Capítulo 1
Foram duas semanas de muito estresse. passou por todas as fases do luto depois que terminou o que tinham, mas continuava sem entender o que diabos tinha acontecido. A fase de ficantes tinha durado quase três meses, foi divertido e gostoso como qualquer início de algo novo. e tinham encontrado uma química fascinante que equilibrava as diferenças de suas personalidades quase perfeitamente. As conversas eram leves, as ideias para encontros sempre colocavam o conforto de ambos como prioridade. O sexo também seguiu esse ideal de comunicação, o que tornava tudo melhor. Até que não foi suficiente.
decidiu que o meio de um encontro em público era o momento ideal para lhe dizer isso. Estavam na área externa de um restaurante que ficava no topo de um prédio, a vista para a cidade à noite era encantadora. Alguns casais estavam por perto, todos imersos em suas próprias bolhas de intimidade, cochichando e dando risadinhas sem ligar para o mundo ao redor. Discursos clássicos do tipo “não é você, sou eu” saíram naturalmente, como se ele tivesse praticado ou pelo menos pensado bastante naquelas palavras. Ele disse que ela tinha feito tudo certo, que era uma mulher incrível, que os dois meses tinham sido maravilhosos. O problema é que ele percebeu desejar exatamente o contrário daquilo.
Ele a levou em casa, mas não abriu a porta para que ela saísse do carro. estava estranhamente quieta, presa em seus próprios pensamentos. Se encontrava fazendo um grande esforço para driblar as inseguranças que surgiam como fogos de artifício, que martelavam seu peito. Mas nada foi dito. Ela só respondeu com compreensão, tentando esconder a vergonha que sentiu diante de todas aquelas pessoas. Teve a impressão de que algumas estavam olhando para ela com pena, mas não tinha certeza se sequer tinham ouvido.
— A gente pode falar disso de novo amanhã? Preciso pensar um pouco.
— Claro, . Sem problemas.
Compartilharam um sorriso pequeno, então ela foi embora.
não ligou no dia seguinte, muito menos mandou mensagem. Não conseguia parar de pensar nas palavras de . Como assim ela não era o problema? Se não havia nada de errado em seu jeito de amar, por que ele colocou tanta ênfase em precisar fugir do previsível? Como jogador de um esporte tão acelerado quanto o hóquei no gelo, imaginava que ele precisaria de uma pausa fora da arena.
— Não quero que você se culpe por achar que criou coisas na sua cabeça — disse , a voz levemente trêmula por estar correndo na esteira. estava de pé em frente a máquina para manter o foco direcional de sua amiga. — Você já era maravilha quando te conheceu, ainda fez questão de oferecer uma comunicação aberta com ele. Foram dois meses bem intensos, não acha?
prendeu o lábio inferior entre os dentes, apreensiva.
— Acha que surgiu alguém que fez ele enjoar de mim assim?
O tom cabisbaixo da amiga fez reduzir a velocidade aos poucos até parar.
— Olha, não temos como garantir isso, mas ele pode conhecer outras pessoas pelo país do mesmo jeito que você pode conhecer por aqui. — Cruzou os braços e apoiou os cotovelos na máquina. — O que não justifica é ele te dispensar desse jeito como se estivesse num programa de namoro.
concordou em silêncio, mas sua expressão pensativa estava absolutamente óbvia para . Se dirigiram ao banheiro para se arrumar antes de ir embora, exaustas e contentes pelo treino finalizado.
— Tô ficando apavorada com seu silêncio — confessou ao entrar no carro.
— Não exagera.
— Só me fala o que você tá planejando.
— Sabe o ? — murmurou uma concordância suspeita. — Pensei em pedir a ajuda dele pra mudar um pouco minha atitude. Eles são do mesmo time, ele deve saber do que tava falando, certo?
— Ele deve saber justamente por ser homem, . Você sabe que não namora sério faz um bom tempo.
— Talvez isso seja melhor ainda, ele sabe como lidar com desapego.
O carro parou no sinal vermelho, um suspiro longo saiu dos lábios de .
— Amiga, te pergunto isso com todo amor no meu coração. Por que você quer mudar sua atitude só pra agradar um cara como ?
O contato visual permitiu que a vulnerabilidade de ficasse exposta, logo a expressão da amiga suavizou em compreensão.
— Você sabe o quanto aqueles dois meses foram importantes pra mim — começou, não se importando com a fraqueza em sua voz. — Eu sei que pode não dar certo porque no final ele só não me quis… mas eu quero tentar.
engoliu a preocupação com dificuldade, mas entendeu. Sabia que não era o tipo de mulher imprudente que se afastaria de seus princípios por um homem, porém também sabia que ela tinha as próprias questões para chegar a esse ponto.
— Tudo bem. Tudo bem, mas vou ficar de olho em vocês dois.
— Vai entrar nas minhas paredes?
Uma buzina impaciente lhe impediu de responder. buzinou de volta, só então seguiu com o carro no sinal verde. Sua expressão irritada se tornou complemento da frase que quase soou como ameaça:
— Pode apostar, amor.
concordou em encontrar no refeitório da arena do San Jose Barracuda no fim do expediente. Enquanto esperava, ela estava revisando as próximas demandas, visto que as fotos do dia serviriam tanto para as redes sociais quanto para conteúdos promocionais. Quanto ao local, ambos concordaram que qualquer escolha dentro arena do San Jose Sharks estaria embaixo do nariz de . Assim, finalizou o treino, se organizou e seguiu para o endereço do time afiliado, onde trabalhava como fotógrafa.
Quando ele chegou, a primeira coisa que ela percebeu foi o quanto estava cheiroso, o que não ajudava em nada naquele período de fragilidade. Mas nem sequer sentou, apenas deu oi, perguntou se ela faria o pedido de sempre e andou até o balcão. aproveitou esse momento para guardar suas coisas e recapitular o que tinha praticado para aquela conversa.
— me falou que te deu um pé na bunda — começou ele, entregando a salada de frutas e dando um gole em seu chá gelado. — Ela não parecia nada feliz, então não precisa medir palavras comigo.
jogou a cabeça para trás e segurou um sorriso.
— Um pé na bunda parece tão cruel.
— Falar gentilmente não diminui a mágoa do que foi dito. O que precisa de mim?
— Preciso que me ajude a mudar algumas atitudes de tratamento, porque parece que eu sou tranquila e saudável demais pro gosto dele.
franziu o cenho, não se importando em esconder o incômodo.
— Ele disse que às vezes queria passar uns dias sem falar nada, eu disse que tudo bem, era só ele me avisar — continuou, dando uma colherada na salada de frutas. — Eu também não gosto de morde e assopra. Tem algum problema nisso? Não entendi o que aconteceu.
— Parece que ele queria fazer mistério ou que você cobrasse ele, parece que ele quer alguém que beire ao tóxico, na verdade.
— Mas vocês não amam falar que comunicação é a chave? Como ser obsessiva e desinteressada pode ser algo bom? Eu nem sei se consigo me tornar desse jeito.
— Você não precisa fazer isso, é só seguir em frente.
Um minuto de silêncio se passou enquanto se ocupava com a salada de frutas. apenas a esperou ficar à vontade novamente. Não sabia tanto da versão dela, mas conhecia o suficiente de para entender a reação de . Ver naquele conflito interno era devastador.
— Não sei se tenho disposição pra voltar a todo processo de flertes e encontros. Achei que ele tivesse encontrado a pessoa certa em mim, não acredito que não consegui segurar o primeiro relacionamento bom que tive na vida.
— Escuta, como pode ter sido bom se ele parece só ter enjoado de você?
— É.
— Não, não foi o que eu quis dizer. É só que ele literalmente deu essa desculpa ridícula de querer uma aventura, de querer ser tratado de forma esquisita. Por que você deixaria de ser uma pessoa boa só pra segurar um cara desse?
se sentia pior gradativamente ao perceber que aquela conversa estava seguindo o mesmo padrão da que teve com . Tinha plena ciência de que estava seguindo uma trilha instável, que estaria saindo de sua zona de conforto do jeito errado, mas a teimosia queimava dentro dela. Não conseguia aceitar perder algo que tinha sido tão bom. Algo que não continuou por sua culpa.
— Fiquei solteira por tempo suficiente pra perceber que eu não sou bem o tipo de mulher que atrai os caras — admitiu, a redução de volume na voz revelando o peso daquela afirmação. — Então será que pode dizer se aceita ou não me ajudar? Não quero ficar pensando no fracasso, quero começar a agir.
Ele suspirou.
— Tudo bem. Em breve vamos ter o baile beneficente do time, mas enquanto isso você vai agir como agiria normalmente, só vai seguir ordens de pequenos detalhes que vão te ajudar a parecer diferente.
Ela concordou com a cabeça.
— Preciso mudar meu guarda-roupa ou algo do tipo?
— Por que faria isso? Seu estilo já é ótimo. O cara é mesmo um idiota.
Se ela não estivesse tão distraída com as ideias erradas, teria notado o jeito que ele a observou de cima abaixo.
— Não tem nada a mudar na sua aparência, é só a atitude que precisa ser mais ácida.
— E qual sua experiência com isso?
— Nunca dei vácuo em ninguém, não gosto de ficar dando voltas se não vejo futuro em algo. — deu de ombros. — Deixo todo mundo ciente disso, então não é como se eu estivesse quebrando corações, pelo menos, não de propósito.
— Não acredito que enjoou de mim porque não tratei ele que nem lixo. Não sabia que eu era tão entediante.
Ele ajustou a postura, apoiando os braços sobre a mesa. O gesto quase fez se afastar, mas não se sentia intimidada por , apenas confortável.
— Essa conversa tá me deprimindo, por que não me mostra um pouco mais de quem você é como namorada? Tudo que ouvi até agora faz parecer um filme de terror.
— Não sei como posso descrever, não mudei minha personalidade por causa do namoro. Eu sou o que você já conhece.
— Então experimenta comigo.
— O quê?
— Mostra pra mim na prática como é namorar com você e eu te mostro na prática como tratar uns caras com fetiche em humilhação.
Ela o encarou por um momento, buscando qualquer sinal de piada.
— Mas não tenho esses sentimentos por você, como vou agir naturalmente?
— Não tô pedindo que me ame, tô pedindo que me mostre seja lá o que fez ele sair correndo em busca de rejeição.
A casualidade nas palavras de fazia a situação parecer menos complicada. Nem de longe parecia que ele estava propondo um avanço íntimo na dinâmica daquela amizade. Independente de ser falso, ainda estariam vulneráveis a sentimentos muito fortes e delicados.
— Tá precisando se recuperar de uma também?
— Não que eu saiba, só acho que seria legal ter o gostinho de estabilidade por algum tempo. E como disse, não tem amor envolvido, então é uma mera troca de favores.
soltou uma risada sincera pela primeira vez naquele dia.
— Você vai muito se apaixonar por mim, o que é uma pena, porque meu coração tá nas mãos de um otário que acha que não posso ser maldosa.
— Primeiro me mostra o quão boazinha você é, aí eu decido o que fazer depois.
Ele notou o jeito que ela tentou disfarçar uma mordida no lábio. É claro que ele notou.
— Combinado.