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Codificada por: Sol ☀️

Finalizada: 22/05/2026.

🌻☀️ 10 ANOS ANTES ☀️🌻

Fazia um mês que Caleb Brayden tinha completado dezenove anos de idade, e seu verão ainda tinha um gosto peculiar de poeira e suor, mas também cheirava ao perfume doce de baunilha que sempre usava.

Ele estava debruçado sobre o motor do John Deere 4440 do avô, uma relíquia verde que insistia em tossir uma fumaça preta sempre que o calor passava dos 30°C. Caleb não se importava em consertá-lo, adorava aquela máquina. Suas mãos estavam sujas de graxa até os pulsos, e a camiseta de algodão cinza marcava as curvas de um corpo que ainda não tinha decidido se era de um menino ou de um homem. Embora tivesse um e oitenta e oito de altura, ele sabia que era "grande demais" para os padrões dos garotos da faculdade, mas ali, entre as engrenagens e o óleo, ele se sentia útil.

— Você está encarando esse motor como se ele tivesse roubado seu almoço, Caden.

Caleb sorriu antes mesmo de se virar, pois só havia uma pessoa no mundo que o chamava daquele jeito, e ele conhecia bem de mais aquele tom de quem passou a tarde inteira sendo a ", a capitã das líderes de torcida", e agora só queria ser a nut — algo interno entre eles — que roubava pêssegos do pomar vizinho.

Ela estava sentada na cerca de madeira negra da fazenda, balançando as pernas calçadas com botas de couro surradas. O cabelo ondulado estava preso em um rabo de cavalo frouxo, e ela segurava duas garrafas de vidro de chá gelado caseiro.

— Ele é teimoso, nut. Igual a você. — Caleb respondeu, limpando as mãos em um pano de prato velho, caminhando até ela.

— Teimosia é uma virtude no Tennessee — ela saltou da cerca, entregando o chá gelado a ele. O vidro frio fez Caleb suspirar de alívio. — Aliás, onde estão Colt e Brice? Faz dois dias que não os vejo.

— Conseguiram emprego na cidade. — Explicou, abrindo a garrafa. — Não veremos a bunda deles por aqui nem tão cedo.

Ela sorriu, contente por seus amigos.

— Minhas amigas foram para Nashville. Queriam ver vitrines na Broadway e comer hambúrguer gourmet.

Caleb deu um gole generoso no chá, sentindo o açúcar mascavo e o limão. Ele olhou para ela, sentindo aquela pontada familiar no peito. era a garota mais bonita da região, o tipo de beleza que fazia os carros diminuírem a velocidade na estrada. E, por algum motivo que ele nunca ousou questionar em voz alta, ela preferia passar as tardes de sábado sentada em um celeiro quente jogando conversa fora com o "garoto gordo da fazenda vizinha".

— E por que você não foi? — ele perguntou, tentando manter a voz casual.

deu de ombros, chutando uma pedrinha no chão de terra.

— Muita gente chata. Muito barulho. E aqui eu tenho você.

Ela esticou a mão e, com o polegar, limpou uma mancha de graxa na bochecha dele. O toque foi leve, quase imperceptível, mas para Caleb, foi como se um raio tivesse atingido o solo seco da fazenda. Ele congelou. não desviou o olhar. Seus olhos castanhos brilhavam com uma honestidade que ele guardaria na memória por dez anos.

Uma honestidade que, mais tarde, ele chamaria de mentira.

— Amanhã tem o culto de domingo — ela quebrou o silêncio. — Minha mãe quer que eu use aquele vestido rosa horroroso. Me salva? Diz que seu avô precisa de ajuda com a cerca sul depois da igreja.

Caleb riu, o som vibrando em seu peito.

— Você quer trocar um vestidinho delicado por arame farpado e repelente de insetos?

— Em qualquer dia da semana, Caleb Brayden. Em qualquer dia.

Eles ficaram ali, conversando e rindo, observando o sol se esconder atrás dos carvalhos centenários. Naquele momento, Caleb teria dado a vida por ela. Ele só não sabia que, em algumas semanas, a vida que ele conhecia seria exatamente o que ele perderia.


Os dias seguintes foram uma sucessão de camisas suadas e conversas jogadas fora sobre o capô da caminhonete velha do avô de Caleb. estava lá quase todas as tardes. Ela chegava com o rádio do carro sintonizado em alguma estação de Nashville, mas logo o desligava para ouvir o som da fazenda.

Naquela quarta-feira, o calor estava tão denso o vento tão abafado que ela sentia que poderia derreter a qualquer momento, sem exageros.

— Caden, se eu ficar parada aqui mais cinco minutos, eu vou derreter e virar uma poça de baunilha no seu gramado — reclamou fazendo careta, abanando o rosto com o chapéu de palha.

Caleb levantou o olhar da cerca que estava pintando. Ele estava ajoelhado, usava uma regata verde-militar, e o sol de julho não perdoava sua pele clara, deixando seus ombros com um tom avermelhado. Ele passou o antebraço pela testa, limpando o suor.

— O riacho deve estar gelado — ele sugeriu, meio sem jeito, sentindo-se consciente demais do próprio peso enquanto se levantava. — Meu avô disse que as chuvas da semana passada limparam o fundo.

saltou da varanda com uma agilidade que sempre o deixava hipnotizado.

— Por que não disse antes? O último a chegar é um ovo podre!

Ela saiu disparada em direção à trilha dos carvalhos, rindo e chutando a poeira. Caleb foi atrás, num trote pesado, rindo também. Ele era gordo, nunca ganharia dela numa corrida, e ambos sabiam disso. parou na beira da água, ofegante, esperando por ele sob a sombra de um Live Oak imenso.

O riacho era o santuário deles. A água corria sobre pedras lisas, criando pequenas quedas d'água que abafavam o som do resto do mundo. tirou as botas e mergulhou os pés, soltando um suspiro alto de satisfação.

— Vem, Caden! A água está perfeita!

Caleb sentou-se na margem, mantendo a camiseta no corpo, relutante em se expor totalmente à luz do dia, mesmo sendo apenas ali. Ele mergulhou as pernas, sentindo o choque térmico maravilhoso.

— Suas amigas não iam gostar de saber que você está aqui, no meio do mato, com os pés na água — Caleb comentou, observando um peixinho passar por entre seus dedos.

parou de balançar as pernas e olhou para ele. O brilho brincalhão em seus olhos sumiram por um instante, substituído por algo mais profundo.

— Elas não entendem, Caden. Elas acham que ser feliz é ter a foto perfeita no mural da escola ou sair com o capitão do time de futebol só porque ele tem uma jaqueta bonita.

Ela se inclinou para o lado, encostando o ombro no dele. O contato fez os pelos do braço de Caleb se arrepiarem.

— Elas acham que você é... bom, você sabe o que elas dizem. Mas elas não conhecem o cara que reconstrói um motor inteiro de olhos fechados ou que sabe exatamente quando eu estou triste sem eu dizer uma palavra. Elas são rasas, Caleb. Eu não quero ser rasa.

Caleb engoliu em seco. Ele queria dizer que ela era o mundo inteiro dele. Dizer que adorava as sardas singelas em seu rosto. Queria dizer que cada vez que ela o defendia, seu coração batia tão forte que ele tinha medo de que ela pudesse ouvir.

— Você é incrível, nut — foi tudo o que ele conseguiu dizer, a voz saindo um pouco mais rouca do que o normal.

deu um sorriso pequeno e doce, e deitou a cabeça no ombro dele. Ali, no silêncio do riacho, Caleb sentiu que o tempo poderia parar. Ele não precisava ser um atleta, um garoto popular ou o mais bonito. Ele só precisava ser ele.

🚜🌱🐎🐂

Era noite de sexta-feira.

O ar no estacionamento do Miller’s estava saturado com o cheiro de asfalto e gasolina, um contraste agressivo com o aroma de feno e terra que Caleb carregava na pele. Encostado na caçamba de sua caminhonete, ele segurava uma garrafa de Dr. Pepper que já transpirava em suas mãos. Ele se sentia um gigante desajeitado ali, com sua camiseta de malha pesada e o jeans manchado de óleo nos joelhos.

Tinha ido à cidade a pedido de seu avô, e aproveitou para encontrar Brice e Colt, seus amigos de infância, mas estavam demorando demais, o que não era do feitio deles. Ele deslizou a mão pelo comprimento da garrafa, afastando o líquido da transpiração que já pingava em suas botas, quando o som de um motor potente e o estouro de risadas femininas anunciaram a chegada de um Jeep Wrangler 2007 vermelho, teto aberto, transbordando garotas que pareciam ter saído de um comercial de catálogo. No banco do passageiro, com o cabelo loiro-escuro chicoteando ao vento, estava .

Caleb sentiu aquele frio familiar no estômago.

— … e aí eu disse que se ele usasse aquele perfume de novo, eu ia processar o olfato dele! — A voz de Chloe, a motorista, era aguda, cortante e completamente irritante.

ria, uma risada que Caleb reconhecia, mas que soava um pouco mais alta, um pouco mais performática. Ela saltou do Jeep com a agilidade de um felino que ele adorava, usando um short jeans curto e uma regata branca com strass prateados que parecia brilhar sob as luzes de mercúrio do posto.

Ela o viu e engoliu seco.

Ele estava lindo com aquele boné preto sob os cabelos negros. Os olhos azuis, a boca rosada, as mãos dele. Para , Caleb Brayden era o cara mais bonito de todo o Tennessee, desde a altura até até o corpo cheinho, mas ela jamais admitiria isso na frente das amigas.

Caleb endureceu os ombros. Ele esperou por aquele olhar de cumplicidade que tinham no riacho, aquele de "nós contra o mundo". Mas o que recebeu foi a versão "Pública" de .

— Olha só quem resolveu sair da toca! — ela exclamou, caminhando em direção a ele. Suas amigas pararam logo atrás, como uma guarda de honra avaliadora.

Ela não foi fria, pelo contrário, ela sorriu abertamente. Mas ela não parou ao lado dele; ela manteve a distância de um braço, o espaço exato que separava "melhores amigos" de "conhecidos de longa data".

— E aí, Brayden? — Ela usou o sobrenome dele. Na fazenda, ele era apenas Caleb, ou Caden. Ali, ele se resumia apenas ao sobrenome. — Trabalhando muito naquelas cercas ou o seu avô finalmente te deu uma folga pra ver gente?

— O de sempre, — ele respondeu, sua própria voz soando estranhamente grave aos seus ouvidos. — Só vim buscar umas coisas pro jantar.

— Oh, que fofo. O homem da provisão! — zombou Chloe lá de trás, e as outras garotas deram risadinhas abafadas. Caleb sentiu o rosto esquentar, a consciência do seu próprio corpo gordo tornando-se um fardo pesado sob o escrutínio daquelas meninas.

não riu com elas, mas também não as calou. Ela deu um passo à frente, ajustando a alça da regata, e por um segundo, seus olhos se encontraram com os de Caleb de verdade. Houve um lampejo, uma fração de segundo onde ela pareceu querer dizer "aguenta firme", mas logo ela se virou para as amigas.

— Ele é o melhor mecânico do condado, meninas. Se o carro de vocês quebrar numa estrada escura, é pro Brayden que vocês vão rezar — ela disse, dando um tapinha amigável e rápido no ombro dele. O toque foi seco, sem a eletricidade de quando ela limpou a graxa do seu rosto no celeiro. — Vamos entrar? Eu tô morrendo de sede.

Ao passar por ele, o vento trouxe o cheiro de baunilha dela. não olhou para trás. Ela entrou na loja liderando o grupo, gesticulando com as mãos, a alma da festa, a garota popular que "era gentil com todo mundo", inclusive com o vizinho gordinho da fazenda.

Caleb ficou ali, segurando sua soda já morna. Ele não estava com raiva, mas havia um nó em sua garganta. Ele entendia as regras daquele jogo, só não sabia que o campo de batalha era tão solitário e injusto.


A poeira do estacionamento do Miller’s parecia estar impregnada na garganta de Caleb quando ele estacionou a caminhonete no pátio de terra batida da fazenda dos avós. O silêncio do campo, interrompido apenas pelo estalido do metal do motor esfriando e pelo coro ensurdecedor dos grilos, era um alívio e um castigo ao mesmo tempo.

Ele não entrou em casa.

Sentou-se no degrau da varanda; as mãos grandes apoiadas nos joelhos, observando a escuridão dos campos de fumo. O poste de luz solitário no final da estrada de acesso balançava levemente, atraindo mariposas desesperadas. Ele sentia o peso de cada quilo do seu corpo, a consciência de que, por mais que ele fosse o "melhor mecânico", ele ainda era o garoto que não cabia no banco de trás de um Jeep Wrangler.

Cerca de quarenta minutos depois, o clarão de faróis cortou a estrada. Ele reconheceu o som do motor e graças a Deus não era o Jeep de Chloe, mas sim o sedã antigo da mãe de . O carro parou no acostamento da propriedade, e uma porta se fechou com um baque seco.

Caleb não se mexeu. Ele ouviu os passos dela na grama alta, um som abafado e rítmico. não estava mais usando a regata branca brilhante; tinha jogado uma camisa de flanela velha por cima, desabotoada, e seus pés estavam descalços. Ela parou a alguns metros da varanda, hesitante. A luz amarelada do poste atingia apenas metade do seu rosto.

— Você saiu de lá sem levar o gelo pro seu avô — sua voz não tinha mais aquele tom teatral do posto de gasolina. Estava baixa, quase fundida com o som do vento nos carvalhos.

Caleb soltou um riso sem humor, sem tirar os olhos do horizonte escuro.

— Esqueci. Acho que a conversa sobre perfumes e processos olfativos me distraiu.

suspirou e caminhou até a varanda, sentando-se no degrau debaixo, de costas para ele, mas perto o suficiente para que Caleb pudesse ver o brilho do seu cabelo sob a luz da varanda.

— A Chloe é uma idiota — murmurou, abraçando os próprios joelhos. — Elas todas são, às vezes.

— Você não pareceu achar isso às seis da noite — Caleb não queria soar amargo, mas a palavra "Brayden" ainda ecoava nos seus ouvidos como uma etiqueta de preço. — "O melhor mecânico do condado". Foi uma boa propaganda, . Obrigado.

virou o rosto por cima do ombro, os olhos fixos nele. Seu rímel não estava borrado, ela não estava chorando, mas havia um cansaço genuíno em sua expressão.

— Eu não queria que elas soubessem o que a gente tem aqui, Caden — ela confidenciou, e a palavra "aqui" pareceu abranger toda a fazenda, o riacho e os últimos seis anos de segredos compartilhados. — Se eu deixasse elas saberem... se eu falasse com você do jeito que eu falo quando estamos sozinhos... elas iam estragar tudo. Elas iam transformar você em uma piada de vestiário, e eu não ia suportar isso.

Caleb assentiu e finalmente olhou para ela.

— Então, pra me proteger, você me trata como o cara que só troca o seu óleo?

baixou a cabeça, apoiando o queixo nos joelhos. Ela esticou a mão para trás e, incerta, tocou a ponta da bota suja dele com os dedos.

— É mais complicado do que parece. Eu sei que sou uma covarde lá fora. Mas aqui... — ela fez uma pausa, e o silêncio entre eles foi preenchido pelo som de um mocho em algum lugar distante. — Aqui eu não sou a capitã de nada. Eu sou só a garota que não sabe a diferença entre um carburador e um radiador. E eu gosto de não saber.

Caleb sentiu a raiva esvair-se dele, substituída por aquela melancolia doce e perigosa que sempre provocava. Ele queria esticar a mão e tocar o ombro dela, dizer que entendia, mas o fantasma das risadinhas das amigas dela ainda flutuava no ar quente da noite.

— Elas apostaram alguma coisa hoje? — ele perguntou, um pensamento súbito e amargo cruzando sua mente.

Ela ficou rígida por um segundo, ele mal notou, mas a tensão em seus ombros tinha mudado.

— O quê? Não. Do que você está falando?

— Nada — Caleb suspirou, recostando as costas na madeira da varanda. — Só achei que o show no posto fizesse parte de algum jogo de pontos.

se levantou lentamente, limpando a terra dos pés descalços. Ela olhou para a casa escura dos avós dele e depois de volta para ele.



— Amanhã eu venho ajudar com a cerca sul. Só nós dois. Tudo bem? Caleb olhou para ela, a silhueta pequena e frágil contra a imensidão do Tennessee.

— Tudo bem, .

Ela deu um sorriso rápido que não chegou totalmente aos olhos, e começou a caminhar de volta para a estrada. Caleb ficou assistindo até que ela sumisse na escuridão, sem saber que aquela "proteção" que ela alegava oferecer era, na verdade, o primeiro tijolo do muro que o esmagaria em poucas semanas.

O sol ainda não tinha força suficiente para queimar a névoa que se agarrava às depressões do terreno quando Caleb começou seu trabalho. O orvalho de julho no Tennessee não era apenas umidade; era uma manta pesada que ensopava as botas e deixava o metal das ferramentas com um toque gelado e escorregadio.

Ele estava no limite da propriedade, onde a cerca de arame farpado se encontrava com a mata fechada de carvalhos. O som rítmico do batedor de estacas era o único barulho que competia com o despertar dos pássaros. Ele usava toda a força do tronco, seus braços largos subindo e descendo, cravando os mourões de madeira tratada no solo que o calcário tornava teimoso.

— Se você continuar com essa pressa, vai atravessar o centro da Terra antes do meio-dia.

Caleb parou o batedor no ar. Ele não precisava olhar para saber que ela estava lá. Ele respirou fundo, o ar fresco da manhã enchendo seus pulmões, e se virou.

estava encostada no tronco de uma tulipeira, usando um macacão jeans surrado por cima de uma camiseta de flanela verde musgo. O cabelo estava preso em duas tranças despojadas e ela carregava um balde de metal com grampos de cerca e um martelo de orelha. Não havia rímel, nem a máscara de "capitã" da noite anterior. Ali, sob a luz filtrada pelas folhas, ela parecia parte da paisagem.

— O velho quer isso pronto antes do calor de rachar começar — Caleb respondeu, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de terra. — Achei que você fosse dormir até tarde depois da "noite agitada" na cidade.

caminhou até ele, ignorando a pontada de sarcasmo. Ela deixou o balde no chão com um baque metálico e pegou o rolo de arame galvanizado.

— Eu disse que vinha, não disse? — Ela olhou para ele, um olhar firme. — Segura a ponta aí, Caden. Vamos fazer isso direito.

Pelos próximos cinquenta minutos, eles trabalharam em um silêncio que só anos de convivência poderiam criar. Ele esticava o arame com uma alavanca de metal, enquanto ela, com a precisão de quem já tinha feito aquilo mil vezes com ele, posicionava o grampo e dava as marteladas certeiras.

— Lembra daquela vez que o seu avô nos pegou tentando "consertar" o galinheiro com fita isolante e chiclete? — perguntou de repente, um sorriso de lado iluminando seu rosto enquanto ela batia o último grampo da seção.

Caleb soltou uma risada rápida, a primeira do dia.

— Eu tinha nove anos, . E você jurou que o chiclete ia segurar a porta se a gente mastigasse por tempo suficiente.

— E segurou! — ela rebateu, limpando uma gota de suor do nariz com o ombro. — Pelo menos até o primeiro galo decidir que queria sair. O vovô Earl riu tanto que quase engasgou com o tabaco.

Caleb parou por um segundo, observando-a. O clima entre eles tinha mudado. A barreira invisível do posto de gasolina tinha derretido com o esforço físico e a familiaridade da terra.

? — ele chamou, a voz baixa.

— Hum? — ela estava concentrada em desenrolar a próxima seção de arame, os dedos ágeis por dentro da luva de couro.

— Por que você gosta tanto de vir pra cá? Digo, você podia estar em qualquer lugar. Na piscina do clube em Franklin com suas amigas ou em Nashville fazendo compras.

parou o que estava fazendo. Ela olhou para o arame em suas mãos, depois para a imensidão verde da fazenda e depois para os olhos azuis intensos dele. Ela se sentia preciosa quando ele a olhava daquela maneira.

— Porque aqui eu não preciso ser um projeto, Caleb — sua voz soou pequena, mas carregada de uma verdade pesada. — Na escola, na cidade, até na minha casa... parece que eu sou uma peça de porcelana que todo mundo fica polindo pra ver se brilha mais. Mas aqui... — ela olhou diretamente nos olhos dele, e ele sentiu o chão sumir por um segundo — ... aqui eu posso ser o arame farpado. Eu posso ser bruta, posso suar, posso errar. E você nunca me olha como se eu estivesse decepcionando alguém.

Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. O cheiro de metal e mato úmido era forte, mas o de baunilha dela ainda estava lá, persistente.

— Você é o único lugar no mundo onde eu não sinto que estou atuando, Caden.

Caleb sentiu um calor subir pelo pescoço que não tinha nada a ver com o sol. Ele queria dizer que, para ele, ela era a coisa mais preciosa daquele condado, estivesse de vestido de seda ou de macacão sujo. Ele queria abraçá-la e beijá-la, dizer que ela era tudo. Mas ele apenas assentiu, apertando o cabo da alavanca.

— Então é melhor a gente terminar essa cerca — ele falou com um meio sorriso que retribuiu de imediato. — Se a gente demorar muito, o seu "lugar seguro" vai ser invadido por um bando de vacas fugitivas.

soltou uma risada clara que ecoou entre os carvalhos, e voltou ao trabalho com a energia renovada. Naquele momento, sob o céu límpido do Tennessee, a aposta das amigas dela parecia algo impossível, uma história de outro mundo que jamais poderia tocar a pureza do que eles estavam construindo ali.


O sol já tinha subido o suficiente para transformar a umidade da manhã em um mormaço que pesava nos ombros, quando o som de um sino de metal — o velho sinal de "hora do rancho" da Vovó Esther — ecoou pela colina.

— Se a gente não chegar na mesa em dois minutos, o meu pai vai comer a minha parte do purê de batata — Caleb avisou, guardando o batedor de estacas na caçamba da caminhonete.

limpou as mãos no macacão, deixando duas manchas escuras de terra no jeans.

— Seu pai? Eu estou mais preocupada com o seu avô. O Capitão Earl não brinca em serviço quando o assunto é frango frito.

Eles subiram na caminhonete. Caleb dirigiu por um curto trajeto até olhar em direção a propriedade dos , ele cerrou os olhos para tentar focalizar melhor e, mesmo ao longe, percebeu a movimentação e que havia um caminhão parado lá. Ele parou o carro abruptamente e encarou , que o olhava assustada.

— Por que tem um caminhão na sua casa? — ele questionou de cenho franzido.

o encarou por um instante sem saber o que responder. Ela não podia falar o que estava acontecendo, ele não a entenderia. Ela abriu a boca algumas vezes sem dizer algo ao certo. Caleb tirou as mãos do volante e passou pelo rosto.

— Papai comprou algumas coisas, acredito que estejam fazendo a entrega.

— E precisava desse suspense todo? — Ele ergueu a sobrancelha.

— Eu estava tentando lembrar… — ela sorriu amarelo, encolhendo os ombros.

Caleb dirigiu em silêncio até a casa principal, uma construção enorme de madeira branca com uma varanda que abraçava toda a fachada. Assim que estacionaram, o som da porta de tela, aquele "pá" seco, anunciou que a casa estava cheia.

A cozinha da Vovó Esther cheirava a Céu: gordura de bacon, milho cozido e o aroma doce de biscoitos de canela recém-saídos do forno. No entanto, estavam todos um tanto estranhos, Caleb percebeu, mas, para mudar o clima, vovô Earl tossiu.

— Olha só o que o gato trouxe pra casa! — Jim, o pai de Caleb, exclamou da cabeceira da mesa. Ele era uma versão mais velha e "curada" pelo sol do filho, com o mesmo brilho brando nos olhos. — Cal, você tá mais sujo que pau de galinheiro, meu filho. E Elle... como você aguenta esse brutamontes a manhã inteira sem ganhar um adicional de insalubridade?

— É pura caridade, Sr. Brayden — respondeu com uma piscadela, deslizando para a cadeira ao lado de Sarah, a mãe de Caleb. — Alguém tem que garantir que ele não pregue os próprios dedos na cerca.

— Senta logo, Cal! — ordenou o Vovô Earl, já empunhando o garfo como se fosse uma arma de guerra. — Seus tios ligaram da Califórnia. Disseram que estão comendo "salada orgânica" no almoço. Coitados... perdi o controle daqueles meninos quando eles cruzaram a divisa do condado.

A mesa era uma confusão barulhenta de travessas passando de mão em mão. Sarah serviu uma concha generosa de molho gravy no prato de Caleb.

— Coma, querido. Você está crescendo — ela sorriu, apertando a bochecha dele.

— Mãe! Eu tenho dezenove anos, não nove — Caleb resmungou, ficando vermelho, o que só serviu para atiçar o resto da família.

— Dezenove anos e ainda dorme com a luz do corredor acesa se o filme for de terror — Earl comentou, mastigando um pedaço de milho. — Lembra daquela vez, Jim? O Cal tinha doze anos e achou que tinha um fantasma no celeiro. Era só o velho cavalo Toby mastigando uma maçã!

— Eu não achei que era um fantasma! — Caleb tentou se defender, mas a risada de já tinha explodido ao seu lado.

— Ele veio correndo pra varanda gritando que o "ceifador" estava no feno! — Jim completou, batendo na mesa de tanto rir. — Ele quase derrubou a porta de tela.

— Elle, você devia ter visto a cara dele — Sarah acrescentou, rindo suavemente enquanto servia mais chá gelado. — Ele estava tão pálido que a gente conseguia ver as veias.

Caleb escondeu o rosto no copo de chá, mas não conseguia evitar o meio sorriso. A vergonha era suportável porque o ambiente era quente, real e cheio de amor. estava inclinada sobre a mesa, rindo tanto que seus olhos brilhavam, totalmente integrada àquela bagunça. Ela parecia mais em casa ali do que em qualquer foto de anuário escolar.

— Bom — disse, recuperando o fôlego e pegando mais um milho — se o Ceifador aparecer hoje no celeiro, eu prometo que protejo ele. Mas vou cobrar em pêssegos.

— Negócio fechado — Earl sentenciou. — Agora, Cal, trate de comer esse quiabo frito. Você precisa de sustento pra aguentar a . Ela fala mais que rádio de caminhoneiro.

O almoço seguiu assim, entre histórias de infância embaraçosas, discussões sobre o preço do gado e planos para o rodeio local. Caleb sentia o calor da perna de encostando na sua por baixo da mesa — um contato casual, talvez acidental, mas que o fazia sentir que aquele era o melhor dia da sua vida.

Ninguém ali falava de "status"ou de quem era mais popular. Eram apenas os Brayden e a garota , como sempre foi e como Caleb, ingenuamente, achava que sempre seria.

🚜🌱🐎🐂

O calor da tarde pesava sobre a varanda, e o som dos pratos sendo lavados na cozinha por Sarah e Esther servia como um pano de fundo doméstico e reconfortante. Caleb e estavam sentados nos degraus, dividindo um último pedaço de torta de pêssego diretamente da fôrma.

A paz, no entanto, foi interrompida pelo zumbido insistente do celular de . O aparelho, jogado casualmente sobre a madeira seca da varanda, vibrou com uma sequência de notificações que pareciam bicar o silêncio.

Caleb notou a mudança imediata na postura dela. não apenas pegou o telefone; ela se encolheu levemente, como se estivesse tentando esconder a tela dele.

— É a Chloe? — Ele perguntou, tentando manter o tom leve, mas sentindo uma fisgada de ansiedade.

— É o grupo — respondeu rápido, os dedos voando sobre o teclado. — Elas estão no lago do Condado de DeKalb. Alugaram um barco e disseram que a água estava ótima e que o "pessoal de Nashville" trouxe um som novo.

Ela bloqueou a tela e olhou para o horizonte, onde as nuvens começavam a se amontoar, pesadas e escuras. O ar estava mudando. O vento trazia aquele cheiro característico que precede uma tempestade de verão no Tennessee.

— Você quer ir? — O peito de Caleb apertou. Ele sabia que "o pessoal de Nashville" significava garotos sarados com carros velozes e camisas de linho, gente que não tinha terra sob as unhas.

suspirou, passando a mão pelo cabelo.

— Elas estão sendo... persistentes, Caden. Dizem que eu sumi. Chloe postou uma foto da minha caminhonete ontem no posto e as meninas estão fazendo piada, dizendo que eu virei "nativa".

Ela forçou um riso, mas não havia alegria nele. O telefone vibrou novamente. Desta vez, um vídeo começou a tocar antes mesmo de ela silenciar. Caleb captou um vislumbre: luzes coloridas, música alta e o rosto de Chloe rindo com um copo vermelho na mão.

", cadê você? A aposta ainda tá de pé ou você amarelou? O relógio tá correndo, Barbie do Campo!" — a voz de Chloe saiu distorcida pelo alto-falante antes de abafar o som.

O silêncio que se seguiu foi denso. Caleb olhou para , as sobrancelhas franzidas.

— Aposta? Que aposta, ?

sentiu o sangue fugir do rosto. Ela deu um sorriso rápido, nervoso, e se levantou, limpando o jeans.

— Nada, Caleb. Coisa de menina bêbada no sol. Elas apostaram quem conseguia ficar mais tempo sem checar o Instagram ou algo idiota assim. Você sabe como elas são.

— Você pareceu estranha agora — ele insistiu, levantando-se também. Ele era muito maior que ela, uma presença sólida que geralmente a acalmava, mas agora parecia pressioná-la.

— Eu só estou cansada de ser cobrada, só isso — ela disse, e desta vez havia uma ponta de irritação na voz, uma barreira que ela erguia sempre que se sentia encurralada entre os seus dois mundos. — Eu vou levar essas coisas pra sua avó. A chuva vai cair logo. É melhor a gente guardar as ferramentas antes que o celeiro vire um rio.

Ela pegou a fôrma de torta e entrou na casa sem olhar para trás. A porta de tela bateu com um som que, para Caleb, soou como um aviso.

Ele ficou parado na varanda, observando o primeiro clarão de um relâmpago distante. O celular dela tinha aberto uma fresta em um mundo que ele não entendia, e pela primeira vez naquele dia de trégua, Caleb sentiu que a grama sob seus pés não era tão firme quanto imaginava. Lá dentro, estava encostada na pia, a respiração pesada se misturava a sua vontade de chorar, o coração batendo na garganta. Ela olhou para a tela do celular. Uma nova mensagem de Chloe brilhava:

Chloe Desprezível 💀 : Cinco mil dólares e o meu carro são seus, Barbie do Campo. Ou você beija o Grandão e filma, ou a gente conta pra todo mundo que você passou as férias limpando bosta de vaca por opção. Decide logo que eu não tenho o dia todo. Beijinhos 🥰


fechou os olhos. Ela amava o Caleb. Ela odiava aquele lugar, mas amava o que sentia quando estava com ele. Só que, aos dezessete anos de idade, o medo de ser a "piada do vestiário" era uma força da natureza tão implacável quanto a tempestade que começava a desabar sobre o vale.

O céu do Tennessee não mudou de cor aos poucos; ele simplesmente desabou em um tom de cinza-azulado, quase da cor de um hematoma. O vento, que antes era apenas um sopro quente, agora uivava entre os carvalhos, trazendo o cheiro de terra molhada e ozônio.

— Cal! As janelas do celeiro! — a voz de Sarah veio de dentro da casa, abafada pelo primeiro trovão que sacudiu as tábuas da varanda.

Caleb não respondeu, mas já estava em movimento. Ele saltou os degraus e começou a correr em direção ao grande celeiro de madeira escura. saiu da cozinha logo atrás, o rosto pálido, a camisa de flanela batendo contra o corpo conforme o vento ganhava força.

Eles entraram no celeiro no exato momento em que as nuvens se rasgaram e um trovão terrivelmente alto estrondou. O som da chuva atingindo o telhado de zinco foi como um disparo de metralhadora, ensurdecedor e absoluto.

— Ajuda aqui! — Caleb gritou, puxando a imensa porta de correr de madeira.

agarrou a outra extremidade, seus dedos pequenos sumindo na madeira bruta. Juntos, eles forçaram a porta contra o vento até que ela se fechasse com um baque que estremeceu o chão. O silêncio que se seguiu não era total, a chuva lá fora era um rugido constante, mas ali dentro, sob a luz fraca das lâmpadas de filamento, o mundo parecia ter encolhido para o espaço entre eles.

Caleb estava ofegante, o suor da tarde e a água da chuva brilhavam em seus braços largos. Ele se virou para , a desconfiança da varanda ainda queimando como brasa no fundo de seus olhos azuis.

, o que era aquilo? — ele perguntou, a voz rouca sobrepondo-se ao som da tempestade. — "A aposta ainda está de pé". Foi o que a Chloe disse.

encostou as costas na porta fechada. O coração dela batia tão forte que ela achava que Caleb podia vê-lo sob a camisa. Ela olhou para as mãos, sujas pela porta de madeira, e depois para ele.

— Elas são maldosas, Caden. Elas criam jogos porque não têm nada real na vida delas — ela começou, a voz trêmula. — Elas não entendem o que eu sinto quando estou aqui. Elas acham que tudo é um troféu ou uma piada.

— E eu sou o quê? — Caleb deu um passo à frente. Ele era uma presença imensa naquele celeiro, a luz criando sombras profundas em seu rosto. — Eu sou o troféu ou a piada, nut? Porque eu ouvi o meu nome. Ou pelo menos o que elas me chamavam na escola.

sentiu uma lágrima quente teimar em cair. Ela não queria que fosse assim. Ela queria que o tempo parasse no almoço, nas risadas do Vovô Earl.

— Você é a única coisa que me faz sentir que eu não estou afundando — ela sussurrou, dando um passo em direção a ele. — Aquela aposta... elas queriam que eu me aproximasse de você por um motivo idiota. Mas elas não sabem que eu já estava aqui há anos. Elas não sabem que eu te amo desde que a gente tinha doze anos e você dividiu seu lanche comigo atrás do ginásio.

Caleb parou. O "eu te amo" atingiu-o com mais força do que qualquer trovão. Ele queria acreditar. Ele precisava acreditar. Sua insegurança, aquele garoto gordinho que sempre se achou "menos", lutava contra a imagem da garota mais bonita do mundo declarando-se para ele em um celeiro cercado pela chuva.

— Você não precisa provar nada pra elas, nut — ele disse, a voz amolecendo. — Se você me ama, manda elas pro inferno.

olhou para ele, e naquele momento, a dualidade da sua vida pesou como chumbo. Ela queria mandar o mundo pro inferno, mas ela tinha dezessete anos e o medo do ostracismo era uma prisão. No entanto, ao olhar para Caleb, para a honestidade nos olhos dele, para a força calma que ele emanava, ela tomou uma decisão desesperada. Ela ia ganhar a aposta para calar a boca delas, mas ia se entregar a ele porque era o que ela mais desejava.

Ela encurtou a distância. Suas mãos pequenas e frias subiram pelo peito quente de Caleb, sentindo a batida descompassada do coração dele sob a camiseta.

— Cala a boca, Caleb Brayden — ela murmurou, puxando-o pela gola.

Quando os lábios dela tocaram os dele, Caleb esqueceu a Chloe. Esqueceu as risadas no posto de gasolina. Esqueceu até da chuva. O beijo tinha gosto de torta e pêssego. Caleb a envolveu em seus braços, erguendo-a do chão como se ela não pesasse nada, e se agarrou a ele com uma força que beirava o desespero.

Eles se moveram para o feno seco, onde a luz não chegava totalmente. Ali, entre o cheiro doce do campo e o som rítmico da tempestade no telhado, Caleb e se entregaram ao que vinham reprimindo há anos. Para Caleb, foi o momento mais sagrado de sua vida. Cada toque de parecia uma promessa de que ele era suficiente, de que ele era o homem que ela escolheu.

Mas enquanto ele a abraçava na penumbra, sentindo o calor do corpo dela contra o seu, mantinha os olhos fechados, uma parte de sua mente já calculando como ela explicaria aquilo para as amigas sem perder a alma no processo e a outra realizada por finalmente tê-lo. Ela tinha o beijo. Ela tinha o vídeo — que ela gravou escondida, em um ângulo que Caleb jamais perceberia.

Ela tinha vencido a aposta. Mas o preço, ela descobriria dez anos depois, seria a única coisa que realmente importava.

⛈️

A tempestade tinha diminuído para um sussurro rítmico no telhado, e o ar dentro do celeiro estava pesado com o cheiro de chuva e feno fresco. Caleb estava deitado de lado, com o rosto apoiado na palma da mão, observando como se ela fosse um milagre que pudesse evaporar a qualquer segundo.

Ele esticou a mão e traçou a linha do ombro dela com a ponta dos dedos, um toque tão reverente que fez querer gritar.

— Eu não consigo acreditar que isso aconteceu — Caleb sussurrou todo bobo, a voz carregada de uma paz que nunca tinha visto nele. — Eu passei tanto tempo achando que eu era invisível pra você, nut. Que eu era só o cara que consertava suas coisas.

forçou um sorriso, mas seus lábios pareciam feitos de ósmio. Ela fungou, os olhos ficando marejados. Ela se sentia nua, e não era pela falta de roupas, mas pela forma como Caleb a olhava com uma alma escancarada, sem defesas, com aqueles olhos azuis intensos pelos quais ela sempre seria apaixonada.

— Você nunca foi invisível, Caden — ela confessou, e por um segundo, a verdade foi tão forte que quase a fez confessar tudo. Quase.

Ela tateou o feno ao lado do corpo, seus dedos encontrando o metal frio do celular que ela tinha escondido sob a camisa de flanela. O aparelho vibrou silenciosamente. Uma notificação de Chloe. nem precisava ler para saber que era uma cobrança.

? — Caleb chamou, percebendo o olhar dela se perder na penumbra. — Tá tudo bem? Você está arrependida?

Ele se sentou ao seu lado, a insegurança voltando a marcar seus olhos. O "garoto gordinho" estava pronto para se desculpar por ter sido feliz demais.

— Não! — ela respondeu rápido demais, segurando a mão dele. — Não, Caleb. Nunca! Jamais! É que parou de chover... eu só preciso ir pra casa ver como meus pais estão e se já descarregaram o caminhão, eu só preciso…

— Eu sei. Eu te levo. — Se prontificou, já se levantando com aquela agilidade protetora.

Enquanto ele se vestia de costas para ela, pegou o telefone. Com os dedos trêmulos, ela abriu o arquivo da gravação. Estava lá. O beijo. A entrega. O melhor e o pior momento da sua vida em uma única noite. O troféu que compraria seu silêncio com Chloe, mas que custaria cada grama de paz que ela tinha no coração. Ela editou o vídeo cortando boa parte dele e enviou o arquivo para o grupo.

No segundo em que o ícone de "entregue" apareceu, sentiu algo se quebrar dentro de si. Ela não tinha apenas ganhado uma aposta; ela tinha acabado de exilar a si mesma daquele mundo de pêssegos, risadas de avô e cheiro de terra. Ela tinha acabado de se excluir da vida do rapaz que ela amava, quebrando a confiança que tinham.

Caleb se virou, estendendo a mão para ajudá-la a levantar.

Sem ao menos perceber, começou a chorar copiosamente, sua mente pesando toneladas. Caleb ficou aflito, sem entender o motivo das lágrimas, por um minuto pensou tê-la machucado.

nut, eu te machuquei? O que houve? — A voz de Caleb era doce e preocupada, o que a fez chorar um pouco mais.

Ela respirou fundo e olhou para ele, tentando secar o rosto molhado com o dorso da mão, mas à medida que ela tentava, mais lágrimas escorriam.

— Por favor, Caden… — soluçou sôfrega. — Não esquece nunca que eu amo você, tá bom? — ela pegou a mão de Caleb e pousou sob seu peito para que ele sentisse seu coração batendo descompassado. — Eu amo você. Eu amo você. Eu sempre vou amar você. Você me entendeu?

— Eu te amo desde os meus dez anos, Marie — ele deu de ombros como se fosse óbvio, seus lábios sorriam. — E vou continuar amando, não importa quantos anos passem.

, ainda em lágrimas, o abraçou o mais forte que pôde, ele retribuiu com mais intensidade. Ela se aninhou nos braços dele pedindo a Deus para jamais esquecer aquele calor inebriante que ele emanava e nem a forma como ele afagava seus cabelos entre os dedos.

— A gente se vê amanhã no culto dominical? — ele perguntou, com um brilho de esperança e amor que sabia que seria o último que ela veria por muito tempo.

Ela umedeceu os lábios.

— Amanhã eu vou à cidade com meus pais. Mas pode ser na segunda-feira. Tudo bem? — ela mentiu, a voz firme por fora e em frangalhos por dentro.

— Segunda-feira. — Ele concordou contente, segurando sua cintura.

Ele insistiu em levá-la, mas ela quis ir embora sozinha.

Ela o beijou uma última vez, um beijo profundo e apaixonado, mas que tinha gosto de adeus, embora ele achasse que era de "até logo". Quando ela caminhou em direção à porta do celeiro, deixando Caleb parado naquela luz amarelada, soube que o Tennessee nunca mais seria verde para ela.

A partir daquela noite, tudo seria cinza.

A Partir daquela noite, não teria mais volta.

🚜🌱🐎🐂

No domingo, como de costume, mas se sentindo flutuando, Caleb se organizou cedo e foi para o culto dominical como havia combinado com Colt e Brice. Prestou atenção no sermão pregado, conversou com Deus pedindo perdão por ter cruzado a linha com antes do casamento, mas prometeu que ela seria sua esposa de qualquer jeito, só havia antecipado a lua de mel. Riu da própria ousadia, e pediu perdão novamente.

Os rapazes foram passar o resto do domingo com ele, afinal já eram da família. Colt, sempre animado contando suas peripécias no serviço e das garotas com quem saía; Brice, o mais equilibrado dos dois, contou sobre seu namoro e que estava pensando em pedir a garota em casamento o mais rápido que pudesse assim que estivesse estabilizado entre emprego e faculdade. Caleb contou as novas sobre ele e — não entrou em detalhes sobre o que tinha acontecido, contou apenas que se beijaram bastante —, sendo ovacionado por eles, que soltaram um “finalmente” muito sincero.

E o dia se seguiu com eles comendo, bebendo e conversando na varanda com vovó Earl, o pai de Caleb e alguns funcionários da propriedade, uma reunião só de homens dividindo a rotina com a experiência.

Na segunda-feira, Caleb se permitiu dormir um pouco mais para tentar aplacar a ansiedade, mas acordou antes mesmo do despertador tocar. O sol entrava pelas frestas da cortina do seu quarto desenhando linhas douradas no assoalho de madeira. Ele se sentia invencível, incrível, maravilhoso e grande — e isso não tinha nada a ver com seu peso ou altura. O cheiro de parecia estar impregnado em seus lençóis, na sua pele, no ar que ele respirava.

Ajudou seu avô e seu pai com plantação de fumo, pelo menos com o que tinha sobrado depois daquela tempestade repentina, mas sempre olhando em direção da cerca dos ao longe. Seu pai notou a inquietação, mas resolveu não se intrometer nos assuntos do filho. Caleb sequer conseguiu almoçar direito, impaciente com a demora do relógio. não havia enviado nenhuma mensagem, mas ele não precisava delas para saber que ela estava o aguardando ansiosa também.

Ao cair da tarde, ele se vestiu com sua melhor camisa de botões, penteou o cabelo com um cuidado que raramente tinha e desceu as escadas saltando degraus.

— Vai a algum lugar, filho? — sua mãe perguntou da cozinha, surpresa ao vê-lo tão cheiroso e arrumado.

— Vou até Franklin encontrar Brice e Colt — Ele enfiou as mãos nos bolsos frontais da calça meio sem jeito, ele detestava mentir.

— Sei… Não sabia que precisava se lamber todo para vê-los. — Sua mãe usou de tom sugestivo, já com um sorriso ladino.

Caleb bufou. As pontas das orelhas subitamente quentes sob o olhar atento que ela o lançou entre a porta da cozinha. Ele alcançou o stetson shantung no cabideiro com uma pressa que não era do seu feitio, tentando escapar do cerco de perguntas da mãe.

— É só uma bebida com os rapazes, mãe — ele murmurou, sem convencer absolutamente ninguém. — Tá legal. Eu vou passar na casa da primeiro. Ver se ela precisa de uma carona, algo assim.

Encaixou a palha clara na cabeça e puxou a aba para baixo, criando uma sombra que escondia o embaraço nos olhos. O gesto era sua forma sutil de dizer “o assunto se encerra aqui”.

— Tá okay, garanhão. — Ela se aproximou dele, ajeitando o colarinho da camisa. — Divirta-se, meu amor.

Caleb assentiu, depositou um beijo nos cabelos escuros da mãe e saiu. Pegou a caminhonete e dirigiu pela estrada de terra, assobiando uma melodia clássica de George Strait. Mas, conforme se aproximava da propriedade dos , o assobio morreu.

O portão de madeira, que sempre ficava aberto, estava encostado. Não havia o sedã da mãe de na entrada, nem o esportivo de seu pai. Na verdade, a varanda, que costumava ter cadeiras de balanço e muitos vasos de flores, estava vazio.

Caleb estacionou e saltou, o coração começando a bater em um ritmo irregular.

? — ele chamou, subindo os degraus.

Ele espiou pela janela da sala. Também estava vazia. Não havia tapetes, nem fotos nas paredes, apenas as marcas retangulares onde os móveis costumavam ficar. No meio da sala, uma única caixa de papelão aberta e esquecida. O silêncio daquela casa era ensurdecedor. Eles tinham ido embora? Assim, de repente? Sem um bilhete, sem uma ligação? Sem o "pode ser na segunda-feira".

Ele sacou o celular do bolso e discou o número de e nada, sequer chamava. Caleb sentiu um frio subir pela espinha que nem o sol do Tennessee conseguiria aquecer. Voltou para a caminhonete, as mãos tremendo no volante. Ele precisava de respostas. E só havia um lugar onde ele as encontraria: o Miller’s.

O estacionamento do posto estava cheio de jovens prontos para uma festa em plena segunda-feira ou para o rio, era comum alugar barcos para festejar na água à noite. O Jeep de Chloe estava lá, a música alta batendo contra as paredes de tijolos da loja.

Caleb desceu da caminhonete sem sequer fechar a porta, os passos ligeiros. Ele não parecia o Caleb gentil de sempre; seus olhos azuis estavam escuros, focados. Ele caminhou direto para o grupo de garotas que riam histericamente ao redor de uma mesa de metal.

— Onde ela está? — Ele perguntou, a voz saindo mais baixa e perigosa do que ele pretendia.

As risadas pararam. Chloe virou-se lentamente, segurando um copo de café gelado. Ela olhou Caleb de cima a baixo, um sorriso de lado, afiado como a lâmina de um cutelo, cortando seu rosto.

— Ora, se não é o herói da noite — Chloe zombou, olhando para as amigas, que trocaram olhares maliciosos. — Procurando a sua Julieta, Brayden?

— Eu fui na casa dela. Está vazia. Onde os foram?

Chloe soltou uma risada forçada.

— O pai dela conseguiu uma transferência para Nova Iorque que estava esperando há meses. Eles saíram de madrugada. No domingo. não te contou? Achei que vocês tivessem tido uma noite de... "despedidas" bem intensa.

Caleb sentiu o sangue sumir do rosto.

— Ela ia me contar hoje. A gente...

— A gente o quê, Caleb? — Chloe se levantou, aproximando-se dele. — Meu Deus, olha pra você! — Exclamou irritada. — Um gordo alto e desajeitado! Achou mesmo que ela ia querer um esquisito como você? Você não se enxerga? — As pálpebras de Caleb trepidaram, ele comprimiu os lábios.

Chloe soltou mais uma risada, revirando os olhos. Ela tirou o celular do bolso traseiro do short jeans, desbloqueou a tela com um movimento casual e continuou:

— Você realmente achou que a , a garota que pode ter qualquer um em todo o Tennessee, ia se amarrar ao garoto que cheira a estrume de vaca, por livre e espontânea vontade? — Ela virou a tela para ele.

Caleb sentiu o estômago congelar e seu mundo girar. Era o vídeo do celeiro. A luz fraca, o som da chuva ao fundo e eles. Ele sendo vulnerável, se entregando à garota que ele amava. O ângulo era perfeito. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.

Caleb sentiu os olhos arderem, a esclera ganhando um tom vermelho imediatamente, a mão direita começando a tremer. O peito subindo e descendo em um ritmo que ele não estava conseguindo controlar direito, se é que podia. Ele nunca imaginou ser exposto daquela maneira, ainda mais por alguém em quem confiava de olhos fechados, alguém com quem tinha compartilhado os melhores momentos de sua vida desde a infância.

Por um momento, ele quis que tudo aquilo fosse mentira e ainda estivesse deitado em sua cama na fazenda. Mas não era mentira, porque haviam se beijado e se entregado, e a prova estava ali, nas mãos da garota mais infeliz do condado. O vídeo não estava completo, terminava exatamente no momento em que Caleb tirava a camiseta. Ele fechou os olhos por um instante.

— Cinco mil dólares e um Wrangler novinho — Chloe sussurrou, a crueldade brilhando em seus olhos. — Esse foi o preço do seu "momento sagrado", Romeu. Ela cumpriu a aposta. Ganhou o prêmio e foi embora rindo da sua cara. Ela ainda disse que se precisasse te beijar mais uma vez pra ganhar o carro, ela provavelmente vomitaria.

Caleb não ouviu o resto. O som das risadas das garotas ao redor tornou-se como o som de uma faca arranhando uma superfície de vidro, distante. Ele olhou para a tela do celular mais uma vez, vendo sua própria imagem, o garoto ingênuo, o gordo idiota que acreditou no amor, e sentiu algo se quebrar irremediavelmente dentro do seu peito.

Não foi um estalo; foi um desmoronamento silencioso.

Aturdido, ele se virou sem dizer uma palavra. Ele não chorou, mesmo que quisesse muito. A dor era profunda demais para lágrimas; era uma dor que pedia por dureza, por isolamento, por mudanças. Foi uma humilhação, uma tremenda vergonha, mas não desabaria na frente delas. Enquanto caminhava de volta para a caminhonete, Caleb deixou o garoto de dezenove anos naquele estacionamento. Ele dirigiu de volta para a fazenda, passou pelo trator John Deere verde do avô imaginando quantas vezes mentiu pra ele enquanto trabalhava no carburador daquela máquina.

A partir daquele dia, Caleb não mencionou o nome dela uma vez sequer, e quando sua família mencionava, ele simplesmente saia de perto ou fingia não ouvir. Três meses após a partida dos , ele ingressou na faculdade e se dividiu entre uma graduação em Agronomia e um técnico em Agropecuária, era o que ele realmente gostava de fazer.

Alguns meses depois, a fazenda começou a passar por problemas após seu pai ter sofrido um acidente de carro, deixando sequelas em sua perna esquerda, o que o impossibilitava do trabalho árduo na lida. Então a produção de fumo parou completamente.

Vovó Earl, após uma séria conversa com seu filho Jim, tomaram a decisão de passar as terras para o nome de Caleb. Seus tios vieram da Califórnia e assinaram os papéis necessários para que ele se tornasse o dono legal daquele lugar. Não havia ninguém melhor do que ele para herdar aquele pedacinho de paraíso.

Caleb trabalhava dia após dia, mesmo quando sentia seus ossos doerem ele não desistia. Começou a cuidar de si mesmo no processo e já não era mais motivo de piadinhas por conta do seu peso. Ano após ano ele progrediu em fazer aquela terra crescer com a ajuda da família, de alguns funcionários que permaneceram mesmo quando a situação não estava favorável, e principalmente com a ajuda de Colt e Brice, seus dois braços direitos.

As terras foram expandidas, o Ranch-Farm Brayden nasceu e Caleb Brayden agora era um homem completo e, em todas as suas vitórias, ele honrava e agradecia a Deus pelos feitos.

Era verdade que ele mascarou todo o sofrimento com o trabalho e os avanços. Mas era à noite, no silêncio de seu quarto, que ele se deixava perturbar por pensamentos. Isso aconteceu por anos, até conseguir controlá-los.

tinha levado o coração dele para Nova Iorque. Pois que ficasse com ele. Ele não precisaria mais dele para o que viria a seguir.

🌱🌾 10 ANOS DEPOIS 🌾🌱

O despertador nem precisava tocar. O corpo de Caleb tinha um relógio biológico ajustado pelo peso dos fardos de feno e pela teimosia das cercas. Ele se levantou, jogou água gelada no rosto e encarou o espelho. O reflexo não mostrava mais o passado vulnerável; mostrava um homem de 29 anos, robusto, com cicatrizes leves nas mãos que contavam histórias de motores consertados e touros domados.

Ele desceu as escadas da casa principal, onde o cheiro do café da Vovó Esther ainda era a única coisa que não tinha mudado em uma década.

— Bom dia, Capitão — Caleb o saudou, dando um tapinha no ombro do Vovô Earl, que estava sentado na varanda, observando o horizonte. — O senhor vai me ajudar a vacinar o gado hoje ou vai ficar aí fingindo que está lendo o jornal de ontem?

Earl soltou uma risada rouca acompanhada de uma tosse fingida.

— Eu já vacinei mais gado do que você tem de fios de barba, moleque. Hoje eu vou só supervisionar o seu desastre.

— Justo — Caleb sorriu com um canto da boca, o sarcasmo afiado. — Alguém precisa garantir que as vacas não se sintam ofendidas com a minha presença rústica.

O avô tirou o chapéu em reverência, rindo em seguida.

Na mangueira, o clima era puramente "agro". Caleb trabalhava com Brice e Colt, seus irmãos de consideração — homens que, como ele, preferiam o cheiro de couro e diesel ao ar-condicionado de Nashville. Eles também mudaram muito nesses dez anos. Brice, o mais velho dos três, realmente se casou com a namorada, mas agora, aos trinta e dois anos, estava em processo de divórcio devido à frustrações pessoais da esposa; Colt ainda era o Colt, só que agora ele tinha vinte e sete anos.

Caleb estava no centro da ação, segurando um novilho de trezentos quilos com a facilidade de quem carrega uma sacola de compras. Seus bíceps saltavam sob a pele bronzeada, e o suor limpava a poeira que subia do curral.

— Caramba, Brady! — Colt exclamou, limpando o rosto. — Você tomou o quê no café? Brita com óleo de motor? O bicho quase não se mexeu na sua mão.

— É técnica, Colt — Caleb respondeu, soltando o animal e limpando a mão no jeans. — E um pouco de ódio acumulado contra o sistema. Se você passasse menos tempo postando foto de "caubói de Instagram" e mais tempo carregando sal pro gado, talvez seus braços não parecessem dois gravetos de salgueiro.

Brice gargalhou, batendo no portão de ferro.

— Tomou, Colt! O patrão acordou inspirado hoje.

— Alguém tem que carregar esse lugar nas costas — Caleb ironizou, pegando uma garrafa de água e bebendo metade de um gole só. — As hortaliças não vão se colher sozinhas e o gado não tem plano de saúde. Vamos logo, o sol não ganha por hora e nós também não.

O Ranch-Farm agora era diverso. Caleb tinha expandido para o gado de corte, mas seu orgulho eram as plantações de hortaliças orgânicas que abasteciam os melhores restaurantes de Nashville, e com a qual ele também alimentava seus próprios animais. Ele era o "Homem do Agro" raiz: rústico por fora, mas com uma mente afiada para os negócios.

À tarde, ele estava verificando o sistema de irrigação. Brice se aproximou, limpando a graxa de uma chave inglesa.

— Ei, Brady. Vai ter música ao vivo no The Bluebird hoje à noite. O pessoal de Franklin vai estar lá. Algumas garotas perguntaram por você.

Caleb nem levantou a cabeça do cano que estava ajustando.

— Diga a elas que eu estou muito ocupado tendo um relacionamento sério com a minha produtividade. O compromisso é eterno e a manutenção é barata.

— Qual é, cara! — Brice insistiu, dando um tapa nele. — Faz quanto tempo que você não sai com alguém que não tenha quatro patas ou raízes?

Caleb se levantou, imponente, limpando a graxa da mão. Ele olhou para Brice com um sorriso sarcástico que não chegava aos olhos.

— O amor é um erro de cálculo que eu parei de cometer aos dezenove, Brice. Agora eu prefiro investir em coisas que, se eu der atenção e comida, elas não fogem com um Jeep no meio da noite.

— Você é um cínico — Brice balançou a cabeça, rindo.

— Eu sou um homem prático — Caleb retribuiu o tapa no ombro do amigo. — Agora, vai terminar de conferir o trator. Se o motor bater, eu vou descontar na sua conta de cerveja.

Caleb caminhou de volta para a caminhonete, sentindo o sol do Tennessee na nuca. Ele era o jovem dono daquela terra, respeitado por todos, desejado por muitas e com as contas no azul. Ele tinha tudo o que um homem poderia querer, inclusive paz.

Exceto, talvez, pelo nome que ele evitava mencionar. Mas isso, ele jurava para si mesmo, era apenas uma questão de estética, não de memória.

🚜🌱🐎🐂

O sol ainda não tinha cruzado a linha do horizonte quando Caleb calçou suas botas de couro de cano alto. O couro estava gasto nos pontos certos, moldado por anos de caminhadas por pastos úmidos e subidas em cercas de madeira. Ele não precisava de espelho para saber que a camiseta de algodão cinza estava esticada demais nos ombros; ele simplesmente sentia o peso do próprio corpo, uma massa sólida de músculo que ele havia construído como quem ergue uma fortaleza.

Ele desceu as escadas da velha casa colonial em silêncio. No andar de baixo, o cheiro de café fresco já dominava a cozinha. Vovó Esther estava de pé junto ao fogão, mexendo uma panela de ferro com a mesma paciência que tinha há sessenta anos.

— O vovô já está lá fora, não está? — ele perguntou, sua voz soando como o cascalho de uma estrada seca, profunda e levemente rouca pelo sono.

— Está na varanda tentando convencer o cão que ele ainda consegue caçar esquilos — Sua avó respondeu sem se virar, mas Caleb viu o sorriso no canto do seu rosto enrugado. — Tome seu café, Cal. Você trabalha demais para um homem que ainda não chegou aos trinta.

— Alguém tem que garantir que essas vacas não decidam se aposentar antes de mim, Vovó — Caleb retrucou, servindo-se de uma caneca de cerâmica lascada. Ele deu um gole longo, sentindo o líquido quente despertar seus sentidos. — E o senhor Earl precisa de alguém para reclamar durante o dia. É o que mantém o coração dele batendo.

Ele saiu para a varanda lateral. O Vovô Earl estava sentado em sua cadeira de balanço, com um chapéu de feltro encardido enterrado até as sobrancelhas. Ao lado dele, um Border Collie chamado Buster batia o rabo no chão ritmicamente.

— Vai vir chuva por esses dias. Talvez tempestades. Meu joelho está danado daquele jeito — Earl sentenciou, sem olhar para o neto. — O joelho tá avisando. Se eu fosse você, Cal, terminaria de carregar o caminhão das hortaliças antes das duas.

— O joelho ou o rádio meteorológico que o senhor ouviu às cinco da manhã, Capitão? — Caleb ironizou, encostando-se no pilar da varanda. Ele cruzou os braços imensos, e o sol nascente iluminou a barba escura e bem desenhada que agora escondia qualquer traço do garoto de bochechas redondas que ele um dia fora.

— Respeite minha experiência, seu moleque — o velho riu, tossindo um pouco. — E trate de não quebrar o trator novo. Aquele verdinho custou caro demais para você encher de barro até o teto.

— O barro é o que mantém a engrenagem no lugar — Caleb respondeu com um meio sorriso sarcástico. — Vou encontrar Brice e o Colt na mangueira. Temos duzentas cabeças para vacinar antes do almoço hoje.

Caleb caminhou em direção ao curral, o som de suas botas na terra batida era um metrônomo de autoridade. Onde antes havia apenas fumo e dívidas, agora pulsava uma fazenda diversificada. Ele investiu em gado Black Angus de linhagem pura e em hectares de hortaliças que faziam os restaurantes do Tennessee implorarem por uma entrega. Ele era um homem de negócios que não tinha medo de enfiar as mãos na terra.

No curral, o som era uma sinfonia rústica: o mugido baixo do gado, o estalo das porteiras de metal e o ronco de uma caminhonete se aproximando. Brice e Colt chegaram cantando alto, já devidamente uniformizados com jeans sujos e bonés de aba curva.

— Olha ele! O imperador do Condado de Williamson — Colt gritou, batendo a porta da caminhonete. — Como tá o corpo hoje, Brady? Pronto para segurar uns bezerros ou o café da Vovó te deixou mole?

— Eu seguro o bezerro e você, Colt. Ao mesmo tempo — Caleb devolveu, jogando um par de luvas de couro para o amigo. — Se você parar de falar por cinco minutos, talvez a gente termine isso antes de eu ficar velho como o meu avô.

— Ele acordou romântico hoje, Colt — Brice comentou, rindo enquanto preparava as seringas de vacinação. — Deve ser a falta de companhia feminina. Ouvi dizer que a loira da loja de rações perguntou se você ia ao rodeio de Franklin no sábado.

Caleb entrou no brete de contenção, posicionando-se para segurar o primeiro animal que entrava. Ele agarrou o novilho com uma firmeza absoluta, os músculos de seus antebraços saltando como cordas retorcidas. O animal tentou se debater, mas Caleb era como uma âncora de carne e osso.

— Diga a ela que meu único compromisso no sábado é com um bife de um quilo e o silêncio da minha varanda — Caleb disse, sem nem mesmo ofegar pelo esforço. — Algumas mulheres são como tratores usados, Brice. Parecem brilhantes por fora, mas o custo de manutenção do motor é alto demais e elas sempre te deixam na mão quando o terreno fica íngreme.

— Poxa, Caleb! — Colt deu uma gargalhada enquanto aplicava a vacina. — Você não é um homem, é um muro de lamentações cínico. Dez anos e você ainda usa esse sarcasmo, seu cachorro.

— Funciona, não funciona? — Caleb soltou o novilho, que saiu disparado para o pasto. — Olhe ao seu redor. A fazenda está no azul, as cercas estão de pé e eu não tenho ninguém buzinando no meu ouvido sobre sentimentos ou sobre o que eu deveria vestir para o jantar de domingo. A vida é simples quando você pára de esperar que as pessoas sejam honestas.

Brice e Colt se entreolharam pois sabiam exatamente a quem ele se referia.

O trabalho seguiu pesado.

Eles suaram, trocaram insultos amigáveis e dominaram o gado sob o sol que começava a castigar. Caleb era o centro de tudo naquele lugar. Ele não pedia nada que ele mesmo não fizesse primeiro. Se havia uma estaca de cerca quebrada, ele a arrancava com as mãos. Se um motor tossia, ele o abria. Ele se sentia completo na exaustão. Era a única forma de garantir que, quando encostasse a cabeça no travesseiro, o sono viesse antes das lembranças.

Ao meio-dia, o trio estava sentado na sombra de um enorme carvalho, dividindo sanduíches de carne assada que vovó Esther tinha preparado.

— Sabe, Brady — Brice começou, limpando a boca com o dorso da mão —, a gente vai para o The Stage em Nashville hoje à noite. O Colt quer ver se aquela garçonete nova tem uma irmã. Você devia vir. Você é quem dá a última palavra agora, cara. Merece um uísque que não venha de uma garrafa de plástico.

Caleb observou uma formiga subindo em sua bota enquanto sentia a brisa quente do Tennessee secando o suor em sua nuca. Por um segundo, a imagem de um par de olhos e o cheiro de baunilha tentaram atravessar sua guarda, mas ele os esmagou com a frieza de um carrasco.

— Nashville é para quem quer ser visto, Brice — Caleb divagou, fechando sua marmita. — Eu prefiro o anonimato da minha poeira. Além disso, as hortaliças precisam ser conferidas. O pessoal do The Farm House quer os tomates Heirloom amanhã cedo, e eles são mais exigentes do que noiva em dia de casamento.

— Você é um caso perdido — Colt suspirou, levantando-se e batendo a poeira das calças. — Um desperdício de barba e músculo. Se eu tivesse essa sua estampa, eu não dormiria em casa nem um dia da semana.

— É por isso que você está sempre quebrado e eu sou o seu patrão, Colt — Caleb disparou, levantando-se com uma agilidade impressionante para o seu tamanho. — Agora, voltem para o trabalho. Aquelas vacas não vão se criar sozinhas enquanto vocês planejam como ser rejeitados em Nashville.

Eles riram.

A tarde passou entre os canteiros suspensos de hortaliças; Caleb caminhava entre os tomates, verificando o sistema de gotejamento que ele mesmo havia projetado. Ele amava aquela terra. Ela era honesta. Se você cuidasse dela, ela retribuía. Ela não ia embora no meio da noite com um vídeo gravado escondido.

Quando o sol começou a baixar, pintando o céu de um laranja violento que logo se tornaria púrpura, Caleb voltou para a casa principal. Ele ajudou o avô a entrar, ouviu as reclamações de Esther sobre como ele precisava de camisas novas, e finalmente subiu para o banho.

A água quente relaxava seus músculos, mas sua mente permanecia alerta, sarcástica, blindada. Ele se vestiu — calça jeans escura, uma camisa de botões azul-marinho com as mangas dobradas até o cotovelo e suas botas limpas. Ele olhou para o espelho. O homem que o encarava de volta era um estranho para o garoto de dez anos atrás. Era um homem que tinha tudo sob controle.

Ele desceu e encontrou Brice e Colt estacionando na frente da casa. Eles tinham insistido tanto que ele finalmente cedeu, apenas para fazer com que parassem de amolar.

— Olha só! — Colt gritou da janela da caminhonete. — Ele se vestiu como um ser humano! Nashville que se prepare, o Rei do Gado está chegando!

Caleb entrou no banco de trás, a caminhonete inclinando levemente sob seu peso.

— Se vocês abrirem a boca para falar de "sentimentos" ou tentarem me apresentar a alguém, eu jogo os dois para fora com o carro em movimento — ele avisou, o tom seco escondendo o leve divertimento.

— Sim, senhor, patrão — Brice riu, engatando a marcha. — Só uísque e música alta. Promessa de escoteiro.

Enquanto a caminhonete ganhava a estrada em direção às luzes de Nashville, Caleb olhou pela janela para a imensidão de sua terra. Ele estava seguro. Ele estava no controle. Nada no mundo poderia abalar a estrutura que ele tinha levado dez anos para construir. Ele era Caleb Brayden, o homem que não tinha mais espaço para o impossível.

Mas, como seu avô Earl sempre dizia, “O Tennessee tem um jeito engraçado de te lembrar que, por mais que você limpe a terra das mãos, ela sempre encontra um jeito de voltar para debaixo das suas unhas.”

Ele não sabia, mas o "dia de São Nunca" estava prestes a chegar em plena sexta-feira.


Continua...


Nota da autora: Essa fanfic surgiu no ônibus enquanto eu voltava da faculdade. Geralmente venho ouvindo música, dormindo, ou falando com Deus. Não é segredo para ninguém do meu pequenino ciclo social que amo música country (se Deus quiser um dia estarei pisando no Tennessee/Texas), e foi numa dessas que a história surgiu. O título da música me fez criar o ambiente, quando traduzi a letra eu tive todo o enredo! VAI DEMORAR PRA ENTENDER O TÍTULO? VAI! Mas, garanto que vai valer a pena (ou não, né kksjkss nervosa estou). E olha, eu espero de coração que vocês gostem!


☀️


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