Atualizada em: 20/07/2025
Curitiba, verão de 2017
Já diziam os antigos: a família é a base de tudo!Para a família Montenegro, cada feriado era uma oportunidade para os preciosos momentos de comunhão, que constroem memórias. O que não foi diferente no carnaval daquele ano, com todos reunidos na grande fazenda Montes, ao norte da região metropolitana de Curitiba. Conhecidos pela forte característica de viciados em trabalho presente no sangue em suas veias, apenas quando se reuniam, que deixavam de lado as preocupações externas.
— O que acha, ? — indagou Aura, ao esticar a colher com um pouco do molho branco para a sobrinha experimentar — Há tempos que não faço essa receita, que nem lembro-me do ponto correto.
A mulher assentiu, levando a colher à boca.
— Está gostoso. — respondeu, ao se lembrar das muitas recordações envolvidas.
— Mamãe sempre acerta no tempero. — comentou , ao pegar uma colher e experimentar também.
Com as mulheres na cozinha em plena atualização das fofocas…
O que não faltava eram risadas e comentários engraçados de Aura sobre as muitas peripécias da sobrinha em sua entrada na política. Assim como os cavalheiros, as damas também tinham suas conquistas profissionais afiadas. A começar por Elizabeth Montenegro, que aos seus 36 anos, finalmente encontrou estabilidade na carreira, conquistando uma parcela considerável de eleitores em sua última campanha eleitoral para deputada estadual. Agora, o foco estava em migrar para o senado, realizando um sonho de infância do falecido pai, cuja ficha era limpa e impecável como vereador e depois prefeito da cidade de Maringá.
— Que bom, pois ando errando a mão no sal. — disse Aura, ao desligar a trempe do fogão e levar a panela para o descanso de madeira em cima da bancada — Não sei o que tem acontecido, acho que desaprendi de cozinhar depois que contratamos a Filomena.
— Foi legal termos dado a semana de folga para ela. — observou , enquanto ajudava a mãe com a organização do restante dos ingredientes na bancada.
— Legal? Foi questão de bom senso, né. — retrucou , chamando a razão — Quatro mulheres em casa e ainda teria a necessidade de estragar o feriado da senhora?! Acho que não.
A prima riu.
— E por falar em quatro mulheres, por onde anda a adols? — indagou Aura, referindo-se à filha de .
— Vick está na sala jogando com os meninos. — respondeu , de forma espontânea — Quando não está babando pelas reformas dos gêmeos Irmãos a Obra, ela está afundada nos animes ou em um console de playstation.
— Esses jovens de hoje em dia. — se espreguiçou e puxou uma banqueta para se sentar — Será que ela herdou nosso amor pelo trabalho?
— Acredito que sim, já que ela é frenética com os estudos tanto quanto éramos em nossa época. — observava os movimentos da prima — Passa a noite em claro com a cara nos livros nas épocas de prova, e volta da escolha com o olhar orgulhoso por ser a melhor aluna, mostrando as notas impecáveis.
— É, ela é uma viciada no trabalho. — brincou Aura, aos risos.
— Sangue Montenegro. — enfatizou , rindo junto — E por falar em trabalho, não me contou como anda as negociações da fábrica de tecidos, ?
— Bem… — suspirou fraco por parte dela, então explicou a sua saga dolorosa — Foi cansativo, mesmo com sua influência, o dono faleceu há dois anos e os herdeiros estão em disputa judicial, graças a Deus consegui convencer os envolvidos a aceitarem a oferta e depositei o dinheiro em juízo.
— Nossa, que complicação. — comentou a prima, chocada pelos imprevistos da história.
— Ainda tem mais, o pior de tudo é que o bom preço que pediram não foi tão bom assim no final das contas. — relatou, em chateação por ter feito um mau negócio — A informação que obtive daquele seu conhecido foi falsa e a fábrica está atolada de dívidas e sonegação fiscal, quase à beira da falência, sem a menor credibilidade no mercado.
— Tem algo que eu possa fazer para te ajudar? — indagou , preocupada com a situação.
— É sério que as mocinhas vão falar de trabalho em pleno feriado? — Aura parou o que estava fazendo e as olhou colocando as mãos na cintura.
— Não brigue conosco, tia, estou te ajudando enquanto conversamos. — pediu a deputada, com sua habilidade argumentativa.
— Sei. — Aura olhou-a desconfiada e voltou ao que fazia, montando a lasanha quatro queijos na forma para levar ao forno.
— Então, Carol? — chamou-a pelo seu apelido, referindo-se ao segundo nome — O que pretende fazer com a fábrica? Financeiramente, está com um grande problema nas mãos.
— Sim, e bota problema nisso. — concordou — Mas, não tenho medo do trabalho e vou encarar o desafio de frente.
— E mais uma vez virar matéria de jornal como a jovem empreendedora de mais sucesso no país. — comentou a mãe, que guardava todos os recortes que havia saído da filha, desde quando a jovem iniciou suas experiências profissionais vendendo pulseiras personalizadas para as colegas no ensino fundamental.
Assim como o pai, Carolina Montenegro, tinha o feeling pelos negócios.
— Já pensou em alguma estratégia? — perguntou , curiosa.
— Ah, sim… o que a fez caçar mais uma graduação. — reclamou a mãe — Só quero ver se vai ter espaço para achar um namorado nessa agenda, eu ainda quero ter netos.
— Mãe!? — tentou repreendê-la, sem sucesso, e acabou rindo do comentário, juntamente com as outras — Digamos que eu já estava com pensamentos sendo construídos.
— Surpreenda-me. — pediu a prima.
— Não te contei no Natal que iniciei minha terceira graduação no ano passado, agora em design de moda. — relatou a jovem.
— Não brinca?! Foram tantas novidades no Natal. — estava boquiaberta com a novidade — E o que te levou a esse caminho?
— Acredite ou não, foi uma aula expositiva de arquitetura de passarela, em que pude acompanhar a montagem do Minas Trend Preview, no último semestre da graduação. — continuou ela, com empolgação — De lá pra cá, fiquei trabalhando a ideia, apenas esperando minha formatura de marketing.
— É, porque inventar de fazer duas graduações ao mesmo tempo de novo, eu não aguentaria. — reclamou Aura, ao abrir o forno e ajustar a forma de lasanha na grade.
Colocando o timer na contagem correta em seguida.
As meninas riram de leve do desabafo dela.
— Não seja tão dramática mamãe. — brincou a filha, rindo de leve — Não sou tão masoquista assim.
— Jura, Carol? — Aura a olhou por um momento, depois voltou a atenção para as folhas de alface que retirava da água com vinagre, lavando-as em água corrente.
— Sim. — assentiu, continuando aos risos — Mas o que importa é que estou me divertindo bastante, apesar da correria diária.
— Imagino, Vick está no último ano do ensino médio e já estou preparando meu psicológico para vê-la em surtos pela faculdade. — comentou , ansiosa pelo futuro acadêmico da filha e brincou — Pelo menos ela aceitou seu destino de ser arquiteta, continuando o legado da família.
— Sim, o único que fugiu da regra foi o , por causa do amor do papai pela F1, o máximo que se deu o trabalho foi aquele curso técnico de Edificações. — observou — Contudo, não acho que vou exercer a profissão, a arquitetura me mostrou novas possibilidades de empreendedorismo, por isso, a fábrica de tecidos entrou na história.
— Ainda não entendi o propósito dessa fábrica que já começou dando dor de cabeça. — comentou Aura.
— Quero lançar uma marca de roupas esportivas, que seja o mais original possível como a Osklen que produzem o próprio material, e a fábrica será nossa confecção direta para isso. — explicou , suas ambições — Além do mais, a indústria têxtil sempre foi do meu interesse desde quando eu fiz aquele curso técnico de sublimação e estamparia, se eu não fosse diretamente para moda, iria parar no ramo do design de superfícies.
— Tem vários designers indo para esse segmento em São Paulo. — comentou , com seus conhecimentos sobre o mercado brasileiro — Não só no ramo têxtil, mas também da construção civil, produzindo padronagens para porcelanatos e revestimentos no geral.
— Inicialmente eu pensei nisso. — demonstrando conhecimento prévio no assunto — Até visitei a fábrica da Portobello em Santa Catarina, e me encantei com aquelas lastras maravilhosas.
— Até aparecer as passarelas. — Aura dando seus pitacos no assunto.
— Sim. — concordou — Não resisti e a moda me arrebatou o coração.
— Só não pode deixá-la sugar seu sorriso, como fez com a Victória Beckham. — alertou , num tom descontraído, jogando a referência.
— Claro que não. — a jovem riu — Ainda preciso ajustar minha estratégia para reerguer a fábrica, se tiver alguma ideia, agradeço. Meu pai já falou que não vai investir nenhum centavo da construtora nela, e não tenho afinidade com os bancos.
ainda se sentia chateada pela palavra final de Jorge, pois para o filho piloto, ele havia montado até mesmo uma escola de kart, a fim de ajudá-lo em sua carreira nas corridas profissionais. Entretanto, ela não poderia reclamar, pois o homem já havia gastado uma pequena fortuna adquirindo a empresa falida para ela. Dinheiro este que saiu da venda de duas propriedades herdadas pela família, através de um parente distante, ao sul de Campos do Jordão.
— Ajudar diretamente não consigo, mas tenho um amigo que comentou que está em transição de carreira e pode lhe ajudar, ele é excelente com bancos e vendas, quase um gênio das finanças. — comentou , relembrando quando recebeu a ajuda dele para arrecadar verbas para uma de suas campanhas — Adriano Lobato.
— Me passe o contato, por favor. — pediu Carol, com um olhar de clemência.
— Te passo sim. — assentiu, já pegando o celular do bolso.
— Só terei paz e tranquilidade para iniciar meu projeto de lançamento da minha marca, quando finalmente conseguir resolver o problema da fábrica. — completou ela, pensativa na longa caminhada que teria pela frente.
— Tenho certeza de que vai, você é esperta e inteligente. — reforçou , dando-lhe apoio emocional.
— Não o bastante para não cair no mau negócio. — bufou de leve.
— Fique tranquila, querida, vai conseguir. — confortou a sua mãe.
A família era o ponto de apoio para cada um de seus membros.
Sempre que as adversidades apareciam para um deles, os outros estavam ao lado para dar suporte. Isso aconteceu quando recebeu uma proposta inusitada do pai de sua filha, engravidando aos dezoito anos através de uma inseminação artificial. O empresário dono do maior vinhedo do estado, Becker, foi o patrocinador exclusivo de sua primeira campanha eleitoral, tornando-a a vereadora mais jovem na história do estado.
Como haviam se conhecido?
Em uma viagem de negócios do gaúcho à Holambra, onde ela ainda jovem, estava em viagem de férias com a família. Bastou uma conversa informal e descontraída no elevador do hotel em que estavam hospedados, para despertar a curiosidade e interesse do homem. Agora, era a vez dos irmãos, com sua entrada na indústria da moda e com sua estreia como piloto de F1, em uma equipe promissora.
— Hum… o cheiro está convidativo. — a voz de soou da porta.
O rapaz adentrou a cozinha sendo acompanhado pela adolescente , filha de . Ambos em risadas pelos comentários engraçados dele referentes ao anime Haikyuu.
— O que causou tanta gargalhada dos dois? — indagou , curiosa.
— O tio estava me contando alguns spoilers da terceira temporada de Haikyuu. — respondeu a adolescente.
— Mais anime. — comentou Aura, rindo baixo dos gostos da sobrinha-neta.
— Tia Aura, são mil vezes mais legais que as sitcoms americanas. — afirmou ela, em defesa do seu gosto pela cultura asiática.
— E a senhora? — caminhou até a mãe e a abraçou por trás — O que anda aprontando para o almoço? Minha barriga começou a reclamar.
— Hum… estou fazendo a receita da família, lasanha quatro queijos. — respondeu, rindo das cócegas que o filho tentava lhe fazer — Pare com isso, menino.
— Desde quando lasanha quatro queijos é a receita da família? — questionou — Não era bolinho de bacalhau?
— Sempre achei que fosse strogonoff de carne. — comentou .
— A gente sempre gostou mais de Paçoca de Carne. — comentou , reflexiva no cardápio tradicional dos Montenegro.
— Claro que não, sempre foi tabule por causa da vovó Somália. — relembrou .
— Estou mudando a culinária da família. — explicou Aura, sua decisão — Além do mais, cada feriado é sempre uma receita diferente.
— Não pode mudar a tradição da família, em todos os carnavais nós fazemos Paçoca de carne e tabule. — recordou a adolescente.
— Hora de variar. — brincou Aura, rindo da careta dela — Da próxima, os mais jovens virão e farão a refeição.
— A comida da senhora é mil vezes melhor que a nossa. — reclamou .
— Vick está certa. — disse , ainda grudado nela — Só não me caso com a senhora, porque já é uma mulher casada.
— Sei. — ela riu dele — Vamos completar que também é meu filho, seu bobo.
— Deveria procurar uma tão meiga e prendada para você. — Jorge apareceu no assunto, encostado no umbral da porta, com as mãos nos bolsos do short — Esta bela senhora já possui alguém para amá-la.
Uma piscada de leve para a esposa, e gritos de felicitações dos solteiros em questão.
— Se for para ter um casamento como o dos dois, eu aceito uma aliança na mão esquerda. — confessou , ao contemplar a cena.
— Sim… o sonho de todos nós é viver um amor assim. — se afastou da mãe, indo conferir o que tinha dentro do forno.
— Pare de mexer nas coisas, menino. — Aura bateu em sua mão — Deixe que está quase pronta.
— Estou com fome, mãe. — reclamou ele, fazendo todos rirem.
O único momento em que Augusto Montenegro não reclamava de fome com a mãe, era quando estava concentrado em seus animes, ou longe de casa em sua carreira de piloto. Aura sentia seu coração aquecido sempre que via a cheia, das suas crianças famintas. E sim, para ela, todos os quatro solteiros ainda eram crianças, até mesmo que já tinha uma filha também.
A comunhão em família perdurou ao longo do feriado.
Quinta-feira pela manhã, e a prima já se encontravam desembarcando no Aeroporto Internacional de Congonhas. A filha com o recesso escolar, continuou na casa dos tios, aproveitando a estadia de no país, logo o piloto retornaria a Londres, para iniciar os treinamentos para a temporada que se aproximava. Já a deputada, tinha uma reunião de gabinete com seus assessores, com a importante missão de planejar as etapas de sua candidatura ao senado no próximo ano.
Enquanto isso…
ao se despedir da prima, seguiu de uber até o luxuoso restaurante japonês Sakura Bistrô, onde se encontraria com Lobato para uma conversa informal. Ao chegar, o homem, já a aguardava sentado em uma das mesas ao lado da vidraça, observando os carros.
— Agradeço sua aceitação em se encontrar comigo, logo após o feriado. — disse ela, já puxando a cadeira de frente para se sentar — E desculpe a demora, nosso voo atrasou.
— Sem problemas, me mandou uma mensagem contando o ocorrido no aeroporto de Curitiba. — assentiu ele, com serenidade em seu rosto.
— Nem quero me lembrar disso. — dando um suspiro fraco, pelas frustrações — Mas vamos aos negócios, acho que ela explicou superficialmente minha situação a você.
— Sim. — confirmou.
— Sem recursos, sem investidores, sem capital inicial, sem prestígio no mercado. — continuou pontuando as partes críticas da história — Funcionários em greve, salários atrasados, um rombo no caixa, dívidas com fornecedores e, para piorar, sonegação fiscal.
— Muito coisa para uma simples fábrica de tecidos. — seu comentário soou com descontração — Posso lhe fazer uma pergunta inicial?
— Sim. — seu olhar demonstrou atenção total a ele.
— A senhorita sabe como funciona uma fábrica de tecidos? — indagou, já construindo seu plano de ação, considerando a resposta dela.
— Pesquisei sobre o assunto, em um trabalho da faculdade, mas… não muito aprofundado. — sendo honesta na resposta.
— Vamos começar por aí, então. — sugeriu Lobato, de imediato — Pois só vai saber como salvar este negócio se souber como ele funciona corretamente.
— Bem, sei que existem muitas ações judiciais contra a Constantine Tecidos, o que me levou à estratégia de renomear a fábrica. — contou seu planejamento inicial — Já acionei o advogado da família, acho que conhece o Rodrigo Lombardi. E estamos refazendo as contas para saber o valor exato da dívida e tentar negociar o pagamento, enquanto isso, precisamos retornar à produção, buscar novos compradores e rezar pra dar certo.
— Tudo bem… conheço uma amiga que já trabalhou por um tempo na Cedro Têxtil em Belo Horizonte, é uma fábrica consolidada, ela tem experiência e pode nos ajudar. — disse o primeiro passo.
— Ela teria essa disponibilidade? — indagou , ansiando por uma resposta positiva.
— Bom, essa é a parte em que você começa a rezar. — respondeu, de forma direta.
Lobato não podia prometer nada, mas gostava de um desafio.
Demonstrou de início que estava disposto a ajudá-la em sua empreitada. Se em um ano não conseguissem reverter a situação ou parte dela, sua solução para ela seria decretar falência e vender as máquinas para saldar pelo menos os salários atrasados dos funcionários. Um bloco de notas na mão e uma caneta, o homem começou a explicá-la passo a passo o que eles iriam fazer. Que iniciaria com uma visita aos bancos para renegociar as dívidas atuais, depois na busca por financiamento com linhas de crédito com pagamentos mais flexíveis e atrair investidores temporários, já que o objetivo de era ter uma empresa de capital fechado.
— E depois de estruturarmos bem nosso plano de ação, iremos apresentá-lo a quem é devido, em paralelo a isso, seu advogado em conjunto com uma amiga especialista irão regularizar a situação fiscal da empresa, somente assim poderá renomeá-la. — explicou ele, com mais seriedade nas palavras — Será um processo longo, por isso, estou nos dando sete meses para pelo menos eliminar a metade dos problemas.
— Você conhece muita gente. — comentou , impressionada com o tanto de “pessoas amigas” que ele mencionou em toda a explicação.
— Um bom network é o que vale nos dias de hoje. — afirmou, com sua sabedoria financeira.
— E quando podemos começar? — o fator importante.
— Amanhã de manhã vamos a cidade de Americana, é o polo têxtil do estado, estou pensando que transferir as instalações da fábrica de Cianorte para cá, será mais estratégico para nossos argumentos de recuperação de prestígio. — sugeriu — A indústria têxtil tem mais força no estado de São Paulo.
— Seguiremos conforme seu planejamento. — assentiu sem contestação, preparando-se internamente para o grande desafio.
Mesmo não tendo apoio financeiro do pai, Jorge o havia dado alguns conselhos financeiros antes de sua partida, além de permanecer na torcida pelo sucesso da filha. alinhou mais alguns detalhes com Lobato e aproveitando o ambiente, aceitou o convite para o almoço do cavalheiro. Horas depois, seguiu para o apartamento duplex da prima no Ibirapuera, onde permaneceria instalada por tempo indeterminado. Suas finanças não lhe permitiam morar sozinha em uma cidade tão cara para se viver.
Ao final da tarde, ainda no Palácio 9 de Julho.
finalizava sua reunião, no gabinete que lhe pertencia, situado no terceiro andar do prédio da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Após dispensar todos os envolvidos, encostou-se levemente na mesa de trabalho, ficando de costas para a porta e de frente para a vidraça do prédio. Seu momento contemplativo ao frescor daquele pôr-do-sol, levou-a reflexões profundas sobre sua carreira política e de como iria conseguir chegar ao senado, como prometido ao pai.
— Será um longo percurso até o dia das eleições. — sussurrou para si, de braços cruzados e o olhar para fora da janela — Não quero ter que pedir ajuda a ele, novamente não.
Sempre que se via diante de uma grande montanha, ela recorria ao plano mais fácil para conquistar seus objetivos: Becker. O pai de sua filha apesar de seus negócios se concentrarem na região Sul, principalmente nas cidades de Curitiba, Florianópolis, Gramado, Joinville, Londrina, Maringá e Porto Alegre, o gaúcho também possuía muita influência na cidade mais populosa do país, além da cobiçada Brasília. E em quase todas as campanhas da deputada, havia um dedinho dele envolvido para sua vitória final. Contudo, dessa vez ela ambicionava independência, pois em todas as ajudas do homem, sempre teve um preço a ser pago no final.
E da última vez, quase custou-lhe outra gestação.
— O que eu faço… — mordiscou o lábio inferior pensativa, até que fora interrompida por uma ligação.
Pegando o celular em cima da mesa, atendeu a chamado de whatsapp.
— Boa tarde, senhorita Montenegro. — a voz do pai de sua filha era inconfundível a sua audição.
Ao mesmo tempo que lhe estremecia, causava medo.
— A que devo sua ligação? Em plena quinta-feira antes do jantar. — indagou ela, preparando o psicológico para o que viria a seguir.
— Preciso de um favor seu. — direto e preciso como sempre.
— Senhor Becker… é mesmo você? Está doente? — demonstrou surpresa, pois quem sempre pedia favores era ela.
Uma risada sarcástica soou do outro lado da linha.
— Não estou doente e o que digo é real. — reforçou o homem, voltando à seriedade.
— E como posso lhe ajudar? — indagou.
— Amanhã à tarde receberá uma encomenda em seu gabinete, vista-se com o conteúdo que estará dentro, uma limusine a pegará às seis da noite em ponto. — instruiu ele, com precisão — Lembre-se que odeio atrasos.
— Não se preocupe, senhor Becker, com o trânsito de São Paulo na hora do rush, serei mais do que pontual. — ela apenas assentiu e encerrou a ligação.
Ele que precisava da ajuda, ainda exigia pontualidade.
não se deu nem o trabalho de perguntar qual era especificamente o favor, mas a considerar de qual traje estaria no pacote, saberia para onde o motorista a levaria. As rasas informações que tinha sobre o pai de , eram do bem-sucedido vinhedo que administrava no Sul do país, da próspera loja de departamentos que lhe pertencia e se expandia em filiais pela região Sudeste, da sua discreta descendência de família alemã ligada à antiga Escola Bauhaus, e do curto noivado que tinha tido com uma modelo de Porto Alegre.
Relacionamento este, que foi interrompido após o anúncio da fertilização em .
Na época, desconfiado da fidelidade da noiva, desistiu de construir uma família ao seu lado, entretanto, seu ávido desejo por se tornar pai e manter a linhagem da família, o levou a pensar sobre inseminação artificial. Mas quem seria a parte doadora do óvulo? Foi aí que Montenegro e seu desejo de entrar para a política, cruzou seu caminho, dando-lhe a chance de viver a paternidade. E para sua surpresa, o que seria apenas uma barriga de aluguel, graças ao apoio dos Montenegro e o crescente sentimento materno, tornou-se guarda compartilhada.
— O que anda tramando, Becker?! — sussurrou, mantendo o olhar na tela do celular por um tempo.
juntou suas coisas e jogou dentro da bolsa, pegando as chaves do carro que deixou no estacionamento do subsolo, retornou para casa. Assim que chegou ao apartamento, encontrou a prima jogada ao chão da sala, em cima do tapete, com seu tablet, agenda, sketchbook, canetas e muitas pesquisas envolvidas. estava decidida a mergulhar no universo dos tecidos para salvar seu negócio.
— Bonne nuit, mademoiselle Montenegro. — brincou ela, ao fechar a porta, digitando a senha para trancá-la.
— Good night, milady Montenegro. — a prima entrou na brincadeira, que sempre faziam — Chegou cedo, achei que sua reunião embalaria a noite.
— Não estava com cabeça para falatório, e é apenas a primeira de muitas. — ela retirou os sapatos dos pés, no hall de entrada e caminhou descalça até a sala — E como foi com o Lobato?
— Produtivo e assustador. — respondeu, mantendo sua atenção às anotações que fazia.
— Assustador de forma positiva ou… — indagou.
— Negativa por um lado e positiva por outro. — respondeu — Seu amigo tem uma lista enorme de contatos.
— Ele é muito bom quando se trata de comunicação. — confirmou ela, sentando-se no sofá e a observando — Não vai acreditar em quem me pediu um favor.
— Hum… Uma de suas amigas do clube das flores? — supôs a jovem.
— Passou longe, e por falar nisso, esqueci que temos encontro amanhã… não poderei ir. — bufou ela.
— Por qual motivo? — a olhou de relance.
— Aí chegamos na pessoa do favor. — respondeu — O pai de Vick quer me levar a algum lugar amanhã à noite.
— O ?! — boquiaberta — Por essa não esperava.
— Nem você e nem a torcida do Palmeiras. — brincou — Mas é a realidade, e estou curiosa pela programação do sextou com o Becker.
soltou uma gargalhada boba, sendo acompanhada pela prima.
— Vai demorar aí? — perguntou , levantando-se do sofá — Vou fazer algo para comer, você quer?
— Sim, por favor, estou morrendo de fome, mas sabe que não consigo comer nada até terminar o que estou fazendo. — assentiu .
— Sangue Montenegro. — comentou ela, o defeito da prima, sabendo que também o possuía.
— Sangue Montenegro. — concordou a jovem.
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Sexta pela manhã…
Em meio ao aconchegante edredom, Vick despertava de seu sono tranquilo, com os olhos ainda fechados, sentiu o calor do sol tocar sua cama através do vidro da janela. Pelo calor da noite anterior, as cortinas permaneceram encolhidas no canto da parede, dando espaço para a claridade do amanhecer. Apesar de ter passado a noite jogando com o tio, o novo jogo de PS4 que o rapaz comprou para si no Natal, seu corpo não parecia tão sonolento quanto deveria. Sua rotina diária era de exatas oito horas de sono, controladas à risca por sua mãe, a adolescente iniciava seu dia pontualmente às 6 horas da manhã para enfrentar as aulas no Colégio São Luís.
Com o feriado prolongado…
— Hum… — ela resmungou um pouco, abrindo o olho esquerdo para entender o que estava acontecendo — Meu relógio biológico bem que podia me ajudar…
Desejando ter acordado mais próximo do horário do almoço, ela bufou um pouco após conferir a hora no celular, que marcava oito da manhã. Não era cedo demais, porém, não tão tarde quanto gostaria. Se espreguiçando, ergueu o corpo e manteve os olhos fixados na parede em frente, se levantou da cama, como se esperasse sua alma voltar ao corpo, enquanto a mente fazia o download inicial do dia. Quando finalmente se sentiu apta a levantar-se, seguiu para o banheiro a fim de lavar o rosto para acordar de fato.
— Olha só, pensei que a bela adormecida iria afundar a manhã na cama. — comentou Aura, assim que percebeu a presença da sobrinha-neta na cozinha.
— Bom dia, para a senhora também, tia Aura. — Vick manteve a voz quase em sussurro — Queria mesmo dormir mais um pouco, mas meu corpo rejeitou a cama.
— Você já tem um sistema e vai caçar acompanhar o . — disse, mencionando o filho.
— Mas, foi divertido jogar com ele. — resmungou, ao puxar a cadeira fazendo bico.
Aura soltou uma gargalhada e voltou ao preparo das panquecas que fazia.
— Onde está a Filomena? — indagou a adolescente, estranhando a tia em casa naquela hora da manhã.
— Resolvi dar o restante da semana de folga pra ela, sem precisar pagar horas depois. — respondeu, concentrada em sua atividade — Filomena me contou que a filha veio de Minas só pra passar a semana com ela, não quis atrapalhar os planos da Manuela.
— Parece ser tão difícil um CLT conseguir folga para ficar com a família. — comentou Vick, reflexiva sobre.
— Por isso que deve continuar concentrada nos estudos para fazer sua própria rotina de trabalho. — aconselhou, ao parar e olhá-la — O fato de ser uma Montenegro, não te isenta de dar o seu melhor, mesmo se for para seguir carreira na empresa família.
— Eu sei, tia. — assentiu de imediato — Mamãe já conversou sobre essas coisas comigo, nossa família não é adepta do nepotismo e sim da meritocracia.
— Que bom que sabe disso. — reforçou a tia — Acha mesmo que o Jorge compraria aquela fábrica falida pra se não soubesse que ela é capaz de dar a volta por cima?
permaneceu em silêncio pensativa, porém, sabia a resposta da argumentação de sua tia. E assim como a geração antes dela, a adolescente sonhava em mostrar seu valor e honrar sua família.
— Sua mãe não me disse quando volta pra São Paulo. — indagou Aura, voltando ao preparo das panquecas.
— No domingo com o tio , as passagens já estão compradas. — respondeu, observando-a preparar com esmero.
— Até esqueci que aquele esfomeado volta pra Londres esse final de semana. — comentou, soltando um suspiro fraco.
— Alguém disse boia? — a voz de preencheu o espaço, fazendo a sobrinha rir com sua referência ao episódio do Pica-Pau.
— Durma filhinho do coração. — brincou Vick, soltando algumas gargalhadas — Pensei que iria sair da cama só depois do almoço, tio .
— Era a meta, mas a realidade da fome é outra. — respondeu o rapaz, caminhando até a mãe na área do fogão — Eu senti esse cheiro e minha barriga deu sinais de vida.
A adolescente riu da piscada nada discreta dele.
— Sei. — resmungou a mãe, ao senti-lo abraçá-la por trás — E a senhora, o que temos para hoje? Estou com fome.
— Você sempre está com fome, quando não está dormindo ou jogando. — esclareceu Aura, as manias do filho.
— O que posso fazer, sentir fome constantemente, está além da minha compreensão. — disse, de forma descontraída — E amo suas panquecas.
— Não tenho dinheiro. — retrucou Aura, com sarcasmo para o filho.
O que a levou a recordar das muitas vezes que ele e quando criança, lhe diziam amá-la, apenas para pedir dinheiro depois.
— Que mercenária, eu não ia te pedir dinheiro. — reclamou ele, se afastando da mãe, com ar de chateação — Agora farei da Filomena minha Masterchef oficial.
Aura o olhou como se não acreditasse em suas palavras, então despejou a última panqueca no prato, ignorando totalmente o projeto de chantagem emocional dele. Isso arrancou muitas risadas da sobrinha que acompanhava os passos do tio com o olhar.
— Onde está o papai? — perguntou ele, curioso.
— Não é só porque você está de folga, que o resto da humanidade está. — respondeu Aura, com seu jeito “carinhoso de ser”, para perguntas óbvias.
— Nossa, que ríspida. — reclamou , fazendo uma careta — E a senhora? O que faz em casa?
— Tia Aura deu folga a Filomena. — respondeu Vick.
— Hum… — puxou uma cadeira e se sentou ao lado da sobrinha.
— Só estou ajudando com o café da manhã, mas os dois vão se virar para o almoço. — anunciou Aura — Tenho muito trabalho acumulado na construtora e preciso visitar duas obras em andamento.
— Sim, senhora. — bateu continência em brincadeira e piscou de leve para a sobrinha — Eu sou quase um Rodrigo Hilbert na cozinha.
Aura soltou uma gargalhada maldosa.
— Nossa mãe, é assim que eu tenho prestígio nessa casa? — reclamou ele, se fazendo o ofendido.
— Desculpa, filho… saiu sem querer. — ela continuou rindo, e ao colocar o prato com as panquecas em cima da mesa, deu um beijo no rosto de cada um dos dois — Estou indo me trocar.
— A senhora não vai comer com a gente? — indagou Vick.
— Já tomei meu café com o Jorge. — Aura seguiu para a porta.
— É uma tradição dos dois, não importa a situação, sempre tomam o café da manhã juntos. — explicou , ambicionando internamente viver um relacionamento assim — Começar o dia compartilhando a vida com quem você ama.
— Acho um encanto a tia Aura e o tio Jorge. — comentou a adolescente, soltando um suspiro de esperança.
— Ver a cumplicidade deles, me faz acreditar que ainda existe amor verdadeiro. — seu tom esperançoso afirmava suas convicções e ansiedades para o futuro.
, por mais que não aparentava por seu jeito brincalhão de menino adulto, era um romântico incorrigível, com sua ambição por um amor singelo e cristalino, no qual pudesse viver. Entretanto, a fama que estava recebendo através da profissão que escolheu seguir, o havia deixado em alerta e com receio de acreditar facilmente nas pessoas que se aproximavam dele. Afinal, a visibilidade de um piloto profissional era grande, e agora estreando na Fórmula 1, seria mundialmente conhecido.
Um atrativo para mulheres interesseiras apenas na sua fama e dinheiro.
— Até domingo, qual será a nossa programação? — perguntou Vick, curiosa pelo final de semana, junto do tio mais divertido que tinha.
E o único que tinha, pois seus pais eram filhos únicos.
A união da família Montenegro era o pilar de , que sempre a fez considerar os primos mais seus irmãos, assim como Aura, sua segunda mãe, e Jorge, o pai que sempre sonhou em ter. Assim, seguia com o mesmo sentimento com relação a e .
— Que tal um pouco de caminhada ao ar livre, para esticar as pernas e um almoço fora? — sugeriu ele, enquanto servia o café em sua xícara — Estou com vontade de visitar a Escola de Kart.
— Não vai passar a manhã pilotando, né? — reclamou ela, já sentindo que não era uma boa ideia.
— Não, eu prometo me controlar. — riu do olhar preocupado dela — Gosto de corridas, mas quando estou em família, tenho controle sobre meu vício de trabalho.
Ela assentiu rindo baixo, pois agia da mesma forma com relação aos estudos. Tanto quanto os outros familiares, Victoria Montenegro se dedicava ao máximo em tudo o que fazia. Primeiro, para mostrar que não era apenas um rostinho bonito, e segundo para merecer o respeito e a admiração da família.
— Vou fingir que acredito. — disse com o olhar desconfiado.
O café foi em meio a risadas e brincadeiras de , que encorajou a sobrinha sobre seu futuro acadêmico em uma graduação que realmente lhe interessasse. Seu conselho fundamentava-a a não seguir a área da construção civil apenas para agradar a família ou por considerar mais fácil devido a Nexus Construtora, contudo, sua escolha deveria ser por si mesma, pois seria melhor trabalhar com algo que gosta do que o contrário.
— Para ser honesta… Eu gosto de arquitetura, só não sei ainda se é tão intenso quanto a tia Aura e o tio Jorge. — confessou ela, suas reflexões — Mas minha mãe também me disse que não devo me sentir pressionada a escolher agora, tenho até o próximo ano para isso, já que só devo me preocupar com a prova do Enem.
— Então apenas não pense demais e vá selecionando aquilo que te diverte mais. — aconselhou , ao finalizar a lavagem das vasilhas sujas do café.
— Eu nem preciso perguntar se dirigir te diverte. — comentou, rindo de leve.
— Meu encanto pelas corridas… começou com meu pai levantando de madrugada no domingo pra assistir F1. — contou recordando dos fatos — Mesmo tentando não fazer barulho pra acordar minha mãe, eu ouvia seus passos no corredor e me levantava também.
— Imagino o quão legal deveria ser. — seu tom saudoso a fez lembrar dos muitos momentos que teve com o pai quando criança, principalmente quando saíam de férias para o sul da Alemanha.
— Sim, eu ficava o espiando do canto pra não me ver e brigar comigo, até que teve um dia que ao passar pelo corredor, ele abriu a porta do meu quarto e me chamou para assistir com ele. — continuou suas memórias — Foi aí que percebi que ele sempre soube que eu estava o espionando.
riu um pouco.
— Me sinto honrado agora em saber que ele vai se levantar de madrugada pra me ver. — completou, sentindo gratidão pela oportunidade.
Vick manteve silêncio, apenas contemplando o olhar brilhante do tio.
— Agora vamos logo, que temos um longo dia pela frente. — disse ele, se direcionando para sair da cozinha.
— Antes eu tenho que trocar de roupa, não posso sair assim, toda estranha. — anunciou a adolescente, no seu mínimo momento de vaidade.
O que arrancou gargalhadas de .
Ao chegarem na escola de Kart, o piloto avistou alguns rostos conhecidos, entre eles estava o de Maite, a garota em que ocultamente por anos, ele considerou ser seu amor de infância.
Porém, não correspondido.
Até agora…
Não é sobre ter todas as pessoas do mundo pra si
É sobre saber que em algum lugar alguém zela por ti
É sobre cantar e poder escutar mais do que a própria voz
É sobre dançar na chuva de vida que cai sobre nós.
- Trem-Bala / Ana Vilela
