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Revisada por Nyx 🌙

Finalizada em: 20/07/2025

Belo Horizonte, Outono de 2017

Meus olhos não acreditavam no que liam, tanto que meu corpo permaneceu estático, dando-me alguns minutos para assimilar a informação diante de mim. No quadro de avisos estava a tão esperada lista dos alunos convocados para o Campeonato Brasileiro de Interclubes. E o que mais me chocou foi o fato de que…

Meu nome não estava lá.

— Amiga?! — Ingrid se colocou ao meu lado, certamente percebendo minha paralisia momentânea — Está tudo bem?
— Não, não está — em um sussurro lhe respondi.

Logo uma risada sinuosa soou atrás de nós.

— Está em choque por não ter sido convocada, ? — a voz de era inconfundível para mim.
— Não mais do que você, ao ver que seu nome também não está na lista. — voltei meu olhar confiante para ele.

Logo o sorriso de canto de se desfez, assim que seu olhar passou pelos nomes no quadro de aviso. Pude perceber que estava tão revoltado quanto eu.

— O que eles acham que estão fazendo? — indagou ele, como se eu soubesse da resposta — Isso não pode ficar assim.

Ele deu impulso para se retirar.

— O que está pensando em fazer? — perguntei, sabendo que seja lá o que fosse, não iria funcionar.
— Preciso de uma explicação dessa palhaçada. — respondeu ele, em seu habitual tom rude — Você ser cortada eu não me importo, mas eu sou o melhor tenista daqui.
— O melhor depois de mim. — o corrigi.

Ele soltou uma gargalhada, me ignorando totalmente e se afastando para ir até a sala do treinador. Claro que eu também não deixaria por menos.

— Amiga, o que vai fazer? — indagou Ingrid, ao me segurar pelo braço, quando me afastei para segui-lo.
— Eu também não vou deixar por isso. — assegurei a ela, me soltando com gentileza — Preciso saber o motivo do meu nome não estar naquela lista.

Ingrid arregalou os olhos impressionada com minha reação.

A deixei em sua paralisia e segui também para sala do treinador, já construindo os mais lógicos argumentos sobre os motivos em que eu deveria ter sido convocada. Ao chegar, Naiara, sua assistente, já se encontrava explicando algo para , que pelo olhar parecia não acreditar. Quanto mais me aproximava, mais conseguia escutar a conversa.

— Senhor Monteiro, neste momento não há nada que eu possa fazer quanto a este assunto, esta foi a lista repassada pelo treinador e aprovada pela diretoria do Minas Tênis Clube. — explicou ela, num tom brando, parecendo reunir sua paciência diante da situação.
— Senhorita, eu não estou lhe indagando nada, apenas quero falar com o treinador. — continuou ele, relutante em desistir.
— Entendo, mas esta foi a orientação do treinador Silva, caso viessem falar com ele. — informou ela.

Então tudo já estava premeditado.

— E o treinador não está no clube hoje? — indaguei, adentrando a conversa.
— Não, o treinador viajou para São Paulo e só retorna na próxima semana, enquanto isso, aconselho a ambos continuarem suas atividades normalmente.

bufou, visivelmente tão revoltado quanto eu, diante daquela situação.

Havíamos treinado tanto ao longo do último ano, participado de todos os torneios propostos pelo treinador, e ganhado todos. Era um fato que ambos competimos um com o outro, para ver quem era o melhor tenista da nossa geração. Divertido e estimulador ao nosso ver, e de bônus, nossas famílias se orgulhavam das nossas conquistas. E agora, saber que nenhum de nós havia sido convocado para a competição mais importante do país que nos daria a chance de disputar o Torneio Mundial, era inacreditável.

— Diga ao diretor que ele ainda nos deve uma explicação. — finalizou , a conversa, se retirando da nossa presença.

Nos deve.

Incrível pensar que ele havia me incluído em suas palavras. Naiara voltou seu olhar para mim, ela certamente sabia a gravidade da situação.

— Você realmente não pode nos ajudar? — perguntei a ela, deixando minha voz mais branda e gentil.
— Infelizmente não, senhorita Vilela, o treinador Silva deixou claro que esta é a lista oficial, e não será alterada. — confirmou ela, com seriedade.

Eu soltei um suspiro fraco.

E dando um sorriso forçado, me afastei dela, retornando para a Quadra A, onde seguiria com meu treino diário. Assim que cheguei, visualizei sentado na arquibancada do outro lado conversando com os rapazes do time masculino. Tínhamos nossa rivalidade dentro e fora das quadras, porém, compartilhávamos do mesmo grupo de amigos, sempre estando nos mesmos ambientes.

O tênis não era a única coisa que tínhamos em comum.

Apesar de frequentarmos os mesmos lugares, , ao contrário de mim, não nasceu em berço de ouro. E por incrível que pareça, nossos pais eram amigos de longa data, contudo, sua família trabalhava para minha há gerações. Seu pai, o nosso motorista/zelador e sua mãe, a melhor cozinheira do mundo, na minha humilde opinião. Ser o filho dos empregados nunca lhe incomodou, pelo contrário, ele sempre teve orgulho de quem era e de onde veio. Não abaixava a cabeça para nenhum insulto de terceiros, ainda que tivesse uma origem humilde, nem escondia sua realidade familiar.

E isso era o que mais admirava nele.

Acho que era a única coisa que admirava.

Nascemos com dois meses de diferença, crescemos juntos e descobrimos o amor pelo tênis juntos. Com o apoio do meu pai, teve a oportunidade de participar do clube de tênis desde pequeno, ambos sendo treinados desde os cinco anos de idade pelo treinador Silva, no Minas Tênis Clube, e seu empenho no esporte foi o gatilho para que eu me empenhasse também.

Não pelo pensamento de nunca perder para o filho da empregada.

Pelo contrário.

Ele não tendo uma realidade fácil, mesmo com as adversidades e preconceitos por ter família humilde, não se deixava abater e se esforçava a cada dia. Por que eu, que tinha tudo fácil, iria me beneficiar da minha situação social e não me dedicar também?

Aprendi que ganhar por mérito próprio, tinha um sabor especial na vida.

— O que vocês vão fazer? — indagou Ingrid, ao se aproximar de mim, me despertando dos meus devaneios.
— Aparentemente, o treinador está viajando e só retorna na próxima semana. — expliquei a ela, demonstrando não haver nada a ser feito.
— Olha só quem foi barrada no baile. — a voz desprezível de Ellen soou atrás de mim.

Eu e Ingrid nos viramos e a encaramos.

— Finalmente você vai ter a chance de vencer pela primeira vez, não é? — retruquei o deboche, com sarcasmo.
— Acha mesmo que é melhor do que eu? — ela cruzou os braços, se fazendo de superior.
— Não acho, eu sou, e já provei isso no último campeonato. — respondi, prontamente.
— Aí, gente, somos todos amigos, foi só uma brincadeira. — disse Hana, com seu sorriso fofo de asiática brasileira, tentando apaziguar a situação.
— Garotas, por acaso não está na hora do treino de vocês? — surgiu ao nosso lado com os outros, um olhar sério e parcialmente frustrado — Se não vão usar a quadra, tem mais pessoas querendo.
— Eu não vou. — respondi dando impulso no meu corpo para me afastar — Façam bom proveito.
… — Ingrid veio atrás de mim.

Não me importando com quem treinaria ou não, um dia a menos não iria me deixar melhor ou pior como tenista. Entretanto, precisava cuidar do meu emocional abalado por não ter sido convocada, e ainda suportar as piadas que surgiriam nos dias seguintes.

E não seriam poucas.

-x-

— Querida, o que faz em casa essa hora? Não deveria estar no treino? O CBI está chegando. — o olhar de espanto de Celeste ao me ver foi visível.

Ela que estava cortando alguns legumes, parou e manteve seu olhar atento em mim. A tinha como uma segunda mãe, que sempre me aconselhou como tal. Além de nossa cozinheira, também nos ajudava a manter a organização da nossa casa, nos dias em que a diarista não ia. Nossa humilde propriedade se localizava no Lourdes, um bairro nobre de BH, projetada por um arquiteto conhecido na região por unir estilo clássico e minimalista em seus projetos. Dois conceitos extremamente divergentes, como eu e .

Além da casa principal que não era nada modesta no tamanho, havia uma pequena residência atrás no qual Celeste e sua família moravam. Eles tinham entrada independente com um corredor de arbustos que tinham a função de delimitar os espaços, entretanto, não era tão significativo para nós, pois meus pais sempre lhes deram a liberdade de transitar em todo o espaço do terreno.

Até mesmo quando davam pequenas festas em família.

E nada de recusarem utilizar a piscina. Ainda que trabalhassem para nossa família, fora do horário comercial, eles eram parte dela.

— Nosso nome não estava na lista. — respondi, num tom baixo.
— Quando diz… Nosso nome?! — ela tentou entender as entrelinhas.
— Meu e do , não fomos convocados e ninguém nos deu uma simples explicação. — esclareci minha fala.
— Oh… — ela deixou a faca e a batata em cima da bancada da pia e veio até mim com um sorriso singelo no rosto — Querida, não fique assim, às vezes algumas coisas não acontecem para dar espaço a outras oportunidades bem melhores.
— Eu sei, mas não me impede de ficar chateada. — argumentei.

Ela riu de leve e me abraçou com carinho.

— Agora supere esta frustração e continue se dedicando, vai que Deus quer te promover no tênis e você aí despreparada. — Celeste era uma mulher de muita fé, que sempre me motivava a ver o copo meio cheio.

Assenti com a cabeça e sorri de volta para ela.

— Estou com fome. — afirmei, rindo um pouco.
— Isso, eu já imaginava. Você e , quando retornam do treino, estão sempre com fome. — brincou ela, rindo também.
— É que sua comida é a melhor, então preferimos comer em casa. — expliquei a realidade.
— Sei. — ela riu mais um pouco, retornando para seus afazeres — E o ? Não quis voltar?
— Não sei, acho que ficou lá treinando. — respondi, observando-a.
— Meu filho… Quanto mais frustrado, mais dedicado. — comentou ela, por conhecê-lo bem.
— Isso me revolta, porque me dá gatilho para fazer o mesmo. — sussurrei, chateada.
— Não entendo essa competição entre vocês. — ela se manteve concentrada nas batatas — Ambos são incríveis jogando, possuem talento visível.
— Queremos ser os melhores. — expliquei.
— E não podem ser juntos? — indagou.
— A senhora não entende. — eu me levantei da cadeira — Vou tomar um banho e estudar um pouco, mesmo não indo para o campeonato, ainda tenho uma semana de provas para enfrentar na próxima segunda.
— Aproveite que ensino médio ainda é fácil, vai descobrir que na faculdade é pior. — expôs a realidade acadêmica.
— Nem me fale nisso, ainda tenho que fazer meu teste vocacional e começar a estudar para o Enem, no meio de toda essa loucura. — soltei um suspiro cansado — Nem acredito que vamos nos formar este ano.
— Vai fazer o Enem este ano? — ela me olhou, curiosa — Achei que iria se dedicar ao esporte.
— A culpa é do . — cruzei os braços, bufando — Cismou de falar para o meu pai que iria fazer graduação, assim poderia ter uma profissão estável ao se aposentar do tênis.
— E?! — ela não entendeu minha irritação.
— E agora meus pais querem que eu também tenha um diploma acadêmico como segunda opção de vida profissional. — contei o fato.

Peguei um pacote de biscoitos e sai da cozinha em minha indignação, segui para o quarto. No relógio ainda marcava cinco da tarde, meus pais só chegariam do hospital à noite, e eu teria muito tempo para estudar até o horário do jantar. Um banho relaxante para me fazer esquecer os problemas da vida quase adulta, roupas confortáveis no corpo, minhas pantufas nos pés e o livro de biologia na mão para iniciar minhas anotações no caderno. Um gostoso momento de silêncio e concentração, que me foi interrompido pela presença de uma certa pessoa.

E sim, eu consegui sentir a aproximação dele.

Tinha deixado a porta aberta, pois eram somente Celeste e eu em casa. Carlos, seu marido, estava na clínica com meus pais, ajudando a consertar não sei o quê, e , por hora, ainda no treino.

— Está tirando minha concentração. — disse, ao finalizar o que escrevia.
— Não consigo entender como sempre sabe quando estou aqui. — revelou.
— Não é tão silencioso quanto pensa. — respondi o óbvio.
— Como consegue estudar sem música? — indagou, notei sua aproximação.
— Como consegue estudar com música? — voltei meu olhar para ele.

Como uma pessoa conseguia se concentrar com todo aquele barulho que ele ouvia ao estudar?

— Somos mesmo um oposto do outro. — admitiu nossa realidade.
— O que faz em casa? Sempre volta após às sete. — voltei meu olhar para a tela do celular, verificando as horas.
— Minha mãe me ligou, pedindo para não chegar tarde. — explicou— Mas também não estava tão motivado a ficar.
— Imagino o motivo. — comentei, ao me levantar da cadeira e dar de cara com ele.

tinha um charme incomum.

Eu não admitia, claro. E sua sutil beleza chamava a atenção das garotas, lhes arrancando suspiros. Acho que esse era o ponto central de Ellen não gostar de mim, afinal, ela tinha uma queda enorme por ele, e deixava isso claro para todos do nosso meio. E pelo fato de morarmos relativamente juntos, nossos pais serem amigos, mesmo com nossas diferenças de classe social, nossas famílias eram super a favor de um relacionamento amoroso entre nós dois.

Algo que jamais ocorreria.

— Você está muito próximo. — senti minha voz quase falhar.
— Isso é um problema para você? — indagou, num tom provocativo.
— Não, mas pode ser um problema para sua namorada. — retruquei, demonstrando não estar nenhum pouco abalada por seu charme.

Ele sorriu de canto.

— Será que eu senti um sutil tom de ciúmes? — brincou ele.
— O quê? — eu o empurrei de leve, fazendo seu corpo cair sobre a cama.

No susto, me puxou junto, fazendo meu corpo cair sobre o dele.

Poderia dizer que era inegável a sensação de atração? Sim. E já tinha notado a frequência de momentos assim desde a minha festa de quinze anos, em que meu pai o chamou para dançar valsa comigo. Foi a deixa para todos os convidados começarem seus cochichos sobre ficarmos bem juntos, como formaríamos um casal bonito e influente no meio esportivo da cidade.

— Quem disse que tenho ciúmes de você? — mantive o tom baixo, o encarando.

Impressão minha ou seu corpo estava quente, além do normal?

— Seus olhos. — ele sorriu de canto.

Seu olhar profundo.

— Você precisa de óculos. — cortei sua provocação ao meio, dando impulso no meu corpo para me levantar.

Entretanto, ele me puxou de volta e rolou seu corpo para ficar por cima. Apoiando suas mãos na cama, para sustentar um curto espaço entre nós, continuou me encarando.

— O fato de ser a segunda melhor, não te impede de gostar de mim. Assuma isso. — retrucou.
— Segunda melhor? — eu o empurrei novamente.

Desta vez, por perder o equilíbrio, ele caiu ao chão.

Comecei a rir alto, e me sentando na cama, o encarei de volta.

— Desde quando você é melhor que eu? — indaguei.
— Na última contagem, estávamos de quanto mesmo? — ele me relembrou — 21 vitórias minhas e 20 suas?
— Estamos empatados. — o corrigi, com segurança de meus argumentos — Nossa primeira partida não conta, meu pai atrapalhou.
— Sei. — ele soltou uma risada debochada e se levantou do chão — Bons estudos pra você.

se virou para sair.

— Eu já tinha terminado. — relatei, me levantando — Não convidou sua namorada para o jantar?
— Mesmo que não admita o ciúme… — ele voltou seu olhar para mim — Ela não é minha namorada… prefiro garotas com quem eu possa competir, é mais divertido.

Sua piscada final me deixou estática por instantes.

Notei um sorriso tímido surgindo no meu rosto assim que ele saiu. Não acreditava no que meu corpo estava fazendo involuntariamente. Me espreguicei um pouco, sentindo minhas costas doerem, e logo ouvi o som do carro chegando. Os doutores Vilela de Cambridge retornavam de mais um plantão.

Eu poderia até seguir uma graduação, mas não seria medicina.

Peguei um cardigan de malha que tinha e o vesti por cima da roupa que estava, jogando o celular no bolso do short, desci para sala. Meus pais já estavam adentrando juntamente com Carlos.

— Filha! Já em casa. — disse minha mãe, ao sorri de leve para mim.

Notei que o estetoscópio ainda estava em seu pescoço.

— E a senhora ainda parece estar no hospital. — brinquei, apontando para o objeto.
— Ah… — ela riu e brincou de volta — Eu saio da medicina, mas a medicina não sai de mim.
— Por isso, estou pensando seriamente em prosseguir para a parte burocrática — comentou papai, rindo junto — Carlos, muito obrigado por nos ter ajudado hoje, vou encaminhar a nota de serviço para o administrativo para eles fazerem o pagamento.
— Humberto, já disse que não precisa, foi uma coisa tão boba de consertar. — disse ele, com seu jeito humilde.
— Não, senhor… você trabalhou honestamente, dispôs do seu tempo, nada mais justo em receber por isso. — retrucou papai — Não é você que vive dizendo que o trabalho dignifica o homem, e é um direito recebermos pelo que fazemos.
— Não está mais aqui quem recusou. — brincou ele, nos fazendo rir.
— Não sei os cavalheiros, mas eu preciso de um banho e ver se a Celeste precisa de ajuda com o jantar. — disse minha mãe, seguindo para as escadas.
— Não preciso, não. — gritou Celeste, já aparecendo na porta em seguida — Na minha cozinha ninguém mexe… Além do mais, temos dois jovenzinhos em casa para os trabalhos pesados.

Trabalho pesado significava que a louça suja era por nossa conta.

Minha e do .

— Muito bem colocado. — minha mãe piscou de leve para ela, e seguiu rindo pelos degraus da escada.
— Estou chocada, vocês agem como se a gente não ficasse cansado também. — reclamei do motim contra os filhos.
— Querida, não é à toa que o Senhor disse, jovens eu vos escrevi porque sois fortes. — retrucou Celeste — Agora trate de pegar sua força e ajudar o a colocar os pratos na mesa.

Eu respirei fundo e bati continência para ela, com papai e seu Carlos rindo de mim.

Ao chegar na cozinha, encostei na parede e cruzei os braços observando o outro jovem da casa, com seus fones no ouvido, pegando os pratos no armário. Era uma tradição nossa nos reunirmos à mesa pelo menos para o jantar, as duas famílias juntas sem preconceitos e sem essa coisa de classes diferentes. Já que ao longo do dia, cada um tinha seu horário específico de refeição.

E quanto à compra alimentícia do mês?

Para não ter nenhum problema quanto ao orgulho de cada um, os quatro adultos se reuniam em uma mesa redonda e dividiam as despesas em partes iguais. O mais louco é que sempre dava certo, duas famílias de três pessoas com praticamente a mesma rotina, ninguém saía no prejuízo.

-x-

! — a voz de Ingrid soou pelo corredor central do Minas Tênis Clube.

Eu apenas acenei de leve para ela, mantendo meu olhar naquele quadro de avisos que me frustrou na semana anterior. Ainda não me conformava com a situação, e mesmo meus pais dando todo apoio e motivação em continuar me dedicando como se nada tivesse acontecido e ignorar essas barreiras no caminho.

Seria difícil diante de tamanho confronto.

— Esse aceno é de alguém não muito animada. — comentou minha amiga.
— Não estou mesmo. — admiti sem esforço.

Voltei-me para ela, e desviei meu olhar para que vinha em nossa direção. Me lembro de não o ter visto após nossa prova de geometria analítica, resolvi almoçar no colégio e somente ir para o treino após entregar os livros que peguei na biblioteca.

— O treinador quer falar conosco. — disse ele passando por mim, e continuando em seus passos despreocupados — Agora!

Eu detestava aquele seu jeito de agir.

— Nos falamos depois, Ingrid. — disse a ela, me apressando em segui-lo.

Bufei um pouco pelo caminho.

— Bom dia para você também, Alecrim Dourado. — disse num tom irônico, o chamando pelo apelido que sempre lhe dava em provocação.
— Bom dia, Bela Adormecida. — retrucou, no meu ponto fraco.

Admito, era mesmo dorminhoca.

Outro ponto em que demonstrava que estávamos em polos diferentes. Eu sempre me sentia sonolenta ao longo do dia, e superativa à noite, dormia tarde com frequência e corria na manhã seguinte para não chegar atrasada. O que eu tinha de desorganizada em minha vida, ele tinha de disciplina. Sempre acordava bem cedo para fazer exercícios físicos, e passava o dia bem-disposto a qualquer atividade, seu quarto era impecável de causar inveja.

Chocante a realidade.

— Conseguiu fazer a prova? — indagou.
— Claro que sim, prevejo um 9,5 no mínimo. — respondi prontamente.

Algo positivo?

Eu sempre tive um impressionante senso de planejamento quando o assunto era estudos, digno de uma nerd convicta. E mesmo que meu quarto fosse relativamente bagunçado, minha estante de livros, minha bancada de estudos e meu notebook eram minha parte organizada.

— E o que respondeu na questão 10? — continuou ele.
— Está com medo de tirar zero? — retruquei.
— Nós dois sabemos que você não respondeu. — ele riu de canto.
— Então por que pergunta? — o olhei, embasbacada — Você estava colando de mim?
— E eu lá preciso disso? — ele riu mais, como se eu fosse uma ingênua por dizer isso — A resposta era cinco, e eu vou fechar a prova.

Ele apertou o passo para seguir na frente.

— Como conseguiu achar essa resposta? — tentei acompanhar seu ritmo.

Não conseguia acreditar. Aquela conta era impossível.

— Aqui estão vocês. — disse Naiara, assim que nos avistou — O treinador os aguarda lá dentro.

Ela apontou para sala.

Nós assentimos e entramos. Para nossa surpresa, nossos pais estavam presentes, assim como um senhor de cabelos grisalhos que nunca tínhamos visto antes. Eu e nos olhamos confusos com o cenário diante de nós, depois olhamos o treinador.

— Que bom que chegaram. Naiara, pode se retirar e feche a porta, não quero ser interrompido.
— Sim, senhor. — ela assentiu e se retirou.
— Meus jovens, quero que conheçam o senhor Adriano Lobato, diretor comercial da Nexus Têxtil. — apresentou o treinador.
— É um prazer conhecer os dois jovens tenistas mais promissores do nosso país. — disse o senhor, esticando sua mão em cumprimento.

Nós dois, por educação, retribuímos o aperto de mão, com olhares curiosos pelo assunto que nos trouxe ali.

— Fizemos algo de errado? — indaguei, forçando a revelarem o motivo de estarmos ali, sem rodeios.
— Claro que não, filha. — respondeu minha mãe, com o olhar orgulhoso.
— Então qual o motivo de estarmos todos aqui? — foi mais objetivo que eu.
— A Nexus Têxtil está sob nova liderança atualmente, e estamos iniciando o projeto de lançamento da nossa marca de roupas esportivas. — iniciou o senhor Lobato, o assunto — E dentre vários jovens esportistas do país, ambos foram escolhidos por nossa CEO Paolla Montenegro, para serem os rostos de nossa marca.
— Em outras palavras. — o treinador se pronunciou — Eles apresentaram a proposta de serem seus patrocinadores, em troca, assinarão um contrato de exclusividade com a marca pelos próximos três anos.
— E o que mais teremos que fazer? — indagou , certamente pressentindo que teria uma vírgula a mais nessa proposta.
— Vocês terão que disputar o CBI juntos, na categoria de dupla mista, essa participação de vocês no torneio seria o ponto de partida para o lançamento da marca. — revelou o treinador, o ponto x da questão que nos corroeu desde a semana passada — Por isso o nome de ambos não está na lista dos convocados.

Um minuto de silêncio para absorvermos suas palavras.

— O quê?! — dissemos eu e , em coral.
— Não é impressionante? — Celeste se pronunciou com os olhos brilhando — Eu sempre disse que ambos deveriam jogar juntos.

Sim, ela e minha mãe sempre diziam mesmo.

— Não podemos jogar juntos. — disse , em recusa.
— Detesto concordar com ele, mas concordo. — reforcei.
— E por quê? — meu pai lançou um olhar repreensivo para nós dois — Por causa da competição estranha entre os dois?
— E ainda pergunta? — a voz do seu Carlos também transmitia desapontamento por nossa reação.

Eu balancei a cabeça de forma positiva e óbvia.

— Eu não gosto de fazer chantagens com meus atletas, mas não me deixam escolha. — o treinador se pronunciou — Ou vocês aceitam jogar juntos, ou não deixarei que participem de nenhuma outra competição.
— Mas, treinador… — eu tentei argumentar, porém segurou em meu pulso para que me calasse.
— É a única forma de irmos para o Mundial? — questionou, mencionando nosso objetivo nas quadras.
— Sim. — respondeu o treinador, como uma palavra final.
— Então, acho melhor prepararem nossas passagens, pois vamos ganhar o CBI. — afirmou com segurança.

Sem que eu tivesse a chance de reagir a tudo, ele me puxou para sairmos da sala, guiando-me em direção a porta. Apenas me deixei ser levada, não tendo o menor esforço de contrariá-lo. Eu já tinha visto o lado oculto de , e de como ele ficava irritado quando alguém tentava lhe manipular com chantagens ou algo do tipo.

— O que deu em você lá dentro? — disse assim que saímos, ao finalmente conseguir me soltar dele.
— Apenas respondi o que eles queriam ouvir. — respondeu ele, com seu tom rude.

Estava até calmo demais.

— Não foi premeditado a nossa resposta? — continuou, como se não tivesse feito nada errado.
— Mas precisava agir assim? — retruquei — O que vai acontecer agora?
— Não é óbvio? Vamos treinar. — ele deu impulso e saiu na frente.
! Espera. — eu segurei em seu braço o parando — Dá pra parar de agir assim?
— Como quer que eu aja? — ele me olhou com frieza, então suavizou seu rosto, ao perceber que eu também estava chateada — Pelo menos a minha dupla consegue me acompanhar.

Seu comentário me fez rir.

— Seu bobo. — bati no seu ombro — Suas mudanças de humor acabam comigo.
— Eu falei alguma mentira? — seu olhar ficou mais profundo.

Aquilo me constrangia.

— Pelo menos podemos ver quem faz mais pontos contra o adversário. — desviei o clima, instigando nossa famigerada competição interna.
— Desde que você não me atrapalhe. — ele soltou uma risada boba e voltou a andar.
— Ah tá, quem foi mesmo que disse há segundos atrás… pelo menos minha dupla consegue me acompanhar. — o confrontei com suas palavras, o acompanhando — Acho melhor você, não me atrapalhar.

Ele soltou outra gargalhada.

Seguimos para quadra B, por ser mais apropriada para treinos em dupla. Assim que nosso grupo de amigos soube da novidade, todos ficaram chocados e eufóricos, exceto quem eu esperava.

— Então, quem se habilita a treinar conosco? — perguntei, assim que os ânimos se acalmaram — Vamos precisar da ajuda de vocês.
— Eu e o Igor podemos ser os primeiros? — pediu Ingrid, animadíssima com a ideia.
— Claro. — assenti, me empolgando também.
— Vamos ver quem faz mais pontos? — instigou , ao pegar sua raquete.
— O perdedor lava a louça sozinho por uma semana. — propus, certa da minha vitória.
— Fechado. — disse ele, dando uma piscada final.

Ao final…

Não fomos barrados no baile, pelo contrário, éramos convidados de honra!

Porque nada disso é coincidência
Nós somos completamente diferentes, querida
Porque nós encontramos o nosso destino.
- DNA / BTS

Vida: Esteja sempre preparado para novos desafios, e divirta-se!” - Pâms



Fim.


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!

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