Revisada por vênus. 🛰️ até o capítulo 5 | Aurora Boreal 💫 do capítulo 6 em diante.
Atualizada em: 23/01/2026
E eu estou derretendo
Em seus olhos
Como a minha primeira vez
Em que eu peguei fogo
— The Used, “I Caught Fire”
Para sempre e sempre
“Violence”
blink-182
Eu nunca desejei me casar com Aemond Targaryen. Sete infernos, eu era uma criança quando fora prometida! E, ainda por cima, uma criança que não sonhava em se casar, por mais que soubesse que o dia chegaria e que eu cumpriria, sim, com o meu dever. No entanto, costumava acreditar que me casaria com o herdeiro de outra casa da Campina e que, se tivesse sorte, ele não seria muito mais velho do que eu. Meu pai tinha outra ideia em mente. Eu sempre fora uma decepção para ele por ter nascido mulher. Pois agora ele tinha o pequeno e fofo Tom e, então, me mandara para as Terras da Coroa ao encontro do meu príncipe.
Sua ideia inicial era um tantinho gananciosa demais. Ele queria me prometer para Aegon Targaryen, na esperança de que a rainha Alicent e seu pai Otto Hightower usurpassem o trono de Rhaenyra e transformassem o primeiro filho homem do rei Viserys II em Aegon, o Segundo de Seu Nome, o que faria de mim sua rainha. Mas a rainha fora mais rápida. Ainda que eu fosse uma Hightower, isso não bastava para ela e, assim, providenciara o noivado Aegon e Helaena, para que o poder não escorresse nem um pouquinho para longe do sangue dela. Por isso, meu pai e sua ambição tiveram que se contentar com o segundo filho do rei. Então as negociações se seguiram, Aemond e eu nos tornamos noivos e, apesar de que o casamento em si demoraria anos e mais anos para acontecer, fui mandada para cá cedo. Cedo demais.
Assim, eu ainda era uma criancinha quando o conhecera, antes mesmo de ele adotar aquele tapa-olho, agora tão comum. Antes disso, sim, mas não antes da perda do olho. Quando deixara minha casa para trás com uma comitiva que me levaria até Porto Real, tentara aquecer meu coração com uma possível graciosidade e a beleza daquele que viria a ser meu futuro marido. Pouco depois da metade da viagem, quando estávamos jantando no salão de algum lorde menor, recebemos a notícia de que o meu pequeno príncipe clamara um dragão para si. E não apenas qualquer dragão, mas sim a maior e mais velha. Aquilo me animou, até que fiquei sabendo do resto… do olho.
Em Porto Real, fora recebida por um garotinho com um ferimento costurado sobre o olho esquerdo. Não. Garotinho jamais fora uma boa palavra para descrever o príncipe, como eu compreenderia nas semanas e anos que se seguiriam. Destemido se encaixaria melhor. Apesar da minha decepção inicial com sua aparência, gostei do que vira nos outros dias. E isso me acalmou um pouco com as expectativas.
E agora, aqui estava eu, crescida e bebendo no Bosque Sagrado da Fortaleza Vermelha com o irmão errado. Aquele que meu pai tão sabiamente previu que seria o rei depois de Viserys II. E tudo o que o garoto na minha frente não queria era ser rei. Mas a mãe e o avô dele já haviam decidido o seu destino, mesmo que ele insistisse em ignorar. Todos por aqui com olhos espertos sabiam. E Viserys, que continuava a defender a sucessão de Rhaenyra, estava fora de si, esperando pela morte. Ninguém lhe dava ouvidos.
— Mas você não respondeu o que eu te perguntei. — voltei a insistir.
— É claro que sei que eles vão tentar de tudo. Minha mãe fala dessa merda desde que consigo me lembrar. — Aegon fez careta. — Eu não quero ser rei.
— Vai ter que enfrentar isso, querendo ou não. Seu pai não está bem há muito tempo. — Tomei o último gole de vinho da taça e não deixei que ele servisse mais. — Não é como se você tivesse algum querer, Aegon. Eu também não tive nenhuma escolha quando me prometeram para o seu irmão.
— Sei que se tivesse escolhido, teria escolhido a mim. — Abriu um largo e convencido sorriso.
— Pensei que estávamos bebendo vinho, mas parece que você tomou leite de papoula e agora está delirando! — Gargalhei. Apesar dos pesares, passar um tempo com Aegon me divertia mais do que eu gostava de admitir.
— Qual é, , vem aqui. — Aegon se levantou e me puxou pela mão com força, envolvendo-me em seus braços. — Podemos fugir para Essos, você e eu. Assim não preciso virar rei e você não precisa se casar com o meu irmão.
— Ah, que romântico! — carreguei a minha voz de sarcasmo ao apoiar as mãos nos ombros dele, mas sem afastá-lo. — E o que vamos fazer lá, vender laranjas para você pagar suas putas?
— Estou falando sério. — Ele tentou manter um semblante sério, sem sucesso, afinal, estava caindo de bêbado. — Vem comigo, .
— Enlouqueceu, foi? — ri outra vez e virei o rosto quando ele tentou me beijar. — Para com isso!
— Não consigo, é mais forte que eu. — ele roçou seus lábios no meu pescoço, me causando um arrepio. — Você é tão…
— Tire suas mãos sujas dela, irmão. — ressoou uma voz calma, mas carregada de poder. — Você sabe que ela é minha.
— Tá bom, tá bom. — Aegon se afastou de mãos erguidas e revirou os olhos. — Vocês são tão sem graça.
— Sim, agora dá o fora. — Aemond respondeu a ele, sem tirar o olho de mim.
Umedeci os lábios e o encarei de volta enquanto Aegon saía do local murmurando qualquer coisa que eu não tinha o mínimo interesse. Toda a minha atenção estava agora focada no meu futuro marido. Aemond aproximou-se mais alguns passos, sem tirar as mãos de trás das costas em nenhum momento, como se aquilo não o tivesse afetado nem sequer um pouquinho. Respirei fundo. Não sabia o quanto e nem como aquilo realmente me afetava.
— Eu sei me defender sozinha, sabia? — grunhi, emburrada, ao voltar até o lado da mesa e servir-me de mais vinho.
— Eu nunca duvidei disso. — respondeu.
Arqueei uma sobrancelha, embora não pudesse negar que ele estava falando a verdade. Jamais houvera espaço para mim no pátio, já que eu era uma garota, porém Aemond me ajudava a treinar escondido tanto com espadas de torneio que ele roubava quanto em brigas de soco. As septãs ficavam malucas quando eu aparecia com marcas roxas na pele para as orações e lições e não contava a elas o motivo. Eu me divertia muito com suas reações. Havia sido por causa desses momentos que uma certa afeição por Aemond Targaryen nascera. E por mais que eu tentasse, ela jamais ia embora.
Ofereci um pouco de vinho a ele, como um possível símbolo de trégua, uma bandeira branca. No entanto, ele negou. Aquilo me deixou indignada e, por mais que evitasse demonstrar, não era tão boa nisso quanto ele. Era mais do que óbvio que meu semblante tinha transparecido minha indignação e que Aemond com certeza percebera. Então não havia mais por que fingir.
— Veio até aqui reclamar a sua posse, meu príncipe, e agora não deseja nem beber com ela? — beberiquei da taça enquanto o observava com atenção. — Sei que sou só uma coisa para você.
— É você quem está dizendo, minha lady. — devolveu no mesmo tom, mas seu rosto permaneceu impassível. — Não pareceu se importar com isso quando estava nos braços do meu irmão.
— Se tem ciúmes, por que não admite? — rebati, sem conseguir me conter. Apertei a taça com mais força, culpando a bebida por minha fala impensada.
— Bobagens! — desdenhou. — Você vai se casar comigo, não tem que ficar se agarrando com o Aegon por aí.
— Ah, certo, tinha me esquecido. — suspirei. — Você só se importa com os garotos com quem estou “me agarrando” quando é com o seu irmão, não é? Me tira uma dúvida, meu príncipe, isso é sobre mim ou é sobre ele? — ele tentou se manter impassível como sempre, mas seu olho tremeu apenas um pouquinho. Sorri, satisfeita. — É mesmo sobre ele. Você não aguenta que ele tem tudo o que você deseja e, ainda assim, não para de rodear a sua futura mulher, a única coisa que deveria mesmo ser sua. Só sua.
— Cale a boca! — explodiu, aproximando-se de ímpeto, como se fosse cair em cima de mim como uma tempestade. Porém, ao chegar perto, se deteve, conseguindo conter aquilo que morava em seu âmago.
— Ou o quê, Aemond? — sussurrei, permitindo que seu nome dançasse em meus lábios embriagados.
— Você não sabe com quem está se metendo. — alertou-me.
— Eu não sei ou será que você não tem coragem de me mostrar? — provoquei-o. Esse era um dos meus passatempos favoritos quando estava perto de Aemond Targaryen.
— Você gosta disso, não gosta, ? — ele agarrou a minha mandíbula. Era inegável que ele me conhecia melhor do que a maioria das pessoas daquela cidade, se não melhor que todas.
— E você, meu querido príncipe? Faz um cerco ao meu redor, como se eu fosse um castelo para você tomar, como se eu fosse sua posse… — falei lentamente, deixando as palavras pairarem na pequena distância entre nós. — Se me considera isso… — coloquei minha mão sobre a dele, que ainda segurava o meu rosto. — Por que não pega e marca o seu território com pelo menos um beijo como já fez uma vez há muitos anos?
Aemond tirou a mão do meu rosto violentamente e se afastou, ficando quase de costas para mim. Segurei-me para não gargalhar de satisfação. Aquele garoto não era uma pessoa fácil de atingir. A máscara que ele usava era de fato muito maior do que seu tapa-olho.
— Foi o que eu pensei. — sorri de canto. Atingi-lo realmente fazia com que eu me sentisse mais viva, mais jovem, mais dona de mim. — Se bem me lembro, quando eu estava a caminho de Porto Real e éramos apenas crianças, você clamou a Vhagar para si. — aproximei-me dele e toquei seu ombro. — Foi esse com quem disseram que eu ia me casar. — beijei seu rosto e me afastei o suficiente para que sua ira não respingasse em mim. — Um garoto impetuoso e corajoso.
— . — sua voz saiu cortante e soou como mais um grande aviso ao qual eu não dei importância.
— A impetuosidade jamais vai embora, eu sei. — disse simplesmente. — E, acredite ou não, eu gosto disso, mas quero ver essa coragem nos próximos dias quando nos casarmos.
E, assim, lhe dei as costas, deixando tanto o Bosque Sagrado quanto Aemond Targaryen para trás. Alguém iria pagar pelas minhas palavras, eu sabia bem, mas desde que essa pessoa não fosse eu mesma, eu pouco me importava.
Sentar sozinho em um quarto e dizer tudo em voz alta
Cada momento, cada segundo, cada transgressão
“Alone in a Room”
Asking Alexandria
Costumava ouvir dizer que, em momentos de desespero, rezamos até para deuses nos quais nunca acreditamos. Nascida em Torralta, fui criada entre um septo e outro e, assim, sempre me senti capturada pela beleza e grandeza do Septo Estrelado, com suas muralhas de mármore negro, e pelos jardins dos Sete Santuários. Por isso, era difícil crer em algo além do Pai, da Mãe, do Guerreiro, da Donzela, do Ferreiro, da Velha e do Estranho. No entanto, aqui estava eu, no Bosque Sagrado, sussurrando palavras para uma árvore com rosto porque ir até o septo da Fortaleza Vermelha e rezar para as sete faces de deus não havia sido o suficiente para a merda que eu tinha feito.
E o casamento era daqui a quatro dias.
— Mãe, tenha misericórdia de mim. — murmurei baixinho aquela prece, olhando para os meus pés.
A escuridão pareceu se alastrar mais e eu perscrutei ao redor. O Bosque Sagrado sombrio daquele jeito trazia alguma coisa de surreal ao ambiente que parecia não existir em qualquer outro local. Um arrepio me subiu à espinha.
Lugar errado para entoar orações, mesmo que pequenas, à Fé dos Sete, eu sabia. Mas era parte do costume. E esse, às vezes, era exatamente o problema. Passar mais de metade do dia em septos — tanto o daqui quanto o Grande Septo, na Colina de Visenya — só fazia eu me sentir ainda mais culpada. E, na verdade, eu nem sequer acreditava que havia alguma absolvição para mim. No momento, tudo o que precisava era de ajuda para que o chá funcionasse como deveria.
Mais cedo, havia dado um jeito de me esgueirar até a sala do Grande Meistre Orwyle e implorar para que ele preparasse aquele chá para mim em segredo. O desespero era maior do que o medo de ser descoberta por qualquer outra pessoa. Não era a primeira vez, entretanto, que isso acontecia, então eu confiava que ninguém mais saberia — ao menos não pela boca de Orwyle. Ainda assim, recorrer a todos os deuses que estivessem ao meu alcance antes de beber o bendito chá valia a pena. Eu não tinha nada a perder. Qualquer coisa que fosse — ou parecesse ser — de grande ajuda, eu aceitaria. O casamento estava chegando, afinal de contas. E essa “consequência” indesejada não podia se tornar um empecilho. Aemond jamais se casaria comigo se eu estivesse esperando uma criança de qualquer pessoa que não fosse ele.
— Por favor, deuses antigos, me ajudem. — pedi para a árvore-coração em um sussurro quase inaudível. — Mesmo que eu venha de uma cultura que cultua os deuses novos.
Esfreguei os braços com a brisa outonal que começou a bater e respirei fundo. Todas as minhas orações do dia foram silenciosas ou em murmúrios baixos. Nem ali, no Bosque Sagrado, eu tinha total privacidade. Apesar de já estar acostumada com um guarda me seguindo para onde quer que eu fosse, ainda mais durante a noite, hoje era diferente. Sor Olyvar Ashford estava em seu primeiro dia de trabalho como meu guarda pessoal noturno, e eu sabia que isso era coisa do Aemond.
Decerto, meu noivo queria um homem da confiança dele, alguém que contasse todos os lugares que eu percorria, cada passo vacilante que eu dava. Um cara que não fosse cair nos meus encantos ou vice-versa, ainda mais que ele ficaria de guarda na porta dos meus aposentos. Olhei de modo disfarçado para Sor Olyvar. Ele era bonito, sim, mas era um pouquinho mais novo que Sor Criston Cole, o que significava que era velho demais para o meu gosto. Aemond podia não se importar comigo o suficiente, mas com certeza se importava com algo que considerava sua posse sendo tocado por outrem. E esta era eu.
Olhei mais uma vez para o rosto esculpido da árvore-coração antes de dar-lhe as costas, sentindo a estranha sensação de estar sendo observada por ela.
— Lady . — cumprimentou Sor Olyvar. — Já vamos?
— Sim, já estou satisfeita com o meu passeio noturno. — sorri, meio sem graça, e passei por ele. — Venha, Sor Olyvar, caminhe ao meu lado. Já falei que não gosto dessa coisa de ser seguida por aí quando estou sozinha.
— A senhorita tem alguns costumes diferentes. — disse ele, pondo-se ao meu lado enquanto fazíamos o caminho de volta pelos corredores do castelo.
— Vai se acostumar rapidinho. — garanti. — E se quiser conversar, está permitido também. Pelo menos agora.
— Sinto muito, minha lady, mas costumo ser silencioso. — desculpou-se.
— Espero que seja silencioso na hora de contar ao Aemond tudo o que eu faço. — encarei-o séria e, quando ele ficou desconcertado, comecei a rir. — Estou brincando, me desculpe. Sei que o nosso querido príncipe é muito mais assustador do que eu, então pode fazer o que ele te mandou. Não lhe julgarei por isso.
Continuamos caminhando e, quando pensei que Sor Olyvar não fosse abrir a boca nunca mais depois da minha brincadeirinha sem graça, ele disse:
— Você é uma Hightower, certo? Pensei que adorasse os novos deuses. — olhei-o sem entender, então ele me lembrou: — O Bosque Sagrado.
— Ah, isso. Eu acredito no Deus de Sete Faces, sim, mas eu gosto do Bosque Sagrado, mesmo quando a noite cai. — aquela foi a melhor explicação que consegui inventar de maneira rápida. Não podia simplesmente dizer a ele que estava desesperada por algo que precisava fingir que jamais acontecera, já que eu era uma jovem “donzela” esperando pelo casamento com seu príncipe. — Acho que é a perspectiva da proximidade do casamento que está me afetando.
Sorri para Sor Olyvar, agradecendo a todos os deuses possíveis por termos chegado. Entrei em meus aposentos, deixando-o guardando a minha porta, e me sentei para esperar pelo meu abençoado chá.
Depois do que pareceu um tempo interminável de espera, Sor Olyvar deu quatro batidinhas na porta antes de abri-la e anunciar a presença do Grande Meistre Orwyle. Agradeci quando o Grande Meistre entrou, e Sor Olyvar fechou a porta, mantendo a guarda.
— Lady , eu tenho que dizer… — começou seu discurso sobre o chá e seus poréns, mas fiz um sinal com a mão que o fez parar.
— Não precisamos disso, precisamos? — indaguei. — Não é a primeira vez.
— Com sorte, será a última. — disse, com calma, enquanto colocava sobre a mesa o chá especialmente preparado para mim. — Faz muito mal e pode afetar sua capacidade de manter uma gravidez no futuro.
— Sei disso. Será a última vez. Desse corpo só virão, a partir de agora, herdeiros para o príncipe Aemond. — falei com uma empolgação fingida e envolvi as mãos do Grande Meistre nas minhas. Sabia que não era o costume, porém seria um jeito de mostrar uma certa intimidade desesperada. — Muito obrigada pela ajuda, Orwyle, de novo. Eu prezo muito pela sua discrição.
Sorri e soltei suas mãos. Ele se afastou e, quando chegou à porta, deu mais uma olhada na minha direção. Murmurei um “obrigada” outra vez, para enfatizar, e ele saiu. Respirei fundo, encarando o objeto sobre a mesa. Peguei-o e bebi todo o líquido de uma só vez. Retorci o rosto em uma careta. Ali estava um chá que, se eu pudesse evitar, jamais voltaria a tomar. Além de não ter um gosto muito bom, o que vinha depois era de matar. Quase que literalmente.
Andei de um lado para o outro tantas vezes que até perdi a noção do tempo. Entoei músicas em louvor aos Sete, que deveriam estar virando todos os seus sete rostos para longe de mim nesse momento. De que valia toda a minha adoração se eu não me portava de acordo com as regras deles? Se o chá não funcionasse, eu viveria em desgraça perante eles, à minha família, ao Aemond, ao reino… tudo. Eu merecia todas as punições que este mundo, e também o próximo, guardassem para mim. Eu…
Grunhi de dor com a primeira cólica.
— É isso! Vai funcionar. — comemorei em meio às dores.
Minha punição viria pela dor que me atingiria essa noite. Eu podia lidar com isso. Caminhei até a lareira e coloquei algumas pedras grandes próximas ao fogo. Meu ventre continuava a se contorcer sem parar enquanto eu esperava que pelo menos uma das pedras esquentasse o suficiente.
— Vamos. — insisti, como se o objeto inanimado fosse me ouvir.
Fiquei encarando o fogo, então. Podia ser que, assim, as pedras esquentassem mais rápido. A chama baixa dançava em seu próprio ritmo bonito — até mesmo encantador, eu diria. Fogo era parte do lema dos Targaryen, casa à qual eu oficialmente me juntaria em quatro dias, quando tomasse o príncipe Aemond como meu senhor e marido. Ele mexia comigo, sim. Isso era inegável. Nossa proximidade estranha e aquela lealdade torta estiveram ali desde a segunda volta de lua que passara neste castelo. Ainda assim, todas as coisas eram tão enviesadas e complicadas quando diziam respeito a nós dois que era difícil enxergar com clareza.
Soltei um suspiro pesado e balancei a cabeça. Mesmo que fosse útil manter minha mente em algo além da dor, não era a hora certa para pensar em Aemond Targaryen. Nunca era o momento certo para isso. Ainda mais quando eu estava sozinha em meus aposentos olhando para uma chama. Toquei uma das pedras para sentir a temperatura.
— Ai! — afastei a mão e assoprei os dedos. Revirei os olhos com a minha falta de atenção. — Maldito Aemond que não sai da minha cabeça!
Peguei um pano e envolvi uma das pedras com ele. Joguei-me na poltrona e posicionei o objeto sobre meu ventre. Fechei os olhos e respirei fundo, tentando focar meus pensamentos em qualquer coisa que não fosse a dor ou Aemond. Meu esforço foi em vão. Se não fosse uma das malditas coisas, era a outra. Talvez se eu me forçasse a dormir…
Quatro batidas arrancaram-me de maneira brutal de minhas divagações. Meu guarda pessoal abriu a porta e se posicionou ao lado dela.
— Lady , o príncipe Aemond está aqui. — proclamou Sor Olyvar.
— ! — Aemond entrou de rompante antes que eu sequer permitisse. — Que bom que te encontrei.
Havia algo insólito em seu tom de voz. Foi difícil definir o que podia ser. Empolgação estava fora de questão, obviamente, mas também não havia requintes de crueldade. Era só… algo estranho. Indecifrável. Ele não tirou os olhos de mim. E foi então que constatei que, além de ter ficado completamente capturada por seu movimento impetuoso, não me dera conta de que Sor Olyvar me encarava como quem perguntasse o que deveria fazer. Não era como se ele pudesse simplesmente ir contra o príncipe, de qualquer modo. E também não era como se eu quisesse que ele o tirasse dali. Assenti com um aceno de cabeça, confirmando que estava tudo bem, e então ele fechou a porta, deixando-me a sós com meu noivo.
— Ah, agora eu entendi por que diabos trocou o meu guarda noturno. Era para me visitar no meio da noite sem que a sua mãe e nem ninguém ficasse sabendo. — mordi meu lábio, segurando um sorrisinho que dançava entre deboche e provocação. — Logo você, que se diz uma pessoa tão decente.
— Hmm. — foi o único som que ele fez.
Aquilo me irritou. Era como se me permitisse tirar as minhas próprias conclusões sem a interferência dele. Ora essa, foi ele quem veio até os meus aposentos. E agora ficava ali, parado, com as mãos atrás das costas e seu olho sobre mim, sempre me observando com atenção. Aemond mantinha o queixo erguido, sem nenhum sinal de que cairia em qualquer aprovação. Fechei os olhos e retorci os lábios, descontente. Aquela era a minha parte favorita das nossas interações. Eu precisava reconhecer: o garoto sabia mesmo como mexer comigo.
Abri os olhos e o observei. Ele vestia-se de preto da cabeça aos pés e, apesar da ironia de aquela ser a cor do séquito da princesa Rhaenyra, a cor caía muito bem nele. Suspirei alto. Era daí que vinha a pior constatação de todas: Aemond mexia comigo de diversas outras formas também. A verdade era que ele estava bonito daquele jeito e, deuses, eu detestaria admitir ou deixar que ele visse isso transparecer em meus olhos. Desviei o olhar e, provavelmente por isso, Aemond escolheu aquele exato momento para falar:
— , … Estava planejando me contar sobre o chá da lua? — seu tom de voz casual e afiado me feriu brutalmente. — Ou, por acaso, pretende manter tudo em segredo do seu futuro marido?
Tornei a olhar em sua direção e avistei-o revirando o frasco em cima da mesa. Sete infernos! Os deuses de fato não estavam trabalhando a meu favor. O que eu poderia fazer agora?
a minha alma suja e pesada?
“Heavydirtysoul”
Twenty One Pilots
Aemond ainda me encarava, esperando por uma resposta. Qualquer uma. Como se eu já não estivesse me sentindo suja o dia inteiro, não é mesmo? Respirei fundo. Eu poderia jurar que tinha um lugar reservado para mim nos Sete Infernos. Às vezes até me perguntava se Aemond estaria lá comigo.
— Não sei, Aemond, me diga você. — retruquei. — Acho que não deve mais existir segredos agora que você colocou um homem seu na minha porta, não é?
— Eu só coloquei alguém que não vai sair do posto a cada suspiro sedutor que você der.
Ele estava com raiva. Seus lábios não se retorciam, e suas mãos permaneciam pousadas sobre a mesa. Uma cena inteira no intuito de fazê-lo parecer impassível. Mas eu conhecia o monstrinho por baixo da pele de cordeiro.
— Estou ouvindo ciúmes na sua voz, meu príncipe? — olhei para as minhas unhas, como se aquilo nem me dissesse respeito.
Ele respirou devagar algumas vezes antes de colocar as mãos para trás das costas de novo e me fitar, sempre mantendo a pose.
— Às vezes me pergunto qual resposta você gostaria de ouvir toda vez que fala nessas bobagens. — comentou. — Afinal de contas, já está mais do que claro que você preferiria se casar com qualquer um que não fosse eu.
— Ah, meu pobre príncipe. — murmurei, debochada, e me segurei para não acrescentar um “deixado de lado pela mãe e, agora, pela futura mulher”. Tive que morder a boca por dentro para não falar nada. Eu ainda tinha ao menos um pouquinho de noção do perigo.
— É melhor não começar com isso, . — alertou-me.
— Por que está tão incomodado com isso aí, afinal? — apontei com o queixo para o frasco sobre a mesa. — Quem está com dores sou eu, sofrendo por ter de ingerir essa coisa. Quem se ferrou por fazer o que não devia e teve que correr atrás de chá da lua fui eu. Caso tenha se esquecido, eu sou mulher. Ir atrás de parceiros, como você e seu irmão fazem, pode trazer consequências indesejadas para mim.
— Não me compare com o Aegon. — vociferou.
— Ah, é claro, me desculpe. Você é o decente da família. — cuspi palavras afiadas por causa de uma incomodação que me dilacerava por dentro. — E todos nós somos apenas um bando de... nem sei o quê. Quer me dizer o que eu sou, Aemond? — fechei os olhos e passei a mão no rosto para limpar as malditas lágrimas. — Está pronto para me chamar de vagabunda? De puta? Pois então faça logo e me deixe em paz com os meus problemas.
— Nossos problemas. — lembrou-me. — Você ainda vai se casar comigo, gostando ou não. Essa “consequência” também me afeta.
— E adivinha o que eu estou fazendo, meu amado príncipe? — indiquei com a mão o frasco e também o meu ventre, onde ainda segurava a pedra, agora morna. — Resolvendo o nosso probleminha aqui. Não há nada que eu possa fazer além disso. — mais lágrimas escorreram, fazendo eu me sentir como uma grande idiota por estar chorando como uma garotinha fraca na frente dele. — Ou quem sabe você quer vir aqui e arrancar isso de dentro de mim? É o que eu mereço, não? Como a vagabunda que...
— Você não é uma vagabunda. — cortou-me. — Pare com isso.
— Mas é como eu me sinto. Suja, julgada pelos deuses. Uma mancha na sociedade. — lamentei. — Todos aqueles símbolos com os quais sua mãe encheu o castelo só servem para me lembrar de como sou uma mancha na sociedade.
— Alicent só fez tudo aquilo para clamar a Fé dos Sete para si e legitimar o Aegon como o escolhido pelos deuses para ser rei quando meu pai morrer. — abanou o assunto para longe como se fosse uma mosca. — Quem fez isso com você, ? — aproximou-se da poltrona e se abaixou na minha frente. — Isso está te afetando tanto. Me diga quem te causou isso, que eu mato ele.
— O quê? — usei a manga do vestido para enxugar o rosto. — Não é o que você está pensando. Eu só... Não foi nada sem consentimento, Aemond. Apesar de, nesse exato momento, eu estar precisando ser salva da minha própria culpa, você sabe que entre nós dois quem sempre precisou ser salvo foi você.
— Bobagens! — levantou de ímpeto, dando um passo para trás. Então respirou e olhou bem para mim. — Não me diga que... — seu rosto foi se enchendo de ira. — Foi o desgraçado do meu irmão, não foi?
— É, foi ele — menti. — Talvez eu nem precisasse ter tomado o chá da lua. Teria um filho com cabelos prateados e ninguém nunca saberia do Aegon além de você e eu.
Aemond sentou-se no sofá e, ainda que tentasse segurar sua ira, não conseguiu. Socou o assento ao seu lado com força mais de uma vez. Segurei o riso, porém ele percebeu.
— Não, você está mentindo. Se fosse mesmo verdade, não usaria isso para me incomodar. Manteria segredo. — constatou. Ele cruzou a perna e ficou me analisando por tanto tempo que me deixou desconcertada. — Agora eu finalmente entendi o seu plano, minha lady. Isso é tudo armação sua, porque você sabe que descobrir isso poderia fazer com que eu desistisse de me casar com você. E assim se veria livre de mim.
— É isso aí, você me pegou. — dei de ombros e fiz um beicinho bem forçado. — Quase consegui escapar das suas temidas garras. Ah, o que vou fazer agora? — levei a mão à testa, fingindo desfalecer.
— Hmm. — ele fez um biquinho ainda maior que o normal. — Então também não é isso.
— Me ofende você pensar que eu seria tão baixa. — suspirei. — Acha mesmo que eu iria tão longe assim apenas para não me casar e dividir uma cama com você?
— Conheço você bem o suficiente para saber que faria loucuras para evitar algo que não deseja, por isso desconfiei. — ele se inclinou para frente. — Mas tudo bem, não importa os seus motivos, apenas me diga quem é o cara e eu vou dar um jeito nele. Assim ninguém jamais vai questionar qualquer coisa relacionada a isso.
— Eu digo se você me responder uma coisa. — umedeci os lábios. — Isso é mesmo sobre ninguém questionar ou é porque não consegue suportar o fato de alguém ter tocado tão intimamente a sua futura mulher antes de você?
— O que você quer que eu diga, ? — ele pareceu cansado, o que me surpreendeu mais do que qualquer coisa que saíra de sua boca.
— A verdade, ora essa.
— Não existe resposta simples. — olhou para o lado direito, fazendo com que apenas o seu tapa-olho ficasse no meu campo de visão.
Larguei minha pedra já fria e lutei contra as dores para me pôr de pé. Ele ter recuado um pouco e até mesmo desviado o olhar daquele jeito me dava uma certa abertura. Algo que não era nem um pouco fácil de conseguir com o príncipe Aemond Targaryen.
— Havia uma chama entre nós quando éramos mais novos, não havia? — sentei-me do seu lado direito, já evitando que ele pudesse virar o rosto de um modo que eu não visse seu único olho. — O que aconteceu com a gente, Aemond?
— Éramos jovens demais. — falou.
— Éramos mesmo, mas tinha algo ali, não tinha? Muito mais do que só aquele beijo. — pousei minha mão sobre a sua perna. — E aquilo foi se perdendo.
— Eu… — ele olhou para baixo, como se pensasse. Então se levantou e me deu as costas. — Você está mudando de assunto.
— Tudo bem, então eu volto. — levantei-me também, segurando-me para não grunhir com a dor, e fui para frente dele, que mantinha a cabeça baixa, algo tão incomum de se ver em sua postura. — A culpa de esse fogo ter abrandado não é do garoto com quem eu estive, Aemond. Não adianta descontar tudo nele.
— Não é isso que estou fazendo, . — ele ergueu a cabeça e levou sua mão até centímetros de distância do meu rosto. — Eles não… merecem tocar você. Ter você.
Ele tocou meu rosto, e eu fechei os olhos em um reflexo e suspirei. Demorei alguns segundos para me recuperar. Coloquei minha mão sobre a dele.
— E você merece, Aemond? — provoquei, arrependendo-me assim que ele afastou sua mão. — Não, eu não quis dizer isso. Sete infernos… Deixe-me reformular: E o que eu mereço, Aemond? Mereço você? — não era para ser um ataque, apesar de ter soado como um. Eu realmente queria saber. Mas também estava irritada, então cuspi palavras afiadas como uma faca de aço valiriano: — Ou será que, enquanto você vai para bordéis foder as suas putas…
— Cale a boca! — ele segurou o meu punho com força. — Eu não…
— Ah, me poupe do seu discursinho moralista. — desvencilhei o meu braço com força, sem hesitação. Uma dorzinha de um aperto não era nada perto do que meu ventre fazia comigo. — Não finja que você é a sua mãe. Ambos sabemos que não é.
— … — tentou falar, mas eu ainda não tinha acabado.
— Não finja que não sei que você passa as suas noites no bordel, sempre no mesmo, fodendo todas as putas à sua disposição. — bufei de raiva, cerrando o punho. — E agora vai me dizer que eu, a sua prometida, não posso me divertir com um escudeiro qualquer?
— Então foi um escudeiro, é? — ele arqueou a sobrancelha.
— Ah, chega! — ergui a mão na frente do meu rosto. — Me deixa em paz.
— Infelizmente para você — declarou ele —, estou disposto a cumprir com o dever que me foi dado.
— E infelizmente para você, Aemond, eu também estou. — rebati, emburrada.
Ele passou por mim, tirou a pedra de cima da poltrona e se aproximou da lareira. Observei embasbacada enquanto Aemond pegava o pano e o envolvia em torno de uma das pedras que permaneciam quentes. Levantou a pedra junto dele e olhou para mim.
— Não vai se sentar? — indicou a poltrona com a cabeça.
— Para você bater na minha cabeça e me matar com essa pedra? — provoquei, enquanto ele se aproximava de mim.
— Sim, porque eu com certeza usaria uma pedra quente para fazer isso. — comentou, sem cair na provocação.
Ele tocou meu ombro e me guiou até a poltrona, onde me sentei. Abaixou-se e colocou a pedra envolvida no pano sobre a região do meu ventre. Então segurou minha mão e a pousou sobre a pedra para fazer pressão. Senti-me agradecida, porque a dor estava mesmo me matando. No entanto, em vez de agradecer, falei:
— E isso é para significar o quê? — referi-me ao ato dele.
Sua mão deu duas batidinhas de leve sobre a minha antes de soltá-la.
— Você sempre ficou mais irritadinha quando está com dor. — seus olhos exibiam um olhar vitorioso. Ele sabia como me acalmar. A verdade era que Aemond sabia como acender e apagar o meu fogo nos mais diversos sentidos da palavra.
— Maldito seja! — resmunguei baixo, e ele deixou escapar uma risadinha.
— Sabe que já sei quem foi, não é? — apontou para o meu ventre. — Tenho estado de olho em você, , e a palavra “escudeiro” que surgiu na conversa me disse tudo o que eu precisava saber.
— Se livrar de um garoto não vai fazer diferença, meu príncipe. — aproximei meu rosto do dele para sussurrar: — Se me der vontade, eu encontro outro.
— Pois então encontre e depois a gente vê. — levantou-se abruptamente e se afastou. — Porque esse você nunca mais verá. Nem você, nem ninguém.
— Tudo bem, então. — dei de ombros. — Ele já me arranjou problemas o suficiente mesmo.
— Que bom que concordamos, então, minha lady. — usou o mesmo tom de voz com o qual eu o chamara de “meu príncipe”.
— Eu te odeio, Aemond. — expus aquela meia-verdade.
— Eu sei, . Você e o resto do mundo. — ele foi até a porta, abriu-a e então voltou-se para mim. — Tenha uma boa noite.
— Você também. — respondi, com uma vontade fingida, e então a porta se fechou, e fiquei só.
De algum modo, a solidão pareceu pior naquela noite. Não seria tão mais fácil se as coisas simplesmente fossem mais amenas entre Aemond e eu? Não precisava ser um amor colossal. Sete infernos, eu nem buscava por isso. Mas seria bom se fosse apenas, sei lá, normal. Os deuses, no entanto, tinham outros planos para nós. Desde o início, a nossa relação fora turbulenta, disso não havia dúvidas. E era com isso que eu teria que lidar.
A nossa conversa esta noite tinha terminado mal, porém, quando eu parava para pensar, algo acontecera ali. Era como se o nosso casamento tivesse começado hoje, aqui em meus aposentos, antes mesmo da cerimônia. Nunca havíamos dividido um grande segredo antes. Afinal, o nosso beijo no passado fora descoberto por Aegon, e eu contara a Helaena. O acontecido dessa noite, contudo, era o nosso primeiro segredo compartilhado.
— Deuses, por que estou pensando tanto nele? — resmunguei para o nada e bufei, ao me dar conta, mais uma vez, de que estava completamente sozinha… e a dor só pioraria dali para frente.
Apenas nasceu para ser vista
“Art Deco”
Lana Del Rey
Mais uma noite perdida na escuridão da Fortaleza Vermelha. Desta vez, porém, no pátio do castelo. Estiquei o braço, tentando me acostumar com o peso da espada de treino. Sor Olyvar ia ficar muito chateado comigo e, como acabei gostando dele, isso me incomodava um pouquinho. Mas o que eu poderia fazer? Queria fugir, sair, ir para qualquer lugar sozinha. E aqui estava eu, apenas com minha solidão como eterna companheira. Sim, havia guardas nos arredores, mas nenhum que fosse querer se meter na vida de Lady Hightower, a futura esposa do príncipe caolho. Exceto, é claro, se eu evidentemente demonstrasse estar tentando escapar do meu destino.
Golpeei o ar vazio à minha frente, imaginando que meu pai estava ali, sendo atingido. Fora ele quem me metera nessa, afinal de contas. Sete infernos, eu sentia falta de passear por Vilavelha. De qualquer modo, não podia ser injusta com Porto Real. Até que gostava da cidade, apesar dos pesares, e a perspectiva de me tornar a esposa de um príncipe da coroa era boa, não dava para negar. Baixei meu braço da espada e joguei a cabeça para trás, olhando para o céu estrelado. Tudo indicava que, daqui a dois dias, quando enfim me casasse com o príncipe Aemond, a noite estaria tão linda quanto essa. Eu ao menos poderia me agarrar a isso como uma tábua de salvação.
Golpeei o ar mais uma vez, porém outra espada de treino aparou o meu ataque.
— Sor Olyvar estava desesperado atrás de você. — disse o dono da espada.
— Imagino que sim. — falei. — Devo ter deixado o coitado de cabelo em pé.
— Não se preocupe. — Aemond olhou bem para mim. — Tirei o desespero dele e garanti que eu mesmo resolveria.
— Ora, meu príncipe, eu vim para cá porque queria ficar sozinha. — enfatizei, incomodada.
— Pois não ficará mais. — ele abaixou a espada.
— Não pedi pela sua companhia, está bem? Terei demais dela depois que nos unirmos em matrimônio. — passei a mão livre pelos cabelos. — Eu só queria pensar um pouco.
— Por isso a espada? — arqueou a sobrancelha.
— É, acho que vou usá-la para lutar com todos os guardas daqui e fugir para Essos como o Aegon queria que eu fizesse com ele. — joguei na cara dele aquela informação que sabia que o chatearia. — Por que continua me cerceando, Aemond?
Desferi um golpe com a espada de treino contra ele, despejando toda a minha força no ataque. Aemond não estava preparado e, ainda assim, conseguiu levar sua espada na frente do rosto. Ele era habilidoso, de fato.
— Agora, sim. — ele quase riu, em deleite. — Selvagem como a boa e velha que eu conheço.
— Vai ficar falando bobagens ou lutará com a sua prometida, meu príncipe? — provoquei. — Ou será que até para me divertir com espadas de brinquedo terei de ir atrás do seu irmão mais velho?
Dessa vez foi ele quem desferiu um golpe sobre mim. Com raiva? Sim, mas não com toda a sua destreza de espadachim. Aemond estava pegando leve comigo, e aquilo me tirava dos eixos de um jeito que eu mal seria capaz de colocar em palavras. Deuses, como eu sentia falta de praticar um pouco com a espada e, verdade seja dita, com Aemond também, afinal, ele sempre fora o meu companheiro nesses momentos quando éramos mais jovens.
— Você não vai fugir. — falou como se aquela fosse a maior verdade existente em todo o mundo conhecido. E talvez fosse mesmo. Eu nem sabia se queria mesmo fugir do casamento. A verdade era que a perspectiva me deixava ansiosa.
— Ah, deixe-me adivinhar. — apartei mais um golpe leve dele e, no contra-ataque, consegui acertá-lo no braço. Sorri, vitoriosa, verdadeiramente me divertindo. — Você vai me impedir, futuro marido?
Aemond envolveu meu pulso da espada e deu um puxão que me fez voar para frente, colidindo com ele. Levantei os olhos para olhá-lo. Estávamos próximos. Próximos demais. Meu coração acelerou.
— Vou. — baixou a voz e apertou seus dedos ao redor do meu pescoço. — E nem pense em ficar flertando com o meu irmão por aí, futura esposa.
— Ou o quê? Se acha que eu tenho medo de você, não me conhece tão bem quanto ambos pensávamos. — agarrei seu pescoço também, mas não pressionei meus dedos com força. — Se bem que se eu tivesse aceitado a ideia idiota de fugir com ele, o seu caminho estaria livre, não? — subi minha mão até o seu rosto de maneira gentil, quase afetuosa. — Por que não mata o Aegon e fica com a coroa quando o seu pai morrer? — sussurrei baixinho. — Eu adoraria ser rainha e aposto que você adoraria o poder.
Ele afrouxou o aperto no meu pescoço, porém não tirou a mão. Em vez disso, enquanto esforçava-se para não demonstrar toda a sua cobiça para mim, acariciou de leve a região da minha mandíbula. Respirei fundo algumas vezes. Não importava o quanto se mostrasse impassível, eu ainda conseguia ver pelo menos um pouquinho através daquela máscara. Aemond queria aquilo. Deuses, ele queria mesmo. Mais do que qualquer coisa.
E então o momento se desvaneceu como a escuridão num amanhecer ensolarado. Aemond soltou meu pulso, que jazia dolorido, e me negou sequer uma migalha de seu toque. Seu olhar vagou para um ponto atrás do meu ombro. Espiei e avistei Sor Criston Cole e Sor Olyvar Ashford lado a lado.
— Vá dormir, . — disse Aemond, afastando-se mais um passo.
— Você também. — respondi. — Sonhe um belo sonho comigo… e com as coroas em nossas cabeças. — pisquei para ele antes de dar-lhe as costas e andar até os dois cavaleiros. — Sor Criston. — cumprimentei-o de maneira respeitosa e olhei para o meu guarda pessoal. — Sor Olyvar, me desculpe pelo trabalho que lhe dei. O príncipe Aemond já me lembrou dos bons modos que uma dama deveria ter.
E assim, ele me acompanhou até a porta do meu quarto, onde jurei que iria permanecer até a manhã seguinte. Ele não pôde evitar um riso divertido em resposta ao modo como eu me portara. Sor Olyvar pegava leve comigo; era um ótimo guarda. Eu quase confiava nele, mesmo sabendo que fora Aemond quem o colocara para seguir meus passos. Sorri para o cavaleiro antes de fechar a porta, sem nem me preocupar em descer a tranca.
Como dispensara minha aia bem mais cedo do que o comum, despi-me sozinha e fui para a cama. Respirei fundo, pensando no meu futuro marido. Será que eu havia ido longe demais ao dizer aquelas palavras? Não era como se eu quisesse Aegon morto. Não. Apesar de todas as merdas que ele fazia, eu até que gostava do garoto. Contudo eu também sabia que ele não queria ser rei e que Aemond, por outro lado, jamais negaria o poder. E, para ser sincera, eu também não negaria permanecer como uma esposa leal ao seu lado se aquela reviravolta acontecesse. Era mais do que algum dia eu poderia ter sonhado para mim.
— da Casa Hightower, Rainha consorte dos Sete Reinos. — murmurei.
Queria testar para ver que gosto as palavras possuíam e, para ser sincera, elas tinham o sabor do mais doce dourado da Árvore. Sorri, sonolenta, imaginando-me coroada ao lado de Aemond Targaryen. Era incrível como ele havia até mesmo ficado mais bonito depois daquela conversa… mais régio.
— É, eu com certeza não desejaria outra coisa.
E se sonhasse com aquilo essa noite, eu não reclamaria.
Não sonhei. Não com aquilo. No entanto, sonhara com o príncipe Aemond. Éramos ambos jovens e lutávamos um contra o outro com espadas de treino, escondidos de todo mundo. Em um instante, já éramos os mesmos de agora e estávamos sendo puxados para longe um do outro por uma tempestade ferrenha que não podíamos evitar. O mais estranho era o sentimento de desespero dentro de mim por perdê-lo. Aquilo me incomodava como uma coceirinha na região das costas em que não conseguíamos alcançar não importando o quanto tentássemos.
— Ai! — fui arrancada de meus delírios matinais com o puxão que Aleena, minha aia, fizera para desembaraçar meus cabelos.
— Sinto muito, Lady . — foi rápida em se desculpar.
— Sabe que não precisa pedir desculpas, eu só… — suspirei. — Eu tive um pesadelo deveras inquietante.
— A milady gostaria de falar sobre? — perguntou devagar, tentando não soar invasiva. Eu permitia que ela fosse, ainda assim, a garota sempre se esforçava em medir suas palavras. — Ou desejaria, talvez, que eu chamasse outra pessoa com…?
— Não, não. — interrompi-a antes que ela terminasse a frase. — Foi só…
Olhei para baixo, pensando em como explicar e, para falar a verdade, se não era melhor guardar uma bobagem daquelas somente para mim mesma. Abri a boca para dizer qualquer coisa, mas tive meu ato interrompido por batidas descompassadas na porta. Sor Waymar, com certeza. Eu já sabia que o turno dos guardas havia trocado apenas pelo modo como batiam na minha porta. Sor Olyvar me acostumara muito bem com suas quatro batidinhas à noite.
— Lady , a Rainha quer vê-la. — anunciou Sor Waymar, ao abrir a porta.
— Então ela verá. — disse a ele. — Ninguém diz não para a rainha.
Não tinha a mínima vontade de vê-la, mas o que disse era verdade. A mulher era a rainha, no fim das contas. Alicent Hightower entrou, vestida de verde como de costume e deslumbrante como sempre.
— Lady . — cumprimentou-me em um tom doce como mel. — Não precisa levar essa visita como uma obrigação. Somos família e, a partir de amanhã, seremos ainda mais.
Refleti sobre aquilo. Era verdade. Alicent era algo como uma prima distante, eu não sabia bem. Jamais tinha parado para pensar nos ramos da nossa árvore genealógica. Meu avô era irmão de Otto Hightower, o pai dela… ou será que era tio dele? Joguei aqueles pensamentos idiotas para longe.
— Seremos, Vossa Graça, é claro. — sorri para ela com um misto de sinceridade e fingimento, e olhei para a minha aia. — Aleena, deixe-nos.
A garota assentiu com um movimento de cabeça e se apressou em sair dos meus aposentos.
— Como está se sentindo sobre o casamento de amanhã? — investigou Alicent, caminhando pelo quarto e observando as coisas. Perguntei-me por um instante se ela descobrira sobre o chá da lua, mas a paranoia passou rápido. Se soubesse, teria vindo ontem. — Não precisa ficar nervosa, criança, não tem nada a temer de mim. — a rainha parou e olhou bem para mim. — Sei como Aemond pode ser… complicado. — escolheu a palavra com cuidado. — Mas tenho certeza de que ele cumprirá o dever que lhe foi destinado e poderá até se tornar um marido aceitável.
— Aceitável… — sussurrei, tentando ver se aquele poderia se tornar um bom adjetivo para o homem que se tornaria meu marido para o resto da vida. Não, isso não bastava para mim. Eu queria mais. Respirei duas vezes para manter o meu tom o mais cordial possível para dizer algo desprovido de cordialidade. — Me diga uma coisa, Vossa Graça: o príncipe Aemond enfim mudou de tática e mandou a mãe até aqui para colocar os grilhões em meus pés e punhos e me obrigar a ficar?
— Ah, então é verdade. — ela deixou escapar um som parecido com um riso, confirmando minha suspeita de que aquela era a verdadeira razão pela qual viera me ver naquela linda manhã. — Estava mesmo planejando fugir?
— “Planejando” não é bem a palavra certa. Pensando? Talvez, sim. — andei até perto da janela para pegar um ar e fingir-me de despretensiosa ao perguntar: — Foi o Aemond?
— Quem me mandou? — perguntou e eu confirmei com um aceno. — Não. Acho que sabe tanto quanto eu que Aemond jamais pediria a minha ajuda para qualquer coisa.
— Tem razão. — olhei para ela. — Por que a rainha que agora governa os Sete Reinos ao lado da nossa valiosa Mão do Rei despenderia de seu precioso tempo para conversar um pouco com a futura nora um dia antes do casamento?
— Me poupe do seu sarcasmo, criança. — deixou a máscara cair apenas um pouquinho. — Soube que fugiu da guarda de Sor Olyvar noite passada, e também do seu momento com Aemond no pátio. Não posso permitir que fuja, , você pode ser a única pessoa ou coisa capaz de embrandecer o coração do Aemond… Se é que ele ainda tem um.
A última frase foi quase inaudível. Quase. Às vezes me perguntava o mesmo, mas não gostava nem um pouco de ouvir aquele tipo de coisa saído da boca dela. Eu acreditava que, seja lá o que Aemond tivesse em seu peito, ainda não havia virado pedra. Algo me dizia que não. Agora sobre eu possivelmente ser capaz de amolecê-lo? Pelos sete infernos, eu não queria nem pensar a respeito. Então optei por focar apenas na outra parte do assunto, aquela em que Alicent sabia sobre a noite anterior.
— Deuses, suas criadas até que tem um olhar bem aguçado. — aproximei-me dela e usei meu melhor tom acusatório: — Ou será que foi Sor Criston Cole quem lhe contou na calada da noite?
— Essas falsas acusações são um ultraje! — seus olhos se arregalaram e sua boca se entreabriu em choque.
— Ah, não são acusações, não se preocupe. Somos família. — toquei seu braço com gentileza e sorri. — Agora, se Vossa Graça puder me perdoar, devo estar atrasada para me encontrar com sua filha.
Alicent manteve-se me fitando por alguns segundos antes de confirmar com a cabeça e me deixar ir. Passei por ela e abri a porta, deixando-a para trás. Sor Waymar era como uma sombra, me seguindo para onde quer que eu fosse durante o dia, mas eu já havia me acostumado. Não tinha com o velho cavaleiro a mesma intimidade que tinha com Sor Olyvar — isso que o segundo só estava a meu serviço há poucos dias. Bem, eu não podia negar que Aemond havia escolhido bem quem guardava a minha porta quando a noite caía e eu mergulhava em sonhos.
O pesadelo… Eu nem tinha Aemond. Como poderia perdê-lo daquele jeito e sentir o que senti? Sacudi a cabeça como se tal ação pudesse me libertar da sete vezes maldita memória do pesadelo aterrador e do que senti dentro dele. Felizmente cheguei aos aposentos de Helaena, onde não pretendia me demorar muito; não desta vez. Fui anunciada e, logo em seguida, permitiram-me entrar.
— ! — disse, contente, enquanto largava seus bordados no colo para me recepcionar; o que, no caso dela, era olhar para mim de forma amistosa.
— Princesa! — cumprimentei-a, alegre. — Que bom que já começou com os bordados.
Manifestei um sorriso puramente verdadeiro pela primeira vez naquela manhã. Aquele era o meu jeito de abraçá-la, de mostrar-lhe que estava de fato feliz por vê-la e estar em sua companhia. Se fosse outra amiga, eu teria me aproximado mais, tocado, abraçado, conversado. Helaena, contudo, não era qualquer uma. Ela era… atípica, digamos assim. Pouco tempo depois de me mudar permanentemente para a Fortaleza Vermelha já fora capaz de perceber que, seja lá o porquê, a princesa não gostava de ser tocada. Então apenas a respeitava. E assim nossa amizade floresceu. Estranha e um pouco distante, sim, mas não deixava de ser uma amizade.
— Não vai bordar hoje, né? — perguntou simplesmente.
— Como você sabe? — encarei-a, boquiaberta. — Está tão na cara assim ou você sonhou com isso?
Helaena tinha sonhos estranhos que, se bem analisados, previam uma coisa ou outra. Quase ninguém dava a devida atenção a isso. Eu, no entanto, havia percebido depois de algumas voltas de lua de amizade que aquela garota tinha algo parecido com sonhos proféticos.
— Você ainda está parada aí, em pé. — explicou.
— Só vim te fazer companhia por alguns minutos, depois vou pegar um ar. — olhei para o guarda que me acompanhava. — Sor Waymar, traga Aleena para cá. Quero a companhia dela.
Ele assentiu e saiu dos aposentos de Helaena. Olhei ao redor e decidi aproveitar um pouco da companhia das crianças. Sentei-me sobre o tapete com as criadas e o pequeno Jaehaerys e a franzina Jaehaera. Gostava de passar um tempinho assim, brincando com eles. Ajudava-me a distrair a mente de coisas como… bem, o Aemond e o casamento. Ou não tanto assim, já que agora estava refletindo de novo sobre uma possível fuga e o que isso me tiraria. Olhei para os gêmeos, de quem eu agora me tornaria tia. Eu os vira nascer e, se fosse embora, jamais os veria novamente.
— Se pudesse fugir antes de se casar com o Aegon, você teria fugido? — perguntei de repente. Helaena me olhou e pareceu pensar.
— E para onde eu iria? — rebateu com outra pergunta, que soou quase retórica.
— Exatamente. — Suspirei alto.
— Morou com a gente todos esses anos e parece gostar daqui — comentou ela. — Por que quer fugir agora?
— Não quero, é só… Eu tive um pesadelo e minha cabeça está confusa.
— Aemond não é tão ruim quanto parece — falou ela. — Na maior parte das vezes.
As criadas se entreolharam. Era óbvio que a opinião delas era diferente, decerto mais parecida com a de todos os outros. Aemond era um monstro. Sete infernos, até a maldita mãe dele acreditava nisso. Helaena, por outro lado, tinha uma visão mais parecida com a minha.
— Sei disso. — garanti a verdade. Então levantei-me e bati as mãos no vestido para fazer cair qualquer sujeirinha que tivesse grudado. — Vou acalentar meu coração com a ideia de que estarei magnífica no meu vestido amanhã.
— E no manto de donzela. — disse Helaena. — Espero que consiga encontrar um pouco de felicidade no casamento, . — Sorriu para mim, certificando-se de que eu soubesse que era um desejo puro e sincero. E eu sabia.
— Me diga uma coisa, Helaena. — pedi. — Você seria feliz se tornando rainha?
— Não sei. — respondeu com sua lógica de sempre.
Olhei bem para ela. Havia me afeiçoado demais àquela que seria a futura rainha dos Sete Reinos. E eu sinceramente acreditava que ela não seria feliz naquela posição. Nem sequer era algo que ela desejava. Se ao menos Aemond conseguisse persuadir Aegon a desistir da coroa… Seria melhor para Aegon e Helaena, e com certeza agradaria tanto a mim quanto a Aemond.
Despedi-me das crianças e de minha amiga antes de sair. Aleena estava esperando do lado de fora, conversando com o guarda.
— Lady . — sorriu para mim.
— Aleena! Podia ter entrado. — olhei de canto para o guarda. — Pensando bem, se estava bom aqui, por que não ficar, não é?
— Pois é. — comentou, meio sem jeito.
Sorri para ela e fiz sinal para que me acompanhasse. Caminhei até o pátio com a garota ao meu lado e Sor Waymar atrás. Pedi a ele para que ficasse mais afastado e levei Aleena comigo até um lugar onde podíamos nos sentar.
— Sei que gosta de sentar e ver os garotos treinarem tanto quanto eu. — disse a ela. — Por isso mandei te chamar.
— É muita consideração sua, milady. — disse ela.
— É só o meu jeito simples de compensar um pouco sua lealdade. — falei.
Voltei-me ao pátio. Minha atenção vagou pelos homens e meninos que batiam suas espadas de treino ou espadas de aço de verdade uma contra a outra em uma dança bonita. Avistei Sor Criston Cole, mas não quem meus olhos buscavam.
— Veio treinar, minha lady? — aquela voz acendeu algo dentro de mim.
Olhei para a ponta da espada estendida na minha frente e subi meu olhar pela lâmina brilhante até a mão bem envolta no punho e então fitei-o.
— Ah, não. Sou apenas uma mulher! — levei minha mão ao peito em um gesto ensaiado. — Não nasci para essas coisas, meu príncipe.
— Isso nunca te impediu antes, não é? — desafiou-me e não fui capaz de conter uma risadinha.
— É verdade. Tudo graças a você e à sua ajuda. — clarifiquei, lembrando-me das minhas lutas com espadas de treino com o jovem príncipe Aemond e também de ontem. — Mas não estou disposta a ser humilhada por você.
— Eu jamais te humilharia, Lady . — seu tom de voz foi quase doce e seu olhar, faminto. Mas de quê seria essa fome, eu não saberia dizer.
— Sinto-me lisonjeada. — esfreguei o meu pulso direito onde ele havia agarrado com força e me puxado na noite anterior depois de eu tê-lo atingido. — Me deixar ganhar também é uma força de humilhação, meu querido príncipe.
— Hmm. — aparentou descontentamento. — Parece que temos um impasse.
— De fato, temos. Mas depois do casamento teremos todo o tempo do mundo para fazer tudo o que quisermos juntos. — Pisquei para ele de forma provocante, quase exagerada. Esse era um dos únicos jeitos de eu conseguir desconcertá-lo, ainda mais na frente de outras pessoas. Mordi de leve o meu lábio inferior e sorri, vitoriosa.
— Amanhã, então. — forçou-se a dizer.
Aemond ajeitou sua postura, empinou o queixo e voltou para o aglomerado do pátio, de espada em punho. Sor Criston com certeza receberia parte da raiva por eu tê-lo desafiado daquele jeito na frente dos outros. Ri sozinha. Aquilo com certeza me faria dormir melhor à noite.
— Deuses! — minha aia exclamou. — Vocês foram mesmo feitos um para o outro.
— Aleena! — Encarei-a surpresa, envergonhando-me pelo modo como minha voz desafinou ao repreendê-la.
— Sinto muito, Lady , mas é verdade.
— Ora, mas é claro que não! — exclamei, ultrajada. — Não temos nada a ver um com o outro.
Aleena apenas deu uma risadinha baixa e não disse mais nada. E eu fiquei ali com meus questionamentos enquanto assistia ao meu futuro marido avançar para cima de seu companheiro de treinamento com toda a raiva que sentia por mim.
Seria um longo dia para nós dois.
Mas você tem o que é necessário
Para me libertar
“Say It Right"
Nelly Furtado
O dia do meu casamento, enfim, chegara. As criadas andavam de um lado para o outro como formigas em um formigueiro, me vestindo, ajeitando uma coisa aqui e outra ali, arrumando o meu cabelo. A ordem da rainha fora bem clara: deixar sua “nova filha” o mais próximo da perfeição que existisse. Eu poderia apostar alguns dragões de ouro que ela me enxergava como, talvez, a última chance de o filho dela se tornar alguma coisa diferente do que ele era. Isso fazia um quê de raiva fervilhar dentro de mim com o calor do fogo de um dragão, ainda que eu não entendesse bem o porquê.
De qualquer modo, ela não havia sido a única pessoa além das criadas a vir até os meus aposentos hoje. Aemond viera ter comigo de manhã bem cedo e, assim que Sor Waymar se retirara para guardar o lado de fora da porta, eu brincara:
— Veio apresentar-me um ultimato, meu príncipe? — ele abrira a boca para me responder, mas eu continuara, em uma imitação escarnecedora do que seria seu tom: — “Ou se casa comigo, Lady , ou a matarei.”
Ele cruzara as mãos atrás das costas. Decerto para esconder o quão irritado ficara com a minha zombaria.
— E você preferiria morrer a se casar comigo? — arqueara a sobrancelha. — Com alguém como eu?
— Ah, não. — apressara-me em dizer. — Eu gosto de estar viva. De outro modo, como poderia aproveitar todas as belezas que este mundo me oferece?
— É o que diz agora. — ele passara por mim, indo até a janela para olhar o céu nublado da manhã. — Ainda assim, você preferiria que fosse o Daeron no meu lugar.
— Eu o quê? — quase me engasgara, tamanho o choque que suas palavras me causaram. — Daeron é uma criança!
— Não, ele era uma criança quando foi para Vilavelha, agora é um homem-feito, já tem dezesseis. — sua impaciência deixara o ar do recinto opressivo. — E mesmo mal o conhecendo…
— Sete infernos, Aemond. — praguejara, batendo com as mãos na lateral das minhas pernas. — Eu não sei do que está falando.
— Claro que não. — A ira escurecera seu rosto, mesmo que a luz da janela ainda o iluminasse. — Eu me recordo muito bem das suas palavras, .
— E quais palavras foram essas? — franzira o cenho, esforçando-me para me lembrar de alguma coisa, qualquer coisa, até que algo voltara à minha mente. — Deuses, Aemond, eu falei isso anos e anos atrás!
— Sim, você falou. — sua voz estalara como um chicote.
— E o que quer que eu diga agora? — erguera as mãos para o céu em frustração. — Falei tudo aquilo da boca para fora quando estava brava com você.
— E quer que eu acredite nisso? — dardejara-me com o olhar, voltando a se aproximar.
— Que os Sete me ajudem! Sua mãe ferrou mesmo com a sua cabeça, não é? — revirara os olhos, balançando a cabeça. — Pergunte-me se ainda prefiro o Daeron a você hoje à noite no nosso novo quarto.
— Hmm. — fizera aquele som que costumava me irritar por não vir acompanhado de nenhum outro comentário, mas então continuara: — É bom saber que o casamento ainda vai acontecer.
— Ah, será que vai mesmo? — eu provocara. — Só descobrirá quando ver o seu avô me levando até você no septo. — empurrara-o de leve. — Agora vá, saia daqui. Preciso planejar a minha fuga.
Aemond se virara e segurara o meu pulso, fazendo-me parar com as cutucadas incômodas.
— Não me provoque, . — alertara-me.
— Sei que ama tocar em mim de algum jeito ou de outro, meu príncipe, mesmo que eu não signifique merda nenhuma para você. — Aemond apertara com mais força em resposta à minha provocaçãozinha e eu deixara uma risadinha escapar, divertindo-me com aquilo de alguma maneira bizarra e um tanto caótica. — Mas pode fazer o favor de soltar o meu punho agora?
— E por que faria tal pedido, minha lady? — olhara-me de cima. — Não é você que gosta disso?
— Na verdade, tanto faz para mim. É só irmos lá e cumprirmos com o nosso dever. Mas acho que os convidados não vão gostar de ver o pulso da noiva com marcas, não é? — sorrira em triunfo e usara meu tom de voz mais voluptuoso: — E não se preocupe, está bem? Eu deixarei você me tocar onde e como quiser na nossa noite de núpcias.
Aemond me soltara imediatamente ao som daquelas palavras. Era incrível como desconcertá-lo sempre funcionava. Tivera que me segurar para não rir enquanto assistia-o se afastar e deixar a minha presença.
— O que foi, milady? — perguntou Aleena, a criada com quem eu tinha mais intimidade. — Estava rindo sozinha.
— Ah, nada de importante. — sacudi a cabeça. — Só estava me lembrando de uma coisa divertida.
E assim, elas continuaram com a arrumação, falando uma com a outra sobre um monte de coisas que eu não prestava atenção. Olhei para o meu reflexo no espelho turvo e sorri. Por cima da minha roupa de baixo de seda branca, agora tinha um vestido de samito marfim com fios de prata. As mangas longas quase tocavam o chão quando eu me mantinha assim, com os braços largados do lado do corpo. A saia era longa e cheia, e os detalhes em renda de Myr davam um quê ainda mais especial de beleza ao corpete. Sorri ao finalmente notar as joias na cor verde. Havia ficado ótimo, ainda mais para me casar com um dos defensores mais ferrenhos dos Verdes.
— Agora é a hora do manto, milady. — Aleena anunciou, com uma empolgação quase maior do que a minha.
As criadas trouxeram a última peça e deixaram que eu a admirasse. O pesado manto de veludo cinza tinha uma torre bem grande; seu contorno bordado em branco e seu interior, em fio de prata — simulando a torre de pedra branca sobre um campo cinza da heráldica dos Hightower. O fogo aceso no topo da torre magnificamente bordada era verde em vez de vermelho. O verde do séquito da rainha. O verde da declaração de guerra. O verde do lado que o Aemond defenderia até a morte. Aquela cor que eu adorava. Não tinha como não gostar. Eu jamais poderia ter imaginado algo melhor. Minha fixação na grande torre da minha Casa foi tanta que demorei para notar as torres pequeninas. Elas estavam distribuídas por todo o resto do manto cinza claro. Seus fogos, porém, eram coloridos com o mesmo tom de prata da torre.
Deixei que as criadas prendessem o manto sobre os meus ombros enquanto sorria feito boba. As joias verdes combinavam com o principal fogo do manto. Um manto de donzela… Com certeza eu não era a primeira moça a usar um manto de donzela para se casar depois de já ter perdido a sua donzelice há muito tempo. A diferença talvez residisse no fato que o meu futuro marido sabia disso e não se importava. Não. Palavras erradas. Era mais do que óbvio que ele se importava. E se importava até demais, afinal, eu era o seu brinquedinho desde o primeiro dia em que pusera os meus pés em Porto Real.
As criadas abriram a porta e anunciaram que eu estava pronta. Olhei pela última vez para os aposentos que haviam sido meus desde o primeiro dia. Agora, no entanto, eu diria adeus a ele para me juntar ao Aemond naquele em que dividiríamos. Deixei-o para trás sem muito alarde, já que uma nova vida me esperava. Acompanhei Sor Waymar até o lado de fora do Septo da Fortaleza Vermelha, onde Sor Otto Hightower me esperava.
— Sor Otto. — cumprimentei a Mão do Rei com respeito.
Ele faria o papel de pai na cerimônia, já que era o parente do sexo masculino mais próximo que eu tinha ali. O casamento havia sido apressado nas últimas voltas de lua, pois temíamos que o Estranho pudesse reclamar a alma do Rei Viserys I a qualquer momento e não desejaríamos que seu segundo filho homem se casasse sem sua presença. Meu pai demoraria muito para chegar à capital e não podíamos esperar. Para falar a verdade, eu nem fazia questão de sua presença. Quanto maior a nossa distância, melhor.
— Está esplêndida, filha. — Sor Otto elogiou-me. — Seu pai com certeza estaria orgulhoso.
— Ele estaria, sim, mas seria mais porque eu finalmente vou tirar o meu manto de donzela e produzir herdeiros. — desandei a falar, explicitamente nervosa. — Era só para isso que ele achava que eu existia.
— Felizmente encontrou outra família para você aqui. — ele me ofereceu seu braço. — E desejo que encontre algo semelhante no Aemond também.
— Ah, isso vai ser difícil. — falei sem pensar e então soltei um sorrisinho amarelo. — Desculpe, é só nervosismo falando.
Segurei-me no braço de Sor Otto Hightower e deixei que ele me guiasse septo adentro. Eu já tinha entrado muitas vezes naquele local para entoar todos os tipos de preces para os sete deuses, das mais leves às mais vergonhosas. Agora, porém, era diferente. O casamento era grande, mas nem de perto enorme. Apenas a família real e a corte faziam parte. Ainda assim, aqueles olhos em mim faziam minha pele formigar. Eu me sentia vista, bem do jeito que eu gostava, mas também havia algo que, por mais que tentasse, eu não era capaz de nomear. Deveria haver cânticos e preces em algum momento que eu não conseguia lembrar qual. Eu mal conseguia ouvir qualquer coisa ao meu redor. Jamais havia sentido algo assim.
Aemond me esperava entre os altares do Pai e da Mãe. Suas mãos estavam cruzadas atrás das costas, como sempre, e ele vestia um gibão de veludo negro com arabescos vermelhos que se enrolavam em volta dele de um jeito charmoso. Aquelas podiam ser as cores da Princesa Rhaenyra, sim, mas eram, antes de tudo, as cores dos Targaryen. E Aemond estava tão magnífico quanto eu. Nosso olhar se cruzou por um mero precioso segundo. Samito marfim e veludo negro, o claro e o escuro. No dia de hoje, eu era a luz e ele era a escuridão. Apesar de quase incompreensível, nos completávamos de um jeito que palavra nenhuma seria capaz de descrever. Ao mesmo tempo em que éramos como nada um para o outro, também possuíamos tudo o que o outro necessitava.
Deuses, como eu odiava isso! Quase tanto quanto odiava o modo como estava trêmula no momento em que Sor Otto desprendeu o meu manto de donzela, livrando-me dele. Aemond, então, jogou o manto de noiva sobre os meus ombros, trazendo-me sob sua proteção; o preto e vermelho dos Targaryen expostos no novo manto representavam isso. Eu não conseguia tirar os olhos do meu noivo, por mais que eu tentasse. Todo o resto parecia secundário até que Aemond cortou o contato visual para encarar o septão Eustace.
— Na visão dos Sete, eu, por meio deste, selo essas duas almas, unindo-as como uma só pela eternidade. — declarou o septão que tinha nos visto crescer pelas redondezas. — Olhem um para o outro e digam as palavras.
E foi o que fizemos:
— Pai. Ferreiro. Guerreiro. Mãe. Donzela. Velha. Estranho. — enunciamos os nomes de cada uma das sete faces de deus.
— Eu sou dele, e ele é meu. — declarei ao mesmo tempo em que ele ecoava:
— Eu sou dela, e ela é minha.
Tive que respirar fundo antes de continuar, tamanho o efeito que aquele voto, ainda que decorado, tivera em mim.
— Com este beijo — disse ao recuperar minha fala —, empenho o meu amor e o tomo como meu senhor e esposo.
— Com este beijo — proclamou ele —, empenho o meu amor e a tomo como minha senhora e esposa.
Quando seus lábios tocaram os meus, agradeci aos deuses por ele estar segurando a minha mão e isso, de algum modo, esconder o quanto eu me sentia trêmula. Era a primeira vez que nos beijávamos em muitos e muitos anos. Algo se acendeu dentro de mim. Nossos lábios se separaram por menos de um segundo e voltaram a se tocar mais uma vez para finalizar nossos votos com estilo. Afastamos nossos rostos em um movimento que parecia hesitante. Ou talvez eu estivesse imaginando coisas. Era, de fato, possível.
— Aqui, à vista dos deuses e dos homens, proclamo solenemente que Aemond da Casa Targaryen e da Casa Hightower são marido e mulher. — anunciou o septão Eustace enquanto Aemond e eu ainda nos fitávamos. — Uma só carne, um só coração, uma só alma. Agora e para sempre. E maldito seja quem se interpuser entre eles.
— Maldito seja. — Aemond falou sem fazer som enquanto todos os outros comemoravam o fim do casório.
— Maldito seja. — ecoei de volta, tornando aquelas palavras apenas nossas.
Os meus têm o mesmo gosto de todos os outros
Ah, isso é uma tragédia
“Keeping You Around”
Nothing But Thieves
Maldito seja aquele sete vezes maldito banquete de casamento. Primeiro viera a comida em si, e depois partimos juntos uma torta, como a cerimônia pedia, e os pássaros voaram soltos, trazendo maior vida ao lugar. Em seguida, havíamos dançado do jeitinho que os noivos deveriam fazer, e logo muitos outros se juntaram a nós e os pares trocaram por diversas vezes. Foi a partir daí que começara a estranhar as coisas. Não era legal dançar, no meu casamento, com alguém com quem já havia ido para a cama. E só ficava pior quando me lembrava que provavelmente o meu noivo — noivo, não, marido. O meu marido deveria saber. Ele, com certeza, sabia. Por isso aqueles olhares mortais.
Portanto, tentei me esgueirar para algum canto sombrio do salão, mas nem mesmo assim consegui encontrar alguma paz.
— Podia mesmo ter fugido comigo, sabia? — Aegon encurralou-me e sorria feito um idiota.
— Em seus sonhos mais bêbados, talvez. — Abanei a mão entre nossos rostos para afastar o bafo de bebida.
— Ah, querida . — Ele pôs as mãos sobre os meus ombros. — Mal posso esperar pela cerimônia nupcial.
Franzi o cenho, sem entender. Seu sorriso perverso se intensificou mais conforme sua mão ia descendo até o meu quadril. Ele apertou de leve o local e, apenas então, compreendi sobre o que falava. Segundo a tradição, os noivos deveriam ser acompanhados todo o caminho até a cama. O noivo, levado pelas mulheres que iam o despindo, e a noiva, pelos homens. Era isso o que Aegon desejava tanto. Claro que era. Ele queria me despir, pôr suas mãos sujas em mim mais do que já estava fazendo agora.
— Muito engraçadinho, você. — Dei uma risadinha sem graça ao afastar suas mãos de mim.
— Engraçadinho? — Fez uma careta, sem compreender meu comentário. — Não estou tentando ser engraçado.
— Ótimo, porque isso é um casamento, não uma apresentação de pantomima. — A voz do príncipe Aemond fez-se ouvir. — Não é para ser engraçado, irmão.
Ele empurrou Aegon para longe. O garoto saiu tropeçando e quase caiu. Não pude conter um riso. O garoto estava literalmente caindo de bêbado. Busquei o olhar de Aemond. Ele viera ao meu resgate como um príncipe das canções faria com sua amada. Exceto que nossa história não era bem assim.
— Marido. — A palavra saiu em um suspiro de alívio, de agradecimento. Nunca fiquei tão feliz por ver Aemond Targaryen à minha frente.
— Esposa. — Ele estendeu o braço para ela. — Suponho que já esteja na hora dos noivos dançarem outra vez.
— E como viveriam sem o nosso espetáculo? — comentei, debochada, ao aceitar o convite. Assim, seguimos para o meio da pista de dança. — O que fez lá com o Aegon: eu lhe agradeço, de verdade. E como são mesmo os dizeres? — Desviei o olhar, como se tentasse me lembrar de algo que ambos sabíamos que estava na ponta da minha língua. — Maldito seja aquele que se interpuser entre nós.
— Hmm — disse apenas.
— Ah, qual é, Aemond!? — Fiz beicinho. — Vai me deixar triste se não me disser de volta.
— Maldito seja — entoou e sacudiu a cabeça de leve, quase sorrindo.
— Viu só? Muito melhor. — Sorri para ele. — Pelo menos teremos um pouquinho de diversão nesse casamento.
Girei pelo salão nos braços de Aemond Targaryen, meu marido. Felizmente, logo a dança nos permitiu usufruir da proximidade outra vez.
— Talvez deva saber que o seu irmão está sedento por tirar as minhas roupas e me tocar por inteira no caminho para o quarto — murmurei. — Não sei se desejo isso, e tenho certeza de quevocê não deseja.
— Não se preocupe — disse ao finalizarmos a dança.
— E por que não me preocuparia? — Seguimos pelo salão, de braços dados. — Vai impedir a cerimônia de acontecer?
— Mesmo antes de me contar as boas novas, eu já não planejava seguir com a cerimônia de núpcias — revelou-me. — É estúpido, enfadonho.
— Isso é bom, muito bom. Parece que me casei com o homem certo — comemorei, aliviada. Jamais gostara daquela tradição. Eu gostava de ser tocada, sim, mas por quem eu quisesse que me tocasse, não por qualquer um. — Ei, espera aí. Por que não ia seguir com ela desde o começo? Não consegue nem pensar em outro alguém me tocando, não é?
— Estava demorando para começar. — Ele soltou um suspiro, mas estava claramente incomodado, afinal, sempre o deixava desconcertado ao falar aquele tipo de coisa. — Conheço muito bem o caminho para os meus aposentos. Não preciso de um monte de mulheres taradas me levando até lá.
— Nossos aposentos — lembrei-lhe. — E quanto aos homens tarados me despindo e me tocando? — Parei e olhei bem para ele. Então levei minha mão ao seu rosto e dei dois tapinhas leves em sua bochecha. — Estou brincando, marido. Sei que você ia querer acabar com todos eles.
Então sorri e dei-lhe as costas, sem esperar qualquer reação. Pude ouvir ele me chamar por uma palavra valiriana em tom de reprovação e apenas ri comigo mesma. Apesar de não entender nada daquela língua ancestral deles, era fácil constatar que não era um xingamento. Parecia apenas um vocativo. Estava me chamando. De quê? Eu teria que descobrir mais tarde. E eu descobriria. Tinha a noite inteira para isso.
— Olá, querida irmã — cumprimentei Helaena com uma nova denominação.
Se eu agora era casada com seu irmão, chamá-la de irmã não era algo tão estranho assim. Pela lei do casamento, éramos, de fato, irmãs agora. Além do mais, ela não pareceu se incomodar. Sentei-me à mesa, próxima à ela.
— Está gostando? — perguntou-me, olhando ao redor.
— É o dia do meu casamento, tenho que estar amando, não é? — falei, e minha cunhada quase riu com a minha claramente falsa empolgação. — Para falar a verdade, estou gostando mais do que pensei que gostaria. Sei que isso não significa muita coisa, mas ao menos seu irmão está sendo um marido suportável até o presente momento.
— Por falar nisso, o que achou do seu manto de donzela? — indagou. — Fui eu quem bordei.
— Mentira! — Encarei-a, boquiaberta. — Estava magnífico! Sério mesmo. Eu consegui gostar mais do manto de donzela do que do vestido, acredita? Muito obrigada mesmo. Aquele fogo verde foi a minha parte favorita.
— Foi ideia do Aemond — comentou.
— O quê? — Franzi o cenho. — Pedir para você bordar?
— Não, o fogo verde no topo da torre dos Hightower — explicou-me.
— Ah, sim. Claro que foi ele. — Ri e revirei os olhos. Helaena me fitava com uma óbvia incompreensão. — Não me leve a mal, eu amei. Amei mesmo. Só debochei porque é mais do que óbvio que Aemond escolheria qualquer coisa com sinal de guerra. É a cara dele.
— Ah, não. — Sacudiu a cabeça. — Não foi esse o motivo.
— Não? — Passei a mão nos cabelos. Não gostava quando não conseguia ler o príncipe Aemond com certa facilidade. — E qual foi o motivo, então?
— Quando me pediu para acrescentar esse detalhe, ele me disse que você iria gostar de ver um fogo verde sobre a torre. — Ela sorriu. — Disse que combinava com você.
Abri a boca algumas vezes para falar alguma coisa, qualquer coisa, mas nada saiu. Ele estava certo. Era o detalhe que eu mais tinha amado. Aemond, de fato, me conhecia. E agora, mesmo sem estar por perto, me deixara sem palavras. Levantei o olhar, buscando por meu marido, que permanecia sentado na outra ponta da grande mesa, bem afastado de nós duas. Limpei a garganta. — Queria que as coisas entre nós fossem mais simples — confidenciei à Helaena. — Se serve de consolo, será um casamento feliz do seu próprio jeito — garantiu-me ela.
— Ah, é? — Tentei zombar, mas minha amiga manteve-se séria, daquele jeitinho Helaena Targaryen de ser. Franzi o cenho, curiosa. — Como sabe?
— Vi em meus sonhos — respondeu como se aquela fosse a coisa mais normal de todo o mundo conhecido.
— Eu… — hesitei, pensando em todo o ódio mal resolvido que Aemond e eu compartilhamos em todos esses anos de noivado. — Não sei o que dizer.
— Não precisa — disse ela. — Estou acostumada a ignorarem as coisas que vejo.
— Não, não foi isso que eu quis dizer. Acredito nos seus sonhos. — Seus olhos se abriram mais, decerto surpresa pela minha afirmação. — É só… não sei. Acho que vou me agarrar a esta esperança, então. Mas não vejo como o seu irmão e eu podemos ter um casamento deveras feliz.
— A felicidade chega de maneiras inesperadas — entoou de maneira sábia e enigmática. — A ruína também, mas há coisas que não podemos evitar.
— Não vejo ruína maior entre Aemond e eu do que aquela em que estamos agora. — Respirei fundo. — Então acho que tudo bem.
O resto do banquete nupcial passou em um piscar de olhos. Quando Sor Otto Hightower levantou-se e anunciou que a hora da tradicional cerimônia de núpcias havia enfim chegado, Aemond se opôs. Isso, obviamente, causou um grande alvoroço. Sor Otto insistiu — junto de alguns outros — explicando que aquela era uma tradição de longa data e que, como uma, era preciso se ater a ela, mas Aemond não quis nem saber.
— Minha lady. — Ofereceu-me seu braço, encerrando o assunto para todos.
— Meu príncipe. — Sorri, agradecida, e enganchei meu braço no seu.
E assim foi a nossa caminhada nupcial, com olhos desejosos e chocados de alguns convidados nos fuzilando até sairmos do salão. Aemond também não permitiu que ninguém nos seguisse. “Sabemos o caminho de nossos aposentos”, insistira para eles até que se cansassem de sugerir o contrário. Eu não sabia exatamente o caminho, já que nunca fora atrás de Aemond em seus aposentos privados, diferente dele, que aparecia vez ou outra nos meus aposentos… meus antigos aposentos. No entanto, isso não era problema, já que Aemond não me soltou por nem sequer um instante em todo o caminho até estarmos parados na frente de uma bela porta.
— Seus novos aposentos, esposa. — Abriu a porta e apontou o lugar.
Passei por ele e entrei, observando cada detalhe do recinto. Não era tão diferente da maioria dos aposentos, exceto que era maior e, de algum jeito, mais bonito… mais elegante. Fazia sentido. Ele era um príncipe da coroa, no fim das contas.
— É estranho mudar o local onde durmo depois de tantos anos nessa fortaleza — suspirei.
Aemond fechou a porta com um leve estrondo e desceu a tranca para que nenhum espertinho se intrometesse em nossa noite de núpcias.
— Não gostou? — investigou, soando quase inseguro.
— Está brincando? Claro que gostei. — Virei-me para ele. — Isso aqui é muito melhor do que os meus antigos aposentos. Como não gostaria?
Caminhei pelos aposentos e entrei na câmara privada. Era um bom espaço. Toquei a cama para senti-la.
— Colchão de penas — anunciou Aemond antes que eu pudesse concluir qualquer pensamento.
— Da melhor qualidade, imagino eu. — Sentei-me para testar e sorri em aprovação. — E agora…? — Desci o vestido apenas um pouquinho sobre um dos ombros em um claro teste. Aemond desviou o olhar. — É, eu imaginei. Não vai acontecer, não é?
Levantei-me e andei ao redor da cama, parando perto da cabeceira. Desfiz-me do meu colar, dos brincos e da rede de cabelo enquanto o silêncio flutuava um tanto sólido entre nós.
— Cumprirei com o meu dever — finalmente falou, mas seu tom não soou muito decidido para o meu gosto. Aquilo me incomodava de um jeito que eu nem sabia explicar.
— Me desculpe, Aemond, e que os deuses me livrem de uma ruindade dessas, mas eu prefiro ser tocada pelo seu irmão do que por você neste exato momento. — Fui até ele. — Porque ao menos Aegon quer me tocar, me sentir. Enquanto você…
Minha fala foi interrompida pelo rompante de fúria do príncipe. Ele veio de encontro a mim e agarrou meu ombro com força.
— Estou disposto a cumprir com o meu dever — repetiu entredentes, seu rosto bem próximo ao meu.
— Sim, você cumprirá o seu dever, e eu cumprirei o meu… quando houver vontade mútua. — Fixei meus olhos no seu e acariciei a lateral do seu rosto. — Ah, meu pobre príncipe valente. Já chega que a sua primeira vez foi contra a sua vontade e quando você nem sabia direito o que estava fazendo… Não passará por uma coisa dessas comigo, isso eu posso lhe prometer.
Ele me soltou bruscamente e passou por mim, indo até o outro lado da cama, a uma distância segura.
— Como você…?
— E como não saberia? — retorqui antes mesmo que ele completasse o questionamento. — Sabe que eu costumo ser uma boa observadora, Aemond. Acha que não vi o Aegon se gabando porque tinha te levado para “se molhar” no bordel na Rua da Seda?
— Eu… — ele começou, mas eu fiz sinal para que parasse.
— Não tem que falar nada sobre isso a não ser que um dia realmente deseje que eu escute — fui sincera. Não seria bom começar um casamento invadindo por inteiro o espaço do outro. — Isso não vem ao caso, de qualquer modo. Mas o fato é que eu não desejo consumar esta união enquanto você não quiser me tocar.
Fui para o outro lado da cama e comecei a me despir. Ou pelo menos tentar, porque não era fácil se livrar daquele belo vestido de noiva. Apesar de jamais ter imaginado que a minha noite de núpcias seria assim, era melhor do que deixá-lo me tocar quando não se sentia à vontade. Eu tinha os meus princípios, afinal. Respirei fundo. Talvez esse fosse um jeito de construir algo sólido entre nós. Nem que fosse uma parede. Deuses, eu esperava que não. Se uma muralha nos separasse, o casamento seria deveras infeliz. Eu preferia me manter no jogo de ódio, porque ao menos as coisas ficavam divertidas e um tantinho interessantes.
— O que está fazendo? — perguntou-me de repente, fazendo-me pular de susto.
Espiei por cima do meu ombro, de cenho franzido, e vi que me fitava. Olhei para mim mesma e para o vestido contra o qual eu ainda lutava em uma batalha ferrenha para me livrar.
— Tirando as minhas vestes. Ou você acha que vamos dormir vestidos? — Virei-me para olhá-lo. — Ah, por favor, né. Com ou sem consumação, somos marido e mulher, e maldito seja quem se interpuser entre nós. Se lembra, marido?
Finalmente consegui me desvencilhar dos grilhões que o vestido parecia ter e deixei-o cair aos meus pés. Quando terminei de me despir, Aemond continuava a me observar. Aquilo era novo para mim, sim, entretanto, eu não me importava. Ele teria que se acostumar. Não me tocar era ideia dele. E também não era como se eu quisesse que ele me tocasse… não daquele jeito.
— Eu me lembro — respondeu e, em seguida, acrescentou a mesma palavra valiriana que usara mais cedo para se referir a mim. Naquela vez, porém, era um tom de repreensão, enquanto nessa, sua voz era suave como nossa cama de penas. Boa de se ouvir. Quase reconfortante.
Aemond começou, enfim, a se despir. Deitei-me na cama e cobri-me com os lençóis. Era a minha vez de observar o meu marido tirar suas roupas. Diferente de mim, que sofrera para me livrar delas, Aemond fizera tudo com uma plenitude digna de um príncipe.
— Vem cá — chamei-o, dando dois tapinhas no espaço vazio ao meu lado. Aemond deitou-se sem dizer uma palavra. Ainda usava o tapa-olho, mas como eu estava no seu lado direito, o olho bom me enxergava com facilidade. — Que palavra foi aquela que usou para se referir a mim?
— Eu te chamei de ābrazȳrys — pronunciou devagar para que eu entendesse bem.
— E o que significa? — investiguei.
— Esposa. — Ele, enfim, me olhou.
— Gostei. Soa muito bem quando você diz. — Imaginei-o repetindo aquela palavra muitas vezes, e todas as imagens pareceram magníficas demais para descrever. — E que tal você me ensinar a falar "marido" em alto valiriano também? — Ele arqueou a sobrancelha. — Que foi? Posso não ser uma Targaryen, mas sou sua mulher agora. Vamos lá, Aemond, uma palavrinha para fazer eu me sentir pertencente à sua vida.
— Quando fala assim… — ele considerou. — A palavra para marido é valzȳrys.
Repeti algumas vezes na minha cabeça antes de tentar dizer em voz alta.
— Certo, vamos lá: valzȳrys — proferi. — E aí, como foi a minha pronúncia? Aposto que não foi muito boa, não é?
— Para falar a verdade, já está falando alto valiriano melhor que o Aegon — comentou ele. — Não que precise de muito para isso. — Eu irrompi em uma gargalhada estrondosa até que Aemond se ergueu sobre mim e tapou a minha boca. — Quieta! Esqueceu que todo mundo pensa que estamos consumando o nosso casamento?
Demorei um pouco para conseguir conter a onda de riso que ainda me envolvia. Quando, enfim, voltei ao mais próximo do meu normal, Aemond tirou a mão de cima da minha boca e retornou ao seu lugar. Dessa vez, no entanto, deitou-se de lado, virado para mim.
— Nós estamos consumando o casamento — eu disse. — Com conversa, palavras valirianas e, é claro, o que não podia faltar: debochando do seu irmão.
Aquilo fez algo parecido com um riso escapar da boca de Aemond. Ele continuou lá, me observando por um tempo. O silêncio no quarto não era de modo algum desconfortável. Era suave… bom.
— Na manhã de hoje, você me disse para repetir a pergunta na nossa noite de núpcias. — Aemond cortou o silêncio. — Você ainda preferiria o Daeron a mim?
— Eu amo quando você fica todo inseguro — brinquei.
— Cale a boca, . — Revirou os olhos. — Só me responda.
— Ou eu calo a minha boca, ou eu respondo, né! — Ajeitei-me de lado, para poder olhar para ele. — Não dá para fazer as duas coisas.
— Bem, você claramente nem tentou calar a boca — indicou. — Eu preciso saber a resposta, . Seja sincera.
— Tá bom! Olha, Aemond, eu tenho que reconhecer que as coisas seriam mais fáceis com ele, sim — derramei sinceridade em cada palavra emitida. — Mas você, meu príncipe, possui um fogo que mais ninguém tem, uma sede pelo poder — falei devagar, saboreando cada sílaba. — E é alguém assim que eu quero ao meu lado.
— Então, ābrazȳrys, é o que terá — prometeu.
Se a vela está derretida
Não, você não tem que me amar se não quiser
Não haja como se eu não significasse nada
“Unkiss Me”
Maroon 5
Aquele dia estava marcado para a desgraça. Não havia outra opção possível. Vaemond Velaryon viria à corte para fazer uma petição formal à rainha e a Mão do Rei para torná-lo herdeiro de Derivamarca. Corlys Velaryon, o Serpente Marinha, nem morto estava e o maldito abutre já tentava roubar a posição que, segundo o próprio Lorde Corlys, seria de Lucerys Velaryon. E por falar em Lucerys, a princesa Rhaenyra — meia-irmã de meu agora marido — e sua família vieram defender a reivindicação dele.
Aemond detestava os garotos Velaryon — Jacaerys, Lucerys e Joffrey, este último ainda criança demais para entender sequer metade daquela disputa política entre Verdes e Pretos. Ele também os chamava de “Strong”, com um desdém de anos de ódio nutrido, pois eles possuíam cabelos escuros em vez do prateado dos Targaryen e, segundo os boatos entre os Verdes, eram bastardos da princesa Rhaenyra com o agora falecido Harwin Strong. Eu entendia a repulsa de Aemond por Lucerys, afinal, no dia em que clamara Vhagar — a maior dragão do mundo — para si, uma briga com os filhos da princesa resultara na perda de um de seus olhos.
Mas a verdade era que hoje eu havia acordado para infernizar a vida de Aemond Targaryen, então faria daquela visita algo útil para mim. Quando encontrei os garotos Velaryon mais velhos, Jace e Luke, nos corredores do castelo, me juntei a eles. Fui a perfeita lady, do jeitinho que aprendera enquanto crescia em Vilavelha, e os deixei confortáveis com a minha presença. Aemond podia chamá-los de “garotos Strong”, mas eu não tinha nada contra eles; não mesmo. Era estranho olhar para Lucerys, todo tímido e fofo, e imaginá-lo arrancando o olho do meu marido, mesmo que fossem mais jovens. A imagem quase não fazia sentido.
Descemos para o pátio, envolvidos em uma conversa sobre as memórias de quando eles viviam ali — os anos antes da minha vinda. Jacaerys era o que mais falava comigo. Lucerys provavelmente estava nervoso com toda essa coisa de Sor Vaemond querer roubar a posição dele como Senhor das Marés e, mais ainda, no que isso significava: um reforço para a narrativa de que o pobrezinho era bastardo, e não um verdadeiro Velaryon.
O barulho de espada nos chamou atenção, e eu encontrei tudo o que eu mais queria. O príncipe Aemond treinava com Sor Criston Cole em uma dança de aço. E ele me viu. Eu quase sorri. Tudo estava nos conformes. Aemond não hesitou em continuar sua luta, portanto, o aborrecimento transpareceu em seu único olho, ao menos para mim, que o conhecia bem.
— Vocês são como verdadeiros príncipes Targaryen, sabiam? — disse a Jace e Luke enquanto nos aproximávamos da contenda.
— Zomba de nós, minha lady? — Jacaerys ergueu uma sobrancelha.
— Eu? Jamais. Posso ser uma Hightower, mas não sou como o resto dos Verdes, não tenho nada contra vocês. A propósito, não deveriam ligar tanto para as baboseiras que pessoas como o meu marido falam sobre vocês. Por vezes, o ressentimento fala alto demais. — Olhei de soslaio para Aemond, sabendo que deveria estar me ouvindo. — Eu falo sério quando digo a vocês: são tão belos quanto qualquer outro príncipe Targaryen. Até mais do que alguns, para falar a verdade.
Abri, então, um amplo sorriso para eles. Não era fingimento e eu não estava mentindo. Ainda assim, fazia aquilo apenas para chatear meu marido, que com certeza via e ouvia toda a cena, ainda que estivesse treinando. Era como o meu joguinho favorito.
— Atenção, meu príncipe! — Sor Criston o alertou enquanto continuavam lutando.
Quase sorri em júbilo. Afetar Aemond era tudo o que eu queria fazer hoje. Continuei conversando com os garotos enquanto dava olhadelas à luta do príncipe com Sor Criston. Muitas vezes ele desviava o olhar de seu oponente para ver o que eu fazia. Seus movimentos ficaram mais intensos a cada segundo conforme sua raiva provavelmente aumentava.
— Vai, Aemond! — gritei ao me aproximar ainda mais, por entre as pessoas que assistiam.
Era o meu jeito de mostrar que eu também estava prestando atenção nele o tempo todo. Aquilo pareceu incentivá-lo, pois logo conseguiu vencer Sor Criston. Enxugou, então, o suor da testa e olhou bem para mim. Um sorriso ardiloso, quase orgulhoso, dançava em meus lábios. Ele cerrou a mandíbula e veio até mim.
— — cumprimentou, e uma pitadinha de irritação escapou em sua voz. Isso só podia significar que estava, como sempre, tentando esconder o que sentia, assim como costumava se esconder de mim.
— Quer lutar comigo, meu príncipe-marido? — propus.
Aemond arregalou o olho em resposta ao desafio. Conhecia bem o meu jeito malicioso e, ainda assim, fora pego de surpresa pelo meu atrevimento. Seu olhar desviou de mim para os garotos Velaryon por um pequeno instante, então um sorrisinho astuto brilhou em seus lábios — lábios estes que negava a mim há um bom tempo.
— Pode vir — aceitou, a voz carregada de um divertimento que não era muito comum de se ver nele. — Mas é melhor se cuidar. Eu não pego leve com a minha esposa.
— Ah, é? — Aproximei-me para sussurrar em seu ouvido: — Você não pega de jeito nenhum em mim, certo?
Sua mandíbula se contraiu e eu quase ri. Além de não termos feito nada além de conversar e rir na nossa noite de núpcias, até hoje ele não tinha me tocado. E mesmo que ainda o detestasse na maior parte do tempo, aquilo era algo que eu não conseguia entender. O assunto me incomodava dia e noite, como uma coceira em algum lugar que não dava para alcançar. E ele nem sequer falava comigo sobre isso, o que me irritava de maneira profunda. Eu provavelmente não descansaria até entender como tudo isso funcionava e por que Aemond era assim. Olhei bem para ele. Suas bochechas levemente coradas mostravam que eu tinha conseguido desconcertá-lo outra vez. Era nesse quesito que eu era melhor quando dizia respeito a Aemond Targaryen.
— Vamos ver quem vai pegar leve com quem quando começarmos — disse, baixinho. — E não faça sequer meras menções à nossa noite de núpcias na frente desses malditos garotos Strong.
— Não se preocupe, ninguém está ouvindo nossos sussurros íntimos — provoquei, e então passei a falar alto: — Me dê uma espada. Sei que vocês não gostam da ideia de uma mulher segurando uma espada, mas eu sou esposa do príncipe Aemond, e ele permite. — Sorri para ele como se fôssemos o casal mais harmonioso do mundo, quando a verdade era o oposto. — Deveria pegar leve comigo, marido, porque eu perderei tanto se levar a sério quanto se pegar leve, verdade seja dita. — Dei de ombros. — Seja bonzinho com a sua esposa ao menos desta vez.
Aemond se esforçava para se mostrar impassível, como de costume, mas eu enxergava além. Minha tentativa de o irritar estava funcionando bem até demais. Soltou um longo suspiro antes de pegar uma espada embotada.
— É uma mulher tola que brinca com espadas. — Entregou a espada nas minhas mãos. — Mas você é minha esposa, então suponho que devo permitir que finja que sabe empunhar uma.
Maldito seja esse principezinho! Teria que fazê-lo sofrer muita retaliação depois de todo esse deboche. Mas ele não perdia por esperar.
— Ah, então agora, na frente de todo mundo, vai fingir que não brincava de espadas com a sua futura esposa bem aqui quando éramos crianças? — rebati, revelando um de nossos segredos compartilhados a todos que quisessem ouvir. — Sempre esteve lá, comigo, quando ninguém estava olhando.
— Isso foi diferente — resmungou, mal-humorado, e sua mão apertou o cabo da espada. — Éramos crianças, não tínhamos nada melhor para fazer.
— Mas você me ensinou, ah, sim. — Umedeci os lábios, e as bochechas de Aemond coraram com um leve constrangimento. — Lembro-me muito bem.
— E como eu poderia me esquecer? — Desviou o olhar. — Embora eu não diria que lhe ensinei. Você apenas conseguiu não se envergonhar completamente.
— Não se esqueça que dorme ao meu lado agora — ameacei-o, divertindo-me com a situação. — Posso acabar me vingando, valzȳrys.
Aemond havia me ensinado a palavra em alto valiriano para “marido” em nossa noite de núpcias e, desde então, minha pronúncia melhorara… ao menos um pouco. Sorri ao ver o rosto corado de Aemond. Uma das coisas que eu mais adorava era vê-lo constrangido, mergulhado em embaraço por causa de mim. Eu amava ter esse tipo de efeito sobre ele e, de vez em quando, até achava que ele gostava… mas não em público.
— Cuidado — alertou, entredentes. — Você não ousaria.
— Ah, você sabe que eu ousaria — falei, desferindo um golpe com a espada.
Aemond levantou a própria espada para bloquear o ataque. Continuei com as estocadas enquanto ele se defendia e se defendia e se defendia. Percebi que ele desviava o olhar vez ou outra. Todo mundo estava assistindo. Será que estava incomodado apenas com isso? Ou será que era porque eu havia trazido Jacaerys e Lucerys Velaryon para cá? Gostaria que fosse a última opção, porque significaria que meu plano de incomodá-lo havia dado certo, e que o motivo de seu incômodo era eu.
— Você é um perigo — murmurou para mim.
— Eu sou? — retorqui.
— Sim, você é — rosnou, frustrado, ao aparar outro golpe, e seu olho fixou-se em mim. — E terrivelmente irritante também.
— Exatamente como você, amor.
Ataquei-o com mais força, mas ele desviou do ataque e prendeu o meu corpo contra o seu. Arfei, surpresa, e fitei-o com intensidade. Ficamos assim por um momento que pareceu longo demais. Minha respiração estava ofegante da luta e minha mente passou a viajar para mil e um lugares diferentes; e em todos eles, Aemond estava lá, segurando-me em seus braços.
— Você fala demais. — Ele limpou a garganta.
— Apenas o suficiente — retruquei, afastando-me dele.
Larguei a espada no chão, derrotada, e caminhei para fora do pátio de treino com meu vestido balançando para todos os lados conforme eu batia os pés no chão com mais força do que o necessário. Com sorte, Aemond viria atrás de mim por ter ficado irritado e frustrado com todo o meu joguinho envolvendo seus sobrinhos.
E foi exatamente isso que ele fez. Quando estava andando pelos corredores, seus passos apressados ecoaram atrás de mim e eu tive que me segurar para não sorrir, vitoriosa.
— Chega, , para. — Aemond agarrou o meu braço, forçando-me a parar. — Precisamos conversar.
— Ah, precisamos? — Estreitei os olhos. — Pensei ter lhe ouvido dizer que falo demais.
— Garota atrevida… Você fala demais — enfatizou. — Mas não é sobre isso que quero falar.
— Certo — cedi. — Sei que somos marido e mulher agora e tudo o mais, mas não deveríamos estar tendo uma possível conversa privada no meio de um corredor. — Apontei com o queixo para uma porta aberta.
— Muito bem — concordou, a contragosto. — Mas você não vai escapar dessa conversa.
— Como se eu quisesse escapar. — Revirei os olhos enquanto ele me guiava para lá. Ele certificou-se de que a sala estava vazia antes de me empurrar para dentro e fechar a porta atrás de si. Virou-se para me olhar, de testa franzida, e eu perguntei: — Não vai trancar a porta?
O olho dele brilhou com algo que eu não reconheci.
— A porta fechada já traz privacidade o suficiente — disse, direto e reto. — Não há ninguém por perto para nos ouvir.
— Hmpf, de novo sem nenhum toque… — Retorci os lábios apenas para provocá-lo.
— Cuidado com a língua, esposa. — Agarrou o meu braço outra vez. — Está pisando em gelo fino aqui.
— Talvez eu queira quebrar esse gelo — falei, de queixo erguido para encará-lo. — Só para ver o que acontece.
— , … — Seu tom era um claro alerta.
— O que foi? Tem medo do que pode acontecer? — Arqueei a sobrancelha. — Não gosta do meu joguinho, valzȳrys?
— Chega disso! — ordenou, mas diminuiu o aperto. — Deveríamos estar tendo uma discussão, não jogando jogos.
— Está bem! Sobre o que quer falar, Aemond? — Suspirei, fingindo tédio. — O que quer de mim?
Ele pareceu me estudar por um tempo, sua mão ainda ao redor do meu braço. Queria entender o que via naquele rosto, queria mais do que tudo, mas era difícil demais. Aemond sempre fora acostumado a esconder tudo o que sentia de todo mundo. Não era diferente quando estava comigo… ao menos ainda não.
— Quero que seja honesta comigo, ābrazȳrys — falou, enfim, sua voz era pouco mais do que um murmúrio. — Por que tem tanta propensão a fazer joguinhos e me provocar assim, especialmente na frente de Jacaerys?
— Jace? — perguntei, levemente chocada. — Pensei que ficaria mais bravo por eu ter conversado com o Luke, já que foi ele quem arrancou seu olho anos atrás. Ah, é porque Jacaerys é mais velho, não é? Mais próximo da minha idade e tudo mais.
— Espera aí. Como assim “pensou”? — Estreitou os olhos. — O que quer dizer com isso?
— O que acha que quero dizer, Aemond? — Perdi a paciência. — Eu estava obviamente dedicando a minha atenção aos seus sobrinhos porque você ia ficar irritado e talvez… talvez…
— E talvez o quê? — Seu aperto voltou a ficar mais forte, mas eu não me importei. Gostava daquilo, e o pior era que ele sabia disso. — Termine sua frase, ābrazȳrys.
— Ciúmes! — quase gritei. — Talvez ficasse com ciúmes, meu valzȳrys.
— Ciúmes? Ciúmes? — Levantou a voz e seu olho cintilou com uma raiva digna dos sete infernos. — Como eu poderia ter ciúmes dos garotos Strong?
— Ora, pare com isso. Vocês são só as crianças nos jogos de suas mães, e todos abraçaram esses joguinhos doentios como se fossem seus. — Sacudi a cabeça, impaciente. — Strong, Velaryon, Targaryen… É tudo a mesma coisa.
— Não, não é — insistiu ele.
— Certo, tanto faz. O ponto aqui não é Jace e Luke. Foda-se os bastardinhos. — Bufei, estressada. — O ponto aqui é você ter ciúmes de mim, Aemond. — Bati no peito com a mão livre. — De sua doce ābrazȳrys.
— Não estou com ciúmes — falou, entredentes, uma expressão de pedra tomando seu rosto.
— É claro que não — fui sarcástica. — Jamais ficaria, não é mesmo?
— Eu tenho motivos para ficar ofendido por ver você falando e quase flertando com os garotos Strong, mas não para ter ciúmes — grunhiu. — Você é minha esposa, não deles. E eu não sou um cachorrinho apaixonado.
— Ah, não me venha com essa! Não aja como se isso não significasse nada, como se eu não significasse nada para você — esbravejei. — Eu sou sua, sim, mas apenas até que surja uma vontade significativa de ir atrás de outro alguém.
— Não irá atrás de outro. — Aproximou-se ainda mais, seu tom autoritário carregado de irritação. — Você é minha esposa, minha ābrazȳrys, e eu não permitirei que nenhum outro homem a toque. Está claro?
— Ora essa, então nunca mais serei tocada por ninguém. — Respirei fundo. — Talvez eu devesse ter ido parar em algum convento em vez de na sua cama.
— Não está falando sério, está? — Franziu o cenho, estudando-me como se quisesse descobrir tudo sobre mim. Exceto que ele não queria. — Você realmente desejava ter feito os votos?
— Pelos sete infernos, Aemond, é claro que não! Não sou tão devota assim. — Comecei a rir. — E confesso que aprecio um pouco demais ser tocada… Como você deve saber, já que me pegou bebendo chá da lua e fez aquele lindo escudeiro desaparecer.
— Não fale sobre aquele garoto na minha presença. — Deu mais um pequeno passo para frente, fazendo com que quase não restasse espaço algum entre nós. — Você, de fato, deveria parar de falar.
— Me faça parar — desafiei-o.
Ele respirou fundo e seus olhos faiscaram com algo que eu não conseguia identificar. Detestava isso. Odiava não conseguir lê-lo. Em um movimento rápido e sem aviso, Aemond me girou e me pressionou contra a parede, seu corpo prendendo o meu.
— Ābrazȳrys. — Suspirou, fitando-me com intensidade. — Você gosta mesmo de testar a minha paciência, não é?
— Ah, parece que desse jeito eu consigo fazer você me tocar — provoquei, sabendo que o deixaria sem graça.
E foi o que aconteceu. Não precisava despender nem o mínimo esforço para ler o modo como ele vacilava um pouquinho quando eu agia daquele jeito e o modo como suas bochechas coravam. E isso era o mais exposto que eu conseguia fazê-lo ficar. Ao menos por enquanto. Um dia, talvez, encontrasse o caminho para o lugar do outro lado dos intransponíveis muros de aço que ele construíra em volta de si.
— Você é insuportável — murmurou. — Posso jurar que sente algum tipo de prazer distorcido em me fazer sentir assim.
— Claro que sinto, valzȳrys, é o meu joguinho favorito — sussurrei. — Você é o meu jogo favorito.
— Você está gostando demais disso. — Aemond deu um passo para trás, colocando uma pequena distância entre nós. — Não é justo.
— Não é justo? — Encarei-o, incrédula. — Vou te dizer o que não é justo, Aemond. Somos marido e mulher, nos vemos nus todas as noites quando nos deitamos juntos. Ainda assim, você não me beijou nem sequer uma vez desde o nosso beijo quando éramos mais jovens e do beijo do casamento, o qual você era obrigado a me dar — parei, meu tom tinha aumentado com a minha raiva. — Não é como se eu quisesse, de qualquer maneira, mas você parece ter medo de me tocar.
Respirei fundo para tentar recuperar a compostura. Apesar de estar no meu direito de reclamar, eu não tinha tanto direito assim. Aemond teria cumprido seu dever na nossa noite de núpcias, mesmo contra vontade. Eu tinha que me lembrar disso. Fora eu quem dissera que só deixaria ele me tocar daquele jeito no dia que ele quisesse. O ponto era que eu acreditava que esse dia chegaria logo e poderíamos viver normalmente, e isso não aconteceu.
— Não é que eu não queira tocar em você — falou, com toda a calma que agora me faltava. — É que… em algum momento do nosso passado juntos, nós passamos a brigar o tempo todo, por qualquer coisa. Eu sempre achei que seria melhor se mantivéssemos alguma distância.
— Então agora vai colocar parte da culpa em mim? — Balancei a cabeça, ainda tomada por ira… e talvez algo mais. Rejeição, provavelmente. — É você quem tem algum tipo de problema de intimidade, não eu. E você não conversa comigo.
Aemond pareceu se encolher por um instante, o que me pegou desprevenida.
— Certo. Talvez eu tenha mesmo algum tipo de problema de intimidade — admitiu, frustrado. — Mas é difícil quando discutimos o tempo todo e tratamos um ao outro como se nos odiássemos.
— Fazemos isso porque nos odiamos mesmo. — Cerrei os punhos.
— Ah, pare com isso. — Ele bufou, um ato carregado de clara irritação. — Nós não nos odiamos.
— Claro que nos odiamos, ora essa! Não nos suportamos, mesmo dormindo juntos toda santa noite. — Apontei e ele revirou o olho. — Se não for ódio, não sei mais do que chamar. Mas podemos conversar sobre isso hoje à noite depois que eu beber algumas taças de vinho no jantar. — Abri um sorriso enorme. O rei Viserys havia exigido um jantar com toda a família agora que a princesa Rhaenyra estava por aqui. — Estou pensando em usar um belo vestido verde só para provocar os Pretos e a sua meia-irmã. O que acha da ideia?
— Gostaria mesmo disso? De vestir verde só para incomodá-los? — Seus lábios se curvaram em um sorrisinho, uma pequena faísca que, se eu não tomasse cuidado, poderia me fazer pegar fogo. — Você vai ser mais difícil do que o normal, já posso dizer.
— Você não tem ideia, valzȳrys, você realmente não tem ideia. — Uma risada baixa me escapou. — E sobre o vestido: com certeza gostaria. Sou sua esposa, afinal de contas, e você é o maior defensor dos Verdes. Eu tenho que cumprir o meu papel.
— É claro. — Soltou uma risadinha que me agradou, e muito. — Você faz sua parte, e eu faço a minha. Vamos ver quantas sobrancelhas podemos levantar essa noite.
— Sua mãe vai nos matar. — Sorri, animada. — Mal posso esperar por isso.
Abri a porta e saí da sala sem olhar para trás.
— Ela vai causar problemas — Aemond murmurou para si mesmo, e eu quase olhei para trás para descobrir se ele estava dando aquele sorrisinho de canto dos lábios que costumava dar quando falava as coisas nesse tom.
— Ainda estou ouvindo — avisei, continuando a minha caminhada para longe.
— É claro que está — constatou e soltou um suspiro tão alto que seria impossível de não ouvir.
A noite seria longa.
Mas eu realmente, realmente
Realmente não gosto de você
“Hate (I Really Don’t Like You)”
Plain White T’s
O resto do dia fora digno de um caos maior do que todos os sete infernos vibrando em sintonia. O rei Viserys cortara o barato da rainha Alicent e de Sor Otto, que decerto formaram um conluio com Vaemond Velaryon para que este roubasse a posição de herdeiro do título de Senhor das Marés do príncipe Lucerys. O rei aparecera sem mais nem menos no exato momento das petições para acabar com tamanha idiotice. Sor Vaemond, porém, agarrara-se com ainda mais sede à taça de sua estupidez. Aquilo, sim, havia me surpreendido bastante.
O mínimo a se aprender sobre a corte era a hora de calar a boca — algo que eu com certeza sempre tivera alguma dificuldade em me recordar. Mas eu era da Casa Hightower; compartilhava um grau de parentesco com a Mão do Rei e era a esposa do príncipe Aemond da Casa Targaryen, ou seja, filha do rei e da rainha pelas leis do casamento. Minha atual posição me trazia algumas regalias; infelizmente não tantas quanto eu cobiçava, mas trazia. Quanto a ele…
Bem, ele era apenas Sor Vaemond. Um Velaryon, sim, mas não do ramo correto da árvore genealógica. Sem contar que Velaryon não era Targaryen, e Sor Vaemond não pertencia à família real. E, como se não pudesse piorar, o maldito ousara berrar para os sete céus e infernos que os filhos da princesa Rhaenyra eram bastardos e que a mulher era uma puta. Ele estava mentindo sobre o parentesco? Eu tinha minhas dúvidas. Mas qualquer senhora dotada de alguma inteligência sabia que abrir a boca na frente do pai da princesa em questão era uma sentença de morte.
Ainda assim, ver aquela cena grotesca se desenrolar na minha frente me atingira como um raio, rápido e cruel. O rei não aceitara a ofensa, o que era mais do que óbvio, e sacara uma adaga de aço valiriano, mas sua mobilidade havia se deteriorado junto a maior parte de seu ser. Então o príncipe Daemon se prontificara e cortara a cabeça de Sor Vaemond ao meio. Simples assim. Aemond ficara lá, assistindo fascinado enquanto eu apertava o seu braço com tamanha força que seria capaz de deixar marcas.
E deixara. Olhei de canto para o homem sentado próximo a mim pela milésima vez naquela noite. O hematoma estava lá, quase imperceptível, mas marcava presença — exatamente como o meu marido. Havia sido difícil tirar aquela imagem de carnificina da cabeça, mas a noite logo chegara, assim como o jantar em família requisitado pelo rei. E agora o morticínio prestes a se desenrolar era outro.
Em volta da grande mesa, ceava a família feliz e perfeita; ou talvez essa fosse a visão que o rei desejava ver e, por isso, era o que todos tentavam demonstrar. Aegon, Helaena, Aemond e eu; Jacaerys e Lucerys com as suas mais novas noivas, as gêmeas Baela e Rhaena Targaryen; Príncipe Daemon e a princesa Rhaenyra; Sor Otto, Alicent e o rei Viserys — este último em seu estado cada vez mais miserável. Eu não me surpreenderia se o Estranho o reivindicasse para os seus braços esta noite. Mesmo quando tudo parecia feliz e ordinário, era possível sentir o clima tenso entre alguns olhares trocados.
Inclinei-me na direção de Aemond e murmurei um “me desculpa” desajeitado. Era o máximo que podia lhe dar no momento.
— Pela quantidade de vinho que já ingeriu? — Ele arqueou a sobrancelha, sem nem olhar para mim.
— O quê? Não! E é bom saber que está contando quantas taças bebi, porque eu já perdi as contas — falei baixinho e apontei para o leve hematoma. — Me referia ao seu braço. Apertei com muita força quando… aquilo aconteceu na Sala do Trono.
Aemond baixou o olhar para o local.
— Eu nem tinha visto. — Fitou-me por um breve instante, então voltou a encarar qualquer outro lugar insignificante. — Tudo bem, você só estava assustada. E eu sou…
— Assim você me ofende, marido. Não estava assustada, apenas fiquei chocada. Não que você entenda a diferença, claro. — Revirei os olhos e amaldiçoei-me por entrar na defensiva com todo aquele sarcasmo. — Ei, e como foi que conseguiu notar alguma coisa se não conseguia tirar os olhos da cena toda?
Para a minha infelicidade, Aemond ignorou a provocação. Ele estava comportado demais esta noite; ao menos no que dizia respeito a mim. Elogiara o meu magnífico vestido verde quando nos juntamos para comparecer ao jantar, sim, mas fora apenas isso. Mesmo tendo notado o cheiro do vinho que emanava de mim como um doce e enjoativo perfume, não havia sequer tocado no assunto até agora — e eu sabia que ele notara, dava para ver em sua expressão. Ora, ora, se não era o meu marido me surpreendendo outra vez.
Ajeitei-me na cadeira de espaldar alto e encarei a taça prateada em minha mão. Queria tentar lidar com os sentimentos e emoções conflituosas que se reviravam dentro de mim como um redemoinho feroz. Não que a bebida estivesse ajudando em alguma coisa. Não estava. Ao menos eu achava que não. O comportamento aceitável de Aemond me fazia ter vergonha do modo como havia me comportado em toda aquela ceninha no pátio durante a tarde. E lá, eu estava sóbria…
Tempos desesperados, medidas desesperadas.
Sacudi a cabeça e tomei mais um gole. Meu braço roçou no de Aemond quando voltei a posicioná-lo no mesmo lugar de antes, os dedos firmes em volta da taça já quase vazia de novo. Seu olhar de esguelha não havia passado despercebido. Era uma estrela solitária, que lançava seu brilho violeta sobre mim e iluminava graciosamente o incógnito porvir. Cada vez que capturava um daqueles instantes, uma pontadinha de vitória trovejava no meio da confusão nublada de minha embriaguez.
— Está fazendo um espetáculo de si mesma — comentou, frustrado, mas seu tom flertava com um quê divertimento.
— E você está preso no papel do pobre marido solitário — sussurrei de volta, e seus lábios se moveram levemente para cima. — Às vezes por escolha própria, às vezes por escolha de nós dois.
E lá estava seu biquinho formado outra vez. Desisti de tentar, ao menos por enquanto. A noite foi se passando, e brindes e mais brindes foram feitos — o que era mais uma desculpa para eu beber. Quando Alicent disse que a princesa Rhaenyra seria uma boa rainha, quase caí na gargalhada, tamanha era a falsidade da rainha. E enquanto se mantinha sentada como a perfeita — porém bêbada — esposa do príncipe Aemond, pude observar o início de mais um caos particular daquela família.
Aegon levantara-se para buscar vinho bem ao lado da princesa Baela. Sua boca se moveu, mas Baela — assim como eu — não ouviu suas palavras. De qualquer modo, a intenção dele não era dirigi-las a ela. Jacaerys tinha ouvido e, seja lá o que fosse, o irritou. O garoto bateu as mãos na mesa, descontrolado, e se levantou. Toda a atenção da mesa estava agora, voltada a ele. Quando Aegon retornou ao seu assento, mas Jace permaneceu de pé, Aemond levantou-se, devagar e desafiador.
— Aemond — repreendi-o em um sussurro e toquei de leve sua perna.
Quando cutuquei-o outra vez, pronta para pedir com toda a gentileza do mundo para que meu marido se sentasse, o príncipe Jacaerys pegou uma taça e fez um brinde. Um brinde sarcástico para Aegon e para o príncipe Aemond, já que eles não se “viam” há muito tempo. Cerrei os dentes com a piada de mau gosto a respeito do olho perdido de Aemond e ergui minha mão para envolver a sua. Era o único jeito de tentar impedi-lo de fazer algo enquanto Jace terminava sua ceninha de sarcasmo.
E então Aemond, enfim, se sentou, mas não sem antes hesitar.
— Um brinde ao vinho! — gritei de repente, para cortar a tensão.
Aegon levantou sua taça tão rápido que quase derrubou a bebida. Aquilo me arrancou uma risada genuína. Até Aemond soltou uma risadinha e virou o rosto na minha direção. Seu olhar derramou-se sobre mim como água morna pela primeira vez naquela noite. Não houve palavras e, ainda assim, eu tive certeza que aquele era o seu jeito de me agradecer pelo recente apoio.
O som do arrastar de cadeira fez o momento se dissipar, e meus olhos imediatamente caíram sobre Helaena, que estava de pé com uma taça na mão.
— Eu gostaria de brindar à Baela e Rhaena — declarou Helaena. Era óbvio que estava falando dos casamentos de Baela e Jace, e Rhaena e Luke, que foram anunciados hoje, antes de toda aquela confusão. — Se casarão em breve. Não é tão ruim. Na maioria das vezes, ele apenas ignora você… exceto algumas vezes quando está bêbado.
Sor Otto foi a única pessoa na sala — além de mim, claro — que riu daquilo. Todos os outros estavam sérios, afinal, era algo fora do esperado, ainda mais para Helaena. Sem contar que ela estava falando de Aegon. Bebi mais um gole, tentando reprimir o riso. O jantar, que havia começado relativamente bem, agora estava uma bagunça, e a tensão apenas aumentava.
Inclinei-me de novo para ainda mais perto de meu marido e sussurrei em seu ouvido:
— Pelo menos ele não a ignora em todas as vezes, não é?
Aemond apertou a taça em sua mão até os nós dos dedos ficarem brancos. Parecia tentar ao máximo segurar a irritação enquanto eu o observava, quase deliciada. Queria qualquer coisa que pudesse ter dele. Queria que ele sentisse o peso de minha presença, tão próxima a ele. Desejava entender os porquês de tudo aquilo ser como era. Queria, mais do que tudo, que ele falasse comigo, confiasse em mim. Era a sua esposa, afinal de contas.
— Se ao menos você pudesse me ignorar de vez em quando. — As palavras afiadas escorregaram de sua boca, mas me atingiram como uma lâmina embotada qualquer.
— Nunquinha — prometi, pousando a mão sobre sua coxa em um toque leve. — Agora relaxe, marido. Não precisa ficar tão tenso.
Seu olho permaneceu sobre a minha mão por um momento antes de me lançar um olhar de soslaio. Sua irritação era mais do que clara, mas havia algo a mais ali. Ou ao menos era nisso que eu queria acreditar. Já estava mais do que comprovado que, por vezes, meu toque ou apoio trazia-lhe um alívio calmante — a não ser que eu o estivesse lendo muito errado. O suspiro frustrado que escapou de seus lábios parecia espelhar o que eu sentia por dentro com todas aquelas incógnitas. Aemond afrouxou o aperto na taça e levou-a aos lábios, tomando um generoso gole do vinho.
— Está tentando me provocar? — perguntou, baixinho, entre um gole e outro, sem jamais olhá-la.
— Eu? — indaguei de volta no tom mais sonso de meu repertório enquanto assistia ao príncipe Jacaerys tirar sua tia Helaena para dançar apenas no intuito de provocar Aegon.
— Sim, você — resmungou.
E lá estava o olhar dele de novo, sobre a minha mão descansando em sua coxa. Foi quando, enfim, percebi. Algo dentro de Aemond estava reagindo ao meu toque. Ele não conseguia desviar o olhar de lá. Eu não havia planejado isso, embora tenha sido uma boa jogada. Mas a noite ainda não havia acabado. Minha gentileza não era provocação. Mas podia dar isso a ele em um piscar de seu encantador olho violeta.
Tirei a mão de cima dele e me levantei em um movimento rápido. O mundo chacoalhou e girou ao meu redor, porém continuei de pé com a taça na mão. Caminhei até Aegon e usei da jarra ao seu lado para me servir. Olhei de relance para Aemond antes de tomar um grande gole e voltar-me ao seu irmão.
— Dançaria comigo, meu príncipe? — convidei Aegon.
— Com você, minha lady, sempre — concordou. Aquilo me divertia, mas também me despertava um pouco de irritação. Queria essa prontidão vinda de outra pessoa, e não do irmão que não podia chamar de meu.
— Podemos chamar de “dança do vinho”, o que acha? — Tomei mais dois grandes goles e pousei a taça sobre a mesa. — Para combinar com os movimentos vertiginosos que apresentaremos.
— A dança do vinho, de fato — concordou, com a voz levemente arrastada.
Aegon agarrou minha mão e me levou para o meio da pista improvisada que Jacaerys e Helaena utilizavam. Nos balançamos de um lado para o outro, divertindo-nos apesar dos passos instáveis. A doce Helaena, quando percebeu nossa presença, sorriu — provavelmente mais por causa de mim do que por seu irmão-marido. Sorri de volta sem hesitar. Gostava de vê-la contente.
Então deixei meus olhos navegarem de volta ao meu ponto de partida. Aemond definitivamente não estava gostando nada daquilo, o que fez meu sorriso crescer ainda mais. A mão apertada outra vez contra a taça de um modo quase violento. Seu olho estreito me fitando. Eu daria qualquer coisa para saber o que se passava na cabeça dele naquele exato momento.
— Tente não cair — gritei para Aegon, rindo, quando seus pés se enrolaram. — Vai nos envergonhar.
— Vou tentar o meu melhor, Lady — respondeu, com um sorriso largo.
Continuamos a dançar, e Aegon continuou a sofrer para manter o equilíbrio. Mas estava sendo bom. Ao menos assim ele era capaz de divertir-me um pouco. Esperava que cada giro torto e mergulho descompassado que fazíamos juntos esfregasse sal em alguma ferida de Aemond. Desejava, do fundo de meu âmago, que aquelas provocações atravessadas e carinhos não intencionais servissem para um estreitamento de laços ou, caso não fosse possível, que rompessem qualquer coisa que existia entre nós de uma vez por todas. Afinal de contas, era mais simples saber exatamente o que esperar — ainda que isso fosse literalmente nada —, do que adormecer na dúvida para ser acordada com a água pelo pescoço, me afogando sozinha.
Nossas danças foram bruscamente interrompidas quando o rei Viserys teve de ser removido, por não estar se sentindo bem. Nós ainda ficamos parados ali por algum tempo, meio que sem saber o que fazer depois daquele momento anticlimático. Então não vi o que direcionou a raiva de Aemond a ponto de ele socar a mesa à sua frente e se levantar.
— Um tributo final — anunciou, erguendo a taça. Aegon e eu corremos para pegar nossa bebida para acompanhá-lo. — À saúde dos meus sobrinhos. Jace… Luke… e Joffrey. São rapazes bonitos, inteligentes… e fortes. Vamos beber em homenagem a esses três garotos fortes.
Aegon levantou sua taça ainda mais alto quando percebeu a piada com os garotos Strong, os bastardinhos. Eu tomei um pequeno gole, esperando o mundo pegar fogo ao meu redor. E pegou. Deuses, como pegou! Eles brigaram com palavras na maior parte do tempo. O príncipe Jacaerys até deu um soco no rosto de Aemond — algo que eu não podia negar que causava uma grande e bela ambivalência de sentimentos dentro de mim: eu gostava um pouquinho de ver, mas também detestava. E a pantomima se prolongou enquanto eu tomava gole após gole até minha taça secar.
Depois de um certo tempo, o pior do momento se findou. O príncipe Daemon encarava Aemond, que o encarava de volta. Estava mais do que na hora de me intrometer. Por isso, fui até o meu marido e envolvi seu braço em um toque repreensivo porém gentil.
— Chega, valzȳrys — murmurei.
Sabia que Aemond não era tolo, mas também conhecia a enorme obsessão que ele tinha por Daemon Targaryen. E não queria ver o príncipe mais velho cortando a cabeça do meu príncipe ao meio. Era jovem demais para ficar viúva. E ainda nem tinha consumado o casamento. Que os deuses me ajudem!
Apesar dos punhos cerrados, da raiva e do ódio caótico em seu olhar, Aemond deu um passo para trás. Ele aceitou, com relutância, ser guiado por mim para longe de seu tio, o que me trouxe certo alívio. Fitei-o de perto, para ver se não estava machucado por causa do soco que seu sobrinho lhe dera, mas tudo parecia bem. Não que a minha visão afetada pelo vinho estivesse perfeita, claro.
Aemond me observava também, era perceptível. Sua mão escorregou por uma mecha de meus cabelos e eu fechei os olhos por um instante. A sensação era boa demais para não apreciar.
— Você bebeu muito vinho, ābrazȳrys — soltou em um tom estranho. — Deveria ir mais devagar.
— Ah, então agora vai regular a minha bebida, valzȳrys? — enrolou a língua. — Não fui eu quem saiu criando briga com os bastardinhos no jantar.
— Não estou tentando regular nada — retrucou, ignorando a segunda parte. — Mas você está claramente fora de si por pelo menos metade da noite, e isso te deixa ainda mais imprudente do que normalmente é.
— Então acho que combinamos muito bem, não é? — rebati. — Duas crianças imprudentes, em conflito constante consigo mesmas, com o outro, com o mundo, e levando um ao outro à loucura.
— Talvez esteja certa. — Franziu o cenho. — E isso não melhora as coisas, você sabe disso.
— Nada torna as coisas melhores para você, Aemond, e você simplesmente não se comunica direito comigo — lamentei. — Eu não sei mais o que fazer.
Dei-lhe as costas e me retirei da sala sem me despedir de ninguém. O clima não estava dos melhores, e todos estavam tão mergulhados em suas brigas de poder que nem perceberiam a minha falta de tato.
Não me virei ao ouvir passos apressados ao meu encalço. Já imaginava que viria atrás de mim e, se não viesse, me encontraria em minutos nos nossos aposentos. Aemond, de fato, logo me alcançou e aderiu ao meu ritmo. Ele agarrou o meu braço em um aperto firme e cuidadoso, como se quisesse apenas me guiar.
— Vamos voltar aos nossos aposentos — declarou.
— Claro que vamos… o casal perfeito — destilei sarcasmo antes de segurar-me nele para me certificar de que não cairia. — Pelos sete infernos, o mundo está girando mais do que deveria.
— Suponho que sim — suspirou, parecendo quase cansado. Então puxou-me para si em um abraço que me apoiava melhor do que apenas o aperto no braço de anteriormente, e seguimos nosso caminho. — Seu mundo gira tanto porque você está bêbada demais.
— Ei, não fica todo frustrado desse jeito. — Soltei uma risadinha. — Eu disse que você não tinha ideia do quão difícil eu seria hoje à noite.
— É… Na verdade, acho que eu até tinha uma ideia — comentou, seu tom de voz mais leve. — Mas pode ter certeza que você superou as minhas expectativas.
— É o que eu sempre tento fazer. — Deixei escapar. Esse era apenas mais um dos problemas em ficar embriagada, talvez o pior de todos: a maldita língua solta.
Tudo o que ele fez foi me dar uma boa olhada e arquear a sobrancelha. Então adentrou nossos aposentos, puxando-me com ele, e trancou a porta. Isso era algo que eu sempre gostei em Aemond desde a nossa noite de núpcias: ainda que não fôssemos fazer nada demais, sempre teríamos a garantia de não sermos incomodados. Olhei bem para ele, tentando fazer meus olhos focarem em sua feição, mas o vinho tinha feito o seu trabalho tão bem que era difícil fazer qualquer coisa direito.
Aemond me levou, pé por pé, para a câmara privada dos nossos aposentos e, enfim, me soltou. Não demorou muitos segundos para eu perceber que ficar sem apoio não era uma boa ideia, então apenas fiquei parada, de cabeça erguida, fingindo que estava tudo bem e que eu estava em perfeito estado. Aemond logo veio até mim outra vez. Depois de todos aqueles anos de convivência enquanto ainda éramos prometidos um ao outro, meu marido me conhecia bem — até mais do que eu desejava.
— O que está fazendo? — resmunguei quando ele começou a afrouxar os laços do meu vestido. — Eu posso me despir sozinha.
— Hmm — disse, apenas, em um tom de quem esfregava um “claramente não pode hoje” no meu rostinho bêbado.
— Está bem! — Fiz um beicinho e deixei os ombros caírem. — Ouvi dizer uma vez que para odiar uma pessoa, ou qualquer coisa perto disso, é preciso conhecê-la bem.
— O quê? — Ele quase riu. Suas mãos trabalhavam agilmente para me libertar das roupas do jantar, mas seu toque era terno. — Onde ouviu uma bobagem dessas?
— De uma bruxa na Mataderrei — confessei e ele parou tudo o que estava fazendo para me encarar. — Eu nem consigo focar no seu rosto e, mesmo assim, sei que está me lançando um olhar julgador. Pode parar! Foi há quatro anos, eu era uma criança! — Revirei os olhos. — E eu tinha esperanças em ouvir algo bom sobre… Tanto faz. Lembra da bruxa de que tanto falavam na época da caçada real? Eu a encontrei em um daqueles dias.
— Eu não deveria estar surpreso, deveria? — Aemond permitiu-se um pequeno riso, o que me surpreendeu. Com o vestido já no chão e, sabendo como eu não gostava de dormir vestida, ele tirou o resto. — O que queria saber da bruxa, ? Algo bom sobre o quê?
— Sobre nós, é claro. Eu queria um bom casamento, e desde que me beijou no Bosque Sagrado, tudo o que existia entre a gente era essa coisa maluca cheia de provocações e alfinetadas — falei, sem parar. — Pelos sete infernos, esse vinho maldito… Eu deveria fechar a minha boca.
— Talvez. — Ele me guiou até a cama em movimentos cuidadosos e me cobriu com os lençóis. — Ou talvez deva me contar o que a maldita bruxa falou.
— Ah, eu chamei sua atenção, não foi? — Sorri abertamente e, apesar de não enxergar muito bem, tive certeza de que ele revirou os olhos. — Disse que eu teria muitas coisas e… Não, vou ser sincera. Ela me disse que eu teria quase tudo o que queria, mas que seria breve, que eu teria que aprender a aproveitar, ou perderia tudo antes de desfrutar das partes boas.
— Breve? — repetiu ao começar a se despir.
— Não me pergunte, também não sei. — Suspirei. — Pensando bem… Sua irmã me disse algo semelhante no banquete do nosso casamento. Algo com a ver com os sonhos dela.
— Helaena sonhou com nós dois? — Livrou-se da túnica, expondo seu peito desnudo, e sentou-se na cama para tirar os sapatos. — Sonhos proféticos?
— Então acredita no dom dela também? — perguntei, mas não esperei por uma resposta. — Ela me disse que felicidade e ruína chegam de maneiras inesperadas, e que nosso casamento seria feliz “de seu próprio jeito”. Acho que a ruína são os nossos desentendimentos quase incessantes.
— Não. — Levantou-se outra vez, afastando os sapatos. — Ruína é uma palavra muito forte. Para algo ruir, precisa ser construído primeiro.
Fechei os olhos e respirei fundo. Meu marido estava certo, de fato. Nem mesmo as paredes entre nós dois eram sólidas o suficiente para algo de tamanho impacto. Doía pensar que nem tínhamos ainda a prometida felicidade e já sabíamos que seria tirada de nós.
— O preço será alto — soltei.
— Preço? — ecoou.
— Sim. Quando fui mais direta com a bruxa e disse que queria saber se as coisas um dia dariam certo entre mim e o príncipe… — apontei para ele, que agora desfazia-se de suas calças — … a maldita me falou que o preço sempre é alto e, uma hora ou outra, ele é cobrado. Acho que estamos destinados à ruína, meu príncipe. Que lindo casal, não?
— Prefiro pensar nas coisas grandiosas que precedem à ruína. — Virou-se para me encarar.
— Pense no que quiser. Não acho que algo grandioso virá do que temos, ou tentamos ter. Se fosse assim, eu não precisaria “aprender a aproveitar”, como a bruxa disse. — Afastei os lençóis de maneira que eu ficasse exposta outra vez. — Eu não entendo você, sabia?
— O que não entende? — Seu olhar surpreso recaiu sobre o meu corpo desnudo.
— Para ser sincera, pensei que mesmo me odiando, você iria querer me foder depois que nos casássemos… Se não imediatamente, talvez alguns dias mais tarde, nem que fosse só para marcar território, sabe? Para dizer que “ela é minha e eu faço o que quiser com ela a hora que eu quiser”. — Fiz uma pobre imitação de sua voz. — Mas não…
Aemond fechou o olho e cerrou os punhos ao lado do corpo, mas não se moveu.
— Eu tenho meus motivos — murmurou, tenso. — Não é tão simples assim.
— Imagino que tenha boas razões, sim, porque qualquer homem já teria o feito. Mas você não é qualquer homem. Nunca foi… Nem mesmo quando éramos mais novos, eu me lembro bem. — Meus lábios se curvaram levemente para cima em um movimento tão natural, que pareceu automático. — Mas você não fala comigo, Aemond. — Suspirei. — E se eu me sinto carente, tudo o que posso fazer é deslizar a mão entre as coxas e me tocar pensando em v-... — Parei de imediato ao me dar conta do que estava dizendo. Maldito seja aquele tinto dornês! Apressei-me em me corrigir: — Pensando no que mais me apetece.
— Você…? — Seu olho estava arregalado. — Você pensa em mim?
— Eu não disse isso. — Empinei o queixo, dona de mim, e ele estreitou o olho.
— Você quase disse — acusou-me e caminhou em minha direção. — Não tente negar, ābrazȳrys.
— Não, eu não fiz isso — continuei a negar apenas para provocá-lo.
— Fez, sim — retrucou, irritado. — Você simplesmente se recusa a admitir, como sempre faz.
— Assim como você se recusa a falar comigo. Sabe de uma coisa, valzȳrys? Acredite no que quiser — falei, já pensando em como poderia provocá-lo ainda mais. — Sabe em quem eu penso? No seu irmão.
Ele respirou fundo e cerrou os punhos de novo. Seu maxilar tenso apenas ressaltava o quanto aquilo o incomodava.
— Você realmente gosta de testar a minha paciência — resmungou, a voz tão baixa que quase não deu para escutar. — É uma mentira imunda, e você sabe disso tanto quanto eu.
— Será que é? — rebati e ele agarrou o meu braço, erguendo-se sobre mim. Fixou seu olhar tempestuoso no meu por um breve instante e puxou-me um pouco mais para perto.
— Está mentindo — disse.
— E você está com ciúmes — notei.
— Você não cansa de me testar. — Frustrou-se.
Não, eu não me cansava disso.
— Eu gosto quando me toca — sussurrei —, mesmo se for assim.
Aproveitei o contato e puxei seu braço. Com o impulso, ele caiu por cima de mim, e então roubei-lhe um beijo. A fricção dos meus lábios contra os dele foi de uma mera faísca à combustão muito rápido. E quando o gosto remanescente do tinto dornês se misturou ao gosto dele, um calor avassalador cobriu meu corpo como um cobertor das peles mais macias e confortáveis. Aemond levou a mão à parte de trás da minha cabeça e seus dedos se emaranharam em meus cabelos. Beijei-o com ainda mais vontade, até que ele afastou sua boca da minha.
— , você está bêbada — murmurou devagarinho ao deslizar por cima de mim para se abancar do seu lado da cama. — Não sabe o que está fazendo.
— Você está certo. — Assenti repetidas vezes, tentando me recuperar. — Sabe o que eu sei?
Esperei por uma resposta que nunca veio, então ajeitei-me na cama. Sentada no meu lugar, virei-me um pouco para olhar de verdade para o meu marido. Estiquei o braço e abarquei a lateral de seu rosto. Toquei a região do tapa-olho devagar, com medo de um tapa ou qualquer outra reprimenda que nunca veio. Aemond jamais me mostrara aquela parte machucada dele, a cicatriz escondida. Depois de casados, ou aquele lado do rosto estava virado para longe de mim, ou ele estava usando o intimidador tapa-olho. Removi-o do caminho quando ele não afastou minha mão, e encarei a incrível pedra preciosa no lugar de onde um dia, antes de eu conhecê-lo, seu outro olho ficara. O azul intenso brilhava sob a luz fraca dos aposentos, um detalhe que deixava tudo ainda mais… deslumbrante.
— Eu sei que você é lindo desse jeito — confidenciei em tom suave. — Com essa poderosa safira e tudo.
— … — murmurou apenas, fechando seu olho bom.
Escorreguei os dedos por sua cicatriz em um movimento leve e terno. Era algo que pertencia somente a ele, ainda que viesse de uma memória ruim. Era uma vulnerabilidade que Aemond nunca tinha me deixado ver… até hoje. E agora ele não apenas o fez como permitiu que eu mesma removesse o tapa-olho. Tinha que significar alguma coisa. Deuses, por favor, que signifique alguma coisa!
— Aemond… — suspirei como se o seu nome fosse a mais doce melodia dos Sete Reinos. Ele abriu seu olho e me fitou. Acariciei sua bochecha e sorri. — Obrigada por não ter me deixado cair por causa da minha embriaguez.
— Claro… Sou seu marido. — Sua mão cobriu a minha e seu polegar moveu-se em um carinho gentil. — Mesmo nos momentos em que está sendo insuportável e imprudente.
— Ou seja: em todos os momentos, não é? Ah, Aemond, eu amo odiar você, meu marido insuportável e imprudente. — Deixei uma risada sincera escapar e joguei-me de volta no colchão, cobrindo-me com os lençóis. — E eu também odeio as coisas estranhas que você me faz sentir.
— Você parece ter uma queda por sentimentos contraditórios — disse ele, mas havia um pequeno sorriso em seus lábios. — Talvez um dia você faça sentido.
— Tudo o que eu quero é que você faça sentido para mim — admiti. — Eu odeio muito quando eu não consigo te ler.
Seu maxilar se tencionou, como em muitas das outras vezes. Aemond manteve seu olhar sobre mim por um longo tempo. Às vezes parecia que ele queria me dar uma verdadeira resposta, mas nada saía. Ou talvez eu estivesse bêbada demais, tentando ver algo onde não existia nada. Então Aemond envolveu sua mão na minha e seus dedos entrelaçaram-se com os meus.
— Eu não sou um livro aberto, ābrazȳrys — disse. — E você odeia coisas demais.
— Assim como você guarda muitos rancores por coisas que aconteceram antes mesmo de eu chegar aqui. — Puxei-o para deitar-se na cama. — É por isso que sua alma está tão pesada.
Ele acomodou-se sob os lençóis comigo, como em todas as outras noites. Ergueu sua mão em um movimento carregado de relutância e afastou uma mecha de cabelo da frente do meu rosto, onde repousou sua mão por um longo tempo.
— É por isso que você me odeia? — perguntou baixinho.
— Eu não odeio você, valzȳrys, nem poderia — suspirou. — Eu não gosto de muitas coisas em você, isso é verdade. Mas também não gosto de muitas coisas em mim mesma.
Ele ficou ali, em silêncio, apenas me observando. A mão permanecia entrelaçada na minha, e seus dedos ainda acariciavam meu rosto. Talvez houvesse esperança para nós em algum lugar. Talvez fosse apenas questão de tempo.
— Então somos dois — falou, enfim. — Eu acho.
— Pelos sete infernos. — Ri, deitando-me de barriga para cima, e encarei o teto, que ainda girava um pouco. Minha cabeça estava uma bagunça, e o vinho não era o único culpado. — Talvez Aleena estivesse certa, no fim das contas.
— Certa sobre o quê? — perguntou. — E quem diabos é Aleena?
— A minha criada, aquela que eu mais gosto, sabe? — expliquei. — Um dia antes do nosso casamento, lá no pátio, ela disse que você e eu fomos feitos um para o outro.
Aemond apoiou-se nos cotovelos para poder me olhar, de cenho franzido. Eu não podia culpá-lo. A ideia parecia mesmo absurda. Brigávamos e discutíamos com demasiada constância. Era um relacionamento construído sobre atrito e tensão.
— Feitos um para o outro? — repetiu em tom amargo. — Essa é uma noção ingênua e tola, para dizer o mínimo. Somos tão opostos quanto possível.
— Eu disse a ela o mesmo, ou ao menos uma versão disso — revelei. — Mas, pense comigo: não somos tão opostos assim. Acho que brigamos tanto porque vemos um no outro algumas das muitas coisas de que não gostamos em nós mesmos.
Aemond pareceu pensativo por um momento. O aperto em minha mão aumentava a cada segundo, mas não a ponto de machucar; nunca a ponto de machucar.
— Somos teimosos demais, intensos demais — murmurou. — E muito, muito orgulhosos.
— É, somos insuportáveis. — Eu quase ri. — Mas aqui estamos nós: tão juntos e tão separados.
— Insuportáveis, de fato. Presos juntos, mas em constante desacordo — admitiu, frustrado. — Vá dormir, . Amanhã será um longo dia, já que você bebeu demais.
— Ah, que fofo! — fui sarcástica. — Agora você se preocupa comigo.
— Eu me preocupo, sim! — confessou, surpreendendo-me. — … Porque é meu dever. — Desviou o olhar. — E sempre me preocupei. Você só estava muito ocupada me odiando para notar.
— Já disse que não odeio você — insisti. — É muito mais complexo que isso.
Aemond soltou um suspiro longo e exasperado. Eu não podia fazer nada quanto a isso. Não havia mentido. Era mesmo mais complexo. Os deuses sabiam bem como eu queria que as coisas fossem mais simples. No entanto, o fato era que o vínculo distorcido que Aemond e eu tínhamos ia muito além de casamento, amizade, ódio, desavenças, cumplicidade.
— Sim… mais complexo — disse, sua voz quase um sussurro. — Mas você está bêbada demais para ter essa conversa agora.
— Eu sei, eu sei. — Fiz beicinho. — Tenha uma boa noite, valzȳrys.
— Bons sonhos, ābrazȳrys — desejou, afrouxando o aperto em minha mão até soltá-la de vez e, por fim, deitar sua cabeça no travesseiro ao meu lado.
Quando eu quase não conseguia mais manter meus olhos abertos por causa da sonolência, seu olhar ainda permanecia sobre mim. O leve brilho violeta sob a fraca iluminação foi a última coisa que vi antes que meus olhos bêbados enfim se fechassem.
Eu odeio gostar de você
“I’d Be Fine (If I Never Saw You Again)”
All Time Low
A visão de adormecida ao meu lado fazia coisas comigo que eu era incapaz de explicar. Era assim com quase tudo sobre ela desde que éramos crianças. Um peso me pressionava para baixo em reflexo à nossa conexão não verbalizada. O quebra-cabeça mais do que complexo de nosso relacionamento girava em minha cabeça, as peças tentando se encaixar com violência enquanto eu estudava suas feições calmas, pacíficas até. Olhando assim, nem parecia que ela tinha bebido tanto e, por isso, tivera que tomar conta dela. Não que eu esteja reclamando, claro.
De qualquer modo, vê-la enfim ser carregada pelo sono e cansaço me trazia certo alívio. Um descanso por não me ver obrigado a fingir e a me controlar para não estragar o que tentávamos — mesmo que de modo distorcido — construir. Ainda assim, tornava-se um jogo de autocontrole mais e mais complicado a cada segundo que a tênue luz das velas banhava seu rosto e sua respiração quebrava o silêncio ensurdecedor.
Odiava como me sentia a respeito dela desde o bendito dia em que a conhecera e descobrira que, além de ser completamente diferente do esperado, do prometido por minha mãe, ela era tudo o que eu jamais poderia odiar — ao menos não por inteiro. Desejo e resistência batalhavam por dominância em meu interior dia e noite desde então. E era apenas quando via Hightower em um estado tão vulnerável quanto agora que acreditava que talvez algum dia conseguiria baixar um pouco a guarda e, por consequência, me abrir para ela.
Deixei um longo suspiro escapar e estendi a mão para colocar uma mecha de cabelo para trás de sua orelha. Apesar do medo de acordá-la com um simples toque e acabar com o encanto, demorei-me com a mão em seu rosto, sendo acalentado pelo calor de sua pele enrubescida. Tão bela, tão minha… A minha . Eu era dela, e ela era minha, como já diziam os votos do casamento. E maldito fosse aquele que se interpusesse entre a gente.
— Maldito seja — murmurei baixinho as nossas palavras.
Mas e se o maldito da história fosse eu, que detestava gostar dela e não saber como manejar a situação? Com , tudo sempre fora um jogo de amor — ou benquerer — e ódio. Ou, já que ela insistira que não se tratava de ódio, talvez fosse um joguinho de gostar e desgostar, de nutrir certo carinho e não saber lidar com isso.
E então, na noite de núpcias, quando escolhi ceder e cumprir meu dever vazio de marido, interrompera tudo, não permitira que aquela cena seguisse em frente sob cobertores de falsidade. E ainda afirmara que apenas cumpriríamos nossos deveres como marido e mulher quando eu de fato quisesse a tocar. E não antes. Nunca antes.
E não era como se não quisesse tocá-la. Os malditos deuses sabiam bem como eu me sentia tão atraído quanto repelido por ela. Mesmo assim, me senti grato por sua negação. Muito grato. Isso me fez gostar ainda mais dela, sentir como se ela entendesse pelo menos uma mínima parcela da desordem que carregava em meu interior. Eu não tinha certeza se queria a parte do sexo naquela vez. Havia tanta coisa dentro de mim que mal conseguia entender, muito ódio pelos outros, raiva contra o mundo e tanta, mas tanta confusão.
Sete infernos! Meu coração ainda disparava ao me lembrar do momento, das emoções conflitantes daquela noite. Eu tinha meus problemas de intimidade, isso era inegável. A única mulher com quem já havia me deitado foi a Madame do bordel da Rua da Seda. Aegon me levara lá no décimo terceiro dia do meu nome para que ela tomasse conta de mim, para que eu “me molhasse”, como ele mesmo havia dito. E fora exatamente como mencionara na noite de núpcias: eu mal sabia o que estava fazendo. Tinha vergonha só de recordar que sabia disso, mesmo que apenas superficialmente, por Aegon ter se gabado da proeza.
E o pior de tudo era que agora, depois de mais velho, passara a voltar lá. Minha maior vergonha, aquela da qual não conseguia me livrar… Eu era um monstro por muitos motivos, e esse era um deles. Buscar segurança em um lugar que deveria ser meu terror!? E nem essa humilhação interna me tornava capaz de mudar, porque eu era, acima de tudo, uma criatura previsível. Casado ou não, ainda era previsível como os sete infernos. Sempre a mesma bagunça, o mesmo garoto, o mesmo homem, as mesmas contradições…
Segurança… Ansiava por ter isso com a mulher deitada ao meu lado. Cerrei o punho com força para conter a vontade de tocá-la, de me aninhar com ela e implorar para que me fizesse sentir todo o conforto que buscava. Isso só provava o quanto ela estava mesmo certa sobre mim. Eu não falava com ela. Realmente não falava. E mal conseguia me encarar em um espelho quando pensava a respeito. Mas era tão difícil.
O fardo das palavras não ditas e do turbilhão de emoções que mal conseguia começar a desvendar me esmagava a ponto de me roubar o ar. Jamais poderia negar suas acusações. Nunca fora bom em me expressar, especialmente para . A ideia de me abrir, de expor minha alma abatida e feia para ela me aterrorizava demais, porém eu continuava ansiando, mais do que tudo, por encontrar um caminho para tornar isso possível.
Talvez um dia. Era só o que eu podia esperar enquanto me esforçava para manter os olhos abertos e continuar olhando para o lindo rosto de minha esposa. O que me trazia conforto era que, mesmo dormindo, ainda a veria. Jamais conseguia escapar de , nem na época em que costumava desejar isso. Meus sonhos eram assombrados por sua presença. Sua imagem e memória se misturavam com meus pensamentos e tudo parecia mais fácil — ou então terrivelmente mais difícil. Mas de uma coisa podia ter certeza ao adormecer: da Casa Hightower sempre estaria lá, para sempre uma constante em minha vida, um tormento e um consolo — e eu não sabia lidar com nada daquilo. Nunca soube como lidar com nada relacionado a .
Talvez algum dia…
Fui arrancado drasticamente de meus doces sonhos com Hightower por batidas na porta. Cedo. Cedo demais. Meu pai parecera pior do que de costume na noite passada. Coisa boa não deveria ser. Levantei-me com cuidado, vesti minha túnica de dormir e fui até a porta.
— O que é? — perguntei assim que vi Sor Criston Cole, contudo já imaginava a resposta.
— O Rei Viserys I, ele… — Sor Criston parou antes de completar, mas apenas fiz sinal para que pulasse essa parte. — Não conseguimos encontrar Aegon em lugar nenhum.
Suspirei e revirei os olhos. Que novidade o meu maldito irmãozinho não estar onde deveria no momento certo… Era incrível como Aegon conseguia sempre se tornar um incômodo. No entanto, eu sabia sobre o que uma visita dessas de Criston Cole ao alvorecer se tratava: precisávamos encontrar o meu irmão para coroá-lo antes que a notícia se espalhasse pelo castelo, pela cidade e além. Infelizmente não significava: “a posição está vaga e, como Aegon parece não se importar e provavelmente está bêbado em um prostíbulo, você é o próximo na linha de sucessão, Aemond”.
Não. As coisas não chegavam fáceis para segundos filhos, e era isso que eu era. Por isso, ainda que a mente permanecesse dividida entre a lealdade para com a família e minhas próprias ambições, estava determinado a cumprir meu dever, minha responsabilidade para com a coroa e seu poder distorcido. A perda de meu pai… Se pelo menos o maldito do Aegon não nos desse todo esse trabalho agora… Sua ausência apenas aumentava o caos e a incerteza. O trono não podia ficar vago. Nunca. Jamais.
— Espere aí fora. Irei me vestir — disse ao cavaleiro. — E não faça barulho, ou acordará .
E dei-lhe as costas, fechando a porta. Vesti-me o mais rápido que pude e parei ao lado da cama para fitar outra vez, agora minha esposa, minha doce ābrazȳrys… Deveria acordá-la e contar que varreria Porto Real à procura de Aegon com Sor Criston? Ela estava tão profundamente adormecida depois de todo o vinho que bebera na noite anterior… Tão bela em seu sono. Dava até pena de extirpar esse momento precioso dela.
De novo, peguei-me querendo tocá-la, ficar com ela são e salvo em nossa cama, compartilhar… A cada dia estava tendo que me esforçar mais ardentemente para me conter. Talvez isso fosse um bom sinal, mas não era hora de pensar nisso. A tarefa em mãos dizia respeito ao poder vago e como tínhamos que arrastar o detestável do meu irmão até o Trono de Ferro.
Dei a volta na cama para sair da parte reservada dos aposentos, mas parei para olhar por cima do ombro. Apenas um último vislumbre. Eu precisava daquilo, precisava de um pouquinho dela para levar comigo. E então retornei sem nenhuma resistência. Inclinei-me sobre ela, com o coração acelerado, e pressionei os lábios contra sua testa.
Um sorriso surgiu em meus lábios ao ouvi-la murmurar suavemente, sem acordar. Afastei-me e observei-a mais um pouco. Se soubesse o real efeito que tinha em mim, eu estaria perdido. Toda a pequena intimidade que conseguia tirar das interações com ela era um doce veneno que só me deixava querendo mais.
— Talvez um dia — sussurrei.
Mas agora o dever me chamava, e eu precisava atender.
Apesar de demorado, a percepção de tempo do dever passou em um piscar de olhos, graças aos deuses. Depois de procurarmos e falharmos inúmeras vezes em encontrar o meu estúpido irmão bêbado, enfim o encontramos. E como se não bastasse, ele deixara as coisas ainda mais difíceis para mim ao me oferecer a coroa. Simples assim. Apenas foi lá e me pediu para que o deixasse fugir e reivindicasse cargo e coroa para mim. Entretanto, antes que eu sequer pudesse responder à tentação, aquele maldito Sor Criston Cole tomara Aegon de meus braços e, assim, acabamos por trazê-lo de volta à Alicent.
E agora estava ali, com a alma mais suja e pesada que nunca, o silêncio do castelo latejando ao meu redor. Um suspiro profundo não bastou para afastar a dor da escolha não feita, a amargura da oportunidade perdida. Minha mente acelerava com mil hipóteses e mais uma, o caminho não percorrido atormentando-me a cada passo ecoado naqueles corredores mortos. Quase conseguia sentir a coroa de Jaehaerys, O Conciliador — que meu pai usara em vida — ou a coroa do próprio Aegon, o Conquistador, na minha cabeça, pesada e imponente. Mas, no próximo instante, já não havia nada além da mera fantasia do que poderia ter sido.
E então adentrei o conforto de meus aposentos… de nossos aposentos. estava lá, com um vestido simples, próxima da janela, tomando um pouco de ar fresco. Ela virou-se para me ver entrar.
— Ouvi dizer que temos uma coroação para comparecer — disse ela, como se esse fosse um dia como qualquer outro.
Infelizmente não a minha. Tive que me segurar para não pronunciar as palavras. Era como se o momento tivesse congelado no tempo, e eu não soube o que dizer nem mesmo para desconversar. Simplesmente sabia que precisava contar tudo a ela. Não podia esconder-lhe nada, não dela. Só não sabia direito como fazer isso ainda. Abri a boca uma e duas vezes, mas o som pareceu se prender em minha garganta. Só conseguia fitá-la, como se meu olhar repleto de incerteza e verdades não ditas pudesse explicitar tudo. Não podia, e só de pensar em confessar o que se passava na minha cabeça, meu coração explodia de ansiedade.
— O que houve, valzȳrys? — perguntou devagar. — Sua mãe me disse que mandou Sor Criston e você atrás do seu irmão. E ela ficou muito irritada quando comecei a rir.
Contraí a mandíbula e estreitei o olho. Por que ela acharia graça de um assunto tão sério? Isso apenas tornava as coisas ainda mais complicadas. Será que não conseguia compreender?
— Você acha isso engraçado? — entrei na defensiva.
— Ah, me desculpe, acho que não me expliquei bem. — Sacudiu a cabeça, sem nenhum sinal de diversão na voz. — Eu ri quando ela me contou que o Aegon estava desaparecido. Quer dizer, no estado que o pateta estava ontem à noite, obviamente estaria desmaiado em algum canto desta cidade fedorenta. — Revirou os olhos. — Eu provavelmente estaria do mesmo jeito, não fosse você ter me trazido aqui, me despido e me colocado para dormir.
E assim minhas defesas começaram a se desvanecer outra vez.
— Não precisa me agradecer por isso. — Suspirei.
— Bem, eu não estava agradecendo. — Fez um beicinho exagerado. — Mas deveria estar, sim, você merece. Obrigada, valzȳrys, por ter sido um bom marido quando mais precisei.
fora honesta e gentil. Gentil demais, o que me deixou um pouco surpreso. Não estava acostumado a vê-la expressar gratidão nem reconhecer minhas ações de maneira tão sincera e aberta. As barreiras que tão cuidadosamente erguera ao meu redor se abalavam junto de todos os habituais mecanismos de defesa. Ela me desarmava cada vez mais e tudo o que eu parecia conseguir fazer era ficar parado ali, com pensamentos e sentimentos emaranhando-se em minha cabeça como raízes de uma árvore muito antiga.
Então estendeu as mãos para mim em um claro convite de aproximação. Hesitei, abrindo e fechando minhas próprias mãos, dividido entre o desejo de ceder e o medo da intimidade que isso traria. Ao capturar seu olhar, contudo, fui incapaz de resistir. Os olhos de guardavam algo que atraía a minha alma, uma vulnerabilidade que me fazia querer protegê-la e afastá-la simultaneamente. Mais ainda, fazia-me desejar ser protegido por ela.
envolveu minhas mãos estendidas e me trouxe para perto de si, para o ar fresco da janela. A luz do sol iluminou seu rosto triste enquanto ela não tirava os olhos do meu.
— Sinto muito, Aemond — lamentou. — Seu pai… Ele faleceu e você nem teve tempo de sentir isso por causa do Aegon. — Cuspiu o nome do meu irmão.
— É… é complicado. — Meus dedos se fecharam ao redor das mãos delas.
— Sei que sim — assegurou-me. — Só quero que saiba que sinto muitíssimo pela sua perda… e que estou aqui.
Seus olhos não a deixavam mentir, eles transpareciam a compaixão genuína que sentia por mim. Tive que desviar o olhar antes de falar qualquer coisa. Era incapaz de encará-la daquele jeito.
— Obrigado… — murmurei, incerto, mas o aperto em suas mãos me denunciava. A tempestade de emoções continuava em meu interior, e era como uma âncora, que me mantinha firme apesar de tudo e não me deixava ser carregado para longe. Ainda que evitasse seu olhar, sem saber o que mais dizer ou como lidar com esse momento inesperado de vulnerabilidade, encontrava conforto em seu toque.
— Você não precisa ser forte o tempo todo, marido.
Desvencilhou uma de suas mãos e levou até a minha bochecha em um toque suave, quase reverente. Seu polegar acariciou a maçã do meu rosto em um gesto delicado e reconfortante, como se quisesse me alcançar para além do de costume. Um arrepio percorreu minha espinha, o que me assustou tanto quanto me animou. Não me lembrava da última vez que permitira-me ser vulnerável assim, que deixara alguém entrar ao menos um pouquinho e enxergar através da minha fachada… Provavelmente havia sido com ela, na época em que ainda éramos crianças, quando nos beijamos pela primeira vez.
Fechei os olhos, sem conseguir evitar me inclinar na direção de seu toque. Ainda que quisesse me afastar e manter a distância e frieza habituais, havia uma outra parte que ansiava por se libertar, ansiava pela proximidade de . E então eu simplesmente não conseguia decidir quem eu era: o garoto que ansiava por isso, ou o homem que sabia o preço de deixá-la se aproximar demais. Lutei para encontrar minha voz e formar palavras para dizer qualquer coisa que fosse, porém permaneci congelado no lugar, mergulhado fundo no mais puro desejo e cautela.
A necessidade desesperada de abraçar me enchia. A ela, que ficara em silêncio por todo esse tempo, apenas esperando, permitindo que eu tivesse o meu tempo para tentar lidar com as coisas — ainda que qualquer decisão parecesse impossível de se ver saída de mim. Deuses, nunca me imaginara um bom marinheiro, mas ainda assim, por que navegar por esse novo terreno tinha de ser tão árduo? Cada pequeno pensamento voltado a ela me sobrecarregava pelo peso do orgulho e o medo de me machucar por expressar sentimentos que não deveria. Era um constante vai e vem insuportável, incabível.
Talvez fosse, de fato, a hora de contar a sobre a oportunidade perdida desta manhã. Não era o que realmente queria dizer, mas com certeza era melhor do que o silêncio ensurdecedor. Seria uma pequena maneira de abrir uma brecha em minhas fortalezas. Desviei o olhar em busca de uma breve organização na desordem de meus pensamentos.
— Eu… — Limpei a garganta e olhei no fundo dos olhos dela, procurando por indícios de choque, surpresa ou qualquer emoção antes mesmo de pronunciar as palavras: — Aegon me ofereceu a coroa.
— Sério!? — arregalou os olhos por um breve segundo. — Bem, isso não é uma completa surpresa, na verdade. Alguns dias antes do nosso casamento, ele me convidou para fugir para Essos com ele. O idiota nunca quis ser rei.
Arqueei a sobrancelha. Não esperava uma menção tão casual de sua prévia interação com o meu irmão. Lembrava de Aegon dando em cima dela, claro que lembrava. Quantas vezes eu mesmo tivera que me intrometer para marcar posse quando isso acontecia? Mas o conhecimento dessa oferta adicionava apenas mais uma camada de tensão à situação. Não era nenhum segredo que nutria minhas próprias ambições, mas teria eu ficado inteiramente contente se tivesse ido brincar de casinha com o pateta do Aegon para o outro lado do Mar Estreito? Ou será que me faltaria esta correnteza assustadora de águas revoltas que agora navegava dentro de mim?
— Por que não aceitou a oferta? — perguntou-me, sem nenhuma pitadinha de ironia, apenas nua e crua curiosidade.
Meu coração acelerou tanto que pareceu que sairia pela boca. Movi os lábios em busca de um som, qualquer que fosse, mas o único audível o suficiente foi um pífio suspiro. Por que as malditas palavras não podiam simplesmente saírem sem que parecesse que alguém havia acimentado minha garganta? Por que, nos sete infernos, eu tinha que paralizar? Por que era tão dificultoso me obrigar a dar-lhe uma resposta clara?
— Não tive tempo o suficiente sequer para pensar no assunto — contei a coisa mais próxima da verdade. — Sor Criston, ele… Ele já estava lá, tirando o Aegon das minhas mãos e o escoltando de volta para o castelo.
— Maldito seja Sor Criston Cole, então — praguejou. — Mas as coisas são como são, não é? Acho que tanto você quanto eu teremos que nos contentar com isso.
Mesmo com pragas em seus belos lábios, Hightower ainda me acalmava com o carinho suave de seus polegares. Meu estômago se revolvia como terra fofa com algo prestes a desabrochar. Era fatigante manter qualquer coisa enterrada perto daquela mulher.
— É, maldito seja — respondi, por fim. — E suponho que as coisas sejam, de fato, o que são.
— Se vale de algo, eu ainda escolheria você em vez dele… mesmo sem coroa — declarou, sem desviar o olhar nem por um breve suspiro. — Mas não conte a ninguém. Isso arruinaria a minha reputação.
Aquilo quase me fez rir. Logo eu, em um momento daqueles… Havia um certo sentimento de gratidão flutuando no meu interior. Saber que ela me escolheria como já fizera mais de uma vez…? E como era de que estávamos falando, por óbvio, ela tinha que soltar uma piadinha no final. Sua admissão podia ser velada e vir com joguetes, mas me tocou tão profundamente que me perdi pela enésima vez naquela manhã procurando a resposta certa. Tudo o que esbocei em retorno, porém, foi um pequeno sorriso. Mas valeu a pena ao vê-la abrir um sorrisinho quase tímido de volta.
A faísca que acendeu-se em mim me fez ter vontade de puxá-la pelas mãos para mergulhar na proximidade e aconchego de seu calor, e esquecer o caos do mundo lá fora. Mas era tudo muito robusto, rígido, pétreo. Nada parecia natural quando dizia respeito a mim. E ainda que ela fosse a minha , a proximidade tinha consequências. Consequências demais. O risco nunca parecia o suficiente para arriscar.
No entanto, haviam coisas que precisavam ser ditas, coisas que se interpunham entre nós como uma muralha de gelo. Palavras não ditas pairavam no ar como uma névoa cinzenta, pegajosa, entretanto o silêncio permanecia alto e claro. Pelo menos nossas mãos permaneciam unidas. nunca as soltava; era sua maneira particular de me apoiar.
Eu não queria ser assim. Deuses, não. De fato, não queria. Não com da Casa Hightower, minha esposa, minha mulher, minha doce ābrazȳrys. E mesmo em meio a essa dificultosa turbulência, eu ainda me via atraído por ela, incapaz de resistir ao chamado de seu toque e de sua presença. Aquela garota era como uma âncora reconfortante nas tempestades da minha mente, a estabilidade que eu tanto desejava no meio do meu caos.
E o sol iluminando os seus lábios… Sete infernos! A luz natural dançava a seu bel-prazer sobre seus traços delicados, realçando as mechas mais claras de seu cabelo. Era impossível desviar o olhar. Estava completamente hipnotizado por seu brilho, enfeitiçado pelo risco que ela representava em minhas estruturas. E assim, sem fôlego pela antecipação, fui envolto por um desejo incontrolável de beijá-la, de provar seus lábios uma vez mais e sentir a maciez de sua pele. E como se uma força invisível nos entrelaçasse, a distância entre nós foi diminuindo, uma respiração após a outra.
Mas mesmo naquele instante precioso de intimidade, não conseguia me livrar da vergonha e da culpa que pesavam em meu coração. Era como se ceder a tais desejos fosse errado, já que eu era estragado demais até mesmo para o mínimo que pudesse vir daquilo.
— Valzȳrys… — sussurrou a palavra valiriana para marido, o nome mais adorável que já usara para se dirigir a mim. E ela simplesmente me chamara, suave como as mais perfeitas plumas. Minhas defesas desmoronaram com sua pronúncia cada vez melhor. O som de sua voz, a delicadeza da palavra que a ensinara, a familiaridade que o nome agora carregava… Era tudo demais para suportar.
A vontade era avassaladora e, de repente, a lembrança do beijo que ela me roubara no alto de sua bebedeira noite passada me atingiu em cheio. A sensação de seus lábios, seu gosto misturado ao vinho… Tudo fora um grande vislumbre do que poderia ter sido se apenas tivéssemos nos deixado levar. De qualquer modo, a culpa e a vergonha continuavam ali, passeando de mãos dadas sempre que se olhasse ao redor.
— Ābrazȳrys — sussurrei de volta. Apesar de não merecer , ela era tudo o que eu mais queria.
E a garota sorriu em resposta ao som da minha voz.
A conexão que existia entre nós era inegável. Mesmo quando não existia nenhum tipo de intimidade física, conseguíamos nos conectar ao menos um pouco através de palavras e gestos. Fora assim desde que nos conhecemos. E era justamente por isso que sempre conseguia me desconcertar tanto.
— Eu gosto de te ouvir falar alto valiriano, sabia? E não apenas a palavra “esposa”, mas valiriano em geral… Mesmo quando não entendo nada. — Ela riu baixinho. — É uma das minhas coisas favoritas em você.
Aquilo aflorou um friozinho na barriga. Era uma surpresa agradável. Fazia muito tempo que ninguém demonstrava qualquer interesse genuíno por algo que eu fazia ou gostava.
— Você… gosta? — Fui incapaz de esconder a incredulidade. — E não apenas “ābrazȳrys”, é?
— Quaisquer palavras — confessou. — Gosto até de quando te ouço xingando, para ser bem sincera.
— Então meus… xingamentos lhe agradam? — Minhas palavras saíram em um tom brincalhão, mas o fogo dentro de mim apenas ardia mais forte.
— Talvez seja porque me acostumei a brigar muito com você em todos esses anos — zombou. — Sim, Aemond, me agradam. Mas saiba que ainda prefiro as palavras doces.
— Doces… Certo. — Assenti devagar, então fixei meu olhar no dela e declarei no meu mais perfeito alto valiriano: — Avy jorrāelan.
— Gostei muito do jeito que disse isso, e também de como soou — analisou ela. — O que significa?
Quase não consegui conter meu coração agitado dentro de mim. Confessar a verdade ou encobri-la? “Avy jorrāelan” significava “eu amo você”. Nada mais, nada menos. Mas eu não podia simplesmente dizer uma coisa dessas a ela. Não agora. No fundo, porém, sabia que não poderia esconder a autenticidade do sentimento por muito tempo.
— Um dia você descobrirá — prometi. Era o máximo que poderia dar a ela e a mim mesmo no momento. E quando , enfim, descobrisse, não haveria mais desculpas. Seria apenas questão de tempo para cessar com as fugas de meus próprios pensamentos e desejos. De uma forma ou outra, fosse como fosse, tudo viria a ser revelado.
— Tem sorte que eu sou muito boazinha — provocou ela.
— Você? Boazinha? — Tive que rir.
— Boazinha, sim! Pois vou aceitar essa resposta… por enquanto — ressaltou. — Só porque hoje estamos em trégua por causa de tudo o que está acontecendo nesse maldito castelo. Aproveite enquanto pode, querido marido.
Aproveitar… Eu queria aproveitar. E também queria sorrir. E foi o que fiz. Odiava gostar dela e não me cansava de repetir isso a mim mesmo. Mas a verdade era essa, no fim das contas. Gostava dela. Amava ela. Transbordava de amor e carinho tanto quanto de culpa e vergonha. E como estávamos de fato em uma trégua, provavelmente curta, nascida do fato de ter cuidado dela na noite passada, o cessar-fogo temporário na interminável batalha de palavras e sentimentos que já existia entre nós logo terminaria. E isso significava apenas uma coisa: era, de fato, agora ou nunca. Precisava aproveitar cada um dos poucos e preciosos segundos do mesmo jeito que estivera fazendo desde que voltara a pisar em nossos aposentos.
Fitei-a com atenção, demorando-me em cada detalhe para absorver tudo o que fosse possível. A forma como os cabelos emolduravam suas feições fortes e também delicadas, o brilho de vida em seus olhos que me fazia querer buscar por eles cada vez que me sentia perdido.
— Eu irei apreciar, ābrazȳrys — murmurei. — Irei.
Mesmo que a trégua fosse momentânea, eu podia me agarrar na certeza de que cada instante na presença dela era como um presente precioso, até mesmo os mais irritantes e dolorosos. E fosse em momentos com ou sem animosidade, sempre me via questionando tudo o que pensava saber sobre mim mesmo e sobre nosso relacionamento complexo. Para o bem ou para o mal, Hightower me fazia sentir mais vivo.
E aqui estava eu, com o olhar perdido em seus lábios graciosos outra vez. Melhor agora do que nunca. Essas coisas raramente aconteciam entre nós, então estava mais do na hora de pular do precipício e mergulhar atrás da minha âncora como se minha vida dependesse disso.
O único beijo verdadeiro entre nós fora o primeiro, quando éramos crianças. Depois houve o beijo do casamento, que foi encantador, mas só existiu por causa do dever. E então o beijo que ela me roubara no auge de sua bebedeira na noite passada. Nunca um beijo normal. Jamais… até agora.
Dei um último passo na direção de , encurtando a pequena distância e entreabri os lábios. A expectativa me consumia, momentos passados e oportunidades perdidas explodiam dentro de mim como fogo de dragão. Mas naquele instante, abracei o presente e dei meu salto de fé. Abarquei seu rosto com a mão e o ar pareceu crepitar ao nosso redor como em um braseiro quente. E antes mesmo que acontecesse, já fechara os olhos em concordância e expectativa.
E então aconteceu. Nossos lábios se chocaram, primeiro devagar, como se tivéssemos medo de estragar o momento do mesmo modo que já havíamos feito inúmeras outras vezes. Depois, o beijo se aprofundou e nossos corpos grudaram-se um ao outro, como se puxados por uma força invisível que não aguentava mais nos ver separados. Foi um momento de pura entrega, um lindo instante para deixar todo o exterior de lado e simplesmente sucumbir ao maremoto de emoções e sensações que nos invadia.
E assim permanecemos, emaranhados em uma teia de desejo e saudade do que nunca tínhamos de fato nos permitido ter. O beijo se intensificou e não queríamos mais sequer parar para respirar. Era um beijo que levara anos e anos para se concretizar… a culminação de todas as palavras não ditas e desejos não revelados que haviam dançado entre nós por tanto tempo.
E me correspondia com uma paixão que era ao mesmo tempo suave e urgente, um movimento perfeitamente harmônico. Dançamos naquele beijo como fizemos no banquete do casamento, nossos corpos movendo-se juntos como se fizéssemos isso há anos. O movimento de nossos lábios tornava-se cada vez mais fervoroso e apaixonado à medida que os momentos passavam.
Estávamos perdidos um no outro do jeito mais doce possível, nossos toques tornando-se mais ousados, mais desesperados. As palavras em minha cabeça repetiam-se incessantes: avy jorrāelan, avy jorrāelan, avy jorrāelan… E eu me sentia como se estivesse me afogando em uma sublime cachoeira de desejo e emoção.
Continua...
Nota da autora: Demorei, mas cheguei com att! E com POV masculino!!! Confesso que amo demais escrever POV masculino e que eu não tinha nenhum plano pra isso em ICF. Mas quando chegou a hora de escrever essa parte eu simplesmente precisava.
A partir daqui voltamos pra , mas se eu sentir que mais algum cap pede muito um pov dele, pode deixar que eu vou escrever. Enfim… espero que tenham gostado. Me contem o que acharam!
Encontre minhas outras fics AQUI.
Tia Fran ama vcs <3
A partir daqui voltamos pra , mas se eu sentir que mais algum cap pede muito um pov dele, pode deixar que eu vou escrever. Enfim… espero que tenham gostado. Me contem o que acharam!
Encontre minhas outras fics AQUI.
Tia Fran ama vcs <3
Se você encontrou algum erro de revisão/codificação, entre em contato por aqui.
0%


