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LongficÓrbita Criativa

I Wonder

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I: Convite


As ruas estreitas da cidade litorânea de Gangneung eram uma mistura entre o tradicional e o paradisíaco. Haviam casas perfeitamente alinhadas pintadas em tons pastéis, dos tons rosa ao azul bebê, que mais pareciam cênicos de tão lindos e tradicionais. O som constante do vento passando pelas árvores trazia uma paz e calmaria que era costumeiro daquela região, em que nada era atípico, barulhento ou desconfortável. Não havia buzina de carros, trânsito, exceto por alguns gritinhos das crianças que estavam na pracinha, desfrutando da inocência de uma infância que não era usual em muitos lugares do mundo.
sempre gostou disso; do simples, do familiar. Do jeito que o mundo parecia caber ali, naquela cidade docemente tradicional, que conhecia como a palma de sua mão. A cafeteria de sua família ficava na esquina da rua principal, com uma fachada de madeira clara e uma placa levemente torta que rangia sempre que o vento ficava mais forte. O cheiro de café recém-passado escapava pelas enormes janelas, misturando-se com o aroma doce dos pães que saíam do forno. Era extremamente aconchegante e seguro, tudo que ela conhecia e desejava.
, leva esse pedido pra mesa três. — A voz da mãe veio do balcão, firme, mas já acostumada com o ritmo tranquilo do lugar.
A menina apenas obedeceu-a, indo atender seu cliente. Ela pegou a bandeja com cuidado, equilibrando duas xícaras e um prato pequeno com um gligeori toast. Os movimentos eram automáticos, quase que ensaiados. Anos fazendo aquilo tornara seus movimentos extremamente naturais. Talvez até demais.
deixou o pedido na mesa, curvando-se levemente em agradecimento, e voltou para trás do balcão, limpando as mãos no avental. O movimento estava relativamente tranquilo no dia, como uma tarde de terça-feira qualquer. A mãe avisou-a que iria trocar dinheiro no banco e logo voltaria, deixando-a responsável pelo local. Ela colocou algumas xícaras na lava-louças enquanto ajustava a playlist no Spotify. Havia sido uma verdadeira batalha convencer a mãe a inserir música no ambiente para atrair um público mais jovem, então ela se encarregava de colocar músicas que agradassem a matriarca. Nem tão tradicionais, mas nem tão joviais. O bom e velho meio termo.
Poucos minutos depois, quando o sino da porta tocou pontualmente às três e meia, ela nem precisou olhar para saber quem havia adentrado a cafeteria Kape. O cheiro que invadiu suas narinas já denunciara a presença que se aproximava sem pedir licença. engoliu em seco, respirando fundo antes de olhar na direção em que o cliente adentrava.
— Você está atrasado hoje. — A voz saiu antes mesmo de pensar, com um tom levemente insatisfeito.
— Eu estava ocupado… — ele respondeu, do mesmo jeito de sempre, levemente desinteressado, apenas para irritá-la.
Ela finalmente levantou o olhar, encarando-o. Park Jimin estava encostado na porta daquela forma costumeira. Os cabelos castanho claros estavam levemente bagunçados pelo vento, ao passo que sua expressão estava tranquila e os olhos atentos nela — sempre nela. Nada nele era novidade, e ainda assim, parecia ser.
— Ocupado com o quê, exatamente? — ela perguntou, tentando soar indiferente enquanto pegava uma xícara.
— Pensando.
— Uau, deve ter sido difícil para você.
Ele riu baixo, com aquele tipo de riso que ela conhecia bem demais. Jimin se aproximou do balcão, apoiando os braços ali, observando cada movimento dela como se fosse algo interessante, mesmo sendo apenas fazendo café, como já estava acostumado.
— O de sempre? — ela perguntou.
Sempre.
preparou a bebida sem precisar confirmar mais nada. Sabia exatamente como ele gostava. A quantidade de açúcar, o tempo, a temperatura e a quantidade levemente exorbitante de chantilly que ele apreciava. Ela sabia coisas demais sobre Jimin, e aquilo nunca a incomodara. Pelo menos até agora.
Ela colocou a xícara na frente dele. Seus dedos dos dois se tocaram por um segundo, de forma rápida, mas suficiente para deixá-la arrepiada. puxou a mão de volta como se não fosse nada, tentando se distrair daquela sensação e o sentimento que desencadeava. Passou a língua pelos lábios com certo nervosismo, desviando o olhar do mais velho.
— Obrigado — ele disse, mais baixo dessa vez.
Ela apenas assentiu, desviando o olhar. Aquilo era normal, afinal, tudo entre eles era normal, corriqueiro, como deveria ser entre dois melhores amigos que se conheciam há tanto tempo.
— Eu pensei… — Jimin disse, após longos minutos em silêncio, encarando-a nos olhos. — Bom, você poderia jantar comigo esta noite. Se não tiver planos, claro. — Ele coçou a nuca, parecendo desconfortável. — Pensei em irmos naquele restaurante à beira da praia.
estava surpresa, muito surpresa. Não só porque o pedido a havia pegado desprevenida, mas também porque Jimin parecia genuinamente nervoso ao fazer o convite. Um frio na barriga tomou conta de , que engoliu em seco, brincando com os polegares atrás do balcão, formulando — ou tentando — dizer algo coeso.
— Eu não sei, vou ver com a minha mãe se ela precisa que eu cubra o turno dela, sabe como é… — Ela sorriu, sem graça. — Mas te aviso.
— Ah, claro… — Ele assentiu, terminando o café em goles mais rápidos.
Os amigos se viam incapazes de prolongar o assunto com aquele clima estranho entre ambos. Não demorou para que Park se despedisse, saindo de forma apressada e um pouco corado. Assim que o sino da porta tocou quando ele saiu, viu-se imersa em um silêncio altamente desconfortável. A sul-coreana soltou o ar devagar, apoiando as mãos no balcão, ainda sentindo o coração acelerado sem conseguir explicar direito o porquê.
Aquilo beirava ao ridículo. Era só um jantar, com seu melhor amigo, Jimin, como várias vezes fizeram. Mas algo em seu tom fez o coração disparar pela primeira vez em tempos. Sua confusão mental, no entanto, se dissipou assim que a porta abriu-se novamente com um leve rangido. Esperando ser um cliente, ela retomou a postura, apenas para deparar-se com sua mãe estampando um sorriso sapeca nos lábios.
— Finalmente ele foi embora! — sua mãe disse, voltando para o salão com um pano de prato nas mãos.
virou o rosto rápido demais, ficando corada com a pergunta.
— Quem?
A mãe ergueu uma sobrancelha, rindo de forma levemente irônica.
— Eu não criei você para se fazer de desentendida, ! Muito menos sonsa.
Ela soltou um suspiro baixo, cruzando os braços atrás do balcão, levemente envergonhada pela constatação. Ela não reprimia seus sentimentos, apenas não queria que eles fossem tão visíveis a todos e deixasse-a vulnerável. Como estava naquele momento.
— Ele só veio tomar café, como sempre.
— Ele sempre vem tomar café. — A mãe se aproximou, encostando no balcão, olhando na direção da porta como se ainda esperasse ver Jimin ali, fazendo questão de enfatizar suas palavras. — Mas hoje demorou mais que o normal.
não respondeu porque sabia que era verdade. Não se sentia desconfortável em ficar muito tempo ao lado do amigo, mas somado ao convite para o jantar e às constatações de sua mãe, ela cogitou enfiar a cabeça em um buraco ali mesmo. Suas bochechas denunciavam sua vergonha, ao passo que ela evitava olhar nos olhos da matriarca.
E aí?
— E aí o quê, omma?
— O que ele queria? — a mãe indagou, impaciente, encarando a filha profundamente.
pegou uma xícara limpa só pra ter algo pra fazer com as mãos; talvez fosse o nervosismo falando mais alto, afinal. Ela odiava se sentir invadida e não costumava falar sobre sentimentos tão íntimos com qualquer pessoa, com exceção da sua terapeuta e o próprio Jimin. Mas aquele não era um assunto que poderia ter com ele, além do risco de perder a amizade do sul-coreano.
— Não foi nada demais…
O silêncio fez-se presente. A mãe encarou a filha agora com ternura, observando o quão linda ela estava: sua franja caía por cima de seus olhos, ao passo que o cabelo estava preso, deixando-a com uma aparência meiga. Aos olhos dela, sempre fora uma boneca. Além da beleza, tinha muito potencial, que infelizmente era escondido por uma insegurança quase que palpável. Ela era uma garota muito tímida que sequer enxergava o próprio potencial. Mas a mãe sim.
!
— Ok, omma. Ele… — começou, tentando manter a voz neutra, porém fechou os olhos por um segundo antes de completar, coçando a cabeça — me chamou pra jantar na beira da praia, mais tarde.
levantou o olhar devagar, encarando-a com receio. Encontrou a feição da mãe carregada com um sorriso calmo e sabido, batendo pequenas palmas em felicidade.
— Finalmente! Esse moleque é muito mole.
Omma!
— O quê? — Ela deu de ombros, completamente tranquila, colocando o pano de prato nos ombros. — Eu só estava esperando quanto tempo vocês dois iam demorar.
sentiu o rosto esquentar novamente. Sua mãe era mestiça, muito leve e descontraída, ao contrário da grande maioria das matriarcas. Aquilo possibilitou que a relação de ambas fosse leve, doce e cercada de companheirismo e carinho. Diferente do seu pai, um homem extremamente conservador.
Omma, não é o que você pensa… Eu acho que ele finalmente vai embora. As coisas estão estranhas entre nós há alguns dias.
— Se isso for verdade, vocês merecem se despedir de verdade. Ou vai continuar escondendo esse sentimento dele e deixá-lo ir sem saber?
Um cliente entrou, atraindo a atenção de ambas. curvou-se em um aceno, olhando para a mãe pela última vez.
— Talvez eu nem vá nesse jantar. Preciso cobrir o turno noturno para fechar o caixa e…
— Ah, você vai sim. O Park é um bom menino e você não fará essa desfeita. Vá para casa e descanse um pouco, eu assumo o turno e fecho a loja.
— Mas, mãe… — Ela fez beicinho, esperando compaixão da mais velha.
A mãe olhou-a feio, em tom de repreensão, tomando o cuidado de falar baixo para que o cliente sentado a poucas cadeiras de distância não os ouvisse.
— Nada de mas, mãe. Vá para casa e apronte-se para o seu encontro. Prometo que seu pai não saberá, guardo esse segredo de amiga. Mas agora vai logo. Se arrume e fique linda.
A mãe deixou-a sozinha com seus próprios devaneios para atender o cliente com uma expressão alegre. Confusa, permaneceu ali, parada, em dúvida se deveria colocar tudo a perder. Ou pior, se aquela realmente fosse a tão despedida de Park, ela sequer saberia como agir. Mas decidiu que o receio não lhe abalaria, se desparamentando e caminhando em direção à sua casa.
Afinal, o que de tão revelador Jimin poderia fazer ou falar em um simples jantar?
Continua…
Nota da autora
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