“J’étais prêt à graver ton image à l’encre noire sous mes paupières
Afin de te voir même dans un sommeil éternel”
— EST-CE QUE TU M’AIMES
AGORA.
NASCI EM UMA FAMÍLIA REPLETA DE PESSOAS EXTRAORDINÁRIAS, mas não havia nada de especial em mim. É claro que nem minha mãe ou meu pai disseram alguma coisa sobre isso, pelo contrário, na visão deles, todos nós éramos perfeitos. Mas era inegável a verdade sobre mim. Frey é o músico perfeito, o cara que sabia como tocar e encantar multidões, que tinha uma voz de veludo e o charme capaz de roubar
quaisquer corações que encontrassem pelo caminho. Aurora, bem, a gente pode ter dividido o mesmo útero por
nove meses, mas era
ela que havia herdado o talento do nosso pai, a
artista perfeita que não parecia precisar se esforçar para conseguir o que desejava — e isso já era suficientemente irritante de ter que lidar; adicione ao fato de que sou sua versão
masculina e bom, você têm exatamente o lembrete de minha insignificância. Rika é o cérebro da família — e
ninguém questiona isso. E Yule? Bem, a alma sensível, capaz de ver beleza nos lugares mais improváveis. Era como se ele enxergasse de maneira própria, e de alguma forma, tornar tudo mais bonito — ajudava também que ele fosse o mais novo entre nós, com 8 anos, mas
quem quer ser comparado com um garoto de 14 anos talentoso?
No meio de tudo isso, então, havia
eu: um desastre completo com qualquer instrumento que já tentei tocar, não consigo nem convencer meu próprio reflexo do que quer que
tente estar fingindo. Definitivamente
não sou o cérebro da família, e Frey sempre fez questão de me lembrar disso todos os dias, e minha fotografias só são interessantes apenas para quem gosta de abstracionismo e psicodelismo porque
ainda não dominei a habilidade de segurar uma câmera sem tremer como um
pinscher. Sou
péssimo, e
sei que sou péssimo. No meio de tantas pessoas talentosas, não é uma surpresa que sinta-me de fora. Tento não revirar os olhos quando Aurora finalmente perde a paciência quando com minha
tentativa de passar o roteiro com ela e toma os papéis de minha mão; não antes de acertar-me com um tapa dolorido na cabeça. Engasgo-me com um riso nasalado, fingindo que estou mais irritado do que divertido — ela teve que ficar na ponta do pé para conseguir me atingir, e estou sentado diante do balcão da cozinha,
isso nunca vai parar de ser engraçado para mim.
— Você só pode estar de brincadeira! — A voz indignada de Frey finalmente corta a provocação entre mim e minha irmã gêmea, ecoando ao mesmo tempo que a de Aurora com a mesma quantidade de indignação. Tento revirar os olhos, mas é difícil não demonstrar impaciência quando
sua vida amorsa está sendo debatida por seus irmãos como a porra de um drama mexicano.
Inclino-me na direção da tábua de madeira que Frey está picando os legumes e alcanço metade de um limão, antes de levá-lo à boca. O suco azedo é um curioso consolo para meu próprio desespero. Rika solta um grunhido acertando minha mão, avisando silenciosamente que é para eu parar de beliscar as comidas e ajudá-la com a lasanha, mas não vou, porquê da última vez que tentei ajudá-la na cozinha, ela me chamou de “energúmeno” vezes o suficiente para ter atingido meu ego — e
isso era algo difícil de acontecer porque tenho um ego
muito seguro, além disso, não faço ideia do que a palavra poderia significar, mas a condescendência no tom dela havia deixado claro que era uma ofensa. Puta merda, era por isso que não gostava de falar
muito sobre o que acontecia em minha vida. Toda vez que fazia, virava um motivo de
debate entre os três. Pior, como Aurora era a gêmea mais velha, tendo nascido com uma diferença de apenas
três minutos e meio de mim, era
ela que decidia quando eu tinha direito de me defender e quando o que estava fazendo era
indefensável.
— E ela não disse nada? Só te contou tudo, pegou as coisas dela e não falou mais nada? — Meu irmão mais velho ecoa, como se eu não tivesse confirmado aquela maldita afirmação mais de vinte vezes nos últimos cinco minutos. Considero arrotar em seu ouvido para ver se vai fazer eco.
— E
com quem ela te traiu?
Aquilo traiu você? Aquele do moicano? — Aurora ecoa mais indignada com a percepção de que alguém usaria um moicano por vontade própria do que a traição de Margot. Abro minha boca para respondê-la e corrigi-la, mas sou silenciado com um dedo imperioso da minha gêmea, avisando que eu havia perdido o direito de falar a trinta minutos atrás, quando tentei fingir que estava tudo bem e que não me ressentia com tudo o que havia acontecido. Reviro meus olhos, exasperado.
Verdade seja dita, não acho que estou tão chateado com tudo o que havia acontecido nessas últimas férias. Quer dizer, estava em um relacionamento sério com Margot já fazia quase uns dois anos, não era muito, mas era o suficiente para começar as conversas mais sérias: eventos familiares e fotografias, planos para o futuro, esse tipo de baboseira que se espera de um namoro sério — ou ao menos, que
meu pai ensinou esperar. Não era mentira que uma parte de mim tivesse começado a considerar juntar dinheiro para um futuro que desejava compartilhar com ela. Gostava da ideia de casamento, de construir uma família e todos os enfeites possíveis, mas mais do que isso, queria realmente assegurá-la de que levava a sério nós dois. Mas então, desbloquei o ligamento no início da temporada no ano passado, entre inúmeras sessões de fisioterapia, dolorosos, consultas médicas e exames, Margot se tornou um segundo plano. Não era minha intenção deixá-la de lado, havia tentado compensá-la das formas que conseguia imaginar: viagens, presentes caros, afeto, o que quer que ela pedisse, ela conseguia, mas então voltei para o apartamento compartilhado com e na
Douai em Paris um dia e tudo se estilhaçou por completo. Não a peguei com ninguém, isso seria exagero — embora uma parte de mim desejasse ter a flagrado com outra pessoa apenas pela
confirmação —, mas havia me encarado no fundo dos olhos e dito com um tom severo, quase piedoso tudo o que havia acontecido. Não apontou nomes, apenas foi sucinto nas informações.
— Vi sua garota com outro — havia dito com uma mistura de pesar e exasperação, não pela situação, nunca havia gostado muito de Margot, e mesmo que não tenha me dito o motivo, parecia fazer questão de lembrá-la de seu desprezo pessoal sempre que estava por perto. Era por isso que acabamos nos afastando nos últimos meses, embora a situação agora seja outra. O encarei confuso por mais tempo do que queria, dando de ombros. Achei que ele estava dizendo algo comum, apenas com um demasiado exagero movido pelo desprezo pessoal; não é que não sinta ciúmes, simplesmente sou seguro o suficiente para
saber que não precisava me preocupar com uma competição, ou ao menos, era o que eu
achava na época. Quando questionei como ele havia visto minha namorada, grunhiu, jogou-se no sofá, e abraçou a maldita almofada com a cara do
Nicholas Cage de . — Montada no pau de um cara do time, igual uma desesperada.
Acho que comecei a rir mais ou menos depois dessa parte. A história era tão surreal que simplesmente não parecia fazer o menor sentido. Quando questionei o nome da pessoa com que Margot havia me traído, se recusou a dizer. A situação se tornou séria quando confrontei Margot, duas noites depois, sobre isso. Achei que se aproximasse da situação com calma e até bom humor, ela simplesmente iria me encarar, bufar e dizer que estava sendo outra vez; não era uma novidade tentar vilanizar Margot. Mas ao invés de revirar os olhos, ou ficar furiosa com as atitudes de , Margot empalideceu. Os olhos se desviaram para o chão, e ficaram por lá por um longo tempo. Foi quando soube que na verdade, estava certo — algo que ele não me deixa esquecer. Margot admitiu tudo, datas, encontros, sentimentos, como ela não queria me machucar e que não queria terminar mas estava apaixonada pelo outro cara; estranhamente, não me senti injuriado ou furioso, para ser honesto, me senti
aliviado. É claro,
ainda houve uma briga, ainda houve choro e pedidos de desculpas ignorados, mas por uma fração de segundos, ao fundo de minha mente,
quase considerei agradecer ao amante de Margot por ter tirado aquele fardo pesado dos meus ombros.
Levanto-me do banco alto da bancada da cozinha, caminhando descalço até o lixo antes de descartar não apenas o limão que estava chupando, como igualmente as folhas estragadas do alface que Frey estava picando. O cheiro do molho bolonhesa que Rika estava fazendo é
quase tão bom quanto o do nosso pai, o que me faz questionar se Rainer havia lhe passado a receita ou se ela simplesmente havia aprendido aquilo por simplesmente
olhar; Rika tinha
esse tipo de habilidade. Minha mãe chama de
autodidata, eu, já estou inclinado a acreditar que não passava de mais uma
grande comprovação de minha
longa lista de evidências de que ela, na verdade, era um
ET.
— Não, espera, um minuto, o do moicano não é o bonitinho que sempre aparecia aqui nos fins de semana quando ele estava no primeiro ano de faculdade? O bonitinho com sotaque
cajun? — Rika acrescenta seus cinquenta centavos de ajuda, e fecho meus olhos negando com a cabeça. Puta merda, porque diabos voltei mesmo para casa neste aniversário? Ah, sim porque da última vez que havia escolhido passar um aniversário com os caras, minha mãe ficou
extremamente ofendida por não ter arrastado e os outros juntos. Se o tivesse feito, tenho quase
certeza que iriam adotar eles também, e a última coisa que preciso é que meus pais acrescentem
mais pessoas nessa família. Já sou invisível o suficiente para começar a ser comparado com meus amigos também. Pisco por um segundo, voltando meu olhar na direção de Rika quando percebo a quem se refere.
— ? ‘Cê tá falando do
? — Minha voz soa um pouco mais alta do que o normal, mas é completamente devido ao tamanho do absurdo que acabei de ouvir. É um completo
absurdo, impossível de ser aceito ou engolido, perceber que minha irmã mais nova está descrevendo como a porra de um cara bonito. Rika abre um sorriso, dando-me o dedo do meio, e levanto-me no mesmo segundo, pronto para correr atrás dela até que a ideia tenha sumido de sua cabeça. — Não. Definitivamente não. Nunca. Jamais. Para você ele é
senhor , e ele é fora dos limites — a última coisa que preciso é que se envolva com uma das minhas irmãs. Aurora, esta
desgraçada traiçoeira, abre um sorriso largo, os olhos brilhando como os de um gato que acabou de achar a
melhor caixa para se entreter. O faz por ser contraditória, por querer sempre irritar e é boa nisso, igualmente o faz porque ela tem um
maldito dedo podre sem comparações. Arranco o pano de prato do ombro de Frey, que resmunga um sonoro “ei”, e então arremesso à minha gêmea, mirando sua cabeça. — Você também, Rory, é sério. Não.
Diferente de Rika, que normalmente só falava sobre meus amigos para me irritar,
Aurora, realmente tinha o costume de se envolver com as mesmas pessoas que eu. Tínhamos o mesmo tipo, tanto para mulheres quanto para homens, e estranhamente havia aquela pequena competição entre nós dois sobre quem conseguiria conquistar a pessoa — na maioria das vezes, era
Aurora quem saia ganhando. Não gosto de relacionamentos casuais e certamente não sou o tipo que se diverte com uma noite, como Aurora faz; se me envolver com alguém, quero conhecer essa pessoa, quero olhar para sua alma e consumi-la até que seja uma parte incontestável de mim — não a toa, são raras as garotas que ficam. A diferença entre mim e Rory, todavia, é que Aurora tem uma
péssima sorte para encontrar relacionamentos. De alguma forma, não faço ideia de como, Rory
sempre consegue encontrar a
pior pessoa possível para se relacionar, acaba com um coração partido todas vezes, e a beira da loucura. São inúmeras situações que questiono-me
como ela não havia surtado ainda. Isso a impedia de se relacionar? Não, pelo contrário, mas nos colocava em um ciclo infinito onde continuava a assistir seu coração ser quebrado por filhos da puta que nunca, em milhões de anos, iriam merecer sequer a sujeira de seu sapato, quiçá seu coração. E
definitivamente não era o tipo de cara para um relacionamento.
— Esse nome está banido nesta casa, a partir de hoje, amém — digo batendo com o punho da faca na tábua de cortar e então viro meu rosto na direção da tigela de vidro que Frey estava fazendo a salada. Solto um gemido, irritado. —
Por que você tá colocando
maçã na salada, cara?! Qual é o seu problema com
maçãs?!
Na casa dos havia apenas
duas regras: sempre haveria mais uma cadeira na mesa para quem quer que se interessasse em chegar, e
nunca, absolutamente
nunca, aceitar quando minha mãe se voluntariava para cozinhar — e ela fazia isso com mais frequência do que deveria. Você pode ter
certeza de que seria um desastre e acabaríamos tendo que chamar os bombeiros para nos resgatar — ou com uma intoxicação alimentar que levaria semanas para ser curada, no melhor das hipóteses —, agora, questiono-me se essa regra deveria se estender a Frey também, porque simplesmente
tudo o que ele fazia
sempre acabava com um pedaço de
maçã dentro. Solto um chiado entre dentes, negando com a cabeça, devolvendo a tábua de cortar para ele e então caminho em direção aos armários para procurar pela travessa de vidro que Rika iria precisar para fazer a lasanha antes que ela possa cobrar.
— Tá, mas o do moicano, qual é o nome dele então? — Aurora importuna, dando-me um tapa dolorido nas costas que tenho certeza, irá ficar vermelho com o formato da mão dela. Obriga-me a dar espaço para quando fica nas pontas dos pés para me entregar a travessa de vidro
certa. Não a redonda, porque a redonda era
dela para fazer
sobremesas, e ela
detestava que usássemos para fazer outra coisa se não
doces ali porque dizia ficar com o gosto do sal; lanço um olhar cúmplice para Rika, considerando o quanto da lasanha conseguimos transferir mais tarde para a bendita travessa de vidro de Aurora, apenas para irritá-la. Coloco-me ao lado da minha irmã mais nova, focando em abrir os pacotes com as folhas de massa pronta de lasanha e organizá-las na travessa.
— Você não tem literalmente uma criança de seis anos para ficar de olho, cara? Que tal a gente só… encerrar esse assunto? Eu realmente gosto muito mais dessa ideia, vocês não? — tento barganhar, mas como sempre sou completamente ignorado pela minha gêmea. Rika bufa com um risinho irritante, despejando uma concha bem cheia de molho à bolonhesa sobre a massa, antes de me comandar com o olhar para passar o queijo mussarela picado por Frey, que está grotesco.
—
Shiu. Você ainda está em
time out por causa daquela baboseira, e a Elo tá bem tranquila assistindo os desenhos dela com a Charlie — Tento não sorrir, porque isso não poderia estar mais longe da verdade. Estou ciente de que as duas garotinhas, uma de seis anos e a outra de quatro, poderiam estar fazendo tudo, menos assistindo desenhos na televisão ligada na sala; tenho quase certeza de que estavam explorando as maquiagens caras de Aurora de novo, especialmente porque vi pequenos vislumbres de pezinhos coloridos desaparecendo escada acima a dez minutos. Posso imaginar a destruição em massa que uma hora deve ter proporcionado para Da Vinci e Picasso no segundo andar da cobertura de Rika. Marcas como
Dior, Yves Saint-Laurent e
Channel destruídas e manchando as paredes.
Não será
eu que vai entregar as meninas.
Charlie é filha de seis anos de Frey, com uma ex-namorada que acabou bem mal no ensino médio; Sarah era uma das filhas de George Lancaster, uma antiga família esnobe mas que ainda assim tinha os como amigos. As conexões entre nossos mundos nunca foram distantes e por tempo o suficiente convivemos uns com os outros sem preocupações maiores, mesmo que discordassem profundamente de certas posturas. Para os Lancasters a ideia de
status era muito mais importante do que qualquer outra coisa, havia uma tentativa desesperada de escolher
exatamente com quem se passava o tempo, e evitar que pessoas menos
dignas de dinheiro — se que você me entende — acabasse entrando para família. A tipicidade esperada para uma família
Old Money, que meus pais sempre desprezaram. Os poderiam ser muitas coisas, mas não éramos conservadores, sequer tínhamos uma religião em si, e tampouco gostamos de seguir os costumes antigos que outras famílias como as nossas faziam. Roubo um pouco de queijo da vasilha, esperando Rika terminar de praguejar enquanto organiza-o na travessa, apenas para levar mais um tapa — é incrível como sou o saco de pancadas deles. Sarah nunca gostou de nós, sei que detestava Aurora por sua habilidade de falar exatamente o que estava pensando sem pedir desculpas por isso; me tolerava porque sempre fui quieto, e gostava de Frey porque, bem, Frey era exatamente o tipo de cara que encantava multidões e oferecia pequenos respiros de rebeldia sem muito risco para jovens de classe alta passando por uma fase. Acontece que Sarah engravidou, e o caminho se tornou óbvio para Frey. Os dois se casaram antes que a barriga dela pudesse crescer, mas não duraram nem um ano depois do nascimento da menina. Sarah pediu o divórcio de supetão, renunciou os direitos legais da menina, e Frey se tornou, aos 19 anos, um pai solo, com uma carreira promissora na música e responsável por cuidar e educar uma criança que não estava pronto para ter.
A pior parte disso? Ele tá fazendo
um puta de um trabalho bom. Pode ser frustrante vê-lo se tornar o músico que é, cantar para plateias lotadas, mas ainda mais irritante é saber que Frey não perde
um evento na escola de Charlie, nem mesmo uma
história de dormir. Seria de se esperar que a primeira coisa que Frey tivesse feito, após o divórcio com Sarah, era deixar a menina para nossa mãe criar — não que Amélia fosse detestar a ideia, na verdade, vive incentivando isso, já que adora ser
mãe, mesmo que não tenha lá muito tempo para isso; seria nosso
pai responsável pela vida diária da menina —, e seguir em frente, ou no mínimo saltar para um novo relacionamento apenas para se certificar que a menina fosse minimamente cuidada por alguém que não fosse ele mesmo. Mas Frey é apaixonado por ser
pai. Não sei como ele faz, mas é foda para caralho, observá-lo dedicar-se a filha que não esperava ter, mas que agora tinha, não iria abandonar nem mesmo se um poder divino lhe comandasse.
Já Elowen está com Aurora há mais ou menos dois anos, quando Rory foi visitar um orfanato e praticamente se apaixonou pela garotinha. Meu pai tentou dissuadi-la da decisão, mas ele bem sabia o que era visitar um orfanato e sair com um filho de lá; com Rika havia sido assim, com Elowen não seria diferente, especialmente quando Aurora é bem mais próxima de nosso pai em temperamento do que os outros. Aurora herdou os traços de personalidade
positivos de meu pai, eu, os negativos, era por isso que as coisas ganham uma conotação um tanto mais complexas comigo e com Rainer. Acho que fico com inveja dos dois, de certa forma, tem mais do que um motivo para voltar para casa; não que eu queira um filho. Céus sou novo demais para isso. Talvez em uns dez ou vinte anos, aí sim.
— Nome, anda, eu quero saber o nome para stalkear o idiota.
— O do moicano não se chama ? O francês? — Frey opinou, e Rika revirou os olhos.
De novo a menção de , considero arremessar um por um deles pela janela. Em comparação, sou mais atlético e mais forte que eles, o que poderia fazer? Me chantagear emocionalmente para não fazer isso? Bem… se fizessem, daria muito certo na verdade, é uma vergonha ter que admitir isso.
— Não esse é o gostosão de cabelo longo, Maël é o namoradinho daquela garota esquisita que a Rory não gosta, a que o
quase apresentou pra família antes da Margot, e é o que cheira a amaciante de bebê — Quase solto um riso com o comentário, anotando mentalmente para usar com mais tarde. Solto um grunhido baixo, exasperado. Quando minha vida havia se tornado tópico de discussão? Tenho vontade de me jogar da janela, mas Aurora irá me arrastar de volta no segundo que tentar. Tudo o que farei é apenas ganhar mais um tapa dolorido na cabeça e um
time out mais longo. Aurora retira o celular do bolso de sua calça de moletom pink com
strass escrito:
“Drama Queen” na parte traseira, a coisa mais horrenda que havia visto hoje, e então franze o cenho, compenetrada.
— Não acredito que vou ter que usar o perfil da
Margot para descobrir com
quem ela traiu você. Sério , isso é ridículo. Nunca fui com a cara dessa garota, mas você
tinha que ir atrás dela não é? Ugh, porque você não pode ser igual a um jogador de futebol normal? Sabe? Trai as namoradas, não consegue ter
um relacionamento sério, e tá ocupado demais suando para pensar em qualquer outra coisa na vida — Encaro o vazio à minha frente, e imagino-me, feliz, saltando no meio dos carros em movimento até ser atingido por um. Bem, pelo menos a situação não poderia ser
mais humilhante, quer dizer, meus pais não haviam chegado ainda para presenciar o debate em questão, então já era alguma coisa. Frey solta um ruído inteligível, como o bom fofoqueiro que é, inclina-se na direção de Aurora para espiar sobre seu ombro. Acho que posso entender porque Sarah fugiu de nossa família, não é como se nós fossemos apegados a qualquer ideia de
etiqueta. — Ainda não consigo acreditar que ela teve a
coragem de fazer isso, sério! Já viu o rosto dela? Sinceramente você estava fazendo caridade,
de novo!
Nego com a cabeça, exasperado. Pego das mãos de Rika a concha, porque ela
claramente está colocando pouco molho na estrutura da lasanha, e se continuar assim, a massa nunca vai ficar cozida de fato. Rika cruza os braços caminhando em direção a Aurora
também com o intuito de ver a imagem de minha
ex, buscando por quaisquer informações sobre o cara com quem ela havia me traído. Pela quinta vez, hoje, me arrependo perdidamente por ter voltado para casa. Era tradição, o aniversário de casamento dos meus pais não era apenas uma comemoração somente para eles, como para a família inteira, nós costumávamos nos reunir para comemorar não importava o que acontecesse; aniversários, feriados e momentos especiais eram todos passados em família, obrigatoriamente. E como toda tradição na família , é levada
muito a sério, mas a verdade é que se tivesse ficado em Paris, focado simplesmente em treinar com e ,
nada disso estaria acontecendo. Mas não, eu precisava volta para casa, para comemorar o aniversário de casamento dos meus pais como um completo imbecil, não precisava?
— Não fale assim, Rory! Cara que saco! — Praguejo exasperado, negando com a cabeça e quase derrubo a panela com o molho. Frey, me xingando entre dentes, empurra-me para o lado. Reviro os olhos quando ele toma da minha mão a maldita concha, e então, me limito a roubar mais um pouco de queijo ralado, jogando em minha boca. Limpo os dedos com o pano de prato ainda enroscado na cabeça de Aurora, antes de exalar, frustrado. Passo minha mão esquerda por meus cabelos, as unhas arranhando o couro cabeludo, impaciente. — As coisas já não estavam legais com Marge, e sinceramente, estamos na Universidade, não faço ideia do porque eu
insisti em manter essa merda, mas acabou. E é isso aí. Não interessa como, não me importo. Podemos
finalmente mudar de assunto agora, porra?
—
Você insistiu em continuar com esse relacionamento?
— Olha, para ser sincera, é
bem a cara
dele ter feito isso. não tem relacionamentos
casuais, ele é o irmão
carente, lembra? — Rika acusa com um sorrisinho e o fuzilo com o olhar. Pego o pano de prato enroscado na cabeça de Aurora e então jogo na direção da outra garota. Para minha frustração, minha irmã mais nova solta uma gargalhada gostosa, alta, desviando com facilidade da minha mira
terrível antes de correr para a dispensa.
— Para sua informação eu tenho muitos relacionamentos casuais — retruco e Frey caí na gargalhada. Suspiro pesado, massageando a ponte do meu nariz. Desmoralizado tanto no meu grupo de amigos quanto por meus irmãos, é incrível como eu
ainda não havia considerado desaparecer. — Só não sou de contar vantagem — minto.
— Por favor, a última coisa que quero saber é da sua vida sexual — Aurora resmunga com uma expressão de nojo e deixo um sorriso travesso e muito satisfeito comigo mesmo surgir por meus lábios.
— Ah, não, quer ouvir sobre esse truque com a corda… — Aurora me interrompe com mais um tapa na cabeça antes que possa continuar. Frey sorri me lançando um olhar
quase impressionado. Dou de ombros, evitando encarar meu irmão mais velho. — Restrição é legal se você souber como fazer. E to falando sério, cara, se você enfiar maçã na porra da lasanha, eu vou te matar. Eu
realmente vou te matar.
Frey me dá o dedo do meio, mas fico aliviado ao ver que ele colocou a cesta de frutas de Rainer de volta no lugar e não tem nenhuma maçã perto de suas mãos.
Empolero-me no mesmo banco que Aurora encontra-se sentada, usando meu quadril para empurrá-la mais para o lado e encontrar uma forma mais confortável de apoiar minha perna esquerda antes de alçar o meu próprio celular. Desbloqueio a tela apertando os lábios em uma linha rígida. Há algumas notificações de redes sociais que não faço questão de verificar, dois e-mails da universidade sobre as eletivas que ainda não escolhi, e pelo menos 120 mensagens no grupo dos caras, dos planos para essa noite, aos avisos do Treinador Lamar sendo repassados com memes idiotas — a maioria vem de —, e é claro, os planos para essa noite; a maioria das mensagens são atualizações idiotas de , que estava tirando o dia inteiro fotografias a cada segundo, contando o que estava fazendo. Acho que Maël ficou puto com , porque há pelo menos um scroll inteiro de “Maël retirou do grupo” e “ colocou no grupo” seguidos até enviar uma foto com a jaqueta de couro preferida de Maël. O assunto foi abruptamente interrompido por algumas perguntas dos outros membros do time questionando o que iríamos fazer nessa noite, já que os treinos voltariam mais intensos do que nunca após esse fim de semana. Então há inúmeras mensagens de tentando convencer a ir a algum tipo de festa em
Bas-fonds. O pub era conhecido por fazer
jus ao nome que levava, mas era divertido, pelo menos, assistir tentar a sorte com qualquer mulher bonita apenas para terminar com uma mancha vermelha no rosto e uma expressão de poucos amigos pelo resto da noite. Era uma concepção geral de que era um grande mulherengo — que de alguma forma, não conquistava as mulheres, era apenas escolhido por elas para um momento de descontração antes de ser deixado para trás.
Aurora apoia o queixo dela em meu ombro, o peso familiar é reconfortante apesar de tudo, encarando meu celular. Não faço questão de ocultar dela a tela, apenas verifico se algum idiota mandou uma foto do pau perguntando se estava boa ou se precisava tirar outra em uma luz melhor. Somos gêmeos, afinal, não há um mundo que eu conheça em que ela não esteja, e certamente não existe um mundo em que ela não esteja que
queira estar. Sabe de todos os meus segredos desde que éramos pequenininhos; nunca
quis esconder nada dela, ou tive motivos para o fazer. Somos dois corpos diferentes, compartilhando a mesma alma — temos até tatuagem, a dela é no pulso, a minha acima do coração, piegas, mas éramos adolescentes e sempre pareceu certo. Não digo nada quando ela vê as 40 chamadas perdidas de Margot em meu celular, apenas puxo para o lado a fim de limpar a barra de notificações. Há mais: notificações de mensagens nas minhas redes sociais, mensagens de voz, até a porra de um
SMS e uma transferência bancaria de 0,50 com o pedido de Margot para conversar. Ignoro todas; não porque não queira vê-la ou por estar magoado com ela pela traição, só não quero
conversar com ela sobre.
É uma dança familiar entre nós dois. Desde que havia me declarado durante uma apresentação idiota de Shakespeare durante as aulas de teatro de
Aurora, nunca fomos o exemplo de
estável. Era intenso, é claro, e ela sempre havia me deixado louco, mas igualmente as brigas eram intensas, os gritos e de alguma forma sempre era
eu voltar me arrastando para ela. Implorando por desculpas, reconhecendo que havia cometido um grave erro quando na verdade não tinha culpa de nada; então fomos para a faculdade e acreditei que talvez fosse o momento em que finalmente iríamos amadurecer. Incrível que não foi esse o caso, não? As brigas ficaram mais frequentes, as demandas maiores, de repente Margot estava com ciúmes até mesmo de Avery, a assistente do treinador que tinha uma
esposa e um filho em casa. Qualquer garota que se aproximasse de mim já era um motivo plausível para que ela automaticamente assumisse que a estava traindo — agora imagino que era apenas autoprojeção. Torna-se desgastante ter que ficar me explicando toda vez que estava com os caras ou mandando foto de onde estava quando não recebia nada em troca dela. A traição não é o problema; o problema é que
ainda assim, uma parte de mim, considera voltar com ela. Talvez ela esteja certa, talvez
eu tenha exagerado, quer dizer, não havia significado nada, certo? Ela estava sozinha, nós estávamos brigando direto, ela encontrou o consolo que precisava no momento de desespero. Se fosse um pouco melhor, se fosse um pouco mais como Aurora ou Frey talvez pudesse entender. Talvez tudo isso seja apenas meu ego entrando no caminho.
Tínhamos uma história. O gosto amargo atinge a ponta da minha língua quando Aurora toma da minha mão o celular e desliga, virando a tela para baixo.
— Você é um idiota, — sussurra ao meu lado, parecendo realmente estar considerando me acertar com um soco, mas sua voz é doce e suave, daquele jeito que ficava quando ela estava agindo como
Aurora, a garotinha que entrava na minha frente para me proteger de qualquer machucado que fizesse. A garotinha que me emprestava o coelhinho esfarrapado dela para me fazer dormir durante a noite. Olho para minha irmã gêmea; fico extremamente consciente do quanto amo essa garota. Não é apenas pela obrigação familiar, é o reconhecimento que ela possuí o mesmo sangue que o meu, que faria tudo por mim como eu faria por ela. Apenas a encaro-a, amando-a em silêncio, sem ousar imaginar o que seria de mim se ela não estivesse ali. Se não fosse minha gêmea. — Para de fingir que está tudo bem, não está! E por favor, para de pensar em voltar com essa idiota, é a seunda vez que ela faz isso…
Passo meu braço esquerdo sobre o ombro dela, esfregando seu braço esquerdo, mas não a encaro. Aurora pode me ler melhor do que a si mesma, se encará-la, irá enxergar a mim como um espelho.
— Não estou considerando voltar com ela — Mentir nunca soou tão desnecessário, é
tão nítido que estou mentido que desisto no segundo que a primeira palavra deixa meus lábios. Sinto o olhar de Aurora, fixo em meu rosto, há uma ponta de julgamento ali, mas não do tipo agressivo que poderia me censurar. É o julgamento que ela oferece-me toda vez que faço algo estúpido conscientemente, aquele pesar de ver alguém que você ama tomando uma escolha errada, e a resignação de esperar até que tudo tenha explodido para ajudar a recuperar os pedaços estilhaçados que ficaram pelo caminho. — Rory, por favor, não começa…
— Você tá sim — Aurora murmura baixo, exasperada, antes de suspirar pesado, inclinando-se para frente no balcão. — E sabe como eu sei? Porque foi
exatamente isso que você fez nas últimas seis vezes! — Contra fatos, não tenho argumentos. Repouso meu cotovelo direito dobrado sobre o balcão da cozinha e então enterro meu queixo em minha mão voltando a encará-la com uma ponta intensa de culpa. Ela está me julgando, mas há também aquela compreensão insuportável que é puramente
Aurora, que sempre exibia quando realmente queria ajudar. Era teimosa, insuportável, desnecessária e um desastre em qualquer âmbito de sua vida que não fosse profissional ou parental, mas ainda assim, é a pessoa que
mais tenta acertar as coisas. Não importa o que seja, Aurora nunca desistia, amo-a mais por isso.
Odeio-me por a fazer se preocupar comigo, não é assim que funcionamos. Ela é a impulsiva, a cabeça quente, o coração e a emoção que sempre pulsou dentro de nossa família e em nossa dinâmica; sou a sombra, o escudo que refreia o impacto e tenta ter certeza de que as merdas que
ela faz não a destruam por completo — e sempre parecia estar a beira da autodestruição. Sou o responsável por ela, por protegê-la, por apoiá-la independentemente do que ela faça, não o contrário.
— Amo ela, Rory — sussurro baixo apenas para que minha gêmea escute. A confissão carrega mais peso do que deveria. Quer dizer, havia planejado um futuro com Margot, não? As viagens, a gente havia visto casas e potenciais lugares para se mudar quando a faculdade acabasse e as seletivas para o Arsenal tivessem sido completadas, talvez Manchester fosse um bom lugar, para além do time. Até cheguei a ir em uma ou outra joalheria para ver algum anel que pudesse agradá-la.
Realmente achei que tinha encontrado a mulher da minha vida, a mulher com quem queria passar o resto da minha vida , não por obrigação, mas porque
queria viver com ela. Agora já não sei mais o que deveria sentir. Uma parte de mim deseja simplesmente ceder aos pedidos de desculpas de Margot e voltar com ela como se nada tivesse acontecido; como se os dois últimos meses não tivessem sido mais nada do que apenas um pesadelo insuportável, mas nebuloso o suficiente para não me lembrar de nada. Já a outra estava aterrorizada pela possibilidade de retornar àquele mesmo ritmo: nós fazemos as pazes, tudo parece ótimo, ela começa a ficar estranha, discutimos, terminamos e então volto rastejando implorando por mais uma chance porque minha vida não parece fazer sentido sem
Margot. Mesmo com todos os defeitos, mesmo com todos os problemas, mesmo com todas as falhas e erros, não quero
querer mais ninguém. — Relacionamentos são complexos, a gente não cai fora na primeira chance que aparece… acho que amo ela o suficiente ainda para sei lá…
— Ama mesmo? Ou isso é só você com medo de ficar sozinho? — pontua e tento não revirar os olhos. Não quero admitir, mas as palavras doem mais do que deveriam. — Eu
sei que
eu tenho um dedo podre, mas você? , você nunca ficou solteiro na sua vida
toda. Tem sempre uma garota, tem sempre um relacionamento. Você sequer sabe como é quando não tem ninguém?
Solto um riso nasalado, desdenhoso.
— Não é todo mundo que consegue ter a história de amor de Amélia e Rainer . Infelizmente, os filhos estão fadados ao fracasso de viver sempre à sombra da grande história de amor do casal — murmuro mais amargo do que deveria sentir-me, e Aurora me dá um soco dolorido no braço. Estou me ressentindo com algo que sequer deveria; era uma maravilha que meus pais fossem o ápice do que deveria ser um relacionamento, anos juntos, anos escolhendo um ao outro, mesmo com todos os defeitos, anos em que as brigas eram altas, mas que
nunca tornavam-se justificativas, meros pontos a serem tratados e curados. Para meu pai não havia outra mulher se não minha mãe, e para minha mãe, havia apenas meu pai. Eles se amavam, e de alguma forma fazia dar certo, não apenas com os filhos que tinham, mas com o amadurecimento de seu próprio amor e perspectivas. Ter pais estáveis e maduros, que valorizavam um ao outro ao em vez de usarem-se como amar para se machucar, que genuinamente faziam de tudo um para o outro, havia estabelecido uma meta muito alta para qualquer um de nós acreditar realmente que terá algo parecido. Invejo-os por isso, porque fizeram parecer que valia
tanto a pena amar que nos ensinaram a amar sem limites e precauções, a entregar nossos corações sem segundos pensamentos de cautela esquecendo-se que o que eles tinham era algo
raro. Fizeram-nos acreditar que era possível, e não uma
exceção. Faço uma careta, frustrado, mas não digo nada dessa vez. Para alguém do tamanho de Aurora, ela tinha uma mão pesada do caralho. E não tinha medo de usá-la. — O que você recomenda então,
Cérebro?
Aurora revira os olhos, mas posso ver o canto de seus lábios se curvar para cima em um quase sorriso. Tento não rir e falho miseravelmente, aí estava, a prova viva que Aurora estava prestes a planejar a coisa
mais estúpida que poderia competir diretamente com ; tenho a sensação de que serei o
único a me ferrar.
— Pegar
geral, Pink — ela pontua com uma piscadela, alçando meu celular outra vez, e desbloqueando com minha senha o aparelho sem dificuldade alguma. Vejo-a abrir a conversa com meus colegas de time e amigos. Estreito meus olhos, questionando-me se este é o momento certo para interrompê-la e avisá-la para
parar de mexer no meu celular antes que ela visse alguma coisa que a traumatize pelo resto do mesmo, mas no fim ela apenas digita alguma coisa antes de devolver o aparelho para mim; concordou com as mais de dez mensagens de . Suspiro pesado, negando com a cabeça, mas não escondendo o sorriso que sinto crescer. Há uma sensação calorosa pulsando por meu peito, algo que sempre se segue quando Aurora é simplesmente
Aurora. — Vai, se arruma, você vai para essa festa, nem que tenha que pagar a passagem de avião de volta. Agora, com licença, alguém precisa ajudar o Frey com a merda da lasanha que ele tá montando como a cara dele — acusa, lançando um olhar enviesado para Frey.
Frey, para seu mérito, retorna o olhar com uma expressão cínica.
— Tá ficando linda então — Frey diz. Encaro-o como se ele fosse um maluco, o que, de certa forma, era meio que requisito básico para receber o sobrenome
.
— Vocês três são
idiotas demais, honestamente — Rika, a voz da razão, retorna da dispensa carregando um pacote de batatas
chips, e abrindo-a para esmagá-las com a mão. Vejo-a revirar os olhos, antes de colocar o pacote sobre o balcão. Alcanço-o para roubar um pouco, mas Rika, que segue os passos de Aurora como uma discípula dedicada, me acerta um tapa na orelha. O pacote, todavia, é roubado de volta por um Yule irritado, e com um amontoado terrível de maquiagem no rosto. Batom vermelho delineando os lábios de forma torta, quase fazendo-o parecer que tem o dobro de lábios, e eles são como os da
Princesa Caroço de Hora de Aventura. Glitter de todas as cores possíveis se espalham por suas pálpebras e bochechas, e uma das meninas teve a brilhante ideia de colocar dois elásticos coloridos, um de cada lado da testa dele o fazendo parecer uma barata muito,
muito irritada e com uma maquiagem horrível.
— Isso? É por ter deixado elas entrarem no meu quarto! — O garoto pragueja apontando acusadoramente na direção de Aurora e Frey, que congelam no ato de finalizar a lasanha. Encaram o mais novo com expressões que variam entre a surpresa e a exasperação parental, e uma necessidade de rir alto da bagunça que seu rosto se tornou como um bom irmão mais velho faria. Yule é o único de nossa família que possuí um quarto em
todas as casas; quando visito Frey ou Rika, preciso dormir no sofá ou no quarto de hóspedes. Aurora praticamente divide a cama comigo, porque fazíamos isso quando éramos crianças, e o apartamento na
Douais com e é o apartamento com e . Não contenho um sorriso, indicando com meu queixo na direção do garoto. Os risinhos de Elowen e os ruídos de Charlie tentando silenciá-la ecoam pelas escadas em direção a sala de estar com aquela inocência programada.
Porra, como eu amo tanto elas… — Não se atreva, …
— Rosa é totalmente sua cor, cara — Caí na gargalhada no segundo que o garoto me acerta na costela. Golpe baixo, mas era um sacrifício necessário. Rika solta um muxoxo ao ver o pacote de batatas roubado, e então, decide apenas retirar o sorvete do congelador, sentando-se ao meu lado. Oferece-me uma colher, por instinto, e então quebra o caramelo salgado que cobre a superfície do pote.
— A gente finalmente vai deixar o
Teco em paz e se concentrar em terminar essa porcaria de jantar antes que a mãe e o pai retornem? — ela indica para a lasanha precária que Aurora segura, empurrando em direção ao forno ligado antes de revirar os olhos. — Sério, gente, porque tudo nessa família vira debate?
— Porque, tirando por mim, vocês não sabem fazer nada sozinhos! — Aurora retruca roubando da minha mão minha colher cheia de sorvete e comendo como se fosse dela. Solto um grunhido em protesto, mas antes que ela possa me dar outro soco, ergo as mãos em rendição.
— Aham, aham, a gente finge que é verdade, Rory — Frey acusou com um olhar retirando os potes sujos e a tábua de corte da bancada para colocar na pia. Tenho a terrível certeza de que
eu serei o responsável por lavar a louça suja. Filho da puta, ele sabia
exatamente o que estava fazendo. — Além disso, o Teco
nunca fala o que tá acontecendo na vida dele, se a gente não ajudar
agora, ele provavelmente vai fazer uma merda colossal da própria vida, como casar com a primeira coitada que aparecer no caminho dele!
— Tinha me ganhado no argumento, Frey, mas você
tinha que endossar esse apelido ridículo, não é? — Acuso e Frey solta um gritinho indignado, apontando na direção de Rika, com um claro “ela que começou”, mas ignoro, saltando do banco e espreguiçando-me. Meus músculos estão travados pela viagem de avião até a Inglaterra, onde Rika estava morando por causa da universidade que começaria mês que vem. Londres era, igualmente, o lugar favorito de nossos pais; minha mãe era de SoHo, o bairro boêmio, e meu pai só precisava de uma desculpa para escapar de Oslo sempre que tinha chance. Depois de quase duas horas debatendo minha vida amorosa por um bando de idiotas que compartilham o DNA comigo, considero que meu turno está encerrado. Solto um suspiro satisfeito quando minhas juntas começam a estalar.
— Ah, eu acho um apelido
muito bom — Aurora ressalta, dedo em riste, com uma careta, roubando mais uma colherada do sorvete; ela poderia fingir que não gostava, mas o sorrisinho preso no canto de sua boca lhe entrega com facilidade. Sei que minha outra metade estava com saudades de casa, e que usaria qualquer desculpa para aproveitar esse aniversário ao nosso lado. De todos nós, era a única com talento o suficiente e coragem o suficiente para mudar para outro
continente para estudar na
Julliard. Não posso negar que uma parte de mim,
também estava desesperado para vê-la; mas agora que a vi, acho que posso sobreviver por mais seis meses sem ter que lidar com ela. Detesto quando ela está por perto, mas odeio ainda mais quando ela está longe.
— Cala boca,
Tico, que eu ainda nem comecei a estudar psiquiatria e já tenho certeza que você tem sequelas demais para uma pessoa normal. Sem estabilidade emocional,
sem opinião — Rika diz, roubando da colher de Aurora outra lascada de caramelo salgado. Aurora solta um grunhido fingindo surpresa. Solto uma gargalhada alta, sem ocultar que havia gostado do comentário; realmente, se eu iria ser chamado de Teco, que pelo menos Aurora fosse
Tico. Sem negociações.
— E é
por isso que a mamãe e o papai não te amam, Rika! — Aurora acusa, e Rika cai na gargalhada.
Ela joga o cabelo crespo, agora, cuidadosamente trançado em longas tranças finas, com fios coloridos de rosa choque para trás de seu ombro, e então, da maneira mais possível, vejo-a lançar uma piscadela para minha irmã gêmea com um sorrisinho insuportável. É inegável, Rika é nossa; sempre foi e sempre vai ser.
— Até parece! Eu sou a
preferida deles, é comprovado! Eles
me escolheram, vocês só foram os diagnósticos que eles tiveram que aceitar pelo caminho — Rika abre um sorriso largo, gargalhando, enquanto, eu, Frey e Aurora soltamos exclamações indignadas. Apesar disso, era um fato comum na família , àquela altura:
ninguém ganhava uma discussão com
Rika .
•••
— Então esse é o plano agora? — ecoa com uma nota nítida de descrença em seu tom de voz enquanto solta um arfar meio risonho, empurrando Maël para o lado. Ele chuta a bola de volta para o zagueiro do time, e Maël direciona-a para mim. Corro em direção a bola, para impedi-la de seguir em direção aos pés de Javier. —
Você, , vai se tornar o garanhão da universidade? Olha, sinceramente, isso não é algo que eu estava imaginando que veria.
— Eu consigo ver — acrescenta, mais solícito do que deveria. Tenho vontade de acertá-lo com um tapa, mas se o fizer, vai apenas rir alto e me dar
mais uma rasteira. — Norueguês, alto, com uma coisa de príncipe encantado, se ele se dedicar direito, vai ser insuportável.
— Aposto dez que a primeira garota que ele se envolver, ele vai se apaixonar — Maël, idiota que só, aposta, e dessa vez abaixo-me para pegar a bola de futebol. Com toda minha força, arremesso no desgraçado de sorriso torto e risada alta; erro miseravelmente quando a bola passa ao lado da cabeça dele, e acerta em cheio o rosto de Javier.
— Foi mal! — Grito erguendo a mão na direção de Javier, que arremessa a bola de volta com tanta força que
quase desconfio que ele levou para o pessoal. Aponto de novo na direção de Maël com um aviso silencioso. — Se for fazer essa merda, eu quero metade do dinheiro.
— 20%.
— 60
e juros! — Maël solta um grunhido arrancando um punhado de grama do chão e jogando em minha direção. Acaba acertando , que permanece imóvel como se nada tivesse acontecido. Posso sentir o olhar do meu melhor amigo preso em meu rosto, julgando-me silenciosamente. Tento não rir, não porque sua expressão é divertida, mas porque é minha primeira reação. Sempre que estou em uma situação que deixa-me nervoso, a minha primeira reação é começar a rir como um belo idiota, antes de concentrar-me no problema em mãos. Aperto os cantos dos meus lábios, focando na bola. ajeita-a com uma embaixadinha, e então, toca em direção a mim; um toque rápido e deliberado. Corro um pouco para a direita para impedir que ela vá para longe, e chuto de volta, com um pouco mais de força.
A dor é imediata. Posso sentir a maneira com que os músculos em minha coxa se retêm, estendendo-se sobre meus ossos, a maneira com que meu joelho parece vacilar, e um pequeno tremor se instala onde o nervo foi pressionado. Trinco meus dentes com força, tentando conter um grunhido de dor, sentindo o olhar de Lamar voltar em minha direção. Paro por um momento, apoiando minhas mãos em meus quadris, chacoalhando minha perna, tentando aliviar não apenas a dor, mas a dor aguda e rápida que havia se apossado do membro. A frustração crescente. Estou a quase seis meses neste maldito limbo, talvez mais, e a sensação de que tenho é que não estou movendo-me para lugar algum — pior, parece que estou afundando-me outra vez. Exalo com força, obrigando-me a caminhar de volta na direção de onde estava esperando-me com uma expressão cínica, tentando disfarçar a preocupação crescente. Quero rosnar que estou bem, mas a culpa pela ideia de magoar meu melhor amigo é maior então apenas nego com a cabeça para ele, desconsiderando seu “tudo certo aí campeão?”. Sim, está
tudo certo, tudo
incrível nessa merda.
O olhar de pesa mais do que o de Lamar; de
não consigo escapar.
— Não começa cara…
— Porque? Você saiu daqui numa merda de humor, aí você volta e de repente quer ser o garanhão deste campus. Agir como Margot nunca aconteceu. Além disso tá
claro que essa porra ainda tá afetando você — resmunga cruzando os braços sobre o peito largo, negando com a cabeça. Lanço um olhar na direção dele, exasperado. — Se vai mentir, , pelo menos tenta fazer direito. Eu estou cansado de lidar com mentirosos. — Sua voz é amarga, o que me faz pausar por um momento e encará-lo em silêncio.
Há alguns meses atrás, algo aconteceu com . Algo que o fez desaparecer por uma semana inteira. e eu procuramos por todos os cantos de Paris, mas não havia pista alguma de onde ele poderia ter ido parar. Foi somente quando fomos atrás da irmã mais nova de que descobrimos uma pista de onde ele poderia estar. possuía
duas irmãs mais novas, Brielle, uma adolescente irritante, mas que costumava deixar notas fofinhas nas nossas coisas toda vez que ia visitar em nosso apartamento. Falava muito sobre tópicos dos quais não tinha ideia sobre, mas lembrava-me vagamente de como Rika era quando tinha aquela idade, e então a mais próxima de nossa idade que era, para ser sincero, um completo mistério.
.
Dois anos mais nova, e estudava na mesma universidade que nós, mas diferente de Brielle, nunca sequer
pisou no mesmo prédio onde vivíamos, nem mesmo quando ficou três dias de cama, ou quando fizemos uma festa surpresa de aniversário para ele. , a garota de aparência frágil, quase quebradiça, do departamento de artes, que, aparentemente, era a única criatura legalmente autorizada pela reitoria para usar a
Canon Profissional para ajudar o jornal com as fotografias. , a figura distante e de olhos tristes que se esgueirava pelos corredores como uma sombra, e que
sempre estava por perto do campo para fotografar os jogos oficiais. A garota que nunca havia pedido para que sorrisse quando fotografa, ou que nunca reclamou as inúmeras vezes que teve que refazer a fotografias oficiais porque Maël não havia gostado de como seu cabelo havia ficado ou do ângulo da luz havia feito seu nariz parecer maior do que era. Acho que nunca sequer troquei mais de duas palavras com ela. tinha uma regra rígida sobre sua presença na universidade — muito porque
tiveram a brilhante ideia de brincar, um dia, que a irmã de deveria ser
durinha, já que era uma bailarina e surtou —, de que era fora dos limites para qualquer cara ali. , melancólica e silenciosa a quem sempre reclamou:
“Como se ela estivesse se quebrando por tanto tempo que até mesmo respirar a faz se encolher de dor” e que mesmo assim estava no contato de emergência de . não falou nada, sequer foi cruel ou expulso para fora do estúdio de
ballet da Universidade quando se distraiu observando os alongamentos das outras bailarinas, ela apenas suspirou pesado, murmurando que não sabia onde estava, mas que poderia pelo menos ajudar a começar a procurar por ele — não era uma novidade para
ela os desaparecimentos de , só para
nós. Anotou o endereço em um papel que ainda devo ter guardado em algum canto do meu quarto.
A letra tão pequena e curvilínea que era fofa — como um pouco da garota em si. O endereço levava a um chalé ao norte de Lyon, um antigo casarão da era renascentista que apenas mencionou uma vez de passagem como o lugar que a família dele frequentava nas férias. recusou-se a ir, disse que era o cenário ideal para um assassinato em série, mas como estava assutado demais com a ideia de , vulnerável, sequer ciente de que ele estava vivo ou morto, em pleno colapso do que segurança de fato, fui sozinho.
Encontrei em um estado lamentoso. Desidratado, deitado em uma poça de vômito e bebida alcoólica, chorando como uma criança. Pela maneira com que soluçava, acho que estava assim há bastante tempo. Já vi Frey chorar, já vi meu pai chorar, por Deus até mesmo
eu já chorei por vezes na privacidade do banheiro ou no escuro enquanto Aurora me segurava em silêncio, esperando a tempestade passar. Mas nunca vi ninguém ficar no estado que ficou.
Não faço ideia do que aconteceu, ou porque ele ficou daquele jeito, mas não é o tipo de coisa que se cura com o tempo. Porra, não acho que sequer exista alguma cura a essa altura; algo aconteceu que mudou sua estrutura por completo, uma ferida tão profunda em sua alma que deve ter alterado a química de seu cérebro. Que havia virado do avesso abruptamente. Nós tínhamos nossos próprios métodos para lidar com nossas emoções, alguns nem tão saudáveis, mas ainda assim, quase três anos dividindo o mesmo apartamento devido à Universidade, nós acabamos aprendendo muito sobre um ao outro, sabíamos exatamente o que entrava por baixo de nossa pele, e o que atordoa, como também temos perfeita consciência de onde estava nosso limite — mesmo que tentasse ultrapassá-los às vezes. não me disse nada, não explicou e justificou; também não perguntei. Ajudei ele a se limpar, emprestei algumas roupas que tinha em minha mochila do treino, e dois dias depois, quando estava pronto para voltar à sociedade, o arrastei comigo de volta para o apartamento — o que não foi uma boa ideia porque apenas prolongou um pouco mais minha recuperação com a fisioterapia, rendeu-me pelo menos mais dois meses afastado do campo.
Ainda estou tentando recuperar o estrago que, conscientemente, causei durante esse período. É por isso que meu joelho
ainda parece sensível demais, errático, mas não me importo.
teria feito o mesmo por mim.
Tenciono a mandíbula, exalando pelo nariz.
— Não estou mentindo, , só acho estranho que você esteja inclinado a defender Margot e não a mim — reviro meus olhos, estou dizendo por falar, sei que não tem nada haver, mas a defensividade é quase impossível de evitar. — Sou seu amigo a mais tempo do que ela.
lança-me um olhar esquisito, por um momento os olhos se arregalam, e ele parece se tencionar como se estivesse prestes a avançar em direção ao meu pescoço, ou sair correndo, mas surge tão rápido e desaparece tão quanto, que por uma fração de segundos, acredito ter enxergado coisas. Movi a mandíbula, tentando conter uma careta, enquanto volto para minha posição. Indico com o queixo na direção de .
— Não é isso, irmão — murmura depois de um tempo em silêncio. — Só não parece algo que
você faria. Você não é esse tipo…
—
Putain! — Oliver, um dos volantes do time, exclama abruptamente, chamando nossa atenção no mesmo segundo que a voz ecoa. O sotaque pesado do sul francês faz com que leve alguns minutos para compreender o palavrão. Ele indica com o queixo na direção dos nossos celulares no banco a pelo menos consideráveis metros de distância de onde estamos, e então corre em nossa direção estendendo o aparelho dele. e eu nos entreolhamos, para imediatamente de fazer embaixadinhas, mas não antes de passar o pé na frente de Maël e o fazer de cara no chão. Aglomeramo-nos ao redor de Oliver, sério, como sempre, contendo o riso, Maël cuspindo grama e eu, confuso. —
Après Nuf postou coisa nova — faço uma careta no segundo que escuto o nome. Merda, que porra deve ser agora? Desde que entrei na faculdade, esse maldito podcast tem um costume de postar um episódio por dia com os mais baixos segredos revelados. Semestre passado, conseguiu expulsar um dos bolsistas após ser revelado o caso dele com um dos professores; o professor desapareceu, suspeita que simplesmente mudou de estado para lecionar em outra universidade, já que, considerando o prestígio dele, não demoraria muito para que o corpo docente ocultasse o que havia acontecido. Dois dos jogadores de basquete acabaram parando na Emergência depois de um episódio que revelou sua homoxesualidade, e tenho
quase certeza que tem um cara de Publicidade que está
obcecado em descobrir
quem é a pessoa por trás do podcast, especialmente porque não há uma voz em si, apenas um ruído meio robótico anônimo que anuncia, com mais entusiasmo do que deveria, sobre o que é o episódio de hoje.
—
! — A voz robótica pulsa pelos alto-falantes do celular de Oliver.
Sinto quando o olhar de meus colegas de time e amigos se voltam para meu rosto. Tenciono a mandíbula com força, sentindo a tensão crescente apenas aumentar enquanto cruzo os braços sobre meu peito, preparando-me para quaisquer merda que sejam jogadas em minha direção. Considero o que diabos possa ter feito; não sou um santo, fiz muita merda ao longo desses três anos, mas a maioria não me levaria para a cadeia. Acordar no telhado do Departamento de Ciências Humanas sem camisa depois de uma festa, não era exagerado, só descuido. Reprovar em quatro matérias de uma vez depois do acidente, já era esperado. E bem, minha performance de
Céline Dion é patética e meu espanhol ridículo, bem,
isso era de se esperar. Quase posso sentir-me tranquilo, não tem absolutamente
nada que possa ser dito que vá me fazer…
—
Me diz aí , agora que você se recuperou da queda que levou na última temporada, o machucado já deixou você pensar ou ainda é o mesmo lerdo de sempre? Já tá sabendo que a sua namorada… ou bem, sua ex-namorada ainda se diverte bastante com o seu melhor amigo? Não acredita? Dá uma olhadinha no vídeo aqui! — Tudo parece congelar. Não consigo respirar quando tomo o celular das mãos de Oliver, sentindo meus ouvidos de repente ficar abafados. Há inúmeras provocações que a voz faz, piadas as minhas custas sobre o quão cego ou o quão idiota sou por ter confiado cegamente. Há comentários que realmente acertam o ponto baixo em meu ego, colocando-me como um idiota em frente a todos da Universidade, mas não é isso que me prende no lugar ou no momento. À minha esquerda, posso sentir quando congela no lugar. Como ele para de respirar por uma fração de segundos, como não move
um músculo sequer, os olhos arregalados, fixos em meu rosto.
Porque em minhas mãos, a imagem nítida e incontestável que tenho dele o incrimina com precisão; sinto-me
estúpido por não ter enxergado isso antes, sinto-me idiota o suficiente para querer largar tudo e voltar para casa, mesmo que vá apenas piorar a situação se fugir. Sinto-me estúpido por ter
confiado nele. Ao em vez disso, apenas fico parado no lugar, amortecido, assistindo o vídeo em que
beija uma Margot seminua como se não houvesse amanhã. Como se nunca tivesse existido ninguém.
Como se nossa amizade não tivesse sido nada. E porventura, talvez nunca tenha sido mesmo.