3 meses antes…
Quando criança, meus pais viviam dizendo que eu era muito sortuda, entretanto, esta mesma sorte que me acompanhou por longos anos, pareceu ter me abandonado. Talvez porque tinha um nome e sobrenome: vovô Daniel Grimer. E ali estava eu, diante da nova classe em que passaria o restante do semestre e a única carteira vazia, era aquela em frente a mesa do presidente. Engoli seco, ao enfrentar os ataques de olhares furiosos de algumas meninas e curiosos de outras, será que ela por causa do lugar onde me sentaria.
— Bem, agora podemos prosseguir com nossa aula. — a professora se pronunciou, segundos depois que finalmente consegui me acomodar.
Foi estranho e desconfortável passar as horas em sala, com olhares em minha direção e cochichos sobre a garota que ousou se sentar na frente do imperador. Algo que piorou no intervalo, já que a cada passo pelo corredor, mais e mais alunas me encaravam. Estava começando a ter medo do fã clube daquele arrogante, e ao mesmo tempo entender o motivo dele achar que eu estava o seguindo.
— Ah não, eu não vou passar pano para ele. — disse comigo mesma, balançando a cabeça, espantando aquele pensamento.
— Falando assim sozinha, é que todos vão achar que você é louca mesmo. — uma voz descontraída soou atrás dela, seguido de uma risada boba.
— Falou comigo? — eu me virei para ele, me deparando com um garoto com roupas descoladas e um par de patins pendurados no ombro esquerdo.
Porque será que o gelo me perseguia até mesmo quando eu estava longe dele?
— Mas é claro, você é a única garota nessa escola com coragem o suficiente para se sentar perto de vossa majestade. — uma garota se colocou ao lado dele, também com um par de patins, com o olhar admirado e ao mesmo tempo curioso.
— Eu ainda acho que ela é maluca. — afirmou ele, de forma espontânea.
— Vocês não me conhecem. — eu dei um passo para trás para me afastar deles, quando o inimaginável aconteceu.
Pela terceira vez, senti alguém trombar em mim, e logo aquele alguém que eu não queria. Ouvindo uma risada sarcástica vindo dele.
— Estava imaginando quando você iria esbarrar em mim de novo. — sua voz irônica me fez bufar de imediato — Já que é tão distraída.
Quanto egocentrismo.
— Você realmente acha que o mundo gira em torno de você?! — me virei para ele, deixando minhas expressões faciais mais sérias — Além de arrogante, é egocêntrico! Deve ser por causa do seu fã clube, bem dedicadas, não é?! Por que não se concentra nelas?
— Me desculpe atrapalhar, mas… Vocês se conhecem? — indagou o menino que me chamou de louca.
— Sim, não. — dissemos em coral, o presidente afirmando e eu negando.
— Que isso, esse já é o nosso terceiro encontro. — brincou ele, ao notar que algumas meninas estavam próximas o suficiente para ouvir.
É claro que nessa altura da situação, vários celulares já estavam em nossa direção, olhares curiosos e cochichos. Perplexa eu estava a ponto de não conseguir formular uma resposta, apenas o ignorei e sai daquele ambiente sufocante, tentando não entrar em surtos com todos os olhares atentos aos meus movimentos. O que me levou a imaginar que enfrentar aquela escola seria pior que enfrentar minha maior rival em um campeonato regional.
— Droga… — disse com raiva, assim que finalmente voltei a razão e percebi que estava no ginásio, bem em frente a pista de gelo — Com todos os lugares dessa escola imensa e eu venho parar aqui?!
Bufei novamente revoltada com aquilo.
Como meu corpo havia me levado ali de forma involuntária?! Olhar para o gelo me fez sentir saudades de casa, na América, saudades dos bons momentos com meu avô, da vida que eu tinha que era perfeita. Um sentimento de angústia começou a tomar conta de mim, e quando percebi, já estava caída ao chão no centro da pista, em lágrimas.
Como tinha chegado ali? Minhas lembranças me guiaram para o melhor lugar do mundo para mim.
— Você está bem?! — a voz da menina que me chamou de corajosa, me despertou de meus devaneios misturados em lágrimas — Você está chorando?!
— Hum?! — eu sequei as minhas lágrimas rapidamente, e respirei fundo — Não…
— Estava sim… — o tom elevado da voz do garoto que me chamou de louca surgiu mais ao fundo.
O que me fez tombar a cabeça e vê-lo se aproximar de nós, enquanto patinava.
— O que vocês querem agora? Já me chamaram de louca. — disse, ao me levantar com um pouco de dificuldade.
— Ficamos preocupados, já que você saiu correndo. — explicou ele, com um olhar sensibilizado.
— É, não vamos te julgar se você tem vergonha de dizer que gosta do imperador. — reforçou a menina, com um sorriso solidário.
— Primeiro… — eu endireitei meu corpo, deixando minha postura impecável, mesmo sem o equilíbrio dos patins — Eu não gosto dele e não o conheço, e segundo, seria maravilhoso se não estivéssemos na mesma sala.
— Uau. — disse o garoto — Agora senti confiança… Eu disse que ela não era daquelas malucas do fã clube.
Tentei controlar meu olhar perplexo, mas eu sempre fui tão expressiva.
— Você acabou de me chamar de maluca há minutos atrás no corredor. — retruquei, refrescando sua memória.
— Ah… Mas aquilo foi diferente. — ele riu baixo, certamente se lembrando — Eu disse que você era maluca por se sentar perto dele… Queria ser da sua sala só pra ver isso.
— Desculpe, mas a turma já está cheia por causa do fã clube. — explicou a menina, rindo dele.
— Olha, eu não sei vocês, mas… Estamos no meio da pista de gelo e meu dia já foi em surtos, então, não quero arrumar mais nenhuma confusão para mim. — eu tentei me afastar deles, porém, sem sorte meu corpo cambaleou em desequilíbrio.
— Calma aí novata maluca. — brincou o garoto ao me amparar, com a ajuda da outra menina — Não se preocupe, a pista de gelo é nossa hoje.
— E o que isso significa? — indaguei, sendo amparada pelos dois, para retornarmos as laterais da arquibancada.
— Quer dizer que a vossa majestade e todo o restante do time de hóquei, não podem entrar aqui. — explicou o garoto, com ar de satisfação — Você está segura com a gente.
Ele soltou uma gargalhada boba no final.
— Deixe de ser bobo, Dylan. — disse a menina, me fazendo descobrir o nome dele, finalmente — E a propósito, meu nome é Lola.
— O meu você acabou de ouvir, eu sou o Dylan, somos da equipe de patinação artística. — completou ele, a apresentação.
— Obrigada, por me ajudarem. — assenti ao seu cumprimento — O meu nome, acho que ambos já sabem.
— Nós e geral da escola. — comentou ela, se referindo aos outros alunos.
— Imaginei. — comentei, após finalmente chegarmos em terra firme — Não me lembro de vocês no último campeonato.
— Ah, é que eu não quis participar, não patino por esporte, é mais uma terapia para mim, sou muito hiperativo e bagunceiro, segundo o meu pai, eu preciso de algo que me faça ter disciplina. — explicou Dylan, indo se sentar para tirar os patins — E como eu não queria me juntar aos militares juniores, encontrei meu escape na pista de gelo.
— Militares juniores?! — não me contive em rir de sua colocação.
— O pai dele é policial. — disse Lola, ao suspirar fraco, retirando os patins dela também — Eu não estive na temporada passada, porque não consegui me classificar nem aqui na escola.
— Nós dois sabemos o motivo. — comentou Dylan, deixando o mistério no ar.
— Dylan, porque escolheu a patinação e não o hóquei? Como os outros? — perguntei curiosa, mudando de assunto.
Afinal, se ele não disse abertamente o motivo, não seria eu a invadir a privacidade deles, logo no primeiro dia.
— Eu não gosto de violência, e patinação é mais… — ele respirou fundo, voltando o olhar para a pista de gelo — Acho que me entendeu.
Assenti com a cabeça.
Para um primeiro dia que havia começado de forma meio constrangedora, passar algumas horas no ginásio conversando com os dois havia sido a melhor coisa desde a mudança, principalmente pelo nosso assunto em comum: a patinação. Apesar de não me abrir de imediato e revelar que também patinava, pude sentir o amor que ambos tinham pelos patins, e de como me identificava com eles nesse quesito. Até mesmo descobri que a equipe contava com mais três patinadoras.
— Tem certeza que não quer minha companhia?! — perguntou Dylan, assim que nos despedimos de Lola, e a observamos subir na moto do irmão.
— Tenho, não quero te atrasar, você mora bem mais longe da escola e eu já decorei o caminho de volta. — assegurei a ele, com confiança.
— Tudo bem, mas qualquer coisa, me liga. — ele concordou com um sorriso gentil, que me fez lembrar meu amigo Thomas, da equipe de Atlanta.
— Obrigada, Dylan. — eu sorri de volta e fiquei por alguns minutos no mesmo lugar, enquanto ele se afastava seguindo seu caminho.
Soltei um suspiro cansado, por mais que tivesse sobrevivido até o final do meu primeiro dia de aula, foi graças aos dois, que me permitiram me esconder no ginásio. Para uma aluna perfeccionista e disciplinada como eu, era vergonhoso admitir que tinha matado aula, entretanto, nas circunstâncias emocionais que me encontrava…
Seria aceitável.
Caminhei dois quarteirões até o ponto de ônibus e me sentei no banco para esperar. A brisa do final da tarde se mostrou inspiradora, e decidi colocar meus fones de ouvido para apreciar uma boa música, e nada como uma playlist recheada de músicas do BTS para relaxar e me fazer esquecer o desastre que havia sido meu primeiro dia. Ao longe, avistei vossa majestade em seu skate, seguindo pela rua lateral, por mais que tentasse ignorá-lo, meus olhos o seguiram até ele parar na esquina e mover sua atenção para minha direção.
— O que ele está fazendo? — indaguei para mim mesma, ao perceber que ele estava me encarando.
Com uma sorte repentina, o ônibus apareceu e pude adentrá-lo. Assim que cheguei em casa, nem mesmo notei se meu pai estava em casa, apenas segui para o quarto e me tranquei nele. Deixando a mochila em cima da cadeira, meu corpo se jogou automaticamente na cama e ali ficou adormecido por algumas horas, até que finalmente despertei tarde da noite.
— Devo dizer bom dia?! — brincou meu pai, puxando assunto, assim que saí do quarto.
— Hum?! — o olhei ainda com minhas vistas parcialmente embaçadas, caminhando até a cozinha enquanto esfregava os olhos — Que horas são?
— Quase meia noite. — respondeu ele, mantendo sua atenção em mim — Como foi o primeiro dia?
— Uma tragédia. — respondi de imediato, sem medir as palavras.
Mesmo zangada pela mudança, não conseguia mentir.
— O que aconteceu?! — indagou ele, num tom preocupado.
— Me sinto deslocada, e não acho que vou me adaptar aqui. — reclamei mais uma vez, a realidade.
— Querida… — ele tombou de leve a cabeça, avaliando as minhas expressões, deixou a voz mais suave ainda e continuou com compreensão — Sei que tem sido difícil para você, também não será fácil para mim iniciar do zero, mas…
— Não podemos mesmo voltar para Atlanta? — o olhei com chateação.
— Não. — respondeu como sua palavra final, porém, levantou em seguida da banqueta que estava sentado e se aproximou de mim, me dando um abraço carinhoso e reconfortante — Você sempre foi uma garota resiliente, até no momento em que se machucou e não pode ir ao campeonato, superou a fisioterapia de cabeça erguida… Sei que vai conseguir, vamos construir novas lembranças aqui, e seguir em busca de novas conquistas.
Eu apenas assenti as suas palavras, sem forças ou ânimo para argumentar. Era inspirador a forma como ele acreditava em minha capacidade e potencial, principalmente para me adaptar às adversidades. Afinal, eu já havia caído muitas vezes na pista de gelo, e em todas não me mantive ao chão, sempre seguia me levantando e tentando novamente.
— Está com fome? — indagou ele, se afastando de mim e seguindo até a geladeira.
— Hum. — assenti com a cabeça, o observando.
— Que tal um banho, vou preparar um lanche para nós. — sugeriu ele.
Segui seu conselho, ainda com aquela angustiante sensação de impotência. Mesmo não querendo, teria que encarar de frente. Na manhã seguinte, acordei um pouco antes do despertador, me dirigi ao banheiro e lavei meu rosto, meu olhar permaneceu fixo em meu reflexo no espelho por alguns minutos.
Quando foi que me perdi da garota corajosa que havia dentro de mim?
—
Resiliência… — sussurrei, ainda me encarando — Preciso ter resiliência.
Não seria fácil, mas também não era impossível.
Assim que cheguei na escola, avistei Dylan e Lola conversando com uma garota, eu não a tinha visto no dia anterior, mas fiquei surpresa ao ver um par de patins pendurado em sua bolsa transversal. Tentei ignorá-los de início, havia sido legal passar um tempo no ginásio e vê-los treinar, mas ainda não estava pronta para voltar a patinação e talvez ficar perto deles poderia me deixar ainda mais frustrada.
Ajeitei a mochila no ombro, assim como a touca na minha cabeça, então dei a volta pela lateral do prédio principal, assim chegaria a entrada que dava para a biblioteca. Assim que passei no corredor, tentei ser o mais discreta e invisível que poderia, sem sucesso é claro, pois metade da escola já sabia quem eu era e a outra metade, apenas conhecia o meu nome.
— Grimer?! — uma voz desconhecida me chamou no corredor, atraindo ainda mais a atenção dos outros alunos.
Meu corpo gelou na hora.
Somente as pessoas mais próximas me chamavam por aquele apelido. Me virei para sua direção e lá estava a garota da entrada, acompanhada de Dylan e Lola. Vendo-a mais de perto, tive a sensação de já tê-la visto antes, mas não me recordava de onde.
— Eu falei que ela se lembrava de mim. — disse a garota para os dois, enquanto se aproximava de mim.
— Eu te conheço?! — perguntei, confusa e ao mesmo tempo intrigada.
— Tem certeza que ela lembra de você? — Dylan riu baixo.
— Não se lembra de mim? Sou Emma. — a garota me lançou um olhar de chateação e frustração, certamente por não entender quem era ela — Treinamos juntas no início do ano passado para as eliminatórias juvenis, mas você se machucou na segunda semana… Justo no dia em que ia me apresentar para sua equipe.
Ah!?
— Me desculpe… Bem que achei seu rosto familiar. — realmente me lembrava vagamente, pois compareci a alguns treinos ao longo da temporada, para dar apoio moral à equipe.
Naquele tempo, ainda que estivesse sofrendo pela perda do vovô e chateada por meu tornozelo, mesmo com meu coração em pedaços, a pista de gelo era como um ímã que me atraía.
— Então, você patina também? — indagou Lola, surpresa com a revelação.
— Patinava. — a corrigi, com base em minha realidade atual.
— Uma vez dos patins, sempre dos patins. — disse Dylan ao se colocar ao meu lado — Então, não fale no passado, algo que possivelmente ainda vive dentro de você.
— O que você sabe sobre isso? — retruquei olhando-o com seriedade.
— Sei, porque eu vivo isso. — ele sorriu com graça e piscou de leve.
Senti um sorriso sutil no canto do meu rosto, por que tentasse me enganar, ele estava certo, e isso que deixava um pouco irritada.
— Vocês estão atrasados. — de repente duas meninas se aproximaram da gente, com olhares soberbos e ar de superioridade — Temos uma reunião agora.
— Não estamos atrasados, Cherry, o treinador Urisc disse que chegaria dez minutos depois do combinado. — explicou Lola, não se importando com a pose delas.
— O treinador chegar dez minutos depois não lhe dá o direito de se atrasar. — interveio a outra garota, arqueando a sobrancelha — É por isso que continua sendo uma patinadora medíocre, além de não ter talento.
— O que você disse?! — Lola em seu temperamento explosivo avançou contra a garota, sendo segurada por Dylan — Repete isso de novo.
— Pare Lola, não vale a pena. — Dylan, tentou chamá-la a razão enquanto a arrastava para longe do grupo.
— Me solta, não me importo se for expulsa desta vez, vou arrancar os cabelos dela. — gritou Lola, com seu olhar de fúria, enquanto o amigo lhe afastava ainda mais de nós.
— E você?! O que acha que está fazendo?! — perguntou a tal Cherry, me encarando como se quisesse me esfolar viva.
Nem mesmo a conhecia, mas já sentia sua antipatia a meu respeito.
— Falou comigo?! — a encarei de volta.
Não é porque estava revoltada com a vida, que me deixaria intimidar por ela.
— Com quem mais falaria? — retrucou ela, não se importando com a presença de Emma ao lado — Você é a única intrusa aqui, e não falo apenas do time de patinação.
— Intrusa?! — soltei uma risada irônica, e logo meu olhar se desviou dela para o capitão do time de hóquei.
Sua silhueta que havia virado o corredor, veio seguindo em nossa direção, com um sorriso discreto no canto do rosto e seu olhar debochado para mim.
— Eu não sei do que está falando, mas também não me interessa. — dei o primeiro para me retirar dali.
Já tinha que conviver com vossa majestade em sala de aula, quanto eu menos esbarrar nele nos corredores, seria um alívio para mim.
— Fique longe dele. — o tom de Cherry soou como ordem.
Eu apenas ignorei suas palavras, pois não me importava mesmo em me aproximar de ninguém do time de hóquei, principalmente o capitão. Me desviei delas e segui em frente passando por ele, como se nunca tivesse o visto antes, nem mesmo olhei para o lado e continuei meu caminho.
— !? — apenas ouvi a voz de Emma me chamando, enquanto seguia atrás de mim.
— Não acho que deveria me seguir, você pode se atrasar para sua reunião. — disse a ela, continuando com minha atenção à frente.
— Mas é sobre isso mesmo que queria falar com você. — contou ela, parecendo estar sem fôlego por tentar me acompanhar — Sobre a reunião.
— O que quer dizer sobre isso? Eu não sou da equipe. — parei no meu do corredor e a olhei.
— Mas o treinador quer que você faça parte. — disse ela, com certa empolgação — Eu contei sobre você para ele, e mostrei o vídeo das competições que participou no seu primeiro ano de patinação.
— E por que fez isso?! — perguntei a ela, sentindo minha vida sendo invadida.
— É que… Você é sensacional quando patina, tenho certeza que se não tivesse machucado, teria ganhado as regionais. — a certeza em sua voz, trouxe de volta todo o sentimento de frustração que me forçava a manter guardado dentro de mim.
Senti meus olhos lacrimejar no momento, e me afastando dela, saí correndo em direção à saída mais próxima. Uma chuva de pensamentos estava tomando conta de mim, que me impedia de raciocinar. Foi neste momento que trombei em alguém, a poucos passos da porta.
— Você realmente não consegue resistir, não é?! — o som debochado da voz de Collins, fez meu sangue ferver de raiva.
Por que as pessoas desse lugar eram tão insensíveis e arrogantes a ponto de achar que tudo era sobre elas.
— Me esquece. — gritei com ele, não ponderando a entonação de raiva em minha voz, o empurrando em seguida.
Logo a frase de Dylan soou em minha cabeça:
Garota maluca. Gostaria mesmo que todos achassem isso e parassem de me encarar como se eu fosse um ovni. Continuei correndo até chegar à saída da escola, e aproveitei a oportunidade para me distanciar o máximo que poderia. Com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, parei por um momento e me vi diante de um ponto de ônibus, então, me sentei no banco e fiquei olhando os carros passarem por um tempo.
Aquilo me trouxe uma pontinha de paz e serenidade, talvez por sempre fazer isso com meu avô quando estava vivo. Ele sempre sabia onde me encontrar nos meus momentos de drama e melancolia. Soltei um suspiro cansado e abri a mochila remexendo-a até encontrar meu celular, naquele momento, não sabia onde estava e apenas digitei uma mensagem e mandei para minha melhor amiga.
Meri…
O que foi?
Quero sair daqui.
O que houve amiga?
Esse lugar é horrível,
nem mesmo cheguei a uma semana
e não suporto mais
…
Estava mesmo sendo insuportável.
— ?! — curiosamente ouvi alguém dizer o meu nome, me fazendo voltar a atenção para o lado.
Era a chefe do papai. O que ela estaria fazendo ali?
Limpei minhas lágrimas, rapidamente para que ela não percebesse.
— Senhora Jones. — sussurrei ao me levantar do banco, notando algumas sacolas em suas mãos — O que faz aqui?
— Ia te perguntar o mesmo. — comentou a mulher, com o olhar curioso — Está perdida? Se quiser eu posso te levar para a escola.
— Não precisa, obrigada. — ela ajeitou a mochila nas costas — Não estou perdida, e preciso ir agora.
Dei impulso para me afastar dela.
— … — ela me chamou novamente.
— Sim?! — a olhei novamente.
— Eu lamento que sua vida tenha mudado de forma radical, e… — ela parecia ponderar as palavras para não ser invasiva — Sei como está se sentindo.
— Ninguém sabe como estou me sentindo. — dei meia volta e me afastei dela, seguindo para o outro lado da rua, em direção ao metrô.
Não queria ser grosseira, mas não estava bem emocionalmente para lidar com fatores externos, se nem mesmo conseguia lidar com o que se passava dentro de mim. Passei todo o dia caminhando aleatoriamente até que, ao final da tarde, cheguei ao meu novo lar. Fiquei parada em frente ao prédio por alguns minutos, vendo minhas lembranças passarem por meus olhos, até que chegou a minha última apresentação com meu avô em vida.
Senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto.
— Não consigo ter resiliência, não sem você, vovô. — continuei chorando, até que senti alguém segurar em minha mão e me puxar para um abraço apertado, me fazendo desabar em lágrimas.
— Está tudo bem, minha pequena… Pode chorar. — as palavras de conforto do papai, foi a melhor coisa que ouvi desde que saímos de Atlanta.
Sentir seu abraço não somente me fez chorar mais, como me permitiu sentir um pouquinho de paz e conforto. Algo que não sentia a muito tempo, mas que lá no fundo ansiava bastante.
— Eu não sou o seu avô, mas sou o seu pai, sabe que pode contar comigo. — sussurrou ele, com um tom estranho, parecia segurar suas emoções para me passar segurança — Estou aqui por você, minha pequena.
— Obrigada, papai. — assenti, tentando lutar contra a angústia que sentia.
Estava passando por um turbilhão de emoções.
A morte do vovô, meu acidente nos treinos, a traição da mamãe terminando no divórcio deles, minha mudança para Vancouver, meu medo de voltar a patinar, a escola nova e toda essa pressão que estava sentindo.
Eu só queria continuar ali por alguns minutos, sentindo seu abraço.
Eu vou te abraçar, vou segurar suas mãos
Se você se sentir confortável
Eu darei tudo de mim
Eu quero proteger o seu sorriso
(Eu quero proteger você)
Pra sempre.
— Promise / EXO