Bogotá, Colombia 2024
Depois de muitos abraços, beijos e comentários do meu pai sobre as minhas finanças. Estávamos todos de volta para o apartamento de Sofia e Pedro. Minha cunhada e melhor amiga desde sempre estava muito ansiosa e nervosa com esse almoço, tentei acalmá-la e dizer que eram só os meus pais, os mesmos que ela conhece desde que éramos adolescentes, mas ela não tinha me dado muita atenção, pois segundo suas regras mentais era importante saber servir um bom almoço para os pais do seu futuro marido.
— Está tudo perfeito. — Disse mais cedo para ela enquanto ela ajeitava as almofadas no sofá que ninguém iria usar. — São só meus pais. Eles já te viram com franjas pavorosas e camisetas de bandas questionáveis e mesmo assim eles te amam.
— Mas agora eu sou a noiva. — Ela resmungou.
A mesa estava perfeitamente posta com mais talheres do que eu sabia ou lembrava de como usar depois das aulas de etiqueta que minha mãe me obrigou a fazer. O cheiro de comida estava delicioso e eu apostava que dessa vez minha amiga tinha mesclado culinárias diferentes e eu gostava disso, o cheiro de alecrim e tempero doce deixava o apartamento com cara de lar. Quando estávamos todos sentados à mesa, senti minha amiga relaxar finalmente.
— Tudo está muito bonito, Sofia. — Minha mãe comentou enquanto passava os dedos pela toalha de mesa. — Fico feliz que não comem mais comidas congeladas igual quando eram mais novos.
— Que exagero, mãe. — Pedro exclama. — Às vezes nós comíamos pizza também. — Ele pisca e apoia a carne assada que Sofia tinha preparado com a ajuda dele.
As risadas se espalham pelo ambiente.
O clima estava leve e mais saudável do que eu esperava. Minha mãe contando sobre sua recém vida de aposentada, sobre aulas de cerâmica que agora fazia e que levava meu pai a tiracolo só para vê-lo ter um hobbie diferente do futebol e pescaria. Meu pai, por outro lado, parecia mais interessado em apreciar a carne assada e o arroz de coco do que contrariar qualquer comentário da minha mãe. Inteligente da parte dele, sabedoria que tinha acumulado com o tempo.
— Ainda acho que deveria dormir no hotel conosco, filha. — Minha mãe diz. — Não devia atrapalhar seu irmão e Sofia.
— Eu pedi que ela ficasse aqui. — Sofia intervém. — É mais fácil ter minha madrinha por perto, e assim eu consigo acordar a cedo para a prova de vestidos amanhã.
— Vocês não se desgrudam, né?
Minha mãe diz com o mesmo tom que dizia quando tínhamos 16 anos e Sofia praticamente morava lá em casa.
— É que a gente se completa. — Sofia disse com o sorriso aberto no rosto. — Se equilibra e se arrasta para o buraco também.
Todos riram, até meu pai que estava mais preocupado com a comida.
— Lembram daquela vez que fugiram para ir a um Festival? — Minha mãe lembrou e arqueou uma sobrancelha. — Fingiram que estavam fazendo um trabalho de geografia e no meio da noite seu pai e eu precisamos ir buscar as bonitas que estavam com camiseta do festival e glitter na cara.
— Eu não usei glitter. — Me defendi, rindo.
— Mas eu usei. — Sofia disse como se fosse motivo de orgulho. — O castigo depois do festival foi horrível, mas valeu a cada minuto.
Pedro balançou a cabeça como se julgasse silenciosamente uma das poucas rebeldias que me permiti quando era mais nova.
— e eu passamos metade do festival tentando encontrar vocês duas. E no fim encontramos você e a Sofia metidas numa confusão com dois caras bêbados.
— Ele empurrou uma menina pequena. — Digo como se fosse óbvio. — E nem foi nada demais.
— Você gritava com eles, praticamente subiu em cima de um caixote para continuar discursando sobre respeito. Sorte o ter conseguido te puxar de lá antes de dar mais confusão.
— Ai que exagero, Pedro. — Revirei os olhos enquanto meus pais me encaravam com ar de julgamento.
— Sempre pacífica. — Sofia me abraçou de lado.
Minha mãe balançou a cabeça meio resignada com aquela pequena confusão divertida. Ela continuou a servir seu suco.
— E o , aliás? Como ele está? Faz tempo que não o vejo. Ele sempre foi tão educado, inteligente, bonito…
— Mãe… — Eu digo revirando os olhos sem deixar ela terminar a frase.
mais novo era a paixão de muitas mães, professores e qualquer adulto. Talvez fosse a sequência de notas boas na escola, a articulação para falar com adultos ou só sabia fingir bem mesmo.
— O quê? Não posso dizer nada? — Ela deu um gole em seu suco fingindo um olhar inocente. — Sempre achei que vocês combinavam…
Meu pai, que até então estava em silêncio, franziu o cenho um pouco confuso.
— O menino que estudava com vocês?
— Ele mesmo. — Pedro disse. — Agora ele está bem famoso, toca em uma das maiores bandas da América Latina.
Meu pai continuou com o rosto franzido.
— Sério?
Pedro pegou o celular e digitou o nome da banda e virou para o meu pai a versão de uma música ao vivo. O show era no México e talvez eu tenha visto aquela versão vezes demais para lembrar. com a guitarra em punho, as luzes piscando e ele perto do microfone, com os olhos fechados ele cantava sobre fingir amizade em público e entregar a vida inteira quando ninguém estiver olhando. Lindo. Os cabelos estavam um pouco bagunçados e o sotaque mais aparente.
— Ele parece ser bom.
Foi tudo o que meu pai disse. Para ele era um grande elogio. Era o seu jeito de dizer que o menino que passava as tardes na nossa casa era bom.
— Acho que hoje em dia é quase impossível sair com ele na rua sem que ele seja reconhecido. — Sofia diz. — Mas, mesmo assim, a vai sair com ele de novo hoje.
Repreendo minha amiga com um olhar que ela não liga, pois parece se divertir com a esperança da minha mãe.
— Só estou ajudando a escolher a banda do casamento. — Corrigi rapidamente.
Ninguém parece acreditar muito em mim. Era uma batalha perdida e não valia a pena. Então só não disse mais nada comprometedor e deixei que a conversa tomasse outro rumo. E foi rápido, logo Sofia começou a falar dos detalhes do casamento e minha mãe se viu bem envolvida querendo ajudar.
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Não sabia que sentia falta das noites de Bogotá até poder vivê-las de novo, agora com idade suficiente para beber e entrar em bares depois das oito da noite sem precisar mentir para minha mãe ou pedir favores para funcionários do lugar. A cidade parecia outra, mas ao mesmo tempo parecia a mesma com o cheiro de comida, os sons, o trânsito terrível e as pessoas que traziam vida e cor.
Pela segunda noite consecutiva eu estava arrumada, dessa vez com uma saia midi com um tecido leve, uma camiseta branca com a cara do David Bowie estampado em um azul desbotado e um vans preto de sempre. Ainda me sentia nervosa, mesmo sabendo racionalmente que não tinha motivo, mas uma partezinha adolescente, aquela que tinha espinhas e que acreditava no amor dava gritinhos e chutava o ar só por saber que sairia com , de novo.
Claro que estamos aqui para uma missão prática de escolher a banda do casamento dentre uma lista longa dada por Sofia e Pedro. Mas tecnicamente eu não precisava estar lá. Ele poderia ir sozinho. Ou levar alguns de seus amigos ou até companheiros de banda, todas essas opções fariam mais sentido. E talvez, só talvez o convite dele me deixasse mais elétrica por saber que mesmo não sendo a melhor opção, ele tinha me chamado. Me escolhido para estar ali.
Saio do apartamento de Sofia e Pedro sem que ninguém perceba, não quero dar muitas explicações. Meu irmão e minha cunhada estavam imersos em planilhas de casamento então nem notaram minha presença.
Espero alguns minutos e chega para me buscar, até ver o carro dele estacionado. A cena é familiar e ao mesmo tempo estranha, minha independência não espera que ele saia do carro para abrir a porta do carro pra mim e eu entro.
No rádio toca "You Making Love Fun" de Fleetwood Mac do álbum que ele me apresentou na adolescência e que ouvi quase até a exaustão depois do que eu achava ser uma desilusão amorosa gigantesca.
— Faz tanto tempo que não escuto essa música. — comento nostalgica, rindo enquanto puxo o cinto de segurança..
— Eu escuto mais do que é considerado saudável esse álbum. — Ele diz ligando o carro e entrando em uma avenida iluminada e movimentada.
— Não é um álbum de término? — Pergunto arqueando minha sobrancelha mesmo que ele não estivesse me olhando.
não fala nada, mas vejo um sorriso de canto surgir como se lembrasse de quando me apresentou esse álbum e contou toda a história dele e ouvimos as melodias experimentais, as guitarras melódicas e as histórias que se desenrolavam de forma honesta em cada uma das músicas.
— É mais sobre a experiência humana. — Ele diz de um jeito dramático eu dou uma risada baixa que o faz continuar. — Mas sim, é um bom álbum de término, mas em minha defesa é atemporal, com uma boa guitarra.
— Com uma boa guitarra. — Repito sorrindo de lado.
Olho pra ele que dirige com alguma atenção pelas ruas movimentadas de Bogotá com as fachadas antigas, as cores e o reflexo dos faróis. está muito bonito. Jeans escuro que parecia bem ajustado, uma camiseta de uma banda que eu não sabia muito bem qual era, jaqueta azul e um relógio antigo no pulso. Parecia simples, mas ao mesmo tempo fazia todo o sentido nele e o deixava ainda mais atraente, ele usava óculos que não faziam parte do estilo de rockstar, mas o deixava mais acessível do que o cara em cima do palco, mais parecido com o menino que eu conhecia e com quem eu conversava sobre músicas e livros.
— Preciso confessar que já ouvi a banda de hoje. — Ele diz sem olhar pra mim, mas no mesmo tom casual que sempre usa.
O analiso por alguns segundos e ele se vira para mim quando para no semáforo. Aqueles olhos verdes me encaram como se esperassem alguma resposta.
— E precisa da minha opinião para saber se a banda é boa ou não?
— Claro que sim. Preciso da sua sinceridade e além disso, você sabe bem mais sobre os gostos da Sofia do que eu.
— Se já ouviu a banda e vai ver de novo, acho que é um bom sinal, não é? Quer dizer, eles ganharam uma segunda chance…
— Sim, eles são bons, melódicos e com bons vocais e tocam instrumentos de verdade, não parecem genéricos, sabe?
O sinal fica verde e ele volta a dirigir. Com uma mão no volante e a outra no câmbio. Havia algo sexy no movimento e me sinto idiota por reparar nisso.
— Então colocamos eles na lista final junto com… nenhuma outra banda que até agora foi boa o suficiente. — Digo percebendo que já estamos próximos.
estaciona o carro em uma rua movimentada, cheia de letreiros luminosos e coloridos piscando em movimentos descoordenados. Há pessoas por todo lado, mas mesmo assim parece íntimo demais. Dessa vez, ele abre a porta do carro para mim e sorri apoiando a mão esquerda na minha cintura por uma fração de segundos como quem testa limites enquanto caminhamos para o bar de sempre.
O ambiente pequeno e aconchegante, com discos famosos expostos na parede ainda estava vazio. As mesas de madeira rústica eram um diferencial que mesclava simplicidade e charme ao mesmo tempo. A luz baixa, meio âmbar deixa o ambiente com um filtro mais antigo como se tivesse parado no tempo e eu amo isso.
Antes de sentarmos, pede duas cervejas para o garçom que parecia cansado e seguimos para a mesa de sempre, no canto do palco, discreta, mas que dá visão para todo o espaço.
— Como é a vida de superestrela da música? — Pergunto passando os dedos pelo copo gelado assim que a cerveja chega à mesa.
— O que exatamente quer saber?
Ele me olha por um instante enquanto pondero sobre as perguntas que quero fazer.
— Você sempre sonhou com isso, eu lembro das nossas conversas alguns anos atrás quando a banda surgiu e nem nome direito tinha ainda, eu nunca vi alguém acreditar tanto que algo iria dar certo, e olha só, deu muito certo. — Pauso com um sorriso no rosto e uma pontada de orgulho — Como é realizar o seu sonho?
demora para responder. E eu sei que ele busca uma resposta honesta e não ensaiada.
— Às vezes é exatamente como eu imaginava, compor, criar, fazer shows para pessoas que estão ali só pela banda e que sabem todas as músicas. Outras vezes é cansaço, horas intermináveis em aeroportos, poucas horas de sono e solidão.
Viver o sonho nem sempre tem só partes boas, na maioria das vezes as partes boas só fazem a gente seguir em frente.
— E ser reconhecido nos lugares faz parte do processo?
Inclino a cabeça apontando para um grupo de meninas que não param de olhar em nossa direção. Ele imita meu gesto com uma expressão dramática olhando de soslaio o grupo de meninas.
— Não, isso só acontece quando você é o mais bonito da banda. — diz recostando na cadeira como se aquilo acontecesse muitas vezes. — Mas entre nós, metade das vezes que me reconhecem me confundem com algum outro integrante da banda.
Dou uma risada já acostumada com esse jeito depreciativo dele quando falava de si mesmo.
— Bom, pelo menos podemos dizer que você é o segundo integrante mais simpático da banda. — Devolvo com um sorriso espertinho no rosto.
Ele me analisa e então responde.
— Segundo, ?
— É, o Nico me mandou o primeiro disco autografado assim que saiu, então…
Ele se inclina para mim, meu estômago fica gelado no mesmo instante, tem um ar brincalhão em seus olhos.
— Eu te mostrei a música que cantamos com a Paulina Rubio e você foi a primeira pessoa a ouvir e…
— Espera, sério? — O interrompo um pouco surpresa.
Lembro de ter ouvido a música quando ele apareceu no meu quarto depois de um ensaio com a banda-ainda-sem-nome. Era uma tarde de domingo, estava focada em fazer os exercícios de matemática e ele surgiu com um violão nos braços querendo me mostrar sua nova composição. Ele parecia feliz e diferente das outras vezes a letra parecia promissora, falava sobre o vício de um amor com um desejo incontrolável.
— Sério. A gente falava sobre música o tempo todo e sua opinião era importante pra mim. — Ele dá de ombros.
Sinto minhas bochechas esquentarem e não é só por causa da cerveja. É o jeito que ele fala comigo, é o jeito que ele me olha. Ele sorri para mim com aquele charme irresistível e uma pontinha de diversão ao analisar a minha feição e ele me olha mais do que o normal, e pode parecer clichê ou o tipo de cena que eu gostaria de recriar num dos livros que escrevo, mas faz sentido. aponta com o queixo em direção ao palco e eu vejo os músicos começarem a se ajeitar para começar o show.
— Pronta para julgar a banda que pode ou não arruinar o casamento da sua melhor amiga?
— Pronta para escutar a banda da segunda chance.
A vocalista sobe no palco com uma presença flutuante quase etérea, o vestido solto branco parecia ter saído de um editorial dos anos 80 e os cabelos loiros ficam bem bonitos na luz âmbar do bar. Mas é quando ela começa a cantar que o ambiente parece se transformar, a voz rouca e cheia de textura é forte e contrasta perfeitamente com o seu rosto doce.
— A voz dela tem um quê de Shakira dos anos 90. — Ele diz perto do meu ouvido e um arrepio sobe pelo meu corpo.
— Ela canta bem, parece honesta e real.
Disse tentando disfarçar e fiz um comentário genérico que podia ser verdade na terceira música, mas por enquanto era só uma tentativa de não parecer que meu coração estava batendo rápido demais.
— Sim, e a guitarra…
Sempre a guitarra, sempre reparava nas guitarras nas músicas, depois de algum tempo comecei a fazer isso também, mesmo que não conseguisse distinguir notas musicais.
Continuamos a assistir a banda que derrapa em um cover ruim de Coldplay, mas que tem a redenção perfeita quando toca uma música autoral que fala sobre um amor não vivido, que nunca se concretizou por diversos motivos. Enquanto o piano cria notas mais agudas e mais altas a vocalista transmite uma fragilidade das oportunidades não aproveitadas, a voz dela passa por notas que desconheço, mas que juntas criam o que eu chamo de mágica. Músicas do tipo que eu escutaria para me inspirar para escrever histórias de amores impossíveis, com muita reviravolta, chances perdidas e beijos apaixonados.
— Está tudo bem?
Ele me pergunta com um tom de voz doce e carinhoso, e só então eu percebo que estou emocionada. Uma lágrima solitária cai do meu olho e eu apenas aceno.
— Sou sensível com músicas dramáticas. — Respondo e sinto ele apertar meus dedos que estão pousados em cima da mesa.
Ele não diz nada, apenas segura os meus dedos com calma como se não soubesse muito bem o que dizer, mas que estava bem ali. A música continua a ecoar, mas não consigo entender a letra ou a melodia. Só consigo ver seus olhos verdes que me analisam com cuidado como se precisasse me desvendar.
— Eu acho bonito como você se emociona com músicas. — Ele diz baixo em meu ouvido.
— É o meu romantismo disfarçado de cinismo que veio à tona. — Torço o cenho tentando disfarçar a intensidade do momento.
— É um jeito de enxergar as coisas, mas eu prefiro te ver como alguém que acredita em finais felizes mesmo quando o livro começa bem dramático.
— Você sabe exatamente o que dizer, não é? — Pergunto ainda sentindo os dedos acariciando a minha mão.
— Acho que só quando vale a pena. — Ele responde baixinho.
A bolha de novo. De novo a nossa bolha foi criada, uma bolha mais madura dessa vez. A banda pode ter começado outra música, mas não percebi, tudo ao redor parecia desfocado.
— Quer sair daqui? — ele pergunta, com um sorriso preguiçoso nos lábios.
— Agora? — Digo num sussurro sem me afastar.
Ele acena e eu mordo os lábios sem saber exatamente o que aquilo pode significar. Porque pode acontecer tudo, inclusive nada, ele pega minha mão e aperta de um jeito doce e quente, e nesse momento sinto que estou prestes a cair por completo.