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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 10/12/2025

A placa enferrujada na beira da estrada dizia “Bem-vindo a Kettle Springs”, mas havia algo nas letras desbotadas que soava mais como um aviso do que um convite. leu aquilo pela terceira vez, encostada no vidro da caminhonete do pai, enquanto o carro atravessava o portal invisível da cidade sem cerimônia, apesar de, para ela, aquele ser um ponto sem volta.
— Estamos quase lá. — , disse com a voz baixa, como se temesse acordar alguma coisa adormecida na estrada. Do banco do passageiro, observava a cidade ganhar forma em pequenos detalhes: casas baixas com varandas amplas, gramados impecáveis, lojas locais com letreiros antigos e ruas tão silenciosas que o barulho do motor parecia um grito. — O que acha?
— Parece… calmo. — Ela respondeu, sem tirar os olhos da paisagem.
— Calmo é um bom começo, não acha?
O pai parecia mais tranquilo do que nos últimos meses. Talvez Kettle Springs trouxesse isso: um pouco de sossego. Ou talvez fosse apenas mais uma tentativa de fuga. Desde a morte da mãe, tudo se resumia a mudanças, empacotamentos e recomeços. Essa, no entanto, tinha um peso diferente. Era só ele e agora. Sem promessas de melhora. Sem grandes planos. Apenas uma transferência para trabalhar num hospital de uma cidadezinha do interior e uma casa alugada no final de uma rua arborizada. A casa era antiga, mas acolhedora à sua maneira. Pintura gasta em alguns pontos, uma varanda com duas cadeiras de balanço e um quintal que parecia guardar histórias enterradas no mato alto.
— Vamos ter bastante trabalho aqui. — Disse , descendo do carro e esticando as costas. — Mas achei que você fosse gostar. Espaço, silêncio… um pouco de paz.
soltou um riso curto.
— E wi-fi com sinal fraco. Um paraíso.
Ele a olhou, com um brilho sincero nos olhos.
— A gente precisava disso, . Precisava tentar. Só nós dois agora.
Ela assentiu, mesmo que uma parte quisesse dizer que um novo começo não apagava o antigo. Mas ali estavam. Uma cidadezinha no meio do nada, um recomeço forçado, um pai tentando acertar.

Apesar de tudo, Kettle Springs parecia tranquila.

subiu os poucos degraus da entrada carregando duas malas, enquanto o pai vinha logo atrás com caixas onde o nome dela estava escrito com caneta preta. A chave rangia na fechadura como se não quisesse girar. forçou mais um pouco até que a porta se abriu com um estalo seco. O ar lá dentro tinha cheiro de madeira antiga, poeira e algo adormecido – como se a casa estivesse esperando por alguém fazia tempo demais.
— Bom… é melhor do que eu lembrava. — Disse, animado, enquanto empurrava a porta com o ombro. — Você devia ver como estava nas fotos do site do corretor. Parecia cenário de filme de terror.
— Ótimo incentivo, pai. — respondeu, cruzando os braços.
Entraram juntos. A sala era espaçosa, com um piso de madeira que rangia sob os pés e uma lareira de tijolos coberta por uma camada fina de poeira. Haviam móveis antigos cobertos por lençóis brancos e uma escada de madeira que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos.
— Achei que fosse gostar dessa vibe meio… vintage. — Comentou ele, tentando quebrar o silêncio espesso.
não respondeu de imediato. Caminhou até uma das janelas da sala, afastando a cortina pesada. A luz do fim de tarde invadiu o ambiente, iluminando partículas de poeira no ar. Do lado de fora, dava para ver o quintal coberto por folhas secas e uma velha casinha de ferramentas nos fundos.
— Quantos filmes começam assim mesmo? — Ela perguntou, virando-se para o pai com um meio sorriso.
— Os bons. — Ele deu uma piscada. — Vai ver esse é o nosso. A diferença é que não vão ter monstros nem assassinos, só reforma e um pouco de terapia emocional. — riu de leve, pela primeira vez em dias. — Pode escolher seu quarto.
O quarto que ela escolheu tinha uma janela grande voltada para a frente da casa, com vista para a rua silenciosa e os campos ao longe. Um armário antigo ocupava boa parte de uma das paredes, e o colchão novo já havia sido deixado lá pela transportadora.
— Se precisar de ajuda com as caixas, estou aqui… — disse , encostando na porta. — Mas acho que você vai querer montar seu “santuário” sozinha.
— Acho que sim. — Ela respondeu, olhando ao redor.
Ele assentiu e a deixou ali, no quarto meio vazio, com a mala aberta e os pensamentos ainda mais. O jantar naquela noite foi silencioso. Um silêncio conhecido entre os dois – confortável, mas cheio de coisas não ditas. Entre uma garfada e outra, o pai arriscou uma tentativa de leveza.
— Amanhã eu te levo pra escola. — Disse, enquanto empilhava os pratos na pia. — Só pra garantir que você não se perca no primeiro dia.
assentiu, com um meio sorriso.
— Vou tentar não passar vergonha.
— Só tenta não matar ninguém, já ajuda. — Ele riu da própria piada, e ela também. Mas, mesmo enquanto sorria, sentiu um arrepio estranho subir pelas costas.
Naquela noite, adormeceu com o barulho do vento sacudindo as árvores do lado de fora.
Na manhã seguinte, observava seu reflexo no espelho do banheiro, tentando fazer o cabelo parecer menos desorganizado do que estava. Era seu primeiro dia na nova escola, e por mais que fingisse não se importar, o aperto no estômago dizia outra coisa. a deixou com um aceno e um sorriso forçado na entrada da escola – um bloco antigo de tijolos avermelhados, com janelas altas e um gramado bem cuidado. O estacionamento estava cheio de caminhonetes, bicicletas e alunos circulando aos grupos, como se todos soubessem exatamente onde pertencer – ela claramente não sabia. Segurava a alça da mochila como se fosse um escudo, sentindo os olhares caírem sobre ela com naturalidade – não maldosos, apenas curiosos. Cidades pequenas não sabiam lidar com novidades, ainda mais com meninas de fora. Por dentro, os corredores eram iluminados por lâmpadas amareladas, e os armários azuis já estavam riscados com nomes e iniciais. O cheiro de papel velho e desinfetante se misturava ao barulho abafado de passos e conversas. Vários armários metálicos forravam as paredes, e os alunos circulavam em pequenos grupos, como se seguissem uma coreografia invisível. Uns cochichavam, outros encaravam, não com hostilidade, mas com uma curiosidade silenciosa.
— Não liga pra eles. — Disse uma voz feminina ao seu lado. virou-se e encontrou uma garota sorridente, com o cabelo preso num coque alto e moletom cinza. — Sou a Hill. Você deve ser novata.
. — Respondeu, aliviada por não ter que andar sozinha.
— Adorei sua jaqueta. Ninguém aqui tem estilo, então isso já é um bom sinal.
Ela riu de leve, agradecida pela abordagem fácil, mas antes que pudesse perguntar mais, a atenção delas desviou para um ponto do corredor. Um grupo acabava de entrar pela porta lateral. Quatro ou cinco jovens – risadas altas, passos confiantes, mochilas jogadas nos ombros. Entre eles, um garoto de cabelo castanho meio bagunçado propositalmente, camiseta cinza e andar tranquilo, que passou os olhos pelo corredor e parou por um segundo em – não foi um olhar descarado, nem prolongado, mas direto, como se ele estivesse tentando entender quem ela era –, que desviou antes que parecesse que estava retribuindo.
— Deixa eu adivinhar, eles são os “populares”.
— “Populares” não é bem a palavra… — respondeu com uma careta. — Eles vivem em outro mundo, fazendo festas direto, andando de carro à noite, metendo o louco em feriados… essas coisas. — não respondeu. Por alguma razão, sentiu que o garoto olhava mais do que devia. Ou talvez fosse só coisa da cabeça dela, já que a cidade inteira parecia observar. — Mas relaxa, eu vou te ajudar a sobreviver aqui. Bora pegar seu horário de aulas e eu te ajudo a achar a sala. Já aviso que a aula de história é uma tortura, mas pelo menos o professor dorme no meio da própria explicação.
sorriu pela primeira vez naquela manhã. Talvez nem tudo fosse tão ruim assim.

A sala de aula parecia pequena demais para tanta conversa. As carteiras eram antigas, riscadas com nomes e frases rabiscadas por gerações anteriores. No fundo da sala, o grupo que havia visto mais cedo ocupava um canto inteiro, falando baixo entre si, rindo de tempos em tempos. Ela tentava não olhar, mas o som sempre a fazia levantar os olhos por reflexo. O mesmo garoto estava encostado na carteira, braços cruzados, e falava algo para um dos amigos com um meio sorriso nos lábios. Uma ou duas vezes pareceu notar o olhar de , mas não reagiu, como se estivesse apenas registrando, sem demonstrar nada. Enquanto isso, cochichava ao seu lado:
— Aquela é a … — disse, apontando discretamente para uma garota de cabelo castanho escuro e pele morena, sentada duas fileiras à frente. — Ela é do teatro e do jornal da escola, tem opinião sobre tudo, e fala mais rápido do que você consegue pensar, mas é ótima. Só cuidado quando ela estiver com sono, aí ela morde. — sorriu e acenou quando olhou para trás. — E a ruiva ali, de trança? . Fofa, dramática e péssima em matemática. Uma vez confundiu a equação da lousa com uma receita de bolo, mas ela ajuda todo mundo… e é boa em fofoca.
— A tríade está completa. — Brincou .
— Bom, agora você faz parte também. Parabéns, está oficialmente integrada. — disse, batendo de leve na mesa com o fichário.
A conversa e os cochichos cessaram gradualmente quando a porta da sala se abriu com um rangido. Um homem de meia-idade, magro, de óculos pendurados na ponta do nariz e expressão paciente, entrou carregando uma pasta surrada e uma caneca de café.
— Bom dia, turma… — disse, enquanto deixava os materiais na mesa. — Espero que tenham tido um ótimo final de semana. Antes de começarmos, temos uma nova aluna com a gente. — Ele olhou para e fez um gesto com a mão. — Pode se levantar, por favor? Se apresenta para a turma.
Ela sentiu o coração acelerar, respirou fundo, empurrando a cadeira para trás devagar, e, quando ficou de pé, todos os olhares da sala se voltaram para sua direção – era como estar sob um holofote.
— Oi… eu sou a . Me mudei pra cá recentemente com meu pai, por causa do trabalho dele. A gente veio de Los Angeles… — ela hesitou por um segundo, tentando escolher as palavras — … então ainda tô me acostumando com o ritmo daqui.
Alguns alunos assentiram educadamente, outros voltaram a olhar para os próprios cadernos, mas, no fundo da sala, ela ainda sentia os olhares persistentes do grupo que ocupava o canto. Quando seus olhos, inevitavelmente, encontraram os do garoto, ele já estava olhando. Um sorriso ladino brincava em seus lábios, como se estivesse curioso para descobrir mais dela, e não desviou o olhar. Pelo contrário, inclinou a cabeça sutilmente, como se estivesse avaliando. engoliu em seco e olhou para frente novamente, voltando a se sentar. lhe deu um cutucão leve com o cotovelo e um sorriso de incentivo.
— Obrigado, . Seja bem-vinda à Kettle Springs High. Agora, abram os livros na página 37. Vamos começar com a análise de texto.

O sinal do intervalo soou e os corredores se encheram em segundos. saiu da sala acompanhada pelas novas amigas, ainda se sentindo meio deslocada, mesmo que a presença delas deixasse tudo menos esquisito.
— O que você achou da primeira aula? — Perguntou , abrindo o armário ao lado do de .
— Foi tranquila… só tô tentando não parecer uma alienígena. — respondeu com um sorriso sem graça.
— Relaxa — disse, mastigando um chiclete. — Já vi gente bem mais bizarra por aqui.
Ela riu baixinho, mas parou quando viu o grupo que se aproximava pelo corredor. Todos os olhares se voltavam para eles – como sempre –, que distribuíam panfletos com convites para uma festa. , que observava tudo atentamente, cruzou os braços, com um sorriso ladino no rosto.
— Clássico. Eles fazem isso todo ano no final de semana da comemoração da colheita. É a “versão sem pais” da festa oficial da cidade.
Quando passaram por elas, um dos garotos – loiro, com covinhas e uma pinta na bochecha – parou e piscou para , entregando os panfletos para algumas delas.
— Quer dizer, a versão interessante… você é a novata, né?
— Sou. — Confirmou, meio hesitante.
— Perfeito. Primeira regra de Kettle Springs: você não conhece a cidade até ir numa festa no celeiro. Vai mudar sua vida. — Disse, teatral, e outro garoto completou:
— Ou acabar com ela. Vai depender da sua sorte.
Eles riram, não de forma maldosa, mas como se fosse o tipo de piada que diziam para todo mundo. O mesmo menino de antes, que vinha logo atrás, passou os olhos em por um segundo e parou, estendendo o panfleto.
— Vai ser num sábado à noite… se você for, vai entender por quê.
— Eu não bebo. — Ela pegou o papel, analisando-o enquanto mordia o lábio inferior, notando o olhar dele acompanhar brevemente o movimento antes de voltar para seus olhos.
— Ninguém disse que precisa. — Respondeu, com um leve sorriso de canto de boca.
— Qual é, não precisa assustar a garota logo no primeiro dia. — Disse , rolando os olhos, apesar dos lábios curvados.
Ele olhou para ela por um segundo, o sorriso ainda presente, mas com menos intensidade. A troca entre os dois foi breve, como se escondesse alguma familiaridade, mas não ficou claro o porquê.
— Foi mal, Harp. Só tentando ser… acolhedor. — E então se virou, entregando o último panfleto para um garoto do time de futebol antes de começar a se afastar com os amigos. observou a cena com uma sobrancelha levantada.
— Bom, se você for, vai ver o que é o verdadeiro Kettle Springs. A feira é só fachada. A festa de verdade acontece atrás do celeiro, com música, bebida e uma galera que parece viver num filme adolescente… até a parte em que tudo dá errado.
olhou para o panfleto dobrado em sua mão. Ainda não sabia se ia, mas já sentia que, de um jeito ou de outro, aquela cidade estava começando a atraí-la.
As aulas passaram em um ritmo estranho – não lentas, mas dispersas, como se ainda não estivesse totalmente ali. Ela acompanhava o conteúdo, mas sua atenção oscilava entre a professora e os pequenos detalhes ao redor: as conversas sussurradas, os cadernos com capas rabiscadas, as janelas altas com vista para os campos lá fora. Em outro intervalo entre as trocas de aula, e as meninas se sentaram juntas nos degraus do pátio lateral, dividindo um pacote de salgadinhos e rindo das histórias absurdas que contava.
— Eu juro que o cara levou uma vaca pro baile da escola uma vez. — Disse, animada. — Disseram que era parte da tradição da família dele.
— Isso não aconteceu. — falou, tentando não rir.
— Aconteceu sim… — confirmou . — A parte triste é que a vaca estava mais bem vestida do que muita gente.
— E mais sóbria, com certeza. — Completou , arrancando risadas das outras.
O sinal tocou e o grupo se levantou devagar. juntou os papéis do colo e ajeitou a mochila nas costas, mas, antes de voltarem para dentro, a puxou levemente pelo braço.
— Ei, já ouviu falar da The Hollow?
— Não. O que é isso?
— A cafeteria do meu pai. Fica na rua principal, do lado da livraria. Tem sofá confortável, chocolate quente e um monte de gente esquisita que aparece por lá. Você devia passar um dia desses. Depois da aula, talvez?
assentiu, surpresa pela naturalidade do convite e da sensação de pertencimento que não esperava encontrar tão cedo.
— Claro, eu adoraria.
— Legal, então temos um encontro. E lá tem cookies bons demais pra dividir com quem a gente não gosta.

O céu começava a escurecer quando saiu pelos portões da escola. Recusara a carona do pai com a desculpa de querer conhecer melhor a cidade, apesar de, na verdade, só precisar de um pouco de silêncio depois de tantas informações, rostos novos e risadas em ambientes barulhentos. As ruas de Kettle Springs tinham cheiro de grama cortada e asfalto quente, e o som dos seus passos e das poucas pessoas circulando era o único que preenchia o ar por alguns quarteirões. Ela andava devagar, com a mochila jogada em um ombro e os pensamentos ainda presos nos momentos do dia. Foi quando ouviu o som: primeiro, um grave abafado, depois uma batida pop acelerada ecoando pela rua estreita. se virou para olhar, vendo uma caminhonete preta se aproximar pelo fim da rua com o vidro baixo e faróis que cortavam o entardecer, a música aumentando conforme se aproximava. Quatro pessoas dentro, todas do tal grupo de mais cedo. Ela reconheceu a garota de cabelo rosa no banco do carona, rindo alto com um copo térmico na mão, atrás, dois garotos cantavam a letra da música em voz alta, um deles com metade do corpo para fora da janela.

E no volante, ele.

Mesmo à distância, soube imediatamente. O cabelo castanho claro bagunçado pelo vento, o braço pendurado pela janela, os olhos atentos ao caminho, até que, por um breve momento, se desviaram para ela, rápidos, mas certeiros. Um meio sorriso quase surgiu no canto de sua boca, mas, antes que pudesse entender o que significava, a garota de cabelos rosas se inclinou na direção dela.
— Ei, novata! Quer carona?
Ela hesitou, parando no meio da calçada, o corpo tendendo a dizer sim, ao mesmo tempo em que a cabeça dizia “não tão cedo”. As palavras de ecoavam de fundo: “Eles vivem em outro mundo.”
— Tá tudo bem, minha casa não é longe! — Respondeu, forçando um sorriso educado, e a garota deu de ombros.
— Sua perda! — Disse, brincando.
E então outra voz, mais rouca e animada, gritou de dentro do carro:
— Pisa fundo, !
Ele olhou para ela mais uma vez, sem pressa, depois virou a chave do rádio e acelerou. A caminhonete desapareceu na próxima curva, com a música ainda ecoando atrás dela e ficou parada por mais alguns segundos antes de voltar a andar, o coração batendo mais rápido do que gostaria.

… então esse é o nome dele.

O cheiro de comida congelada esquentando no forno preenchia a cozinha enquanto se encostava no balcão, descalça, observando o pai mexer numa panela como se estivesse fazendo algo mais elaborado do que um macarrão de micro-ondas.
— Isso parece suspeito. — Comentou, com um leve sorriso.
— Olha, só porque não é delivery, já conta como caseiro. — respondeu , sem se virar. — Além do mais, temos salada. Dá credibilidade.
A filha se sentou à mesa da cozinha, apoiando o queixo na mão.
— Como foi o hospital?
— Diferente. Calmo demais, o que é bom, mas… todo mundo se conhece. Tipo, mesmo. A enfermeira que me mostrou a ala pediátrica estudou com o paramédico da ambulância e já foi vizinha da recepcionista. Me senti meio intruso.
— Bem-vindo ao clube. — respondeu, rindo baixo.
colocou dois pratos na mesa e se sentou de frente para ela. O abajur pendurado lançava uma luz amarelada e suave sobre os dois, criando uma bolha de paz rara.
— E você? Como foi na escola?
— Sobrevivi. Conheci algumas meninas legais, , e . A meio que me adotou.
— Gosto dela só pelo nome. Parece saída de filme de mistério. — Brincou ele e riu, hesitando antes de continuar.
— Também tinha um grupo que você provavelmente me diria pra evitar. Aqueles que têm cara de que fazem festas demais e dormem de menos.
arqueou uma sobrancelha.
— Populares, problemáticos e carismáticos?
— Mais ou menos isso.
— Então, sim, evita.
girou o garfo no prato, pensativa.
— Eles parecem viver em outra frequência, como se soubessem coisas que o resto da escola não sabe.
— Isso foi incrivelmente filosófico pra quem está comendo macarrão de caixinha. — Comentou o pai, sorrindo, e ela sorriu de volta, sem responder. Ficaram em silêncio por alguns segundos, comendo, enquanto o som da televisão da sala vazava baixinho para a cozinha. — Ah, liguei pra uma empresa de internet hoje. Disseram que vêm amanhã ver a instalação. Talvez a gente tenha wi-fi de verdade antes do fim da semana. Vai ser um milagre se funcionar melhor do que aquele 3G jurássico que você insiste em usar.
ergueu as mãos em uma comemoração silenciosa.
— Finalmente! Eu estava quase enviando mensagens por pombo-correio.
a observou com um olhar carinhoso, e por um momento, o cansaço nos olhos pareceu suavizar.
— Eu sei que não foi fácil pra nós dois virmos pra cá, mas… eu realmente acho que esse lugar pode ser bom pra gente, .
— Eu sei. — Ela respondeu, mais baixo. — Também tô tentando.
Depois do jantar, subiu para o quarto com um prato de cookies que havia insistido que ela levasse para casa, deitou na cama, sentindo o peso do dia cair de uma vez só nos ombros, e só então lembrou do panfleto, tirando do bolso da mochila e o desdobrando com cuidado.

Celebração extraoficial da Feira da Primavera. Entrada pelos fundos do celeiro.
Sem adultos. Com música. Com diversão. Com a gente.


encarou o papel por um tempo, sem reação, e depois o deixou na mesa de cabeceira, virado para baixo. As palavras pareciam pulsar de forma diferente agora, como um convite… ou um aviso.



O hospital de Kettle Springs era pequeno, mas bem equipado. O cheiro de pinho se misturava ao de café morno e as janelas largas deixavam entrar a luz dourada do fim da tarde. estava sentado à sua nova mesa, ainda com metade das caixas fechadas. A cidade era silenciosa, até demais, e ele ainda não havia se acostumado com isso – em Chicago, aquele horário significava buzinas, sirenes, vozes se atropelando. Ali, só dava para ouvir o barulho distante de um cortador de grama.
— Tá se adaptando, Dr. ? — A voz o tirou do devaneio.
O homem ergueu os olhos, avistando Dra. Elise Cardone, diretora clínica do hospital, apoiando o ombro no batente da porta. Devia ter uns trinta e poucos anos, olhos atentos e cabelo escuro preso em um coque meio torto, como se tivesse sido feito às pressas entre uma consulta e outra.
— Tentando. É… diferente — respondeu, sorrindo de canto.
— É e não é. A cidade finge que é tranquila, mas tem histórias demais atrás das portas fechadas. — Ela disse com naturalidade, apesar de haver um peso nas palavras. arqueou uma sobrancelha, curioso, mas Elise apenas deu de ombros e mudou de assunto. — Seus horários já estão cheios?
— Nada absurdo. Um caso de sinusite, dois de ansiedade, um corte no pé e uma senhora que só queria conversar.
— Ah, a Dona Lila. Ela sempre vem, às vezes com sintomas reais, às vezes com histórias pra contar. Você vai gostar dela… ou enlouquecer.
Ele riu e se recostou na cadeira.
— Deu pra perceber.
— Como está se saindo com a mudança?
— Melhor do que achei que estaria. , minha filha, parece estar se adaptando à escola, o que já é meio caminho andado.
— Ah, Kettle Springs High. Pode ser um paraíso, como também um inferno… mas tenho certeza que ela vai se dar bem.
— Então você sempre morou aqui?
— Sempre, mas passei um tempo fora antes de voltar. Essa cidade não larga da gente tão fácil. — O tom foi leve, mas havia algo enigmático ali, como se a frase escondesse mais do que revelava.
assentiu, sentindo a frase pesar mais do que ela provavelmente pretendia. Antes que pudesse responder, um enfermeiro bateu na porta rapidamente.
— Chegou um caso no pronto atendimento. Queda de bicicleta, um garoto. Está consciente, mas reclamando de tontura.
assentiu e se levantou, pegando o jaleco pendurado na cadeira.
— Bom, se precisar de algo… ou alguém pra te contar onde servem o melhor café, é só perguntar. — Elise deu um sorriso breve. — Spoiler: não é o da lanchonete do hospital.
— Vou lembrar disso.
— Ah, a sala de descanso dos médicos ainda está sem internet decente, mas já solicitei melhorias.
— Engraçado, falei com uma empresa ontem pra instalar um roteador novo em casa. Parece que o wi-fi daqui sofre do mesmo mal.
— É o charme do interior. Tecnologia de 2025 com sinal de 2008.
Eles riram e se despediu com um leve aceno,
— Bom, o dever chama. Ainda não decidi se gosto daqui, mas talvez eu esteja começando a considerar.
Ela retribuiu o sorriso, como se entendesse o que ele quis dizer sem precisar de mais palavras. Enquanto atravessava o corredor, o Dr. notou os quadros antigos nas paredes, fotos de turmas passadas de residência, prêmios antigos e um mural de funcionários que parecia nunca ser atualizado. Ele ajeitou o jaleco nos ombros e respirou fundo. Era só o começo. Mas, ao pensar em , se deu conta de que o recomeço não seria só dele.

A The Hollow ficava na rua principal, entre uma loja de artesanato e uma papelaria quase sempre vazia. A fachada era de madeira, com janelas amplas cobertas por cortinas escuras e um letreiro meio apagado pelo tempo. Por dentro, o lugar era acolhedor: sofás descombinados, luminárias pendentes e o cheiro constante de café forte. A cafeteria estava tranquila naquela tarde. Uma senhora de cabelos brancos lia um jornal antigo em silêncio e um garoto no canto – provavelmente o barista – anotava algo num caderno enquanto ouvia música com um fone só.
— Vem… — disse , equilibrando duas canecas fumegantes. — Peguei o chocolate quente da casa. Tem uma pitada de canela e uma dose de açúcar que provavelmente encurta a vida em dois anos. Você vai amar.
riu e se sentou com ela em um sofá próximo à janela.
— Esse lugar é aconchegante… — comentou, olhando em volta. — Seu pai cuida de tudo?
— Sim, mas ele não tá hoje. Foi comprar insumos e provavelmente ficou preso conversando com algum velho do posto. Isso acontece sempre. — Elas ficaram ali por quase uma hora, conversando sobre professores, filmes ruins e histórias antigas da cidade e se sentiu mais à vontade do que esperava. era divertida, natural e extremamente fácil de gostar. — Quer me ajudar a pegar uns cookies na cozinha? — Perguntou, depois de um tempo. — Meu pai guarda as melhores fornadas para os funcionários e, bem, eu me considero uma.
aceitou e seguiu a amiga pelos fundos da cafeteria. A cozinha era pequena, mas organizada, com uma bancada central coberta de potes, formas e um rádio antigo tocando uma música velha e suave. Enquanto separavam alguns cookies de uma bandeja ainda quente, a conversa deslizou até o inevitável.
— Então… qual é a daquele grupo que parece ter saído de um catálogo de filmes sobre adolescentes problemáticos? — perguntou, casualmente, mas se virou com uma sobrancelha levantada, como se dissesse “sério que você foi falar disso agora?” — O quê?
Ouviu um barulho atrás de si e, ao se virar devagar, viu parado na entrada da cozinha, com o mesmo olhar tranquilo de sempre, o cabelo bagunçado perfeitamente e um meio sorriso brincando no canto da boca, como se tivesse achado a conversa divertida.
— Eu devia me ofender? — Perguntou, sem realmente parecer ofendido. — Ou fingir que não ouvi?
— Você anda silencioso demais para alguém que dirige com a música no volume máximo. — Rebateu ela, surpresa com a própria ousadia.
ergueu uma sobrancelha, interessado. Com passos calmos, se aproximou e estendeu a mão.
, aliás… mas imagino que você já saiba.
hesitou por um segundo e o cumprimentou, sentindo um arrepio estranho subir por seu braço como uma onda silenciosa.
, mas também acho que você já sabia.
— É, provavelmente a cidade inteira sabe. Boatos correm rápido por aqui… mas não imaginei que eu estivesse na sua lista negra tão cedo.
— Ninguém te colocou lá. Na verdade, ainda estou formando minha própria opinião.
— Justo… — inclinou a cabeça levemente, o olhar ainda fixo no dela.
Um pigarro exagerado veio do lado e só então os dois perceberam que ainda estavam com as mãos entrelaçadas. , de braços cruzados, tentou disfarçar um sorriso debochado e se afastou rapidamente, limpando a garganta, sem saber ao certo onde colocar as mãos.
— … mas acho que invasão de espaço de trabalho não ajuda muito a sua situação.
— Ser o sobrinho favorito do dono tem seus privilégios. — Respondeu ele, sem perder o ritmo.
— Sobrinho? Mas… — ela virou para , que desviou o olhar, culpada.
— É, eu esqueci de mencionar isso… pra ser justa, ele é o único sobrinho, então não conta.
— Preferido por exclusão ainda é preferência. — Deu de ombros e olhou de volta para . — Vim só buscar uma encomenda. Não quis interromper… mas aí eu reconheci a sua voz…
— E achou que era uma boa ideia aparecer como um fantasma? — Retrucou com ironia, apesar de um arrepio involuntário percorrer seu corpo.
— Melhor do que ficar ouvindo pelas paredes. — Respondeu, dando um meio sorriso, e rolou os olhos, apesar do semblante divertido.
— Só não encosta em nada, senão vou dizer ao meu pai que foi você quem derrubou a travessa de torta na semana passada.
— Que injustiça, foi só metade da torta… — disse , se afastando lentamente, mas ainda lançando um último olhar para . — Te vejo por aí, . — E então saiu pelo corredor dos fundos, assobiando baixinho.
apoiou os braços na bancada, suspirando.
— Agora você tá oficialmente marcada. O só fala assim com quem chamou a atenção dele.
— Não sei se isso é bom ou ruim.
— Bem-vinda à dúvida eterna de toda garota sensata de Kettle Springs. Ele é quase inofensivo… quase.
riu, apesar de sentir as bochechas quentes, e, fingindo normalidade, pegou um cookie da bandeja e deu uma mordida, soltando um grunhido de satisfação ao sentir o doce quase derreter na boca. Pouco depois, foi até o balcão para pegar água, enquanto ia guardar algumas coisas nos fundos. Caleb – tinha visto o nome no uniforme – ainda estava por lá, o caderno agora fechado sob o braço.
— Então… já conheceu o príncipe de Kettle Springs.
— É assim que vocês chamam ele?
— Entre outras coisas… mas ele tem carisma, eu admito. E um talento muito especial pra fazer garotas novas repensarem a rota que traçaram.
— Isso foi um aviso?
Caleb sorriu com um canto da boca, apoiado no balcão.
— Digamos que o grupo dele têm um histórico. As pessoas se aproximam, se encantam, às vezes somem… literalmente ou metaforicamente. Depende da época.
— Isso é só o seu lado poeta sombrio falando ou você realmente sabe de algo?
— Bom, já que perguntou… — ele pôs o caderno na frente dela e o abriu, apontando diretamente para uma anotação em específico. — Festas em Kettle Springs têm uma taxa de arrependimento de 85%...
— E quem fez essa estatística?
— Euzinho… fonte? Experiência própria. Uma vez decidi ir em uma dessas festas. Fui embora antes da meia-noite e, ainda assim, precisei fingir que não vi certas coisas.
— Tipo?
O garoto abriu a boca para responder, mas voltou segurando um pano de prato e o lançou um olhar de reprovação.
— Caleb, você quer que ela volte aqui ou não?
— Eu só tô conversando. — Ele respondeu, rindo.
— Conversando e enchendo a cabeça dela com essas teorias da conspiração. — Então, se virou para , com um sorriso. — Só ignora, ele é apenas um poeta frustrado que acha que a cidade tem túneis secretos e um culto escondido no porão da biblioteca.
— A parte do culto é só uma hipótese… — retrucou Caleb, sem perder a pose. — Mas a do frustrado é verdade.
Elas riram e seguiram para uma mesa. O sol já começava a se pôr quando decidiu ir pra casa. Caminhava sozinha pela rua principal, agora mais silenciosa, até algo chamar sua atenção enquanto passava em frente ao mural de recados da praça. Havia um cartaz desgastado pelo tempo, escondido sob camadas de panfletos de feiras e anúncios de vendas.

Desaparecida em Kettle Springs
Emily Porter, 16 anos
Vista por último em 09.07.2022


A foto mostrava uma adolescente sorridente, de tranças e olhos brilhantes, que não sabiam que aquela imagem seria a última lembrança pública dela. Aquela imagem congelada parecia zombar do tempo, como se Emily tivesse ficado ali, ainda esperando ser encontrada. A garota se aproximou sem perceber. O papel estava gasto, as bordas comidas pela chuva e pelo vento, e ele parecia fazer parte da paisagem, tão antigo que ninguém mais reparava. As pessoas passavam pela praça, seguiam com suas sacolas de compras, cumprimentavam umas às outras, mas ninguém sequer olhava para o cartaz.

Era como um fantasma exposto à vista de todos, mas ignorado de propósito.

Ela sentiu um frio na espinha. Não sabia se era pela ideia da menina sumida ou pela sensação incômoda de que a cidade inteira tinha escolhido esquecer. Um carro passou devagar pela rua atrás dela, o som abafado de música escapando pelas janelas abertas. olhou por cima do ombro, mas logo desviou o olhar de volta para o cartaz. Guardou a imagem na memória – Emily sorridente, ainda viva em papel – e seguiu andando para casa, sem dizer nada. Assim que ela entrou em casa o silêncio foi imediato. O relógio da parede marcava pouco depois das sete, mas ainda não tinha voltado. Largou a mochila no chão e foi até a cozinha, pegando o celular para mandar uma mensagem rápida.

: Tá vindo? Vou esquentar o jantar.

Nenhuma resposta. Suspirou, imaginando que ele estaria atolado no hospital, e abriu a geladeira, pegando um pote de lasanha congelada que tinham trazido de Los Angeles. Assim que a comida ficou pronta, sentou-se à mesa e comeu distraída, o sorriso de Emily não saindo da cabeça. Depois de guardar os pratos, foi para a sala, jogando-se no sofá com o controle remoto na mão, mas não ligou a TV. Ficou olhando para o teto e, como sempre acontecia quando estava sozinha, a memória da mãe apareceu. Ela se viu mais nova, deitada num sofá, coberta por um cobertor florido, enquanto a mãe penteava seu cabelo com cuidado. O cheiro de café vindo da cozinha, rindo de alguma piada ruim. Era uma lembrança simples, mas doía como se fosse uma ferida aberta.
— Sinto sua falta… — murmurou baixinho, como se as paredes pudessem ouvir.
O peso das pálpebras venceu. adormeceu ali mesmo, encolhida no sofá. Já era tarde quando chegou. O som da chave girando na fechadura quebrou o silêncio, e ele suspirou ao vê-la apagada, ainda com a roupa da escola. Aproximou-se devagar, tirou o celular da mão dela e apagou a luz da sala.
— Você não para de crescer, garota. — Resmungou para si, tentando ajeitá-la nos braços.
se mexeu, mas não acordou. Ele carregou a filha até o quarto, com certa dificuldade, rindo sozinho da lembrança de quando fazia isso sem esforço. Agora ela já tinha passado do ombro dele, mas ainda assim parecia pequena nos momentos certos. A ajeitou na cama, puxou o cobertor até o queixo dela e ficou alguns segundos parado ali, observando. Tocou de leve os cabelos dela, como a mãe fazia, e saiu sem fazer barulho. A casa voltou a ficar silenciosa.

O vapor quente do banho ainda escapava pelo corredor quando saiu do quarto, o cabelo úmido grudando na pele. Do outro lado da casa, mexia em uma frigideira, cantarolando baixo, como fazia sempre que tentava fingir que não estava cansado. A mesa já tinha uma xícara de café, um copo de suco e uma tigela de cereal, bagunça improvisada de quem vivia com pressa.
— Dormiu no sofá de novo. — Comentou assim que a filha apareceu na cozinha, uma mão na xícara, enquanto a outra segurava o celular.
— E você me carregou até o quarto. — Ela comentou num tom surpreso, enquanto se sentava na mesa e começava a comer.
— Acredite, estou tão chocado quanto você.
riu, pegando outra colherada do cereal.
— Eu estava te esperando, mas você chegou tarde.
soltou um suspiro, os ombros caindo.
— Não deu pra escapar. Emergência no hospital. E perdi a visita do pessoal da internet. — Fez uma careta, comendo um pouco dos ovos. — Já remarcaram pra hoje à tarde. Finalmente teremos wi-fi de verdade.
— Ótimo! Achei que ia precisar mandar cartas para os amigos de LA.
Ele se recostou no balcão, observando a filha.
— E já que estamos no assunto modernidades… precisamos conversar sobre você dirigir.
ergueu uma sobrancelha, meio surpresa.
— Agora?
— Tá mais do que na hora. Eu devia ter insistido antes, mas… — ele parou, o olhar suavizando, como se não precisasse terminar a frase. A ausência da mãe estava ali, suspensa no ar. — Bom, acho que a gente só foi empurrando com a barriga.
— Eu sei. — apertou os lábios num sorriso curto. — Mas posso ir andando pra escola por enquanto. Não é tão longe.
— Claro, mas essa conversa não vai escapar. — apontou na direção dela, apesar do tom leve. — Eu não posso ser seu motorista particular para sempre. Vamos marcar uma aula de direção no fim de semana.
— Combinado. — Ela assentiu, rindo, e, assim que terminou o café, pegou a mochila e se despediu. — Vou indo, senão chego atrasada.
— Boa aula, mocinha.
O sol da manhã deixava a rua principal clara demais, mas a garota respirou fundo, ajustou os fones no pescoço e seguiu o caminho até a escola.

entrou na sala com as amigas, rindo baixinho de uma piada que havia acabado de contar. Mesmo após alguns dias, sentia-se totalmente à vontade com elas. A escola ainda era grande, mas agora tinha rostos conhecidos. Enquanto falavam, percebeu encostado na parede no canto da sala, rindo de algo que um de seus amigos dizia. O grupo ocupava o espaço como se fosse naturalmente deles, gargalhando alto e brincando uns com os outros, e, por um momento, achou que talvez os boatos estivessem exagerando. No intervalo, foi ao banheiro e, quando voltou, encontrou uma cena curiosa: , e conversavam com outras pessoas, que ela reconheceu como sendo do mesmo grupo, bem no meio do corredor. Steve, alto, com um cabelo de dar inveja a qualquer um e sorriso fácil, estava inclinado demais em direção a .
— … e foi aí que eu tive que intervir, claro. Se não fosse por mim… — ergueu as mãos, drámatico. — Bem, vamos dizer que o jogo teria terminado de outro jeito.
— Você só pegou a bola que saiu da quadra. — Tyler, outro garoto do grupo, cortou o amigo, com um meio sorriso sarcástico. — Não é exatamente salvar o dia.
disfarçou uma risada e Vanessa, a garota de cabelos rosa, inclinou-se para comentar algo no ouvido dela. percebeu o jeito como a amiga corou de leve, desviando o olhar rápido demais. Enquanto isso, depois de xingar Tyler, Steve voltou a atenção para .
— Ignora ele, jornalista. Se você quiser, eu posso te ensinar a dar umas tacadas de beisebol. Prometo ser um professor paciente.
A garota arqueou as sobrancelhas, rindo.
— Isso soa mais como convite para um desastre.
— Só se você deixar. — Ele respondeu, piscando.
— Steve, você é um clichê ambulante. — Tyler comentou, rindo.
— E você é invejoso. — O garoto retrucou, sem perder o ritmo.
Os olhos de capturaram assim que ela se aproximou. Ele não disse nada de imediato, mas o meio sorriso no canto da boca já parecia um desafio.
— Espero não estar interrompendo nada. — Ela falou, tentando soar casual.
— Talvez esteja salvando alguém, na verdade. — O garoto lançou um olhar sugestivo a Steve, que ria demais da própria piada.
quase sorriu, mas manteve o tom firme.
— Ou só me metendo no território errado.
— Deixa eu adivinhar, no território do “grupo que parece ter saído de um catálogo de filmes sobre adolescentes problemáticos”? — inclinou a cabeça, um brilho divertido no olhar.
Ela revirou os olhos, sentindo como se o resto do grupo tivesse ficado em segundo plano por alguns segundos, e ergueu uma sobrancelha, fingindo desdém.
— Foi mal, é que os “boatos correm rápido por aqui”.
Um sorriso lento se formou nos lábio de , que deu um passo à frente, a voz baixa o suficiente para que só ela ouvisse.
— E você acredita em tudo que ouve?
— Ainda não decidi. — Sustentou o olhar, o coração batendo mais rápido do que gostaria.
O canto da boca dele subiu mais um pouco.
— Então talvez precise descobrir por conta própria.
Antes que ela pudesse responder, Steve interrompeu com sua risada escandalosa.
— Ei, , não assusta a novata. Ela acabou de chegar.
— Quem disse que eu tô assustando? — Ele não tirou os olhos de , que não desviou o olhar, tentando não corar.
— Quem disse que eu tô assustada?
O silêncio que se seguiu foi curto, mas carregado. Vanessa soltou um risinho, desviou o olhar, como se fingisse não reparar, e até Tyler ergueu a sobrancelha, divertido. Foi quem quebrou o clima:
— Acho que o sinal já vai tocar. Se quisermos garantir nossos lugares, é bom irmos logo.
assentiu rápido, começando a andar com as amigas na direção da sala, mas, ao olhar por cima do ombro, ainda estava lá, parado, observando-a com aquele mesmo meio sorriso que parecia esconder muito mais do que dizia. O estômago dela se revirou. Não sabia se era nervosismo, curiosidade ou outra coisa, mas já entendia o motivo de tudo parecer girar em torno dele. Quando as aulas terminaram, decidiu voltar para casa andando, como de costume. O sol finalmente se recolhia entre as nuvens, iluminando a rua estreita. Foi quando ouviu o mesmo som de motor misturado com a batida de música alta rasgando o fim de tarde. A caminhonete preta surgiu dobrando a esquina, com algumas janelas abertas e o som de vozes animadas se misturando com a música. O carro desacelerou ao se aproximar dela e Steve, que estava no banco de trás, se inclinou pela janela:
— Ei, novata! Vai andar até quando?
Dessa vez, não hesitou tanto. Ela parou, olhou para os rostos dentro do carro – os mesmos de mais cedo. E, no volante, , com o braço apoiado na janela e os olhos presos nos dela.
— Tá indo pra casa? — Ele perguntou.
— Sim… é perto.
— Mais rápido se for com a gente. — Disse Tyler.
respirou fundo. Talvez fosse só uma carona, afinal.
— Tá… por que não? — Respondeu, mas, antes que abrisse a porta de trás, Vanessa saiu do banco do carona e sinalizou para ela.
— Vem pra cá, se você ficar atrás com esses dois trogloditas nunca mais vai querer andar com a gente.
A garota riu em resposta, ouvindo o som abafado da música invadir seus ouvidos ao entrar. O banco cheirava a hortelã e perfume doce.
— Bem-vinda à zona cinza, . — virou o rosto em sua direção assim que ela entrou no carro.
— Ao lado maligno da escola. — Completou Steve, brincando.
— Confesso que achei que você fosse fazer doce por mais tempo. — Hill comentou, enquanto batucava os dedos no volante.
— Tô de bom humor hoje.
— É contagiante. — Ele retrucou, com um sorriso debochado.
O carro avançou pelas ruas onduladas de Kettle Springs, com a música ainda alta e o ar entrando pelas janelas, bagunçando o cabelo de , que agora segurava firme a borda do banco para manter o equilíbrio nas curvas fechadas. Ela se ajeitou no banco do carona, tentando parecer mais à vontade do que realmente estava, enquanto os colegas zoavam no banco de trás.
— Pode abaixar se quiser. — disse depois de um tempo, sem tirar os olhos da estrada, se referindo ao volume da música.
— Não precisa. Até que gosto dessa.
Ele lançou um olhar rápido, como se estivesse testando a resposta. Depois voltou a se concentrar na direção, mas o canto da boca ainda estava levemente curvado.
— Tá vendo, pessoal? A garota nova tem bom gosto. — Anunciou, alto o suficiente para o restante do grupo ouvir.
— Ponto pra ela. — Tyler respondeu, mais alto do que o esperado.
— Ela já tinha marcado ponto quando entrou no carro, vai. — Rebateu Vanessa.
— É o jeito deles de dizer “bem-vinda”. — Murmurou , com um tom leve.
respirou fundo, tentando ignorar o calor nas bochechas.
— E esse carro… vocês vivem nele ou é só impressão?
— Depende da semana. — Vanessa respondeu. — Quando não tem festa, tem estrada. Quando não tem estrada, tem alguma encrenca.
— Encrenca é uma palavra forte. — Corrigiu . — Eu prefiro “eventos espontâneos”.
lançou um olhar desconfiado para ele.
— Tipo o quê?
— Uma invasão não tão legal ao parque fechado da cidade, um desafio de subir no telhado da escola, ou acampar perto da cerca elétrica do campo de milho. Coisas divertidas.
— Coisas que não estão no manual de boas-vindas de Kettle Springs, com certeza. — comentou.
— Esse manual é pra turistas. Você parece mais curiosa do que isso.
Ela se virou levemente para ele.
— Isso é um elogio ou um alerta?
— Um elogio. Os alertas vêm depois.
— Você vai à festa, né? — Steve perguntou.
— Ela ainda tá decidindo. — respondeu antes que pudesse falar.
— Decidindo, mas já tá no carro com os organizadores? — Zombou Vanessa. — Tá praticamente dentro.
— Essa festa vai ser outro “evento espontâneo”?
— Tecnicamente é só o encerramento. A gente tá pensando em fazer uma excursão noturna pelas catacumbas da escola semana que vem.
— Excursão? — arqueou uma sobrancelha, divertida. — Isso é um jeito estiloso de dizer “invasão”?
— Que ofensa, é só uma expedição… educacional. — Steve brincou.
— É…— continuou Vanessa. — Aqueles galpões antigos atrás do ginásio. Quase ninguém entra lá. Só o zelador, e ele dorme na maioria do tempo. A gente vai com lanternas, câmera, talvez até leve uns marshmallows… e bebida, claro.
— Um piquenique sombrio. — ironizou.
riu baixinho, ainda com os olhos na estrada.
— Você devia ir. Tem um lado divertido em ver um lugar completamente normal parecer algo saído de filme de terror.
Ela riu também, mas por dentro sentia aquele velho arrepio voltando. A cidade sempre parecia ter alguma coisa por baixo.
— Vou pensar. Ainda tô em fase de avaliação.
— Justo. Mas, já que aceitou essa carona, diria que tá em sessenta por cento de adesão.
— Sessenta e cinco.
O carro seguiu em frente, cruzando ruas cada vez mais vazias até parar em frente à casa dela. A rua estava quieta, a fachada da casa parcialmente sombreada pelas árvores que balançavam com o vento.
— Pronto. Entregue. — finalmente olhou para ela, a mão ainda no volante.
— Obrigada pela carona. — Disse, abrindo a porta.
— Não precisa agradecer. Mas, agora que já conhece o grupo de adolescentes problemáticos, sabe o caminho nas próximas vezes.
Ela parou, um pé do lado de fora, o outro ainda dentro da caminhonete.
— Isso foi um alerta?
— Isso foi um alerta disfarçado de convite.
— Bom… vou pensar.
— Pense com carinho, .
Saiu do carro, bateu a porta com cuidado e andou até a varanda, sem olhar pra trás, mas, quando chegou à porta e se virou, a caminhonete ainda estava lá. ainda estava olhando. Ela deu um pequeno aceno com a cabeça e, só então, ele pisou no acelerador e partiu.

A casa já estava na penumbra quando entrou, fechando a porta com cuidado atrás de si. O cheiro de molho de tomate e alho pairava no ar, vindo da cozinha, junto com o som baixo de alguma música antiga tocando no celular do pai. Ela largou a mochila no canto da sala e seguiu o cheiro até encontrar , com um avental amassado, mexendo algo em uma panela grande.
— Hora perfeita.
— O que é?
— Algo entre macarronada e desastre comestível. A gente decide depois de comer.
sorriu e puxou uma cadeira, sentando-se na bancada.
— E o hospital?
— Equipe nova, corredores estreitos, café intragável. Mas o povo parece decente. Tô sentindo que vai ser bom. E você? Sobreviveu ao segundo dia?
— Sobrevivi. — Respondeu, puxando uma mecha de cabelo para trás da orelha. — Conheci mais gente, já tô começando a ficar com sono nas aulas… tudo normal.
parou de mexer a panela.
— E esse carro que você chegou… eram seus amigos?
— Uhum.
Ele virou um pouco o rosto, curioso.
— E, por acaso, a sua amiga era a motorista?
hesitou por um segundo. Não queria mentir, mas também não queria transformar aquilo numa discussão.
— Não, era o primo dela e os amigos dele. — ergueu uma sobrancelha, o suficiente para ela já entender o recado. — Ele não jogou o carro em ninguém, se é isso que você quer saber.
— Ainda bem. — O pai respondeu, voltando à panela, mas não sem lançar um último olhar curioso por cima do ombro. — Ah, tenho novidades. Tá vendo aquilo ali? — Apontou com a cabeça e, assim que desviou o olhar para a mesma direção, viu uma caixinha preta perto da televisão, com luzinhas coloridas piscando, e deu um gritinho, pulando da cadeira.
— Obrigada, obrigada, obrigada. — Ela correu para abraçar , que teve que afastar a panela para os dois não tomarem um banho de molho de tomate.
— Não se anima muito, fiquei sabendo que a internet da cidade é péssima e tem alguns picos de instabilidade.
— Tinha que ser. Kettle Springs não tinha como ficar mais acolhedora.
— Qual é, não é o fim do mundo. É até bom pra viciados como você se desligarem da internet um pouco. — fez a melhor expressão de indignada que conseguiu, apesar do sorriso no rosto. — E não é sempre, são em momentos específicos, tipo agora a noite. Olha que coincidência, é justamente o horário que você tem livre com seu querido pai.
— Não sabia que o ingrediente secreto da macarronada era drama. Eu sou autosuficiente, não dependo da internet pra viver.
— Tá bem, adolescente autosuficiente, vai tomar banho que eu já tô terminando a comida.
— Eu não sou adolescente, pai. — Dessa vez, a indignação era real.
— Jovem adulta.
Ela mostrou a língua pra ele e saiu da cozinha, indo direto para o quarto para tomar banho. Quando desceu, o jantar já estava pronto e os dois comeram juntos, com conversas sobre filmes e, como se não bastasse a internet, sobre como as tomadas da casa insistiam em não funcionar direito. Depois, foi para o quarto com um livro na mão e uma promessa de que no fim de semana fariam panquecas, “como nos velhos tempos”. Sozinha na sala, ficou em silêncio por alguns minutos. O relógio antigo fazia um tique-taque lento que ela ainda não se acostumara e, apesar da casa ser grande demais para dois, às vezes parecia pequena demais para tudo o que ela pensava.


Continua...


Nota da autora: Demorou, mas finalmente veio aí o segundo capítulo!! E os dois finalmente se conheceram formalmente. Já da pra notar uma “tensãozinha” entre eles né? Espero que tenham gostado e até o próximo. 💜

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