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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 21/05/2026.

Um suspiro escapou dos meus lábios enquanto eu girava as chaves do carro entre meus dedos, de forma distraída. O cansaço estava bem evidente nos meus olhos e eu honestamente lutava para conseguir me mover até o veículo para poder seguir até a minha casa com segurança.
Aquele dia havia sido cheio no estúdio de gravação.
Muitas pessoas acham que produzir um álbum é algo fácil para um artista, afinal, ele só precisa chegar lá e cantar ou trocar algum instrumento, mas estavam muito enganadas. O processo até ter o trabalho completo era bastante longo e exigia energia até quando eu já não a tinha para absolutamente nada.
Apesar do cansaço, no entanto, havíamos feito um belo progresso, e eu estava convicto de que aquele era o melhor de todos até ali. O público alvo estaria muito bem servido.
As portas do elevador finalmente se abriram e me despertaram de meus devaneios. Com uma certa pressa, eu saí porta afora e não prestei mais atenção em outra coisa que não fosse no quanto precisava descansar.
Caminhei até a garagem, então passei meu olhar pelo local, procurei meu carro e praguejei mentalmente pelo ambiente ter aquela iluminação fraca.
Levei uma mão até minha nuca, ao sentir a dor nas costas gritar em protesto devido às várias horas em pé, porém não liguei de verdade.
De repente, uma sensação de que alguém me observava tomou conta de mim e me fez parar de andar imediatamente. Lancei mais um olhar ao meu redor e franzi o cenho.
Procurei, procurei e não encontrei nada.
Talvez fosse apenas o cansaço me pregando pressas.
— Com certeza, é — murmurei para mim mesmo, enquanto tentava trazer essa certeza para a minha voz.
Voltei a caminhar e percebi que meu carro estava relativamente próximo.
Apressei então meus passos e meus olhos até ardiam de cansaço. Eu merecia mesmo tirar um sono.
Mais uma vez, a sensação de que ser observado tomou conta de mim e me arrepiou dos pés à cabeça.
Outra vez, não encontrei nada.
Parei diante da porta do motorista e sorri internamente para ela. No entanto, uma fração de segundos depois, meus olhos se arregalaram, porque na terceira vez em que me senti observado, a presença se tornou mais intensa e foi diferente.
Diferente porque a figura se destacou nas sombras e não demorei a identificar a quem pertencia.
Franzi o cenho em surpresa. Como ela sabia que me encontraria ali? Só se estivesse me seguindo.
Abri a boca para questioná-la, porém um sorriso se formou em seus lábios e o brilho maníaco em seu olhar me fez recuar rapidamente.
Com o coração saindo pela boca, me virei rapidamente. Tentei destravar a porta do carro, mas, de repente, o controle não queria funcionar e eu simplesmente não conseguia encaixar a chave na fechadura.
Uma risadinha baixa escapou da parte dela e a próxima coisa que senti foi uma dor lancinante na cabeça.
Imediatamente fiquei tonto, meus olhos pesaram e eu ainda tentei balbuciar alguma coisa, quem sabe fazê-la retomar a razão, porém, no fundo, sabia que era inútil.
Eu devia ter previsto aquilo desde o início. Deveria ter me afastado quando ainda havia tempo.
Mas será que havia?
Outra pançada em minha cabeça atrapalhou o restante do meu raciocínio.
E, sem conseguir reagir, simplesmente desmaiei.



Eu lembro de cada detalhe de quando o vi pela primeira vez.
A noite estava fria e, mais um pouco, a neve bloquearia as estradas e impediria que qualquer carro atravessasse por elas. O vento castigava os resquícios de minha pele exposta e fazia com que alguns flocos batessem contra meu rosto e trouxessem a sensação de que minúsculos cortes se abriam, ardiam e me faziam levar as mãos até a boca para soprar um pouco de ar, como se aquela baforada pudesse me aquecer nem que fosse por alguns segundos.
Meu apartamento não ficava muito distante daquele pub e, embora alguns alertas me dissessem para permanecer dentro de casa, eu os ignorei, porque precisava distrair um pouco minha cabeça. A faculdade estava me deixando maluca e, mesmo atolada em trabalhos, eu não conseguiria levar nada para frente sem que tirasse um tempo só para mim. Então não hesitei em vestir minha melhor roupa, o casaco mais quentinho de meu guarda-roupas e as botas que me permitiriam caminhar pelas ruas sem correr o risco de resvalar no gelo. Já havia levado tombos o suficiente no passado para aprender minha lição.
Ao contrário de alguns conhecidos meus, eu não via necessidade alguma de usar o carro para ir até a esquina, fora que eu não pretendia sair daquele pub sóbria naquela noite.
Assim que abri a porta do estabelecimento, o ar quente veio de encontro ao meu rosto e eu abri um sorriso, porque adorava aquela sensação. O inverno era minha estação favorita exatamente por me trazer aquele sentimento de aconchego que só um lugar bem aquecido poderia proporcionar.
Se eu pudesse, ficaria ali parada na porta para receber o vento frio e o ar quente ao mesmo tempo, por mais que fazer esse tipo de coisa pudesse me deixar doente, mas tinha certeza de que seria repreendida por algumas das dezenas de pessoas dentro daquele lugar.
Tratei de tirar meu sobretudo pesado, porque não iria mais precisar dele ali, bem como de minha toca e as luvas fofinhas. Meus olhos varreram o local em busca de alguma mesa livre, mas acabaram se perdendo por alguns instantes, enquanto eu observava os grupos de amigos.
O primeiro que me chamou a atenção era composto por quatro garotas absortas em uma conversa aleatória, a qual eu não fiz muita questão de decifrar, mas parecia divertir três delas ao extremo. Analisei então a expressão calada da ruiva, com olhos tão azuis que me causariam inveja se esta já não estivesse completamente focada em seus cachos perfeitos.
Ela levou o copo com o drinque azul piscina aos lábios e sorveu uma boa parte de seu conteúdo, enquanto seu olhar estava fixado na garota loira, sentada no meio de uma morena e outra ainda mais loira que a primeira. Pude jurar que algo faiscava nos olhos azuis, e minha experiência em analisar pessoas soprou em meus ouvidos que ela se continha para não avançar na cara da colega. Isso acabou por me deixar levemente curiosa.
Talvez eu gostasse um pouco de confusão.
A quem eu queria enganar? A verdade era que eu amava uma boa treta.
Abri um sorriso de canto com o pensamento e cogitei encontrar alguma mesa próxima a elas só para ver se aquela noite teria algum desfecho interessante, mas então um grito de comemoração atraiu minha atenção para um outro grupo a alguns metros das garotas.
Este estava composto por três rapazes de aparência meio bruta, o que fez com que eu imediatamente os reconhecesse como atletas de algo semelhante a futebol americano, ou quem sabe hóquei. Havia também um rapaz baixinho, que parecia bastante deslocado ali, e um casal que praticamente se engolia logo ao lado. Especulei mentalmente se a comemoração seria em vista do casal finalmente ter se formado, ou alguma coisa relacionada aos jogos daquela temporada. Acabei sentindo pena do deslocado, porque estava nítido que queria sair correndo daquele lugar. Eu, na posição dele, talvez nem teria me prestado o papel de sair com aquele grupo e, por mais uns minutos, tentei encontrar uma explicação para alguém como ele estar no meio de pessoas como aquelas. Não que não acontecesse, mas era no mínimo diferente.
Balancei um pouco a cabeça para tentar recobrar meu foco inicial de achar uma mesa, ou eu acabaria sem um bom lugar para me sentar, e, com uma careta de frustração, constatei que era o que havia acabado de acontecer.
Eu não ligava de sair sozinha, mas ficar plantada ali em pé e atrair uma atenção a qual eu definitivamente não queria estava fora de cogitação.
Olhei na direção do bar, então caminhei decidida até o balcão quando notei uma das banquetas livres.
— Um Blue Lagoon, por favor — pedi, ao lembrar do drinque que a ruiva bebia, porque eu realmente havia ficado com vontade.
Tratei logo de me sentar naquele banco e me praguejei mentalmente porque eu não era a maior fã deles. Minha altura sempre fazia com que meus pés ficassem dançando e eu precisasse dar um pulinho sempre que quisesse me levantar.
— Aqui está, senhorita. — Ouvi a voz do bartender e voltei meu olhar para ele, estendi uma nota de vinte dólares e sorri de canto quando percebi que me analisava.
Aquele ali era um rostinho novo no pub, e um bastante atraente, na minha opinião.
— Muito obrigada, querido — respondi, quando ele me devolveu o troco, e levei o canudo da bebida aos meus lábios. Provei um gole da bebida e ergui uma sobrancelha, porque ele continuou a me encarar como se esperasse meu veredicto. — Uma delícia — elogiei e lancei um olhar que demonstrava que eu não falava apenas do drinque.
— Que bom que gostou. Se precisar de mais algo, estou à disposição. — Bebi mais um gole do líquido azul, então sorri enviesado mais uma vez.
— Olha que vou te chamar mesmo — provoquei e o vi retribuir meu gesto.
— Estarei aguardando. — Piscou em minha direção, então acabou dando um pequeno pulo de susto quando um outro cliente gritou por sua atenção.
Se eu tinha adorado a ideia de me divertir com aquele bartender gostoso? Com toda certeza eu tinha. Um rostinho perfeito como o dele merecia um lugar especial.
Ri baixinho ao sentir a malícia escorrer de meus pensamentos, então agradeci o fato de poder girar na banqueta, assim eu conseguiria ficar de costas para o bar e de frente para o palco, onde, dali a alguns instantes, um artista local começaria a tocar.
Não fazia ideia de quem se apresentaria naquela noite, porém o dono do pub possuía um bom gosto musical, então tinha certeza de que gostaria de quem quer que fosse.
Eu só não imaginava que fosse gostar tanto.
O primeiro a me chamar a atenção foi o baterista, que tinha uns braços fortes e uma expressão sacana de quem poderia despir quem quisesse apenas com o olhar. Confesso que estes eram meus favoritos, porque eles escondiam muito mais do que se imaginava por trás de suas baterias.
Os acordes de Mr. Brightside começaram a tomar conta do ambiente, o que atraiu meu olhar para o guitarrista, porém este eu achei comum demais, e, por mais que amasse aquela música, ela já havia tocado tantas vezes por tantas outras bandas que eu ficava, de certa forma, entediada.
Eu teria então seguido meu olhar para o baixista, em quem eu faria mais uma de minhas análises, mas a voz rouca e gostosa me fez imediatamente olhar para o vocalista.
E querer exigir dele que me comprasse uma calcinha nova, porque a primeira frase que ele cantou já havia me feito chorar por um lugar bem diferente dos meus olhos.
Achava que não era possível um homem ser tão bonito, mas aquele vocalista superava todas as minhas expectativas.
Senti que minha boca de repente ficou seca e tratei de beber longos goles do meu drinque. Meus olhos ficaram vidrados nele, e eu nem queria encarar qualquer coisa que não fosse aquela performance. O jeito que ele cantava era tão sedutor, e eu não me admirei nem um pouco ao me sentir inquieta a ponto de até cruzar minhas pernas e as apertar uma na outra.
Fazia tempo que um homem não me deixava daquela forma.
Finalizei meu drinque e, quando desviei minha atenção para o bar, a fim de pedir um refil, dei de cara com o bartender de antes, que parecia realmente estar ali de prontidão para mim.
Se nada desse certo com o vocalista, ainda tinha aquele gostoso.
— Vou querer mais um e o seu nome também. — Retribuí a piscadela que ele havia me lançado antes.
— Kevin Summers. E esse aqui é por conta da casa — o rapaz disse, assim que me entregou a bebida novamente.
— Oh, muito obrigada, Kevin. É um prazer te conhecer. — Então voltei a me virar para o palco e ri comigo mesma quando o escutei murmurar que não eu havia lhe dito o meu nome.
Quem sabe uma outra hora, já que meu alvo ainda era aquele que não havia se contentado em cantar The Killers. Com toda a certeza minhas pernas coçaram ainda mais quando ele começou a entoar a letra de Sweather Weather, do The Neighbourhood.
Aquilo já era um golpe baixíssimo.
Me perdi mais uma vez nas feições daquele homem. O jeito que ele segurava o microfone me fez desejar muito ser aquele objeto.
E até o final da apresentação da banda eu permaneci ali, sem conseguir prestar atenção em qualquer coisa ao meu redor que não fosse o bendito vocalista.
Meu subconsciente até registrou alguns caras que vinham e tentavam puxar papo. Deixei um ou outro me pagar bebidas, mas eles podiam me dar barras de ouro e mesmo assim não ia rolar. Nada faria com que eu trocasse meu objetivo.
— Foi um prazer estar aqui com vocês essa noite. Nós somos a banda Side Effects e esperamos voltar aqui mais vezes. Boa noite a todos! — ele se despediu, e a chance de fazer com que me notasse aconteceria assim que descesse do palco.
Só que, para a minha completa frustração, ele não foi curtir o restante da noite no pub, como a maioria das bandas do primeiro horário faziam.
Eu vi o momento exato em que ele se despediu de seus colegas de banda e foi embora do local.
Revirei meus olhos e, de repente, eu não queria nem mais o estepe que seria o bartender. Estava irritada e intrigada.
Qual motivo ele teria para ir embora daquele jeito?


Continua...


Nota da autora: Finalmente cheguei com uma atualização dessa fic. Confesso que tô adorando desenvolver essa personagem. Espero que gostem! ♥
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥
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