Capítulo 1
A placa enferrujada na beira da estrada dizia “Bem-vindo a Kettle Springs”, mas havia algo nas letras desbotadas que soava mais como um aviso do que um convite. leu aquilo pela terceira vez, encostada no vidro da caminhonete do pai, enquanto o carro atravessava o portal invisível da cidade sem cerimônia, apesar de, para ela, aquele ser um ponto sem volta.
— Estamos quase lá. — , disse com a voz baixa, como se temesse acordar alguma coisa adormecida na estrada. Do banco do passageiro, observava a cidade ganhar forma em pequenos detalhes: casas baixas com varandas amplas, gramados impecáveis, lojas locais com letreiros antigos e ruas tão silenciosas que o barulho do motor parecia um grito. — O que acha?
— Parece… calmo. — Ela respondeu, sem tirar os olhos da paisagem.
— Calmo é um bom começo, não acha?
O pai parecia mais tranquilo do que nos últimos meses. Talvez Kettle Springs trouxesse isso: um pouco de sossego. Ou talvez fosse apenas mais uma tentativa de fuga. Desde a morte da mãe, tudo se resumia a mudanças, empacotamentos e recomeços. Essa, no entanto, tinha um peso diferente. Era só ele e agora. Sem promessas de melhora. Sem grandes planos. Apenas uma transferência para trabalhar num hospital de uma cidadezinha do interior e uma casa alugada no final de uma rua arborizada. A casa era antiga, mas acolhedora à sua maneira. Pintura gasta em alguns pontos, uma varanda com duas cadeiras de balanço e um quintal que parecia guardar histórias enterradas no mato alto.
— Vamos ter bastante trabalho aqui. — Disse , descendo do carro e esticando as costas. — Mas achei que você fosse gostar. Espaço, silêncio… um pouco de paz.
soltou um riso curto.
— E wi-fi com sinal fraco. Um paraíso.
Ele a olhou, com um brilho sincero nos olhos.
— A gente precisava disso, . Precisava tentar. Só nós dois agora.
Ela assentiu, mesmo que uma parte quisesse dizer que um novo começo não apagava o antigo. Mas ali estavam. Uma cidadezinha no meio do nada, um recomeço forçado, um pai tentando acertar.
Apesar de tudo, Kettle Springs parecia tranquila.
subiu os poucos degraus da entrada carregando duas malas, enquanto o pai vinha logo atrás com caixas onde o nome dela estava escrito com caneta preta. A chave rangia na fechadura como se não quisesse girar. forçou mais um pouco até que a porta se abriu com um estalo seco. O ar lá dentro tinha cheiro de madeira antiga, poeira e algo adormecido – como se a casa estivesse esperando por alguém fazia tempo demais.
— Bom… é melhor do que eu lembrava. — Disse, animado, enquanto empurrava a porta com o ombro. — Você devia ver como estava nas fotos do site do corretor. Parecia cenário de filme de terror.
— Ótimo incentivo, pai. — respondeu, cruzando os braços.
Entraram juntos. A sala era espaçosa, com um piso de madeira que rangia sob os pés e uma lareira de tijolos coberta por uma camada fina de poeira. Haviam móveis antigos cobertos por lençóis brancos e uma escada de madeira que levava ao andar de cima, onde ficavam os quartos.
— Achei que fosse gostar dessa vibe meio… vintage. — Comentou ele, tentando quebrar o silêncio espesso.
não respondeu de imediato. Caminhou até uma das janelas da sala, afastando a cortina pesada. A luz do fim de tarde invadiu o ambiente, iluminando partículas de poeira no ar. Do lado de fora, dava para ver o quintal coberto por folhas secas e uma velha casinha de ferramentas nos fundos.
— Quantos filmes começam assim mesmo? — Ela perguntou, virando-se para o pai com um meio sorriso.
— Os bons. — Ele deu uma piscada. — Vai ver esse é o nosso. A diferença é que não vão ter monstros nem assassinos, só reforma e um pouco de terapia emocional. — riu de leve, pela primeira vez em dias. — Pode escolher seu quarto.
O quarto que ela escolheu tinha uma janela grande voltada para a frente da casa, com vista para a rua silenciosa e os campos ao longe. Um armário antigo ocupava boa parte de uma das paredes, e o colchão novo já havia sido deixado lá pela transportadora.
— Se precisar de ajuda com as caixas, estou aqui… — disse , encostando na porta. — Mas acho que você vai querer montar seu “santuário” sozinha.
— Acho que sim. — Ela respondeu, olhando ao redor.
Ele assentiu e a deixou ali, no quarto meio vazio, com a mala aberta e os pensamentos ainda mais. O jantar naquela noite foi silencioso. Um silêncio conhecido entre os dois – confortável, mas cheio de coisas não ditas. Entre uma garfada e outra, o pai arriscou uma tentativa de leveza.
— Amanhã eu te levo pra escola. — Disse, enquanto empilhava os pratos na pia. — Só pra garantir que você não se perca no primeiro dia.
assentiu, com um meio sorriso.
— Vou tentar não passar vergonha.
— Só tenta não matar ninguém, já ajuda. — Ele riu da própria piada, e ela também. Mas, mesmo enquanto sorria, sentiu um arrepio estranho subir pelas costas.
Naquela noite, adormeceu com o barulho do vento sacudindo as árvores do lado de fora.
Na manhã seguinte, observava seu reflexo no espelho do banheiro, tentando fazer o cabelo parecer menos desorganizado do que estava. Era seu primeiro dia na nova escola, e por mais que fingisse não se importar, o aperto no estômago dizia outra coisa. a deixou com um aceno e um sorriso forçado na entrada da escola – um bloco antigo de tijolos avermelhados, com janelas altas e um gramado bem cuidado. O estacionamento estava cheio de caminhonetes, bicicletas e alunos circulando aos grupos, como se todos soubessem exatamente onde pertencer – ela claramente não sabia. Segurava a alça da mochila como se fosse um escudo, sentindo os olhares caírem sobre ela com naturalidade – não maldosos, apenas curiosos. Cidades pequenas não sabiam lidar com novidades, ainda mais com meninas de fora. Por dentro, os corredores eram iluminados por lâmpadas amareladas, e os armários azuis já estavam riscados com nomes e iniciais. O cheiro de papel velho e desinfetante se misturava ao barulho abafado de passos e conversas. Vários armários metálicos forravam as paredes, e os alunos circulavam em pequenos grupos, como se seguissem uma coreografia invisível. Uns cochichavam, outros encaravam, não com hostilidade, mas com uma curiosidade silenciosa.
— Não liga pra eles. — Disse uma voz feminina ao seu lado. virou-se e encontrou uma garota sorridente, com o cabelo preso num coque alto e moletom cinza. — Sou a Hill. Você deve ser novata.
— . — Respondeu, aliviada por não ter que andar sozinha.
— Adorei sua jaqueta. Ninguém aqui tem estilo, então isso já é um bom sinal.
Ela riu de leve, agradecida pela abordagem fácil, mas antes que pudesse perguntar mais, a atenção delas desviou para um ponto do corredor. Um grupo acabava de entrar pela porta lateral. Quatro ou cinco jovens – risadas altas, passos confiantes, mochilas jogadas nos ombros. Entre eles, um garoto de cabelo castanho meio bagunçado propositalmente, camiseta cinza e andar tranquilo, que passou os olhos pelo corredor e parou por um segundo em – não foi um olhar descarado, nem prolongado, mas direto, como se ele estivesse tentando entender quem ela era –, que desviou antes que parecesse que estava retribuindo.
— Deixa eu adivinhar, eles são os “populares”.
— “Populares” não é bem a palavra… — respondeu com uma careta. — Eles vivem em outro mundo, fazendo festas direto, andando de carro à noite, metendo o louco em feriados… essas coisas. — não respondeu. Por alguma razão, sentiu que o garoto olhava mais do que devia. Ou talvez fosse só coisa da cabeça dela, já que a cidade inteira parecia observar. — Mas relaxa, eu vou te ajudar a sobreviver aqui. Bora pegar seu horário de aulas e eu te ajudo a achar a sala. Já aviso que a aula de história é uma tortura, mas pelo menos o professor dorme no meio da própria explicação.
sorriu pela primeira vez naquela manhã. Talvez nem tudo fosse tão ruim assim.
A sala de aula parecia pequena demais para tanta conversa. As carteiras eram antigas, riscadas com nomes e frases rabiscadas por gerações anteriores. No fundo da sala, o grupo que havia visto mais cedo ocupava um canto inteiro, falando baixo entre si, rindo de tempos em tempos. Ela tentava não olhar, mas o som sempre a fazia levantar os olhos por reflexo. O mesmo garoto estava encostado na carteira, braços cruzados, e falava algo para um dos amigos com um meio sorriso nos lábios. Uma ou duas vezes pareceu notar o olhar de , mas não reagiu, como se estivesse apenas registrando, sem demonstrar nada. Enquanto isso, cochichava ao seu lado:
— Aquela é a … — disse, apontando discretamente para uma garota de cabelo castanho escuro e pele morena, sentada duas fileiras à frente. — Ela é do teatro e do jornal da escola, tem opinião sobre tudo, e fala mais rápido do que você consegue pensar, mas é ótima. Só cuidado quando ela estiver com sono, aí ela morde. — sorriu e acenou quando olhou para trás. — E a ruiva ali, de trança? . Fofa, dramática e péssima em matemática. Uma vez confundiu a equação da lousa com uma receita de bolo, mas ela ajuda todo mundo… e é boa em fofoca.
— A tríade está completa. — Brincou .
— Bom, agora você faz parte também. Parabéns, está oficialmente integrada. — disse, batendo de leve na mesa com o fichário.
A conversa e os cochichos cessaram gradualmente quando a porta da sala se abriu com um rangido. Um homem de meia-idade, magro, de óculos pendurados na ponta do nariz e expressão paciente, entrou carregando uma pasta surrada e uma caneca de café.
— Bom dia, turma… — disse, enquanto deixava os materiais na mesa. — Espero que tenham tido um ótimo final de semana. Antes de começarmos, temos uma nova aluna com a gente. — Ele olhou para e fez um gesto com a mão. — Pode se levantar, por favor? Se apresenta para a turma.
Ela sentiu o coração acelerar, respirou fundo, empurrando a cadeira para trás devagar, e, quando ficou de pé, todos os olhares da sala se voltaram para sua direção – era como estar sob um holofote.
— Oi… eu sou a . Me mudei pra cá recentemente com meu pai, por causa do trabalho dele. A gente veio de Los Angeles… — ela hesitou por um segundo, tentando escolher as palavras — … então ainda tô me acostumando com o ritmo daqui.
Alguns alunos assentiram educadamente, outros voltaram a olhar para os próprios cadernos, mas, no fundo da sala, ela ainda sentia os olhares persistentes do grupo que ocupava o canto. Quando seus olhos, inevitavelmente, encontraram os do garoto, ele já estava olhando. Um sorriso ladino brincava em seus lábios, como se estivesse curioso para descobrir mais dela, e não desviou o olhar. Pelo contrário, inclinou a cabeça sutilmente, como se estivesse avaliando. engoliu em seco e olhou para frente novamente, voltando a se sentar. lhe deu um cutucão leve com o cotovelo e um sorriso de incentivo.
— Obrigado, . Seja bem-vinda à Kettle Springs High. Agora, abram os livros na página 37. Vamos começar com a análise de texto.
O sinal do intervalo soou e os corredores se encheram em segundos. saiu da sala acompanhada pelas novas amigas, ainda se sentindo meio deslocada, mesmo que a presença delas deixasse tudo menos esquisito.
— O que você achou da primeira aula? — Perguntou , abrindo o armário ao lado do de .
— Foi tranquila… só tô tentando não parecer uma alienígena. — respondeu com um sorriso sem graça.
— Relaxa — disse, mastigando um chiclete. — Já vi gente bem mais bizarra por aqui.
Ela riu baixinho, mas parou quando viu o grupo que se aproximava pelo corredor. Todos os olhares se voltavam para eles – como sempre –, que distribuíam panfletos com convites para uma festa. , que observava tudo atentamente, cruzou os braços, com um sorriso ladino no rosto.
— Clássico. Eles fazem isso todo ano no final de semana da comemoração da colheita. É a “versão sem pais” da festa oficial da cidade.
Quando passaram por elas, um dos garotos – loiro, com covinhas e uma pinta na bochecha – parou e piscou para , entregando os panfletos para algumas delas.
— Quer dizer, a versão interessante… você é a novata, né?
— Sou. — Confirmou, meio hesitante.
— Perfeito. Primeira regra de Kettle Springs: você não conhece a cidade até ir numa festa no celeiro. Vai mudar sua vida. — Disse, teatral, e outro garoto completou:
— Ou acabar com ela. Vai depender da sua sorte.
Eles riram, não de forma maldosa, mas como se fosse o tipo de piada que diziam para todo mundo. O mesmo menino de antes, que vinha logo atrás, passou os olhos em por um segundo e parou, estendendo o panfleto.
— Vai ser num sábado à noite… se você for, vai entender por quê.
— Eu não bebo. — Ela pegou o papel, analisando-o enquanto mordia o lábio inferior, notando o olhar dele acompanhar brevemente o movimento antes de voltar para seus olhos.
— Ninguém disse que precisa. — Respondeu, com um leve sorriso de canto de boca.
— Qual é, não precisa assustar a garota logo no primeiro dia. — Disse , rolando os olhos, apesar dos lábios curvados.
Ele olhou para ela por um segundo, o sorriso ainda presente, mas com menos intensidade. A troca entre os dois foi breve, como se escondesse alguma familiaridade, mas não ficou claro o porquê.
— Foi mal, Harp. Só tentando ser… acolhedor. — E então se virou, entregando o último panfleto para um garoto do time de futebol antes de começar a se afastar com os amigos. observou a cena com uma sobrancelha levantada.
— Bom, se você for, vai ver o que é o verdadeiro Kettle Springs. A feira é só fachada. A festa de verdade acontece atrás do celeiro, com música, bebida e uma galera que parece viver num filme adolescente… até a parte em que tudo dá errado.
olhou para o panfleto dobrado em sua mão. Ainda não sabia se ia, mas já sentia que, de um jeito ou de outro, aquela cidade estava começando a atraí-la.
As aulas passaram em um ritmo estranho – não lentas, mas dispersas, como se ainda não estivesse totalmente ali. Ela acompanhava o conteúdo, mas sua atenção oscilava entre a professora e os pequenos detalhes ao redor: as conversas sussurradas, os cadernos com capas rabiscadas, as janelas altas com vista para os campos lá fora. Em outro intervalo entre as trocas de aula, e as meninas se sentaram juntas nos degraus do pátio lateral, dividindo um pacote de salgadinhos e rindo das histórias absurdas que contava.
— Eu juro que o cara levou uma vaca pro baile da escola uma vez. — Disse, animada. — Disseram que era parte da tradição da família dele.
— Isso não aconteceu. — falou, tentando não rir.
— Aconteceu sim… — confirmou . — A parte triste é que a vaca estava mais bem vestida do que muita gente.
— E mais sóbria, com certeza. — Completou , arrancando risadas das outras.
O sinal tocou e o grupo se levantou devagar. juntou os papéis do colo e ajeitou a mochila nas costas, mas, antes de voltarem para dentro, a puxou levemente pelo braço.
— Ei, já ouviu falar da The Hollow?
— Não. O que é isso?
— A cafeteria do meu pai. Fica na rua principal, do lado da livraria. Tem sofá confortável, chocolate quente e um monte de gente esquisita que aparece por lá. Você devia passar um dia desses. Depois da aula, talvez?
assentiu, surpresa pela naturalidade do convite e da sensação de pertencimento que não esperava encontrar tão cedo.
— Claro, eu adoraria.
— Legal, então temos um encontro. E lá tem cookies bons demais pra dividir com quem a gente não gosta.
O céu começava a escurecer quando saiu pelos portões da escola. Recusara a carona do pai com a desculpa de querer conhecer melhor a cidade, apesar de, na verdade, só precisar de um pouco de silêncio depois de tantas informações, rostos novos e risadas em ambientes barulhentos. As ruas de Kettle Springs tinham cheiro de grama cortada e asfalto quente, e o som dos seus passos e das poucas pessoas circulando era o único que preenchia o ar por alguns quarteirões. Ela andava devagar, com a mochila jogada em um ombro e os pensamentos ainda presos nos momentos do dia. Foi quando ouviu o som: primeiro, um grave abafado, depois uma batida pop acelerada ecoando pela rua estreita. se virou para olhar, vendo uma caminhonete preta se aproximar pelo fim da rua com o vidro baixo e faróis que cortavam o entardecer, a música aumentando conforme se aproximava. Quatro pessoas dentro, todas do tal grupo de mais cedo. Ela reconheceu a garota de cabelo rosa no banco do carona, rindo alto com um copo térmico na mão, atrás, dois garotos cantavam a letra da música em voz alta, um deles com metade do corpo para fora da janela.
E no volante, ele.
Mesmo à distância, soube imediatamente. O cabelo castanho claro bagunçado pelo vento, o braço pendurado pela janela, os olhos atentos ao caminho, até que, por um breve momento, se desviaram para ela, rápidos, mas certeiros. Um meio sorriso quase surgiu no canto de sua boca, mas, antes que pudesse entender o que significava, a garota de cabelos rosas se inclinou na direção dela.
— Ei, novata! Quer carona?
Ela hesitou, parando no meio da calçada, o corpo tendendo a dizer sim, ao mesmo tempo em que a cabeça dizia “não tão cedo”. As palavras de ecoavam de fundo: “Eles vivem em outro mundo.”
— Tá tudo bem, minha casa não é longe! — Respondeu, forçando um sorriso educado, e a garota deu de ombros.
— Sua perda! — Disse, brincando.
E então outra voz, mais rouca e animada, gritou de dentro do carro:
— Pisa fundo, !
Ele olhou para ela mais uma vez, sem pressa, depois virou a chave do rádio e acelerou. A caminhonete desapareceu na próxima curva, com a música ainda ecoando atrás dela e ficou parada por mais alguns segundos antes de voltar a andar, o coração batendo mais rápido do que gostaria.
… então esse é o nome dele.
O cheiro de comida congelada esquentando no forno preenchia a cozinha enquanto se encostava no balcão, descalça, observando o pai mexer numa panela como se estivesse fazendo algo mais elaborado do que um macarrão de micro-ondas.
— Isso parece suspeito. — Comentou, com um leve sorriso.
— Olha, só porque não é delivery, já conta como caseiro. — respondeu , sem se virar. — Além do mais, temos salada. Dá credibilidade.
A filha se sentou à mesa da cozinha, apoiando o queixo na mão.
— Como foi o hospital?
— Diferente. Calmo demais, o que é bom, mas… todo mundo se conhece. Tipo, mesmo. A enfermeira que me mostrou a ala pediátrica estudou com o paramédico da ambulância e já foi vizinha da recepcionista. Me senti meio intruso.
— Bem-vindo ao clube. — respondeu, rindo baixo.
colocou dois pratos na mesa e se sentou de frente para ela. O abajur pendurado lançava uma luz amarelada e suave sobre os dois, criando uma bolha de paz rara.
— E você? Como foi na escola?
— Sobrevivi. Conheci algumas meninas legais, , e . A meio que me adotou.
— Gosto dela só pelo nome. Parece saída de filme de mistério. — Brincou ele e riu, hesitando antes de continuar.
— Também tinha um grupo que você provavelmente me diria pra evitar. Aqueles que têm cara de que fazem festas demais e dormem de menos.
arqueou uma sobrancelha.
— Populares, problemáticos e carismáticos?
— Mais ou menos isso.
— Então, sim, evita.
girou o garfo no prato, pensativa.
— Eles parecem viver em outra frequência, como se soubessem coisas que o resto da escola não sabe.
— Isso foi incrivelmente filosófico pra quem está comendo macarrão de caixinha. — Comentou o pai, sorrindo, e ela sorriu de volta, sem responder. Ficaram em silêncio por alguns segundos, comendo, enquanto o som da televisão da sala vazava baixinho para a cozinha. — Ah, liguei pra uma empresa de internet hoje. Disseram que vêm amanhã ver a instalação. Talvez a gente tenha wi-fi de verdade antes do fim da semana. Vai ser um milagre se funcionar melhor do que aquele 3G jurássico que você insiste em usar.
ergueu as mãos em uma comemoração silenciosa.
— Finalmente! Eu estava quase enviando mensagens por pombo-correio.
a observou com um olhar carinhoso, e por um momento, o cansaço nos olhos pareceu suavizar.
— Eu sei que não foi fácil pra nós dois virmos pra cá, mas… eu realmente acho que esse lugar pode ser bom pra gente, .
— Eu sei. — Ela respondeu, mais baixo. — Também tô tentando.
Depois do jantar, subiu para o quarto com um prato de cookies que havia insistido que ela levasse para casa, deitou na cama, sentindo o peso do dia cair de uma vez só nos ombros, e só então lembrou do panfleto, tirando do bolso da mochila e o desdobrando com cuidado.
Sem adultos. Com música. Com diversão. Com a gente.
encarou o papel por um tempo, sem reação, e depois o deixou na mesa de cabeceira, virado para baixo. As palavras pareciam pulsar de forma diferente agora, como um convite… ou um aviso.