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i can be bad

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Capítulo 1


Foram duas semanas de muito estresse. passou por todas as fases do luto depois que terminou o que tinham, mas continuava sem entender o que diabos tinha acontecido. A fase de ficantes tinha durado quase três meses, foi divertido e gostoso como qualquer início de algo novo. e tinham encontrado uma química fascinante que equilibrava as diferenças de suas personalidades quase perfeitamente. As conversas eram leves, as ideias para encontros sempre colocavam o conforto de ambos como prioridade. O sexo também seguiu esse ideal de comunicação, o que tornava tudo melhor. Até que não foi suficiente.
decidiu que o meio de um encontro em público era o momento ideal para lhe dizer isso. Estavam na área externa de um restaurante que ficava no topo de um prédio, a vista para a cidade à noite era encantadora. Alguns casais estavam por perto, todos imersos em suas próprias bolhas de intimidade, cochichando e dando risadinhas sem ligar para o mundo ao redor. Discursos clássicos do tipo “não é você, sou eu” saíram naturalmente, como se ele tivesse praticado ou pelo menos pensado bastante naquelas palavras. Ele disse que ela tinha feito tudo certo, que era uma mulher incrível, que os dois meses tinham sido maravilhosos. O problema é que ele percebeu desejar exatamente o contrário daquilo.
Ele a levou em casa, mas não abriu a porta para que ela saísse do carro. estava estranhamente quieta, presa em seus próprios pensamentos. Se encontrava fazendo um grande esforço para driblar as inseguranças que surgiam como fogos de artifício, que martelavam seu peito. Mas nada foi dito. Ela só respondeu com compreensão, tentando esconder a vergonha que sentiu diante de todas aquelas pessoas. Teve a impressão de que algumas estavam olhando para ela com pena, mas não tinha certeza se sequer tinham ouvido.
— A gente pode falar disso de novo amanhã? Preciso pensar um pouco.
— Claro, . Sem problemas.
Compartilharam um sorriso pequeno, então ela foi embora.

***

não ligou no dia seguinte, muito menos mandou mensagem. Não conseguia parar de pensar nas palavras de . Como assim ela não era o problema? Se não havia nada de errado em seu jeito de amar, por que ele colocou tanta ênfase em precisar fugir do previsível? Como jogador de um esporte tão acelerado quanto o hóquei no gelo, imaginava que ele precisaria de uma pausa fora da arena.
— Não quero que você se culpe por achar que criou coisas na sua cabeça — disse , a voz levemente trêmula por estar correndo na esteira. estava de pé em frente a máquina para manter o foco direcional de sua amiga. — Você já era maravilha quando te conheceu, ainda fez questão de oferecer uma comunicação aberta com ele. Foram dois meses bem intensos, não acha?
prendeu o lábio inferior entre os dentes, apreensiva.
— Acha que surgiu alguém que fez ele enjoar de mim assim?
O tom cabisbaixo da amiga fez reduzir a velocidade aos poucos até parar.
— Olha, não temos como garantir isso, mas ele pode conhecer outras pessoas pelo país do mesmo jeito que você pode conhecer por aqui. — Cruzou os braços e apoiou os cotovelos na máquina. — O que não justifica é ele te dispensar desse jeito como se estivesse num programa de namoro.
concordou em silêncio, mas sua expressão pensativa estava absolutamente óbvia para . Se dirigiram ao banheiro para se arrumar antes de ir embora, exaustas e contentes pelo treino finalizado.
— Tô ficando apavorada com seu silêncio — confessou ao entrar no carro.
— Não exagera.
— Só me fala o que você tá planejando.
— Sabe o ? — murmurou uma concordância suspeita. — Pensei em pedir a ajuda dele pra mudar um pouco minha atitude. Eles são do mesmo time, ele deve saber do que tava falando, certo?
— Ele deve saber justamente por ser homem, . Você sabe que não namora sério faz um bom tempo.
— Talvez isso seja melhor ainda, ele sabe como lidar com desapego.
O carro parou no sinal vermelho, um suspiro longo saiu dos lábios de .
— Amiga, te pergunto isso com todo amor no meu coração. Por que você quer mudar sua atitude só pra agradar um cara como ?
O contato visual permitiu que a vulnerabilidade de ficasse exposta, logo a expressão da amiga suavizou em compreensão.
— Você sabe o quanto aqueles dois meses foram importantes pra mim — começou, não se importando com a fraqueza em sua voz. — Eu sei que pode não dar certo porque no final ele só não me quis… mas eu quero tentar.
engoliu a preocupação com dificuldade, mas entendeu. Sabia que não era o tipo de mulher imprudente que se afastaria de seus princípios por um homem, porém também sabia que ela tinha as próprias questões para chegar a esse ponto.
— Tudo bem. Tudo bem, mas vou ficar de olho em vocês dois.
— Vai entrar nas minhas paredes?
Uma buzina impaciente lhe impediu de responder. buzinou de volta, só então seguiu com o carro no sinal verde. Sua expressão irritada se tornou complemento da frase que quase soou como ameaça:
— Pode apostar, amor.

***

concordou em encontrar no refeitório da arena do San Jose Barracuda no fim do expediente. Enquanto esperava, ela estava revisando as próximas demandas, visto que as fotos do dia serviriam tanto para as redes sociais quanto para conteúdos promocionais. Quanto ao local, ambos concordaram que qualquer escolha dentro arena do San Jose Sharks estaria embaixo do nariz de . Assim, finalizou o treino, se organizou e seguiu para o endereço do time afiliado, onde trabalhava como fotógrafa.
Quando ele chegou, a primeira coisa que ela percebeu foi o quanto estava cheiroso, o que não ajudava em nada naquele período de fragilidade. Mas nem sequer sentou, apenas deu oi, perguntou se ela faria o pedido de sempre e andou até o balcão. aproveitou esse momento para guardar suas coisas e recapitular o que tinha praticado para aquela conversa.
— me falou que te deu um pé na bunda — começou ele, entregando a salada de frutas e dando um gole em seu chá gelado. — Ela não parecia nada feliz, então não precisa medir palavras comigo.
jogou a cabeça para trás e segurou um sorriso.
— Um pé na bunda parece tão cruel.
— Falar gentilmente não diminui a mágoa do que foi dito. O que precisa de mim?
— Preciso que me ajude a mudar algumas atitudes de tratamento, porque parece que eu sou tranquila e saudável demais pro gosto dele.
franziu o cenho, não se importando em esconder o incômodo.
— Ele disse que às vezes queria passar uns dias sem falar nada, eu disse que tudo bem, era só ele me avisar — continuou, dando uma colherada na salada de frutas. — Eu também não gosto de morde e assopra. Tem algum problema nisso? Não entendi o que aconteceu.
— Parece que ele queria fazer mistério ou que você cobrasse ele, parece que ele quer alguém que beire ao tóxico, na verdade.
— Mas vocês não amam falar que comunicação é a chave? Como ser obsessiva e desinteressada pode ser algo bom? Eu nem sei se consigo me tornar desse jeito.
— Você não precisa fazer isso, é só seguir em frente.
Um minuto de silêncio se passou enquanto se ocupava com a salada de frutas. apenas a esperou ficar à vontade novamente. Não sabia tanto da versão dela, mas conhecia o suficiente de para entender a reação de . Ver naquele conflito interno era devastador.
— Não sei se tenho disposição pra voltar a todo processo de flertes e encontros. Achei que ele tivesse encontrado a pessoa certa em mim, não acredito que não consegui segurar o primeiro relacionamento bom que tive na vida.
— Escuta, como pode ter sido bom se ele parece só ter enjoado de você?
— É.
— Não, não foi o que eu quis dizer. É só que ele literalmente deu essa desculpa ridícula de querer uma aventura, de querer ser tratado de forma esquisita. Por que você deixaria de ser uma pessoa boa só pra segurar um cara desse?
se sentia pior gradativamente ao perceber que aquela conversa estava seguindo o mesmo padrão da que teve com . Tinha plena ciência de que estava seguindo uma trilha instável, que estaria saindo de sua zona de conforto do jeito errado, mas a teimosia queimava dentro dela. Não conseguia aceitar perder algo que tinha sido tão bom. Algo que não continuou por sua culpa.
— Fiquei solteira por tempo suficiente pra perceber que eu não sou bem o tipo de mulher que atrai os caras — admitiu, a redução de volume na voz revelando o peso daquela afirmação. — Então será que pode dizer se aceita ou não me ajudar? Não quero ficar pensando no fracasso, quero começar a agir.
Ele suspirou.
— Tudo bem. Em breve vamos ter o baile beneficente do time, mas enquanto isso você vai agir como agiria normalmente, só vai seguir ordens de pequenos detalhes que vão te ajudar a parecer diferente.
Ela concordou com a cabeça.
— Preciso mudar meu guarda-roupa ou algo do tipo?
— Por que faria isso? Seu estilo já é ótimo. O cara é mesmo um idiota.
Se ela não estivesse tão distraída com as ideias erradas, teria notado o jeito que ele a observou de cima abaixo.
— Não tem nada a mudar na sua aparência, é só a atitude que precisa ser mais ácida.
— E qual sua experiência com isso?
— Nunca dei vácuo em ninguém, não gosto de ficar dando voltas se não vejo futuro em algo. — deu de ombros. — Deixo todo mundo ciente disso, então não é como se eu estivesse quebrando corações, pelo menos, não de propósito.
— Não acredito que enjoou de mim porque não tratei ele que nem lixo. Não sabia que eu era tão entediante.
Ele ajustou a postura, apoiando os braços sobre a mesa. O gesto quase fez se afastar, mas não se sentia intimidada por , apenas confortável.
— Essa conversa tá me deprimindo, por que não me mostra um pouco mais de quem você é como namorada? Tudo que ouvi até agora faz parecer um filme de terror.
— Não sei como posso descrever, não mudei minha personalidade por causa do namoro. Eu sou o que você já conhece.
— Então experimenta comigo.
— O quê?
— Mostra pra mim na prática como é namorar com você e eu te mostro na prática como tratar uns caras com fetiche em humilhação.
Ela o encarou por um momento, buscando qualquer sinal de piada.
— Mas não tenho esses sentimentos por você, como vou agir naturalmente?
— Não tô pedindo que me ame, tô pedindo que me mostre seja lá o que fez ele sair correndo em busca de rejeição.
A casualidade nas palavras de fazia a situação parecer menos complicada. Nem de longe parecia que ele estava propondo um avanço íntimo na dinâmica daquela amizade. Independente de ser falso, ainda estariam vulneráveis a sentimentos muito fortes e delicados.
— Tá precisando se recuperar de uma também?
— Não que eu saiba, só acho que seria legal ter o gostinho de estabilidade por algum tempo. E como disse, não tem amor envolvido, então é uma mera troca de favores.
soltou uma risada sincera pela primeira vez naquele dia.
— Você vai muito se apaixonar por mim, o que é uma pena, porque meu coração tá nas mãos de um otário que acha que não posso ser maldosa.
— Primeiro me mostra o quão boazinha você é, aí eu decido o que fazer depois.
Ele notou o jeito que ela tentou disfarçar uma mordida no lábio. É claro que ele notou.
— Combinado.

Capítulo 2

Não queriam ser os únicos ocupando o refeitório, então se despediram da barista e seguiram para o estacionamento. fez questão de carregar a bolsa de equipamentos de , que agradeceu pelo alívio nos ombros.
— Achei que tinha dado sorte com , que ele iria se acostumar com o ritmo do nosso relacionamento.
Embora o espaço no carro de fosse limitado, o estacionamento consideravelmente vazio permitiu que eles se sentissem mais confortáveis para sentar lado a lado. A proximidade já era familiar e não precisavam mais controlar o volume da voz, nem a vulnerabilidade.
— Nesse momento já faz duas semanas que ele tá esperando meu contato… pedindo pra voltar, provavelmente.
— E ele te mandou mensagem?
— Sim, assim que viu meu story pronta pra sair com três dias depois do término.
Procurou a conversa no aplicativo e mostrou a mensagem: “Fico feliz de te ver bem. Cê tá muito gata ;)”, mas ignorou o texto e clicou na foto postada. inclinou a cabeça quando percebeu que a sobrancelha arqueada e o sorriso no canto dos lábios dele enquanto encarava a tela por tempo demais, mas decidiu não confrontar.
— Otário — disse ele, revirando os olhos. — Se divertiram?
— ama essas festas em que as pessoas dançam como se tivessem num flash mob, sabe? É difícil pegar os passos no início, mas depois você acaba viciando naquela experiência e mal pode esperar pela próxima coreografia. — A memória lhe fez sorrir e encenar os movimentos que lembrava. — Pedi pra confiscar meu celular assim que vi a mensagem, mas foi tão fácil de esquecer. No dia seguinte, eu tive zero energia pra lidar com ele, e tem sido assim por duas semanas.
assentiu, uma expressão pensativa surgindo em seu rosto.
— É um bom começo. Ele queria ser ignorado, não era? Uma simples foto sua toda linda e nenhuma satisfação dada devem ter deixado ele se mordendo.
— Eu nem sei mais como responder. Ser uma coitada não vai ser atraente, deboche só vai fazer ele se afastar mais. Devo agir normalmente? Como se eu não estivesse afetada pela falta dele?
— Sei que pode soar estranho vindo de você, mas é exatamente o que quer, certo? Esse desapego é o que atrai , pelo jeito. — precisou de muito esforço para engolir o gosto ruim daquelas palavras. — Morde e assopra vai se tornar seu flerte principal.
murmurou em concordância, o franzir do nariz denunciando o incômodo.
— Mas calma, o que vai ser da minha reputação se eu flertar com ele enquanto tô com você?
— Ele não precisa saber que a gente tá junto, por enquanto. — Deu de ombros. — Posso jogar umas verdes como se tivesse tentando te conquistar, mas você é meio inalcançável, sabe?
O rosto de se iluminou numa risada, fazendo ele sorrir junto automaticamente.
— Vai me tornar uma mestre da paquera, senhor ?
Ela ajustou o corpo de frente para ele, que continuava de braços cruzados, então se inclinou levemente em sua direção. O contato visual durou alguns segundos em silêncio, isso fez com que uma dose de confiança fosse injetada nas veias de .
Se inclinou um pouco mais, deixando a boca a poucos centímetros da orelha de :
— Acho que as coisas podem ficar difíceis pra você — proferiu devagar.
Quando se afastou, o encontrou de olhos fechados. Havia uma tensão nos antebraços que não estava lá antes. O olhar dele também tinha algo novo quando se conectou ao dela.
— Não sou o tipo de homem que tem medo de sentimentos, então não precisa pegar leve comigo. Também sou paciente e muito fã de consentimento, tem coisas que você vai ter que me pedir com muito carinho pra que eu considere antes de agir.
A mulher sentiu sua respiração perder o ritmo por um segundo.
— Você quer reconquistar o idiota do ? Vai com tudo, mas se eu tiver que te provar todos os dias que sou muito diferente dele, é isso que vou fazer.
Silêncio. A expressão de foi suavizando em um sorriso, refletindo a tranquilidade de .
— Gosto da sua determinação, .

***

[ 💔]:
Ei, como foi seu dia? Posso te ligar?

[]:
Tô indo dormir agora mesmo
Amanhã sem falta?

[ 💔]:
Beleza.
Boa noite, .

viu no espelho as rugas suaves que se formaram em sua testa quando arregalou os olhos. A escova de dentes estava pendurada entre seus lábios, a leve ardência da pasta lhe fez sair do transe.
— ? Do nada somos íntimos de novo? — disse para seu próprio reflexo indignado. — Eu devo merecer.
Terminou de enxaguar a boca, ciente de que sua rotina noturna tinha que ser pausada por um momento até que seu coração voltasse ao normal. A intimidade no tom daquelas mensagens fez surgir uma incredulidade capaz de realmente invocar em suas paredes.

***

O treino terminou após repetições intensas para corrigir erros que estavam sendo cometidos nas últimas derrotas. Palavras de motivação foram ditas para transformar o cansaço em determinação, para usar a frustração como gás nos próximos embates.
— Tranquilo, cara? Parece distraído — perguntou , dando um gole em seu isotônico.
O vestiário estava consideravelmente calmo, cada um focado dentro de suas próprias mentes, mas sem deixar de interagir uns com os outros. estava organizando a bolsa algumas cabines ao lado.
— Tô esperando notícias de uma garota, meio preocupado porque ela nunca demora tanto pra responder.
O outro deu um sorriso pequeno, começando a organizar seu próprio espaço.
— Ah, nem me fale. Tô passando pelo mesmo com a minha, quer dizer, com uma garota que eu tô de olho. Ela tá me deixando maluco, cara.
arqueou as sobrancelhas, a expressão em seu rosto se iluminando em tom de provocação.
— Ih, olha lá? Quem é a operadora de milagres que conquistou nosso ?
— Acho que você conhece ela, na verdade. — Deu de ombros. — Ela é fotógrafa do Barracuda, já vi vocês numa foto no Instagram da minha amiga.
ficou pálido de repente.
— O quê?
— O quê? — Endireitou a postura, falsamente nervoso. — Não me diz que ela é problemática.
engoliu em seco e desviou o olhar.
— Não, não. É que… bom, a gente já teve um rolo algum tempo atrás — confessou, levando uma mão para pressionar a nuca.
— Entendi… A gente não tem nada ainda, eu é que tô tentando vender meu peixe. Tudo bem, né? Sem ressentimentos?
Três segundos de silêncio. Um pequeno suspiro. Um sorriso contido.
— Claro, irmão. é uma ótima pessoa, é que a gente não deu certo mesmo.
assentiu, se aproximando para dar um tapinha no ombro do colega, então voltou às suas coisas. Vendo que a postura do outro havia murchado, pegou seu celular e abriu a conversa mais recente.

[]:
acabou de descobrir que eu tô tentando te conquistar
O coitado tá devastado
Acho que deveria ligar pra ele, mas lembra do tal desinteresse que a gente conversou sobre
Lembra do timing

Fechou a bolsa e a colocou no ombro, em seguida se despediu de quem ainda estava no vestiário e saiu pelos corredores da arena. Seu celular vibrou assim que chegou no estacionamento.

[]:
Combinado, sei um ponto fraco que posso atingir ;)
Te vejo amanhã à noite?

[]:
Com certeza
Não vai me dizer o que vai cozinhar?

[]:
Nope

[]:
Injusto
O ponto fraco do , então?

[]:
Lamento dizer que você vai ter que descobrir os dois pessoalmente

[]:
Interessante

***

No dia seguinte, estava preparando o jantar quando decidiu ligar para . Ele não atendeu na primeira vez, não como se ela tivesse esperado muito tempo também. Cinco minutos depois ele retornou.
— Liga a câmera aí, senti saudade do seu rosto.
sorriu e posicionou o celular no balcão com o viva-voz ativado. O ângulo permitia que ele a visse de corpo inteiro, o que não contava era que ela estivesse usando o pijama mais fino e curto de seu guarda-roupa, com uma adorável estampa de florzinhas. Ele sabia bem que aquele era um de seus pijamas favoritos, jamais reclamaria, não quando ela ficava maravilhosa naquele tecido… e na falta dele.
O silêncio dele não passou despercebido por , que virou as costas para a câmera e seguiu de volta a cortar seus legumes. Naquele ângulo lateral, conseguia ver o desenho perfeito de sua bunda e seus peitos.
— Foi mal não ter conseguido te ligar no outro dia — começou, mas decidiu não se explicar mais. — Você queria me falar alguma coisa?
pigarreou, se recompondo.
— Ah, é que a gente tá sendo derrotado há dois jogos já, o clima no vestiário tá horrível.
Ele entrou numa espiral de desabafo, como estava acostumado a fazer com ela. A questão é que em vez de dar toda sua atenção, apenas murmurava em concordância e suas respostas eram monossilábicas. não estranhou tanto, afinal, ela estava cozinhando. Alguns minutos depois, a campainha tocou, interrompendo o raciocínio dele.
— Tá esperando alguém?
A pergunta ficou solta no ar, pois seguiu até a porta quase imediatamente.
não sabia o que esperar daquela noite, mas bagunçou todas as suas ideias assim que abriu a porta.
— E aí! Pode entrar.
— Que cheiro bom é esse?
Ela o pegou pela mão e caminhou com pressa até a cozinha, sinalizando que estava numa ligação com . arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso de canto, reconhecendo o colega de time nada satisfeito com a situação, ainda mais por não conseguir enxergar a cozinha inteira.
— Faz um tempo que eu queria testar essa receita, se você não gostar é só não comer. — Ela deu de ombros. — O que trouxe?
Ele abriu a sacola e mostrou todos os petiscos que havia comprado.
— Esses doces suecos são a melhor coisa que existe no mundo — disse ele, tirando um pacote. — Mas se não gostar é só não comer, sobra mais pra mim.
riu, impressionada com a resposta esperta.
— ? Alô? — A voz de ecoou.
Ela deu uma piscadinha para e voltou ao enquadramento da câmera.
— Oiê! Foi mal, um amigo veio me visitar. Tenho que ir, tá? Depois a gente se fala. Beijo!
A expressão confusa de foi a última coisa que viu antes de desligar a chamada. Ela se virou para e cobriu a boca, chocada pela própria atitude. Ele a encarou por alguns segundos, processando o que tinha acabado de acontecer, então desabou em risadas. precisou cobrir o rosto inteiro para não deixar evidente o quanto tinha gostado daquela risada.
— Não acho que precise da minha ajuda. Você tá se mostrando muito boa nisso.
sorriu e negou com a cabeça, voltando para a comida no balcão. deixou as sacolas sobre a mesa e se sentou, observando-a trabalhar.
— Tem algo que eu possa fazer aí?
— Não, tô quase acabando. Decidi fazer aquele cozido que você gosta, só não encontrei todos os ingredientes, então tive que improvisar.
De costas para , ela não viu quando as sobrancelhas dele se ergueram em surpresa. A última vez que ele lembrava de ter comido aquele cozido foi no início do ano, quando saíram da cidade para visitar o restaurante com e outros amigos. havia lembrado.
— Derrotas difíceis recentemente? — perguntou ela, se virando rapidamente para lançar um olhar de simpatia
Ele suspirou pesado.
— É, mas não quero falar de trabalho agora.
— Tudo bem.
— parecia bem decepcionado por perder sua atenção.
— É, mas não quero falar de agora — devolveu, adicionando os últimos ingredientes na panela e começando a mexer o conteúdo. — Foi divertido e horrível fazer isso, mas agora estamos na parte do acordo em que eu sou toda sua.
apertou os lábios e jogou a cabeça para trás. Foco, cara.
— E eu não costumo falar de casos antigos com meu namorado. Bom, a não ser que a situação me obrigue. — se virou no exato momento em que o rapaz tinha voltado à sua expressão neutra. — Quer falar de agora?
Ele prendeu o lábio inferior entre os dentes da forma mais discreta que conseguiu, mas seus olhos miraram diretamente nas florzinhas localizadas na curva inferior dos seios dela. Estava perdido de qualquer forma.
— Não — respondeu, a voz levemente contida, quase perdendo a firmeza.
— Ótimo. — sorriu, se virando novamente. — Tudo bem se a gente comer enquanto assiste o filme? É só ter cuidado pra não sujar meu sofá.
— Por mim, tranquilo.
Duas tigelas de cozido foram servidas. Um filme de comédia foi escolhido pela leveza necessária no fim de um dia longo. A pausa só foi usada uma vez, mas foi longo o período até voltarem para o filme. fez questão de lavar a louça enquanto preparava outras tigelas menores para os petiscos que ele havia trazido. Em seguida, ela se retirou rapidamente para trocar o short do pijama por uma calça de algodão, dessa vez estampada com abacaxis.
— Como namorado, precisa saber que sempre vai me encontrar de pijama em casa, não importa o horário. Ah, e nem sempre eles vão combinar.
sorriu, assentindo. Trocar uma peça curta por outra longa não facilitou nada as coisas para ele. Não porque ela ainda estivesse com a blusa de alcinhas, mas pela confiança que ela tinha em se sentir tão confortável. Ele se pegou querendo conhecer toda coleção de pijamas estampados e sem combinação que ela tinha.
— Não tá com… esquece — ela se interrompeu.
— O quê?
— Ia te perguntar se não tá com frio, mas você tem mais costume do que eu com espaços gelados.
— Bom, é verdade. — Ele abriu os braços. — Vem cá.
sorriu, cerrando os olhos.
— Você tá indo muito bem pra quem não gosta de relacionamentos fixos.
pressionou a língua contra a bochecha, indignado.
— Te ajudar a ficar aquecida não significa que sou um bom namorado, . Agora vem logo, esse filme é imenso.
Ela riu, mas se aconchegou no sofá com pressa. Ele já estava pronto para recebê-la novamente, negando com a cabeça enquanto deixava de lutar contra o sorriso que crescia em seu rosto.

Capítulo 3

Eu quero um amor do tipo domingo
Um amor para durar até depois do sábado à noite
Eu gostaria de saber que é mais do que amor à primeira vista
- Etta James

Assim que as compras foram devidamente organizadas no porta-malas, o calor se tornou maior do que o vento que circulava no estacionamento. sugeriu que fossem numa sorveteria ali perto, era pequena e familiar, mas com sabores maravilhosos.
— Tenho um questionário muito importante pra você — disse ela, dando um gole no milkshake. — Espero que esteja pronto.
arqueou as sobrancelhas, então balançou a cabeça. Um sorriso se abriu em seu rosto enquanto tirava o celular da bolsa de forma dramaticamente séria. Ela pigarreou.
— Você gosta de mim?
— Sim.
cerrou os olhos por alguns segundos, buscando qualquer vacilo na expressão de divertimento do homem à sua frente.
— Você me acha linda?
— Muito.
— Você me ama?
— Ainda não.
— Você acha que vai me trair?
— Não.
— Você acha outras mulheres bonitas?
— Sim.
— Você acha que outras mulheres são mais bonitas que eu?
— Não.
— Quem tem preferência numa rotatória?
A expressão de se abriu numa gargalhada, totalmente pego de surpresa. continuava impassível, mas havia um brilho muito familiar em seus olhos enquanto esperava ele se recuperar.
— Quem tem preferência é a pessoa dentro da rotatória, claro.
Ela balançou a cabeça, analisando atenciosamente as próximas perguntas.
— Você me acha gostosa?
— Muito.
— Será que eu poderia ter uma lista de todo mundo que você já conversou na vida?
Ele deu um sorrisinho de canto.
— Acho que nem eu poderia, na verdade. Foi mal.
— Quando foi a última vez que você namorou uma mulher gostosa como eu?
deu de ombros, um biquinho se formando em seus lábios. Diante da resposta silenciosa, continuou:
— Você está acostumado a ficar com mulheres acima do seu nível?
— Acho que sim.
— Quanto fica seu salário depois dos impostos?
Ele olhou para cima por um momento, considerando.
— Essa tem que ser pro meu agente, não tenho a menor ideia — confessou. — Mas volto depois com a resposta.
— Liste seus defeitos de mais preocupantes para menos preocupantes.
— Acho que o mais preocupante é saber que eu posso começar uma briga no gelo e isso vai alimentar meu ego, mas tento não deixar a competitividade ir pra esse lado. E o menos preocupante? Não sei, talvez não saber usar uma panela de pressão?
saiu do personagem imediatamente. Seus olhos se arregalaram em indignação e animação ao mesmo tempo.
— Com isso eu posso te ajudar! Vamos resolver assim que der.
— Onde a entrevistadora foi parar?
Ela tentou prender um sorriso, sem sucesso.
— Penúltima pergunta. Ainda acha que esse acordo é uma boa ideia?
— Cada dia acredito que vale mais e mais.
— Não acredito em você. — Deu de ombros. — Por fim, de zero a dez, quanto esse questionário destruiu sua vontade de me beijar?
— Zero negativo — respondeu, levando a última colherada de sorvete à boca. — Total oposto, pra ser sincero.
O contato visual se sustentou por vários segundos, não por competitividade, mas por imersão. Havia um milhão de coisas não sendo ditas, ainda em construção, ainda em processo de entendimento. lembrou dos vídeos de experimento onde dois estranhos faziam contato visual por um minuto, mas no caso dela e , a ação já havia se tornado hábito. Por outro lado, se sentia segura por não estar sentindo formigamento, nem borboletas, nem batidas fortes no peito. O ritmo de seu coração dançava pela simples alegria de estar numa boa companhia, pela simples vontade de querer ficar. Só ficar.
— Você é muito bom nisso, — disse ela, balançando a cabeça negativamente. — Ainda bem que a gente já namora, caso contrário eu estaria perdida.
apenas sorriu, então olhou para seu relógio de pulso.
— Preciso me organizar pro treino. Vai querer levar aquela tortinha que você não tirou o olho desde que a gente chegou aqui?

***

— A verdade é que eu tô quase arrancando meus cabelos, .
Dias depois, estava exausta após passar a tarde num evento de caridade com o time pelo bairro. Decidiu ligar para sua melhor amiga no momento em que finalmente conseguiu sentar no escritório. Sequer esperou pela transferência de arquivos, apenas mandou mensagem e ligou assim que recebeu permissão, organizando os equipamentos e cartões de memória de forma robótica.
— Tá entendendo o porquê do nosso ser tão conquistador?
O sorriso de mal cabia na tela do celular.
— Fiz aquelas perguntas idiotas pra deixar ele sem graça e se tornar motivo de piada, mas ele não hesita! — declarou, levando uma mão livre à cabeça. — Foi uma merda lembrar que me achou tão esquisitinha na época, eu quase assustei ele, coitado.
— Depois ele veio a entender seu humor, pelo menos… não foi?
— É, mais ou menos. Tinha coisas que eu sabia que ele não entenderia, então ia podando um pouco — disse ela, focando na tela do notebook, assim não pegou a expressão preocupada da amiga. — Mas o … nossa, quem acaba ficando sem graça sou eu, e não de um jeito ruim. Ele olha pra mim como se quisesse investigar meu cérebro com uma pinça ou…
— Te devorar?
— É. O quê? Não! — Franziu o cenho, rejeitando a possibilidade. — O que eu quero dizer é que perceber as diferenças entre os dois só me faz sentir mais saudade do . Sinto falta de como meu corpo se sentia com ele.
— Cuidado com os detalhes sórdidos em local de trabalho.
— Não é isso, boba. — riu. — Sinto falta da expectativa, da animação, dos arrepios em estar com ele. Sinto falta demais de rir com ele, sinto falta até de ficar triste quando ele ia embora.
Ela suspirou, em seguida pressionou as palmas sobre o rosto.
— Eu sei que soa dependente, mas foi tão bom finalmente ter algo assim, sabe? Só queria a chance de ver onde iria dar.
— , você me disse que queria um amor tranquilo, lembra? — começou devagar. — As coisas que você me contou sobre nas últimas semanas parecem mais com isso do que os três meses com .
— Dois meses e três semanas.
A voz saiu abafada, quase como se admitisse sua vergonha. As duas ficaram em silêncio por um momento, permitiu que a amiga continuasse no seu tempo, observando enquanto ela se ocupava com os arquivos.
— A questão é que e eu somos amigos se ajudando. Não importa se ele disse que me beijaria, é algo que vai acontecer em algum momento, se for necessário.
— Amiga, ele tá sempre checando se você tá bem e perguntando sobre seu dia. Ele faz questão de ver a primeira brecha na agenda pra combinar horários e ir ao mercado com você. Aquele dia que te liguei quando estavam juntos em casa tive que aguentar a cara de idiota de ambos, isso nunca aconteceu antes.
— Ser presa por gostar da companhia platônica de um homem…
— Para. Só pensa comigo, se é você que tá mostrando pra ele como é te ter como namorada, por que ele tá fazendo o mesmo esforço?
— Ah, ele já disse uma vez que também queria que eu mostrasse como gosto de ser amada.
— Quando ele disse isso?! — O aumento drástico no tom da voz fez dar um pulo na cadeira.
— Foi numa ligação meio tarde semana passada, ele tava quase pegando no sono depois do jogo. — Deu de ombros. — Disse que queria me ver pra distrair um pouco antes de dormir, só que eu tava tão cansada quanto, então pouca coisa coerente foi dita.
— Acho que vou ter um AVC.
— Agora não, tenho um monte de foto pra editar e enviar.
deu um suspiro alto e sonoro.
— O que vai fazer mais tarde?
— Vou entregar essas fotos pra social media e depois ligar pro quando ele tiver ocupado. Depois vou pra casa capotar na cama, assim é mais fácil de ignorar quando ele me ligar de volta.
— Isso realmente tá funcionando? Mesmo com ele sabendo que tá na sua?
— Já tem uns dias que ele pede pra me ver. Homens competitivos, né? — Deu de ombros. — Tô fazendo o máximo pra deixar ele de molho, mas nem eu sei até quando vou aguentar. Quero muito ver ele de novo.
assentiu, derrotada.
— Como vai ser quando tiver de mandar ele embora?
pausou, o lábio inferior preso entre os dentes. Encarou a amiga na tela e soltou um suspiro igual ao dela. Já não sabia quem estava ganhando na batalha entre preocupação e determinação dentro de si, mas não queria pensar muito sobre isso.
— Um dia de cada vez, amor. Um dia de cada vez.

Capítulo 4

Malditos os teus olhos, por me tirarem o fôlego, me fazendo querer ficar. Malditos os teus olhos, por alimentarem minhas esperanças, fazendo eu me apaixonar de novo.
- Etta James


[ 💔]:

Sei que não deveria estar te pedindo isso logo agora, mas será que a gente pode se encontrar pessoalmente?
Sinto muito sua falta, acredito de verdade que errei em te deixar ir
Sinto falta da sua presença e das suas palavras
Viver com suas respostas curtas tem sido horrível
Quando posso te ver?

[]:
Ainda bem que você sabe
Mas não quero muito lenga lenga, só vem pra cá logo
Quero saber o porquê de toda essa urgência

Ela suspirou, então fechou a conversa com e abriu a de . A última mensagem era do dia anterior, sobre seu vestido para o baile beneficente.

[]:
Pode me deixar no vácuo o quanto quiser
Eu sei quando nossas folgas vão bater
Nós vamos naquela loja, aceite.

No encontro mais recente na casa de , passaram a tarde aconchegados no sofá escolhendo a cor que combinaria melhor com os dois. Depois de uma longa busca, encontrou um vestido que tinha tudo para ficar perfeito nela e ainda combinaria com a camisa social de . Tudo que precisava era ir pessoalmente na loja para provar e fazer ajustes necessários. A única coisa impedindo o agendamento era o valor absurdo aos olhos dela, mesmo que ele insistisse em pagar.

[]:
(Mensagem invisível acima, que estranho)
Olá! :D
vem aqui já já, alguma dica?

[]:
Não esquece de mandar ele embora.

*


sentia que ia entrar em combustão a qualquer momento. Andou pelo apartamento inteiro, não deixou passar nenhum cômodo, estava muito perto de começar a fazer acrobacias. Entrou na cozinha, pegou o maior copo que tinha e encheu de água, tomando tudo num gole só.
— A pausa pro xixi vai ser uma ótima desculpa — murmurou, tentando se consolar.
Se jogou no sofá e passou um bom tempo encarando o teto. Lembrou de se sentir assim quando começou a ficar com . Tinha descoberto muito pouco em suas pesquisas na internet, então teve que se contentar com as informações soltas das pessoas que trabalhavam na arena do San Jose Sharks e o conheciam por alto. Lembrou que toda vez que tentava fazer perguntas e perguntas para conhecê-lo melhor, ele respondia algumas, mas logo as palavras se tornavam abafadas na curva de seu pescoço, ou no meio de suas pernas. Levou um tempo razoável para que entendesse que a curiosidade de não era brincadeira, muito menos charme, mas uma forma amigável e genuína de se aproximar dele.
ficava feliz toda vez que conseguia descobrir algo sobre ele, que conseguia fazê-lo falar, mesmo que não fosse pelos cotovelos como ela fazia. Aprendeu que em dias de jogos difíceis só conversava depois de tirar pelo menos três orgasmos dela. Então, enquanto ela estava exausta tentando recuperar os próprios sentidos, ele começava a desabafar. Nesses momentos ela só aproveitava o carinho dos dedos dele sobre sua pele nua.
— ? Tá aí? — ele dizia, um ar de riso em sua expressão.
— Sim, tô ouvindo tudinho — ela jurava com a voz manhosa, seus lábios encontrando um lugar seguro no pescoço dele. — Posso te mamar enquanto você me fala daquela prorrogação idiota?
Ele costumava rir com tanta vontade que lágrimas surgiam no canto dos olhos. gostava de fazer rir, especialmente em momentos íntimos.
De volta ao presente, sacudiu a cabeça e apertou os olhos. Era comum ficar nervosa toda vez que ele vinha visitar, mas sabia que todo nervosismo se tornava excitação no momento em que o visse.
— Só tô animada, é só animação.
Também estava preocupada em esquecer de atuar, em se perder no calor do corpo dele, no ritmo das palavras dele, que eram sempre tão certeiras.
Quando a porta abriu, esperou pela permissão para entrar no apartamento, mas não esperava que a mão de lhe puxasse para dentro pela nuca, lhe pressionando contra a parede. Não lembrava dela tão forte, mas era inocência de sua parte achar que alguém que lidava com equipamentos pesados não poderia pegar alguém desprevenido. gostava daquilo. lhe observava de baixo, mas não parecia nem um pouco intimidada pela diferença de altura. Ela inclinou a cabeça para o lado, então fez um bico com os lábios.
— Fala pra mim, — perguntou devagar, iniciando um leve enforcamento. — Por que eu deveria acreditar em você?
Ele quase gemeu. Os dedos dela estavam perfeitamente posicionados, bloqueando suavemente seu fluxo respiratório.
— Porra. — Sua voz saiu fraca. — Saudades do quão bem você me conhece.
Considerando tamanho e força do corpo de em comparação ao de , ele poderia se livrar facilmente daquela situação. Mas ele não queria. Estava exatamente onde desejava, onde era familiar. Sua adorável e boazinha sabia muito bem como ter controle de todos os sentidos de seu corpo, fez questão de aprender cada pontinho sensível em sua pele, sabia exatamente onde fazer pressão e o momento certo de parar.
— É? — Ela riu, fazendo a humilhação do homem em sua frente crescer. Sabia muito bem que o tesão crescia junto. — Sabe como é cansativa essa merda de ficar te vendo implorar pela minha boceta depois de me dispensar? Você não acha que isso é patético?
esperou pela resposta, recebendo apenas silêncio. estava com o lábio inferior preso com força entre os dentes. Ela aumentou a pressão nos dedos, ciente de que a porta aberta o deixava ainda mais desesperado.
— Hein? Não encontrou ninguém melhor? — debochou, fazendo outro biquinho. — Percebeu que tem um monte de gente só querendo dar pra você… sem conchinha, sem desabafos, sem ligações tarde da noite. Ninguém pra te botar no seu lugar, né?
O som que saiu da garganta de foi ridículo, um ofego lamentável implorando por mais. aliviou a pressão, então distribuiu beijos pela área levemente marcada.
— Deixa eu te comer — pediu assim que conseguiu falar novamente. — Por favor.
Quando tentou envolver pela cintura, ela se afastou. Não havia urgência na ação, não era choque ou coisa do tipo. Ela só se afastou como se estivesse satisfeita, o olhar dela tinha perdido todo desejo de minutos atrás.
— Você tem que ir, tenho um compromisso daqui a pouco.
O homem saiu do transe completamente confuso. Sua respiração estava pesada, ainda conseguia sentir os dedos dela sobre sua pele quente.
— O quê? São onze da noite. Não, espera, e eu?
arqueou uma sobrancelha.
— Não vivo em função do seu tesão, . Tá de brincadeira?
Ele queria ficar bravo, queria demonstrar o quão revoltante era aquela situação, mas estava tão duro que não conseguia se defender.
— …
— Não me chama assim. Já falei pra você ir.
olhou para o volume em sua calça, então soltou um suspiro frustrado.
— Posso te ligar amanhã?
— Se eu estiver livre, talvez eu te ligue.
— Qual é, isso é sobre o ?
A expressão de continuou neutra.
— .
Ele grunhiu, percebendo que só precisaria se virar para chegar ao corredor. Não conseguia negar para si mesmo que se entregaria a ali mesmo, era só ela pedir. Só pensaria na exposição depois.
Assim que ele deu um passo para fora, fechou a porta. Sentiu a mesma vontade de rir de quando desligou a chamada de vídeo semanas atrás. A animação agora era real, mal conseguia conter o sorriso no rosto. Se sentia uma adolescente travessa, não imaginava que humilhar um atleta com mais de vinte anos lhe traria tanta satisfação. No fundo de sua mente, ouviu dizendo que ela não precisava da ajuda dele.
A ligação demorou alguns toques para ser atendida. estava com a voz cansada, quase sonolenta, quando a cumprimentou.
— O que tá fazendo depois de perder dois gols hoje?
Ele riu fraco.
— Vendo o documentário de um jogador genial pra me sentir ainda pior. E você, tá me ligando escondida no banheiro enquanto o garanhão pega no sono?
Justo, pensou ela, soltando uma risada.
— Não, gênio. A verdade é que eu tava pensando agora mesmo em ir na sua casa fazer você se sentir horrível. Esse documentário é bom?
— É maravilhoso, você vai gostar. Tô precisando mesmo de umas broncas, se souber imitar meu técnico vai ser melhor ainda.
— Quer conversar sobre esse possível fetiche?
— Só se você me contar os seus.
— Combinado, tô indo agora.
— O quê? Não, eu vou aí te buscar.
— Promete que não vai dormir no volante?
— Para com isso. Prepara seu pijama que eu chego em vinte minutos.

*


Estavam mais uma vez esticados no sofá-cama da sala de . O documentário tinha sido reiniciado para que ela entendesse todo o contexto, permitindo que ele adicionasse suas próprias observações sobre a história. tinha assistido tudo com bastante atenção, mas passar mais de uma hora deitada na superfície confortável e aconchegada no peito de fez com o que o sono lhe encontrasse perto do final do filme. O cheiro do sabonete dele trazia calma para os sentidos dela, apaziguando toda euforia que havia enfrentado momentos atrás.
Quando os créditos subiram, cantarolou a música instrumental como se já tivesse decorado. sorriu levemente, então se virou para encará-lo. Em resposta, ele se aproximou para tocar seu nariz no dela, sorrindo quando a viu se encolher.
— No que tá pensando? — ele perguntou.
envolveu o tronco do rapaz, em seguida passou a mão por baixo da camisa, iniciando um carinho leve na costela dele.
— Acha que sou uma boa namorada?
— Sim, aprovada com nota máxima.
Ela se moveu para cima e o beijou, o toque a fez sentir uma grande sensação de alívio. Sem fogos de artifício, sem borboletas. Apenas alívio. Os lábios dele eram macios, a língua tinha gosto de sorvete e paciência. quase soltou um gemido, mas o que emitiu foi meramente um suspiro de contentamento. levou uma mão à lateral do rosto da mulher, não para controlar os movimentos, mas para sentir mais dela.
Os olhos de estavam pesados quando ela os abriu novamente. sorriu, acariciando a bochecha dela.
— Quer dormir aqui hoje?
assentiu, deixando um beijinho na curva do pescoço dele antes de se aconchegar ali. desligou a TV, decidindo deixar para arrumar as outras coisas depois. Então pegou ela no colo e seguiu para o quarto, desligando as luzes pelo caminho.
O sono dos justos chegou com facilidade. Naquela noite, os dois dormiram como não conseguiam há algum tempo. Assim como o beijo, seus corpos se encontraram e se encaixaram naturalmente, mesmo na cama imensa.

Capítulo 5

Olhe, não me entenda mal, eu sei que não há um amanhã. (...)
Deixe essa ser a nossa lição no amor, deixe isso ser como iremos lembrar de nós.
- Adele

No dia seguinte, precisou passar em casa para pegar seus equipamentos e outros itens de trabalho. fez questão de levá-la nos dois locais, mas não antes da pausa para o café da manhã. Não tinham conversado sobre a noite anterior, não tiveram vontade. Ao passo que as ações iam ficando mais naturais, a comunicação em voz alta ia reduzindo. sabia que era um erro, pois ao mesmo tempo que queria todos os detalhes sobre como ela se sentia atualmente sobre , não queria ter que ouvi-la falar afetuosamente sobre ele. Sua parte do acordo era ter uma boa namorada, estava cumprindo isso muito bem.
— Venho te pegar no seu horário de almoço. Vamos buscar aquele vestido hoje — disse ele, deixando um beijo na bochecha dela.
cerrou os olhos.
— Não vai desistir disso mesmo?
— Jamais — ressaltou, balançando a cabeça com veemência. — Sou capaz de fazer um escândalo.
— Nem pense nisso. Não quero meu nome mencionado na narração do seu próximo jogo.
riu, totalmente culpado por achar a reação dela adorável.
— Então te vejo mais tarde. Bom trabalho, . — Se despediu, mas sua postura inclinada na direção dela não mudou. se deu conta disso quando soltou o cinto de segurança e se virou para dizer tchau.
Os dois se encararam por alguns segundos, considerando todas as possibilidades daquele momento. Então, com um surto de coragem, se aproximou e o beijou. esperava pelo mesmo selinho carinhoso da noite passada, mas a boca dela estava pressionada com mais vontade dessa vez. Segurou um suspiro quando sentiu o toque da língua dela sobre seu lábio inferior, como se estivesse saboreando. Assim que tentou fazer o mesmo, se afastou, o deixando desnorteado. encarou a mulher sorridente a sua frente, a vendo se aproximar novamente para retribuir o beijinho em sua bochecha.
— Aproveita sua folga, — disse ela, ousando lançar uma piscadinha antes de sair do carro.
O homem a encarou até que ela sumisse pela porta giratória, em choque. Eu tô perdido, pensou ele, dando partida e, por obrigação, saiu dali antes de levar uma multa.

*

Na noite do baile, quando a porta do apartamento de foi aberta, os dois se viram embasbacados. se aproximou lentamente, um sorriso pouco contido se espalhando em seu rosto. Seu braço esquerdo circulou a cintura dela, a puxando para perto. Levou os olhos com paciência pelo rosto cuidadosamente maquiado, ressaltando a beleza dela. Se sentiu satisfeito ao perceber que a expressão dela refletia a sua. Ele estava usando o perfume que ela tinha elogiado outras vezes; era uma colônia amadeirada com toques cítricos que ele raramente escolhia entre suas opções. Bom, nas últimas semanas acabou comprando mais dois de reserva, e um deles já estava chegando na metade.
— Seu batom tá lindo, mas nunca senti tanto ódio de um objeto na minha vida — disse ele.
riu, apoiando a testa no ombro dele. Quando voltou a olhá-lo, quase derreteu com o modo afetuoso que a analisava.
— Não estamos atrasados, quer entrar?
apertou os lábios com força, então balançou a cabeça negativamente.
— Só pegue suas coisas logo, por favor.
O contato visual se manteve por alguns segundos, então revirou os olhos e voltou para desligar as luzes do apartamento. Era difícil cumprir suas atitudes de namorada quando ele era tão bem controlado. No momento em que colocou o celular dentro da bolsinha delicada, seu celular vibrou com uma mensagem:

[ 💔]: Posso te ver hoje?

O baile beneficente do San Jose Sharks tinha a atmosfera que esperava. O evento permitia a entrada de fãs, esses ingressos permitiam participação no leilão, circulação livre pelo evento e interação com os jogadores. assistiu conversar alegremente com as pessoas que lhe admiravam. Todos estavam muito bem alinhados, o que fez se sentir aliviada por ter cedido sobre a compra da roupa caríssima. O vestido tinha ficado perfeito em seu corpo — ao ponto de demorar alguns segundos para responder a qualquer pergunta que ela fez durante a prova. Jamais esqueceria o olhar cúmplice das funcionárias da loja, ele estava definitivamente perdido nos próprios pensamentos.
Não demorou para se deparar com assim que chegou, era como se ele estivesse atento a cada passo seu, só esperando a oportunidade para esbarrar acidentalmente assim que se distraísse.
— Você tá linda, — disse ele, os olhos escaneando seu corpo.
— Obrigada, . Já te falei pra não me chamar assim.
Antes que a conversa pudesse se estender, voltou, entrelaçando seus dedos aos dela automaticamente. O sorriso dele era plástico e perfeitamente treinado pela equipe de marketing do time. só estava distraído demais para perceber isso.
— E aí, cara? Planos pra essa noite?
— Não sei, pensando em fazer umas ofertas arriscadas — respondeu, olhos firmes no rosto de , então os desviou para o colega: — Acho que os fãs vão gostar, sabe?
A expressão casual de não vacilou, mas o aperto dele ficou mais firme. esperava que ele não estivesse sentindo o suor que começava a surgir da pele dela.
— Tô com umas ideias para as apostas no fim da noite também, só não aconselho pisar em terreno desconhecido. — Deu uma piscadinha. — , quer me ajudar a escolher uns itens do leilão?
estava levemente atordoada pela interação, mas sorriu e assentiu, seguindo até o outro lado do salão. Não tocaram no assunto quando se afastaram de ; ela por estar levemente chocada, ele por tentar controlar o nível de sua impaciência. Assim, passando as páginas do catálogo com atenção, entraram em acordo em vários momentos, em outros, pareceu mais interessada do que . O rapaz não hesitou ao oferecer a solução:
— Você tem seu nome registrado, pode escolher o que quiser quando forem anunciados — afirmou, apoiando uma mão em volta da cintura dela. — É por minha conta.
Ela olhou para ele, surpresa, apenas para encontrar a certeza na expressão dele. queria que ela tivesse toda liberdade de investir nas causas que lhe eram importantes, ele daria a base para isso. Ele sabia que estava sobrecarregada pelo ambiente — ser fotógrafa do time não significa necessariamente ser convidada para eventos assim. Queria que ela pudesse aproveitar o evento sem se preocupar com mais nada. Era extrovertida o suficiente para se enturmar com as outras namoradas e esposas, assim como também saberia se retirar de uma situação em que essas mulheres tentassem lhe diminuir. Não havia nada esclarecido sobre seu relacionamento, mas assim que a viu tão bem incluída entre seus amigos mais próximos, ele sabia que havia sobrado pouco a revelar.
Após um leilão muito bem-sucedido — que deixou radiante por ter conseguido a maior oferta em duas de suas escolhas —, ela sentou no colo de após observar a jogatina em sua frente por mais de dez minutos. Não podia colocar a culpa no vinho branco quase no fim de sua taça, pois tinha uma boa tolerância alcoólica. Sorriu para os outros competidores como a mulher adorável que ela sabia que era, então levou a boca à orelha de seu parceiro:
— O cara de cinza tá roubando desde que sentou na mesa. Você sabe, né?
assentiu, arrumando em seu colo para que ambos ficassem confortáveis.
— Já saquei tudo, tô só esperando ele fazer a maior jogada da noite. O croupier tá comigo, ele já conhece esse palhaço.
Ela ficou surpresa, mas logo decidiu assistir às apostas sem preocupações. Sua atenção já não estava mais em , que fez o possível para se manter na linha de visão dela a noite inteira.
Aconteceu pela primeira vez quando estava dançando uma música animada no meio do salão. não se lembrava de ter sentido tanta alegria com alguém daquela maneira. O que poderia chegar mais perto era a satisfação de quando saiu para dançar com após o término. Seu peito vibrava em satisfação, suas bochechas doíam, tamanho o sorriso aberto em seu rosto. Não havia espaço para mágoa. Tudo estava em seu devido lugar. O cheiro do perfume dele se apresentava de maneira confortável em suas vias aéreas, o calor das mãos dele criavam o contato perfeito nas costas dela, a textura macia do cabelo dele entre seus dedos trazia um contentamento imensurável. A segunda vez foi quando estacionou na frente do prédio. O rádio tocava uma música baixinho, a rua estava vazia, as janelas estavam abertas, então o vento fresco fazia sua pele arrepiar levemente.
olhou para ela com o mesmo sorrisinho de sempre. Como se conseguisse lê-la com a maior facilidade do mundo.
— Fico feliz que tenha se divertido.
— Não achei que fosse ser tão legal, na verdade. Fiquei surpresa de ver alguns colegas seus arrasando na pista de dança.
A memória o fez jogar a cabeça para trás numa risada.
— Posso te apresentar um pessoal. Eles podem não ser os maiores goleadores, mas se ignorar essa parte, vai criar amizades valiosas.
— Eu jamais poderia ignorar essa parte, . — Revirou os olhos. — Mas posso pensar no seu caso.
— Por favor, pense com carinho.
O silêncio que se estendeu em seguida a fez pensar que esperava pelo mesmo convite do início da noite. E, ah, como ela queria convidá-lo novamente. Se não fosse o suspiro pesado que lhe escapou, quebrando o transe, com certeza teria feito algo que viraria tudo de cabeça para baixo. Estava encarando os lábios dele sem o menor disfarce.
Então não era parecido com a euforia platônica provocada pelo amor de sua melhor amiga, era diferente. Totalmente diferente.
Ah, não.
— Obrigada por hoje — disse, finalmente. Reparou que as sobrancelhas dele deram um breve salto, como se ele também tivesse ido a outro lugar naquele momento. — Vou cuidar muito bem desse vestido. Acha que vai cair bem no próximo aniversário no quintal da minha vó?
— Com certeza parece um evento muito mais ideal. Ótima ideia.
Ela sorriu, em seguida se aproximou para beijá-lo na bochecha.
— Boa noite, .
assentiu, saindo do carro para abrir a porta dela. Ofereceu uma mão para apoio enquanto a outra protegia a cabeça dela do teto. Quando ficou em sua frente outra vez, ele encontrou a oportunidade de lhe dar um beijinho na testa.
— Boa noite, descansa.

*

Sob a luz baixa de seu apartamento, estava perturbada. Precisava decidir de uma vez por todas. Isso tinha ido longe demais. Teria que pôr algumas coisas à prova, definir o que era real e o que foi criado em sua cabeça. Alguém sairia magoado dessa história — bom, alguém além dela. Não sabia como processar tudo aquilo. Não sabia se deveria deixar as coisas esfriarem, afinal, precisaria da informação mais recente para conseguir comparar, certo?
Nada certo. Que ideia idiota. Faria mesmo assim.

[]: Em quanto tempo você chega aqui?

[ 💔]: 20.

[]: Você tem 10.

[ 💔]: Deixa a porta aberta.

É importante como isso irá terminar
Porque e se eu nunca mais amar de novo?

*

A depressão pós-orgasmo bateu quase de imediato. encarou o teto, ignorando o beijinho que deixou em sua bochecha antes de ir até o banheiro para descartar a camisinha e se limpar.
Ela pegou uma troca de roupa e entrou no banheiro em silêncio, mas então se virou e disse:
— Não quero você aqui quando eu voltar.
franziu o cenho. Ainda estava de cueca, sentado confortavelmente contra o espelho da cama.
— Qual é, amor. Até quando vai me tratar assim? Eu já não me desculpei?
pressionou a língua contra a bochecha.
— Eu cansei dessa coisa que a gente tem. Não faz bem pra mim — admitiu. — Você vai passar duas semanas jogando em não sei quantas cidades. Vê se acha o que você quer de verdade por lá.
— Mas eu quero você, . Quero ficar aqui com…
— Não quer, você que disse isso. O que foi? Gozar te causou amnésia?
— Olha, não precisa ser cruel.
— Essa sou eu sendo gentil te mandando ir embora e nunca mais falar comigo. Você é que tá insistindo.
— , você tá nua na minha frente!
— Acabou. É a última vez que eu repito isso.
Fechou a porta, dando um longo suspiro assim que ficou sozinha. Ligou o chuveiro e ajustou a temperatura. Pensou em colocar o ouvido contra a porta para checar o movimento no lado de fora, mas não queria se importar. poderia lhe ajudar com a checagem de segurança quando ela viesse prestar socorro psicológico em breve. Por agora, teria de confiar que era apenas patético, não perigoso.
Era como se estivesse anestesiada. A água molhava seu corpo, mas o contato não lhe prendia no presente. Cenários passavam em sua cabeça de forma acelerada, consequentemente distorcendo fatos, dramatizando, menosprezando. Sentiu a respiração ficar pesada enquanto executava os movimentos de limpeza de forma automática.
Acabou.
Tudo teria que acabar.

*

Dois dias depois, acordou com o toque do despertador por volta das seis da manhã. Sentou na cama, considerando as próximas ações. Não sabia se tomar café da manhã antes seria uma boa ideia, só a expectativa do que aconteceria já lhe deixava enjoada. Apesar das coisas terem acontecido no sábado, precisou tirar licença médica do trabalho. estava fora da cidade, mas tinha passado horas em ligação com a amiga, fazendo o possível naquela situação.
Verificou mais uma vez a mensagem com as informações da viagem. Tinha um colega de faculdade na equipe de comunicação do Sharks, conseguiu esse favor sem precisar dar tantas respostas.
O celular de tocou enquanto ele analisava as estratégias do próximo jogo. Suspirou aliviado quando viu o nome de na tela. Estava há dias preocupado pela falta de resposta às suas mensagens. Estava preocupado porque as coisas claramente tinham mudado, precisavam ter outra reunião de planejamento urgente.
Pensar naquela primeira conversa o fez sorrir.
— , oi!
— Oi, . Tá ocupado?
Ele checou o relógio de pulso.
— Embarcamos em uns dez minutos. Tudo bem por aí?
Ajustou os fones de ouvido para ter certeza, então encarou no outro lado da sala, sentindo que a voz embargada de tinha tudo a ver com ele. Se afastou do grupo para um canto mais reservado e esperou ela voltar a falar.
— Sabe, no início disso tudo, achei que daria conta de todo um espetáculo só por medo de admitir que não tinha controle de nada. Quando não deu certo com Derek no ensino médio foi um sofrimento terrível, daqueles que só adolescentes conseguem sentir. Mas eu sempre fui uma mulher de aprendizados, então na faculdade, quando Owen quis investir num relacionamento tanto quanto eu, lembrei de tudo que tinha dado errado com Derek e me adaptei.
Um suspiro.
— Só que somente paixão não sustenta as coisas por muito tempo. Nós percebemos que não íamos encontrar um ponto em comum e desistimos. Depois disso me deixei levar por situações que só necessitavam de atração, mas entendi que não era muito minha praia. Aí conheci e tudo se encaixou. Tudo. Eu já sabia o que precisava fazer pra melhorar a comunicação, sabia quando me adaptar. — Ela riu. — Tentei tanto ser verdadeira, tentei tanto seguir conselhos de quem teve sucesso… mas se nenhum dos meus relacionamentos chegou a se tornar algo real, só existe um padrão.
— , não…
— Eu te agradeço muito por ter me ajudado, me desculpa por ter te enfiado nesse circo. Não existe mais nada entre mim e , mas acho que fiz um trabalho tão bom na atuação que ele ainda deve achar que é joguinho — confessou. — Vou ficar fora de contato por um tempo além do seu período fora de casa, mas não precisa se preocupar. Sinto muito por tudo isso, …
— Não ouse desligar na minha cara — ele interrompeu. — Eu é que lamento você ter passado por tudo isso. É uma grande merda não poder ir na sua casa agora mesmo, mas a gente vai conversar quando eu voltar. Não quero que corte contato e passe dias dentro da sua cabeça achando que te deixei com alguma dúvida.
— Você não me deve nada.
ativou a chamada de vídeo, mas apenas sua câmera ficou ligada.
— , olha pra mim. Eu lembro de ter dito que não tenho medo de sentimentos, não que fingiria sentir alguma coisa. — Diante do silêncio dela, ele continuou. — Você não é um problema. Preciso que acredite em mim.
— Agora tá muito difícil de fazer isso. — Ela fungou.
— Espera, tá com você agora?
Sabia que não poderia sair disparado daquele aeroporto, por mais que quisesse. Não correria o risco de estragar o trabalho de quem planejou a viagem. Apertou a ponte do nariz com certa força.
— Agora não, mas tá a caminho. Tchau, boa viagem. Não se machuca.
Ligação encerrada. encarou a tela do celular como se de alguma forma pudesse se teletransportar através dele.

[]:
Por mais bizarro que isso soe
Você não vai fugir de mim
Sei que vai cuidar de você
Mas me espera voltar,
Por favor
Continua…
Nota da autora
oieee! quanto tempo, né? lamento a demora pra atualizar. como esse é o momento mais delicado da fic, achei melhor lidar com mais cuidado. além disso, a rotina de trabalho bloqueou um pouco meu processo, e eu também recebi o conselho (ameaça) de só enviar o capítulo 5 quando tivesse o 6 escrito :D muito obrigada pelas indicações e pelos comentários, viu? fico radiante com esse prestígio. boa leitura, um beijo e até a próxima!! <3
Nota da beth
não sei se amo ou odeio esse capítulo. não tiro a imagem do eky no aeroporto recebendo a ligação e o término da coitada sem PODER FAZER NADA da minha cabeça, juro te odeio
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