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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 26/09/2025

acordou com o barulho insistente do celular vibrando e bufou. Resmungou algo ininteligível e estendeu a mão, os olhos ainda semicerrados, guiada apenas pela luz trêmula no escuro do quarto. Pegou o aparelho e franziu a testa ao ver o nome na tela, mas não hesitou em atender e, após um silêncio de poucos segundos, ouviu a voz de alguém de seu passado travando do outro lado da linha.
? Fala mais devagar, eu não tô conseguindo te entender…
— Eu estraguei tudo, me desculpa — disse ele, a voz oscilando em meio a chiados. — Eu voltei pra floresta. Queria provar que não era real. Que tava tudo só na minha cabeça…
— Do que você tá falando? — sentou-se na cama, agora bem desperta.
— Ele é real, . O Senhor Red… ele é real.
, você tá bêbado? Olha, amanhã no colégio você me procura e a gente conversa, mas agora…
— Eu o ouvi sussurrar, assim como quando a gente era criança. Igual antes da Jane…
apertou os olhos. Só o nome já bastava pra trazer lembranças que ela havia enterrado.
, aquilo era um jogo. A gente inventou tudo. O senhor Red era só uma brincadeira idiota que acabou saindo de controle.
— Não… — A voz de vacilou. — Ele tá na minha frente.
— Onde você está?
— Eu consigo ouvir ele nas árvores… eu o ouvi sussurrar.
Antes que pudesse responder, a ligação caiu. No segundo seguinte, algo bateu com força contra sua janela. Ela gritou, o coração disparando, e quase derrubou o celular da mão. Acendeu a lanterna e apontou para o vidro. Uma silhueta.
? — Se aproximou, reconhecendo a figura. — Você me assustou! O que tá fazendo aqui?
— Posso entrar? — perguntou ele, a voz agora calma demais.
— Claro… entra aí — disse, destravando a janela e o deixando passar, e ligou a luz do quarto. — Mas vai ter que me explicar o que acabou de acontecer. Começando por como você subiu até aqui — questionou, ao lembrar que era praticamente impossível alguém subir em seu quarto, que ficava no segundo andar, sem a ajuda de alguma escada — e ela não viu nenhuma.
— Eu escalei — respondeu simplesmente, os olhos escuros fixos nela.
— Tá certo, homem aranha… você parecia muito assustado um minuto atrás.
— Foi um mal entendido. Eu tô bem agora. Mas precisamos encontrar os outros.
— Que outros?
— Nossos amigos! Eu tenho que mostrar algo a vocês, mas preciso que todos estejam juntos.
, a gente nunca mais se falou desde que éramos crianças… depois do que aconteceu com a Jane…
— Mas todos tem que estar lá, ! — A voz dele subitamente se alterou, mais ríspida e irritada. — Essa é a regra.
— Eu realmente quero te ajudar, mas você tá me assustando muito agora… daqui a algumas horas, vamos ter nosso primeiro dia no colégio, por que não nos reunimos lá?
O celular vibrou de novo, e olhou a tela — o nome de . Seu sangue gelou. Ela ergueu os olhos devagar, e ainda estava ali, parado no meio do quarto. Com a mão trêmula, ela atendeu.
— A-Ainda tá aí? Acho que estou perdido. Minha bateria está quase acabando, por favor, me ajuda!
O celular escorregou de sua mão e, lentamente, olhou para o à sua frente.
, o que tá acontecendo?
— Nós temos que voltar para a floresta, .
As luzes começaram a piscar até apagarem totalmente e um vento gélido invadiu o quarto pela janela aberta, fazendo toda a pele dela se arrepiar. se agachou para pegar o celular e iluminou o local novamente, a tempo de ver um sorriso macabro surgindo no rosto do amigo. Ela recuou à medida que o amigo começou a avançar em sua direção, tentando correr para fora do quarto, mas ele foi mais rápido e agarrou seu pulso com uma força monstruosa, que ela pensava não ser possível alguém com o porte físico de possuir, a empurrando contra a parede. se debateu com força, o coração batendo tão rápido que parecia preencher o quarto. Ela socou o peito dele, chutou, arranhou — tentou qualquer coisa para que ele recuasse. Mas sequer piscava.
— Você não se lembra? — A voz dele soava arrastada, como se viesse de algum lugar muito mais fundo. — Todos nós temos que voltar. — A mão fria de apertou o seu pescoço e a ergueu pela parede. Ela tentou gritar, mas só um chiado fraco escapou, e sorriu. Um sorriso que não pertencia a um rosto humano. As unhas arranharam o rosto dele, revelando algo podre sobre a pele, e ele grunhiu, o hálito frio cheirando a mofo e sangue e sua voz soando mais grossa que antes. — Todos brincam juntos, .
As sombras no quarto pareciam se contorcer e sangrar, e sentiu sua visão ficar turva. Sem força alguma para sequer gritar por ajuda e paralisada pelo medo, ela simplesmente se deixou afundar num vazio negro e frio.

acordou com um grito, o corpo coberto de suor e o coração martelando. Estava de volta na sua cama, sozinha, e a luz da manhã atravessou a janela agora fechada.
— Que sonho estranho — murmurou para si mesma e levou a mão ao pescoço, estremecendo ao sentir o local dolorido. — Mas que porra… — Ela se levantou em um pulo e foi até o espelho com a mão ainda no pescoço, empalidecendo ao ver vários hematomas que aparentavam ser recentes. — Isso não pode estar acontecendo… — Procurou por seu celular, que estava jogado no chão. Sem bateria. Ela se vestiu às pressas e desceu, lançando um olhar rápido para a floresta nos fundos do quintal. O mesmo frio no estômago a atingiu. — O não pode ter visto o senhor Red, era só uma brincadeira…. — Um latido. — Jelly, o que você está fazendo aqui fora? — a garota perguntou, ao ver sua Border Collie preta e branca do lado de fora. Guiou a cachorra para dentro, colocou água e ração, e se apressou para sair. Seus pais estavam na Europa a trabalho, então Jelly seria sua única companhia nas próximas semanas.
Perto da calçada, algo no chão chamou sua atenção. Uma pedra, com uma runa talhada e uma rachadura profunda. a pegou com cuidado. Um cheiro pútrido e metálico a fez engolir em seco — o mesmo cheiro do — sonho”. Guardou a pedra na mochila, inquieta. A escola apareceu à frente, com sua agitação caótica de início de ano: adolescentes rindo, gritando, correndo pelos corredores. respirou fundo e entrou com o pé direito no local.
— Último ano no colégio Westchester… nada pode dar errado — murmurou, mas no fundo até ela duvidava disso.



Os corredores fervilhavam com vozes altas, armários batendo e o cheiro de livros velhos misturado ao de perfume barato. se esgueirava entre os grupos de alunos até avistar uma figura familiar parada ao lado de seu armário.
! — chamou, se aproximando com um sorriso espontâneo.
levantou o olhar, o rosto iluminado por um sorriso ladino.
— Oi, sumida. Tudo bem?
— Sobrevivendo. — deu de ombros. — E você?
— Melhor agora que eles finalmente me trocaram de armário. Sério, era ao lado do banheiro masculino. — fez uma careta dramática, batendo a porta metálica com força antes de jogar a bolsa no ombro.
Até que uma voz estridente ecoou pelo corredor, atraindo a atenção das duas:
— Vocês não vão acreditar! — Britney, a personificação de uma patricinha de filme adolescente, desfilava pelo corredor, cercada de seus fiéis escudeiros, Jocelyn e Cody. — Dei um gelo naquele idiota por duas semanas, e ele ainda me chamou pra sair amanhã.
— Quando você acha que o ensino médio pode não ser uma ferida necrótica no peito… — murmurou, apenas para ouvir.
As risadas superficiais do grupo de Britney cessaram abruptamente quando seus olhos pousaram em outra figura: . A menina segurava um caderno contra o peito, tentando parecer invisível.
, adorei seu suéter! Eu não sabia que a Baby Barn tinha uma seção 4G. — Britney soltou uma risadinha venenosa, e seus amigos a acompanharam em coro.
sentiu a raiva borbulhar no estômago.
— Eu só queria dizer oi… — A voz de era tão baixa que mal se ouvia, mas, antes que Britney pudesse retrucar, avançou, se plantando entre elas.
, estou morrendo de inveja do seu suéter. Você precisa me contar onde comprou.
ergueu os olhos, surpresa, sorrindo timidamente, e Britney bufou.
— Licença, ninguém te chamou aqui...
— Que tal a gente fazer compras juntas um dia desses? — continuou, ignorando Britney com maestria. — Preciso de alguém com bom gosto pra renovar meu armário.
apenas assentiu, corando, e Jocelyn, irritada, deu um passo à frente, mas cruzou o caminho dela.
— Fica quieta, Barbie da Track and Field. Respostas inteligentes não são o seu forte.
— Na verdade, eu prefiro a Cross Country.
— Tanto faz, era só para te irritar mesmo.
— Que tal vocês irem se perder na floresta, igual a amiga de vocês? — Cody também se intrometeu, e o corredor inteiro prendeu a respiração.
cerrou o punho, mas foi mais rápida. Ela se aproximou de Cody, arrancou um fio de cabelo dele com um puxão e deu um sorriso enigmático.
— Peguei o ingrediente que faltava para a maldição que eu achei na internet e estava querendo experimentar. Se começar a sentir seus olhos queimando… avisa.
— Tá maluca, aberração? — Cody exclamou, olhando para o cabelo perdido como se fosse amaldiçoado.
— Se acalma, Cody. — Britney revirou os olhos. — Essa estranha apenas lê muitos romances de vampiro. Com sorte, ela vai ser reprovada e irá morar em um barraco velho e sujo como a bruxa Pritch.
— Ela é exatamente como a Pritch. Nós deveríamos a chamar de… , a bruxa. — Jocelyn resmungava para os amigos.
— É… não vale a pena. — revirou os olhos e virou para e , que estava abrindo seu armário para pegar um caderno, quando sentiu alguém tocar seu pescoço.
— Meu Deus, isso é um chupão? — Jocelyn debochou, cutucando uma marca recente, e se afastou bruscamente.
— Sai daqui.
— Como se alguém fosse querer ficar com essa rejeição social — Cody zombou.
— Para sua informação, foi o seu pai quem fez isso.
O sorriso de Cody sumiu, mas, antes que ele pudesse rebater, uma voz arrastada ecoou:
— Cody, para de encher o saco. Você nem é engraçado.
virou a cabeça e viu Carter encostado em um armário, cercado por alguns dos jogadores do time de basquete. Ele parecia mais alto, mais forte, e, de algum jeito, mais distante – uma mudança difícil de ignorar. Jocelyn acenou animadamente na direção do garoto, como se esperasse um convite, mas ele nem se dignou a responder. Seus olhos encontraram os de por um breve segundo. Foi como se o tempo tivesse parado. O olhar carregava algo estranho – uma mistura de nostalgia, desconfiança e talvez uma pontada de mágoa – que fez o estômago de revirar.

Desde quando o ficou tão... diferente?

Britney chamou a atenção de todos de volta para si, puxando Cody e Jocelyn pelo braço.
— Vamos, eu tenho coisa mais importante pra fazer do que perder tempo com essas estranhas, tipo me preparar para a Reunião de Vitalidade.
— Você deveria prestar mais atenção no que diz… essa sua boca ainda vai te colocar em problemas sérios. — Cody se aproximou de , a voz baixa, antes de seguir Britney.
— Nos vemos por aí, rejeição social! — Jocelyn esbarrou propositalmente nela, a fazendo bater contra os armários, e lançou um olhar sugestivo para , que apenas fingiu não notar, ainda olhando na direção de .
Um dos garotos do time o chamou, batendo no ombro dele para seguirem em direção à quadra, e, sem dizer uma palavra, desviou o olhar e foi atrás dos amigos, enquanto fechou a porta de seu armário, sentindo uma sensação esquisita no peito.
— Quem diria que Carter ia virar o garoto-propaganda do time de basquete — comentou, surgindo ao seu lado com um meio sorriso sarcástico. — Do jeito que ele se fechou depois de… tudo aquilo, achei que nunca mais ia trocar duas palavras com ninguém. Agora tá aí, praticamente um astro de filme adolescente… só falta uma jaqueta de couro.
soltou um suspiro pesado, empurrando o caderno dentro da mochila e seguindo em direção à quadra.
— É… algumas coisas mudam.
— Gente… obrigada. — , ainda tímida, se aproximou das duas, e forçou um sorriso, o coração pesado.
— Claro. Mas, se quer um conselho, … tenta não ligar pra eles. Eles não valem nada.
apenas assentiu e as três seguiram para a quadra, onde todos os alunos se reuniam para a Reunião de Vitalidade. Elas adentraram o ginásio tomado pela música dos alto-falantes, e sentiu uma onda de pânico crescer conforme a multidão começava a empurrá-la. Seu coração acelerou e flashes da noite anterior invadiram sua mente. Ela respirou fundo, tentando se concentrar, enquanto observava a maioria dos assentos já ocupados.
— Ali. — apontou, e elas seguiram seu olhar até avistarem alguns lugares vagos no começo da arquibancada, ao lado de um garoto de cabelos castanhos bagunçados: .
hesitou. Não era como antes. O vazio que Jane deixara entre eles parecia impossível de preencher. Mas, vendo que não tinham muitas opções, as três seguiram juntas até lá, se esgueirando pela agitação do local, e tomou a iniciativa:
— Ei, … você se importaria se a gente…
— Podem sentar. — O garoto deu de ombros, e as três se espremeram entre os outros alunos e sentaram ao lado dele.
— Oi, disse, quase num sussurro.
— Oi — ele respondeu seco, voltando a encarar a quadra.
apertou os lábios, desconfortável. Antes – bem antes – eles teriam trocado piadas, rindo alto até serem mandados calar a boca. Agora, cada palavra parecia pesar toneladas. Era impossível não pensar em Jane – na risada encantadora dela, nos olhos brilhando de animação, na juventude que lhe fora roubada e, consequentemente, fora roubada deles também. Tudo isso agora parecia ecoar no silêncio constrangedor que se instalara. Ela sentiu a tensão no ar, uma sombra do que antes era uma amizade inseparável, até , que rabiscava algo em seu caderno, se virar para ela.
— Então… vai me contar o motivo de estar nervosa, ou vai continuar desmembrando esse pobre banco?
piscou, surpresa, e olhou para baixo – seus dedos estavam de fato pegando farpas na beira da arquibancada de madeira.
— Eu até contaria, mas… é uma história meio estranha.
, olha pra mim. Estranha é o meu nome do meio.
sorriu mais à vontade, enquanto apenas balançava a cabeça como se estivesse acostumado com os comentários de . , ao lado, observava discretamente, mantendo o olhar na quadra. Ela hesitou antes de começar, mas, em meio ao burburinho do ginásio, contou a – e meio que também a e , que escutavam com disfarçado interesse – sobre o que viu na noite anterior.
— Então… e se eu dissesse que ontem à noite eu vi um tipo de monstro?
— Sério? Como ele era?
— Bom… ele parecia com o .
— O … Pierce? — perguntou, e assentiu.
— Pelo menos num primeiro momento.
— Wow, plot twist. — arregalou os olhos, interessada. — Continua.
— Quando eu descobri que não era realmente o , ele me atacou — enquanto falava, sentia observando-a pelo canto dos olhos, sem interromper, sem rir – apenas ouvindo. mexia no zíper da mochila, nervosa, mas não a desencorajava. — Daí o rosto dele meio que derreteu e debaixo da pele havia apenas sujeira. Como um… eu não sei…
— Um Golem… — diagnosticou, com um brilho de conhecimento nos olhos. — Uma forma humanoide, geralmente feita de terra ou argila, que pode ser trazido à vida por uma força sobrenatural. Ao menos é o que mais se assemelha, pelo que você disse.
— O mais estranho é que eu acordei na manhã seguinte e ele tinha ido embora. Por que ele me atacaria e iria embora logo em seguida?
— Meu conhecimento de Golens é sessenta por cento Wikipedia e quarenta por cento de um cara chamado MagicStan75 que eu conheci em um fórum de bruxos. Talvez qualquer que seja o poder que animou o Golem seja temporário…
— Ou talvez tenha sido um sonho — , que até então estava calado, murmurou, sem olhar para .
— Definitivamente não foi um sonho — rebateu firme, pondo a mão em seu pescoço. — Sonhos não deixam lesões assim.
Pela primeira vez, a olhou diretamente. Seus olhos, tão parecidos com os de Jane, pareciam buscar algo – uma dúvida, talvez uma confirmação de loucura –, mas ele apenas suspirou e desviou o olhar novamente. As outras duas, por outro lado, encararam os hematomas em sua pele, até continuar a explicação:
— Existem seres que podem entrar e até afetar seus sonhos, os usando para te machucar, estilo Freddy Krueger. Mas você também pode estar sobre alguma maldição, ou algo assim. Eu li muito sobre sonhos amaldiçoados.
— Leu por diversão? — perguntou surpreso, e apenas concordou com a cabeça.
— Uma maldição? Isso me conforta muito — respondeu, com um semblante preocupado.
— Relaxa, talvez tenha sido apenas alguma coisa temporária — sugeriu, tentando aliviar o clima. — Ou algo que você não esteja pronta para enfrentar ainda.
— Obrigada, gente. Eu realmente precisava conversar com alguém, mas pensei que ninguém iria acreditar em mim. — Ela deu um sorriso mais aliviado para os três ao seu lado.
— Bom, o júri ainda não decidiu se eu devo acreditar em você ou não. — deu de ombros, e os outros dois concordaram baixinho. — Mas todos sabemos que… bem… tem muitas coisas escondidas nesta cidade.
— Então obrigada por me escutarem sem terem me dispensado imediatamente.
Por um breve momento, ela pensou em contar também sobre o que a criatura havia dito – sobre o Senhor Redfield –, mas algo a impediu. Sabia que aquele era um nome que carregava peso demais entre eles, especialmente para . Trazer isso à tona agora, depois de anos, no meio do ginásio lotado, parecia errado. O clima entre eles já estava tenso o suficiente. Ela guardou a informação para si, pelo menos por enquanto. Antes que pudessem continuar, o microfone chiou e a voz de encheu o ginásio:
— Como vocês estão, colégio Westchester? — Um coro de aplausos e gritos ecoou. e bateram palmas com pouco entusiasmo. apenas ergueu uma sobrancelha e voltou a desenhar. manteve os braços cruzados, imóvel. — É incrível ver todos vocês aqui. Estamos muito animados para esse semestre…
— Quando o ficou tão popular? — perguntou para si, mas foi surpreendida ao escutar a voz de ao seu lado.
— Pouco depois de ter um e oitenta de altura e descobrir gel para cabelo, pouco antes de ser eleito presidente do corpo estudantil.
— Vamos começar essa reunião de vitalidade, no estilo dos lobos de Westchester! — deu o sinal e várias líderes de torcida saíram das arquibancadas cheias, balançando freneticamente seus pompons no ar.
— Vocês podem fazer melhor que isso! Vamos lá!
— Parece que a está indo bem também.
Eles observaram a garota gritando no meio das líderes de torcida, que se separavam pelo ginásio. Vários estudantes a aplaudiam, enquanto ela fazia acrobacias sem esforço algum.
— Uhul, vai time. — fingiu entusiasmo, dando um soco no ar, e revirou os olhos, enquanto todos ao seu redor comemoravam.
olhou de volta para o resto da equipe de torcida, seu sorriso radiante desaparecendo logo após encontrar o olhar desaprovador de Britney. Ela se virou e, enquanto passava ao lado de , acabou tropeçando no próprio pé, quase derrubando o microfone das mãos dele.
— Credo — resmungou, rindo.
tentou segurar , mas acabou levando um encontrão de volta, arrancando risos da arquibancada.
— Por favor, me diga que os nerds do noticiário da escola conseguiram filmar isso. — Cody riu, apontando para , que havia se juntado novamente à equipe com as bochechas completamente vermelhas.
Enquanto isso, Britney avançou com um sorriso presunçoso, voando em uma cambalhota sem as mãos e sendo aplaudida pela multidão após aterrissar.
— Por que gostam tanto dela? Não é possível que não saibam o quão horrível ela é. — revirou os olhos ao pontuar.
— E? Ela é gostosa e faz cambalhotas. Não dá para competir com isso — a respondeu, dando de ombros.
— Westchester, como vocês são barulhentos — brincou, ajeitando o microfone, enquanto as líderes de torcida voltavam aos seus assentos. — Vamos fazer isso rápido, beleza? Ainda temos muito o que explorar hoje… façam muito barulho para o time de basquete! — anunciou, e o time de basquete da escola – com entre eles – se reuniu em frente ao pódio em meio aos vários aplausos.
— Obrigado, ! — O capitão do time pegou o microfone de e começou a circular pela plateia animada. — E aí, escola Westchester? O nosso primeiro jogo vai acontecer daqui há alguns dias, então é melhor vocês estarem aqui para nos ver acabar com… — As luzes da quadra começaram a piscar, o forçando a parar o discurso, até apagarem completamente.
Tudo se transformou em caos. Os alunos, confusos, começaram a gritar, e tentou acalmar todos pelo microfone, mas sua voz logo foi interrompida por um ruído incessante nos autofalantes, seguido pela pausa da música que estava tocando. As portas do local se abriram com uma rajada de vento gelado, causando um estrondo alto e mais gritos desesperados dos alunos, mas, pouco tempo depois, as luzes acenderam e a música voltou a tocar.
— Merda! — quase pulou da cadeira ao sentir algo em seu braço, mas, ao olhar para o lado, confirmou que era apenas a mão de a cutucando. — O que você…
— Você ouviu isso?
Antes que ela sequer pudesse retrucar, o ar mudou drasticamente, fazendo um arrepio percorrer por todo o corpo de . Ela sentiu primeiro na pele: um vento frio, como um sopro gelado passando rente ao seu rosto. Depois veio o cheiro – algo metálico, como ferro oxidado misturado com terra molhada –, o mesmo cheiro que a invadira no sonho da noite anterior. Seu estômago se revirou. Ela olhou ao redor, tentando encontrar a origem daquela sensação, mas era impossível, a escuridão parecia mais densa, como se o próprio ginásio estivesse se fechando sobre eles. ficou rígido, os punhos cerrados, segurou seu braço, tremendo levemente, e , pela primeira vez, parou de desenhar, o lápis caindo de seus dedos. mal conseguiu respirar. O mundo parecia ter se deslocado, puxado para o mesmo pesadelo do qual ela achava ter acordado.

Aquilo estava lá. E, dessa vez, era real.

— Não, não aqui… — O olhar dela percorreu todo o ginásio, encontrando os rostos do restante de seus ex-amigos. Todos com a mesma expressão: terror.
A música engasgou e morreu assim que as luzes apagaram completamente, deixando apenas uma voz, que parecia vir de todos os cantos ao mesmo tempo. Uma voz completamente estranha e terrivelmente familiar.

— Todos… brincam… juntos…



Flashback on — dez anos atrás…

O sol do outono peneirava pelas árvores, enquanto seguia sua melhor amiga floresta adentro.
— Jane, sua mãe vai nos matar se ela descobrir que viemos aqui sozinhas. Temos que voltar agora mesmo.
— Eu sei, mas você precisa ver isso. É logo ali!
A garota ruiva parou de repente diante de uma clareira e apontou para uma construção de pedra caída aos pedaços, engolida pelo musgo e pelas trepadeiras.
— O que é isso? — perguntou, sentindo o corpo estremecer apenas pela atmosfera carregada do local.
— Sei lá, mas olha só isso… — Jane pegou uma pedra, a atirando na direção da casa e, para a surpresa da outra, a pedra parou no ar por um instante antes de cair no chão.
— Isso é demais! Posso tentar? — perguntou, e ela assentiu, animada. Então repetiu o gesto da amiga com outra pedra, que flutuou antes de despencar. — O que será que tem lá dentro?
— Nós não podemos entrar! — Jane respondeu rapidamente, seu entusiasmo desaparecendo num instante, e a olhou confusa.
— Por que não? Não é como se alguém morasse aqui… Olha esses buracos no telhado.
— E se você estiver errada e alguma coisa ruim acontecer? — Ela deu um passo para trás, agora nitidamente apreensiva.
— Ei, você trouxe o seu presente de aniversário? — perguntou, e Jane assentiu, retirando do pescoço um colar simples, com um pingente em formato de apito. — Ótimo! Lembra do que eu disse quando te dei?
— Que se eu ficasse com medo, era só assoprar e você viria me proteger.” A garota aproximou o apito dos lábios e soprou, ouvindo o som estridente ecoar pela clareira. Um sorriso pequeno brincou em seu rosto.
— Você é minha melhor amiga, Jane. Eu nunca deixaria nada de ruim acontecer com você. — devolveu o sorriso e voltou a olhar para as ruínas, com a estranha sensação de que algo lá dentro parecia chamá-las, tentando alcançá-las de alguma forma. — Mas se estiver muito assustada, a gente pode ir embora…
— Eu não tô assustada! Só promete que vai cuidar de mim.
— Prometo. Posso até ir primeiro. — Ela deu o primeiro passo. E então outro. O ar ficou mais denso e seu coração batia mais rápido à medida que se aproximava da casa.
— Tem alguma coisa aí? Sentiu algo? — Jane perguntou ansiosa, quando a amiga atravessou a entrada.
— Parece que tá formigando… — A sensação percorreu todo o corpo dela, como se fossem milhares de pequenas agulhas sob sua pele. Ainda assim, avançou um pouco mais, engolida pela escuridão quase palpável do interior. De repente, estremeceu, certa de que algo a observava. — Olá? — Sua voz ecoou vazia e, para seu terror, foi respondida.
— Olá…
A resposta não era inteiramente dela, mas de algo distorcido, arranhado.
— Tem alguém aí? Qual o seu nome?
— Nome?
As folhas no chão, mesmo sem qualquer brisa, voaram para o lado, revelando uma pedra cinzenta. Nela, algo parecia se entalhar sozinho.
— Redfield? — leu em voz alta, seus olhos arregalados. Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, sentiu algo a tocando, como se dedos invisíveis puxassem levemente seu cabelo. — É um belo nome… igual ao de um ursinho de pelúcia! Prazer em te conhecer, senhor Red. Eu sou a .
… — a voz repetiu seu nome como uma promessa sombria.
O ambiente à sua volta pareceu finalmente respirar, e agora ela notava o corredor distante, onde escadas quebradas desciam para um buraco escuro no chão.
, com quem você está falando? — A voz de Jane soou do lado de fora da casa.
— Tem algo…
Um vento súbito soprou do buraco, forte o suficiente para derrubá-la, e, antes que pudesse se levantar, se sentiu sendo puxada.
?
— Jane, corre!
gritou, mas viu quando sua amiga também foi arrastada para trás, o colar com o apito escapando de seu pescoço e desaparecendo no buraco.
, eu não consigo! — Ela começou a chorar e o medo de se transformou imediatamente em raiva.
— Pare, senhor Red! Pare agora mesmo, ou meus amigos vão vir aqui e queimar essa casa idiota até virar cinzas! — O vento cessou como se alguém tivesse apertado um botão, e a morena correu atrás de Jane, a ajudando a se levantar. — Jane, vamos sair daqui agora!
— Mas ele pegou o meu apito…
— Eu sei… mas temos que ir antes que ele mude de ideia.
Ela assentiu e as duas correram para longe da casa, tropeçando nas raízes e pedras. Antes de cruzar a clareira, lançou um último olhar para as ruínas. Por um instante, jurou ver algo parado na entrada da casa — algo escuro, disforme, quase sorrindo. E então, misturado ao som da floresta, veio o eco sutil do apito, se esvaindo no ar à medida que as duas se afastavam.

Flashback off

O som do apito ainda ecoava em sua mente, quando piscou e voltou para o presente. A voz da criatura ainda parecia reverberar dentro dela, mesmo minutos depois de ter se dissipado no ar. O grupo que estava mais próximo — ela, , e — permaneceu em silêncio por longos segundos, como se ainda tentassem entender o que tinham acabado de presenciar.
— Isso... isso foi real? — perguntou num sussurro, os olhos fixos no meio do pódio, como se falar mais alto fosse atrair aquilo de volta.
— Foi só uma... falha de som, talvez. Algum tipo de efeito da escola, ou… — começou, mas a própria voz traiu sua insegurança.
— Não foi falha nenhuma — falou com firmeza. Seu olhar, apesar de assustado, era o mais lúcido. — Vocês sentiram. Aquilo era real.
não disse nada. Ela queria muito acreditar que tinha sido apenas um surto coletivo, um erro nos alto-falantes, uma peça pregada por alguma produtora do evento… qualquer coisa. Mas, quando olhou ao redor, viu que eles não eram os únicos com o estômago revirado. , ainda ao lado das líderes de torcida, estava pálida como papel, os lábios pressionados numa linha fina. mantinha os olhos fixos no chão, como se não quisesse encarar ninguém. E, no centro do pódio, segurava o microfone com força demais. Ele parecia congelado, e só quando notou que todos o observavam, forçou um sorriso fraco e balançou a cabeça como se dissesse que estava tudo bem.
A sala ainda estava se enchendo quando chegou. Ela não disse uma palavra. Caminhou até a tomada mais próxima da janela e conectou seu celular ao carregador. O aparelho estava morto desde a noite anterior — uma falha aparentemente comum, mas que agora parecia cheia de significados. Ninguém mais quis falar sobre o que aconteceu. , , , e se afastaram rapidamente depois do evento, como se ignorar aquilo fosse o suficiente para fazê-lo desaparecer. Mas não. Assim que entrou na sala, caminhou determinada até o lugar ao lado de e se sentou como se fosse a única que ainda tinha algo a dizer.
— Você sabe que aquilo não foi normal, né? — começou, em voz baixa. — Você teve aquele sonho com o ontem à noite… e então aquilo que aconteceu na reunião? , isso não pode ser coincidência.
A garota mordeu o lábio inferior, pensativa, sentindo o coração bater mais rápido.
— Eu sei. Mas tem uma coisa que pode me dar certeza de que aquilo que aconteceu ontem não foi só um sonho. — Olhou para o celular ainda apagado e, como se o universo estivesse esperando por aquele momento, a tela finalmente acendeu, parecendo mais brilhante do que o normal, como se gritasse para ser olhada. Sem hesitar, ela desbloqueou o aparelho com dedos trêmulos e foi direto ao histórico de ligações. estavam: duas chamadas de na noite anterior, uma às 01h43 e outra às 01h50. — Ele me ligou. — Virou a tela para , que arregalou os olhos.
— Meu Deus,
— E tem mais… — ela murmurou, o coração batendo com força. — Quando aquela coisa apareceu no meu quarto… ela não só se passou pelo . Ela falou do senhor Redfield. — A última palavra saiu como um sussurro.
— Redfield? Aquela coisa de quando éramos crianças? A casa na floresta?
assentiu lentamente.
— É como se tudo estivesse voltando. Só que mais forte. Como se aquilo tivesse ficado esperando esse tempo todo. — Ela puxou a pedra entalhada com uma runa da mochila, sentindo seu corpo arrepiar ao relembrar o cheiro pútrido, e a entregou à outra. — Eu encontrei isso no meu jardim hoje de manhã…
segurou o objeto com cuidado, como se ele pudesse queimar sua pele.
— Essa marca… parece antiga. Você precisa mostrar isso para os outros.
— É o que eu vou fazer. Não dá pra ignorar mais.
Mas antes que pudessem se levantar, a voz do professor ecoou pela sala.
— Agora, se vocês abrirem a página 102 em seus livros… — Ele se virou para escrever no quadro, a voz reverberando sobre um fundo quase melancólico.
— Vamos falar com eles assim que a aula acabar — sussurrou, se ajeitando na cadeira, e assentiu.
— Vamos iniciar nossa unidade sobre rituais antigos e crenças do folclore americano, particularmente os contos que envolvem pactos, selos e… sacrifícios. — As duas trocaram um olhar silencioso, o ar ao redor ficando mais denso. O som do giz riscando o quadro parecia mais alto do que deveria. — A maioria desses relatos têm origem em vilas isoladas ou florestas densas… — o professor continuou, de costas. — Lugares onde, dizem, as fronteiras entre o nosso mundo e algo mais… primitivo… são mais frágeis.
não ouvia mais nada. Suas mãos estavam frias, e seu olhar fixo na runa da pedra sobre sua mesa. Aquilo não era apenas coincidência.

Era um aviso.

Assim que o sinal da aula tocou, as duas se entreolharam com um olhar cúmplice.
— Vamos reunir todo mundo — disse, determinada, e assentiu.
— Eu fico com e . Eles acabaram de sair da sala, então devem estar aqui por perto.
— E eu vou atrás de , e . Provavelmente estão ocupados com os preparativos dos jogos.
Elas se separaram no corredor, cada uma seguindo um caminho diferente. apertou o passo, atravessando o corredor dos armários rumo ao ginásio, onde imaginava que encontraria os três. Mas, no meio do caminho, sentiu um arrepio subir pela espinha, e, antes que pudesse reagir, duas mãos geladas cobriram seus olhos.
— Aí está você… — uma voz rouca sussurrou em seu ouvido.
se debateu, o pânico subindo no peito, até ser empurrada contra a parede com força. Um grito escapou de sua garganta, misto de dor e surpresa. Ainda sem conseguir ver nada, ela continuou a gritar, até ser arremessada novamente contra algo — o barulho metálico e ensurdecedor deixou claro onde estava.

Trancada. Em um armário.

— Meu Deus, vocês viram a cara dela? — Jocelyn gargalhou, sua risada estridente ecoando dentro do metal apertado.
— Eu disse que essa sua boca grande ainda ia te trazer problemas. — A voz de Cody surgiu do lado de fora. — As aulas voltaram, !
— Me deixem sair, seus merdas! — ela gritou, socando a porta com todas as forças.
— Nós só queremos garantir que o seu ano escolar comece super bem — Jocelyn respondeu, antes de chutar a porta e rir novamente. — Espero que se sinta confortável aí, . Amanhã de manhã a gente vem te ver. Beijinhos. — A voz dela se afastou, junto das risadas dos dois, até que tudo o que restou foi o som abafado da respiração pesada de e suas tentativas frustradas de abrir a porta.
— Que ótimo… — murmurou, ofegante.
… — Uma voz se aproximou de onde ela estava.
— O que foi agora? Já sei, vocês pensaram em algo mais divertido pra me torturar?
A voz repetiu, um eco cavernoso:
— Mais… divertido…
— Vai embora, Cody. Eu não tenho medo de você! — ela gritou, forçando a voz, tentando parecer firme. Mas um som seco reverberou do lado de fora — uma batida forte, que fez o armário estremecer. As sombras no interior pareciam crescer, engolindo a luz e o ar, deixando tudo mais frio. — Eu… eu não tô com medo! — disse para si mesma, fechando os olhos, e, quando os abriu, já não estava mais no armário, e sim na frente da casa em ruínas — a mesma de anos atrás. — Como…
— Eu não estou assustada! — gritou uma voz familiar.
se virou e viu Jane parada ali, os olhos fixos nela. Sua Jane. A garotinha que ela tinha jurado proteger quando eram crianças. Atrás dela, a floresta parecia viva, as árvores torcidas como braços se contorcendo ao redor da estrutura decadente.
— Jane, nós temos que ir embora agora!
tentou correr até ela, mas não conseguiu. Seus pés estavam colados no chão, como raízes cravadas na terra. A floresta escurecia à sua volta e gavinhas sombrias começaram a surgir pelas frestas da casa, como se estivessem estendendo a mão para tentar alcançar Jane.
— Você prometeu que ia cuidar de mim…
— Jane, eu não sabia o que ia acontecer… — as sombras se arrastaram com força e engoliram a menina, que gritou o nome da amiga antes de desaparecer. — Não! Por favor! Me desculpe… — chorava, implorando, até que tudo foi tragado pela escuridão…

E então… luz.

A porta do armário se abriu com um estrondo, a fazendo cair de joelhos no chão, arfando, como se tivesse sido sufocada.
, você tá bem? — A voz preocupada de a puxou de volta para a realidade. Ele se abaixou e pousou uma mão em seu ombro, os olhos arregalados ao vê-la tremendo, com os olhos vidrados e a respiração descompassada.
Ela tentou responder, mas tudo o que saiu foi um soluço contido. Se apoiou no braço dele e se ergueu com dificuldade, os joelhos ainda bambos. Quando finalmente levantou o rosto, viu, a alguns metros de distância, socando Cody com força. O impacto fez o outro garoto cambalear para trás, segurando o rosto com raiva.
— Você é doente! — gritou, avançando de novo.
— Tá defendendo uma maluca, cara. — Cody cuspiu um pouco de sangue no chão e riu, olhando diretamente para . — Você devia ver como ela saiu gritando lá dentro, parecia uma criança assustada. Quase senti pena.
, para com isso, você vai se ferrar! — correu, tentando segurá-lo pelo braço.
— Fala mais uma coisa e eu te quebro inteiro.
— Por quê? Porque eu falei a verdade? Todo mundo sabe que essa aí é instável desde o dia em que a…
o empurrou com força contra a parede.
— Cala a porra da boca!
correu até eles no mesmo momento em que se aproximou do outro lado do corredor.
, ja deu! — A voz da líder de torcida cortou o ar como uma faca. — Cody, vaza daqui! — ordenou, firme, lançando um olhar mortal. — Agora!
— Se encostar nela de novo, eu quebro seus dois braços! — gritou para Cody, que apenas lançou um último olhar de ódio para o grupo e saiu, esfregando a mandíbula machucada, os passos pesados ecoando no corredor vazio. Jocelyn havia sumido. Ele ficou parado por um instante, ainda ofegante, os punhos fechados. Só então olhou para , que o encarava com uma expressão difícil de decifrar. — Você tá pálida… — disse, a voz mais baixa agora. — A gente devia te levar pra enfermaria.
Ela balançou a cabeça, respirando fundo, tentando não deixar as lágrimas escaparem.
— Eu… tô bem. — Sua voz saiu mais firme do que se sentia. — Não... não quero ir pra enfermaria.
hesitou, a observando com os olhos estreitados. ainda mantinha a mão em seu ombro, e a olhava como se não soubesse se devia abraçá-la ou protegê-la do mundo inteiro. Os quatro ficaram ali, lado a lado, como se o corredor tivesse se transformado em uma trincheira, até, finalmente, quebrar o silêncio:
— Não sabia que você era claustrofóbica.
hesitou. Forçou um sorriso fraco, a garganta apertada.
— Eu não sou… — Mas ela sabia que não tinha sido o armário, mas sim a sombra do passado que havia voltado com tudo. — A gente precisa conversar. Tem muita coisa que vocês têm que saber.
caminhava com passos lentos até a fonte em que combinara de se encontrar com , ainda abalada, as mãos tremendo levemente. Os outros três vinham ao seu lado em silêncio, trocando olhares discretos de preocupação. Quando chegaram, o restante do grupo já os esperava — encostado em um banco, com os braços cruzados, sentada de cabeça baixa e mexendo no celular distraidamente. foi a primeira a notar:
— Você tá bem? — perguntou, ao ver o rosto pálido de .
— Tá parecendo que viu um fantasma — acrescentou, franzindo a testa.
bufou, cruzando os braços.
— Foi o babaca do Cody, aquele merda…
— Não importa — cortou, erguendo os olhos. — A gente tem coisa mais séria pra discutir. — O grupo se calou aos poucos. — Todos sabemos por que estamos aqui. É sobre o que aconteceu na Reunião de Vitalidade.
— Ah, o apagão? Não se preocupe, eu já acionei a manutenção — pontuou, o semblante apreensivo. — De forma alguma pode haver outro desses durante o jogo de basquete.
— E a voz? — olhou ao redor, esperando alguma reação.
— Eu não sei do que você tá falando — disse com o tom firme, apesar de haver algo hesitante em sua expressão.
, vocês vieram até aqui por um motivo. Eu vi a cara que vocês fizeram naquela hora. A gente escutou a mesma coisa.
— Todos brincam juntos — murmurou, encarando o chão, e o silêncio caiu como uma pedra.
— Tem mais uma coisa… — apertava o celular entre os dedos, as mãos trêmulas, e virou para ela.
— São do , né? — perguntou baixinho, e assentiu.
— Chegaram ontem à noite.
— Você também recebeu? — se aproximou para olhar.
— Então todos nós recebemos mensagens estranhas do noite passada? — perguntou, o olhar alternando entre todos do grupo.
levou a mão inconscientemente aos machucados no pescoço, o toque despertando uma dor pulsante, e respirou fundo.
— Ontem eu tive um tipo de pesadelo com o . Pelo menos, achei que fosse. Ele apareceu no meu quarto e disse que precisávamos nos reunir. Que precisávamos voltar para a floresta. Mas não era ele. Era… algo usando o rosto dele. Tinha algo errado nos olhos, no jeito de se mover. — deu um passo à frente, hesitante, e retirou do bolso a pedra escura. O objeto parecia ainda mais sombrio à luz opaca do fim de tarde, com a runa entalhada de forma quase primitiva no centro. — Eu encontrei isso hoje de manhã no jardim da minha casa.
Todos se inclinaram um pouco para ver melhor. O silêncio era denso, como se ninguém soubesse como reagir.
— Que porra é essa? — perguntou, franzindo o cenho.
— Eu não sei. Só sei que não estava lá antes. E depois do que aconteceu ontem à noite… não achei que fosse coincidência.
— Eu nunca vi nada assim… — disse, olhando fixamente para a pedra, o tom incomodado. — Nem em nenhum dos livros que eu já li.
— Parece coisa de ritual — murmurou, dando um passo para trás.
Um arrepio percorreu a espinha de .
— Vocês acham que é um sinal?
— Eu acho que é alguém tentando ferrar com você — falou de repente, a voz mais firme que o tom. — Isso pode ser só uma pegadinha de mau gosto, sei lá…

, alguém pode ter invadido a sua casa. Isso não é brincadeira.
— Eu sei que parece loucura. Mas eu acho que era ele. Eu acho que o senhor Red está de volta.
— Nós temos que chamar a polícia agora. Eles vão encontrar o doente que fez isso com você. — ignorou o comentário de , sua voz saindo mais agressiva do que pretendia.
, ninguém vai acreditar na gente. O que eu vou dizer? Que o monstro que a gente conheceu quando era criança está mandando mensagens?
— Não tem como saber se não tentar.
, seu pai acreditaria se você dissesse que um monstro dos nossos pesadelos está vindo matar todos nós?
— Claro que não. Ia me mandar fazer xixi num copo e ainda procurar drogas na minha mochila.
— E se for o Redfield, o que os policiais fariam? — rebateu, com um olhar cético. — Prendê-lo? Talvez o levem pra depor — ironizou, fazendo revirar os olhos.
— Falando nisso… parece que os pais do reportaram o desaparecimento dele hoje de manhã — disse, olhando para o celular.
— O quê? — todos falaram quase em uníssono.
— O tá desaparecido? E você só fala agora? — se aproximou, os olhos arregalados.
— Foi mal, meu pai acabou de me mandar uma mensagem — respondeu, defensiva.
— Nem todo mundo tem um pai que é xerife — rebateu, irritada.
— Foco! — levantou a voz. — O pode estar em perigo. A gente precisa fazer alguma coisa.
, ele precisa da ajuda de adultos e profissionais, não de um bando de adolescentes. — tentou um tom gentil, a mão pousando sobre seu ombro.
— Não, a gente tem que ajudar ele.
— E por que nós? — perguntou, assustada.
— Porque nós sabemos quem o pegou. Porque somos os únicos que conhecem o senhor Red. Porque fomos nós... quem o trouxemos à tona. — olhou para , buscando apoio, mas foi mais rápida.
— Você quer dizer que o amigo imaginário do de quando ele tinha uns dez anos de idade o raptou? É sério isso? — cortou, sarcástica.
— O senhor Red não era amigo só do e, com certeza, não era imaginário — respondeu com firmeza. — Olha, eu sei que nenhum de vocês quer reviver isso de novo. Mas aconteceu. Todos lembram do senhor Redfield e do que ele fez com a Jane. Não podemos deixar que ele faça o mesmo com o .
O nome pesou no ar. endureceu.
— Ninguém fez nada com a Jane, . Foi a porra de um acidente. — Era possível perceber a tristeza saindo de sua voz.
— Você sabe que não foi um acidente. Você viu. — a confrontou, firme.
— Tudo o que eu sei é que éramos um bando de crianças estúpidas que não deveriam estar brincando na floresta sozinhas! — A voz de já tremia, os olhos marejados.
— Gente, vamos manter a calma. — tentou intervir. — Tudo o que aconteceu na reunião pode ser explicado pela fiação defeituosa. Quanto ao … o que exatamente você está propondo que a gente faça?
— Não é óbvio? — respondeu. — Nós temos que parar isso. Temos que encontrar o e descobrir o que aconteceu. Temos que ir…
— … para a floresta…. — sussurrou, como se a palavra a queimasse. O vento soprou forte, a fazendo recuar. — Não, eu não vou voltar lá.
, eu sei que você tá assustada, mas… — tentou ir até ela, mas o deteve com um gesto calmo.
— Deixa. Se ela não quiser ir, não vai.
— Tá falando sério? — O rosto do garoto se encheu de indignação.
Antes que qualquer um do grupo pudesse ter alguma reação, uma porta pesada se abriu e todos se viraram ao mesmo tempo, com o coração na garganta, como se fossem presas na mira de um predador. Três alunas saíram do ginásio rindo, atravessando o pátio sem notar o grupo encolhido na beirada da fonte. Quando elas sumiram, todos soltaram a respiração.
, talvez você tenha tempo de sair pela floresta caçando o bicho papão, mas alguns de nós têm problemas reais. — soltou.
— Você quer falar de problemas reais, ? — deu um passo para frente, a voz aumentando o tom. — Sabiam que daqui a uma semana vão fazer exatamente oito anos? — Todos se viraram para ele, que continuou: — Oito anos desde o dia em que a Jane desapareceu… claro que não sabiam. — Soltou um riso sarcástico. — O Redfield levou a Jane na nossa frente e vocês seguiram em frente, como se nada tivesse acontecido. Como se ela fosse só mais uma estatística. Mas, pra mim... minha casa virou um cemitério. Meu pai nunca mais me olhou da mesma forma. Minha mãe mal consegue falar sobre qualquer coisa que não seja como era a Jane quando pequena. Vocês tiveram a escolha de esquecer, de virar jogador de basquete, líder de torcida, presidente do corpo estudantil. Eu não. Eu tenho que carregar isso todos os dias.
… — tentou dizer algo, mas ele continuou.
— Sou eu quem conto todos os dias quantos dias fizeram desde o desaparecimento dela. E agora o tá sumido, a mesma merda tá acontecendo, e vocês querem fingir que é só coincidência? Uma falha na luz? Um bilhete estranho? Acordem.
, eu sinto muito por tudo, de verdade. Mas vocês estão ouvindo o que estão dizendo? — explodiu, os olhos marejados e algumas lágrimas rolando por seu rosto. — Algum de vocês sequer sabia o que estava acontecendo com o ? Onde você esteve no ano passado? Onde você estava quando o ficou totalmente bêbado no baile de inverno? Onde você estava quando ele tinha crises de pânico depois de cada jogo de futebol americano? Onde diabos você estava, ? Onde todos vocês estavam?
— Eu não sabia que o estava tendo tantos problemas… por que ele não disse nada? — encarava o chão, o semblante tão arrasado quanto o dos outros.
— Porque, aparentemente, quando você é uma estrela do futebol, não tem permissão para ter sentimentos. Bom, agora é tarde demais. — virou as costas e saiu andando, com a seguindo de perto.
— Desculpa, eu não consigo voltar lá — ela disse, com o olhar baixo, quase chorando.
— Acho que você vai amarelar também, não é, Capitão América? — virou-se para , que hesitou, desviando o olhar depois.
— Mesmo que eu acreditasse… eu não tenho tempo. — Ele saiu em direção à escola.
— Beleza! Enterrem as cabeças de vocês na areia! Isso não vai parar, vocês sabem.
, não precisamos deles. Se não querem nem admitir o que está acontecendo, então eles não vão ajudar de qualquer forma. — se virou para os dois que restavam. — E quanto a vocês?
— Uma caça fantasma assustadora numa floresta profunda e escura é a minha cara. Tô dentro. — sorriu, determinada.
desviou o olhar. Estava claro que tudo dentro dele gritava para dizer “não”. Que ele ainda tentava raciocinar cada peça estranha daquele quebra-cabeça, ao mesmo tempo que não conseguia fingir que aquilo tudo não o atingiu. Não depois de ver o rosto de , ou de ouvir a voz de vacilar.
— Eu ainda acho que isso tudo tem uma explicação. Alguém pode estar pregando uma peça, tentando mexer com a cabeça de vocês… — murmurou, cruzando os braços. — Mas... se alguém realmente invadiu a sua casa, , então isso não é mais só paranoia. É perigoso. E se vocês vão mesmo voltar àquela floresta, alguém tem que garantir que não façam nenhuma idiotice.
— Então você vai pra cuidar da gente? — ergueu uma sobrancelha, e ele soltou um suspiro, claramente arrependido da própria decisão.
— Vou pra garantir que nenhum de vocês vire jantar de urso.
— Ah, que romântico. — deu uma risadinha. revirou os olhos, mas não respondeu. Só o encarou por um segundo a mais do que precisava, os olhos fixos nos dele.
— Então vamos, antes que anoiteça de vez.
Os quatro seguiram em direção à floresta, os passos pesados afundando na terra úmida. Cada metro parecia mais difícil que o anterior, como se uma parte deles soubesse que estavam indo na direção errada — ou talvez exatamente na certa. parou de repente, olhando para trás e depois para os lados, como se esperasse que alguma coisa saltasse das sombras a qualquer momento.
— Eu estava pensando… a gente deveria se equipar antes de ir — disse, a voz tensa. — Aquele monstro sujo que foi atrás de você ainda pode estar por aí… além de outras coisas que a gente não sabe.
sentiu o estômago revirar e engoliu seco, as imagens do que vira naquela noite invadindo sua mente por um segundo. Ela assentiu, forçando firmeza na voz.
— Boa… se o senhor Red voltou, nós temos que estar preparados para tudo.
Antes que pudessem continuar, ergueu a mão, chamando a atenção de todos.
— Isso, eu só queria falar que vou chegar tarde em casa. — Ela já estava no celular, os olhos revirando. — Eu e estamos… trabalhando num projeto juntas e… não, pai. A propósito, aquilo foi só uma vez. Tá bom, eu vou provar pra você…
Ela empurrou o celular na direção de , que congelou por um segundo, antes de levar o aparelho ao ouvido. O estômago ainda meio embrulhado pela lembrança do “monstro sujo” agora somada ao nervosismo da ligação.
— Oi, senhor Cunningham. Quanto tempo. — A voz saiu mais fraca do que ela queria, mas pelo menos soou educada.
— Oi, . Estou feliz que vocês tenham voltado a se falar depois de tudo. Mas não demorem muito, certo? Vocês ainda têm aula amanhã.
— Pode deixar. A não vai voltar muito tarde pra casa… obrigada. — Ela desligou rápido e devolveu o celular a , que o pegou de volta com um sorriso satisfeito.
— Uma ligação sua e o meu toque de recolher já era? Eu não sei o que fazer com todo esse poder.
soltou um riso fraco.
— Bom, na próxima vez, podemos fazer algo divertido.
— Tipo…
— Filme, fliperama, shopping… basicamente qualquer coisa que não seja andar pela floresta estranha à noite.
— Então, se o papinho já tiver acabado, será que a gente pode pegar alguns equipamentos? — , que observava a troca com os braços cruzados, soltou.
— É, se a ideia é brincar de caçadores de fantasmas, eu diria que estamos no caminho certo. — olhou para ele. — E com “se equipar” você quer dizer o quê? Facas? Spray de urso? Ou crucifixos?
O garoto ergueu uma sobrancelha.
— Eu tava pensando mais em bastões. Talvez alguma faca da cozinha. Só pra garantir.
bufou, mas olhou em volta, claramente avaliando a situação de forma prática.
— Tá. Bastões eu consigo. Facas… não sei se é uma boa ideia, mas pelo menos é melhor do que ir de mãos vazias.
encarou por um momento, sentindo uma pontada estranha. Ele podia estar negando tudo com palavras, mas cada ação dele dizia o contrário. Estava genuinamente preocupado, mesmo que nunca fosse admitir. Ela respirou fundo:
— Então vamos pegar o que a gente precisa. E depois... a gente entra naquela floresta.
Os olhos deles se encontraram por um segundo, a tensão pairando no ar. desviou primeiro. E assim, os quatro deram meia-volta, passos ainda pesados, mas agora com um propósito mais claro: se armar para a noite que viria.



As luzes frias da loja de ferramentas lançavam um brilho pálido sobre as prateleiras carregadas de objetos metálicos e pesados, e o cheiro de ferrugem e óleo queimado parecia grudar na garganta. seguia entre os corredores com passos curtos, o olhar nervoso saltando por cada item – lanternas, correntes, barras de ferro, facões – como se algum deles pudesse magicamente garantir que tudo ficaria bem, mas seu peito continuava apertado.
— Arame farpado, barra de ferro… o que mais falta? Uma granada? — resmungou, caminhando ao lado dela, com as mãos nos bolsos do moletom. Tentava soar casual, mas o olhar estava inquieto, varrendo a loja como se esperasse que alguma coisa pulasse das sombras.
soltou uma risada curta, sem humor, e pegou uma lanterna grande da prateleira.
— Talvez. Se eu achar uma, eu levo.
parou em frente a uma caixa de arames e pegou um rolo, então virou para , o girando nos dedos.
— Isso aqui dá pra enrolar nos bastões. Se alguém, ou alguma coisa, chegar perto, vai se arrepender.
… você acha que a gente tá ficando paranoico? — segurou a lanterna com mais força, e a amiga desviou o olhar, seu sorriso vacilando por um segundo.
— Paranoia seria se eu tivesse comprado uma cruz, água benta e alho. — Balançou o arame na mão. — Digamos que isso aqui é… cautela. — engoliu em seco e se obrigou a dar mais um passo pelo corredor. Os dedos tremiam quando pegou uma segunda lanterna. Quando ela virou, encontrou a encarando com uma expressão mais séria do que esperava. — Mas, ó… se alguém mexer com você de novo… eu acabo com eles. Sem brincadeira. — A voz saiu baixa, sem ironia dessa vez.
piscou, surpresa, e depois sorriu, sentindo um calor estranho no peito mesmo naquele lugar gelado, lembrando de quando os protegia ao se meterem em alguma encrenca.
— Valeu. Eu sei que você faria isso.
— Óbvio que faria, e com estilo. — piscou para ela, mas então arqueou uma sobrancelha, com um sorriso malicioso. — Acho que o senhor perfeitinho Carter faria isso também, hein?
, para. — revirou os olhos, a bochecha esquentando, mas a outra apenas soltou uma risadinha.
— Que foi? Só tô dizendo… — bufou, mas acabou sorrindo também, balançando a cabeça. — Agora, vamos pegar logo essas coisas e cair fora daqui, antes que essa loja me faça querer largar a escola e me juntar aos irmãos Winchester.

As portas do ginásio rangeram alto quando e empurraram para entrar e o eco dos passos deles ressoava pelo espaço vazio. A escuridão parecia mais densa ali dentro, quebrada apenas pelas luzes de emergência que lançavam um brilho avermelhado nas paredes pálidas. parou por um momento, engolindo em seco. O frio que subiu pela sua espinha não era só da temperatura.
— Você sentiu isso? — Sua voz saiu baixa, quase como um sussurro.
não olhou para ele, mantendo o olhar fixo à frente, as mãos fechadas em punhos.
— É só porque esse lugar tá vazio. Tá tudo na sua cabeça. — Mas a rigidez em sua voz dizia outra coisa. — Os bastões estão no armário da sala de equipamentos. Vem.
disparou à frente, sem esperar, mas não conseguiu evitar de lembrar da Reunião de Vitalidade horas atrás, antes de tudo acontecer. O apagão repentino, o vento uivante invadindo o ginásio, a música parando do nada e a voz:

Todos brincam juntos…

Ele respirou fundo e seguiu , que já estava de frente para o armário, forçando a porta enferrujada. O rangido foi agudo e metálico. Ele puxou dois bastões de beisebol, um deles meio rachado na ponta, e jogou um para sem olhar. Enquanto examinava o bastão, deixou o olhar escorregar para um canto mais escuro da sala, avistando um pé de cabra encostado ali, meio escondido. Ele hesitou por um segundo antes de pegar, e ergueu uma sobrancelha ao ver.
— Pra alguém que não acredita nessa parada, você tá se armando bem, hein?
— É só pra defesa pessoal. Caso algum maluco esteja na floresta. — fechou o armário com um estrondo e soltou um riso seco, sem humor.
— Claro.
Por um momento, nenhum dos dois se moveu. O vento que passava pelas frestas fazia as cortinas balançarem, lançando sombras que pareciam se mexer nas paredes. quebrou o momento:
— Vamos. Quanto mais rápido a gente sair daqui, melhor.
assentiu, mas não conseguiu evitar de olhar uma última vez para o centro do ginásio. Do lado de fora, sob o brilho pálido dos postes, as garotas já os esperavam. girava um facão nas mãos com um sorriso de canto, a lâmina reluzindo sob a luz fraca. franziu o cenho ao ver.
— Sério? Um facão?
— Estilo… — Ela deu de ombros, com um sorriso mais largo. — Um pé de cabra?
ergueu o objeto pesado que carregava no ombro e soltou um meio sorriso.
— Defesa pessoal.
— Pegamos isso também. — estendeu os rolos de arame e as lanternas para os dois. — Podemos enrolar nos bastões. Melhor do que ir só com um pedaço de madeira.
Todos começaram a trabalhar juntos, enrolando o arame com cuidado. O silêncio caiu entre eles, pesado e tenso, e foi quem quebrou primeiro:
— Vocês nunca quiseram entender o que houve? — Sua voz saiu baixa, mas carregada de algo mais sombrio.
— Como assim? — ergueu os olhos, e parou de mexer no bastão, respirando fundo.
— Isso tem me assombrado por todos esses anos. O que nós fizemos… o que ele fez. — Os outros três ficaram imóveis. Por um instante, as memórias voltaram com força – a garotinha ruiva de olhos azuis brilhantes correndo pelas árvores com eles, o sorriso dela se apagando como uma vela. continuou, a voz trêmula. — Minha mãe me culpa… pela Jane… e pelo meu pai ter ido embora logo depois. — Ele engoliu em seco, desviando o olhar.
— Não foi culpa sua, . — deu um passo à frente, o olhar mais suave agora. — Não foi culpa de ninguém… nenhum de nós queria aquilo.
— Foi sim… ela disse na minha cara, várias vezes. E a pior parte é que… isso pode parecer ridículo, mas no dia em que eu perdi minha irmã, eu perdi toda a minha família. Minha mãe, meu pai, vocês… todo mundo.
, com a garganta apertada, largou o bastão e tocou de leve no ombro dele.
— Você não me perdeu. Eu tô aqui por você… por todos nós.
— Nossa, isso soou cafona. — soltou uma risada abafada, tentando aliviar.
— Eu tô tentando ter um momento fofo aqui. — virou para ela, rindo sem graça, os olhos ainda brilhando, a fazendo rir mais alto dessa vez, e até soltou um meio sorriso. , um pouco mais afastado, baixou o olhar e, sem perceber, também deixou escapar um pequeno riso pelo nariz. — Eu nunca quis que a gente se afastasse assim… eu só espero que não seja tarde demais pra consertar.
Por um segundo, ninguém respondeu, e o barulho do vento passando pelas árvores era o único som que eles ouviam. Terminaram de enrolar os arames improvisados ao redor dos bastões e seguiram em direção à entrada da floresta, o peso da escuridão pairando sobre eles como uma nuvem espessa. Os passos eram mais silenciosos agora, cada um absorvido pelos próprios pensamentos.
— Espero que não sejamos comidos, possuídos ou esquartejados. — , equilibrando o facão no ombro como se fosse um acessório qualquer, quebrou o silêncio primeiro.
— Eu ainda acho que isso tudo é maluquice. Vocês estão vendo padrão onde não tem. — chutou uma pedra no caminho, o som seco ecoando mais alto do que deveria naquela noite quieta.
bufou, mas não respondeu de imediato. Já estavam longe demais para convencê-lo do contrário.
— É, porque todo mundo desaparecendo no mesmo padrão é só azar, né? — Ele lançou um olhar lateral para , que não respondeu, o maxilar travado.
seguia alguns passos à frente, com a lanterna tremendo levemente na mão. Os feixes de luz recortavam as árvores, criando sombras que pareciam se mover sozinhas. Ela olhou ao redor, com a sensação de que algo estava à espreita os observando, e seus olhos foram atraídos por um movimento no alto de um pinheiro próximo, que a fez sobressaltar e parar por um segundo – um enorme corvo empoleirado num dos galhos os observava com um olho preto brilhante. Sem pensar, já estava um passo mais próximo dela, o olhar varrendo a escuridão ao redor.
— É só um corvo — murmurou, mas não se afastou tanto assim depois.
percebeu e trocou um olhar rápido com , que só arqueou uma sobrancelha, mas se mantiveram em silêncio. Enquanto avançavam mais fundo, o ar ficava mais pesado, e o silêncio, mais denso. manteve a postura dura, mas seus olhos não paravam de checar a lanterna de , como se, no fundo, estivesse se certificando de que ela ainda iluminava o caminho. A cada estalo nos galhos secos, a tensão se acumulava mais entre eles, como se algo os observasse ali, escondido entre as sombras. O cheiro de terra molhada e folhas apodrecidas se misturava ao frio que começava a subir pelas pernas de cada um.
— Se alguém quiser desistir, agora é a hora — disse, num tom meio sombrio, mas firme.
ajeitou o pé de cabra no ombro e olhou para a trilha escura que se abria à frente.
— Então… vamos acabar logo com isso.
Os outros assentiram e, um por um, atravessaram a linha invisível onde a cidade terminava e a floresta começava, trazendo consigo um sentimento de nostalgia.
— Esse lugar nunca esteve tão assustador… — olhou ao redor, apertando a lanterna com mais força enquanto varria a luz pelo breu entre as árvores. — Mas, ainda assim… parece exatamente igual a antes.
— Não sei… — sussurrou, parando por um instante quando uma brisa fria passou por eles, arrepiando sua pele. O vento carregava um som fraco, quase como um assobio perdido no meio das folhas. — Parece… familiar. — Sem pensar, ela deu um passo adiante, seguindo o som.
, tá indo pra onde? — chamou, a voz soando mais alta do que queria. Mas ela não parou, os olhos fixos na direção daquele chamado sutil.
— Vocês ouviram isso? Tá vindo daquele lado…
— Gente, temos que ficar juntos — reclamou, a irritação mascarando o tom levemente preocupado. Sem escolha, ele e apressaram os passos para não se distanciarem.
O som levou até uma árvore velha e retorcida, onde algo pendia em um galho baixo, balançando com o vento. Um brilho pálido sob a lanterna fez seu estômago revirar. Ela esticou a mão trêmula e tocou o objeto frio: um pingente de apito, já enferrujado.
— Isso é… — A voz de falhou quando ele se aproximou, vendo o que a garota segurava.
— Eu pensei que… estava perdido… — ela murmurou, virando o apito entre os dedos com cuidado, como se pudesse desmanchar a qualquer momento. Seus olhos começaram a marejar e um nó apertou sua garganta.
Os outros dois chegaram logo atrás, ambos parando ao ver a cena.
— De onde isso saiu? — perguntou, a descrença evidente na voz, e olhou ao redor, como se esperasse ver alguém espreitando nas sombras.
— Que estranho… — disse baixo, a habitual ironia sumindo do tom por um segundo.
— Era… o presente de aniversário dela. — continuou, a voz embargando. — Se ela se metesse em encrenca, tudo o que tinha que fazer era assoprar e…
Mas, antes que pudesse terminar, a interrompeu, a tensão estalando no ar.
— Vocês ouviram isso? — Ele girou a lanterna, varrendo o escuro.
Os quatro ficaram imóveis, os ouvidos atentos. Primeiro só havia o vento, o som das folhas farfalhando… até algo se misturar no silêncio.

Um estalo. Um movimento pesado, como passos na mata fechada.

O apito na mão de parecia mais frio agora.

— Eu acho que a gente precisa sair daqui… isso foi um erro. Precisamos ir embora enquanto ainda…
engasgou no próprio grito quando , de repente, agarrou seu braço com força.
— Não… se… mexe… — sussurrou, a voz quase inaudível, mas carregada de pânico.
O coração de martelava tão alto que ela mal conseguia ouvir mais nada, mas, mesmo assim, obedeceu. Lentamente, sem ousar respirar fundo, virou a cabeça na direção que o garoto encarava com os olhos arregalados, a luz tremulante de sua lanterna fixada no que estava parado entre as árvores. A princípio, parecia um cachorro grande – talvez um lobo magro demais – mas, conforme os olhos de se ajustaram, cada detalhe novo fazia sua garganta secar. A pele da criatura parecia esticada e ressecada, colada nos ossos como couro velho. As costelas marcavam sulcos profundos sob a pele acinzentada, como se estivesse faminta, ou… como se já estivesse morta há muito tempo. Os olhos brilhavam num vermelho febril, fixos neles com uma intensidade que fez gelar até os ossos. A boca, aberta num rosnado baixo, estava cheia de dentes longos e irregulares, enquanto uma gota de saliva amarela pegajosa escorria de sua mandíbula. E ainda havia algo errado na forma como se movia – suas patas pareciam se dobrar de um jeito estranho, retorcido, como se os tendões estivessem soltos ou quebrados. Era como olhar para um animal, mas também como encarar algo que nunca deveria estar vivo.

Algo que pertencia mais a um pesadelo do que ao mundo real.

, que até então estava paralisada, deu um passo involuntário para trás, o estalo seco da folha sob seu pé ecoando alto demais na escuridão, fazendo a criatura rosnar mais forte, os olhos vermelhos brilhando como brasas.
— Isso… é um lobo? — perguntou, a voz embargada de puro terror.
— Ah, merda… eu não me inscrevi para lutar contra animais selvagens… — resmungou, a mão apertando o pé de cabra com força. — Bom… garoto? Fica aí, tá bom?
A criatura soltou um som que parecia com um latido – mas distorcido, rouco e gutural – e deu um passo adiante, as patas ossudas afundando na terra. Foi o suficiente. Sem pensar, os quatro dispararam para dentro da mata fechada, os galhos chicoteando seus rostos e braços enquanto corriam às cegas. A lanterna de balançava violentamente, lançando fachos de luz trêmulos que mais confundiam do que ajudavam. arfava, o peito ardendo, enquanto saltava por cima de raízes grossas e desviava de alguns troncos caídos. Um galho arranhou sua bochecha, mas ela mal sentiu – só conseguia ouvir os estalos atrás deles e o rosnado da criatura se aproximando. Quando tentou cortar caminho por entre duas árvores, uma sombra enorme surgiu do nada, bloqueando a passagem. A coisa avançou num salto e soltou um grito estrangulado, girando o corpo numa curva fechada para a esquerda. A criatura uivou, a mandíbula batendo no vazio, e caiu pesadamente ao lado da primeira, seus membros esqueléticos estalando de um jeito que fez o estômago dela revirar. Ela tropeçou, quase caindo de joelhos na lama, quando sentiu uma mão agarrar seu braço com força e a puxar para cima.
— Anda! — ofegou, praticamente arrastando-a por alguns passos antes que ela recuperasse o ritmo. Seu toque foi firme, quente, um contraste violento com o frio que parecia emanar das árvores ao redor.
— Nós temos que voltar! Estamos indo direto pras ruínas! — gritou, sem fôlego, correndo logo atrás.
— Merda… — falou entre dentes, sentindo soltar seu braço assim que teve certeza de que ela seguia firme. A mão dele ainda latejava da força com que a puxou, mas manteve o olhar focado adiante, o pé de cabra pronto.
As árvores pareciam se fechar ao redor, as sombras se alongando de maneira grotesca com cada feixe trêmulo da lanterna. A cada passo, os rosnados ficavam mais próximos, como se as criaturas estivessem se multiplicando na escuridão. parou abruptamente, ofegando e olhando ao redor com os olhos arregalados:
— A gente tá cercado… — murmurou, girando a lanterna. Os olhos vermelhos agora piscavam de todos os lados, entre as árvores, bloqueando qualquer rota de fuga óbvia.
rosnou entre dentes, os pulmões queimando. Mas foi então que algo clicou na cabeça dele – como se estivesse de volta à quadra, analisando a defesa adversária.
— Espera… eles tão marcando a gente… tipo defesa por zona. Não querem que a gente vá pra lá… — apontou com o queixo para uma trilha mais estreita à direita, a única que parecia menos vigiada. — então é pra lá que a gente vai. — Decidiu, já tomando impulso. — , joga a lanterna pro lado oposto quando eu contar. Vai fazer eles pensarem que a gente fugiu por lá.
— Você tá maluco! — O outro arfou, apesar de já estar segurando a lanterna firme.
— Três… dois… um! — lançou a lanterna com força, o facho girando no ar antes de cair longe, iluminando outra trilha. As criaturas rosnaram e algumas avançaram na direção da luz, deixando um espaço livre. — Agora! — gritou, agarrando pela mão mais uma vez e a puxando com força.
Dispararam para o lado oposto, e logo atrás. não largou , a guiando pelos arbustos densos, até romperem uma barreira de arbustos com tanta força que acabaram tropeçando e caindo juntos do outro lado, direto contra o solo frio e úmido. A garota ofegou ao sentir o peso dele sobre ela e, por um segundo, tudo o que conseguiram ouvir foi a respiração pesada dos dois, enredados no meio dos galhos quebrados e folhas. O rosto dele estava perigosamente perto do seu, os olhos castanhos arregalados pelo susto – ou talvez por algo mais que ele rapidamente disfarçou.
— Vocês vão ficar aí se encarando, ou a gente pode continuar fugindo? — surgiu, ofegante, lançando um olhar que quebrou o momento.
soltou um palavrão abafado e rolou para o lado, se levantando rapidamente e ajudando a fazer o mesmo. Quando ela olhou ao redor, percebeu que tinham caído numa clareira aberta, banhada pela luz fria da lua.
— Não temos tempo… — arfou, apontando com a mão trêmula para as sombras que ainda se moviam entre as árvores. — Eles ainda estão vindo. Temos que achar o antes que essas coisas o encontrem.
— Bom, eu acho que isso não vai ser um problema… — murmurou, a voz falhando quando ergueu o braço e apontou para a outra extremidade da clareira.
, parcialmente iluminado pela luz fria da lua, uma figura estava estendida na terra, imóvel. E a poucos metros dela, mais uma daquelas criaturas se arrastava, os olhos vermelhos flamejando e os dentes reluzindo com a baba que pingava da boca.
— Meu Deus… — sussurrou, o coração disparado. Ela girou a cabeça, e a visão só piorou.
A floresta ao redor parecia viva, com dezenas de olhos âmbar, como pequenas brasas acesas na escuridão, e dentes afiados que agora brilhavam sob a luz da lua. Instintivamente, ela apertou a mão em torno do bastão com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Merda… merda! — exclamou, já avaliando a situação. — Se ficarmos aqui, eles vão nos cercar. Alguém precisa distrair essa coisa enquanto os outros pegam o .
— Eu vou — disse, sem pensar, dando um passo à frente.
soltou uma risada seca, sem humor, o olhar cortante quando pousou nela.
— Claro que você vai… — Balançou a cabeça, descrente, e se abaixou para pegar uma pedra do chão. — Deixa que eu distraio. Vocês vão atrás do . E, pelo amor de Deus, tentem não ser comidos por essas coisas. — Sem esperar resposta, lançou a pedra com força contra as árvores à esquerda da criatura mais próxima de . O ruído alto ecoou como um tiro na clareira, e a criatura rosnou, virando a cabeça bruscamente para o barulho. — Ei, saco de ossos! — gritou, batendo o pé de cabra contra um tronco, fazendo mais barulho. A criatura soltou um latido rouco e se lançou naquela direção. — Vão!
e dispararam pela lateral, ambos balançando os bastões com força para manter as criaturas afastadas. aproveitou a brecha, correndo a toda velocidade pela clareira, e caiu de joelhos ao lado de , que estava deitado de bruços, o rosto sujo de terra e sangue.
! , me ouve! — sussurrou, o sacudindo com força, e ele respondeu com um gemido fraco, o suficiente para acender uma faísca de esperança dentro dela.
, agora! — gritou, quando outra criatura surgiu do mato, farejando o ar.
Sem pensar, passou o braço por baixo dos ombros de e o ergueu com dificuldade.
— Levanta… levanta, por favor… — arfou, sentindo o peso dele puxar seus músculos ao limite.
e apareceram ao lado dela, cada um pegando um braço do garoto desacordado.
— Pegamos ele! Agora corre! — berrou.
Mas uma das criaturas não deu tempo e avançou com os dentes arreganhados direto contra , que, num reflexo desesperado, girou o bastão com força, acertando a lateral da cabeça com um estalo surdo. Ela sentiu a vibração do impacto percorrer seus braços, o golpe forte o bastante para derrubar qualquer animal normal, mas a criatura só cambaleou de lado, soltando um rosnado ainda mais raivoso, os olhos vermelhos queimando como brasa.
— Que porra é essa? — ofegou, recuando mais um passo, enquanto a coisa se sacudia e virava para ela novamente. Ela bateu de novo, desta vez mirando o flanco magro da criatura. O bastão bateu com um estalo surdo e, novamente, a coisa mal pareceu sentir — como se estivesse morta por dentro.
De repente, uma mão agarrou sua cintura e a puxou com força para o lado, a afastando do alcance da mordida que vinha logo em seguida. perdeu o equilíbrio e se chocou contra um peito quente e ofegante.
— Você precisa parar com essa mania de querer bancar a heroína — rosnou perto do ouvido dela, ainda segurando firme enquanto a puxava para trás.
— Eu estava ajudando! — rebateu, ofegante, mas sem conseguir negar a aceleração que sentiu ao ser puxada daquele jeito.
— É, ajudando a virar comida! — ele retrucou, acertando o focinho da criatura com o pé de cabra num golpe pesado, mas o bicho continuava avançando, como se a dor não fosse algo importante.
— Essas coisas não sentem nada! — ela gritou, o pânico crescendo na voz.
— Então vamos parar de tentar bater e correr antes que mais deles nos cerquem — rebateu, agarrando o braço dela, e eles dispararam juntos pela clareira até se encontrarem com os outros dois, que arrastavam com certa dificuldade. Ele mal conseguia manter os olhos abertos, o rosto pálido e coberto de terra. girou o bastão com um grito e acertou outra criatura que se aproximava por trás, desta vez mirando o focinho.
— Eles estão vindo de novo! — alertou, os olhos arregalados.
— Todo mundo junto, agora! — gritou. — e vão na frente com o . , comigo na retaguarda! — assentiu, mas, antes que pudesse seguir, ele apertou seu braço com mais força, a forçando a parar e olhar diretamente para ele, arqueando a sobrancelha, ofegante.
— Você vai ficar me segurando assim o tempo todo? Ou é só até eu provar que consigo andar sozinha sem a sua permissão?
soltou uma risada seca, os olhos ainda alertas ao redor.
— Tô só evitando que você tente bancar a heroína de novo e acabe na boca de um desses bichos.
— Ah, claro. Porque esse é o seu papel agora? — rebateu, estreitando os olhos para ele, sem diminuir o passo, enquanto os dois recuavam em sincronia.
— Alguém precisa fazer isso. — Ele devolveu sem pensar, a voz baixa e tensa, e os olhos, embora duros, passaram rapidamente pelo rosto dela, como se verificasse se ainda estava inteira.
Eles seguiram lado a lado, os corpos se chocando levemente na pressa, enquanto à frente e lutavam para manter de pé. As criaturas, que antes os perseguiam com rosnados furiosos, agora pareciam hesitar. Os olhos vermelhos que antes os cercavam começavam a recuar, sumindo entre as sombras. Os rosnados se tornavam mais distantes, quase como se a própria floresta estivesse empurrando os monstros de volta.
— Eles estão parando… — percebeu, o maxilar tenso.
, ainda arfando, lançou um olhar para as árvores ao redor, onde os olhos flamejantes os observavam em silêncio antes de desaparecerem um a um.
— Por que agora? — murmurou, sem conseguir afastar a sensação estranha que subia por sua espinha.
— Não importa… — respondeu, ainda ofegante, mas com um sorriso nervoso de alívio. — A gente conseguiu sair dessa merda.
Foi só então que percebeu: eles realmente haviam conseguido. A escuridão da floresta tinha ficado para trás. Agora estavam no meio da estrada deserta, as lanternas trêmulas iluminando o asfalto rachado e as árvores distantes. Todos arfavam, suados e feridos, mas vivos. , porém, ainda estava semi desacordado nos braços de e , que o sentaram no chão com cuidado. se agachou imediatamente ao lado dele, o coração martelando forte no peito.
, me ouve… o que aconteceu com você?
Os olhos dele começaram a se abrir lentamente, primeiro embaçados, depois focando nela de um jeito que fez seu estômago revirar.
— Eu… eu vim procurar… — murmurou, a voz rouca e baixa. Seus olhos pareciam olhar além dela, fixos em algo que ninguém mais conseguia ver. E então, de repente, ficaram completamente esbranquiçados, como se virassem vidro opaco, penetrando direto nela. — Por que vocês vieram? — ele rosnou, agarrando a gola da blusa dela com força e a puxando para perto.
arfou, surpresa, tentando se desvencilhar.
— Como assim? Nós não podíamos te deixar!
— Vocês não deviam ter vindo. — A voz de saiu mais grossa, mais distorcida, quase como um chiado saindo de um rádio quebrado. Ele puxava com mais força, os dedos se fechando como garras, enquanto repetia a frase:

“Vocês não deviam ter vindo.”

, calma… — deu um passo brusco à frente, os olhos duros, mas não parecia ouvir. O chiado ficou mais alto, mais sufocante.
— Agora… agora ele pode sair…
Com um puxão final, soltou , que cambaleou para trás e caiu sentada no asfalto, os olhos arregalados. imediatamente se abaixou e a segurou pelo braço, a puxando de volta para cima.
— Você tá bem? — perguntou, os olhos passando de relance por ela antes de voltarem a com desconfiança.
balançou a cabeça, sem conseguir formar palavras, ainda sentindo o aperto gelado das mãos de na pele.
— Que porra isso quer dizer? — perguntou, olhando de um para o outro, a voz alta demais no silêncio opressor da noite.

Mas ninguém respondeu.

só conseguia balançar a cabeça em negação, o coração batendo descompassado. Os olhos de se fecharam de novo, pesados, e, com um último suspiro trêmulo, o corpo dele caiu no chão, ficando completamente imóvel mais uma vez. O silêncio que seguiu foi tão denso quanto as sombras atrás deles. E pela primeira vez, teve a sensação de que escapar da floresta não significava estar a salvo. Era como se, agora, algo muito pior tivesse acabado de começar.



— Vamos… pro carro… agora — ordenou, com a voz firme, e ninguém discutiu.
Ele e carregaram desmaiado mais uma vez, os braços tremendo com o peso e a adrenalina ainda pulsando. mal sentia as pernas, mas correu ao lado de , ainda com a sensação daquelas palavras cravadas na pele:

Agora ele está livre.

A floresta parecia observá-los, viva, respirando, como se lamentasse a saída deles. Quando finalmente avistaram o carro de , parado no meio do estacionamento do colégio, ele destravou com um clique rápido.
— Deitem ele aqui. — abriu a porta traseira e indicou o banco, onde ajeitaram com cuidado.
— Ele ainda tá respirando? — perguntou, olhando ao redor para assegurar que não houvesse uma plateia os observando.
— Sim, mas tá muito fraco — respondeu, checando o pulso do garoto. — Ele tem que ir pra um hospital imediatamente.
— A emergência mais próxima fica a quinze minutos daqui — disse, guardando as “armas” utilizadas por eles na mala do carro e se dirigindo para o banco do motorista. — Todo mundo dentro.
ainda podia sentir o cheiro da floresta na roupa, como se estivesse impregnado nela. Hesitou por um segundo antes de sentar no banco do passageiro, enquanto e ficaram ao lado de . O motor roncou quando acelerou, os pneus deslizando sobre a estrada molhada.
— Espera… — quebrou o silêncio. — O que vamos dizer quando chegarmos lá? Não dá pra contar que estávamos perambulando no meio da floresta, principalmente quando eu disse ao meu pai que ia estudar na casa da .
— Dizemos que o encontramos desacordado na beira da estrada e que ele parecia machucado. Só isso… entendido? — desviou o olhar rapidamente para a garota ao seu lado e depois para os outros dois pelo espelho retrovisor, e todos assentiram.
As luzes da estrada mal iluminavam o caminho, mas nenhum deles se atreveu a olhar para trás, apesar de jurar que algo na escuridão da floresta os observava – tipo olhos brilhantes que desapareciam quando a lanterna do carro os alcançava.
No hospital, a chegada foi apressada. Enfermeiros correram até o carro com uma maca e rapidamente colocaram sobre ela. os acompanhou e, em meio à confusão, puxou o celular.
— Vou ligar para o meu pai… ele precisa saber que encontramos o .
Os outros três foram levados até uma salinha de espera, onde iriam receber atendimento médico. As roupas estavam sujas, os braços riscados por galhos e só agora, depois de toda adrenalina, notavam os cortes, arranhões e hematomas que surgiram ao longo do corpo. sentou-se em silêncio numa das cadeiras, tentando organizar os pensamentos, enquanto observava o sangue seco na palma da mão. sentou ao seu lado, pressionando uma compressa contra o braço, e estava encostado na parede, com os braços cruzados e o maxilar travado, como se estivesse se forçando a não dizer algo, até não aguentar:
— Bom… acho que agora tá tudo resolvido.
— Tudo resolvido? O que quer dizer com isso? — A garota semicerrou os olhos, se levantando da cadeira.
— Eram lobos… uma matilha, provavelmente. pode ter se drogado, se perdido e acabado lá. Nenhum “monstro” sobrenatural de quando éramos crianças, ou maldição. Apenas… animais famintos — concluiu, como se fosse óbvio, mas não se deu por vencida.
— Lobos? E os olhos vermelhos? A pele daqueles… bichos? — Sua voz ficou mais firme. — A forma como eles se mexiam, como se entendessem a gente? Aquilo não era natural!
— Ah, claro. Agora vai me dizer que o Senhor Redfield mandou aquelas criaturas pra acabarem com a gente? Me poupe, .
— Você tava lá, … você viu o que o disse. O jeito que ele olhou pra mim… como se não fosse ele ali.
Carter soltou uma risada seca.
— Por favor, eu já ouvi delírios piores de bêbado em fim de festa.
— Você nunca vai aceitar o que não pode explicar, não é? — ela retrucou, a voz se elevando. — Por que tá agindo como se a gente tivesse inventado tudo aquilo?
— Porque parece que vocês querem acreditar nisso — devolveu, apontando para os dois. — Querem transformar uma merda de noite traumática em conto de terror, assim como foi com a…
— Não. — levantou também, visivelmente irritado. — A gente passou por aquilo junto, . Quem tá tentando inventar alguma “narrativa” para explicar o que realmente aconteceu é você, assim como os outros.
— É sério? É assim que me agradecem depois de eu ajudar vocês?
— Mas ninguém te obrigou a ir! — gritou, dando um passo à frente. — Você foi porque quis, ou porque não queria ficar de fora.
— Fui eu quem tirei a gente daquela clareira maldita. Quem impediu a de bancar a heroína e morrer igual o quase morreu. Se não fosse por mim, vocês estariam jogados no meio da floresta agora, comendo terra!
— Que falta de educação a nossa! Muito obrigado por ter nos salvado dos “lobos maus”! Se não fosse por você…
— Ah, que ótimo! — jogou as mãos para o alto. — Foda-se que eu salvei a pele de vocês então… me avisem quando estiverem prontos pra lidar com a verdade. Só espero que da próxima vez que decidirem dar uma de “Mistério S/A” os lobos estejam mais compreensivos. — Ele saiu da sala, batendo a porta atrás de si.
mordeu o lábio, o coração acelerado, e passou a mão pelo braço machucado, sentindo a ardência. Um silêncio desconfortável pairou por alguns segundos, até murmurar, enquanto se sentava novamente:
— Idiota.
Momentos depois, duas enfermeiras entraram, se aproximando deles para fazer os curativos. Enquanto cuidavam dos ferimentos, perguntas começaram a surgir, como “o que aconteceu com vocês?”, ou “estavam onde para se machucarem assim?”, mas eles desviavam, repetindo a mesma história: “encontramos o machucado na beira da floresta e tentamos ajudar.” Nada mais. Assim que estava com os braços enfaixados e um curativo sob a sobrancelha, entrou para ser atendida.
— Onde tá o ? — perguntou, olhando em volta, e bufou.
— Se mandou. Disse que a gente devia agradecer por ele ter nos salvado de uma “matilha faminta”. — O sarcasmo ficou evidente em cada palavra.
revirou os olhos, mas não respondeu. Sentou-se ao lado de , claramente esgotada, enquanto uma das enfermeiras se aproximava dela. Algum tempo depois, outra enfermeira surgiu novamente na porta.
— Todos já foram atendidos? Ótimo. Agora, por favor, fiquem na sala de espera. Quando a polícia chegar, vão precisar do depoimento de vocês sobre como encontraram o garoto.
… a gente pode vê-lo? — perguntou, se levantando, e a enfermeira hesitou.
— Ele ainda está muito fraco. Os médicos estão fazendo o possível, mas, por enquanto… sem visitas.
Eles assentiram e a seguiram até a recepção, tentando se ocupar com qualquer coisa. O relógio da parede marcava quase dez da noite quando ergueu os olhos, cansada de encarar o vazio, enquanto folheava compulsivamente uma revista da recepção, sem de fato ler, e fazia o mesmo movimento com o pé, batendo no chão num ritmo inquieto. Ela levantou devagar, caminhando até o bebedouro, mas o que realmente chamou sua atenção foi uma silhueta parada sob a luz fraca do poste no estacionamento. Hesitou por um instante, depois empurrou a porta do hospital com um rangido sutil, sendo envolvida pelo ar frio e seco – um lembrete de que aquela noite ainda não havia terminado. estava encostado em uma pilastra de concreto, as mangas da jaqueta dobradas até os cotovelos e um cigarro aceso entre os dedos. O brilho da brasa iluminava o contorno sério de seu rosto, enquanto encarava o asfalto rachado do estacionamento.
— Pensei que fosse embora… — disse, aproximando-se com passos calmos.
— Vou ter que depor… — respondeu seco, como se ainda estivesse mastigando as farpas da discussão anterior.
— Desde quando você fuma?
levou o cigarro de volta aos lábios, tragou mais uma vez e soltou a fumaça devagar, ainda olhando para frente.
— Cada um do grupo achou um jeito diferente de lidar com o que aconteceu… esse foi o meu.
— Continua achando que foram só lobos famintos? — Encostou-se ao lado dele, mantendo uma distância segura.
— Continua achando que foram monstros de olhos brilhantes? — O tom não era agressivo, mas carregado de exaustão.
— Eu acho que tem alguma coisa por trás disso…
— E você acha que foi o quê? Possessão demoníaca? Um espírito da floresta? A gente tava sob pressão, assustados, com adrenalina no sangue. Sabe o que o cérebro faz nesse estado?
— Você tá tentando racionalizar tudo porque tem medo do que pode significar, e eu entendo. Mas isso não vai fazer aquilo desaparecer… não vai fazer o Senhor Redfield e tudo o que aconteceu parar de existir.
virou o rosto em sua direção e, por um segundo, seus olhos se encontraram – havia algo ali, um reflexo de dúvida, de cansaço e, talvez, medo –, mas desviou logo em seguida, tragando o cigarro de novo.
— Eu não sou um covarde, … — murmurou, a voz baixa e rouca. — Só… não sei se quero viver num mundo onde aquilo que a gente acha que viu seja real.
— Bem-vindo ao clube. — ficou em silêncio por alguns segundos. Mexeu no bolso da calça, tirando o pequeno apito que Jane sempre carregava pendurado na mochila. O objeto parecia insignificante na palma de sua mão, mas pesava mais do que devia. — Ela confiava tanto nisso, como se fosse afastar qualquer coisa ruim só de soprar forte o bastante.
O olhar de caiu brevemente no apito, depois subiu para o rosto dela.
— É assim que a gente aprende a sobreviver aqui, né? Se agarrando a alguma coisa.
soltou uma risada fraca, sem humor. Depois, seus olhos estreitaram levemente ao encarar o rosto dele.
— Você ainda não cuidou dos cortes.
— Não foi nada demais… — respondeu rápido, desviando o olhar. — Depois eu resolvo.
— Fala isso depois de infeccionar — ela rebateu e, antes que ele pudesse reagir, se aproximou, inclinando o corpo, o olhar atento examinando o ferimento próximo à sobrancelha dele.
ficou imóvel, o cigarro ainda entre os dedos, a respiração levemente alterada.
— Não precisa fazer isso… — disse, mas a voz saiu mais baixa do que queria, rouca, arranhada pela proximidade repentina.
— Fica quieto… — a garota murmurou, os olhos fixos no machucado. Seu rosto estava tão perto que conseguia reparar nos pequenos detalhes dele – os cílios escuros, o leve tremor da mandíbula e o modo como prendia o ar toda vez que ela se aproximava um pouco mais.

Mas, antes que qualquer coisa pudesse ser dita, o som de pneus no cascalho fez os dois se afastarem. Um carro da polícia estacionou diante da entrada do hospital, a luz vermelha e azul girando uma vez antes de se apagar, e duas figuras uniformizadas saíram – uma delas claramente sendo o pai de . jogou o cigarro no chão e o apagou rápido com a bota, endireitando a postura como se nada tivesse acontecido, e guardou o apito no bolso, soltando um suspiro.
— Acho que é agora.
— Vamos acabar logo com isso.
E, lado a lado, caminharam de volta para o hospital, onde os outros dois já estavam de pé, a tensão que pairava no ar agora sendo mais fria.

HOSPITAL DE WESTCHESTER — 22:20 PM

[PRIMEIRA TESTEMUNHA — JONES]
A luz branca do teto lançava sombras duras nas olheiras já evidentes da garota, que estava sentada, ereta, tentando parecer calma. O xerife Cunningham a observava por trás de uma mesa pequena, enquanto outro policial mantinha um bloco de anotações em mãos, pronto para anotar os depoimentos.
— Pode começar…
— Como a falou para o senhor… nós duas estávamos indo pra minha casa, trabalhar num projeto da aula de biologia. — Sua voz era firme, mas suas mãos estavam cruzadas no colo, os dedos inquietos. — Pegamos o caminho que eu faço todos os dias…

[SEGUNDA TESTEMUNHA — CUNNINGHAM]
cruzava os braços no colo, mas seus ombros não escondiam a tensão. O xerife a observava com atenção redobrada.
— … até ouvirmos alguém chamar. Achei que era a minha imaginação no começo, mas a também ouviu. — Ela piscou rápido, como se revivesse a cena. — Era o … ele tava jogado entre uns galhos, desacordado.

[TERCEIRA TESTEMUNHA — MARSHALL]
tamborilava os dedos na beirada da mesa, os olhos dançando pelo ambiente como se esperassem encontrar uma saída dali.
— Você e o senhor Carter estavam juntos quando aconteceu?
— Isso, estávamos no carro do … ele ia me deixar em casa depois do treino. — respondeu, o tom quase desinteressado. — Vimos as meninas paradas no meio da rua acenando e encostamos o carro…

[QUARTA TESTEMUNHA — CARTER]
estava de pernas abertas, cotovelos apoiados nas coxas. Não era desrespeito, era cansaço… e impaciência.
— … assim que descemos do carro, elas mostraram o inconsciente e sangrando. Achei que ele tivesse se drogado, ou, sei lá, sido atacado por algum bicho… ao menos foi o que pareceu. — Ele mantinha um olhar firme, direto para o xerife, como se desafiasse qualquer tentativa de contestação.

[]
— Aí nós o colocamos no carro do e viemos direto pro hospital. Não sabíamos o que fazer.

[]
O xerife cruzou os braços. Seus olhos analisavam cada machucado à mostra no rosto do garoto, medindo, testando.
— E todos esses machucados pelos corpos de vocês?
— A gente passou por cima de uma pilha de galhos secos para chegar até o . Tinham alguns espinhos ali e devem ter cortado a gente também… tava tudo escuro, não dava pra ver direito.

[]
— Mais alguma informação que você queira compartilhar?
Ela hesitou por um segundo. Mas só um.
— Não… foi isso.

[]
— E agora, posso ir?

O xerife Cunningham ficou em silêncio por mais alguns segundos, observando os jovens juntos novamente, sentados no corredor do hospital, calados, arranhados, exaustos. As histórias batiam. Pontuação perfeita. Mas o instinto dele, cultivado por décadas de serviço, sussurrava outra coisa: havia algo que eles não estavam contando.
— Certo, eu já ouvi o suficiente. — Se aproximou do grupo, com as mãos apoiadas nos bolsos da calça. — Estão liberados, mas quero vocês disponíveis nos próximos dias. Qualquer mudança no estado do , qualquer lembrança nova… me avisem imediatamente. Entendido?
Eles assentiram em silêncio, exaustos demais para responder com palavras. se aproximou do pai, abaixando a voz:
— A vai dormir lá em casa, tá? Eu falei com a mãe. Vamos passar na casa dela pra pegar as coisas e a Jelly.
— O que é Jelly?
— A cadelinha dela, pai.
O xerife lançou um olhar breve para , então assentiu com um grunhido:
— Eu passo lá quando terminar aqui.
Ambas concordaram e observaram enquanto o homem ia em direção a uma das enfermeiras, provavelmente para saber o estado de . Mais ao lado, e conversavam, as vozes baixas:
— Pra você ficar se vangloriando depois? Não, obrigado.
— Qual é, cara. Eu já admiti que não devia ter falado aquilo. Todo mundo tava nervoso àquela hora. O mínimo que eu posso fazer é dar uma carona pra vocês.
— Eu acho que você já fez…
, para de ser cabeça dura — o interrompeu, se aproximando de onde eles estavam.
— Eu sou o cabeça dura? Olha o que ele falou…
— A gente sabe o que ele falou, mas também temos que admitir que, se não fosse pela obsessão do de ver basquete em tudo, aqueles bichos estariam limpando os dentes com palitinhos dos nossos ossos…
— Obrigado, eu acho. — Ele lançou um olhar meio indignado para . — Olha, , nada do que você falar vai me fazer tirar a proposta. Eu não vou deixar vocês voltarem pra casa sozinhos.
Marshall acabou cedendo depois de alguns segundos, e os quatro seguiram para o carro. O caminho foi silencioso. O céu parecia cada vez mais escuro, com um tom azulado e cansado. olhava pela janela com a testa encostada no vidro, se distraía enrolando um fio de cabelo, dirigia calado, e segurava a mochila no colo, como se fosse um escudo. Quando o carro parou em frente à casa dos Marshall, destravou o cinto, hesitando antes de abrir a porta.
— Valeu, . Vocês… se cuidem, tá? — murmurou, lançando um olhar breve para os três, que assentiram.
— Você também… — deu um sorriso reconfortante para ele. — Até amanhã.
Pouco tempo depois, estacionou o carro em frente à casa de Jones.
— Vão esperar o xerife? — perguntou, olhando em direção à rua escura.
— É, eu só vou pegar algumas coisas e a Jelly, depois vamos pra casa da respondeu, simples, e ele franziu o cenho.
— Não gosto da ideia de vocês ficarem sozinhas aqui.
— Relaxa, jogador, meu pai disse que não demora.
— Mesmo assim. — Ele desligou o motor. — Eu vou com vocês.
Jelly correu até a porta assim que eles entraram, pulando nas pernas de , choramingando e abanando o rabo como se não a visse há dias, e depois se dirigindo para os outros.
— Oi, criaturinha! — deu um sorriso ladino, se ajoelhando para brincar com a cadela. — Sua mãe é uma desnaturada, passou o dia todo sem te dar comida.
— Eu tive meus motivos — ela respondeu divertida e se dirigiu até as escadas. — Vou pegar as minhas coisas. Pode colocar comida pra ela? Fica lá na despensa. Você…
— Lembro, sim, pode ir. Eu fico com ela aqui.
assentiu e começou a subir as escadas, até entrar em seu quarto. seguiu em silêncio, como se fosse natural.
— Tá com medo de eu me machucar dobrando uma camiseta?
— Eu só não quero que ninguém fique sozinho. A já tem companhia, então…
Ela se virou com uma sobrancelha arqueada.
— Você pode bancar o durão, mas eu sei que, no fundo, só quer cuidar de todo mundo. — Carter bufou, mas não respondeu, apenas olhou ao redor, relembrando de cada detalhe daquele cômodo. Quando pegou uma mochila no canto do quarto, notou o rasgo na manga da jaqueta dele. — Você ainda tá sangrando.
— Não é nada. Eu já disse que depois dou um jeito nisso.
— A gente tava num hospital, ! — ela rebateu, já indo até a cômoda pegar uma caixinha de primeiros socorros. — E mesmo assim você foi cabeça dura o suficiente pra não deixar cuidarem de você.
— Sério que você tá falando isso? — ele perguntou, um resquício de sorriso surgindo no canto dos lábios. — Depois de querer bancar a heroína lá na floresta?
se sentou na beirada da cama e apontou com o queixo.
— Senta aí. Anda.

— Agora. — rolou os olhos em protesto, mas tirou a jaqueta lentamente, revelando um corte no braço mais feio do que o esperado – a pele avermelhada e alguns pontos arranhados ainda abertos. Assim que se sentou, ela começou a limpar com cuidado, os dedos leves deslizando pela pele quente, tentando afastar os pensamentos sobre ele ter ficado mais forte com o tempo, que teimavam em invadir sua mente. — Isso tá inflamado.
— Não tá.
— Cala a boca e para de se mexer.
— Você sempre manda assim em todo mundo?
— Só em quem merece. — Ela molhou o algodão em antisséptico. — Agora fica parado pra eu conseguir enxergar direito esse corte.
— Assim tá bom? — perguntou, com a voz rouca, se ajeitando para ficar ainda mais perto, o rosto inclinado na direção dela.
sentiu o estômago virar. Assentiu e continuou a limpar o corte devagar, mas seu olhar, involuntariamente, escorregou para a boca dele, notando um pequeno machucado no canto.
— Tem um aqui também. — Ela se aproximou mais, tão perto que sentia a respiração quente bater em seu rosto, e levou o algodão até os lábios de , agora entreabertos.
— Olha, eu acho que um espelho era o suficiente pra eu…
— Shh… você é um péssimo paciente — sussurrou, sem se afastar.
— Por quê?
Ela hesitou por um segundo e, quando respondeu, os olhos grudaram na boca dele novamente.
— Porque você é teimoso… e acaba tirando o foco.
A resposta fez os lábios de se curvarem num sorriso enviesado.
— Nesse caso… você seria uma ótima médica.
— Por quê?
Ele não sorriu dessa vez. Só a olhou de um jeito que pareceu atravessá-la inteira.
— Porque eu não tô sentindo nada da dor.
Os olhos dela escureceram, a respiração ficou presa entre o peito e a garganta e, por um instante, pareceu que o tempo do mundo lá fora parava na porta do quarto. A tensão era tão palpável que poderia ser cortada com o próprio algodão ensanguentado que segurava. O olhar dele desceu para os lábios dela, que, num movimento automático, os umedeceu. Só uma inclinação a mais, um segundo de coragem, e talvez…
— Opa. — A voz de surgiu da porta, e os dois se viraram num pulo. — Desculpa interromper o climinha, mas o meu pai acabou de estacionar. Hora de descer, casal “tensão sexual não resolvida”.
ficou vermelha, e pigarreou, pegando a jaqueta como se ela fosse um escudo.
— A gente não… — Ela começou.
— Ela tava limpando… — ele falou ao mesmo tempo.
— …tava fazendo nada…
— … meus machucados…
— Claro, vou fingir que acredito. — riu, desaparecendo pelo corredor, mas sua voz surgiu novamente: — Caso queiram mais cinco minutos, me avisem. Eu e Jelly estaremos lá embaixo.
— A gente já vai — respondeu rápido demais.
olhou para ela por um último segundo antes de se levantar da cama e vestir a jaqueta. A garota fez o mesmo, guardando o kit de primeiros socorros com pressa e pegando apenas o necessário para passar a noite na casa de . Desceram as escadas sem trocar mais nenhuma palavra, sendo recebidos por latidos da Border Collie, como se estivesse falando “que demora”. Já com a mochila nas costas e Jelly ao lado de , se aproximou da porta da frente, onde já estava encostado no batente, com os braços cruzados, como se estivesse apenas esperando a porta abrir para sair dali.
— O carro do seu pai tá logo ali, — ele falou, direto, mas sem conseguir esconder o olhar que acompanhava .
—Valeu pela carona — disse, quebrando o clima com sua leveza de sempre. — E pela companhia, né, ? — A amiga apenas desviou o olhar, fingindo estar entretida demais em conferir se havia fechado todas as portas. — A Jelly quer saber se você vai sentir falta dela… — continuou, olhando inocentemente para a cadela, que apenas os encarava, atenta a cada movimento, provavelmente esperando por algum petisco.
— Da Jelly, talvez. De você, nem tanto — rebateu, com um meio sorriso, mas seus olhos desviaram novamente para , que se aproximava, os passos mais lentos do que o normal.
Quando parou diante dele, uma corrente de tensão atravessou os dois, quase imperceptível, mas impossível de ignorar.
— Obrigada, …, mas, sério, cuida do braço.
— Que nada, já tá novinho em folha. A médica aí é meio brava, mas eficiente.
deu um sorriso leve, mordendo o lábio inferior, sem desviar o olhar. Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, entrou no meio da cena.
— Ok, ok, já entendi. Olhares longos, climas intensos, silêncio carregado… Podemos ir agora, “Romeu e Julieta versão sarcasmo e feridas abertas”?
bufou com um sorriso quase imperceptível.
— Boa noite, Cunningham. Cuida da boca.
— Vai sonhar comigo, Carter? — ela rebateu, já indo em direção ao carro com Jelly na coleira.
— Pesadelos, talvez — o garoto retrucou, mas ainda estava olhando para quando respondeu. Sem pensar, levantou a mão, afastando delicadamente uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela. O toque foi rápido, quase imperceptível, mas suficiente para fazer o estômago de Jones se revirar. — Se cuida, tá? — murmurou, a ponta dos dedos ainda pairando próxima à pele dela antes de se afastar de vez.
hesitou por um segundo, como se quisesse dizer mais alguma coisa, mas então assentiu, virou de costas e seguiu até o carro do xerife, que já aguardava com o motor ligado. O caminho até a casa dos Cunningham foi tranquilo, apesar do silêncio confortável entre eles. e o pai pareciam imersos nos próprios pensamentos, enquanto Jelly dormia tranquila ao lado de , no banco de trás. A garota encostou a testa no vidro frio da janela, observando as ruas escuras passarem. Quando chegaram, a fachada iluminada da casa parecia mais segura do que qualquer outro lugar no mundo. abriu a porta da frente e abriu espaço para passar, com Jelly ao seu lado. Era exatamente como ela se lembrava anos atrás.
— Bem-vinda de volta à minha humilde residência. A cama é grande, então dá pra gente dormir no meu quarto, e Jelly ainda pode ficar entre a gente.
— Obrigada, , de verdade. — sorriu, sentindo o peso do dia começar, enfim, a dissolver.
— Só faz um favor? — Cunningham perguntou, largando a bolsa no chão e jogando o casaco no encosto do sofá.
— Qualquer um.
— Não me deixa sozinha com essa tensão sexual flutuando entre você e o Carter quando ele aparecer de novo.
— Eu não… — começou, mas foi interrompida pela voz calorosa que veio do corredor.
? É você mesmo? — As duas se viraram para ver a mãe de parada perto da cozinha, com um sorriso surpreso e emocionado no rosto. Ela se aproximou rápido, com os braços abertos, e mal teve tempo de reagir antes de ser envolvida por um abraço apertado. — Meu Deus, olha só você! — disse, se afastando apenas para segurar o rosto de entre as mãos. — Faz tanto tempo. Você cresceu… tá linda.
— Obrigada, senhora Cunningham. — sorriu, sentindo um calor no peito ao ouvir aquela voz familiar. — É bom estar aqui de novo. Parece que nada mudou.
— Pode me chamar de Helena, pelo amor de Deus. — Ela riu. — E é verdade, essa casa continua a mesma bagunça. Mas é sempre bom ter uma das meninas de volta. Me lembra dos velhos tempos, vocês correndo por aqui, subindo as escadas feito malucas… — assentiu. Por um segundo, parecia que tudo estava normal… seguro, como antes. — Vão subindo, meninas. Vou preparar algo quente pra vocês tomarem antes de dormir. Imagino que tenham passado por um dia difícil.
— Valeu, mãe — disse, puxando pela mão. — Vamos, antes que ela me faça passar mal com tanto melodrama.
O quarto de era uma explosão de personalidade. As paredes escuras eram cobertas por pôsteres de bandas alternativas, ilustrações de tarô, mapas astrais e pequenos espelhos com molduras em formatos esquisitos. Na cômoda, cristais variados estavam dispostos ao lado de um baralho de tarô gasto e havia uma pequena estante repleta de livros com títulos sobre bruxaria, astrologia e ocultismo.
— Uau… — disse, tirando os sapatos e se jogando na cama. — Seu quarto tá igual à sua cabeça. Um caos místico.
— Caótico e poderoso, por favor — respondeu, rindo, enquanto pegava um cobertor e deixava ao lado de Jelly, que já estava se aninhando no canto da cama. — Pode rir, mas foram essas pedras aqui que me deram coragem de entrar naquela floresta.
— Acho que foi mais sua teimosia mesmo — brincou, mas o sorriso diminuiu aos poucos, substituído por uma expressão mais pensativa. — … você acha que tudo aquilo realmente aconteceu?
— A gente viu o … e os lobos demoníacos… e o apito. — sentou-se ao lado dela. — Não sei o que tá acontecendo, mas sei que não foi imaginação. — ficou em silêncio por um instante, olhando para a amiga. A segurança que sentia ali, mesmo depois de um dia tão insano, era real, mas também frágil. — E o ? — perguntou, se virando de lado para encará-la melhor. — Porque aquele quarto tava pegando fogo quando eu entrei.

— Você ia beijar ele… ou ele ia te beijar… ou os dois iam explodir em combustão espontânea, e eu ia ter que sair da casa com a Jelly gritando.
— Não ia acontecer nada — murmurou, desviando o olhar, mas a própria voz a traiu.
— Aham… e eu sou uma bruxa natural que ainda não se manifestou.
— Bom, olhando pra esse quarto, eu não duvidaria.

— Eu não sei, é que… — ela suspirou, olhando para a amiga novamente — tá tudo confuso demais ultimamente.
— E, ainda assim, vocês quase se beijaram. — sorriu com malícia.
— Exatamente, quase. Foi só pelas circunstâncias, .
— De quase em quase, daqui a pouco vocês tão se pegando no meio da floresta de novo.
— De novo?
— Você acha que eu e não notamos quando ele te agarrou naquele momento? Garota, até os lobos ficaram de vela.
jogou um travesseiro nela.
— Cala a boca e dorme, bruxinha.
— Só se você prometer não fugir com o bad boy misterioso no meio da noite.
— Meu Deus!
riu e, por um momento, tudo pareceu mais leve. Mas, enquanto olhava para o teto do quarto escuro e sentia a respiração de Jelly ao lado, o fogo da tensão com ainda queimava – silencioso e persistente.


Continua...


Nota da autora: E finalmente chegou a parte 2!! E esse “quase” entre os dois? Não sei vocês, mas eu tô ansiosa para as próximas interações entre eles kkkkkkkkkk.
Espero que tenham gostado e deem uma olhada na pasta do Pinterest.

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Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.



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