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Light My Love

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Capítulo Único

Capítulo Único

Essa era uma vida engraçada.
Comicamente trágica.
E irritantemente irônica.
Eu havia crescido em um lar conservador. Com um pai autoritário que saía todas as quartas-feiras para se encontrar com suas amantes. Uma mãe que cozinhava e cuidava da casa todos os dias, mas que se afogava no álcool escondida pelos cantos quando achava que ninguém estava em casa. E um irmão mais velho tão machista quanto o meu pai.
Não foi difícil acreditar que aquele deveria ser um lar de verdade. Casar cedo. Ter filhos. Construir uma linda família feliz para posar para fotos e deixar porta-retratos espalhados pelo aparador da sala.
Bem, pelo menos foi assim até eu descobrir que gostava de faltar aula para beijar garotos e me apaixonar a cada nova cantada brega que recebia.
Um comportamento deliberadamente desaprovado pela minha mãe, que descobriu tudo quando eu já estava no último ano da escola. Ela contou para o meu pai e não demorou muito para que eu fosse colocada para fora de casa. Afinal, eu não era exemplar como o meu irmão. O mesmo filho perfeito que meu pai fazia questão de exibir para os vizinhos, mesmo quando fechava os olhos para tudo aquilo que ele fazia longe dos olhares alheios.
Mas eu me virava bem fora de casa.
Tinha facilidade em fazer amizades e cativar as pessoas, o que me ajudou a encontrar gente disposta a oferecer comida, um sofá e abrigo por algumas noites.
Porém, nenhuma situação como essa vem sem algum trauma, não é mesmo?
Descobri que algumas coisas silenciavam a dor. Beijar garotos era uma delas. Álcool era outra. E, para a minha infelicidade, o vício logo se tornou inevitável e reconfortante ao mesmo tempo.
Com vinte anos, eu havia me tornado exatamente aquilo que meu pai cuspiu na minha cara antes de me jogar para fora: uma viciada sem futuro.
Bem, tudo isso mudou quando Sam Wilson entrou na minha vida.
Não em uma explosão ou em uma batalha, muito menos salvando o mundo.
Apenas se sentando na minha frente em uma lanchonete enquanto eu chorava sobre um café frio e fingia que estava tudo bem.
Com seu sorriso contagiante e palavras reconfortantes, ele me levou para um grupo de apoio para pessoas como eu. E, pela primeira vez em muito tempo, alguém olhou para mim sem pena, sem julgamento e sem tentar me consertar.
Sam era uma pessoa fácil de amar.
Não demorou muito para que ele se tornasse um amigo constante, daqueles que aparecem quando você menos espera e ficam quando todo o resto vai embora.
Se alguém tivesse me contado naquele dia que conhecer Sam Wilson mudaria o curso da minha vida duas vezes, eu teria rido na cara da pessoa.
E, quando o vi assumir o escudo e se tornar o Capitão América, eu não poderia ter ficado mais orgulhosa do meu amigo.
Sam se tornou minha família e sua própria família me adotou como membro dela também. Almoços no domingo. Buscar os seus sobrinhos na escola. E ser carinhosamente chamada de “tia ”.
Mas Sam era um herói. E heróis conheciam outros heróis. E anti-heróis também.
Eu já ouvia falar de Bucky Barnes a mais tempo o que eu conseguia me lembrar.
Porém eu não o conhecia.
Ainda não.
Sam tentou me preparar para o momento, é claro.
Disse que tinha um amigo rabugento que possuía a impressionante habilidade de transformar qualquer conversa em um interrogatório policial e qualquer elogio em uma reclamação.
Mas também disse que ele era uma boa pessoa.
Que só precisava de um pouco mais de tempo do que a maioria para baixar a guarda e mostrar quem realmente era.
Eu acreditei nele.
Afinal, Sam raramente errava sobre as pessoas.
O que ele não me contou foi que eu também precisaria de um pouco mais de tempo para entender quem James Buchanan Barnes realmente era.
E que, quando entendesse, já seria tarde demais para impedir que ele partisse meu coração.
Conheci Bucky em um domingo.
Não em alguma situação heroica digna de virar manchete.
Na verdade, foi o mais normal que poderia ser, durante um churrasco no quintal da casa da Sarah.
Eu estava sentada no chão da varanda, ajudando AJ e Cass a montar um quebra-cabeça que claramente possuía peças faltando, enquanto Sam discutia futebol com metade da vizinhança.
Era uma tarde comum.
— Ele vem hoje? — perguntei, encaixando uma peça azul onde definitivamente não deveria estar.
Sam ergueu os olhos do celular, demorando um segundo a mais para entender que eu falava com ele.
— Quem?
— Seu amigo rabugento.
— Tenho vários amigos rabugentos.
— O de cem anos.
Sam riu.
— Então você vai ter que ser mais específica.
Revirei os olhos pela piada sem graça.
— O do braço metálico.
— Ah. O Bucky... — Um sorriso genuíno surgiu em seus lábios, como se gostasse do fato de eu estar perguntando sobre ele. — Talvez.
— Talvez? — Arqueei uma das sobrancelhas, ainda interessada.
— Ele confirmou presença... — ele deixou no ar e eu revirei os olhos.
— E isso significa...?
— Cinquenta por cento de chance de aparecer.
Assenti como se aquilo fizesse sentido.
Continuei brincando com os meninos até ouvir o som de um carro estacionando na frente da casa.
Nem percebi que tinha levantado a cabeça para olhar.
A porta do veículo se abriu.
Um homem alto saiu do banco do motorista, vestindo jeans escuros e uma camiseta preta. No rosto, tinha uns óculos escuros e uma sacola de papel em uma das mãos.
Por um segundo, fiquei esperando o restante.
Uma equipe tática.
Uma entrada dramática.
Uma trilha sonora tocada por Bon Jovi ou alguma outra dessas bandas de rock de pai solteiro.
Qualquer coisa.
Mas não havia nada.
Apenas um homem carregando uma sacola de supermercado sob o calor da Louisiana.
— Esse é o Soldado Invernal? — murmurei, tentando não parecer interessada demais.
Sam acompanhou meu olhar.
— É.
Observei enquanto o recém-chegado fechava a porta do carro usando o quadril e caminhava até o portão.
Os meninos largaram tudo o que estavam fazendo ao perceberem que ele se já estava dentro do pátio da casa.
— Tio Buck! — Os dois dispararam pelo quintal.
E então aconteceu uma coisa que Sam convenientemente havia esquecido de mencionar.
O rosto de Bucky Barnes se transformou completamente.
O sorriso surgiu antes mesmo de eles alcançarem seus joelhos. Era pequeno, genuíno e eu diria que quase tímido.
E tão inesperado que me pegou completamente desprevenida.
— Isso é golpe baixo — murmurei.
— O quê?
— Você nunca me disse que ele era bom com crianças.
Sam sorriu.
— Eu disse que ele era uma boa pessoa.
Descobri, naquele exato instante, que as duas coisas eram muito diferentes.
Eu não era uma pessoa que acreditava em amor à primeira vista, nem em almas gêmeas muito menos em destino.
E certamente não acreditava em qualquer uma daquelas baboseiras românticas que enchiam livros e filmes.
Mas quando o Soldado Invernal atravessou o quintal, estendeu a mão para mim e disse:
— Prazer. Sou Bucky.
Tudo aquilo em que eu acreditava foi por água abaixo.
Talvez tenha sido o sorriso discreto ou a voz rouca, ou até mesmo o fato de ele parecer mais nervoso do que eu. Não sei.
Só sei que, de repente, me tornei dolorosamente consciente da própria existência.
— respondi, apertando sua mão. — Prazer.
Mentira. Não havia nenhum prazer.
Prazer era encontrar dinheiro esquecido no bolso de uma calça.
Prazer era tomar café depois de uma noite mal dormida.
Aquilo era outra coisa.
— Sam falou de você — ele disse, olhando no fundo dos meus olhos e foi como o golpe final para que minhas pernas virassem gelatina.
— Espero que tenha falado bem — foi tudo o que consegui pensar em responder.
Ouvi Sam gargalhar atrás de mim. Traidor.
Bucky lançou um olhar rápido para o amigo antes de voltar sua atenção para mim.
— Só as melhores coisas.
Meu coração decidiu perder completamente a compostura.
O pior era que ele não estava flertando. Não havia malícia. Não havia segundas intenções. Não havia aquele brilho convencido que alguns homens colocavam na voz quando queriam impressionar alguém.
Era apenas um comentário sincero e casual. Como se estivesse falando sobre o clima. E não como se não tivesse acabado de bagunçar toda a química do meu cérebro em menos de dois minutos.
Naquele momento, tive uma suspeita terrível. Talvez Sam estivesse errado.
Talvez o maior problema de Bucky Barnes não fosse ser rabugento.
Talvez fosse o fato de ele não fazer a menor ideia do efeito que causava nas pessoas.
As próximas horas daquela tarde foram gastas entre conversas banais e olhares intensos que eu não conseguia disfarçar enquanto Bucky falava ou ria. E que eu sabia que viraria motivo de chacota para Sam e Sarah, mas eu simplesmente não conseguia evitar.
Aquilo era ridículo, patético e humilhante.
Porque não era como se ele estivesse fazendo alguma coisa. Ele não estava tentando me impressionar, nem ao menos estava nem mesmo prestando atenção em mim na maior parte do tempo.
Mas, de alguma forma, aquilo parecia pior.
Porque significava que aquele sorriso torto, aquela voz grave e aquele jeito discretamente gentil existiam de forma natural.
E eu estava terrivelmente condenada.
Em determinado momento, AJ e Cass decidiram que precisavam jogar futebol no quintal e, por alguma razão, me arrastaram junto.
— Anda, tia ! — AJ reclamou, puxando minha mão.
— Eu sou adulta — tentei contestar contra a dupla que nunca perdia uma discussão.
— Você tem vinte e poucos anos — ele argumentou, como se isso justificasse alguma coisa.
— Exatamente. Uma adulta.
— Você correu atrás da gente pela casa semana passada — disse Cass, rindo da lembrança.
— Isso é irrelevante para esta conversa — fiz uma careta, mas de nada adiantou, pois continuei sendo arrastada para o gramado do jardim.
Cinco minutos depois, eu estava participando da partida.
Dez minutos depois, estava perdendo.
Quinze minutos depois, estava estendida na grama, sem fôlego e questionando minhas escolhas de vida.
— Nossa, você é péssima nisso — virei a cabeça instantaneamente ao perceber que alguém falava comigo.
Bucky estava parado ao meu lado, segurando uma lata de refrigerante.
— Que cavalheiro — murmurei, virando o rosto para o outro lado, para tentar disfarçar o rubor que assumia as minhas bochechas.
— Estou sendo sincero.
— Eu prefiro mentiras — falei e o olhei novamente.
O canto da boca dele se ergueu.
Meu coração imediatamente tomou isso como uma declaração de amor.
— Você sempre desiste tão rápido? — ele resolveu continuar o assunto e eu vibrei por dentro.
— Eu não desisti.
— Está deitada na grama.
— Estou elaborando uma estratégia — ergui o indicador, como quem pensa em algo grandioso.
— Claro.
— É uma estratégia muito complexa.
Ele soltou uma breve risada.
E, por um segundo, apenas por um segundo, seus olhos encontraram os meus.
Não havia nada extraordinário naquele momento.
Nenhuma revelação cósmica.
Nem sequer “Save Me”, dos Hanson, tocando ao fundo.
Só um homem me olhando como se estivesse genuinamente feliz por estar ali.
E talvez tenha sido exatamente por isso que meu coração apertou.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Era o olhar de alguém que não encontrava muitos motivos para sorrir.
E, naquele instante, ele estava sorrindo.
— Ainda está pensando na sua estratégia? — Questionou após longos segundos de silêncio que eu havia passado ocupada demais observando-o para perceber.
— Com certeza. É uma estratégia extremamente sofisticada — sorri, tentando parecer convincente.
— Bom, eu ia chamá-la para tomar o café que Sarah fez, mas posso deixá-la refletindo mais um pouco — falou prestes a virar as costas.
— Minhas reflexões podem esperar — dei de ombros. — Café sempre tem prioridade na minha vida.
Aquilo arrancou outro daqueles sorrisos discretos.
Os perigosos.
Levantei da grama e comecei a caminhar ao lado dele em direção à varanda.
Por alguns segundos, nenhum de nós disse nada.
E, estranhamente, não era desconfortável.
— Então você gosta de café? — ele perguntou.
— Eu sobrevivo à base de café — encolhi os ombros.
— Isso explica muita coisa.
— O que exatamente? — virei o rosto para olhá-lo.
— Toda a energia — gesticulou com as mãos e eu ri pelo nariz.
— Isso foi um elogio ou uma crítica?
— Ainda estou decidindo.
Revirei os olhos.
— Sam tinha razão. Você é rabugento — provoquei.
— E você fala bastante — ele rebateu e eu senti as bochechas formigarem.
— Acabamos de nos conhecer.
— Eu sei.
Abri a boca para responder, mas ele foi mais rápido.
— Tem uma cafeteria perto do meu apartamento.
Pisquei.
Uma vez.
Duas.
Três.
— Certo... — ponderei, esperando que ele continuasse.
Pela expressão dele, percebi que só então havia entendido o que acabara de dizer.
Como se as palavras tivessem saído antes que ele pudesse impedi-las.
— Eles fazem um café decente — acrescentou rapidamente.
Meu Deus. Eu não acreditava que estava vivendo para ver aquilo.
Ele estava nervoso.
— Que bom saber — abri um sorriso amarelo, ainda sem entender muito bem para onde ele estava indo.
— É.
— É.
Mais alguns segundos de silêncio.
— Você está me convidando para tomar café? — Tomei coragem de perguntar.
O olhar que ele me lançou foi quase ofendido.
— Eu achei que tinha sido bastante claro.
— Eu só queria confirmar — encolhi os ombros e pude ver o canto da boda dele se erguer novamente.
— Próximo sábado. Dez horas.
Meu coração decidiu dar uma cambalhota.
— Certo.
— Certo.
E então ele entrou na casa como se não tivesse acabado de alterar completamente os meus planos para o próximo fim de semana.
Eu fiquei parada na varanda por alguns segundos, observando suas costas desaparecerem pela porta.
— Meu Deus — murmurei para mim mesma, ainda sem saber o que fazer com meu coração que batia descompassado.
— Ele te chamou para sair, não chamou?
Dei um pulo.
Sarah estava atrás de mim segurando uma xícara de café.
— Você ouviu? — Achei que meus olhos pulariam das minhas órbitas oculares enquanto esperava pela sua resposta.
— Querida, metade da casa ouviu.
— Eu vou me matar.
— Depois você pode tentar — ela tomou um gole do café. — Mas primeiro vai precisar sobreviver até sábado.
Eu poderia dizer que esperar pelos próximos dias foi uma das experiências mais agonizantes da minha vida.
Mas a vida é longa quando se trata de sofrimento, e eu ainda não fazia ideia do que o futuro reservava para mim.
Então não.
Não foi a pior espera da minha vida.
Mas definitivamente entrou para o ranking.
Principalmente porque eu tinha um Sam Wilson particularmente insuportável decidido a transformar minha ansiedade em entretenimento pessoal.
Meu celular não teve um minuto de paz.
A cada poucas horas surgia uma nova mensagem ou um novo áudio. Mas sempre uma nova tentativa de me irritar. E que estava funcionando.
"Acho que você deveria usar um vestido vintage. Sabe... para ajudá-lo a relembrar os velhos tempos."
A mensagem era seguida por uma gargalhada tão alta que me fez afastar o telefone da orelha.
Revirei os olhos e respondi imediatamente.
"Acho que você deveria procurar um hobby."
A resposta chegou em menos de dez segundos.
"Eu tenho um hobby."
"Qual?"
"Infernizar você."
Bloqueei o celular.
Cinco minutos depois, ele estava ligando.
Ignorei.
Ligou de novo e de novo.
Na terceira tentativa, atendi.
— O que foi, meu Deus do céu? — Perguntei irritada.
— Você está nervosa?
— Não!
— Mentira — e eu quase consegui visualizar o seu sorriso idiota do outro lado da linha.
— Não estou — insisti e enganando a mim mesma.
— Você passou os últimos três dias olhando a previsão do tempo para sábado.
Fiquei em silêncio.
— Como você sabe disso? Tá me stalkeando, Wilson?
— Porque você me mandou três capturas de tela diferentes.
— Eu queria saber se ia chover.
— Você queria saber se seu cabelo ia sobreviver ao encontro.
— Eu odeio você.
— Não odeia, não.
Desliguei antes que ele pudesse rir.
O problema era que ele estava certo.
Eu estava ridiculamente nervosa.
Nervosa a ponto de experimentar três roupas diferentes, de trocar de roupa outras quatro vezes depois disso e encarar meu reflexo no espelho e me perguntar por que estava agindo como uma adolescente prestes a sair para o primeiro encontro.
Talvez porque fosse exatamente assim que eu me sentia.
E isso era ainda mais ridículo quando eu lembrava que tudo o que Bucky havia feito era me convidar para tomar café.
Um café.
Não um pedido de casamento.
Não uma declaração de amor.
Um simples café.
Mas toda vez que eu fechava os olhos, me lembrava do sorriso que ele tentou esconder naquele domingo.
E então meu coração voltava a agir como um completo idiota.
Quando o sábado chegou, eu precisei caprichar na maquiagem e no corretivo para disfarçar as olheiras de uma noite mal dormida por conta da ansiedade.
O local que ele havia escolhido eu não conhecia, mas me pareceu extremamente agradável assim que meu taxi parou em frente e eu pude observá-lo melhor. E, por um momento muito breve, eu fiquei com medo de puxar a maçaneta da porta principal e entrar, pois o medo de que ele tivesse mudado de ideia e só não tivesse aparecido estava lá.
Mas quando deixei a insegurança de lado e finalmente adentrei o espaço, o encontrando em uma mesa mais afastada, foi como se pelo menos cinquenta quilos tivessem sido tirados dos meus ombros e terem sido postos no meu estômago ao invés disso.
? — Ele disse ao me ver e se levantou no mesmo instante.
Pude perceber que, diferente do domingo, ele usava uma jaqueta de couro e uma luva para tentar disfarçar o braço de metal.
— Oi — outra vez falei tudo o que veio na minha cabeça e percebi que talvez se tornasse um hábito.
Eu me sentei à frente dele.
O que serviu apenas para me deixar ainda mais nervosa, pois agora eu não tinha como fugir do seu olhar penetrante, que parecia enxergar a minha alma toda vez que seus olhos pousavam em mim.
Por alguns segundos, ficamos em silêncio.
Não um silêncio desconfortável. Mas um daqueles que acontecem quando duas pessoas estão tentando desesperadamente pensar em algo inteligente para dizer.
— Então... — comecei.
— Então... — ele disse ao mesmo tempo.
E um sorriso surgiu em seus lábios.
— Você primeiro — Ele disse.
— Não, você primeiro — falei.
— Certo.
Mais silêncio.
Ele não fazia ideia do que dizer. Nem eu.
— Acho que nenhum de nós é muito bom nisso — falei, tentando amenizar o clima de tensão.
A risada dele veio baixa.
— Não.
— Que bom — disse sorrindo.
— Por quê?
— Porque eu estava começando a achar que era a única pessoa estranha nesta mesa — admiti, encolhendo os ombros e as pernas para ficarem embaixo da minha cadeira.
— Não se preocupe — ele apoiou os antebraços sobre a mesa. — Você ainda está em segundo lugar.
Soltei uma gargalhada, daquelas que escapam antes que você consiga impedir.
E alguma coisa mudou imediatamente.
A tensão diminuiu. Meus ombros relaxaram. E o sorriso dele pareceu ficar um pouco mais fácil.
A garçonete apareceu para anotar os pedidos.
Pedi um cappuccino, enquanto Bucky pediu café preto, sem açúcar, sem leite e sem um pingo de alegria e diversão.
Observei a garçonete se afastar antes de voltar minha atenção para ele.
— Isso explica muita coisa — falei, voltando a minha atenção para ele.
— O quê?
— Você bebe café como alguém que já desistiu de sentir felicidade.
O olhar que ele me lançou foi tão indignado que precisei morder o lábio para não rir.
— É só café — fez uma careta.
— É sofrimento líquido — rebati.
— Você fala isso porque pede sobremesa em forma de bebida.
— Cappuccino é uma instituição respeitável.
— Cappuccino é chantagem emocional em um copo.
— Isso nem faz sentido — resmunguei balançando a cabeça. — Sam tinha razão.
— Sobre o que? — Ele inclinou o tronco para frente, interessado.
— Você é rabugento.
O canto da boca dele se ergueu novamente.
— E você fala bastante.
— Sabe, acho que tive um déjà vu — provoquei e ele sorriu. — Tenho a impressão de já ter tido essa conversa antes.
Bucky soltou uma lufada de ar pelo nariz, o que eu deduzi ser uma risada e outra vez meu coração tropeçou em meu peito, como se corresse uma maratona e encontrasse um obstáculo no caminho.
— Qual é? Você já deve ter feito isso antes — voltei a puxar assunto e ele me olhou com curiosidade.
— Feito o que?
— Saído com outras garotas — disse e ele arregalou um pouco os olhos. — Sam me contou brevemente sobre sua fama durante a guerra.
Bucky crispou os lábios e, por um momento muito curto, eu achei que ele não fosse gostar do meu comentário e fosse ir embora, me deixando ali sozinha.
— Mas ele é um grande fofoqueiro, isso sim — foi tudo o que ele disse, num tom indignado, mas que me fez sorrir outra vez.
— Então é verdade? — Tornei a insistir, achando graça de suas reações.
— O quê?
— A fama.
... — Ele usou o mesmo tom que Sam usava quando não queria responder as minhas perguntas. O que só aumentava a minha curiosidade.
— O quê? É uma pergunta legítima — ergui as mãos em sinal de rendição, tentando passar credibilidade da minha pergunta.
— Não é.
— É sim.
Bucky balançou a cabeça.
— Você faz muitas perguntas — ele resmungou.
— E você evita responder todas elas — acusei.
— Talvez exista uma relação entre essas duas coisas.
— Então estou certa — estufei o peito, como se tivesse ganhado uma batalha que eu nem havia me dado conta que tinha começado.
— Sobre o quê?
— Sobre a fama.
Ele soltou outro daqueles quase-sorrisos.
— Steve exagerava.
— Sam também exagera? — Levantei a sobrancelha esquerda e não consegui evitar um sorriso.
— Principalmente Sam — ele bufou e eu quase achei fofo.
— Então você está me dizendo que metade do Brooklyn não era apaixonada por você?
— Metade do Brooklyn nem sabia que eu existia.
— Mentiroso.
— Eu sobrevivi a uma guerra. Não preciso mentir para impressionar uma mulher.
Meu coração tropeçou novamente.
Impressionar uma mulher.
Não uma mulher.
Eu. Eu era a mulher.
Meu cérebro agarrou aquela informação e decidiu analisá-la pelas próximas três semanas.
— Então você admite que estava tentando me impressionar? — Provoquei outra vez e pude ver a expressão dele mudar imediatamente.
— Não foi o que eu disse.
— Mas foi o que quis dizer.
— Não.
— Foi.
Bucky apoiou a testa na mão livre, percebendo que era impossível ganhar essa batalha.
— Agora eu entendo por que Sam gosta tanto de você — disse, me surpreendendo.
— Porque sou encantadora?! — Pisquei os olhos repetidas vezes e arrumei a postura.
— Porque você não larga um assunto.
— Eu prefiro persistente.
Ele me encarou por alguns segundos.
Então riu. Uma risada de verdade. Mais alta do que as anteriores. Mais leve. Mais espontânea.
E eu simplesmente congelei. Porque aquele som parecia raro. Como encontrar algo precioso escondido no fundo de uma gaveta esquecida.
O restante do encontro aconteceu de maneira surpreendentemente tranquila.
A conversa fluiu como se nos conhecêssemos havia muito mais tempo.
Falamos sobre filmes, música, livros, sobre as histórias absurdas que Sam colecionava e sobre as minhas tentativas fracassadas de cozinhar.
E, aos poucos, Bucky foi se soltando.
Os sorrisos ficaram mais frequentes. As respostas mais longas e as pausas menos cautelosas.
Era como assistir alguém baixar a guarda pouco a pouco.
Quando nos demos conta, horas haviam passado. E, para minha completa indignação, o universo continuava girando normalmente.
— Eu posso acompanhar você até em casa — ele ofereceu quando deixamos a cafeteria.
Meu coração imediatamente entrou em estado de emergência.
— Não precisa — tentei bancar a difícil, embora tudo o que eu quisesse era que ele fizesse isso mesmo.
— Eu sei.
— É sério — tentei outra vez, mas ele pareceu irredutível.
— Eu sei.
— Então por que está insistindo?
— Porque quero ter certeza de que você chegou bem.
Pronto.
Mais uma razão para eu me apaixonar. Como se eu precisasse de mais uma, não é?
O caminho até meu apartamento foi tranquilo.
Conversamos sobre um cachorro particularmente feio que encontramos na rua, sobre uma senhora que quase atropelou nós dois com um carrinho de compras, sobre qualquer assunto que impedisse meu cérebro de focar no fato de que Bucky Barnes caminhava ao meu lado.
Quando finalmente paramos diante da porta do meu prédio, o silêncio voltou.
E, pela primeira vez naquela tarde, pareceu impossível ignorá-lo.
— Então... — falei.
— Então... — respondeu ele.
Sorri e ele também.
Meu coração fez algo extremamente estúpido dentro do peito.
Porque, de repente, eu tinha certeza.
Era aqui. O momento. O beijo.
Aquela era a parte da história em que o cara se inclinava. A garota se inclinava. E os dois viviam felizes para sempre.
Ou pelo menos até o próximo capítulo.
Bucky deu um passo à frente.
Minha respiração falhou.
Ele se inclinou.
Meu coração praticamente pediu demissão.
E então...
Seus lábios tocaram minha bochecha de maneira leve e incrivelmente gentil.
Quando se afastou, ainda parecia estar sorrindo.
— Isso é para ter certeza de que você vai aceitar sair comigo outra vez — foi o que ele disse, como se aquilo não fosse acabar comigo.
Pisquei.
Porque meu cérebro havia parado de funcionar completamente.
— Tchau, .
E então ele simplesmente virou as costas e foi embora.
Foi embora.
Assim.
Como se não tivesse acabado de destruir todos os meus sistemas internos.
Fiquei parada na calçada observando-o se afastar e com o coração completamente fora de controle.
Os próximos dias os pensamentos sobre ele se intensificaram ainda mais e a vontade de vê-lo também.
O que mais dificultava a nossa comunicação era que ele levava pouco jeito para as mídias e usar um smartphone era como um martírio para ele.
Mas eu não me importava, desde que, em algum momento, ele conseguisse digitar alguma resposta ou me mandar um áudio enquanto eu trabalhava.
E assim nossa relação foi estreitando e eu me vi caindo em um abismo chamado Bucky Barnes, sem chance algum de voltar atrás.
Os próximos encontros aconteceram pouco tempo depois e foram tão leves e divertidos quanto o primeiro. Fomos ao cinema assistir qualquer coisa que estivesse passando, depois visitamos alguns museus da cidade e, ao invés de observar as obras, eu me pegava apreciando-o enquanto ele parecia fazer o mesmo.
Mas o beijo não tinha acontecido. Ainda.
E não porque não houvesse algum tipo de tensão, troca de olhares ou até mesmo desejo. Pois eu já havia perdido as contas de quantas vezes eu já o tinha visto fitando os meus próprios lábios enquanto ele parecia travar uma batalha interna dentro da própria cabeça.
Nós só não havíamos encontrado o “timming” perfeito para a coisa. Ou pelo menos era isso que eu tentava me convencer, apavorada demais com a ideia de cair em uma friendzone quando eu já estava completamente envolvida.
Mas então veio a notícia de que Bucky estava se mudando de apartamento. Iria para um maior e mais próximo da base de Sam, para que estivesse perto caso acontecesse alguma situação que fosse necessário.
Eu havia acabado de sair do trabalho quando encontrei uma mensagem dele.
Uma mensagem enviada quase uma hora antes.
O que significava que ele provavelmente tinha passado quarenta minutos lutando contra o celular para escrevê-la.
"Sam me abandonou para carregar móveis. Preciso de ajuda."
Sorri imediatamente.
"Isso é um pedido de socorro?"
A resposta demorou alguns minutos.
"Talvez."
"Você está sendo sequestrado por um sofá?"
"Pior."
"Como algo pode ser pior que isso?"
"São dois sofás."
Acabei encontrando os dois no apartamento dele.
Ou melhor: encontrei Sam sentado no sofá, bebendo cerveja e se sentindo tão confortável, como se aquela fosse sua própria casa, enquanto Bucky organizava o restante de suas coisas.
— Por que mentiu pra mim? — Perguntei, fingindo falsa indignação.
— Eu não menti — Bucky deu de ombros. — Sam mudou de ideia logo depois que eu mandei a mensagem.
— Ele tem um braço de metal — Sam começou sua justificativa. — Ele deveria conseguir carregar dois sofás em três lances de escada.
— Não quando se tem curvas e muitos degraus pra subir — Bucky resmungou.
— Foi por isso que eu mudei de ideia — Sam riu. — Mas foi divertido ver ele sofrendo pra tentar subir pro segundo lance.
Revirei os olhos, sem muita paciência para a briga de casal de idosos dos dois.
— Vocês são patéticos — falei enquanto pegava algumas caixas para alcançar para Bucky.
— É, mas você ama a gente mesmo assim — disse Sam enquanto jogava as pernas em cima do sofá.
Não respondi. Porque era verdade.
Desviei do olhar de Bucky, que parecia procurar verdade naquilo que Sam havia dito. Mas as minhas bochechas avermelhadas provavelmente já lhe confirmavam as suspeitas.
Por sorte, ele também não disse nada.
As próximas horas então foram dedicadas a organizar livros, discos de vinis e outras quinquilharias que eu tinha certeza de que tinham vindo direto de um antiquário.
Sam, covarde como era, nos abandonou depois de esvaziarmos a primeira caixa, deixando Bucky e eu com o restante da organização.
— De quando é isso? — Perguntei ao encontrar o que parecia ser um porta-joias de porcelana. — Pertenceu a Rainha Vitória ou algo assim?
— Há, há, há — ele ironizou enquanto pegava o porta-joias da minha mão. — Você é tão engraçada.
— Obrigada, essa é só uma das minhas várias qualidades — fingi jogar os cabelos para o lado e Bucky apenas rolou os olhos.
Mas eu vi o sorriso que se formou no canto da sua boca. E fiquei ainda mais feliz por isso.
— Sei que não é a coisa mais linda do mundo, mas — ele voltou a falar do porta-joias. — O que importa realmente é o que está dentro.
Estiquei o pescoço enquanto ele abria a tampa.
— Um colar? — Perguntei ao ver a corrente de prata brilhando. — Posso ver?
Bucky assentiu e me entregou a corrente que tinha um único pingente, em formato de coração e com uma pedra transparente ao meio.
— É muito lindo...
— Era da minha mãe — ele disse, baixando o tom da voz e encolhendo os ombros. — Steve guardou pra mim por todos esses anos.
Observei novamente o colar repousando na palma da minha mão.
De repente, ele parecia muito mais precioso, porque não era apenas uma joia. Era uma lembrança. Uma das poucas coisas que Bucky ainda possuía da vida que lhe foi roubada.
— Ela devia ser uma mulher incrível — falei em voz baixa, ainda apreciando a peça que eu havia acabado de descobrir sua raridade.
O sorriso que surgiu em seu rosto foi pequeno. Mas diferente dos outros, foi mais suave, como se estivesse olhando para alguém que só ele conseguia enxergar.
— Ela era.
Com cuidado, devolvi o colar para ele.
Nossos dedos se tocaram.
E, por algum motivo, aquilo pareceu mais íntimo do que qualquer abraço.
— Obrigada por me mostrar — sorri em agradecimento e pude ver sua expressão mudar delicadamente.
— Não mostro isso para muita gente — admitiu e eu senti meu coração apertar.
Por alguns segundos, ninguém falou.
O apartamento parecia estranhamente silencioso.
A luz do fim da tarde atravessava as janelas abertas.
O som distante do trânsito chegava abafado.
E, pela primeira vez desde que nos conhecemos, não senti vontade de preencher o silêncio com alguma piada.
Porque aquele momento não precisava ser salvo.
Já era perfeito.
...
Levantei os olhos e não foi difícil encontrar os dele, incrivelmente azuis e intensos, me encarando como se quisessem que eu mergulhasse na imensidão do seu olhar.
Mas então encontrei um lampejo de algo que me chamou ainda mais a atenção: insegurança.
Como se estivesse travando uma batalha inteira dentro da própria cabeça.
Uma batalha que eu já tinha visto dezenas de vezes.
A diferença era que, daquela vez, parecia que ele estava perdendo.
Meu coração acelerou.
— Sim?
O olhar dele desceu para meus lábios e depois voltou para os meus olhos.
Como se estivesse me perguntando algo e esperando uma resposta que eu não sabia colocar em palavras.
Mas talvez eu não precisasse.
Porque, pela primeira vez desde que nos conhecemos, eu tinha certeza de que ele sentia aquilo também.
A vontade e a necessidade quase desesperadoras de estar perto.
Bucky engoliu em seco.
E, por um instante, pareceu considerar recuar.
Então dei um pequeno passo para frente. Pequeno o suficiente para que seus ombros pudessem relaxar e a dúvida vacilar dentro de si.
A mão humana subiu devagar e cuidadosa, como se eu fosse desaparecer caso ele se movesse rápido demais.
Os dedos tocaram meu rosto, quase hesitantes.
E eu precisei prender a respiração. Não porque estivesse nervosa. Mas porque ninguém jamais havia me tocado daquela forma.
O polegar dele deslizou pela minha bochecha.
E seus olhos nunca deixaram os meus, nem por um segundo.
Nem mesmo quando se inclinou, nem mesmo quando a distância entre nós desapareceu.
O primeiro toque dos seus lábios foi suave.
Tão suave que pareceu uma pergunta.
E eu respondi da única forma que sabia: me aproximando mais.
O beijo se aprofundou devagar e sem pressa. Era como se tivéssemos todo o tempo do mundo. Porque tínhamos. Não havia urgência para o que havíamos esperado por tanto tempo.
Minha mão encontrou sua nuca, fazendo com que dedos se perdessem entre seus cabelos.
E senti a respiração dele vacilar.
Aquilo fez algo completamente irracional com o meu coração.
Porque, de repente, não era apenas eu.
Ele também estava sentindo, também estava nervoso e, também, parecia incapaz de acreditar que aquilo estava acontecendo.
Quando seus dedos deslizaram para minha cintura, me puxando apenas alguns centímetros para mais perto, tive a impressão de que o mundo inteiro havia desaparecido.
Quando nos afastamos, nenhum dos dois foi muito longe.
As testas quase se tocavam, as respirações ainda estavam descompassadas e os olhos dele permaneciam fechados. Como se estivesse tentando memorizar aquele momento ou se convencer de que era real.
Quando finalmente voltou a me olhar, havia algo diferente em sua expressão.
Como se tivesse acabado de me entregar um pedaço do próprio coração.
— Eu queria fazer isso desde o museu — confessou em voz baixa.
Demorei alguns segundos para processar a informação, pois meu coração batia tão forte que eu conseguia senti-lo em meus ouvidos.
— O museu? — franzi o cenho e pude ver um sorriso tímido surgir em seus lábios. — Qual deles?
Eu ri e ele também.
E, naquele instante, sentado no chão de um apartamento cheio de caixas e móveis desmontados, eu tive a sensação de que poderia me apaixonar por James Buchanan Barnes mil vezes.
E em todas elas o resultado seria exatamente o mesmo.
Porque eu estava fadada ao desmoronamento desde o dia em que eu o vi pela primeira vez.
Depois disso, não foi muito difícil deduzir o que viria pela frente.
Aos poucos, Bucky foi deixando sua muralha desmoronar enquanto fazíamos de tudo para aquilo dar certo. Entre encontros e momentos juntos, a nossa vida seguia como se aquele fosse o nosso destino, como se isso sempre estivesse escrito nas estrelas para que acontecesse.
Mas, nada dura para sempre. Principalmente momentos felizes.
Bucky e Sam estavam ocupados em algumas missões que não me competiam e eu tinha maturidade o suficiente para entender que aquilo fazia parte do trabalho deles, então me contentava com ligações esporádicas e cartas que Bucky fazia questão de enviar sempre que possível.
Apesar disso, tudo ia bem.
Melhor do que bem.
Pela primeira vez na minha vida, tudo parecia estar exatamente onde deveria estar.
As ligações de Bucky nunca eram longas. Mas eram o suficiente.
Na maioria das vezes, duravam poucos minutos antes que alguém o chamasse ou alguma obrigação o arrancasse de mim.
Mas eu aprendia a encontrar felicidade nas pequenas coisas.
No som da sua voz.
Nas fotos borradas que ele me mandava quando tentava descobrir como usar a câmera do celular.
Nos áudios curtos onde sua respiração era mais alta que suas próprias palavras.
E principalmente nas cartas.
Porque Bucky escrevia cartas como se tivesse nascido para aquilo.
As folhas chegavam dobradas com cuidado, a caligrafia impecável ocupando cada espaço disponível do papel.
Ele me contava sobre os lugares por onde passava, sobre o clima e as comidas estranhas que Sam insistia para que ele experimentasse. E, vez ou outra, acrescentava alguma frase que me fazia reler a carta dez vezes seguidas.
"Vi um casal discutindo no aeroporto hoje. Me lembrou você reclamando porque eu tomo café sem açúcar." Ou "Passei por uma livraria e encontrei aquele livro que você queria. Não compre até eu voltar."
Ou ainda:
"Sinto sua falta."
Simples.
Três palavras.
Mas suficientes para transformar qualquer dia ruim em algo suportável.
Eu guardava todas elas em uma caixa ao lado da cama.
Todos os pequenos pedaços dele que conseguia manter comigo enquanto estava longe.
Talvez tenha sido por isso que eu não percebi os sinais.
Porque estava feliz e completamente apaixonada. E porque acreditava que algumas coisas tinham finalmente dado certo.
E quando você passa a vida inteira esperando que tudo desmorone, o momento em que encontra algo bom costuma ser exatamente quando abaixa a guarda.
Foi por isso que não estranhei quando as mensagens começaram a diminuir.
Nem quando as ligações se tornaram mais curtas.
Nem quando sua voz passou a carregar um cansaço diferente.
Eu disse a mim mesma que era apenas trabalho.
Apenas mais uma missão.
Só mais alguns dias fora.
Porque era mais fácil acreditar nisso.
Mais fácil do que admitir que alguma coisa estava mudando.
E que, na verdade, Bucky estava começando a se afastar de mim.
Questionei a Sam se ele sabia o que estava acontecendo, mas ele parecia saber tanto quanto eu: nada.
E então, após quase doze longos meses de alegrias e a batalha diária para descontruir tudo o que Bucky havia construído ao seu redor para se proteger, desmoronou em apenas uma única carta.
“Não espero que me perdoe pelo que vou fazer.
Quero que saiba que o tempo que passamos juntos foram os melhores e mais preciosos dias da minha vida.
Mas não consigo mais fazer isso.
Espero que fique bem. Que realize seus sonhos e seja feliz.
Com amor,
B.B”

Apenas isso. Tudo o que mereci foi uma carta que não me explicava nada, mas que machucava muito.
Bucky havia ido embora e deixado um rombo em meu coração.
Não houve discussão. Não houve gritos. Não houve sequer uma explicação.
Apenas uma maldita folha de papel.
Durante semanas, eu esperei por uma ligação, mensagem ou segunda carta. Qualquer coisa que pudesse me dizer que aquilo tinha sido um erro ou que ele pelo menos teria a coragem de me explicar o motivo.
Mas nada aconteceu.
E, pouco a pouco, fui obrigada a aceitar a verdade.
James Buchanan Barnes havia escolhido partir.
E eu nunca soube o porquê.
Foi tragicamente engraçado.
Porque eu sobrevivi a muita coisa na vida. Sobrevivi ao abandono, ao vício, à solidão e a sensação de não pertencer a lugar nenhum.
Mas descobrir que o homem que eu amava tinha ido embora por vontade própria foi o que realmente me quebrou.
Por muito tempo, procurei defeitos em mim mesma, algo que justificasse sua decisão.
Talvez eu fosse intensa demais, falasse demais.
Talvez tivesse exigido demais ou simplesmente não tivesse sido suficiente.
Era ridículo, eu sei.
Mas o coração raramente se preocupa com lógica.
O ano seguinte passou de forma estranha depois disso.
Como se parte de mim tivesse ficado presa naquele apartamento cheio de caixas.
Naquele primeiro beijo.
Naquele homem que me olhava como se eu fosse algo precioso.
E que, mesmo assim, escolheu ir embora.
Às vezes eu o via na televisão.
Primeiro foi durante sua campanha política.
Lembro de ter parado em frente à tela por alguns segundos. Observando-o usar ternos caros. Dar entrevistas. Sorrir desconfortavelmente para câmeras.
Parecendo exatamente o tipo de homem que pertencia a um lugar maior do que eu jamais poderia oferecer.
Acho que aquela fosse essa a resposta. Talvez eu tivesse sido apenas uma etapa, um capítulo da sua vida.
A ideia doía. Mas era o que mais fazia sentido.
Ou pelo menos era a mentira que eu contava para mim mesma.
Depois vieram os Novos Vingadores.
E aquilo foi dolorosamente muito pior.
Porque o mundo inteiro parecia finalmente enxergar o homem que eu conhecia desde o começo.
As pessoas passaram a admirar o Bucky, confiar e torcer por ele. Alguns falavam em redenção, heroísmo e recomeços. E eu, idiota, sorria todas as vezes que eu via o seu rosto aparecer em alguma reportagem.
Mesmo quando eu ainda sentia o meu coração apertar, mesmo quando eu ainda sentia doer. Porque, no fundo, eu estava feliz por ele. De verdade.
Sam, por outro lado, parecia determinado a discordar.
— Não faz isso.
Levantei os olhos da televisão para meu amigo que me olhava como se eu tivesse prestes a cometer algum crime indefensável.
Na TV a minha frente, passava uma reportagem sobre os Novos Vingadores mais uma vez.
Bucky aparecia ao lado dos demais integrantes enquanto repórteres gritavam perguntas.
— Fazer o quê? — Fiz-me de desentendida enquanto baixava o volume pelo controle remoto.
— Ficar olhando para ele desse jeito — seu tom era áspero.
— Eu não estava olhando de nenhum jeito.
— a forma como pronunciou meu nome foi suficiente para me fazer suspirar.
Porque eu conhecia aquele tom muito bem, e, nos últimos tempos, melhor do que nunca. Sam estava irritado. E ele andava irritado havia muito tempo.
— Você precisa parar de procurar desculpas para ele — disse andando de um lado para o outro, enquanto eu permanecia sentada no sofá, o observando.
— Eu não estou procurando desculpas.
— Está sim.
Cruzei os braços.
— Você está sendo injusto.
Sam soltou uma risada amarga. Uma daquelas que eu raramente ouvia e que machucava ouvir.
— Injusto? — Sua voz aumentou consideravelmente. — Ele desapareceu, .
— Eu sei.
— Terminou com você por carta.
— Eu sei.
— Não deu nenhuma explicação.
— Eu sei.
— Sumiu da vida de todo mundo.
— Eu sei, Sam — suspirei, cansada dessa discussão outra vez.
— Então para de agir como se ele fosse a vítima dessa história!
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Porque aquela não era uma discussão nova. Nós já tínhamos tido versões dela dezenas de vezes. Mas aquela parecia diferente. Mais afiada. Mais cansada. Mais dolorosa.
— Você está com raiva dele — pontuei e ele riu sem humor outra vez.
— É claro que estou com raiva dele.
— Por que ele foi embora?
— Porque ele escolheu ir embora — a ênfase na palavra fez meu estômago afundar e eu baixei os olhos no mesmo instante.
Porque eu entendia a diferença.
Sam passou a mão pelo rosto, exausto.
— Ele era meu irmão, — e então, a raiva desapareceu tão rápido quanto surgiu.
E, por trás dela, finalmente apareceu a verdade.
Dor.
— Eu sei — repeti outra vez, tentando não chorar.
— E eu passei anos tentando ajudá-lo... Passei anos repetindo que ele não estava sozinho — Sam puxou uma quantidade considerável de ar e suspirou. — Passei anos acreditando que éramos uma família. E então ele simplesmente...
A frase morreu antes do final.
Mas não precisava ser concluída.
Nós dois sabíamos.
Ele simplesmente foi embora.
— Eu só não quero ver você sofrendo por causa dele de novo.
— Um pouco tarde para isso — respondi, sorrindo sem humor.
— Então esquece ele.
Soltei uma gargalhada. Não porque fosse engraçado. Mas porque era impossível.
— Você é patético, Sam Wilson.
— Estou falando sério.
— Sam...
— Esquece ele.
— Você sabe que eu não consigo — falei, apontando para a televisão que já passava outra coisa a essa altura.
— Então deveria tentar.
Balancei a cabeça.
Porque aquela era a parte que ele não entendia.
Eu não estava esperando Bucky voltar. Não estava presa ao passado, nem passava noites imaginando reencontros impossíveis.
Mas amar alguém e esquecer alguém nunca foram a mesma coisa.
E, infelizmente, meu coração parecia incapaz de aprender essa diferença.
Do outro lado da sala, Sam observou meu silêncio e soltou um suspiro pesado.
— Eu odeio esse cara.
Sorri verdadeiramente pela primeira vez.
— Não odeia, não.
— Odeio sim.
— Você sente falta dele — acusei e ele crispou os lábios, completamente desgostoso.
— As duas coisas podem ser verdade.
E, pela expressão no rosto dele, eu sabia que eram.
Mas, apesar de tudo, Sam tinha razão em uma coisa: eu precisava seguir em frente. Precisava me desprender do passado para poder encontrar uma forma de conseguir um futuro como eu sempre quisera.
Com alguém ao meu lado.
E não apenas sobrevivendo e esperando por uma explicação que nunca viria.
Dias depois da última discussão que tive com Sam, ele voltou a bater na minha porta e, dessa vez, trazia um sorriso cheio de segundas intenções e uma garrafa de vinho embaixo do braço.
— Estamos comemorando alguma coisa? — Perguntei enquanto ele passava pela porta e tirava os calçados, como se já fosse de casa.
— Estamos.
Arqueei a sobrancelha, esperando pela resposta.
— Hoje vamos pedir pizza e tomar vinho — disse o que eu já sabia. — E amanhã você vai a um encontro.
E eu me engasguei com o ar que eu respirava.
— Isso só pode ser uma piada — resmunguei enquanto Sam ria da minha cara. — Quem é o infeliz?
— É alguém bem feliz, na verdade. Feliz até demais.... — e me olhou como se eu fosse capaz de adivinhar.
— Quem? — Perguntei de braços cruzados.
— Joaquin.
Pisquei, sentindo a palavra ressoar como se fosse um eco na minha cabeça.
— Joaquin Torres? — Alterei o tom de voz enquanto arregalava os olhos.
— Sim.
— O Joaquin que eu conheço? — apontei para mim mesma.
— Quantos Joaquins Torres você conhece?
— Sam! — resmunguei, fazendo careta.
Ele suspirou.
— Você está tentando me arranjar um encontro com o Joaquin?
— Estou.
— O Joaquin? — eu ainda custava acreditar que o que ele dizia era verdade.
— Sim.
— O seu parceiro? — apontei pra ele enquanto Sam assentia. — O novo Falcão?
— Sim, — ele suspirou e apoiou as mãos na cintura.
— O homem que tentou cozinhar para o Natal e quase incendiou a cozinha da Sarah? — tive vontade de rir, mas eu estava indignada demais para isso naquele momento.
— Foi um acidente — Sam tentou justificar e eu neguei com a cabeça.
— O homem que colocou sal na receita de cookies?
, você está dificultando as coisas.
— O homem que uma vez caiu da escada trocando uma lâmpada? — continuei e ele revirou os olhos.
— Tecnicamente ele tropeçou.
Fiquei em silêncio.
Sam também.
— Você quer me arranjar um encontro com esse Joaquin? — Voltei a perguntar e ele assentiu.
— Exatamente esse Joaquin.
— Não — falei balançando a cabeça.
— Por quê? — Sam orbitou ao meu redor enquanto eu tentava me afastar dessa conversa.
— Porque eu conheço ele.
— Esse é literalmente o objetivo — ele me olhou com obviedade.
— Não, você não entendeu — apontei para ele outra vez. — Eu conheço ele.
Eu já tinha dividido churrascos com Joaquin. Jogos de futebol. Ido em aniversários e festas de família.
Já o vi perder para uma criança de dez anos em um videogame e discutir com AJ durante vinte minutos porque se recusava a admitir a derrota.
Já o vi aparecer na casa da Sarah usando duas meias diferentes.
Já o vi esquecer onde estacionou o próprio carro.
Eu conhecia Joaquin. E talvez fosse exatamente esse o problema. Porque ele não era uma possibilidade distante. Era uma pessoa real. E uma pessoa que eu genuinamente gostava.
Sam me olhou com atenção e inclinou o rosto, para ficar mais próximo.
...
— Não.
— Ele gosta de você.
— Não gosta.
— Eu literalmente ouvi ele dizer isso — falou com um meio sorriso e eu fiquei completamente imóvel.
— O quê?
— Bem... — ele coçou a parte de trás da cabeça. — Ele deixou escapar um dia desses quando conversávamos.
— E você está me contando isso só agora?
— Eu estava esperando você parar de agir como uma viúva vitoriana.
— Eu vou te bater, Sam Wilson — resmunguei e ele riu com gosto.
— Entra na fila, gatinha.
E naquele momento eu soube que não teria escapatória. Eu teria que ir ao encontro com Joaquin, por mais que minha cabeça e meu coração gritassem em meus ouvidos, dizendo que aquilo era uma péssima ideia.
Quando o dia seguinte chegou e Joaquin apareceu na porta do meu apartamento com o cabelo penteado e exalando perfume caro, eu desejei do fundo do meu coração que aquilo desse certo. Que fosse um encontro perfeito, onde nossa sintonia batesse e eu tivesse vontade de vê-lo mais vezes.
Mas eu sabia que não era isso que ia acontecer.
Não porque Joaquin não fosse interessante.
Afinal, sua alma de golden retriever e seu alto astral eram pontos muito positivos sobre ele e, que em qualquer outra fase da minha vida, ele chamaria a minha atenção.
Porém, ainda sim, era difícil competir com aquele que havia me abandonado.
O que era injusto. Injusto com Joaquin e injusto comigo.
E principalmente porque, desde o instante em que abriu a porta do carro para mim e me ofereceu aquele sorriso fácil, eu soube que Sam não estava exagerando.
O restaurante que escolheu era simples, mas aconchegante.
A conversa fluía sem esforço.
E, diferente de mim, Joaquin parecia completamente confortável em qualquer situação.
— Então me diga uma coisa — ele começou depois que os pedidos chegaram à mesa.
— Isso parece perigoso — comentei enquanto bebericava um pouco do meu drink.
— É uma pergunta séria — ele tentou manter a compostura, mas o sorriso no canto dos lábios indicava que não era nada sério.
— Agora parece ainda mais perigoso.
Ele riu.
— Qual foi a pior coisa que o Sam já fez?
Soltei uma gargalhada.
— Você tem quanto tempo disponível? — Brinquei, fingindo ver as horas.
— A noite inteira.
— Ótimo. Porque essa lista é longa...
E assim seguimos.
Falando sobre Sam. Sobre Sarah. Sobre os meninos. Sobre trabalho. Sobre filmes. Sobre viagens. Sobre qualquer assunto que aparecesse.
E, em vários momentos, me peguei sorrindo de verdade. Não por educação nem por obrigação, mas porque eu estava me divertindo de verdade. Como acontecia sempre que nos encontrávamos nos momentos diversos da nossa vida.
Em determinado momento, ele se inclinou para frente.
— Posso confessar uma coisa? — ele falou como quem conta um grande segredo e eu semicerrei os olhos para ele, anda avaliando.
— Dependendo da coisa.
— Eu estava nervoso.
— Você? — arqueei uma sobrancelha e ele assentiu, orgulhoso. — Joaquin, você conversa até com postes.
— Isso é diferente — abriu um sorriso convencido. — Os postes normalmente não são tão bonitos.
Revirei os olhos imediatamente, mas não consegui evitar de sentir minhas bochechas esquentarem.
— Isso foi horrível — falei negando com a cabeça e ele riu.
— Eu pratiquei esse comentário por dois dias — admitiu e eu soltei uma risada verdadeira.
— Isso torna tudo ainda pior.
— Você acabou de destruir minha autoestima — ele disse fingindo sofrimento enquanto apoiava uma mão sobre o peito.
Balancei a cabeça enquanto sorria.
E, por alguns segundos, simplesmente o observei.
Joaquin era gentil, divertido, atencioso, bonito e estava tentando. De verdade.
E sei que aquilo deveria ter sido suficiente.
Mas, enquanto ele falava sobre alguma história absurda envolvendo uma missão e um cachorro roubando seu almoço, meu cérebro fez aquilo que eu odiava: comparou.
Comparou o jeito como Joaquin sorria, o som da sua risada, a forma como ocupava espaço. Comparou tudo.
E perdeu.
Não porque houvesse algo errado com Joaquin.
Mas porque, em algum lugar dentro de mim, ainda existia um fantasma com olhos azuis e um braço de metal.
E então eu senti o que eu já sabia que viria com aquele encontro: culpa.
Porque Joaquin merecia mais do que alguém sentado à sua frente enquanto ainda procurava outra pessoa em cada sorriso.
— Está pensando nele, não está? — Perguntou Joaquin ao notar o meu silêncio repentino e eu engoli o seco, tentando disfarçar. — Não precisa fingir que não, .
— Desculpa, Joaquin — encolhi os ombros, me sentindo muito menor do que eu realmente era.
E então Joaquin fez algo que me surpreendeu. Ao invés de inventar alguma desculpa e se levantar para ir embora, ele estendeu sua mão sob a mesa e procurou pela minha, e, quando a encontrou, a apertou com força.
— Eu não quero roubar o lugar dele — disse me olhando no fundo dos olhos. — Eu ainda nem sei o que quero que tenhamos.
Ele riu nervoso e eu acabei o acompanhando.
— Só quero que saiba que posso ser um bom parceiro pra esse processo, se você quiser.
Fiquei alguns segundos encarando-o.
— Você é estranho.
— Já ouvi coisa pior — ele balançou os ombros, mas continuou me olhando de maneira divertida.
— Eu acabei de admitir, sem admitir, que estou pensando em outro cara durante um encontro... — ele me olhou com interesse, esperando eu terminar. —... E você não vai embora?
— Mas a nossa sobremesa ainda nem chegou — falou fazendo um bico e eu acabei rindo, porque era uma ótima resposta. — Além disso, não é como se eu não soubesse, não é?
— Foi o Sam que abriu aquela boca grande dele?
, você olha para qualquer notícia envolvendo o Barnes como se estivesse assistindo ao último episódio da sua série favorita.
Fiz um bico desgostoso e escondi o rosto entre as minhas próprias mãos.
— Isso é humilhante — murmurei com a voz abafada.
— Um pouco na verdade — ergui um dos olhos para olhá-lo. — Mas completamente normal. Não se ache uma aberração por estar sofrendo de coração quebrado, .
— Sam me diz que eu preciso superar isso — suspirei.
— Sam fala muita coisa — ele estalou a língua no céu da boca. — Mas só você sabe o que passou com o cabeça desmiolada e o quanto isso significou pra você.
Mordi o lábio enquanto deixava que suas palavras adentrassem o meu cérebro e me causassem a sensação de, em muito tempo, finalmente estar sendo acolhida pelo que eu sentia.
Observei os seus olhos negros e dei um sorriso curto e sem mostrar os dentes, que foi retribuído da mesma forma por Joaquin.
E então, para minha surpresa, apontou um dedo para mim.
— Mas quero deixar uma coisa registrada.
— O quê?
— Eu não me importo de ser a segunda opção.
Franzi o cenho e arqueei a sobrancelhas logo em seguida.
— Isso deveria me fazer sentir melhor? — Perguntei, ainda sem entender.
— Espera eu terminar — disse e eu suspirei.
— Tudo bem, estou ouvindo — ergui as mãos em sinal de rendição e esperei que ele continuasse.
— Eu não me importo de ser a segunda opção... — ele fez uma pausa dramática — ...se isso ajudar você a esquecer a primeira.
Soltei uma gargalhada tão alta que algumas pessoas viraram para olhar.
— Isso foi horrível, Torres — falei, ainda rindo e ele me olhou como se estivesse ofendido.
— Foi brilhante — estufou o peito e eu achei que ele se afogaria em seu próprio ego.
— Você está se oferecendo para ser meu namorado de reabilitação?
— Credo, não — forçou uma cara de nojo.
— E então o quê?
— Estou me oferecendo para comer pizza, assistir filmes ruins e impedir você de mandar mensagens emocionadas para o Soldado Invernal às três da manhã — olhou para mim de maneira acusatória e eu arregalei os olhos no mesmo instante.
— Eu nunca fiz isso!
— Mentira, você está olhando para o lado e evitando de me olhar — falou como se fosse algum especialista do comportamento humano, quando na verdade ele só era um mala sem alça.
— Porque estou ofendida — rebati.
— Porque está mentindo.
Balancei a cabeça enquanto ria.
E percebi que meu peito estava mais leve.
Não porque eu tivesse esquecido Bucky, nem porque estivesse pronta para seguir em frente.
Mas porque Joaquin não estava tentando me consertar nem tentando ocupar um espaço que não era dele. Ele simplesmente não estava exigindo nada.
Estava apenas sentado na minha frente, fazendo piadas ruins e me lembrando que ainda existiam coisas boas depois de um coração partido.
— E então? — Ele perguntou com expectativa.
— Então o quê?
— Amigos?
— Achei que isso fosse um encontro — falei inclinando a cabeça e franzindo o cenho.
— Foi — esticou as pernas e abriu um sorriso. — Agora é um acordo formal de amizade.
— Ah, meu Deus! — Exclamei. — Você acabou de me colocar na friendzone?
— Com extrema eficiência — bateu no próprio peito, como se estivesse orgulhoso.
— Eu vou contar isso para o Sam — balancei a cabeça, mas estava rindo.
— Ótimo. Quero que ele saiba que fui eu quem terminou com você — lançou-me uma piscadela e eu revirei os olhos.
— Idiota — resmunguei e ele aumentou o sorriso.
— Esse é o espírito.
E, de alguma forma, foi exatamente isso que aconteceu.
Joaquin nunca se tornou meu namorado de reabilitação ou um namorado de verdade. Na verdade, se tornou um grande amigo, assim como Sam. Um amigo daqueles que aparece sem avisar para roubar comida da sua geladeira ou ligam as onze da noite par reclamar do trabalho. E, principalmente, mandar memes sem graça em horários inapropriados, o que, aparentemente, parecia ser sua linguagem de amor.
Os meses continuaram passando, até completar dois anos que Bucky havia ido embora.
E a minha vida seguiu. Não exatamente como eu havia planejado anos antes, mas ainda sim seguia de uma forma boa dentro do possível. Afinal, eu havia finalmente conseguido aprender a conviver com as lembranças sem deixar que elas me engolissem.
As notícias sobre Bucky continuavam aparecendo ocasionalmente, mas já não destruíam meu dia inteiro. Às vezes eu até sorria, sentia saudades. Outras, parecia não sentir nada. E tudo isso me parecia um bom progresso.
Sam também estava melhor. Ou pelo menos fingia muito bem, embora às vezes resmungasse ao ouvir o nome de Bucky e continuasse chamando os Novos Vingadores de “uma ideia ridícula.”
Mas não havia mais a mesma amargura e nossas discussões haviam diminuído consideravelmente.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu comecei a acreditar que estava tudo bem. Que talvez algumas histórias simplesmente não tivessem sido feitas para durar e que outras terminavam sem mais ou menos. Sei que poderia parecer uma ideia triste, mas era a minha realidade e não havia nada que eu pudesse fazer para mudar isso.
E foi justamente quando finalmente consegui fazer isso... Que o universo decidiu rir da minha cara e me lembrar de como a vida era comicamente estranha e trágica.
Aconteceu numa terça-feira.
Eu havia saído mais cedo do trabalho, pois Joaquin decidira que precisava de um novo enxoval para a sua própria casa, mas não tinha discernimento nem ideias boas quanto o assunto era gastar o próprio dinheiro. Então me candidatei para a função de ajudá-lo.
Seu carrinho já estava cheio de coisas para a cozinha e discutíamos sobre levar ou não seis almofadas da mesma cor quando senti algo pinicar na minha nuca. Como aquela sensação esquisita de parecer ter alguém te encarando. Mas ignorei, já que estava ocupada demais tentando convencer o meu amigo do óbvio.
— Joaquin, você não precisa de seis travesseiros decorativos — tentei argumentar enquanto o via pegar duas almofadas iguais.
— Preciso sim.
— Você mora sozinho — e ele me olhou como se falasse “e daí?”. — Eles são literalmente iguais!
— Não são — colocou as duas lado a lado em frente ao meu rosto. — Um é azul-marinho.
— E o outro também.
— Mas esse é azul-marinho elegante — apontou para o do lado direito e eu não vi diferença nenhuma.
— Meu Deus — falei suspirando e fechando os olhos, sem acreditar que aquele diálogo realmente estava realmente acontecendo.
— Você não entende nada de decoração — fez uma careta par mim e eu revirei os olhos.
— Você me trouxe justamente porque eu entendo.
— Eu trouxe você porque Sarah disse que minhas escolhas eram preocupantes.
— Porque elas são.
Joaquin colocou mais uma almofada no carrinho, ignorando completamente o que havíamos conversado até agora.
— Isso está ficando ridículo — resmunguei e ele continuou caminhando, me ignorando.
— Você disse a mesma coisa quando escolhemos as panelas.
— Porque você queria comprar uma frigideira industrial, Joaquin — falei e ele balançou os ombros, como uma criança. — Você não administra um restaurante.
— Ainda.
Empurrei o carrinho para longe dele antes que ele encontrasse outra forma de desperdiçar dinheiro.
Foi então que eu entendi de onde vinha a sensação de estar sendo observada.
Pois quando virei para o próximo corredor eu o vi. Estático.
E foi como se o restante do mundo parasse por um instante.
Lá estava ele. Bucky Barnes. E me encarando como se eu fosse a última pessoa do mundo. Exatamente como eu o olhava agora.
Senti o estômago afundar quando seu olhar passou para o carrinho cheio e por Joaquin que parou ao meu lado e, convenientemente, passou o braço pelos meus ombros enquanto falava alguma baboseira sobre o saleiro decorado de flores que ele queria comprar.
Eu sabia o que aquela cena parecia. E era por isso que Bucky tinha a mandíbula tão dura que parecia que seu cérebro explodiria pela pressão a qualquer momento. Mas eu ainda continuava paralisada, sem saber o que fazer.
Por um segundo, considerei fingir que não o tinha visto.
Talvez ele fizesse o mesmo.
Talvez nós dois simplesmente seguíssemos em direções opostas e evitássemos aquela catástrofe emocional.
Mas então Joaquin ergueu a cabeça. E sorriu.
— Barnes! — Exclamou alto e eu senti meu coração morrer por alguns segundos enquanto o via se aproximar para cumprimentá-lo. — Ei! Faz tempo.
Bucky hesitou pelo que pareceu ser uma eternidade, mas que havia passado apenas uma fração de segundo. Mas eu percebi, porque estava observando ele.
E então colocou aquela expressão neutra que eu conhecia muito bem. A expressão que ele usava quando queria esconder alguma coisa. E, como se fosse mais um dia normal, caminhou até nós.
— Torres — cumprimentou com a voz estranhamente contida.
— Cara, quanto tempo — Joaquin parecia feliz demais em vê-lo, enquanto meu estômago parecia se enrolar cada vez mais nele próprio.
Os dois apertaram as mãos. E então aqueles olhos azuis encontraram os meus. Pela primeira vez em dois anos.
— foi tudo o que ele disse e ouvir isso outra vez foi o suficiente para me deixar sem ar.
— Oi, Bucky — respondi sem conseguir deixar de olhar dentro dos seus olhos e vi seus ombros enrijecerem.
O silêncio que se seguiu foi extremamente constrangedor, a ponto de se tornar insuportável. Mas Joaquin pareceu não notar e resolveu abrir sua boca grande outra vez.
— Você chegou na hora certa — disse animado demais e Bucky o olhou com confusão. — Tenta convencer ela de que eu preciso desses travesseiros.
Meu Deus, isso não podia estar acontecendo.
Bucky olhou para o carrinho, depois para Joaquin, depois para mim e eu quase consegui ouvir as conclusões erradas se formando dentro da cabeça dele.
— Ela está transformando meu apartamento em algo habitável — Joaquin continuou, porque aparentemente não sabia a hora de parar. — Porque ela insiste em dizer que eu tenho gosto de um homem divorciado de cinquenta e oito anos.
— É porque você tem — falei.
Joaquin apontou para mim.
— Viu? É isso que eu aguento todos os dias.
Todos os dias.
Todos.
Os.
Dias.
Meu Deus.
Fechei os olhos por um segundo, querendo morrer. Porque eu vi. Vi como aquela maldita frase, por mais inocente que fosse, atingiu Bucky como um míssil.
Porque era isso que parecia. Nós. Joaquin e eu. Em uma rotina íntima. Construindo uma vida juntos.
A vida em que Bucky havia abandonado.
— Bem... — voz de Bucky saiu estranhamente controlada. — Fico feliz que vocês estejam bem.
Vocês.
A palavra atingiu meu peito imediatamente.
E, pela primeira vez desde que ele havia aparecido naquela loja, senti vontade de correr atrás dele, para me explicar, dizer que não era nada disso e que Joaquin e eu não estávamos juntos. Mas... por quê? Foi Bucky quem foi embora e me deixou com muitos cacos do meu próprio coração para recolher.
Então permaneci onde estava e o assisti se despedir com um aceno discreto e desaparecer pelo corredor. Ele havia ido embora pela segunda na minha vida.
E, infelizmente, aquilo ainda doía.
Os dias que se seguiram foram terríveis e cruéis com o tanto de sentimento que parecia querer explodir do meu peito. Não. Eu não estava sofrendo como antes, mas tudo isso era diferente.
Era como uma música presa na cabeça, que permanece em um looping eterno e você simplesmente não consegue esquecer até ouvir ela inteira de novo. Mas essa era a diferença. Eu não o veria de novo para poder encerrar isso.
Eu não deveria me importar, mas me importava.
Porque depois de dois anos, eu ainda era estúpida o suficiente para me importar com o que James Barnes pensava.
A campainha tocou numa quinta-feira à noite.
Eu estava sentada no sofá, enrolada em uma manta e assistindo qualquer programa sem prestar muita atenção.
Suspirei enquanto colocava minha caneca sobre a mesa do centro e fui abrir a porta, torcendo para que não fosse algum vizinho inconveniente querendo vender alguma coisa ou conversar sobre a última reunião de condomínio.
Mas meu coração parou no instante que meus olhos reconheceram a figura parada.
Porque era ele.
Bucky estava parado do outro lado.
Com as mãos enfiadas no bolso da jaqueta, os ombros tensos, mandíbula travada e uma expressão que eu nunca tinha visto antes.
Medo.
Por um segundo, nenhum de nós falou.
— Oi — ele disse por fim.
Meu coração imediatamente se comportou como um traidor.
— Oi.
Outro silêncio. Igualmente constrangedor e doloroso. O que é que ele estava fazendo ali?
— Eu sei que provavelmente sou a última pessoa que você quer ver — ele disse baixando o olhar.
— Está concorrendo forte pelo primeiro lugar — respondi de maneira ácida e pude ver o canto da boca dele se erguer por um mísero segundo.
E odiei o quanto ainda conhecia aquele sorriso.
Cruzei os braços rente ao busto. Porque, eu tinha medo de que se não fizesse isso, corria o risco de fazer alguma estupidez.
Como abraçá-lo. Ou bater nele.
E eu ainda não tinha decidido qual das duas opções parecia mais atraente.
— O que você está fazendo aqui, Bucky?
Ele continuou fitando os próprios pés, como se procurasse coragem em algum lugar do chão. E então, quando voltou a olhar para mim, pude perceber algo diferente em sua expressão e toda a sua vulnerabilidade que ele tentava esconder.
— Eu te devo uma explicação.
A risada repleta de ironia e escárnio saiu antes mesmo que eu pudesse segurar.
— Dois anos depois?
Bucky abaixou a cabeça, como se não soubesse o que dizer.
...
— Não — o cortei balançando a cabeça, porque, de repente, toda a raiva que eu tinha enterrado sob camas e mais camadas de saudades estava voltando. — Não faz isso.
— Fazer o quê?
— Falar meu nome desse jeito — apontei o dedo para ele, sem conseguir controlar o tom de voz. — Como se não tivesse desaparecido da minha vida.
O silêncio caiu entre nós e parecia que pesava uma tonelada.
— Você me deixou uma porcaria de uma carta, Bucky — minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia e mais embargada do que eu conseguia controlar. — Uma carta.
Ele fechou os olhos.
— Eu sei.
— Não. Você não sabe. — senti minha garganta apertar e, antes mesmo que eu conseguisse controlar, as lágrimas já rolavam pelas minhas bochechas. — Você decidiu tudo sozinho.
— Eu sei.
— Decidiu que eu ficaria melhor sem você.
— Eu sei.
— Decidiu que não precisava me dar uma explicação.
— Eu sei.
— Decidiu que não precisava nem me deixar escolher — quando terminei de falar, meu peito estava pesado, como se eu tivesse voltado dois anos no tempo.
Bucky, por sua vez, permaneceu imóvel, recebendo cada palavra, sem tentar interromper nem se defender. E aquilo me deixou ainda mais irritada.
— Fala alguma coisa! — Esbravejei.
Ele demorou alguns segundos e então assentiu.
— Eu estava com medo.
Pisquei, porque, de todas as respostas possíveis, aquela não estava entre elas.
— Medo?
Bucky soltou uma risada amarga.
— Eu sei que parece ridículo — pude vê-lo molhar os lábios com a ponta da língua. — Mas é a verdade.
Os olhos dele encontraram os meus.
E, pela primeira vez naquela noite, eu vi algo familiar. Aquele era o Bucky que eu conhecia. O homem que eu amei.
— Você fazia planos — disse e eu o olhei de cenho franzido, sem entender. — Falava sobre o futuro.
Meu coração vacilou.
— Todo mundo fala sobre o futuro — respondi secando alguma das lágrimas.
— Não como você — a voz dele ficou mais baixa. — Você falava sobre viajar, adotar um cachorro, sobre ter uma casa com varanda, sobre... Envelhecer.
Engoli em seco. Porque eu me lembrava muito bem de todas aquelas conversas.
— E então eu olhava para você... — ele interrompeu a própria frase, era como s tivesse dificuldade para terminá-la. — E tudo o que eu conseguia pensar era que você merecia alguém melhor.
Fechei os olhos imediatamente, porque aquela resposta me enfureceu.
— Você continua sem entender! — Voltei a apontar o dedo para ele e aumentei o tom de voz consideravelmente.
— Eu sei.
— Não, Bucky. Você realmente não entende.
Voltei a encará-lo.
— Você não tinha o direito de decidir isso por mim.
Aquelas palavras o atingiram em cheio. E a culpa atravessou o seu rosto.
— Eu sei.
— Eu amava você — a frase escapou antes que eu pudesse impedir.
E o silêncio que se seguiu foi devastador, porque não era uma confissão. E o luto que eu havia carregado por anos.
— E eu estraguei tudo — a resposta dele saiu num sussurro.
Pela primeira vez desde que ele chegara, seus olhos começaram a ficar brilhantes.
— Eu passei dois anos tentando me convencer de que tinha feito a coisa certa — admitiu e eu senti dor a cada nova palavra.
— E conseguiu? — Voltei a cruzar os braços e funguei.
Ele soltou uma risada triste, daquelas que machucam mais do que choro.
— Não.
Outra vez nossos olhares se encontraram. E dessa vez não havia distância. Apenas verdade.
— Porque eu nunca parei de amar você, .
Senti meu corpo inteiro travar e meu cérebro entrar em curto-circuito. Porque aquelas palavras eram tudo o que eu tinha desejado ouvir. E ao mesmo tempo não eram suficientes.
Bucky pareceu entender meu silêncio, pois assentiu devagar e suspirou, como se esperasse por isso.
— Eu sei que isso não conserta nada — ele voltou a falar.
— Não conserta — crispei os lábios e apertei os olhos, deixando que mais algumas lágrimas escorressem. — Você me machucou.
— Eu sei — vi seus olhos se fecharem por um segundo, como se ele aceitasse aquela dor e soubesse que merecia ouvir.
Respirei fundo, tentando controlar a respiração.
Porque parte de mim queria continuar, queria listar cada momento horrível, cada aniversário e feriado, cada vez que eu olhei para o celular esperando uma mensagem que nunca chegou. Mas havia uma outra parte que estava cansada de carregar aquilo sozinha, de me sentir magoada e, acima de tudo, de sentir falta dele.
— Eu te odiei por um tempo — confessei em voz baixa.
Ele me olhou, me ouvindo em silêncio.
— E então parei — pude ver a expressão dele vacilar. — Porque dá muito trabalho odiar alguém que você ama.
Bucky ficou imóvel.
...
Balancei a cabeça, sem deixar ele continuar. Não. Era a minha vez agora, minha vez de colocar para fora o que eu guardava.
— Eu odiei o que você fez — continuei. — Odiei a forma como você foi embora, odiei aquela maldita carta, odiei não ter respostas... E sabe o que eu mais odiei? O fato de que eu continuei sentindo sua falta apesar de tudo.
Minha garganta apertou e eu chorei outra vez.
— Mas eu nunca consegui odiar você de verdade.
Os olhos dele finalmente ficaram marejados.
E aquilo partiu meu coração de um jeito completamente diferente.
Eu havia imaginado esse momento por tanto tempo, imaginado o que eu faria se ele voltasse, o que eu diria, se eu bateria nele e em como seria. Mas a verdade era muito mais simples. Porque eu só sabia sentir saudade.
— Eu não estou pedindo que você esqueça — ele voltou a falar, se aproximando um passo.
— Ainda bem.
— E não estou pedindo que me perdoe agora.
— Ótimo.
Um sorriso pequeno surgiu no canto da boca dele. O meu sorriso favorito.
— Estou pedindo uma chance.
Meu coração tropeçou.
Assim como havia tropeçado anos atrás na casa da Sarah, nos museus, no apartamento cheio de caixas. Em todas as vezes que James Buchanan Barnes decidiu existir perto de mim.
— Uma chance? — Arqueei uma das sobrancelhas, esperando que ele continuasse.
— De fazer a coisa certa dessa vez.
Engoli em seco e então senti vontade de sorrir.
— Você sabe que o Sam vai querer te matar — falei fungando e secando as bochechas.
Bucky soltou uma risada, porque sabia que eu estava certa.
— Eu sei.
— E o Joaquin também.
— Acho que ele gosta mais de mim.
— Ele definitivamente gosta mais de você.
— Ótimo.
Revirei os olhos, sentindo falta de como conversar com ele era fácil e natural.
E, pela primeira vez em dois anos, o silêncio entre nós não pareceu doloroso. Era casa.
— Você é um idiota — falei olhando no fundo dos seus olhos e vi um sorriso se formar em seus lábios.
— Eu sei.
— Um idiota completo.
— Você já disse.
— E eu ainda estou muito brava com você — ele assentiu e eu continuei. — E provavelmente vou continuar brava por um bom tempo.
— Acho que posso lidar com isso — levou as mãos aos bolsos da calça e eu respirei fundo, ainda observando seus olhos azuis.
Então balancei a cabeça, tomando a decisão mais burra que eu já tinha tomado, mas que era o que tranquilizava o meu coração.
Eu já estava cansada de fingir.
— Vem cá — falei e a surpresa que atravessou o seu rosto foi tão rápido que quase me fez rir.
Mas ele não discutiu, nem teve coragem de hesitar. Apenas me puxou para os seus braços.
E Deus.
Era exatamente como eu me lembrava, talvez melhor.
Muito melhor, na verdade. Porque agora não havia medo, nem despedidas e nem fantasmas.
Apenas nós dois, parados na porta do meu apartamento, como se segurássemos o mundo um do outro nos braços.
Enterrei o rosto em seu peito enquanto seus braços me envolviam com força. Pude senti-lo aspirar os meus cabelos numa respiração profunda e eu quase me fundi com ele, querendo ficar ainda mais perto.
— Eu senti sua falta — confessei, ainda com o rosto enfiado em seu peito e senti seus braços se apertarem ao meu redor.
— Eu também — respondeu.
Ficamos em silêncio por alguns segundos, talvez minutos. Eu não conseguia precisar, porque, pela primeira vez em muito tempo, isso não parecia importar.
Quando nos afastamos, apenas o suficiente para nos olharmos, encontrei aqueles mesmos olhos azuis que haviam bagunçado a minha vida anos atrás.
Só que agora havia algo diferente neles, algo que eu nunca tinha visto antes. Paz.
— Então... o que acontece agora? — perguntou.
Sorri sem humor.
— Agora? — sorri sem humor e mordisquei a bochecha, ele assentiu. — Agora eu continuo brava com você.
— Posso lidar com isso também — abriu um sorriso mais aberto e eu senti meu coração acelerar.
— Sam continua querendo te matar — fingi estar contando nos dedos.
— Isso vai ser um pouco mais difícil, mas posso lidar.
— E provavelmente vou fazer você sofrer um pouco — contei o terceiro dedo e ele riu.
— Eu acho que mereço isso.
— Merece mesmo.
Bucky assentiu e não pareceu querer se defender.
E aquilo me fez sorrir de verdade. Porque, finalmente, ele havia parado de fugir. E eu também.
Observei seu rosto por mais alguns segundos, encontrando coisas novas no percurso. Havia mais linhas de expressão e novas marcas. O tempo que havia passado por nós.
Então inclinei a cabeça.
— Se eu te convidar para um café... — comecei a falar e pude ver sua respiração falhar. — Você vai embora de novo?
O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade.
Mas a resposta veio firme.
— Não. Eu nunca mais vou embora.
Meu coração tropeçou. Assim como havia tropeçado da primeira vez.
— Então talvez a gente possa recomeçar por aí — disse, sentindo o peito esquentar de felicidade.
E, pela primeira vez em anos, o futuro não pareceu uma coisa assustadora.
Pareceu apenas uma xícara de café esperando por nós.
E, honestamente?
Aquilo era mais do que suficiente.
Fim
Nota da autora
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