. , a figura distante e de olhos tristes que se esgueirava pelos corredores como uma sombra, e que sempre estava por perto do campo para fotografar os jogos oficiais. A garota que nunca havia pedido para que sorrisse quando fotografa, ou que nunca reclamou as inúmeras vezes que teve que refazer a fotografias oficiais porque Maël não havia gostado de como seu cabelo havia ficado ou do ângulo da luz havia feito seu nariz parecer maior do que era. Acho que nunca sequer troquei mais de duas palavras com ela. tinha uma regra rígida sobre sua presença na universidade — muito porque tiveram a brilhante ideia de brincar, um dia, que a irmã de deveria ser durinha, já que era uma bailarina e surtou —, de que era fora dos limites para qualquer cara ali. , melancólica e silenciosa a quem sempre reclamou: “Como se ela estivesse se quebrando por tanto tempo que até mesmo respirar a faz se encolher de dor” e que mesmo assim estava no contato de emergência de . não falou nada, sequer foi cruel ou expulso para fora do estúdio de ballet da Universidade quando se distraiu observando os alongamentos das outras bailarinas, ela apenas suspirou pesado, murmurando que não sabia onde estava, mas que poderia pelo menos ajudar a começar a procurar por ele — não era uma novidade para ela os desaparecimentos de , só para nós. Anotou o endereço em um papel que ainda devo ter guardado em algum canto do meu quarto.
A letra tão pequena e curvilínea que era fofa — como um pouco da garota em si. O endereço levava a um chalé ao norte de Lyon, um antigo casarão da era renascentista que apenas mencionou uma vez de passagem como o lugar que a família dele frequentava nas férias. recusou-se a ir, disse que era o cenário ideal para um assassinato em série, mas como estava assutado demais com a ideia de , vulnerável, sequer ciente de que ele estava vivo ou morto, em pleno colapso do que segurança de fato, fui sozinho.
Encontrei em um estado lamentoso. Desidratado, deitado em uma poça de vômito e bebida alcoólica, chorando como uma criança. Pela maneira com que soluçava, acho que estava assim há bastante tempo. Já vi Frey chorar, já vi meu pai chorar, por Deus até mesmo eu já chorei por vezes na privacidade do banheiro ou no escuro enquanto Aurora me segurava em silêncio, esperando a tempestade passar. Mas nunca vi ninguém ficar no estado que ficou.
Não faço ideia do que aconteceu, ou porque ele ficou daquele jeito, mas não é o tipo de coisa que se cura com o tempo. Porra, não acho que sequer exista alguma cura a essa altura; algo aconteceu que mudou sua estrutura por completo, uma ferida tão profunda em sua alma que deve ter alterado a química de seu cérebro. Que havia virado do avesso abruptamente. Nós tínhamos nossos próprios métodos para lidar com nossas emoções, alguns nem tão saudáveis, mas ainda assim, quase três anos dividindo o mesmo apartamento devido à Universidade, nós acabamos aprendendo muito sobre um ao outro, sabíamos exatamente o que entrava por baixo de nossa pele, e o que atordoa, como também temos perfeita consciência de onde estava nosso limite — mesmo que tentasse ultrapassá-los às vezes. não me disse nada, não explicou e justificou; também não perguntei. Ajudei ele a se limpar, emprestei algumas roupas que tinha em minha mochila do treino, e dois dias depois, quando estava pronto para voltar à sociedade, o arrastei comigo de volta para o apartamento — o que não foi uma boa ideia porque apenas prolongou um pouco mais minha recuperação com a fisioterapia, rendeu-me pelo menos mais dois meses afastado do campo. Ainda estou tentando recuperar o estrago que, conscientemente, causei durante esse período. É por isso que meu joelho ainda parece sensível demais, errático, mas não me importo.
teria feito o mesmo por mim.
Tenciono a mandíbula, exalando pelo nariz.
— Não estou mentindo, , só acho estranho que você esteja inclinado a defender Margot e não a mim — reviro meus olhos, estou dizendo por falar, sei que não tem nada haver, mas a defensividade é quase impossível de evitar. — Sou seu amigo a mais tempo do que ela.
lança-me um olhar esquisito, por um momento os olhos se arregalam, e ele parece se tencionar como se estivesse prestes a avançar em direção ao meu pescoço, ou sair correndo, mas surge tão rápido e desaparece tão quanto, que por uma fração de segundos, acredito ter enxergado coisas. Movi a mandíbula, tentando conter uma careta, enquanto volto para minha posição. Indico com o queixo na direção de .
— Não é isso, irmão — murmura depois de um tempo em silêncio. — Só não parece algo que você faria. Você não é esse tipo…
Putain! — Oliver, um dos volantes do time, exclama abruptamente, chamando nossa atenção no mesmo segundo que a voz ecoa. O sotaque pesado do sul francês faz com que leve alguns minutos para compreender o palavrão. Ele indica com o queixo na direção dos nossos celulares no banco a pelo menos consideráveis metros de distância de onde estamos, e então corre em nossa direção estendendo o aparelho dele. e eu nos entreolhamos, para imediatamente de fazer embaixadinhas, mas não antes de passar o pé na frente de Maël e o fazer de cara no chão. Aglomeramo-nos ao redor de Oliver, sério, como sempre, contendo o riso, Maël cuspindo grama e eu, confuso. — Après Nuf postou coisa nova — faço uma careta no segundo que escuto o nome. Merda, que porra deve ser agora? Desde que entrei na faculdade, esse maldito podcast tem um costume de postar um episódio por dia com os mais baixos segredos revelados. Semestre passado, conseguiu expulsar um dos bolsistas após ser revelado o caso dele com um dos professores; o professor desapareceu, suspeita que simplesmente mudou de estado para lecionar em outra universidade, já que, considerando o prestígio dele, não demoraria muito para que o corpo docente ocultasse o que havia acontecido. Dois dos jogadores de basquete acabaram parando na Emergência depois de um episódio que revelou sua homoxesualidade, e tenho quase certeza que tem um cara de Publicidade que está obcecado em descobrir quem é a pessoa por trás do podcast, especialmente porque não há uma voz em si, apenas um ruído meio robótico anônimo que anuncia, com mais entusiasmo do que deveria, sobre o que é o episódio de hoje.
! — A voz robótica pulsa pelos alto-falantes do celular de Oliver.
Sinto quando o olhar de meus colegas de time e amigos se voltam para meu rosto. Tenciono a mandíbula com força, sentindo a tensão crescente apenas aumentar enquanto cruzo os braços sobre meu peito, preparando-me para quaisquer merda que sejam jogadas em minha direção. Considero o que diabos possa ter feito; não sou um santo, fiz muita merda ao longo desses três anos, mas a maioria não me levaria para a cadeia. Acordar no telhado do Departamento de Ciências Humanas sem camisa depois de uma festa, não era exagerado, só descuido. Reprovar em quatro matérias de uma vez depois do acidente, já era esperado. E bem, minha performance de Céline Dion é patética e meu espanhol ridículo, bem, isso era de se esperar. Quase posso sentir-me tranquilo, não tem absolutamente nada que possa ser dito que vá me fazer…
Me diz aí , agora que você se recuperou da queda que levou na última temporada, o machucado já deixou você pensar ou ainda é o mesmo lerdo de sempre? Já tá sabendo que a sua namorada… ou bem, sua ex-namorada ainda se diverte bastante com o seu melhor amigo? Não acredita? Dá uma olhadinha no vídeo aqui! — Tudo parece congelar. Não consigo respirar quando tomo o celular das mãos de Oliver, sentindo meus ouvidos de repente ficar abafados. Há inúmeras provocações que a voz faz, piadas as minhas custas sobre o quão cego ou o quão idiota sou por ter confiado cegamente. Há comentários que realmente acertam o ponto baixo em meu ego, colocando-me como um idiota em frente a todos da Universidade, mas não é isso que me prende no lugar ou no momento. À minha esquerda, posso sentir quando congela no lugar. Como ele para de respirar por uma fração de segundos, como não move um músculo sequer, os olhos arregalados, fixos em meu rosto.
Porque em minhas mãos, a imagem nítida e incontestável que tenho dele o incrimina com precisão; sinto-me estúpido por não ter enxergado isso antes, sinto-me idiota o suficiente para querer largar tudo e voltar para casa, mesmo que vá apenas piorar a situação se fugir. Sinto-me estúpido por ter confiado nele. Ao em vez disso, apenas fico parado no lugar, amortecido, assistindo o vídeo em que beija uma Margot seminua como se não houvesse amanhã. Como se nunca tivesse existido ninguém.
Como se nossa amizade não tivesse sido nada. E porventura, talvez nunca tenha sido mesmo.
02


“That’s all they really want, is some fun
When the workin’ day is done
Oh, girls, they wanna have fun,
Oh, girls, they just wanna have fun”

GIRLS JUST WANNA HAVE FUN

SOPHIA SE INCLINA PARA FRENTE, estreitando os olhos com uma mistura de incredulidade e exasperação. O que por si só deveria ter me feito hesitar, talvez, porventura apavorada com o escrutínio de seu olhar, ou até mesmo com o temor de que ela pudesse finalmente perceber que havia algo de errado comigo, e desistir de ser minha amiga. A verdade é que a ideia de perder a amizade dela não era apenas motivo de ansiedade crescente para meu cérebro desequilibrado, era igualmente a concepção de que a Universidade ficaria muito mais solitária do que já era. Mas para meu completo alívio — ou horror —, ela aperta a linha de seus lábios, apoiando o queixo sobre a mão, analisando-me atentamente e então solta um bufar, frustrado.
— Você é completamente idiota — resmunga ela com um tom de voz cético, e teria começado a rir, se não estivesse com minha boca cheia de marshmellow. Anaïs faz uma careta de completo desgosto por nossa postura, estreitando os olhos, e apoiando o cotovelo sobre a mesa, repousando o queixo sobre a palma da mão, completamente a perda de suas palavras. Mia solta um bufar baixo, revirando os olhos. Aponto o indicador na direção de Sophia, antes de dar-lhe o dedo médio. Sophia revira os olhos, alçando do canto da pequena mesa de mogno que Anaïs havia insistido que trouxéssemos do mercado de pulgas, simplesmente porque daria um ar de “profissionalismo” para aquela maldita cabine, mesmo que fosse composto apenas por nós quadro, e então despeja os marshmallows a minha frente. — Para de ser covarde, aposto que você consegue colocar mais dez dentro da boca — Lanço um olhar horrorizado na direção de Sophia, porque já estou com quinze marshmallows dentro da boca, imagina enfiar mais dez. Mas como não sou covarde, aceito o desafio estúpido quase imediatamente, tomando o pacote das mãos de Sophia e começando a enfiar mais marshmallows em minha boca. É terrível, o gosto perturbadoramente doce, nauseante, e por um segundo sinto o reflexo de engasgo. Um marshmallow atinge o fundo da minha garganta, e perco o ar.
Anaïs pisca, os lábios entreabertos com uma ponta de surpresa e até mesmo respeito. Mia, do outro lado, para de enrolar os cabos, inclinando-se para frente, como se de repente tivesse se tornado um maldito juiz.
— Filha da puta, não é que ela conseguiu? — Anaïs murmurar exasperada, e Mia abre um sorriso largo, dando-me dois sinais positivos, antes de negar com a cabeça. Acho que vou desmaiar com a quantidade de açúcar que ingeri nos últimos cinco minutos, mas tudo o que faço é tentar mastigar a porcaria de uma massa insuportável de sabores artificiais e açúcar industriais. Se Madame Joëlle visse-me aprontando uma dessas, além de um ruído muito alto que se assemelha com um rosnado de cachorro, receberia uma advertência por obstruir seu trabalho, ao sair de forma, mesmo que por uma mísera grama. Acho que é por isso que Sophia costuma incentivar tais “competições” entre nós quatro; ela odeia a ideia de que uma de nós fique abaixo do peso adequado para nossa altura. É uma boa forma, igualmente, de lembrar-me de que deveria comer alguma coisa, mesmo que fosse marshmallows quando possuía a tendência de simplesmente esquecer quando me convinha devido ao estresse.
Amo tanto Sophia que chega a doer.
, senhoras e senhores, nossa rainha dos marshmallows — Sophia diz, com um tom ridículo que lembra a de um locutor de UFC, antes de me dar espaço para levantar e fazer uma mesura do qual estou bem mais orgulhosa do que deveria. Mantive, mais uma vez, meu recorde intacto como a pessoa que consegue enfiar mais marshmallows garganta abaixo em nosso grande grupo de quatro pessoas. Isso já vale, tendo em vista que de todas as pessoas dentro do cubículo de som, provavelmente, sou a única que não ajuda em nada, apenas oferece apoio moral e está aqui por estar. Sophia solta um risinho baixo, batendo palmas, e Anaïs nega com a cabeça, murmurando algo sobre “idiotas”, deixando-se cair para trás do encosto da cadeira.
Dou de ombros, ainda impossibilitada de falar, encaminhando-me na direção onde Mia está, a fim de ajudá-la com os cabos, já que era melhor do que ficar parada, sentindo o gosto de corante artificial escorrer ao fundo de minha garganta. Mia nega com a cabeça, um silencioso “não preciso de ajuda”, que desconsidero com um olhar.
Mia Noel era uma criatura curiosa, para dizer o mínimo. Era linda, à sua própria maneira. Sua beleza, todavia, não seguia os padrões estéticos esperados, porventura algumas pessoas diriam que seus olhos eram um pouco mais separados do que deveria, ou que seu nariz alongado era reto demais, mas para mim, Mia era extraordinariamente bonita. Porque seu rosto era marcante, porque havia algo tão único dentro dela que era impossível de negar que não estava ali, e porque ela era Mia. Usava o que gostava e não era apologética sobre, se gostasse de roupas com glitter, as vestiria com a mesma frequência em que usava os vestidos rodados e delicados que ela mesma fazia. Ou as blusas de crochê coloridas que fazia duas semanas que vinha tentando roubar para mim — a verde clara é minha preferida.
Na maioria das vezes, Mia quase não fala. Não porque ela não soubesse como, tenho certeza que sabe — especialmente porque, em alguns determinados momentos, ela é tão eloquente quanto nossa locutora —, mas porque simplesmente não parecia ver necessidade em o fazer. Em algum momento do passado, ela teve reais problemas com sua fala, de acordo com Anaïs, Mia não tinha tido uma boa experiência no Ensino Médio, e talvez como a mim, não encontrou exatamente o suporte familiar que deveria ter tido durante essa época, acabou escolhendo portando o silêncio. Agora apenas escolhia não dizer nada, optando por observar e assistir as discussões, mas isso não significava, igualmente, que ela não impunha suas opiniões ou que era invisível. Aprendi rapidamente desde que a conheci, que apenas porque uma pessoa escolhia ser silenciosa, isso não a fazia ser menor, pelo contrário. Mia é uma gigante, só é econômica com baboseira alheia.
Às vezes, invejo. Quer dizer, tenho a estranha sensação de que estou sempre a um pequeno passo de começar a compartilhar tudo sobre mim para o primeiro estranho que queira ouvir. Sophia diz que sou apenas amigável; sinto-me uma bela tagarela que apenas não teve a oportunidade de desabrochar, então conversa com o vento esperando que alguém possa ouvir. Faço uma careta, cutucando com a ponta da língua um pequeno cantinho do meu dente em que um pedaço de marshmallow havia enroscado.
— Já temos os números? — Mia questiona ao meu lado, tomando de minhas mãos os cabos cuidadosamente enrolados, arrastando de volta para dentro do armário. Não é que precisemos de aparelhos analógicos, é que, parte do projeto de Noel e Durant propunha isso. Sophia estala os lábios, como se tivesse acabado de lembrar-se disso, e Anaïs lança um olhar. Ainda tenho o maldito pedaço de marshmallow em meu dente, então ocupo-me em retirá-lo enquanto desfaços as estruturas dos apoios dos microfones.
— E… — Sophia murmura digitando furiosamente contra meu notebook esfarrapado, com a tela meio quebrada na altura do apoio, e que está tentando virar um tablet mesmo que não tenha touchscreen algum. O adesivo que ela havia comprado para mim como uma piada de aniversário, agora estava maior do que antes, com pelo menos vinte logos do Barcelona ao redor de um logo específico do Real Madrid. Sophia se afasta um pouco, batucando teatralmente contra a mesa e então abre um sorriso largo. — Temos os números, senhoras e senhores!
Anaïs imediatamente avança para tomar o notebook em suas mãos, quase acidentalmente deixando a tampa para trás, antes de bufar e ajustá-la de volta ao lugar, inclinando-se para frente. Por um segundo, Mia e Sophia se inclinam na direção de Anaïs esperando pelo veredito. Contento-me em ajeitar as duas maletas onde os pedestais ficavam guardados, antes de carregá-las de volta para o armário. Uma vez que estão devidamente em seus lugares, fecho o armário, trancado-o e guardando de volta no bolso de minha jaqueta, com uma nota mental de não esquecer de devolver a porcaria das chaves de novo.
— Dez mil visualizações a mais do que o anterior! — Anaïs abriu um sorriso largo, satisfeita, jogando seu longo cabelo liso para trás de seu ombro esquerdo. O nariz empinado, deveria fazer parecer esnobe, no mínimo, passar a falsa impressão de que não era amigável, mas a verdade é que, de todas, Anaïs sempre foi a mais doce; ela só não oferecia isso para todos. Sophia comemora com uma gargalhada e um high-five com Mia. — Eu disse para vocês que iria funcionar.
Faço uma careta, ainda um pouco desconfortável com toda a situação, mas bem, atos e consequências não é. Algo vibrou no bolso traseiro de minha calça mas ignoro, aproximando-me da cadeira de Anaïs tomando-a para mim, quando a morena se levanta com a graça de uma modelo, e caminha em direção ao nosso mural. Pega a caneta vermelha, piloto, e risca com um X preciso o rosto de e . Mordo o interior de minhas bochechas, sem conseguir conter um pouco da culpa que começa a espalhar-se por meu peito. Volto-me para o notebook, verificando os dados de publicação e
— O primeiro já foi, agora faltam, o que? Mais dez? — Sophia murmura enquanto Anaïs admira sua obra prima: O Mural da Vergonha.
Dois — corrijo Sophia com um tom de voz mais baixo do que o normal. Sophia lança-me um olhar, exasperado. Dou de ombros, encarando minha colega de quarto, sem conseguir esconder o pesar. — O que? Foram dois. Querendo ou não, foi o dano colateral…
— Não me diz que você tá com dó deles, — Sophia murmura, unindo as sobrancelhas, e três pares de olhos se fixam em meu rosto, julgando-me profundamente. Abro minha boca para responder, mas então a fecho abruptamente, porque a verdade está escrita na minha cara, e não poderia negar nem mesmo se tentasse. Se por natureza sou uma péssima mentirosa, quiçá tentaria mentir para as três almas que pareciam me ler melhor do que eu mesma. Mia suspira, revirando os olhos, Sophia me julga com intensidade, e Anaïs arremessa a caneta na minha cabeça. Acerta em cheio, um barulho vazio ecoa pelo espaço e faço uma careta com a dor aguda que se instala no local acertado. — Fala sério, cara! Primeira regra, não sentimos pena de quem não sente pena de nós!
Massageio o local acertado por Anaïs com um suspiro derrotado.
— Eu sei! Eu sei! Mas qual é, também nunca pareceu ser uma pessoa ruim… — tento argumentar e sinto-me uma idiota, porque estou defendendo um dos caras que não poderia se importar menos com o que acontecia ao seu redor desde que ele conseguisse o que queria. E daí se havia dançarinos que precisavam desesperadamente das vagas que a turma de fisioterapia abriam, e não tinham dinheiro para pagar? A estrela do time da Universidade precisava cuidar do machucado que já perdurava há seis meses.
— Ele literalmente tomou a sua vaga, ! — Anais retorquiu com um tom de voz severo. Umedeço meus lábios, porque contra fatos não há argumentos. Dou de ombros singelamente, desconsiderando a fala dela. — Para de tentar arranjar desculpas só porque ele é bonito, .
— Oi! Eu nunca disse isso! — Acuso, porque é simplesmente um completo absurdo que ela me acuse que meu julgamento seja pautado em estética e aparência física quando o homem dos meus sonhos é o Danny DeVitto e qualquer coisa que se assemelhe com o Venom. Mia cruza os braços sobre os seios, erguendo uma sobrancelha, e Sophia solta um risinho irritante. Lanço um olhar severo na direção das duas, mas acho que pareço mais com uma criança dando birra porque as duas dão risada da minha expressão. — Gente, para, nunca foi sobre isso! Ele só foi legal quando veio falar comigo, digo, ele me chamou pelo nome, e agradeceu, só isso!
Anaïs piscou, parecendo estupefata com o que havia acabado de ouvir. Mia suspira suavemente, apertando os lábios. Sophia aperta a ponte de seu nariz, massageando-o como se estivesse tentando evitar uma enxaqueca. Abro minha boca e então a fecho, percebendo o que havia acabado de falar e o que, entrelinhas, havia deixado escapar sem perceber. Mordo o interior de minhas bochechas, assentindo deliberadamente, enquanto apontava para Sophia.
— Saquei, saquei. Minhas expectativas, deixar mais altas, vou melhorar! — Sophia nega com a cabeça, e aponta na minha direção com a palma da mão aberta, encarando Anais exasperada, quase silenciosamente dizendo “resolve isso”. — Posso me defender?
— Não — as três respondem juntas. Cara, odeio elas…
— Ele é bonito — Mia diz por fim. Solto uma exclamação, ultrajada e fingindo-me de traída, e aponto na direção de Noel, encarando Sophia e Anaïs, mas as duas estão me ignorando completamente. Jogo minhas mãos para o ar, voltando a limpar o histórico, e os rastros deixados para trás do podcast, exasperada. Muito justo. Quando Mia fala, é tranquilo, não é um ataque contra o nosso pacto, mas quando sou eu que falo… — Quem é o próximo?
, óbvio — resmunga Sophia, revirando os olhos, com uma ponta de desdém, e suspiro pesado.
— Exatamente. — Anaïs prende a caneta entre os lábios, passando os dedos pelos cabelos longos e então, prendendo-o em um coque improvisado sem elástico ou lápis para segurá-lo, fazendo-o cair como uma cascada por suas costas antes de voltar a escrever no mural com o rosto dos jogadores, circulando o de e então puxando uma grande seta para fora. — As meninas do Rugby deixaram bem claro que ele tem um passado. A gente só tem que descobrir qual deles as meninas estavam se referindo.
— E ele tem tantos? — A pergunta é, apesar de tudo, genuína. Anaïs lança-me um olhar, antes de dar de ombros.
— Se tem um cara que segue o estereótipo de jogador é esse, . Presta atenção!
Sophia suspira pesado, cruzando os braços e deixando-se recostar contra a cadeira, encarando-me com uma expressão desapontada.
— Fala sério, seria tão mais fácil se a Santa dos Loiros Oprimidos aqui simplesmente esbarrar nesse segredo também — Sophia diz, e lanço-lhe um olhar derrotista.
— Cara, eu não ‘tava defendendo… — desisto de argumentar com um suspiro frustrado, fechando o notebook, e espelhando a postura da minha melhor amiga, mas ao em vez de encarar uma delas, deixo minha cabeça pender para trás, encarando o teto mofado do espaço. Acho que o mofo preto está começando a querer falar comigo, se comunicando em padrões, mas recuso-me a virar uma desvairada transfóbica apenas para me sentir especial. Talvez possa me tornar um problema para a polícia… — Eles foram descuidados. Quer dizer, sabia que havia câmeras ali, porque ele não avisou ela? Não que esteja defendendo ele Anaïs…
— É bom que não esteja mesmo, não é porque ele é seu irmão, que muda o fato de que ele me traiu, .
Faço uma careta. A palavra parece cruel demais para que Anaïs, mesmo com seu nariz empinado e sua personalidade difícil, tivesse que carregar pelo resto da vida. Exalo lentamente, repousando meus cotovelos sobre a mesa, apoiando meu queixo sobre a palma de minhas mãos e encaro, Sophia, com uma ponta de culpa. Acho que em partes a culpa é minha; se tivesse sido um pouco mais atenta, se tivesse deixado meu orgulho de lado, e sentado para conversar com ele… talvez… talvez ele não estivesse tão… o que quer que estivesse agora. Esfrego minhas têmporas sentindo o incômodo aumentar. Terei uma enxaqueca em breve, e não são nem mesmo meio dia.
— Eu sei, eu sei! E é esse o ponto! — digo com uma ponta de pesar, evitando olhar para Sophia, e encarando um ponto invisível da mesa. — Parece que ele queria ser pego. O que não faz o menor sentido, porque já o vi com outras pessoas antes, não parece que ele ame Margot… só… sei lá, mas se era isso, então por qual motivo? Não é como se a gente não soubesse o que essa merda causa, ele mais do que ninguém…
— Só porque você entende uma pessoa ruim, não significa que isso altera o que foi feito — Anaïs retruca com um tom de voz mais baixo, cauteloso, lançando-me um olhar. Encaro-a sentindo a familiar exaustão espalhar-se por meus ossos. De repente fico extremamente consciente da dor em meu tornozelo esquerdo e de como desejo apenas deitar-me até tudo desaparecer. — Um trauma pode ser contexto, , mas nunca vai ser justificativa. Ele sabia o que estava fazendo, e sendo lá o que estivesse pensando, ele escolheu mesmo assim. E Margot também. Ela sabia que estávamos juntos, ela era minha amiga. Eles me traíram, foi uma escolha, essa merda não acontece com um esbarrão, leva tempo.
— Amém — Sophia diz por fim, batendo na mesa e então se levantando com um pequeno salto para espreguiçar-se com um suspiro que quase soa satisfeito com a resolução daquele episódio. Assinto em silêncio, mas não digo mais nada. — E não é um santo. A família dele é podre de rica, eles poderiam facilmente arranjar a merda de uma fisioterapeuta particular para ele, se fosse assim tão importante. Seu tornozelo tá atrofiando, , sua bolsa depende dessa merda! E a gente sabe que você não pode contar com o seu pai nisso.
— Na defesa dele, ele ofereceu…
Comprar você, depois de tudo, não resolve! É isso que você quer? É esse o valor que você tem? — Sophia me corta antes que possa responder, e sinto uma pontada afiada bem no centro do peito. As palavras doem, mais porque ela está certa do que pela maneira com que ela diz. Aperto os cantos dos meus lábios, inclinando-me na direção de Mia, quando ela repousa sua mão quentinha no meu ombro. Era bem mais macia do que as de Sophia, e isso já era algo. — Se vamos derrubá-los, então faremos sem misericórdia. Além disso, não é como se isso não fosse o que os idiotas fazem no vestiário. Só estamos pagando na mesma moeda — Sophia diz, surpreendentemente mais amarga do que ela deixa parecer. Não posso culpá-la, qualquer um que tivesse passado pelo o que ela passou nas mãos de Maël não a culparia.
Considero as palavras dela por um longo momento, abraçando o braço de Mia, permitindo-me desviar da conversa enquanto penso em retrospecto na grande falha de toda a situação. Em como tudo havia mudado desde aquela maldita conversa no restaurante. Era uma merda que uma parte de mim, ainda se sentisse culpada por tudo. Deveria sentir-me vingada, ou ao menos satisfeita ao ver as pessoas que me atormentaram durante a minha vida inteira, desmoronarem. Celeste estava em uma crise completa, ainda tentando manter a imagem. Brielle havia entrado em colapso quando perdeu o posto de princesinha. estava fora de controle, e Étienne… o que ele esperava ganhar agora? O que ele esperava recuperar depois de tanto tempo? Ainda assim… não consigo sentir-me como outra coisa se não uma grande perdedora. Não há vitória aqui, apenas pedaços quebrados, pedaços que não sei como concertar, ou se sequer deveria concertar — não quando não consigo sequer consertar-me. Permito-me distrair com o som das vozes de Sophia e Anaïs planejando quais os próximos passos que deveríamos tomar para o próximo episódio, ao mesmo tempo que Mia aponta pequenos lembretes do projeto que ela e Anaïs deveriam estar fazendo e que deveria servir como “álibi” para nossas atividade ilegais na antiga estação de rádio. Somente quando Anaïs murmura alguma coisa sobre bebidas baratas que os jogadores tomam que solto uma pequena exclamação.
Bas-fonds — murmuro, e Sophia ergue uma sobrancelha murmurando um “saude”, lanço um olhar na direção dela, tentando não sorrir com a piada idiota. Sophia assopra-me um beijo no ar, rindo de sua própria piada. — O bar. sempre falava desse lugar, a maior parte do time se reúne lá, a gente pode começar a investigar por lá.
Sophia abre um sorriso largo, satisfeita.
— Viu? É por isso que a gente mantém ela aqui! — Diz satisfeita, se inclinando sobre a mesa e então tentando acertar minha mão com um high-five, mas perco o momento, e acabo indo para um aperto de mão. Nós tentamos de novo, e ela vai para o aperto de mão, e eu para o high-five; acabo recebendo um tapa na lateral da cabeça. Sophia suspira pesado. — Olha, sinceramente…
Mia solta um riso suave atrás de mim. Quero morar no riso dela.

•••

— Você é uma péssima atriz, sabia? — Anaïs finalmente diz o que percebo, estava tentando encontrar uma maneira mais delicada para falar, e tento não revirar os olhos. Não é que não queria lidar com uma conversa séria no momento, apenas… estou lidando com conversas sérias a tempo demais. Fazem meses que tudo o que converso, é algo sério e que irá mudar a vida de alguém. Por uma fração de segundos, quero apenas ser uma garota da minha idade, conversando sobre alguma fofoca alheia ou alguma trend nas redes sociais que não precisem se limitar apenas a garotos ou a quem estaria interessado em mim, esperando por uma oportunidade. Não me entenda mal, adoro ouvir minhas amigas falando sobre os caras com que elas se interessam, e muitas vezes, é isso que nos aproxima, mas verdade seja dita, o cinismo já corrompeu-me a tanto tempo que não consigo imaginar que um dia irei apaixonar-me e confiar em um alguém o suficiente para ficar animada a dizer isso a alguém. Talvez o amor apenas não seja para mim, e tá tudo bem. Anais suspira pesado ao meu lado, daquele jeito que faz quando está começando a ficar impaciente com sua própria falta de tato, e então, joga os cabelos longos para trás de seus ombros, eles deslizam, lisos e elegantes, por suas costas, como um manto de seda. — , você sabe que vai ter que falar sobre isso alguma hora, não dá para ficar engolindo e fingindo que nada está acontecendo. Por deus, até a Mia já reparou que há algo de errado, e Sophie não vai te pressionar, sabe-se lá porquê, mas não vai fazer! Você tem que falar se quiser que a gente te ajude, e sinceramente, eu quero ajudar, mas não faço ideia de como fazer isso.
Solto um suspiro pesado inclinando-me contra a lateral do armário dela. A observo retirar o jaleco de dentro do armário, com uma lufada pungente de naftalina e álcool isopropílico, acompanhando, por baixo do cheiro, com algo que só poderia vir dos laboratórios de anatomia. O formol que parecia acompanhar todas as almas vivas que adentravam por aquele espaço. Cruzo os braços sobre meus seios, apertando os cantos dos lábios, contemplativa. Acho que faria uma médica terrível se me propuser a tarefa; não, talvez eu fosse até mesmo boa, mas sem sombra de dúvidas iria carregar como uma história de terror a ideia de que toquei em um verdadeiro corpo. Quase posso imaginar-me dizendo com um tom de voz grave “ah, eu lembro quando toquei em meu primeiro corpo” apenas para observar a expressão de completo horror que seria me direcionado. Finjo tossir afastando a ideia quando Anaïs estreita os olhos, julgando-me. Abro a boca para respondê-la, para pelo menos explicar que havia me distraído, mas ela simplesmente nega com a cabeça.
— Eu não sei nem porque eu ainda tento — Anaïs diz, e embora exista sim um tom frustrado em sua voz, o pequeno sorriso que surge nos cantos de seus lábios é o suficiente para me fazer ao menos acreditar que não sou lá assim uma causa tão perdida.
— Porque você me ama? — digo com um tom de piada, um sorriso largo começando a surgir em meu rosto enquanto tento aparentar mais docilidade; não sou exatamente doce. Um desastre? Com certeza. Doce? É… — E porque eu faço a sua vida muito mais colorida, e feliz, e é por isso que nossa amizade é sincera e verdadeira.
Dessa vez Anaïs realmente sorri, e quase me sinto orgulhosa por isso. Coloco minhas duas mãos para trás de meu corpo, inclinando a cabeça para o lado, e permitindo-me a observar sem interesse algum os corredores. Estão agitados como sempre. Os prédios de saúde normalmente são os mais agitados tirando pela área com as Engenharias, mas há algo estranho, pelo menos hoje. Há pelo menos três membros do time de futebol que estudavam por ali, e que, por si só, já deveriam ter chegado. deveria estar ali; não para a aula de anatomía que Anaïs teria, mas para algo relacionado a psicologia ou coisas do tipo — ele nunca havia me contado muito de qualquer forma. A eletiva de psicologia era meramente um de seus interesses pessoais que Etienne, na verdade, havia ficado feliz por sua escolha, especialmente porque poderia o tornar um líder mais competente se ele soubesse como lidar com outro ser humano. Tenho vontade de bufar e revirar os olhos; é tão parecido com Étienne…
— advertiu Anaïs e volto a encará-la com um suspiro pesado.
— Não tem nada para dizer, Durant — murmuro dando de ombros, pegando um dos adesivos que ela havia colado na porta de seu armário, analisando-o brevemente e então fazendo questão de colá-lo na parte de trás de meu celular. — Está tudo bem, e Sophie só não disse nada porque ela sabe que está tudo bem.
— Corajoso da sua parte querer convencer alguém disso — Anaïs pontua quase segundos após meu pequeno discurso exasperado. Lanço-lhe um olhar, e Anaïs espelha o movimento que havia feito com os ombros. — É uma sorte que você tenha conseguido uma vaga no balé, porque teatro, certamente, não é a sua, .
Aperto os cantos dos meus lábios tentando não fazer uma careta. Detesto o apelido, especialmente porque foi quem deu; costumava ser uma brincadeira entre crianças, mas em algum momento, se tornou apenas… pejorativo. Anaïs não faz por mal, ela acha engraçado como qualquer outra pessoa naquela Universidade, que, desprovida do conhecimento necessário, veria o apelido como algo completamente bobo e engraçadinho. Não a corrijo nem peço para que pare. Não é ela a culpada pela conotação pejorativa que havia adquirido; sou eu. Volto a encará-la, desta vez, por um longo tempo. Anaïs é exatamente o tipo de garota parisiense que qualquer garota gostaria de ser, e qualquer cara gostaria de tentar namorar apenas para dizer como ela havia partido seu coração. Não havia nada de performático sobre a garota, ela era simplesmente o que era: maldosa, com nariz arrebitado empinado, e com um estilo adaptado dos anos 2007 que poderia ter saído de um filme, e adaptado para bom gosto. Os cabelos estavam sempre impecáveis soltos, e sua maquiagem era elegante o suficiente para não parecer exagerada mas elaborada o suficiente para ainda marcar seus traços. E ela ficava deslumbrante de bordô, não à toa era a cor que mais usava. Uma mistura de Femme Fatale com Amelie Poulain, exceto que ela era a única de nós quatro que realmente tinha coragem de lançar-se ao desconhecido sem hesitação.
Se não pelo caos que traria, pela nova experiência. Brava e intensa, essa é Anaïs.
— Desculpa por tudo o que ele fez — digo por fim, sem ocultar o pesar genuíno que sinto em minha voz. Sinto a tensão aumentar em meus ombros, enquanto a encaro em silêncio, questionando-me o quanto dela via-me como uma amiga genuína, e o quanto era só uma maneira de fazer pagar pelos erros que cometeu com ela. Anaïs estreita os olhos, encarando-me por um momento com descrença, e então exasperação. Percebi imediatamente que posso ter falado demais, ou equivocado-me em minhas palavras. Questiono-me se a ofendi de alguma forma. — Estou falando sério, Anaïs, de todas as coisas que ele poderia ter feito, eu realmente sinto muito por ter…
— Me refresca a memória, — Anaïs corta minha fala antes que possa completá-la, e uma parte de mim se frustra, considerando que não deveria ter dito nada. As vezes minha boca era maior do que minha consciência, e antes que pudesse me impedir, iria dizer alguma merda que acabava com o momento e estragava permanentemente a amizade. Inspiro fundo, sentindo o ar gélido matinal espalhar-se por meus pulmões com uma ponta de desconforto. À minha esquerda, se inclinar a cabeça do jeito certo, posso sentir o aroma pungente de formol e químicos que só podem servir para manter um corpo conservado. — Mas você fez o que de errado para mim?
— Anaïs…
— Não, não, agora estou curiosa, porque até a onde eu sabia o relacionamento era entre mim e o seu irmão, nós nunca incluímos você no meio — Anaïs resmunga, a voz afiada, mas seu olhar, embora seja tão atento quanto os de um gato, não são maldosos. Estão apenas cansados, e, é claro, com uma ponta de satisfação pessoal. Ela dá de ombros, tencionando a mandíbula com um pequeno movimento, fingindo-se concentrada no armário à sua frente. Ela termina de retirar a caixinha de luvas, e então o fecha com um estalo alto. Faço uma careta, por instinto, encolhendo-me, como se o metal pudesse me morder. — Por que você tem essa necessidade tão grande de se desculpar por coisas que você não fez? Nem tentou se desculpar comigo, , não é como se eu esperasse que ele fosse reconhecer toda essa merda, você não precisa amortecer as coisas para ele.
Considero suas palavras, girando nos calcanhares para deixar o caminho em direção aos laboratórios livres, inclinando minha cabeça para trás para encarar o teto com desinteresse. Era insuportável que o espaço tivesse aquela maldita estrutura antiga que fazia com que tivéssemos a sensação de estar andando em solo sagrado, do que em um ambiente de ensino. É uma pena que boa parte da estrutura do que outrora fora um palácio, agora se perdia para concreto queimado, drywalls e estruturas neo brutalistas de iluminação. Blocos que serviam mais para encarcerar do que oferecer genuína apreciação à antiga estrutura. Acho que gostaria de andar pelos corredores mais antigos como se estivesse acabado de sair de algum tipo de realidade alternativa; fazia-me quase sentir falta do casarão do vovô.
— Só parece… — começo a dizer, devagar, escolhendo minhas palavras com cuidado, antes de piscar, chacoalhar a cabeça e encarar Anaïs. — Não quero ferrar com essa amizade também, entende? Não é como se eu tivesse muitas amigas por aqui…
Anaïs abre a boca para responder-me, mas então, hesita. Uni as sobrancelhas, contendo o impulso de erguer uma sobrancelha confusa com a ideia de que Anaïs, Anaïs Durant era capaz de hesitar. Os lábios vermelhos bordô tremem um pouco enquanto ela exala, baixo e deliberadamente. Pisca os olhos com os cílios longos várias vezes antes de pigarrear.
— Bem, isso só pode ser por causa daquela maldita competição que você e Sophie tem, sério, é super nojento — Anaïs se recupera rápido. Ela não me responde, finge que nunca admiti nada, mas pela primeira vez em muito tempo, o fato de Anaïs não querer responder-me, não significava, automaticamente que ela não havia me compreendido. Ela o fez, à sua maneira, só não estava pronta para conversar sobre; talvez nem mesmo eu estivesse. De qualquer forma, é um certo consolo observar que minha nova amiga ao menos se dá ao trabalho de me ouvir. — Você tá fugindo, , e sinceramente, não vou agir como se soubesse o que é passar por essa merda toda que você tá passando, mas se você continuar fingindo que não enxerga, vai acabar tropeçando.
— Para me derrubar tem que assumir primeiro que estou de pé, o que, sinceramente, passa muito longe da verdade — abro um sorriso solícito, largo, satisfeita com minha resposta, e posso ver o momento que Anaïs realmente considera iniciar sua aula expositiva, usando-me como seu exemplo de deformidade cerebral; a falta de cérebro constatada pela falta de uso, do que por qualquer deformidade. Aperto os lábios outra vez, e fico a encarando por um breve momento. — Ela era minha mãe, An… — começo a dizer sentindo o familiar peso se formar ao redor de minha garganta. Anaïs pausa por um momento, encarando com muito mais interesse do que deveria os livros em suas mãos, mas não diz nada, nem me encara. Agradeço-a mentalmente por isso, odeio a ideia de alguém encarar-me e ver realmente o que se passa. A vulnerabilidade que não irei conseguir esconder quando alguém encarar meus olhos, porque Étienne sempre havia sido muito hábil para lê-la. E todas as vezes, isso acaba muito mal. Forço um sorriso, mas sinto como se estivesse esticando plástico sobre meu rosto. É insuportável. — Ela supostamente deveria me amar também. Ela sabia de tudo isso o tempo todo, ela me viu ser tratada como fui, e não fez nada. Sabia que haviam favoritos, mas nunca achei que ela só… não se importaria…
— Perda dela, — Anaïs começa a dizer, e embora eu a ame pelas palavras, não significam nada. Porque não sinto que Celeste perdeu alguma coisa; sinto apenas que eu fui privada de muito. Que não há tempo para corrigir o passado porque nunca houve outra alternativa final se não essa. Não posso forçar alguém a me amar, tanto quanto posso forçar-me a não sentir a dor de não ser amada. — O que você está perdendo aqui, ? Como você pode sentir falta de algo que nunca conheceu?
Não a respondo. Não digo que Celeste era capaz de ser uma boa mãe, ela havia sido incrível para e Brielle. Vejo como ela age com eles, como é cuidadosa e carinhosa. Não digo que o que dói é a certeza de que ela poderia ter sido uma mãe incrível para mim, mas escolheu não ser. Porque talvez eu nunca tenha merecido. Porque talvez nunca tenha sido suficiente. Seja lá qual for o motivo que ela possa ter concluído, não fui o suficiente para que ela me escolhesse, e agora isso me assombra, pelo resto da vida.
— Você é uma psicóloga terrível.
— Exatamente por isso, faço fisioterapia, Santa dos Loiros Oprimidos — Anaïs informa e solto um grunhido exasperado, murmurando “você também não”. Ela solta um riso baixo, satisfeita. Os olhos brilham como os de um gato safado que conseguiu o que queria. Uma reação. — Falei com Beatrice mais cedo, dei até uma chorada, performance digna do Oscar, ela conseguiu encaixar você com uma das novatas. Alina, a delicada, com o bob e delineador de gatinho, e como parece que vai estar mais ocupado com o ego ferido do que com o horário das renovações com a turma de fisioterapia, a vaga é sua, então não dá mole, e pega essa merda . É sério.
— Sim, senhora — murmuro lançando um olhar agradecido para Anaïs antes de girar em meus calcanhares outra vez, para seguir em direção ao prédio onde a academia e a fisioterapia costumava a passar tempo quando não estavam nos laboratórios de anatomia. — Quem disse que preciso de Celeste quando tenho você para ser minha mãe?
— Quem disse que quero ser sua mãe?
— Viu! Já sabe até as falas!¹ — Solto, tentando não sorrir, satisfeita com o sonoro “ei!” que ganho de Anaïs, mas acabo levando um belo nocaute com a porra de um dos livros pesados de capa dura que ela arremessa em minha direção. Estatelo-me de cara no chão. Pelo menos ela tem a decência de praguejar surpresa, não por ter me acertado, mas por sua péssima mira ter funcionado pelo menos uma vez na vida.

•••

, certo? — A voz de Beatrice desperta-me de meus próprios pensamentos. Tenho a sensação de que perdi o que quer que ela tenha falado nos últimos cinco minutos, apenas acenando em silêncio em concordância com qualquer coisa que dizia, e agora não faço ideia do que se trata. Forço um sorriso assentindo para a outra mulher, observando com uma pequena ponta de inveja, as unhas perfeitas, o brinco de argolas e a maneira com que ela parece tão feminina. — Anaïs falou sobre você, espera só um minuto, eu vou verificar uma coisa, já venho — Vejo-a empurrar-se da cadeira e caminhar em direção a um dos corredores abobadados, feitos de pedras, que eram derivados de uma época medieval e não das reformas que o Reitor Lefebvre insistia em fazer a fim de tornar o espaço “moderno” e mais “legal”. Detesto que Antoine tenha tanta liberdade assim, ele apaga a história como se fosse algo ruim, e a reconstrói com concreto e vidro como se isso fosse fazer o espaço ficar elegante. Fica parecendo apenas quadrados hospitalares; detesto hospitais. Chacoalho minha cabeça tentando afastar a imagem de minha mente, voltando minha atenção para as costas de Beatrice, desaparecendo pelos corredores.
É curioso, de alguma forma, não importa o quanto tente, não parece que consigo simular esse tipo de feminilidade; mesmo que seja tudo o que queira. Não porque irei ser percebida de alguma forma especifica por outros homens, foda-se eles, mas porque é simplesmente bonito. Há uma misticidade, uma percepção quase etérea do que é o feminino, e que isso faz com que outras garotas se conectem entre si… acho que apenas gostaria de fazer parte disso. Ao menos, gostaria, certamente, de não ficar consciente do que me falta sempre que estou perto de alguma mulher incrível — e é difícil não encontrar uma garota incrível na universidade. Quero ser como as outras garotas! Suspiro pesado, sem conseguir conter-me ignorando a superfície gélida e uniforme do balcão que atravessa a fina camada de tecido do collant que deveria servir como proteção, mas que na verdade era apenas uma maneira de ocultar o corpo sem esconder a forma. Puxo as mangas verificando a costura meio a parte. Está com um furo um pouco mais abaixo da linha do pulso, o que significa que terei que costurá-lo de novo, ou posso simplesmente adaptar… empurro a manga para cima, enfiando meu polegar pelo o buraco com um pequeno sorriso satisfeito no rosto. Fica esquisito para caralho, mas de um jeito legal.
Sinto meu celular vibrar pela vigésima nona vez, e com um suspiro pesado retiro o aparelho para finalmente verificá-lo. Estou tentando ignorar ao máximo que consigo, agir como se não fosse meu celular ou que não estou recebendo as notificações, mas se há algo que preciso reconhecer é que Étienne é insistente. Aperto os cantos dos meus lábios, tentando não grunhir. Bato com a ponta do polegar duas vezes na tela rachada, desbloqueando-o com a senha ridícula que havia criado na adolescência e que de alguma forma virou minhas senhas em todos os lugares, e então verificar as mensagens. Há pelo menos 12 ligações perdidas de Étienne, e duas mensagens. Não diz muito, apenas faz um pedido: quer jantar comigo mais tarde. A justificativa que aparece em seguida é quase pragmática e desprovida de genuína emoção: recuperar o tempo perdido. Tenciono minha mandíbula. Gostaria de me sentir animada, ou no mínimo vingada, mas é simplesmente deprimente vê-lo tratar e Brielle como ele me tratava. Nunca quis que ele me escolhesse, só queria que me incluísse.
Hesito por um momento, abrindo a conversa com , unindo as sobrancelhas. A última mensagem que trocamos era de dois meses atrás; um pedido para que levasse para ele a jersey que ele havia esquecido na sala de anatomia, no campo de treinamento. Depois disso, absoluto silêncio. Penso em e , no dia que apareceram simplesmente do absoluto nada no estúdio, perguntando sobre ; penso na expressão de preocupação que tinha em seu rosto. Não faço ideia de como seja a amizade deles, ou como havia sido, já havia saído do colégio quando conheceu os s, e considerando que não era exatamente considerada parte da família, ele não se preocupou muito em me apresentá-los. Sabia apenas que dividiam um apartamento em algum lugar no centro da cidade, e que eram mais uma família do que havia tido com Brielle, Celeste e Étienne. era o que deveria ter tido como irmão; porra… sinto a culpa fazer meu coração pesar em meu peito, como se de repente estivesse enroscada em uma quantidade absurda de teias de aranha que começam a cortar a pele e rasgar os músculos. Arrependo-me quase imediatamente por ter contado a Anaïs do vídeo, por tê-lo salvado. Arrependo-me perdidamente por tê-los flagrado; se no dia não estivesse tão irritada, machucada e cansada, talvez pudesse ter ignorado, talvez guardasse aquele segredo em silêncio também, mas
— SUA VADIA! — O grito que rompe atrás de mim é violento e furioso, e por uma fração de segundos quase derrubo meu celular com o salto assustado que dou. Lanço um olhar na direção de onde o berro havia partido, não conseguindo compreender direito o que está acontecendo, quando recebo um tapa forte e estalado. Dor explode por trás de meu olho esquerdo, como pequenas fagulhas e pontinhos de luz em meio a escuridão. Meu rosto é lançado com força para a direita, ao passo que sinto meu ouvido amortecer, um zunido insuportável se instala, abafando tudo ao meu redor por uma fração de segundos enquanto a única coisa que posso escutar e sentir é minha pulsação, acelerada e irregular, martelando contra minha têmpora. A pele arde, como se estivesse em brasas e tenho a vaga sensação de que irá ficar inchada. Desorientada, pisco algumas vezes, cambaleando para trás, tentando entender o que diabos havia acabado de acontecer quando recebo outro tapa, dessa vez, seguido por um puxão de cabelo que me faz gritar.
Levo minha mão direita em direção ao pulso que segura-me, mas não tenho chance de reagir. O puxão de cabelo empurra minha cabeça para a esquerda, tirando-me de minha perna de apoio — a direita — e repousando todo o peso em minha perna esquerda, bem no tornozelo que estava evitando apoiar. O vacilo é quase imediato; a dor cega-me, intensa, uma onda branca que apaga todo o resto, enquanto sinto o impacto reverberar por meus ossos. Meus dentes se chocam, e minhas têmporas doem com o impacto, mas dói mais o tornozelo. Como se uma barra em brasas estivesse cuidadosamente alojada internamente, enquanto as veias que o compõem se enroscam como fios desorganizados, à beira de rompimento. Trinco os dentes com força, tentando não gritar, tentando afastar as lágrimas de meus olhos e identificar o agressor.
— Que porra?! Perdeu a cabeça?! — Grito de volta, mas minha voz desaparece ao fundo de minha garganta quando meus olhos repousam no rosto distorcido de Margot Basset, sendo segurada por um confuso e exasperado.
Ah puta que pariu, me fodi muito agora!
Abro minha boca para tentar me defender, mas me silencio. Percebo quase no mesmo segundo que, de certa forma, mereço apanhar de Margot. Posso não gostar dela, mas ainda sou a responsável por destruir sua reputação. Que merda, questiono-me se ela descobriu e está aqui para acertar as contas, ou se foi quem ligou os pontos e a enviou aqui.
Não leva muito tempo para que descubra. Dois minutos depois — e algumas mechas de cabelo a menos — recebo uma mensagem de , furioso, querendo encontrar-me o quanto antes. Merda, não tem como isso ficar pior, tem?


¹ Referência de Community.
03


“Crawling back to you
Ever thought of calling when you’ve had a few?
‘Cause I always do
Maybe I’m too busy being yours to fall for somebody new”
DO I WANNA KNOW?



SE ESTOU AMALDIÇOADO, tenho certeza de que é por culpa do sobrenome .
É incrível que toda vez que há algo de errado na minha vida, a culpa é, majoritariamente, de alguma pessoa com esse maldito sobrenome. Tenciono a mandíbula com força, esfregando meu rosto. Hoje definitivamente não foi meu dia. Puta merda. Humilhado publicamente, meu melhor amigo estava fodendo minha namorada pelas costas, provavelmente vou ter que me mudar — sabe-se onde posso ir em tão pouco tempo —, porque não consigo conviver e encarar sem lembrar da porra do vídeo, perdi a merda do horário e a vaga na fisioterapia, e agora estou esperando do lado de fora da sala do Reitor a conclusão do que diabos havia sido a cena no Departamento de Fisioterapia. É ridículo, para dizer o mínimo, como se tivesse voltado a ser a porra de um adolescente e não estivesse quase na porta dos vinte e um. Quero gritar, mas tudo o que faço é suspirar pesado, coçando minha mandíbula com exasperação. Quando não é o precursor do problema, é .
Volto a linha de meu olhar de novo para a porta de carvalho dupla e antiga que lembra mais a de um monastério do que a de uma universidade. Embora a maior parte da Universidade tenha sido reformada para aparentar mais com o século atual, a área administrativa era estranhamente tradicionalista em relação a manter a estrutura antiquada gótica. As mesmas pedras que erguiam-se do lado de fora, compunham o espaço aqui dentro, o assoalho de madeira parecia antiquado, mas bem polido, fazia com que você quase pudesse acreditar que estava em outra época. As luzes, todavia, são de led, e incomoda os olhos; ou talvez esteja apenas sensível devido ao soco acidental que Margot havia conseguido acertar-me quando tentei separar as duas. Através da porta entreaberta, posso ouvir a discussão. É estranho, não sei exatamente dizer o porque, mas dentre as vozes alarmadas e o tom severo do Reitor, a única que não ouço é a de . Coço meu pescoço, tentando estalar o músculo tensionado, com uma careta.
Não consigo deixar de sentir o impulso familiar de entrar na maldita sala e tentar defendê-la. Talvez seja por causa de — afinal, ela é a irmãzinha do meu melhor amigo, ou o que quer que sejamos agora —, que sempre pareceu ter algum tipo de instinto protetor exacerbado com a irmã mais nova. Talvez seja porque, de todos, ela é a única que está ouvindo em silêncio; não entendo o porquê. Por que ouvir acusações e não se defender? O que se ganhava com tal passividade? Solto um bufar baixo, exasperado, esfregando meu rosto com um pouco mais de impaciência. Se fosse Aurora ali, três pessoas já teriam saído chorando, e sinceramente, não poderia ficar mais orgulhoso de minha gêmea; se fosse Rika, então haveria certeza de que a discussão duraria apenas alguns segundos antes dela ser liberada sem maiores consequências. Por Deus, até com Margot há uma reação, e todavia é a única que não reage. Solto um grunhido baixo, impaciente, como se não bastasse ter perdido a vaga na fisioterapia e ter levado uma puta facada nas costas do cara que é irmão mais velho dela — e se dizia meu amigo — ainda vou acabar perdendo o almoço e as últimas aulas, por causa das duas. Permito-me tirar a jaqueta, pela fadiga que o calor proporciona, andando de um lado para o outro impaciente. Praguejo entre dentes jogando a jaqueta sobre um dos bancos de espera, e ando de um lado para o outro tentando controlar o impulso e a impaciência.
Não faço ideia do que havia levado a briga. Em um momento Margot estava me seguindo como a porra de uma sombra, e então, no instante seguinte, ela estava em cima de e , por algum motivo, estava apenas apanhando sem reagir. É claro que, isso, de certa forma, havia sido uma boa coisa para — se ela não responde na mesma intensidade, Margot é o problema ao atacar uma estudante no campus; por que a garota não reagiu? O que há de errado nela? —, mas não deixa de soar esquisito, no mínimo. Puxo o celular, desbloqueando a tela e por instinto tocando no meu número de emergência. Levo em direção ao ouvido direito, fazendo uma careta; preciso atualizá-lo, já que meu contato de emergência está em outro continente, mas farei isso depois. Duas chamadas e um grunhido exalado, repleto de palavras de baixo calão que teria feito um marinheiro de Birmingham corar, ouço a voz familiar de minha gêmea. Não a deixo falar — não tenho tempo.
Me diz, o que aconteceria se eu invadisse a sala do reitor nesse exato momento e o mandasse se foder? — Questiono em noruguês, com um olhar de soslaio para a secretária gente boa do Reitor Lefebvre, acenando com a cabeça na direção dela. Monique é até legal, possuí umas cantadas esquisitas para alguém que tem idade para ser minha mãe, mas não é menos útil. Já havia salvado metade dos caras de problemas sérios, e tudo o que bastou foi apenas uma cantada bem elaborada ou um café; considerando que isso é Paris, não é difícil achar um lugar com o café preferido dela. Ouço Aurora gemer, exasperada, do outro lado do celular, e afasto o meu ouvido com uma cara de nojo. — Me diz que você está em casa.
Eu estou em uma casa — desconversa, e pauso por um momento. Fecho os olhos, apertando a ponte de meu nariz com uma careta. Aurora . É incrível que tentar protegê-la, era ter como maior inimigo, ela mesma. — Hal são seis da manhã, que porra você tá fazendo?
Considerando os prós e contras de ser expulso — digo e ouço-a rir debaixo do outro lado da linha, resmungando algo em inglês, antes de suspirar pesado. Por impulso, espelho sua reação, apoiando minha mão direita em meu quadril e voltando meu olhar na direção da porta. Merda, . — O pai não teria uma reação lá muito ruim se eu fosse expulso, não é?
Aurora não me responde de imediato. Tenciono a mandíbula com um pouco mais de força sentindo o gosto amargo da memória; Reiner não seria cruel com Frey ou Aurora, mas comigo? A situação é diferente.
Você sabe que você fez por onde para conseguir a desconfiança dele, Tico.
Desta vez, sou eu quem não a responde. Permito-me afundar em uma das cadeiras desconfortáveis de espera, enterrando meus cotovelos em minhas coxas, e então abaixando a cabeça. Posso sentir o cansaço dos músculos do treino mais cedo, posso sentir a exaustão emocional agora que a raiva começava a baixar em minha corrente sanguínea e deixava apenas o desastre, acima de tudo, posso sentir a resignação instalando-se em meu peito. O maior problema não é a humilhação pública — embora seja dolorosa o suficiente —, é saber que havia mentido. Ele havia escolhido mentir para mim, havia escolhido ignorar nossa amizade como se fosse meramente uma nota de rodapé e envolvido-se com Margot. A confusão de emoções é sufocante como uma barragem quebrada, inundando tudo o que encontrava pelo caminho, ao mesmo tempo que apenas um vazio desconfortável se forma ao centro de meu peito. Quero ficar com raiva de porque é mais fácil do que sentir tristeza pelo amigo que achei ter. Quero ficar com raiva de Margot para justificar a traição de . Se culpar Margot, será mais fácil falar com , mas a verdade é que a mulher igualmente não é lá assim tão culpada de toda a situação. Acima de tudo, considero que talvez o problema seja eu.
A pior parte é que: se os dois tivessem me dito que estavam apaixonados um pelo outro, teriam me afastado. Mesmo que doesse, desde que fossem felizes, não posso dizer que me sentiria lá muito mal. é meu melhor amigo — ou era —, como poderia roubar sua felicidade? Ele não precisava ter mentido. Se queria Margot, era só dizer…
Quero voltar para casa, Teco — confesso baixinho, sem conseguir conter as palavras. O silêncio do outro lado da linha é suficiente para me arrepender. Pronto, acionei o modo protetora de Rory, isso significava que pelos próximos dias ela iria dar um jeito de aparecer por aqui, resgatar-me e obrigar-me a restabelecer-me em um lugar que ela pudesse supervisionar-me. Amo Aurora, mas a ideia de estar perto dela não soa mais atraente do que falar com meu pai sobre uma potencial expulsão. — Esquece, tô só cansado. O treino de hoje foi puxado, e ainda tenho uma prova mais tarde. Minha perna ainda não tá boa.
Aham, e eu sou a rainha da Inglaterra.
— Vou falar para o pai que você disse isso
— brinco apenas para provocá-la pelo instinto de provocá-lo. Coço a lateral da sobrancelha, antes de voltar meu olhar para a porta entreaberta. Posso ver Margot se levantando, exaltada, inclinando-se na direção do Reitor enquanto escorrega pela cadeira, inclinando a cabeça para cima, e encarando o teto. Franzo o cenho, confuso, porque diabos ela está encarando a merda do teto e não a situação a sua frente? O que havia de errado com ela. Tento buscar ao fundo de minha mente todas as vezes que mencionou a garota, tentando formar uma lista. Quieta. Frágil. Age como se estivesse se quebrando. Bom gosto musical. Bailarina. Gostosa… balanço a cabeça, obrigando-me a focar na voz de Aurora. — Certo, ok, hipoteticamente falando…
— Hipoteticamente é uma ideia terrível.
— Hipoteticamente você nem ouviu o que eu ia dizer
— retruco exasperado.
Hipoteticamente não preciso, hipoteticamente eu te conheço — Aurora argumenta sem perder o fôlego interrompendo-me. Quase dou risada, porque aquilo era absurdo, todas as minhas ideias eram boas, as execuções eram horríveis.
Hipoteticamente vai se foder — digo e arrependo-me no mesmo segundo. — Não! Aurora, na boa, não começa! — Corto-a antes que ela possa iniciar um de seus discursos gráficos com alguma nova aventura que ela tivera em Nova York. Levando em consideração que ela estava em “uma casa” não preciso ser um gênio para saber que, minha irmã com um dedo podre terrível havia, muito provavelmente, encontrando mais um idiota para envolver-se. Escoro-me contra o encosto da cadeira, batendo o pé direito agitadamente contra o chão, sem conter a impaciência que toma conta de meus músculos. A dor em meu joelho ainda está presente, mas ganha um acento secundário ao fundo de minha mente. Inclino-me para trás, encarando o teto, exasperado. — Tem uma garota…
Eu sabia! Tem sempre uma garota! — Aurora acusa, e sinto-me ofendido.
Nem sempre! Eu tenho outros hobbies!
Ouvir Celine Dion no banho não é um hobbie, Hal, é um ato de desespero.
— Novamente, vá se foder
— repito frustrado, mas sinto meu peito se aquecer. Percebo, em meio a silêncio que se estende pelo corredor da área administrativa da Universidade o quanto sinto falta dela. É uma idiota inconveniente, e que causa mais dor de cabeça do que vale a pena, mas é minha idiota. Queria que ela estivesse aqui ao em vez de Nova York, queria que tivesse escolhido me seguir para cá, embora esteja cansado de ser sua sombra. Queria não ter que ir para longe para poder ser quem sou sem que ela ofusque-me. Queria não precisar dela tanto quanto preciso. — Margot acabou de bater em uma garota, a irmã de , lembra?
Aurora solta uma pequena exclamação confusa.
Brielle? Mas a menina não é, literalmente, uma adolescente? Nem dezesseis tem ainda, como assim? — Posso ouvir que ela havia se sentado, prestando atenção na fofoca. Esfrego a parte interna entre a ponte de meu nariz e meu olho. Ela iria adorar ouvir os malditos Podcasts do Apres Nuf; se ela sequer sonhasse com isso…
Não, não, a outra — Aurora resmunga algo em confusão, e franzo o cenho. Percebo com uma ponta de desconforto que Aurora não tem ideia de quem é. Volto meu olhar para a figura da bailarina. Os cabelos desalinhados pelos puxões que Margot havia dado, uma parte solta repousa sobre o ombro direito, onde há um belo rasgo em seu collant preto, a outra permanece parcialmente presa no coque alto. Marcas vermelhas decoram sua pele, vergões que irão levar pelo menos o dia inteiro para sumir, e a marca da palma de Margot ainda está viva destacada na lateral esquerda de sua face. As pancadas haviam sido realmente mais fortes do que havia considerado. Sinto um estranho desconforto atingir-me, como se estivesse falhando em enxergar alguma coisa ali, ou talvez seja apenas o impulso de comprar as brigas de . Ele sempre havia sido protetor com , mesmo que a garota não tivesse ideia; agora questiono-me de quem ele ficaria. Se estivesse aqui, e não eu, quem ele iria escolher? Margot ou ? Por algum motivo, sinto algo em meu peito afundar, tenho quase certeza de que não seria . — tem duas irmãs. Brielle é a mais nova. é a do meio.
E por que diabos eu não sei disso? — Aurora resmunga exasperada, e faço uma careta. Não a respondo como desejo: porque nem eu lembro-me de sua existência, quiçá você. Aurora me mataria se me ouvisse dizer algo assim.
É complicado, acho. Eles não se dão bem — resmungo a primeira desculpa que encontro. Sei que para mim e ela é difícil entender como dois irmãos não podem se dar bem. Desde que conheci a gente, Aurora tem sido meu tudo: o porto-seguro a que poderia buscar quando tudo estava ruindo, a voz da minha consciência, o cérebro da minha emoção. É impossível viver em um mundo que ela não exista, e embora exista sim brigas, tenho a certeza de que nada nunca estará de fato em risco, quando se trata dela. Não faço ideia de como pode amar e odiar a irmã mais nova. Lembro-me de Rika, seguindo-me pela casa como uma pequena sombra, lembro-me de Yule, agarrando-se às minhas pernas para dormir junto comigo e Aurora no quarto. Daria minha vida e alma para eles sem hesitar, não há nada que não possa fazer por eles. Como poderia encarar e vê-la como uma estranha? E, todavia… — Esse não é o ponto, o ponto é que estou agora no corredor da reitoria esperando as duas. Não faço ideia do que aconteceu, Margot atacou a garota, e a garota não está se defendendo.
Por que ela não está se defendendo? — Aurora questiona, mais incomodada do que eu sinto-me. Ela sabe que tem algo errado aí. Tenciono minha mandíbula, obrigando-me a desviar os olhos de onde está esparramada na cadeira, e encaro os coturnos. Arranco um fiapo de canto, antes de empurrar o cadarço para dentro. Não amarrava-os por pura preguiça, mas isso não significava que não verificasse que estavam seguros o suficiente para não voarem de meus pés. Da última vez que não fiz, Maël levou uma pancada feia na cabeça.
A pergunta que todos querem saber — resmungo baixo, apertando os cantos dos lábios, e voltando a encarar as portas duplas com uma expressão mais séria, quando ouço o Reitor encerrar a discussão; provavelmente irá oferecer as sentenças agora.
Hm hum… — Aurora murmura baixo, contemplativa. Faço uma careta, isso nunca é bom. Aurora, quando pensa, é bem perigosa. — E você tá vendo isso e se coçando para ser o herói, não é? — Pisco, surpreso com a acusação. Abro a boca para responder minha irmã, mas minha voz não sai. De alguma forma, mesmo com um fuso horário de seis horas e a quilômetros de distância, com um oceano nos separando, a desgraçada ainda consegue me ler com a facilidade que respira.
Não, só quero ajudar, é diferente — digo a contra-gosto. Aurora diz alguma coisa do outro lado da linha, mas não escuta. Resmungo uma despedida rápida, fazendo uma anotação mental de enviar uma mensagem longa depois explicando para ela o que havia acontecido e esclarecendo os detalhes. Céus, percebo que terei que contar a ela que é o cara com quem Margot estava me traindo. Puta merda, Aurora vai ficar furiosa; talvez mais do que estou. Passo a mão esquerda por meus cabelos, tentando afastá-los do meu rosto, e me levanto. Quase esqueço de minha jaqueta, agarrando-a de mal jeito e quase torcendo meu joelho, antes de voltar em direção da porta. Enfio minhas mãos nos bolsos de minha calça, guardando o celular por consequência.
é quem sai primeiro. Os olhos parecem queimar um buraco no chão, tamanha a intensidade de sua raiva, mas é contida. De alguma forma é como se houvesse uma parede de gelo ao redor dela que a resignava no lugar. Uni as sobrancelhas, lançando um breve olhar na direção de Margot, que fica para trás um pouco mais, ainda falando com o Reitor — provavelmente agradecendo-o; por que Margot agradeceria Lefebvre? — antes de encarar a bailarina furiosa.
— Oi, ! ‘Cê tá bem? — Questiono, obrigando-me a falar o mais rápido que consigo, mesmo que o francês soe arrastado para meus próprios ouvidos, tento alcançar a bailarina. Ela sequer vira o rosto em minha direção.
— Há! Quase convincente, ! Realmente! — Ela cospe as palavras, estranhamente cheias de veneno para uma garota que nunca havia sequer olhado em minha direção por mais do que dois minutos. Fico surpreso e, ao mesmo tempo, ofendido. Quero dizer, quero ajudá-la, mas de alguma forma, da maneira com que ela fala, parece que sou o vilão de sua história. Abro minha boca para retrucar alguma coisa, ou tentar de novo, mas já desapareceu escadaria abaixo, mancando de sua perna esquerda.
Estreito os olhos, franzindo o cenho um pouco mais. Margot havia derrubado-a, mas não acho que o impacto seria o suficiente para machucá-la de fato. Observo a maneira com que não apoia o peso em sua perna esquerda, como favorece o tornozelo. Pisco, desconfortável. Ela havia se machucado? Quando? Como? Provavelmente no ensaio; Aurora havia feito alguns anos de balé antes de migrar para o teatro, a dança é rigorosa. Não é para todo mundo, mas acho esquisito, se ela está realmente ferida, porque diabos não havia mencionado nada? Por que não havia a encaixado em uma das vagas de fisioterapia quando ele fazia por quase todos do time?
Pisco, ainda estupefato, considerando segui-la e perguntar sobre o tornozelo, quando sinto um toque familiar em meu braço. As pontas dos dedos gélidos contra a pele, levemente hesitantes, mas terrivelmente familiar. Sinto algo dentro de mim se partir e ao mesmo tempo inflamar-se — não é desejo, sequer afeto, é raiva. Agora sei que a pessoa com quem ela se encontrava era meu melhor amigo. Meu, não dela. E de alguma forma, ambos não hesitaram em deixar-me de lado. Ignoro o sentimento, voltando-me na direção de onde o toque parte, minhas sobrancelhas unidas, esforçando-me ao máximo para permanecer com uma expressão estoica, vazia.
Margot.
— Ei — arrisca hesitante. Por um segundo não sei o que dizer. Meu primeiro instinto é questionar a ela onde está , questionar porque ele não estava ali com ela, buscá-lo entre os poucos rostos do corredor, mas sem conseguir enxergá-lo de fato. Ele deveria lidar com aquilo; era a irmã dele e a amante dele. Então, refreio-me, com a certeza de que Margot não havia se aproximado de mim a pedido de ; é claro que ela não estava seguindo-me até o Departamento de Fisioterapia porque havia pedido para que ela conversasse comigo. Ela está tentando conversar comigo faz semanas, e estou a ignorado com sucesso. Praguejo mentalmente, mas ignoro o sentimento. Sinto-me, momentaneamente, preso em um composto agridoce de meus próprios sentimentos. Fico feliz e triste, tudo ao mesmo tempo, sem conseguir evitar, sem saber com exatidão qual das emoções primordiais deveria ganhar foco em minha mente. Não tem ganhador, nem perdedor; ainda assim sinto-me que só eu estou perdido aqui. Todos os outros parecem estar vivendo tranquilamente enquanto afogo-me à deriva.
Não é como se as coisas estejam ruins entre nós; depois do vídeo não há nada mais para apodrecer ou discutir. Mas a situação é uma merda. O que não foi dito. As entrelinhas. Há tantas. Ignoradas, silenciadas e até mesmo enterradas ao fundo de meu peito. Questiono-me por que o faço? Por que simplesmente não digo tudo o que está enterrado ao fundo da minha mente? Mereço ouvir sua resposta. Mesmo que não tenha certeza se quero ouvi-la ou se vai me fazer algum bem. Mas então, vale mesmo a pena magoar outra pessoa apenas por minha satisfação pessoal? Mesmo que essa pessoa fosse Margot. Vale a pena fazer isso apenas para dizer que estou “certo” , qual é o ponto de o fazer, afinal? Onde isso acaba? Como acaba? Talvez… alguns assuntos não devam possuir um fim. Talvez, devam ser encerrados da forma com que são, sem questionamentos, sem pedidos, sem nada, apenas silêncio. Mas então considero, estou fazendo isso a despeito de quaisquer resquícios de gentileza que sinto por Margot, ou estou apenas fugindo? Onde está a linha e porque não consigo enxergá-la mais?
— Ei — digo, forçando um sorriso e uma gentileza da qual não sinto realmente no momento. Busco alguma coisa em seus olhos, alguma resposta, algo que mostre que ela está arrependida, mas é irônico. parecia estar mais emocional do que a garota que havia a atacado. Exalo baixo, contendo o impulso de olhar por sobre o ombro de Margot e verificar onde diabos a outra havia seguido, e se estava bem. Certamente, vai fazer isso, mesmo que tenha que enviar uma mensagem para ele avisando. O gosto amargo é pungente em minha boca.
Cara, costumava amar tanto essa garota, o que aconteceu com a gente?
— A gente pode conversar? — Margot, pela milésima vez, tenta. Vejo-a lançar um olhar incomodado na direção de onde havia seguido, como se tivesse sido apenas um relapso em sua postura, e então voltar a encarar-me outra vez. Força um sorriso em forma de desculpas, visivelmente desconfortável, mesmo que não tenha certeza a que se desculpa: me trair com meu melhor amigo? Mentir para mim? Importunar-me até que forçasse uma conversa? Por todas as outras vezes que me fez voltar para ela quando sabia que não deveria? Será que acha que dessa vez será do mesmo jeito? Porra, detesto não poder ler sua mente. Forço um sorriso na direção dela, plástico e neutro, estende-se por meu rosto como se fosse uma fina camada de plástico filme, uma anomalia desconfortável que mais se parece com uma careta, e então faço menção de voltar a andar. Não, não quero ter essa conversa, não com ela. Não quero ouvir como é melhor que eu; não preciso ter isso também em minha mente, assombrando-me. Margot segura meu braço direito outra vez, e tenho vontade de gritar para que me solte, mas paro de andar com um grunhido baixo. — Hal, por favor! Só mais alguns minutos! Eu prometo que vou ser rápida. Preciso conversar com você, pode me fazer só esse pequeno favor? Por favor, estou implorando.
Abro minha boca para responder Margot, mas então a fecho bruscamente, sem saber exatamente o que dizer. Desvio meus olhos dos dela, em busca de algum apoio, alguém que pudesse me resgatar da conversa, ou que pudesse simplesmente chamar-me para que não tenha que ficar ali, até mesmo um sinal sobrenatural que pudesse alterar tudo, mas não encontro. Passo minha mão livre por meus cabelos, as unhas fincam-se no couro cabelo, esfregando-o impaciente, quando finalmente volto a encará-la com os lábios apertados em uma linha.

•••

O caminho por entre as vielas de paralelepípedos dentro da universidade, foi silencioso, quase sepulcral. Não empurrei sua mão de meu braço, não porque ainda havia algum sentimento ali, mas porque ela parecia que iria começar a chorar a qualquer movimento brusco que fizesse. A pior parte, são os olhares que se voltam em minha direção. Não preciso de muito para saber o que estão pensado; o maldito podcast havia acabado com minha reputação com mais precisão do que anos indo as festas questionáveis de . O vento outonal não chega a ser gélido, mas a um aroma pungente de terra molhada que carrega consigo. As copas das árvores começam a mudar de cor, assim como a grama, outrora esverdeada agora ganham uma tonalidade mais opaca. Paris é um lugar lindo, mas não falha em me fazer sentir falta de casa. Não Oslo, nem mesmo Londres, mas Stavanger. Ainda faltam meses para que Aurora sequer considere planejar-se para visitá-la. Viro à esquerda, descendo alguns degraus irregulares que imediatamente arrependo-me quando sinto o músculo acima do meu joelho se repuxar. Faço uma careta, exasperado. Perder a porra da vaga na fisioterapia foi a pior parte de toda aquela situação.
Desvencilho-me da mão de Margot, escorando-me contra um dos pilares de pedras perfeitamente alinhadas da passarela que levava para o Departamento de Humanas ao lado do de Fisioterapia — por algum motivo, nunca entendi direito porque diabos Lefebvre deixava essas duas estações, opostas de certa forma, juntas. Cruzo os braços sobre o peito, encarando-a em silêncio, esperando que ela comece a falar. Não, era isso que eu deveria ter dito. Não posso, não quero, estou ocupado, qualquer desculpa parecia melhor do que ficar sozinho com ela. Rápido, direto, sem quaisquer entrelinhas. Era tão simples. Não, não posso. Não, não quero. Mas não é isso que faço, é? E porque diabos sinto-me culpado de dizer não para a garota que me traiu com meu melhor amigo? É ridículo, e por uma fração de segundos considero bater minha cabeça contra o pilar que apoio-me. Ao em vez disso, realmente tento vê-la.
Primeiro erro que cometo.
— Você tá… bem — Margot diz com um tom de voz hesitante. Estreito meus olhos sem saber direito se recebi um elogio ou se ela está me acusando de não estar sofrendo por ela. Por que diabos ela iria querer que sofresse por ela quando foi ela quem foi embora primeiro? Coço com o polegar a lateral da minha mandíbula, desviando o olhar do rosto de Margot. Os cabelos dela estavam desalinhados da briga, escapavam do rabo de cavalo longo que deveria ter realçado seu rosto, as roupas, elegantes e discretas, estavam amassadas pela discussão, mas ela ainda assim parecia tão bela quanto da primeira vez que a vi naqueles corredores. — Digo, você tá usando azul de novo, fica bom em você, sempre disse isso, fica muito bom mesmo — Margot força um sorriso doce, os olhos fixos em minha camisa por uma fração de segundos, perdida em pensamentos. Pisco, negando com a cabeça encarando. Se está tentando me bajular para conseguir menosprezar o que havia feito, é pouco provável que consiga. Trinco a mandíbula com força.
fica melhor — abro um sorriso largo, sarcástico. Margot encolhe-se como se tivesse acabado de acertá-la com um tapa; sinto o peso da culpa quase no mesmo seguinte. Fecho os olhos com força, respirando fundo, massageando a ponte do meu nariz. Merda, sou um desastre fazendo isso. Ignoro o impulso de corrigir ela, a camisa sequer é azul, na verdade está mais para um preto desbotado, um quase cinza escuro do que azul. É a única coisa que tinha limpa, considerando que havia acabado de voltar da casa de Rika, e não havia tido muito tempo desde que havia chegado de manhã e seguido direto para o treino. Não era nada. Não tenho a intenção de ser percebido, sequer elogiado por qualquer um, em especial ela, questiono-me agora o quão sinceras são suas palavras. Sei que Margot gosta muito da minha estética, que boa parte de seu interesse sempre havia surgido por causa daquele ponto em específico, mas então, de certa forma, ele e eram completos opostos. Se ela havia escolhido , não era lá muito sincera no que dizia para ele. — Não precisa me elogiar a toa, Marge — digo por fim, com um longo, deixando minha mão desabar de meu rosto, e então apoio-me contra a balaustrada de pedras da passarela, encarando-a em silêncio. Margot franze o cenho, encarando-me hesitante, o semblante subitamente preocupado ao perceber meu tom quase monótono. Percebo, naquele momento, que ela não quer conversar, quer uma reação. Se começar a chorar aqui, então ela irá fazer as mesmas promessas, eu passo por cima do meu orgulho e nos voltamos como se nada tivesse acontecido. Se for grosseiro e cruel com ela, então ela deixa de ser a culpada e torna-se a vítima. Engulo o riso, incrédulo. Puta merda… — Você sempre odiou azul. Não precisa fingir agora que gosta, só vá direto ao ponto.
Margot solta um bufar baixo e revira os olhos, mas há um fantasma de um sorriso pairando por seu semblante. Ela nega com a cabeça, cruzando os braços — mais como se estivesse abraçando a si mesma do que uma tentativa de ficar com uma postura defensiva — antes de hesitar outra vez. Vejo-a dar um passo em minha direção, e então mais um. Sinto os músculos de meu corpo se tencionam, o instinto quase gravado em minha mente de completar os poucos espaços que nos separa, e envolvê-la em um abraço. Ela sempre cheirava a perfume caro, uma mistura de frutas e algo amadeirado. Costumava arrumar desculpas para abraçá-la de modo que seu perfume ficasse grudado em minhas roupas e pudesse passar o dia inteiro sentindo seu cheiro; Margot detestava. Ainda assim, o instinto ainda está ali, e uma parte de meu peito dói implorando apenas para esquecer tudo e simplesmente tomá-la de volta em meus braços como se nada tivesse acontecido.
Isso tem que ser amor não é? Não pode ser outra coisa, pode?
: — Idiota — quase dou risada do comentário, mas obrigo-me a manter-me em silêncio. Desvio os olhos dela, encarando um ponto invisível em sua blusa perfeitamente ajustada ao corpo; os botões de pérolas que as compunham. Percebo tardiamente que dei de presente para ela a blusa no último natal; Aurora havia passado quase três horas inteiras comigo, tentando encontrá-la em uma boutique em Nova York. Preciso falar com Aurora, desesperadamente, preciso que ela me xingue ou acerte-me no rosto; posso sentir minha resistência está começando a falhar. Ela dá mais um passo em minha direção, e como se o vento estivesse agindo contra mim sou tomado pelo aroma familiar dela. Algo em meu peito se aperta.
A pior parte é que ela ainda se parece com a mulher que havia me apaixonado. Tem os mesmos cabelos, lisos demais para permanecer atrás da orelha, o que a obriga constantemente a fazer o movimento de retirá-lo. Ainda tem os mesmos olhos castanhos escuros, inteligentes e observadores, a mesma pele perfeita, o mesmo corpo magro. Tudo nela ainda parece ser o mesmo, exceto que… não é. Não é a minha Margot ali — para ser sincero, acho que nunca houve uma Margot que realmente fosse minha.
— Não é que eu odeie azul, só não acho que fica bom em mim — Suspiro pesado, concordando com um menear de cabeça sem muita paciência para a conversa fiada. Não que eu seja contra conversa afiada, na verdade é meu passatempo favorito depois de jogar jogo da velha com os caras no banco dos reservas; para ser sincero, o faço majoritariamente com Aurora e suas amigas com o puro intuito de irritá-las, mas neste momento só era… doloroso. Estranho estar perto de alguém que nunca vi de fato, mas com quem dormi por quase anos inteiros, sem ter ideia de quem estava ali. Percebo meu próprio fracasso, não é apenas o ego ferido, mas o lembrete de minha própria mediocridade. Qualquer um dos meus irmãos havia enxergado Margot pelo o que ela é; talvez crescer em uma família extraordinária sendo ordinário, fosse o problema.
— Marge…
Nós nos encaramos por um longo momento, em completo silêncio. Margot morde o lábio inferior, parecendo decidir o que irá me dizer. Ela nunca foi indecisa. Era justamente isso que havia me atraído a ela, agora, todavia, ela hesita, incerta, parecendo não ter certeza de como conversar comigo. Não parece sequer a mesma garota com quem costumava implorar para que me desse uma chance. Sufoco um sorriso irônico com toda a situação; se nos visse agora, ele certamente não acharia que nós tivemos alguma coisa. Ninguém acreditaria nisso.
Questiono-me se talvez o monstro de toda a situação não seja eu, afinal?
Quer dizer, fui tão cego assim que não a vi se tornar no que era agora? Ou talvez tenha sido eu a quebrá-la? Tento buscar ao fundo de minha mente o que poderia ter feito de errado, a onde eu poderia ter sido tão idiota ou tão egocentrico que havia destruído a garota que amava, e criado essa versão dela. Onde havia errado tão profundamente que ela preferiu escolher , a mim?
— Hal por favor, me deixa explicar — Margot finalmente vai direto ao ponto. Desta vez, não digo nada, não gesticulo ou desvio os olhos, espero em silêncio para que ela prossiga, mesmo que uma parte de minha mente não queira ouvi-la, a outra ainda está intoxicada com seu perfume para considerar sair dali. Merda, Aurora está certa, preciso urgentemente conhecer outras pessoas, ter algo casual e sem quaisquer pesos de expectativas ou futuro. Algo que possa sentir que se descartar amanhã, não fará mal a ninguém. E ainda assim, quero ela. Que porra, quero a garota que pelo menos achava que tinha em minha mente. Quando percebe que não vou interrompê-la, Margot parece considerar o que irá dizer. Encaro-a descrente; não era ela que queria conversar? Como quando finalmente aceito, ela simplesmente não tem ideia do que dizer? — Olha… sei como parece, eu, eu não quis… não sei o que aconteceu!
— Você dormiu com meu melhor amigo, Margot — digo deliberadamente, escorando minhas duas mãos contra a balaustrada da passarela, e então estendendo a perna esquerda para frente. Margot se encolhe outra vez, mas não há outra forma de colocar. É a verdade, e por mais amarga que soe, não posso fugir tanto quanto ela pode desfazer. Encaro a ponta do coturno, não faço ideia do porque troquei meus tênis com Maël, mas o fiz quando estava bêbado, agora preciso andar por aí como se estivesse em um filme de qualidade questionável dos anos 80. — No apartamento que divido com ele, no quarto ao lado do meu, por meses. Foi isso que aconteceu.
— Não precisa falar assim, Hal.
— E você quer que eu fale como? ‘Tava tendo a porra de uma festa do pijama com durante todos esses meses? — o sarcasmo escorre pelos cantos de meus lábios, mas a frustração é maior do que minha compreensão. Não sei o que me irrita, talvez seja a tentativa de negação. Lanço um olhar incomodado na direção de alguns estudantes que deixam o prédio de Humanas, tencionando a mandíbula com força. É uma merda que ela tenha me traído com a pessoa mais próxima que tenho na França, mas a situação é ainda pior quando percebo que o maldito podcast havia se espalhado como fogo sob palha. Incrível, me mato no campo, não perco a porra de um treinamento, mas agora sou conhecido por ser o corno e não o meio campo dessa porra de lugar. Quero gritar, bater minha cabeça contra o pilar que escoro-me, ou simplesmente rolar escada abaixo, mas no fim solto apenas um riso nasalado, cansado. — Terminou comigo por causa dele, não foi?
Margot abre a boca, por instinto, recorrendo a negação, mas não preciso demorar muito em sua expressão para perceber que a resposta é sim.
— Não era para ter ido tão longe assim — Margot confessa. Acho que deveria ter sentido um golpe no estômago ou raiva pelas palavras dela. A maneira com que ela tenta se justificar como se ter um caso com meu melhor amigo por trás de minhas costas tivesse sido apenas um tropeço por seu caminho. Margot morde o lábio inferior, desviando o olhar do meu rosto, e por um segundo tenho a sensação de que ela irá chorar. As lágrimas não escorrem pelo seu rosto. Tomando um fôlego mais longo, ela dá mais um passo em minha direção, parando em minha frente. Detesto que uma parte de mim apenas queira abraçá-la tão desesperadamente. Seria mais fácil odiá-la, mas como posso fazer isso se a amava? — … não sei, ele sempre, ele sempre esteve lá! Toda vez que brigávamos! Toda vez que algo acontecia, ele conversava comigo, ele me apoiava e entendia! Foi um erro, um erro bobo, você não estava querendo me ouvir e então foi para casa da sua irmã, e eu me senti tão sozinha! Era apenas para ter dormido no apartamento, Hal, eu juro que era apenas isso, mas então uma coisa levou a outra e…
Absorvo em silêncio as palavras dela. Um desconforto se espalha por meu peito, como se os músculos estivessem queimando, contraídos demais, como se pequenas cordas os esmagassem para manter no lugar. Quero esfregar o peito e ver se alivia a pressão que se instala ali. Quero ignorar a maneira que as lágrimas queimam por trás de meus olhos, como tenho a certeza de que se piscar, elas irão cair. Acima de tudo, quero ignorar como sinto que estou sozinho. Dói mais perceber que esteve sempre rondando sem nunca ter me dito nada sobre, do que a atitude de Margot em si. Se a amava, por tanto tempo, ele poderia ter dito desde o começo; acho que não teria tentando ter um relacionamento com Margot se soubesse antes que estava interessado.
— Não queria te magoar, Hal, eu juro que essa era a última coisa que queria fazer! — Margot sussurra tentando segurar minha blusa. Afasto seu pulso com cuidado antes que ela possa me tocar. Inspiro fundo, piscando algumas vezes e pigarreando. Minha garganta dói, mais pela frustração do que pela emoção montante que se forma em meu peito. Encaro a entrada da passarela do outro lado, unindo as sobrancelhas. — Por favor, Hal, acredita em mim! Me diz que dá para consertar, eu prometo que não sinto nada por ! Ele foi só um erro! Não amo ele, não como amo você! Ficar com ele apenas me fez perceber o quanto quem realmente amo é você! — Sua voz começa a soar mais desesperada, mas de alguma forma, a pulsação martelando em meus ouvidos, abafa o desespero e torna-o mais como um chiado de abelhas ao redor de minha cabeça do que qualquer outra coisa. — Hal, por favor! — Implora.
Faço uma careta, não quero rir, não seria justo com ela, mas é absurdo. Acho que estou perdendo a cabeça; talvez devesse realmente aceitar a proposta de Aurora de me mudar para Nova York. Esfrego meu rosto com mais frustração do que deveria, tentando limpar quaisquer cantos úmidos que não desejo reconhecer, ao menos não na frente de Margot. Não por orgulho ou algum tipo de masculinidade, mas se começar a chorar aqui, na frente dela, ela irá tentar me abraçar, vou desmoronar quando ela fizer, e será muito, muito fácil convencer-me de que posso esquecer tudo apenas para tê-la ao meu lado. Não sei porque mas ainda quero ela por perto; ainda acho que não há ninguém que possa ocupar o espaço que ela tem na minha vida. Isso tem que ser amor… mas se for, o quão deturpado e sujo é?
— Não estava em um relacionamento com , Marge, estava com você! Porra, é uma merda que meu melhor amigo tenha feito isso, mas você deveria ter pelo menos considerado… — tento dizer, mas minha voz falha e desisto de falar. Apoio as duas mãos nos meus quadris, passando por ela e caminhando em direção ao outro lado da passarela. Preciso respirar, e a proximidade com a mulher não ajuda. Abro a boca para respondê-la, mas então a fecho, trincando os dentes, e encarando o teto impaciente, quando mais duas estudantes passam por nós. Merda. Não vou ter privacidade assim tão cedo. Espero que as duas garotas desapareçam escadas acima antes de voltar a encarar Margot. Ela está chorando, os olhos repletos de culpa, mas não sei se é por ter me traído ou se é por ter sido descoberta. — Podia ter me dito, sabe que não teria ficado no caminho. Dói mais saber que você não confia em mim o suficiente para ser sincera, porra, se é para ser assim então por que estavamos juntos?
— Eu não queria… — Margot começa a dizer, mas engole em seco, reformulando a frase. — Eu não quero perder você, Hal.
Pisco, estupefato com sua afirmação e a encaro descrente.
— Maneira incrível de demonstrar isso!
— Hal… — Margot tenta outra vez, mas nego com a cabeça. Obrigo-me a desviar os olhos do rosto dela, mesmo que uma parte de mim não queira. A ideia de ficar sozinho parece muito mais perturbadora do que engolir meu ego e apenas fazer as pazes. Posso passar por cima de meu ego, posso engolir o que havia acontecido, posso perdoar por ter traído minha confiança, e Margot. Posso fingir que nada disso havia acontecido e se esforçar-me o bastante, posso ignorar a maneira que e Margot se entreolhavam. Mas é uma merda que seja sempre eu a fazer isso.
é meu melhor amigo, Margot, e ele não é perfeito — aviso com um tom de voz baixo, levando minha mão esquerda em direção a minha mandíbula, e esfregando-a, tentando conter a avalanche de emoções que projeta-se em meu peito. Não quero acabar com tudo de maneira negativa, já há destroços demais pelo caminho para consertar posteriormente, para que considere fazer mais bagunça. Mesmo que ela mereça. Mesmo que os dois merecem. Obrigo-me a ser maduro, ciente de que Aurora irá odiar-me mais tarde por não ter dito umas boas verdades e acusado Margot com mais severidade do que faço. Verdade seja dita, quando o estrago já estava feito, o corte já havia sido fundo o suficiente e sangrava, do que adiantava espremer a carne apenas para ver se sangraria mais? É o que é, mesmo que isso seja doloroso engolir. — Mas ele merece ser feliz, e você também — as palavras tem gosto de cinzas em minha língua, mas as forço mesmo assim. Volto a encará-la, não a garota a minha frente, mas a garota que achei que havia encontrado e amado por mais tempo do que deveria. Forço um sorriso, e novamente sou pego pela sensação perturbadora de que há um plástico esticando-se por meu rosto, sufocando-me deliberadamente enquanto machuca os músculos do meu rosto. — Espero que sejam felizes — e apesar de tudo, é um desejo genuíno.
Se não sou o suficiente para ela, que ao menos ela encontrasse alguém que fosse. E se essa pessoa fosse, porventura, , então não importava exatamente o que achava ou não. Assinto, mais para mim do que para ela, enterrando minhas mãos nos meus bolsos antes de voltar a caminhar, em direção a entrada do prédio de humanas, porque era um atalho melhor do que pela praça central da Universidade. Ainda ouço Margot chamar meu nome, mas mantenho meus olhos fixos no chão, calculando; o que mais não tem me contado?
Por algum motivo, não tenho uma boa sensação quanto a isso.

•••

Passo tantas vezes minhas mãos por meus cabelos, que tenho quase certeza que pareço alguma anomalia inspirada em uma calopsita. Se estivesse com as roupas certas, poderia até tentar parecer algum tipo de bad boy que Aurora tanto havia gostado de assistir nos filmes quando éramos mais novos. Parte do meu cabelo deve estar desalinhado e apontado para cima, a outra parte não faço ideia de como deveria estar, mas não é lá assim tão bom. Não posso dizer que me importo tanto assim. O que irão fazer? Me expor por não pentear a porra do cabelo? Como se isso fosse piorar minha situação; já sou o bobo da corte, posso ao menos usar isso ao meu favor. Do outro lado do balcão, Beatrice aperta os lábios, pesarosa, balançando a cabeça de forma negativa. Tenho vontade de gritar frustrado com a garota, mas não é culpa dela se acabei envolvendo-me em um completo desastre, perdi o horário, fui humilhado publicamente, confrontei minha ex, e considerei simplesmente largar tudo e virar a porra de um heremita que vive de fjords e fjords — essa última parte soa estranhamente convidativa, não vou negar.
Antes que possa considerar mais a fundo, a memória da voz de Aurora murmurando que havia feito por onde, e a lembrança vívida de meu pai é o suficiente para impedir-me de considerar fazer qualquer coisa. Rainer poderia ser muitas coisas, mas não era compreensivo comigo. Tenciono a mandíbula, apoiando os dois cotovelos sobre o balcão, e então enterrando meu queixo em minhas mãos. Estou encarando com tanta intensidade e a tanto tempo Beatrice que já percebi que ela tem uma pequena falha na sobrancelha direita, a pontinha do nariz possuí um pequeno buraco — provavelmente ela usa piercing — e os olhos dela são de um castanho tão claro que parecem verdes dependendo a maneira com que a luz os toca. Acho que estou a deixando desconfortável também, porque os dedos dela tremem, e ela prende a respiração toda vez que rouba um pequeno vislumbre de mim.
Rika teria me batido por isso, posso ouvi-la grunhido ao meu ouvido: “se comporta como gente” , mas estou desesperado, emocionalmente esgotado e com meu ego em frangalhos — corajoso da minha parte achar que ainda tenho quaisquer resquícios de ego. Preciso dessa maldita vaga, custe o que custar. Não importa o que tenha que fazer; para alguém que já está com a reputação na merda, considero por um momento, genuinamente implorar pela ajuda de Beatrice.
— Qual é, por favor, Tris, você me conhece — tento apelar, o que, para ser sincero, me faz sentir culpado no mesmo segundo ao ver o conflito surgir no rosto da mulher. Ela quer me ajudar, posso ver em sua expressão que quer, mas não pode fazer muita coisa se a culpa é minha; fui descuidado demais, o horário já está preenchido. Nem mesmo se oferecesse pagar diretamente para eles acho que ela conseguiria. Por um momento, considero ligar para meu pai e perguntar a ele se poderia ajudar-me. Não seria a primeira vez que o fazia e nem por isso ele deixaria de me ajudar; Rainer faria perguntas, todavia, e a ideia de contar para ele como havia conquistado o ferimento era a última coisa que desejava fazer. Exalo por entre o nariz, coçando a lateral da minha mandíbula, com tanta força, talvez, que posso ter deixado marcas avermelhadas sobre a pele. — O que preciso fazer para que você quebre essa por mim? Só fala para mim, que faço, Tris, por favor… — imploro outra vez, tentando fazer minha melhor expressão de cachorro pidão, torcendo para que funcionasse com Beatrice.
— Sinto muito, Hal, não dá — Beatrice diz com pesar. Ignoro a parte de minha mente que quer se desculpar imediatamente com a garota pelo tratamento injusto, afinal, ela já tem que lidar com metade do corpo atlético da Universidade, não precisa que eu também tente precarizar seu estágio ali, mas a verdade é que, posso sentir que está funcionando. Se me esforçar um pouco mais talvez consiga. — As vagas estão fechadas desde as onze e meia, desculpe, queria que pudesse ter algo que possa fazer para ajudar…
— Não precisa ser oficial, nem ter registro, não sou exigente — internamente, estou julgando-me profundamente. Por fora tento manter minha expressão de cachorro pidão, unindo minhas duas mãos à frente de meu rosto e encarando fingidamente desesperado. Ofereço meu melhor sorriso encantador para a garota, e por um momento a vejo soltar um pequeno risinho baixo, corando como um pimentão. Estreito meus olhos, considerando o que poderia significar; se ela tiver uma queda por mim, então estou ainda mais errado por usar isso contra ela. Merda, balanço a cabeça tentando focar na tarefa em mãos. — Olha, fazemos assim, posso vir mais cedo se for o caso ou de noite, não tem problema, a gente mantém por baixo dos panos, e posso pagar para quem quer que se disponibilize. Prometo que farei os pagamentos antes do horário estipulado e se for preciso, posso pagar duas vezes por mês, ou por sessão, o que acha? Tris, preciso voltar ao campo logo, meu joelho está quase curado, parar agora seria apenas desperdício de todo o esforço — tento argumentar não apenas com a lógica, mas para seu lado emocional.
Merda, acho que realmente sou uma pessoa terrível. Inclino-me na direção da garota, encarando-a com intensidade. É adorável que ela use sombra com glitter; em Aurora fica parecendo que ela acabou de sair do palco de Sonho de Uma Noite de Verão, mas em Beatrice, a essa fica parecendo como se tivesse acidentalmente espalhado só um pouquinho na pálpebra o que torna seu rosto mais luminoso do que de fato é. Questiono-me, meio a parte, se ela é solteira.
— Quase um ano Tris, por favor — tento mais uma vez, mas tudo o que Beatrice faz é abrir a boca e então exalar, negando com a cabeça, pesarosa.
— Desculpa Hal, se tivesse chegado só um pouquinho mais cedo…
Ofereço a ela um sorriso compreensível, exasperado com minha falta de sorte. Se tivesse ignorado Margot talvez tivesse conseguido a vaga, ou se simplesmente tivesse passado longe de onde Margot estava atracada com . … o nome causa uma onda pequena de incômodo, tentando imaginar onde a garota poderia estar e se estava bem. Ao mesmo tempo, censuro-me por tal pensamento por dois motivos: primeiro, ela havia sido grosseira o suficiente para que tenha certeza que não está nem um pouco importando-se com minha preocupação ou direcionar-se a mim, e segundo, porque ela é a irmã mais nova de . Mas talvez seja isso, por ser irmã mais nova de que sinta-me na obrigação de pelo menos verificar como ela estava. Se estivesse em Julliard, estudando junto com Aurora, uma parte de mim gostaria que ele pelo menos ficasse de olho nela, que a ajudasse e fosse o irmão que não posso ser para ela, estando aqui.
Dou duas batidinhas no balcão, acenando com a cabeça para Beatrice, e então retiro o celular do bolso, começando a encaminhar-me em direção a saída. Suspiro pesado. Isso é uma merda, minha última chance de me manter no time havia acabado de se esvair por entre meus dedos como areia, e tudo o que restava-me era preparar-me mentalmente para lidar com as consequências quando meu pai descobrisse sobre isso. Rainer não é do tipo atlético — embora ele esteja muito bem para alguém que tinha quatro filhos adultos e um adolescente, fora duas netas endiabradas —, ele não se importava exatamente com nossas preferências. Desde que estivessem felizes com nossas escolhas, e não afetassem a vida de ninguém, Rainer nos apoiaria de cabeça sem hesitar — mesmo se Yule desejasse virar artista de rua, ou Frey se tornar um pastor de igreja evangélica; ele deserdaria Frey, todavia, ele detestava religião como um todo —, o problema é que, uma vez encontrado nossas paixões, Rainer cobraria apenas excelências. Não nos deixava acreditar que nada deveria ser pela metade. Não era assim na vida pessoal, não seria assim na vida profissional.
Reiner nunca havia nos pressionado a nos encontrarmos, para ele cada um de nós possuía um tempo, mas se encontrarmos o que realmente desejávamos para nossa vida, então devemos agarrá-la até o fim dela. Ainda assim, nosso avô era um jogador, e meu pai possuía um certo orgulho de dizer que estava seguindo seus passos. Talvez fosse a única coisa relevante sobre mim em minha família que fazia-me destacar entre meus irmãos. E agora corro o risco de perder isso também. Desbloqueio a tela do celular, ignorando as setenta e nove mensagens seguidas de , pedindo para conversarmos e então tocar na foto de perfil do meu pai. Temos o mesmo tom de cabelos — embora os dele já estejam grisalhos nos cantos. Temos os mesmos olhos azuis escuros — os dele só parecem um pouco mais escuros enquanto os meus são puxados para o violeta —, temos a mesma estrutura do rosto e o tom de pele. Talvez seja por isso que ele me odeie, de certa forma. Porque sou exatamente como ele era.
— Ei, pai, sou eu, acha que pode me encontrar para almoçar amanhã? Queria conversar… — começo a dizer, já considerando quais palavras deveria usar com ele quando ouvisse sua resposta. É muito provável que ele diga que está muito ocupado ou que não consegue vir até a França. Uma parte de mim está torcendo para que ele realmente responda isso, apenas para que não precise lidar com ele por um bom tempo; até as próximas férias. Sou interrompido abruptamente com alguma alma invocando-me. Estou quase considerando perguntar para o além a quem deveria me referir, e certamente não era Deus, quando sinto os dedos delicados e as unhas perfeitamente feitas de Beatrice puxar meu braço para trás. Volto-me na direção da garota um pouco mais surpreso do que deveria. O que diabos posso ter feito para que ela tenha confundido… — Espera! — Beatrice diz, ofegante, com um pequeno sorriso se formando nos cantos de seus lábios enquanto tenta recuperar a respiração. Franzo o cenho, lançando um olhar na direção do balcão e então na garota a minha frente, e então encaro o balcão novamente. São pelo menos um metro e meio de distância, como ela se cansou tão rápido?— Olha — Beatrice diz depois de um breve período de arfares, recuperando sua respiração, e então finalmente sorri, encarando-me. — Achei uma vaga, temos com a Alina. Posso te encaixar com ela, pode ser?
Por um segundo apenas travo no lugar.
Como assim ela encontrou uma vaga? Não estava a mais de dez minutos me explicando que não havia nenhuma? Agora tem? Pisco, estupefato, abrindo minha boca e então fechando-a com um pequeno estalo, tentando formular algum pensamento coerente; o problema é que sinto que minha cabeça está completamente vazia. Por fim, paro de questionar-me e abraço Beatrice com força. Não faço ideia se isso seria apropriado ou não, nem se ela irá se incomodar com o fato de que estou provavelmente fedendo a suor do treino. Dou um beijo estalado em sua têmpora, antes de segurá-la pelos ombros com um sorriso largo o suficiente para causar um pequeno incômodo nos músculos de meu rosto.
— Você é incrível, Tris — digo, com mais sinceridade do que deveria, e uma ponta genuína de alívio. Beatrice cora e faço uma anotação mental para compensá-la de alguma forma depois pela ajuda. — A melhor!
Continua...
Nota da autora
TWs: um homi gado (e apaixonado, pena que não é pela pessoa certa)
- minhas considerações finais meritíssimo? Eu não me arrependo de nada 🖕😔🖕 (dúvido que tu tenha lido, Val, mas fica aí, minha contribuição com sua psicóloga).


☀️
Se você encontrou algum erro de revisão ou codificação, entre em contato por aqui.