Tamanho da fonte: |

Revisada por Nyx 🌙

Última Atualização: 20/10/2025

Bogotá, Colômbia, 2009

Nunca tive muito tempo para me acostumar com mudanças.
Aos 14 anos, já tinha morado em mais cidades da América Latina do que eu podia contar nos dedos de uma mão. Mas meus pais não se incomodavam muito com isso, apesar do trabalho burocrático do meu pai e das tentativas de realocação da minha mãe como médica em cada país em que moramos, eles sempre foram espíritos livres e acreditavam que estavam criando os filhos para o mundo. A cada nova mudança, novos rostos, novos sotaques e nova cultura e uma nova tentativa de adaptação.
Spoiler: isso não funciona!
Quando chegamos em Bogotá com a promessa ou a esperança de uma estadia mais longa, meus pais nos matricularam em um colégio alternativo, desses que valorizava muito a arte e a educação construtiva. Não seria a minha primeira escolha e nem o meu lugar ideal, mas a sensação de estabilidade tinha me convencido daquela vez. Mesmo que a cidade fosse um mundo à parte que eu não sabia se ia me acostumar. O céu quase sempre cinza e a necessidade de pegar um avião para poder ver o mar, além de toda a dificuldade de respirar por causa da altitude, me deixava sufocada. Eu não tinha outra opção senão aceitar que eu chamaria aquela cidade de casa por tempo indefinido, por mais que me custasse.
Lembro que começar tudo de novo e de novo era tão cansativo nas primeiras vezes, mas naquela altura do campeonato, eu só tinha aprendido a lidar com as mudanças constantes sem me afetar demais. Só que ser a nova aluna já era difícil, mas ser a nova aluna estrangeira era muito pior, era como andar com um letreiro néon piscando o tempo todo.
O primeiro dia de aula não foi ruim de todo, tinha conseguido me camuflar bem durante as aulas e ficar à sombra de Pedro que chamava atenção por onde passava. Pedro, meu irmão, dois minutos mais velho, dono de um carisma absurdo era o tipo de pessoa que se tornava a sua pessoa favorita em cinco minutos. Ele era extrovertido, engraçado, sociável e encantador. Não poderíamos ser mais diferentes, eu era introvertida, quieta e preferia o silêncio das minhas páginas rabiscadas e meus livros de romance e fantasia que me acolhiam do jeito que eu era de um jeito que a realidade jamais poderia.
Nunca me importei com o que as pessoas pensavam de mim, acho que provavelmente explica o porquê nunca tive muitos amigos na minha vida. Na realidade acho que nunca tive nenhum amigo fora da minha família naquela época, as constantes mudanças de país também não ajudavam muito. Como se não bastasse, o esforço constante de pensar e me comunicar em espanhol drenava o pouco ânimo que eu tinha.
O tempo todo!
Eu preferia e até gostava de ficar à sombra de todo mundo, era mais fácil ser assim, não me apegava a expectativas irreais e fazia o que tinha que fazer, mesmo sabendo que tudo o que eu queria aos 14 anos era criar raízes e ser aceita por um bando de adolescentes que já tinham seus grupos fixos. Por isso eu criava histórias em que me colocava como protagonista de uma vida que eu queria viver, mas não conseguia.
Em um dos poucos dias quentes de Bogotá, na hora do intervalo, me dirigi para o único lugar calmo daquela escola. Passei por um grupo de garotos que jogavam futebol, meninas que ensaiavam uma coreografia para uma apresentação da escola, e claro, meu irmão que conversava com um grupo de meninos e meninas que estavam focados e encantados com o que ele tinha a dizer, ele piscou de longe para mim e eu só acenei.
Fui até a minha árvore de sempre que ficava num lugar mais alto e dava para ver todo o pátio e tirei meu caderno da mochila. Passaria os próximos trinta minutos ali, desenhando coisas desconexas que muitas vezes me serviriam para inspiração mais tarde.
Enquanto eu rabiscava desconexamente, levantei os olhos, buscando alguma inspiração para o meu desenho mal-feito de uma Acácia-Negra. Foi então que eu o vi.
Senti o mundo congelar por um instante.
parecia ter saído de uma história romântica que eu escrevia quando estava entediada da vida real. Ele era o tipo de garoto que fazia qualquer um suspirar: cabelos castanhos escuros caindo despreocupadamente sobre a testa, uniforme usado de maneira desleixada, mas atraente e uma postura que exalava confiança com aqueles olhos esverdeados sempre atentos. Apesar de não ser excelente em esportes, compensava com o talento musical — seu violão era quase uma extensão do corpo. E o sorriso... aquele sorriso que parecia brilhar mais que o próprio sol.
foi o primeiro garoto que eu gostei de verdade, até conhecê-lo eu não pensava em meninos de maneira romântica, muito menos eles me faziam ficar com as bochechas vermelhas, na verdade, até conhecer eu ignorava todos. Mas com ele era diferente, talvez fosse o jeito que ele me olhava e parecia interessado em escutar o que eu falava, mesmo que só tivéssemos trocado cumprimentos casuais.
E naquele momento ele estava sorrindo para mim.
Pisquei algumas vezes convencida de que era coisa da minha fértil imaginação. Desde que Pedro o apresentou, sempre sentia o meu coração acelerar com qualquer simples gesto dele. Mas um sorriso? Não. Ele nunca tinha sorrido para mim.
Com o rosto quente e as minhas mãos trêmulas, voltei minha atenção para o caderno, fingindo que o desenho inacabado era a coisa mais importante do mundo. Rabiscava rápido, tentando disfarçar a agitação com uma Acácia torta demais.
Mariquita, o que você está desenhando? — A voz dele soou próxima, descontraída e carregada com aquele sotaque bogotano inconfundível.
Antes que eu pudesse reagir àquele apelido idiota, já estava sentado ao meu lado, com um sorriso que parecia tanto desafiador, quanto encantador.
— Nada. Só… uns testes. — Respondi nervosa, segurando o caderno contra o peito.
— Deixa eu ver. Aposto que está bom! — Ele se inclinou, tentando espiar por cima dos meus ombros, me deixando ainda mais nervosa.
Sei que apesar de ser quem era, alguns olhares estavam direcionados a nós por mais que eu tentasse me manter invisível, e eu odiava com todas as minhas forças aquela atenção que nem sabia se era real.
— Não! — Fechei o caderno apressada, arrancando uma risada baixa dele.
— Ah, me mostra, vai. Eu nem desenharia um palito direito! — Ele brincou, recuando, mas com um olhar que parecia me analisar além do que eu gostaria.
Ele era assim: casual, magnético e, ao mesmo tempo, desconcertante.
A conversa foi breve, interrompida pelo som do sinal e pelo grupo de amigos dele que o chamava. Mas para mim foi o suficiente para que sonhasse anos com esse garoto, mesmo sabendo que ele podia só estar brincando quando se aproximava daquele jeito, ou quando aparecia na minha casa para jogar videogame com Pedro e passava a tarde toda encantando meus pais.
com certeza foi boa parte da minha adolescência e meus melhores sonhos apaixonados, só que eu nunca tinha tido coragem de dizer o que eu sentia, pelo menos não na época, não na cara dele. E por isso, quando me formei na faculdade quando já estava de volta ao Brasil, lancei meu primeiro livro, que virou uma série de sucesso, totalmente inspirado nele.






Bogotá, Colombia, 2024

Estou ansiosa para o casamento do ano.
Pedro e Sofia são o casal perfeito do tipo que vira referência de amor entre quem os conhece. Pedro e Sofia são tipo o Marshall e a Lily, Jim e Pam, Monica e Chandler, Shrek e Fiona. Se há alguma chance de eu acreditar no amor é porque eles existem e porque vi esse amor nascer. Por mais que eu escreva livros sobre o amor, paixões avassaladoras e encontros improváveis, ainda assim nunca presenciei nada tão real quanto o amor de Pedro e Sofia. E é por isso que estou animada e muito, muito ansiosa por estar de volta.
Ao desembarcar no aeroporto de El Dorado sinto o meu estômago dar voltas de inquietude por estar de volta. Um monte de flashes de um passado vivido ali me atingem com força e sem que eu possa evitar sinto meu coração bater acelerado. Da última vez que estive nesse aeroporto estava me despedindo dos poucos amigos que fiz na adolescência com lágrimas nos olhos e com alguns sonhos por cumprir, quase doze anos depois posso dizer que sou uma mulher diferente, sem a ingenuidade dos meus 18 anos, mais calejada e com mais experiências que achei que teria com 29 anos recém cumpridos.
Depois de esperar pacientemente por minha mala na esteira, logo depois de uma família barulhenta e numerosa passar por mim feliz e alegre se atrapalhando com as bagagens, sigo até o saguão com a certeza de que meu irmão ainda não tinha chegado, não me admiro ao notar que não estou errada, pelo menos vou ter tempo de beber um café superfaturado de aeroporto. Escolho uma cafeteria colombiana com uma plaquinha escrita à mão “Café y Memórias” enquanto ignoro as franquias estadunidenses com suas filas gigantes e café ruim.
Peço um café puro e deixo o vapor quente me envolver. Tiro meu caderno de dentro da bolsa que já estava um pouco amassado pelo tempo e começo a rabiscar enquanto espero que o café esfrie um pouco, nunca gostei de bebê-lo muito quente, na verdade acho que nunca gostei da bebida, mas estar de volta a cidade que moldou parte do que eu sou me traz de volta hábitos que tinha esquecido. Rabisco desenhos aleatórios ignorando as mesas ao lado que começaram a encher. E quando a bebida fica no ponto ideal entre nem muito quente e nem fria demais que seja impossível ingerir, eu bebo gole curtos folheando meu caderno de ideias que estava sem ideia nenhuma.
Nada!
Só desenhos aleatórios e desconexos dos últimos lugares que fui, como o lustre de um restaurante caro e exagerado demais em São Paulo, a cadeira de balanço da casa do meu avô no interior da mesma cidade e uma releitura malfeita do meu quadro favorito do Monet, Nenúfares de 1904. Ou seja, nada que eu pudesse utilizar. Vejo meu rascunho que fiz de uma xícara de café e sei que esse vai ser mais um dos desenhos perdidos do meu caderno de ideias que estava sem ideias. Prevejo minha agente literária me enchendo de mensagens que vou ignorar até finalmente uma ideia cair do céu milagrosamente.
Sinto meu celular vibrar no bolso do meu casaco, me tirando do devaneio sem sentido.
Pedro: Me diz que não estou atrasado e que eu sou o seu irmão favorito.
Solto uma risada involuntária e já me preparo para sair do café depois de deixar uma gorjeta para a funcionária simpática com olheiras fundas e sorriso cansado.
Eu: Você está atrasado!
Respondo percebendo que mais um voo internacional tinha desembarcado.
Pedro: Cinco minutos, te espero no estacionamento do aeroporto em cinco minutos.
Reviro os olhos com força como se meu irmão pudesse me ver e guardo o celular no bolso do casaco. Pergunto para um segurança que me dá as direções exatas e percebo que meu espanhol estava um pouco enferrujado mesmo que eu fale com Sofia quase todos os dias. Caminho até o estacionamento e vejo meu irmão parado em frente a um SUV grande demais para ele com um sorriso descomplicado no rosto, seus cabelos estavam mais longos e a barba por fazer.
Céus, eu senti tanta falta dele.
— Irmãzinha. — Ele diz me aconchegando num abraço caloroso que sinto tanta falta. — Como foi a viagem? Demorei muito?
Me afasto um pouco do meu irmão e aceno rapidamente.
— Foi tranquila, algumas crianças no voo deixaram a viagem bem agitada, mas o que importa é que foi sem turbulências.
Meu irmão ri enquanto pega a mala das minhas mãos e coloca com facilidade no porta-malas.
— Pelo menos te fez esquecer desse medo surreal que tem de aviões.
Dou de ombros tentando ignorar que ainda tinha uma longa viagem até o Brasil de volta. Era um medo irracional, bem sei disso, mas não me acostumava com a física de um objeto tão grande poder voar.
— Mas me conta, como estão os preparativos? — Pergunto quando ele abre a porta do carro para mim.
Me ajeito no banco do carona quando o vejo ligar o carro. O trânsito para sair do aeroporto. Realmente me lembra que eu estou de volta.
— Não sabia que casar dava tanto trabalho. — Suspira, com um cansaço divertido na voz — Faltam quatro semanas para o casamento e parece que tudo o que já estava resolvido não está mais.
— Como assim? — Franzo o cenho.
— A florista que escolhemos fechou a loja por conta de problemas fiscais, ainda não escolhemos o bolo e os irmãos da Sofi não sabem se vão chegar a tempo do casamento, então…
— A Sofi não me disse nada sobre isso. — Digo num sobressalto.
Meu irmão suspira alto o suficiente para que eu saiba que realmente as coisas não estão fáceis. Ele fica em silêncio enquanto vejo Bogotá dar todo o ar da graça e a cidade cinzenta, caótica e com o trânsito pior do que São Paulo se faz presente na minha frente mais rápida do que eu podia esperar, tão viva e vibrante quanto me lembrava.
— Ela está chateada. — Pedro diz depois de alguns minutos em silêncio. — Você sabe como ela tenta se dar bem com eles. Não é leve, mas ela tenta fingir que não dói.
Sofia sempre foi muito ligada aos irmãos, mas quando cresceram o suficiente para conhecer um pouquinho mais sobre a vida, viver na cidade em que cresceram não parecia mais o suficiente, então pegar uma mala, encher com toda a sua vida e viver de país em país, cidade em cidade fazendo vídeos sobre esse lifestyle para a internet pareceu melhor do que estar a sombra da irmãzinha mais nova.
— E como posso ajudar? Cheguei mais cedo, podem dividir comigo os problemas que eu ajudo a resolver.
Minha voz sai mais firme do que eu esperava. Me ofereço sabendo que essas quatro semanas de antes do casamento eu tinha planejado escrever meu novo livro, ou pelo menos a versão crua dele, sem edições e àquela que só eu e minha editora leríamos. Mas a verdade é que eu não tinha nada. Nadinha. Nenhuma história. Um deserto de ideias. Só eu e o cursor piscando em uma página em branco.
— Você não tem um livro para terminar? — Pedro me pergunta sem desviar os olhos da rua.
— Não, estou em dia com o prazo da editora. — Minto sem pestanejar. — Estou aqui para ajudar!
Pedro faz uma curva antes de me responder.
— Vai ser ótimo, porque a Sofia já colocou todos os nossos padrinhos para ajudar. Já temos cuidando da parte musical, porque sim, a banda que escolhemos também desistiu de última hora…
Sinto meu corpo reagir no momento em que meu irmão cita o nome dele. É ridículo que eu ainda me sinta assim depois de tanto tempo só com a menção do nome dele, até porque nem faz sentido, e fazia tanto tempo que eu não pensava em , não o tipo de pensamento que altera batimentos cardíacos, pelo menos. Meu irmão parece não perceber meu estado e continua citando nomes que conheço da época da escola, mas que hoje não fazem o menor sentido para mim.
— … E a Valéria que apesar de ser uma péssima cerimonialista ainda tem os melhores contatos para festas, então a gente tolera.
Quarenta minutos depois, estacionamos em frente ao apartamento que meu irmão divide com Sofia, minha melhor amiga. O prédio é uma construção moderna no mesmo bairro em que passamos a nossa adolescência, embora agora esteja com um ar mais sofisticado do que na época. As fachadas antes desgastadas dos prédios agora estão renovadas e pintadas e com certeza uma casa ou apartamento na região devia custar muito mais do que doze anos atrás.
Pedro desce do carro e meus olhos começam a reconhecer o lugar, no começo da rua ainda tem uma lojinha de doces que comprávamos sempre que voltávamos da escola, e a padaria do senhor Mateo ainda está aqui, é até possível até sentir o cheiro das almojábanas recém-saídas do forno.
— Só uma mala para passar quatro semanas? — Meu irmão me pergunta e também saio do carro para ajudá-lo.
Na verdade, trouxe uma mala e uma mochila, o suficiente.
Pedro não espera que eu responda e pega minhas coisas como um bom irmão dois minutos mais velho, vamos juntos até a entrada e enquanto caminhamos até o elevador percebo que o interior do prédio é ainda mais moderno, o chão de mármore polido, espelhos espalhados por todo o corredor e luzes baixas que trazem uma sensação de conforto. O elevador não demora a chegar e meu irmão aperta o botão do quinto andar.
Quando a porta do elevador se abre, Pedro tira as chaves do bolso e abre a porta. O espaço é amplo e muito bem decorado com os detalhes minimalistas e grandes janelas que sei que meu irmão gosta, mesmo assim consigo perceber detalhes de Sofia na decoração, enquanto Pedro é prático e simples, Sofia gosta de plantas, muitas plantas, cores e fotos espalhadas pelas paredes da sala. Em uma das fotos estão Pedro e Sofia, eu e em um bar na época da escola e com sorrisos no rosto e roupas amarrotadas depois de passar duas horas assistindo ao show da então recente banda-sem-nome em que cantava.
— Ai, meu Deus, não sabe o quanto eu senti sua falta. — Sofia aparece vinda da cozinha com seu avental laranja e florido.
Ela parece feliz e um pouco emocionada, seus olhos castanhos brilham e ela me agarra para um abraço muito apertado.
— Eu senti mais. — Respondo ainda dentro do abraço.
— Se fosse mesmo verdade tinha vindo em julho para as festas de San Juan. — Sofia me diz quase num tom de acusação.
Não respondo. Sofia sabe exatamente o motivo de eu não ter saído de casa em julho ou no mês seguinte e isso não tem nada a ver com a falta de vontade de ver meu irmão ou ela. Sofi me encara com seus olhos castanhos e grandes e o assunto simplesmente morre ali, sem ficar um clima ruim ou complicado. Essa é uma das coisas que mais gosto na minha amizade com Sofia: a descomplicação. Ela é honesta, sincera e respeita os meus limites, com certeza uma das relações mais fáceis da minha vida. Pedro pisca para ela e o vejo se dirigir ao escritório, ele ainda teria que trabalhar naquela tarde.
Então ela me pega pela mão me leva para a cozinha e mesmo sendo uma péssima ajudante de cozinha, ainda assim consigo fazer uma salada que nos meus anos morando sozinha me especializei. Pego os ingredientes da bancada e começo a cortar o tomate e o alface, os tempero com limão e azeite e procuro alguns frutos secos para incrementar.
O cheiro delicioso da comida se espalha de repente pela cozinha e é só então que percebo que estou com fome.
— Me conta, como estão as coisas no Brasil? — Ela pergunta enquanto mexe alguma coisa na panela como se não nos falássemos todos os dias.
— O mesmo de sempre. — Suspiro alto. — Algumas feiras literárias, tentando terminar o livro, essas coisas. — Dou de ombros, sem muita empolgação. — Vivendo um dia depois do outro.
Sofia me encara brevemente pensando se deve ou não dizer alguma coisa, eu só termino de servir a salada em uma travessa bonita, talvez eu deva colocar mais queijo feta, talvez pepino…
— E como está o livro?
— Parado. — Admito, sem olhar de volta. — Mas já tenho ideias, dois dias e o termino. — Minto mais uma vez.
Minha amiga para de repente e sei que não é tão fácil fugir dela como é de Pedro. Sofia sabia exatamente o motivo da minha falta de inspiração, mas como a boa amiga que é, e de novo ela não faz perguntas e eu a agradeço silenciosamente por isso mesmo sabendo que uma hora ou outra ela faria todas as perguntas que têm vontade.
— Eu só espero que tudo esteja certo quando sua mãe chegar na próxima semana. — Ela diz com as mãos na cintura.
Solto um gemido exagerado e coloco as mãos no meu rosto em claro sofrimento, mas me recomponho. Apesar de teoricamente morar na mesma cidade que meus pais, eu os vejo menos vezes do que meu irmão. Eles continuam viajando mesmo depois da aposentadoria do meu pai e com o mesmo espírito livre de sempre, mas por algum motivo minha mãe acha que eu preciso me encontrar na vida, escolher uma profissão de verdade, achar um amor, casar e formar uma família tradicional e feliz.
Spoiler: estou bem longe disso. Bem longe.
— Minha vida vai estar perfeita até lá. — Digo com ironia suficiente para arrancar uma risada de nós duas.
Eu me sinto em casa de novo.
— Não sei se o Pedro comentou, mas o vai vir jantar aqui em casa. — Ela solta a frase casualmente como se fosse um detalhe qualquer. Como se não sabia o que aquela junção de palavras me causa.
Meu cérebro para pôr um segundo tentando compreender as palavras e o significado delas. Eu mal cheguei em Bogotá e já é a segunda vez que me sinto assim igual uma idiota adolescente sem preparo emocional. Respiro fundo. Volto a me recompor porque é impensável agir dessa forma depois de tanto tempo, eu já sou uma adulta que paga suas próprias contas, um trabalho para manter e um livro inexistente para entregar. Além disso, é padrinho do meu irmão, então é lógico que eu vou vê-lo, logo é melhor eu começar a agir como a adulta funcional que sou desde já e com alguma dignidade.
Antes que eu possa dar a resposta madura e equilibrada ouço a campainha do apartamento tocar.







Bogotá, Colombia, 2024

Ninguém te avisa que, ao virar adulto, vai ter de lidar com coisas que por querer você deixou para trás e enterrou por pura sobrevivência emocional.
Também ninguém me avisou que o passado podia aparecer com os olhos mais verdes e o sorriso mais bonito do que a última vez que você os viu.
Os cabelos escuros ainda estão certinhos demais, os olhos verdes que ainda não me olham ainda são carinhosos enquanto cumprimentam Sofia e Pedro. Mas é a barba malfeita de um jeito descontraído que me faz lembrar que estamos diferentes agora.
Troco o peso do meu pé direito para o esquerdo tentando me manter calma numa pose de mulher composta. Meu irmão fala alguma coisa e eles riem. Ainda estamos todos na sala, embora eu esteja mais afastada e encostada no batente da porta tentando passar despercebida, meu olhar não consegue desviar dele, entendo completamente o apelo que ele tem com os fãs quando ele está no palco.
— Chegou na hora certa de escapar de preparar a salada. — Sofia diz com um tom jocoso e conspiratório na voz — Se não fosse a esse almoço só ia sair amanhã.
Sei exatamente o que ela está fazendo.
O almoço já estava quase pronto quando eu cheguei. A minha pouca habilidade em cortar tomates e temperar alfaces não tinha agilizado nada sendo bem mais simbólico do que uma ajuda real, mas minha amiga sendo como é, quer chamar a atenção de para mim do mesmo jeito que fazia quando éramos adolescentes e ele causava sentimentos confusos em mim. Respiro fundo quando percebo esse joguinho, mas não dá tempo de raciocinar, pois o vejo vindo até mim para me dar um abraço que eu não estou à espera.
Mariquita, quanto tempo. Como você está? — Ele pergunta com a voz rouca depois de me soltar do rápido abraço que eu não estava à espera.
Mariquita.
Faz anos que não escuto esse apelido idiota. Ele pronuncia do mesmo jeito, com o mesmo sotaque, do mesmo jeito carinhoso de antes.
Dou um sorriso de lado sem saber bem o que dizer. Ele presta atenção em mim do mesmo jeito que fazia quando éramos mais novos. Do mesmo jeito que sempre fez, me observando atento como se pudesse desvendar alguma coisa em mim.
— Bem. E você? — Devolvo a pergunta, dando um passo para trás para vê-lo melhor.
Ele acena e sorri dando de ombros.
— O está bombando! O último álbum foi um sucesso cheio de músicas nas paradas e sem falar dos estádios lotados. — Meu irmão então começa a falar animado, interrompendo nossa breve interação como quem conta uma conquista de família.
ri e coça atrás da orelha. Ele ainda faz isso quando fica sem graça.
Pedro está orgulhoso, e de alguma forma me sinto também, já que vi toda a história de superstar nascer.
— Não exagera, Pedro. — Ele diz com um sorrisinho no rosto que ele sempre dá quando fica tímido. — Está sendo um ano bom, mas a gente sabe como é difícil manter.
Lembro de quando ainda éramos novos e sonhadores demais e tivemos essa conversa. sempre quis alcançar o estrelato, lotar estádios e viver de música, mas eu sabia que ele também tinha medo de que tudo acabasse e ele precisasse viver numa profissão chata, com rotina e horários para cumprir. Eu sei que isso o mataria aos poucos, pois apesar de certinho e bom menino, eu sabia que ele guardava dentro de si.
A conversa continua animada, mas logo Sofia volta para a cozinha com Pedro e e eu a ajudamos arrumando a mesa.
Sinto seu olhar sobre mim como se tivesse muitas perguntas e me analisa com cuidado e paciência o que me faz sentir vulnerável e insegura. Entre colocar um prato e outro, nossos dedos se encostam. Um toque sutil que ele não evita, nem eu. Puxo minha mão de volta e escuto sua voz melodiosa e rouca.
— Você parece diferente.
Não é uma crítica, é apenas uma constatação.
Fisicamente estou bem diferente mesmo da última vez que nos vimos, meus cabelos estão mais curtos depois de tantas mudanças que eu o submeti. Mas a principal mudança é mesmo a emocional, não me sinto tão boba e iludida apesar de parecer que sim nesse exato momento.
— E você parece igual. — Digo sustentando o olhar que ele me dá. — Um pouco mais famoso. — Corrijo e vejo que ele sorri com um sorrisinho de lado, quase charmoso.
— Só parece. — Ele pisca em minha direção.
Eu não respondo, meu irmão e Sofia chegam com o Aijaco que não combina em nada com salada, mas que para Sofia fazia algum sentido.
se senta ao meu lado na mesa e vejo a conversa entre eles fluir com naturalidade. Ao que parece apenas eu me afastei, pois eles parecem ter assuntos e piadas internas que não compreendo muito bem.
então se inclina em minha direção e começa a me incluir na conversa e percebo que ele não se tornou uma superestrela por acaso, ele tem uma presença marcante, quando ele se aproxima de mim sinto meu coração bater rápido. A diferença da de 14 anos é que eu aprendi com o tempo a disfarçar meu nervosismo na frente de um homem bonito.
— Você vai ao reencontro do colégio no final de semana? — Ele pergunta de repente.
Franzo o cenho sem saber exatamente do que ele está falando.
— Que reencontro? — Pareço confusa.
Sofia ri e explica.
— Esqueci de te contar. — Diz se adiantando — A Valéria e as outras meninas estão organizando um jantar de reencontro pro pessoal.
— Sim, vai todo mundo, ela te chamou, mas esquecemos de contar. — Pedro completa.
— Vai ser legal, todo mundo está perguntando se você vai. — acrescenta olhando diretamente nos meus olhos.
— Todo mundo? — Levanto uma sobrancelha e ele ri parecendo sem graça.
— As pessoas que importam.
Ele corrige e fico imaginando quem são as pessoas que importam. Com certeza não eram Valéria e as outras meninas.
— Não sei se estou muito animada para ir. — Respondo, voltando a atenção para o meu prato.
A época da escola tinha sido boa por diversos motivos, mas com certeza não foi minha época favorita. Eu era a estrangeira tímida, retraída e com certeza não fazia amigos fácil demais. Foi uma sorte gigante ter feito amizade com Sofia na época em que tinha medo de grandes grupos de adolescentes.
Tranquila, Mariquita. Não vai ser nada demais. — Ele diz num tom conspiratório e pisca o olho para mim.
Aceno levemente tentando não parecer afetada demais por ele ter citado o meu trabalho que diferente do resto do mundo eu não queria que ele chegasse perto de ler alguma coisa que eu tenha escrito.

Pedro e então começam a falar sobre futebol e eu ajudo Sofia a recolher os pratos enquanto penso em motivos para não ir para o reencontro. Na escola eu era só a irmã do Pedro, a menina que não tinha muitos amigos, a estrangeira esquisita que gostava de escrever histórias. E apesar de hoje estar diferente do que eu era antes e até conseguir falar em público sem ter medo de desmaiar, ainda assim não sei se estou pronta para revisitar a de 14 anos.
Sofia me olha com aqueles grandes e castanhos olhos enquanto apoia a louça na pia para que Pedro lavasse depois.
— Você devia ir. — Ela é direta.
— Talvez. — Respondo, dando de ombros.
— A maioria das pessoas que conhecemos na época estão tranquilas hoje.
— As que não viraram superestrelas da música, você diz.
E ela dá risada e eu começo a pensar na barreira que criei desde que saí de Bogotá e voltei para o Brasil. Então termino de ajudar Sofia e sigo para o quarto de hóspedes em que ficarei hospedada pelas próximas semanas com a desculpa de um jet lag.
Ainda consigo ouvir a televisão da sala e Pedro e discutindo sobre algum lance, me lembro quando isso acontecia na casa em que morávamos, como se as partes do que foram ainda estivessem muito presentes. E é tão real que tenho medo de ainda ser a mesma garotinha que vivia atrás das palavras que escrevia.







Bogotá, Colombia, 2010

O livro de matemática estava aberto na mesa da sala e eu tentava entender a droga de polinômios. Nunca fui muito boa em matemática, mas conseguia me concentrar bem nas aulas para não ter que estudar muito mais do que o necessário, mas essa matéria em específico estava matando cada um dos meus neurônios.
Naquele dia em específico, Pedro tinha chamado seus amigos para ir lá para casa jogar videogame a tarde toda, como sempre. Só que minha mãe percebeu que eu e Sofia tínhamos exercícios de matemática para estudar para a prova no dia seguinte, logo, ela colocou todo mundo para estudar antes de qualquer tipo de diversão. Achava que essa era uma grande desvantagem para Pedro ter uma irmã gêmea que estudava na mesma classe que ele, não tinha como esconder nada da minha mãe, e eu nem ligava muito também, pois sabia que Pedro terminaria aqueles exercícios em três segundos e logo me deixaria em paz.
— Eu desisto, isso não faz sentido nenhum! — Empurrei meu caderno para o meio da mesa e olhei frustrada para Sofia que deu uma risadinha de lado.
Sofia e eu tínhamos nos tornado amigas no primeiro mês de aula. Ela sempre mais extrovertida do que eu, se aproximou pedindo um absorvente em uma aula de história e eu a entreguei como se fosse uma contrabandista. Ela saiu com ele em mãos até o banheiro e não escondeu como metade das adolescentes da época faria e eu a achei o máximo por isso. Depois disso passamos alguns intervalos de aulas juntas, ela me convidava para fazer trabalhos com ela, dividimos o lanche e tínhamos até piadas internas e de repente nos tornamos amigas, ou quase isso.
— Não é tão difícil. — Ela disse com um ar de sabedoria. — Eu poderia até te explicar, mas eu estou fazendo boa parte dos exercícios por dedução.
E eu não duvidava que era verdade, ela era excelente em matemática, mas era péssima explicando. Antes que eu pudesse reclamar de novo:
— Vem cá, eu te ajudo com isso.
que estava sentado na minha frente passou os dedos pelos cabelos desalinhados, um gesto distraído e bonito demais para alguém que tem dezesseis anos e me chamava para sentar ao lado dele.
Sofia estreitou os olhos, mas não disse nada. Meu irmão, Nico e Javier pareciam entretidos demais nos seus próprios exercícios do outro lado da mesa, então eu apenas pulei uma cadeira e me sentei ao lado de .
— Você só precisa prestar atenção no método. — Ele disse com a voz mais baixa e tinha a sensação de que só eu escutava.
— É fácil para falar… Você é tipo um gênio em matemática. — suspirei, derrotada e ele riu.
E então ele pegou o lápis da minha mão e nossos dedos se encostaram por mínimos segundos. Rápido. Inofensivo. Tentei parecer normal e foquei na lista de exercícios à minha frente tentando ignorar meu coração que batia acelerado. Não era a primeira vez que interagimos, era uma presença constante aqui em casa, mas era a primeira vez que ficávamos tão próximos em uma conversa só nossa, pena que era uma conversa sobre polinômios.
— Então vamos do começo. — Ele puxou meu caderno até ele e deu um sorriso de lado que não entendi muito bem. — Você lembra mais ou menos como funciona a divisão longa de números?
Assenti, pois lembrava vagamente e então ele continuou e escreveu uma equação muito mais simples no meu caderno. Fez o passo a passo devagar e eu juro que tentei acompanhar o raciocínio de que estava mesmo empenhado em me ensinar Álgebra, mas o perfume leve e natural e aquela voz baixa me distraíram com facilidade. Não sei se sabia do seu poder na época, mas com certeza funcionava com meninas como eu.
— Entendeu? — Ele perguntou depois de terminar a breve explicação da equação.
Pisquei os olhos de forma rápida, tentando me recompor. Meu cérebro começou a funcionar de forma rápida, tentando lembrar de cada palavra que o professor disparou na aula, lembrei sobre a propriedade distributiva entre dois monômios, depois multiplicações do primeiro polinômio pelos do segundo e por fim meu cérebro virou gelatina.
— Mais ou menos. — Disse sem graça, sentindo um calor subir pelas minhas bochechas.
deu mais um sorrisinho que ele não sabia que me matava e se aproximou mais ainda, se inclinando sobre o caderno e desenhando mais uma equação. Dessa vez me obriguei a prestar atenção, mesmo que a voz dele continuasse baixa como se quisesse que aquela conversa fosse só entre nós dois. Observei rapidamente minha amiga que já conversava com Pedro e Nico e Javier nos ignorou com vontade.
— Vamos fazer juntos então. — Disse tão seguro de si, me deixando instantaneamente corada. — Como você acha que começa?
Respirei fundo e me concentrei naquele idioma alienígena cheio de letras e números.
— Fatorando o polinômio. — Arrisquei, me lembrando das palavras dele olhando para ele e não para o caderno. Talvez tenha sido um erro. Os olhos dele estavam voltados inteiramente para mim com um brilho divertido e paciente.
— Exatamente, depois de fazer isso, precisamos…
Não me lembro das exatas palavras dele, honestamente a memória mais clara que tenho é dos seus dedos longos segurando o meu lápis e seu olhar atencioso e paciente enquanto me explicava como multiplicar e dividir polinômios. Ficamos uns bons minutos tentando resolver um exercício e quando eu tentei sozinha, acertei.
— Não é útil para nada essa porcaria. — Resmunguei e ele riu.
— Vai ser útil para passar na prova. — Ele disse com um pingo de diversão na voz — Vai dar tudo certo amanhã, você é inteligente.
Matemática nunca foi minha matéria favorita na escola, na realidade, eu sempre fui péssima. Em todos os países que morei, de todos os professores que tive, nenhum me explicou como me explicou naquele dia.
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, meu irmão, Nico e Javier o chamaram para jogar videogame. Ele pareceu hesitar por alguns instantes, mas cedeu à insistência do meu irmão.
— Se precisar de ajuda mais tarde... — Ele não completou, levantou da cadeira e me lançou um último sorriso.

Mais tarde naquele dia, Sofia e eu estávamos escutando música no meu quarto, Katy Perry com “California Gurls” fazia muito sucesso na época, ela dançava animada me fazendo rir com os passos descoordenados da minha amiga. De repente ela mudou de humor e baixou a música, como se tivesse lembrado de algo.
— Precisamos comprar vestidos para festa da Valéria. — Ela disse, com os olhos arregalados como se fosse um assunto muito urgente.
Me endireitei na cadeira um pouco desconfortável com aquele assunto.
— Eu não fui convidada, mas se quiser eu posso ir ao shopping com você escolher o vestido.
Sofia revirou os olhos como se estivesse entediada com aquele assunto.
— Não tem essa de convite. — Ela disse — A Valéria é minha prima, não vai se importar se for minha convidada.
Meu cenho ainda estava franzido, não fazia questão de ir àquela festa. Já tinha meus planos bem traçados para o sábado à noite e eles incluíam pijama, star wars e alguma fanfic de Harry Potter. Perfeito!
— Não quero ser penetra em uma festa, Sofi… — Insisti, mas o rosto animado da minha amiga não se desfez.
— Vamos, por favor, o Joaquim vai estar lá e eu não quero ir sozinha para a festa.
Seu rosto parecia de um cachorrinho filhote abandonado, não conseguia negar. Ela pulou em mim, animada, me fazendo rir e começamos a procurar modelos de vestidos e maquiagens que faziam sucesso na época para ir em uma festa que serviria como um capítulo inteiro do livro que escreveria mais tarde.






Bogotá, Colombia, 2024

O final de semana chegou mais rápido do que eu imaginava.
Minha percepção do tempo tinha sido severamente alterada por causa dos afazeres do casamento que consumiram minha energia em menos de 7 dias. Agora sei a diferença entre peônias e camélia e como essa decisão pode ser de vida ou morte para um casamento. Todo o universo que envolve a festa parece absurdo e irreal, mas estou aqui para isso. Para escolher flores iguais, ouvir Sofia reclamar da costureira do vestido e ocasionalmente experimentar docinhos feitos por uma confeitaria que mescla sabores brasileiros e colombianos.
Eu estou exausta e tecnicamente ainda estamos no começo.
Na recepção do restaurante escolhido para o encontro da turma de 2011, me olho no espelho tentando parecer mais calma do que me sinto. O vestido parece adequado ao lugar e a minha maquiagem não é tão exagerada que precisarei retocar durante a noite, talvez só o batom. Arrumo meu cabelo e tento afastar o olhar de quase pânico que me encara no espelho. Veja bem, por mais que agora eu seja uma mulher minimamente bem-sucedida, não é fácil encontrar as mesmas pessoas que causaram pequenos traumas na minha adolescência.
Pedro e Sofia vão na frente e eu tento atrasar o inevitável observando cada detalhe daquele restaurante. Ele tem um ar acolhedor e elegante com luzes amareladas, os móveis parecem caros e eu posso apostar que é um daqueles lugares que cobra caro pela experiência e não pela comida.
Quando me aproximo da mesa reconheço alguns rostos instantaneamente, outros parecem tão diferentes que tenho dificuldade em saber quem são. Valéria, está sentada na ponta da mesa como a anfitriã que é e quando vê Pedro e Sofia, levanta-se animada, correndo para abraçá-los, os cabelos loiros presos num coque apertado estão mais claros do que me lembro, mas os olhos azuis e afiados continuam os mesmos.
Desde o término da escola nunca mais tinha ouvido falar de Valéria até voltar para Bogotá e ver o rosto dela espalhado em boa parte dos outdoors da cidade promovendo maquiagem e água alcalina.
— Ana Carla, quanto tempo. — Ela diz com o seu tom de voz esganiçado.
Suspiro um pouco mais alto percebendo que pouca coisa mudou nos últimos doze anos. Valéria apesar de mais velha, mais famosa e com certeza mais bonita ainda se parece a mesma irritante de sempre. É claro que ela erra meu nome de propósito.
Sinto olhares em mim em suspenso como se aguardassem o momento em que eu fosse sair correndo aos prantos.
. — Corrijo entredentes forçando um sorriso exagerado e falso. — Como está, Val? — Provoco, sabendo o ódio que ela sente por esse apelido.
Ouço uma risadinha atrás de mim. que também acaba de chegar. E nem preciso me virar para saber que é ele.
Minha pequena provocação não é percebida, pois toda a atenção vai para ele que me olha com um brilho divertido nos olhos. Valéria não responde, pois parece encantada com o rapaz atrás de mim.
É, parece que não houve nenhuma mudança significativa nesses doze anos.
está todo vestido de preto, o casaco de couro que faz parte da sua personalidade recente de estrela da música, percebo que não sou só eu quem cai nesse sorriso que ele sabe que causa arrepios. É engraçado perceber isso agora, porque eu também vi nascer esse charme e a habilidade de conquistar as pessoas que ele adquiriu com os anos, era sempre o sorrisinho de lado, a cara de bom moço e o olhar de quem sabe quem vai ser a próxima presa. Mas agora ele tem essa barba por fazer, está mais encorpado e com certeza sabe os músculos que têm debaixo de todas essas roupas.
— Olha só quem chegou, a estrela da noite. — Nico comenta brincando quando vê se aproximar e como se não estivessem na mesma banda.
— Com esse casaco de couro parece ter saído de um videoclipe. — Javi insistiu na provocação e só revirou os olhos antes de cumprimentá-los.
Desvio meu olhar quando percebo que estou encarando demais e me sento ao lado do meu irmão que conversa animadamente com Gabriel e Nico que também falam de música e parecem não perceber o burburinho que causa. Sofia, como sempre extrovertida, conversa com meninas que sinceramente eu não lembro o nome, vejo as pessoas interagirem e me pergunto o que estou fazendo nesse encontro.
— Esse lugar parece exatamente como eu imaginava. — diz baixo, se inclinando um pouco para mim.
Finjo indiferença.
— E caro, certamente vou precisar financiar esse jantar.
Ele ri e me desarma. Ele puxa a cadeira e se senta ao meu lado. Ele não parece notar o olhar indignado de Valéria, mas eu sim, estou acostumada demais com esses olhares.
— Você está muito bonita. — Ele diz casualmente de novo com aquele sorrisinho que é casual demais para ser inocente.
O elogio me pega de surpresa, me viro para o outro lado para disfarçar minhas bochechas vermelhas e desvio o olhar para a mesa que agora parece estar completa com os meus colegas.
A conversa toma força com os mesmos grupinhos de antigamente. O tempo pode ter passado, mas o ar de informalidade, as risadas e a cumplicidade também pareciam a mesma. A diferença é que agora temos cargos pomposos: advogados, engenheiros, influencers, músicos e empresários.
O garçom aparece e distribui os cardápios, meu olhar se divide entre analisar as conversas paralelas e o menu que tem ingredientes que mal sei se combinam juntos. Lanço um sorriso polido quando Gabriel comenta como sua startup está crescendo e como ele espera aprender mandarim no próximo ano.
— Ouvi dizer que é escritora, , que caminho interessante para quem é tão… você. — Valéria diz com aquele tom doce enjoativo voltando a atenção de todos para mim.
Abaixo o cardápio, decidida a pedir Milhoja de papa y trufa, pois é a coisa mais normal do menu. Sorrio de forma protocolar e encaro Sofia que parece orgulhosa.
— Sim, tenho alguns livros publicados. — Meu sorriso ainda é controlado, apesar de sentir meu coração disparar e minha garganta seca.
— Seus pais devem estar muito orgulhosos. — Ela sorri e eu a odeio nesse momento. — A aluna mais inteligente da escola agora ganha a vida escrevendo romances adolescentes.
Volto a encarar o cardápio como se pudesse procurar uma resposta polida no meio daqueles pratos irreconhecíveis. Não acho.
— São ótimos romances adolescentes, você deveria ler algum deles. — Respondo sem perder o tom calmo.
— Acho que vivi minha adolescência intensamente, não preciso vivê-la através de livros. — Ela ri e arranca risadas de algumas pessoas da mesa.
Reviro meus olhos e odeio a atenção que recai sobre mim, porque me deixa nervosa, menos adulta e muito, mas muito vulnerável, principalmente quando ela continua.
— Não que você não tenha vivido, Carlinha, inclusive, lembra daquela festa na minha casa? Aquela em que te apelidamos de Minnie.
Ela ri de um jeito exagerado e outros colegas a acompanham para quebrar o silêncio desconfortável. Encolho meus ombros e bebo um gole de vinho para tentar disfarçar.
Vejo Sofia olhar irritada para a prima e Pedro ao meu lado aperta minha mão com força. Minha garganta arranha quando ouço esse apelido e vejo meu irmão se inclinar para frente.
— Nossa, como você é engraçada, Valéria. — Ele diz com o sarcasmo usual que ele sempre usa em momentos assim. — Fico impressionado que se orgulhe desse esforço todo que exigiu pensar em um apelido tão idiota.
Valéria não vacila por nem meio segundo, a segurança dos seus olhos permanece igual.
— Não seja chato, Pedro. — Ela reclama. — É só uma brincadeira.
— É sempre uma brincadeira quando a piada é outra pessoa, não é, Val?
Quem diz é e eu o encaro. Ele está calmo, mas sorri para mim, de um jeito cúmplice talvez e isso me desarma como se eu não pudesse ficar indiferente. está recostado na cadeira com uma expressão tranquila.
O clima de tensão fica palpável e sinto meu corpo se encolher. Alguém tosse, outros desviam o olhar e Gabriel rapidamente começa a falar e mudar o assunto para o casamento de Sofia e Pedro, o agradeço mentalmente quando a conversa da mesa se move para esse terreno mais seguro, pois Sofia pode falar horas e horas sobre a organização do casamento. Pedro continua a segurar a minha mão e começa a contar uma história engraçada sobre a escolha do fotógrafo e me sinto mais calma de novo.
O garçom aparece e anota os pedidos, peço uma taça de vinho rosé quando Gabriel volta a falar sobre sua startup bem-sucedida. Continuo a soltar sorrisos protocolares ouvindo meus colegas comentarem a melhor parte de suas vidas, Nico e Javi, colegas de banda de falam sobre os próximos shows da banda e a transmissão em um streaming famoso, e é claro que parecem os mais bem sucedidos de todos nós, de repente. Parece divertido enquanto eles contam como é ser famoso, reconhecidos em aeroportos e um verdadeiro fenômeno na América Latina.
O garçom volta com os pratos escolhidos e tenho a certeza que fiz uma boa escolha apesar da porção de passarinho.
— Eu preferia um cachorro-quente. — sussurra no meu ouvido e eu sorrio.
— Sim, por favor, o da Calle 54. — Devolvo, sorrindo com a lembrança do nosso fast food favorito em Bogotá.
— Com molho de alho.
— Ou purê de batata.
Ele sorri e eu lembro de uma discussão eterna que tivemos alguns anos atrás sobre o ingrediente não tão popular na Colômbia.
— Você é esquisita, Mariquita.
Quando o jantar chega ao fim, todos começam a se levantar. Valéria pagou tudo e eu achei justo, ela ganha mais com um story do que eu trabalhando o mês inteiro e com certeza ia deduzir aquele valor no imposto de renda como networking.
Ela abraça todos e faz promessas de reuniões mensais que nunca acontecerão. Pedro parece cansado, mas acompanha Sofia na despedida de cada colega. Valéria então se aproxima de que ainda está ao meu lado. Os cabelos alinhados combinam com ela e seus olhos azuis bem marcados.
— Vai ficar quanto tempo em Bogotá? — Sua voz é melodiosa.
— Não faço ideia.
— Ok, me dê seu número. — Ela se inclina para pegar o telefone dele na mesa, mas é mais rápido e o guarda no bolso.
— Não precisa, Valéria. — Ele se levanta e estende a mão para mim.
Fico parada por um segundo e olho para a mão estendida. Observo Valéria indignada e aceito a gentileza. E então é como se doze anos não tivessem passado quando a pele dele encosta na minha. Sei que não sou a Ana Carla ou a Minnie. Sou só eu ali. De novo.
Meu irmão e minha amiga logo aparecem, se despedem rapidamente de Valéria e vamos os quatro para o lado de fora do restaurante.
— Amanhã teremos ensaio de dança. — Sofia diz animada. — Espero que não tenham bebido muito.
— Ensaio de dança? Para quê? — Pergunto, nervosa.
— Vocês são padrinhos, por Deus. — Ela insiste. — É só uma dança que queremos ter com todos os padrinhos e madrinhas.
— É mesmo preciso? — Choramingo.
— Sim, é preciso. Amanhã às 9 horas da manhã.
Volto a olhar para que está do meu lado.
— Vai precisar de uma dose extra de café. — Ele comenta sorrindo.







Bogotá, Colombia, 2024

Acordo mais atrasada do que o planejado, mas a culpa não é de todo minha e sim das taças de vinho que tomei na noite passada e minha pouca capacidade de ouvir o despertador tocar. Levanto rapidamente da cama quando vejo que são oito e meia da manhã e não estou nem perto de estar pronta.
Saio correndo para o banheiro e meu cabelo está no pior estado possível, prendo em um rabo de cavalo alto, lavo meu rosto e agradeço por ter tido o discernimento de ter tomado banho e feito a minha skin care completa na noite anterior, pois podia estar, muito, muito pior. Não dá tempo de fazer nem uma maquiagem simples, só de escolher o jeans mais confortável que tenho e uma camiseta de uma banda de rock alternativa que nem lembro se ainda ouço.
Saio do quarto e vejo que Sofia e Pedro não estão no apartamento o que prova que estou muito, muito atrasada. Não dá tempo de comer nada, peço um carro pelo aplicativo e em quinze minutos ele está me esperando.
O trânsito de Bogotá como sempre não me ajuda, e em cada sinal vermelho que o carro para eu tenho vontade de desaparecer. Eu sou tão pontual quanto consigo e estar atrasada para uma atividade tão importante para minha melhor amiga e meu irmão não é a melhor sensação do mundo e me sinto culpada. Muito culpada. Mexo no celular nervosa e mando uma mensagem para Sofia dizendo que já estou chegando, ela responde no mesmo minuto e ficamos conversando até que o carro para em frente ao estúdio de dança.
A fachada é colorida e tem uma placa bem grande com o nome do estúdio. Agradeço o motorista e entro no espaço que preza pelo maximalismo na decoração com quadros de Arte Deco, misturado com influências latinas e letras de músicas famosas de bachata. O vermelho e o branco são a maioria, e apesar da explosão de informação,,, eu gosto. A recepcionista me leva até a sala ampla em que os professores, meu irmão, minha cunhada e uma série de pessoas que conheço me esperam ansiosos. Os padrinhos estão em pares e sobra apenas Javi que imagino que é o meu par.
— Finalmente, . — Sofia diz com os braços cruzados.
Minha amiga está impecável com o vestido florido, saltos baixos e o cabelo no mesmo rabo de cavalo que eu, mas que de algum jeito parecem mais arrumados.
— Desculpa, amiga. — Murmuro baixo, me sentindo observada.
— Não tem problemas, estamos formando os pares. — Ela diz sorridente com um tom de voz quase maternal.
Vou até o grupo e paro ao lado de Javi que está sozinho e suponho que ele é meu par, mas Sofia balança a cabeça em negação. Ela refaz alguns pares, coloca Nico com Pamela, uma das primas de Sofia. está no canto da sala com Valéria ao lado e me olha com alguma diversão, seus olhos esverdeados estão ainda mais bonitos do que na noite passada.
— Você — Sofia apontou para que parou de lançar sorrisos embaraçosos para mim e foi até minha amiga.
Vejo Valéria o acompanhar como se fosse um Lulu da Pomerânia adestrado. Os olhos azuis dela estavam atentos às instruções da prima e isso me fez rir baixo.
— Não, Valéria, a diferença de altura de vocês vai ficar péssima no altar e definitivamente não combinam dançando, a fica com o .
Instantaneamente sinto o olhar de Valéria queimar em mim como se eu tivesse alguma culpa. Não me abalo, pois anos de terapia me fizeram saber lidar melhor com os traumas que ela podia me causar. dá alguns passos e está ao meu lado sorrindo e observando Sofia fazer os outros pares.
— Você é boa dançando Bachata? — Ele sussurra no meu ouvido com aquela voz melodiosa que muitas pessoas pagam para escutar ao vivo.
— Péssima. — Respondo e ele ri.
Respiro fundo sentindo meu coração começar a acelerar. Pam, a professora de dança elegante, esguia e com um vestido fluido que acompanha os seus movimentos de forma graciosa, ao seu lado o verdadeiro estereótipo do professor de dança. Ele é alto, cabelos lisos penteados para trás, com calça de alfaiataria e uma camisa preta desabotoada no limite do decente. Eles começam a apresentar passos simples de bachata e de repente me lembro como essa dança exige proximidade e um rebolado que talvez eu não tenha.
— Bachata é uma dança de conexão. — Ela começa e o professor de dança coloca suas mãos na cintura dela. — Vamos começar com passos simples.
Eles começam a se movimentar como se já se conhecessem há anos, as mãos do professor de dança está apoiada nas costas de Pam que rebola de um jeito ritmado e profissional. Ele é firme e suave ao mesmo tempo, e ela é leve e delicada.
Minha garganta seca no mesmo momento em que percebo que vamos ter que reproduzir aqueles passos. Que eu vou ter que reproduzir aqueles passos com .
— Não tenham medo, por favor, vamos começar. — Pam diz.
A música começa a tocar e mesmo que eu quisesse saber quem canta e como a letra soa nesse momento, mas tudo que sei é que parece sensual e convidativa demais. Minha cabeça é um grande vazio em que só habita e suas mãos apoiadas na minha cintura. Por reflexo coloco minhas mãos nos ombros dele. Tudo parece amplificado demais quando sinto o perfume dele tão de perto, suas mãos quentes em mim e aquele olhar que…
Ouço alguns murmúrios que não consigo identificar, mas imagino que são algumas reclamações que ignoro com muito, muito sucesso.
— Não acho que esperam que fique perfeito numa primeira aula. — Ele diz baixinho no meu ouvido tentando aliviar alguma tensão.
Sem sucesso.
— Eu sou péssima dançando. — Respondo no mesmo tom e suspiro alto com o pescoço dele tão perto da minha boca.
Tento desviar meu olhar, volto minha atenção para Pam e o professor sem nome que apresentam o segundo passo que envolve braços e giros demais. tenta reproduzir, mas claramente não sou a melhor parceira de todas. Na loteria do gingado e malemolência em vim sem nada. Zero.
O próximo passo parece mais fácil, pega minha mão e damos um passo para um lado, outro passo para o outro, ele me gira e me traz mais perto do seu corpo, fazendo com que cada célula fique bem ciente de toda essa proximidade e então eu piso no pé dele.
— Desculpa, desculpa. — Eu digo afobada e ele só sorri.
Voltamos ao passo inicial enquanto observo os outros casais na mesma tentativa que a gente. Pedro e Sofia parecem bem familiarizados com os passos e posso apostar que eles tiveram algumas aulas antes.
— Não se preocupe. Está muito melhor do que eu. — Ele diz pegando novamente minhas mãos.
— Não tem a melhor chance de isso ser verdade. — Respondo franzido os olhos e ele me gira mais uma vez. — O máximo que sei sobre danças, aprendi conversando e assistindo pessoas que realmente tem ritmo para criar uma personagem.
arqueia a sobrancelha e gira com precisão. Por causa do passo, é claro. Por causa da dança. Seus braços de repente estão ao meu redor como se tivéssemos abraçados numa naturalidade desconcertante, como se não sentisse a tensão elétrica entre nós.
— Então é por isso que a bailarina do seu terceiro livro é tão convincente? — Pergunta com uma provocação calculada.
Congelo. O olhar dele está fixo no meu e eu tenho certeza que ele sabe. O passo muda, mas não estou prestando atenção, porque nunca nessa vida imaginei que ele leria os meus livros ou que saberia a ordem deles. Claramente não era para isso acontecer, e pela primeira vez no dia me sinto vulnerável.
— Não sabia que lia os meus livros.
Ele ri baixo e voltamos a fazer o primeiro passo novamente junto com os outros casais. Ele tem um jeito brincalhão nos olhos e eu pareço chocada.
— Claro que leio. — Ele diz num tom de obviedade. — Confesso que só os que foram traduzidos para o espanhol, mas…
— Você leu todos? — Pergunto alarmada com a nova informação.
Ele dá de ombros com a confiança que sempre teve confiante quando éramos adolescentes. Do mesmo jeito que era quando me… encantei por ele e de novo me sinto exposta. Ele é tão lindo e inalcançável e eu tão eu de calça jeans e camiseta de banda com uma carreira bem-sucedida que ninguém sabe que tenho.
— Os que foram traduzidos. — Ele me corrige, sem pressa. — Mas o meu favorito é o primeiro.
Planos Impossíveis, meu primeiro livro. O livro é baseado na minha adolescência nômade em que a protagonista se apaixona pelo cara misterioso, que ama artes e música e que parece muito interessante para ela com apenas 15 anos de idade sendo o único que a compreende. No livro eles se tornam amigos, se apaixonam, mas um dia ela tem que ir embora quando ele finalmente tem a chance de viver a carreira que ele sempre quis: a de ator. Anos depois eles se encontram em um aeroporto e relembram as histórias que viveram, ele muito famoso, ela recém divorciada e sem emprego. É um drama da vida adulta, e eu gosto muito dele. Gosto dele porque me vejo na protagonista mesmo que a nossa vida não tenha seguido os mesmos passos. Gosto dele porque o protagonista foi baseado no meu breve encantamento por , desde os olhos verdes, a altura exata, o sorriso aberto e confortável, até trejeitos que ele tinha quando conversávamos. Era óbvio para quem nos conhecia que Martin o personagem principal tinha sido claramente baseado em e na história que quis viver com ele quando era mais nova.
— Eu ainda era uma escritora inexperiente nesse livro. — Desvio do seu olhar que me analisa com cuidado como se quisesse ouvir algo diferente de mim. Torço para que ele não tenha lido demais nas entrelinhas. — Com certeza os outros são melhores do que esse e…
— Ainda assim, eu gosto da escrita desse livro. — Ele diz com muita certeza. — Talvez porque eu tenha conhecido alguém parecida com a protagonista.
Um calor sobe pelo meu pescoço. Exposta. Me sinto mais exposta ainda. Me desequilibro em sua frente e ele me segura pela cintura.
— Cuidado. — Ele sorri. — Senão vão achar que eu danço melhor do que você.
— Isso ainda não foi comprovado, apesar de ser fácil de perceber. — Dou de ombros.
— Não seja assim, . — Ele me puxa para mais perto suavemente e meu coração idiota acelera. — Aceita o elogio. — E sussurra de novo no meu ouvido me deixando arrepiada.
Meu cérebro tenta processar a proximidade e o elogio ao mesmo tempo.
— Bem… obrigada. — Respondo, me recompondo.
O passo seguinte exige que fiquemos de frente um para o outro de novo. Ele me gira e faz com cuidado e de um jeito firme, suas mãos voltam a me segurar e me sinto confortável. Quando ele me puxa de volta para próximo do seu corpo, desvio rapidamente o olhar.
— Oh. Isso foi quase bom. — Ele comenta.
— Quase? — Devolvo num tom divertido. — Não acho que seja tão melhor do que eu. — Digo tentando recuperar a situação.
Ele me analisa por alguns segundos e apenas sorri balançando a cabeça de um lado para o outro.
— Gosto da sua modéstia, Mariquita.
— É uma das minhas melhores qualidades.
A música termina e demoro alguns segundos para perceber e quando isso acontece largo rapidamente a mão de quando percebo que seguro por mais tempo do que o necessário. Sou observada por Sofia que está cheia de sorrisos e já imagino o que se passa por aquela cabeça tão cheia de ideias. Pam e o professor voltam a fazer demonstrações dos passos e tudo me parece igual demais, acho que Bachata é questão de técnica, vontade e um bom parceiro de dança e naquele momento eu só precisava de técnica.

xx

Me sinto exausta quando a aula termina, não tanto por meus pés que não estavam acostumados com tanto esforço, mas sim por conta de todas as emoções que apareceram por estar tão perto de e seus olhos que ainda sinto em mim.
Corro para pegar minha mochila que coloquei de qualquer jeito no canto da sala quando cheguei e observo as pessoas interagirem, Pedro e Sofia como bons anfitriões parecem tomar conta de tudo. Valéria se aproxima de , é claro. Ele sorri como se não tivesse me desequilibrado minha manhã inteira.
Sofia caminha lentamente em minha direção depois de agradecer aos professores. Ela enlaça seu braço no meu e me diz baixinho.
— Hoje no almoço será só nós duas. Acho que precisamos conversar.
Tento ignorar o subtexto que se desenrola com o que ela fala e apenas concordo. Ela dá risinhos baixos e diz para Pedro que vamos sair juntas, ele não discute e apenas ergue a chave do carro para ela, que sai dando pulinhos animados.
O carro de Pedro é grande demais para Sofia, mas ela parece combinar perfeitamente com ele. Me sento no banco do passageiro e ela coloca em uma rádio de notícias que me faz lembrar do meu pai.
— E então… — Ela começa com seus olhos curiosos e o sorriso que não sai do seu rosto.
— E então o quê? — Me faço de desentendida.
— Pelo amor de Deus. — Ela diz impaciente. — Você e o . Aquela dança. Aqueles olhares.
— Ah, isso… — Finjo me lembrar o que aconteceu minutos atrás e meu estômago dá uma volta. — Não foi nada demais, apenas dançamos.
— Claro. — Ela estica a vogal não acreditando em cada palavra que disse. — Muito normal numa aula de dança as pessoas ficarem de risinhos e sussurros ao pé do ouvido.
Suspiro alto e abaixo o som do rádio por que de repente me irrita.
— Ele só foi educado e simpático, você sabe que ele é assim.
Sofia assente.
— Sim, ele é assim, mas pelo menos de fora não parecia ser só educação.
Volto a olhar para janela como se eu pudesse fugir daquele assunto que por tanto tempo ignorei com sucesso, devo dizer.
— Não aconteceu nada, Sofi. — Garanto. — E mesmo que tivesse, talvez tenha sido mais por diversão do que por algo sério. Somos adultos agora.
— Eu não acredito muito nisso, mas tudo bem, — Ela se dá por vencida decidindo não entrar nesse campo minado que eu mesma criei.
Bogotá acontece pela janela e me atento a observar os detalhes da cidade que tanto amo, passamos pelo parque Simón Bolívar e lembro do meu primeiro beijo com Pablo, um intercambista peruano que se sentia tão sozinho quanto eu. Uma boa lembrança de um tempo muito mais fácil.
— Vamos num restaurante perto da universidade, é de comida colombiana e você vai amar.
O silêncio confortável logo acaba.
— Se tiver comida eu sei que vou amar.
Nós rimos e ela faz uma manobra certeira com o carro seguindo um caminho que não me lembro muito bem. Sofia faz uma curva com precisão e acelera um pouco.
— Você pode dizer que não significou nada, mas eu sei que esse reencontro significa alguma coisa.
Eu finjo não escutar, mas eu sei que ela está certa.






Bogotá, Colombia, 2010

Nunca gostei de assistir filmes de terror, a sensação de algo que está fora do meu controle e que pode me assustar a qualquer momento sempre me incomodou. Principalmente os filmes que tinham roteiros envolventes e bons atores que faziam tudo parecer real. Tentei fugir a todo custo de ter que ver um filme dos anos 90 numa sala cheia de adolescentes, mas meu irmão e Sofia insistiram que minha presença era essencial, mesmo que eu tivesse rejeitado a ideia muitas vezes.
Estava escuro e frio do lado de fora da minha casa, meus pais tinham saído para jantar e nos deixado sozinhos. Espalhados na sala de estar estavam, Nico, Javi, Sofia, Valéria, Gabriel, e eu. A pipoca já tinha acabado faz tempo e o refrigerante também, os meninos faziam piadinhas o tempo todo e eu e as meninas nos assustávamos com muita frequência cada vez que o homem com a serra elétrica corria atrás dos pobres campistas que não eram muito atentos. Javi e Nico se divertiam fazendo comentários inapropriados que eu ignorava com sucesso, me afundando no sofá cada vez que uma cena de susto acontecia, no geral eu conseguia me controlar bem com minha versão blasé.
Até porque Valéria chamava atenção toda para si, ela gritava, se agarrava em quem estava mais perto e pude jurar que vi algumas lágrimas saírem dos seus olhos. Em uma dessas vezes ela agarrou Gabriel com tanta força que ele reclamou.
— Valéria, pelo amor de Deus, eu não quero sair machucado!
Os olhos deles estavam arregalados e ela só soltou uma risada nervosa para repetir o ciclo. Tentei parecer indiferente e enterrei meu rosto em uma das almofadas quando a cena ficou um pouco mais sangrenta, fechei meus olhos e tentei ignorar todo esse terror.
Eu teria uma séria conversa com Sofia depois, tudo isso era culpa dela. Antes de sermos amigas eu conseguia fugir muito bem de encontros com os amigos de Pedro, era só me trancar no meu quarto e recusar qualquer convite do meu irmão. Mas depois de Sofia isso não acontecia mais, pois ela parecia achar meu irmão e seus amigos interessantes, inteligentes e até engraçados.
— Valéria não duraria três minutos na vida real. — Nico diz depois de mais um surto da prima de Sofia.
— Vai se ferrar, Nico. — Ela mostra o dedo do meio para ele que só ri.
— Não fala assim. — Sofia defende a prima, mas também ri.
A chuva fica mais forte do lado de fora e eu me afundo mais no sofá reparando minha amiga cada vez mais inclinada em direção ao meu irmão que mesmo no escuro parecia observar cada reação dela. Era cada vez mais óbvio que alguma coisa aconteceria.
Outra cena de susto. Volto a fechar meus olhos enquanto escuto os meninos rirem e o som da televisão ficar mais alto, a personagem que está sendo destroçada grita, Valéria também e Gabriel reclama dos seus arranhões.
Fechei meus olhos e foi aí que senti:

sussurrou em meu ouvido e meu coração começou a bater acelerado por causa do susto. Abro meus olhos num impulso e consigo ver o assassino finalizar outra vítima e dessa vez sou eu quem dá uma de Valéria. Me agarrei nos braços de que riu baixinho.
Tenho a sensação de que ninguém presta muita atenção em nós.
— Eu só ia perguntar se você quer mais refrigerante, mas acho que te assustei mais do que o filme. — Ele murmura e deixa escapar um sorriso divertido.
Sinto minhas bochechas corarem quando o encaro e o vejo com um sorrisinho esperto no rosto. Me apresso em soltar o seu braço, me ajeitando melhor no sofá e garantindo de fato que ninguém tenha reparado na gente.
— Não quero, obrigada. — Sussurro de volta ainda sem graça.
— Mas eu quero. — Ouço Nico dizer. Depois Gabriel, Pedro e Sofia fizeram coro ao pedido.
— Acho que não se importa de perder parte do filme e ir me ajudar, não? — Ele pergunta.
Não me nego em acompanhá-lo, qualquer coisa para sair da frente daquela televisão.
Assim que passo pela porta da cozinha a fecho para evitar escutar os sons assustadores do filme. O clima ali está mais aconchegante, por mim passaria o resto da noite ali mesmo. Vou até a bancada e começp a abrir a geladeira em busca de bebida, do canto de olho vejo preparando as pipocas no micro-ondas. Encho uma quantidade suficiente de bebida em seis copos diferentes, percebo que ele me olha com atenção e me sinto nervosa instantaneamente. Na época eu não sabia, mas deixei que ele me analisasse com aqueles olhos verdes atentos.
— Você não curte filmes de terror, né?. — Ele diz depois de alguns segundos de silêncio.
— Eu odeio! — Respondo rápido demais. — A história da maioria deles é pedante que se garantem com trilhas sonoras assustadoras e cenas impactantes que assustam pessoas como eu. — Dou de ombros e me arrependo no mesmo instante que o vejo rir.
— E quais são os filmes que valem a pena o seu tempo? — Ele arque-a uma sobrancelha.
Troco o peso do meu corpo do pé esquerdo para o direito. Eu estou apoiada na bancada da cozinha, mas sinto que posso cair a qualquer momento só com o olhar dele. Estar apaixonada adolescente é patético, mas em minha defesa, meus hormônios estavam a todo o vapor naquela época.
— O meu filme favorito é O Segredo dos Seus Olhos, eu gosto da complexidade, do roteiro, dos atores, do final…
— Eu amo esse filme e o jeito que as coisas acontecem, o passado, o amor não correspondidos, eu amo essa história. — Ele responde para minha total surpresa.
Acho que o olho com uma cara assustada, pois lembro de tê-lo visto dar uma risada baixa.
— É sério? Eu pensei que você gostava mais de filmes de ação, acho que combina com você, sei lá… — Dou de ombros.
— Sério mesmo? — Ele pergunta e nós dois rimos. — Eu gosto de coisas mais profundas do que Velozes e Furiosos, Ana. — Ele sorri.
— Do tipo?
— Ah, eu gosto dos filmes do Darín também, gosto de música, na verdade eu gosto muito de música.
— Eu sei. — Ele volta a me olhar e logo continuo para não parecer tão esquisita. — Meu irmão… Ele diz que tem pensado em montar uma banda.
Eu posso também dar a desculpa de que o vejo tocando nos eventos da escola, mas pareceu creapy demais na época. E também essa foi a nossa primeira conversa de verdade que tivemos, apesar de viver na minha casa por causa da amizade com Pedro. Eu não admitiria na época, mas eu amava ver minha casa cheia aos finais de semana por causa dos gritos deles assistindo futebol, os jogos de videogame o quando discutiam com Sofia algum assunto idiota.
— Sim, eu quero muito, eu acho que nasci para fazer isso. — Ele dá de ombros e sorri.
— Quando você for famoso e encher estádios, espero que se lembre de mim… quer dizer, de me dar ingressos para ir te assistir.
Ele dá uma risada baixa e se aproxima lentamente de mim. Naquela época tínhamos uma diferença de altura considerável, mas eu gostei da aproximação.
Mas antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, Valéria abre a porta rápido demais.
— Vocês foram fabricar bebidas ou o quê? — Ela diz com a voz esganiçada.
Ele se afasta rapidamente de mim e só então percebo o quão perto nós estávamos. Ele força um sorriso para Valéria e eu sinto meu coração bater rápido, talvez pelo susto.
— Não, já está tudo pronto. Vamos? — Eu digo, pegando as bebidas e deixando os dois sozinhos na cozinha com o meu coração batendo feito louco.





Bogotá, Colombia, 2024

Cintia, minha editora, me enviou pelo menos cinco mensagens nas últimas vinte e quatro horas. Eu a estava ignorando por um simples motivo: ainda não tinha um livro. A ideia dançava na minha cabeça e os personagens começavam a aparecer, mas a história ainda estava nublada. Geralmente começa assim, e minha racionalidade só me dizia que tudo o que eu preciso é tempo.
Mas tempo é tudo o que eu não tenho!
Me obriguei a ficar presa no quarto de hóspedes do apartamento de Sofia e Pedro o restante do dia. Eles entenderam quando eu disse sobre o prazo de entrega dos primeiros capítulos, claro que não contei sobre meu fracasso como profissional ou a minha falta de capacidade de escrever um decente parágrafo inteiro que fosse realmente bom.
Posicionei uma xícara inteira de café quase frio à minha frente, meu caderno de anotações e meu computador aberto. O cursor pisca, esperando que eu comece a escrever alguma coisa, qualquer coisa. Respiro fundo antes de escrever a primeira linha.

“A pior parte de começar de novo é saber como percorrer o caminho. Algumas histórias nunca morrem de verdade, e mesmo que a gente tente ignorar, rever memórias ou simplesmente deixar em uma caixinha guardada num lugar escuro, quando elas surgem não há maneira de fugir.”

Era o começo.
Um começo que eu queria apagar porque não parecia bom o suficiente.
Como uma escritora que não é iniciante, eu sei que, mesmo que não tenha gostado desse começo, eu continuaria daí. É só um rascunho. Talvez eu escrevesse, talvez eu odiasse cada palavra, mas era um processo: uma hora a história ia se revelar bem na minha frente e tudo faria sentido.
Volto a atenção ao meu texto e tento não me autossabotar. Continuo o parágrafo com primeiras frases impactantes, apresento a ambientação de um primeiro capítulo e fecho o computador quando percebo que não vou conseguir sair das poucas palavras que escrevi.
Bloqueio criativo é uma coisa real. Muito real, mas não posso me dar o luxo de não publicar um livro que já está com um contrato assinado. Prometo para mim mesma que vou parar só 5 minutos.
Pego meu celular nesse momento, e é quando a tela se acende com uma mensagem de Sofia.

Sofia: Estamos naquele restaurante que você ama. Tem certeza que não quer vir?

Me jogo de qualquer jeito na cama e pondero alguns segundos antes de responder.

Eu: Milagros?

Eu preciso muito do risoto de cogumelos desse lugar. Se eu amo uma coisa em Bogotá mais do que as memórias de dias felizes, a arte, as cores e o clima que aprendi a gostar é a variedade culinária. Não que eu não tivesse tudo isso na minha cidade, mas era diferente e quase nostálgico estar de volta, e essa sensação de cores, cheiros e gostos me invadisse num abraço caloroso. Era quase injusto que isso acontecesse no meu processo de escrita de um livro.

Sofia: Sim! Eu já tinha feito reserva antes. Dá tempo ainda de almoçar com a gente.

Eu: “A gente” quem?

Sofia: Pedro, Valéria e… .

Reviro-me na cama tentando me concentrar em alguma coisa.

Eu: Ainda nem terminei. 🙁
Eu: Espero que tenham conseguido fechar com todos os fornecedores.

Sofia: Sim, e sabe o que é melhor? O bolo é realmente muito bom.

Fico feliz pela Sofia que agora parece mais confiante. Os últimos dias foram agitados com o cronograma do casamento e todo o drama da floricultura com as Astromélias e Hortênsias, além da tentativa de convencer seus irmãos a chegarem a tempo para o casamento.

Eu: Prometo que vou te ajudar nos próximos dias, tudo bem? Só preciso me organizar hoje.

Sofia: Eu sei. Sem drama, meu amor!
💕

Bloqueei meu celular; já tinha passado 5 minutos.
Me concentrei em escrever os dez capítulos que precisava entregar prontos em sete horas, antes que Cintia enviasse a polícia atrás de mim.
Eu precisava focar.
Aos poucos sinto que o texto vai ganhando vida junto com os personagens, e a insegurança vai diminuindo conforme meus dedos deslizam pelo teclado do computador e as frases se transformam em diálogo. Estou num fluxo criativo que não me permite perceber há quanto tempo estou escrevendo e esse era um dos momentos que eu mais gostava em todo o processo de escrita.
Não me dei ao luxo de olhar no relógio: tinha conseguido encontrar a personagem principal que, evidentemente, se apaixonaria pelo moreno misterioso de olhos bonitos e sorrisos fáceis que, claro, iam se odiar à primeira vista. Eu estava precisando de um clichê e acho que meus leitores também, e eu sou a mulher dos romances, então quando a história se faz na minha frente eu simplesmente aceito. Minha mocinha parecia ser bem decidida e mimada, sarcástica e inteligente.
Enquanto me perdia nesse novo universo, ouço alguém bater na porta o que me faz erguer os olhos. Deve ser Sofia, abaixo a tampa do meu computador e me levanto rapidamente.
— Posso? — Ouço a voz dele antes mesmo de eu abrir a porta.
Abro, surpresa. Ele está parado à minha porta com um sorriso preguiçoso e com uma embalagem de papel pardo, com um cheiro inconfundível.
— Sofia comentou que gosta do risoto de cogumelos do Milagros, pensamos em trazer uma porção pra você.
Droga. é o tipo certo de mocinho de histórias de romance. Evito um sorriso muito largo quando esse pensamento me aparece, não posso me basear nele para criar outro protagonista. Mas quando ele sorri assim pra mim, ou para qualquer pessoa, na verdade… a tarefa de não fantasiar com…
— Imaginamos que poderia estar com fome. — Ele pisca.
Só então percebo que ainda não disse nada. Me recomponho e o agradeço.
— Você meio que acaba de salvar o meu dia.
Aceito o saco com a comida que ele estende para mim. Ele entra no quarto de hóspedes sem precisar de um convite.
O quarto está mais desorganizado do que o normal, mas agradeço mentalmente à de três horas atrás por ter tirado o pijama e colocado uma roupa mais apresentável. Ele senta em uma poltrona enquanto me observa abrir a embalagem com algum cuidado.
— Conseguiu escrever alguma coisa? — Ele pergunta com aquele mesmo tom de voz que usava quando éramos mais novos, como se de fato quisesse me ouvir.
— Uns três capítulos. Inteiros. Bons? Não sei ainda. — dou de ombros.
Ele ri. E eu lembro como gosto da risada dele.
— Eu vou poder ler? — Arqueia uma sobrancelha como se me desafiasse.
Volto para a cadeira que é minha companheira e desembalo o risoto que ainda está quente. Faço uma nota mental de ir até o Milagros para provar outras comidas do cardápio.
— Talvez quando estiver pronto. — Dou a primeira garfada na minha comida.
O vejo torcer o cenho.
— Talvez? Me parece um pouco como uma rejeição antecipada, Mariquita. — Ele tenta fazer uma expressão ofendida, mas seu sorriso o delata.
— Autopreservação. — Eu o corrijo. — É uma besteira, mas tenho vergonha de pessoas que conheço lerem o que eu escrevo.
Ele acena brevemente e dá uma risadinha, como se entendesse. Me pergunto se isso acontece também com as músicas que ele escreve, que parecem pessoais demais.
— Eu sempre gostei do jeito que você escreve. Acha que eu queria fazer os trabalhos de literatura com você por qual motivo?
Ele arqueia a sobrancelha esquerda e eu sinto meu rosto corar violentamente.
— Posso te mandar um exemplar assinado, para que possa ler durante os intervalos da sua turnê mundial de sucesso.
Ele abre um sorriso, e eu dou uma garfada na comida para desviar minha atenção da boca dele.
— Eu vou adorar, primeira edição e exemplar, certo?
— Quer seu nome nos agradecimentos também?
Devolvo com outra pergunta, com um ar de provocação que não sei bem de onde surgia. Ele dá uma risada e não desvia os olhos, se ajeitando melhor na poltrona.
— Claro, se não fosse eu te alimentando com esse risoto, muitos leitores iriam ficar sem livro?
— Justo. — Aceno, concordando. — Esse risoto vai ter dois parágrafos inteiros de agradecimento.
Ele olha para o chão e dá um sorriso do tipo que tenho que desviar de volta para minha comida porque é um dos seus sorrisos perigosos demais. Ficamos alguns segundos em silêncio.
Um silêncio confortável.
Um silêncio que era meio nosso.
— Sei que está no meio do seu processo criativo. — Ele olha para mim enquanto como e parece um pouco satisfeito. — Mas se quiser dar um tempo do trabalho amanhã… tem uma das bandas que o Pedro me pediu para dar uma olhada por causa do casamento… eles vão se apresentar e pode ser legal.
Levanto os olhos do meu prato interessada com o que ele está dizendo. Parece e soa como um encontro, mas será mesmo?
— Onde vai ser?
Ele me analisa alguns segundos antes de dizer alguma coisa, ele parece lembrar de algo.
— No mesmo bar que eu tive minha primeira briga. Por sua causa, aliás.
Arregalo meus olhos com a vaga lembrança que invade meus pensamentos: a versão de mais jovem, sem barba, cara de menino certinho nerd empurrando um cara mais velho bem mais alto que estava bêbado de verdade.
— Espera… Você não tinha sido expulso do bar? Tipo pra sempre?
Ele baixa os olhos e ri. Gosto de vê-lo assim, ele parece mais bonito.
— Pois é. — Ele dá de ombros. — Mas fiquei famoso o suficiente para que o dono do bar tenha uma breve amnésia toda vez que me vê. E no final, eu fui um herói naquele dia…
Inclino minha cabeça para o lado e franzo os olhos.
— Eu só lembro do seu olho roxo e a sua pouca dignidade indo embora quando o segurança expulsou você, o Pedro, a Sofi e o resto do grupo todo. — Provoco.
— Pouca dignidade? — Ele repete minha fala, indignado. — Eu defendi a sua honra, Mariquita!
— Oh, meu herói.
Dramatizo e nós dois começamos a rir.
— Não sabia que frequentava esse bar ainda, há tantos lugares mais legais em Bogotá.
— Teimosia, eu acho. E a cerveja de lá é bem mais barata.
— E ruim. — Completo.
— Ok, ok… — Ele dá de ombros. — Mas o convite continua, se quiser sair para se distrair com uma cerveja ruim, uma banda que nem sei se é boa e um velho amigo que promete não terminar a noite de olho roxo… é só me mandar mensagem.
Sorrio e tento não sorrir de um jeito idiota demais. Sinto que minhas bochechas podem começar a doer e me controlo. Quero aceitar, mas a droga do prazo do livro começa a piscar na minha cabeça.
— Prometo que se precisar de uma distração, você vai ser a primeira pessoa que eu vou chamar.
Minha frase sai num flerte que nem percebo de primeira, só quando ele não responde nada e apenas se levanta da poltrona para ir embora com um sorriso pequeno nos lábios. Ele se despede com um aceno leve me deixando com um sorriso bobo, teimoso e adolescente no rosto.
Coloco a comida de lado e me concentro em voltar a escrever sobre o moreno de sorriso fácil, misterioso e de que algum jeito fica mais fácil de descrever.





Bogotá, Colombia 2024

Eu sei que não deveria fugir dos meus pais.
Na verdade, não sei bem do que estava fugindo, mas quando Sofia e Pedro disseram que iam buscá-los no aeroporto, eu mandei uma mensagem para dizendo que o acompanharia na escolha da banda para o casamento. Eu sei que me autoconvidei para muito provavelmente ir com ele a um bar, rodeada de álcool, luz baixa e um folkizinho colombiano de uma banda que toca em casamentos. Mas encarar os olhos de expectativas do meu pai era pior do que lidar com a Cíntia me cobrando prazos que eu sabia que não ia conseguir cumprir.
Meus pais desde sempre me apoiaram, e talvez esse tenha sido o erro deles, porque muita expectativa foi criada sobre mim. Vira e mexe, minha mãe comenta como quem não quer nada sobre uma vaga em um emprego chato e numa empresa mais chata ainda, de uma das suas amigas, que precisa de alguém de confiança para um cargo que nem existiria se não fosse um favor.
responde a minha mensagem e pergunta se precisa que ele vá me buscar, respondo que não, e ele apenas me passa a direção do bar que já frequentei mais vezes do que minha memória lembrava. Sofia entra no quarto no momento em que estou escolhendo uma roupa na mala pequena que trouxe, ela me observa com um sorriso irritante que já conheço bem.
— Vai toda arrumada pra onde? — Ela pergunta, apesar de saber muito bem.
Tiro uma camisa bonita de cetim da mala e pondero. Sofia torce o cenho e sei que aquela não é uma boa escolha. Então tiro um vestido preto fluido da mala e recebo a aprovação da minha amiga.
— Você já sabe aonde eu vou.
Ela ergue a sobrancelha, claramente se divertindo.
— Pra mim está com cara de encontro.
Solto uma risada curta e vejo minha amiga se jogar na cama como se fosse uma adolescente.
— Mas não é.
— Claro que não, vocês dois sozinhos, num bar escuro, música calma, uma cerveja aqui, uma água ardente ali, depois uma mão que escapa aqui, e pff..
Começo a dar risada e jogo a blusa de cetim na cara dela, que começa a rir.
— Só estou dizendo que mais do que o vestido certo, talvez devesse escolher a lingerie certa.
O olhar malicioso de Sofia me faz olhar com indignação para minha amiga e suas suposições fantasiosas. Ela apenas ri, encarando o teto do seu próprio quarto de hóspedes. Abro minha bolsa de maquiagem e em poucos segundos decido que vou fazer a mesma de sempre, a do dia a dia que aprendi a fazer depois da minha primeira sessão de autógrafos. Era simples e eficaz, um delineado mais elaborado com uma sombra mais escura que meu olhar mais misterioso e um batom quase da cor da minha boca.
— Ana, você está bem com a vinda dos seus pais? — Sofia pergunta de repente.
— Claro que sim, só não estou pronta para as expectativas da minha mãe. — Suspiro e me sento na beirada da cama. — Mas isso não importa, vamos pensar no seu casamento com o amor da sua vida que estranhamente é meu irmão, e fazer dar tudo certo sem que você precise surtar.
Sofia segura minha mão de leve.
— Mas eu sempre vou ter tempo para suas questões, você sabe, não sabe?
Assinto com um sorriso de lado porque eu sei que é verdade, apesar do drama infantil que estou fazendo. Sou uma mulher de quase 30 anos com medo de que meus pais me achem uma fracassada, mesmo que eles nunca tivessem dito isso de verdade.
— Eu só preciso de coragem antes de ver a Dona Leonor. Amanhã já vou estar cem por cento pronta!
— Depois de trocar uns beijinhos com o .
— Cala boca, Sofia. — Digo, rindo.
Ela se levanta da cama, me dá um abraço rápido. Termino de me arrumar colocando o vestido que Sofia aprovou e um perfume leve. Antes de sair, me olho no espelho algumas vezes. Penso em refazer o delineado, refazer toda minha maquiagem e escolher uma roupa casual, como se não me importasse muito com aquela noite. Paro no meio do caminho quando percebo a hora e lembro da minha mãe dizendo que não existe “estar arrumada demais” para qualquer lugar.
Pego um táxi até o bar que sempre íamos quando éramos mais novos e que fingiam não perceber que éramos menores de idade descobrindo o álcool. As paredes de tijolos aparente ainda estavam iguais, o pequeno palco no fundo do bar também, uma banda fazia a passagem de som no espaço que estava ainda vazio no começo daquela noite. Noto no canto com a mão erguida perto do palco.
Ele está com uma calça de alfaiataria preta e uma camiseta igualmente preta, tudo nele tem um ar meio misterioso e cool, com a jaqueta de couro certa, a barba por fazer e aqueles olhos…
— Você veio mesmo. — Ele me cumprimenta com um beijo rápido no rosto, e não me lembro quando fomos assim. — Você está bonita.
Ele diz depois de se afastar e me analisar com um cuidado que me deixa sem graça. Não sei lidar muito bem com elogios, então só inclino a cabeça e sorrio.
— Você também, o que houve? — Ele franze o cenho confuso e eu continuo. — Pediu ajuda para sua stylist pessoal? — Provoco, apontando para ele.
Ele ri, ajeitando a roupa um pouco convencido de si mesmo.
— Achei que merecia o esforço.
Pisca em minha direção, e nesse momento pondero as formas que aquela noite pode terminar.
— Vamos pedir alguma coisa para beber?
Ele pergunta e depois chama o garçom, que esta um pouco atarefado com o bar que começa a encher, jogo no seguro e peço uma cerveja sendo acompanhada por ele. Ficamos alguns segundos em silêncio observando a banda que se prepara para entrar no palco. Eu consigo ver os músicos, que ainda não tem senso estético algum, se posicionam, o vocalista tem um charme de quem tem a voz principal e a confiança de se apresentar em público com a roupa colorida demais para uma banda indie. O baterista meio blasé com seus cabelos compridos e roupa de skatista parece não querer estar naquele bar, e o baixista, bem, ninguém repara muito em baixistas, mas esse parece meio nerd e esportistas do tipo que no primeiro encontro diz que quase se tornou jogador de futebol, mas por causa de uma fratura no joelho, não pôde e por isso agora se dedica à contabilidade e à música.
No meio de toda essa minha análise, percebo se aproximar de mim, estamos lado a lado em uma mesinha um pouco mais alta e em bancos bem desconfortáveis, tento não superanalisar cada movimento dele depois que percebo que ele só se aproxima de mim para dar mais espaço para o garçom se locomover pelo bar. Tento prestar atenção na banda do vocalista carismático que está quase parecendo um cover hippie e sem sapatos do The 1975 com um toque colombiano e amor adolescente.
O garçom coloca nossas cervejas na mesa pequena e vejo ele se aproximar mais.
Meu corpo fica em alerta e eu só tomo um longo gole na cerveja, tento me distrair da sua aproximação.
O vocalista começa com uma música que parece uma versão qualquer do The Weeknd cantada pelos primos numa festa em família, o que não é exatamente ruim. A voz é melodiosa e os instrumentos o acompanham em harmonia. Percebo ao meu lado analisar os detalhes como se fosse bem crítico e cada acorde novo parece tomar sua atenção.
Bebo mais um gole de cerveja quando seu braço parece encostar no meu.
— Sabe… Esse acorde do guitarrista é bem difícil de fazer, mas não combina com a nota que o baixista está tentando fazer. — Ele se inclina em minha direção e sussurra em meu ouvido. Sua respiração bate em meu pescoço.
Meu corpo inteiro se arrepia.
Ele se afasta lentamente e volta seu olhar para o palco. A música parece chegar no refrão e as luzes estão mais baixas como se trouxesse mais intimidade para aquele bar pequeno que não parece mais tão cheio. É como se ele tivesse criado uma bolha.
Uma bolha nossa muito perigosa.
Me aproximo dele, perto o suficiente para sentir o cheiro inebriante do seu perfume, tão masculino e amadeirado, com um toque de sândalo e pimenta rosa que me fariam ficar horas sentindo o cheiro do seu pescoço.
— Com tantas notas erradas, talvez essa não seja uma boa banda para o casamento.
Me afasto quando vejo que ele começa a rir. Tomo mais um gole da minha cerveja e ele me acompanha.
— Achei que você fosse gostar, o vocalista parece uma mistura de Harry Styles com Fito Paez, se bem me lembro, dois dos artistas que você é obcecada.
Essa conversa ao pé do ouvido não era muito segura, mas era bem divertida.
— Obcecada é uma palavra forte demais. — Me defendo e reviro os olhos.
Ele sorri, volta a beber e coloca sua atenção para o palco no mesmo momento que outra música começa a tocar. Essa é mais romântica, melodiosa e quase sexy com notas baixas da guitarra fazendo a introdução como se estivesse seduzindo alguém: definitivamente não ia ser a banda do casamento. Presto atenção no palco também, pois eu preciso desviar o olhar dele, que tem um perfil atraente demais depois de todos esses anos.
É engraçado como tantas coisas mudaram na minha vida, mas o jeito idiota que eu fico quando ele está perto permanece igual. Mas é normal, não é? Era uma paixonite que aparecia vez ou outra que me deixava com borboleta no estômago como se eu tivesse 15 anos de novo me fazendo esquecer que estamos em outro momento da vida. Eu era minimamente reconhecida no meu meio, um dos meus livros estava quase tendo um contrato assinado para adaptação em um streaming, e ele? Bem, ele era uma estrela da música latina que viajava o mundo encantando corações com sua voz e charme.
Uma versão mais nova de nós dois aparecia na minha cabeça enquanto o vocalista cheio de carisma arriscava agudos no refrão romântico. Uma versão que tinha muito mais dificuldade em ficar próxima desse jeito, uma tímida que ainda não sabia exatamente como se comportar com um garoto bonito que se sentava ao meu lado. É engraçado lembrar de como eu não conseguia formar frases completas nas primeiras vezes que nos vimos ou que falamos, ou o jeito que eu não sabia como colocar meu corpo no espaço e sempre me sentia desajeitada demais, talvez nunca tenha mudado completamente, mas agora eu estou mais velha, minimamente mais segura de mim e principalmente: eu sei como esconder o meu descontrole.
Apesar de tudo isso, tem essa mania de bagunçar os sentimentos dentro de mim. Não há lógica em ser a escritora que discute contratos com plataformas importantes, ou alguém que vende milhares de livros quando ele encosta seu braço no meu corpo sem querer.
— Definitivamente essa não vai ser a banda do casamento. — Ele diz próximo demais do meu ouvido. — Esse solo de guitarra foi um crime contra a humanidade.
Eu engasgo de leve com a cerveja com a sua crítica exagerada.
— Parece um daqueles vídeos do Youtube que é tão ruim que não conseguimos parar de assistir.
— Sim, como se tivesse aprendido a escala pentatônica ontem e quisesse mostrar para o mundo.
— Então é um não? — Pergunto e olho direto nos seus olhos.
Percebo que ele vai dizer alguma coisa, talvez mais uma das suas piadinhas que me faz rir, mas uma voz animada atrás de nós o chama:
— Não acredito que seja você mesmo.
Viramos os dois ao mesmo tempo. Uma mulher de cabelos escuros, sorriso bonito e os olhos muito arregalados diz. Ela está com um celular em mãos e parece verdadeiramente emocionada.
— Eu gosto muito do seu trabalho, fui no show da sua banda pelo menos umas três vezes no último ano, podemos tirar uma foto?
Percebo que ela está tremendo. A entendo completamente, se estivesse frente a frente com Harry Styles ou Fito Paez também ficaria desestabilizada. se levanta e gentil como sempre, troca algumas palavras com a mulher. Eles tiram uma selfie e vejo como ele parece ter nascido para isso, para o sucesso. Seu sorriso é autêntico e eu sorrio também feliz em saber que ele conseguiu tudo o que disse que conseguiria nas nossas conversas de madrugada anos atrás.
— Imagino que isso deva acontecer com frequência. — Comento assim que o vi voltar ao lugar.
— Não posso dizer que não. — Ele sorri de lado.
Ficamos alguns segundos em silêncio. Ele dá o último gole na cerveja e me observa por mais tempo do que o normal ponderando alguma coisa. Giro o copo entre seus dedos e então pergunto de forma quase casual.
— O que acha de sair daqui? Dar uma volta na cidade…
É um convite que eu ainda não sei direito o que significa, mas aceito sem pensar duas vezes. A minha versão adulta também parece mais destemida. Ele pega a minha mão e me ajuda a descer do banquinho desconfortável e então saímos do bar para aproveitar a úmida e fria Bogotá.






Bogotá, Colombia 2024

Apesar de ser fevereiro, o clima de Bogotá está fresco mesmo que oficialmente estejamos no verão.
Uma leve brisa faz com que eu abrace meu corpo. Uma outra dica da minha mãe que deveria ter seguido é a de eu não sair sem casaco de casa.
percebe; sem dizer nada ele tira a jaqueta e me entrega.
— Não precisa. — Eu digo.
— Para de ser teimosa. — ele sorri, o que é suficiente para que eu aceite a jaqueta — Já estou acostumado com o clima.
Me sinto uma mocinha de um filme clichê. A jaqueta ainda está quente do corpo dele e com aquele perfume familiar que tento ignorar desde que cheguei à Bogotá. Afasto da minha mente esse detalhe quando ajeito a jaqueta no meu corpo.
— Obrigada.
Continuamos a caminhar pelas ruas já escuras da cidade, que transbordam nostalgia, ou saudade. As luzes neon e os bares com música ao vivo passam por nós enquanto a cidade ganha vida e o trânsito começa a se dissipar, talvez pelo horário. Somos iluminados pelas luzes amarelas dos postes, o que cria um clima quase… romântico, cru e único para quem caminha a pé pela cidade como nós dois.
— Lembra quando criamos um jogo nosso depois que fomos abandonados pela Sofia e o Pedro? — Ele pergunta de repente.
Dou uma risada sem graça porque me lembro muito bem. Aconteceu apenas uma vez, na minha casa, depois do ensaio da banda que tinha recém-montado, ficamos sozinhos enquanto os meninos foram comprar bebidas, e ele propôs que fizéssemos um jogo de perguntas e respostas. Eu aceitei, é claro, e então passamos uma hora inteira decidindo se pandebono ou pão de queijo era a mesma coisa.
— Lembro, um jogo perigoso para duas pessoas teimosas.
Ele estreita os olhos e me observa por alguns instantes antes de falar.
— Já estamos mais velhos, , vamos.. você começa. — Ele diz, despreocupado.
Penso por alguns instantes em algo inocente para perguntar.
— Ok. Qual foi o primeiro álbum que comprou? Com seu dinheiro.
Ele ri olhando pro chão antes de me responder. Eu definitivamente gosto do som da sua risada e do jeito que ele fica toda vez que ri. Poderia escrever três páginas inteiras sobre esse sorriso, sobre as covinhas que aparecem quando é um sorriso de verdade.
— Juanes.
— Sério?
— Sim, eu era obcecado quando era menor.
Eu lembro que era. Era encantador lembrar de quem ele era antes de ser uma estrela da música, admirado por tantas pessoas.
— Sua vez.
— Qual livro te fez querer ser escritora?
Continuamos a andar pelas ruas que começam a ficar mais vazias. Andamos sem rumo, embora eu saiba que depois da esquina há uma loja de discos que também vendia livros e que era o meu lugar favorito na cidade quando era adolescente.
Dom Casmurro. Machado de Assis.
Ele sorri.
— O livro da eterna dúvida.
— O livro de um protagonista paranoico com uma possível traição. — completo — Qual foi a coisa mais louca que fez durante um show?
Ele para e pensa alguns segundos e sorri como se lembrasse de algo.
— Não foi exatamente durante, mas teve uma vez em que a nossa van quebrou enquanto estávamos a caminho de um grande show, e os caras e eu tivemos que pegar uma carona com umas fãs que estavam bem emocionadas em nos encontrar.
Arregalo os olhos apesar de conseguir imaginar exatamente essa cena. cercado de fãs apaixonadas escutando tudo o que ele tem para falar com aquele sorrisinho de lado que ele fazia e que era espertinho demais de um jeito de flertar com o universo que só ele tem e que funciona… sempre.
— Chegaram a tempo?
— Por pouco, perdemos um pouco da hora porque ficamos conversando e tirando fotos com elas.
Ele ri e eu o acompanho e o som das nossas risadas se mistura na cidade que parece silenciosa nesse momento.
— Ok, , você sempre foi muito certinha. Me diz a coisa mais doida que já fez para escrever um livro.
Franzo o cenho, tentando lembrar de alguma história. A realidade é que eu nunca saí muito do comum ou entrei em muitas confusões, sempre fui mais de observar do que viver intensamente, nunca fui muito aventureira, só naquela vez que…
— Viajei sozinha para uma cidade muito pequena, estava no começo da minha carreira e precisava fazer uma pesquisa sobre fazendeiros e fui parar no meio de um festival de música sertaneja, dormi em uma barraca com meninas que nunca vi na vida e participei de um ritual em que precisei pisar em brasa.
Foi a vez de ele arregalar os olhos, surpreso como se eu tivesse participado de algum tipo de culto.
— E conseguiu escrever o livro?
— Não. A ideia ficou engavetada e decidi seguir por outro rumo.
— Você pisou em… brasa?
— Muito, muito rapidamente. — Digo como se eu precisasse me defender.
Ele dá uma risada e me olha como se me admirasse.
Continuamos a trocar perguntas e respostas sinceras demais que não surgiriam se não fosse pelo jogo, enquanto andamos instintivamente até a loja de discos que é também uma biblioteca. É uma caminhada curta, mas que fazemos durar mais. A brisa fria da cidade continua a bater no meu rosto, mas não sinto frio, a jaqueta dele ainda está no meu corpo me deixando confortável.
— Ah, droga! A loja de discos está fechada. — lamento quando chegamos e vemos a placa branca meio torta pendurada na porta de vidro.
— Eu acho que o Dom Antônio não ia deixar a loja aberta num domingo à noite, quase… — ele olha rapidamente para o relógio em seu pulso. — meia-noite.
Dou de ombros e franzo o cenho, pois tinha uma esperança infantil de revisitar aquele lugar.
— Podemos voltar outro dia se quiser… — Ele diz com a voz baixa.
se aproxima mais de mim, não o afasto porque gosto quando estamos próximos, nossa diferença de altura não é muita desde que deixamos a horrorosa puberdade para trás. Sorrimos juntos e um silêncio se instala, antes que ele o quebre.
— Posso fazer uma pergunta? — Ele diz com a voz mais baixa e rouca do que o normal.
— Não era a minha vez? — Arqueio uma sobrancelha e ele sorri.
— É uma pergunta bônus, não seja má.
— Ok, diga…
— Por que você quis me acompanhar hoje?
Ele não me olha quando faz a pergunta, parece uma curiosidade genuína.
Seu olhar está em algum ponto da rua. Demoro algum tempo em responder, parte de mim quer fazer uma piadinha ou dar uma desculpa qualquer, mas minha resposta sai quase ensaiada.
— Para ajudar a escolher a banda do casamento.
Ele me lança um olhar de lado, quase cético. Ele não precisa dizer nada, ele sabe. Dou um sorriso sem graça.
— É verdade. — Me defendo.
Ele continua a me olhar como se não acreditasse. Rolo os olhos e decido ser honesta.
— Ok, eu não estou pronta para ver os meus pais.
Ouch! — Ele coloca a mão no peito de forma teatral. — Meu ego de artista está completamente destruído com essa informação.
Eu dou uma risada e o empurro pelo ombro enquanto ele ri.
— Mas me diz, tão difícil assim?
— Você sabe como eles são. — Voltamos a caminhar sincronizados. — Minha mãe ainda tem planos de que eu tenha uma carreira formal enquanto me dedico à escrita… e meu pai, bem, meu pai ainda não superou que não sou médica, apesar de esconder bem.
Ele assente devagar, como se de alguma forma entendesse as minhas palavras.
— Você nunca poderia decepcioná-los, Mariquita. — Ele diz, quase para si mesmo.
O silêncio fica confortável de novo. Ele se aproxima mais de mim e nossos dedos se tocam, primeiro sem querer, mas depois por escolha, ele os entrelaça com delicadeza como se não quisesse me assustar e caminhamos sem falar nada por uma Bogotá escura, tranquila e de mãos dadas em uma sensação totalmente nova.
— E você, por que me chamou hoje? — Pergunto depois de algum tempo.
Ele sorri sem jeito, de um jeito espertinho.
— Porque eu queria passar mais tempo com você!
A resposta dele é simples, sem disfarce e tão crua que sinto meu coração bater mais rápido. Nos olhamos por mais tempo do que o normal como se fizesse sentido, como se sempre tivesse sido assim e meu corpo gosta dessa sensação. O dedão dele faz um carinho gostoso no dorso da minha mão, e de repente todo o meu corpo se arrepia.
Tento disfarçar, mas acho que ele percebe, pois sorri de um jeito cheio de charme e provocação.
— Então acho que eu posso te ajudar a escolher a banda do casamento. — Digo depois de desviar dos seus olhos.
— Não sabia que além de escritora era também crítica musical. — Sinto o toque de provocação na sua voz.
— Sou a ajudante não-oficial da noiva, logo, preciso garantir que a banda do casamento não vai ser cheia de hippies descalços. — Devolvo como se fosse óbvio.
Ele ri.
— Claro, claro. — Ele me puxa mais para perto e me olha nos olhos. — Não tem nada a ver com passar mais tempo comigo? Nem um pouquinho?
— Claro que não. — Digo desviando o olhar mais uma vez e só então percebo que ainda estamos de mãos dadas.
Solto a mão dele devagar e me sinto idiota por sentir meu corpo inteiro arrepiado, eu não tenho mais idade para fantasiar coisas que não são mais reais, mas quando ele está perto é tão… tão…
Não é à toa que escrevi mais de três páginas sobre ele.
Um livro inteiro, na verdade.
Um livro inteiro descrevendo seus sorrisos, seus beijos e toques e tudo o que eu imaginei. Patética, eu sei, mas não culpo a de 14 anos completamente apaixonada por ele, porque com quase 30 não sei se já superei o jeito que eu fico quando estou ao seu lado.






Bogotá, Colombia 2011

Os livros e cadernos estavam espalhados por toda a mesa da sala cheio de post-its coloridos e marca-textos espalhados com anotações apressadas. Minha mãe tinha ido ao mercado e Pedro e Sofia deveriam estar focados no trabalho de literatura, e não que eu não soubesse na época, mas era evidente que eles tinham outras prioridades do que analisar “As faces do realismo mágico na América Latina”. Não tínhamos escolhido nem os autores, nem como faríamos o trabalho e os dois já tinham evaporado e me deixando sozinha com que já tinha sugerido livros do Gabriel Garcia Marques e Isabel Allende e agora ele separava alguns dos trechos que poderíamos usar para o trabalho.
— A gente deveria ter apostado quanto tempo eles iam aguentar sem sumir. — disse, me tirando a atenção de um dos livros que separamos.
— Dez minutos? — Arrisco sem conseguir olhar para ele.
— Eu apostaria em cinco. — Ele largou o caderno e a caneta de lado e recostou na cadeira daquele jeito despreocupado — E teria ganhado.
Concordei lentamente. Na época meu irmão e minha melhor amiga se esgueiravam pelos cantos e achavam que ninguém percebia, eu não me importava muito, exceto em momentos que eles me deixavam completamente sozinha em grupos de pessoas que eu não conhecia ou como naquele dia com … Desde a conversa que tivemos na cozinha no dia do filme de terror eu só o via nos corredores da escola ou no meu sofá com mais meia dúzia dos amigos de Pedro, percebi algum tempo depois que ele tentava puxar assunto comigo, mas eu era tímida demais para manter uma conversa sem gaguejar… Patética, eu sei.
Quando o professor de Literatura nos pediu para formar grupos e anunciou o tema do trabalho, eu sabia que faria com Pedro e Sofia. Mas quando ele pediu para se juntar eu senti meu coração bater acelerado e eu fiquei em completo silêncio como a boa covarde que era. Foi Sofia, como uma boa amiga se adiantou e o aceitou no grupo e marcou todos os encontros para fazer o trabalho possível, mas como a péssima amiga que era achou mais interessante se embrenhar com meu irmão enquanto eu ficava sozinha e sentia os olhos verdes dele me analisarem como se me puxasse para perto.
— Sabe que vamos ter que fazer esse trabalho sozinhos, né?
Ele faz uma pergunta retórica com um sorriso de divertimento no rosto.
— Ou podemos ser justos e tirar o nome deles do trabalho. — Respondi mesmo sabendo que não teria coragem.
Ele arqueou a sobrancelha como se duvidasse de mim. E estava certo. Eu não queria perder o argumento, já era muita coisa para eu não gaguejar e dizer palavras completas. Logo eu entraria na fase em que a personagem principal para fugir do clichê de estar apaixonada pelo amigo do irmão decide ignorar ele, ou esconder tão lá no fundo que começa a agir tão normal que a paixão acaba ou qualquer coisa que me convencesse disso.
— Não esperava que fosse assim, . — Provocou inclinando-se na mesa. — Pensei que fosse do tipo de garota que não tiraria o nome do irmão e da melhor amiga do trabalho só porque eles não fizeram.
Soltei uma risada curta e o encarei. Lindo. Quase me distraí com os cabelos perfeitamente arrumados e o sorriso de lado que ele me dava. Era realmente difícil me concentrar.
— Ah, é? E como você pensa que eu sou?
Ele me olhou como se eu tivesse o desafiado. Apoiei os cotovelos na mesa e o vi analisar demoradamente meu rosto que ficava instantaneamente mais quente e eu me odiei por isso. Cruzei meus braços tentando parecer mais segura enquanto ele me avaliava.
— Eu acho que você pensa mais do que você fala. — Disse sério, sem desviar os olhos dos meus. — E isso me intriga demais porque às vezes quero saber o que acha da música que tocamos no colégio, enquanto todo mundo tem uma opinião, você não fala nada, só me olha em cima do palco e avalia cada nota, cada movimento no palco com esses seus olhos grandes e escuros e me faz pensar sobre o que achou…
Minha boca secou. Eu não sei se ele esperava que eu disesse algo naquele momento, mas eu fiquei quieta.
— Eu acho que você é inteligente demais para perceber que muita gente quer ser seu amigo na escola, mas se esconde atrás da sua timidez e do seu irmão para não interagir com ninguém, só com o caderno que não deixa ninguém ver.
— Eu só fico nervosa perto de quem eu não conheço direito e… — Me obriguei a responder como se devesse alguma coisa a .
Ele sorri enquanto me observa tentar.
Essa segurança que ele já tinha ainda adolescente era o que me deixava desconcertada. Diferente do que ele achava eu não tinha problema para falar com as pessoas na escola, a verdade era que boa parte delas eu realmente não tinha interesse.
— E… é complicado, eu mudei muito de cidade por conta do trabalho do meu pai, é difícil fazer amizades ou dizer tudo o que eu penso se eu nem sei quanto tempo vou ter aqui.
Ele franziu o cenho, talvez um pouco confuso.
— Pedro me disse que ficariam aqui pelo menos até terminar a escola.
— Eu quero acreditar que sim, mas antes de vir para Bogotá nós morávamos em Santiago com a promessa que aquela seria a última cidade e antes disso foi Punta Del Leste, e antes… Rio de Janeiro.
— Deve ser mesmo difícil criar raízes quando se muda tanto assim de cidade, de país…
— Sim, eu às vezes tenho dificuldade em me achar no meio dessa confusão, eu tento lembrar o que é minha cultura e o que eu trago na bagagem por ter morado em tantos lugares diferentes. — Suspirei. — Não é de todo ruim, eu sei diferenciar o mate uruguaio do argentino, aprendi a amar Sopaipillas e pra mim praia não é praia sem biscoito de polvilho, mas no meio de tudo isso eu acho que eu me perdi um pouco. Então eu fico quieta, aprendo, escuto e sinto medo de me apegar demais e ter de deixar para trás de repente.
Seu olhar recaiu sobre mim sem dó, senti que ele me escutava de verdade sem julgar ou achar bobo.
Vicente , quer ser minha amiga e poder dizer que minha banda é maravilhosa sem ter medo de ir embora em uma semana?
Ele puxou minha mão esquerda com um sorrisinho de lado convencido e tão sincero que me fazia tremer e faz um gesto exageradamente solene.
— Se formos amigos de verdade, vai ter que me ouvir dizer que as letras das suas músicas são melosas demais.
Arqueei uma sobrancelha e o vi rir de um jeito espontâneo.
— Eu posso aceitar isso, mas já que somos amigos e você é minha fã número um. — Revirei os olhos quando ele disse isso, mas ele continuou. — Vai precisar entender que sou dramático, intenso e apaixonado pela… vida.
Eu dei uma risada mais alta do que eu gostaria e percebi que ele me observava ainda com o mesmo sorrisinho esperto no rosto, aqueles olhos que faziam com que eu me apaixonasse sem conversar com ele ainda estavam atentos e na minha cabeça adolescente eram tão intensos que me faziam corar mesmo sem querer.
— Certo, agora que somos amigos, precisamos voltar a nos concentrar. — Disse voltando a pegar qualquer livro que me tirasse daquele incômodo de borboletas que voavam descontroladas no meu estômago.
— Decidimos então escolher Isabel Allende e García Márquez, vai ser difícil escolher um só capítulo, mas acho que conseguimos fazer isso encontrando aspectos culturais, sociais e claro o realismo mágico na história de ambos.
— Então só falta: escolher os capítulos. — Disse fazendo anotações, eu sempre funcionei melhor com listas. — Fazer um resumo desses aspectos que comentou, preparar um texto escrito da nossa análise, preparar uma sustentação oral de no máximo oito minutos e isso tudo de uma maneira criativa.
Um Senhor Muito Velho Com umas Asas Enormes? — Ele me perguntou e eu concordei.
Cinco minutos depois já tínhamos escolhido os dois contos. Como boa fã de Isabel Allende escolhi A Casa dos Espíritos e já fazia o resumo de partes do livro que lembrava enquanto parecia concentrado demais e apontava frases importantes do livro.
Nem percebemos quando Pedro e Sofia voltaram, minha amiga estava com o batom borrado, eles riam de alguma piada interna, com as mãos ocupadas de sacos de salgadinhos e refrigerantes.
— Olha só, vocês trabalham mesmo. — Pedro comentou com um tom brincalhão na voz.
Meu olhar se estreitou.
— Pois é, os bonitos sumiram por… uma hora. — Olhei no relógio, indignada com a falta de comprometimento do meu irmão.
Sofia não disse nada, apenas me lançou um sorriso aberto demais como se quisesse se declarar pelo meu irmão naquele instante. Eles eram insuportáveis, grudentos e ainda nem estavam assumidos. Argh!
— A gente sobreviveu sem vocês. — disse e piscou discretamente, pelo menos eu achei que ele tinha sido discreto, mas mais tarde Sofia faria questão de me encher de perguntas sobre esse simples gesto. — Já organizamos tudo e agora só falta escrever.
— Ou seja, a parte mais chata. — Sofia suspirou, entediada.
Minha amiga nunca gostou de literatura clássica, ela era mais adepta de livros de fantasia em que uma adolescente de 17 anos salvava o mundo enquanto descobria o amor da sua vida.
— Já vi que já têm tudo organizado, vamos então falar de uma coisa importante: a viagem de estudos para Villa de Leyva. — Sofia disse animada, largando os sacos de salgadinho na mesa em cima dos livros.
Se eu pudesse escolher não falaria mais daquele assunto.
Aquela viagem era tudo o que eu não queria na minha vida e até ali tinha fugido bem de acampamentos, visitas de estudos e dormir fora de casa por mais de um dia, tudo por causa de um trauma quando eu ainda morava no Brasil.
Quando ainda tinha sete anos, minha mãe teve a brilhante ideia de mandar eu e meu irmão para um acampamento de férias cheio de criança da minha idade no interior do Rio de Janeiro, naquela época eu não era tão tímida e tinha medo de socializar… até eu ser picada por uma abelha e descobrir uma alergia quando fiquei com o rosto todo inchado divertindo os colegas que passavam pela enfermaria rindo de mim enquanto eu escondia meu rosto inchado com os braços chorando de soluçar. <
— Você vai né, ? — Disse como alguém que já esperava um sim.
Eu travei sem saber o que responder, desviando meu olhar para a janela manchada e pra chuva do lado de fora. Por um lado, não queria decepcionar Sofia que só pensava nessa viagem, por outro lado eu queria ter uma boa desculpa para não ir como um compromisso inadiável em Plutão.
— É claro que ela vai. — Pedro se intrometeu na conversa.
— Eu não sei. — Comecei hesitante, tentando evitar o contato visual. — Não me sinto confortável em viagens em grupo, além do mais não conheço tanta gente assim e…
— Não é como se fosse opcional. — Foi a vez de dizer. — Vai contar como atividade complementar e vai ser legal.
O encarei e não parecia ter pressão.
Eu não queria ser a garota que queria ir só por causa de um garoto, mas… eu fui essa garota sem qualquer dignidade de tentar disfarçar. Eu disse sim no momento em que olhei para o jeito relaxado que ele estava sentado como se não tivesse cobrança nenhuma.
— Tudo bem. — Me dou por vencida e três pares de olhos pareciam felizes. — Mas podemos nos concentrar no trabalho, porque tudo o que eu quero é tirar uma boa nota em literatura.
riu baixinho quando Sofia começou a comemorar de maneira exagerada. Não contive meu próprio sorriso também, talvez não fosse o fim do mundo. E talvez, só talvez eu tenha me sentido mais confiante por causa do meu novo amigo.






Bogotá, Colombia 2011

Eu já tinha 17 anos e nunca tinha beijado ninguém.
Apesar de continuar a escrever grandes cenas de declarações de amor, casais que se descobrem apaixonados um pelo outro depois de passar anos negando o que sentiam eu ainda não tinha nenhuma experiência real. Nada. Eu não sabia que aquilo iria mudar em bem pouco tempo e de um jeito super dramático.
Como parte das atividades extracurriculares da escola eu precisei encontrar alguma coisa que eu fosse minimamente boa, então eu escolhi o teatro, não como atriz, porque eu ainda era tímida o suficiente para saber que eu nunca falaria em público com tanta destreza, mas descobri que escrever, adaptar roteiros para plateias de adolescentes me divertia. A peça daquele semestre era baseada em Orgulho e Preconceito da Jane Austen, era um enemies to lovers perfeito para fechar o semestre.
Claro que a protagonista da peça de teatro era Valéria com seus cabelos loiros e longos, sem espinhas no rosto e extrovertida o suficiente para encantar toda uma plateia. Rodrigo era o Darcy colombiano perfeito também, com aquele sorriso branco e bonito demais para alguém que era bom no futebol e nas artes do tipo que parecesse existir só em filmes. Rodrigo era o tipo de menino inalcançável com apenas 17 anos. Ele era simpático com todo mundo, sorridente, e o tipo que fazia todos prestarem atenção nele mesmo sem querer.
E então tínhamos o par perfeito para atrair o maior público já visto para uma peça de teatro escolar. Só que era a minha vida, né? Estava atrás do palco ajudando com os figurinos quando alguém entrou esbaforido com a frase que mudaria minha vida adolescente:
— A Valéria está com uma crise alérgica depois de comer um lanche suspeito na cantina.
A voz era de pânico e de repente todo mudo parou um segundo para se concentrar em… nada.
, você… você vai entrar no lugar da Valéria. — A professora de teatro disse como se fosse a coisa mais natural do mundo.
Eu congelei.
— O quê? Não! — Eu entrei em pânico e acho que cheguei a gritar. — Tem outras meninas, a… a… —
Tentei pensar em alguém, mas não consegui.
— Você escreveu as falas. Decorou o texto, ajudou nos ensaios. — Ela pontuava decidida. — Você vai ser a nossa Lizzie.
Eu queria chorar, fugir, me esconder dentro de um armário, tudo ao mesmo tempo, mas todos me olhavam com expectativa que eu tinha certeza de que não conseguiria cumprir. Meus colegas, professores, a iluminação e Rodrigo esperavam que eu respondesse alguma coisa, mas eu não conseguia.
— Vai dar certo, , fica tranquila. — Rodrigo disse com a voz suave. — Eu vou te ajudar.
Eu engoli seco.
Sem chance de recusar, não deu tempo de dar uma resposta, de repente me vi sendo levada para outra sala para colocar um vestido rosa, com tules demais e flores bordadas no decote discreto. Uma colega que eu nem sabia o nome direito me ajudou com a maquiagem e me ajudou a não exagerar no blush e passou um gloss com gosto de morango. Meu coração batia tão rápido que eu mal percebi o momento em que fiquei pronta para entrar no palco.
A peça inteira passou como um borrão na minha cabeça, fiz as primeiras cenas ainda travada, mas Rodrigo me direcionava sorrisos discretos entre uma cena e outra, ele também apertava minha mão quando ninguém podia nos ver e acho que era o jeito dele dizer que ia ficar tudo bem.
Mas então chegou o momento. A última cena.
O beijo final entre os dois protagonistas que juravam se odiar.
— Eu nem sabia que podia querer alguém assim. — Rodrigo disse calmo, sem sorrir, do jeito que o personagem queria e do mesmo jeito que ensaiou tantas vezes.
— Não sabe o quanto eu esperei por esse momento. — Minha voz saiu mais trêmula do que eu esperava.
Ele se aproximou lentamente e percebendo que eu não me movia um centímetro sequer ele sorriu, quase cúmplice e me puxou para um beijo suave e teatral. Ele só encostou seus lábios nos meus de um jeito terno demais, como se só existíssemos nós dois naquele momento.
E foi ali.
No meio do palco, com as luzes quentes sobre nós, com mais pessoas do que imaginei que aconteceu o meu primeiro beijo, o primeiro encostar de lábios com um menino. E foi com Rodrigo.
Então quando as cortinas se fecharam eu mal conseguia ouvir os aplausos do público. Meu coração batia rápido e minhas pernas estavam bambas, meus ouvidos zumbiam e minha cabeça parecia mais leve. Alguém me abraçou de lado e acho que era Mariana, a figurinista, mas nem consegui retribuir direito.
Rodrigo estava ao meu lado com o sorriso de sempre no rosto, como se não tivesse me beijado na frente da escola inteira, ou pior como se me beijar na frente da escola inteira fosse natural.
— Você foi ótima. — Ele disse de um jeito calmo e relaxado.
— Eu… obrigada.
Foi tudo o que consegui dizer antes da professora de teatro puxar todo mundo para uma foto com todos do elenco.

xx

Dias depois, o cheiro de salgadinho e produtos de limpeza fortes demais se espalhava pelo ônibus abafado de viagem escolar. A janela ao meu lado estava embaçada e o vidro vibrava por cada buraco que o ônibus passava e os bancos tremiam.
Sofia cochilava no ombro de Pedro no banco da frente, desde que assumiram o namoro não se desgrudaram mais, o que era fofo e irritante na mesma medida. Do meu lado estava , que escutava alguma música no fone de ouvido, mantendo um dos lados soltos como se me convidasse.
— Acho que vai gostar dessa. — ele estendeu um dos lados do fone.
Peguei o fone e tocava Dreams do The Cranberries, a voz de Dolores O’Riordan era suave, forte ao mesmo tempo que era melancólica e melódica enquanto cantava sobre estar apaixonada e a vida que mudava de repente. Desde que nos tornamos amigos, tínhamos o costume de apresentar músicas e livros um para o outro, o que nos fazia ter assuntos quase intermináveis cada vez que os ensaios da banda se atrasavam, ou quando nos encontrávamos nos corredores da minha casa.
— É boa. — Eu disse deixando que a letra me levasse para algum lugar fora dali. — Gosto da voz dela.
— Parece com você. — Ele disse baixo como se não fosse nada.
— Comigo? Por quê?
— É bonita e inesperada como um dia de outono… — Ele disse com tanta naturalidade que eu não soube como responder.
Não era justo ele me dizer aquelas coisas com tanta naturalidade. Eu tinha dito para mim mesma que precisava parar de alimentar sentimentos românticos por desde que ele tinha começado a se envolver com Maca, a intercambista espanhola que respirava arte e esportes. Os dois tinham ficado juntos depois de uma das apresentações da banda dele, e apesar de não parecer tão sério esse quase-relacionamento tinha feito com que eu me colocasse no meu lugar, o de amiga ocasional e confiável que indicava bons livros e recebia indicações de músicas de volta, mas quando ele dizia coisas assim ficava difícil para o meu coração estúpido não bater tão rápido como se eu tivesse corrido uma maratona.
— Nem verão, nem primavera, outono?
Ele sorriu, um dos seus sorrisos bonitos que deixavam seu olho mais verde, o que me fez rapidamente desviar o olhar para o ambiente em volta. Sofia ainda dormia, enquanto meu irmão olhava a paisagem passar. Outros colegas estavam cantando e o motorista junto com a professora de teatro diziam a todo momento para ninguém se levantar dos lugares, mas ninguém realmente obedecia. Alguns bancos mais para trás estavam com um grupinho de alunos que jogava um jogo de cartas enquanto outro grupo sequestrava o microfone do motorista para começar a cantar Shakira dos anos 90. O professor de educação física estava alheio a toda confusão com um fone de ouvido e um livro pela metade.
— E você, qual seria sua estação? — Perguntei depois de algum tempo em silêncio.
Voltei a encará-lo.
— Acho que seria… inverno, talvez. — ele disse ainda me olhando. — Frio à primeira vista, mas acho que sou legal quando você se acostuma.
Eu sorri para ele porque, de um jeito meio torto, aquela definição dele fazia algum sentido. Nos encaramos por alguns segundos até que fomos interrompidos por Rodrigo batendo levemente no ombro de .
, troca comigo?
A voz de Rodrigo era calma e quase descontraída e tinha um subtexto só dele. Ele estava em pé com a mochila em um dos ombros. Desde o nosso beijo cênico eu vinha fugindo dele, muitas vezes evitando contato visual o que era bem difícil, pois ele chamava atenção em qualquer lugar com sua altura, corpo atlético que ele não fazia questão de esconder nas aulas de educação física e a mandíbula bem marcada.
— Por quê? — perguntou um pouco confuso.
— Preciso falar com a e a Maca meio que precisa de você. — Ele piscou com o sorrisinho simpático que ele distribuía para quem quisesse ver.
me olhou por alguns instantes e eu vi aquele olhar. O mesmo de antes, o mesmo que me analisou sem medo quando nos tornamos amigos, depois ele pegou sua mochila e cedeu o lugar sem protestar.
Rodrigo se sentou ao meu lado e eu tentou conter meu estômago. Ele parecia tão relaxado e a vontade que eu quase fiquei também.
— Tudo bem? — Ele me perguntou enquanto me oferecia um snack de batata que ele tirou da mochila.
— Uhum. — Murmurei, aceitando batatas por educação e não por fome.
Ele esticou as pernas no pequeno espaço entre o nosso banco e o banco da frente completamente à vontade e relaxado, o que era mesmo estranho dentro daquele ônibus que sacolejava a cada mínimo movimento. Eu, num verdadeiro oposto, estava tensa, atenta a qualquer mínimo movimento do meu corpo e do dele com medo de que qualquer coisa pudesse me entregar.
— Você parece tensa demais, parece até que vai apresentar outra peça. — Ele disse enquanto me analisava. — Relaxa, não vou te beijar de novo.
O olhei com surpresa por conta das palavras que ele disse de um jeito tão natural. Enquanto eu queria esquecer, ele não se importava em lembrar e ainda achava graça por isso e isso era perigoso para uma menina com 17 anos e muitos hormônios, coração vulnerável e imaginação fértil.
— Muito engraçado. — Eu disse rindo e ele me acompanhou. — Eu nunca mais quero subir em um palco. — Confessei.
— Mas você foi ótima. — Ele retrucou. — A grande heroína do final de semana.
— Não, da próxima vez eu prefiro ficar nos bastidores, escrevendo roteiros e assistindo aos ensaios. — Revirei os olhos.
Ele me ofereceu mais batatinhas e eu aceitei. Olhei ao redor e vi a professora de teatro tentando recuperar o microfone do motorista que foi roubado por um aluno do terceiro ano que imitava a Shakira cantando Ojos Así. Um caos que ainda não tinha feito o professor de Educação Física se movimentar. Voltei a atenção para Rodrigo que me encarava, com interesse, talvez.
— Eu ainda acho que seria uma ótima atriz, mas eu respeito o trabalho dos bastidores também, aliás, eu gostei muito da sua adaptação.
— Sério? Você leu o livro original para me dizer isso? — Perguntei, arqueando a sobrancelha.
— Não, mas eu gostei do seu texto. — Ele sorriu. — E eu ouvi tantas vezes você falar sobre o texto original que… acho que já sei o suficiente.
Rodrigo riu quando meu rosto esquentou, aquela risada solta e fácil que escutei algumas vezes direcionada para outras pessoas.
— Obrigada. — Disse. — Mas pro próximo semestre acho bom vocês escolherem um texto mais fácil.
— Vai depender da Valéria. — Ele torceu o cenho.
Valéria. A verdadeira dona do grupo de teatro e quem escolhia os livros que seriam adaptados, e os figurinos. Todo semestre era ela quem escolhia. No geral não eram escolhas ruins, mas era sempre alguma história que daria protagonismo para ela, pois é claro que ela sempre seria a protagonista.
— Por que vocês sempre a ouvem? Por que ela tem tanta influência?
— Eu acho que nós temos um pouco de medo de desafiar a Valéria. — Ele se aproximou e disse em um tom mais baixo como se estivesse confessando algo. — Mas acho que a maioria não se importa muito.
— E você faz parte de qual grupo? — Eu perguntei, sentindo que ele estava perto demais. De novo.
— Eu faço parte do grupo que só quer fazer um bom trabalho e me tornar ator profissional. — Ele deu de ombros.
Eu assenti já imaginando que ele um dia seria realmente um bom ator, minha mente fértil conseguia imaginá-lo sendo um grande astro de Hollywood e conquistando fãs pelo mundo pelo seu talento e sorriso fácil.
— Então eu vou torcer por você seja um grande ator, Rodrigo. — Murmurei.
Voltei a reparar a paisagem do lado de fora enquanto escutava o professor de Educação Física finalmente se levantar e dizer que em quinze minutos faríamos uma parada para lanche e banheiro. Enquanto ele falava, meu olhar se distraiu em e Maca que estavam carinhosos demais um com o outro, ele cochichava no ouvido dela que ria enquanto deitava no ombro dele.
Nojento. Horrível.
Voltei a olhar para a paisagem do lado de fora tentando me distrair do incômodo que aparecia de repente.




Continua...


Nota da autora: Essa é uma história baseada em uma bandinha colombiana que eu AMO chamada Morat.
Para todos aqueles que são apaixonadas pela América Latina e se sentem um pouco deslocados por não falarmos espanhol.

Se você encontrou algum erro de revisão ou codificação, entre em contato por aqui.

Não se esqueça de deixar um comentário para a autora!


Barra de Progresso de Leitura
0%