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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 11/02/2026

The rumors, are terrible and cruel
But honey, most of them are true



Todo animal tem impulsos, seja este um animal racional ou irracional. Embora o passatempo predileto dos humanos seja negar sua própria natureza, nós somos animais racionais que, na maioria das vezes, conseguem controlar grande parte dos seus instintos primitivos. Contudo, é cientificamente comprovado que todas as pessoas possuem níveis impulsionais diferentes em todas as idades, principalmente durante a juventude. Para os neurocientistas, isto se deve ao fato de que o cérebro dos adolescentes ainda não está completamente formado — especialmente a parte autorreguladora deste. Cada cérebro de cada adolescente se desenvolve em um ritmo não específico e a última área a amadurecer é o córtex pré-frontal. Isso mesmo, aquela regiãozinha que comporta características usuais dos adultos: capacidade de planejamento, concentração, empatia e inibição de impulsos.

Então, mesmo com meus colegas de classe falando que não havia nenhuma desculpa ou justificativa para o que Van der Woodsen (também conhecida como a narradora não confiável deste conto adolescente) tinha feito na última sexta-feira de outubro às 23 horas, havia sim, pelo ponto de vista de neurocientistas respeitados.

Mas o cenário dessa avalanche não é um hospital ou um centro de pesquisas. É a universidade. Entrar aqui pode até ser mais fácil, sair, no entanto… Bem, imagine uma jaula de leões, a qual a porta de emergência está aberta, porém tem um banquete de carne ali. Você vai ser mordido se tentar ir embora, ou será comido quando os animais terminarem com a carniça que estava entre você e a liberdade.

Ou eu só estou sendo um pouquinho dramática.

— O Anarquismo acredita que o Estado deve ser completamente banido, o povo se autogovernaria. A educação seria libertária. — O professor de sociologia continuou seu monólogo animadamente, como se dar aula fosse a coisa mais empolgante a fazer. — Muitos deles, não todos, são ateus. Ou seja, a igreja, como era uma instituição, também deveria ser banida. Os casamentos, por exemplo, não existiriam mais, pois envolvem o governo e…

— Os casamentos já não existem. A maioria se divorcia por traição. A traição antigamente era punida com morte, não era? Hoje em dia só matam o amor! — , minha ex melhor amiga e colega de quarto, interrompeu a explicação, enquanto se levantava abruptamente da carteira. O azul das suas íris destacadas pelas lágrimas em seus olhos. Ela olhou de relance para mim. O ódio, desprezo e a mágoa quase me deram um soco na cara. Por mais que a frase proferida por ele tivesse sido, no mínimo, ridícula.

Mas ela estava machucada, e pessoas machucadas fazem coisas idiotas.

Pelo menos eu não era a única dando uma de diva dramática ali. Que reconfortante de todas as maneiras erradas, pensei com escárnio.

A loira saiu da sala como um cometa em roupas caras antes que qualquer um dos presentes pudesse proferir alguma palavra. E logo Vanessa estava correndo atrás dela.

Como sempre. Os humanos são mesmo criaturas de hábitos.

— O que está acontecendo? — o professor perguntou em voz alta à turma, completamente absorto às fofocas que percorriam o corredor do prédio universidade desde a primeira aula.

Bufei, fechando os olhos e afundando na cadeira. Nem me preocupei em checar os arredores, sabia que todos estavam descaradamente vidrados na minha pessoa, prontos para me detonar a qualquer momento como mísseis, como já tinham feito por murmurinhos e memes maldosos no Instagram.

Chumbo trocado não deveria doer, mas deixava hematomas sufocantes.

— Piranha. — O sussurro era quase inaudível, mas foi o suficiente para me fazer abrir os olhos e dar um sorriso irônico para garota sentada do meu lado, como se eu fosse abaixar a cabeça.

— Com o maior prazer.

Mesmo sendo a errada da história, mas isso não vem ao ponto.

As aulas tinham sido mais cansativas e pesadas do que o normal. Assim que o sinal tocou, apressei os poucos passos necessários para chegar à residência na qual vivia, onde com certeza mais uma boa dose de gritaria com acompanhamento de gelo estavam me esperando. Pelo menos, teria uma boa desculpa para beber em uma segunda.

Ao chegar à entrada da casa, suspirei aliviada, completamente exausta depois de uma manhã inteira sendo tachada como vadia, piranha, vaca traidora e outras palavrinhas nada bonitas. Além do sentimento de culpa que eu tinha que carregar, como o fardo que ele era. Tudo o que eu desejava era deitar na minha caminha, colocar uma música da Taylor Swift e me permitir entrar em um tipo de estado catatônico até o dia seguinte.

Tal como na noite de sexta, as coisas não aconteceram como eu planejava. Tirei a chave do bolso, mas quando estava prestes a abrir a porta, ela foi escancarada por .

— Oi, . — Ela fungou, e meu estômago embrulhou como se eu fosse vomitar. Nós duas tínhamos sido inseparáveis desde sempre, como eu poderia ter feito aquilo com ela? Eu dava um novo patamar ao conceito de amiga ruim. Mesmo com nosso afastamento recente, nada justificava meus atos. — Suas coisas estão no gramado. Você não vai mais morar aqui.

Opa.

Minha primeira reação foi olhar para trás, onde a grama da casa se encontrava. Três caixas enormes estavam quase transbordando. A palavra preferida de todos para substituir meu nome escrita nelas com marca texto. Lê-se: vadia.

— Tá doida? — Consegui destravar, minha mente tão distraída nem ao menos tinha notado as caixas nem um pouco discretas no quintal. — Para de coisa, . Eu sei que fiz muita merda, mas você sabe que não posso morar sozinha. Se eu não ficar aqui, vou ter que voltar para casa! — Tentei colocar algum senso em sua cabeça, minhas mãos movendo-se tão exasperadas quanto minhas palavras. Ela não podia estar falando sério. Era impossível arranjar um aluguel naquela época do ano, sem contar que o período de matrícula já havia sido concluído. Meu coração esmurrava minha caixa toráxica. Como a garota que costumava ser minha melhor amiga, ela sabia exatamente o que estava se passando pela minha mente.

— Você devia ter pensado nisso antes de dormir com o meu namorado na minha cama! — ela disse, seu tom de voz residia no meio termo entre irritação e decepção. Antes que pudesse ter qualquer movimento em resposta, ela fechou a porta na minha cara.

, para com isso! Vamos conversar! — Bati na porta, repetindo aquelas duas palavras: vamos conversar. Tinha como? Esse era o tipo de problema resolvido com diálogo? Eu não sabia. Mas meu desespero por estar à beira de virar uma sem-teto, ou de ter que voltar para casa, gritava mais alto que meu senso. Muitas coisas pareciam se sobressair a ele ultimamente. À medida que eu me agonizava, aumentava a força para bater na porta, tentando chutá-la e a esmurrar, mas nada estava funcionando. — ! , por favor! — Tentei abrir a porta com a chave, sem resultado de novo. Ela tinha trocado a fechadura? — PUTA MERDA, GENEVIEVE! VAI TOMAR NO CU, SUA FILHA DA PUTA! EU DEVIA TER TRANSADO COM ELE MESES ATRÁS. APOSTO QUE A EJACULAÇÃO PRECOCE DELE OLHANDO PRA MINHA BUCETA FOI MELHOR DO QUE QUALQUER GOZADA DENTRO DE VOCÊ!

É, eu não quis dizer isso. Mas foi exatamente o que saiu da minha boca.

E ela não abriu a porta.

Que surpresa.

Aceitando uma derrota temporária, me sentei na escadinha em frente à porta, decidida a esperar pela Alice, a prima de que dividia a casa com a gente, até olhar para o lado e notar que o carro de Ali estava devidamente estacionado. O que significava duas coisas:

1. Eu realmente estava distraída pra caralho.
2. Alice estava ciente da situação.

Antes que meus sentimentos calamitosos pudessem tomar o controle, Cortese apareceu do nada na minha frente. Sim, o mesmo cara que era namorado da minha melhor amiga e tinha tirado a minha virgindade na sexta-feira.

Ah, aquele dia não podia ficar melhor.

— O que você quer aqui? — Estava prestes a descontar toda a minha raiva em alguém que só tinha 50% da culpa. Alguém que tinha sido extremamente gentil e compreensivo, antes e depois do... Certo, Van Der Woodsen. Se tem um momento para não pensar no cara que te ajudou a, literalmente, foder a sua vida, é agora.

— Eu soube que você está sem lugar pra morar. — Ele coçou a nuca, como fazia quando estava nervoso. Era no mínimo peculiar assistir um homem de quase dois metros de altura tão hesitante. Arqueei as sobrancelhas, confusa sobre como ele soube de algo que aconteceu três minutos atrás. Minha vida realmente tinha se tornado uma comédia romântica? Onde estava o milionário gostoso que se apaixonava por uma jovem universitária? — Ela postou no Instagram quando estava montando as caixas. — Suspirou, visivelmente arrependido com a proporção que uma transa de traição sem significado tinha tomado.

Ah, . Você não é o único arrependido aqui, confie em mim.

— Me diz que foi no privado de besteira, pelo menos — grunhi, esfregando meu rosto até que minhas mãos parassem abaixo do meu queixo. Ele assentiu. Pelo menos só 100 seguidores e não 900 tinham visto então. — Ótimo.

Ele deslizou as mãos nos bolsos, abrindo a boca algumas vezes antes de cuspir as palavras para fora rapidamente.

— Eu tenho um amigo que precisa de um colega de casa. Acho que seria bom pra vocês dois.

— Veio aqui me oferecer uma casa como um pedido de desculpas por ter transado comigo? — Me levantei, mantendo o olhar firme em seu rosto, enquanto cruzava os braços.

— Não! — Seus olhos cor de avelã esbugalharam-se e suas bochechas coraram, e pela primeira vez no meio de toda aquela confusão eu consegui rir. De repente, eu me lembrei por que tinha me atraído pelo errôneo doce. passou as mãos pelos cabelos castanhos, que estavam longos o bastante para tocarem seus ombros, timidamente. — E você transou comigo também!

Viu? Ele é um boboca fofinho. Quer dizer, bem como um traidor repugnante, mas eu não tinha mais moral para julgar isso.

— Normalmente é necessário dois indivíduos ou mais para a prática de uma relação sexual, mas obrigada por me lembrar, . — Revirei os olhos, embora a sombra de um sorriso fosse clara em meus lábios. — Você não está fazendo isso por pena, não é?

Pena.

Eu odiava essa palavra. Ter um grupo de jumentos vindos do inferno para me xingar era mil vezes melhor do que uma só pessoa sentindo pena de mim. Eu já tinha provado muito desse sentimento alheio na minha cidade natal, com certeza não precisava de mais uma rodada dessa bebida melancólica.

suspirou, abrindo os braços em rendição.

— Eu estou com raiva de mim mesmo, . Meu relacionamento acabou, e você está sem um lugar para morar. Três pessoas saíram machucadas. Por minha culpa. — Seu olhar sincero e sua voz banhada por fragilidade tornaram tão mais fácil eu apenas concordar com aquelas palavras e tirar o peso da culpa das minhas costas. Eu podia facilmente pestanejar, gritar, chorar e ele aceitaria tudo cabisbaixo.

Mas eu só respirei fundo.

Só dá pra apontar dedos até um certo ponto antes deles pararem em você.

— A culpa foi de nós dois, .

Ele não disse mais nada, provavelmente incerto de suas próximas ações. Afinal, eu o conhecia. Sabia que, em qualquer outra situação, ele iria me abraçar e dizer palavras de afirmação para assegurar que tudo daria certo. Mas o limite entre nós dois havia sido estabelecido no momento em que eu saí do quarto naquela noite cheia de prazeres e pesares. estendeu o braço, uma folha de caderno com algumas coisas escritas me esperando em sua mão. Apenas agarrei o papel, sem triscar em qualquer parte da sua pele.

— O endereço — ele clarificou. Assenti sem realmente olhá-lo, focando minha leitura no garrancho que me mostraria o local. Não era muito longe, poderia facilmente ir de pé. — E, ?

— Sim? — Levantei minha cabeça. O silêncio se fez presente naquele limbo, dois olhares cheios de tanta coisa, apenas tentando transmitir um terço de tudo, até que finalmente falou com uma convicção que nem eu mesma tinha ultimamente:

— Você não é o que eles dizem sobre você.

E mesmo que não devessem, aquelas palavras pequenas que não deveriam soar nem um pouco românticas aqueceram meu corpo da cabeça aos pés.

— Obrigada — respondi, uma vez que ele já havia ido embora, mesmo que não pudesse escutar. Recuperei a atitude quando uma brisa gélida acariciou minha bochecha, me lembrando das mãos frias do garoto que tinha acabado de sair. Jesus do céu, eu precisava de mais limites. Andando até a minha trindade de caixas nada pequenas e com o endereço cravado na minha mente, me preparei para empurrar e carregar até a minha, esperançosamente, futura casa. — E lá vamos nós.

XXX


Eu juro que teria batido mais simpaticamente na porta se não tivesse andado três quarteirões inteirinhos com três caixas pesadas pra uma porra sendo empurradas, juro mesmo. Mas agora a pessoa que ia decidir se eu ia ou não permanecer nessa droga maravilhosa de cidade muito possivelmente já me odiava por quase quebrar a merda da sua porta de madeira.

Mas o que é uma gota de chuva para quem já está molhada? Bati na porta mais uma vez.

— Você só pode estar de brincadeira comigo. — A voz dele parou minha tentativa interior de explicação, ou sei lá o quê, seus lábios arqueados formando aquele clássico sorriso lateral que ele tanto usava e parecia ter sido moldado por Deus apenas para me tirar do sério.

Só por ele estar ali, vivo e respirando, me custou um percentual alto de autocontrole para não pular no pescoço dele. Tinha que ser legal, pelo menos até aquele ser me deixar morar lá... Com ele.

Credo. A que ponto eu cheguei?

Aí está algo que nunca pensei que iria precisar: a ajuda de . A única pessoa além de que me conhecia desde a velha cidade, onde íamos para a mesma escola durante todo o ensino fundamental e médio.

Também conhecido como meu amigável inimigo. Sabe aquelas duas pessoas que vivem pegando no pé uma da outra desde sempre?

Esses éramos nós aos 15 anos.

O problema é que ele continuava insuportável aos 18.

— Eu concordo. — Revirei os olhos, me forçando a ser cordial com aquele galinha de meia tigela. — Olha, você provavelmente já sabe da minha situação.

— A foda com o , ou você ser expulsa de casa? — me interrompeu, e eu respirei fundo, me controlando para não mandar ele ir à merda. — Você devia aprender comigo, . Nunca pegue e fale se for alguém comprometido.

— Cala a boca. Eu preciso de um lugar pra morar por enquanto, e o me deu esse endereço.

— Tá querendo se pegar com ele aqui em casa? — Sua voz permaneceu com o tom de provocação.

— Meu Deus. Fica quieto e me escuta! Eu obviamente não sabia que era você, mas já estou aqui e tive que carregar essas caixas enormes por três quarteirões inteiros sem ajuda nenhuma, além de ser taxada como vadia que transa com todos quando eu só fiquei com um cara. Aliás, e se tivesse sido mais do que um cara? Só porque eu sou uma garota isso seria errado? Aposto que se fosse um cara fazendo essa merda, não teria tido essa repercussão toda. — Balancei a cabeça, sentindo uma careta se acomodar no meu rosto. — Certo, eu não estou sendo chamada de puta porque transei com vários, o que não teria nada de errado, mas porque fiquei com um cara que tinha namorada e essa namorada era a minha melhor amiga, que agora me odeia e me expulsou de casa. Então, não seja um merda pelo menos uma vez na sua vida e me deixe morar aqui. — Despejei rapidamente, e o plano de ser legal voou pelos ares, mas como eu seria gentil com o ? Simplesmente impossível. Eu nem mesmo sei o que fez a válvula estourar e minha boca grande abrir para ser... um pouco grossa com ele, mas aquilo já era parcialmente comum. Tossi, ajeitando minha postura antes de encará-lo. — Só até as vagas para irmandades abrirem de novo. Por favor.

Pelo menos eu consegui não mandar ele ir à merda.

Porém, tomando como dica a carranca de confusão que acompanhava os braços cruzados dele, duvidei bastante que ele conseguisse entender alguma coisa do que eu havia dito.

Homens, sempre lerdos.

— Só até as inscrições para irmandades abrirem de novo? — Assenti com a cabeça, e colocou a mão no queixo, como se estivesse pensando. Idiota. — E aí você se manda?

— E aí eu me mando — confirmei.

— Eu vou te cobrar aluguel — ele disse, arqueando as sobrancelhas.

— Justo. — Levantei as mãos. O aluguel barato era o maior motivo disso.

— E eu vou deixar minhas cuecas pela sala.

— Nojento. — Fiz uma careta. — A sua cuequinha do Homem-Aranha?

— Dá para esquecer disso? — Pela primeira vez naquele diálogo, parecia envergonhado. Nada como eus mais jovens para ensinar humildade. — A gente era criança.

Eu ri, cruzando os braços.

— Eu era uma criança, você era um bebê que sujou a cuequinha com…

— Ok, boa sorte morando no telhado da — disse, com um sorriso irônico, fechando a porta.

— Espera! — Coloquei a mão, impedindo que ele sumisse de vista. Guardaria as provocações para mais tarde, mas agora precisava de uma cama. — Eu não vou falar mais da sua cuequinha do Homem-Aranha.

Pelo olhar semicerrado, parecia saber das minhas intenções, mas apenas resmungou em concordância.

— E você vai embora assim que as inscrições para irmandades começarem.

— E você nunca mais vai me ver. — Sorri ironicamente. Eu sabia tanto quanto ele que não queríamos ter que suportar um ao outro mais do que o necessário. — Só em festas, mas vai estar ocupado demais com a conquista da semana para notar.

parou, ainda segurando a porta. Ele me encarou por alguns segundos de relógio e eternidades na minha cabeça. Eu tinha uma casa ou não?!

— Sabe, você não precisava dar esse discurso todo. Eu sempre ajudo as donzelas em perigo — o idiota disse maliciosamente, e eu tive que usar todo o meu autocontrole para não chamar o rabo dele de donzela. Quando eu estava prestes a mandar ele ir para puta que pariu, deu uma risada anasalada ao ver minha expressão e empurrou a porta para abri-la por completo. — Fechou. — A palavra mais milagrosa do mundo para mim deixou sua boca, seguida pelo irritante sorriso de sempre. Ele esfregou as mãos. — Vamos. Vou te ajudar com as tralhas.

Eu bem que teria dito alguma coisa para provocar ele, ou até bater o pé e dizer que conseguia carregar minhas caixas sozinha. Mas o cansaço era tão grande que eu só me permiti sorrir.

Não por causa do , é claro. Apenas para o fato de eu ter onde dormir a noite.



Clap.

Aquele barulho estava tirando qualquer chance remota de descanso a troco de nada. A irritação era mais alta do que aquele chiado e, ainda assim, eu não conseguia me concentrar o suficiente para fechar os olhos.

Clap.

O que era aquele zunido? Um mosquito reclamão? Ratos? Fantasmas? Alguém tentando entrar na casa? planejando a minha morte durante o sono?

Clap.

Não, era tão sútil andando quanto um cavalo manco. Talvez uma das suas companhias noturnas saindo de casa? Ou o teto cedendo à garoa por falta de manutenção daquele jumento. Tá, meio impossível. nem estava chovendo.

Clap.

Minhas teorias foram interrompidas por um choque de realidade e da minha cama caindo no chão com um baque estrondoso, misturado ao meu grito de surpresa.

Clap!

Então esse era o barulho. A minha cama.

Eu ainda estava no colchão, meu coração acelerado pelo susto, quando um descabelado entrou no quarto, estudando cada canto do quarto com seus olhos verdes arregalados em alerta, enquanto agarrava uma espátula como se sua vida dependesse daquilo.

— O que aconteceu? — perguntou, pousando seu olhar em mim. Arqueei a sobrancelha. Como aquele animal não tinha notado a cama esparramada no chão?

— Você é burro?

— Você gritou, achei que era algo sério! — Ele bufou, colocando as mãos na cintura como uma mãe sem paciência.

— E qual era o plano? Me defender com uma espátula, Bob Esponja? — Revirei os olhos, erguendo o braço para que ele me ajudasse a levantar. No frio da cidade, a palma quente de deixou uma sensação quentinha em minha mão, mas a soltei assim que me pus de pé.

— Primeiro, não ofenda o Bob Esponja nessa casa. Eu conseguiria derrotar qualquer um com uma espátula, eu sou um ninja. — Não consegui evitar a risada que logo se desenrolou em uma gargalhada ao ouvir aquilo. Em meio a toda aquela confusão, a coisa mais inacreditável certamente era achar que tinha qualquer tipo de habilidade. — Pelo menos eu não estou gritando igual um chihuahua.

Além de ser irritante.

— É mais capaz de eu bater em um bandido do que você. — Ele abriu a boca para responder, mas, antes que pudesse, eu continuei: — A sua cama se desmantelou no chão.

A expressão de criança-mimada-sem-doce de logo se contorceu em um sorriso malicioso, como um dos sete cavaleiros do apocalipse antes de iniciar o fim do mundo.

— Sua cama.

— O quê?

— A minha cama está ótima. A sua cama que está no chão. — O loiro deu de ombros, se divertindo a cada palavra. — Mas, sabe, eu nunca negaria o pedido de uma mulher para deitar na minha ca…

— Nojento, não me faça vomitar. — Franzi o nariz para aquele sem vergonha. Estava prestes a prosseguir com algo que gosto de chamar de “abaixando a bola de porque ele já tem duas”, mas o odor de algo queimando me interrompeu. — Eu prefiro dormir no chão e… Que cheiro é esse?

Mais uma vez, seus olhos se arregalaram e ele sumiu tão rápido quanto havia aparecido. Do outro cômodo, só consegui ouvir uma frase desajeitada e rápida antes dos bater das panelas:

— É o nosso jantar… Droga!

Balancei a cabeça, aquele menino era inacreditável, me virando para encarar o estrago do meu “quarto’’. Aspas são um eufemismo para aquele cubículo. Certo, através do meu humor pouco maleável, tenho que admitir dizer: o lugar era bem arrumado. Tomada estratégica, cama forrada, dois travesseiros confortáveis, ar-condicionado, relógio feio na parede, janela e um guarda-roupas se encontrava todo quebrado, de modo que só uma porta estava utilizável. Não consegui arrumar nem uma mala — lê-se: caixote que empurrei até aqui — inteira dentro daquele troço, o qual provavelmente era o lanche diário de uma corja de cupins.

E agora essa cama fazia um ruído anunciando a sua quebra. Tentei empurrar o resto dela com o pé, apenas para ouvir o clap de novo, uma onomatopeia digna de quadrinhos estragando minha chance de ter uma boa noite de sono mais tarde.

Além disso, como mencionado anteriormente, o quarto era pequeno. Claro que dava para circular sem bater na parede, mas minha pessoinha simplesmente adorava dançar pelo quarto e treinar minhas vertentes de atriz, encenando sozinha perante o espelho. Admito que esse último era mais uma luxúria, um problema de champagne, todavia, meus outros pontos eram válidos.

Eu até teria gritado se o dia não tivesse sido exaustivo o bastante, só para extravasar. Porém, tenho certeza de que acabaria desmaiando se gastasse o ar restante nos meus pulmões para me esganiçar. Assim, me levantei e fui até a cozinha, onde provavelmente estaria tentando salvar o nosso jantar.

Tão-Dã, meu querido colega de casa estava lá. Tirando a frigideira do fogão, segurando o rabo dela com um pano azul-marinho, parecendo tão concentrado quanto quando olhava o treino das líderes de torcida com os amiguinhos dele.

Só uma coisinha estava errada: durante todo esse processo, estava sem camisa.

Sério, me responda com toda a honestidade do mundo: QUE TIPO DE ANIMAL FRITA HAMBÚRGUERES SEM CAMISA? E ele estava basicamente encharcando o nosso jantar em óleo, dava para criar mini jacarés na piscina amarelada em que os hambúrgueres estavam.

— Você vai ficar parada aí me secando? — Aquela voz englobada com sarcasmo me assustou um pouco, e eu dei um pulinho. Mas o que ele não viu, não aconteceu. — Já vou acabar aqui, mas a gente pode adiar o jantar e ir lá pro meu quarto. Posso comer uma coisa mais gostosa.

Um idiota completo.

— Primeiramente, eca. Não sei como tem garota que cai nessas suas cantadas idiotas. Em segundo lugar, te secando? Por favor, . — Revirei os olhos, me dirigindo até o balcão e me sentando sobre ele. — Estava pensando no quão panaca você é por mexer com óleo sem camisa. Sabe que esses litros de óleo que colocou aí podem respingar em você, né?

— Tá preocupada comigo, ? — Aquele apelido bobo fez todos os sistemas existentes dentro do meu corpo paralisarem no tempo por um segundo. Não porque era ele falando ou coisa do tipo, mas pelo que aquilo remetia: dias mais simples.

Quando mais nova, me apresentava como para os meus amigos, porque havia lido em uma revista da Seventeen que todos os artistas legais usavam seus apelidos, não seus nomes. Já na faculdade, nenhum dos meus colegas me chamava assim. Apenas e Bem, desde o nono ano do ensino fundamental, a série em que e eu compramos nosso primeiro colar da amizade: um pássaro e uma espingarda. Anos mais tarde, nós duas acharíamos aquilo uma apologia à crueldade, mas, na época, nos sentimos duronas.

Levei a mão à sagrada gargantilha dourada imediatamente, a qual nunca cogitava tirar, nem mesmo para um banho. Eu realmente tinha bagunçado tudo por um homem, a porra do , de quem eu nem gostava romanticamente! Bom, não desde a infância. Esqueçam o que dizem sobre atos românticos impensados: a maioria deles é só sobre tesão misturado com alguns outros sentimentos confusos e nem valem tanto a pena assim.

A corrente gelada parecia um albatross* em meu pescoço. O metal entre os meus dedos me fazia questionar: quantos passos para trás meu feminismo companheiro tinha dado? Eu nunca teria feito algo assim meses — dias atrás. Quantos lapsos, olhares roubados e pistas ignoradas tinham me levado àquela cama?

? — chamou, provavelmente tentando ver se eu ainda estava viva. Afinal, não era comum ele não receber uma resposta arisca imediata na ponta da língua.

— Por mim, você morria e eu dançava ragatanga no seu túmulo, . — Atenuei afiada, soltando o meu cordão, que agora se assemelhava a uma corrente de ferro, me puxando para baixo a fim de manter meus pecados vívidos na minha mente como aquele A vermelho em A Letra Escarlate. Pelo menos brigar com aquele jumento iria me fazer esquecer a mágoa crescente que eu estava sentindo.
revirou os olhos, virando-se para pegar dois prantos e, logo em seguida, voltando à mesa. Pela primeira vez, parei para observá-lo.

Naquela luz preguiçosa, aconchegante de cozinha, ele quase parecia aceitável. Olhos de jardim irritantemente magnéticos, cabelo curto em um loiro queimado, a boca proeminente, o nariz com a ponta e apenas um pouco, sutilmente, torcido na linha que o compunha; não era um nariz delicado, servia para torná-lo mais másculo, robusto. E as sardas, tão pequenas e meras, diferentes de qualquer outro aspecto dele, só poderiam ser achadas se eu ficasse perigosamente perto dele — o que já tinha acontecido durante nossas intermináveis discussões fúteis (que eram sempre culpa dele), que seriam esquecidas em minutos e brincadeiras infantis durante os anos.

Muita coisa tinha mudado, mas não . Ele sempre foi como era agora: irritante.

— Devíamos ter regras — falei de repente, descendo do balcão. Chame isso de autopreservação feminina em tempos modernos com visão antiquadas, porque eu aposto um rim que, se eu fosse um cara, seria chamada de cretino por uma semana e logo tudo seria esquecido. A prova disso era , que era visto conversando pelos corredores horas atrás. De qualquer maneira, eu tinha que permanecer nesta universidade até as inscrições para irmandades abrirem, mesmo que fosse necessário engolir alguns sapos, coisa com a qual eu não estava acostumada.

E, para isso, também teria que resistir à vontade de estrangular durante o sono.

Ele arqueou a sobrancelha, cruzando os braços com um sorriso divertido. Imitei o gesto braçal.

— Que tipo de regras? Sua palavra de emergência? — Cafajeste, como sempre.

Eu sabia que não tinha intenção de me pegar. Ele só sabia que eu achava seu jeito de galinha (muito) asqueroso e que julgava qualquer uma que caísse nos papinhos dele. E eu, é claro, amava diminuir o ego estratosférico dele.

— É sério, . Já sou a piranha da escola, não quero que minha reputação piore por sua culpa. — Por mais que aquela fosse uma visão extremamente machista, a qual eu sempre fui contra, eu não podia me dar o luxo de me ferrar ainda mais naquela história. Ele abriu a boca para retrucar, mas apenas continuei. — E é normal que as pessoas tenham regras quando moram juntas. Você não tinha regras quando morava com o Trevor?

O amigo com quem morava antes. Ele havia se mudado de última hora, os boatos diziam que os pais dele conseguiram revogar na justiça o pedido de emancipação dele.

— Se estiver pegando alguma menina, tranque a porta. Se vomitar, vai ter que limpar, bêbado ou sóbrio. Furar a camisinha do outro é sacanagem. Esse tipo de coisa. — Deu de ombros e eu bufei. Um perdido na vida, meu Deus do céu.

— Pronto, agora fazemos as nossas próprias regras.

— Tudo isso porque você não consegue resistir a esse corpinho? — Ele deu um passo para perto de mim, e eu cruzei os braços, lançando o melhor olhar de ódio que eu consegui, o que não pareceu surtir o efeito desejado, levando em conta a risada que ele deu.

— Eu vou furar as suas camisinhas. — Eu não tinha coragem de fazer isso, mas ele não precisava saber.

engoliu em seco, assentindo rapidamente com a cabeça ao aceitar criar nossas regras de convivência e cessando o riso imediatamente.

Naquele momento, eu não consegui segurar a risada frouxa.

Enquanto ele arrumava os hambúrgueres, eu fui até meu quarto arranjar papel e caneta. Ao voltar, já estava de camisa, o tecido era da mesma cor que o pano que ela havia usado para segurar o braço da frigideira. Então era por isso que ele tinha tirado a roupa. Ao colocar os objetos na mesa, me virei para pegar maionese na geladeira, mas não encontrei.

— Não tem maionese? — perguntei, fechando a porta.

— Tinha, mas não tem mais. Coloquei o resto no seu hambúrguer.

— Obrigada. — Encarei-o confusa. Como ele se lembrava disso? Uma sensação estranha me deu cócegas por dentro. Ser vista e alguém lembrar de detalhes sobre você era um tipo de timidez singular. Ao me sentar na cadeira, peguei a caneta e bati no caderno. — Vamos começar?


Não demorou muito para começarmos a colocar as regras, juntando as ideias dos dois. A maior parte das regras vinha de mim, enquanto as de tinham mais a ver com festas e não entrar em quartos com meias. Ele podia ser um babaca, mas era razoável.

Talvez ele tivesse ao menos uma qualidade.

— Ainda não entendo por que você tem uma caneta cheia de frescura. Como você consegue ler alguma coisa com esse glitter rosa?

— Eu disse que podia escrever e você não quis.

— E quem entende a sua letra de médica? — Ele bufou, me causando a revirar os olhos.

— Certo, eu acho que acabamos. — Nós dois estávamos sentados, comendo os lanches ensopados em óleo, que surpreendentemente estavam muito bons, quando anunciei no segundo em que largou a caneta na mesa e dei mais uma mordida no meu jantar caseiro antes de colocar ele no prato. O protocolo anti desastre para vivermos sob o mesmo teto estava concluído! — Mais uma coisa, meu guarda-roupas tá todo quebrado.

— Foi o Trevor — explicou, enquanto se debruçava sobre a mesa e sequestrava o meu hambúrguer. — Rolou uma briga quando ele tava bêbado em uma das festas que demos. Acho que tem uns cupins também. — Deu de ombros, como se não fosse nada. Arranquei meu sanduíche das suas mãos com um olhar repreendedor, o qual ele respondeu com um muxoxo. — Tem espaço de sobra no meu, pode usar.

— Regra oito: não andar de roupas íntimas pela casa — relembrei.

— Eu voto por revogar essa regra.

— Eu voto por você calar a boca.

— Você sabe como me fazer calar a boca, estressadinha. — Ele piscou.

— Com um tapa. — Revirei os olhos. Teria que juntar dinheiro para comprar um guarda-roupad, porém, por hora, o dele seria a minha saída. Abocanhei a comida mais uma vez e coloquei no prato dele. sorriu como uma criança que havia conseguido roubar um brinquedo de uma loja. — Outra coisa. Minha cama quebrou.

— Você pulou nela? — questionou.

Puft, não. — Evitei seus olhos, mas seu silêncio denunciava que o loiro não acreditava em mim. Ao voltar o olhar para ele, um semblante cínico me esperava. — Talvez. Um pequeno pulo para deitar!

— O sofá é bem confortável — comentou, sabendo que eu queria que ele cedesse a cama. Poxa, não era pedir demais. Tá bom, era. Mas mesmo assim.

— Por que você não dorme lá, então? — Cruzei os braços, fazendo biquinho como uma criança birrenta.

Qual é, eu tinha direito de querer uma boa noite de sono depois do dia de hoje, numa caminha confortável e nada quebrada.

— Porque eu não cabo lá. Você é pequena. — Mostrei a língua pra ele, que riu do meu ato infantil. — Ou você pode dormir comigo.

Só aquela ideia me dava calafrios. Do tipo de filmes aterrorizantes, óbvio.

— O sofá nunca me pareceu tão confortável.



Os dedos longos de estavam trêmulos quando ele finalmente tocou minha pele por baixo da blusa, aquele obstáculo em forma de tecido. Ele acariciou minhas costas, enquanto seus lábios abandonaram os meus e iniciavam sua jornada pelo meu pescoço.

Não consegui evitar um gemido embaraçoso, mas ele pareceu gostar daquilo: suas mãos, tão inseguras quando começamos, agarraram minha cintura em um movimento possessivo que nunca imaginei que poderia vir de um menino tão doce. E aquilo me deixou ainda mais derretida em seus braços, ansiosa por todas as maneiras que ele poderia me surpreender naquela noite.

Eu estava completamente à mercê dele, de um jeito que eu nunca pensei ser possível para nós dois.


Acordei assustada pela memória tão realista, me sentando no sofá por puro reflexo. Infelizmente, uma dor nas costas repentina, proveniente do sofá nada confortável no qual eu tinha adormecido, me fez soltar um grunhido de dor e me curvar, acabando por cair no chão.

Ótimo. Duas partes do meu corpo machucadas logo pela manhã. E nem era a parte difícil do dia ainda.

Me pus de pé com um suspiro esganiçado. Minha mão direita pressionou o lugar onde minhas costas ardiam. Além de ter demorado pra pegar no sono — por ficar olhando o escuro e me lembrar do palhaço de It, admito —, provavelmente estaria dolorida por algumas boas horas. Bem no dia dos testes para a equipe de natação. Pelo menos, como capitã, eu não precisaria competir hoje, mas sempre ocorria algum problema e eu acabava tendo que entrar na piscina.

Encarei o relógio eletrônico, 5:30 da manhã. O sol já tinha saído da toca, mas não estava acordado ainda e, levando em conta a maneira com a qual despertei, eu com certeza não iria pegar no sono novamente.

Bufei, pensando que poderia ter sido acordada de vários modos horrendos, mas a lembrança do que fodeu a minha vida foi sorteada pelo meu subconsciente? Sério? Eu só podia ser uma masoquista mesmo, até dormindo.

Andei até ao quarto do à base de passos leves, tomando cuidado para não o acordar quando adentrei o recinto e abri o guarda-roupa. Ele estava esparramado na cama, respirando lentamente. Ali, dormindo tranquilo, nem parecia que ele era um tapado.

Gastei alguns segundos longos para escolher uma blusa preta que eu tinha, ela ficaria maravilhosa com o casaco roxo que tinha escolhido e podia combinar com meu salto verniz preto. Até que encarei a blusa um pouco mais. Ela era um pouco apertada, ou seja, deixaria meus seios em maior evidência, e eles certamente aproveitariam isso para mais fofoca. Olha lá, quem será que a quer seduzir agora?

Porque, é claro, a culpa sempre cairia toda para mim.

Peguei meu maiô de natação, deixando o quarto logo em seguida. Havia dois banheiros na casa: um na suíte de e outro ao lado do meu quarto. Optei pela segunda opção, queria evitar ao máximo acordar o . Odiar ele? Tudo bem, mas acordar alguém antes das seis da manhã ultrapassava qualquer limite.

Tomei um banho quente rápido, sem conseguir qualquer relaxamento ou sensação de limpeza ao acabar, como esperado. Enfiei-me nas roupas compostas demais para o que eu normalmente usava: uma das minhas poucas calças jeans, blusa cinza de manga curta e gola alta, com uma rosa contornada pelos dizeres Not your doll e um casaco roxo escuro por cima. Nada na ‘’moda’’, nada curto e livre como eu gostava. Apenas peças que eu sabia que não iriam render mais uma brecha para os apelidos maldosos e sexistas. Em uma perspectiva, parecia que eu estava me rendendo ao machismo, me perguntando se estava tendo o mesmo problema, mas parecia uma realidade longe demais. Por outro lado, eu estava exausta de escutar meu nome acompanhado de xingamentos vadia, puta e similares. Poxa, eu realmente queria usar aquela blusa preta, mas os sacrifícios eram necessários. E, bom, era só uma blusa. Ou assim eu acreditei.

Cercada pelas paredes repletas de azulejos azuis daquele banheiro, encarei o meu próprio reflexo no espelho, tentando decidir se deveria ou não colocar maquiagem. Talvez algo leve como eu sempre usava de manhã. Mas e se as pessoas pensassem que eu estava daquele jeito por conta de um cara? Ou para chamar atenção? Olhares julgadores na universidade mostravam os pensamentos repugnantes em quietude, e os comentários entupidos de maldade atacariam com o dobro de força pelos últimos acontecimentos.

Prossegui minha rotina, tentando não pensar muito nisso. Penteei o cabelo e escovei os dentes antes de sair do banheiro. Minhas roupas estavam todas no guarda-roupa de , contudo, meus outros pertences se encontravam no quarto que logo seria meu — após os devidos consertos serem providenciados. Será que eu conseguia comprar aquele panaca com um saco de Doritos para ele arrumar a cama e o guarda-roupa? Se é que sabia consertar alguma coisa.

Apanhei o que ia precisar e voltei para o banheiro, escolhendo colocar maquiagem ainda mais leve do que o habitual: corretivo, base, pó e rímel. Decidi permanecer com meus saltos verniz, de algum jeito, me senti mais confiante com eles, e terminei de me produzir com um par de brincos pequenos e algumas pulseiras tilintando ao redor do meu pulso direito.

6:45AM, decidindo pular o café da manhã, alcancei minha bolsa e me preparei para andar até a universidade. Seria até melhor não ser vista saindo de casa com no meu encalço. Apesar de toda a comoção pelo meu erro de uma noite, ainda não tinha sido taxada como ‘uma das garotas de , e isso sim seria a pior coisa do mundo. Só o pensamento me fez entortar a cara em uma carranca.

Aquilo causou um suspiro de alívio, pelo menos um lado positivo.

XXX


— Bom dia! — Sorri para o porteiro ao adentrar na faculdade, e o senhor me correspondeu com um aceno amigável. O fluxo de alunos não estava alto nos corredores, na verdade, parecia um cenário de The Walking Dead. Poucas pessoas vivas e o resto zumbis controlados pelo sono. O que significava nenhuma atenção indesejada. Era o meu dia de sorte.

Estava sorrindo que nem uma idiota por ter essa pequena tranquilidade, até ver a mim mesma no espelho do corredor principal. Deus, aquela mulher não podia ser eu, o reflexo simplesmente não se parecia comigo.

Qualquer coisa pela minha reputação, eu acho.

Sentei-me no banquinho ao lado do espelho, sacando meu celular. Chequei os stories, pulando cada vídeo de música estourando e rotinas de comida, até que uma postagem da minha mãe me fez parar por um momento. A legenda podre Com elas!!! Amo muito!!, seguida por uma foto dela com minha irmã, Iris, e a filha do novo namorado dela, Kristen. Eu poderia dizer o que era pior: a situação, ou eu ainda me surpreender.

— Sua mãe? — Simples assim, meu celular havia caído no chão. Me abaixei para pegá-lo antes de responder a Wood, porém ele acabou se inclinando com a mesma finalidade, fazendo com que nossas mãos se encostassem levemente. Na versão clichê perfeita da coisa, eu e ele ficaríamos vidrados nos olhos um do outro, daríamos sorrisos envergonhados e coraríamos como adolescentes experimentando sentimentos exóticos pela primeira vez. Só que eu não era a ela dele, e não era o meu ele. Não existiam contos de fadas sobre esse tipo de história. Ali, na vida real, Wood apenas recolheu sua mão rapidamente, como se minha pele queimasse igual fogo.

— Desculpa! — Não consegui distinguir se ele estava se desculpando por me tocar ou pelo telefone, mas assenti.

— Tudo bem — respondi, incomodada pela súbita negação ao meu toque. Embora soubesse que estava fazendo o que eu pedi: afastar-se. E não era isso que eu tinha dito, gritado que queria? — Por que está aqui? Nunca vi você acordar antes das nove.

— Não consigo dormir muito ultimamente. Sem contar que vi você fazendo a “cara de mãe”. — Fez aspas imaginárias e eu franzi o cenho.

— Cara de quê?

— É a sua cara quando sua mãe faz algo que te deixa irritada ou magoada. Você morde o lábio sem notar e sua testa fica com ruguinhas de expressão. — Ah, é. costumava ser minha melhor amiga, mas se tornou ainda mais próximo de mim quanto ela ao engatarem o namoro. — Tudo bem?

— Só mais uma foto dela com a filha de outro em vez de procurar saber sobre a própria filha. — Dei de ombros, como se aquele comportamento não me afetasse. Quem me dera ser tão fria quanto parecia. — Como sempre.

... — Sabia o que vinha a seguir. O carinho dele, o apoio, tudo que me fez ter coragem o bastante para me entregar a ele naquela noite. E por mais que eu desejasse aquilo, ter alguém sobre o precipício do qual eu havia sido empurrada para me dar a mão, não podia prosseguir como se aquela noite nunca tivesse acontecido, especialmente pelos cantos da universidade. A lembrança de hoje mais cedo parecia um sinal escancarado disso.

— Olha, , eu não quero ser grossa, mas acho que você tem que ir embora. Eu tô me esforçando pra caralho para recuperar a minha reputação. E falar com você não vai me ajudar nem um pouco nisso. — Ele olhou para o chão, um suspiro escapando do seu corpo. — Não quero que a veja a gente. Isso só iria magoar e irritar mais ela.

, eu sei que é difícil. Mas nós somos amigos desde sempre. Antes disso tudo, não tinha um dia que eu não conversasse com você. A minha rotina toda tem você, e eu não quero que deixe de ser assim, nunca. — levantou a cabeça à medida que dizia todas aquelas palavras, que conseguiam parecer belas e um sacrilégio ao mesmo tempo. — Aquela noite significou algo pra mim. Você significa alguma coisa pra mim, . — Ele riu consigo mesmo, balançando a cabeça. — Não somente alguma coisa. — segurou minhas mãos delicadamente. Por reflexo, olhei para ele. Aqueles olhos, sempre indecisos de cor, agora azuis-esverdeados sob a luz matinal, repletos de admiração pela garota que ele me idealizava e a qual eu já tinha provado diversas vezes não ser. — Você é tudo pra mim. Sempre te disse isso. E não mudou. Aquela noite só me fez perceber que eu te…

Sua fala foi interrompida por mim, levantando bruscamente e levando minhas mãos para longe dele. Querer minha amizade era algo com o qual eu simpatizava e entendia: a saudade de era tão frequente quanto a de . Mas confundir algo assim com amor? O tipo de sentimento que ele deveria ter pela minha melhor amiga?

Eu não podia deixar essa porta aberta. Tanto para não acabar me embaralhando mais, quanto para resguardar a chance mínima de voltar a ser amiga da . Eu cruzei linhas imperdoáveis, ainda assim existiam limites.

— Aquela noite foi um erro. Erros não devem se repetir. A gente não se ama desse jeito. — Fiz questão de frisar, apesar da dor ao dizer aquelas palavras. Como ele poderia estar prestes a dizer que me amava depois de transar comigo na cama da ex-namorada dele? Amor não era a definição daquilo. Estava mais para os hormônios. Logo, meu doer deu lugar para irritação e incredulidade. — Você sabe o que esse erro me custou? Minha casa, minha melhor amiga, minha reputação. Tudo. — Ele abriu a boca para falar, entretanto, eu não permiti. É claro que ele não entendia a extensão do que estava me pedindo. — Não me venha com essa história fajuta sobre amor, . A gente transou, fodeu. Simples. Não tem amor envolvido nisso. Nunca teve.

Eu estava com tanta raiva de tudo que nem conseguia falar um motivo principal para aquele sentimento avassalador. Podia até só ter despejado tudo em , ainda assim, minhas mãos tremiam e eu sentia o sangue borbulhar embaixo da minha pele e criar ondas de agonia pesarosa.

A tristeza pode ser violenta também.

— Não significou nada pra você? — ele perguntou baixinho, como uma criança com medo de perguntar aos pais se monstros eram reais. Seus olhos gentis, que já haviam me consolado tantas vezes, me olhavam com receio esperançoso. Quase conseguia ouvir ele implorando silenciosamente para que eu não quebrasse o seu coração, se é que ele realmente tinha sentimentos não platônicos por mim.

Não funcionou.

— Significou um erro que nunca vamos repetir.

Coloquei meu celular no bolso e me carreguei para longe dali, dando a mim mesma o privilégio de não ver a expressão estampada no rosto de quando eu o deixei. Novamente.

Assim como tinha feito naquela noite.

Nós dois estávamos deitados, o êxtase que ambos tínhamos alcançado pela primeira vez — ou eu devia dizer primeiras vezes? — era mais forte do que o previsto e tão bom quanto os livros, séries e colegas mais experientes retratavam.

Quer dizer, claro que eu já tinha gozado antes, mas em um voo solo, descobrindo o meu próprio corpo com os meus dedinhos dançantes. Realmente transar, colocar tudo aquilo em prática foi... Uau. É, não tinha como definir.

Era provável que fosse virgem, assim como eu, já que foi sua primeira namorada desde o colégio e com certeza teria me dito se eles tivessem transando. Eu mal podia esperar para contar pra ela que eu tinha perdido a virgindade!

Puta merda.

.

— Vou pegar outra garrafa de vinho, quer?

E .

O homem ao meu lado me puxou para mais perto no instante em que minha mente deu um click. beijou minha nuca, acariciando com suavidade as minhas costas. O clima leve e repleto de sentimentos conflitantes, porém tão bons, foi cortado por mim praticamente pulando para fora da cama, cobrindo meu corpo com um lençol quando uma vergonha absurda que me atingiu.

— O que aconteceu? Eu fiz alguma coisa errada? Eu te machuquei? — perguntou preocupado, pronto para se levantar da cama e me dar qualquer assistência necessária. — ? Eu tô preocupado, amor. Fala comigo, por favor.

Amor. Aquela palavra tinha sido usada naquela cama muitas vezes em vão.

— Não devíamos ter feito isso.

— Eu sei. — suspirou, passando a mão pelos cabelos castanhos desengrenados. — Eu vou falar com a sobre isso, explicar tudo para ela. Mas o que aconteceu aqui foi sério, . Isso significou muito para mim.

, não — implorei, mordendo meu lábio inferior para segurar o choro. Trair minha melhor amiga com o namorado dela na sua cama era repugnante, mas ouvir uma suposta declaração dele ali, no quarto deles? Isso era demais. Estava na hora de começar a consertar os meus erros. Certamente, as emoções dele estavam atordoadas pela situação. Desenrolei palavras em ansiedade, enquanto catava minhas roupas. — Você vai falar com ela e eu também. Vamos consertar isso. Provavelmente não vamos nos falar por um bom tempo e eu entendo isso. vai ter todos os motivos do mundo para querer que eu fique longe de você e dela. Ela vai estar puta contigo também, mas vai te perdoar, porque vocês dois são incríveis juntos. Só nós três podemos ficar sabendo disso. Isso aqui não aconteceu hoje.

E assim, tão rápido quanto tinha aparecido, eu virei as costas e o deixei.



Parecia uma cena daqueles filmes adolescentes americanos, sabe? A menina segurando as
lágrimas enquanto corria para o banheiro feminino, prestes a desabar sob o olhar atento da câmera lenta, que parecia se aprofundar no desespero juvenil.

Só que nem desmantelar em paz eu podia. Assim que empurrei a porta com toda a força que tinha para entrar no recinto cheio de privadas, torneiras e espelhos, dei de cara com Lola Padite.

No começo da universidade, costumávamos ser um quinteto; como a maioria dos confortos de calouros, aquilo não durou mais que alguns semestres: Lola, eu, , Alice e Lariza. Alyce e Lariza mudaram para novas cidades, e eu começamos a andar com outro grupo, e Lola… Bem, era um excelente ginasta da última vez que chequei. Ninguém era inimiga de ninguém, só afastadas.

Como dizem sobre a faculdade: certas amizades só acontecem de acabar.

Ignorando a face familiar, engoli o choro e me dirigi até um box, entrando nele. Sentei na tampa branca que cobria o vaso e respirei fundo, tentando conter minhas emoções traiçoeiras. Contudo, assim que olhei para porta, não fui capaz de segurar um soluço alto:

é uma vadia.

Pintado com um marca texto rosa, ao lado de um jogo da velha e uma mensagem motivacional fajuta do setembro amarelo.

Minha mochila caiu no chão, ecoando em um baque surdo devido ao silêncio no recinto. Toquei as palavras rudes levemente, e a tinta rosa com qual elas foram escritas sujou o
meu polegar.

Suja. Era isso que eu sempre seria a partir de agora.

, você tá bem? — Olhei para baixo e consegui ver os sapatos de Lola: uma havaiana rosada, quase da mesma cor da caneta, de plástico, com uma flor roxa do mesmo material na tirinha direita.

— T-tô — gaguejei.

— Eu estou aqui se você quiser conversar, tá? Sabe que pode contar comigo. — A honestidade em sua voz era óbvia, apesar de plantar dúvida nos meus melhores pensamentos. Por que ela parecia se importar? Depois dos boatos que voavam como balas, depois de nem darmos mais oi uma para outra pelo campus.

Destranquei o box, confusa pelo rumo que aquela conversa estava tomando. Fui recebida por um sorriso amigável e compreensivo de Lola, o que estranhei ainda mais.

— Você não sabe o que eu fiz? — Me limitei a perguntar, embora não soubesse como era
possível alguém não saber do ocorrido.

— Sei. Quer dizer, ouvi dizer. Mas né, você sabe que eu tô aqui pra você. Mesmo que a gente não esteja tão próximo, também tem que ouvir o seu lado da história, né. E o que eles estão fazendo é muito, muito desnecessário. — Se enrolou. — Né. — Lola e sua mania de falar em todas as frases quando estava nervosa, ou não sabia o que dizer ainda era parte dela, o que me fez sorrir. — Não sei se você entendeu o que eu quis dizer.

— Eu entendi, sim. — Ri levemente, ela sempre foi capaz de me fazer soltar uma risada em situações sérias. — Mas a vida é o que ela é. Eu sou uma vadia.

— Mulher, não diga isso, não. — Lola me repreendeu e gargalhei pelo tom de voz que minha velha amiga esbanjava, beirando o maternal, quase como se eu fosse uma criança dizendo um palavrão.

— Tá tudo tão complicado, Lola. — Suspirei. Por um momento, foi bom ter ela ali. Eu estava começando a ficar sobrecarregada: a declaração de , a situação na universidade, minha mãe que me afetava mesmo do outro lado do país, morar com , perder a .

— A vida é complicada. Quando você pensa que ela vai melhorar, ela piora. — Revirei os olhos para o teatro dela, embora o pequeno sorriso em meus lábios denunciasse o meu
divertimento. Ela encarou o relógio em formato de morango em seu pulso. — Daqui a pouco tenho aula.

— Acho que vou cabular. — Peguei minha bolsa e me levantei do vaso, andando com Lola até a porta.

— Pera aí. — Padite parou no meio do caminho e arrumou o cabelo, sorrindo para o espelho. — Pronto! — Virou-se para mim, seu rabo de cabelo quase batendo em sua bochecha com a rapidez do movimento. — E cabular aula? Claro que não! Vai ser reprovada por falta? Vai para sua classe, eu vou para a minha, e a gente se encontra na hora do almoço.

Bufei, mas concordei. Afinal, sempre era bom salvar algumas faltas para o final do semestre.

— Ok, mãe. Qual a sua aula?

— Alguma coisa sobre a história da dança. — Fez uma careta. — E a sua?

— Eu nem gravei o nome ainda.

— Você entende alguma coisa dessa aula? — perguntei, mesmo já possuindo uma noção da resposta pela expressão dela.

— Não. E você da sua?

— Eu também não.

E, naquele momento, com nós duas rindo ironicamente da nossa própria desgraça estudantil, realmente pareceu que as coisas estavam nos eixos por um segundo. Como costumava ser.

Engraçado como uma velha amizade pode te ajudar mais do que as pessoas que estão ao seu redor.

XXX



Sai da água sorridente, havia passado o dia todo distraída por Lola, ninguém tinha visto minha conversa com , e os testes para equipe de natação foram adiados para o dia seguinte — hoje, a treinadora apenas pediu que eu repetisse os exercícios diários na piscina para que ela pudesse marcar o tempo e decidir qual cronometragem as candidatas precisariam alcançar para entrar na equipe.

O dia estava razoavelmente bom. As aulas se arrastaram, mas não fiquei sozinha entre os intervalos, sempre com Padite. Na hora do almoço, comemos fora do campus. As besteiras que minha antiga amiga falava me mantiveram distante da realidade que eu estava enfrentando. E um bônus: Alison, a garota nova, ficou com a gente. Por ser recém transferida de outra faculdade, ela não sabia das fofocas. E, simples assim, parecia que eu havia entrado em uma máquina do tempo e voltado para a minha vida de uma semana atrás.

Às vezes, você só precisa de uma amiga para ignorar o mundo ao seu redor.

Andei até o vestiário da equipe de natação, arrancando a touca de silicone da minha cabeça, pronta para tomar uma boa chuveirada. Ao invés disso, dei de cara com um me esperando na porta do vestiário. Revirei os olhos, sentindo a irritação subir em mim só por ele estar materializado na minha frente.

— O que você quer, ?

— Te entregar as chaves. — Ele sacudiu-as na mão. — Esqueci de te dar ontem, e você saiu cedo hoje.

Peguei as chaves rapidamente. Não queria que alguém acabasse entrando ali e visse aquilo. O dia tinha se passado sem qualquer tipo de conturbação, quase como se eles tivessem esquecido a história com . Mas e se eles soubessem que eu morava com o ?

Tudo iria voltar mil vezes pior.

Puxei para dentro do vestiário, sabia que ele estava vazio, já que eu era a única no treino de hoje. — Tá doido, ? E se alguém visse isso?

Ele não foi capaz de retrucar ou qualquer coisa, porque, como num passe de mágica, vozes
femininas podiam ser ouvidas claramente. Um grupo de garotas estava se aproximando do vestiário. Puta merda.

Segurei o pulso dele, adentrando ainda mais no recinto, em busca da única saída daquela situação: o próprio vestiário. Enfiei dentro da primeira cabine que eu achei, entrando junto com ele. Sinalizei para ficar sobre a privada, então ninguém veria pés masculinos ali.

Ele pareceu entender, ou só estava confuso demais para contestar. De qualquer maneira, subi na privada junto com ele, me segurando nos seus ombros para não cair, e ele agarrou minha cintura.

— Eu não acredito que o vestiário das ginastas está sem água de novo! A gente que traz
medalhas para essa porcaria de colégio. — A voz fina da Vanessa encheu o ambiente, e eu
revirei os olhos. — E se a água daqui for a água da piscina? Eu paguei mais de trezentos reais na progressiva, não vou lavar meu cabelo com xixi!

abriu a boca, prestes a rir da baboseira que Vanessa tinha falado. Usei uma das minhas mãos para tapar aquele poço de sapinho antes que ele acabasse com nosso disfarce. Parece que eu esqueci que estava lidando com uma criança de dois anos, porque lambeu minha mão.

Isso mesmo, aquele idiota lambeu minha mão.

— Filho da puta! — praguejei baixinho, limpando minha mão no ombro dele.

— A bolsa da . — Droga. Suspirei cansada quando a voz de Cândida, uma das ginastas, soou. estava olhando para mim com cara de quem queria gargalhar pelo quanto eu fiquei irritada por conta do seu ato infantil. Eu enviei um olhar de morte pra ele, que apenas fez o bestão morder o lábio inferior para conter a risada. — Devíamos jogar ela na privada, aí ela vai poder sair nua por aí e dar para quem ela quiser.

— Não que ela já não faça isso. — Vanessa riu com ironia.

— Vocês viram as roupas que ela estava usando hoje? Bregas! Até minha vó se vestiria melhor. Ficar nua vai ser uma bênção. — Foi a vez de Nina jogar sal na ferida. Bufei irritada. Se eu me vestisse assim, era brega. Se me vestisse de outro jeito, era ‘’provocadora’’. Tinha algum jeito de vencer ou de, pelo menos, sair impune?

— Aí, gente. É chato ficar falando isso, a menina não fez nada — Malu interviu e sorri, não era tão ruim quanto parecia.

— Com a gente, não. Mas fez para a . Ela está procurando uma nova co-capitã para o time de ginástica. Aposto que nós íamos ter mais vantagem se brincássemos um pouco. — A voz de Cândida pingava veneno. Eu me senti irritada e, ao mesmo tempo, triste. Porém sabia que era melhor permanecer ali em vez de acabar com meu disfarce e piorar a situação. Tinha sido um dia bom, melhor do que eu esperava. Elas não iam estragar isso.

— Vamos levar a bolsa dela e largar na rua! — Nina disse animadamente, como se ferrar uma pessoa com quem ela mal conversasse fosse equivalente a ganhar o prêmio Nobel. fez uma careta, prestes a se levantar e acabar com aquilo. Segurei ele mais perto de mim para impedir que fizesse isso. Nossos narizes quase se tocando quando eu movi a cabeça de um lado para o outro, sinalizando o claro não para sua tentativa de intervir no plano maligno que estava rolando. Tentei me afastar dele, mas era quase impossível por conta da posição em que estávamos.

Naquele momento, entretanto, estava mais preocupado em encarar meus lábios
do que tentar se soltar de mim.

Ele se inclinou para perto, e eu não me movi — nem para afastá-lo, nem para me aproximar
mais. Não sabia por quê. Apostaria no choque da situação, pela proximidade, pelos comentários, tudo.

— Não. — Malu foi em minha defesa novamente, ou assim eu imaginei, fazendo eu finalmente recuperar a consciência e virar o rosto para longe do de . Por precaução, me virei sutilmente no pequeno espaço da privada, ficando de costas para . As mãos dele continuavam na minha cintura, e agora minha bunda estava próxima da virilha dele. Parabéns, . Você é burra. Tentou evitar um beijo súbito e vai acabar sentindo um pau duro contra a sua bunda. — Vamos só tirar a bolsa daqui. Eu levo para casa e deixo amanhã nos achados e perdidos. Senão, ela podia dar queixa, e os funcionários iam olhar nas câmeras.

— E a gente ia acabar sendo pega. Boa, novata! — Nina bateu palminhas. Bem, aquilo era melhor que a primeira opção. Continuei ali, dividindo um sanitário com enquanto as garotas usavam o banheiro, por sorte, sem nem citar o meu nome de novo. Pela graça dos anjinhos, nada demais havia rolado naquele meio tempo.

— Não acredito que tô em um banheiro feminino com meninas tomando banho e sem poder
ver nada — ele murmurou, e eu revirei os olhos.

— Tem como você não ser um cafajeste por um minuto? Daqui a pouco elas saem. Agora fica quieto! — sussurrei de volta. Fizemos o máximo de silêncio possível por aproximadamente dois segundos. Até me cutucar. — O que você quer?

— Vamos jogar pedra, papel e tesoura?

— É sério?

— Tô entediado.

E assim começamos a jogar jokenpo como dois idiotas, rindo silenciosamente quando o outro perdia, à espera das ginastas saírem. O tempo não pareceu se arrastar e, quando a porta bateu, nós saímos aliviados do banheiro.

— Droga, vou ter que sair na rua de maiô.

Então, tirou a blusa dele. Acho que fiquei encarando-o por um tempo considerável, já que ele estava sorrindo convencido quando nossos olhos se encontraram novamente.

Pateta.

— Não estou interessada, pode colocar a roupa.

revirou os olhos.

— Engraçadinha. Veste isso. As pessoas da rua vão ter o prazer de ver toda essa gostosura aqui. — Apontou pra si mesmo, e foi a minha fez de revirar os olhos. — E você pode voltar a me secar também.

— Eu não estava te secando. — Vesti a blusa dele e me guiei à saída, sendo seguida por ele.

— Imagina. — piscou para mim, e semicerrei os olhos. — Por que não parou aquelas
garotas de pegarem a sua bolsa? — perguntou, coçando a barriga definida despreocupadamente.

— Porque iam ver a gente junto. Em um banheiro. O dia de hoje até que foi bom, melhor do que eu esperava. Não quero ferrar a minha reputação de novo quando parece que as pessoas estão esquecendo o que rolou.

— Você e essa mania de se preocupar com o que os outros pensam. — Antes que eu pudesse retrucar, sorriu. — Vem, vamos pra casa. Tô com fome.

Olhei ao redor, confirmando que ninguém estava de tocaia nos olhando, e saí andando para casa, na companhia de . Por conta do horário, todos os alunos já deveriam ter ido embora.

Ainda assim, continuei checando os arredores ao andarmos pela rua. Acho que ele notou, porque, depois de dois quarteirões, bufou e colocou os braços sobre os meus ombros.

— Ninguém vai te ver, todo mundo vai olhar pra mim.

Não segurei o pequeno riso diante daquilo, revirando os olhos comicamente. Mais importante, confiei nele. Mesmo sabendo que ele não tinha controle daquilo.

E nós continuamos andando assim até em casa.



A mulher universal; A Teoria do Agir Comunicativo, e Ensaios críticos e experimentações em direitos humanos, democracia e memória.
A cama rugiu quando me sentei nela, reclamando do peso súbito sobre si. Mesmo com meu conserto digno de um episódio de Art Attack, o buraco continuava ali. Suspirei, levantando para iniciar a pequena busca por mais algum livro grosso que havia sido estúpida o suficiente para comprar — uma caloura que duvidou do poder da pirataria online. Dinâmicas urbanas e rurais nas novas perspectivas de desenvolvimento latino-americano, perfeito. Ajoelhei no chão, encarando a cama quebrada e a pilha de conhecimento meio lida que tentavam mantê-la no lugar.
— O que você está fazendo? — Me assustei com a voz vinda do nada, embora soubesse quem era. Seu tom, como sempre, deixava claro o divertimento perante a minha situação.
Babaca.
— Tentando consertar a minha cama. Dormir no sofá ferrou as minhas costas. — Virei-me para encarar ele. — O que você quer?
— Vim chamar você pra me ajudar a fazer a faxina na casa. — Encarei como se ele fosse um acéfalo enquanto cogitava seriamente tacar os dois livros que tinha em mãos diretamente nas fuças dele. Quase.
Mas, contra minha vontade, apenas coloquei os tijolos de papel no chão.
— Numa segunda à tarde? Você não tem nada melhor para fazer, não? Tipo, sei lá... — Dei de ombros, como se pensasse em algumas opções de afazeres. — Estudar? — Sorri ironicamente, sendo retribuída com um rolar de olhos.
— Qual é, melhor limpar agora que na sexta. Algumas pessoas tem vida social, sabia? — Cruzou os braços e esbanjou um sorriso debochado. Alguém tinha que me dar um prêmio pela minha paciência com , honestamente. Como ele ainda estava vivo depois de 72h morando juntos?
— Por vida social, você quer dizer — comecei a contar as opções nos dedos: — a) se embebedar, b) mentir para enfiar a língua em alguma garota aleatória, ou c) acordar com uma estranha? Cuidado para não passar gonorreia para a menina, . É transmissível por sexo oral, também. — Despejei uma usual provocação, sem me importar muito.
Todo mundo sabia da reputação de . Diferente da minha, aquilo não o afetava de um jeito negativo. Pelo contrário, as meninas com quem ele ficava que eram chamadas de burras e coisas do tipo caso esperassem algo a mais, ou caíssem em alguma mentirinha típica dele. Sem contar como as caras agiam, o glorificando a cada ficada, fosse ela maior de idade, mais nova, ex de amigo ou comprometida.
Bem diferente do que falavam das meninas que ‘’ousavam’’ beijar mais de dois homens em um show.
Ah, o mundo. Tão fácil para eles.
— Parece que você entende bem de sexo oral, não é? Deu um boquete no ? — E foi exatamente por isso que aquele comentário me incomodou tanto, fez meu corpo ficar tenso e qualquer resquício de brincadeira sumir do meu rosto. Ele sabia, presenciou até quão fodida eu estava por conta do incidente com . Puta merda, eu fui morar com ele porque tinha sido expulsa de casa!
— O que você disse? — falei entredentes. sorria como o idiota que ele era, prestes a retrucar, quando meu celular tocou. Agarrei o aparelho barulhento que se encontrava sobre minha cama e atendi, sem ao menos checar o identificador de chamadas, evitando ao máximo olhar para o homem na porta do meu quarto.
— Oi, ! A gente vai sair pra comprar uma touca e óculos de mergulho para mim, já que amanhã iniciam os treinos de natação. — A voz da novata do time de natação, Alison, soou animada, e eu quase beijei o telefone. Podia considerar Ali minha melhor amiga imediatamente por me tirar de perto do Troglodita . Esse, por um milagre divino, estava quieto como um rato que espera a calmaria para roubar o queijo da cozinha.
— Eu topo. Tô querendo sair de qualquer jeito. — Aumentei um pouco o tom de voz, querendo que pegasse a indireta. Bem infantil, eu sei. Não me orgulho deste momento. Ele tinha uma mania de me fazer regredir para minha versão idiota do ensino médio. — De que horas vamos?
— Agora! Estou de carro e já peguei a Lola. — A garota citada gritou um ‘’oi’’ com vários is. — Onde você mora? — Engoli em seco. Merda, ninguém podia saber com quem eu estava morando. Existiam dezenas de jeitos de tudo ir por água abaixo se eu desse aquela informação para alguém.
— Eu não estou em casa — menti, sem ter mais o que fazer. — Quer saber? Me encontra na esquina da 49 com a Canary.
Desliguei o celular e fitei , que devolveu meu olhar com uma diferença: as sobrancelhas erguidas e a boca semiaberta dele mostravam certa desordem em sua mente. Suas próximas palavras apenas confirmaram minha observação.
— Por que mentiu? — ele perguntou, descruzando os braços.
— Porque ninguém pode saber que eu moro aqui, . Diferente de você, eu não sou vangloriada por ficar perto do sexo oposto. — A resposta saiu dos meus lábios de forma seca enquanto me levantava para procurar meu cartão de crédito. Onde havia deixado ele dessa vez? — Pelo contrário, sou classificada como puta. Esqueceu o motivo de eu vir morar aqui? — Achei o danado no chão, provavelmente havia caído ali.
... — tentou, parecendo genuinamente atordoado pela situação. Eu não duvidava que ele nem notou a merda que fez até agora.
Entretanto, isso não fazia as palavras dele doerem menos, nem estancavam a ferida que ele abriu mais enquanto eu tentava cicatrizá-las.
— Nem tanta, babaca. — Passei pela brecha entre ele e a porta, apressando o passo para sair da casa o mais rápido possível. Queria esquecer que existia por algumas horas.

XXX


— Olha essa! — Lola surgiu de algum canto da loja com uma touca rosa da Hello Kitty. Eu e Alison olhamos uma para outra, sem saber como reagir. Na verdade, sem saber como não tirar sarro da cara de Lola. — E vem com óculos para acompanhar! — Levantou uns óculos de natação da mesma cor e marca da touca. Me limitei a revirar os olhos, e minha companheira riu do entusiasmo infantil da nossa amiga.
— Vou parar na reserva só por isso, não é, chefa? — Ali empurrou meu ombro de leve, e eu ri.
— Reserva? Você nunca mais ia entrar na piscina, pode tomar conta das inscrições em campeonatos e protetores solares. — Continuei a brincadeira enquanto procurava algum material bonito para a mais nova integrante da equipe de natação da faculdade. Acontece que Alison era uma nadadora exemplar, rápida e com uma técnica quase impecável. Não era comum uma caloura ter coragem de se inscrever em algo tão expositivo quanto o nado, contudo, Ali não só fez isso, como se mostrou ágil e confortável na piscina. Exatamente o que o time precisava.
— Mas gente, é rosa! — Lola choramingou. Aquela garotava era obcecada por rosa desde os 10 anos de idade. Algo que, como podem ver, não mudou nadinha com o envelhecer.
— Sem problemas, meninas. — Avistei uma touca rosa maravilhosa. O tom não era claro e chamativo como a touca de criança que Padite escolheu, mas, sim, um rosa escurecido. Ao tocar, notei que era de silicone, o que ajudava muito a evitar acidentes como ela se soltar no meio de uma competição. — Silicone, rosa e... — Chequei o preço. Bom, outro ponto positivo. — Só custa trinta.
— Eu gostei. — Alison segurou a toca, a provando rapidamente e sentindo a textura.
— Ali, é essa. — Lola bateu palminhas, animada. Ela, ao contrário de Alison, não estava na equipe de natação. Padite fazia parte da ginástica rítmica do colégio há alguns anos, todavia, teve que se ausentar para focar mais nos estudos. — Espera. A gente vai levar ela assim? Não vem dentro de uma sacola?
— Essas aqui são só mostruário. A gente mostra o que escolhemos, e um vendedor vai pegar no estoque — expliquei, andando para o outro lado da loja onde estava os óculos e sendo seguida pelas duas. — Ali, que tal uns óculos da Xceed?
— Sem chance. Esse é a marca que o Michael Phelps usa. Deve custar os olhos da cara — Alison negou prontamente. Uma das desvantagens de ser adolescente: dependemos bastante da grana dos nossos pais.
— Não aqui! Lembra do slogan da Sports&Cia? — falei, dando um giro, abrindo os braços ao finalizar. — Preços tão irreais quanto os da internet, só que reais! — repeti aquela frase boba dos comerciais com uma voz anasalada.
Conseguimos uns óculos aquáticos de lentes transparentes, detalhes pretos e bordas rosa. Ou seja, combinava perfeitamente com a touca. Depois da pequena maratona de compras, nós fomos até a praça de alimentação para recompensarmos nossos estômagos com comidas nada gentis às artérias.
— Você está meio distraída hoje. Aconteceu algo? — Alison perguntou. As três estavam sentadas numa mesa, comendo pasteis com Coca-Cola.
— Só uma briga besta com... — Parei abruptamente. Merda. Eu não podia falar com quem eu tinha brigado, porque aí perguntariam a situação na qual a discussão ocorreu. Tá, admito que não era incomum eu e o discutirmos por besteirinhas que eram esquecidas dois minutos depois. Então, não seria estranho demais contar a elas uma versãozinha alterada, né?
? ? Sua mãe? — Lola tentou, ganhando de cortesia um olhar matador meu. Porra, Alison não sabia das fofocas ainda. Muito menos da situação chata com a minha progenitora.
— Eu estou boiando legal — Ali disse, dando uma mordida no seu pastel. Suspirei frustrada. Não tinha escolha, eu devia falar para ela a situação de bosta na qual eu havia me metido, ou ela descobriria por outras pessoas. Afinal, não estava grudada com a gente vinte quatro horas por dia. Contudo, não queria contar naquele momento.
Decidido, vou falar uma versão resumida e com alguns retoques da minha briga com o . Era a melhor opção que eu tinha. Não manchava minha reputação com ela e ainda podia xingar o publicamente por uns minutos, perfeito.
— No restaurante universitário, o e eu estávamos brigando. Só aqueles comentários estúpidos de sempre, sabe? Ele disse que tinha vida social nas sextas, e eu disse para ele ter cuidado, ou podia passar gonorreia para alguém por boquete.
— Isso é normal? — Alison me interrompeu, arqueando uma sobrancelha. Apenas assenti. — Desde quando!?
— Aí ele disse que eu entendia disso porque tinha feito sexo oral no amigo dele. — Optei por ignorar a estranheza de Ali em relação à natureza da minha amizade com e finalizei a história.
— Nossa — Lola disse, e parecia entender a qual amigo eu me referia. — Mas foi só de brincadeira, né? Brincadeira muito de mal gosto, mas...
— Eu odeio isso. — Alison bufou. Ela colocou a metade do pastel sobre a bandeja. — Pelo que você disse, é normal vocês dois se ‘’zoarem’’ assim. Porém, tudo tem limite! Como é que o cara expõe você assim e ainda está vivo? A gente devia se vingar. Aposto que ele sabe a repercussão diferente entre uma mulher dar um boquete e um cara receber um boquete. — Ali não sabia com precisão por que eu havia ficado tão chateada, contudo, sua visão da situação quase se assemelhou à minha realidade. — Babaca.
— Nisso eu concordo — brinquei, bebericando a minha coca. — E é verdade, aliás. As duas pessoas transam, mas o cara vira o fodão, e a menina vira a puta que não serve para relacionamento sério.
— Isso é muito nada a ver. Se bem que fazer aquilo é bem nojento. — Lola fez uma careta. Ela, no auge dos seus hormônios adolescentes aos dezesseis anos, achava que sexo e até beijar eram atos desnecessários e que transmitiam bactérias. Exato, isso mesmo. Ela provavelmente estava prestes a iniciar seu discurso. — Passar bactérias um para o outro, eca! Um dia eu li que um beijo transmite 80 milhões de bactérias. Os cientistas que falaram! — Não disse? Lola já tinha dado esse papo no intervalo de hoje quando viu um casal trocando um selinho.
— É bom passar bactérias para pegar imunidade. — Alison piscou, fazendo com que eu gargalhasse de indignação de Lola que se seguiu.

XXX


Depois de despistar das inúmeras tentativas de Alison de me dar uma carona de volta para casa, finalmente cheguei em casa. Como havia saído depressa, acabei esquecendo a chave. Logo, lá se vai meu plano de dormir com a porta trancada na cama quebrada para não ter que encarar o . À contragosto, fiquei de ponta de pé e toquei a campainha desnecessariamente alta, no modo mais literal possível. Aquele pequeno botão era mais alto que eu.
abriu a porta, e a primeira coisa que eu notei foi que ele estava todo suado e sujo de preto. O que era aquilo? Graxa? Carvão?
Crispei os lábios, aguardando algum tipo de explicação. Jesus do céu, que não tivesse tido um surto e quebrado as coisas dentro de casa, pelo amor de Deus. Eu sabia que esse lance de faxina daria merda. E se ele tentou limpar e acabou quebrando algo? Tenho certeza de que era o Travis que fazia esse serviço na casa. Ele sempre aparentou ser bem mais responsável e proativo.
Ele deu espaço para que eu entrasse em casa, e assim o fiz. Tudo parecia no lugar. podia estar mexendo no carro, ou sei lá. Perdendo o interesse na situação corpórea do imbecil, andei para o meu quarto.
Assim que pus os pés dentro do meu recinto particular, meu queixo caiu no chão. Tá, isso não aconteceu, minha vida não é um desenho animado. Mas foi esse nível de surpresa que atingi ao ver a cena: minha cama consertada, algumas ferramentas largadas pelo chão e meus livros sobre a cabeceira.
— Fui eu — falou, surgindo atrás de mim. É claro que o fato de eu estar atordoada pela situação do meu quarto e um garoto ter surgido do nada atrás de mim me fez soltar um gritinho nada respeitável. riu, e eu respirei fundo, andando até a cama e sentando nela. Nenhum barulho. Boa, .
— Não me diga, eu pensei que uma fada mágica tinha entrado aqui e consertado minha cama — respondi ácida. Eu só queria dormir na minha cama recém consertada e me preparar psicologicamente para a possibilidade de ter outro sonho com o Barry. Eu tinha tentado com sucesso manter aquela assombração longe da minha cabeça. Não foi necessário tentar muito para conseguir, eu estava sempre ocupada de alguma forma hoje. Todavia, a falta de luz natural indicava a noite, os relógios indicavam hora de dormir para levantar cedo amanhã. Ou seja, aquilo me trazia lembranças do meu pesadelo particular que havia me acordado neste dia.
, qual é, eu tô tentando me desculpar aqui. — Bufou impaciente. Pela segunda vez no curto período de tempo, eu me encontrei surpreendida por novamente. E, pasmem, não de um jeito ruim.
— Se o quê? Desculpar? Não sabia que você conhecia essa palavra. Pode soletrar ela pra mim? — Mascarei minha surpresa com a típica ladainha. , por outro lado, não se deixou levar pela minha óbvia tentativa de mudar de assunto.
— O que eu disse foi... Idiota. — Ele suspirou. Parecia realmente arrependido. O que porra era aquilo e por que eu estava sentindo meu peito aquecer com um pedido de desculpas dele? — Eu agi como um idiota. Eu sei que a gente tem... Liberdade um com o outro. Mas falar uma coisa daquelas é demais. Você se fodeu demais por causa do que aconteceu com o . — Engoli em seco. Ele tinha consciência de como eu me sentia, dos efeitos que sofri. Uma sensação parecida com a que senti quando conversamos no quarto dele me atingiu como uma onda na areia da praia: sem aviso prévio, forte. — Literalmente — brincou, tentando amenizar o clima pesado que tinha se instalado ali. Tenho que admitir, funcionou.
— Eu te perdoo. — Recuperei o assunto e ofereci um pequeno sorriso para ele. , retribuindo, sorriu em entendimento. Por alguns segundos, parecíamos cúmplices, parceiros no crime. Ele me entendia e eu o entendia. Ficamos daquele jeito, olhando um para o outro com sorrisos singelos, até tossir e olhar ao redor. — Da próxima vez que brigarmos, você conserta o armário.
— Eu tenho que tomar um banho.
— É verdade, está fedorento. — Fiz uma careta, segurando o nariz com os dedos, como se sentisse o odor proveniente dele. Ele colocou a mão sobre o peito dramaticamente, como se eu o magoasse profundamente. Quando ele estava prestes a sair do quarto, intervi. — Ah, ? — Sorri ironicamente ao encará-lo. — Cuidado com a gonorreia.
— Não se preocupe, . Não vou te dar nada além de prazer. — Ele piscou, e eu agarrei uma almofada para jogar nele, mas o bocó foi mais rápido em fechar a porta e sair rindo.
Nós estávamos bem. Na medida do possível para duas pessoas que se ‘odiavam’ estarem.


Continua...


Nota da autora: E GANHAMOS FANFIC ENEMIES TO LOVERS DO ANO! Gente, eu estou super animada com isso. Essa história é minha bebê desde que eu estava no ensino médio, já passou por várias reescritas, já foi plagiada, já foi para hiatus, já voltou das cinzas. Enfim, muita coisa acontece dentro e fora dela! Eu fico imensamente grata por vocês ainda acompanharem e gostaram tanto ao ponto de ela conquistar esse tipo de destaque.
Obrigada a todas que votaram, que comentam, se divertem e acompanham icb. :) Não esqueçam de comentar e seguir o Instagram @aliudarkbloom, com spoilers exclusivos e muito mais!

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