Revisada por: Lightyear 💫
Última Atualização: 27/12/2025No finalzinho, quando a premiação acabou, ele desejou um bom Natal e Ano Novo para os amigos de pista. Sainz foi o último com quem conversou, pois ele ainda estava dando uma entrevista.
Foi assim que Charles conseguiu seu refúgio, longe de toda aquela turbulência.
— Está feito. — Entregou a chave. — Espero que você consiga o que quer. — Sainz deu um tapinha no ombro.
— Eu tenho quase a certeza de que sim.
— É uma casa isolada, com floresta ao fundo e um bom lugar para se cortar lenha, você vai gostar.
— Tudo que preciso. Esse lugar acabou comigo totalmente.
— Fica em paz. Eu aviso a Rebee. Bom Natal e feliz ano novo. — Abraçaram-se.
— Obrigado para você e avisa à Rebecca que desejo o mesmo.
Charles se soltou do abraço com uns tapinhas nas costas e seguiu para a saída. Em sua Ferrari, ele seguiu para o hotel onde estava hospedado, de lá ele partiria para a Suíça.
A pequena festa para os pilotos, equipes e todos os participantes ainda estava acontecendo. Deslumbrante, usando um vestido dourado, andava conversando com todos que estavam presentes, a taça em sua mão e o sorriso gentil nos lábios. era o posto que muitos viam pelas telas.
Aproximou-se da mesa da Williams, sua antiga equipe, e abriu um sorriso ao se lembrar dos bons momentos.
— Oi, como vocês estão?
— ! Que bom te ver aqui. Está tudo tão bonito e bem organizado.
— Obrigada, minha irmã me ajudou com tudo isso, eu não vou mentir, sem ela e toda a equipe que se dedicou para organizar a premiação, nada disso teria sido perfeito.
— . — Rebecca se aproximou dela. — Achei que não ia encontrar você aqui. Senhores, se me permitem, queria conversar com ela.
— A vontade, boas festas — eles desejaram.
Rebecca e se afastaram da mesa, caminhando quase sem rumo, queriam conversar a sós. Se tornaram amigas naquelas visitas que elas às vezes faziam nos paddocks em todas as equipes, mas a Williams sempre teve o seu coração.
— Você está melhor?
— Meu Deus! Eu juro que ainda perco toda a minha classe para aguentar tudo isso.
— Precisa manter a calma, sério! Desse jeito, você pode passar mal.
— Não, não, pode ficar tranquila, mas vai chegar o dia em que Charles vai ouvir muito por ter feito o que fez, onde já se viu soltar aquela risadinha inconformada.
— Deve ser porque seu nome está naquele documento? Você aprovou, lembra?
suspirou pesado, seu olhar passou por todo o salão como se procurasse alguém ou algo.
— Eu sei… Bom, o importante é que logo estarei longe daqui, irei viajar e não quero mais saber da FIA.
— Então, deu tudo certo?
— Sim, minha sorte foi que tive você para ajudar nos preparativos.
— Fico feliz, amiga, agora o que tenho a dizer é boa sorte e bom descanso, espero que seu tempo lá realmente seja tranquilo.
— Vai sim, eu te mando foto, está bem.
Rebecca concordou com a cabeça e abraçou . As duas voltaram a curtir aquela pequena comemoração da premiação e só voltariam para suas hospedagens quando a última luz fosse apagada.
Voar pelos altos da Suíça, pousar e pegar seu carro de luxo alugado, Charles Leclerc estava no ápice das suas férias. Aproveitou o Natal com a família e agora aproveitaria aquela casa de Sainz.
O GPS mostrava para ele virar à direita, obedecendo, ele virou e logo à frente pôde ver a casa. Grande, decorada para o Natal e nitidamente bem cuidada, estacionou o carro e desceu; pegou sua mala no banco de trás e caminhou até a porta, tirou todas as voltas da tranca e entrou. As luzes natalinas estavam apagadas, o aroma de limpeza estava no ar, ao lado havia uma pequena mesinha, ali tinha um whisky e um bilhete feito por Carlos e deixado pelo cuidador da casa.
— Hm. — Emitiu o som enquanto virava o bilhete. — Carlos realmente me deu uma boa recepção.
Segurou a garrafa e subiu para o quarto. Um banho quente, suas coisas arrumadas e agora pediria comida por aplicativo. Pouca neve, o silêncio absoluto, ele estava no paraíso e era isso que desejava há tempos.
Passeou pelas ruas da Suíça, comprou alguns chocolates, aproveitava tão bem que não percebeu que o tempo afastava aquela lembrança; fazia dois dias que estava lá, ele carregava um pouco de um novo semblante. Mas ainda assim ele sentia o peso daquelas corridas.
Conseguia ouvir todos da Ferrari reclamando e gesticulando com o caso, todos culpando a FIA e , todos, principalmente ele. O comunicado estava sendo rodado na televisão, ela falava com uma discrepância grande sem mostrar nenhuma atitude de “iremos apurar mais a fundo”. A cartada foi dada e ele estava sendo punido por algo que era nítido que não foi a intenção. Eram aqueles pontos que ele precisava para manter sua colocação — e a da Ferrari também, em um bom lugar.
A estrada estava silenciosa, coberta de neve, exigindo atenção redobrada. Seguiu a rua e logo já estava na casa do seu refúgio. Luzes apagadas, o lugar silencioso, estacionou o carro quase na frente da entrada; pegou as malas, desceu do carro e colocou o alarme. A viagem tinha sido longa e ela só queria se jogar na cama e relaxar, agora sem nenhum problema para atormentar, muito menos um e-mail de “consideração” do Leclerc. Aquele nome lhe dava arrepios.
Destrancou a porta, entrou acendendo a luz do hall, à sua esquerda começava uma pequena ala para um lindo piano de cauda, mais à frente a sala e depois começariam os outros cômodos. Na sala, uma linda e grande escada ficava para dar acesso aos quartos. Ao acender a luz, o lustre de gotículas de cristais se iluminou.
Impecável! Ela girou no próprio eixo, admirando o lugar.
Aos poucos, ouviu sons estranhos, passos fortes, porta se abrindo, sentiu-se num episódio do Scooby Doo, sua mão apertou mais a alça da mala esperando um fantasma ou assassino aparecer no topo da escada.
A silhueta aprontou no degrau de cima, descendo lentamente. O desespero tomou conta dela e então veio a voz, baixa, irritada, inconfundível:
— Não. Não pode ser você.
congelou.
Charles Leclerc estava na mesma casa que ela, terminando de descer as escadas. O mesmo que jurou nunca mais ver e falar com ele dentro e fora da FIA ou em qualquer outro lugar.
— Me diz que você está brincando — ela soltou.
— Eu? — Charles riu sem humor. — Cheguei primeiro. Essa casa é do Sainz.
colocou a mala no chão e cruzou os braços.
— A esposa dele me emprestou essa casa. — Levantou as chaves.
— Então ela cometeu um grande erro, ou pode ter sido você também — sussurrou ainda com raiva.
Qualquer alma viva que passe entre aquele olhar não sairia ilesa. Podia sentir a raiva deles borbulhar só de compartilharem o mesmo ar. A tensão se ergueu entre os dois como vapor quente num cômodo gelado.
— Eu não vim aqui pra te aturar. — Charles continuou, passando a mão no rosto.
— Ótimo. Porque eu também não vim pra isso.
A neve começou a intensificar lá fora, o vento passou a não ajudar, trazia consigo um som medonho passado por algumas janelas. E agora estavam os dois ali dentro.
soltou uma risada curta e amarga.
— Sabe o que é pior?
— Surpreenda-me. — Ele ainda a encarava.
— Eu realmente precisava desse lugar.
Charles desviou o olhar por um segundo antes de voltar a ela, firme;
— Então vamos ter que encontrar um jeito de não nos matar.
E foi nessa hora, nessa frase, com neve acumulada na moldura da janela, que reparou algo que nunca tinha admitido: Ele estava diferente. Cansado. Perigoso. Bonito de um jeito que ela preferia não notar.
— Eu não saio daqui. — Voltou a ter foco e pegou a mala. — Se quiser, pode sair, eu conheço a Rebee há mais tempo. — Passou por ele e subiu a escada.
— Hey! Não, o direito da casa é meu, estou aqui há mais tempo.
— Mais tempo quanto?
— Dois dias.
— Ah, pelo amor de Deus. — Apoiou-se no corrimão. — Eu pedi a casa dois meses atrás. — Voltou a subir.
— O primeiro quarto é meu.
Começou a segui-la.
— Sei achar o caminho e ver onde você está. A minha sorte é que aqui não é igual a um livro e só tem um quarto e uma cama.
Rebecca já tinha conversado mesmo com , as duas estavam combinando isso há tempos, desde o incidente Leclerc — como ela chamava. Talvez Rebecca tenha esquecido de avisar Carlos, ou Carlos não se recordava de que a casa já estaria em uso para o ano novo. A verdade era que nenhum dos dois fez de propósito.
— Vou ficar com o último, e assim, quando essa tempestade de neve passar, você pode ir embora.
— Tá de brincadeira.
— Não, Leclerc, estou sendo sincera com você e muito legal também, podia fazer você ir embora agora.
Ela bateu a porta e trancou a mesma, era tudo, tudo o que precisava. Fugia do problema, mas o problema sempre voltava para ela. Andava de um lado para o outro, bufando de raiva e nervosismo, não sabia como isso acabou acontecendo. Tomou todas as providências antes de ir para a Suíça: passaporte, visto, tudo. Estava quase subindo pelas paredes quando ouviu seu celular tocar.
No visor, o nome de Rebecca a ligando.
— Oi.
— Amiga, , eu não sei o que aconteceu.
— Rebee, tá tudo bem eu…
— Não, acredite em mim, eu fiz de tudo para você ter seu momento.
— Mas eu acredito, fique calma, foi um erro, mas nunca que eu brigaria com você. — Estava sendo sincera. — Só preciso que ele saia.
— Esse é o problema, ele não quer sair.
— Rebee, você sabe que…
— Eu sei perfeitamente, o Carlos está tentando fazer algo. Ele que fez isso, ele tá tentando arrumar.
— Ah, eu agradeço.
— Mas tem outro problema.
— E qual seria? — Sentou-se na cama.
— Tem uma tempestade de neve prevista até o dia trinta.
— Tá de sacanagem.
— Se não der... — Ela viu Carlos gesticulando. — Só um momento. — Pouquíssimos segundos e ela retornou a conversar. — Charles, vai continuar aí. Desculpa, eu tentei.
— Nós tentamos! — Sainz gritou do outro lado.
— Então é isso, não se culpem de verdade. Vou desligar, eu te aviso se ele sumir do mapa.
— Não se atreva.
— É brincadeira. Tchau.
— Tchau.
Incrédula, ela ainda olhava para o visor do celular. Até que ponto um piloto de Fórmula um poderia se sentir no direito de exigir uma casa agendada para ela há meses? Se ele queria ficar, então teria que fazer o jogo dela.
não saiu da casa, permaneceu lá mostrando que não daria o braço a torcer. Organizou todas as suas roupas, colocou um moletom fofinho e desceu para fazer uma comida apenas para si. O perfume dos ingredientes invadiu a casa toda, despertando ainda mais a fome que ela tava — e também a de Leclerc.
Ele desceu e passou pela cozinha, observando com a visão periférica. Dividindo o teto com a pessoa que tinha assinado a penalidade. Era estranho e, ao mesmo tempo, duvidoso.
Pegou um suco na geladeira e o copo que estava atrás do armário dela, colou quase deixando transbordar. Sua mão tremia, tinha muita coisa entalada que queria dizer pra ela e aquela tensão de ter a oportunidade não estava ajudando.
Eles passaram a maior parte do tempo dentro dos quartos, sem nenhuma interação. preparava as refeições para ela, enquanto ele ficava apenas pedindo, bom, depois que a neve foi retirada da estrada.
colocou o prato sobre a mesa da cozinha, respirando fundo para não resmungar. O silêncio da casa era exuberante, exceto pelo chiado da neve batendo na janela. Ela se sentou, começou a comer devagar, fingindo ignorar o olhar de Charles sobre cada movimento seu.
— Precisa de algo mais? — perguntou, sem olhar para ele, mas com a voz carregada de sarcasmo.
— Não, obrigado — respondeu ele, pegando o copo de suco que havia quase derramado antes. A mão ainda tremia ligeiramente, e ele se forçou a respirar fundo.
Um minuto de silêncio se arrastou entre eles. Cada um tentando parecer indiferente, mas os olhos não mentiam: ele a observava, ela sentia.
— Você sempre cozinha tão… meticulosamente? — Charles finalmente falou, com a voz baixa e carregada de algo que ele não queria admitir.
— Sempre. — respondeu , sem levantar os olhos. — Prefiro não quebrar nada na cozinha. Diferente de alguns pilotos por aí.
A farpa fez ele cerrar a mandíbula, mas não respondeu. Em vez disso, pegou uma cadeira e sentou-se do outro lado da mesa, mantendo distância, mas a presença dele era impossível de ignorar.
Enquanto ela cortava o pão, o braço dele bateu sutilmente na mesa. Ambos congelaram, trocaram um olhar rápido, e ele desviou primeiro. Um gesto mínimo, mas suficiente para deixar o ar carregado de tensão.
levantou-se e resolveu terminar a refeição no quarto, antes que usasse aquela faca para outros fins.
A neve tinha acalmado lá fora, as ruas estavam livres para ir e vir, e Charles saiu com o carro sem avisar. escutou o carro e andou até a janela, o sorriso vitorioso apareceu dando pulinhos de alegria.
— Qual música eu coloco? — Passava sua playlist. — Qualquer uma da Taylor é ótima.
Desceu as escadas feliz, sabendo que agora aquela casa seria só dela. Limpou a bancada, tirou a neve da frente da casa e voltou para dentro com alguns troncos cortados para mais tarde colocar na lareira. Andou pela casa todinha para conhecer o lugar.
Na sala, aproveitaria que o cômodo era grande e faria seu pilates. A calmaria começava a entrar dentro dela quando ouviu a porta ser destrancada. Ela revirou os olhos, mas não saiu da posição.
Permaneceu no tapete de pilates, ignorando a presença dele passar pela sala.
— Você voltou. — Não conseguiu esconder a irritação na sua voz.
— Fui só até o mercado. — Mexeu a sacola. — Pensou que eu estava desistindo da casa?
Ela rolou os olhos e bufou, esticando os braços para frente e tentando se concentrar no exercício, ignorando a presença dele que parecia invadir cada espaço da casa.
— Não me importo com você, Leclerc.
Deu alguns passos à frente, não tão próximo dela.
— Claro que não. — Ele deu mais um passo adiante, e a distância entre eles diminuiu sem que nenhum dos dois quisesse admitir. — Mas estava se divertindo e feliz, achando que eu tinha deixado a casa para você.
— Sim, estou… feliz — respondeu, sem olhar para ele. Mas o canto da boca dela quase se curvou em um sorriso involuntário. — Preciso de um café — ela disse de repente, quase ignorando-o, mas sentindo a presença dele tão próxima que o ar parecia mais quente.
Saiu rapidamente do tapete de yoga e colocou o moletom, odiava ficar convivendo no mesmo ambiente com pessoas de quem ela não gostava.
Na manhã seguinte, demorou a sair do quarto. Pela porta entreaberta, podia ouvir Charles na cozinha e não queria cruzar com ele. Segurou a maçaneta, deixando um pequeno vão aberto, assim saberia exatamente quando ele voltasse para o quarto. Parecia que ele estava demorando de propósito — e ela não queria tomar café ao lado dele.
Sem alternativa, desceu, pegou suas coisas e preparou um café da manhã saudável. Charles apenas observava, em silêncio. Ela sentou-se à mesa, comeu devagar, perdida nos próprios pensamentos, o olhar fixo sob a superfície da mesa. O toque do celular sobre a mesa a tirou do transe.
“Charles Leclerc — Desculpa, sei que você está de férias.”
Ela revirou os olhos, murmurando algumas palavras inaudíveis, e virou o celular de cabeça para baixo. Deixou a louça e subiu para o quarto, sem querer lidar com mais nada.
— Ela deve ter algum problema — comentou Charles em voz baixa, ao ver que ela já não estava mais presente.
sabia que, a qualquer custo, teria que trabalhar; sua auxiliar dificilmente enviaria um e-mail assim do nada. Instalou-se no escritório da casa, determinada a trabalhar tranquilamente.
Meia hora, uma hora, três horas — lendo arquivos anexados, ela não conseguia entender a insistência da auxiliar. Pausou e saiu para ir ao toalete. Charles passou pela porta, viu o laptop ligado e os papéis espalhados e entrou devagar, aproximando-se da mesa, curioso.
— Procurando algum troféu? — Uma frase curta, um golpe baixo, sem precisar de mais nada.
— Não — respondeu rápido, inventando uma desculpa. — Imaginei ter visto uma barata.
— Fica em paz — disse ela, entrando no escritório. — Eu não tenho medo de barata — falou a verdade. — Precisa de algo mais?
Ele se retirou, e respirou fundo, tentando não perceber o quanto ele a deixava inquieta mesmo sem dizer nada.
Um tempo depois, ela recolheu tudo e voltou ao quarto, deixando cada papel no lugar como se isso pudesse organizar também a própria cabeça. Estava cansada de ficar presa ali dentro, da casa, do silêncio, dele.
Desceu novamente e parou diante da janela da sala. A neve seguia firme, cobrindo tudo de branco. suspirou pesado, apoiando a cabeça na madeira.
— Será que essa neve não vai dar uma pequena trégua? — falou mais para si do que esperando resposta.
— Dizem que é por um longo tempo… talvez à noite ela diminua. — A voz de Charles veio atrás dela, neutra, quase educada demais para quem vinha evitando qualquer conversa.
virou o rosto apenas o suficiente para confirmar que ele estava ali, encostado no batente da escada, segurando uma garrafinha de água. O comentário a pegou desprevenida. Ele também pareceu perceber isso.
Sem esperar resposta, Charles subiu os degraus de dois em dois, rápido demais, como se fugir daquele espaço fosse a única opção segura. Não queria ouvir o que ela diria. Ou pior, não queria gostar do tom da resposta.
No quarto, ele colocou a garrafa sobre a mesa e voltou ao videogame. A tela piscava, o som alto tentava ocupar o espaço, mas não funcionava. O foco simplesmente não vinha. Errava curvas bobas, perdia tempo, freava antes do necessário.
E, irritantemente, a imagem dela parada à janela não saía da sua cabeça.
Por quê?
Ela tinha sido a parte do problema. Parte direta da punição que tirou pontos, tirou ritmo, tirou a chance de terminar o campeonato como ele precisava. Era nisso que ele deveria pensar. Só nisso.
O controle vibrou, ele havia batido o carro.
“Dude, você tá aí? Precisamos que você volte pro jogo!”
Charles piscou, como se só tivesse percebido onde estava.
“Foi mal, Lando.”
A resposta veio rápida, mas a mente continuava distante. Ele apertou o controle com mais força do que o necessário, irritado consigo mesmo.
Não tinha percebido quando tinha roubado seu foco. E isso, definitivamente, não fazia parte do plano.
A neve finalmente deu trégua, e aproveitou antes que mudasse de ideia. Escolheu uma roupa e, como sempre, estava elegante sem esforço, maquiagem leve, só o suficiente para se sentir ela de novo. Colocou tudo o que precisava na bolsa e desceu as escadas com passos firmes.
O som do salto ecoou pela casa.
Charles apareceu no corredor no instante seguinte, encostado no batente da porta, observando em silêncio enquanto ela se aproximava da escada.
— Fique tranquilo — disse, sem parar. — Não estou indo embora.
Era provocação. Pequena e calculada.
Charles não respondeu. Apenas a acompanhou com o olhar por um segundo a mais do que deveria antes de voltar para o quarto e para o jogo que havia abandonado segundos antes — agora completamente sem foco.
precisava distrair a mente. Precisava de pessoas, música, algo que não tivesse paredes grandes demais ou silêncios carregados. Dirigiu alguns metros até encontrar um bar pequeno, aquecido, com luz baixa e um movimento agradável.
Entrou observando tudo à sua volta. O ambiente era exatamente o que precisava: música boa, gente da sua idade, cheiro de comida gostosa. Pediu uma porção de fritas e uma bebida sem álcool — ainda estava dirigindo — e se permitiu relaxar pela primeira vez desde que chegou à Suíça.
Alguns casais dançavam perto do balcão e outros entre as mesas, acompanhando aquela música suave.
— Com licença.
Ela virou o rosto. Um homem estava ao lado dela, educado demais para parecer invasivo.
— Está sozinha?
— Estou.
— Posso? — apontou para a cadeira vazia.
— Fique à vontade.
Ele se sentou.
— Prazer em conhecê-la. Você não é daqui, né?
— Não mesmo. Sou da Espanha.
— Hmm… — Ele inclinou o corpo, interessado. — Interessante. Me chamo Charles.
sorriu antes de levar a bebida aos lábios. Justo esse nome.
— . Prazer.
— Não gostou do meu nome?
Ela demorou um segundo a mais para responder. É que aquele nome a deixava diferente.
— Não é isso — respondeu-o. — É só que me lembra alguém… não muito sociável.
Ele riu, sem se ofender.
— Prometo que não sou assim.
Ela arqueou levemente a sobrancelha, divertida.
— Ah, é? E como posso ter essa certeza?
Ele riu baixo, sem pressa, apoiando melhor o braço na mesa.
— Você pode não ter — respondeu com honestidade. — Mas eu não costumo mentir para desconhecidas em bares.
inclinou a cabeça, avaliando. O ambiente ajudava e era aquele tipo de normalidade simples que ela não sentia desde que chegara àquela casa. Pela primeira vez em dias, não precisava medir palavras, nem sustentar defesas.
— Isso foi quase convincente — comentou, dando mais um gole na bebida.
— Quase já é um começo. — Ele sorriu, tranquilo demais para parecer ensaiado.
Conversaram mais um pouco. Nada profundo, nada que exigisse armaduras. Ele falava sobre a cidade, sobre o inverno rigoroso, sobre aquele bar ser um refúgio silencioso para quem não queria estar em casa. Assuntos com os quais ela acabou se identificando naquele momento.
Em algum momento, o espaço entre eles diminuiu. Não por decisão consciente, simplesmente aconteceu. Um deslocamento mínimo de corpos, um silêncio diferente entre uma frase e outra. Quando se deu conta, ele já estava perto demais para ser ignorado.
Ele se aproximou um pouco mais. Não o suficiente para invadir, apenas o bastante para sugerir. entendeu tarde demais quando o olhar dele desceu, lento, até seus lábios.
O beijo aconteceu sem aviso. Curto. Quase tímido. Um erro pequeno, controlável. correspondeu por segundos contados antes de se afastar, levando o polegar à boca e ajeitando o batom num gesto automático, como se aquilo pudesse reorganizar o momento.
— Eu vou embora — disse, já pegando a bolsa.
— Claro. — Ele sorriu, compreensivo demais para insistir. — Foi um prazer, .
— Foi. — respondeu, sincera o bastante para não mentir, mas não o suficiente para ficar.
Do lado de fora, o ar frio a trouxe de volta à realidade. Entrou no carro, respirou fundo e deixou o silêncio ocupar o espaço que antes era apenas da música. Não tinha ninguém errado naquele beijo, não havia do que se arrepender, afinal, aquele momento que ela buscou era apenas uma distração.
Quando estacionou em frente à casa, as luzes estavam acesas.
Entrou devagar, tirando o casaco, os saltos ecoando baixo no piso de madeira. O cheiro do perfume masculino veio junto à sua roupa — discreto, mas presente, e ela só percebeu quando já estava no meio da sala.
Charles estava encostado no batente da cozinha, uma xícara de café ainda quente entre as mãos. O líquido escuro já era a terceira tentativa de espantar o sono que vinha. Não parecia surpreso ao vê-la. Parecia atento. Alerta demais para alguém que só queria jogar.
A noite tinha se estendido mais do que ele imaginou. A cada minuto, a casa ficava mais silenciosa. A cada som do vento, o incômodo crescia. Não era preocupação — ele se recusava a chamar assim. Era apenas inquietação. Uma sensação estranha de que algo estava fora do controle.
Os olhos dele foram rápidos. Batom levemente borrado. O cabelo solto de um jeito diferente. E aquele perfume — definitivamente não era dela. Nem dele, afinal, não estava usando.
Algo apertou no peito antes mesmo que pudesse entender o motivo.
— Boa noite — ela disse, neutra, passando por ele como se nada tivesse acontecido.
— Boa noite — respondeu, após um segundo a mais do que o necessário.
subiu as escadas sem olhar para trás, mas sentia o peso do olhar de Leclerc queimando entre os ombros. Só quando fechou a porta do quarto permitiu-se relaxar, escorando nela.
Na cozinha, Charles permaneceu imóvel.
Não tinha direito algum de se importar. Sabia disso. Ainda assim, a ideia de ela ter passado horas conversando, rindo e sendo beijada por um outro homem que não fosse ele, despertava um desconforto que beirava um pequeno medo no precipício.
Não a perca. Não ainda. Mas percebia que aquela ausência o afetava mais do que deveria.
Levou a xícara à boca e tomou um gole do café já frio. Não ajudou.
A imagem dela não saía da cabeça. O silêncio da casa agora parecia maior.
E dormir definitivamente não seria uma opção naquela noite.
Com a neve mais intensa do lado de fora, acordou antes do seu despertador. Espreguiçou-se na cama e virou para o lado para observar a neve cair, estava se sentindo bem, estranhamente bem. E isso não vinha daquela boa madrugada ao lado do outro Charles — o beijo não significou nada.
Sorriu sozinha pela boa noite de sono e pela felicidade que a completava, aquela sensação de que conseguia controlar até seus sentimentos a deixou confiante.
O cheiro do café já estava no segundo andar. Ela desceu usando suas pantufas e chegou à cozinha.
Charles Leclerc estava encostado na bancada, bebia um gole do café puro enquanto decidia o que faria para ele comer.
— Bom dia — disse, com naturalidade demais para alguém presa numa casa com ele.
Charles se virou devagar.
Ela parecia bem. E isso, inexplicavelmente, o incomodou.
— Bom dia — respondeu. — A estrada fechou de novo.
— Imaginei. — Ela deu de ombros. — Neve não costuma pedir licença.
Serviu-se de café como se aquela fosse a casa dela. Como se o mundo estivesse exatamente onde deveria estar.
Charles observava em silêncio. Ela estava tão leve, tranquila, transmitindo seu controle, já ele, o oposto.
— Dormiu bem? — perguntou, quase contra a própria vontade.
— Dormi — respondeu. — Faz bem sair um pouco, espairecer os pensamentos.
Ele assentiu.
terminou de preparar o café da manhã dos dois: ovos mexidos, uma fatia de bacon com pouquíssima gordura e uma fatia de pãozinho quente. Entregou para ele e sentou-se à mesa para se deliciar com o café.
Aquela atitude o deixou mais perturbado por dentro.
apoiou o cotovelo na mesa, olhando a tempestade lá fora. Estavam presos ali; mas, pela primeira vez desde que chegou, ela não sentia isso como um problema.
Charles, sim.
— Pode deixar, eu lavo.
Não é porque ele não gostava dela que não manteria a educação que recebeu. sorriu agradecendo e retornou ao seu quarto.
Charles jogava, fazia Yoga. Ele passa o maior tempo conversando em chat com os amigos, ela estudava mais um pouco e assistia alguma série.
Para ela, tudo ali já estava entediante, não podia sair outra vez e toda sua distração já tinha chegado ao limite. Pensando um pouco, deitada em sua cama, ela levantou, caminhou até o escritório, abriu as gavetas uma por uma, procurando algo que pudesse distrair.
Foi quando achou uma caixa, aquele jogo trazia boas lembranças de sua juventude, pegou o jogo, desceu até a sala, acendeu a lareira com cuidado e abriu a caixa. Aquele jogo — Detetive — era feito para jogar com mais pessoas. Mesmo sentindo uma pequena vontade, bem pequena mesmo, de chamá-lo, ela não fez. Sabia que podia jogar sozinha, mesmo que tivesse que elaborar tudo sozinha.
Estava acostumada, desde que era pequena, estava acostumada. Mesmo com Clara estando presente até seus sete anos, ela passou a fazer tudo sozinha, a criar tudo sozinha e estava tudo bem para ela.
Fez como antigamente, organizou o jogo para quem jogava sozinha, era difícil, precisava de muita lógica. Estava indo muito bem com o andar do jogo.
— Isso não é exatamente um jogo solitário.
A voz de Charles surgiu por trás dela. não se virou de imediato.
— Eu me viro bem sozinha.
— Imagino — ele disse, aproximando-se devagar. — Mas esse fica mais interessante a dois.
Ela o olhou dos pés à cabeça, avaliando-o por um segundo mais longo do que pretendia.
— Você é bom em deduzir… ou só em acusar?
O canto da boca dele se ergueu, quase imperceptível.
— Depende do caso. — Sentou-se na frente dela sem se preocupar. — Posso? — perguntou, já estendendo a mão para as cartas.
— Já está aí — respondeu ela. — Seria falta de educação mandar sair.
O jogo começou novamente e agora em silêncio.
O gesto foi automático, instintivo. Pegou algumas cartas, analisando as pistas com uma atenção que não esperava.
O jogo avançou devagar.
Eles trocavam informações mínimas, observavam mais do que falavam. notava o jeito como ele inclinava levemente a cabeça ao pensar, como se calculasse cada possibilidade antes de abrir a boca. Charles, por sua vez, reparava em como ela reorganizava as cartas sempre que percebia algo novo — precisa, metódica, segura demais para alguém que acusava por impulso.
— Você evita acusações cedo demais — ele comentou, depois de um tempo.
— Porque acusar não é o mesmo que provar — ela respondeu, sem levantar os olhos.
Charles a encarou.
— Às vezes, não acusar também é escolher um lado.
Ela parou o movimento das cartas por um segundo.
— Não — disse, calma. — Às vezes é só esperar que todas as peças apareçam.
A lareira crepitava, a neve batia contra a janela e algo ali começava a mudar, lento demais para ser negado. Charles resolveu arriscar.
— Foi na biblioteca. Com a chave-inglesa.
ergueu o olhar devagar, sem pressa, como quem já sabia a resposta antes mesmo da acusação.
— Errado — disse, tranquila demais. — Sala de estar com o castiçal.
Virou a carta e ela estava certa. O sorriso dela era vitorioso.
Charles soltou uma risada baixa, desacreditada.
— Detesto perder.
— Então se acostume — ela respondeu, recolhendo as cartas. — Nem sempre quem acusa primeiro está certo.
Por um segundo, Charles esqueceu que deveria odiá-la.
E, talvez pela primeira vez desde aquela punição, ele percebeu que ela nunca teve tanta certeza da culpa dele como todos acreditavam.
— Obrigada pelo jogo — disse, guardando as peças. — Foi até que agradável.
— Minha companhia é agradável. — Sorriu, galanteador.
Ela ignorou, soltando um risinho e levando o jogo para o escritório. Dessa vez, ela deixou em cima da mesa, caso ela queira jogar outra vez, estaria mais fácil.
A tarde chegou, a neve estava um pouco controlada, Charles saiu para comprar almoço em um restaurante por perto, pegou mais chocolates — já que chocolates suíços nunca são demais — e retornou para o seu carro. Andando tranquilamente como um bom turista, ele ouviu uma conversa vindo do bar.
— Ela deve estar por alguma hospedagem por aqui, talvez eu tente procurar por ela.
— Ela quem? — um outro homem questionou.
O italiano saiu tão bem que Leclerc tinha quase certeza de que os parentes daqueles homens eram italianos.
— A moça que eu beijei ontem, a .
Foi o suficiente o que ele ouviu, voltou a andar às pressas, entrou no carro e colocou tudo no assoalho do automóvel.
— E imaginar que comprei o almoço para nós dois… — falou consigo mesmo, ligando o motor.
O caminho para a casa Sainz parecia longo demais.
Charles dirigia com uma mão enquanto a outra estava apoiada na perna, fechada em punho. Conseguia ser surreal como aquelas palavras ecoavam na cabeça dele, não precisava de mais nada para saber que tinha sentimentos por ela, mas queria jurar de pé junto que não a suportava nem usando Ferrari.
Estacionou na frente da casa, do lado do carro dela, pegou as sacolas no assoalho do carro e entrou, deixou um pequeno rastro de neve pelo hall até a sala; olhou a cozinha procurando por ela, subiu as escadas devagar. A porta estava entreaberta, se aproximou e pôde vê-la sentada na cama, o travesseiro em cima do colo apoiando o celular.
Leclerc pigarreou, chamando a atenção para ele na porta. Sem muita pressa, ela virou, o cabelo que estava preso de qualquer jeito se afrouxou com o movimento, ficando sobre os ombros. estava tão bonita vestindo seu moletom vermelho.
— Achei que você demoraria mais um pouco.
— Tinha planos?
— Não — respondeu normal.
— Trouxe comida. — Ele ergueu levemente a sacola, como se aquilo resolvesse alguma coisa.
— Obrigada. — Ela sorriu, educada. — Eu já ia descer.
Desceram juntos, mas não lado a lado.
Na cozinha, pegou dois pratos e dois pares de talheres e colocou a mesa para os dois, tudo involuntário, com um sentimento que transpareceu um pouco a vontade de fazer isso por eles.
Os movimentos eram tranquilos, seguros demais para alguém que, horas antes, tinha sido beijada por outro homem.
Charles observava cada detalhe sem perceber.
— Você conhece bem a região — ele comentou, quebrando o silêncio. — Encontrou aquele bar fácil.
Ela o encarou.
— A recepcionista do mercado comentou. — Deu de ombros. — Não estava exatamente escondido.
— Hm.
Ela percebeu. Claro que percebeu.
— Por quê? — perguntou, direta. — Parece incomodado.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Não. Só curioso.
inclinou a cabeça. Nitidamente, percebeu que Charles descobriu sobre o beijo de ontem a noite, e um frio passou por todo seu corpo, se manteve neutra e não queria mostrar que compreendeu o rumo da conversa.
— Curioso com o quê?
"Com você. Com quem você foi ontem. Com quem te beijou." Ele pensou em todas essas palavras, quase se mordendo de bronca.
— Nada importante.
Ela sustentou o olhar por mais um instante, como se estivesse decidindo se acreditava ou não. Depois, voltou a atenção ao prato.
— Às vezes você faz isso — ela comentou, casualmente. — Age como se tivesse algo a dizer, mas recua.
— E você — ele rebateu, sem pensar —, age como se nunca devesse explicações a ninguém.
Ela sorriu de canto, incrédula com o que acabou de ouvir.
— Talvez porque eu não deva. — Ela comeu. — Não temos nada.
O silêncio voltou pairando entre os dois.
Depois do almoço, recolheu os pratos e levou até a pia. Charles observou o gesto automático da pessoa que, teoricamente, ela mantinha total distância.
— Detetive — ele disse, de repente.
Ela se virou, olhando pra ele enquanto água molhava sua mão.
— O quê?
— A forma como você joga — explicou. — Espera. Observa. Nunca acusa sem ter certeza.
— É um defeito? — perguntou.
— Não. — Ele hesitou. — É perigoso.
Ela riu baixo.
— Pra quem?
Charles não respondeu, saiu imediatamente da cozinha.
— Dios mío… me está desarmando.
Mais tarde, aquela pequena interação daquela manhã fez falta para , sentiu saudades de poder jogar com ele e…
— Mas que merda estou pensando?
Se mexeu na cama, pegou o fone e o colocou. Tocaria uma música que não lembrasse nem um pouco Charles Leclerc. Não adiantou em nada, e pela primeira vez ela começou a admitir para si mesma que aquele beijo era mais para ver se esquecia Leclerc, mesmo com as implicâncias e broncas, só de estar ali no mesmo lugar que ele se tornava um pedacinho do seu amor realizado.
Ali mesmo na cama, sendo iluminada pelo visor do celular e a pequena luminária acesa. A luz piscou uma vez, na segunda tudo ficou escuro temporariamente; ela ignorou, apenas achando que podia ser a lâmpada queimada.
Do lado de fora, o vento passava a ficar mais agressivo, a casa mais gelada, e foi assim que se deu conta de que a energia tinha acabado. Olhou na direção da porta e pôde perceber uma claridade laranja vindo da sala, se levantou ligando a lanterna do celular; aproximou-se do corrimão e presenciou uma cena até que bonitinha: Charles esquentava alguns marshmallows enquanto comia com chocolate suíço — tanto em tablets quanto líquido na caneca.
Desceu as escadas cautelosamente e, no último degrau, desligou a lanterna. não fez questão de esconder que estava ali, porém só relutou em se aproximar nos primeiros instantes por conta de seus sentimentos, não desejava que eles crescessem.
O monegasco ergueu o olhar devagar e a viu parada quase que atrás de si, envolta pela penumbra, o cabelo solto caindo pelos ombros, a lanterna do celular desligada pendendo da mão. Por um instante, nenhum dos dois disse nada. O silêncio entre eles não era vazio e, ao mesmo tempo, era cheio demais.
— A força caiu — ele comentou, como se aquilo explicasse tudo.
— Eu percebi — respondeu, ainda parada. — Achei que estivesse dormindo.
— Não estava com sono.
Ela se aproximou um pouco mais, sentindo o calor da lareira tocar a pele fria. Os olhos passaram pela caneca, pelos chocolates abertos, pelos marshmallows já perdendo a forma.
— Chocolate quente no meio da noite? — perguntou.
— Chocolates suíços não sobrevivem bem a apagões — ele disse, com um meio sorriso. — Entram em modo de emergência.
riu, um som curto, quase involuntário. Aproximou-se o suficiente para sentir o cheiro do chocolate, misturado ao perfume dele, o mesmo perfume na noite de gala da FIA, no evento beneficente de alguns anos atrás.
— Se incomoda? — ela perguntou, apontando para a caneca. Aquela caneca era dela, ele separou apenas para ela.
— Claro.
Ele a entregou sem tocar nela, mas perto o suficiente para que os dedos quase se encostassem. se sentou no sofá, de frente para a lareira, segurando a caneca com as duas mãos, deixando o calor subir lentamente.
E foi ali, com o fogo crepitando e a noite avançando sem pressa, que algo mudou de lugar.
A caneca aquecia as mãos de enquanto o silêncio se acomodava entre eles de um jeito diferente. Não era constrangido, nem confortável. A lareira estralava baixo, como se marcasse o tempo que nenhum dos dois queria medir. Charles mexia distraidamente em um dos marshmallows com a colher, mas o olhar estava nela, mesmo quando fingia não estar.
— Você sempre está muito no controle — ele comentou, sem acusação. — Mesmo quando tudo ao redor está um caos.
desviou o olhar para o fogo, observando a chama dobrar a madeira até ela ceder.
— Parece — corrigiu. — Não significa que esteja.
Ele assentiu devagar, como quem aceita uma resposta sem pedir explicação imediata.
— Clara sempre dizia que eu precisava relaxar — continuou, quase como se estivesse falando sozinha. — Que eu levava tudo a sério demais. Que era só deixar as coisas acontecerem.
Charles franziu o cenho.
— Clara?
— Minha irmã. — Um sorriso curto surgiu, mas não chegou aos olhos. — Ela sempre foi diferente. Mais leve. Aceitou a separação dos meus pais como quem entende que o mundo muda e pronto. Fez dezoito anos, escolheu o mesmo caminho do meu pai, foi embora… e seguiu bem. — Ela deu um gole no chocolate, ganhando tempo. — Eu fiquei.
Charles permaneceu em silêncio.
— Passei muito tempo com meu pai depois da separação — ela continuou. — Ele garantia tudo: escola boa, aulas de etiqueta, professores particulares, tudo que alguém olhasse de fora e chamaria de “educação perfeita”. — Ela riu sem humor. — Mas passar com ele em si…
Charles sentiu algo apertar no peito.
— Eu ficava muito sozinha — disse, diminuindo o tom da voz. — Aprendi a fazer tudo sozinha. Jogar sozinha. Pensar sozinha. Decidir sozinha. E, em algum ponto, isso virou rotina. — Ela virou o rosto para ele. — Só que aí passei a conviver também com meu pai no trabalho e então, enfim… Algumas coisas eu consegui reaprender, mas ainda ele…
Charles respirou fundo antes de falar.
— Meu pai morreu quando eu tinha... vinte anos? — disse, quase uma pequena normalidade, e também tentando se recordar da idade. — A ausência veio de outro jeito. Não tive escolha, só aconteceu. Me adaptei lentamente.
o observou com atenção silenciosa.
— Todo mundo esperava que eu fosse forte — ele continuou. — Que carregasse o nome, o sonho, a continuidade. E eu carreguei. — Deu de ombros. — Mas ninguém pergunta o que fica quando não tem mais para quem provar nada.
Ela sentiu o peso daquelas palavras mais do que esperava.
— Então você entende. — disse, não como pergunta, mas como constatação. — Não tudo, mas uma parte.
— Entendo o suficiente para saber — ele respondeu — que solidão não depende de estar sozinho.
Os olhos deles se encontraram. Se se acusarem sem nada, são apenas duas pessoas que sempre se amaram conversando sem nenhuma bronca.
apoiou a caneca na mesa.
Então se virou para ele de vez. O movimento fez o cabelo deslizar para trás do ombro, revelando o moletom que ela usava desde o início da noite. Vermelho Ferrari. O número 16 estampado no peito. A assinatura discreta logo abaixo, quase escondida, como se nunca tivesse sido feita para ser exibida. Até então, ela mantivera o tecido parcialmente coberto — desde o almoço, como se aquele detalhe fosse íntimo demais para ser visto.
Charles percebeu na mesma hora, e aquilo o atingiu mais forte do que qualquer palavra.
— Eu nunca te achei culpado — disse firme. — Nem por um segundo.
Ele ficou imóvel.
— Em Monza… — continuou. — Eu li tudo. Vi as imagens, os dados, as telemetrias. Cruzei informações, voltei aos quadros, analisei ângulos que ninguém quis perder tempo analisando. — Respirou fundo. — Eu tentei reverter a penalidade. Mais de uma vez. — Suspirou. — Fiz um dossiê completo. Argumentei. Insisti. Pedi revisão. — Ela deu um sorriso curto, cansado. — Mas algumas decisões não passam pela verdade. Passam por hierarquia. E ordens acima de mim não quiseram ouvir, nem ler.
Os olhos dele estavam nela agora, atentos, abertos de um jeito que raramente ficavam.
— Eu segui ordens — disse ela, com os olhos marejados. — Não porque concordava. Mas porque não tinha escolha.
se aproximou um pouco mais. Apenas o bastante para que ele sentisse a presença dela por inteiro.
— Mesmo assim… — A voz falhou quase imperceptivelmente — Eu sinto muito.
Aquilo foi o que quebrou.
Charles desviou o olhar por um instante, como se precisasse reorganizar algo dentro de si. A mandíbula tensa, o peito subindo e descendo, estava um pouco ansioso com a confissão e com ela perto demais, com aquele perfume.
— Você não me deve desculpas — disse, baixo.
— Talvez não — ela respondeu. — Mas eu precisava dizer.
O piloto assentiu, lento. Quando voltou a encará-la, os olhos dela brilhavam diferentes agora. Estavam um pouco marejados e com culpa, mas um sentimento a mais que não conseguia entender muito bem.
— Obrigado por me dizer agora. — falou. — Isso muda coisas. — Se referiu ao que pensava dela.
— Eu sei. — respondeu.
Ficaram sem falar nada por um tempo, apenas deixaram o som lá de fora entrar e, pela primeira vez desde que ficaram presos naquela casa, nenhum dos dois parecia querer fugir dali.
Seu subconsciente o recordou. O olhar dele desceu sem pedir permissão. O vermelho do moletom, o número, a assinatura discreta quase escondida pelo tecido. Aquilo não estava ali por acaso. O coração de Charles voltou a bater mais forte. Ele pigarreou, como se o som pudesse reorganizar o que sentia.
— Bonito moletom.
ergueu o olhar, surpresa por meio segundo, e então sorriu, ficando um pouco tímida.
— Não é? — respondeu, leve demais para quem acabara de desmontá-lo.
Ele assentiu, desviando os olhos por um instante, mas não antes de completar, quase distraído.
— Vermelho fica bem em você. — uma pausa mínima. Charles encostou no sofá, cruzando os braços. — Se ajuda em alguma coisa… — disse espontâneo. — Vermelho é uma das minhas cores favoritas.
riu, ela sabia disso. O que ela não sabia? Afinal, ela sempre esteve no paddock da Ferrari.
— Convincente.
— Talvez — ele respondeu. — Mas não soa errado.
A noite avançou sem pressa. A tempestade lá fora voltou a ganhar força, o vento uivando contra as janelas como se testasse os limites da casa. acabou deitando no sofá, envolvida por uma manta grossa. Charles ocupou o outro, braços cruzados, olhos atentos demais para quem dizia estar relaxado e conseguia dormir.
Foi o estalo seco vindo de fora que a acordou.
Um som violento. A madeira da árvore acabou cedendo pelo peso da neve. Em seguida, um estrondo forte e profundo ecoou pela floresta até chegar à casa. sentou-se num sobressalto, seu coração estava disparado, seus olhos passavam por todo o cômodo tentando reconhecer tudo, estava atordoada pelo susto.
deixou escapar.
— Charles… — chamou com a voz fraca.
Ele já estava de pé quando ouviu. Sentou ao lado dela, segurando as mãos e acariciando.
— Ei — disse, firme, ancorado. — Tá tudo bem. Foi só uma árvore.
respirava rápido, o ar preso no peito como se tivesse esquecido como soltar. As mãos tremiam.
Sem pedir permissão, se inclinou para frente.
Charles a envolveu no mesmo instante, sem pensar, como se o corpo tivesse decidido antes da mente. Trouxe-a para perto, mantendo-a em seus braços, um calor seguro que anulava o resto do mundo. afundou o rosto no moletom dele e se agarrou ao tecido, forte demais para alguém que ainda tentava convencer a si mesma de que estava bem.
Ela o apertou como se tivesse medo de que ele desaparecesse.
— Eu tô aqui — ele repetiu, quase sussurrando contra os cabelos dela. — Eu não vou a lugar nenhum.
O peito dela subia e descia rápido demais. Aos poucos, o ritmo foi desacelerando, sincronizando com o dele. O corpo relaxou, mas as mãos continuaram presas a ele — não por susto apenas, mas porque era bom demais estar ali.
Charles puxou o cobertor esquecido no braço do sofá e envolveu os dois, fechando-os naquele pequeno mundo improvisado. Ajustou o tecido ao redor dela com cuidado, como se temesse acordá-la. se encaixou ainda mais, a testa apoiada no pescoço dele, o corpo procurando o dele sem vergonha alguma.
Só dois corpos colados no meio da noite, enquanto o vento gritava do lado de fora e, pela primeira vez desde que chegara àquela casa, não se sentia sozinha.
Dormiram ali mesmo, no sofá maior, embolados sob o cobertor, sem distância calculada, sem intenção além de permanecer. Charles manteve um braço ao redor dela a noite inteira, como se soltá-la fosse impensável. não largou o moletom em nenhum momento.
Era dia trinta e um.
Charles acordou antes do amanhecer.
A casa estava silenciosa, a tempestade finalmente cederia. dormia de lado, o rosto relaxado, o cabelo espalhado pela almofada. Ele a observou por alguns segundos, admirando cada traço do rosto angelical dela. Num gesto quase inconsciente, afastou uma mecha do rosto dela com cuidado.
Levantou devagar para não acordá-la. Vestiu o casaco, pegou as chaves e escreveu um bilhete simples, deixando sobre a mesa da cozinha.
“Fui comprar algumas coisas. Volto logo. Não se preocupe.”
Saiu com a sensação estranha de estar voltando para algo que, até poucos dias antes, ele juraria nunca querer dividir.
estava na cozinha tomando seu café da manhã quando ele voltou, agora como não tinha motivos para esconder, ela usava um outro moletom da Ferrari, também vermelho, mas com estampa diferente — Sainz e Leclerc.
— Oi Charles, bom dia. — Desejou com um sorriso.
— Oi, bom dia. — Colocou as compras na bancada da cozinha.
Sentou ao lado dela, deixou pouco espaço.
— Eu fiz compras como deixei avisado no bilhete. — Umedeceu os lábios. — Não sei quais são seus planos para o réveillon, mas eu pensei em passar aqui com você, a gente pode fazer nossa comida juntos e depois comemorar aqui mesmo.
Ele estava tão nervoso que podia ouvir uma voz falando para cancelar toda a ideia, que ela não aceitaria, que mesmo explícito no moletom dela que ele sempre seria o número 1, não aceitaria.
— Eu ia passar no bar.
— O bar. — Revirou os olhos. — Ótimo.
— Charles de novo? Eu já entendi que você descobriu que eu beijei alguém de lá.
— Tudo bem, pode passar lá, eu fui um trouxe. Estúpido. Eu sou estupido.
Levantou-se rápido, passou pelo arco da cozinha e subiu as escadas sem deixar ela responder o que realmente queria.
contou até três, respirou fundo e voltou a finalizar seu café da manhã.
Guardou as compras, olhando cada ingrediente que ele tinha trazido para casa. Concentrar-se-ia no seu Yoga e deixaria ele esfriar a cabeça; não queria brigar com ele, não depois daquele bom entendimento que tiveram.
Saía do banho enxugando o cabelo. Agora, com os seus pensamentos em ordem, ele estava mais calmo. Leclerc escolhia uma blusa para colocar quando escutou duas batidinhas na sua porta, andou até a porta e abriu. Seus olhos subiram dos pés à cabeça. , com sua pantufa, a calça cinza com um moletom vermelho e o cabelo preso em um rabo de cavalo baixo. Deixou um sorrisinho escapar de lado, ela estava tão linda.
Estavam combinando, e isso também o pegou desprevenido.
Do outro lado da porta, Cat não achou que veria Leclerc com a calça de moletom cinza e o cabelo molhado com algumas gotículas escorrendo pelas têmporas. Teve que respirar fundo para não demonstrar demais.
— O que foi? — Sua pergunta não saiu ríspida.
— Você ainda vai querer fazer as coisas para comer?
Suspeitou pensativo enquanto alisava a porta.
— Eu tinha pretensão de sair, sim. — Deu início. — Mas isso foi antes daquela manhã… do jogo. — Fez uma pausa curta. — Ali eu já tinha decidido ficar aqui. Sua companhia… mesmo à distância… estava sendo melhor do que sair dessa casa.
Ela sustentou o olhar.
— … — aquela forma de chamá-la a arrepiou. — Me desculpa, eu não tenho direito de exigir que você passe aqui comigo, eu senti ciúmes. — Assumiu até mesmo pra ele. — Imaginar que você poderia passar com outro homem, começar o ano nos braços de outro homem.
— Ciúmes?
Ela soltou uma risadinha involuntária. Não conseguiu evitar. Aquilo era inesperadamente adorável.
— Tá tudo bem, acho que até eu sentiria. Não é todo dia que se encontra alguém bonito como eu.
— Discordo — ele respondeu de imediato.
franziu levemente o cenho.
— Bonita é pouco — completou, sem desviar o olhar. — Maravilhosa.
As bochechas dela coraram de imediato. Ali, com aquela troca de olhares, eles já sabiam que a trégua entre eles estava oficialmente selada.
O tempo passou rápido. Eles precisavam começar os preparativos da refeição logo, caso contrário, só ficaria pronto bem tarde. Charles foi até o quarto de , bateu na porta e esperou ela atender; a mulher que escolhia o vestido para aquela noite correu até a porta e abriu com um sorriso.
A chamou para dar início, e ela desceu ao lado dele como se estivesse esperando aquele momento há um tempo.
Na cozinha, dividiram o espaço como se já estivessem habituados a fazer aquilo. Com os pratos salgados prontos, decidiu fazer uma sobremesa, separou as frutas, deixando no balcão enquanto dava preparo aos outros ingredientes. Charles lavou e cortou da forma que ela queria.
— Quer provar? — ela perguntou olhando para ele e estendendo a colher.
Ele aceitou e provou. Gostou mais do que esperava.
— Tá perfeito.
sorriu, satisfeita. Foi só então que ele percebeu: um restinho de merengue no canto da boca dela, quase imperceptível. O gesto veio antes do pensamento. Charles levou a mão ao rosto dela, limpando com o polegar.
O toque durou um segundo e causando burburinhos em seu coração.
— Pronto — disse, baixo.
Ela não recuou. Apenas respirou fundo, segurando para não fazer nada errado.
Quando tudo estava pronto, Leclerc se ofereceu para arrumar a mesa, assim ela poderia se arrumar para aquela ceia.
subiu, pegou o vestido que havia escolhido há algumas horas e deixou-o estendido sob a cama, o salto também estava aos pés. Saiu do banheiro após secar o cabelo. Colocou seu vestido, depois os acessórios e, por último, o salto. Com o celular na mão, ela deu uma última olhadinha no espelho, estava impecável.
Charles estava agora na sala, vestindo apenas um suéter branco e uma calça social preta. Ele mexia no celular enquanto descansava a outra mão no bolso, aguardava descer para começar a ceia. Levantou o olhar por mania e, no momento, ele acabou esquecendo o que estava fazendo.
Seus lábios abriram uma pequena abertura, deixando o ar sair enquanto a admirava.
Ela parou no topo da escada por um instante, como se precisasse daquele segundo para se preparar. A luz morna da casa tocava o tecido do vestido curto, fazendo o vermelho profundo ganhar um brilho discreto, nada exagerado. A peça marcava sua cintura com naturalidade e deixava as pernas à mostra na medida correta.
O cabelo solto caía em ondas leves pelos ombros, emoldurando o rosto e suavizando ainda mais sua presença. A cada pequeno movimento, alguns fios escapavam para frente.
As mangas em forma de capa desciam a partir dos ombros, leves e etéreas. O chiffon acompanhava cada passo, criando ondas suaves no ar, abrindo e fechando como se o vestido entendesse bem seus movimentos. Não eram longas demais; terminavam pouco abaixo das coxas, o suficiente para dar movimento sem roubar atenção.
Então, ela começou a descer. Um degrau de cada vez, sem pressa. O tecido fluía atrás dela, as mangas acompanhavam o ritmo do corpo, e o som quase imperceptível dos pés tocando a escada se misturava ao silêncio da casa, criando uma expectativa densa, carregada de algo que nenhum dos dois ainda ousava nomear.
— Vamos? — Ele parou na frente da escada esticando a mão para poder guiá-la até a mesa.
Segurou a mão dele, e o arrepio veio antes mesmo que pudesse controlar. A mão de estava fria e macia, tão trêmula quanto a dele. O nervosismo daquele gesto mínimo os deixou surpresos, sem saber exatamente o que fazer depois.
Ainda assim, foi o primeiro toque entre os dois.
Sentaram à mesa, nervosos e, ao mesmo tempo, ansiosos por aquele momento a dois sob a luz de velas. Conversas soltas, risadas baixas, pequenas provocações. Comeram devagar, como se não quisessem apressar aquele momento. Quando os minutos finais do ano surgiram, eles começaram a contar, ficaram de pé, lado a lado, olhando os fogos pela janela.
— Feliz ano novo — ele disse, quando o relógio marcou meia-noite.
virou-se para responder, mas não teve tempo.
Charles a beijou.
Foi um beijo inteiro, firme, decidido, como se tivesse esperado tempo demais para acontecer. correspondeu sem hesitar, mãos subindo pelo pescoço dele, coração acelerado demais para pensar. O mundo lá fora continuava, os fogos podiam ser escutados, a neve caía bem fraquinha, e a claridade entrava pelas janelas, mas ali dentro só existiam eles. Eles e aquele amor que foi admitido por eles.
Quando se afastaram, ainda próximos, ainda ofegantes, Charles encostou a testa na dela.
— Acho que… — começou, mas parou.
— Eu te amo, .
E, pela primeira vez em muito tempo, o novo ano começou exatamente do jeito certo.


