As gotas frias continuaram sobre nós…
Mesmo debaixo da chuva, muitas pessoas se aproximaram para nos ajudar a levantar e, curiosamente, estavam mais preocupados com ela do que comigo. Uma senhora me entregou meus óculos escuros, que haviam caído no chão. Coloquei rapidamente assim que peguei da mão dela, não queria que a senhorita jasmim descobrisse que eu era deficiente visual. Apesar das muitas pessoas ao nosso redor, conseguia sentir sua respiração ainda ofegante. Certamente, continuava assustada pelo ocorrido.
— Obrigada — agradeceu novamente, com mais controle de voz. — Muito obrigada por me salvar.
— Ah, que bom que você está bem. — Reconheci aquela voz, era a mulher do perfume forte e foz fina. — Quando vi o carro vindo de dentro da cafeteria, senti um aperto.
— Não se preocupe, Grace, estou bem. — Num tom mais calmo e contido agora, regado a sutilezas. — Graças a Deus, e a ele.
— Oh, o cliente estranho — sussurrou a tal Grace, parecendo em choque.
Por mais baixo que tenha sido, consegui ouvir — o que não era novidade.
— Ah, bem, agradecemos. — Continuou Grace, parecendo disfarçar algo.
— Fiz o que qualquer pessoa poderia fazer — respondi normalmente, mantendo minha face voltada para a rua.
— Mesmo assim, estou grata por isso. — Aquela voz suave e doce, parecendo estar sorrindo.
Marcando o início do meu desejo em ver seu sorriso.
— Venha, . Seu joelho está ralado, temos que fazer um curativo antes que infeccione — se pronunciou Grace.
— Tudo bem. — Assentiu sem relutar.
Mas…
As senti se afastando de mim. Em segundos, até mesmo as pessoas curiosas foram se dispersando. Continuei parado por mais alguns minutos, numa reflexão profunda.
Seu nome era .
Estava aliviado por tê-la salvado, um momento de angústia que me rendeu algo valioso. Agora sabia o seu nome, uma confirmação de que a dona daquela voz era real. Meu coração acelerou um pouco, certamente sabendo que deixar de pensar nela agora seria praticamente impossível. O que me levou a cogitar a ideia de tomar café todas as manhãs na cafeteria nova.
Será que deveria mesmo?
— ? — A voz repentina de despertou-me de meus devaneios.
— ? — Me virei para a sua direção.
— O que faz aqui? Por que está debaixo da chuva? — indagou, num misto de curiosidade e preocupação. — O que aconteceu com suas roupas? Você está todo bagunçado.
— Bem, a história é meio louca e longa. — Ri de leve. — Vamos entrar que eu te conto.
Eu mesmo não acreditava no que tinha feito.
Meu primo me acompanhou até o apartamento. Assim que entramos, ele foi até a cozinha preparar um chá quente para tomarmos e espantar o resfriado. Aproveitei para ir ao banheiro, tomei uma ducha quente e coloquei roupas confortáveis. Quando voltei para a cozinha, com uma boa xícara na mão, comecei a contar minha história desde o início, quando fomos à cafeteria tomar café da manhã. Enquanto ele preparava um sanduíche, continuei contando sobre meu súbito interesse na garota do perfume de jasmim, falando sobre ter pensado nela durante o resto da manhã e minha aventura ao voltar à cafeteria.
Até chegar à parte mais louca.
— Espera, você a salvou de ser atropelada? — A voz de parecia surpresa.
— Sim. — Assenti com serenidade.
— Você tem noção do que fez? Se jogou na frente de um veículo em movimento para salvar alguém que nem conhece. — Soou com repreensão. — Não poderia ter deixado outra pessoa fazer isso?
— Eu a salvei, é o que importa. Além do mais, meus reflexos e percepção são melhores que os de uma pessoa comum. Até o momento em que eu cheguei perto dela, ninguém havia percebido o veículo desgovernado — retruquei, de forma coerente.
— Isso é verdade. — Um suspiro fraco. — Fico me perguntando se você realmente está cego. — Riu com ironia. — Às vezes faz coisas como se enxergasse ainda.
— Devo levar isso como um elogio? — Olhei para a direção da voz dele.
— Viu. É disso que estou falando. — pareceu pegar alguma coisa. — Você olha para minha direção como se conseguisse me ver.
— Acredite, são sete anos de prática constante. Odeio quando as pessoas me tratam como um cego deficiente. — Bufei um pouco, o sentindo encostar na xícara em minha mão para enchê-la novamente.
— Aqui está. — Sua voz estava mais branda. — Mais um pouco de chá para alegrar seu dia, só não é de jasmim. — Ele se afastou, rindo.
Tinha mesmo que tirar proveito da situação para me zoar.
— Se vai começar com suas piadas, vou me confinar no quarto — o alertei, indo até o sofá.
— Prometo não abusar. — Continuou, rindo, enquanto se sentava ao meu lado. — Então, depois de sete anos fechado para balanço, está mesmo interessado em uma garota?
— Não é isso. — Ainda não tinha definido meus sentimentos por ela. Inicialmente, poderia dizer que era apenas curiosidade. — Eu… Só me senti bem quando ouvi a voz dela, foi como ver uma luz no fim do túnel, em meio à escuridão.
— Sei. — Aquilo era deboche.
— Estou sendo sincero — retruquei. — Nem a conheço, como posso estar interessado?
— Como? — Uma gargalhada maldosa. — Querido primo, é simples, estando interessado. Quando um homem se interessa por uma mulher, ele precisa ver ela, anseia por isso… Bem, no seu caso, foi ouvir.
— Não estou interessado, mas gostaria, sim, de conhecê-la — admiti, relutante.
— E já sabe o nome dela, pelo menos? — Ele se remexeu ao meu lado.
— Sim. — Suspirei um pouco. — Ouvi a outra atendente falando. É .
— Nome bonito.
— Sim. — Uma ponta de sorriso apareceu espontaneamente em minha face.
— Acho que você ainda se prende muito ao que aconteceu no passado, me desculpe a sinceridade. — Respirou fundo. — As pessoas não são iguais, e já percebi que a voz dela te atrai. Você inconscientemente está interessado, então admita isso de uma vez e se dê uma chance.
— Você está de brincadeira, né?
— Não. — Ele se levantou. — O máximo que pode acontecer é ela já ter um namorado, ou te achar feio.
Ao terminar, saiu aos risos, me deixando perplexo por sua sinceridade em forma de incentivo.
— Ha... ha... ha... — Tomei um gole do chá.
estava relativamente certo.
De fato, estava interessado nela, mas ainda tinha impregnado em mim as frustrações do passado. Ser deixado após dar uma demonstração de amor foi a pior coisa que me aconteceu. E não queria passar por aquilo novamente, não queria ter meu coração estilhaçado como tive, e, se já estava no fundo do poço, não tinha mais nada para ser tirado de mim.
O pior que poderia acontecer era ter pena de mim.
Senti seu afastamento da sala, provavelmente em direção ao quarto. Permaneci mais alguns minutos sentado no sofá enquanto terminava de tomar meu chá. Era difícil não pensar nas palavras dele, afinal, tinha passado os últimos sete anos criando muralhas para afastar as pessoas e agora queria me aproximar de uma. Quanto mais pensava nisso, mais receio tinha em continuar. Não queria me machucar novamente. Contudo, desejava poder ouvir aquela voz novamente. Terminei o chá e levantei do sofá, caminhei até a cozinha e coloquei a xícara na bancada. Fiquei ouvindo o barulho da chuva do lado de fora por um tempo. Mais devaneios, até que me virei no automático com a movimentação de , seguido do barulho dele sentando no sofá novamente e ligando a tv.
— Vou assistir um filme, me acompanha? — perguntou. — Adoro seus comentários e observações sobre o que vai acontecer nas cenas.
— Muito engraçado. — Bufei um pouco. — Para mim, não é nada divertido isso, ter que adivinhar o que está acontecendo quando tudo está calado.
— Ah, deixa de ser mal-humorado. É divertido, você sempre acerta nas teorias — argumentou.
— Porque você sempre vê os mesmos filmes. — Era uma realidade, eu já tinha até decorado as falas de
Os Piratas do Caribe.
— Quer algo novo? — Um tom surpreso. — Sempre achei que você tinha o mesmo gosto que eu para filmes.
— Pelo menos são melhores que os romances que a Taylor vê. Consigo sentir ela chorando do meu quarto. — Caminhei de volta para o sofá.
— O que me diz de um pouco de zumbi? — Parecia segurar o riso.
— Depende do filme e do zumbi — retruquei, me sentando ao seu lado. — Nada de The Walking Dead novamente, não aguento mais suas maratonas desse seriado.
— Nossa, você é mesmo um chato, nada está bom — reclamou, enquanto trocava de canal.
— Desculpa se não tenho mais perspectiva de vida. — Respirando fundo.
— Você já foi mais divertido. Acho que precisa mesmo conhecer aquela moça, quem sabe assim fica menos amargurado. — O comentário soou com leveza.
— Por que será que eu já imaginava que você tocaria nesse assunto? — Bufei novamente. — Já me decidi, prefiro continuar como estou.
— O quê? — Aquilo era tom de indignação. — Você sai de casa sozinho, passa a tarde esperando a sorte, arrisca sua vida, salva a garota e agora vai desistir?!
Inacreditável, mas real.
— Você fala como se eu a conhecesse há tempos. — Não contive um riso irônico. — Quero te lembrar de que a ouvi pela primeira vez hoje pela manhã e, na minha falta de sorte, ela atendeu à mesa ao lado.
— Hum. — Demonstrou-se pensativo. — Então, agora que estou me ligando. A atendente da mesa ao lado,
aish. Queria ser um bom fisionomista, não me lembro do rosto dela.
— E isso tem alguma relevância? — Virei minha face para ele.
— Pare de fazer isso como se estivesse me olhando de verdade, seus reflexos me assustam às vezes. — Aquela era a milionésima vez que reclamava da forma como eu agia como uma pessoa normal.
— Você não respondeu — retruquei, voltando ao assunto.
— Respondendo... — Deu uma risada rápida. — É claro que tem relevância. Vai que a moça não é bonita?
— Sério isso? — Não conseguia mais associar os padrões de beleza do mundo. — Olha só quem fala.
— O que está insinuando?
— Taylor é bonita? — perguntei ironicamente. — Porque eu não consigo achar isso.
— Porque não pode ver o quão linda ela é, corpo de modelo — retrucou , com satisfação.
— Desculpa, a voz dela não me transmite nada de belo. — Fui mais sincero que o normal.
— O que a voz de uma pessoa tem para definir a beleza dela? — retrucou , como se estivesse ofendido.
— E o que o corpo de uma pessoa tem para definir sua beleza? — Ri um pouco, me espreguiçando. — O que é belo para um, pode não ser para outro.
— E a voz da a faz se tornar bela para você? — gostava mesmo de voltar a assuntos que eu queria distância.
Permaneci em silêncio.
Não queria responder. Ele riu um pouco da minha cara. Não que eu não quisesse me lembrar dela, mas... Mesmo que explicasse os motivos para me afastar de todos, meu primo nunca entenderia a complexidade de voltar a confiar nas pessoas, principalmente em quem você nunca viu na vida. Com sua insistência em me fazer ficar longe do quarto, o acompanhei em mais uma maratona vendo Resident Evil, em sua franquia de cinco filmes com o mesmo elenco morrendo e voltando várias vezes. Aproveitei o término do quarto filme para fugir da sala, uma escapada estratégica para ir ao banheiro e me trancar no quarto depois. ficou me gritando da sala algumas vezes, mas acabou desistindo quando parei de responder seus gritos. Aproveitei aquilo para trocar de roupa, colocar o pijama e dormir.
As horas de sono passaram rápido, até que o sol entrou pela janela, e me gritou da porta.
Seria mesmo necessário acordar tão cedo em minha folga?
— ?! — Bateu à porta. — Estou indo à cafeteria da sua garota, quer ir também?
— Garota? — sussurrei. — Que garota?
— ?! Está me ouvindo?
— Estou, me deixa dormir — resmunguei.
— E perder a oportunidade de ver você encontrando sua garota? — falou, num tom debochado.
— Que garota? — gritei irritado, erguendo meu corpo na cama.
— Então já superou ela? — Riu descontraidamente. — Você se esquece muito rápido das garotas agora.
— Deixe de ironia. — Me levantei da cama, espreguiçando. — Se está falando da , ela não é minha garota.
— Nunca se sabe, ela pode vir a ser. — Um soar malicioso.
Fácil de notar nas entrelinhas.
— Me dê cinco minutos — retruquei, vencido pelo cansaço.
Em casos assim, era melhor não retrucar. Há meses que tinha traçado seu objetivo de vida de me arrumar uma garota. Contudo, eu não queria garota nenhuma, não até aquele momento. Troquei de roupa, coloquei meus óculos e saí do quarto. Passei no banheiro antes de chegar à sala. comentou com sarcasmo minha rapidez para me arrumar. Seguimos para a cafeteria com algumas brincadeiras da parte dele. Confesso que fiquei um pouco nervoso assim que nos aproximamos da porta. Senti um frio na barriga quando entrarmos.
— Coragem, homem — disse, rindo de mim. Já era normal.
— Não sei do que está falando — neguei até a morte.
— Sei. — Continuou rindo.
Eu o segui até a mesa onde nos sentamos. Demorou alguns minutos até reconhecer o perfume de jasmim, ela estava na cafeteria e bem próxima. Coloquei a mão na altura do meu coração de forma discreta, sentindo a aceleração.
Será que seria a atendente da nossa mesa desta vez?
— Bom dia, sejam bem-vindos — cumprimentou a voz que queria ouvir. — Vocês gostariam que eu recomendasse algum café? Temos ótimas variedades.
— Oh, bom dia, — cumprimentou , dando ênfase ao seu nome de propósito.
— Você está bem? — perguntei, ao me lembrar do quase acidente de ontem.
— Estou — ela respondeu, meio sem reação.
— Ah, que bom. Fiquei preocupado com você. — Continuei, forçando minha voz sair.
— Hum, me desculpe, senhor, mas não o conheço. Como pode estar preocupado comigo? E saberem o meu nome? — Soou com traços de estar confusa. — Nem estou usando o crachá hoje.
Será que não se lembrava que eu a tinha salvado?
— Tem certeza de que não o conhece, moça? — reforçou , achando estranho.
— Sim — respondeu, com suavidade. Ainda era a mesma voz doce de sempre. — Me desculpem.
— Talvez não esteja me reconhecendo. Quando você foi atravessar na rua ontem, eu te salvei, nós dois caímos e você ralou o joelho — expliquei, ponderando o desespero interno que brotou do nada.
— Certamente o senhor está me confundindo com outra pessoa. Isso nunca aconteceu comigo. — Seu tom tinha traços de verdade e sinceridade, mas não fazia sentido.
Eu não estava ficando louco.
— Bem, e como seu joelho está machucado? — perguntou , com sua voz de desconfiança.
— Eu, não sei. — Senti que deu alguns passos para trás, esbarrando na outra mesa. Ouvi algumas coisas caindo. — Me desculpe, eu... Você está me confundindo com outra pessoa.
Pude perceber seu afastamento a passos largos.
— ?! — A outra atendente se aproximou da nossa mesa. — Oh, me desculpem o mal-entendido.
— Por que ela não se lembra de mim? — me perguntei, num sussurro meio alto.
— O que aconteceu com ela? — indagou meu primo. — Houve ou não um quase acidente?
— É claro que houve. — Minha voz tinha uma visível irritação, e estava nervoso com aquela situação.
— Me desculpem. É um pouco complicado de se explicar — disse a atendente.
— Você é a Grace, não é?! — perguntei de imediato, mantendo minha face voltada para ela. — Me lembro de você.
Daquele perfume estranho.
— Sim, eu também me lembro de você. — Assentiu. — Agradeço mais uma vez por tê-la salvo, e sinto muito pelo mal-entendido.
— Poderia nos dizer o problema dela? — insistiu .
— Por que é complicado? — reforcei.
Merecia uma explicação.
— Me desculpem, não posso... — Se afastou antes mesmo de terminar a frase.
— Senhores. — A voz de um senhor soou em seguida, possivelmente o dono do lugar. — Me desculpem o transtorno, é a primeira vez que isso acontece.
— Não quero desculpas, só quero entender o que está acontecendo. — Mantive o tom de chateação.
— Senhor, nos perdoe a intromissão, mas meu primo só estava preocupado com a moça e resolveu perguntar se ela estava bem. — Meu primo continuou com o tom brando e sereno, porém sério. — Não imaginávamos que aconteceria isso.
— Ninguém imagina. — O senhor puxou uma cadeira e se sentou. — Não costumamos contar isso a nenhum cliente, entretanto, como seu primo se envolveu um pouco, acho que preciso esclarecer tudo… Em gratidão por tê-la salvo ontem.
— Estamos ouvindo. — Minha voz estava mais fria que o normal.
Com o coração aflito.
— é minha sobrinha. Eu a crio desde os sete anos, mas às vezes me culpo por não tê-la protegido como deveria. — O senhor respirou fundo. — Três anos atrás, ela sofreu um acidente que a fez bater a cabeça gravemente. Depois de um ano em coma, ela acordou, mas percebemos que não era a mesma. — Pareceu reprimir um pouco seus sentimentos. — Descobrimos que havia adquirido a
Síndrome de Goldfield. Toda sua memória contraída até o dia do acidente permaneceu intacta, mas sua mente não consegue mais guardar memórias recentes. Tudo que ela vive em um dia, se apaga à noite quando ela dorme.
“Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está)
Caindo (tudo está) desabando.”
— I Need U / BangTan Boys (BTS)
*Síndrome de Golfield: doença fictícia do filme "Como se fosse a primeira vez".