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Codificada por: Calisto

Finalizada em: 10/05/2026
4 de abril de 1995

— Mas, sra. Preckett… nosso grupo já está completo! — Luke reclamou.
— Porém, vocês têm espaço para uma vocalista não? — a coordenadora rebateu, com um sorriso de quem tentava muito ter paciência.
— Não! Eu sou o vocalista!
Faltavam três semanas para o concurso de bandas da escola, cujo grupo vencedor receberia um agenciamento por um ano (graças aos contatos suspeitamente bons da diretora). Era tudo que a Sunset Curve havia passado a vida desejando, e, no último ano de escola, aquela parecia a oportunidade perfeita de provar aos pais que a música traria sim um futuro para eles.
Futuro esse que não incluía uma outra vocalista.
A sra. Preckett respirou fundo, tirando os óculos para limpá-los na barra da blusa florida antes de recolocá-los, junto da máscara de gentileza.
— Veja, tenho uma aluna excelente que deseja participar, mas não possui grupo. Um dos princípios do concurso é o acolhimento e participação geral. Ou seja, todos que desejarem participar podem ser alocados em grupos formados que ainda não tenham ultrapassado o limite de participantes. Grupos como o seu, sr. Patterson.
— E por que não pode ser outro grupo?
Ela soltou um suspiro que demonstrava que sua paciência estava acabando.
— Vamos deixar isso mais fácil para o senhor, não? — Ela caminhou para fora da sala de música, guiando-o para o fim do corredor, onde estava a secretaria. — Venha, entre, entre. Boa tarde, Jude! — Ela sorriu para a secretária. — Desculpa incomodá-la, mas precisamos tirar uma dúvida. Diga, poderia acessar o histórico de Luke Patterson e nos informar como estão as notas do sr. Patterson em Biologia, por favor?
— Claro, sra. Preckett. — Jude se levantou, indo até o armário de arquivos, abrindo gaveta por gaveta até encontrar o que procurava. Os pés de Luke não paravam de batucar no chão, com mais força do que ritmo. — Aqui está. F.
Um arrepio gelado desceu pela coluna do guitarrista. A coordenadora abriu um sorriso.
— Parece que alguém está querendo passar as férias em recuperação e talvez ser retido na escola.
— Claro que não! — ele rebateu.
— Então vejamos. Podemos sempre considerar o histórico do aluno em uma decisão como essa. Um aluno generoso, disposto a integrar-se em atividades coletivas e acolher outras pessoas poderia ter essa nota virando um… C-.
Luke sentiu seu estômago se revirar, e seus pés enfim ficaram parados. Aquilo era golpe baixo, mesmo para a sra. Preckett. Ela sorria porque sabia que ele não tinha escolha, e ele estava prestes a sair gritando pela escola e quebrando lixeiras.
Mas tudo o que ele fez foi falar:
— Fazer o que, né.
A sra. Preckett sorriu largamente, juntando as mãos em uma palma feliz, conduzindo os dois para fora da secretaria novamente.
— Excelente! Pedirei à senhorita para se encontrar com vocês no horário que reservaram a sala de música, ok? Hoje às… quatro, certo?
Luke freou no batente da porta, quase batendo de frente com a coordenadora.
— A vocalista que você arrumou para o Sunset Curve é… ?!
— Maravilhoso, sim? — ela disse, antes de acenar em despedida, deixando Luke ali, paralisado.
Não. Não era nada maravilhoso.
era uma patricinha, líder de torcida, que com certeza venceria como rainha do baile da escola. Era inteligente e queria ser advogada. Não tinha um pingo de personalidade. Luke raramente tinha problemas com garotas bonitas, mas ela representava tudo o que o garoto odiava. Haviam estabelecido um pacto silencioso ao longo dos anos de se deixarem em paz, especialmente depois de um trabalho em grupo do sétimo ano em que Luke fez sair chorando de sala.
Pouco a pouco, ele viu seu sonho perfeito se desfaria em uma poça de pesadelos na sala de música daquele mesmo dia às quatro da tarde.

𝄞♫

— Ela ser líder de torcida deve ser um bom sinal, não? De que ela ao menos deve ter ritmo — Alex tentou consolá-lo, embora de forma egoísta, já que Luke lançava suas baquetas em almofadas no fundo da sala.
— Não, nada disso é um bom sinal!
— Ah, vai, ela é uma gracinha — Bobby acrescentou.
Luke virou para Bobby com os olhos arregalados.
— Eu já sou o rostinho bonito do grupo, não precisamos de outro.
— E eu?! — Reggie perguntou, indignado.
— Ok, dois rostinhos bonitos no grupo. Ou seja, sem mais vagas. Especialmente para garotas arrogantes que ficam sacudindo pompons como se fosse grande coisa.
— Alguém me chamou?
Os meninos paralisaram, então se viraram para a entrada da sala, onde estava parada com o uniforme branco das líderes de torcida, uma mão na cintura e um chiclete sendo mascado na boca.
Luke não podia mentir: era sim gata, daquele jeito que era só uma verdade objetiva que ninguém podia negar. O ambiente era dominado por seu corpo delineado, seu cabelo escuro comprido e ondulado, sua pele clara em contraste com os lábios vermelhos e principalmente por aqueles olhos felinos amendoados e claros. Era uma beleza quase assustadora.
Tão assustadora que ninguém soube bem o que fazer. Os meninos ficaram constrangidos, olhando para qualquer direção que não fosse ela, até que Alex teve coragem de se aproximar.
— Oi, . Desculpe nossa recepção, mas seja bem-vinda à Sunset Curve.
— Não precisam fingir que me querem aqui. — Ela abanou o ar com uma mão, voltando a caminhar pela sala em direção a Luke, os olhos cravados nele. Um arrepio subiu pelo corpo do guitarrista. — Sei que isso não passa de uma barganha que nós dois vamos precisar aceitar.
Os garotos se olharam enquanto voltou a mascar o chiclete. Certo, aquilo não seria fácil, mas precisavam trabalhar com o que pudessem. Luke já planejava colocar como uma backing vocal que, talvez, acidentalmente, tivesse o microfone desligado no dia.
— Então… Você gosta de cantar? — Bobby perguntou, tentando quebrar o gelo.
A bolha de chiclete estourou na boca da líder de torcida, e Luke teve certeza que uma veia sua havia estourado junto.
— Óbvio — ela respondeu, revirando os olhos.
— Achei que as líderes de torcida eram mais do tipo… — Reggie começou a sacudir os quadris, imitando uma dança que tinha muito o que melhorar — sabe… se mexer com a música e não mexer na música em si.
— Nós literalmente cantamos enquanto dançamos — disse, já com a paciência prestes a acabar.
— Se você chama aquilo de cantar… — Luke murmurou, olhando para a baqueta que restava em sua mão.
Mas então ele teve que levantar o olhar, pois podia sentir o dela perfurando-o como se fosse assassiná-lo. Ótimo, o sentimento era mútuo.
Lançando um último olhar para Patterson, caminhou até o canto da sala e cuspiu o chiclete com uma mira perfeita na lixeira, então foi até o piano. A forma que ela se movimentava desafiava qualquer um a desviar o olhar, mas era impossível, nenhum dos membros da Sunset Curve conseguia se conter de curiosidade com o que ela iria fazer. Com um gesto performático, a garota sentou-se, a saia curta ficando no limite, então jogou as longas ondas por trás de seu ombro. Ela posicionou as mãos nas teclas com naturalidade óbvia para os músicos e uma melodia desconhecida começou a tocar, logo sendo acompanhada pela voz de .
Ela mais murmurava do que dizia palavras, como um som incompleto que estava ganhando forma, mas aquilo foi o suficiente para abalar os meninos. Para alguém que nunca havia sido vista no programa de música da escola, eles estavam impressionados com o controle vocal dela. Não havia nem frases e nem lírica para comovê-los, era apenas o som cru e emocionante que saía de . Eles amavam música mais do que qualquer outra coisa, especialmente Luke, e por isso até ele era capaz de dizer quando alguém que lhe desagradava era um excelente musicista.
Ainda preferia ter sua banda intacta, mas a maneira que a voz de mexeu com ele fez com que um pouco de alívio se instaurasse dentro dele: ela não ia tirar a chance deles de vencerem.
Quando ela terminou, os meninos continuaram em silêncio, ainda um pouco impactados. Bom, não era a situação ideal, mas não era tão ruim também. Luke ainda encarava fixamente seus cabelos longos, processando tudo o que havia sentido naquele momento.
— Certo… — Reggie começou a falar. — Então todos de acordo com a na banda, né?
Bobby e Alex assentiram, sorrindo para ela, que abriu um sorrisinho de volta, antes de se virar para Luke.
Os olhos dela estavam mais brilhantes agora, como se a música a iluminasse.
Ele pigarreou, tentando controlar os próprios pensamentos confusos, e pegou um papel do bolso, deixando-o em cima do piano.
— Essa aqui é a música que a gente vai apresentar. Já estamos treinando há semanas.
ergueu uma sobrancelha antes de desviar o olhar para o papel. Então suas sobrancelhas se ergueram mais.
— My Name is Luke?
— É o nome da música — ele explicou.
— Não sou idiota. Mas achei egocêntrico, não acha?
— Claro que não é egocêntrico! — ele replicou, emburrado.
— Ahn… — Reggie coçou a cabeça.
— Na verdade… — Alex se intrometeu. — É um pouquinho egocêntrico sim.
— Err… só um pouquinho — Bobby concordou.
— Achei que tinham gostado da música! — Luke reclamou, incrédulo com a mudança de lado dos amigos.
— E gostamos! Mas não muda os fatos — Alex acrescentou, baixinho.
— O que importa é que é uma boa música.
— Tem razão, é uma boa música.
Os meninos viraram para como se um monstro tivesse surgido no meio da sala. Ela estava de fato concordando com Luke?
Isso fez um sorriso radiante voltar ao rosto dele.
— Sim, uma música excelente. Tenta pegar a letra até amanhã pra gente te encaixar em algumas harmonias e tals.
— Eu não vou cantar essa música.
O cérebro de Luke travou.
— Ahn? — Reggie perguntou. — Mas, mas… você não gostou?
— Gostei. — Ela enfim se levantou do piano, apoiando-se nele agora de pé. — Acho que vai dar uma boa música um dia, mas não é essa música que vamos cantar, não tem nada a ver comigo.
Luke olhou chocado para ela. A sala parecia pequena demais para a tensão de um único olhar entre os dois, como se a qualquer momento tudo ali dentro fosse explodir. Então, depois de um minuto de silêncio pesado e desconfortável, o guitarrista caiu na gargalhada.
Alex, Reggie e Bobby se encararam, confusos.
— Acho que ele endoidou de vez — Bobby sussurrou.
Luke continuava rindo de frente para uma de olhos estreitados, que parecia cada vez mais paciência. Patterson limpou uma lágrima que chegou a cair de seus olhos, e falou, ainda no meio de um sorriso.
— Ah, . Tão acostumada a ser a capitã que acha que em — ele olhou para o relógio da parede — dez minutos como membro temporário da Sunset Curve, você será a responsável por decidir qual música nós vamos tocar? O que você quer, tocar uma música sua?
— Eu ia sugerir uma música nova, com composição de ambas as partes. Para ser justa. — Ela frisou a última palavra em tom de ataque.
— Não é querendo causar problemas — Alex deu um passo para frente —, mas de fato só faltam três semanas para o concurso. Não acha que é um pouco pretensioso pensar que conseguimos não só compor, mas ensaiar uma música nesse meio tempo?
— Achei que vocês eram uma boa banda, e boas bandas não precisam de mais do que isso — ela replicou, o olhar gélido.
— E somos uma boa banda. Com uma boa música! Se quiser cantar na Sunset Curve, você vai cantar My Name Is Luke. Senão, é só não cantar.
Ela olhou nos olhos dele, então pegou um chiclete do bolso da saia, jogando-o dentro da boca. Em menos de um minuto, uma bolha pequena já tinha se formado em sua boca, estourando logo depois.
Luke rangeu os dentes. Tinha certeza de que aquele era o som do seu novo pesadelo.
— Beleza — ela disse. — Então eu não vou cantar My Name Is Luke. — Antes que um sorriso se abrisse no rosto de Patterson, no entanto, ela completou: — E nem vocês, já que vou agora mesmo falar com a sra. Preckett sobre minha recepção. Ou a falta dela, no caso.
jogou os cabelos sobre o ombro de novo, mesmo eles já estando perfeitamente alinhados atrás dela, e se virou, caminhando para fora da sala como se detivesse todo o poder.
E ela detinha. Ela tinha o poder de permitir a participação deles ou não.
Luke ainda encarava a porta, por onde tinha acabado de sair, quando ouviu um pigarro. Virando-se, encontrou todos os amigos o encarando.
— O que foi?
— O que foi? O que foi? — Alex parecia à beira de um colapso. — Pelo amor de Deus, Luke, vai atrás da garota agora antes que nossa chance esteja arruinada!
— Mas ela que não aceita as coisas! Já ensaiamos a música várias vezes!
— E vamos ter chance de apresentá-la, se ganharmos o concurso. Mas adivinha? Não vai ter concurso sem ! Agora tira essa sua bunda daqui e resolve isso.
Luke olhou para Alex, antes de praguejar baixinho e sair correndo. O amigo tinha razão, eles estavam presos à garota, mesmo que isso significasse perder a chance de apresentar sua música.
Naquele momento. Só naquele momento. Depois que vencessem e saísse da banda, eles poderiam cantar quais músicas eles quisessem.
Luke a avistou no fim do corredor, perto da sala da coordenação, e um frio desceu por sua espinha. Ele estava prestes a se arrepender pelo resto da vida.
, espera!
Ela parou no corredor, então se virou, tão lentamente que parecia que fazia de propósito para torturá-lo.
— Sim? — ela perguntou, sorrindo.
Ele queria arrancar aquele sorriso do rosto dela, mas não podia. Por isso, tinha que tirar o próprio do rosto.
— Uma semana. Darei meu máximo para compormos uma música em uma semana.
O sorriso dela cresceu.
— Que boa ideia a sua.
— Mas — ele completou —, se não conseguirmos, voltamos ao plano original de cantar My Name Is Luke.
Algo no olhar dela mudou, como se estivesse analisando cada nuance daquele acordo.
— Você vai se dedicar para compor essa música? — ela perguntou.
— Como sempre me dediquei. Desde que você se dedique de volta.
— É óbvio que vou me dedicar. — Ela o olhou de cima para baixo, então mascou o chiclete, pensativa. — Fechado. Nos encontramos amanhã às quatro na sala de música, já deu de drama masculino por hoje.
E saiu andando pelo corredor, sem nem perceber o sorriso no rosto do guitarrista conforme ela se afastava.
Nem mesmo Luke compunha com tanta facilidade assim. E não seria , completamente sem experiência profissional, que iria fazê-lo. Ela podia ter a voz que fosse, mas nem isso a salvaria de um bloqueio criativo.
E nada impediria a Sunset Curve de cantar a sua música.

𝄞♫

5 de abril de 1995

estava sentada no piano, dedilhando algumas teclas, quando Luke chegou. Ele liberou os meninos para treinarem na garagem enquanto ele lidava com aquele pequeno contratempo. Uma semana não faria com que eles perdessem o ritmo de tempos.
— Boa tarde, — ele cumprimentou, anunciando sua chegada.
Ela levantou a cabeça das teclas, mas apenas para olhar para o relógio.
— Você está três minutos atrasado.
— Meu Deus, alguém poderia ter morrido — ele debochou, fazendo-a fechar a cara.
— Você não consegue ficar quieto um segundo? — Tomando o silêncio dele como iniciativa, ela continuou a falar. — Estava pensando na melodia que toquei para vocês ontem. Ela tem estado na minha cabeça há meses, e parece certo usá-la.
Era uma melodia excelente, Luke tinha que admitir, mas um pouco menos agitada do que o que estava acostumado a tocar.
— É bacana, mas não sei se encaixa com a proposta da banda.
— Então, melhore a melodia — ela disse, e foi tão direta e sem sarcasmo que o desconcertou. Tudo o que ele foi capaz de responder foi:
— Hm… Tá… Bom, toca de novo então.
abriu um sorrisinho antes de posicionar as mãos no piano. A melodia ressoou novamente e, se fosse admitir, Luke já basicamente a sabia de cor. Aquelas notas haviam se fixado na sua cabeça como se ela tivesse colocado um gramofone em looping dentro de sua cabeça. E bastou que ele escutasse apenas uma vez.
Porque, mais uma vez, ele admitia que era muito boa. Assim que os dedos da líder de torcida ficaram suspensos no ar, ele se afastou, quase correndo para onde tinha um violão do outro lado da sala. Puxou uma cadeira para perto do piano e se sentou, afinando as cordas.
— Ok, toca de novo — ele pediu.
não questionou ao vê-lo tão sério e dedicado pela primeira vez desde toda a confusão. Começou a tocar de novo a melodia, enquanto ele arriscava alguns acordes, ideias de composição surgindo em sua cabeça. Depois de repetirem três vezes, alcançou o bolso da saia, de onde tirou um pedaço de papel, entregando-o a Luke.
— A partitura. Para vocês… melhorarem — ela falou com dificuldade, como se exigisse toda a sua humildade dizer aquelas palavras.
Luke entendia. Teria sido difícil para ele também.
— Valeu. — Ele pegou o papel, guardando no bolso. — Essa parte eu vou passar depois com os meninos, devíamos focar na letra.
— É, devíamos.
— Você já compôs algo antes?
— Sim, ué. Não estou te mostrando essa música?
— Eu sei — ele respondeu, cerrando os dentes. Por que a garota tinha que ser tão propositalmente difícil? — Mas quis dizer compor a lírica da música.
Ela ficou em silêncio, encarando as teclas do piano que ela dedilhava de leve.
— Bom… mais ou menos.
— Mas ou menos? — ele questionou. — É uma pergunta de sim ou não!
— Tá, sim! Tipo — ela parecia levemente envergonhada, mas era difícil de ler suas feições por trás de sua armadura —, eu escrevo todas as músicas que cantamos nos jogos.
Luke parou, encarando a garota, como se não tivesse escutado. Então, como uma onda surgindo na superfície, ele explodiu.
— Sua maior composição é “as águias vão caçar; é noite na floresta; depois da nossa vitória; ninguém segura a nossa festa” e você quer jogar My Name Is Luke fora para compor do zero em uma semana?!
— Olha aqui, nós temos um trato, não temos? — Ela o encarou, o rosto fechado. — Então me ajuda a tentar compor, e se eu for tão merda assim, a gente vai cantar a sua música egocêntrica.
— Ela não é egocêntrica!
— Se você diz.
— E eu nunca disse que você é uma merda — ele completou, depois de alguns segundos de silêncio.
— Mas pensou.
— Não com essas palavras — ele corrigiu, fazendo-a revirar os olhos, mas com a sombra de um sorrisinho. — Mas vamos lá. Você tem algum tema de música em mente?
Ela segurou uma mecha de cabelo nas mãos, pensativa enquanto a penteava.
— É uma música animada, acho que não cabe uma letra triste. A não ser que a gente faça aquelas enganações de a música parecer feliz até você prestar atenção na letra.
— Não, acho que a música pra vencer merece ser impactante, emocionante, mas não triste.
— Certo, em alguma coisa nós concordamos.
— Enfim — ele disse, a voz revelando o cansaço.
Sem se verem, os dois abriram um sorrisinho. Então, o silêncio se instalou conforme eles pensavam. Luke abriu a própria mochila e tirou o único caderno (de músicas, sem nem um único conteúdo escolar anotado) com o único lápis e borracha que trazia na mochila. Arrancou uma folha e começou a rabiscar palavras que vinham em sua cabeça e, embora sua cabeça pensasse no tempo em que estavam perdendo, ele gostava do processo criativo de escrever uma nova música, e tinha que focar nisso naquele momento. E aquela música o havia animado, poderia realmente ter um resultado muito bom.
Do seu lado, já havia colocado mais um chiclete dentro da boca e rabiscava em uma agenda rosa. E, toda vez que a cabeça de Luke parecia chegar próxima de alguma ideia, fazia uma bolha de chiclete que estourava junto com qualquer possibilidade de boas letras. E com a paciência do garoto, já raríssima.
Na quinta bolha, Luke bateu as mãos no piano e se levantou, nervoso.
— Já deu por hoje. Tô vazando.
— Vai me largar aqui sozinha para compor? Mesmo? Belo trato, hein — ela falou, a raiva presente na sua voz.
— Vou te largar com essa porcaria de chiclete pra você tentar pensar na sua musiquinha.
— Não chama de “musiquinha”. — Ela fez aspas com as mãos, se levantando.
— Então leva a sério, porra! Tô tentando pensar e você fica me desconcentrando!
— Porque é a minha forma de pensar. Você acha que só você vai ser capaz de compor essa música?
— Alguém tem que ter a experiência.
Ela fechou a tampa do piano, irritada, mas cuidadosa.
— Eu até estava fazendo um esforço para não te odiar, mas você não ajuda!
— Olha quem fala!
Luke jogou o material na mochila de qualquer maneira e saiu sem olhar para trás, batendo a porta atrás de si.

𝄞♫

6 de abril de 1995

Apesar da raiva que a garota havia feito Patterson passar, ele se encontrou com a Sunset Curve no dia seguinte para mostrar a partitura da música de porque, por mais que tentasse fingir que não, estava animado para compor. E podia ver que todos os outros garotos também haviam curtido a melodia.
— E aqui eu posso fazer um… — Reggie dedilhou o baixo. — Não, pera… Assim…
— Se a gente estendesse essa parte, poderia ter uma ponte. Ou uma…
— Modulação! — Bobby completou Alex, animado.
— Você sempre quer botar modulação em tudo — Luke reclamou.
— Mas você sabe que eu estou certo — Bobby disse, sorrindo.
Alex, Reggie e Bobby olharam para ele como filhotinhos felizes e pidões. Patterson revirou os olhos.
— Tá bom, você tá certo.
Os garotos trocaram high fives e depois voltaram para seus instrumentos. A música estava ganhando corpo muito rápido com a sintonia e o talento dos meninos, e a balada emocionante ganhava forma como um pop rock poderoso.
Eles já conseguiam imaginar a plateia gritando conforme tocava. Sentiam o palco sob seus pés, as luzes quentes fazendo-os suarem conforme tocavam, o ruído das vozes do público…
Mas o barulho da porta da garagem abrindo os despertou da ilusão, e todos olharam para o intruso inesperado.
— Som maneiro — disse, antes de voltar a mascar o chiclete.
Ela não estava com a roupa do treino de torcida pela primeira vez desde que o grupo se reuniu, mas usava uma saia jeans curta e uma blusa colada que passava o mesmo estilo.
?! Como descobriu nosso lugar de ensaio?! — Luke perguntou, assustado.
— Ah, não! Ela é uma agente secreta que veio nos sequestrar! Corram! — Reggie gritou.
— Por que, de tanta gente, ela iria nos sequestrar? — Alex perguntou, ainda parado no mesmo lugar.
— Deve ser culpa do Luke! — Reggie estreitou os olhos. — Ou um plano maligno. Agentes secretos sempre têm planos malignos.
revirou os olhos, fazendo uma bolha de chiclete que logo estourou.
— Meu primo trabalha na delegacia. Perguntei um endereço que recebesse muita reclamação de som alto tocado por uma banda adolescente e voilà.
— Ei! Nosso som é perfeitamente normal! — Bobby protestou.
— Não vim questionar o volume. Vi que tá ficando legal a música, vocês já mudaram muita coisa.
Luke não respondeu. Apesar de estar irritado com a presença dela e a maneira que ela o desconcentrou, sabia que tinha sido rude, mas não estava muito a fim de admitir e pedir desculpas. Por isso, decidiu ir pela estratégia mais clássica: fingir que nada havia acontecido.
— Decidiu continuar a composição?
o encarou diretamente, e ele não conseguiu ler muito o que estava em seus olhos. Irritação, muito provavelmente, mas será que também havia arrependimento da parte dela?
A garota tirou então um papel do bolso da saia jeans e estendeu para Luke, desviando os olhos.
— O que é isso? — ele perguntou.
— Depois que você foi embora ontem, eu meio que tive uma ideia. É só um começo, mas acho que ficou legal. — Ela deu de ombros, fingindo não se importar.
Mas ela se importava. Muito. Era nítido perceber pela maneira que ela se controlava para não ficar encarando o papel nas mãos de Patterson, ou como sua mão direita tremeu de leve quando os outros meninos se juntaram para ler junto. Ou quando ela pestanejar baixinho antes de falar:
— Na verdade, talvez seja melhor mostrar na música. Não seria exatamente no início, mas… já é algo legal. Tipo…
Ela olhou em volta e encontrou um teclado que ficava abandonado ali, raramente usado pelos garotos em algumas composições. Ela o ligou e começou a dedilhar a melodia, um pouco mais rápido do que o normal, ansiosa para mostrar, mas nervosa sem querer que durasse muito.
— Fica tipo assim…

Then the bubblegum blows
(Então o chiclete estoura)
And your ego gets so loud
(E seu ego fica tão alto)
But underneath it all
(Mas por baixo de tudo)
I can still hear the sound
(Eu ainda consigo ouvir o som)

Of my heart beating faster
(Do meu coração batendo mais rápido)
And my lungs getting full
(E meus pulmões ficando cheios)
Getting ready to make music with you
(Ficando pronta pra fazer música com você)

— E aí acaba. Nada demais. Pensando bem, nem está muito bom.

— Mas acho que é mais fácil adaptar algo já criado do que continuar com nada, não? Mas podemos descartar também…
! — Luke gritou dessa vez, fazendo a menina pular do teclado. — A música ficou super legal.
A líder de torcida piscou três vezes, como se não acreditasse no que estava ouvindo. Patterson nunca tinha a visto tão nervosa ou falante, geralmente era tão segura de si e só soltava comentários mais atravessados. Mas alguma coisa ali mostrava que a música deixava vulnerável. Que, talvez, aquilo fosse tão importante para ela como era para ele.
— Você… gostou mesmo? — ela perguntou, ainda atordoada.
— Sim, gostei. Você compôs depois que… bom… eu fui embora?
— É, meio que sim. — Ela deu de ombros, olhando para as próprias mãos.
— Você já compôs antes, ? Ficou tão legal! — Bobby elogiou, sorrindo.
— A gente bem que podia testar com as ideias que a gente pensou. Encaixar todos os instrumentos com a lírica — Alex completou, as baquetas girando ansiosas em suas mãos.
— Enquanto isso, eu vou pensar em… notas para harmonizar com você — Luke disse, engolindo em seco.
Ele era o vocalista original, mas, depois de ouvir cantar aquelas notas, ele soube que aquela música era bem mais dela.
E obviamente inspirada pela situação dos dois.
claramente evitou seu olhar conforme os meninos iam novamente para seus instrumentos, preparando-se para tocar junto com o teclado. Alex deu a entrada na bateria e começou a tocar a melodia, sendo incorporada com as guitarras de Luke e Bobby e o baixo de Reggie. Continuaram tocando até a parte em que havia composto a letra, que ela começou a cantar. Luke arriscou algumas melodias, e um sorriso cresceu em seu rosto: aquilo parecia promissor.
Depois da primeira passagem, os meninos sorriram entre si, animados. As coisas pareciam estar se encaixando.
— Irado! Agora só precisamos do resto da letra — Reggie comentou.
— Deixa isso com e comigo.
Patterson e trocaram um olhar. Ele a chamou com a cabeça para perto dele, e ela saiu do teclado para se aproximar, deixando os outros meninos imersos na composição instrumental.
Quando parou na frente de Luke, ele percebeu pela primeira vez o quanto ela era baixa. Estava sempre com uma postura tão confiante e desafiadora que ela parecia até mais alta que ele, mas, no fundo, ela era só uma menina. E ele começava a perceber isso agora.
— Olha, foi mal pelo que eu disse ontem e a maneira que eu saí. Sei que a paciência não é exatamente a minha parada. — Ele coçou a cabeça.
— Tudo bem, eu devia ter percebido que eu tava te atrapalhando. Embora você também pudesse ter falado. — Ela ergueu uma sobrancelha.
— É… talvez… mas pelo jeito rendeu uma boa música, não?
Ela desviou o olhar para o chão e Luke abriu a boca, chocado: era impressão dele ou estava vermelha?
— Ficou tão óbvio assim?
— Não é uma crítica — ele se apressou em dizer. — Na verdade, estou impressionado com sua facilidade de escrever. Para quem nunca se arriscou com isso antes, você até que leva jeito.
— Doeu? — ela perguntou.
— Ahn? — Luke franziu a sobrancelha, confuso.
— Admitir que eu sou incrível? — ela perguntou, com um sorrisinho no rosto.
— Menos, , menos — ele falou, mas não conseguiu conter o próprio sorriso. — Acho que podemos manter essa temática para compor, não? Por que não tentamos ver os versos anteriores?
— Vão ser sobre nós também?
Luke olhou para . Realmente deixara uma briga do sétimo ano pela qual ele mal lembrava o motivo o afastar de uma musicista tão incrível assim?
— Acho que só o resto da música pode dizer. — Luke olhou para os lados, antes de então estender a mão para . Ela ergueu uma sobrancelha, questionadora. — Acho que produzimos melhor juntos. Vamos tentar uma… trégua?
Ela o olhou de cima para baixo, os olhos estreitados analisando-o, mas então suas feições se suavizaram quando ela aceitou a mão dele.
— Trégua.
riu, uma risadinha delicada e adorável, antes de se voltar para o papel e começar a contar algumas ideias que havia tido. Agora que rompera a primeira barreira da raiva e da vergonha, ela não conseguia conter a excitação em dividir seus pensamentos com ele.
E, por algum motivo, Luke não conseguia desviar o olhar dela.

𝄞♫

7 de abril de 1995

Luke e se encontraram novamente na garagem no dia seguinte. Haviam conseguido compor os primeiros versos até chegarem na parte que já havia criado, e até fizeram uma ponte, mas o refrão ainda estava provisório. Mesmo assim, havia sido um trabalho impressionante para uma tarde de trabalho. Agora que havia desbloqueado o lado animado e descontraído de , alguma coisa na criatividade de Patterson havia sido desbloqueada. Há tempos não se sentia tão capaz de escrever daquela maneira.
estava sentada no teclado, a agenda rosa aberta sobre as teclas, enquanto Luke rabiscava novamente em seu caderno de músicas algumas ideias. Vez ou outra os dois cantavam para o outro trechos que haviam pensado. Às vezes, só se pegavam olhando um para o outro e sorriam.
A garagem era um lugar mágico para Luke, suas melhores composições surgiram ali e era um refúgio seguro contra as brigas com seus pais. Nunca havia compartilhado aquele espaço com mais ninguém que não fosse os meninos, e eles eram sua família. Ter ali a princípio parecera estranho, mas agora… com a música quase finalizada e ambos elétricos trabalhando, parecia muito certo.
A música começara como algo inspirado pelos dois, mas agora beirava ao imaginário (ou era mais seguro pensar assim). Depois de duas horas compondo sem parar, Luke bateu nas teclas do teclado, fazendo um som estranho e nada harmônico ressoar.
— Pausa!
— Por favor — concordou. — Quer um snickers?
— Com toda certeza.
Ela lançou o chocolate, e ele o segurou no ar. Ambos então se aproximaram e tocaram suas barrinhas.
— Um brinde à música — Luke começou.
— E a melodias com modulações!
— Você também? — ele reclamou, tirando uma risada dela.
Os dois então morderam o chocolate, soltando um audível “hummm”, maravilhados com o sabor. Luke olhou para de canto e não conteve o sorriso ao perceber quão envolvida com o doce ela estava.
— Sabe, você ainda não me contou sobre como você aprendeu a tocar piano desse jeito — ele comentou, curioso.
— Você não perguntou — ela alfinetou, mas com a voz leve. Então, seu olhar desceu para as teclas, passando a mão livre por elas quase em um carinho. — Minha vó me ensinou.
— Vocês são próximas? — Luke perguntou.
— Éramos.Ela faleceu há 5 anos. Câncer. — Ela deu de ombros, como se não incomodasse, mas era óbvio que incomodava.
— Sinto muito — ele disse, sinceramente. — Ela era tão boa quanto você?
— Muito melhor.
— Droga, deveria ter chamado ela pra ser da Sunset Curve então.
Isso tirou uma risada da garota. Ela sacudiu a cabeça em negação, ainda sorrindo.
— Sabe, ela teria adorado você. Teria reclamado que sua música é muito barulhenta e confusa, claro, mas, se ela te visse compondo… ela ia amar.
— Ela compunha também? — ele perguntou.
Ela assentiu, olhando pro teclado. Então, dedilhou um trecho curto e bonito.
— Ela fez essa música para mim três meses antes de… enfim — ela disse, quase em um sussurro.
— É linda — ele respondeu, em um sussurro também.
Ela levantou o rosto para voltar a encará-lo, mas não tinha percebido quão próximos seus rostos estavam. Pela segunda vez, Luke percebeu ficando vermelha, e sua curiosidade atiçou: será que ela ficaria da mesma cor se ele a beijasse?
Luke arregalou os olhos e se afastou da menina, fingindo conferir sua guitarra. Estavam falando da avó morta dela, caramba, definitivamente não era o momento de pensar em beijar ninguém.
Ele nem mesmo achava beijável! Pelo menos não há dois dias atrás. Agora que havia descoberto sua expressão facial de concentração quando compunha, e seu sorriso sempre que conseguia o verso certo, ou a risada quando Luke a provocava, ou a ansiedade quando ia compartilhar uma ideia… A garota antes tão básica havia se tornado um mundo de cores e detalhes que ele estava curioso para descobrir.
Luke soltou a guitarra e se levantou, pigarreando.
— Quer caminhar na praia aqui perto e depois voltar para escrever?
— Claro.
Ele estendeu a mão para ajudá-la a se levantar do banquinho do teclado, e ela aceitou. A mão dela estava mais fria que a dele, e era menor, embora ela tivesse dedos esguios que ela movia com habilidade no teclado. Por um momento, ele teve dificuldade de soltar a mão de .
A praia era perto e eles chegaram logo, caminhando pela beirada, vendo algumas pessoas sentadas em mesas próximas da faixa de areia. Era um domingo tranquilo de primavera, e um vento fresco balançava os cabelos de .
— Você mora num lugar legal — ela falou, observando a praia enquanto eles caminhavam.
— Eu não moro ali. A gente só usa a garagem pra ensaiar.
— Ah! Saquei. É um bom lugar pra isso. Gosto da acústica e… não sei, lá tem cara de maternidade musical.
— Maternidade musical? — ele questionou, rindo.
— É, né, onde as músicas nascem… Ah, você entendeu! — Ela empurrou ele com um ombro enquanto ele não parava de rir.
— O nome é ridículo, mas funciona bem. Eu me sinto muito bem lá. — Ele chutou uma pedrinha na calçada. — Nós começamos a ensaiar lá dois anos atrás, mas a banda já existe desde o ensino fundamental.
— Eu lembro de vocês se apresentando no show de talentos da escola.
— Lembra?! — ele questionou, chocado.
— É, a gente tava no sexto ano. Foi antes do trabalho de ciências no ano seguinte.
— Merda. Eu tinha esperança que você tivesse esquecido isso. — Ele coçou a cabeça.
— Esquecer?! Você me fez sair chorando de sala!
— Eu sei, eu sei! Mas você também não era fácil.
— Óbvio que eu não era, eu era uma adolescente de doze anos. — Ela revirou os olhos. — Mas antes de eu te odiar totalmente, eu lembro de ver vocês se apresentarem. Foi tão legal, fiquei enchendo o ouvido da minha vó sobre como eu queria ser música também.
— Sério? — ele questionou, surpreso. — Sempre achei que seu sonho fosse virar advogada.
— É o sonho dos meus pais — ela disse, a careta no rosto parecendo que tinha comido algo azedo. — Desde que minha vó faleceu, sinto que não tenho mais ninguém que me entenda do meu lado. Eu me esforcei pra fazer tudo do jeito que eles queriam, até abandonei o piano, mas isso só me deixou infeliz.
— Eu entendo. Meus pais também não gostam da ideia da banda.
— Impossível! — Ela arregalou os olhos. — Eles já te ouviram tocar?
— Te faço a mesma pergunta.
— É… Talvez eles tenham uma audição prejudicada, não sei — falou.
— Tem que ser. Você é muito talentosa, . É a última pessoa que eu achei que fosse ser tão boa, confesso… Mas você nasceu para isso. E se quer seguir na música, você deveria.
— Eu quero — ela falou, baixo, mas havia uma energia em sua voz, como se ela clamasse por algo. — Por isso, desde que soube do concurso, eu voltei a tocar, mas eles não aceitavam participação individual de jeito nenhum! E sem aquilo, não teria a menor chance dos meus pais me escutarem, era como se fosse a minha…
— Última chance — Luke completou, e ela o encarou, assentindo.
— Exatamente. Sabe… foi mal meio que chegar invadindo sua banda, eu precisei dar uma apelada.
— Agora que sei de tudo, acho que faria o mesmo no seu lugar, sendo honesto. — Ele deu de ombros.
— Mas prometo que assim que tudo der certo, eu saio da Sunset Curve de deixo vocês em paz. Vou tentar uma agência para carreira solo.
— Boa. Mas… se por acaso gostar da música coletiva… Bem, digamos que você mereceu sua vaga na Sunset Curve, por mais que ela tenha sido forçada no início. Podemos estender a trégua por mais algum tempo. Pelo bem da música — ele acrescentou rápido.
olhou para ele, os olhos brilhantes, antes de abrir um sorriso.
— É. Não seria nada mal.
Os dois seguiram caminhando e conversando. Luke estava impressionado. Não tinha ideia que a garota pudesse ter tanto em comum com ele, na verdade, era a última pessoa no mundo com quem ele pensou que poderia ter uma conexão. Mas era inegável agora olhar para e enxergá-la como um outro lado de si próprio, um lado que tivesse desistido por um tempo, que não tivesse um grupo para apoiá-lo, como havia tido com Reggie, Alex e Bobby.
Eram dois lados da mesma moeda, e aquilo fazia com que ele simplesmente não conseguisse desviar o olhar.

𝄞♫

8 de abril de 1995

— Eu odeio segunda-feira — Bobby bocejou.
A banda estava reunida às 6:45 da manhã na escola a pedido de Luke. Reggie babava de leve em cima da mochila, e os outros estavam com a cara tão amassada quanto. Exceto pelo guitarrista e pela líder de torcida.
— Obrigado por virem mais cedo. Eu chamei vocês aqui porque… e eu terminamos a música.
Reggie acordou de repente do seu sono em um pulo, os olhos arregalados.
— Meu Deus, eu sonhei que um palhaço me perseguia! — ele gritou.
— Só cala a boca — Alex murmurou, cobrindo o rosto cansado com as mãos.
— Ahn… beleza. — Luke ignorou os amigos e voltou a sorrir para . — Vamos?
Ela sorriu, aquele sorriso brilhante e animado, e começou a tocar a música no piano. Luke acompanhou com a parte dele da guitarra, e foi justamente quem começou a cantar a música.

How annoyed can one get
(Quão irritado alguém pode ficar)
With just trying to let it be
(Com a tentativa de deixar pra lá)
The tension fills the room and more
(A tensão preenche a sala e mais)

And we stand side by side
(E ficamos lado a lado)
Hold my breath and try to smile
(Prendo a respiração e tento sorrir)
I play the show, I just ignore
(Eu sigo com o show, eu só ignoro)

Então tomou fôlego, e a voz dela preencheu a acústica da sala de música antes de cantar o trecho que os meninos tanto tinham adorado.

Then the bubblegum blows
(Então o chiclete estoura)
And your ego gets so loud
(E seu ego fica tão alto)
But underneath it all
(Mas por baixo de tudo)
I can still hear the sound
(Eu ainda consigo ouvir o som)

Os dois então sorriam e se olharam antes de começarem a entoar juntos:

Of my heart beating faster
(Do meu coração batendo mais rápido)
And my lungs getting full
(E meus pulmões ficando cheios)
Getting ready to make music with you
(Ficando pronta pra fazer música com você)
And I might hate you tomorrow
(E eu posso até odiar você amanhã)
But I will just let it play
(Mas eu só vou deixar tocar)
Until we blow them all away
(Até nós impressionarmos todos eles)
Today I might even love you
(Hoje eu talvez até te ame)
I might even love you
(Eu talvez até te ame)
I might even love you oh oh oh
(Eu talvez até te ame oh oh oh)
But it’s just for today
(Mas é só por hoje)


O olhar dos dois e o ritmo da música foi cortado por uma salva de palmas dos meninos. Ninguém parecia mais estar com a cara de sono de antes, na verdade, eles pareciam eletrizados.
— Isso ficou bom pra caralho! Caraca, quero ver muito como fica com o resto! — Bobby exclamou, já correndo para pegar a outra guitarra.
— Vocês nem deixaram a gente terminar — comentou, mas um sorriso gigante iluminava seu rosto.
— Desculpa, nos empolgamos um pouquinho. — Reggie sorriu, já com o baixo em mãos.
— Por que não acompanhamos vocês dessa vez? — Alex pegava as baquetas e se ajeitava na bateria. — Vamos até o final com as melodias para entender o todo aí depois a gente encaixa alguns vocais extras.
— Tive ideia para alguns. — Luke distribuiu um papel para cada banda.
— Me diz que tem uma harmonia quíntupla. A gente nunca teve gente o suficiente para fazer uma harmonia quíntupla — Reggie pediu.
— É claro que eu botei uma harmonia quíntupla!
O baixista comemorou, tirando risadas do grupo, até que Alex posicionou as baquetas na bateria.
— Prontos?
Luke e trocaram um sorriso. Aquela música estava pronta há um dia, mas estava tão boa que Patterson sentia que a treinara a vida inteira para aquela música.
Alex marcou a entrada do tempo e eles começaram a tocar e a cantar. Animado, Luke se aproximou com a guitarra para o piano de , e começou a tocar para ela, observando-a sempre que era a vez dela de cantar. Eles mal olhavam para os instrumentos, os olhos conectados como ímãs que eram impedidos pela natureza de se afastarem.
Ela estava sorrindo, mas seu olhar era desafiador, como se o questionasse se ele conseguiria acompanhá-la. Então, Patterson ia e cantava com mais energia, colocava uma nota extra nos vocais, e reagia com uma nota mais forte. Era ao mesmo tempo uma competição e uma parceria, como a composição da música em si.
Quando a banda terminou de tocar, todos estavam sem fôlego, um pouco suados, mas completamente animados. Ninguém precisou falar, mas sabiam que aquela música seria capaz de vencer o concurso. Eles nunca haviam tocado antes daquela maneira.
O sinal da escola ressoou pela sala de música, e todos se olharam sabendo que precisavam ir para a aula, mas com a cabeça totalmente fixa na música.
— Voltamos às 16h para ensaiar mais? — Bobby perguntou, e todos confirmaram com sorrisos.
O outro guitarrista saiu, seguido de , mas, antes que Luke pudesse segui-los, seu corpo foi bloqueado.
Alex e Reggie o encaravam fixamente.
— Lá vem, o que eu fiz agora? — Patterson revirou os olhos.
— Só queremos saber o que tá rolando entre você e — Alex comentou.
— O quê? Nada tá rolando entre a gente — Luke falou, embora sentisse o estômago se contrair, como se o corpo não pudesse mentir que se sentia afetado.
— Nem uns beijinhos? — Reggie perguntou, fazendo biquinho.
— É óbvio que não!
— Mas você não queria? Nem um pouquinho? — o baixista insistiu.
— Vimos a maneira que vocês estavam se olhando na música. I might even love you?
— Escrita lírica é sobre criatividade. Achei que vocês já sabiam o suficiente para saber que escrevemos sobre coisas inventadas também — ele desconversou.
— Ninguém inventou você quase pulando em cima dela — Reggie completou.
— Eu não pulei em cima dela!
— Por isso eu disse quase! Sério que sou eu que estou em recuperação em linguística?
— Não tem nada rolando entre e eu — Luke afirmou novamente. — Somos só parceiros compositores vivendo de uma trégua no nosso ódio mútuo.
— Se é isso que você fala para si mesmo para dormir melhor… — Alex começou a se afastar.
— Vocês são dois idiotas. — Luke revirou os olhos, os três saindo da sala de música para o caos generalizado do corredor.
— Só estamos te alertando. Você pareceu feliz nesses últimos três dias e, se é por causa dela, acho que você deveria fazer algo sobre.
— É só por causa da música. Prometo,cara — Luke respondeu Alex, antes de sair andando para sua aula de Química.
Atrás dele, Reggie e Alex se encararam, nenhum dos dois comprando aquela história. Quanto tempo levaria até o amigo admitir os próprios sentimentos?

𝄞♫

25 de abril de 1995

A resposta foi dezessete dias. Esse foi o tempo que levou para que Luke admitisse que realmente estava gostando de .
Eles ensaiavam todo dia, fosse após a aula, fosse fim de semana, fosse com a banda, fossem só os dois. Luke começara até a assistir o ensaio das líderes de torcida, esperando que logo acabasse e ele pudesse arrastar para a sala de música, para o mundo particular deles em que começavam a sonhar com as apresentações que fariam e os lugares que conheceriam depois de vencerem. Porque para eles não era uma questão de se, e sim de quando.
Mas foi apenas um pouco mais de duas semanas depois, no dia do concurso, na sala de música, que Patterson se tocou. Usava uma de suas regatas pretas e uma calça com correntes combinando e suas pernas sacudiam de ansiedade para se apresentar. Foi naquele momento que entrou na sala de música.
— O que está fazendo aqui? Nós marcamos de nos encontrar no campo, esqueceu?
Mas Luke não conseguiu responder. usava um vestido roxo justo com estrelas prateadas, junto de uma jaqueta de couro preta e botas compridas de salto da mesma cor que acabavam logo acima dos joelhos dela. nunca estivera tão gata quanto em sua tentativa de pertencer a uma banda de rock.
Porém, não foram as roupas que fizeram Luke ficar sem palavras. Era o rosto de . Estava irradiando alegria como ele nunca vira antes, como se a vida no palco fosse o seu lar. A vida no palco ao lado dele, pela maneira que seus olhos se fixavam nele da mesma maneira toda vez que cantavam.
Ele sentiu como um grande baque em seu coração. Os amigos tinham razão: ele estava sim apaixonado por .
Que agora o encarava com as sobrancelhas franzidas.
— Luke? Não diga que decidiu ter medo de palco agora.
— Não, não. Foi mal. Vamos?
— Vamos.
Ela estendeu a mão para ele, e ele não conseguiu se conter e segurou, sendo conduzido para fora. Ele tentava aparentar que tudo estava bem, mas por dentro seu estômago dava mil cambalhotas.
Eles chegaram no campo, escurecendo às seis horas da noite, e encontraram o resto da Sunset Curve também prontos para o show.
— Até que enfim! — Bobby exclamou. — Perdeu a hora?
— Estava passando umas últimas notas na sala de música, não vi o tempo passar.
— Ele tava era olhando pro nada, isso sim — comentou.
— Não importa. A abertura vai começar logo, temos que esperar no camarim do teatro da escola! — Reggie exclamou.
Alex não disse nada, mas encarava as mãos de e Luke, que ainda não haviam se soltado. Então, ele trocou um olhar silencioso com o amigo, e, como em toda amizade verdadeira, ele logo compreendeu tudo.
— Reggie, Bobby, acho que esqueci minhas baquetas da sorte na sala de música.
— O quê? Você tava com elas agor-
— Me ajudem a procurar — ele interrompeu Reggie e lançou um olhar firme para os dois, relanceando Patterson e de leve. — Por favor.
Reggie e Alex ficaram se encarando, o primeiro totalmente confuso, até que seus olhos se arregalaram e ele se virou (nada discretamente) para Luke e .
— Ah! Ah, é claro, acho que as vi lá. Nos vemos depois. — Ele piscou de forma nada sutil para Luke. — Vem, Bobby!
Os três saíram andando rápido pelo campo, e Luke usou a mão solta para bater no próprio rosto. Por que tinha que ter amigos tão idiotas?
Por sorte, parecia já ter se acostumado com a esquisitice do grupo, porque não questionou nada.
— Vamos indo para o camarim?
— Na verdade, . — Luke respirou fundo, puxando a mão dela levemente para mais perto dele. — Eu queria falar com você antes da gente ir.
Ela o encarou, as sombras do entardecer começando a tomar o rosto dela, mas seu rosto estava tão iluminado quanto antes, um sorriso leve que acalmava todas as borboletas furiosas no estômago dele.
— Pode falar.
Patterson respirou fundo, encarando os olhos dela para encontrar força para se confessar.
— Eu queria que você soubesse que não estou mais te tratando bem só por causa da trégua. Na verdade, acho que nunca estive, mas era mais confortável fingir que sim do que admitir que a garota que eu tentei por tanto tempo enxergar como alguém ruim na verdade era muito legal. E mais do que legal: era animada, talentosa e mais parecida comigo do que eu gostaria de admitir. — Ele respirou fundo, tentando não processar por que ela parecia tão calma. — Acho que o que estou querendo dizer é que… eu gosto de você, , e acho que estou gostando desde que me permiti te conhecer de verdade.
Luke soltou a respiração de uma vez junto com a última frase, como se libertando de um grande segredo que o acompanhava nas últimas duas semanas, sem ele nem mesmo reparar. Mas então encarou e ficou preocupado. Ela estava tranquila, com o rosto normal, sem demonstrar felicidade ou surpresa ou desgosto ou… nada. O estômago dele voltou a se revirar de nervoso.
Mas então ela abriu um sorriso.
— E você só percebeu que gosta de mim agora?
Luke franziu a sobrancelha.
— Hein?
— Pelo amor de Deus, você compôs um verso dizendo I might even love you e achou mesmo que não gostava de mim?
— Criar música nem sempre é sobre falar a verdade, temos liberdade poética, sabe? — ele disse, emburrado.
— Vai mesmo meter essa pra mim?
— Você tá até parecendo o Alex dessa forma.
— É que ele é mais inteligente que você.
— Ei! — Luke se ofendeu.
Mas, antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, ela agarrou a gola da regata dele e o puxou para um beijo. Luke primeiro ficou em choque, mas então seus olhos se fecharam, seu corpo relaxou e ele se entregou para beijar . E seu mundo explodiu.
Ele achava que nada se comparava a cantar nos palcos para uma multidão, mas estava muito enganado. Nada no mundo poderia ser melhor do que ter entre seus braços, tomando a boca dela com a sua, sentindo-a morder seu lábio e depois sorrir. Aquilo só poderia ser verdadeiramente comparado ao paraíso.
Cedo demais, se afastou dele, as mãos ainda posicionadas na gola. Ela ergueu os olhos, encontrando os dele bem próximos do dela.
— Achei que a música tinha sido suficiente, mas já que houve dúvidas, é melhor explicar: eu nunca senti por ninguém o que sinto por você, essa liberdade de compor, cantar, e ainda falar das coisas mais aleatórias possíveis. Você faz tudo parecer tão certo e fácil, me ajudou a encontrar uma parte de mim que eu passei anos sufocando. — Ela abriu um sorriso largo. — É óbvio que eu também gosto de você, seu lerdo.
— Eu não sou lerdo, só não quis tirar conclusões precipitadas.
— Ai, cala a boca. — Ela revirou os olhos, ainda sorrindo.
— Pode deixar — ele disse, segurando na cintura dela e puxando-a para outro beijo.
O segundo foi ainda melhor que o primeiro, mas também ainda não era suficiente para acalmar todo aquele sentimento que balançava dentro dele. Ele poderia passar a noite inteira beijando e não seria suficiente. Talvez fosse melhor arriscar uma vida toda de uma vez.
Mas ambos sabiam que, naquele momento, isso teria que esperar. Eles se afastaram, ainda sorrindo. O batom de estava todo manchado e falho, e Luke suspeitava que boa parte estivesse em sua boca, mas aquilo não o constrangia. Na verdade, pensar nisso fez seu sorriso aumentar.
— Pronta para vencer um concurso? — ele questionou, apertando a mão dela.
— Eu nasci pronta — ela disse, sorrindo para ele, antes de puxá-lo pelo campo, correndo.
Aquele dia, Luke sentia, era o início verdadeiro de suas vidas. A chance de conseguir um agente. A oportunidade de cantar uma música incrível para uma plateia cheia. Ter todos os seus melhores amigos ao seu redor fazendo o que mais amavam fazer. E, claro, tendo ao seu lado, pronta para dividir o palco e muito mais.
Com apenas 17 anos, eles tinham a vida inteira pela frente. E ele mal podia esperar para vivê-la de verdade.



Continua...


Nota da autora: Olá! Obrigada por chegar até aqui!
Minha obsessão por Julie and The Phantoms volta ao lançamento da série, ou melhor, desde a época da série brasileira. Sou obcecada pelo Luke e recentemente essa ideia rápida veio na minha cabeça porque eu precisava de mais dele. Espero que meu surto escrito em uma semana também divirta vocês! Não esqueçam de comentar o que acharam, viu? <3

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